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Orientação: Pedro Britto Goiânia, dezembro de 2016.

Ana Flávia Maximiano Marú Trabalho de Conclusão de Curso Arqutietura e Urbanismo Faculdade de Artes Visuais Universidade Federal de Goiás


AGRADECIMENTOS

Um pequeno espaço no trabalho para escrever sobre a gratidão de estar rodeada de pessoas que tanto me inspiraram e contribuiram para a conclusão desta etapa. Além de um trabalho acadêmico para comprir as normas de uma graduação, este trabalho foi feito com o corpo, de corpo, corpo resistente, afetado e que afeta, construido aos poucos, experimentando e aproveitando a oportunidade para uma descoberta pessoal. Ao Pedro Britto, pelas orientações instigadoras e reflexivas, que me colocaram em contato com leituras tão importantes durante meu processo. As co-orientações infinitas que acoteceram no começo, no meio, no fim e que vou leva-lás sempre comigo, porque não era apenas sobre um trabalho de conclusão, era sobre um olhar e posicionemento futuro, diante de um cenário social vive momentos de aflição ideológica e política. Cacá, pelas trocas e indagações que me “tiram da caixinha”. Octávio pelas horas de fritações, pelo “ou lê o meu texto?”, pelo grupo de estudo, pelo contato com o trabalho da Camila Caires, pela amizade regada de poesia. Ao trio Rodolpho, Bruna e Matheus que estiveram próximos durante todo o percusso, dentro e fora da faculdade, momentos regados de risadas, reflexões, tapas na cara e muito amor. A todos que toparam as intervenções com o coletivo ColaBora, Rafael Lustosa e Pedro Fleury em especial. A Quadro, arquitetos urbanistas o qual tenho orgulho de estar junto, que não só apoiou - quando eu faltava o estágio para orientar - mas que dedicou algumas horas para colaborar em uma co-orientação inriquecedora, obrigada Robson, Larissa, Paulo e Mathias. Aos amigos que acompanharam curiosamente o processo, leram e contribuiram de alguma forma. Outros que estão nessa mesma jornada de conclusão e carregam angustias sobre essa outra etapa que se inicia. Ávinner, pela amizade e companhia para qualquer hora, bora? Lucas Lacerda, pela amizade e pela cadeira de praia que possibilitou parte do meu trabalho acontecer. A minha família, aos meus pais me passam confiança e apoio para minhas escolhas, que não mediram esforços para minha vinda pra Goiânia e que são meus exemplos de conquista e superação. Frederico, meu irmão que me inspira e fez possível algumas imagens deste trabalho. A tia Nilza, pelo cuidado, hospitalidade e comidas deliciosas feitas enquanto estava imersa no quarto escrevendo o trabalho. A Paula pela companhia, pelas conversas, pelos momentos cheios de delicadesas familiares. Enfim, a todos que presenciaram essa caminhada e com algum gesto contribuiu para o meu crescimento. Sou o todo de cada parte que me foi dada. Obrigada!


sumário

04. apresentação 07. percurso 14. a busca por uma subjetividade 17. posicionamento metodológico 18. ferramentaria 21. o lugar experimentado 22. o golpe do sentar 24. experimentos 30. a proposta 30. a ilha da permanência 33. uma das conclusões 35. referências


“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: “vem por aqui”! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!” José Régio – Cântico Negro


apresentação

Este trabalho é um reflexo de questionamen-

“que apresenta uma natureza que ainda deve

tos e dualidades que estiveram presentes no

ser compreendida e preenchida de significados,

decorrer do curso de Arquitetura e Urbanismo.

antes que projetada e preenchida de coisas

Uma mistura de indagações do uso x plane-

”, como pontua CARERI (2013). Complexo,

jamento da cidade, revisitadas na escolha do

cheio de dualidades, desejos e acontecimentos,

tema do Trabalho de Conclusão de Curso e que

percebo experimentando o espaço, que essa

me leva à várias reflexões. Um posicionamento

complexidade escapa do projeto, escapa da

romântico diante as possibilidades de atuação

lógica funcionalista, onde o espaço é planejado

dentro do curso e ao mesmo tempo resistente,

para tais ações, os praticantes da cidade estão o

crítico e questionador em relação ao que limita

tempo todo inventando e reinventando a cidade.

e tenciona o percurso da formação e como

Existe um desejo de entender esses aconteci-

futura profissional.

mentos, de compreender esse espaço feito por

O processo para o desenvolvimento deste

quem o pratica, de questionar o projeto para

foi construído de forma inquieta, individual e

além da materialização de algo.

coletiva, experimental, aberta e corporificada,

Porém, dentro das normas de trabalho de con-

uma metodologia construída no entre. Transito

clusão do curso de Arquitetura e Urbanismo da

por uma abordagem de conceitos e teorias

Universidade Federal de Goiás, vejo a impos-

e as coloco em confronto no espaço urbano

sibilidade de seguir adiante com as reflexões,

que me levam a outras reflexões, estas que me

indagações sobre o tema, para cumprir uma

jogam no espaço praticado novamente. Assim

exigência, elaborar um projeto arquitetônico1.

o processo de desenvolvimento se torna mais

Com o caminhar do meu desenvolvimento

importante, do que onde se almeja chegar no

escolho por tencionar sobre a impossibilidade

final. “Quando se sabe de antemão onde se

da proposta de um projeto e enxergo que na

quer chegar, falta uma dimensão da experiência,

etapa em que me encontro, propor um projeto

a que consiste precisamente em escrever um

arquitetônico e urbanístico iria contra as refle-

livro correndo o risco de não chegar ao fim”

xões levantadas, estaria contribuindo com uma

(FOUCAULT, 1984: 288). Há uma busca por

possível intervenção que levaria a problemáti-

reflexões, por indagações, os questionamentos

cas como a espetacularização e a gentrificação

surgem a todo momento, a sobreposição de

do espaço.

1 - O TCC teórico é uma tendência inevitável, já regulamentado pelo MEC e aprovado este ano (2016) pelo NDE do curso de arquitetura e urbanismo da UFG, porém sua efetiva implementação se dará apenas a partir de 2017.

teoria e prática desdobra em diversas oportunidades de tencionar ainda mais o posicionamento do arquiteto urbanista diante da possibilidade de projetar no espaço urbano. É uma tentativa de desenvolver uma metodologia e utilizar ferramentas para compreender este, 04


“A expressão reta não sonha. Não use o traço acostumado. A força de um artista vem das suas derrotas. Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro. Arte não tem pensa: O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.” MANOEL DE BARROS


PERCURSO

Meu trabalho se inicia na ansiosa busca por um tema, depois de estar no curso de Arquitetura e Urbanismo por cinco anos acostumada as propostas e temas de projetos vinda dos professores, agora, o tema deste trabalho deveria ser proposto por mim. Revisito alguns projetos e trabalhos desenvolvidos durante o curso, vejo que algumas proposições projetuais se repetem, como a preocupação com a apropriação e a qualidade do espaço público, optar por reduzir o programa exigido que dava uma complexidade funcional para o edifício por considerar mais importante para o contexto da cidade os espaços públicos e de transição. Porém, surgem algumas questões, esse espaço da cidade, do encontro, do respiro, da troca, que potencializa o uso das edificações, seria apropriado de fato? Propor projetos, edificações sem ter tido um tempo para entender as relações, apropriações já existentes, sempre imaginando o que seria ideal para aqueles que praticam o espaço e pensando que a arquitetura e o urbanismo como solucionadora de problemas. Paralelamente começo a revisitar ações que tangenciaram meu percurso pelo curso. A minha busca por participar de movimentos que envolvem o uso da cidade, dos espaços públicos. Feiras que participei com o estúdio de ilustração o qual faço parte, muitas delas eram feitas em espaços abertos na cidade, isso me encantava, todas aquelas pessoas fazendo ações corriqueiras só que no espaço público. Me chamava atenção para alguns coletivos que se apropriavam do espaço da cidade, na tentativa entende-la e transformá-la de forma lúdica. Como as “Tardes de improviso” promovida pelo “Por quá?” (grupo de dança) e “Vida Seca” (grupo de músicos), onde eram dispostos tapetes em uma rua sem saída, montavam instrumentos de percussão com sucata deixava o convite para as pessoas entrarem, dançar e tocar. Além destes eventos, outros reduziam minha angustia de tentar entender as relações que se dão na cidade, talvez porque neste momento eu era praticante também do espaço. Todo esse conjunto experiências com a cidade unido com o desejo de produzir algo nela – algo além da materialidade de espaços como é de costume propor durante o curso – junto com alguns amigos de curso criamos o coletivo ColaBora, onde nos propomos questionar os espaços vazios/subutilizados no setor central, elaboramos algumas intervenções efêmeras com lambe-lambe, um ensaio com registros fotográficos em um edifício abandonado a mais de 10 anos no centro da cidade, zines informativos e instigadores sobre esses espaços subutilizados, entre outras ações que envolvem questionamentos, reflexões, na tentativa de pensar e construir relações lúdicas e subjetivas na cidade que vivemos. Hoje consigo enxergar como que todas essas ações que coloco, que estiveram de forma paralela a minha formação, na verdade, estão sobrepostas, entremeadas e emaranhadas no meu posicionamento e percurso durante o curso e como que esse desejo por estar na cidade se reflete na escolha do meu tema de TCC. Percebo que a cidade será o meu objeto de estudo – talvez não tenha ajudado muito já que há infinitas maneiras de estudar a cidade – apresento então algumas referências de trabalhos de 07

*Ver Pág. 01 e 02 - caderno prático


conclusão de curso que me instigaram a pensar em propostas para a minha temática. Porém, ainda muito indefinido e aberto, levo meus anseios para meu orientador que me indica a leitura de Michel de Certeau para enxergar uma teoria que ia de encontro aos questionamentos sobre a apropriação da cidade. Redireciono o meu olhar, não mais para uma posição que busca usuários da cidade que estão sujeitos a uma intervenção proposta por mim, mas para quem já faz a cidade, para o cotidiano de quem a pratica. No livro “A invenção do cotidiano: 1 artes de fazer”, Certeau traz à tona todo o meu encanto por ações corriqueiras feitas na cidade, em um estudo sobre o cotidiano, sobre as práticas na cidade “que colocam em jogo uma ratio “popular”, uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma arte de combinar indissociável de uma arte de utilizar ”, e as táticas desenvolvidas pelos praticantes que compõe a dinâmica complexa da cidade. “(...) algumas maneiras de pensar as práticas cotidianas dos consumidores, supondo, no ponto de partida, que são do tipo tático. Habitar, circular, falar, ler, ir as compras ou cozinhar, todas essas atividades parecem corresponder as características das astucias e das surpresas táticas: gestos hábeis do fraco” na ordem estabelecida pelo “forte” (...)”

