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80 ANOS DA APRS

Uma festa inesquecível JORNAL DA APRS Nº 9 | Dezembro de 2018

Homenagem a Jair Escobar Três anos de uma gestão marcante 93 anos do IPF


Expediente do Jornal – JA

JORNAL DA APRS

Esta é uma publicação da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul Av. Ipiranga, 5311/ 202 CEP 90610-001 | Porto Alegre | RS | Brasil Telefones (51) 3024.4846 | 98193.7387 www.aprs.org.br – aprs@aprs.org.br facebook – aprs.psiquiatria

DIRETORIA Gestão 2016/2018 PRESIDENTE

Flávio Shansis VICE-PRESIDENTE

Matias Strassburger DIRETORA DE NORMAS

Andréia Sandri

DIRETORA SECRETÁRIA ADJUNTA DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

Ana Cristina Tietzmann DIRETORA TESOUREIRA

Anahy Fagundes Dias Fonseca DIRETORA TESOUREIRA ADJUNTA

Fernanda Lia de Paula Ramos DIRETOR CIENTÍFICO

Luciano Rassier Isolan DIRETOR DE DIVULGAÇÃO

Eduardo Trachtenberg CONSELHO FISCAL – TITULARES

Eugenio Horacio Grevet Jair Escobar Neusa Knijnik Lucion

CONSELHO FISCAL – SUPLENTES

Cláudio Laks Eizirik Fernando Schneider Gisele Gus Manfro

CONSELHO EDITORIAL DO JORNAL 9ª edição | Dezembro 2018 EDITOR

Mário Tregnago Barcellos CORPO EDITORIAL

Elisa Lima Boéssio Mateus Reche DIRETOR DE DIVULGAÇÃO

Eduardo Trachtenberg JORNALISTA RESPONSÁVEL

Vitor Bley de Moraes – RP 5495 PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO

Marta Castilhos

SECRETARIA DA APRS Coordenadora administrativo-financeira

Ana Paula Sarmento Cruz administrativo@aprs.org.br Secretária sênior

Sandra Maria Schmaedecke – RP 1464 aprs@aprs.org.br Auxiliar de Secretariado

Nataniele Oliveira do Nascimento atendimento@aprs.org.br Os artigos assinados são de inteira responsabilidade dos signatários e não representam necessariamente a opinião institucional.

EDITORIAL

Mário Barcellos* Você, associado, recebe aqui a última edição do Jornal da APRS da Gestão 2016-2018. Nesse período, retomamos a produção de um jornal impresso de publicação semestral. Em todas as seis edições ao longo desses três anos, buscamos equilibrar informações institucionais e científicas, encurtando a distância entre a APRS e seus associados. Espero que tenhamos sido bem-sucedidos na tarefa. Os últimos anos foram marcados pela sensação de fazer parte de uma instituição extremamente viva e atualizada. A manutenção de marcas tradicionais veio acompanhada de um grande esforço para tornar a APRS uma entidade do seu tempo – como a possibilidade de participação em cursos à distância exemplifica. Na presente edição do Jornal, como uma espécie de retrospectiva, alguns colegas descrevem as vivências mais relevantes que tiveram durante a gestão. De minha parte, é claro que o Jornal da APRS tem que ser citado. Foi um grande prazer viver essa experiência. Gostaria de agradecer ao Flávio pelo convite para ser editor e pela confiança, e especialmente ao Dudu pela ajuda incansável e pela amizade leal, divertida e afetuosa de sempre. Preciso ainda citar os colegas da comissão editorial: Elisa, Mateus e Martina. Por fim, meu muito obrigado às sempre atenciosas, eficientes e queridas secretárias: Ana Paula e Sandra. Desejo todo o sucesso à próxima gestão, que certamente manterá o entusiasmo e o dinamismo que foram notados por todos nos últimos anos. Como a hora do encontro é também de despedida, bom, fica aqui meu grande abraço a todos. Boa leitura! * Médico psiquiatra, editor do Jornal da APRS

Sumário

Homenagem / Jair Escobar. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 Uma Gestão Marcada pela Inovação, Autossustentabilidade e Harmonia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 a 6 Suicídio entre Adolescentes é Preocupante. . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Os 80 Anos da APRS Reúne Várias Gerações da Psiquiatria em Festa Inesquecível. . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 e 9 Novo código civil foi tema central da Jornada de Psiquiatria Forense . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 A Farmacologia no Tratamento dos Transtornos Mentais. . . . . . 10 Núcleo de Sexualidade reúne-se às quartas-feiras. . . . . . . . 11 Curso de Neuropsiquiatria supera expectativas. . . . . . . . . . . 12 Atividade conjunta APRS-SPPA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Atividades do Departamento de Psiquiatria e Espiritualidade da APRS: III Simpósio Internacional de Espiritualidade na Prática Clínica . . . . . . . . . . . . . . . 14 e 15 Presidente da ABP prestigia atividades dos 80 anos da APRS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 e 17 Trends . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 Espaço do sócio / O IPF e seus 93 anos. . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 Drops. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 e 21 Síndromes Raras / Síndrome de Clèrambault. . . . . . . . . . . . . 22


HOMENAGEM

Para o Jair, com todo o amor que levo em mim

J

Dr. Mário Barcellos

air, fiquei te devendo uma despedida. Na última vez em que nos vimos, eu entrava e tu saías do nosso prédio e trocamos um oi.

Faltou o tchau. Ao nos conhecermos, cinco ou seis anos atrás, eu era bem diferente de quem sou hoje. Cada passo maior do meu crescimento foi acompanhado de perto por ti: estiveste no meu casamento com a Lívia, me ligaste horas depois do nascimento do João e, recentemente, foste um dos primeiros amigos a saber da nossa segunda gravidez. Além disso, também estavas ali enquanto os seminários da formação psicanalítica se sucediam, quando decidi sair do emprego e me dedicar somente ao consultório, e quando comecei a acompanhar o curso do CELG como parte do processo de ser professor. Cito momentos que foram tema de conversas e estímulos fundamentais e, portanto, tiveram tua participação direta. Mas, enfim, poderia aludir a tantos outros, pois pouco da minha trajetória recente deixou de se tornar assunto entre nós. Seria viável tentar te definir de muitas maneiras, Jair. Seria até justo fazer aqui uma lista das tuas conquistas e virtudes. Só que nada disso seria novidade para ti, e eu gostaria de poder te dizer algo que tu não tenhas sabido. Então o que me ocorre é falar que, por tua causa, mexi na minha vida. Sendo mais direto: organizei meus horários de consultório de forma a me permitir te encontrar o máximo possível. E não só isso: foram várias as vezes que atrasei o retorno ao trabalho, a ida à análise ou mesmo a volta para casa porque a conversa era boa demais para se encerrar. Como já cantou o Chico Buarque: eu ajeitava o meu caminho pra encostar no teu. Acho que é por ter me esforçado bastante para desfrutar da tua companhia que não sinto agora aquele amargor – companheiro frequente das

