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O Milagre dos peixes - 24 de novembro de 2013

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MANAUS, DOMINGO, 24 DE NOVEMBRO DE 2013

diadia@emtempo.com.br

(92) 3090-1017

RICARDO OLIVEIRA

Caderno H

Especial

No primeiro dia do manejo, depois de arpoar o pirarucu, o pescador deixa a canoa e vai buscar sua presa, que havia fugido para o capinzal que invade as águas

O MILAGRE DOS PEIXES Por muito pouco o pirarucu não desapareceu da região de Maraã. Na primeira pesquisa de estoque feita em 1999, os lagos da região do Médio Solimões e Japurá estavam quase extintos. O motivo era a pesca predatória, a invasão da região para pesca esportiva e comercial. Não havia nenhuma iniciativa de conservação. Foi o programa de Manejo de Recursos Naturais, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), que salvou a espécie e resgatou a qualidade de vida dos pescadores da região e de suas famílias. Quinze anos depois da atividade, em unidades de manejo como os lagos Preto, Canivete e Itaúba, a contagem aponta que já habitam mais de 30 mil pirarucus. Na primeira avaliação, o estoque não chegou a 200 peixes. Para acompanhar o manejo deste ano, que começou no dia 14 de novembro, o EM TEMPO enviou uma equipe à Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Em seis dias, nossos repórteres presenciaram mais de 500 pescadores - monitorados pelos técnicos do Instituto Mamirauá - operarem um verdadeiro “milagre dos peixes”.

A MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

MANEJO DO

PIRARUCU

s canoas com motores de “rabeta” da Colônia de Pescadores Z-32 de Maraã (Colpema) já estão posicionadas à entrada do lago do Canivete, nas proximidades do município de Maraã (a 615 quilômetros em linha reta de Manaus e a 892 quilômetros via fluvial). A cidade está encravada à margem esquerda do rio Japurá – afluente do rio Solimões. O lago fica a 20 quilômetros e é o cenário paradisíaco onde vai ser dada a largada para a pesca manejada do pirarucu, que ocorre todos os anos durante 17 dias do mês de novembro. Os pescadores somam 570, ocupando cerca de 400 canoas. Serenamente, eles aguardam o sinal para avançar com seus arpões e malhadeiras na captura do “peixe-rei”. São 6h e o sol, timidamente, acabou de chegar afastando a ameaça de chuva, uma constante no inverno amazônico. “Isso é prenúncio de que será um bom dia para a pesca”, aposta o pescador Cacau Nogueira, 43, que vive da pesca há 23 anos. O sinal de que “está valendo” é dado pontualmente às 7h30 pelo presidente da Colônia, Raimundo Ferreira de Souza, que, com um grito de guerra, abre oficialmente a pesca do pirarucu. Rapidamente, cada pescador rema em direção ao que manda sua intuição. Mas, para onde eles direcionarem a canoa, vão esbarrar no pirarucu, porque o lago está infestado de peixes. Mas, se derem azar, também podem, vez por outra, bater de frente com o jacaré, hóspede indesejável que habita os lagos da região. A equipe do EM TEMPO é conduzida por dois experientes pescadores da Colônia Z-32 de Maraã: Zizinho, que comanda o leme do motor de rabeta; e Antônio, que vai na proa da canoa ajudando com seu braço forte a desencalhar a embarcação, o que ocorre a todo instante, porque as águas baixaram. Quando não, Antônio tem que usar o terçado afiado para cortar o capim “memeca”, que avança sobre as águas do lago do Canivete e praticamente cobre a canoa.


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Especial

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Na captura do pirarucu, homem e peixe travam uma luta nas águas do lago

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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omo cardumes de pequenos peixes, as canoas deslizam pelas águas claras e penetram nos igapós, procurando melhor local para armar suas malhadeiras ou empunhar o arpão. Quase sempre são dois pescadores em cada canoa. Mas existem os que levam mulher e filho e também aqueles que preferem pescar solitariamente. Os que cultuam a tradição de pescar com arpão buscam os capinzais nas margens do lago, onde o peixe costuma se entocar em busca de sombra e água fresca. O manejo do pirarucu é realizado desde 2002 num complexo de lagos que estão dentro da Reserva de De-

senvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM), criada em 1990 pelo governo do Amazonas, numa extensão territorial de 1.124.000 hectares, delimitada pelos rios Solimões, Japurá e Uati-Paraná, na região do Médio Solimões, próxima à cidade de Tefé (600 quilômetros a oeste de Manaus). A assessoria técnica para a Colônia de pescadores R–32 cultivar o pirarucu de janeiro a agosto é dada pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). A pesca é feita por meio de cotas determinadas pelo Ibama, a partir do levantamento dos estoques feito pela própria Colôni, com a supervisão técnica do Instituto Mamirauá. Quando o lago, enfim, se abre à nossa frente e avistamos centenas de canoas, o motor de “rabeta” tem que ser desligado. A partir de agora o silêncio é fundamental, para não espantar o pirarucu. Ouve-se apenas a batida do remo nas águas e o canto dos pássaros, principalmente das garças que sobrevoam nossas cabeças. Se alguém precisar falar alguma coisa terá que fazer bem baixinho. — Aqueles pontinhos ne-

gros que vocês estão vendo lá na margem são jacarés –, aponta Zizinho,e como se estivesse nos aconselhando fala baixinho que “seria prudente se você parasse de meter a mão na água para lavar o rosto”. Por volta das 8h15 o silêncio do lago é quebrado por batidas de porretes. Seu Zizinho avisa que o primeiro peixe caiu na malhadeira e é para lá que nossa canoa aponta a proa. A visão é de encher os olhos. Um pescador puxa a malhadeira e bate com cacete – ferramenta de paracuúba, fundamental para a pesca do pirarucu –, na cabeça do peixe, que, conforme arriscam nossos guias, deve pesar em torno de 48 a 50 quilos. Os autores da façanha de pescar o primeiro pirarucu do manejo de 2013 são Raimundo Costa e Euclides Moraes Neto, que, juntos, têm direito a uma cota de 25 peixes. Depois de puxar o “grandão” para a canoa, Raimundo enfia a mão na boca do peixe, como se o gesto fizesse parte de um estranho ritual. Zizinho, nosso canoeiro, explica: — O nome disso é panema. Quando o pescador leva muito tempo para pescar e consegue, finalmente, captu-


