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Especial

ARAGUAIA

Memórias da guerra de guerrilha do Brasil, que durante muitos anos ficou envolto em um manto de silêncio

Forças do governo chegam ao Araguaia. A euforia foi só no começo, porque depois a aventura virou um pesadelo, com muitos soldados inexperientes mortos por guerrilheiros, que já estavam na selva há 6 anos

Área onde foi travada a guerrilha

MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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ravada de abril de 1972 a janeiro de 1975, a guerrilha do Araguaia foi uma guerra sangrenta e silenciosa, que deixou para sempre cicatrizes no coração dos habitantes da região e na vida dos familiares dos guerrilheiros e soldados do Exército brasileiro, sacrificados nas sombras da Floresta Amazônica. Durante 2 anos e 9 meses, 63 guerrilheiros do PCdoB — estudantes universitários ideologistas, militantes comunistas e comandantes experientes, com treinamento em Cuba, Rússia e China - resistiram aos pelotões de até 10 mil homens enviados ao Araguaia para extirpar, definitivamente, o foco de guerrilha na região. “Guerra silenciosa”

como ficou conhecido esse período negro da história do Brasil pós-64 e foi escondido por muitos anos pela censura imposta pela ditadura militar, que se instalou no país. Somente em janeiro de 1979, o repórter Fernando Portela quebraria esse silêncio com uma série reportagens bombásticas publicadas no “Jornal da Tarde”, um dos mais importantes jornais do país, que deixou de circular em 2010. Enquanto o povo brasileiro vivia a euforia do milagre econômico, a promessa de integração nacional pela Transamazônica e delirava, ufanísticamente, a conquista do tri-campeonato na Copa do Mundo do México, uma verdadeira carnificina acontecia às margens do rio Araguaia, próximo às cidades, nas cercanias de São Geraldo do Araguaia e Marabá, no Pará, e Xambioá, ao norte de Goiás, região conhecida como “Bico do Papagaio”. Calcula-se que a maioria dos guerrilheiros das Forga – Forças Guerrilheiras do Araguaia -, foi morta pelo Exército, alguns deles degolados, outros com os corpos pendurados sobre os helicópteros que sobrevoavam os povoados, atemorizando a população. Pessoas inocentes foram torturadas e mortas sem pelo menos saber o que estava acontecendo. Até padres foram parar no pau-de-arara e espancados publicamente.

Quanto ao números de soldados das Forças Armadas mortos no aniquilamento da guerrilha – que também não foi pouco –, nunca revelado, porque até hoje o Exército não abriu seus arquivos. Os relatos que o leitor do EM TEMPO vai ter acesso agora, estão contidos no livro “Guerra de Guerra; hás no Brasil”, resultados da série de reportagens assinada pelo jornalista Fernando Portela, publicadas

LUTA ARMADA Os guerrilheiros que acreditavam ser capazes de derrubar a ditadura e implantar a revolução socialista, a exemplo de Cuba e da China no “Jornal da Tarde” e transformadas em livro pela Global Editora . Trata-se de uma obra rara porque, quando foi lançado, a censura impediu a sua distribuição. O exemplar que fundamentou esse trabalho, foi comprado pelo repórter do EM TEMPO no 1º Congresso da UNE depois da ditadura, realizado em Salvador, em 1979. A reportagem de Fernando Portela surpreendeu o país naquele 13 de janeiro de 1979,

um sábado. Nem bem o “Jornal da Tarde”, de São Paulo, chegou às bancas e teve sua edição de 105 mil exemplares esgotada em poucas horas. A manchete, que prendia a atenção de quem pousava o olhar sobre a banca do jornaleiro, ocupava metade da página: “Guerra de Guerrilha”. Em sete páginas, o jornal publicava a primeira reportagem de uma série de sete, que viria a se tornar o mais completo trabalho jornalístico sobre um fato que até então o governo militar simplesmente silenciara. O palco da sangrenta guerrilha, que deixaria centenas de mortos, entre eles os guerrilheiros que acreditavam ser capazes de derrubar a ditadura e implantar a revolução socialista, a exemplo de Cuba e da China, foi a região do rio Araguaia, no sul do Estado do Pará e Norte do Estado de Goiás. O levante foi iniciado em 1966 e extirpado em 1975, com a derrota total dos guerrilheiros comunistas. No Brasil daquela época, ninguém sabia o que estava acontecendo na região do Bico do Papagaio. Jovens recrutas e oficiais sem nenhuma experiência de selva, foram sacrificados e guerrilheiros em sua maioria estudantes, militantes, ex-parlamentares comunistas e comandantes do PCdoB foram torturados, mortos e degolados. O foco