(CERTEAU, 1980, p.20)

Outras referências vão surgindo ao longo da pesquisa, quando trago das práticas no espaço, alguns questionamentos e indagações. No questionamento inicial sobre meu posicionamento como Arquiteta e Urbanista, Guattari em “Caosmoze um novo paradigma estético” (1992), traz a restauração da cidade subjetiva onde “os urbanistas não poderão mais se contentar em definir a cidade em termos de espacialidade”, já que este trabalha com as relações humanas, que não são universais e exige uma atenção para a complexidade social que ali acontece, o que faz refletir sobre a responsabilidade estética, ética, política da profissão e a busca pela subjetividade na cidade. O que diretamente se relaciona com a busca por um posicionamento profissional mais subjetivo também. Milton Santos que fala sobre o tempo dos homens lentos – em que faço uma sobreposição entre os homens lentos e os praticantes da cidade de Certeau – e como há uma variação, uma sobreposição de tempos no espaço praticado. “O espaço é que reúne a toso, com suas múltiplas possibilidades, que são possibilidades diferentes de uso do espaço (do território) relacionadas com a possibilidades diferentes de uso do tempo. “ (SANTOS, 2006, p.104) Paola Berenstein e Fabiana Britto em artigos do livro “Corpocidade, debates, ações e articulações” (2010) trazem várias reflexões sobre o corpo dos praticantes da cidade, o movimento deles no es08


paço que transformam e são transformados continuamente, abordam sobre a possibilidade de uma cartografia realizada pelo e no corpo através de micro-resistencias urbanas e algumas experiências artísticas contemporâneas – chamada de corpografia urbana - e que poderia vir a ser a base para a prática de um urbanismo mais “incorporado”. (JACQUES, 2010) Além dos referenciais teóricos, busco por trabalhos que traçam uma possível metodologia que mostram ferramentas de análise na tentativa de observar, apreender e praticar o espaço urbano. O trabalho Cidades Imateriais: o espaço enquanto fazer de Romullo Fontenelle – trabalho de conclusão de curso da Universidade Federal de Santa Catarina em Arquitetura e Urbanismo (2013) - traz uma abordagem sobre as práticas do fazer na cidade, escolhe o centro de Florianópolis como objeto de estudo, utiliza o caminhar, a flânerie como prática metodológica para suas reflexões e ensaios, isso se desdobra produção e edição de vídeos – estudo de ferramentas cinematográficas - captura de imagens do cotidiano, cria um glossário que servirá de suporte para reflexões e excuta uma proposta de um projeto de intervenção no espaço público onde ele expõe os seu processo de captura de imagem para os praticantes da cidade. Cor(poro)cidades: experimentando (re)existências de Camila Craveiro - dissertação de mestrado da Universidade Federal Fluminense do curso de Psicologia (2014) – uma reflexão sobre a relação corpo e cidade, uma proposta metodológica onde o processo de desenvolvimento desta é mais importante do que onde se quer chegar no final, utiliza do estudo de coletivos de arte, da psicogeografia, da deriva, da observação, dos escritos afetivos, da relação corpocidade, que se desdobram na criação de um coletivo para intervenções na cidade afim de experimentar no corpo as reverberações dos estudos. O artigo Deriva parada (2012) de Janaina Bechler – artigo produzido para revista ReDObRa número 10, psicóloga, doutoranda PPG Psicologia Social e Institucional da UFRG – ela traz dos movimentos artísticos Dadá, Surrealismo, Situacionismo o potencial que estes enxergam no espaço cotidiano da cidade, a deriva como um exercício de afetar e ser afetada, assim ela propõe um “exercício de ficar parada contra uma parede branca, anônima, durante uma hora, uma vez por semana” em uma rua de Porto Alegre. A experiência Insistência urbana ou como ir ao encontro dos “imponderáveis da vida autêntica” da arquiteta urbanista e antropóloga, Alessia de Biase proposta em 2013 no Laboratório Urbano da FAUBA, sobre uma ótica atual em que o caminhar se tornou uma ferramenta bastante conhecida, um método de trabalho em campo, indaga o que seria parar, fixar? Para estar fixa em algum lugar, propõem permanecer numa cadeira num determinado lugar público por dois dias e insistir, se sentir dentro.“Como podemos estar presentes em algum lugar? O que esta ação comporta? O que significa tal presença corporal e que efeitos ela pode produzir no espaço e no encontro com as pessoas? ”. (BIASE, 2013) 09


Com o contato com estas referências em diversos momentos do meu trabalho, escolho um local da cidade – uma outra angustia, precisava encontrar logo um local para não perder tempo - meu olhar se volta para o Setor Central de Goiânia, talvez pelas experiências já tidas nele e porque ele lembra o centro que cresci em uma cidade no interior de Goiás. Após um primeiro contato com a teoria e alguns referenciais metodológicos utilizo de algumas ferramentas – fotografia, vídeo, desenho - para ir até o centro observar. Afetar e ser afetada pelo espaço. Retorno do lugar praticado e confronto o resultado prévio da utilização dessas ferramentas. Dentro desta paisagem do centro, sons, pessoas, carros, correria, passagem, observo as táticas utilizadas pelos praticantes da cidade, que de acordo com CERTEAU (1980) “As táticas são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo – as circunstancias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço (...)” que é golpe dado pelo praticante ao sistema que é imposto a ele. As pessoas ali, não só passam, elas permanecem. Encontro meu objeto de estudo que é o sentar, este que muitas vezes é impossibilitado pela arquitetura da cidade, ou pelo tempo – pressa da cidade que não aceita perder tempo, o permanecer se transforma em um gesto de resistência de quem pratica a cidade. Começo então a pensar quais são os desdobramentos deste sentar, sua possibilidade e sua impossibilidade no contexto inserido. Proponho alguns experimentos de intervenção, com a intenção de instigar e tencionar o espaço para continuar minhas observações. Vou para pré-banca do Seminário de Projeto (primeira parte do Trabalho de Conclusão de Curso), com um receio, diante do formato frequentemente apresentado dos trabalhos de conclusão, o meu trabalho apresenta uma metodologia que não tinha como anseio a proposta de um projeto arquitetônico. Após o feedback dos professores presentes, que se mostraram interessados na abordagem sobre o espaço, na pertinência da metodologia utilizada, fui questionada sobre o que iria fazer como proposta de projeto, se seria um mobiliário urbano, minha resposta foi que ainda não sabia onde iria chegar, continuo meu desenvolvimento com uma força a mais para aprofundar na apreensão do espaço urbano sem antecipar a proposta de um projeto arquitetônico ou urbanístico. Reformulo os experimentos apresentados e eles me levam novamente ao espaço praticado. O primeiro chamo de Sênteur, um termo que crio fazendo uma analogia ao flâneur. Fico sentada durante uma hora, só que agora não só como observadora, mas como praticante, sento em uma das muretas observadas no início do trabalho. Começo a perceber as histórias e as relações entre as pessoas que permanecem naquele espaço, percepções que só tenho por parar durante um tempo, por abrir meu olhar para além de uma análise superficial dos usos do espaço, acabo enxergando algo que foge do discurso de revitalização para espaços centrais da cidade que dizem sobre o abandono das áreas centrais, ali o espaço não é abandonado, existe um uso, existe relações das pessoas com a cidade, muitas delas têm a cidade como seu espaço de trabalho, de encontro e de troca. 10


Outro experimento que crio é o Convite ao Sentêur, que foi um experimento ligado a uma disciplina de núcleo livre, Poéticas do Desenho, oferecida pelo curso de Artes Visuais, onde cada aluno deveria desenvolver um projeto com o objetivo de refletir sobre sua produção artística autoral. O projeto que apresento se resume em um convite ao sentêur , dar oportunidade para permanência no lugar da passagem, a intenção é que este expectador do trabalho vire um praticante e observe as relações que ele pode vir a ter ao permanecer. Este trabalho foi exposto durante uma semana, em formato de revista e mapa na exposição “Desígnio” na Faculdade de Artes Visuais da UFG. Proponho ao final da primeira etapa do Trabalho de Conclusão, um experimento que chamo de “Suporte para o Sênteur” e novamente existia um posicionamento defensivo para a banca final: eu não tinha um partido arquitetônico nem urbanístico a ser apresentado, tinha uma proposta de um suporte (um banco gangorra) que serviria como uma ferramenta que ajudaria em minhas apreensões. A ideia era um objeto lúdico que poderia ser uma oportunidade de situações, um suporte que precisaria de duas pessoas para que ele funcionasse, o princípio da gangorra, muito instigada por leituras sobre o movimento Situacionista, onde eles pontuavam sobre que “a construção de situações era o modo mais direto de realizar na cidade novos comportamentos e de experimentar na realidade urbana os momentos do que teria podido ser a vida numa sociedade mais livre ” (CARERI, 2013), e faço isso com o intuito de construir um meio lúdico de apropriação da cidade. Apresento a banca final e fico muito surpresa com as pontuações positivas sobre o desenvolvimento e sobre a valorização do processo desenvolvido até esta etapa. As observações feitas ressaltavam minha reflexão e a pertinência dela dentro do curso de Arquitetura e Urbanismo, onde eu deveria dar atenção ao meu caderno final, que seria o reflexo deste projeto de pesquisa e pratica. Durante todo esse processo de idas ao lugar estudado, acabei gerando produtos que serviram de suporte para minhas reflexões, como vídeos, fotocolagem, desenhos, textos narrativos, textos lúdicos. Após esta primeira etapa do trabalho vejo que preciso aprofundar nos materiais já gerados e me abrir para outras ferramentas a ser experimentadas antes de executar e experimentar um objeto construído como o banco. Deixo então a proposta de executar o Suporte para o Sênteur de lado. Alguns vídeos editados de registros feitos, me mostram algo que ainda não tinha me atentado. Os objetos presentes - bancos de plástico, banquetas de madeira, bancos fixos no canteiro central - servem de metáfora da resistência do permanecer. Experimento então narrativas em que coloco esses objetos como personagens da vivencia e da prática do espaço, o que ele recebeu com o tempo, com as histórias, com os corpos que passaram por ele. Um exercício sensível de enxergar nos objetos reflexos de histórias presentes ali, o que serve como alternativa para narrar histórias observadas sem obter ela através de uma entrevista condicionada a quem pratica. O último exercício que proponho é o da permanência, uma variação do sênteur praticado anteriormente, com duas diferenças, agora eu iria ficar um período de tempo maior permanecendo e levaria 11