perdas – de que teria sido possível aproveitar mais. Sempre tive muito claro que o tempo contigo era precioso. É claro que tua perda dói. É claro que foste cedo demais. É claro que eu gostaria de seguir tendo o privilégio de conviver com teu bom humor, com tua sensibilidade e com tua capacidade de diálogo, moderação e convergência. Mas, ora, que bom ter vivido tudo isso enquanto foi possível! Falando em vida, isso é algo que sempre foi central em ti: a alegria e o prazer em viver. Depois da tua partida, vi muita gente dizendo que foste um lutador. Preciso te confessar que, de início, aquilo me incomodou. Até que me dei conta de que o conflito era semântico: o que alguns chamavam luta, para mim era vida. Nunca te vi lutando. Sempre te vi vivendo. Vivendo tua família – a Marília, os filhos e os netos. Vivendo a medicina, a psiquiatria e a psicanálise. Vivendo as instituições. Vivendo a política. E, acima de tudo, pelo menos no que diz respeito a nós, vivendo a amizade. E por essa amizade que entregaste de forma absolutamente aberta a alguém com a metade da tua idade quero te agradecer com todo o amor que levo em mim. Por fim, quero te dizer que, apesar de nós dois não acreditarmos muito nisso, se houver algum lugar depois dessa vida, que haja lá também um café como o nosso da Taquara. Onde tu possas pedir teu chá, eu possa pedir meu carioca e, então, possamos jogar conversa fora sem que a insensível passagem do tempo volte a nos interromper. Bom, Jair, essa é minha despedida. Posso ter exagerado na primeira pessoa, mas a forma mais profundamente íntima de homenagem que me ocorre é enredar minha história na tua. Quem sabe assim consigo te levar ainda mais junto de mim e sentir menos tua falta.  Um beijo!

Jair Rodrigues Escobar, psiquiatra e psicanalista, falecido no dia 18/09/2018, foi Presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul nos anos de 2002 e 2003. Era atualmente Membro Efetivo do Conselho Fiscal da APRS e Conselheiro do CREMERS. Foi Vice-Presidente da AMRIGS, Presidente do Conselho de Representantes e Diretor Científico e de Normas da entidade. Atuou também como Diretor da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, da Federação Brasileira de Psicanálise e do Centro de Estudos Luis Guedes, onde era Professor e Supervisor do Curso de Especialização em Psicoterapia de Orientação Analítica. E foi, acima de tudo, um grande amigo de seus amigos. 3


INSTITUCIONAL

Uma Gestão Marcada pela Inovação, Autossustentabilidade e Harmonia Ao término de 2018 e no final da atual gestão, o Presidente da APRS, dr. Flávio Milman Shansis, aponta uma série de inovações implementadas no último triênio, a começar pela escolha da diretoria, composta por quatro homens e quatro mulheres. Observa que, dos oito integrantes, apenas três haviam composto anteriormente um cargo diretivo. Acrescenta que um novo organograma foi implantado na instituição, com a criação de Departamentos, Núcleos, três Comitês e mais quatro Seccionais. Entre as novidades estão o Departamento de Psicogeriatria e a transformação do Núcleo de Psiquiatria e Espiritualidade em um Departamento. Também foi recriado o Núcleo de Sexualidade da APRS. Outras Inovações

T

ambém na atual administração, foram realizados quatro cursos, que envolveram um grande número de sócios. Shansis lembra ainda outro avanço extremamente importante: a decisão de não ter vínculo com a indústria farmacêutica. “Tivemos uma gestão autossustentável. A instituição está sendo mantida com os recursos oriundos da contribuição dos sócios”, comemora. Na área administrativa, Shansis informa que, diante da demanda, no decorrer dos três anos de sua gestão foram realizadas alternadamente quatro contratações de estagiários nas áreas de comunicação e administração, encerrando 2018 com a efetiva-

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ção de um deles. Em termos de comunicação, o Jornal da APRS voltou a ser impresso e distribuído gratuitamente aos sócios. A Revista Trends, com publicações científicas, passou a receber incentivo da CAPES e está disponível por meio digital. Outro detalhe citado por Shansis: a APRS também está com maior inserção nas redes sociais através do Facebook, Instagram e WhatsApp.

Finanças Através de uma reformulação no sistema de cobrança, foi possível reduzir a inadimplência


em 50%. Atualmente, a APRS conta com 1096 sócios, sendo que, destes, 52% são mulheres e 48%, homens. Shansis acrescenta: “Tivemos, através da Secretária-Adjunta do Exercício Profissional, uma inserção e representação muito forte junto a vários órgãos públicos, ao SIMERS e à AMRIGS, tanto na defesa profissional quanto em campanhas, como a da prevenção ao suicídio. Ainda, nesta gestão foi aprovado o Estatuto da APRS”. Na área científica, foram realizados quatro grandes cursos e o congresso autossusten-

Confraternização “Para mim, o evento mais significativo nesses três últimos anos da APRS foi o Congresso Gaúcho em Bento Gonçalves, em 2017. O clima de confraternização foi predominante entre os participantes. Cientificamente, foi de muito aprendizado. Me marcaram algumas aulas de colegas de fora do RS, como do Dirceu Zorzetto, do Paraná, assim como de ex-professores meus, em especial do Marcelo Fleck e do Aristides Cordioli. Esse reaprendizado com pessoas que foram tão importantes na minha formação ‘não tem preço’. Foram importantes também os três Ciclo de Avanços, os Cursos de Psicofarmacologia de 2016 e 2018, o Curso de Psiquiatria Clínica em 2017, a festa de 80 anos... Houve várias outras atividades ao longo desse período. Lembro de um evento científico da APRS Seccional Serra, em Caxias, no ano de 2016, em que eu e o Flávio Shansis fomos no meu carro, sábado bem cedo de manhã, e voltamos ao final do dia, com direito a trocarmos um pneu furado na estrada... [risos]. Foi também uma oportunidade para conhecer os colegas de Caxias e Bento e com eles confraternizar em uma bela galeteria.”

Dr. Eduardo Trachtenberg Diretor de Divulgação

tável realizado em Bento Gonçalves – um evento inovador alicerçado nos sete pilares propostos no início da gestão: cientificamente de excelência, localmente inserido, socialmente inclusivo, ambientalmente sustentável, culturalmente atrativo, financeiramente viável e clinicamente relevante. Em relação às atividades científicas, deve-se ressaltar o importante passo no sentido da interiorização: vários eventos ocorreram nas diversas seccionais. O XIV Congresso Gaúcho de Psiquiatria foi realizado – como anteriormente dito – em Bento Gonçalves, e o 31º Ciclo de Avanços em Clínica Psiquiátrica, em Novo Hamburgo. É interessante frisar também o aumento significativo na participação dos associados, com a contratação de uma empresa visando à modernização dos cursos na modalidade EAD, o que foi amplamente elogiado pelos usuários. Outra inovação importante foi a divulgação das atividades oferecidas aos associados durante a semana na APRS em forma de “varal”.

Projetos de Outras Gestões Em relação às gestões anteriores, Shansis declara que todos os bons projetos foram mantidos. Um exemplo é o forte investimento na Revista Trends, que, na sua longa existência, vem prestando um enorme serviço, com importantes publicações científicas. Cita ainda a manutenção e o incentivo ao Núcleo de Psiquiatras em Formação, que tem 30 anos de existência. Além disso, destaca que “preservamos as nossas missões e os nossos valores, que sempre têm marcado as gestões da APRS”. Lembra também que foi mantido o Ciclo de Avanços, o qual continua sendo anual, e que as atividades científicas se mantiveram centradas nos departamentos e núcleos.

