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A EPOPÉIA IGNORADA (A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje)

Autor: Otto Marques da Silva Editada pelo CEDAS -1987 Copyright de Otto Marques da Silva


Direitos reservados do CEDAS--Centro São Camilo de Desenvolvimento em Administração da Saúde Rua Barão do Bananal, 1111 --05024--São Paulo--SP. Capa de Júlio Braga Estela egípcia da XIX Dinastia: o porteiro de nome Roma faz oferendas à Deusa Astarte Síria (acervo da Glyptotek Ny Carlsberg--Copenhague, Dinamarca). Dados Catalográficos SILVA, Otto Marques da A EPOPÉIA IGNORADA--A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje São Paulo--CEDAS, 1987. 470 páginas - 2 partes - 5 anexos - 17 ilustrações Relações bibliográficas


Conteúdo: I Parte-- Deficiências e pessoas deficientes nos seguintes Períodos ou Épocas: PréHistória, História Antiga (Egípcios, Hebreus, Gregos e Romanos), Advento do Cristianismo, Império Bizantino, Idade Média, História Moderna e História Contemporânea (Até 1981, Ano Internacional das Pessoas Deficientes). II Parte-- Causas da marginalização das pessoas portadoras de deficiências, o significado da integração social, a questão da adequação da adequação pessoal como objetivo último da reabilitação, o preparo para a vida de trabalho, as equipes de reabilitação, a avaliação e o controle das atividades dos centros e programas de reabilitação. Para Nely Ana Maria Otto, Filho José Gustavo pela força que sempre me transmitem. Para Jary Maria Pela enorme lição de vida ("in memoriam")


ÍNDICE A Oração da Pessoa Deficiente... Apresentação... Introdução... PRIMEIRA PARTE A POSIÇÃO DAS PESSOAS DEFICIENTES NAS SOCIEDADES DE ONTEM E DE HOJE Capítulo Primeiro A Pessoa Deficiente no Mundo Primitivo... O homem neolítico no Brasil de hoje - As primeiras civilizações do mundo... 1. O Alvorecer da Humanidade... Os males incapacitantes de sempre - O ambiente físico - Os desafios para a vida do homem primitivo. O cuidado para com doentes e a incipiente medicina - As fraturas na Pré-História - O que nos ensinam os ossos pré-históricos -- Freqüência do reumatismo -- A origem dos males que afetavam os homens - O tratamento primitivo e as deficiências – O destino das pessoas deficientes na Pré-História. 2. Culturas Mesolíticas e Neolíticas mais Recentes... O porquê das atitudes face a grupos minoritários Atitudes de aceitação, apoio e assimilação - Causas das atitudes de abandono, segregação ou destruição - O extermínio de pessoas deficientes - A pessoa deficiente como objeto de ridículo - O povo inca e as trepanações cranianas. As deficiências físicas há mais de 20 séculos na Califórnia. Capítulo Segundo A Pessoa Deficiente dentro das Culturas Antigas... 1. Os Egípcios e seus Vizinhos... A atenção médica no Egito Antigo - A medicina egípcia e os males incapacitantes - Os famosos papiros e os problemas de deficiências – As deficiências físicas no Antigo Egito Os males que levavam a deficiências físicas - Casos concretos de lesões incapacitantes - A incidência de fraturas e outros problemas - Os anões na vida e na arte egípcias - Uma estela votiva dedicada à deusa Astarte da Síria por um porteiro - As especialidades médicas e o problema das deficiências no Egito - Conceitos da medicina egípcia na Odisséia de Homero - Anisis, faraó cego da IV Dinastia: século XXV a.C. - A deficiência visual na mitologia egípcia - Um coral de homens cegos para Amenhotep IV - As penas mutiladoras no Egito Antigo - Médico egípcio especializado em males da visão na corte de reis persas - Gaumata, um famoso mago de orelhas amputadas - Zópiro: tudo pela vitória de Dario I em Babilônia A Escola de Anatomia da cidade de Alexandria: século IV a.C. - Os egípcios sob os olhos críticos de um Imperador romano. 2. O Hebreus...