foi aniquilado, mas, antes, a guerrilha obrigou o governo militar a mandar 10 mil homens ao Araguaia para matar 63 guerrilheiros, “num espaço de tempo que superou todas as expectativas do Exército”, narra o livro. Quanto foi gasto para debelar a luta armada, também só vai ser possível saber quando o Exército decidir abrir seus arquivos. Foram poucos os brasileiros que na época conseguiram saber alguma coisa a respeito da guerrilha do Araguaia. De acordo com o próprio autor da reportagem, Fernando Portela, houve uma única exceção, a reportagem publicada pelo jornal “O Estado de São Paulo”, em setembro de 1972, “que escapou milagrosamente do lápis vermelho do regime do general Médici”. — Mas, o segredo imposto pelo governo chegou a ser tão bem guardado, que nem a imprensa internacional conseguiu acesso a informações mais precisas sobre a guerrilha do Araguaia – conta o livro. Por outro lado, a guerrilha conseguiu confundir alguns círculos importantes no exterior, mais precisamente nos centros das decisões políticas e econômica, “onde as notícias que corriam falavam de uma guerra civil na Amazônia”, embora o Exército insistisse em tratar o conflito como “um foco de 63 guerrilheiros”.


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A Guerrilha foi concebida nas entranhas do PC do B Após um racha com Luiz Carlos Prestes, os militantes do PC do B decidiram pela luta armada para tentar derrubar a ditadura

MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

A mais importante guerrilha depois de Cuba de Fidel

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aseado na teoria do “foquismo” e inspirado no que ocorrera na China e em Cuba, o Comitês Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) começou a arquitetar a guerrilha em reuniões, que se alternavam entre Rio e São Paulo, para driblar a repressão. O encaminhamento pela luta armada, por volta de 1962, provocaria o “racha” com o lendário comandante Luiz Carlos Prestes. Por ordem de Moscou, Prestes havia se transformado em um “pacifista” e passou a apoiar as reformas anunciadas pelo presidente João Goulart, entre elas a tão sonhada reforma agrária. Já os ex–deputados comunistas da Constituinte de 1946, João Amazonas e Maurício Grabois apostavam que antes das reforma, Jango seria derrubado pelos militares. Não deu outra. Com isso, veio a racha, com Prestes mudando a sigla do partidão, que passou a ser PCB, ficando a outra metade com PCdoB. A leitura estratégica de Amazonas e Grabois,que anteviram o golpe, deu muita força ao PCdoB e as esquerdas começaram a encarar com mais seriedade a ideia da luta armada, sob as bênçãos da ideologia marxistaleninista, a guerrilha começou a tomar forma. De acordo com o jornalista Fernando Portela, nas reuniões seguintes, os comandantes João Amazonas e Maurício Grabois passaram a discutir qual seria a região ideal para instalar a resistência ao regime militar.

“Olheiros foram enviados a vários confins brasileiros, inclusive Mato Grosso, Goiás, Acre e o então território de Rondônia. — Mas região que parecia ideal estava no baixo Araguaia, no limite de três estados: Pará, Maranhão,

Apesar da cortina de silêncio imposta pela ditadura, o Araguaia foi palco da guerrilha mais importante do continente americano, depois da ação vitoriosa dos guerrilheiros de Fidel Castro, em Cuba. “Guerra de Guerrilhas; faz essa análise. Na Bolívia, na segunda metade da década de 60, Ernesto Chê Guevara contava com menos de duas centenas de homens, dos quais pouco mais de uma dúzia era realmente ex-

perientes. Mas tinha um detalhe, Chê não contava com o apoio das populações rurais bolivianas. Apesar de quase fazer cair o governo de René Barrientos, acabou morrendo sozinho, enfraquecido e doente, executado por um tiro covarde. A diferença é que os guerrilheiros do Araguaia não chegaram a ameaçar o governo do general Garrastaz Médici, diz o livro, mas recebeu o apoio da população

durante pelo menos três anos. Os “paulistas’, como os camponeses chamavam o pessoal do PCdo B, que estava na região desde 1966, conquistaram a confiança e a amizade do povo humilde do Araguaia. — “Era tudo gente bonita, moça bonita, gente com cara de família boa. A gente via que era gente de fora –, contou o jagunço José Bezerra, o China, que foi recrutado pelo Exército para rastrear os guerrilheiros.

ALERTA João Amazonas e Maurício Grabois apostavam que antes das reformas, Jango seria derrubado pelos militares

e Goiás, uma região considerada maldita, virgem de progresso e atenção dos governos estaduais e federal –, conta Portela. Considerada miserável, além das condições locais de penúria, a região era ideal para os guerrilheiros, que souberam cativar os habitantes com assistência médica, educacional e com gestos de solidariedade.

