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JUNHO DE 2013

O duelo do centenรกrio


AMAZONAS EM TEMPO Junho de 2013

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Editorial Bem-vindo à Ilha Tupinambarana! Além de saudar os visitantes, esta revista inédita quer levar você a uma viagem rumo a essa terra encantada chamada Parintins, responsável por abrigar um dos maiores festivais folclóricos do país. A rivalidade das cores azul e vermelha vai ter um sabor especial em 2013. Os bumbás comemoram seus centenários e, na arena, vão mostrar para suas galeras e para os jurados um pouco dessa história responsável por impulsionar a criação do festival que está em sua 48ª edição. Vamos conhecer um pouco da magia desse evento, capaz de atrair, por ano, quase 100 mil visitantes, segundo estimativa do governo do Amazonas. Além da disputa conhecida mundo afora, a “EM TEMPO DE TOADA” conta como nasceram Caprichoso e Garantido, quem são seus fundadores e os atuais itens oficiais individuais. Mostraremos também como está o novo bumbódromo e as maravilhas da ilha longe dele, onde se podem desfrutar dos sabores e da natureza amazônica. Vamos brincar de boi?

Lídia Ferreira

4e5 PARINTINS

Confira um roteiro completo desde o aeroporto ou porto de Manaus até a Ilha Tupinambara. Onde se hospedar, o que visitar, onde comer, e muito mais sugestões para os três dias de festival

12 AZUL

Toda a história que deu origem ao boi-bumbá Caprichoso. Desde o desejo de seu fundador Roque Cid até os dias atuais

9 REFORMA

O bumbódromo, lugar onde os bois Caprichoso e Garantido se apresentam, ganha uma nova “cara” e, consequentemente, mais espaço para as galeras dos dois bumbás

19 VERMELHO

O sonho de Lindolfo Monteverde é contado por meio de uma entrevista concedida por Cleumara Monteverde, neta do fundador do Garantido

Expediente Editor Lídia Ferreira lidia@emtempo.com.br

Subeditor Bruno Mazieri plateia@emtempo.com.br

Repórteres Gustav Cervinka Mário Adolfo Priscila Caldas

Diagramação Mario Henrique Silva

Revisão Dernando Monteiro Antônio Fonseca Gracycleide Drumond

Tratamento de imagem Kleuton Silva


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Aeroporto de Manaus Via de acesso mais rápido para Parintins

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urante o mês de junho todas as atenções do Amazonas se voltam para o Festival Folclórico de Parintins, na Ilha Tupinambarana. Porém, tirando o espetáculo realizado dentro do bumbódromo pelos bois Caprichoso e Garantido, que encanta brasileiros e estrangeiros, o município localizado no Baixo Amazonas, mais precisamente a 369 quilômetros da capital Manaus, conta com uma vasta diversidade não apenas cultural, mas também de serviços. E para prestar o suporte necessário para quem quer conferir a maior ópera a céu aberto do país, o EM TEMPO criou um roteiro especial que pode ajudar, e muito, na hora das “dificuldades”. Selecionamos algumas opções que vão desde como chegar até o local, passando por onde comer e, até mesmo, onde encontrar um bom salão de beleza. Agora, basta guardar esta edição e se deixar levar pelos encantos da ilha da magia. Como chegar? Para chegar a Parintins, o turista possui apenas duas opções: uma por via aérea e outra por via fluvial. No caso dos barcos de linha, as viagens podem durar de 18 a 24 horas, dependendo da potência do motor. Mas também é possível chegar à cidade em até 8 horas por meio dos famosos “ajatos”. Nós dois casos, o mais seguro é ir até o porto de Manaus (rua Taqueirinha, 25, Centro) e conferir a melhor opção.

Os valores variam de R$ 150 a R$ 300. No caso da ida por via aérea, o mais prático, sem dúvida, é procurar ajuda em uma agência de viagens na capital. Entre as companhias que fazem o trajeto diariamente, com a proximidade do festival, estão Gol, Azul/Trip e a mais recente MAP Linhas Aéreas. Em todo caso, o turista também pode recorrer ao Aeroporto Internacional Eduardo Gomes (avenida Santos Dumont, 1.350, Tarumã) e obter mais informações. Contato: (92) 3652-1210. Onde se hospedar? Uma das perguntas mais frequentes, sem dúvida, é onde ficar em Parintins. A cidade, nesta época do ano, disponibiliza diversos hotéis e pousadas com o conforto oferecido dentro das devidas proporções. Entre os destaques está o Amazon River Resort Hotel, localizado às margens da lagoa da Francesa. O local disponibiliza suítes duplas e triplas, além de contar com área de lazer e dois restaurantes. Informações: (92) 3533-1342. Outro local bastante procurado é a pousada Parintins, localizada no bairro São Vicente de Paulo. O espaço, que fica distante apenas dez minutos do bumbódromo, oferece suítes simples, dupla e de casal. Além disso, conta com decoração temática, comidas típicas e passou por uma reforma recentemente. Ao todo, são apenas sete quartos. Para mais informações: (92) 3533-4359 ou 9215-0607. Onde comer? Parintins é um paraíso gastronômico à parte.


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ntagalo

dia à beira do rio

Catedral de N. S. do Carmo

Indispensável visita ao local de fé mais tradicional da ilha

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l dão Mmuuitnoicpripoca Mercapio urada no local é a quinh A famosa ta

m da magia Com diversas variedades de espaços, sempre existem aqueles que o turista não pode deixar de ir, que é o caso da peixaria Pedaço de Paz, situado na principal avenida da cidade, a Amazonas. Com uma vista maravilhosa do rio Amazonas, o local conta com uma grande variedade de peixes em seus mais diversos tipos de preparo. Durante o festival, o restaurante fica bastante concorrido. Portanto, é sempre bom ligar para reservar uma mesa. Informações: (92) 3533-1510. Outro espaço gastronômico que não pode ficar de fora desse roteiro é a Thais Pastelaria. Também localizada na avenida Amazonas, bem próxima à Catedral de Nossa Senhora do Carmo, a lanchonete possui a “melhor empada do mundo”. Sempre quentinha e pronta para ser consumida, a iguaria possui diversos sabores. Dentre eles, o de chocolate, que é de encher os olhos e o paladar. E para quem não dispensa o tradicional tacacá, a pedida é o da dona Maria. Durante os dias que antecedem a festa, o local serve de ponto de encontro de amigos e também dos torcedores dos bois. Todo fim da tarde uma banca é montada para quem tiver interesse em se deliciar com o melhor tacacá da Ilha Tupinambarana. O endereço também é na avenida Amazonas. Como toda boa cidade, o Mercado Municipal de Parintins também é um templo gastronômico. Na realidade, é um dos espaços mais disputados para quem não dispensa um bom e sortido café da manhã. O prédio está situado na praça Eduardo Ribeiro, Centro, e abre a partir das 6h.

Onde se arrumar? Para as mulheres que gostam de uma boa produção e, até mesmo para os homens, o espaço mais rápido e fácil de achar é Belle Femme Salão de Beleza Unissex, que possui sua matriz em Manaus. Construido na avenida Amazonas, o espaço conta com manicures, cabeleireiros e esteticistas. Devido ao fluxo de turistas o local vive sempre lotado, mas é o melhor é poder marcar uma hora. Para mais informações: (92) 3533-4704. O que visitar? Parintins possui diversos pontos turísticos indispensáveis. Entre eles está a Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade. Localizada na avenida Amazonas, é o prédio mais alto da ilha. Construída em 1962, a igreja foi toda projetada na Itália e edificada com seus tijolos aparentes. Outro ponto bastante visitado é o balneário do Cantagalo. Um pouco mais afastado da cidade, o espaço conta com bares e tem como principal atração o lago do Aninga. Durante o festival diversas atrações musicais mostram seu talento para o público que lá fica até o fim da tarde. É bastante procurado por turistas pelo contato direto com a natureza. E para quem gosta de uma diversão mais demorada, uma das opções é conhecer a Vila Amazônia. Distante apenas 20 minutos, de barco, da cidade, a vila possui somente 67 famílias. Sua história é marcada pelo apogeu da juta no Estado até a década de 40, período em que o local foi criado por imigrantes japoneses.

