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Foto: Clara Castañon “NEGRAR-SE - CORPOS EM PERFORMAÇÃO” XVIII Mostra de Teatro da UFRJ


_ AO IMBECIL POR ORA MINISTRO Por Jacyan Castilho Coordenadora do curso de Direção Teatral

Todos os anos, ao final do primeiro e segundo semestres letivos, escrevo uma pequena apresentação das Mostras teatrais que finalizam os semestres de trabalho dos alunos. Ao fim do primeiro semestre de cada ano, a “Mostra Mais” apresenta as montagens que finalizam a disciplina Direção VI. Ao final do ano, a “Mostra de Teatro da UFRJ” exibe as montagens didáticas que consistem nos Projetos Experimentais de Teatro dos alunos, suas peças de formatura, seus espetáculos de despedida da Escola e de ingresso no mundo profissional. Pois bem. Por isso mesmo, por se tratar de ritos de passagem de estudantes-aprendizes para futuros artistas profissionais, os textos sempre remetem a um futuro que, espera-se sempre, seja alvissareiro, promissor, potente, capaz de dar conta dos sonhos destes aprendizes em seus anos de formação. Relendo os textos escritos nos últimos cinco anos, tempo em que estive à frente da Coordenação do Curso de Direção Teatral da ECo/UFRJ, percebo que a palavra mais usada nos textos que constam na Revista À Mostra é RESISTÊNCIA. Em vários destes breves artigos eu citei o fato de que o teatro se recusa a morrer – tendo já sido condenado à morte várias vezes nas últimas décadas – do advento do cinema, do rádio, da televisão, da internet, das mídias sociais; pelo aumento da violência e da solidão das cidades; pela indigência intelectual de que se reclama, pela falta de novos dramaturgos, pelo esboroamento de suas fronteiras com outras linguagens cênicas. O teatro, sempre ameaçado, resistiu a tudo, como observo nestes artigos. Ele sempre ressurge como lugar de encontro, de vibração conjunta que só as artes ao vivo podem propiciar. Continuo acreditando nisso, e desejando que estes jovens artistas saibam resistir com alegria e criatividade. Mas neste artigo eu quero falar que temos uma ameaça tão indigna, tão penosa, tão escrachada, tão surpreendente porque vem de onde esperávamos suporte, inteligência, zelo para com a educação e a cultura. Falo do indigente intelectual que ocupa hoje o Ministério da Educação. 2


Um ser medíocre, ressentido, superficial, leviano, bitolado, burro, que se dedica a tentar arrasar o sistema educacional brasileiro, as conquistas do corpo científico nacional, as pesquisas e os avanços educacionais; que joga a população contra as universidades, como se elas não fossem uma conquista da e para a população. Que zomba dos estudantes, dos que ingressaram a custo no ensino superior e dependem de auxílios e bolsas para continuar; dos professores que estudaram por trinta, quarenta anos, igual tempo de dedicação à universidade. Que os chama de esfomeados, de zebras, de animais, de bagunceiros, de arruaceiros, de vagabundos. Que zomba deste e não acolhe outros, não edifica nem planeja melhorias na Educação Básica, na educação profissionalizante, na educação para adultos carentes, na educação de populações vulneráveis. O teatro, a cultura, a educação, vão resistir a esse pulha. A esse imbecil. A esse medíocre. Como sempre resistiram. Mas você – sim, você – que está Ministro da Educação, é um estúpido. Tomara que você volte logo para a lata de lixo da história de onde nunca deveria ter saído. E eu não podia deixar de dizer isso.

Foto: Clara Castañon “BÉKOOS - CAMINHOS DA NEGRITUDE” XVIII Mostra de Teatro da UFRJ

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___ SUMÁRIO Foto: Clara Castañon “SOMOS TODAS ELAS” 4 XVIII Mostra de Teatro da UFRJ


06 ___ PROGRAMAÇÃO XIX MOSTRA DE TEATRO DA UFRJ 8 ___ GOTA D’ÁGUA

12 ___ GRAU ZERO

16 ___ QUE PARTE DE NÓS

20 ___ O RINOCERONTE

24 ___ STRIPTEASE

28 ___ GAROTAS DE ALUGUEL

32 ___ HIATO

36 ___ SOMOS TODOS LOUCOS AQUI

40 ___ PROGRAMAÇÃO AMOSTRA GRÁTIS 2019 5


___ PROGRAMAÇÃO 6

19/11, 20/11 e 21/11 | TER a QUI

GOTA D’ÁGUA, de Chico Buarque e Paulo Pontes Direção: Beatriz Santa Rita Classificação indicativa: 14 anos Sinopse: Ao som de Chico Buarque, vemos o Rio de Janeiro: excludente, patriarcal, ainda colhendo as heranças de um país historicamente escravocrata. Na Vila do Meio Dia, Joana e o povo da comunidade tentam sobreviver à margem da elite carioca.

22/11, 23/11 e 24/11 | SEX a DOM GRAU ZERO, de Diogo Liberano Direção: Marcéu Pierrotti Classificação indicativa: 14 anos Sinopse: Três alunos, reprovados em uma disciplina do curso de mestrado em História, questionam sua professora sobre o grau zero. Diante desse embate, todos tentam compreender como é possível escrever outra história.

26/11, 27/11 e 28/11 | TER a QUI QUE PARTE DE NÓS, de Lane Lopes Direção: Fernanda Arrabal Classificação indicativa: Livre Sinopse: Uma cafeteria reúne quatro amigos. Ao receberem uma notícia inesperada, começam a compartilhar suas memórias sobre despedidas que aos poucos vão se misturando à história do lugar.

29/11, 30/11 e 01/12 | SEX a DOM Três turmas do Segundo Ano do Ensino Médio do CAp/UFRJ, sob a direção dos alunos do quarto período do Curso de Direção Teatral, apresentam “EncenaAÇÃO 2019” O RINOCERONTE, de Eugéne Ionesco Direção: Gustavo Brasil, Igor Viriato e Luana Vidinha Classificação indicativa: 10 anos Sinopse: Uma pacata cidade se alvoroça ao ver um rinoceronte em suas ruas e, em meio a digressões e silogismos, busca compreender a origem do estranho animal. Gradual e assustadoramente, seus habitantes começam a se transformar em rinocerontes.


03/12, 04/12 e E 05/12 | TER A a QUI STRIPTEASE, de adaptação Lola Arias de Lola Arias Direção: Henrique Bueno Classificação indicativa: Livre Sinopse: Duas pessoas em uma conversa telefônica após o fim de um relacionamento. O que se diz? Como se diz? Uma espécie de tempo pós-apocalíptico: início e fim se conectam por um fio de silêncio.