Preso pelo arpão, o animal tenta se libertar, debatendo-se contra a canoa

O pescador segura firme a linha do arpão e abate o peixe com pancada de porrete na cabeça

rar o primeiro peixe, ele enfia a mão na boca do bicho para afastar a onda de azar. Alguns minutos depois, um novo barulho – este mais intenso, repetitivo e nervoso – chama a nossa atenção. “Mas com certeza dessa vez não é pirarucu”, avisa mestre Zizinho, “isso é jacaré batendo em canoa”. Dito e feito. Ao aproximar nossa embarcação do local de onde está vindo o barulho, deparamos com o pescador Toinho Luiz, tentando desembaraçar um enorme jacaré que se enrolou em sua malhadeira. Quanto mais o bicho se debate, mas se envolve nos fios de nylon. “Esse é o jacaré-açu, o mais perigoso de todos”, reconhece Zizinho, que se prontifica a ajudar Toinho a se livrar do invasor. Numa manobra rápida, nosso canoeiro amarra a boca do jacaré com os próprio fios da malhadeira, dá três tapinhas de forma ousada no focinho do bicho e começa a livrar o “monstro” da arapuca em que se meteu. — O jacaré é assim. Quanto mais medo a gente tem dele, mais perigoso ele fica! – diz Zizinho, revelando sua sabedoria de homem do rio. Esse tipo de cena nós iría-

mos presenciar por cinco ou sete vezes durante o dia. Isso nos levou a admitir que está na hora de pensar, também, no manejo do jacaré. Os lagos estão superpovoados. Bastou o primeiro pirarucu ser pescado, para que o barulho do porrete se repetisse em sequência. Aos poucos, canoas já circulavam ao nosso redor com dois a três piraru-

PRECAUÇÃO

“Aqueles pontinhos negros que vocês estão vendo na margem são jacarés” –, aponta Zizinho, nos aconselhado a parar de mergulhar a mão na água para lavar o rosto cus. Os pescadores exibem o sorriso mais bonito do mundo, com a certeza de que vão cumprir a cota antes do tempo. Às margens do lago, no meio do capinzal, Jease Duarte, 28, parece uma estátua fincada na proa da canoa. Erguendo seu arpão à altura do ombro, ele permanece imóvel com os olhos

fixos sobre as bolhas de ar que surgem sobre o espelho d’água. É preciso paciência e muita atenção para não perder o momento em que o peixe coloca a cara fora d’água, porque na época da seca, o pirarucu precisa vir à tona para respirar a cada 20 minutos. É nesse momento que o majestoso peixe fica vulnerável à ação do pescador concentrado. Jease nem pisca. Subitamente, um sibilo corta o ar quando ele atira a arma de pesca atingindo o pirarucu que veio à tona respirar. A partir daí inicia-se uma luta entre ele e o bicho de quase 2 metros. Firme, ele segura o fio que prende a ponta de aço do arpão que está preso e dilacera a carne do animal. O pirarucu nada e rompe a malhadeira que cercava o território. É aí que um segundo pescador entra em ação, puxando o peixe para perto de sua canoa até conseguir bater o cacete fortemente, por várias vezes, na cabeça do pirarucu que, cansado e machucado, já não resiste aos seus captores e é puxado por dois homens para dentro da canoa. Mais uma vez, a natureza perde a luta para o homem.

FOTOS: RICARDO OLIVEIRA

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Especial

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É proibido pescar ‘bodeco’ ou jacaré Já existe uma proposta de um sistema de manejo para a pesca do jacaré, baseada em pesquisas desenvolvidas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá RICARDO OLIVEIRA

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Pescar jacaré não é permitido, mas vez por outra ele cai na malhadeira. E aí, começa uma briga para o pescador se livrar do animal

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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m 1975, o pirarucu foi colocado na lista do anexo 2 da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites). Institutos científicos calculam que o estoque capturado anualmente na Amazônia esteja em torno de 150 mil indivíduos. Mas, pelo

menos nas unidades de manejo do Mamirauá, a pesca indiscriminada é coisa do passado. Hoje os pescadores obedecem a um código de ética defendido por eles mesmos, mas que é supervisionado pelo Ibama e pelos técnicos do Instituto Mamirauá. Por exemplo, durante o manejo, é proibido pescar “bodeco” – como são chamados popularmente os filhotes de pirarucu. Pelas regras estabelecidas pelo Ibama e fiscalizadas pelos próprios pescadores da Colônia Z-32, só é permitido capturar os indivíduos que tenham, ao menos, 1,5 metro. Mas, existem espécies que podem chegar a medir mais de 2 metros e pesar até 100 quilos. Já os “bodecos” menores que 1 metro conseguem escapar das malhadeiras de tamanho 32 (malhas largas). Se arpoado,

por engano, o bodeco terá que ser sacrificado, pois não vai sobreviver depois do trauma, mesmo que seja devolvido à água. Mas aí, não vale como cota. O pescador é obrigado a assinar um documento doando o pequenino para instituições de caridade. Jacaré – A captura do jacaré também não é permitida, embora já exista uma proposta de um sistema de manejo de jacarés, no Estado do Amazonas, baseada em pesquisas desenvolvidas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no final da década de 90. Sempre que algum deles cai na malhadeira, o pescador inicia uma luta para tentar controlar a mordida fatal do animal, amarrando sua mandíbula com o próprio fio da rede, enquanto procura desvencilhá-lo.

De acordo com as pesquisas do Instituto Mamirauá, nos últimos anos foi registrado um aumento significativo das populações naturais de jacarés. “Após a implementação da unidade de manejo, houve o declínio da comercialização da carne de jacarés”. Essas informações foram fundamentais para que o jacaré-açu (Melanosuchus niger) deixasse de ser considerado uma espécie ameaçada, e tornaram-se um incentivo a mais para pensar em seu aproveitamento legal. Desde 2002, o governo do Estado do Amazonas, em parceria com diversas instituições, entre elas o Instituto Mamirauá, desenvolve atividades experimentais de abate e comercialização associadas ao projeto-piloto para o manejo de jacarés na Reserva Mamirauá.