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Márcia BARANDA

‘Resgatamos o orgulho azul’

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DIVULGAÇÃO

streante no cargo de presidente, Márcia Baranda dirige o Caprichoso há 3 anos. Brincante do bumbá azul desde os 13 anos de idade, sua história no bumbá é ligada diretamente à galera: foi uma das fundadoras da primeira torcida organizada, integrou os paikisés (empurradores de alegoria), fez parte da equipe de itens, além de coordenar o Conselho de Arte.

Copa do Mundo de 2014. Além disso, a programação dos 100 anos do Caprichoso prossegue até outubro, mas tudo está sendo preparado em segredo (risos). EM TEMPO - Os jurados causam sempre polêmica. Como vocês estão se preparando para a escolha deste ano? E como vai funcionar a fiscalização? MB - A disputa do Festival Folclórico de Parintins segue um regulamento. Vamos cumprir criteriosamente as regras para a escolha dos jurados. Acreditamos que são pessoas idôneas e que farão um julgamento isento.

EM TEMPO - Qual a sua avaliação do festival folclórico? Márcia Baranda - O festival de Parintins deu ao Estado do Amazonas sua identidade cultural. Esse evento é a galinha dos ovos de ouro do município. Todos os anos são centenas de famílias empregadas, empresas que investem na cidade, seus habitantes que preparam o comércio e organizam-se para ganhar uma renda extra. O festival abre portas para o desenvolvimento da cidade e do nosso Estado.

EM TEMPO - Como é ser presidente de um ano tão importante quanto o do centenário? MB - Administrar os impulsos da torcedora apaixonada que grita dentro de mim é mais que um desafio. O Caprichoso é minha paixão, minha alegria. É o ano mais importante do nosso boi, e com a união do grupo conquistaremos nosso objetivo.

EM TEMPO - Este ano ambos os bumbás perderam patrocínios. Qual foi o valor e como isso vai refletir na arena? MB - Nós perdemos sim patrocinadores. Em recursos, representaram uma perda de R$ 1,71 milhão. Mas, o Caprichoso, mesmo com todas as dificuldades, vai bonito para a arena, pois temos uma equipe comprometida com o boi. Com a união de todos vamos ser campeões. EM TEMPO - Surgiram dificuldades diante dessa mudança? Como está a questão no bumbá? MB -Todos os anos temos dificuldades, mas isso não é motivo para irmos para a imprensa e nos fazermos de coitadinhos. O Caprichoso está trabalhando, novos patrocinadores estão interessados no festival e se Deus quiser vai dar tudo certo. Posso assegurar que o Caprichoso está preparado pra vencer na arena. EM TEMPO - Qual a sua avaliação da não transmissão do festival em rede nacional? MB - O Caprichoso contratou a empresa Multvídeo, que vai gerar o sinal para todas as emissoras de TV que mantenham contrato conosco. Com isso, o Caprichoso não vê retrocesso, pelo contrário, o conteúdo será distribuído em diversas plataformas com abrangência nacional e internacional, isto é, TV aberta regionalmente, TV paga em diversas

Em seu primeiro cargo na diretoria do azul, Márcia Baranda é a atual presidente

cidades brasileiras, além de uma distribuição em outras plataformas, com cobertura nacional e internacional por meio da internet em tempo real e de aplicativos para tablets e smartphones, ambas de forma gratuita. Conta ainda com uma divulgação ampla de um portal de internet. EM TEMPO - Como está estruturada a agenda do bumbá fora do período do festival? MB - O boi Caprichoso tem o calendário montado de shows para turistas estrangeiros. Nossos artistas são reconhecidos em vários lugares do país. Eles assinaram os figurinos da abertura da Copa das Confederações com o artista Paulo Rojas e o artista Fabson Rodrigues. Já estamos agendando participação nos eventos da

EM TEMPO - Qual é marca que a sua gestão vai deixar para o bumbá? MB - Acho que maior que qualquer patrimônio é o amor do torcedor pelo boi Caprichoso. Nós conseguimos resgatar o orgulho do torcedor em vestir a camisa azul e branca e vibrar, torcer, gritar pelo nosso boi. Trouxemos para Parintins a confecção de camisas oficiais do boi e os demais produtos para gerar emprego e renda na nossa cidade. Construímos a nova escola de arte do Caprichoso, ampliamos o número de adolescentes e faixa etária, que antes era até 15 anos e agora atendemos até 18 anos, assim como ampliamos o número de oficinas. Realizamos campanhas para angariar alimentos em prol as famílias carentes de Parintins. Também demos dignidade para os trabalhadores dentro de galpão e construímos o Clube Caprichoso. EM TEMPO - Qual a expectativa para o festival do centenário? MB - A nossa expectativa é a melhor possível. Foi um projeto construído com o suor e com a dedicação de todos. Vamos festejar o ‘Centenário de uma Paixão’ em três grandes atos que celebrarão o amor do torcedor pelo Caprichoso, reconhecendo nossas raízes e todos aqueles que de alguma forma ajudaram na construção do centenário de uma paixão.


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Telo PINTO

‘Equacionamos as dívidas’ E

m seu segundo mandato, há quase 4 anos no cargo, o presidente do Boi Garantido, Telo Pinto, tem no currículo uma extensa participação na história do bumbá. Em 1983, entrou na arena como batuqueiro da Baixa, rotina que perdurou até 1994. No ano seguinte, entrou para a diretoria do bumbá vermelho e branco na área financeira. De lá para cá, passou por vários setores da associação folclórica, alguns ligados diretamente ao trabalho na apresentação, como a coordenação das tribos, tuxauas e figurinos, além de membro da Comissão de Artes e Subdireção de Arena, por exemplo. Nos bastidores, foi diretor administrativo, financeiro e, desde 2010, é presidente e diretor de arena.

EM TEMPO - Qual a sua avaliação do Festival Folclórico de Parintins? Telo Pinto - O Festival Folclórico de Parintins se tornou a mola propulsora do nosso município, tudo o que acontece aqui é benefício que o festival traz, pois nossa festa se transformou na identidade cultural do nosso Estado. Além de todos os atributos que o Amazonas tem pela sua exuberante fauna, flora e rios, está configurado nossa festa folclórica que enche os olhos do Brasil e do mundo. Fazemos um dos maiores festivais folclóricos do planeta. Temos orgulho de tudo isso. EM TEMPO - Este ano, ambos os bumbás perderam patrocínios. Qual foi o valor? Como isso pode refletir na arena? TP – Até bem pouco tempo esse quadro perdurava, mas com articulações políticas e a busca pelos bumbás de incrementar mais suas receitas, isso não é mais realidade. Temos dificuldades sim, pois as liberações dos recursos demoram. Quanto a parte artística, isso não influenciará, somos um povo criativo e isso não irá refletir nos espetáculos diários que o Garantido está preparando para o ano do seu centenário. EM TEMPO - Surgiram dívidas diante dessa mudança? Como está a questão no bumbá? TP – Acredito que já respondi essa questão na pergunta acima. EM TEMPO - Qual a sua avaliação do corte na transmissão do festival em rede nacional?