06/12, 07/12 e E 08/12 | SEX A a DOM GAROTAS DE ALUGUEL, uma adaptação do filme “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino Direção: Ana Carolina Magioli Classificação indicativa: 16 anos Sinopse: Uma experiente criminosa reúne quatro assaltantes profissionais para um roubo à joalheria. O que seria um crime perfeito se transforma em uma emboscada sangrenta, levantando suspeitas de que uma delas seja uma informante da polícia.

10/12, 11/12 e E 12/12 | TER A a QUI HIATO, de Karla Muniz Direção: Daniella Fiaux Classificação indicativa: 16 anos Sinopse: “Hiato” é um espetáculo que parte da pergunta: “Quais ausências nos atravessam?” e se utiliza de estratégias autobiográficas para a construção da cena. A falta. O Vazio. A saudade. Um bando de sensações misturadas... E o depois? Não sei.

13/12, 14/12 e E 15/12 | SEX A a DOM SOMOS TODOS LOUCOS AQUI, livremente inspirado em “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho”, de Lewis Caroll Direção: Cecília Hadassa Classificação indicativa: 12 anos Sinopse: Alice segue um Coelho Branco para chegar ao país das maravilhas que, assim como o Brasil, é cheio de impossíveis e absurdos. E se a loucura for lucidez e ser normal é que é louco? Real, virtual e onírico oníricossesemisturam misturampela pelajornada jornadade deAlice. Alice.

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GOTA D’ÁGUA de Chico Buarque e Paulo Pontes Direção: Beatriz Santa Rita Orientação: José Henrique Moreira Assistência de direção: Júlia Helena e Raphael Castro Direção musical: Nila Clara Assistência de direção musical: Raphael Batista dos Santos Elenco: Beatriz Ferretti, Bernardo Pimentel, Gabriel Conrado, Isabele Riccart, José Ferreira, Joyce Jesus, Letícia Luna, Louise Agra, Luiza Boldrini, Maicon Lima, Maria Carolina Rocha e Thales Mandelli Orquestra: Paulo Maria (Piano), Raphael Batista dos Santos (Violão 7 Cordas), Jade da Hora (Pandeiros), Lucas França (Percussão), Vinícius Bergamaschi (Sopro) Iluminação: Gustavo Brasil, Karla Gabriela e Luca Perovano Cenografia: Jovanna Souza Assistência de cenografia: Beatriz Ferretti Figurino: Julia Araujo Assistência de figurino: Alice Araujo e Rodrigo Barreto Direção de arte: Júlia Helena, João Cordella e José Ferreira Orientação de cenografia, figurino e direção de arte: Antonio Guedes Produção: Júlia Helena Assistente de produção: João Cordella Preparação corporal: Thales Mandelli Orientação de preparação corporal: Lígia Tourinho e Maria Inês Galvão Preparação vocal: Paulo Maria Imagens: Márcio Ferreira 9


QUALQUER DESATENÇÃO PODE SER A GOTA D’ÁGUA Por Beatriz Santa Rita

Nunca pensei que no auge dos meus vinte e um anos, mulher, filha de mãe solo, artista, me formaria tão preocupada com o cenário artístico-cultural da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil. O final da graduação é solitário e necessário. O medo do que há por vir precisa ser transformado em potência criativa. A “Gota D’água” começa aí. O período de eleições, no último ano, foi marcado pela violência, pelos ataques fascistas e pela censura ao posicionamento dos estudantes, principalmente dentro das universidades públicas. Em 2019, é urgente o resgate do período ditatorial do país em que a obra de Chico Buarque e Paulo Pontes foi escrita. No prefácio da obra, os autores afirmam que “o fundamental é que a vida brasileira possa, novamente, ser devolvida nos palcos, ao público brasileiro.” (DE HOLLANDA, PONTES, 1975, p.14). E meu intuito é justamente este: devolver essa história sobre a morte, a liberdade e a necessidade de dignidade em oposição ao desespero

dos autores, também abrange a compreensão de porquê todas as temáticas ainda serem tão atuais e presentes em nossa realidade. Afinal, trata-se de uma tragédia urbana no Rio de Janeiro, cidade, ainda hoje, governada por inúmeros Creontes, não preocupados com a segurança de seu povo, muito menos com os mais pobres, o que nos insere em um tempo caótico, onde o genocídio negro, bem como o feminicídio, cresce cada dia mais, mesmo após trinta e quatro anos do fim da ditadura militar, cento e trinta e um da assinatura da Lei Áurea e treze da sanção da Lei Maria da Penha. Decidi fazer todas estas denúncias neste espetáculo e optei por não as fazer sozinha, reunindo num potente encontro mais vinte pessoas dentre atores, assistentes, produtores, cenógrafos, figurinistas e músicos, além de tantos outros que passaram por este caminho deixando um pouco de si conosco. Trata-se, portanto, de um espetáculo que grita e pulsa em resposta às censuras e da tentativa

pela sobrevivência do povo, como forma de alerta a tudo que ainda nos são acontecimentos constantes. Nosso processo tem sido coletivo e de constante troca. Discutimos juntos os motivos pelos quais se monta a “Gota D’água” no ano de 2019. A resposta, além de, claro, apreciarmos junto ao público o clássico

de propagação de discursos autoritários vividos agora. É preciso usá-lo como arma para divulgação do discurso de resistência contra tais ideias e fazemos isso buscando expor como tudo isso nos atravessa. E para você? Vem, isto é um convite.

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“JOANA — Ninguém vai sambar na minha caveira. Vocês tão de prova: eu não sou mulher pra macho chegar e usar como quer, depois dizer tchau, deixando poeira e meleira na cama desmanchada. Mulher de malandro? Comigo, não. Não sou das que gozam co’a submissão. Assim, quando ele me levar pra cama, eu sei que quem me leva é um homem feito e foi assim que eu fiz Jasão um dia.”