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Futuro O que é possível ser colhido do que foi plantado? A essa pergunta o Presidente Flávio Shansis responde: “Uma entidade que cresceu em número de associados, que conquistou a autossustentabilidade financeira, que vive um clima associativo forte e que através dos cursos EAD se expandiu, ultrapassando os próprios limites, deixa um legado importante para o futuro da APRS”.

1096 Associados 55 Municípios

Alegrete 3 Arroio do Meio 5

6

Augusto Pestana 1

Garibaldi 1

São Borja 1

Bagé 1

Gramado 2

São Grabriel 1

Bento Gonçalces 11

Gravataí 1

São João da Urtiga 1

Cachoeira do Sul 1

Guaiba 1

São Leopoldo 4

Canoas 8

Ijuí 10

São Lourenço do Sul 3

Capão da Canoa 1

Igrejinha 2

Sapucaia do Sul 1

Caxias do Sul 19

Lageado 2

Tenente Portela 1

Cruz Alta 1

Marcelino Ramos 1

Porto Alegre 878

Teutônia 1

Encantado 2

Montenegro 1

Rio Grande 6

Tramandaí 2

Erechim 6

Nova Petrópolis 1

Rio Pardo 1

Torres 1

Esteio 1

Nova Prata 2

Santa Cruz do Sul 10

Uruguaiana 4

Estrela 1

Novo Hamburgo 10

Santa Maria 44

Venâncio Aires 3

Farroupilha 1

Palmares do Sul 1

Santa Rosa 3

Veranópolis 2

Flores da Cunha 1

Passo Fundo 9

Santana do Livramento 1

Viamão 1

Frederico Westphalen 1

Pelotas 14

Santo Ângelo 2

Xangrilá 1


Suicídio entre Adolescentes é Preocupante Dra. Berenice Rheinheimer

D

urante a campanha de prevenção do Se-

pressão e esquizofrenia. Estes fatores podem es-

tembro Amarelo, a Associação de Psi-

tar associados a outros e ser potencializados pela

quiatria do Rio Grande do Sul realizou

utilização de drogas.

uma série de atividades para tratar do tema. Sob coordenação da dra. Berenice Rheinheimer,

Ela alerta para que os pais estejam sempre atentos

Coordenadora do Comitê de Prevenção do Sui-

a sinais de mudança comportamental nas crian-

cídio, foi realizado na AMRIGS um evento pres-

ças e adolescentes, como queda no rendimento

tigiado por centenas de profissionais da área da

escolar, irritabilidade excessiva, tristeza e depres-

saúde. A ênfase foi o suicídio entre crianças e adolescentes. Dra. Berenice explicou que, no Brasil, o suicídio é a terceira causa de morte entre adolescentes, ficando atrás apenas dos homicídios e dos acidentes de trânsito, e correspondendo a cinco mortes a cada 100 mil habitantes. O Estado ocupa a 8ª

são. Esses sintomas não podem

A cada 45 minutos, uma pessoa comete suicídio no Brasil

ser ignorados, e um médico deve ser consultado para o diagnóstico e o tratamento adequados. Em relação à influência das novas tecnologias, dra. Berenice informa que existe uma discussão sobre a possibilidade desse tipo de contágio pela Internet, mas que no momento não há

colocação no grupo adolescente.

nenhuma comprovação. Obser-

As mortes por suicídio preocu-

va que as tentativas de suicídio

pam e podem ser evitadas. Não estão associadas

não entram para as estatísticas. Informa ainda

a idade ou classe social. A médica destaca que,

que, entre adultos e idosos, os gaúchos apresen-

embora sem confirmação científica, há alguns in-

tam a maior taxa de mortes por suicídio.

dícios das possíveis razões para que o Rio Grande do Sul ocupe esta posição. São elas: o inverno

O Setembro Amarelo é uma campanha brasilei-

mais prolongado na região, a colonização alemã,

ra de prevenção ao suicídio iniciada em 2015. É

onde as pessoas tendem a ser mais exigentes, e

uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida

a utilização de agrotóxicos nas lavouras. Dra. Be-

(CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e

renice enfatiza que se trata apenas de hipóteses,

da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). No

pois as causas preponderantes são provenientes

Rio Grande do Sul, a APRS começou as ativida-

de doenças mentais preexistentes, tais como de-

des em 2016.

Precisamos falar sobre suicídio 7


Os 80 Anos da APRS Reúne Várias Gerações da Psiquiatria em Festa Inesquecível O Salão Bavária da Sociedade Germânia esteve repleto de alegria e energia na noite do dia 27 de outubro, quando foram comemorados os 80 anos da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Cerca de 250 colegas brindaram essa data marcante.

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O

Presidente da APRS, dr. Flávio Shansis, logo após o jantar, anunciou que não haveria discursos, mas convidou os membros da diretoria atual, a Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Carmita Abdo, a comissão organizadora da festa e todos os ex-presidentes ou representantes para um grande brinde. “São 80 anos de história e 28 gestões da psiquiatria, desde a fundação, em 28 de novembro de 1938, quando ainda era Sociedade de Neuropsiquiatria, sendo que, a partir de 1974, passou a ser Associação de Psiquiatria”, lembrou Shansis.

Uma síntese do significado da APRS Dezoito ex-presidentes ou representados da APRS estiveram no jantar festivo. O mais an-


tigo presidente presente no evento, dr. Isaac Pechansky, que ajudou a cortar o bolo comemorativo, disse que se sentia muito feliz em participar da festa e, que para sua alegria, desde 1967, quando presidiu a instituição, percebe que todos os presidentes têm contribuído para o crescimento da APRS. O Presidente da AMRIGS, Alfredo Cantalice, apontou uma coincidência como forma de mostrar a identificação com a APRS: no dia dos festejos dos 80 anos, a Associação Médica estava completando 67 anos. Disse que a APRS é uma grande parceira não só pelo número de sócios, mas pelo que representa. A primeira mulher eleita para presidir a APRS foi a dra. Neusa Knijnik Lucion, no ano de 2000. Ela destacou que seu nome surgiu de um movimento espontâneo dos colegas sócios. Observou que a Associação é formada por amigos e parceiros, que acolhem bem os novos e antigos parceiros, o que a torna a casa de todos os psiquiatras. A diretora do SIMERS, dra. Clarissa Bassin, disse que a APRS tem uma importante história de vitórias, pois sempre esteve atuando em defesa da psiquiatria, tornando-a reconhecida até mesmo no exterior e que, por isso, o sindicato sentia-se honrado em participar da celebração. Para o presidente da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, Zelig Libermann, os laços que unem as duas instituições não se resumem às questões científicas. Existe uma interface que busca sempre o bem-estar dos pacientes, e por isso são realizadas várias atividades conjuntas. A SPPA completou 55 anos em 2018. A Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Carmita Abdo, esbanjou simpatia. Disse que em Porto Alegre se sentia em casa. Destacou o trabalho da APRS, que vem sendo uma referência não apenas no Brasil, mas também no exterior, com grandes contribuições à psiquiatria. 9


Novo código civil foi tema central da Jornada de Psiquiatria Forense Dr. Paulo Oscar Teitelbaum

N

o final de setembro, a Jornada de Atualização de Psiquiatria Forense reuniu, na sede da AMRIGS, em Porto Alegre, 67 profissionais inscritos e uma presença significativa de não sócios da APRS. O evento destinado a psiquiatras ofereceu elementos de atualização e ferramentas de trabalho. Segundo o coordenador do encontro, dr. Paulo Oscar Teitelbaum, foi uma oportunidade de colegas experientes compartilharem os seus conhecimentos. Foram abordados temas como Perícias de Avaliação da Capacidade Civil, que tratou, principalmente, das questões decorrentes do Novo Código Civil, ministrado pelo dr. Fischer. Também foram esclarecidos itens relativos a Perícias de Avaliação Psiquiátrica por Abuso, Negligência e Maus Tratos na Infância. O tema Perícias do Agressor Sexual foi ministrado pelo dr. Teitelbaum, enquanto os doutores Jaques Zimmermann e Guilherme Starosta falaram sobre Perícias Trabalhistas em Psiquiatria. Teitelbaum informa que as propostas para explanação durante a jornada foram reunidas pelo Departamento da Equipe de Psiquiatria Forense. Afirma que a presença de muitos jovens e a intensa participação do público, com perguntas e intervenção nos debates, oportunizaram uma enriquecedora troca de experiências. O evento também pode ser acompanhado pela Internet.