Noé: a primeira pessoa com deficiência? -- As deficiências físicas entre os hebreus -- A cegueira de Isaac por 80 anos - Moisés e suas sérias dificuldades em falar com clareza -As leis criadas no deserto do Sinai – O Código de Hamurabi: severidade vizinha dos hebreus Sedecias, rei de Judá: cego por Nabucodonosor - O preço da paz: um olho de cada habitante - Mais normas e o papel do médico - As causas das deficiências entre os hebreus - A medicina dos hebreus - Tobias fica cego e recupera a visão: caso de leucoma? - Os cegos na cultura hebréia antiga - Zacarias castigado por não ter acreditado em Gabriel - As pessoas deficientes nos Evangelhos - Os milagres de Jesus e as pessoas deficientes - A cegueira de São Paulo, Apóstolo. 3. Os Gregos... As deficiências na mitologia grega - Lenda e realidade: Hefesto na vida dos gregos - Outros seres mitológicos e as deficiências físicas e sensoriais - As deficiências físicas na realidade da vida militar grega – As principais causas de deficiências na Grécia Antiga - Tirteu, poeta lírico com deficiência física - As leis que favoreciam as pessoas deficientes - A medicina grega e as deficiências físicas - A medicina de Hipócrates e as deficiências - Hipócrates e suas idéias quanto à epilepsia – Adaptações para prevenir deformações em crianças Cláudio Galeno e sua importância - Demócrito e Homero: homens cegos e muito famosos Demóstenes e seus pouco conhecidos problemas - Pessoas deficientes trabalhando citadas em obras gregas - Creso, o mais feliz dos homens – A importância dos oráculos e adivinhos na vida grega - A história de um adivinho famoso que era cego - As próteses de Hegesístrato, adivinho grego - Peste Ateniense: o terror generalizado – A atenção a soldados feridos ou doentes: Anábase, de Xenofonte - Homens com sérias luxações nas pernas: sapateiros, ferreiros, seleiros - Alexandre, o Grande: sua atenção a soldados com deficiência - Asclepéia de Epidauros: seu significado para pessoas deficientes - As famosas instalações de Epidauros - O sistema de funcionamento de Epidauros - Plutão, deus da riqueza, curado por Asclépios - Os testemunhos das muitas curas - "Apothetai" do monte Taygetos, em Esparta - Como era o ambiente de Esparta - Outras formas de eliminar crianças defeituosas na Grécia Antiga - A história de Labda, mãe de um rei de Corinto - Os costumes em Atenas face a deficiências físicas – O legado da Grécia Antiga. 4. Os Romanos... O problema da forma humana no direito e nos costumes de Roma - O destino das crianças deficientes em Roma -- O deus da medicina: Esculápio--Horácio Cocles, um herói com deficiências--Ápio Cláudio, Censor: século IV a.C - Amputação como penalidade nas legiões romanas--Caio Júlio César: atitudes face a seus males--Ferimentos graves e deficiências físicas em batalhas -- Cláudio I, um imperador bastante controvertido -- Galba, imperador romano com diversas deficiências - Othon, um imperador nascido com malformações - Vitélio, imperador romano por oito meses--Os milagres de Vespasiano - As deficiências citadas por Plínio, em sua "História Natural" -As automutilações para dispensa do serviço militar--Males incapacitantes e soluções paliativas - O problema da surdez na opinião de Cícero--Deficiências múltiplas e morte - A medicina grega e sua infiltração no Império Romano - Médicos romanos famosos e os males incapacitantes - Os serviços médicos e os hospitais militares romanos - As "valetudinaria" descobertas em estudos arqueológicos - Os auxiliares de médicos nas legiões romanas O sistema hospitalar romano O ensino da medicina no Império Romano Categorias de médicos em Roma - Implantação de serviços de assistência médica - A higiene e os banhos públicos—As pessoas deficientes nas artes romanas - Valores espirituais em pessoas deficientes.