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GRAU ZERO de Diogo Liberano Direção: Marcéu Pierrotti

Orientação: Caio Riscado Assistência de direção: Camila Moreira e André Celant Elenco: Talita Castro, João Pedro Novaes, Manoel Madeira e Pedro Yudi Iluminação: Conrado Cerqueira, Maria Laura Abreu e Wan Olissant Cenografia: Nícolas Gonçalves Assistentes de cenografia: Amanda Veiga, Eduardo Reis e Marcela Anjos Orientação de cenografia: Ronald Teixeira Figurino: Rafael Torres Orientação de figurino: Samuel Abrantes Produção: Nicolas Alexandria Preparação corporal: Thábata Ribeiro Orientação de preparação corporal: Ligia Tourinho e Maria Inês Galvão Imagens: Creative Commons Zero, Evandro Teixeira, Fabio Motta, Marcéu Pierrotti, Photoshop Tutorials

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COMO ESCREVER OUTRA HISTÓRIA? Por Marcéu Pierrotti

Sem educação. Completamente sem educação. Segura! Isso, pra conter. Agora, corta! [tensão] Corta! Contenção. Qual o problema? Disseca o problema, enfia dentro do balde, e deixa lá submerso. Qual o problema? Você não tem educação. Não terá! E isso é problema meu? Não, isso não é uma ameaça. Isso é a História! Quer dizer, apaga. Apaga! Sem registro. Zero. Isso! Isso não aconteceu. Isso é uma história. 14

Aqui. Agora. No Rio. No Brasil. Qual a história que estamos vivendo? O que já vivemos no passado nos ajuda a lidar com as questões do agora e com a possibilidade de problemas futuros. Ok? Mas o que você realmente sabe da História? Corta A professora encara. Os alunos. Os problemas. É preciso pensar. Um pensamento crítico. Uma opinião. Não a repetição da visão de alguém. Uma própria. Você tem? Corta A raiva de não ter a resposta. De não conseguir lidar com o problema. De não conseguir compreender a questão. Os alunos só querem uma saída. Parece que não tem saída. Vontade de explodir tudo. Desaparecer com o que incomoda. Não é? Corta Você não tem educação? Corta. Com tantos cortes, será difícil sobreviver.


Acredito na educação e na cultura como ferramentas essenciais para a construção do indivíduo. Logo, de uma sociedade equilibrada, diversa e plural, com crenças e verdades coexistentes e sem censura. Escolho contar uma história. De três alunos. Três alunos homens. E uma professora. Uma mulher. Esta história nasce do hoje. Nasce do presente 2019, carregado do passado, e com perguntas para o futuro. Esta história nasce hoje, para o agora. Para nós.

“PROFESSORA – O que seria da história da humanidade se um pesquisador feito você escrevesse sobre o que já foi amplamente divulgado, o que já foi considerado resolvido, mas por um ponto de vista tão específico e tão criativo como o seu?”

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QUE PARTE DE NÓS de Lane Lopes Direção: Fernanda Arrabal

Orientação: Lívia Flores Assistência de direção: Taís Trindade Elenco: Augusto Semensatti, Maria Eduarda Moreira, Mika Macedo e Taís Trindade Iluminação: Gabriel Medeiros, Igor Viriato e Pedro Barroso Cenografia: Gabriela Chagas Assistência de cenografia: Luiz Fernando Rainer e Luísa Manzi Orientação de cenografia: Andréa Renck Figurino: Ariadne Costa Assistência de figurino: Alexia Leika Orientação de figurino: Raquel Azevedo Direção de arte: Jefferson Santi Produção: Taís Trindade e Gustavo Brasil Preparação corporal: Brenda Monteiro Orientação de preparação corporal: Lígia Tourinho e Maria Inês Galvão Pesquisa sonora: Rudá Sánchez Imagens: Brenda Monteiro, Fernanda Arrabal, Matt Ross e Vivian Maier

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NUNCA FUI BOA COM DESPEDIDAS Por Fernanda Arrabal

“Do que é ruim eu me esqueço O bom eu quero mais Na tristeza eu quero avesso Agora quero paz Saiba que todo fim É um recomeço Pra nossa vida quero amor O resto eu desconheço” (“Indiferença” - Móveis Coloniais de Acaju) Sempre que penso sobre esse processo, uma retrospectiva do ano de 2018 se passa na minha cabeça. Marielle Franco assassinada, intervenção militar no Rio de Janeiro, campanha e período eleitorais de clara ratificação de extremos. Um ano enorme, em que tivemos que nos reinventar, adotar novas estratégias, descobrir formas de lutar, de posicionar nossos corpos frente aos discursos LGBTQfóbicos, machistas, racistas e fascistas legitimados. A partir da experiência e observação de despedidas pessoais, coletivas e sociais, contextualizadas exatamente nesse período, nasce o desejo de entender a nossa forma de organização em relação às despedidas. Cada um de nós tem um jeito próprio de encarar momentos de morte, seja ela literal ou figurada. Uns se trancam em casa durante três dias sem nenhuma comunicação. Alguns falam muito. Outros calam. Tem gente que dança. Mas parece 18

que existe quase sempre uma visão estigmatizada, uma percepção pesada, triste e melancólica, apesar de ser a morte nossa única certeza e o que há de mais natural na vida. Será que existe uma maneira mais leve de vivermos as despedidas? É certo que as despedidas compreendem alguma transformação. Assim, surge a necessidade de criar narrativas que nos façam entendê-las, a pulsão de gerar algum material que dê conta do adeus. Um desejo de encenar o afeto que empregamos nas partidas. Uma urgência de falar sobre empatia, amor, na tentativa de recuperar a possibilidade de união para construir alternativas à violência e ao ódio com os quais convivemos cotidianamente. Sem ignorar que nossas rupturas de relações sejam doloridas, olhemos atentamente os impulsos para novos movimentos e formas de vida, oportunidades de renascimentos e recomeços. Que possamos nos abrir a novas perspectivas. Acredito que o teatro compreende essa habilidade de reinvenção e transformação constantes. A arte que promove resistência a partir do encontro, desde a sala de ensaio até o palco e a plateia. Me despeço da graduação com esse espetáculo que é nosso encontro para a celebração do processo de transição, memória, movimento e aceitação de mudança. A gente começa em um café, esse grande ponto de encontro.