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Corrida para entregar o peixe a tempo RICARDO OLIVEIRA

No flutuante, monitores contratados pela Colônia de Pescadores de Maraã recebem o peixe para fazer a biometria – peso e metragem –, e colocar o lacre

Capturado o pirarucu, o pescador tem um prazo de duas a três horas para chegar ao flutuante Modelo, sob pena de o peixe entrar em processo de decomposição

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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or volta das 11h, as canoas de “rabeta” começam a aportar no flutuante Modelo. Trazem duplas de pescadores eufóricos e felizes com o “dia bom” para a captura do pirarucu. Nesse primeiro dia do manejo, mais de 200 peixes já tinham chegado à

base para a biometria. Em pouco tempo, o assoalho do flutuante está coberto de pirarucus, deixando o piso liso pela gosma que o bicho solta quando está fora d’água. Depois que o pirarucu é capturado – ou de arpão ou de malhadeira –, o pescador tem um prazo de duas a três horas para chegar ao flutuante, sob pena de o peixe entrar em processo de decomposição. O sol é forte e, quando esse prazo não é atendido, os pescadores cortam galhos de árvores da floresta, molham suas folhas e cobrem o animal, para protegê-lo da exposição ao calor. No flutuante, monitores contratados pela Colônia de Pescadores de Maraã (Colpema) recebem o peixe para fazer a biometria – peso e

TAMANHO E PESO O trabalho da equipe de monitoramento é fundamental porque são eles que colocam os lacres, medem o tamanho e o peso dos peixes

metragem –, colocar o lacre e preencher uma ficha identificando o nome do pescado e a forma como o pirarucu foi capturado, se foi de arpão ou malhadeira. O tamanho da malha também é importante, pois não deve ultrapassar à medida de 35. Após a biometria, o peixe é levado para um barco com

geleira, onde a temperatura do pescado é conferida, devendo ser mantida em torno de 0ºC, pois acima desse grau inicia-se o processo enzimático e bacteriano, causando a deterioração do pescado, comprometendo, assim, a qualidade do pescado. Para manter essa temperatura, o gelo é colocado via boca do pirarucu, para resfriar a parte interna do pescado até o recebimento na indústria. O trabalho da equipe de monitoramento é fundamental, porque é ela que coloca os lacres, mede o tamanho e o peso dos peixes, além de recolher os dados dos pescadores, como o nome, a categoria de sócio, o instrumento utilizado na pesca e o tempo em que o pirarucu foi pescado.

Em poucas horas, o assoalho do flutuante fica coberto de pirarucus, deixando o piso liso pela gosma que o peixe solta quando está fora d’água


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Produção salta de 60 para 800 toneladas

Manejo envolve 2,1 mil pescadores em quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) mantidas pelo estado. Em Maraã, a cota autorizada pelo Ibama para 2013 é de 3.586 peixes

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cota de Maraã, autorizada para captura pelo Ibama para o ano de 2013, foi de 3.586 pirarucus. Desse total 3.196 são da colônia de pescadores a Z-32; e 390 do sindicato de pescadores. Considerando o peso médio de cada pirarucu em torno de 54 kg, a previsão é de produção desse ano será de 193.644 kg. Isto somente com o manejo de Maraã – informa a Secretaria Executiva Executiva de Pesca e Aquicultura (SEPA). Em todo o estado, as unidades de conservação revelam números impressionantes, onde a produção de pirarucu representa 74% do sistema de manejo e passou de 60 toneladas, em 2002, para 800 toneladas no ano passado. A atividade envolve 2,1 mil pescadores em quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS). Os dados são do Centro Estadual de Unidades de Conservação

(Ceuc), da Secretaria de Desenvolvimento Sustentado. Der acordo com a SDS, O manejo é realizado em quatro reservas estaduais: RDS Mamirauá (nos municípios de Uarini, Fonte Boa, Tonantins, Maraã e Japurá), RDS Piagaçu-Purus (Anorí, Beruri e Tapauá), RDS Uacari (Carauari) e RDS Amanã (Maraã, Barcelos, Coari e Codajás). Em 2011, o manejo de pirarucu foi realizado em 564 ambientes aquáticos (98% em lagos), onde foram contados 53.911 pirarucus com menos de1,5 metros, popularmente conhecidos como “budecos”, e 54.332 pirarucus adultos (maior ou igual a1,5 metros), totalizando 108.243 pirarucus entre jovens e adultos. Desse montante, 11.009 pirarucus adultos foram capturados para comercialização, os demais permaneceram no ambiente aquático para reprodução. No total, garante a SDS, o manejo de pirarucu nas quatro unidades de conservação estaduais beneficiou 1.072 famílias de 115 comunidades ribeirinhas. A produção total foi de 592,6 toneladas, a qual foi comercializada com preço médio de R$ 4,89, gerando um faturamento bruto de R$ 2,8 milhões o ano, especificamente no período de setembro a novembro, a ser dividido entre os pescadores.

A cota para captura, autorizada pelo Ibama para o ano de 2013, na unidade de manejo de Anamã foi de 3.586 pirarucus

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O pirarucu quase desaparece RICARDO OLIVEIRA

Manejo salvou o peixe. Na primeira avaliação de estoque, em 2002, não tinha 200 peixes. Hoje eles já somam mais de 30 mil

Devido à pesca predatória, o pirarucu chegou a desaparecer dos lagos e entrar na lista de extinção. Graças ao manejo organizado pela Colônia dos Pescadores, monitorado pelo Instituto Mamirauá voltou a ser povoado

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or muito pouco o pirarucu não entrou em extinção na década de 1970. Devido à exploração comercial sem nenhum freo e feita da forma mais irracional, a população da espécie quase desapsrece dos lagos amazônicos. Pesquisas revelaram que no início do século passado e a década de 70, foram exportados em média, 3 mil toneladas/ano de pirarucu, o que corresponde a mais ou menos 45% do total exportado. Somado ao consumo interno, teremos uma captura estimada de 94 mil peixes/ano. A estimativa, garante um estudo da Secretaria Executiva de Pesca e Aquicultura (SEPA), . é que, nesse período, foram pescados 8,4 milhões de pirarucus. “Consta que nesse período, o peixe foi o principal produto extrativo da pauta de exportação do estado do Amazonas”. Em 1996 o IBAMA-AM com base no principio da precaução e após intensa discussão com o meio acadêmico e pescadores, editou a portaria 01/96, proibindo a pesca do pirarucu em todo o estado, o fazendo de forma casada com portaria do IBAMA em nível nacional, que proibia a pesca da espécie entre 1° de dezembro e 31 de maio,

norma local suspendia a captura entre 30 de junho a 30 de novembro. Ressalvando, contudo no seu artigo 3° que a pesca seria autorizada em área de manejo. A primeira proposta para manejar áreas de pesca com foco no pirarucu foi feita pelo Instituto Mamirauá em 1998 propondo a pesca nas áreas focais das RDS Mamirauá e Anamã. E foi somente com o manejo, monitorado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentado de Mamirauá (IDSM), a partir de 1999, que a pesca do pirarucu passou a ser controlada e, os lagos passaram a ser repovoados novamente. — Na primeira pesquisa de estoque feita em 1999 , os lagos da região do médio Solimões e Japurá estavam quase zerados. O motivo era a pesca predatoria, a invasão da região para pesca esportiva e comercial. Isto porque não tinha nenhuma inicativa de conservação –, argumenta Said Pereira Barbosa, técnico de pesca da Coordenação de Manejo de Pesca do Insituto Mamirauá. Depois que o instituto começou a trabalhar na região, a Colônia de Pescadores de Maraã foi a primeira ter a iniciativa de aderir ao manejo. Até 2001, o uso dos recursos naturais da reserva estava restrito às comunidades de moradores. Nesse ano, o grupo de pescadores associados à Colônia de Maraã entrou em contato com os técnicos do Mamirauá e apresentou um trabalho de conservação dos recursos pesqueiros que estavam realizando, com êxito, no Complexo do Lago Preto, resultado de três anos de proteção. A partir desse momento, os técnico do IDSM começara a observar na área uma grande