Capítulo Terceiro O Cristianismo, o Império Bizantino e a Idade Média face as Pessoas Deficientes ... 1. O Advento do Cristianismo ... As perseguições aos cristãos nos primeiros séculos - Sétimo Severo, o sábio e firme imperador - "Praecepta Medica" e os males incapacitantes - Galério, imperador que morre com deficiência séria—Mutilações em cristãos: a Língua de São Romão - Alterações substanciais provocadas pelo Cristianismo -- Um bispo com deficiência: Castigo de Deus? Dídimo, teólogo cego: Diretor da Escola de Alexandria -- Os primeiros hospitais cristãos e as pessoas deficientes - Fabíola e Pammachius associados num hospital de caridade - A hospitalidade cristã e o papel dos bispos - Notícias de organizações para pessoas deficientes - A questão das deficiências físicas em sacerdotes cristãos - Papel dos mosteiros na assistência aos miseráveis. 2. O Império Bizantino e as Deficiências... Constantinopla, o "Reino de Deus na Terra" - A pompa e a circunstância na corte bizantina - As grandes e poderosas famílias do Império - A miséria na capital bizantina e as pessoas deficientes - As doenças e as deficiências físicas e sensoriais - Os miseráveis no "Reino de Deus" - As organizações assistenciais de Constantinopla - O imperador Justiniano e as pessoas enfermas e deficientes - O desenvolvimento da medicina e dos hospitais - A mutilação nas leis bizantinas - Períodos principais do Direito Penal Bizantino - A moderação nas penalidades impostas no tempo de Justiniano - As "Novas Constituições" de Leão III: "leis mais cristãs" - A defesa de um direito dos cegos: fazer testamento - Penalidade prevista para o vazamento dos olhos de outrem - Crime de rapto e sua condenação nos tempos de Leão III - General Belisário: lenda e realidade de sua carreira - Notícia sobre uma prótese no século IV -- Abrigos para cegos e outros refúgios para doentes e deficientes - Assistência a soldados a partir do século VI - Os primeiros hospitais da Terra Santa e de Bagdá - Castigos bárbaros levam a deficiências no Império Bizantino - A Imperatriz Irene e sua luta para conquista do trono - Os primeiros castigos contra conspiradores dentro da família - Punições severas continuam na corte bizantina - A selvageria de uma imperatriz na defesa de seu trono - Mutilação documentada em pintura do século IX -- Barbáries que levaram a deficiências físicas - Constantino VIII: "a violência dos fracos e dos poltrões" - Miguel V: imperador bizantino por apenas 132 dias -Constantino IX, Monômaco: limitações físicas muito sérias -- Romano IV, Diógenes: presa de um soldado com deficiências - Enrico Dandolo: "doge" veneziano cego - Isaac II, Angelus: olhos vazados, volta a ser imperador Outros eventos que levaram a deficiências físicas e sensoriais - Ato friamente planejado instala a Dinastia dos Paleólogus -- O dilema de João V, Paleólogus (1319 a 1389). 3. As Pessoas Deficientes na Idade Média... A criação de hospitais e abrigos para pobres - Um santo cego na história da Bretanha do século VI - Santo Egídio, padroeiro dos deficientes - Assistência aos pobres pela Igreja - A mutilação como castigo no século VII - O milagre de fazer um mudo falar – Amputações como penalidade por crimes cometidos - A evidência de dupla amputação: século VII - Os hospitais criados pela Igreja na Europa - A profissão de massagista no Japão do século IX Bispo Hincmar, vítima da crueldade de seus algozes - Deficiência física na mitologia germânica - As deficiências em sacerdotes cristãos na Idade Média - Luiz III, o "Cego", rei da Provença e da Itália - Deficientes físicos impedidos de participar da Primeira Cruzada - Barbeiros-cirurgiões na Idade Média - A evolução dos hospitais medievais e as eficiências