Telo Pinto ingressou no Garantido em 1983 e é presidente há quase quatro anos

Isso significa um retrocesso? TP – Primeiramente temos a plena convicção que não terá corte em nossa transmissão. Nosso boi vai estar em rede nacional e internacional, por meio da TV A Crítica, Record News e Record Internacional. Diante desse quadro, houve uma elevação no sentindo de que mais pessoas irão assistir ao nosso boi. EM TEMPO - Como está estruturada a agenda do bumbá fora do período do festival? TP – Temos uma agenda pré-estabelecida de eventos que iremos participar depois do festival. Isso inclui eventos alusivos à Copa de 2014 em parceria com nossos patrocinadores.

a obrigação de realizar o melhor e maior festival. Sempre digo em nossas reuniões que este é o festival das nossas vidas. EM TEMPO - Qual a maior dificuldade enfrentada ao longo de sua gestão? TP – Recebi o boi numa situação totalmente desequilibrada nos seus setores administrativo, financeiro e jurídico. Nesse período todo da nossa gestão trabalhamos muito para equacionar o elevado número de dívidas que existiam e resguardar o patrimônio do boi como um todo.

EM TEMPO - Os jurados sempre causam polêmica. Como vocês estão se preparando para a escolha deste ano? E a fiscalização? TP – Vamos seguir o rito normal das escolhas que está estabelecido no regulamento do festival. Faremos uma rigorosa fiscalização.

EM TEMPO - Qual é marca que a sua gestão vai deixar para o bumbá? TP – A marca de uma gestão comprometida com uma nação em valorizar uma agremiação secular e resgatar a moral do torcedor vermelho e branco. Nossa gestão trabalha muito para elevar cada vez mais o nome do nosso amado Boi Garantido. Somos todos loucos torcedores e sempre faremos o melhor pelo nosso boi.

EM TEMPO - Como é ser o presidente do Garantido em um ano tão importante quanto o do centenário? TP – Me preparei para ser presidente do meu boi, e ser presidente no centenário me enche de orgulho, sempre militei no Garantido e conheço muito da história do nosso boi-bumbá. É bem verdade que a responsabilidade é dobrada, temos

EM TEMPO - Por fim, qual a expectativa para o festival do centenário? O que o público pode esperar? TP –Temos a certeza que faremos um maravilhoso festival, um vitorioso festival. Podem esperar um Garantido como nunca se viu na arena, vamos vencer com a força de nosso povo, o povo vermelho perreché da Baixa de São José.


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Jander Vieira jandervieira@hotmail.com - www.jandervieira.com.br jandervieira

::::: Olha Kátia e Carol Sebben, mãe e filha, sempre são sinônimo de elegância vermelha em suas aparições

que bossa

Clã sobrenomado da cena parintinense, os Assayag celebrarão mais de 100 anos no Brasil, com festa em Parintins. Uma festa no final da tarde do próximo dia 27, no sítio de Simão Assayag, servirá para comemorar a centenária data.

Conheça oficiais d

O

espetáculo apresentado no bumbódromo de Parintins pelo bois Caprichoso e Garantido nas noites de 28 a 30 de junho só é possível com a participação de inúmeros artistas e O governador Omarpelo Azizseu e sua torcedores apaixonados boi.linda Nejmi, no climão de bovino Apresentador, levantador toadas, amo do boi, o próprio boi, cunhã-poranga, rainha do folclore, porta-estandarte e sinhazinha da fazenda são, em boa parte, responsáveis pela

::::: Espaço

cobiçado

Léo e Ana Paula Perrone, vermelhíssimos

O mago dos artistas caprichosos, Rossy Amoedo

O eterno pajé azulado, Valdir Santana

Os queridos Boré Lima e Berna nos domínios do setor VIP azulado

A presidente Márcia Baranda com Antônio e Norma Silva

A doce sinhazinha do Garantido, Ana Luiza Faria

mais

Os seletos convidados do espaço mais disputado do novo bumbódromo, o da Coca-Cola Brasil – que desde 1994, já investiu R$ 76 milhões no festival e em 2013, investirá R$ 6,5 milhões – se esbaldarão num camarote repaginadíssimo. Todo decorado em verde e bege, o espaço terá grandes painéis revestidos de juta e estrados de madeira aplicados nas paredes, assinados pelo mago da cenografia Altamir Júnior. No mobiliário, sofás, bancadas de bufê, puffs, bancos de madeira e balcões de bar, todos produzidos em marcenarias de Parintins. Novidade importante: o camarote contará com uma infraestrutura ainda mais completa e sistema de ar-condicionado. Viva!

::::: Amenidades bovinas A coluna disse que só pretende dar happenings diferentes e animados. Não poderia começar melhor, com a feijoada que os superanfitriões Ivânia e Hugo Levy pilotarão, no segundo dia do festival parintinense, dia 29, na bucólica casa do lago Macurany. Só para os mais íntimos. Giovanna e Lafayette Vieira estarão na cidade dos bumbás. E com eles uma penca

de animados convidados do setor azul. E que no ano do centenário o precário serviço das operadoras de celular funcione ou pelo menos não deixe os seus clientes incomunicáveis. Ano passado era mais prático mandar um sinal de fumaça do que conseguir completar uma ligação. Se é que você me entende... O apresentador Waisser Botelho será o

anfitrião de um grupo de amigos queridos durante o festival parintinense este ano: os atores globais Carlos Machado e Alejandro Claveaux, mais os badalados fotógrafos Léo Ramos e Sérgio Gallo pilotarão a lista de convivas. Com direito a cobertura da badalada revista “Quem Acontece”. Uma chiqueria.


os itens dos bois notas alcançadas pelas associações folclóricas ao longo dos três dias de festival. Além, claro, da galera, batucada e marujada, tribos indígenas e tantas outras importantes peças que fazem dessa festa uma grande ópera a céu aberto que encanta pessoas de norte ao sul do país e diversos estrangeiros. O EM TEMPO DE TOADA selecionou cada item individual para o leitor ficar atento nas performances de cada um.


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Coversa pra

O Tapiraiauara estava podre

Tapiraiauara, um bichinho do mato que parece uma anta, faz parte da lendas de Parintins. Por isso, é uma das figuras engraçadas do boi-bumbá Garantido Para colocá-lo em cena, os artistas do boi confeccionam o bicho com veludo grosso, abrindo um zíper no meio para que dois moleques, que são uma espécie de “tripa”, entrem e deem vida à alegoria. Para que isso aconteça, o da frente movimenta a cabeça com as mãos e as partes dianteiras com os pés. O de trás fica meio agachado, com a cabeça na direção da bunda do outro e assume a patas traseiras com os pés. Os dois devem acertar o passo para que possam correr, com movimentos sincronizados. Quando entra em cena, o Tapiraiauara arranca aplausos e risos, pois realmente é uma figura muito engraçada. Conta o apresentador Paulinho Faria que, há mais ou menos 6 anos, o Garantido resolveu investir pesado no item “Figuras Engraçadas”. E, quando ele anunciou o Tapiraiauara, o bichinho de veludo entrou com mais de mil na arena. Acontece que, no meio da apresentação, o moleque da frente, que havia jantado feijão com ovo cozido, batata frita, pimenta murupi e salada de repolho, soltou um pum que foi direto na cara do que estava atrás. Desesperado, o de trás começou a socar o da frente. E o da frente tentava defender-se como podia. Resultado, o bicho começou a desfilar todo se contorcendo, de forma atabalhoada. Ao ver aquele “rolo”, Paulinho Faria pensou se tratar de uma nova coreografia: – Aí está, senhores jurados, aí está, galera do Garantido. No item “Figuras Engraçadas”, o Tapiraiauara se contorce de dor depois de ter sido atingido pela arma do predador! Enquanto isso, lá dentro da alegoria, o pau cantava. O mau cheiro também, já que não havia buraco nenhum pro bicho expelir o gás “mortal”. O desespero do moleque que ia atrás foi tamanho que ele começou a andar de ré, enquanto a outra parte ia para frente. O resultado é que o Tapiraiauara se rasgou ao meio, com a cabeça saindo pelo portão de entrada do bumbódromo e o rabo fugindo desesperado pelo pelo portão de saída. O menino que ia atrás chegou semidesmaiado na dispersão e foi prontamente internado no hospital da cidade, por exalar gás tóxico. A partir daquele dia, nunca mais quis fazer a parte traseira do tal Tapiraiauara.