quantidade de pirarucus e seu potencial para um futuro manejo da espécie. O interesse e o esforço dos pescadores encontraram eco no instituto, que passou a apoiar a Colônia, concedendo o direito ao uso da Reserva de Desenvolvimento Sustentado (RDSM), viabilizando a pesca de pirarucu, com cota autorizada pelo IBAMA a partir de 2002. Começava aí a história do manejo participativo.na Unidade de Reserva do Maraã e na qualidade de vida dos habitantes da região. Os pescadores se organizaram em torno da Colônia Z-32 e eles mesmos passaram a vigiar a região, tornando-se os fiscais da reserva, impedindo a entrada de barcos de pesca esportiva, o roubo de peixe e a pesca predatória. Durante três anos ninguém tirou um pirarucu dos lagos de Maraã. Aos poucos os lagos foram sendo repovoados novamente. — Já no ano de 2000 eles

começaram a se preocupar em fazer um sistema de vigilância da área e isso deu bons resultados. Tanto é que hoje, esse sistema de lagos, como os lagos Preto, Canivete, Itaúba têm mais de 30 mil peixes. Isso em menos de 15 anos. Antes, na primeira avaliação, não chegou a 200 peixes. Não tinha praticamente nada – conta Said. A ameaça de extinção não paraiva somente sobre o pirarucu. Eram todos os peixes que coriam risco. Depoimentos de pescadores à época revelm que eles passavam e semanas pra abastecer o mercado. Hoje eles vêm na reserva e, em um ou dois dias, pegam muitos pirarucu. Em 2008, em um dos melhores momentos do manejo, mais de 5.200 pirarucus foram pescados na reserva. A captura manejada rendeu cerca de R$ 1 milhão para os sócios da Colônia Z-32. Foi nesse momento que eles descobriram que o manejo é o caminho para melhorar a vida de seu povo. Em 15 anos de fundação, o Instituto Mamirauá conseguiu aumentar o estoque natural de pirarucu nas unidades de manejo


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A cota de pesca é definida pelo Ibama, a partir da contagem do estoque. Apenas 30% dos pirarucus adultos podem ser pescados

Já existe uma consciência ecológica entre pescadores “É quase impossível dizer para ele que onde tem cem pirarucus adultos, só é permitido tirar 30”

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDS) monitora dez unidades de manejo do pirarucu. De acordo com o técnico de pesca do instituto, Said Barboza, a produção de todas elas juntas pode ultrapassar 8 mil peixes. Nas dez unidades – Marraã, Acapul, Caruara, Cleto, Tijuaca, Coraci, Jarauá, São José, Paranazeli e Pantaleão –, os lagos estão bordados de peixe, mas a vigilância é constante. Said disse que um dos maiores ganhos nas unida-

des de manejo é a consciência ecológica que “foi trabalhada gradualmente” na cabeça do pescador, tarefa que não foi das mais fáceis. Hoje são eles que mantêm a vigilância da reserva, obedecem às cotas impostas pelo Ibama e não matam jacaré ou pescam pirarucu fora da temporada do manejo. — Foi um grande desafio, mudar essa consciência sobre uma cultura muito antiga, que eles receberam de seus tataravós. Antes, diz Said, a ideia dos pescadores era sempre chegar no lago e tirar todos os peixes que existiam. Falar para eles que onde tem cem adultos só é permitido tirar 30 “era quase que impossível”. — Tanto é que nas primeiras iniciativas de manejo em Maraã, apenas 42 pessoas participaram, porque os outros não acreditavam, achavam que isso não ia dar certo. Hoje, os associados da Colônia já chegam a 600 pescadores. Tem mais um detalhe, se

a Colônia Z-32 não tivesse dado uma freada para a entrada de mais pessoas, hoje haveriam mais de mil pescadores envolvidos. Said adverte que, em relação a isso, o Instituto Mamirauá já está tendo um certo cuidado, porque Maraã não é a única área existente, logo, eles podem procurar outras unidades de manejo e formar novos grupos de pescadores. “Porque senão, quanto mais

aumenta o número de pescadores, mas diminui o número de cotas por participante”. — Maraã é a maior cota preparada pelo Mamirauá, mas é a menor renda por pescador. Isto porque o faturamento é alto, mas são muitos pescadores. Vamos tentar, por meio do regimento interno deles (da Colônia) frear esse crescimento, para não passar de 550 pescadores associados.

Said Barboza, técnico de pesca do Instituto Mamirauá


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A revolução do Pirarucu RICARDO OLIVEIRA

Engenheiro de alimentos transforma pirarucu em bacalhau e diz que a indústria de Maraã tem mais qualidade que a da Noruega, porque “o que tinha errado lá eu corrigi aqui”

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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or trás da mesa desarrumada , um homem gordo, de cabelos grisalhos e barba por fazer interrompe o café com pão e manteiga para nos receber. Veste uma bata branca que vai até os joelhos, calças largas cáqui e sandálias de couro. O botão entreaberto do jaleco mostra que ele usa uma cinta ortopédica no tórax , uma exigência médica após a operação do coração que lhe abriu o peito. Antes que possamos trocar cumprimentos e apresentações, observo o poster de Ernesto Chê Guevara na parede onde sua escrivaninha está encostada. Este homem, a quem tentamos traduzir em poucas linhas é um visionário que já viveu em países como a Rússia, Colômbia, Alemanha, Noruega, Angola e Portugal. Fala mais de cinco idiomas, viveu e lutou revoluções. Algumas venceu, outras perdeu. Mas, por acreditar naquilo que faz, nunca se entregou. Depois de

rodar por mais de 40 anos em mundos diferentes, veio parar em Maraã, às margens do rio Japurá, onde esta empenhando em lutar por uma única causa: a revolução do pirarucu. Bismarck dos Prazeres, 65, é o direto de produção da Indústria de Bacalhau da Amazônia, inaugurada pelo ministro da Pesca e Aquicultura, Luiz Sérgio, e pelo governador Omar Aziz, em agosto de 200. A unidade é a primeira da América do Sul e tem capacidade para processar até 1,5 mil toneladas de pescado por ano. “Mas isso se deixarem a gente trabalhar, se acreditarem no potencial do projeto e investirem, de fato – observa Bismarck, que é formado em Engenharia de Alimentos, com especialização na área de pescado, pela Universidade de Coimbra, Portugal. Histórico - A semente que deu origem à Indústria de Bacalhau não foi plantada agora. Essa história começou em 1989, quando Bismarck trouxe o proceso para o Amazonas e apresentou ao então governador Amazonino Mendes. Apaixonado pela ideia, Amazonino destacava em todos os cantos por onde passava que “bacalhau não é um peixe. É um processo. Vamos produzir bacalhau em larga escala”, dizia empolgado. Para acelerar ainda mais a implantação do projeto, o governador resolveu criar o peixe em cativeiro, na região de Jutaí, através da Eco