- O estigma da hanseníase durante toda a Idade Média - Ricardo Coração-de-Leão e sua vingança - Hospitais proliferam no Oriente Próximo: século XIII - Os progressos da medicina até o século XIV - Epidemias na Idade Média e suas conseqüências: "Castigo de Deus"? - A medicina qualificada e a falta de assistência geral - As soluções populares e as crendices - O destino das pessoas deficientes na Idade Média - O significado das eficiências na Idade Média - Os privilégios para cegos durante a Idade Média - Dois heróis históricos com deficiências nos séculos XIII e XIV – Os hospitais face às pessoas deficientes nos séculos XIV e XV. Capítulo Quarto A Pessoa Deficiente do Renascimento até o Século XIX ... O problema dos hospitais e abrigos ao início da Renascença - Os problemas dos deficientes auditivos no século XVI - A pintura renascentista e as pessoas com deficiências - Ambroise Paré: os primeiros passos da futura "ortopedia" - Antonio de Cabezón: compositor cego – Goetz von Berlichingen, o "Mão de Ferro" - O problema da mendicância organizada nos séculos XVI e XVII - A grande malha organizacional dos miseráveis na França - O problema da mendicância organizada em outros países - Deficientes mentais no século XVI: entidades não-humanas - A "Lei dos Pobres" e as pessoas deficientes na Inglaterra – O atendimento às crianças deficientes na Inglaterra: século XVI – O "Grand Bureau des Pauvres" da França Classificação de indigentes na França no século XVI – Luiz de Camões, o poeta épico português por excelência - Pintor mudo decora El Escorial, na Espanha – Continua a epopéia dos hospitais nos séculos XVI e XVII - Galileo Galilei, matemático, astrônomo e físico - O contínuo problema dos soldados mutilados - Os trabalhos com os deficientes auditivos no século XVII - Johannes Kepler, astrônomo alemão - Padre Lejeune, maior pregador do século XVII - Novas formas de utilizar os hospitais - As deficiências físicas em peças de Shakespeare - A superação de deficiências no século XVII: um exemplo - John Milton: o significado de sua cegueira - São Vicente de Paulo: suas obras face às tendências do século XVII - A "Velha Lei dos Pobres" da Inglaterra - O nascer da ortopedia como especialidade -- Quatro cegos brilhantes: Sauderson, Metcalf, Euler e Blacklock Alexandre Pope: um poeta com deficiências físicas - A reformulação hospitalar inglesa - A "Ortopedia" de Nicholas Andry - Maria Tereza von Paradis: pianista e compositora cega - A assistência aos cegos: final do século XVIII - Valentin Haüy, "Pai e Apóstolo dos Cegos" -Educação dos deficientes auditivos no século XVIII - Os primeiros sinais de assistência nas Américas - O desencontro de atitudes na Europa - Inovações nas "Leis dos Pobres" Bloqueios ao sacerdócio para pessoas deficientes - Hospitais públicos na França: final do século XVIII -- Progressos no campo do atendimento à cegueira: século XIX - Ludwig van Beethoven: a trágica surdez -Nelson, herói da Marinha Britânica - Os progressos nos Estados Unidos da América do Norte - Os sinais de melhor compreensão dos problemas dos deficientes - Uma iniciativa de Napoleão Bonaparte - Madre Agostinha, fundadora das Irmãs Irlandesas da Caridade - Lord Byron, poeta e satirista inglês - Antônio Feliciano de Castilho, um dos maiores literatos portugueses - Outros cegos do século XIX que ficaram famosos - A ortopedia do século XIX e as deficiências físicas - Atendimento mais especializado aos cegos - A pessoa deficiente vista com potencial para o trabalho - O problema dos surdos e dos surdos-mudos e suas soluções – Proteção ao acidentado de trabalho por legislação recente – A modernização da cirurgia ortopédica e as pessoas deficientes - Reabilitação desabrocha num Centro de Atendimento, em Cleveland - Helen Keller, cega, surda e muda: um marco indelével.