meu objeto de suporte: uma cadeira dobrável dessas de praia que muitas vezes usamos em varanda. Este exercício acontece após o contato com o trabalho desenvolvido em uma oficina proposta pelo Laboratoire Architecture Anthropologie durante o Corpocidade através da Alessia de Biase, com a ideia de estudar a transformação da cidade, a proposta é entender o que a insistência sobre um lugar pode ajudar na compreensão dos espaços? Como insistir em um lugar, o que essa insistência leva, quais as relações dessa ação com o corpo de quem a faz? O intuito é narrar, compartilhar, debater a experiência de ser o praticante desta cidade. Quando faço essa proposição alguns anseios e receios surgem, onde permanecer? Qual objeto levar? Como registrar? O que registrar? Em confronto com o estudo teórico, neste experimento enxergo a possibilidade de aprofundar o que foi visto em três eixos temáticos: a complexidade de acontecimentos da cidade, os tempos sobrepostos, e a resistência e as táticas dos praticantes para permanecer no espaço. Com a obrigatoriedade de elaborar um projeto, apesar de todo o aparato e valorização do trabalho que tive até a banca da primeira entrega, durante a pré-banca final os professores observaram que seria necessário mais que reflexões, experimentações, e formas de apresentar esse processo de desenvolvimento, me é exigido uma intervenção. Através de reflexões, leituras sobre o ensino de arquitetura e urbanismo hoje e a busca por elaborar um projeto vejo a possibilidade de elaborar uma intervenção como uma forma de questionar o cenário em que o arquiteto e urbanista se encontra na contemporaneidade, onde é necessário um posicionamento corporificado e reflexivo já que no contexto atual quem direciona o “programa de necessidades” é o mercado, este mercado que apropria das táticas e da resistência para transforma-la em produto vendível. Ainda ressaltando a importância do processo, da prática incorporada deste trabalho, apresento de forma sistemática meu desenvolvimento, elaboro dois cadernos, onde um trará a sistematização da narrativa do processo e reflexões sobre o tema e outro caderno que trará os produtos gerados pelas ferramentas utilizadas durante a prática, exercícios gráficos e imagéticos que surgem de forma não linear durante todo o processo do trabalho com uma necessidade de trazer as reflexões utilizando outros suportes além do texto cientifico. A necessidade desta divisão é para não confundir o aporte teórico presente no trabalho com as imagens geradas durante o desenvolvimento deste, deixando as duas formas de apresentação mais livres e valorizando o potencial de cada formato. Vejo que, neste caso, o interessante seria a utilização simultânea dos dois suportes para leitura completa do trabalho. Nesta conclusão percebo o quão são necessárias a reflexão e a afetação dentro da formação, deixar o corpo ser afetado e ele afetar o espaço, uma busca por uma prática mais sensível utilizando uma metodologia aberta e referenciada em diversas áreas do saber, ver no cotidiano a possiblidade de enxergar quem o faz dia-a-dia que transforma as impossibilidades de forma criativa e humana. Após esta breve apresentação sobre o percurso deste trabalho, cedo à necessidade de fragmenta-lo 12


criando tópicos que sobressaltam em minhas reflexões, na tentativa de uma melhor apreensão do leitor. * 1 – A Busca por uma cidade subjetiva – Como que a posição e a produção do arquiteto urbanista influenciam a dinâmica da cidade e dos espaços? Como há uma necessidade de reflexão do posicionamento do arquiteto urbanista (e do estudante de arquitetura e urbanismo), que está inserida em um contexto social, econômico, e que pede um posicionamento político? O que há além da materialidade da arquitetura? Como o arquiteto urbanista pode se posicionar a favor de uma cidade mais lúdica e coletiva? 2 – Posicionamento metodológico – Após estas perguntas, há uma necessidade de repensar como me posicionar como arquiteta urbanista em formação diante as questões levantas. Busco por metodologias que enxergam a complexidade do espaço urbano, trazem experimentos e questões que abrem meu olhar e entendimento das relações que acontecem ali. 2.1 – Ferramentaria – Ferramentas que utilizo durante a metodologia. 3 – O lugar praticado – Um breve histórico sobre o lugar de estudo, desde sua construção até os dias de hoje. 4 - O golpe do sentar – O percurso de encontro do objeto de estudo, o sentar. 5 – Experimentos: 5.1 - #1 Sênteur 5.2 - #2 Convite ao Sênteur 5.3 - #3 Suporte para o Sênteur 5.4 - #4 Relatos 5.5 - #5 Permanecer 6 – Os desdobramentos– Aqui tenciono o que obtive em meus experimentos com três eixos, as táticas/cotidiano, tempo/espaço e a resistência/corpo. 7 – A Ilha da permanência – Proposta de uma intervenção urbana no eixo estudado entre o início da Avenida Goiás até o cruzamento com a Avenida Anhanguera. Criada para problematizar os desdobramentos da prática e evidenciar o que o planejamento da cidade já tem feito.

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*Ver Pág. 03 e 04 - caderno prático


a busca por uma subjetividade

“O artista polissêmico, polifônico, que o arquiteto e o urbanista devem se tornar, trabalha com uma matéria humana que não é universal, com projetos individuais e coletivos que evoluem cada vez mais rápido e cuja singularidade – inclusive estética – deve ser atualizada através de uma verdadeira maiêutica, implicando, em particular, procedimentos de análise institucional e de exploração das formações coletivas do inconsciente.”. (GUATARRI, P. 176 ,1992) A cidade é um espaço complexo, inconstante, cheio de conflitos, desejos, dualidades produtoras de subjetividade individual e coletiva. Mais do que seus aspectos de infraestrutura, há uma necessidade de repensar a imaterialidade produzida nela para depois pensar em uma produção de materialidade. Essa necessidade também exige um posicionamento transdisciplinar do arquiteto urbanista. Existe um anseio pela construção de uma cidade que fuja dos agentes hegemônicos, ditadores de verdades e desejos, que enxergam nas edificações arquitetônicas as soluções de problemas mercadológicos. O que se quer neste trabalho, é indicar um outro caminho a ser percorrido na busca por uma prática mais humana. Porém, essa busca não é nova, retomando um movimento que surgiu nos anos cinquenta, a Internacional Situacionista tinha questionamentos inicialmente ligados a arte e a vida cotidiana. Havia uma crítica a arquitetura e urbanismo, em especial ao funcionalismo moderno. Guy-Ernest Debord, fundador da IS, muito influenciado pelo movimento Dadá e Surrealista, formula através de práticas e procedimentos a base do pensamento urbano situacionista, dentre elas estavam: a psicogeografia, a deriva e a construção de situações. A psicogeografia para os situacionistas é um “Estudo dos efeitos precisos do meio geográfico, conscientemente organizado ou não, que atuam diretamente no comportamento afetivo dos indivíduos.”,(‘’Définitions”, Internacionale Situationniste, n.1, 1958.), a deriva está relacionada a prática da errância urbana e a construção de situações, seria o “Momento da vida, concreta e deliberadamente construído mediante a organização coletiva de um ambiente unitário e de um jogo de acontecimentos.”, (‘’Définitions”, Internacionale Situationniste, n.1, 1958.). De acordo com JACQUES (2003), “À medida que os situacionistas afinavam as suas experiências urbanas, eles abandonaram a ideia de propor cidades reais e passaram à crítica feroz contra o urbanismo e o planejamento em geral. Se eles se posicionavam cada vez mais contra o urbanismo, ficavam sempre a favor das cidades, ou seja, eram contra o monopólio urbano dos urbanistas e planejadores em geral, e a favor de uma construção realmente coletiva das cidades. ’’. Os pensamentos da IS servem de indagação, reflexão para o posicionamento do arquiteto urbanista hoje, além de trazer críticas ao processo de espetacularização2 das cidades. A reflexão sobre o posicionamento do arquiteto urbanista se faz necessária, há uma necessidade de busca por subjetivação também na profissão. Como se posicionar para essa busca? O que seria

2 - Espetáculo por Guy Debord: “o espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem” uma crítica à alienação da sociedade gerada pela valorização de produtos mercadológicos.