“Foi aí que a Morte se apresentou para ela ela entrou entrona mesmo disse que ‘agora ela ia ficar, que se acostume’ disse que ‘sentia muito, mas esse era seu encargo nesse mundo’ a menina achou meio assim esquisito do avesso mas logo chega papai dizendo que ela tinha educação que chamasse a morte para se sentar que escolhesse um tipo de chá”

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O RINOCERONTE de Eugéne Ionesco

Três turmas do Segundo Ano do Ensino Médio do CAp/UFRJ, sob a direção dos alunos do quarto período do Curso de Direção Teatral, apresentam “EncenaAÇÃO 2019”

Turma 22A Turma 22A Direção: Gustavo Brasil Direção: Gustavo Brasil Direção de movimento: Lia Sevach Direção de movimento: Lia Sevach Orientação: Andréa Pinheiro Orientação: Andréa Pinheiro Elenco: Ana Luiza Souza, Caio Argolo, Caio Elenco: Ana Luiza Souza, Caio Argolo, César, Clara Roza, Érika Maps, Isabelle SarCaio César, Clara Roza, Érika Maps, Isabelle doux, Lara Caroprese, Luís Henrique Pedrosa de Sardoux, Lara Caroprese, Luís Henrique Pedrosa Castro e Yuri Sacksida de Castro e Yuri Sacksida Turma 22B Turma 22B Direção: Igor Viriato Direção: Igor Viriato Direção de movimento: Lia Sevach Direção de movimento: Lia Sevach Orientação: Andréa Pinheiro Orientação: Andréa Pinheiro Elenco: Eduardo Pinheiro, Esther Curty, Gabriel Elenco: Eduardo Pinheiro, Esther Curty, Gabriel Atella, Hosana Figueiredo de Athayde, João Atella, Hosana Figueiredo de Athayde, João Pedro de Melo, Júlia Pereira, Linda Carol, Nina Pedro de Melo, Júlia Pereira, Linda Carol, Nina Oiamoré e Maria Paula Fernandes Oiamoré e Maria Paula Fernandes Turma 22C Turma 22C Direção: Luana Vidinha Direção: Luana Vidinha Direção de movimento: Idris Bahia Direção de movimento: Idris Bahia Orientação: Céli Palácios Orientação: Céli Palácios Elenco: Anna Victória de Souza, Beatriz Elenco: Anna Victória de Souza, Beatriz Cristina, Isabela Teles, João Paulo Rocha, Júlia Cristina, Isabela Teles, João Paulo Rocha, Júlia Zukeram Lia de Lima, Lucas Woyames, Maria Zukeram, Lia de Lima, Lucas Woyames, Maria Eduarda Trierweiler e Maria Eduarda Schimidt Eduarda Trierweiler e Maria Eduarda Schimidt

Cenografia: Malu Grimaldi Figurino: Luna Becker Orientação de cenografia e figurino: Rodrigo Sàngodárè Visagismo: Francisco Leite Iluminação: Malu Grimaldi e SUAT Logo do espetáculo: Sander Machado Produção: Malu Produção: Malu Grimaldi Grimaldi Direção artística: Andréa Pinheiro e Céli Palácios Pesquisa musical: Igor Viriato Agradecimentos: Celeia Machado, Fátima Novo, José Henrique Moreira, Luiza Rangel, Érika Neves e Colégio de Aplicação Imagens: Setor Curricular de Artes Cênicas do CAp-UFRJ, akg-images, J. Noël, Luna Becker 21


UM POTENTE E VIGOROSO ESPAÇO DE CRIAÇÃO Por Gustavo Brasil, Idris Bahia, Igor Viriato, Lia Sevach, Luana Vidinha, Malu Grimaldi, Céli Palácios e Andréa Pinheiro

“O Rinoceronte”, de Eugéne Ionesco, propõe um diálogo insólito com o qual buscamos debater o atual momento sociopolítico do nosso país. Vivemos uma época conturbada que inquieta a todos nós. A polarização está presente em casa, nas ruas e na rede, num emaranhamento perverso em que pouco se escuta e quase nada se tolera. Nada mais propício, portanto, que o projeto EncenaAção, em sua 22ª edição, escolhesse esse texto para montar. Escrita no pós-guerra, a peça aborda a gradual e assustadora transformação de todos os habitantes de uma cidade em rinocerontes, numa metáfora da tomada do mundo pelo Fascismo, em que as pessoas deixam-se seduzir por discursos de ódio e segregacionismo. Ao recordar as atividades da Guarda de Ferro¹, que serviu de inspiração para o texto, o autor declarou-se impressionado com “o que podemos chamar de correntes de opinião, sua rápida evolução e seu poder de contágio, que é o mesmo de uma epidemia de verdade. (…) temos a impressão de estarmos vendo monstros – rinocerontes, por exemplo. Ficam com essa mesma mistura de candura e ferocidade, e se tornam capazes de nos

matar com a consciência tranquila”². Trabalhar com jovens atores e atrizes do segundo ano do Ensino Médio do Colégio de Aplicação nos fez, desde o início, abrir uma linha de diálogo e de questionamento, com intensas pesquisas na literatura teatral e na busca de imagens e vídeos de outras montagens desse texto a fim de construir processos de criação que, de forma contundente e crítica, pudessem levar à cena a complexidade da temática. Levantamos as perguntas: O que nos constitui como humanos e o que nos torna rinocerontes? Como o texto de Ionesco - cuja palavra não comunica, cujo diálogo não conecta – pode nos fazer refletir sobre esse nosso momento duro, truncado, doído? Se o teatro pressupõe um espaço de desconstrução e proposição de ideias fértil e frutífero, o texto de Ionesco vai além, fornecendo caminhos cênicos muito interessantes para desenvolver o espetáculo. É possível proporcionar o incomum e o estranhamento como potencializadores da montagem, numa experiência rica em aprendizados, compartilhamento de saberes e afetos, comprovando que o teatro na Educação Básica é um potente e vigoroso espaço de criação.

1 Movimento paramilitar fascista, ultra-nacionalista e antissemita romeno, nos anos 1930.

2 ESSLIN, Martin. O Teatro do Absurdo. Tradução de Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1968, p. 163.

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“O LÓGICO – Vejamos um silogismo exemplar: O gato tem quatro patas. Isidoro e Fricot têm cada um quatro patas. Logo, Isidoro e Fricot, são gatos. O SENHOR IDOSO – O meu cachorro também tem quatro patas. O LÓGICO – Então é um gato. O SENHOR IDOSO – É bonito, a lógica. O LÓGICO – Contanto que não se abuse.”