A indigestão da cobra-grande

Já ouviram falar que no Amazonas até boi voa? Pois é verdade. Principalmente em Parintins,

onde, por conta da genialidade dos filhos da ilha, tudo é possível. Já vi um morcego-vampiro descer das alturas e levar nas garras um caboclo descuidado. Já vi a Daniela Assayag, a eterna cunhã-poranga do Caprichoso, mergulhar no rio montando o dorso de um boto. Já vi um boto se transformar em caboclo garboso e engravidar cunhãs em plena arena. Meninos, eu vi. Por isso não me surpreendeu quando o apresentador do Garantido anunciou que uma cobra-grande ia entrar na arena e, para surpresa da galera, devoraria uma tribo inteira que estava pescando no rio e um turista babaca que tirava fotografias de macacos, araras, papagaios e periquitos. Aquele era o ano de 1982 e o boi se apresentava num tablado de madeira armado no estádio Tupy Cantanhede. Conhecendo, como conheço, a criatividade dos artistas parintinenses, sabia que viria por aí uma cobra-grande. Mas nunca pensei que a cobra fosse tão grande. A tal da Anaconda na frente dela era uma minhoca! Como todo ilusionista, o genial Jair Mendes, do Garantido, tinha bolado um plano fantástico. Os índios, perto de 50, mais o turista babaca estavam na arena dando bobeira quando a cobra gigante entrava e, antes que a “cabocada” conseguisse correr, ela “crau”, comia tudinho.

Vivinhos da Silva! Na cena da comilança, a moçada entrava pela boca da cobra, deslizava pelo bucho e, lá no fundo da barriga, eles sairiam por um buraco, abririam um alçapão (que tinha sido feito pelo Jair no chão de madeira, de madrugada, para ninguém ver) e, sorrateiramente, se escafederiam por baixo do tablado. A pergunta nossa, de espectadores embasbacados com a cena, seria: “Para onde esses caras foram?”. Acontece que, nos bastidores, um boi costuma colocar espiões entre os brincantes do outro. E, apesar dos cuidados, as informações sempre acabam vazando. O pessoal do Caprichoso soube que a cobra ia operar milagres na arena e, depois daquele número, dificilmente a galera azul ganharia o festival. Por isso, os dirigentes do Caprichoso, que se apresentariam antes do Garantido, resolveram tomar as providências. Pegaram a dona Aurora uma boneca gigante que disputa o quesito “Figuras Cômicas”-, colocaram uns três carpinteiros com pregos e martelo debaixo de sua saia rodada e mandaram a boneca sair dançando pela arena. Quando chegaram em cima do alçapão, os caras, escondidos debaixo da saia de dona Aurora, entraram em ação. Rapidinho, meteram mais de 50 pregos,


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Coversa pra BOI

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Reuniu as velhinhas e deu a ordem: – Seguinte: eu vou cantar “Lelerê, lelerê!”, e vocês respondem, tá bom? – Tá bom, seu Paulinho! -, responderam as velhinhas em coro. E o ensaio começou: – Lelerê, lelerê! E as velhinhas – Lelerê, lelerê! – Mais alto. Tá muito fraco. Não comeram feijão, não é? Vamos lá: Lelerê, lelerê! – Lelerê, lelerê! – Mais alto! -, gritava Paulinho. Vamos forçar mais, gritar mais alto, abram bem a boca para o grito sair forte. – Lelerê! Lelerê. O esforço das velhinha quase acabou em tragédia. Mais de 20 dentaduras voaram em cima do apresentador, e uma delas passou tirando “fino” da sua veia jugular.

Por Mário Adolfo

No vermelho

lacrando o alçapão. Por volta das 22h30, o Garantido entrou na arena já com pinta de campeão. Nada poderia superar o truque da cobra-grande. E, no meio do espetáculo, o apresentador Paulinho Faria anunciou com toda a força de seus pulmões: – Olhem só o que vai acontecer! Olhem só o que vai acontecer! Meu Deus, a cobra-grande está engolindo os índios! E agora? E agora? Vejam só, vejam só, a cobra-grande vai engolir o turista! É fantástico, senhoras e senhores, é fantástico! Só que, quando os índios chegaram no bucho da cobra e procuraram a tampa do alçapão, não a acharam. E a cobra continuou engolindo os índios, que foram se amontoando, uns por cima dos outros. Com um barrigão que mais parecia hidropsia, a cobra não tinha mais condições de se movimentar. Ficou ali, jiboiando. Imaginem o desespero dentro e fora da barriga da cobra: – Os minutos estão passando! Tirem essa cobra da arena! -, gritava Zezinho Faria, o presidente do boi, olhando o relógio e enxugando o suor do rosto. – Não dá Zezinho, os índios não estão achando o buraco para sair. E o bucho da cobra tá tão pesado, que ela não consegue mais se mexer, parece até que resolveu cochilar... Quando ninguém mais sabia o que fazer, o apre-

sentador Paulinho Faria teve uma ideia luminosa: – Olhem o que está acontecendo na arena, senhoras e senhores. A cobra-grande está tendo uma indigestão e está passando mal. Prestem atenção, a cobra parece que vai vomitar! É incrível, a cobra vai vomitar... Pois não é que a cobra vomitou. Um a um, os índios foram saindo. Amarrotados, mas saíram. Quem não se conformou foi o moço que fazia o papel de turista, pois teve a câmera quebrada por um índio gordo que sentou em cima. Meninos eu vi!

Dentadura voadora

O apresentador do Garantido, Paulinho Faria, que dominava a galera com um toque de maestria, estava querendo tornar o coro da torcida vermelha mais afinado. – Se todos cantarem ao mesmo tempo e ritmado, vai ficar mais bonito!, disse para a diretoria do boi, que aceitou a ideia e marcou um ensaio com o povo da Baixa do São José. Na noite de segunda-feira, Paulinho deu uma geral no curral e só viu as mulheres da velha guarda. A garotada mais nova estava grudada na televisão. Para coroar o esforço do pessoal da terceira idade, o apresentador resolveu fazer o ensaio assim mesmo.

Início dos anos 80. O desfile dos bois ainda era no tablado de madeira. Uma sinhazinha da fazenda, que vamos manter o nome em sigilo e tratar por Sheila, se preparava para entrar no bumbódromo com seu belíssimo vestido de juta, todo bordado com pedras e adereços amazônicos. É sacrificante desfilar com aqueles vestidos: eles começam a ser colocados nas moças no final da tarde. As meninas sobem em um banco e as costureiras vestem daqui, apertam dali, costuram um detalhe aqui, outro acolá, enfim, é a maior mão de obra. É mais ou menos como colocar um espartilho numa baleia-azul. Pois é, a moça estava lá, segurando sua sombrinha, esperando a vez de entrar, quando de repente: chuááá!!! Entrou em processo de menstruação. Desesperada, pois, com o vestido apertado e pesado, não conseguia nem se agachar, começou a fazer sinal paro pessoal do boi. Mas ninguém da diretoria percebia. Como ela estava num nível baixo do tablado e ali estava um pouco escuro, ela não pensou duas vezes. Ao primeiro moleque que apareceu ela pediu socorro: – Ei, curumim, pega um pedaço de papel e vem aqui limpar minha perna! O menino levantou o vestido, enfiou a cabeça embaixo, limpou o estrago direitinho e depois olhou para cima com aquele olhinho inocente: – Tá bom?... – Ainda não –, respondeu Sheila. Pega esse lenço e forra a minha calcinha! E o curuminzinho arrumou direitinho o lenço lá no local que era para arrumar. Atualmente, o garoto em questão já está com 28 anos. E, garantem minhas fontes da ilha, ele gostou tanto da experiência que hoje exerce a profissão de ginecologista.