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essa subjetivação enquanto estudante de arquitetura e urbanismo? Onde esse posicionamento vai me levar? O que teremos no final desse processo de reflexão? São perguntas que chegam até mim, não só através de reflexões internas, mas de indagações externas. Estamos inseridos em um contexto que busca mais por respostas do que por perguntas. Aqui, as perguntas surgem cada vez mais para potencializar a discussão. Sobre essa busca, “(...) pouco se tem investido no entendimento dos processos de subjetivação relacionados com questões teóricas e práticas no desenvolvimento de suas competências profissionais, e isso, particularmente, em relação ao conceito de criatividade. Tem prevalecido apenas a objetividade do mundo da representação do real e do possível. ”, como MAGNAVITA (2015, p.18) pontua. A relação entre a subjetividade parece estar ligada a processos mais experimentais, lúdicos e criativos que tentam inicialmente escapar da objetividade dessa representação da realidade. Sendo nestes processos necessários também uma transdiciplinaridade, relacionar o posicionamento a outros saberes que tocam na arquitetura e no urbanismo. Sobrepor estes outros saberes ajudam no processo de subjetivação. “(...) Produzir o novo é inventar novos desejos e novas crenças, novas associações e novas formas de cooperação. Todos e qualquer um inventam, na densidade social da cidade, na conversa, nos costumes, no lazer – novos desejos e novas crenças, novas associações e novas formas de cooperação. A invenção não é prerrogativa dos grandes gênios, nem monopólio da indústria ou da ciência, ela é a potência do homem comum. Cada variação, por minúscula que seja ao propagar-se e ser imitada, torna-se quantidade social, e assim pode ensejar outra invenções e novas imitações, novas associações e novas formas de cooperação. Nessa economia afetiva, a subjetividade não é o efeito ou superestrutura etérea, mas força viva, quantidade social, potência psíquica e política.” (PELBART,2003) A metodologia experimental que pratico utiliza de referências além da arquitetura e do urbanismo, se estrutura em conceitos da antropologia, da filosofia e das artes. Experimentar, colocar o corpo na prática de uma metodologia, enxergar a arte como um lugar fértil para o processo de subjetividade são meios de efetivar essa busca. Todos os processos experimentados tinham um cunho de intervenção urbana, mesmo que não de forma material, o primeiro é feito colocando meu corpo no espaço e registrando com uma câmera e desenhos; o segundo coloca o meu corpo sentando em lugares observados, permanecendo por um tempo; o terceiro é uma intervenção com lambe e o convite para sentar e o quarto ocorre quando levo minha cadeira para sentar durante horas por dois dias. Todo esse processo* reverbera em uma 15

*Ver Pág. 05 e 06 - caderno prático


sensibilidade do meu olhar, do meu corpo enquanto pesquisadora. Porém, quero deixar claro que este processo não é uma verdade a ser seguida, a reflexão sobre métodos e a busca por um posicionamento mais subjetivo me mostrou inúmeras possibilidades de posicionamento, o melhor seria sempre deixar os “(...) métodos meio frouxos que é para a vida poder entrar e modifica-los. Diriam os doutos do racionalismo funcionalista: faço uma ciência ruim que não pode ser transformada em modelo – ou norma, ou padrão – que possa ser repetido do mesmo modo, igual em qualquer lugar, ao infinito.” (MAGNAVITA,2015, p.64). Essa metodologia, não se reproduz como uma cartilha de sucesso a ser seguida, trata-se de um processo único e singular de subjetivação, que se desdobra em uma sensibilidade que constrói o que é coletivo.

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Posicionamento metodológico

Ressalto que o processo e desenvolvimento desta busca, é mais importante do que onde se almeja chegar no final. A exploração de ferramentas elaboradas durante a metodologia e a sobreposição de resultados apresentam caminhos, situações, oportunidades de entrar em contato com a complexidade da cidade contemporânea, e de ver o projeto como um processo que deve ser revisto, de acordo com JACQUES (2016), “(...) as ferramentas, instrumentos e métodos ligados ao projeto, sobretudo em urbanismo, ainda herdados em boa parte do movimento moderno em arquitetura e urbanismo, já não são suficientes para compreender a complexidade da cidade contemporânea e, em particular, de nossas cidades brasileiras, ainda tão segregadas e desiguais.”. A metodologia desenvolvida durante este trabalho se encontra no limiar, no meio. No entre a prática e a teoria, onde utilizo referenciais metodológicos para ser praticante do espaço e retomo a teoria em confronto com resultados observados através de ferramentas. Quando coloco o meu corpo no espaço urbano ele se transforma também em uma ferramenta para apreensão do espaço. O uso das ferramentas que descreverei abaixo surge sem muita previsão, o anseio que carrego é de utilizar formas de expressar e de captar o que observo e como que meu corpo é afetado e afeta o processo. “Se pensamos o projeto como um processo que agrega uma multiplicidade de configurações momentâneas, também polifônicas, não haveria possibilidade de qualquer tipo de síntese unitária final, fixa, uma metodologia rígida e doutrinária. As metodologias, no plural, seriam sempre provisórias e efêmeras. Um outro tipo de conhecimento seria possível a partir da renúncia à metodologia única, a partir do reconhecimento de que para se contemplar um “objeto” múltiplo – como a complexidade das cidades – seria preciso aceitar a impossibilidade de um só método, um só caminho, e também explorar a multiplicidade metodológica e teórica. “ (JACQUES, 2016)

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ferramentaria

As ferramentas que descreverei não são necessariamente uma ferramenta palpável, são posicio-

*Ver Pág. 07 e 08 - caderno prático

namentos e experimentos, alguns se relacionam com uma posição do corpo na cidade, outras são representações imagéticas e experimentações textuais. - FLÂNEUR O contato que tenho com a figura do flâneur foi inicialmente através do trabalho do Rômullo Fontenelle, onde ele o relaciona com a deriva urbana e “toma emprestado” alguns conceitos como a “capacidade de se maravilhar com coisas triviais do cotidiano e o distanciamento (sem se distanciar) que possibilita enxergar e vivenciar as outras cidades imateriais que coexistem (...)”, (FONTENELLE, 2013). Uma figura que vê a cidade sem disfarces, é um artista, um observador, as vezes um poeta, um pintor do circunstancial, o flanar seria andar sem ser notado, sem destino, perambular pelas ruas da cidade, estar em todos lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum. “Estar fora de casa, e, contudo, sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, (...)” (BAUDELAIRE, 1996, P.22) É o exercício de me sensibilizar com o cotidiano e perambular pelas ruas que dão oportunidade de construir um olhar sobre a cidade, onde ela deixa de ser um produto e passa a ser algo compartilhado e construído por vários citadinos.

- DESENHOS Os desenhos de observação foram feitos em dois lugares na Avenida Goiás. A escolha por utilizar o desenho como uma ferramenta de registro acontece por dois motivos, por ter tido experiência em encontros de Urban Sketchers3 e porque seria uma forma registro diferente de uma foto, o desenho do que observo não comporta todos os detalhes que uma fotografia comporta, logo, pego o

3 - Urban Sketchers, são encontros feitos na cidade para registrar através de desenhos um cenário urbano.

que mais me chama atenção na paisagem e confronto com outros registros, como a fotografia por exemplo.

- CALIGRAFIA Os exercícios de caligrafia aparecem como um gesto afim de expressar um afeto tido com todo o processo desenvolvido, as observações que viraram narrativas dos objetos e citações de alguns autores se transformaram neste exercício. Isso fez o meu olhar se atentar a o que poderia se transformar para praticar a caligrafia, o registro de um destes exercícios está no DVD em anexo, unido com áudios capturados durante as idas na Avenida Goiás. 18


- VÍDEO*

*Ver https://vimeo.com/198839009

O vídeo se tornou uma ferramenta e também um exercício para metodologia de apreensão, uma ferramenta, porque assim consigo trazer para momentos de reflexões o que observei no local, uma maneira de confrontar os desenhos, os relatos com as capturas. Um exercício, por trazer a sensibilidade do meu olhar para a lente da câmera. A edição destas capturas com a repetição de algumas imagens sem tantos controles ou domínio de técnica de vídeo e edição permite uma experiência de inquietação, uma produção aberta como o desenrolar deste trabalho, as dinamicidades das imagens representam histórias, tempos, objetos, pessoas, desejos, espacialidades vivas. Que não pretende contar uma história de começo, meio e fim, mas utilizar da força da imagem para gerar outras reflexões relacionadas ao cotidiano, cidade, subjetividade e imagem. - FOTOCOLAGEM É uma ferramenta lúdica, onde consigo trazer para as imagens a composição de recortes de fotografias tiradas durante o exercício de ir ao espaço praticado, misturar com pensamentos de que ecoam e interligam a imagem e a escrita. Há uma liberdade na criação destas imagens, mas ao mesmo tempo um contexto ao qual ela se insere. A replicação de algumas imagens e personagens se mostram como um desejo de brincar com uma espacialidade que não pode ser materializada da mesma forma que as fotocolagens. Os elementos imagéticos que remetem ao universo, céu, está relacionado a temporalidade, ao elemento que está sob todos os praticantes, objetos, cidades, histórias, ruas... - LAMBE – LAMBE* A produção de lambe-lambe foi um exercício onde algumas fotocolagens foram transformadas em lambe-lambe e coladas em seis trechos da Avenida Goiás. Essa intervenção era proposta em conjunto com um mapa-lúdico para um projeto final da disciplina “Poéticas do desenho”, que foi desenvolvido paralelo ao trabalho de conclusão de curso, e que objetivava promover uma comunicação entre a pesquisadora e as pessoas afetadas. - EXERCÍCIO CARTOGRÁFICO O exercício de cartografia urbana aparece após o contato com o livro “Exercício para liberdade”(2015) de Brígida Campbell, onde ela cria cartografias com palavras-chaves sobre a “privatização da vida”. Havia uma necessidade de pensar em palavras que se repetiam com frequência nos textos, falas, relatos, e entender os vínculos que estas poderiam ter com outras e poderiam fomentar meu processo e abrir novos caminhos para o desenvolvimento. 19