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STRIPTEASE

de Lola Arias

Direção: Henrique Bueno

Orientação: Gabriela Lírio Assistência de direção: Raíza Cardoso Tradução: Henrique Bueno Elenco: Elisa Ottoni Iluminação: Ana Vendra, Ananda Almeida e Carlos Estranho Instalação cênica: Henrique Bueno Assistência da instalação e figurino: Carolina Costa Direção de arte: Carolina Costa e Henrique Bueno Produção: Lígia Monteiro Preparação corporal: Bárbara Saraiva Orientação de preparação corporal: Lígia Tourinho e Maria Inês Galvão Preparação vocal: Tamara Innocente Pesquisa musical: Elisa Ottoni e Henrique Bueno Trilha sonora: Henrique Bueno e Raíza Cardoso Audiovisual: Henrique Bueno e Lidia Guerrero Imagens: Adriana Eu, Henrique Bueno e Nele Azevedo

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"LI SÓ ISSO: O PARAÍSO SÃO OS OUTROS" Por Henrique Bueno

Há um tanto de política no amor. No entanto, o reverso: difícil falar de amor em tempos atuais. Olhares que não se beijam, bocas que não se olham, mãos que não se ouvem... perdemos o outro em (nossas próprias) multidões. “Striptease” surge em meio a tudo como uma tentativa de (re)encontro. Um aceno à solidão essencial ao gesto de dar às mãos. Um esforço de sobriedade entre tanta insensatez. A adaptação da obra de Lola Arias traz duas pessoas conectadas por uma ligação telefônica após o fim de um relacionamento. Um silêncio pós-apocalíptico. O que se diz? O que se pode dizer? A incomunicabilidade sobreposta ao afeto de uma história partilhada. É o fim. Um fim que é sempre meio. Infrafino. Já outro e ainda o mesmo. Já adulto e ainda bebê. Silêncio. ... “a tristeza de um fim de ano está na palavra fim, a alegria de um fim de ano está na palavra fim. um fim de ano como que suspende tudo num varal para a gente passar e olhar. e o varal é longo.” ... Aqui, nestas palavras, o meu varal. Minhas roupas estendidas e, também, os órgãos. É difícil escrever. É difícil falar. Meu fim é também silêncio. Um silêncio sorridente e agradecido: impossível de ser desenhado em palavras. 26

Contaminado por todos os amores e desamores dos últimos quatro anos. Há lágrimas escorridas, colo, luta e um “te amo” (verdadeiro) e non-sense. Foram quatro anos. Reconhecimento, entendimento. O isqueiro emprestado nos corredores, os cigarros roubados aos intervalos. Os beijos e os abraços. As conversas sobre política, incômodos e variedades. Saio recomposto, reconfigurado. Entrei de carro e saio de bicicleta. Entrei fechado e saio aberto, rasgado e exposto. Disposto aos sorrisos e toques, mesmo sob o risco de atropelamentos. Atravessado por um tanto de pessoas que por segundos pensei aqui em nomear... Aqui texto. Aqui peça. É esse meu varal Striptease. Meus silêncios, meus gritos. Meus desejos ao microfone, uma caixa de som e a cerveja. Umas músicas. Alguma dança. Meus diversos e inimagináveis e infinitos sorrisos. Que colecionei e continuarei. ... Saio falando de passado para seguir presente. Saio falando de amor. Em meio ao ódio. Às balas. Às tentativas de apagamento. Saio falando de amor e imagino que se pergunte “por que?”. Falo.


Falo. Falo. Porque tem sido assim minha guerra: amar. : saio travando um embate entre tudo que sorri e aquilo que tentam me proibir de sorrir : (Ao fim a assinatura de um (des)presidente desenhada à letra do ódio.) Aqui assino:

Amor,

“Já quase morto é que se diz amor” 27


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GAROTAS DE ALUGUEL uma adaptação do filme “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino Direção: Ana Carolina Magioli

Orientação: Jacyan Castilho Tradução e adaptação: Ana Carolina Magioli Elenco: Jady Marques, Bruna Rachid, Lolla Lourenzo, Caroline Genro, Karine Dalsin, Gabrielly Vianna e Raphael Castro Iluminação: Flávio Muniz, Yasmin Cardoso e Luther Modesto Cenografia: Flávio Muniz e Yasmin Cardoso Assistência de cenografia: Giovan Bueno Orientação de cenografia: Hélio Dias Ferreira Figurino: Jady Marques e Jessyca Garcia Orientação de figurino: Luciana Maia Coutinho Produção: Raphael Castro Preparação corporal: Renata Bustamante e Vânia Bizoni Orientação de preparação corporal: Ligia Tourinho e Maria Inês Galvão Imagens: Viva Las Vegas, Série Twin Peaks, Laurie Simmons

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“NÃO HÁ LUGAR PARA MULHERES NESTE FILME”¹ Por Ana Carolina Magioli

O século XXI é marcado por conquistas feministas e uma demanda por maior representatividade de mulheres na ficção. A ideia desse projeto teatral é subverter o padrão normativo aceito pela sociedade ocidental capitalista e falocêntrica, colocando atrizes em cena para interpretar papéis escritos por homens para homens. O cinema hollywoodiano em seus gêneros populares, como as comédias românticas e os filmes adolescentes, nos bombardeia diariamente com arquétipos femininos: mulheres com poucas falas, em sua maioria referindo-se a figuras masculinas (protagonistas) e relacionamentos amorosos. É preciso romper a barreira do estereótipo de gênero que aprisiona tanto mulheres quanto homens e criar, com isso, personagens verossímeis com as quais o público possa se identificar. A questão é: afinal, como seria uma adaptação do roteiro do filme “Reservoir Dogs”, caso esses criminosos retratados como homens fossem na verdade mulheres? O medo e surpresa da sociedade diante da mulher armada é uma imagem que precisa ser mudada. A mulher ainda hoje é vista como um ser menor, mais frágil, indefeso. Muitas vezes essa afirmação é seguida de dados biológicos, como níveis de hormônio e força muscular. Não é preciso ser fisicamen1 (TARANTINO apud WOODS, 2012, p. 43).

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te forte para usar um revólver, mas, ainda assim, é comum mulheres da ficção matarem com veneno, considerado uma arma feminina, diferente da pistola. Mulheres motivadas por vingança, por dinheiro, por loucura ou puro profissionalismo. Elas miram seus revólveres e ainda vão fazer deboche com isso. Esta adaptação do longa-metragem “Reservoir Dogs” (“Cães de Aluguel”) de Quentin Tarantino propõe novos caminhos e um novo rumo para a história, descartando as personagens originalmente masculinas e criando novas personagens femininas, que trarão um tom ácido às falas e aos contextos originais do roteiro, transformando a peça em uma paródia, repleta de críticas sociais ao patriarcado e ao lugar que a mulher ocupa na sociedade no decorrer dos séculos XX e XXI. Estamos em tempo de reconhecer e enaltecer o sexo feminino nas artes. Agora é o momento de resistir. “Garotas de Aluguel” é uma peça de resistência sobre como mulheres podem, não somente ocupar todos os espaços que desejarem, mas dominá-los. O palco teatral ainda é o lugar onde conseguimos atingir o maior nível de potência criativa, um lugar de pesquisa, de erros e acertos. Não vão nos calar.