A Farmacologia no Tratamento dos Transtornos Mentais Dr. José Caetano Dell Aglio Junior

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om o objetivo de reunir colegas para debater tópicos avançados em psicofarmacologia, a APRS vem promovendo dois encontros mensais. Na oportunidade, os profissionais discutem questões da psiquiatria do dia a dia através de uma linguagem de fácil compreensão. Em agosto, 50 médicos estiveram participando presencialmente do Curso Tópicos Avançados em Psicofarmacologia, na AMRIGS, e outros 70 participaram do evento à distância. Segundo o coordenador do curso, dr. José Caetano Dell’ Aglio, um dos temas tratados foi “de que forma evitar o erro nas prescrições de medicamentos”. Ele destaca que os atuais medicamentos também são mais eficazes e não têm os efeitos adversos penosos de antigamen10

te. O dr. José Caetano observa que os transtornos psiquiátricos são tratáveis e, quanto mais cedo o diagnóstico, melhores os resultados. Ele ressalta que os pacientes que não procuram ajuda, além da incapacidade de produção, com prejuízos à sua funcionalidade, ainda entram para o grupo de risco de suicídio. Por isso, alerta sobre a necessidade de os familiares ficarem atentos ao comportamento das pessoas. Irritabilidade e tristeza excessivas são alguns sinais que merecem atenção e que necessitam de intervenção. Outro ponto destacado por Dell’ Aglio é a questão da hereditariedade nos casos de depressão. Ele indica um tratamento preventivo aos filhos de pacientes com esse diagnóstico: “Quanto mais cedo, melhor”.


Núcleo de Sexualidade reúne-se às quartas-feiras Dra. Maria Inês Lobato

A

Coordenadora do Núcleo Sexualidade da APRS e do Programa Transdisciplinar de Identidade de Gênero (PROTIG), dra. Maria Inês Rodrigues Lobato, convida os profissionais da área da psiquiatria a participar do grupo, que se reúne às quartas-feiras, às 14h30, na sala 400 N do Departamento de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Os interessados devem enviar e-mail confirmando o comparecimento. O objetivo é ampliar os estudos e pesquisas na área da sexualidade humana, entre elas a disforia de gênero (APA-2013) e outros comportamentos sexuais variantes. Maria Inês informa que desde a sua criação, em 1998, o PROTIG já avaliou mais de 800 indivíduos e realizou 240 cirurgias de afirmação de gênero, em indivíduos tanto masculinos como femininos que tinham diagnóstico de disforia de gênero. O programa também pretende ampliar os estudos e atendimento voltados a crianças e adolescentes.

Protig 20 Anos O PROTIG vem sendo um centro de referência brasileiro e latino-americano, tanto em assistência como em pesquisa. É um núcleo de treinamento de profissionais e de estágio da residência médica em Psiquiatria do HCPA e dos alunos do Programa de Pós-graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento – FAMED/UFRGS. A atividade teve início em 1998, liderada pelo prof. Walter Koff, da Urologia (FAMED-UFRGS), e estimulada pelo prof. Sidnei Schestatsky, da Psiquiatria (FAMED-UFRGS). Primeiramente chamado de Programa de Atendimento de Transtorno de Identidade de Gênero (PROTIG), mais tarde foi rebatizado de Programa de Identidade de Gênero. Maria Inês adianta que entre

as atividades previstas para 2019 está a presença em Porto Alegre do prof. James Cantor, sexólogo e pesquisador na Toronto University, que abordará comportamento parafílicos e hipersexualidade.

Pluralista “O XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria foi uma atividade que congregou mais de 600 colegas que participaram de uma programação científica, social e cultural intensa e diversificada em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Conseguimos contemplar temas atuais e instigantes envolvendo a psiquiatria clínica, as psicoterapias, as neurociências e a pesquisa. Assim, mantivemos a tradição da psiquiatria gaúcha de organizar eventos com um elevado padrão científico. Foi com muita honra e agradecimentos que terminamos o Congresso, com uma sensação de dever cumprido e por termos realizado uma atividade que foi cientificamente abrangente e pluralista, socialmente inclusiva, ecologicamente sustentável, associativamente integradora, localmente inserida e financeiramente viável. Ter participado da organização de um evento tão relevante em nosso meio foi uma imensa responsabilidade e um desafio do qual muito me orgulho. Ao chegarmos ao final da gestão 2016/2018 da APRS, desejo expressar o meu mais profundo agradecimento a todos os associados que participaram do Congresso e das diversas atividades científicas que foram desenvolvidas ao longo desse período. E que venha o próximo Congresso da APRS!”

Dr. Luciano Rassier Isolan Diretor Científico

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Curso de Neuropsiquiatria supera expectativas Dr. Augusto Bittencourt

Independência “Nesses últimos três anos, há fatos relevantes a destacar, como não depender da indústria farmacêutica. Também é importante dizer que nesta gestão houve ainda mais pluralidade para a escolha de temas da psiquiatria e em geral, que serviram para definir a organização das atividades. Outro fato relevante foi a criação das seccionais do interior. Não dá para deixar de citar o Congresso de Bento Gonçalves, com enfoque na sustentabilidade e na questão das minorias, junto com uma agenda científica forte e com grande participação. Ainda a celebrar são o aumento do número de sócios e a agenda com inúmeras atividades científicas.”

Dr. Matias Strassburger Vice-presidente da APRS 12

C

om o objetivo de atender a uma demanda crescente, a APRS realizou, nos dias 17 e 18 de agosto, o I Curso de Neuropsiquiatria. O Coordenador do Núcleo de Psiquiatras em Formação, dr. Augusto Bittencourt, observa que inicialmente a atividade visava atender aos residentes, mas que entre os participantes estavam profissionais experientes, tanto de forma presencial como através do EAD. Destaca que existe uma interface muito grande entre a psiquiatria e a neurologia, tornando os temas atraentes. Acrescenta que o sucesso também se deveu à qualidade dos profissionais que ministraram o curso, que será realizado anualmente. Estiveram em pauta, entre outros temas, os estudos que envolvem doenças como Alzheimer, Parkinson e psicoses de causas orgânicas. Bittencourt salienta que é necessário intensificar as pesquisas nessas áreas, principalmente em virtude do envelhecimento da população. Diz que, embora ainda não haja cura para algumas enfermidades, é importante um diagnóstico precoce para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e familiares.