Peixe, uma empresa vertical que colhia os ovos e levava para o laboratório onde, após a eclosão, eram produzidos os alevinos. — Tirávamos da natureza e, de balsa levávamos para Manacapuru, onde além de criar os peixes produzíamos farinha e ração de peixe – lembra Bismarck. Mas o sonho acabou quando Zequinha Sarney, filho do senador José Sarney, assumiu o Ministério do Meio Ambiente e cassou a licença para a empresa Eco Peixe criar pirarucu em cativeiro. “Foi um duro golpe em todos nós. Ele fez isso por motivos polítocos e atrasou por décadas a revolução que estávamos fazendo no manejo a salga de peixe”, queixa-se Bismarck que, com o preto debaixo do braço, retornou para a Europa . Quando o deputado e engenheiro agrônomo Eron Bezerra (PcdoB) assumiu a Secretaria de Estado da Produção Rural (SEPROR), Bismarck teve a oportunidade de desengavetar o projeto e “vender seu peixe”. Deu certo. O engenheiro de alimentos recebeu o sinal verde e, no prazo de quatro anos, conseguiu montar toda a estrutura para instalar em Maraã a primeira Indústria de Bacalhau da América Latina. — Essa fábrica está muito mais preparada do que a fabrica da Noruega, porque o que tinha errado lá eu corrigi aqui –, garante o diretor de

produção. No momento a Industria de Bacalhau emprega 40 homens, mas no pique do manejo, quando começam a chegar rios de pirarucus à empresa, esse número cresce para 60, só na linha de produção. O grande problema é que o peixe só pode ser capturado durante quatro meses. O defeso vai de janeiro a agosto. Nesse periodo, a maioria fica desempregada e envereda pelo alcoolismo. O ideal seria beneficiar também o jacaré e o peixe liso, para que a mão de obra pudesse ser ocupada o ano inteiro. --- Fui aos poucos treinando nosso pessoal, passando aos poucos o meu conhecimento. Mas a evasão é muito grande, principalmente por causa da bebida, que é o gande mal do interior do Amazonas. Ninguém consegue segurar funionário, até porque este é um emprego periódico só nos quatro meses do manejo, por isso eles não se interessam em permanecer – lamenta Bismarck. Apesar dos problemas, o momento é para festejar. De acordo com o engenheiro, a produção de 2013 está sendo “o maior assombro”. — Vamos beneficiar 7.000 peixes, o que representa uma faixa de 120 toneladas de pirarucu salgado e seco — revela o diretor, informando que este ano a indústria também está processando pirarucu de Fonte Boa.

O engenheiro de alimentos, Bismarck Prazeres, recebe mais um “grandão” para beneficiar e transformar em bacalhau. Ele andou pelo mundo inteiro, mas o sonho da indústria de bacalhau só foi realizado em Maraã


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MANAUS, DOMINGO, 24 DE NOVEMBRO DE 2013

‘Temos proteína para matar a fome do mundo’ RICARDO OLIVEIRA

Bismarck dos Prazeres, 65, é um ex-oficial do Exército, chegando à patente de capitão. Mas, durante o golpe militar de 1964, foi afastado por “adversidades políticas”. Era filho de pais comunistas e teve toda a família “convidada” a partir para o exílio. A partir daí virou cidadão do mundo, tomando como “pátria emprestada” países como Angola, Moçambique, Namíbia, Cidade do Cabo e Portugal. Mas demorou mais tempo em Coimbra, onde estudou e se formou em engenharia de alimento com especialização na área de pescado. Também foi em Portugal que se filiou ao SSPC (Supremo Socialista Partido Comunista), o que viria lhe render, no futuro, muitos problemas políticos no retorno ao Brasil. Veja aqui uma conversa franca com o homem que está transformando pirarucu em bacalhau no interior do Amazonas e tem projetos para desenvolver uma rede de fast food com empanados de peixe, para alimentar as crianças da rede pública de ensino

O revolucionário Bismarck faz um apelo para as pessoas que têm dinheiro e não sabem onde colocar, “coloquem em programas que possam gerar alimentos e matar a fome das crianças pobres”

lhador lazer, qualidade de vida. Com tudo isso, a gente começa a mudar a história.

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

EM TEMPO – No Amazonas se desperdiça muito peixe. É verdade que, se bem aproveitada, nossa produção teria proteína para alimentar o mundo? Bismarck – O Amazonas tem potencial para ser o celeiro do mundo em proteína. Eu mesmo tenho vários projetos nesse sentido, mas que precisariam de uma carga pesada em investimentos. Exportar peixe in natura não seria bom, mas agregar valorespor meio da venda de fast food, com farinhas concentradas e cálcios concentrados. Existe uma infinidade de alternativas de obter o peixe em baixíssimo valor comercial, agregar valor e transformá-lo em alimentos para matar a fome das regiões pobres do Brasil e de países pobres do terceiro mundo. Até porque também somos um “terceiro mundo melhorado”. EM TEMPO – O senhor aposta numa linha de fast food com empanados fabricados com o peixe do Amazonas. Quando o processo deve entrar em produção? B – A partir do momento em que eu consiga manter o pessoal trabalhando o ano todo, e não só na época do manejo, com um salário compatível, treinamento contínuo e bons transportes. Também é preciso dar ao traba-