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Parintins de fé O festejo de Nossa Senhora do Carmo é o segundo maior de Parintins

PRISCILA CALDAS Equipe EM TEMPO

P

or trás das grandes alegorias e, consequentemente, da maior ópera a céu aberto do país – o Festival Folclórico de Parintins -, está algo que todos os parintinenses possuem: a fé. E justamente no mês de julho, a cidade volta suas atenções para os festejos de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do município. Este ano, a programação inicia no dia 6 de julho e segue até o dia 16 e tem como lema “No Ano da Fé a Juventude Diz Sim Como Maria”, fazendo alusão à Jornada Mundial da Juventude, que será realizada, no Rio de Janeiro. Segundo o pároco de Parintins Rui Canto, a programação tem como primeira atividade o Círio de Nossa Senhora do Carmo. Até o encerramento, o evento conta com novenários e celebrações de missas, que culminam com a procissão e a missa solene, que no último ano reuniu um público estimado em 50 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. E nem somente de parintinenses é feita a festa. Há, ainda, encontro de peregrinos que residem em municípios próximos como Maués, Barrerinha, Nhamundá e, até mesmo, de Boa Vista, capital de Roraima. A capital do Amazonas

e o Pará, também fazem parte dos festejos. Para a secretária de Cultura e Turismo de Parintins, Cleia Viana, o evento católico é um momento em que não só a comunidade local comparece, mas também os parentes que residem em outras cidades, por motivo de estudo ou trabalho. Ela também destacou a tradição do evento, que é citado durante o festival folclórico dos bois Garantido e Caprichoso. “A abordagem feita no festival se refere à santa como a protetora da ilha. É uma demonstração de fé”, cita. A secretária ainda disse que o evento contribui com a geração de renda para a cidade, por conta dos arraiais que acontecem todos os dias. “Por meio da economia informal a cidade também

cresce. Essa com certeza é a segunda maior festa realizada pela população”, expressa. A celebração da Nossa Senhora do Carmo é a maior do Estado do Amazonas e a terceira maior do norte do país, sendo superada somente pelo Círio de Nazaré, que acontece em Belém, e da festa de Nossa Senhora Aparecida. Cleia destaca, ainda, que a expectativa para o evento deste ano é de que supere a marca de 50 mil pessoas, atingido no ano passado. “Desta forma, vamos contribuir com a rentabilidade do nosso município. É uma época especial para todos os parintinenses porque saímos das festas dos bois e ingressamos em momentos de fé e religiosidade”, finaliza a secretária. A catedral de Nossa Senhora do Carmo é um dos símbolos da ilha


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Cem anos de uma estrela


GUSTAV CERVINKA Equipe EM TEMPO

O

ficialmente, o boi azul e branco comemora 100 anos de sua criação em 2013. A falta de documentação (pelo menos divulgada e aberta ao público) que comprove sua fundação dá margem para algumas versões sobre sua origem. Contudo, aqui fica revelada a que é considerada como mais próxima da verdade. De acordo com a oralidade do povo parintinense, o Caprichoso surgiu com a figura de Roque Cid, um nordestino imigrante do Estado do Ceará cuja data de vinda para o Amazonas não é possível precisar ainda, mas existe indicativos de que ele já estaria na cidade em 1902. Roque Cid e sua paixão pela brincadeira de boi, muito presente nas sua terra de origem, inclusive, se refletiu no novo “habitat” que escolheu para morar, na busca de melhores condições de vida, mas que a história já provou que, embora promissores, os seringais não representavam exatamente o ouro branco para quem dele esperava prosperar.

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De fato, alguns documentos encontrados e pesquisados pelo chamado Instituto Memorial de Parintins chegam a apontar e comprovar a existência da personalidade histórica Roque Cid. Segundo informações de uma das pesquisadoras do instituto, Irian Butel, a papelada refere-se a portarias baixadas pela Câmara Municipal de Parintins que datam entre os anos de 1909 e 1911. Ali, estavam finalmente dirimidas quaisquer dúvidas sobre a verdade que Roque Cid existiu. É impossível remeter à origem do boi azul e branco com estrela na testa sem falar na rua Sá Peixoto (ou beco do Esconde) como seu berço. Segundo Butel e outras pesquisadoras envolvidas no resgate, “restauro” e registro da história do Caprichoso – como Jociele Cursino, Larissa Andrade e Odineia Andrade – foi a partir dessa região de Parintins que a brincadeira popular saiu às ruas e conquistou moradores e diversos currais. Relatos populares dizem que apesar de ter sido fundado em 1913, o boi só teria ido para a rua no ano seguinte. O Caprichoso já teria, inclusive, nascido como um boi de pano, com estrutura de estopa e IONE MORENO

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Tainá Valente defende o item sinhazinha da fazenda há 7 anos

samambaia. Dados, sobretudo oriundos de depoimentos orais de quem vive na Ilha Tupinambarana há muito tempo, atestam que o boi não carrega a marca de um único dono, mas como peça pertencente a várias famílias. Tamanho envolvimento de moradores e apaixonados pelo boi-bumbá foi responsável pela criação popular do slogan que marca sua trajetória, “Caprichoso, o boi de Parintins”. Aliás, a naturalidade do azul é um dos pontos que de vez em quando é pauta nas conversas informais entre apreciadores do folclore amazônico. Nas pesquisas existem relatos de que o Caprichoso foi criado dessa forma, simples e despretensiosa, no município de Parintins, refutando a ideia de que o mesmo teria migrado de Manaus para lá. O que é defendido por quem está mais envolvido no campo da história do “touro negro” é que, na capital amazonense havia outro boi com o mesmo nome, sem ligação entre eles. O estudo sobre a identificação do Boi Caprichoso com outras famílias, além dos Cid, apresentam nomes como Emídio Vieira, Antonio Boboí, Pedro Cid, Luiz Gonzaga, Nilo Gama, Cordovil e Zeca Xibelão, entre outros. Há quem diga que a confusão sobre a naturalidade do boi surgiu com a figura de José Furtado Belém, que viu o Caprichoso como um boi de Manaus, da região da Praça 14. A informação é da pesquisadora Irian Butel. Ela afirma que no trabalho de organizar a história do boi azul não existe a intenção de excluir ninguém que passou por ele, mas sim de reconhecer seus fundadores


FOTOS: ALEX PAZUELLO/ARQUIVO EM TEMPO

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Roque Cid é fundador do Caprichoso

e mantenedores. Dados apresentados por ela mostram que o Caprichoso como instituição, comportando presidência e corpo diretor, somente surgiu em 1982, tendo como primeiro presidente Acinélcio Vieira. A influência do nome de Roque Cid aparece mais evidente na história do Caprichoso, sobrepondose aos irmãos Pedro e Antônio. Teria sido ele próprio quem organizava, por exemplo, o Cordão dos Marujos, como era chamada a manifestação religiosa, igualmente inspirada na cultura do Nordeste, que deu origem ao nome da percussão do Boi Caprichoso, a Marujada de Guerra. De fato, os Cid têm atuação praticamente perene durante longos anos da história do boi. Era dona Nelcina Cid, neta de Roque, quem costurava anualmente a estrela na testa do Caprichoso, por exemplo. Uma das primeiras arte-educadoras do município, Irian Butel é formada em história, com ênfase em arte e educação. Ela afirma que a devoção aos santos também é muito presente na vida do Caprichoso, embora não confirme nenhuma relação entre a origem do boi e alguma promessa feita. No decorrer do tempo, o boi teve uma sucessão de donos e atualmente encontrase na condição de Associação Folclórica Boi-Bumbá Caprichoso. Segundo Butel, a vontade de ter um brinquedo que seja para alegrar e entreter, e a força e o sentimento de pertencimento ao boi fazem com que as pessoas ligadas a ele tenham o prazer de ser como donos, de fazer parte e de querer estar perto da estrela azulada.