*Ver https://vimeo.com/198824548


- MAPA LÚDICO Junto com o lambe-lambe, o mapa lúdico funcionou como um convite para uma exposição para a disciplina de núcleo livre mencionada, crio intervenções na cidade e faço um convite ao gesto de ir até a Avenida Goiás para sentar, permanecer, observar e talvez se deparar com alguns lambes. Alguns fragmentos de narrativas lúdicas foram criados junto ao mapa, sem especificar e identificar uma espacialidade fiel ao observado, a intenção é estimular sensações em quem se propõe a ser afetado pela subjetividade da cidade. Na tentativa de levar a pessoa a se reconhecer e colocar o corpo no local e não através de um mapa com as coordenadas e visto de cima. Para CERTEAU (1996), quando se vê a cidade de cima, “O corpo não está mais enlaçado pelas ruas que o fazem rodar e girar segunda uma lei anônima(...). Aquele que sobre até lá no alto foge à massa que carrega e tritura em si mesma toda identidade de autores ou espectadores. ”, a ideia do mapa lúdico é se reconhecer no meio do espaço, sendo parte dele, sendo ele, com o corpo nele. - NARRATIVAS As narrativas que desenvolvo surgem como uma reflexão sobre os objetos que dão suporte para o sentar. Os que são levados pelos praticantes e os que são planejados para estar ali. Algumas questões vêm à mente para produzir essas narrativas, que vão além do objeto em si, personifico ele na tentativa de relaciona-lo com as histórias e pessoas que observo durante meu estudo. Refletir sobre as características impregnadas na materialidade dele, no corpo do objeto, o que passa por ele todos os dias, como que eles são adaptados e personalizados de acordo com quem os utiliza. - SENTÊUR É um termo que crio fazendo uma analogia ao flâneur, só que este refere-se ao ato de permanecer/ sentar no espaço urbano, durante o desenvolvimento do trabalho tomo a posição do sentêur como uma ferramenta para dar continuidade aos estudos com o meu corpo no espaço. Este conjunto de ferramentas constroe em meu corpo pesquisador uma sensibilidade, todas essas formas de se relacionar com o trabalho e de produzir subjetividade faz com que meu posicionamento diante futuras proposições seja reflexivo, crítico e sensível. É um desejo de enxergar com outros olhos o que sempre esteve diante deles. “As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul – Que nem uma criança que você olha de ave.” (Manoel de Barros, 1996)

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o lugar experimentado

Como dito anteriormente a escolha do Setor Central como lugar de estudo acontece devido algumas práticas durante a faculdade e por ele lembrar minha cidade, minha infância vivida em um centro comercial onde eu conhecia as pessoas que passavam, o senhor que vendia picolé, o dono da farmácia que conhecia meus pais. Em minha memória, a calçada e a rua eram espaços que faziam parte do meu cotidiano. Além de ser um local que me instiga pela diversidade de sons e pela surpresa quando escuto alguns inesperados, comerciantes tentando vender seus produtos, música vinda das lojas, pessoas conversando, carros e ônibus passando, o rapaz cantando com seu violão embaixo da marquise de um edifício, a bicicleta com um som vendendo pamonha, essa diversidade me atrae. Mas onde no Setor Central? Um lugar que pudesse sentar, observar, onde teria uma diversidade e quantidade de pessoas? A Avenida Goiás atende todos os requisitos escolhidos, além de ter várias árvores – sombra - que tornaria meu exercício mais agradável.* Apresento um breve histórico sobre o início da construção de Goiânia, com o intuito de refletir sobre a cidade moderna e a inversão de valor sobre o tempo que configuram nossas relações com o espaço. No Brasil no início do século XX, o urbanismo passa a ser discutido de uma forma mais ampla e técnica levando a uma remodelação das cidades brasileiras. No final do século XIX, em Goiás, começam a surgir intenções de mudanças da capital do estado (até então Vila Boa de Goiás).Goiânia surge como uma materialização de ideias modernizadores de Getúlio Vargas e Pedro Ludovico Teixeira. Em 1933 o plano urbanístico de Attílio Corrêa Lima - embasado pelos planos das cidades e capitais europeias e norte-americanas- entra em ação para a nova capital do estado de Goiás. De acordo com MANSO (2010), Attílio ‘’(...) privilegia as grandes perspectivas, estabelece o centro cívico e administrativo como o elemento fundamental na composição, por ser visto de todos os pontos da cidade. Este foi projetado para servir aos desfiles e paradas oficiais. No conjunto de vias radiais importantes que para ele convergem, a Avenida Goiás, eixo norte-sul da composição urbana, é a via de maior destaque, sendo tratada como uma grande alameda. A avenida-parque, por sua vez, seria utilizada como um enorme passeio público, onde a elite faria o footing à tarde e à noite. No extremo norte dessa avenida, situada na parte mais baixa da cidade, localiza-se a zona industrial – junto da estação ferroviária, de modo a possibilitar o seu crescimento ao longo da via de trens.’’. Como planejado por Attílio, a Avenida Goiás é parte do eixo viário, liga o centro administrativo à Estação Ferroviária da cidade. Um grande eixo monumental, para época de sua construção. De acordo com MILHOMEM (2012) após conversas com moradores do Setor Central, o local ‘’onde a elite faria o footing à tarde e à noite’’ se consolidou, o chamado vai-e-vem de moças e rapazes pelas calçadas da avenida levaram até grandes namoros e casamentos. Em 1970 a avenida passa por transformações, os canteiros desaparecem para surgir um calça21

*Ver Pág. 09 e 10 - caderno prático


dão e criam uma faixa exclusiva para ônibus. Em 1990 o calçadão é escolhido pelos camelôs para ser um espaço de comércio. Nos anos 2000 acontece um concurso nacional para recuperação da Avenida Goiás. O vencedor, Jesus Cheregatti, tentar recompor o cenário monumental e romântico da avenida. Sob este cenário moderno que Goiânia surge e levando em conta como que a Avenida Goiás foi concebida, ocupada e restaurada, percebe-se uma retomada dela como espaço de encontro, existe um uso que inverte essa lógica da cidade pressa na Avenida Goiás, apesar de ser um eixo de circulação viária, os praticantes constroem situações favoráveis para a permanência, ali há encontro, há pausa.

o golpe do sentar

Coloco então o meu corpo no espaço praticado, na Avenida Goiás. O tempo parece passar de forma diferente para os pedestres do Setor Central, apesar da densidade de carros e comércio, os citadinos parecem não ter pressa, o ir e vir consegue ser lento. Paro para desenhar, de frente ao Banco Itaú, sento em um banco no canteiro central da Av. Goiás, as pessoas que passavam por mim observavam, mas logo fui “esquecida”. Na calçada havia uma árvore de grande porte, que tinha sido podada bem no meio para passagem de fiação, entre a calçada e o edifício se formava um pequeno degrau, onde haviam pessoas sentadas, pareciam esperar algo ou alguém, ali, sentados na calçada, um espaço público em limite do privado. A diversidade de apropriação do espaço salta aos olhos, lembro de um conto lido no livro de Ítalo Calvino em Cidades Invisíveis, que em cada pessoa se tem uma cidade e essa cidade afeta a singularidade do olhar, “confirma-se a hipótese de que cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares. ”. A cidade como o lugar das diferenças, das inconstâncias, do cotidiano, do coletivo, a cidade dos praticantes. De acordo com CERTEAU (1996) as práticas do espaço, “remetem a uma forma específica de operações (maneiras de fazer), a uma outra espacialidade (uma experiência antropológica, poética e mítica do espaço) e uma mobilidade opaca e cega da cidade habitada ”, onde essas práticas “burlam” a cidade planejada. São estas “microbianas, singulares e plurais” que começo a analisar. Após finalizar alguns desenhos ando mais um pouco, era por volta de meio dia, encontrei pessoas almoçando sentadas na grama do canteiro central, outras sentadas nos bancos fazendo crochê 22


outras só aparentemente esperando ou “perdendo tempo”. De frente ao Grande Hotel, procuro um banco com sombra, mas ali só tinha bancos que estava pegando sol, quase não haviam pessoas ao meu redor, novamente na paisagem que desenho tem um edifício com uma árvore de grande porte na frente e algumas pessoas sentadas abaixo da marquise do edifício que fazia sombra, estavam sentadas em bancos “improvisados” também, mas dessa vez o edifício não dava suporte de um degrau como no outro caso, estavam em bancos de plástico, que não eram do local, bancos aparentemente levados pelos próprios que estavam usando. Fiz meu registro de desenho e fui embora. No segundo dia optei por mudar minha forma de posicionar no espaço, levei uma câmera, bem pequena, quase imperceptível para quem está caminhando e fui registrar meu caminho pela Av. Goiás e suas ruas do entorno, passei por lugares que ainda não conhecia, mas privilegiei a caminhada pelas quadras imediatas a avenida. Percebi algumas coisas pela caminhada que se confirmaram durante a análise do vídeo, novamente o que foi levantado no primeiro ato se repetiu: as pessoas sentadas em lugares que não foram pensados para tal função, usando de táticas para se apropriar do espaço, usando bancos móveis (de plástico), sentando na mureta dos edifícios com a calçada, sempre em lugares com sombra. Faço então uma ponte entre os relatos do que foi visto no local de estudo e o estudo de táticas urbanas apontada por CERTEAU (1996), onde a tática é uma forma de insinuar e fragmentar ações sobre o espaço sem poder retê-lo à distância, onde ela é uma forma de vitória do lugar sobre o tempo, o ato de sentar nesses espaços (não planejados para tal) como uma forma de “dar golpe” ao sistema que é imposto para o praticante da cidade, é uma tática que burla a lógica de tempo na cidade contemporânea. As pessoas não só transitam, elas permanecem.* A cada ida e proposição de percorrer ou permanecer no espaço, há a captura algo novo. Não novo por não estar ali quando fui antes, mas novo aos meus olhos. De acordo com CRAVEIRO (2014),“(...) ao colocar o corpo pesquisador na cidade, apresenta-se a possibilidade de penetrar e ser penetrado por realidades múltiplas, a fim de reconhecê-las e quando possível, exaltar suas potências, ao invés de estar condicionado a uma forma de conhecer pré-determinada, rigidamente estabelecida que busca gerar conceitos e representações fixas do real. ”. Então, retorno ao centro para deixar essa cidade permear meu corpo, e meu corpo permear a cidade. Observo os pontos de ônibus que ficam no canteiro central da Av. Goiás, eles são na verdade uma cobertura, sem bancos. Me pergunto, por que em um local de espera não é proposto objetos que permitam este ato de uma forma mais agradável (além apenas da cobertura), talvez porque seria um fluxo rápido de transporte público, logo quem pegaria não ia ter a necessidade de sentar, mas de acordo com a imagem que me deparo, os usuários do transporte coletivo têm sim uma necessidade de sentar, essa imagem pode ser considerada de acordo com CERTEAU (1996), como uma tática 23

*Ver Pág. 11 e 12 - caderno prático *Ver https://vimeo.com/197877739


uma tática feita pelos praticantes da cidade, “são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo – as circunstancias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço (...)”.

experimentos

Após idas ao espaço e confronto do resultado de algumas ferramentas utilizadas com teoria estudada, chego ao meu objeto de estudo, o sentar. Algumas reflexões sobre a potencialidade de permanecer começam a surgir, mas junto com elas surge também uma vontade de retornar ao espaço e me posicionar como praticante por mais tempo afim de observar esse potencial e entender melhor como posso desdobrar este ato e relaciona-lo com teorias. #1 – Sentêur Após a leitura do artigo “Deriva parada” de Janaína Bechler da revista ReDObRa, me instigo a experimentar o mesmo exercício que ela propõe em seu texto. Chamo este exercício de sentêur4 , me coloco sentada em lugares já analisados durante o desenvolvimento do trabalho, só que agora, não só como observadora, mas como um corpo participante.