“SRA. BRANCA – Que eu saiba o garçom só estava fazendo o trabalho dele. SRA. RUIVA – Ele foi simpático. SRA. BRANCA – Ele foi educado. Ok. Ele não fez nada de especial. SRA. RUIVA – O que você considera algo especial? Te levar para a cozinha pra te foder gostoso? SANDY – Eu daria 12% se ele soubesse onde fica o clitóris”

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HIATO

de Karla Muniz

Direção: Daniella Fiaux

Orientação: Daniel Marques Assistência de direção: Taye Couto Elenco: Gabriela Villela e Juliane Dalmora Iluminação: Davson Santos, Fernando de Oliveira e Lina da Hora Cenografia: Larissa Santiago Assistência de cenografia: Ana Vendramini Figurino: Lina da Hora Produção: Bia Franco Preparação corporal: Thábata Ribeiro Orientação de preparação corporal: Lígia Tourinho e Maria Inês Galvão Imagens: Taye Couto

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ESSE TEXTO AINDA NÃO TEM TÍTULO Por Daniella Fiaux

Sabe quando você olha em volta e só encontra a si? Pior: sabe quando você olha em volta e nem a si mesma encontra? Em 2018 eu tive a minha pior crise depressiva até então. Nessa época eu me via vestida de uma versão minha que eu não reconhecia. Meus pensamentos, minhas atitudes, minhas vontades, tudo. Tudo coberto por uma energia que não era a minha. Eu senti saudade de mim. Eu senti falta de mim mesma. Era um negócio esquisito estar na minha própria pele e ao mesmo tempo não estar ali. Ausente. A partir daí comecei a perceber como a ausência permeava a minha vida de diversas maneiras: a depressão, abandono de pessoas, fim de histórias de amor, eternas despedidas, distâncias enormes entre aqueles que eu amo, a falta de um pai presente, entre outras ausências que me atravessavam e que me atravessam até hoje. Necessitei transformar isso em arte. Decidi fazer desse projeto final um laboratório para experimentação de um espetáculo construído a partir do vazio (e dos nossos vazios). Meu Projeto Experimental em Teatro (PET) será uma oportunidade de colocar em prática a minha pesquisa de iniciação cientifica “Autobiografia na cena contemporânea: tensionamentos entre ficção e reali34

dade”, em que investigo espetáculos autobiográficos a partir de três eixos: processo, dramaturgia e espectador. Nessa etapa da pesquisa as perguntas que ressoam são: o que a sensorialidade de um espetáculo autobiográfico pode proporcionar de experiência? Quais possibilidades se abrem quando existem relações de afeto entre a equipe dentro de um processo autobiográfico? Qual a força que falar de si e suas próprias experiências traz para a discussão sobre representatividade? Imbuída dessas provocações, convidei duas atrizes para pensar artisticamente sobre a pergunta: “Quais ausências atravessam as nossas vidas?”. Para a criação, utilizamos estratégias autobiográficas na construção de uma dramaturgia totalmente colaborativa. Está sendo um processo de muita entrega, doação e confiança. Mais do que responder à pergunta de base, nos propusemos a experimentá-la no corpo, na voz e no espaço, e, a partir disso, deixar virem todas as sensações possíveis, tanto para nós, equipe, quanto pra você, espectador. A falta. O Vazio. A ausência. Um bando de sensações misturadas. Meu desejo é que esse espetáculo cause sensações em você.


“Às vezes sinto saudades desesperadas bem no meio do peito. É como se o universo fosse um vazio, toda essa imensidão de saudade, e eu caio dentro dele. E dessas memórias que restam, que se esgarçam e me dilaceram, eu o rememoro em sonho, sempre sem rosto”

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SOMOS TODOS LOUCOS AQUI livremente inspirado em "Alice no País das Maravilhas e "Alice Através do Espelho" de Lewis Caroll Direção: Cecília Hadassa Orientação: Carmem Gadelha Assistência de Direção: Kamilla Ferreira Dramaturgia: Danilo Crespo Elenco: Dandara Costa, Guilherme Reis, Isadora Giesta, João Cordella, Júlia Helena, Priscila Manfredini e Yan Nery Iluminação: Luana Vidinha, Filipe Rodriguez, Ellen Carvalho Cenografia: Sarah Mantuan Assistência de cenografia: Miriam Guilarducci Orientação de cenografia: Andréa Renck Figurino: Giovana Santoro e Júlia Galhano Assistência de figurino: Juliana Espíndola e Natália Durso  Orientação de figurino: Raquel Azevedo Visagismo: Lígia Monteiro Preparação corporal: Dandara Ferreira Orientação de preparação corporal: Lígia Tourinho e Maria Inês Galvão Designer de projeção e vídeo: Ian Guy Orientação de projeção e vídeo: Leonardo Ventapane Direção musical: Yan Nery Preparação vocal: Bianca Banhara Produção: Ketrolin Rosetto, Priscila Manfredini e Thays Pantuza Fotografia: Victor Gustavo Contrarregragem: Ketrolin Rosetto e Kamilla Ferreira Imagens: John Tenniel e Victor Gustavo

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SIGA O COELHO BRANCO Por Cecília Hadassa

Sempre me interessei por personagens femininas. A icônica Alice à procura do coelho branco foi uma delas. Ela: ser efêmero em constante transformação, misto de sonho e transgressão. Em busca do desconhecido, ela parte em uma jornada arquetípica pelo País das Maravilhas. Lugar estranho, no qual nada é igual ao que era antes. Alice cresce e diminui, em um constante ritual de inadequação e descoberta de si mesma. “Somos todos loucos aqui” é um convite a uma experiência cênica imersiva no espaço híbrido. O País das Maravilhas é o lugar que transita entre corpo e imagem, carne e metal, natureza e tecnologia. Não em termos de binômios, mas de tensões que se retroalimentam, em uma constante dança fluida. Somos seres humanos na medida em que também somos tecnologia. O desejo de montar esta peça vem da inquietação com as minhas próprias condições existenciais. Sinto-me imersa, assim como Alice, em um mundo de dados. Sou parte não só da dita realidade, mas de um outro mundo: imaterial-materializador. Mundo este no qual somos avatares, projetando fantasmagorias de nós mesmos. Evoluímos através do uso de extensões que desaguam na união entre carne e chips que performamos atualmente. 38

Revisitando Donna Hawaray, que vê na figura híbrida do ciborgue um ensaio de libertação feminina, evoco uma Alice cyberfeminista. Ela escolhe tomar a pílula vermelha e iniciar a sua jornada. Com um humor característico de uma linguagem absurda, a Alice contemporânea encara os símbolos do seu tempo. O que é o Coelho se não o corpo moldado pelo capitalismo tardio que nos assola 24/7? Essa experiência é um convite lúdico para que juntos possamos ensaiar e imaginar novas formas de ser e estar no mundo. O País das Maravilhas é absurdo e louco, mas o que o separa da normalidade? Não à toa faço esse convite em pleno 2019, ano marco de absurdos violentos que nos afligem enquanto seres sociais. Sejamos híbridos de humanos máquinas e nos coloquemos como as máquinas de guerra que somos. Sejamos corajosos e transgressores como Alice.