Capítulo Quinto A Pessoa Deficiente no Brasil Colonial e Imperial... Os primeiros hospitais do Brasil Colonial - Anchieta e seu exemplo de assistência aos doentes -- Males incapacitantes nos primeiros anos de Brasil -- Cegueira noturna no Brasil dos séculos XVI e XVII -- Os problemas médicos nos séculos XVI e XVII no Brasil --Médico com deficiência física na História de Pernambuco - O problema das paralisias no Brasil do século XVII -- A medicina do século XVIII entre nós – Males limitadores que afetavam muito os negros escravos - Deficiências físicas e sensoriais entre nossos índios --Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho" -- Uma primeira tentativa em projeto de lei: ajuda a cegos e aos surdos -- O problema das amputações do século XVI ao XIX – A influência européia no Brasil -- Organizações para pessoas deficientes criadas por Dom Pedro II. Capítulo Sexto O Século XX e os Caminhos da Reabilitação no Mundo... O panorama europeu da assistência a deficientes no início do século--EUA: um primeiro congresso mundial de deficientes auditivos--A gradativa implantação da reabilitação--As tentativas iniciais para a solução do problema de trabalho--Implantação de serviços de naturezas diversas--Os esforços de pós-guerra--Surge a "Easter Seal Society" - O Código de Direito Canônico e os bloqueios a homens deficientes--Reconhecimento das verdadeiras necessidades das pessoas deficientes—A previdência social e os acidentes de trabalho--A reabilitação de jovens veteranos da Marinha e do Exército--A retração dos anos trinta e as pessoas deficientes nos EUA--A influência da Segunda Guerra Mundial na reabilitação -- A criação de sociedades internacionais privadas - O envolvimento das organizações intergovernamentais -- Centros de demonstração de técnicas de reabilitação--O Instituto de Reabilitação: vida e morte--A evolução mais recente da reabilitação. Capítulo Sétimo 1981--Ano Internacional das Pessoas Deficientes... As declarações de direitos e sua importância --O significado de um "Ano Internacional" -O Ano Internacional das Pessoas Deficientes: trabalhos iniciais -- O conteúdo básico das idéias consensuais para um plano de ação mundial - As recomendações para atividades a nível nacional -- O Ano Internacional das Pessoas Deficientes a nível de Brasil -- A Comissão do Estado de São Paulo e seu relatório - As propostas para ação em São Paulo -As realizações da Secretaria Executiva da Comissão Estadual -- Dois Encontros Regionais discutem as propostas da Comissão Estadual--Conscientização: a meta para 1981 --O apagar das luzes para o Ano Internacional -- Recomendações finais de todas as Comissões: um desafio para o futuro. Bibliografia da Primeira Parte... SEGUNDA PARTE A INTEGRAÇÃO DAS PESSOAS DEFICIENTES NA SOCIEDADE -- O DESAFIO DE NOSSOS DIAS Introdução ... Capítulo Primeiro As Causas da Marginalidade das Pessoas Deficientes ...