4 - Sentêur - termo criado para referir ao ato de permanecer/sentar no espaço urbano, uma analogia ao flâneur de Baudelaire (1988).

Pratico o sentêur na mureta do Banco Itaú na calçada da Avenida Goiás. O mesmo lugar onde inicio minhas andanças eu paro para observar, só que agora não mais no canteiro central, olhando de fora. Estou dentro do espaço observado. Tento me colocar ao máximo imperceptível, dessa vez não levo nada para desenho, tenho em minha bolsa uma câmera que evito usa-la para não inibir a ação das pessoas ao meu redor. Chego ao local, sento na mureta, contemplada pela sombra da árvore, haviam duas mulheres utilizando a mesma, mas além deste suporte, elas tinham bancos de madeira. Observo a calçada, este espaço indefinido, limiar, “onde cessa a visibilidade, vivem os praticantes ordinários da cidade’’, CERTEAU (1996), as pessoas passam, esperam, algumas cumprimentam essas mulheres que pareciam vender crédito para alguma instituição bancaria. Olho para o relógio para marcar o tempo que eu ficaria ali. Começo a desacelerar, mesmo em prática deste exercício estive inúmeras vezes em outros pensamentos que fugiam daquele espaço, e em outros casos, pensamentos que me inseriam novamente nesta calçada. Observo um homem, sentado em uma cadeira de plástico na calçada, ele estava bem próximo ao meio-fio, na cadeira haviam vários tapetes e ele estava sentado sob eles. Ela 24


estava em frente a um poste de energia, ele estava utilizando da sombra que o poste fazia na calçada, para se proteger do sol. O tempo foi passando, e continuei a observa-lo, foi chegando algumas motos e estacionando na rua, cada moto que chegava, ele levantava e colocava sob o assento dela, um tapete. Observo que ele estava ali vigiando as motos e oferecendo um serviço, protegendo elas com um tapete. Após um tempo um carro tenta estacionar logo à frente das motos, e no meio da baliza, ele esbarra em uma moto (dessas com um tapete em cima), então o homem do tapete (vou me referir ao homem que vigia as motos) se levanta para ver o que aconteceu. O passageiro do carro sai para também entender o que havia acontecido, eles conversam, levantam a moto, esperam um pouco, trocam telefones, e o homem do carro vai embora, logo chega o dono da moto, o homem do tapete explica o que aconteceu, o dono tenta contato por telefone com o homem do carro, meu telefone desperta, preciso ir embora.*

*Ver Pág. 13 e 14 - caderno prático

#2 – Convite para o Sentêur Este segundo experimento é o mencionado resultado de um projeto da disciplina de núcleo livre oferecida pelo curso de Artes Visuais, Poéticas do desenho. Durante o processo de desenvolvimento do projeto, percebi minha necessidade de transitar e vincular meus processos artísticos com o curso de arquitetura, com bases no meu trabalho de conclusão de curso desenvolvo meu projeto final. O trabalho se resume em um convite ao sentêur que faço para o expectador e para que este convite aconteça desenvolvo quatro exercícios: a criação de cartografias sobre espaços comuns e sobre o sentêur; criação de fotocolagens através dos registros feitos na Av. Goiás fundido com algumas pinturas em aquarelas; elaboração de lambe-lambe como uma forma de intervenção no espaço urbano e, por fim, a elaboração de um mapa psicogeografico com a localização dos lambes e poemas urbanos desenvolvidos de forma lúdica para compor o mapa. Este trabalho foi exposto durante uma semana, em formato de revista e mapa na exposição Desígnio na Faculdade de Artes Visuais da UFG.* Como dito anteriormente o exercício de cartografia urbana serve como uma outra ferramenta para instigar e abrir novos caminhos para o desenvolvimento. As palavras escolhidas se relacionam com o que chamo de espaço comum, que são espaços que estão relacionados a cidade coletiva, da troca, do encontro. A primeira foi “espaço público”, que leva a questionamentos sobre como que ele acontece hoje nas cidades, o vazio, o abandono, a crise deste espaço de fato acontece? Existe um descaso do poder público com essas áreas e um processo de privatização e espetacularização, logo, a problemática e os questionamentos que surgem vão além dessas palavras e do senso comum. A segunda é “Goiânia centro”, quando escolho essas palavras já surgem inúmeras cenas do centro da cidade, e como que este exercício fortaleceu os motivos da minha escolha do local para estudo 25

*Ver Pág. 15 e 16 - caderno prático


e para enxergar através das palavras outros tantos potenciais que existem no espaço. A última é “sentêur”, palavra que crio para referir ao permanecer/sentar no espaço urbano, outras palavras se relacionaram de imediato e instigaram meu olhar para desenvolver os desdobramentos deste ato. As colagens aparecem como uma ferramenta para confrontar e realçar peculiaridades encontradas nas andanças, foram de suma importância para visualizar a potencialidade já presente no espaço urbano analisado, o sentar. Para este trabalho utilizo as imagens capturadas sobrepostas a imagens aéreas do setor central unida a aquarelas que remetem a imagem de espacialidade, de tempo, céu, espaço. Sobreponho também alguns pensamentos que tomaram corpo durante o processo do trabalho. O mapa vem como um convite para o sentêur, porém a intenção do mapa não é ser um guia onde você vai olhar ele de cima e vai reconhecer o exato ponto onde aconteceu a intervenção, ele funciona como um mapa psicogeográfico – uma formulação dos situacionistas - , onde crio um percurso mental com um desenho que não representa o mapa com exatidão, onde a intenção é o expectador (do mapa e da própria cidade) se perder neste espaço e se torna participante da obra, para eu poder experimentar parte do que foi praticado durante o desenvolvimento do trabalho, ir até o setor central, na Av. Goiás e caminhar, parar, sentar, sentir, observar, afetar e ser afetado. Para instigar o imaginário e a curiosidade destes participantes, crio textos urbanos, lúdicos que fornecem características do local mas que instiga a imaginação e pode levar a qualquer outro lugar, cena ou situação, é ao mesmo tempo parte de minhas descrições e sensações obtidas no espaço apreendido e parte do que carrego em meu corpo por todos os outros lugares já percorridos, que para quem o lê poder ser levado a outros com a intenção de perder o controle deste espaço físico. #3 – Suporte para o Sentêur Durante os processos de experimentações da metodologia, surge uma idéia de construir um mobiliário urbano, não como uma resposta a uma problemática, mas como um suporte físico as reflexões e futuras experimentações desta metodologia. Cabe observar que coincide com a ocorrência da primeira banca intermediária de avaliação do meu processo, na qual obtenho nota máxima mas recebo a seguinte questão: “O seu projeto será de mobiliário urbano?” Após observações dos mobiliários existentes, como que as pessoas os utilizam, os suportes diversos que estas criam para poder sentar, como que elas se relacionam umas com as outras, junto com o que trago de critica a relação espaço x tempo, cidade produto, arquitetura mais humana, arte relacional – onde o expectador passa a ser parte da obra – proponho a execução de um mobiliário experimental. A intenção é colocar este mobiliário no espaço analisado, e identifica-lo de alguma forma, ficar por perto e registrar como que será a reação das pessoas. Considerando que tudo pode acontecer nesta 26


ta experiência, a intenção é não ter o controle sob o que as pessoas vão fazer com ele, como que vão usá-lo ou se é que vão usá-lo. A análise vai além da experiência de execução do objeto, mas como as pessoas vão se relacionar com ele e com a situação diante delas. O mobiliário possui duas intenções iniciais: a primeira é cria-lo para que ele seja um suporte para o sentêur; a segunda é que para que o gesto de permanecer aconteça ele terá que ser dependente de outra pessoa, o que isso significa? Que para o mobiliário funcionar a pessoa precisa convidar outra pessoa para sentar-se junto a ela. A referência que utilizo para pensar como isso pode ser materializado é o princípio de um brinquedo de criança, a gangorra. A gangorra é uma prancha retangular comprida apoiada no meio por um eixo, onde as crianças sentam em suas extremidades e impulsionam com o pé para brincar. Se uma das crianças levanta o brinquedo não funciona. É esta referência que adoto no meu partido inicial.* Encontro outras referências que influenciam pensar neste mobiliário. O coletivo de arte Opavivará,

*Ver Pág. 17 - caderno prático

cria intervenções em espaços públicos da cidade e propõe inversões nos modos de ocupação deste espaço, com o Carrosel Breique o grupo “convida a refletir sobre a necessidade de fazer uma pausa no automatismo que o ritmo do dia a dia incute em cada um. O carrossel de cadeiras giratórias desloca o ambiente fechado do escritório para a rua, espaço aberto e coletivo. A ciranda coletiva desautomatiza a função da cadeira normalmente utilizada apenas para o trabalho. O projeto proporciona aos participantes um olhar e um estar lúdico, deslocamento e envolvimento com a cidade.”. Porém escolho não dar continuidade para construir este objeto que serviria de suporte para meus estudos. Vejo que existe um potencial nos objetos que já existem que dão suporte e que nesta etapa do trabalho poderia estar antecipando um projeto tendo outros estudos e análises ainda a ser feitas.