Atividade conjunta APRS-SPPA Dr. Matias Strassburger A parceria de longa data entre a Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul e a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, desde sempre caracterizada por atividades científicas e supervisões conjuntas, teve um novo momento de estímulo com a apresentação do vídeo do analista francês René Roussillon, apresentado no Congresso Gaúcho de Psiquiatria do último ano, intitulado “A destrutividade nas estruturas não neuróticas na clínica psicanalítica contemporânea”.

A

gravação deste vídeo já contou com a nossa parceria com a SPPA, na pessoa da psicóloga Luciane Falcão e do dr. Luciano Isolan.

A nova apresentação, prestigiada por um grande número de colegas de ambas as sociedades, deu-se na sede da SPPA e foi aberta pelo dr. Zelig Libermann (Presidente da SPPA), dr. Matias Strassburger (Vice-Presidente da APRS) e dr. Luciano Isolan (Diretor Cientifico da APRS), que en-

fatizaram a importância desta parceria e o desejo de seguir este fértil trabalho conjunto. A mesa foi coordenada pela psicóloga Luciane Falcão e contou com os comentários da psicóloga Marli Bergel (SPPA) e da dra. Maria da Graça Motta (APRS). Após o vídeo ser assistido pela plateia, seguiram-se os comentários. Marli Bergel valorizou a integração de vários autores psicanalíticos (Freud, Winnicott e André Green) feita pelo psicanalista francês, além de ressaltar a importância relatada por ele da necessidade dos cuidados maternos praticados de forma prazerosa desde a mais tenra idade da criança, possibilitando uma boa estruturação do seu narcisismo primário. Quando este cuidado falha, sobrevém uma destrutividade que se volta não somente ao mundo externo, mas também ao mundo interno da criança. Maria da Graça apresentou uma visão baseada na neurociência, enfatizando os déficits de formação das memórias em função de aspectos traumáticos causados pelo insuficiente cuidado afetivo materno, ocasionando também um déficit identitário. Em seguida, foi aberta a participação da plateia, que contou com várias perguntas e comentários que enriqueceram ainda mais a apresentação do vídeo e os comentários apresentados.

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Atividades do Departamento de Psiquiatria e Espiritualidade da APRS: III Simpósio Internacional de Espiritualidade na Prática Clínica Equipe do Departamento de Psiquiatria e Espiritualidade da APRS – DPE

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o dia 14 de agosto de 2018, no Centro de Eventos da AMRIGS, houve uma atividade científica para marcar a transição do Núcleo de Psiquiatria e Espiritualidade (NUPE) em departamento passando a se chamar Departamento de Psiquiatria e Espiritualidade (DPE), sob a coordenação da dra. Anahy Fagundes Dias Fonseca, com vice-coordenação do dr. Leandro Pizutti e coordenação científica do dr. Bruno Paz Mosqueiro. Tal processo foi consequência do esforço e ineditismo da APRS em seguir o Posicionamento da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) sobre Espiritualidade e Religiosidade em Psiquiatria, de 2015. Após a atividade científica, o dr. Matias Strassburger, Vice-Presidente da APRS, fez um breve discurso ressaltando a trajetória de seis anos de atividades intensas e produtivas do antigo NUPE, e enfatizou a sua importância para a APRS no estudo e na divulgação de pesquisas sérias e metodologicamente bem-conduzidas nesta área de investigação, contribuindo para o aperfeiçoamento da formação de colegas na área da saúde mental. A religiosidade/espiritualidade pode ter efeitos positivos ou negativos na saúde

rém não trazer esse aspecto da vida do paciente para o tratamento pode levar a um entendimento parcial dos afetos, relacionamentos interpessoais e mesmo sintomas. O conhecimento científico e prático do assunto pode evitar problemas na relação médico-paciente, beneficiar os desfechos clínicos e facilitar o atendimento. Adicionar esses conceitos à prática clínica, portanto, promove uma relação mais completa entre o paciente e o profissional que o atende. Pesquisadores têm criado formas de facilitar a abordagem da religiosidade/espiritualidade para os profissionais que ainda possuem dificuldades com o tema. Devemos saber o melhor momento e a forma de abordar essa dimensão, sem julgar as preferências religiosas e espitirtuais de cada paciente, de forma a oferecer um entendimento o mais humano e integral possível. O clínico deve estar atento à dimensão espiritual do paciente, seja ela foco de problemas ou não de sentimentos. Foi com estes objetivos que aconteceu o III Simpósio Internacional de Espiritualidade na Prática Clínica, desenvolvido pelo Departamento de Psiquiatria e Espiritualidade (DPE) da Associação de Psiquiatria

do paciente, já demonstrados em muitos estudos; contudo, esse assunto segue sendo pouco comentado com os nossos pacientes. Pode-se abordar a religiosidade\espiritualidade do indivíduo de maneiras diferentes sob o ponto de vista técnico, po-

do Rio Grande do Sul (APRS), integrado à programação da Jornada CELG 2018.

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Como atividade pré-simpósio, o dr. James Lomax conduziu um workshop intitulado “Como lidar


com conteúdos espirituais e religiosos no setting psicanalítico”, discorrendo sobre possibilidades de abordagem da espiritualidade a partir de situações clínicas. A psiquiatra Marianna Costa e as psicólogas Letícia Alminhana e Milena Bubols apresentaram desafios e diretrizes para o diagnóstico diferencial entre experiências espirituais/anômalas e sintomatologia psiquiátrica. Estudos avaliando a relação entre neurociência, religiosidade, espiritualidade e experiências anômalas também foram apresentados. Para aprofundar o conteúdo debatido, pode acessar RevBras Psiquiatr. 2017 Apr-Jun;39(2):126-132, e IntRevPsychiatry. 2017 Jun; 29(3): 283-29. As práticas de mindfulness foram apresentadas pelo psiquiatra Leandro Pizutti como uma possibilidade terapêutica adjuvante para cultivar paciência, aceitação, abertura ao momento presente, não julgamento, não reatividade, consciência de contexto e compaixão, atitudes ligadas à diminuição de sintomas emocionais e melhora do bem-estar. Uma pequena entrevista com o dr. Christopher Germer, concedida à fisioterapeuta Simone Campani, colaboradora do DPE, descreveu o programa Mindful Self-Compassion. Nesse programa, a consciência do corpo é utilizada como uma das bases para o manejo das emoções difíceis nas práticas de autocompaixão. Na mesa redonda Pesquisas em Espiritualidade e Saúde Mental, os psiquiatras Alexander Moreira-Almeida (NUPES/UFJF), Rogério Zimpel (HCPA/UFRGS) e Bruno Paz Mosqueiro (DPE/ APRS e HCPA/UFRGS) apresentaram pesquisas recentes conduzidas por eles que avaliaram as associações entre espiritualidade e saúde. O psiquiatra Alexander Moreira-Almeida apresen-

tou no dia seguinte o Position Statement da WPA em Espiritualidade Tivemos ainda uma mesa-redonda sobre Espiritualidade na Prática Clínica, com o dr. James Lomax apresentando um caso clínico, o dr. Alexander Moreira-Almeida discorrendo sobre a coleta da história espiritual e sua integração no tratamento, o dr. Sérgio Lopes falando sobre as situações em que a religião atrapalha e a dra. Anahy Fonseca discorrendo sobre a abordagem psicoterapêutica dos símbolos religiosos nos sonhos. O III Simpósio de Espiritualidade na Prática Clínica e a Jornada CELG 2018 foram brilhantemente concluídos com a conferência do dr. James Lomax intitulada “Benefícios colaterais: uma consequência inesperada da carreira como vocação”.