Normal ou anormal: Eis o problema -- As "diferenças" assimiláveis ou inaceitáveis -- A questão em termos de Brasil -- A visibilidade da deficiência -- O problema do "comum" e do "normal" -- A grande variedade de condições marginalizantes -- Como classificar as condições marginalizantes (desvios intelectuais, desvios motores, desvios sensoriais, desvios funcionais, desvios orgânicos, desvios de personalidade, desvios sociais e problemas de idade avançada) - Outras condições que levam à marginalidade--Deficiência e incapacidade: distinção importante. Capítulo Segundo O Significado da Integração Social das Pessoas Deficientes... A complexidade do desafio--A integração social e seus "porquês" (O elevado número de pessoas consideradas como "deficientes", o valor próprio do ser humano, o valor econômico da mão-de-obra não utilizada)--Os princípios básicos da reabilitação -- O despreparo nos programas reabilitacionais -- A complexidade do trabalho de equipe em reabilitação--Os programas necessários em nosso meio. Capítulo Terceiro Adequação Pessoal -- O Objetivo Último da Reabilitação ... Impedimento, deficiência e incapacidade -- Programas de reabilitação global -Condicionamento físico em reabilitação -- O ajustamento psico-social no processo de reabilitação -- Ajustamento à vida de trabalho --Hábitos, atitudes e comportamentos--A adequação pessoal e seu significado -- Adequação pessoal-fator decisório na integração social -- Anexo I (Indicativo para Identificação de Comportamentos) -- Anexo II (Lista de Comportamentos ou Hábitos Inadequados). Capítulo Quarto Preparo para a Vida de Trabalho Aconselhamento para a vida de trabalho (Características pessoais, experiência educacional e profissional, aptidões e potencialidades, interesses, capacidade física, capacidade mental) -- Avaliação e ajustamento ao trabalho (potencial do indivíduo para o trabalho, significado para o indivíduo, o processo de ajustamento à vida de trabalho, a importância dos instrumentais de avaliação) -- O treinamento profissional em programas de reabilitação-Colocação em emprego--Anexo I (Relatório de Aconselhamento em Reabilitaçãoinstrumental) -- Anexo II (Relatório de Avaliação Inicial-instrumental)--Anexo III (Relatório Evolutivo do Caso-instrumental). Capítulo Quinto Equipes de Reabilitação nos Programas de Hoje ... trabalho de equipe em reabilitação--As garantias para um verdadeiro trabalho de equipe --A liderança de uma equipe de reabilitação--A ausência da coordenação formal de uma equipe -- As dificuldades principais em coordenar uma equipe--Problemas típicos encontrados num trabalho de equipe (falta de confiança e respeito mútuos, excesso de importância à própria atuação, desconhecimento das demais profissões, falta de atitudes de cooperação sistemática, comportamentos inadequados numa equipe, falta de experiência em trabalho de equipe, estilo inadequado de relatório, metodologia de cooperação quase inexistente, jogos de prestígio e de poder e seus malefícios, ausência de uma boa política de pessoal)--A necessidade de tratamento global do cliente --Superposição de atividades em equipes de reabilitação -- O trabalho de equipe: perspectivas.


Capítulo Sexto A Avaliação e o Controle nos Programas de Reabilitação... Os profissionais envolvidos em reabilitação--A falta de especialização e suas conseqüências--Métodos de avaliação em centros de reabilitação- Modelos de avaliação-Sistemas de avaliação (O “público” em geral, o "público" financiador, o "público" clientela, o "público" das famílias da clientela, o "público" das entidades) - Conseqüências de uma avaliação (decisão política, decisão estratégica, decisão tática) –Controle num centro de reabilitação--Sistemas de controle utilizáveis em centros de reabilitação--Características do sistema de controle. Bibliografia da Segunda Parte... ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES Porteiro egípcio com deficiência física ... Harpista cego no Antigo Egito ... Soberano assírio cegando prisioneiros de guerra... Paralítico de Cafarnaum apresentado a Jesus................. Ulisses consultando o cego adivinho Tirésias........ Mosaico de Lescar (França)--Homem com deficiência física . . . Coluna de Trajano--Atendimento a feridos em batalha .... Exorcismo de um catecúmeno com deficiências físicas ..... Castigo na Idade Média: amputação de mão .......... Negociações com cruzados--Ancião com muletas........ Hanseniano e deficiente físico impedidos de entrar em cidade . . Meios de locomoção e transporte de pessoas com deficiências . . O transporte de pessoas deficientes no século XVI .......... A mão artificial do pequeno Lorenense .......... Cegos, deficiente físico e um dos famosos "Sabouleux" . . Mendigos com deficiências no período pós-Renascença. Restos da batalha de Lens - soldados com deficiências. . . Deficiente físico vindo da Guerra do Paraguai .....