#4 – Relatos A ideia de criar relatos para os objetos observados surge após o exercício experimental de rever os vídeos feitos durante as idas ao espaço praticado, e criar intervenções nestes registros, alguns desses objetos aparecem de forma peculiar nos vídeos e me instigam a pensar o que estes têm a dizer. O que sua estrutura diz? O que ele recebe do dia-a-dia? Quais corpos os utilizam? Banco chave:* *Ver Pág. 18 - caderno prático

Banco observador: “Fui planejado para ficar ali, somos muitos, alguns tem a chance de ter uma sombra. Meu corpo só descansa quando o sol se põe. E quando isso acontece, já não tem pessoas que queiram me usar. Não sirvo a ninguém, fico observando as histórias, os corpos, os carros. 27

*Ver https://vimeo.com/197879606


O tempo passa por mim, sou observador, observado e também passado. ” Banco usado: “Nasci ali, somos muitos, eu tenho uma sombra que posso chamar de minha. Apesar disso meu corpo só descansa quando o sol se põe. E isso acontece porque nesse horário, não há pessoas que queiram me usar. Antes do sol se pôr, meu corpo serve de suporte para várias histórias, corpos e tempo que se desenrola naquele espaço. Nada demais, as vezes um corpo se deita cansado, outra hora um senta, come algo, espera alguém, encontra o outro, observa, espera, descansa, me cansa. “ Cadeira fio: “Tudo naquela esquina é novidade. De onde eu venho costumava ficar na calçada, na porta de casa no final do dia, escutando histórias, observando as pessoas, os carros. Agora, continuo na calçada, mas não na frente de casa. Fico entre a rua em uma banca de produtos naturais, sou suporte para um corpo cansado de quem vende o que é natural. Ali, sou suporte. Ainda há histórias, pessoas, carros. Mas, não sou parte, sou apenas paisagem a ser passada. ”

#5 – Permanecer Quando entro em contato com o trabalho realizado na oficina Insistir proposta por Alessia di Biase no Laboratório Urbano da UFBA em Salvador, fico instigada a me colocar no espaço como é feito na proposta. A proposta é insistir sobre um lugar, ocupar durante dois dias um espaço urbano, levar seu suporte para que o exercício aconteça significa assumir de fato um lugar no espaço público. Esse ato de estar em um lugar parado durante dois dias faz a percepção não só do olhar aguçar, mas as relações e percepção do nosso próprio corpo enquanto observador e praticante. Não foi um exercício simples, apesar de parecer com o primeiro experimento relatado, agora eu iria com um objeto, uma cadeira, eu iria ocupar um lugar e seria vista pelos praticantes. Escolhi um local para que o exercício acontecesse, na Avenida Goiás com a Rua 2, na esquina em frente à Agencia Bancaria do Itaú, ali sempre tem várias pessoas passando, o homem que vende fruta, o engraxate, a mulher que compra ouro, a banca de revista. Porém, quando pego minha cadeira e vou até lá, não consigo coloca-la, parecia que aquele espaço já estava cheio, as pessoas que estavam 28


até lá, não consigo coloca-la, parecia que aquele espaço já estava cheio, as pessoas que estavam ali o dominavam e não teria espaço para minha cadeira. Fui até o outro lado da rua onde só havia um homem que compra ouro sentado em seu banco de plástico, coloquei minha cadeira do lado e sentei. Peguei meu caderno e comecei a observar e fazer algumas anotações. Anotações de ações corriqueiras que passavam diante dos meus olhos. No segundo dia, retorno para o mesmo lugar, coloco minha cadeira e as pessoas ali já estavam me reconhecendo, já me sentia parte. Porém nesse dia, o sol estava forte e começou a me incomodar, então resolvo ir para o outro lado da rua, aquele lugar onde iria sentar desde o início, onde achava que não teria espaço para minha cadeira. Pego-a atravesso a rua e coloco do lado do engraxate e fico por ali. As pessoas lá também me reconheceram, “Você estava aqui esses dias né?”. Depois do exercício de permanecer e as anotações que faço, o relato que escrevo após essa experiência, percebo os desdobramentos que esta poderia ter. As dificuldades de anotar tudo que acontece, a necessidade de colocar dentro do meu texto referencias temporais quando relato as linhas de ônibus que passa, ou os inúmeros carros que estacionam no lugar proibido. Os acontecimentos que tem ali, eu estar presente e mesmo assim perder algumas coisas que passam diante de mim. A resistência das pessoas de estarem em um lugar e de criar táticas para que sua estadia seja mais agradável, o homem que senta na calçada para fumar. Como que as pessoas que permanecem no espaço servem como referência e ponto de informação, como o homem que compra ouro que sempre está ali na calçada trabalhando, até eu que estava sentada foi em alguns momentos abordada para fornecer alguma informação como nome de ruas ou se eu sabia onde era determinado estabelecimento. Pensei durante alguns momentos em como meu corpo não está disposto e nem habituado a essa situação, alguns momentos de tédio, que ao mesmo tempo que acontece muitas coisas, parecia algumas horas que nada acontecia acontecendo.*

*Ver Pág. 19 e 20 - caderno prático

O que concluo sobre esta experiência é que o espaço urbano como já dito por diversos autores,

*Ver https://vimeo.com/198826157

é complexo, e deve ser entendido em uma profundidade, peculiaridade e potencialidade. Enxergo três desdobramentos que se relacionam com todos esses experimentos em que me proponho. São neles em que tentarei aprofundar e relaciona-los com o que foi vivido e com teorias estudadas, na intenção não te obter respostas fechadas para todas as perguntas iniciais que aparecem para mim, mas na intenção de instigar e reconhecer a sensibilidade e a subjetividade presente naquele espaço e como nós arquitetos e urbanistas podemos rever nossa posição para a valorização das relações existentes promovendo espacialidades e intervenções que priorizem as relações humanas.

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a proposta

Esta proposta de intervenção urbana vem para responder à exigência estabelecida nas normas do Trabalho de Conclusão de Curso, que enxerga a elaboração de projeto como única forma de responder às reflexões abordadas durante o desenvolvimento do curso de arquitetura e urbanismo. Logo, o que venho a apresentar nesta entrega final é uma conceituação espacial dos meus desdobramentos e reflexões tidas durante a pratica da metodologia desenvolvida. A proposta problematiza os questionamentos iniciais e conclui refletindo sobre a posição do arquiteto urbanista tendo em vista o contexto social e políticos em que estamos inseridos, se faz necessário uma ação “para além do espetacular; termos olhos, escuta e corpo para nos envolvermos com a abundância de cidades que se fazem cotidianamente. ”, como pontua MARQUES (2010, p.32). Apresento a intervenção como narrativa de uma propaganda publicitária de revitalização realizada pela união do poder público e privado, uma forma criar um imaginário sobre as possibilidades de intervenção e fazer uma crítica as possibilidades de gentrificação e espetacularização dos espaços que recebem uma intervenção urbana. A ideia de abundância transborda para o excesso quando a união público/privado está referenciada exclusivamente pelos interesses deste último.

a ilha da permanência*

*Ver a partir Pág. 21 - caderno prático

O que seria em tempos de hoje ter um espaço exclusivamente da permanência? Onde fosse permitido e planejado você poder praticar o seu cotidiano ao ar livre em pleno centro cívico? Onde em qualquer momento de cansaço você pudesse tirar um cochilo embaixo da sombra frondosa de uma árvore? Escutando o barulho dos pássaros e dos carros passando? Onde você pudesse até utilizar do que foi pensado para ser apenas um assento para engraxar um sapato? Onde você pudesse apenas sentar ali para contemplar o cenário da cidade pressa? E até um espaço pensado para você, vendedor ambulante, onde ali seria o cenário ideia para vender o óculos de sol, uma revista, uma fruta fresca para quem permanece por mais tempo neste espaço de contemplação? Este cenário irá se concretizar, a proposta de revitalização foi uma união entre o poder público e o privado para você praticante Goianiense.

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Onde? Inicialmente a proposta começa na Avenida Goiás, próximo à Praça Cívica. Com cerca de 513 metros lineares de revitalização pura, onde tudo é permitido neste espaço, desde que você permaneça nele. Para isso criamos um modelo que poderá ser replicado no canteiro central inteiro e que não permite a mera circulação de pedestres. Mas essas pedestres precisam circular, que têm pressa, terão sim um lugar dentro de nossa proposta, porém não será na Ilha da Permanência, serão nos Eixos de Passagem, esses eixos já existem, são as calçadas. Lá, você que tem o tempo curto, em que o tempo é dinheiro e precisa chegar logo nos lugares, você terá uma calçada livre de pessoas que ficam tentando vender produtos, ou que permanecem atrapalhando a passagem. Mas você se pergunta, como que essa revitalização tirará essas pessoas da calçada? A estratégia é a mesma já empregada em alguns pontos da calçada: transformar espaços que poderiam abrigar uma pessoa para sentar, em espaços impossibilitados para sentar, no qual os espetos, rampas, pedras (e outros artifícios) são formas de transformar o degrau que poderia servir de assento em lugares para não abrigar pessoas que buscam descanso e/ou permanência. Outra estratégia é retirar as árvores existentes e marquises que fazem sombra na calçada, porque essas pessoas que atrapalham a passagem sempre arrumam um jeito de utilizar de uma sombra para benefício próprio. Assim não há possibilidade da perda de tempo àqueles que são condicionados pela prontidão exigida pelo capitalismo contemporâneo, mas fica delimitado o espaço aos praticantes da cidade que estão excluídos do processo produtivo idealizado. O perfil do usuário da nossa proposta de intervenção são os praticantes da cidade, eles que utilizam de táticas para reinventar os espaços ao seu favor. A ilha é voltada para eles. Podemos aprofundar no perfil destes usuários que recriam a cidade “a partir dos limiares onde cessa a visibilidade (...)” (CERTEAU, 1996, p.171). O que seria projetar um espaço para quem é excluído ou simplesmente invisíveis para o poder hegemônico que projeta a cidade? O que seria um espaço que permite a permanência destes que estão sempre burlando as regras da cidade? Um espaço que prevê a liberdade de prática qualquer desde que esta pessoa permaneça ou crie oportunidades de permanecer, seja trabalhando – de formas não legitimadas pelo mercado - comendo, dormindo ou perdendo tempo. A proposta é: pensar no corpo deste praticante ordinário da cidade que resiste e insiste em permanecer. Este que procura a sombra da árvore ou a sombra de um poste para poder ficar, que coloca papelão nos degraus que possuem pedras pontiagudas para poder sentar. Esse corpo que se agacha para sentar no meio fio para esperar o ônibus. O que este corpo pede? O que este corpo carrega? Que lugar ele ocupa? Como o espaço pode ser afetado por ele? Neste espaço feito para você, praticante, pensamos em como seu corpo pode experimentar um espaço livre da espetacularização do mundo contemporâneo, que possui os espaços públicos cada vez mais privatizados. Como faremos isso? Aqui a proposta é livre para que você crie experiências, você atualize o projeto através da prática e reinvente o seu cotidiano. 31