Uma das raras fotos dos guerrilheiros no combate nas selvas do Araguaia

A revolução vitoriosa de Fidel em Sierra Maestra, inspirou os militantes do PC do B

Banca do PC do B na Constituinte de 1946, formada por Luiz Carlos Prestes, Carlos Marighela, Agostinho Dias de Oliveira, Alcedo de Morais Coutinho, Gregório Bezerra, Jaquim Batista Neto, João Amazonas, Maurício Grabois, Alcides Rodrigues Sabença, Claudino José da Silva, Milton Caires de Brito, Jorge Amado, José Maria Crispim, Osvaldo Pacheco e Abílio Fernandes


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OSVALDÃO

O primeiro comandante guerrilheiro a chegar ao Araguaia Osvaldão, o mais carismático líder comandante guerrilheiro do Araguaia

Dezembro de 1967: Antes de partir para a guerrilha, os guerrilheiros André Grabois (no fundo, de óculos) e Gilberto Olímpio Maria (à esquerda, em primeiro plano) participam da festa dos formandos da 4ª série do Ginásio Dom Orione, em Porto Franco, Maranhão MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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orria o governo do Marechal Umberto de Alencar Castelo Branco, 1966, quando o primeiro líder guerrilheiro se instalou na região. Era Osvaldo Orlando Costa, que chegou ao Araguaia viajando de ônibus pela rodovia Belém-Brasília, Osvaldão era um negro carioca de 1,90m, simpático, que costumava vestir a camisa do Botafogo, lembrando o tempo em que lutara boxe, na categoria de peso-pesado pelo cube carioca. Técnico em máquinas e motores, Osvaldão se identificava como estudante em Minas Gerais, mas na verdade era segundo-tenente da reserva do CPOR, do Rio. É como posseiro que o futuro comandante de uma das bases da guerrilha se instala em um castanhal conhecido como Gameleiro. Para disfarçar, Osvaldão também trabalha na roça, planta arroz e faz farinha. Nas horas vagas, revende tecidos em Marabá e Xambioá. Em pouco tempo conquista a simpatia da população humilde. — Era respeitador. Nunca foi visto bebendo cachaça. Nem na zona, nem olhando cobiçoso para mulher alguma – conta o livro de Fernando Portela. De

acordo com o jornalista, Osvaldo era mesmo tudo isso, “mas o bom mocismo fazia parte da técnica de aliciamento dos guerrilheiros do PCdoB. Num segundo momento, começam a chegar ao Araguaia os “parentes” e amigos de Osvaldão: um velhinho, que na realidade era o exdeputado João Amazonas, à época com mais de 60 anos, Elza Monnerat, uma velha militante comunista e Ângelo Arroyo, operário metalúrgico de São Paulo. Ninguém desconfiava que aquele fosse o inicio da guerrilha, até porque as cidades de Marabá e Xambioá eram locais de muita movimentação, um “vai e vem de gente perseguida que procurava uma terra para morar”.

O médico-guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho vive seus últimos dias de Dr. Juca em Porto Franco (MA) antes de se juntar à Guerrilha do Araguaia

Gameleiro, Caiano e Faveiro as três bases da guerrilha O restante do pessoal do PCdoB, que se preparava para entrar no Araguaia ficou em um vilarejo chamado Porto Franco, a Oeste do Maranhão, aguardando o comando para entrar na área de guerrilha. Alguns tinham vindo da China, onde foram treinados para guerra de guerrilha. Era o ano de, em 1966, quando os militantes do PCdoB se mudaram para a pequena para Porto Franco. Ali permaneceram por mais de um ano à espera de ordens da cúpula do partido para se transferirem para o Sul do Pará, região escolhida para instalar a guerrilha. Em Porto Franco, eles assumiram diversos disfarces. Era

médicos, posseiros, agentes de saúde, procurando viver de forma pacata para não chamar a atenção. Viviam razoavelmente em um “conforto’ que não veriam jamais. Nesse grupo estavam o veterano líder do PCdoB Maurício Grabois (codinome Mário), seu filho André Grabois (Zé Carlos) e o genro Gilberto Olímpio Maria (Pedro), além do médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho (dr. Juca), considerado o mais bonito e sedutor guerrilheiro, pelo porte físico e pela facilidade com que se relacionava com as pessoas mais humildes.. Enquanto aguardava o comando para seguir para a área de guerrilha, João Carlos Haas Sobrinho se inte-