A ORAÇÃO DA PESSOA DEFICIENTE Pedi a Deus forças para poder realizar muitas coisas E fui feito fraco para poder aprender humildemente a obedecer; Pedi-lhe ajuda para que eu pudesse fazer coisas grandiosas E foi-me dada a enfermidade para que eu pudesse fazer coisas melhores; Pedi riquezas e bens para que eu pudesse ser feliz, Foi-me dada a pobreza para eu poder ser sábio; Pedi poderes a fim de receber a admiração dos homens, Foi-me dada a fraqueza para eu poder sentir a necessidade de Deus; Pedi-lhe tudo o que fosse necessário para eu gozar a vida E foi-me dada a vida, para eu poder gozar de todas as coisas.


Eu não obtive nada do que havia pedido, Mas recebi tudo o que eu havia almejado. A despeito de mim mesmo quase, Minhas silenciosas preces foram atendidas. E dentre todos os homens Sou o mais ricamente abençoado!... (Autor desconhecido - Texto divulgado pelo Institute of Rehabilitation Medicine da New York University e pela Abilities, Inc. de Albertson - Long Island-NY EUA)

APRESENTAÇÃO Para reforçar a credibilidade em torno do que dizem, certos catedráticos costumam se apresentar dizendo que têm tantos anos de cátedra, de cadeira. Se isto ajuda na apresentação de "A EPOPÉIA IGNORADA", direi que tenho quase vinte anos de . . . cadeira de roda! Direi também que este é o livro que gostaria de ter lido logo no início de minha pequena epopéia. Quantas dificuldades teria superado com menos lágrimas e decepções não tantas! E quantas palavras teriam poupado comigo alguns médicos, psicólogos e fisioterapeutas, se também eles tivessem lido obras como esta! Mas obras como esta, tão completa, humana, formativa e informativa sobre certas deficiências que acompanham a Humanidade desde seu berço, não existiam . . . até agora (É por isto, talvez, que existem tantos deficientes, físicos e sensoriais, incapazes de conviver mais naturalmente com suas deficiências). Mas agora chega Otto Marques da Silva com a História na mão. E a História é mestra. (Aqui ela ensina que, se é duro constatar que perante a paraplegia, por exemplo, a medicina tradicional ainda é aprendiz, ensina também - e com muito jeito e humanismo - a evitar decepções e conviver dignamente com tais deficiências). Otto nos leva pela mão através da História da Humanidade e nos faz conhecer gente que, sem condições físicas, fizeram capítulos importantes da História. Competência para isso o Otto tem: formado pela Universidade Católica de São Paulo e pela Universidade de New York na área de Serviço Social e de Reabilitação, contratado pela Organização das Nações Unidas como especialista nesses assuntos, trabalhou em colaboração com programas de 29 países na implantação de projetos para a reabilitação profissional de pessoas deficientes. Atualmente Otto é Diretor executivo da SORRI-SÃO PAULO (Sociedade para a Reabilitação e Reintegração do Incapacitado: "uma experiência que deu certo"). Já que me coube a honra de apresentar "A EPOPÉIA IGNORADA", aproveito a oportunidade para convidar meus colegas deficientes físicos e, sobretudo, os profissionais ligados à saúde, a tornarem menos ignorada esta grande epopéia que é a reabilitação e reintegração da pessoa à sociedade. E meus agradecimentos a você, Otto, por este importante trabalho, e à União Social Camiliana por tê-lo editado.