EM TEMPO – Alimentar as crianças com proteína de peixe é a sua grande revolução? B – Imagine as escolas de 62 municípios consumindo uma tonelada e meia de de empanados de peixe? A criança sendo alimentada com a proteína, com sais minerais e utilizando produtos regionais, com certeza e cérebro dela vai se desenvolver de forma mais rápida e, claro, vai aprender mais rápido e poder sair desse ostracismo. Vou até aproveitar esse momento para fazer uma chamada geral direcionada às pessoas que têm dinheiro e não sabem nem aonde colocar. Coloquem na produção de alimentos que possam matar a fome de quem sente fome; coloquem na criança; coloquem no homem porque assim você vai ter um retorno e ajudar a mudar a sociedade. EM TEMPO – Como explicar que o Amazonas tem o maior potencial de peixe do mundo e não tem um terminal pesqueiro? B – São coisas inconcebíveis que não se vê em nenhum país do mundo. Não adianta só criar peixe, temos que pensar, peixe também come. Por isso temos que criar fábricas de ração, sistema de transportes explorando nossa estradas de rios, que são as hidrovias. O frete, por exemplo, é caríssimo, aqui no interior do Amazonas nós pagamos a passagem aérea mais cara do mundo e nossas estradas, que já são poucas, estão comprometidas e abandonadas. É mais barato ir a Miami que vir a Tefé. EM TEMPO – A Indústria de Bacalhau da Amazônia pode

ser o início dessa transformação, não é? B – Sim, mas poderia estar bem melhor do que está se houvesse mais investimentos. Existe a situação precária de manutenção global do projeto que me deixa de certa forma triste, poderíamos ter avançado muito mais. EM TEMPO – Implantar uma indústria de beneficiamento de pescado é um velho sonho que precisou de muita luta para torná-lo realidade. O senhor se sente realizado profissionalmente? B – Pessoalmente sim. Eu me sinto realizado por ver a coisa funcionando, ver o povo interiorano progredir e ganhar algum dinheiro. Mas volto a dizer que poderia estar bem melhor do que está agora. EM TEMPO – O senhor se dedica de corpo e alma a esse projeto por responsabilidade profissional ou por ideologia? B – Eu acredito que pelos dois. Profissionalmente, porque desenvolvi uma tecnologia que podemos chamar de tecnologia de ponta, que já tentaram fazer de tudo que é jeito e não conseguiram. Sem aquele processo de secagem, desenvolvido por mim, nunca se chega a esse produto. O lado da ideologia também funciona, porque se trata de uma revolução na vidas das pessoas que vivem no interior e nunca tiveram muitas esperanças em mudar sua vida. Implantar uma indústria dessa, num lugar desses, distante, como uma infraestrutura quase que “zero”, não é brincadeira, é um coisa muito séria. EM TEMPO – Esse processo é único ou existe algo semelhante em outros Estados do

Brasil? B – Não, o Amazonas é o único em toda a América do Sul. Com essa tecnologia só aqui e, futuramente, em Fonte Boa (município à quilômetros de Manaus). EM TEMPO – Até aonde o senhor pretende levar a Indústria de Bacalhau da Amazônia? B – Os planos e projetos são muitos. Como a rede de fast food, por exemplo. Vou continuar levando em frente o projeto até o dia em que deixarem. EM TEMPO – E se mudar a política corre o risco do sonho acabar novamente, como já acabou um dia? B – Essa é a nossa grande preocupação, que de repente entrem gestores sem conhecimento e responsabilidade técnica ou social pelo projeto e resolver fechar a indústria. É o risco que temos que correr. EM TEMPO – O amazonas hoje importa tambaqui de Roraima e a China produz mais o peixe em cativeiro do que a gente. Como o senhor avalia essa perda? B – Eu não dúvido nada que isso esteja ocorrendo. Mas é tudo por falta de fomento e não por falta do peixe. É preciso direcionar a piscicultura para o peixe adequado. A captura é muito precária, faltam câmeras frigoríficas para alojar o pescado. Tem também a entrada de estrangeiros levando peixe pelo preço que quer. Está entrando o narcotráfico como moeda corrente para compra do peixe. Falta muita fiscalização. A Polícia Federal tem que estar mais presente, o Ibama tem que estar mais presente, as Forças Armadas têm que estar mais presentes. Com o Exército reforçando a segurança na fronteira. o nível de respeito é outro.


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Linha de empanados vai alimentar crianças RICARDO OLIVEIRA

Além disso, uma empresa de Recife (Kaeru Indústria e Comércio de Couro Ltda.) está comprando a pele do pirarucu

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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Indústria de Bacalhau da Amazônia, implantada em Maraã por meio de um

convênio entre a Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia, trabalha atualmente em alguns segmentos que deverão diversificar a linha de produção da empresa, gerando mais empregos e renda para a população do município, além de atrair novos investimentos para o Amazonas. O primeiro deles, de grande responsabilidade social, são as pesquisas para o beneficiamento da carne de

jacaré para uma linha de fast food, com a produção de empanados para abastecer a merenda escolar das escolas públicas. — Já estamos bem avançados nesse setor –, garante o diretor de produção Bismarck dos Prazeres, mostrando alguns empanados fabricados como teste. O engenheiro de alimentos adianta que uma empresa de Recife (Kaeru Indústria e Comércio de Couro Ltda.) está comprando a pele do pirarucu e que, no momento ele tenta encon-

trar o destino para as escamas, que bem poderia ser usadas na confecção de peças de artesanato, mas que, no momento, são queimadas no quintal da empresa para não atrair moscas e urubus. — Uma empresa já manifestou interesse para transformar as escamas em pó e utilizá-las como esfoliante numa linha de cosméticos. Mas aí temos que primeiro chegar no preço que queremos. O gargalo está aí, mas vamos chegar a um acordo – aposta Bismarck.

Crianças de Maraã disputam a carcaça do pirarucu, que são distribuídas de graça, pois as mantas são retiradas no processo industrial da fábrica de bacalhau

Empanados com peixe seco já estão sendo testados pelos técnicos da Indústria de Bacalhau da Amazônia. A ideia é desenvolver uma rede de fast food


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Especial

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Como transformar p Do desembarque à comercialização, processo de produção passa por 18 setores até chegar ao carrinho do supermercado

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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esde a captura, o processo para transformar pirarucu em bacalhau leva 32 dias. O processo desenvolvido pelo engenheiro de alimentos Bismarck dos Prazeres e implantado na Indústria de Bacalhau da Amazônia chega a ser fascinante. São peixes gigantescos

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Desembarque: O desembarque da matériaprima é realizado em balsa flutuante, localizada a margem do rio Maraã, onde são desembarcados os peixes. Após desembarque do pescado, o peixe é mantido em câmara fria na temperatura de 0°C.

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Transporte: O pescado é transportado até o frigorífico em caminhão-baú fechado e climatizado.

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Classificação: A matéria-prima é classificada por pessoal treinado e com vasta experiência, sendo observado as características e temperatura do pescado, que deve ser de 0ºC, a fim de evitar o processo de deterioração.