grou totalmente à vida social da comunidade. “Guerra de Guerrilha no Brasil” narra em um de seus capítulos que os 63 Araguaia conseguiram, por força e suas convicções ideológicas, os guerrilheiros enfrentavam uma vida dupla. “Uma vida que desgastaria fisicamente a maioria das pessoas. Ao mesmo tempo em que preparam a guerra eles se misturavam ao povo, cada vez mais cativado, e, por ecletismo ideológico, iam às missas e terecôs (candomblé local), participavam de forrós, sempre mantendo uma postura de monges, pessoas do comportamento moral irrepreensível, tantos os solteiros quanto os casados”. Em 1970, o ano da Copa

do México, enquanto o país catava euforicamente “Todos juntos vamos/ pra frente Brasil, Brasil/ salve a seleção... “ Os 63 guerrilheiros já estavam sendo treinados dentro da selva por três comandantes, que respondiam pelas três bases guerrilheiras: Gameleiro – Comandada por Osvaldão, que também funcionava como sede do comando central; Caiano – Comandada por Paulo Rodrigues; Faveiro – comandada pelo medico gaúcho Haas Sobrinho. A organização dos guerrilheiros funcionava assim: Cada base possuía 21 homens dividido em grupo

de sete. Essas três bases estavam subordinadas a uma comissão militar formada pelo pessoal mais experiente, o ex-deputado Maurício Grabois, o ex–metalúrgico Ângelo Arroyo, os comandantes Osvaldão e Haas Sobrinho. Este era considerado o “coração da guerrilha”, que não saia da selva, a exceção de Osvaldão e Paulo Rodrigues, que também comandavam Gameleiro e Caiano. O comando central possuía também uma excelente aparelhagem de comunicação, armazenados alimentos para um longo tempo e uma oficina de adaptação e reparos de armas. A guerrilha ia começar.

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Helicóptero das forças do governo sobrevoavam a floresta rastreando guerrilheiros e suas bases

Exército subestimou o foco de guerrilha Para os “especializados”, eram apenas estudantes subversivos do Sul saindo de circulação dos grandes centros, onde seus nomes já estavam na lista negra do DOPS MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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oi a Polícia Militar de Marabá e Xambioá que alertou o Exército da presença de “estranhos subversivos” na região. As duas PMS era acostumadas a proteger fazendeiros e grileiros, que quase sempre resolviam seus conflitos com os posseiros à base de bala. Por isso as duas PMs eram constantemente informadas pelos fazendeiros. Dessa vez, a notícia que chegava à polícia era que havia uma “certa resistência subversiva” comandada por gente de São Paulo”. As informações não paravam por aí. Eles diziam que os “paulistas” andavam ensinando o povo humilde a ler e escrever e, no meio deles, haviam médicos, porque estavam sendo distribuídos remédios de graça e que não eram amostra grátis”. Com base nessas informações, o Exército enviou à região um grupo de pessoal “especializado – policiais disfarçados, barbados, cabeludos, trajando jeans e camiseta –, para investigar a situação. Pouco tempo depois eles retornaram com a informação de que se tratava de “estudantes subversivos do Sul em fase de refrescamento”, isto é, estavam saindo de circulação dos grandes centros, onde seus nomes já estavam na

lista negra do departamento de Ordem Política e Social (DOPS). “Estão se fixando na região até a coisa esfriar”, informaram. Mas Exército não deu muita importância. Subestimou a capacidade de organização e preparação dos guerrilheiros. Alguns anos depois, alguns militares admitiram que foi um “erro de avaliação” .Nessa fase de investigação o próprio governo federal não deu muita importância ao foco, se limitando a repassar o problema para o Serviço Nacional de Informação (SNI) e para o DOI-CODI (Departamento de Operações e Informações–Centro de Operações de Defesa Interna). Em uma reunião de chefes militares no Comando Militar do Planalto a ordem dada foi prender “todos os subversivos amazônicos. Mas, para a imprensa, nenhuma linha sequer.

Algumas vezes o exército usou mateiros para identificar a trilha dos guerrilheiros na selva


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A primeira campanha para esmagar a guerrilha A maioria das tropas eram formadas por militares das Brigadas de Infantaria de Selva (BIS) Comboio do exército chega para primeira campanha, das três lançadas pelo Exército para aniquilar a guerrilha