TÍTULOS 2012 2010 2008 2007 2003 2000 (empate) 1998 1996 1995 1994

1992 1990 1987 1985 1979 1977 1976 1974 1972 1969


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Omar AZIZ

‘É sempre bom ser olhado pela classe política’ Governando no ano do centenário dos bois de Parintins e pensando na Copa de 2014, Omar Aziz afirma que a presença de políticos e autoridades não apenas nacionais, mas também internacionais, é uma maneira de mostrar que o Amazonas é sim um polo industrial e, claro, de cultural. Em entrevista ao EM TEMPO, o governador conta de onde surgiu a necessidade de amplicar o bumbódromo, os planos para a Copa do Mundo, a importância de Parintins para o Estado como um todo e sua expectativa para o festival deste ano que, certamente, ficará marcado na história dos bumbás. EM TEMPO - Para o senhor, como Parintins influencia no calendário cultural e turístico do Amazonas? Omar Aziz - O investimento que estamos fazendo no festival este ano, na estrutura do bumbódromo e na própria festa, demonstra a importância que o festival tem não só para o Amazonas quanto para todo o país. Esses homens e mulheres, artistas de Parintins, trabalham de forma árdua o ano inteiro para fazer essa festa grandiosa, que é o retrato da nossa cultura, das nossas origens, e o talento deles já é certamente reconhecido. Não é à toa que temos artistas se destacando no Carnaval do Rio de Janeiro. É o reconhecimento desse talento. E claro que isso cada vez mais traz turistas de todos os lugares do mundo para a região. O que nosso governo tem feito é buscar melhorar cada vez mais a cidade, melhorar as condições de vida da população, para que o festival continue sendo esse espetáculo capaz de atrair mais turistas e de levar crescimento e desenvolvimento para quem vive na região. EM TEMPO - Muitas autoridades e políticos brasileiros participam do festival. Como o senhor avalia esse interesse, do ponto de vista político? OA - É sempre muito bom ser olhado pela classe política, sobretudo o Amazonas, que acaba ficando fora do eixo econômico do Brasil,

apesar de ser o maior Estado da Federação e ter importância significativa quando se aborda a questão ambiental. Então, receber políticos aqui, mostrar que fazemos uma bela festa é importante, mas não é só isso, claro. Ter por aqui legisladores, governadores, ministros, representantes da Justiça é ter a chance de falarmos de nós, de nos mostrarmos, nos colocarmos em pauta. EM TEMPO - Além do centenário dos bumbás, este ano será marcado pela inauguração do novo bumbódromo. Quando surgiu a necessidade de realizar essa obra e o como ela será utilizada fora do período do festival? OA - A decisão política de fazer esse projeto foi tomada por mim, a partir da dimensão que o festival tomou ao longo dos anos e da possibilidade de criar um espaço que pudesse funcionar o ano inteiro como um polo cultural e de capacitação permanente, não só para Parintins, mas para todo o O governador afirma que a presença de políticos na festa é uma forma de colocar o Amazonas em pauta

Baixo Amazonas. Mas o projeto do novo bumbódromo não foi desenvolvido só pelo governo, foi uma parceria com a direção dos bumbás e diretores de artes, para que a gente pudesse fazer um trabalho em comum acordo, atendendo as necessidades dos artistas que fazem a festa. Ampliamos a capacidade do bumbódromo que, já imediatamente após o festival, começará a oferecer as atividades de capacitação, com cursos do Cetam, de artes, com o nosso Claudio Santoro. É uma estrutura que não vai deixar nada a desejar em relação ao que é oferecido hoje em Manaus. EM TEMPO - A Copa do Mundo de 2014 vai ocorrer no mesmo mês do Festival Folclórico de Parintins. Há alguma ação prevista especificamente para essa época? OA - Desde o ano passado o festival de Parintins tem servido como teste de operação de um grande evento, como uma partida de um jogo da Copa do Mundo. E neste ano, os órgãos de governo já estarão lá para pôr em prática o planejamento que tem sido desenhado. Todas as forças de segurança do governo do Estado, por exemplo, já vêm trabalhando nesse planejamento, que é aprimorado continuamente. Neste ano, estaremos com toda a nossa operação de segurança em Parintins, para garantir a segurança de moradores e turistas e também para avaliar e ajustar a estratégia que será adotada na Copa, no próximo ano. EM TEMPO - Qual a sua expectativa para o festival do centenário? OA - Minha expectativa é que tenhamos uma festa linda, com a participação da população de Parintins, dos municípios do entorno, que são as pessoas que trabalham o ano inteiro para fazer esse espetáculo. Creio que tanto o Caprichoso quanto o Garantido se preparam para mostrar o melhor de cada um nest e centenário.


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A origem do espetรกculo vermelho

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GUSTAV CERVINKA Equipe EM TEMPO

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á exatos 100 anos – pelo menos é o que diz a versão oficial – uma brincadeira de criança ganhava forma e corpo (de pano) na Baixa do São José para crescer e virar espetáculo. Foi ali, em um dos bairros mais peculiares do município de Parintins, no interior do Amazonas, que o boi vermelho e branco nasceu. De fato, no início do século 20, o pequeno Lindolfo Monteverde ouvia as histórias contadas pelos avós sobre as características da festa folclórica nordestina do bumba-meu-boi, de onde sua família havia partido em direção ao Amazonas. Aos 5 anos de idade, por volta de 1907, o menino transformava a tradição oral em algo palpável para si mesmo, usando partes de palmeiras (curuatá) para simular o que seria o boi de pano que tanto ouvia falar. A brincadeira, a partir da imaginação, perdurou ao longo dos anos e, segundo alguns relatos, respaldados como resultados de pesquisas feitas pela neta de Lindolfo, Cleumara Monteverde, em 1913 o Garantido já existia como boi de pano. Alguns contadores de histórias sobre o boi-bumbá alegam que o Garantido teria surgido em sonho, outros dizem que ele somente foi criado após uma promessa de Lindolfo. Mas a versão mais próxima da realidade é que

TÍTULOS 2011 2009 2006 2005 2004 2002 2001 2000 (empate) 1999 1997 1993 1991 1989 1988

1986 1984 1983 1982 1981 1980 1978 1975 1973 1971 1970 1968 1967 1966

Desde 2011, Ana Luiza Faria é a sinhazinha da fazenda

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FOTOS: ALEX PAZZUELO/ARQUIVO EM TEMPO

tornou-se referência para a contagem BOIaofidata DORMIR cial de sua criação porque foi o ano em que o

jovem criador do boi-bumbá fez a tal promessa a são João de colocar o vermelho e branco na rua todos os anos, caso fosse curado de uma enfermidade que o acometeu. E assim aconteceu. Lindolfo Monteverde foi curado – possivelmente de uma grave pneumonia – e todos os anos, no dia do santo (24 de junho) o boi passou a fazer a alegria dos moradores, que participavam da brincadeira, após a chamada ladainha (espécie de missa ou oração cantada) de devoção. Considerando os festivais de boi-bumbá, a história revela que eles somente começaram a ser realizados em 1965, um ano antes de Lindolfo Monteverde (agora com 63 anos de idade) sofrer um derrame que o deixou sem movimentos de um lado do corpo e lhe tirou a fala. Segundo depoimentos da filha do criador do Garantido, Maria do Carmo Monteverde, havia muita tristeza estampada no rosto do pai, sobretudo durante os festejos juninos, fazendo-o chorar muitas vezes por não poder participar da festa. A história do boi também pode ser reflexo da história socioeconômica do Estado. Por muito tempo a “brincadeira séria” foi sustentada pela fabricação e comercialização de juta. Os registros históricos deixam claro que o Boi Garantido recebia contribuição de co-