Qualidade “A qualidade científica foi o grande diferencial da gestão, que com o Congresso Gaúcho, realizado em Bento Gonçalves, lançou um verdadeiro marco na história da APRS. Além disso, a diversidade e a qualidade dos temas científicos tiveram uma amplitude significativa. Temos seguido o nosso lema: manter a história e também a inovação. Tivemos um amadurecimento importante, e tudo foi feito com muita competência por todos os colegas.”

Dra. Andréia Sandri Diretora de Normas

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Presidente da ABP prestigia atividades dos 80 anos da APRS

om a presença da Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, dra. Carmita Abdo, a Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul promoveu, no dia 27 de outubro, na AMRIGS, um evento que integrou as comemorações dos 80 anos da APRS e abordou o tema Neossexualidade na Sociedade Contemporânea. Foram discutidos temas como “Bloqueio puberal na infância” e “O efeito da supressão puberal sobre o desenvolvimento cerebral, cognição e voz” com as painelistas dras. Maria Inês Lobato e Bianca Sol. Houve ainda apresentação com o tema “Terapia estrogênica após a cirurgia de afirmação de gênero: afirmação das networks funcionais e a homeostasia hormonal”, com o dr. Maiko Schneider. Encerrando as atividades, a dra. Carmita fez uma conferência sobre “Sexo com ou sem intercurso, mas ainda sexo. Armários de portas abertas, mas ainda armários...”.

Carmita Abdo destaca a maior aceitação às diferenças Falando para o Jornal da APRS, a dra. Carmita Abdo explicou as mudanças que vêm ocorrendo na sociedade em relação à sexualidade. Lembrou que o sexo é um dos quatro indicadores de qualidade de vida apontados pela Organização Mundial da

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Saúde, junto com vida familiar, o prazer no trabalho e o lazer. Neste contexto, faz-se importante uma atenção à diversidade sexual e à transição que ocorre no mundo. A médica observa que hoje as situações são mais visíveis, com maior aceitação, pois no passado as pessoas com diferentes orientações sexuais eram estigmatizadas e tratadas pejorativamente. Cita como exemplos a Casa Branca com as cores do arco-íris e o grande público na Parada Gay de São Paulo. “Ali estão não apenas os integrantes do grupo LGBT, mas simpatizantes da causa.” Enfatiza que a psiquiatria teve um papel relevante para que pessoas de diferentes orientações sexuais e de gênero não fossem mais tratadas como pacientes e, sim, como indivíduos com outras características. Afirma que a aceitação dessa mudança de paradigma vem ajudando a evitar a depressão e até mesmo o suicídio. Acredita que, embora ainda exista preconceito, atualmente a sociedade já aceita com maior naturalidade as diferenças. Informa que os psiquiatras não fazem apologia nem incentivam a transexualidade ou o homossexualismo, mas pregam o respeito para que essas pessoas não sejam estigmatizadas. Dra. Carmita Abdo conclui: “Não se trata de uma patologia, pois não há base científica para essa afirmação. Gênero não é ideologia, mas uma característica da natureza que deve ser respeitada”.


Sócios “A primeira questão a destacar é o grande número de sócios da APRS, fruto de uma gestão que buscou ser ainda mais inclusiva. Uma prova disso foi o Congresso realizado em Bento Gonçalves, que foi aberto, atualizado e sintonizado com os aspectos atuais da cultura, e não apenas da psiquiatria. A APRS está na vanguarda dos acontecimentos. Isso foi demonstrado, entre outros, pelo espaço criado durante o evento na Serra, onde, nos intervalos, aconteciam sessões culturais envolvendo imigrantes colombianos, cantor transex, população negra e população de rua. Portanto, esta gestão é acolhedora, aberta para a inclusão e a diversidade. Isto gera mais união entre os associados, com maior envolvimento e participação de todos. Outro momento importante foi a festa dos 80 anos da APRS, com grande participação dos sócios. A Associação vem ampliando a sua força e mostrando o porquê da sua colocação no ranking nacional.” (Dr. Leonardo Rubin, Vice-Coordenador do Departamento de Psicoterapia)

Dr. Leonardo Rubin

90 Atividades Científicas

17 Cursos 8 Simpósio: 4 Workshop 2 Fórum 57 Palestras 3 Ciclo de Avanços 1 Congresso

3.925

Participantes 2.626 Presencias 1.299 EAD

Vice-coordenador do Deptº de Psicoterapia

Na oportunidade, a Presidente da ABP, Carmita Abdo, e o Presidente da APRS, Flávio Shansis, descerraram a placa comemorativa dos 80 anos da APRS. Carmita destacou o trabalho da APRS, que vem ajudando a psiquiatria brasileira a se tornar conhecida universalmente, e disse que se sentia orgulhosa em participar das atividades dos 80 anos da entidade. “Espero que haja uma agregação cada vez maior entre a ABP e a APRS”, destacou. 17


Inovadora “O último triênio da APRS foi rico em atividades inovadoras e criação de novos projetos. Fazendo uma retrospectiva a partir de 2016, lembro-me do Curso de Neuroimagem, organizado pelo Núcleo de Psiquiatras em Formação, com cerca de 100 inscritos, participantes de vários estados e transmissão EAD. Durante a gestão também foram criadas várias Seccionais no interior, com foco em descentralizar a APRS e, assim, congregar os psiquiatras do RS. Outro feito de 2016 foi a formação do Comitê de Prevenção ao Suicídio, sendo realizadas, por exemplo, entrevistas e palestras para a comunidade com o objetivo de prevenção do suicídio. 2017 foi o ano do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria: uma das ênfases foi em atividades práticas para mudanças no estilo de vida, aspecto essencial para a Saúde Mental. Cito como exemplos o Psiquiatras em Movimento, com a realização de corridas pelo Vale dos Vinhedos, e a oficina de culinária, com foco no espaço simbólico da cozinha relacionado aos vínculos e ao comer com atenção plena no presente. Ainda sobre o Congresso, ele foi inovador. A APRS Inclusiva se propôs a reflexão sobre temas contemporâneos, como as migrações, a situação dos moradores de rua, o momento de voz ao LGBTT – com a apresentação de uma cantora transgênero – e uma palestra sobre voluntariado na Tanzânia. Desde o início da gestão, tivemos pelo menos 1755 inscritos em atividades cientificas, 622 inscritos na modalidade EAD, uma atividade a cada três dias, 204 palestrantes convidados e 100 novos sócios em 12 meses. Outro dado importante do triênio foi a criação do projeto Naic, no qual o aval do psiquiatra passou a ser suficiente para a internação compulsória. Ademais, novas parcerias foram feitas: HPSP, SPPA e SBPdePA. Sem sombra de dúvidas, foram anos de trabalho árduo e dedicação, mas também de muito aprendizado e convívio entre os colegas. São 80 anos de APRS, 30 anos de Núcleo de Psiquiatras em Formação e 50 anos de vínculo com a WPA. Parabéns a esta gestão por nos propiciar estes momentos!”