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a primeira campanha para aniquilar a guerrilha, tropas formadas por 2 mil homens das Brigadas de Infantaria da Selva (BIS) e outras unidades da área, além de comandos vindos do Rio de Janeiro e de Brasília invadiram a região do Araguaia na caça aos “paulistas” do PCdoB, inclusive um pessoal à paisana, os chamados “especialistas”, mas que pertenciam ao Comando Militar e do Planalto. As forças tomam de assalto o baixo Araguaia fazendo Marabá e Xambioá

cidades-quartéis. Outro grande erro das força do governo apontado pelos historiadores foi mandar para a guerra de guerrilha soldados inexperientes e com total desconhecimento da selva. De acordo com um depoimento dado em 1979 por um soldado do Exército que participou do combate à guerrilha, no começo da operação muitos morreram “porque entravam na selva apavorados”, tinham medo da mata e “não sabiam o que fazer”, contou o militar mantido no anonimato. — Os conscritos (recrutas), entraram totalmente despreparados, tanto psicológica como militarmente,

digamos assim. E a verdade é esta. Nós, por sermos um país em fase de desenvolvimento, (naquela época) , não temos meios adequados e

tempo necessário para formar uma tropa, ou melhor, para formar um recruta ou homem de tropa. Então, ele fez seu serviço militar varrendo o quartel, muitas vezes fazendo outra faxina que não tem nada a ver com adestramento para combate, nem preparação psicológica para a realidade de matar”. Foi só depois de sofrer muitas baixas que o Exército percebeu que os paulistas não eram subversivos comuns, estudante e operários embarcando numa aventura romântica, mas uma força militar preparada e organizada do PC do B, que conseguira cativar os trabalhadores rurais e famílias

humildes do baixo Araguaia. Só depois dessa conclusão começaram a chegar reforços de todo o país, lanchas da Marinha que vasculhavam a região, helicópteros e aviões das Forças Armadas Brasileira para apoiar a grande incursão. Somente a Transamazônica recebeu cerca de dez postos de patrulhamento e a Belém-Brasília três. Conta Fernando Portela, que foi nessa época, fins de abril e começo de março, que os recrutas começaram a morrer dentro da mata. Cada vez mais se sentia a necessidade de soldados profissionais, de preferência com treinamento de guerra antiguerrilha”. Sem nenhuma experiência de selva soldados foram enviados ao Araguaia

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Medo de saci e lobisomem

Vindos de famílias humildes do Norte, soldados inexperientes que eram enviados ao Araguaia temiam até os espíritos da mata Os guerrilheiros usavam a guerra psicológica para amedrontar os soldados à noite

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m 1972, a primeira campanha militar para aniquilar o foco guerrilheiro estava chegando ao fim com um saldo negativo. Os militares admitindo que, na primeira fase, não pegavam ninguém e “os soldados morriam na mata”, disse um militar tentando explicar que toda violência é comum e até lógica, “numa situação de conflito em que as forças governistas não dominavam a situação”. Com a retirada das tropas da primeira campanha, os guerrilheiros festejaram acreditando que estavam vencendo a guerra. Comentário de um oficial à reportagem de Fernando Portela: — Você pensa que o problema dos recrutas era somente o de inexperiência, de não conhecer a mata, essas coisas? Ou o medo dos guerrilheiros? Que nada: além de eles terem medo dos guerrilheiros, eles, coitados, que vinham de famílias humildes, do Norte mesmo, tinham medo de saci, mãe de fogo, lobisomem... “Esse medo existia porque naquela época, no Araguaia, os espíritos da mata baixavam no candomblé. Além disso, todos diziam que Osvadão era mortal”. (trecho do livro Guerra de Guerrilha) A popularidade dos guerrilheiros cresceu ainda mais no meio das populações rurais, depois que as forças do governo retiraram as tropas. Agosto foi um mês de festa

nos povoados do Araguaia. Segunda campanha O Exército sentiu que era preciso mudar a estratégia, na segunda operação para sufocar o levante do Araguaia. No plano de combate à guerrilha: usar o mesmo recurso dos guerrilheiros, isto é, cativar o povo; penetrar sutilmente na região, por meio de espiões, e “evitar também a pancadaria”. Uma outra corrente era a favor de investir nas atividades assistencialistas na região, mas defendia o cerco e aniquilamento, chamado de “abafa final” usando tropas descaracterizadas em larga escala e soldados profissionais. Recrutas novatos, nem pensar. Para o combate na segunda campanha foi chamado o general Hugo Abreu, que defendia a participação cada vez maior dos paraquedistas da Brigada de Paraquedistas do Exército, de acordo com noticiário da época, “os homens mais bem treinados, militarmente, do país”

O ainda major Curió é apontado como um dos mais cruéis torturadores no combate à guerrilha


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Os horrores da guerrilha Existem registros de que guerrilheiros foram degolados, como foi feito com o bando de lampião e também na revolta de Canudos

Corpo da militante do PC do B, Maria Lúcia Petit, morta pelos “especializados” durante combate na Guerrilha do Araguaia