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Lindolfo Monteverde é o fundador do Boi Garantido

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merciantes, mas também o próprio Lindolfo Monteverde conseguia dedicar parte de seus recursos financeiros obtidos com a plantação de juta. A informação é chancelada pela filha do primeiro amo do boi, Maria do Carmo. Aos comerciantes enriquecidos com a produção de juta, que ajudavam a manter o boi vermelho e branco, foi dado o título simbólico de “padrinhos do boi”. Outros dados mostram que uma das curiosidades da história do Boi Garantido é ter vencido dois festivais em um único ano, em 1975. Um foi promovido pela Juventude Alegre Católica (JAC), em uma quadra de esportes na rua Jonathas Pedrosa, onde está instalado o Centro de Atendimento ao Turista (CAT), local onde tradicionalmente acontecia a disputa. O outro foi organizado pela Comissão Central de Esportes (CCE), no parque das Castanholeiras, hoje quadra de esporte Padre Silvio Mioto, na rua Sá Peixoto. Esse feito está discriminado no livro “Parintins – Memória dos Acontecimentos Históricos”, do historiador Tonzinho Saunier. Lindolfo Monteverde morreu em 1979, mas o legado do Boi Garantido permanece nas mãos de sua família. A história sobre sua origem tende a

receber novas informações ao longo do tempo, uma vez que boa parte dela esteve concentrada apenas na memória das pessoas que viveram ao lado de seu criador, o que a torna passível de transformações à medida que novos relatos vão surgindo, seja em “causos”, seja em pesquisas como as de Cleumara Monteverde. Muito do que já existiu sobre a história do Boi Garantido foi perdido após a destruição da casa de Lindolfo Monteverde, por volta de 1981. O local foi requisitado pela então direção do boi, que alegou precisar de espaço para a sede do Garantido. Lindolfo mudou-se para a casa de palha atrás do terreno, onde há 3 anos foi criada uma réplica da casa do criador do boi. Para reduzir o déficit de informações sobre a história do boi centenário, o projeto de Cleumara, “Garantido – A Tradição Cultural de Lindolfo Monteverde”, que busca resgatar informações de pessoas que conheceram e viveram ao lado de Lindolfo, deve ser registrado em vídeo e transformado em acervo para que não se percam referenciais para quem tem interesse em conhecer a origem do vermelho e branco, bem como para gerações futuras.


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AMO DO BOI

Edilson Santana

BOI-BUMBÁ

Marquinhos Azevedo

LEVANTADOR

David Assayag

PORTA-ESTANDARTE

Rayssa Tupinambá

APRESENTADOR

Júnior Paulain

CUNHÃ-PORANGA

Conheça oficiais d

O

espetáculo apresentado no bumbódromo de Parintins pelo bois Caprichoso e Garantido nas noites de 28 a 30 de junho só é possível com a participação de inúmeros artistas e torcedores apaixonados pelo seu boi. Apresentador, levantador de toadas, amo do boi, o próprio boi, cunhã-poranga, rainha do folclore, porta-estandarte e sinhazinha da fazenda são, em boa parte, responsáveis pela

Maria Azedo

PAJÉ

Waldir Santana

RAINHA DO FOLCLORE

Brena Dianná

SINHAZINHA

Thainá Valente


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os itens dos bois notas alcançadas pelas associações folclóricas ao longo dos três dias de festival. Além, claro, da galera, batucada e marujada, tribos indígenas e tantas outras importantes peças que fazem dessa festa uma grande ópera a céu aberto que encanta pessoas de norte ao sul do país e diversos estrangeiros. O EM TEMPO DE TOADA selecionou cada item individual para o leitor ficar atento nas performances de cada um.

AMO DO BOI

Tony Medeiros

BOI-BUMBÁ

Denildo Piçanã

LEVANTADOR

Sebastião Júnior

PORTA-ESTANDARTE

Verena Assis

RAINHA DO FOLCLORE

Patrícia de Góes

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APRESENTADOR

Israel Paulain

CUNHÃ-PORANGA

Tatiane Barros

PAJÉ

André Nascimento

SINHAZINHA

Ana Luisa Faria


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Por trás d GUSTAV CERVINKA Equipe EM TEMPO

O O secretário Robério Braga intermedeia o sorteio dos bumbás

Festival Folclórico de Parintins ultrapassa os limites da arena do bumbódromo. Enquanto o espetáculo acontece aos olhos do público, outro sem-número de pessoas está trabalhando para que todo o universo de cores, som e magia seja desenhado. Em verdade, os bastidores do evento começam pelo menos 1 ano antes de ser executado. O titular da Secretaria de Estado de Cultura (SEC), Robério Braga, afirma que o principal elemento motriz do evento é a fase de planejamento. “Ele é de longo prazo, pois assim que acaba uma edição inicia o processo de elaboração da seguinte, claro que misturado com outras atividades”, diz. O espetáculo, propriamente dito, é concebido pelas mentes dos artesãos e artistas amazonenses


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o espetáculo de Parintins de cada um dos bois-bumbás, Caprichoso ou Garantido. À SEC cabe, segundo Braga, a coordenação da festa e a articulação de todos os órgãos envolvidos na estruturação do evento. “Somos focados na interface entre órgãos federais, estaduais e municipais, e patrocinadores. E com um peso elevado na total responsabilidade de um evento muito grande, naquilo que represente estrutura, organização, controle de ações que foram previstas, acompanhamento, fiscalização e avaliação daquilo que foi planejado”, explica. Nesse ponto, o secretário lembra que houve, ao longo de 1 ano, um seminário de revisão crítica, onde foram discutidos diversos pontos de melhoria para esta edição do festival. “A SEC articula esse debate e resolve as diferenças. Não se pode gerenciar a distância. Temos que estar presentes aos mínimos e aos grandes problemas. Uma pequena dificuldade pode virar uma grande confusão depois”, ressalta.

Desde que está à frente da SEC (ainda na segunda gestão de Amazonino Mendes – 1995), Robério elenca como principal mudança, dentre as que ocorreram no festival, a profissionalização do evento. “Houve um salto expressivo na organização da festa quando o bumbódromo foi construído, na gestão de Amazonino. No governo do Eduardo (Braga), houve a conformação empresarial para a festa. Havia uma experiência única com a CocaCola e resolveu-se incrementar isso, trazendo mais patrocinadores e profissionalizando a estrutura, sobretudo na venda de ingressos pela internet, ingressos eletrônicos, dando um efeito moderno a isso. Agora, no governo Omar Aziz, há um novo bumbódromo, que impulsiona ainda mais para o alto a festa”, afirma. Ao todo, a organização do festival de 2013 conta com mais de oito mil pessoas, incomparável ao contingente de 500 pessoas em 1997, quando a SEC passou a geri-lo.