Dra. Mariana Paim Santos Secretária do Núcleo de Psiquiatras em Formação da APRS e Secretária do Early Career Psychiatrists Section da WPA 18

Trends in Psychiatry and Psychotherapy Dr. Giovanni Abrahão Salum Junior e Dr. Rodrigo Grassi Oliveira / Editores

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rends in Psychiatry and Psychotherapy é uma revista multidisciplinar que publica trabalhos de pesquisa e visões oficiais, focando na interação entre pesquisa clínica e experimental no campo da psiquiatria e da saúde mental. A revista prioriza artigos que auxiliem a traduzir descobertas fundamentais da pesquisa básica para a realidade da prática clínica em saúde mental, incluindo artigos sobre processos psicológicos e comportamento, neuropsicologia, psicofarmacologia, neurociência clínica, psicoterapia e outras áreas de relevância da psicopatologia e da psiquiatria. Trends in Psychiatry and Psychotherapy busca publicar pesquisa atual e original cobrindo o amplo espectro da clínica em saúde mental e da ciência básica produzida por especialistas nacionais e internacionais. A Trends foi agraciada com verba para publicação científica pela CAPES-CNPQ em 2017. Indexada às principais plataformas de publicação científica da América Latina e internacionais: BIOSIS Publisher of Biological Abstracts and Zoological Record; LILACS - Index Medicus Latino-Americano; PsycINFO - American Psychological Association; Embase; Scopus; Latindex; Redalyc; EBSCO e MEDLINE. Submissão de artigos - http://mc04.manuscriptcentral.com/trends-scielo Acesso aos periódicos - http://www.scielo.br/trends


ESPAÇO DO SÓCIO

O IPF e seus 93 anos

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Dr. Rogério Göttert Cardoso

Instituto Psiquiátrico Forense (IPF), fundado em 4 de outubro de 1925, completou 93 anos! O segundo hospital de custódia e tratamento instalado no Brasil, quatro anos depois do seu congênere no Rio de Janeiro, decorreu da preocupação em melhor atender o doente mental que, por razão de enfermidade, pratica delitos.

A difícil situação financeira do Estado, responsável pelo IPF, torna imprescindível reavaliar seu financiamento, pois o tratamento reabilitador precisa ser realizado através de profissionais capacitados, instalações adequadas e pesquisa científica. Afinal, 93 anos se passaram, mas suas finalidades continuam atuais.

Nestes anos, o IPF realizou dezenas de milhares de perícias psiquiátricas no Rio Grande do Sul, auxiliando o Poder Judiciário quando há a suspeita de que o ilícito decorre de doença ou perturbação da saúde mental: os juízes, quando suspeitam desta possibilidade, solicitam ao hospital um esclarecimento especializado, conforme demonstrado em trabalhos científicos, entre eles o conduzido por Telles. Além disso, o hospital atendeu (em caráter de internação ou em ambulatório) milhares de enfermos que, após julgamento pelo Judiciário, receberam decreto de medida de segurança por incapacidade de entender e/ou determinar-se por motivo de doença mental e que necessitavam de tratamento médico psiquiátrico sob custódia. Não é raro que os portadores de transtornos da mente tenham reduzidas suas capacidades para se cuidar. Portanto, esse atendimento é fundamental para sua melhora, conforme evidenciado em trabalhos científicos, como, por exemplo, o de Menezes. Os resultados das assistências do IPF, mensurados em um follow-up de 10 anos conduzido por Teitelbaum, evidenciaram que 68% dos internos não reincidiram após a alta, identificando a importante e valiosa capacidade resolutiva do tratamento. Esta amostra permite a generalização, visto que o percentual é semelhante ao obtido por outros hospitais psiquiátricos judiciários espalhados pelo mundo.

União “O mais marcante para mim foi a união que a Diretoria conseguiu com os sócios. A APRS se tornou sinônimo de identidade e de confraternização entre os psiquiatras do Rio Grande do Sul. Os eventos, cursos e o congresso realizados nestes três anos agregaram, além de ciência do mais alto nível científico, valores éticos, de igualdade e respeito. No Departamento de Psiquiatria da Infância e Adolescência, do qual eu sou coordenadora, tivemos liberdade para inovar. Criamos um novo conceito, levando ao público leigo informação da mais alta qualidade sobre os temas mais atuais e relevantes para a nossa sociedade. Conseguimos abranger temas da atualidade, tais como suicídio, bullying e depressão em crianças e adolescentes, junto a psiquiatras, psicólogos, professores e público em geral.”

Dra. Silzá Tramontina Coordenadora do Departamento de Psiquiatria da Infância e Adolescência 19


DROPS

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Seleção de artigos científicos recentes 1

Association of secondary preventive cardiovascular treatment after myocardial infarction with mortality

among patients with schizophrenia Kugathasan et al – JAMA Psychiatry – Outubro/2018 Embora pacientes com esquizofrenia tenham taxas mais elevadas do que o resto da população quanto a morbidade e mortalidade cardiovascular, nenhum estudo investigou se a adesão ao tratamento farmacológico cardioprotetor (antitrombóticos, betabloqueadores, inibidores da ECA e estatinas, entre outros) pode reduzir o excesso de mortalidade. Essa coorte realizada na Dinamarca, portanto, incluiu mais de 105 mil indivíduos internados por infarto agudo do miocárdio. Nesse grupo, havia quase 700 pacientes com diagnóstico de esquizofrenia. No seguimento efetuado, as taxas mais altas de mortalidade foram encontradas no grupo de pacientes com esquizofrenia que não receberam tratamento cardioprotetor. No grupo de pacientes com esquizofrenia adequadamente tratados para sua doença cardiovascular, as taxas de mortalidade foram equivalentes às da população em geral. Os resultados do estudo, portanto, sugerem que a mortalidade cardiovascular entre pacientes com esquizofrenia pode ser, ao menos em parte, reduzida caso esses pacientes recebam tratamentos preventivos secundários após eventos cardiovasculares. Assim, fica ressaltada a importância da atenção à saúde geral dos pacientes psiquiátricos – especialmente os psicóticos, os quais constituem uma população negligenciada em termos de cuidados à saúde.

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Comparative efficacy and tolerability of medications for attention-deficit hyperactivity disorder in children,

adolescents, and adults: a systematic review and network meta-analysis Cortese S et al – Lancet Psychiatry – Setembro/2018 Tendo em vista que os benefícios e a segurança das medicações para TDAH se mantêm controversos e que as diretrizes são inconsistentes em relação a quais medicações são as preferenciais entre diferentes faixas etárias, os autores realizaram essa revisão sistemática e metanálise em rede. Foram incluídos 133 ensaios clínicos randomizadas duplo-cegos controlados por placebo (81 em crianças e adolescentes, 51 em adultos e 1 incluindo todas as faixas etárias). Os desfechos primários definidos foram eficácia (alteração de escores sintomáticos em escalas de clínicos e professores) e tolerabilidade (proporção de pacientes que abandonaram os estudos devido a efeitos adversos). Considerando os sintomas de TDAH em crianças e adolescentes avaliados em escalas de clínicos, anfetaminas, metilfenidato e atomoxetina foram superiores a placebo. Já considerando a avaliação pelas escalas de professores, apenas metilfenidato e modafinil foram superiores a placebo. Em adultos, avaliados (por motivos evidentes) apenas através de escalas de clínicos, anfetaminas, metilfenidato, bupropiona e atomoxetina foram superiores a placebo. Modafinil não foi superior a placebo. Em relação à tolerabilidade, anfetaminas foram inferiores


a placebo tanto em crianças e adolescentes como em adultos. Atomoxetina, metilfenidato e modafinil foram menos tolerados do que placebo apenas em adultos. Em comparações head-to-head, ou seja, entre fármacos específicos, as únicas diferenças em eficácia foram encontradas no tratamento de TDAH em todas as faixas etárias: anfetaminas foram mais eficazes que