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– às vezes chegando a medir 2 metros –, que chegam à recepção, causando espanto em quem nunca tinha estado à frente de um peixe desse tamanho. Explica a engenheira de pesca Aline Souza, da Secretaria Executiva de Pesca e Aquicultura (Sepa/Sepror), que a matéria-prima utilizada na fabricação dos produtos da empresa é adquirida da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, o pescado é capturado nos rios e lagos da região, tais como lago Preto, lago do Maraã e outros. Durante a época de safra, período de captura do pirarucu, a matéria-prima chega com horas de captura. Confira, passo a passo, todo o processo de produção:

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Recepção: ao chegar à recepção, a matériaprima é pesada e avaliada, medindo-se a temperatura e a forma de captura.

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Câmara de espera: a matéria-prima que não for absorvida imediatamente pela linha de produção ficará na câmara de espera, mantida com gelo em escamas e temperatura próxima de 0ºC até o momento de ser processada.

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Lavagem: o pirarucu é colocado em um túnel de lavagem recebendo esguichos de água hiperclorada com 5ppm de Cloro Residual Livre (CRL) para a remoção de todo o muco e sangue.


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irarucu em bacalhau 7

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Corte das mantas: ao sair do túnel de lavagem o pescado é colocado em mesas de aço inox, onde é realizado o corte das mantas. O processo é feito por pessoal treinado e com vasta experiência. Com auxílio de uma faca, faz-se um corte na região dorsal, um de cada lado, permanecendo a pele sem qualquer fissura, em seguida retira-se a manta da pele.

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Choque térmico: As mantas são conduzidas ao tanque com gelo permanecendo até a retirada para as mesas de salga. Esta etapa do processo tem como finalidade a redução da temperatura das mantas, evitando-se assim o processo enzimático.

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Mesa de salga: As mantas são retiradas do tanque de choque térmico e dispostas em mesas de aço inox, onde consta uma camada de sal. Em seguida é adicionado sal na proporção de 25% com relação ao peso da manta. Posteriormente a manta é bobinada (enrolada) no sentido cabeça-cauda.

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Transporte: As mantas “salgadas” são transportadas até o tanque de cura em caçapas.

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Tanque de cura: As mantas são dispostas no tanque de cura com

a pele voltada para baixo para que a mesma sirva de bandeja para o sal. O tempo de permanência varia em função da espessura do músculo que será no mínimo de 120 horas e no máximo de 192 horas. O processo é feito sob uma temperatura ambiente de 12ºC.

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Pré-secagem: Esta fase completa a cura salgada. As mantas são empilhadas sobre estrados plásticos com a pele voltada para cima com altura média de 2 metros para que por pressão do empilhamento haja liberação da salmoura. A cada 24 horas realiza-se o tombo, isto é, inverte-se a posição da manta obtendose assim um produto préseco a uma temperatura de 7ºC. As mantas permanecem no pré-secador por 120 horas.

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Secagem: As mantas são arrumadas em raquetes tramadas em linha de nylon com a pele voltada para baixo. São empilhadas a 2 metros de altura em túnel de vento capaz de manter o ambiente a 15ºC a 18ºC retirando do ambiente a umidade até que o produto empilhado alcance umidade de 45%, neste ambiente o produto permanecerá por 120 horas completando o ciclo de secagem do produto.

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Toalete: Após a retirada das mantas do secador, antes da pesagem são removidas as partes com alterações, tipo corte do arpão ou outro tipo de mancha ou ferimento.

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Pesagem: As mantas são pesadas em balança eletrônica de gancho.

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Classificação e embalagem: As mantas são classificadas por tamanho e embaladas. Quando de grande volume e porte, as mantas são embaladas em sacos plástico de polietileno de 8 camadas, as de pequeno volume e porte são bobinadas, amarradas com fitas de ráfia e colocadas em sacos de polietileno.

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Estocagem: Após a classificação e embalagem, o produto é organizado em prateleiras na câmara fria a temperatura de 5°C, formando lotes, mantendo-se distância de 30 cm das paredes, 60 cm do teto e 50 cm entre os lotes para permitir a circulação do ar frio e conservação da temperatura de todo o estoque obedecendo o princípio PEPS – Primeiro que entra, primeiro que sai.

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Expedição: O produto é expedido em balsa resfriado a temperatura de 5°C, seguindo para a comercialização em feiras e supermercados de Manaus.


Especial

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O carrinho do bacalhau Ao chegar a Manaus, o bacalhau da Amazônia é comercializado em feiras e supermercados disputando o mercado com o parente “norueguês” . MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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Indústria de Bacalhau da Amazônia está registrada sob o número de 046 no S.I.E. (Serviço de Inspeção Estadual). Isso significa que é possível comercializar o produto dentro do Estado do Amazonas e que todos os critérios sanitários estão sendo cumpridos conforme legislação. — Mas é claro que necessita de alguns ajustes, pois não existe uma empresa 100%. Estamos em etapas conclusivas para que se adquira o SIF (Serviço de Inspeção Federal), estamos em etapas conclusivas, a solicitação do está em andamento – explica Aline Souza. De acordo com a engenheira de pesca da SEPSA, ao chegar a Manaus, o bacalhau da Amazônia é comercializado em feiras e supermercados. O produto também é comercializado no “carrinho

do bacalhau”, que circula pela cidade em pontos estratégicos como, UFAM, INPA e empresas do Distrito. Amazonas X Nórdicos O grande desafio da Secretaria de Produção Rural do Amazonas (SEPROR) agora é tentar conquistar os mercados internacionais, principalmente com os “nórdicos” que continua sendo o preferido não só dos amazonenses, mas de todo o resto do país, embora os chefs de cozinha garantam que é possível fazer todas as receitas tradicionais com o “bacalhau de pirarucu”. Em recente entrevista à imprensa local, o chef Felipe Schaedler garantiu que o “gosto é parecido com o bacalhau comum, normalmente importado da Noruega”. Uma das críticas ao bacalhau da Amazônia é quanto ao preço. Mas a SEPROR tem feitos promoções em datas especiais. No Natal de 2012, por exemplo, lançou a promo-

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PIRARUCU ção “Natal com Bacalhau da Amazônia”, disponibilizando o produto a preços promocionais para servidores públicos federais, estaduais e para a sociedade em geral, com pagamento também no cartão. Para chegar até o consumidor sem que este precise se deslocar até onde está o produto, a secretaria adquiriu um microcaminhão adaptado com câmara frigorífica e uma minicozinha para percorrer vários locais da cidade. De acordo com a assessoria da SEPROR, o “ público adorou a ideia e fez até fila para comprar o Bacalhau da Amazônia”. LUZIMAR BESSA