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ouve momentos de carnificina e horror na guerra de guerrilha do Araguaia. Excessos foram cometidos de dois lados, mas em nome das Forças Armadas, os “especialistas” cometeram atos de atrocidades que, na época, foram condenados dentro do próprio Exército. Existem registros de que guerrilheiros foram degolados, como foi feito com o bando de lampião e na também na guerra de Canudos. Esse pessoal à paisana, enviado pelo próprio Exército chegou a ser batizado de “sádicos sem farda”. “Eram

grupos de soldados cabeludos, mal vestidos, barbudos, que se não portassem armamentos moderníssimos, odeiam ser confundidos com hippies”. Considerado o “anjo da guarda” das populações esquecidas e ignoradas pelo Estado nas distantes regiões da Amazônia, o Exército por pouco não teve a sua imagem de solidariedade comprometida pela brutalidade dos grupos “especializados”, que, de acordo com o livro “Guerra de Guerrilha” estavam “escudados na impossibilidade de fiscalização pelos próprios colegas do Exército regular e, da imprensa, na época censurada”. Informações que não foram dadas somente por guerrilheiros, mas também por habitantes da região, no dia 18 de abril de 1972, na cadeia de Xambioá, o pessoal “especializado” dava socos, choques elétricos nos pés, testículos e ouvidos. viajantes, hippies, comerciantes dos lugarejos, gritavam por inocência e se-

quer entendiam o que estava acontecendo. Muitos não queriam acreditar que os “paulistas” que eles conheciam tão bem e que eram tão amigos fosse tudo aquilo que o pessoal especializado enquanto torturavam, que era terroristas, assaltantes de bancos e

GUERRA CIVIL

As notícias que corriam no Exterior falavam de uma” guerra civil na Amazônia”, embora o Exército insistisse em tratar o conflito como “um foco de 63 guerrilheiros” de floradores de moças”. — Aonde estão os terroristas? Fale! –, gritavam os “especializados” enquanto espancavam, davam choques e pontapés. Em outubro, o pessoal descaracterizado tomam de as-

salto também os povoados de Bom Jesus, Metade e Palestino. Vão pegando quem eles achavam que eram suspeitas e entupindo as cadeias de presos. Veja esse trecho horripilante do livro-reportagem de Fernando Portela: “Os policiais, com a alegria da volta do Exército, encheram as pequenas celas da cadeia pública de Marabá, de tal maneira que as pessoas só conseguiam ficar numa posição: em pé. E todos completamente nus”. Era uma cena dantesca. As janelas da cela foram pregadas com tábuas para não entrar o ar. Primeiro vinha o cansaço, depois a fome e, com a temperatura perto dos 40 graus, vinha a sede insuportável. As necessidades fisiológicas eram feitas mesmo em pé, um encostado no outro. Outra narrativa do livro: “Mariano, um dos presos em São Domingos, gemendo de sede, fez um pedido ao homem mais próximo: — Quando você quiser urinar me avise, me avise

porque eu não aguento mas a sede...” Depois de um certo tempo, nem os soldados suportavam mais o mau cheiro vindo da cela e resolveram lavá-las com água e creolina. Isso acabou em tumulto porque a água jogada no chão da celas, misturada com creolina, fezes e urina foi disputada pelos presos, loucos de sede, mas quase ninguém bebeu porque não havia como se agachar. Na cadeia de Xambioá, onde se concentram as prisões e eram praticada abertamente a tortura, e outra cena de barbárie:como a cela não cabia mais de tanta gente, os pessoal “especializado” mandou que fossem cavados no terreno do aeroporto, buracos de mais de dois metros, e fossem cobertos com arame farpado. Os presos eram algemados nos pés e nas mãos e dependurados e cabeça para baixo nos arames, pra dentro do buraco, como carne é exposta em açougue.

A queda de José Genoíno O guerrilheiro José Genoíno Neto, hoje ex-deputado linchado publicamente e preso no processo do Mensalão, só saiu vivo da guerrilha do Araguaia porque foi preso durante um combate. Genoíno era baseado no destacamento de Gameleiro, comandado por Osvaldão. No dia 18 de abril de 1972, conta o livro de Fernando Portela, Osvaldão chama Genoíno e manda ele ir avisar ao comandante Paulo Rodrigues, do destacamento de Caiano, que “chegara a hora”. Era o sinal para iniciar a luta, pois as forças do governo já avançavam pelas de Xambioá e Marabá, estradas e rios, pois já sabem que em Gameleiro, Caiano e Faveiro ”há focos de terroristas”.