“LAGARTA – Quem é você? ALICE – Eu nem sei mais. Hoje de manhã, eu era alguém. Não sei se eu mesma, mas era alguém. E já aconteceu tanta coisa hoje que eu já devo ser outra pessoa.”

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___ AMOSTRA GRÁTIS 2019

PROGRAMAÇÃO

PEÇAS CURTAS BASEADAS NAS OBRAS DE WILLIAM SHAKESPEARE Orientação: José Henrique Moreira e Marcellus Ferreira 02/12 (SEG) e 03/12 (TER) | 18h

AS IRMÃS MEGERAS

Direção: Issacarla Art’s Elenco: Lívia Barbosa Dornellas e Vitoria Raymundo Local: Sala 108 – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 10 anos Sinopse: Bianca e Catarina são duas irmãs que ao se depararem com suas escolhas pessoais percebem que pode acabar interferindo uma na vida da outra. Nesse “entre” da relação são revelados privilégios, restrições, serventia e desvantagem. 02/12 (SEG) e 03/12 (TER) | 19h

O TRONO MANCHADO DE SANGUE

Direção: Filipe Leon Elenco: Tiago Marques e Camila Moreira Local: Sala 108 – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 12 anos Sinopse: O general Macbeth fascina-se com uma profecia que o anuncia como futuro rei da Escócia e, junto com sua esposa, planeja o assassinato do atual monarca, hospedado em seu castelo. 04/12 (QUA) e 05/12 (QUI) | 17h

HAMLET

Direção: Conrado Cerqueira Elenco: Gabriel Msterdan e Ketrolin Rossetto Local: Jardim Interno – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 16 anos Sinopse: Nesta montagem ambientada em um hospício, a história de Hamlet, um homem que não soube tomar uma decisão, é contada através das óticas da loucura. 04/12 (QUA) e 05/12 (QUI) | 18h

ONDE ESTÁ A RAINHA DA DINAMARCA?

Direção: Júlia Helena Elenco: Lia Sevach e Juliana Satiê Local: Laguinho – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 12 anos Sinopse: “O que era isso, o Rei?”. Hamlet decide revelar o seu plano de vingança para a Rainha Gertrudes, sua mãe, mas mata a pessoa errada. E agora a jovem Ofélia está à procura de respostas. 04/12 (QUA) e 05/12 (QUI) | 19h

R&J SHAKESPEARE

Direção: Mariana Pantaleão Elenco: Ramon Andrade e Gabriel Hastenreiter Local: Sala 108 – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 12 anos Sinopse: Uma sala de ensaio, dois atores e um texto. Esse é o espaço propício para contar a história de Romeu e Julieta. 40


09/12 (SEG) e E 10/12 (TER) | 18h

ROMEU X TEOBALDO: A BATALHA DE SANGUE

Direção: Raphael Castro Elenco: Janu e Ruda Sanchez. DJ: Kaslu Local: Sala 108 – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 12 anos Sinopse: A guerra histórica entre as famílias Capuleto e Montéquio cresce após a morte de Mercúcio, amigo de Romeu. Será que Romeu, jovem apaixonado, vai vingar essa morte? 09/12 (SEG) e E 10/12 (TER) | 19h

AARÃO, MAU POR DIVERSÃO

Direção: Vitor Emanuel Elenco: Amparo de Gata e Anderson Barreto Local: Sala 108 – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 16 anos Sinopse: Em toda a sua vida, Aarão só seria capaz de se arrepender de uma coisa: de algum dia ter feito uma bondade. 11/12 (QUA) e E 12/12 (QUI) | 17h

HAMLET AM

Direção: Reinaldo Machado Elenco: Wesley Calcanho e Vinicius Andrade Local: Sala 108 – Escola de Comunicação Classificação indicativa: Livre Sinopse: Dois Dois atores atoresdederadioteatro radioteatro vivem vivem conflitos conflitos no estúdio no estúdio enquanto enquanto interpretam interpretam o clássico o clássico Hamlet, de Shakespeare. Hamlet, de Shakespeare. 11/12 (QUA) e E 12/12 (QUI) | 18h

TRÓILO & CRESSIDA

Direção: Bernardo Pimentel Elenco: Livia Gomes e Felipe Ferreira Local: Jardim Interno – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 12 anos Sinopse: Durante a Guerra de Troia, dois jovens trocam juras de amor. Em 2019, dois jovens trocam juras de amor. As relações são quebradas e eles têm que arcar com as consequências. 11/12 (QUA) e E 12/12 (QUI) | 19h

HAMLET TEM QUE MORRER!

Direção: Müller Hosken Elenco: Clara Hernandes e Jefferson Baptista Local: Sala 108 – Escola de Comunicação Classificação indicativa: 14 anos Sinopse: Luto. Morte. Luta. Após perder a razão e o amor de Ofélia, Hamlet mergulha em seus fantasmas e inicia um duelo que fará de sua sina uma fortuna a ser brindada.