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Para a comercialização do bacalhau da Amazônia, a SEPROR tem lançado campanhas e inovado a forma de fazer o produto chegar ao consumidor, como o “carinho do bacalhau”


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Um antropólogo mineiro vira pescador RICARDO OLIVEIRA

O trabalho de manejo do pirarucu tem importância fundamental porque está conseguindo integrar o conhecimento científico ao saber tradicional dos pescadores

O antropólogo José Cândido, da UFMG vem estudando os conhecimentos tradicionais da pesca no manejo de Maraã através de uma bolsa de pesquisa

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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junção do pescador tradicional com a ciência gerou essa abundância de peixes nos lagos de Maraã. Talvez esta seja a maior herança do plano de Manejo do Pirarucu que vem sendo monitorado pelo Instituto Desenvolvimento Sustentá-

vel Mamirauá (IDSM). A opinião é do antropólogo José Cândido . Formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que mora em Tefé, onde, através de uma bolsa de pesquisa vem estudando os conhecimentos tradicionais da pesca. Para José, foi o manejo do pirarucu que o atraiu para a região do Maraã, onde se integrou totalmente ao modo de vida dos pescadores. É comum encontra-lo em canoas, com chapéu de palha, pescando e remando ao lado dos caboclos. Por acompanhar nas pescarias um pescador conhecido por “farinha”, José acabou ganhando o apelido de “xibé”. Juntos eles formam a dupla “Farinha & Xibé”. — A reserva tem importância fundamental porque

está conseguindo integrar o conhecimento científico ao saber tradicional dos pescadores. Agora precisamos avançar ainda mais e pensar, também, no manejo do aruanã e do tambaqui – diz, pensando no futuro. O antropólogo mineiro analisa o perfil sócioeconomico do pescador de Maraã, revelando que ele pertence quase sempre uma família de cinco filhos, sobrevive da pesca, mas, no período do defeso, tem a roça e o comércio para complementar a renda. — Numa escala urbana, os pescadores pertencem a famílias de classe baixa, pois vivem de uma atividade que tem uma renda irregular, garantida somente no período do manejo do pirarucu. Às vezes chegam a ganhar até

R$ 3 mil. Mas de janeiro a agosto tem que ir buscar outras formas de sustento. Jose cândido também é de opinião que hoje já existe uma consciência ecológica na região, porque os pescadores sabem que, se não preservar e não obedecer às regras da sustentabilidade, evitando a pesca predatória, eles não terão mais essa riqueza que representa o pirarucu. — Houve um momento em que nos lagos de Maaraã só havia “budeco”, que é o filhote de pirarucu. A reserva e a atividade de conservação, através da vigilância constante feita pelos próprios pescadores e a organização da colônia com o monitoramento do Instituto Mamirauá, mudou esse cenário – analisa José Candido.

Aos 67 anos, o pescador Ailton da Silva é grato à abundância de pirarucu, para ele “uma dádiva da mãe natureza”


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Especial

MANAUS, DOMINGO, 24 DE NOVEMBRO DE 2013

Um “catarina” em busca do sonho amazônico RICARDO OLIVEIRA

Engenheiro de alimentos de Santa Catarina encara concurso público e vem trabalhar no meio da floresta, às margens do rio Solimões

O catarinense Leônidas Andrade, coordenador do Setor de Qualidade da Indústria de Bacalhau é grato por viver e aprender no Amazonas

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PIRARUCU MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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o refeitório, na hora do almoço, a figura de Leônidas Andrade, 29, chega a destoar de seus companheiros. A maioria é de pele morena, castigada pelo sol inclemente do Amazonas, tem cabelos negros e apresenta traços fortes da herança genética indígena. Já o coordenador do Setor de Qualidade da Indústria de Bacalhau da Amazônia, em Maraã, é demasiadamente branco, tem olhos azuis e

cabelos ruivos. Não é para menos. Leônidas é catarinense e, quem diria, foi parar em Maraã depois que recebeu o canudo da Universidade federal de santa Catarina (UFSC), onde se formou em Engenharia de Alimentos, e resolveu fazer um concurso no Amazonas. — Pesquisei na internet e descobri o concurso público da Secretaria de estado da produção Rural (SEPROR/AM) , em 2011. Me inscrevi, passei, fui treinado em Manaus e aqui estou, no meio da floresta, às margens dos rios Solimões e Japurá – conta o catarinense. Leônidas não foi o primeiro da família de “catarinas” a se aventurar Pela Amazônia. Seu avô, abandonou a mina de carvão onde trabalhava em Santa Catarina e veio em busca do sonho para a região Norte. — Meu avô trabalhava na produção de carvão mineral, que tanto mal fazia à saúde,

pela incidência de pneumoconiose, uma doença pulmonar ocupacional, causada pela inalação de poeiras. E as pessoas se aposentam por volta de 30 anos e se torna inútil para o trabalho – conta o engenheiro. O avô de Leônidas percebendo o risco que corria e por gostar muito de agricultura migrou para a Amazônia, onde andou por Altamira e acabou chegando a Araquemes, em Rondônia, em 77. — A Amazônia é generosa, em Rondônia meu avô conseguiu o realizar o sonho de ter um pedaço e terra para plantar e criar bois. Mas meu pai não gostava disso foi para Porto Velho, onde conseguiu um emprego fixo. O engenheiro avalia que fez a escolha certa quando decidiu encarar o desafio de trabalhar num Indústria de Bacalhau instalada no meio da floresta, numa cidade pequena e distante como Maraã.

— Eu acho o projeto muito bom. Ninguém conseguia imaginar que um estado investisse em um projeto tão ousado como uma indústria de um peixe conhecido como o bacalhau da Amazônia. O catarinense diz que está gostando muito de trabalhar no interior do Amazonas, mas não pretende se aposentar em Maraã. — No entanto, sou grato ao Amazonas pela grande oportunidade de estar trabalhando numa industria onde tem aprendendo tanto, adquirindo uma experiência única. — E o salário, compensa? – pergunta o repórter. — É razoável – responde ele –, mas talvez se eu estivesse trabalhando na iniciativa privada estivesse ganhando bem mais. Só não sei se teria o mesmo aprendizado que estou tendo aqui ou se viveria numa região tão fantástica quanto a Amazônica.

EXPEDIENTE EDIÇÃO E REPORTAGEM Mário Adolfo

FOTOS Ricardo Oliveira

Diagramação Mario Henrique Silva

Tratamento de imagens Pablo Filard

REVISÃO Dernando Monteiro


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O Milagre dos peixes - 24 de novembro de 2013 by Amazonas Em Tempo - Issuu