MENSAGEM

Guerrilheiro foi preso quando levava uma mensagem de Osvaldão para o destacamento de Caiano

No retorno à base, Genoínio, um grupo formado por jagunços que trabalhavam para a sargento conhecido como Marra, chefe da polícia de Xambioá, dá voz de prisão a Genoíno. O guerrilheiro é algemado mas aproveita um descuido dos policiais e foge, os jagunços abrem fogo e não acertam. Genoíno é novamente preso e levado com vida para a

cadeia da cidade. Genoíno nasceu no interior do Ceará, em Quexaramobim, filho de pai posseiro e mãe professora primária. Em 67 foi estudar e Fortaleza, onde se formou em Filosofia, Foi presidente do Diretório Central de estudantes e preso no histórico congresso da UNE, em Ibiúna, em 1968. A partir daí viveu na clandestinidade e em 1970 seguiu para o Araguaia, onde foi preso e torturado, ficando por 13 meses incomunicável. Foi julgado em 1975 por militância política ilegal sendo condenado a 5 anos de prisão. Foi solto em abril e 1977. Com a democracia restabelecida do país, foi eleito deputado federal; pelo PT de São Paulo. José Genoíno saiu com vida da guerrilha porque foi preso


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Os guerrilheiros não se movimentaram na floresta permanecendo nas mesmas bases e foram derrotados pelo próprio erro

Acuada, guerrilha é arrasada Brigada de paraquedistas comandadas pelo general Hugo Abreu esmagou a guerrilha

MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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arra o livro “Guerra de Guerrilha”que na terceira e última campanha para

esmagar de vez a guerrilha, as forças do governo entraram “de maneira fulminante na região”, nos primeiros dias de outubro de 1973. Homens invadem as casas e vão retirando os suspeitos de colaboração com a guerrilha. Ajudados por camponeses que sob tortura indicavam os locais onde eles estavam, os guerrilheiros estavam acuados no meio da mata. O general Hugo Abreu é quem comanda centenas de paraquedistas da Brigada do Rio de Janeiro. “Esta é a primeira vez que as forças do governo entram no selva em pé de igualdade de condições com a guerrilha. Segundo relata o livro, nos 11 meses em que estiveram longe do

Araguaia talvez os paraquedistas tenham recebido treinamentos em outras pontos da Amazônia”, reporta Fernando Portela, informando que acompanhados de helicópteros sobrevoando as copas das árvores, pelotões se embrenhavam na mata e começavam a caçada. Às vezes eram guiados por mateiros. Os guerrilheiros, por sua vez, também foram derrotados pelos próprios erros. Além de não terem eliminados os espiões, permaneceram nas mesmas áreas e bases, “não se deslocaram como seria mais lógico”. Nessa última campanha, o Exército esmagou a guerrilha. E o general Hugo Abreu, que já era respeitado dentro

do Exército, “passou a ser um mito”. Assim, as for-

General Hugo Abreu, comandante da Brigada de Paraquedistas, ficou ainda mais famoso depois que exterminou a guerrilha

ças do governo encerraram, em janeiro de 1975, sua terceira e última operação no Araguaia. Mais de 50% dos guerrilheiros foram de-

Em sentido horário, João Amazonas, Elza Monnerat, Ângelo Arroyo e Maurício Grabois, comandantes da guerrilha

clarados, oficialmente “desaparecidos”, mas o Comitê Central do PC do B admite que todos foram mortos. Até hoje, o conflito do

Araguaia foi avaliado somente pelos guerrilheiros que conseguiram escapar. O Exército mantém a cortina de silêncio.

O destino de cada um Osvaldo Orlando da Costa (Osvaldão) - o mais carismático e temido guerrilheiro do Araguaia, negro, forte, 1,98 m e ex-campeão carioca de boxe, considerado mítico pelos moradores do Araguaia, foi morto num encontro com uma patrulha militar em janeiro de 1974. Seu corpo foi pendurado num helicóptero e mostrado em sobrevoo pelos povoados da região. Decapitado, foi enterrado em lugar desconhecido. É considerado desaparecido político.

1976 e libertada com a Anistia, morreu em 2004.

como desaparecido político.

Maurício Grabois (Mário) - Membro da cúpula do PCdoB, integrante da Comissão Militar do Partido e comandante-chefe dos guerrilheiros do Araguaia. Foi morto numa emboscada na selva em dezembro de 1973. Seu corpo nunca foi encontrado e sua morte jamais admitida pelo Exército. É dado como desaparecido.