Desde 1997 Braga coordena o evento


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A ópera DA FLORESTA

A festa vai começar MÁRIO ADOLFO* Equipe EM TEMPO

V

ocê já pode ter ido uma, duas, três ou até 18 vezes – como eu - a Parintins. Mas não adianta, toda vez é como se fosse a primeira. Quando o apresentador executa a contagem para a entrada do boi e um único surdo ecoa a batida para o início da batucada, um arrepio percorre seu corpo, iniciando nas pernas, eriçando os pelos dos braços e se alojando na nuca. Quando isso acontece, tenha certeza, você acabou de ser fisgado pelo feitiço da ilha de Parintins. No meu caso, esse primeiro arrepio foi sentido em 1983. E até hoje, 29 anos depois, continuo passando pela mesma emoção e sentindo o mesmo arrepio quando a batucada entra na arena, acendendo o rastilho para o maior espetáculo folclórico do planeta, uma explosão de cores, sons, criatividade, beleza plástica e ousadia. A lua cheia, que desfila sublime num céu estrelado e banha de prata o rio Amazonas numa quente noite de verão, é testemunha. A cada número gritado pelo apresentador, a galera amplia em um coro de mais de 40 mil vozes: “Um... dois... três e...jááááááá!!!”. O surdo comanda a entrada com uma batida forte, que faz estremecer a arena e o peito. A adrenalina dispara quando o apresentador começa a falar baixinho e, lentamente, vai aumentando a tonalidade da voz: “Olha o boi!... Olha o boi!... Olha o boi!!!”. A arena do bumbódromo explode. Os brincantes sacodem sensualmente os corpos no balé do doisprá-lá-dois-pra-cá, como um barco sacudido ao sabor do banzeiro do rio agitado. A galera do boi que está se apresentando na arena agita os braços e os estandartes, atira chapéus para cima. A expressão do rosto de cada um é de felicidade e êxtase. Do outro lado, a galera do “contrário” faz um silêncio respeitador e observa tudo, incólume, guardando a energia para quando seu boi entrar. O espetáculo contagia todo mundo, até o bispo da ilha. Até mesmo jornalistas, que em princípio teriam que se manter imparciais por uma questão ética, também não resistem ao apelo da batida cadenciada, hipnotizadora, ao apelo poético das toadas. Nesses anos todos, já vi muitos deles mandar a ética e a frieza para o espaço e sair pulando e catando atrás do boi. Já vi também muitos dos meus coleguinhas

enxugando os olhos. Já presenciei, do meu lado, o “papa da festa popular” Joãosinho Trinta aos prantos perguntar: “O que é isso, meu Deus?” O que vai acontecer daqui em diante é impre- Baln eár visível. A genialidade dos artistas parintinenses Espaço para divio do Can ersão durante o se supera a cada ano. Em 1983, quando a festa ainda era no tablado de madeira da praça Tukasa Uetsuka (ao lado de onde hoje é o bumbódromo), fiquei impressionado ao assistir um Juma – lenda amazônica sobre um gigantesco macaco com um olho só na testa –, entrar no tablado caminhando lentamente, cuvar-se para reverenciar os jurados e depois dançar, com os mesmo movimento dos humanos que se espalhavam pelo tablado. Tudo sob o comando de finos e transparentes fios de náilon que eu só perceberia mais tarde. Marinheiro de primeira viagem, eu ainda não tinha visto nada. Em 1989, depois de presenciar, estupefato, uma cobra quilométrica deslizar sobre as cabeças das pessoas que estavam na galera, comentei com o fotógrafo Carlos Dias, à época editor de fotografia do EM TEMPO, que cobria o festival comigo: “Bicho, agora só falta boi voar!”. Nem bem fechei a boca e o Boi Caprichoso, suspenso por uma roldana presa a um cabo de aço, desceu lá do alto, como estivesse voando sobre as nossas cabeças e “pousou” no meio da arena. Garantido e Caprichoso já tiveram três horas cada um para apresentar 24 itens em um megaespetáculo que já foi chamado de “ópera da floresta” ou, pelos críticos mais cáusticos e recalcados, de “escola de samba de índio”. Hoje, esse tempo foi reduzido para duas horas, e isso influenciou na emoção? Bom, essa continua a mesma. Embora, ao longo dos anos o espetáculo ter perdido parte de sua essência e pureza. Mas isso não conta. O que importa mesmo é que, na arena, o visitante vai assistir a mais grandiosa manifestação folclórica da América Latina, protagonizada pelo povo simples de uma cidade encravada no coração da floresta, às margens do rio Amazonas, sem qualquer expressão política ou econômica. Sua força reside na criatividade e no talento de seus nativos, descendentes dos índios parintintim. *Mário Adolfo é jornalista, escritor e diretor de Redação do EM TEMPO


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Conhecendo o novo

bumbódromo

Espaço que abriga torcedores e artistas do festival folclórico foi reformado e ampliado para oferecer melhor padrão de qualidade

ntagalo

GUSTAV CERVINKA dia à beira do Equipe EM TEMPO rio

O

famoso bumbódromo de Parintins, que abriga toda a magia do festival folclórico que reúne os bois Caprichoso e Garantido, recebeu investimentos que ultrapassaram a marca dos R$ 40 milhões para a melhoria de sua capacidade de lotação, bem como de oferecer condições de segurança, conforto e acessibilidade ao público, de acordo com informações da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra). Entre os aspectos que merecem destaque, está a ampliação da área total do espaço, que passou de 15 mil para 19 mil metros quadrados. Com essa mudança, o bumbódromo está apto a receber 16,5 mil pessoas (a capacidade

aumentou de 7,5 mil para 10 mil lugares nas arquibancadas, que somados aos lugares nos 31 novos camarotes perfazem o total especificado). Até o ano passado, esse número era de 12,2 mil lugares disponíveis aos brincantes de boi-bumbá. A estrutura nova contempla aos brincantes e torcedores duas entradas e duas saídas laterais. Essas portas de acesso não são as mesmas para convidados VIPs e autoridades. O bumbódromo tem várias opções para garantir a segurança das pessoas que forem prestigiar a festa folclórica. Em caso de necessidade de evacuação, existem oito rotas de fuga devidamente sinalizadas e dimensionadas conforme as normas vigentes, além de placas indicativas e luzes de emergência a cada 15 metros em todos os corredores e camarotes. Na parte externa também foram afixadas placas informativas indicando as rotas de saída, em

A reforma do bumbódromo custou R$ 40 milhões

caso de emergência. Entre outros detalhes de segurança do bumbódromo, para as torcidas, camarotes e brincantes ali presentes, podem ser destacados os equipamentos de combate a incêndios composto por detectores de fumaça nos ambientes fechados, como camarotes e corredores, por exemplo; a distribuição de 92 extintores de incêndio a base de água, gás carbônico e pó químico para combater os diferentes tipos de fogo; e mais 30 hidrantes pressurizados, colocados em pontos estratégicos. Vale ressaltar que o bumbódromo como um todo também é protegido contra descargas elétricas atmosféricas, com a instalação de equipamentos que obedecem às normas técnicas vigentes no Brasil, validadas pela ABNT. Acessibilidade Todo o ambiente apresenta instalações que valorizam a acessibilidade e o conforto, incluindo rampas, banheiros e camarotes que oferecem total acesso para as pessoas com dificuldade de locomoção. Foram realizadas obras de adaptação externa e interna do bumbódromo para isso, além de elevadores e piso próprio para deficientes visuais. Os lugares destinados aos cadeirantes passou de apenas cinco para 30. Tecnicamente, a reforma do bumbódromo permite que os espetáculos dos bois-bumbás tenham tradução em Libras e audiodescrição. As transmissões contam, a partir deste ano, com uma cabine própria para o desempenho desse trabalho. Para melhorar a percepção sonora e visual das apresentações, foi construída uma passarela suspensa de som e iluminação, fixada a 15 metros de altura em uma estrutura em arco com vão livre de 110 metros. O novo bumbódromo também passou a contar com modernas subestações e instalações elétricas. O piso da arena foi todo regularizado e reforçado para permitir que as alegorias possam evoluir com tranquilidade, sem o risco de sofrer qualquer imprevisto, sem contratempos às apresentações.


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EM TEMPO de TOADA - 23 de junho de 2013  

EM TEMPO de TOADA - Caderno especial do Festival de Parintins

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