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Administradores da ECo Adriano Costa, João Carlos Rosa Lima, Marcos Roma e Paulo César Marinho Serviços Gerais Sérgio Figueiredo Coordenação do Ciclo Básico Andreia Resende

UFRJ

Coordenação de Jornalismo Fernando Ewerton Fernandes Junior

Reitora Denise Pires de Carvalho

Coordenação de Rádio/TV Guiomar Ramos

Pró-Reitora de Graduação – PR-1 Gisele Viana Pires

Coordenação de Produção Editorial Isabel Travancas

Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa – PR-2 Denise Maria Guimarães Freire

Coordenação de Publicidade e Propaganda Mônica Machado

Pró-Reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças – PR-3 Eduardo Raupp de Vargas

Coordenação de Direção Teatral Jacyan Castilho

Pró-Reitora de Extensão – PR-5 Ivana Bentes Oliveira

CO-REALIZAÇÃO

Decano do CFCH Marcelo Macedo Corrêa e Castro

Diretora: Maria Cristina Miranda da Silva

FÓRUM DE CIÊNCIA E CULTURA Coordenadora Tatiana Roque Superintendente de Difusão Cultural Adriana Schneider

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO Diretora Suzy dos Santos Diretora-Adjunta de Graduação Carine Prevedello Diretora-Adjunta de Administração Andrea Moraes 42

CAp – Colégio de Aplicação da UFRJ

Escola de Belas Artes (EBA) Diretora: Madalena Ribeiro Grimaldi Coordenação de Artes Cênicas – Cenografia e Indumentária: Andrea Renck Escola de Educação Física e Desportos (EEFD) Diretora: Katya Gualter Chefe do Departamento de Arte Corporal (DAC): Frank Wilson

PARCERIA INSTITUCIONAL Spectaculu – Escola de Arte e Tecnologia Direção: Gringo Cardia, Marisa Orth, Malu Baretto, Vik Muniz e Giovanni Bianco Coordenação Núcleo de Trabalho: Carla Vilardo


EQUIPE XIX MOSTRA DE TEATRO DA UFRJ

Coordenação Geral e de Produção Érika Neves Coordenação Técnica/SUAT e Orientação de Iluminação Cênica José Henrique Moreira (ECo) e Gláucio Machado (EEFD) Comissão Pedagógica Carmem Gadelha e José Henrique Moreira Bolsistas de Produção (Bolsas Prêmio PROART/FCC) Bernardo Pimentel e Lilian Corrêa Monitoria de Apoio Pedagógico (Bolsa PR-1) Wesley Calcanho Monitoria de Iluminação Cênica / SUAT Beatriz Santa Rita (Direção Teatral - Monitoria - PIBIAC/PR1) Suporte técnico e de Iluminação – Equipe SUAT – Sistema Universitário de Apoio Teatral (Bolsas PIBIAC/PR-1 e PROART/FCC) Anna Padilha (Direção Teatral), Brawn Guerra (Arquitetura), Carolina Belcastro (Licenciatura em Música), Hadna Silva (Licenciatura em Dança), Hugo Bozelli (Engenharia Ambiental), Joan Felipe Pequeno (Engenharia Elétrica), Júlia Kan (Cenografia), Karla Gabr ela (Direção Teatral), Monique Rodrigues (Arquitetura), Otto Adour (estagiário do Ensino Médio), Reinaldo Machado (Direção Teatral) e Thiago Souza (Teoria da Dança). Programação Visual (Bolsa Prêmio PROART/FCC) Redson Fernando Orientação de projeto gráfico e diagramação Andreia Resende Filmagem CPM / ECo Filmagem e Fotografia (Bolsa Prêmio PROART/FCC) Ana Maria Miranda Eletricista Joel de Souza

XIXa Mostr ro deTeat da

UFRJ

Técnicos (Spectaculu) Erick Lopes (Iluminação Cênica), Sergi Oliveira (Iluminação Cênica) e Deivisson Menezes (Montagem de Cenário) CORPO DOCENTE Adriana Schneider (ECo) Alessandra Vannucci (ECo) Andréa Pinheiro (CAp) Andrea Renck (EBA) Andréia Resende (ECo) Antonio Guedes (EBA) Caio Riscado (ECo) Carmem Gadelha (ECo) Celeia Machado (CAp) Celi Palácios (CAp) Daniel Marques (ECo) Gabriela Lírio (ECo) Gláucio Machado (EEFD) Hélio Dias Ferreira (UNIRIO) Jacyan Castilho (ECo) José Henrique Moreira (ECo) Larissa Elias (EBA) Lígia Tourinho (EEFD) Lívia Flores (ECo) Luciana Maia Coutinho (EBA) Maria Inês Galvão (EEFD) Raquel Azevedo (EBA) Rodrigo Cruz (ECo) Ronald Teixeira (EBA) Samuel Abrantes (EBA) APOIO: - Casa Sapucaia - Conrado Bakes - Hitsy – Design & Estratégia - Gráfica Riomega - IPUB – Instituto de Psiquiatria da UFRJ - SUAT – Sistema Universitário de Apoio Teatral - Sujinho /MostraDeTeatroDaUfrj

mostraufrj@gmail.com 43


_ EXPEDIENTE

Revista programa sobre a “XIX Mostra de Teatro da UFRJ”. Uma publicação laboratorial da Escola de Comunicação ECo/UFRJ, sem fins lucrativos. Produção, editoração e revisão Érika Neves Bolsista de projeto gráfico e diagramação Redson Fernando (Prêmio PROART/FCC) Orientação do projeto gráfico e diagramação Andréia Resende (ECo) Foto da Capa Por Clara Castañon “Alice&Baltazar ou INDEVASSÁVEL” Espetáculo oriundo da “XVIII Mostra de Teatro da UFRJ” 44

Foto: Clara Castañon “DOM QUIXOTE & SANCHO PANÇA” XVIII Mostra de Teatro da UFRJ


Foto: Clara Castañon “CRUA” XVIII Mostra de Teatro da UFRJ 45


"XIX MOSTRA DE TEATRO DA UFRJ" “AMOSTRA GRÁTIS 2019” De 19/11 a 15/12/2019 REALIZAÇÃO

PROGRAMA DE APOIO ÀS ARTES

FCC/UFRJ ESCOLA DE COMUNICAÇÃO

CO- REALIZAÇÃO

APOIO

Sujinho

PARCERIA INSTITUCIONAL

Este projeto foi financiado pelo “Prêmio PROART/UFRJ 2019”, de apoio aos Grupos Artísticos de Representação Institucional – GARINs – e aos Projetos Artísticos Institucionais – PARINs, do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. 46

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À Mostra, vol.12 / 2019  

ISSN 2674-8797 (online) | ISSN 2317-1022 (suporte físico) // Apresentação: Revista "À Mostra", vol.12 / 2019 - Revista-programa da "Mostra d...

À Mostra, vol.12 / 2019  

ISSN 2674-8797 (online) | ISSN 2317-1022 (suporte físico) // Apresentação: Revista "À Mostra", vol.12 / 2019 - Revista-programa da "Mostra d...

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