João Amazonas (Velho Cid) - integrante do PCB desde a década de 1930 e um dos fundadores e secretário-geral do PCdoB, era o teólogo da guerrilha, e responsável pela ligação entre os guerrilheiros na selva e a direção em São Paulo. Entrou e saiu diversas vezes na área do Araguaia durante o período, transportando militantes, dinheiro e orientações políticas, indo para o exílio na Albânia após o aumento da repressão militar na área, que impediu sua movimentação. Voltou ao Brasil após a Anistia e morreu aos 90 anos, em 2002.

Ângelo Arroyo (Joaquim) - membro da cúpula do PCdoB e militante comunista desde 1945, foi um dos líderes da guerrilha, integrante da Comissão Militar. Foi um dos dois únicos guerrilheiros que escaparam vivos do Araguaia, depois da última campanha militar que exterminou a guerrilha, fugindo a pé para o Piauí atravessando a selva e dali para São Paulo. Foi fuzilado em dezembro de 1976 por agentes do Doi-Codi numa casa no bairro da Lapa, em São Paulo, onde se realizava uma reunião do Comitê Central do PCdoB, no episódio conhecido como Chacina da Lapa.

Dinalva Oliveira Teixeira (Dina) - Geóloga formada pela Universidade Federal da Bahia, popular no Araguaia como parteira e temida pelos militares pela coragem física e por ser exímia atiradora, foi a mais famosa das guerrilheiras, lendária entre os moradores da região. Única mulher a ser sub-comandante de destacamento de combate, foi presa já no fim da guerrilha, em julho de 1974, e assassinada a tiros por agentes militares do CIEx. Seu corpo nunca foi encontrado e é dada como desaparecida.

Elza Monnerat (Dona Maria) - integrante da direção do PCB, fazia com Amazonas a ligação entre o Araguaia e o sul do país. Responsável pelo transporte de diversos militantes até o local da guerrilha e uma das primeiras a se instalar no Araguaia, durante os preparativos para a criação do núcleo guerrilheiro, voltou à clandestinidade urbana após o aumento da repressão militar na área, que a impediu de retornar à região do conflito, como Amazonas. Presa em fins de

João Carlos Haas Sobrinho (Dr. Juca) - médico formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, chegou ao Araguaia vindo do Maranhão onde morou com alguns dos principais líderes da guerrilha e atendia a população. Respeitado pelos caboclos locais pelo auxílio que prestava na área da saúde de Marabá e Xambioá, o comandante médicomilitar foi morto em combate em 30 de setembro de 1972. Seu corpo nunca foi encontrado e é dado

Micheas Gomes de Almeida (Zezinho) - Filho de camponeses, ex-operário e veterano comunista, é o único guerrilheiro sobrevivente do Araguaia a nunca ter sido preso. Melhor guia e conhecedor da selva entre todos os guerrilheiros, fugiu da região guiando Ângelo Arroyo até o Maranhão, durante os últimos dias de aniquilamento da guerrilha. Vivendo com identidade trocada e anônimo em São Paulo por mais de 20 anos, dado como desaparecido, reapareceu nos anos 90. Mora em Goiás. Maria Lúcia Petit (Maria) - ex-professora primária, participou da guerrilha com os irmãos mais velhos. Morta em junho de 1972 numa emboscada, seus restos mortais foram identificados em 1996. Junto com Bergson Gurjão, são os dois únicos guerrilheiros mortos e identificados posteriormente. Foi enterrada em Bauru, São Paulo.

Líbero Castiglia (Joca) - Italiano, foi o único estrangeiro que participou da guerrilha. Com treinamento militar na China, era ligado ao Destacamento A e fazia a segurança da comissão militar da guerrilha. Foi um dos primeiros militantes a chegar à região do Araguaia. É dado como desaparecido desde o ataque do exército ao comando guerilheiro, no Natal de 1973. André Grabois (Zé Carlos) - Filho de Maurício Grabois e vivendo na clandestinidade desde os 17 anos por causa da perseguição ao pai, foi comandante do destacamento A da guerrilha. Morreu em combate junto a outros três guerrilheiros, durante tiroteio com patrulha do exército em outubro de 1973, após caçarem porcos-do-mato. Seu corpo nunca foi encontrado, é dado como desaparecido. Bergson Gurjão Farias (Jorge) - Ex-estudante de Química da Universidade Federal do Ceará, e subcomandante do Destacamento C da guerrilha, sob o codinome de ‘Jorge’, foi o primeiro guerrilheiro a ser morto em combate no Araguaia. Ferido a tiros de metralhadora numa emboscada, foi morto a golpes de baioneta dias depois numa instalação militar de Marabá em maio de 1972. Dado como desaparecido político por trinta anos, seus ossos foram identificados por exames de DNA em 2009, após exumação do cemitério de Xambioá.

Especial Araguaia - 30 de março de 2014  

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