O programa de acontecimentos previstos para este espaço conta com ações corriqueiras, como: um espaço para colocar tapetes que podem ser utilizados para cobrir as motos estacionadas próximo a calçada; um lugar que possibilite colocar uma chave e uma sacolinha plástica amarrada, pois você pode precisar guardar algum objeto nesta sacola; um espaço que permita você utilizar sua almofada, porque ficar trabalhando sentado o dia todo em um banco duro nenhum corpo merece. Porém entendemos também que essa infinidade de possibilidades e de acontecimentos que pode vir a ter no espaço, escapa deste breve memorial que estamos apresentando para você praticante, escapa dos nossos olhos de observadores afim de reter e planejar todas as possibilidades, até porque, para vocês, é vivenciando as necessidades do momento que se cria possibilidades de utilizar daquele espaço da maneira necessária. A ilha um espaço heterotopico5 que abriga acontecimentos e táticas que a sociedade não permite,

5 - Para Michel Foucault a sociedade cria esses espaços heterotopicos que assumem formas variadas, como no exemplo o lugar que permite as heterotopias de desvio, “isto significa que os lugares que a sociedade dispõe em suas margens, nas paragens vazias que a rodeiam, são antes reservados aos indivíduos cujo comportamento é desviante relativamente à média ou à norma exigida. Daí as casas de repouso, as clínicas psiquiátricas, daí também, com certeza, as prisões”

como os espaços criados por essa mesma sociedade que não convive com a velhice e a coloca em uma casa de recolhimento, que não lida com os loucos e criam uma casa psiquiátrica, estes espaços que abrigam indivíduos que possuem um comportamento desviante relativa à norma exigida. O espaço projetado funcionaria como uma área “não gentrificável”, capaz de abrigar o contingente de pessoas passíveis de serem gentrificadas do centro. Conforme outras áreas da cidade sejam vitimadas pelos projetos urbanos hegemônicos segregadores e seletivos, também poderiam exportar seu contingente produzido de pessoas gentrificadas para este espaço, ocasionando na principal avenida central da cidade uma “ilha” projetada para aqueles excluídos pelos projetos hegemônicos segregadores, característicos do momento capitalista neoliberal resultante da supra citada aliança entre o público e o privado. Detalhes técnicos: Utilizando uma estrutura de Poliuretano de alta resistência, a proposta são módulos que se encaixam formando uma plataforma, a qual será colocada em cima da estrutura existente do canteiro central. Serão retirados apenas os equipamentos móveis, como os bancos e lixeiras existentes. O restante será mantido e adaptado de acordo com a aplicação dos módulos. Em alguns lugares será plantado mais árvores e locados postes de iluminação para deixar o ambiente regado de sombra. São três tipos de módulos: o módulo base que vai direto no piso existente que servirá para receber os outros, este terá quatro formatos diferentes para adaptar ao desenho da calçada; o módulo caixote que possui uma altura favorável para se transformar em banco, mesa, cama, encosto, este também terá quatro formatos para adaptar ao espaço; o outro módulo foi pensado para os eixos de cruzamento, onde seu agenciamento o transforma em uma escada para acesso a essa passarela. As passarelas com módulos de encaixes especiais, estruturados em um pórtico metálico para dar continuidade a este eixo de permanência e contornando a interrupção causada pelas vias destinadas aos carros e pessoas habitantes da temporalidade do capital. 32


uma das conclusões

Durante todo o processo do trabalho em que coloco meu corpo diante os experimentos que me permitem praticar o espaço, percebo a sobreposição de temporalidades presente nele. Para cada pessoa que o pratica, a dimensão e a noção desta temporalidade é uma. Para quem está trabalhando ali na rua é um, de quem está esperando alguém é outra, de quem está de passagem é outra. Essa sobreposição de temporalidades que acontecem em um mesmo espaço, vejo que um espaço com potencialidades é o espaço que tenta não amarrar espacialmente essas possibilidades de temporalidades múltiplas. Onde o espaço se mostra aberto as variações que ali podem ocorrer, sem ditar regras, sem impor, um espaço onde se pode comer, observar, esperar, vender, descansar, encontrar, deitar, da forma que o praticante definir como melhor. Neste espaço onde o tempo se sobrepõe é que vivem as diferenças, que se cria senso se coletividade, se cria afetividade, relações e se constroem histórias. “Não se vive em um espaço neutro e branco; não se vive, não se morre, não se ama no retângulo de uma folha de papel. Vive-se, morre-se, ama-se em um espaço quadriculado, recortado, matizado, com zonas claras e sombras, diferenças de níveis, degraus de escada, vãos, relevos, regiões duras e outras quebradiças, penetráveis, porosas. ” (FOUCAULT, 2013) São nestes espaços que resiste o corpo, aqui, falo tanto do corpo enquanto arquiteta urbanista que busca uma afetação e afeta com proposições espaciais, quanto do corpo de quem pratica que modifica os espaços, estes que “atualizam os projetos urbanos e o próprio urbanismo, através da prática, vivência ou experiência dos espaços urbanos. Os urbanistas indicam usos possíveis para o espaço projetado, mas são aqueles que o experimentam no cotidiano que os atualizam. São as apropriações e improvisações dos espaços que legitimam ou não aquilo que foi projetado, ou seja, são essas experiências do espaço pelos habitantes, passantes ou errantes que reinventam esses espaços no seu cotidiano.” (JACQUES, 2008). Finalizo este emaranhado de reflexões e práticas com o anseio de compreender e aprofundar mais neste posicionamento corporificado da cidade. Com um olhar ainda em construção, que busca além do que é direcionado pelos poderes hegemônicos da cidade e é possível dentro da formação acadêmica, o meu corpo também resiste e insiste nessa formação subjetiva e lúdica. “no fundo, vejo a arquitetura como serviço coletivo e como poesia. “ (BARDI, 1993)

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referência Livros BARROS, Manoel de. Biblioteca de Manoel de Barros. São Paulo, Leya, 2013. BAUDELAIRE, Charles. O pintor da vida moderna. Em: A modernidade de Baudelaire. Tradução de Suely Cassal. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988: 160. BRITTO, Fabiana Dultra; DRUMMOND, Washington; JACQUES, Paola Berenstein. Experiências metodológicas para compreensão da complexidade da cidade contemporânea. Salvador: EDUFBA, 2015. CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. CAMPBELL, Brígida. Arte para uma cidade sensível - São Paulo, Invisíveis Produções, 2015. CAMPBELL, Brígida. Exercício para a liberdade. São Paulo, Invisíveis Produções, 2015. CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como prática estética. Prefácio de Paola Berenstein Jacques. São Paulo: Editora G. Gili, 2013. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Trad. Ephraim F. Alves. Petrópolis: Vozes, 1996. Goiânia art déco: acervo arquitetônico e urbanístico – dossiê de tombamento. Goiânia: Instituto Casa Brasil de Cultura, 2010. CRAVEIRO, Camila Caires. Cor(poro)cidades: experimentando (re)existências. Niteroi, 2014. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal Fluminense. FONTENELLE, Romullo Baratto. Cidades imateriais: o espaço enquanto fazer. Florianópolis, 2013. Dissertação (Trabalho de Conclusão de Curso). Universidade Federal de Santa Catarina. FOUCAULT, Michel. O corpo utópico; As heterotopias / Michel Foucault; posfácio de Daniel Defert; [tradução Salma Tannus Muchail]. São Paulo: n-1 Edições, 2013. MARQUES, Monique Sanches. Subjetividade e singularidades urbanas: na construção de um “devir” outro arquiteto urbanista. Salvador, 2010. Teste (Doutorado). Universidade Federal da Bahia. SANTOS, Milton. A natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. Artigos ALMEIDA, Lutero Proscholdt. Dobras Deleuzianas, Desdobramentos de Lina Bo Bardi: considerações sobre o ‘’desejo’’ e o ‘’papel do arquiteto’’ no espaço projetado. Disponível em: http://www.vitruvius. com.br/revistas/read/arquitextos/13.146/4422. Acesso: Maio 2016. BIASE, Alessia de. Insistência urbana: ou como ir ao encontro dos “imponderáveis da vida autêntica”. Disponível em: http://www.redobra. ufba.br/wp-content/uploads/2013/12/redobra12_EX2_alessia.pdf. Acesso: Outubro 2016. JACQUES, Paola Berenstein. Breve histórico da Internacional Situacionista – IS. Disponível em: http:// www.vitruvius.com.br/revistas/read/ arquitextos/03.035/696. Acesso: Julho 2016. JACQUES, Paola Berenstein. Corpografias urbanas. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.093/165. Acesso: Agosto 2016. JACQUES, Paola Berenstein. O projeto como processo. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/16.176/6145. Acesso: Novembro 2016. MILHOMEM, Marília Pereira. Cidade em quadros: Setor Central, onde tudo começou. Goiânia, 2011-2012. Pesquisa iniciação científica. Universidade Federal de Goiás. REZENDE e GHIZZI, Alex Nogueira e Eluiza Bortolotto. Sentar e sentir: Reflexoes acerca de um significado na relação entre mobiliário, arquitetura e lugar. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/ read/arquitextos/16.182/5620. Acesso: Maio 2016. RIBEIRO, Cláudia Gonçalves. A cidade pelos olhos de Charles Baudelaire e Mário de Andrade. Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: http:// www.filologia.org.br/xv_cnlf/tomo_2/92.pdf. Acesso: Maio 2016. 35


Caderno Teórico - A Arte do fazer:  

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