ção menos frequente a museus. Tal associação foi independente de variáveis demográficas, socioeconômicas e de saúde geral (como deficiência auditiva, depressão e doenças vasculares) e outras formas de envolvimento em comunidade. Assim sendo, a visita a museus representa uma promissora atividade psicossocial para ajudar na prevenção de síndromes demenciais.

modafinil, atomoxetina e metilfenidato. Vale ressaltar que os achados dizem respeito a efeitos dentro de um prazo de 12 semanas de tratamento, já que não foram encontrados dados suficientes para avaliar seguimentos mais prolongados. Os autores concluem que, levando em consideração eficácia e segurança,

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Haloperidol and ziprasidone for treatment of delirium in critical illness

as evidências de sua metanálise sustentam o metilfenidato como primeira escolha para o tratamento – ao menos em curto prazo – do TDAH em crianças e adolescentes, e as anfetaminas para o tratamento – ao menos em curto prazo – do TDAH em adultos.

Girard TD et al – New England Journal of Medicine – Outubro/2018 Em virtude dos dados conflitantes acerca dos efeitos de antipsicóticos em quadros de delírio em pacientes internados em CTI, foi realizado um ensaio clínico randomizado duplo-cego controlado por placebo que ava-

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Cultural engagement and cognitive

liou haloperidol (em dose máxima de 20 mg ao dia) e

reserve: museum attendance and

ziprasidona (em dose máxima de 40 mg ao dia). Os

dementia incidence over a 10-year period

indivíduos estudados apresentavam insuficiência respiratória aguda ou choque e tinham também quadro

Fancourt D et al – British Journal of Psychiatry –

de delirium hipoativo ou hiperativo. O desfecho pri-

Novembro/2018

mário foi o número de dias de sobrevida sem delirium

Com base em teorias de reserva cognitiva, síndrome de desuso e estresse, tem sido sugerido que atividades mentalmente estimulantes, agradáveis e socialmente interativas podem ser protetoras em relação ao desenvolvimento de quadros demenciais. A partir de dados do English Longitudinal Study of Ageing, esse estudo demonstrou que, para adultos com 50 anos ou mais, a visitação mais frequente a museus esteve associada a menores taxas de incidência de demência durante um período de acompanhamento de 10 anos em comparação com a visita-

ou coma durante os 14 dias de intervenção. Desfechos secundários incluíam a sobrevivência em 30 e 90 dias, o tempo para saída da ventilação mecânica e o tempo para a alta do CTI e do hospital. Desfechos de segurança, como sintomas extrapiramidais e sedação excessiva, também foram avaliados. 566 pacientes com delirium foram estudados e, como resultado, não houve diferença entre os grupos do haloperidol, da ziprasidona e do placebo em relação aos desfechos pré-especificados.

Novos sócios Residentes: Ian Favero Nathasje, Marcelo Simi, Czykiel, Gustavo de Aguiar Costa Cesar, Kely Cavassola, André Ganzales Real, Tauana Zilles Schseffer, Calara Rohrsetzer Sfoggia, Andriara Cassuli, Juliane Bombardelli, Bruna de Mello, Lauro Estivalete Marchionatti, Babington Rodrigo Silva, Bruno Lodi, Francieli Moreira Gonçalves, Renata Silveira Heine, Bruno Mombach Piffero, Nayhany Santos Araujo e Monyse Brito Litrenta. 21


SÍNDROMES RARAS

Síndrome de Clèrambault Dra. Elisa Boéssio

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desejo de amar e ser amado é tão antigo e natural quanto respirar. Gera ilusões necessárias pra fermentar uma relação, fomenta ansiedades e expectativas, um anseio pela reciprocidade do sentimento. Tamanha é a importância do amor na vida de cada indivíduo (e, na vida adulta, particularmente o amor erótico) que não é de se estranhar que ele seja o tema de delírios, patologias e síndromes, como na síndrome de Clérembault.

drome de emoções patológicas que segue uma evolução ordenada, passando pelos estágios de esperança, despeito e rancor. Segundo Clérembault, esta evolução é invariável, tendo o rancor como a fase mais importante e que mais bem caracteriza toda a síndrome (e não o amor). Depois de atingido o estágio de rancor, após repetidas rejeições que sofre, não é incomum o paciente exercer retaliações contra seu objeto de amor ou contra terceiros.

A síndrome de Clérembault, ou erotomania, apresenta-se como uma convicção delirante por parte do paciente (geralmente feminino) de que alguém de posição social mais elevada o ama. Gaëtan Gatian de Clérembault, um psiquiatra francês responsável por descrever cinco casos

A classificação da síndrome de Clérembault encaixa-se como um tipo especial de Transtorno Delirante Persistente (CID-10 F22.0), categoria que reúne transtornos caracterizados pela presença de ideias delirantes persistentes e que não podem ser classificados entre os transtornos orgânicos, esquizofrênicos ou afetivos.

de erotomania em 1921, sugeriu que os delírios erotomaníacos se desenvolveriam devido à falta de uma real aprovação sexual como meio de satisfazer essa demanda, provendo o paciente de uma gratificação narcísica que a realidade, até então, não haveria proporcionado. Apesar de fatores psicodinâmicos, como a privação sexual, serem importantes no desenvolvimento dessa condição, fatores orgânicos de sua etiologia continuam sendo investigados. Testes neurofisiológicos sugerem que a síndrome de Clérembault pode estar associada a déficits na flexibilidade cognitiva e na leitura associativa, mediadas pelo sistema frontal subcortical, e a déficits nas habilidades verbal e de visão espacial. Ao tratar de descrever as características clínicas da síndrome, Clérembault a citou como uma sín-

Elisa Boéssio

O tratamento disponível baseia-se principalmente no uso de neurolépticos, embora seus efeitos sejam modestos, com pouca ação sobre o núcleo delirante. A ação dos medicamentos serve muito mais para diminuir a intensidade dos delírios e das ideias de referência que os acompanham, sendo que a minoria dos pacientes alcança remissão completa dos sintomas. Clérembault, Kraepelin e quase todos os autores modernos têm ressaltado a persistência dos delírios eróticos apesar das confrontações com a realidade. A erotomania é uma doença crônica, relativamente refratária ao tratamento, tanto farmacológico quanto psicoterápico, quem sabe evidenciando-nos a estreita relação entre duas forças tão poderosas: o amor e a loucura.

é médica formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2009 e psiquiatra com especialização pela Fundação Universitária Mário Martins em 2014. Nas últimas edições do Jornal da APRS, foi responsável pelos textos da seção de Síndromes Psiquiátricas Raras. 22


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de Agosto de 2019

Save the Date De novo, em Bento Gonçalves, vamos fazer um grande Congresso

XIV Congresso Gaúcho de Psiquiatria

Vínculos & Saúde Mental

Dall’Onder Grande Hotel Bento Gonçalves/RS

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