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A construção de uma ideologia para a produção alcooleira no Brasil: 1889-1945

Uma vez superadas as primeiras dificuldades técnicas de utilização do álcool, o Governo tentaria incentivar a iniciativa privada a investir na indústria alcooleira. Assim, estabeleceu um premio de 50:000$000 para a primeira destilaria produtora de álcool anidro construída no país. Porém, o elevado custo de montagem de uma destilaria que orçava no período em torno de Rs 2.000:000$000, acabaria desestimulando os produtores. Aliás, nenhuma destilaria seria construída. O próprio Governo criaria casualmente um dos principais empecilhos, uma vez que, pelo decreto n.º 22.008, o preço do álcool foi fixado em Rs1$000 o litro, - inviável para o produtor. Dessa forma, o Governo tomaria como uns dos seus fins específicos a transformação dos excessos de açúcar em álcool. Para isso, designaria a CPDA e o CEAM. Malgrado os esforços, nenhuma dessas Comissões conseguiu desenvolver a indústria alcooleira. Releva notar que, uma das últimas medidas da CPDA, a fim de incentivar a produção alcooleira no país, foi conceder uma verba de Rs 2.400:000$000, como forma de auxiliar na montagem do parque industrial alcooleiro.

Álcool, Autarquia sucessora dessas Comissões, Gileno Dé Carli: Reunia o Governo os dois problemas – o do açúcar e o do álcool – que até então se estudavam e se encaminhavam separadamente. E essa fusão deu ensejo a criar uma feliz situação para a indústria açucareira do Brasil, pois que, sendo um país de economia nitidamente agrária, não foi obrigado a reduzir os seus canaviais. Aliás, a limitação açucareira, entre nós, têm um sentido “sui generis”, pois, como veremos, não se diminui e produção. Ela foi simplesmente estabilizada. Não houve sacrifícios profundos. Coibía-se somente que a ambição de maiores e crescentes lucros levassem o produtor a aumentar progressivamente suas safras (Dé Carli, 1942, p. 28-29).

Por outro lado, o IAA incentivaria muito mais a política de desenvolvimento do álcool-motor do que o açúcar em si. Para nós, tal fato relaciona-se a própria visão do álcool como alternativa para a produção açucareira ou, ainda, uma forma de controlar a crise de superprodução e diminuir os gastos com combustíveis. Em relação a isso, Moacyr Soares Pereira, já destacava, em 1942, que:

é, com o desenvolvimento do parque alcooleiro. No

o Governo já incentivava a produção alcooleira antes de cuidar de proteger a do açúcar. No caso do álcool, tão pouco, a intervenção revestiase do caráter de defesa. O que se visava em primeiro lugar era ajudar a balança comercial do país, restringindo as importações. Diante do colapso de nossa exportação arrastada para baixo, principalmente pela queda do café (Pereira, 1942, p. 10).

entanto, a julgar pelas amostras iniciais da atuação da

Esse discurso seria efetivado no próprio Esta-

CPDA, pode-se dizer que foi somente com a criação

tuto de criação do Instituto do Açúcar e do Álcool que

do Instituto do Açúcar e do Álcool que se iniciou o

justificaria a atuação do Estado em relação ao álcool

efetivo planejamento da produção alcooleira no Bra-

devido às assertivas anteriores e à própria expansão

sil (Guimarães, 1991, 63-65 e Szmrecsányi, 1979, p.

do mercado desse produto.

Porém, é incontestável que essa e as outras medidas implantadas pelo órgão foram insuficientes para debelar a crise de superprodução açucareira através do direcionamento dos seus excessos para a produção alcooleira. É importante acentuar que essas medidas só seriam eficazes em longo prazo, isto

176-178). Para além desses aspectos, cabe também apontar a imaturidade dessas primeiras medidas. Acreditamos que um dos principais pontos de entrave das políticas implementadas pela CEAM e pela CPDA tiveram pouca eficácia por tratar separadamente o problema do açúcar e do álcool. O que fez supor a assertiva de nossa hipótese foram os dizeres de um dos presidentes do Instituto do Açúcar e do 52

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Considerando que, desde as medidas iniciais, de emergência e preparatórias, sempre se considerou que a solução integral e a mais conveniente à economia nacional para as dificuldades da indústria açucareira, está em derivar para o fabrico do álcool industrial uma parte crescente das matérias-primas utilizadas para a produção de açúcar. (...) considerando que o consumo de álcool industrial oferece um mercado cada vez maior, com possibilidades quase ilimitadas (Velloso, 1952, p. 85).

Revista da ANPG, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 46 - 57, segundo sem. 2009

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