INTRODUÇÃO Uma boa porcentagem de nossa população ficou muito surpresa com dados divulgados por todos os meios de comunicação ao final de 1980 quanto ao universo das pessoas que viviam as conseqüências de males incapacitantes, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Esse esforço de divulgação aconteceu devido aos preparativos para 1981, o Ano Internacional das Pessoas Deficientes. Até então muito pouca divulgação tinha ocorrido quanto à verdadeira extensão de problemas dessa natureza e de repente atirava-se à população uma assustadora porcentagem: 10% de nossa população têm deficiências! Enquanto muitos espantavam-se com o incrível volume de pessoas envolvidas na questão de deficiências físicas, sensoriais, orgânicas e mentais, os céticos, que estão sempre muito desconfiados de porcentagens mal calculadas e por vezes improvisadas para assustar os incautos, não chegaram a se impressionar. Comentavam eles, que se essas estimativas mal fundamentadas fossem rigorosamente levadas a sério, nem 10% de nossa população estaria livre de problemas graves ou de estigmas, tais como alcoolismo, abuso de drogas, prostituição, deficiência mental, psicopatia, neurose, tuberculose, tensão grave, cegueira, surdez, reumatismo, câncer, tantas são as porcentagens alegadas. Pode bem ser verdade que não temos 10% de nossa população com deficiência certamente que poderemos ter mais ou ter menos! Não há dados oficiais a respeito, não sendo possível contestar ou confirmar. A precisão da cifra, que não passa de uma estimativa internacional para dar o toque inicial a uma campanha de conscientização, não tem muita relevância, na verdade. O que importa é que todos fiquemos muito cônscios das dificuldades sentidas pelas pessoas que não têm a capacidade máxima de uso do seu corpo ou de sua inteligência, ao tentar seu pequeno lugar ao sol. E mais ainda, é fundamental que todos saibamos que um bom volume de providências para eliminação das desvantagens que elas sentem depende do envolvimento de cada um, individualmente, e não apenas de figuras abstratas e impessoais de "entidades" ou do "governo". Na verdade, essas estimativas mundiais,que foram divulgadas por documentos formais da ONU e de suas Agências Especializadas, têm alertado muita gente para a existência de um certo percentual de pessoas que são marginalizadas injustamente devido a problemas físicos ou mentais, todas elas detentoras de seus direitos fundamentais como seres humanos que são. Todos aqueles que sentem na própria carne essa rejeição e que tem parentes ou amigos nessa situação, abismam-se com a lentidão incrível de reação da sociedade como um todo em aceitar sua parcela de responsabilidade na solução desses problemas, sem atinar com as causas dessa espécie de imobilismo. Alega-se sempre falta de informações oficiais, falta de um posicionamento político, falta de condições para o estabelecimento de prioridades por parte dos órgãos do governo. E justifica-se a falta de um envolvimento maior chamando a atenção para o vasto programa de reabilitação profissional mantido pelo INPS em muitas capitais e cidades maiores do Brasil e seus suntuosos e caríssimos centros de reabilitação que dão atendimento apenas a casos de acidentados do trabalho. No entanto, não é só por inexistirem informações precisas que a nossa sociedade quase que ignora o problema. Há, bem no fundo, um sentimento velado de rejeição contra tudo o que é diferente, que é "defeituoso" e que causa certo mal-estar. Rejeita-se, afasta-se do convívio de um lado, mas procura-se também, de outro, manter algumas organizações que se


dedicam ao problema sob pretextos os mais variados. Alguns trabalham e lutam pela causa das crianças carentes e portadoras de deficiências porque têm um parente com deficiência; outros o fazem devido a uma formação profissional; outros envolvem-se para recuperar investimentos financeiros em pequenos centros de finalidade lucrativa. E, embora em número reduzido, encontraremos também aqueles que se dedicam ao trabalho com pessoas deficientes devido a um posicionamento pessoal sério e muito bem pensado. Precisamos, todavia, ceder à evidência e reconhecer que faltam requisitos básicos para o desenvolvimento seguro de programas mais significativos do que aqueles que nossa sociedade tem mantido. Dentre esses requisitos inexistentes destacamos o seguinte: não há entre nós uniformidade e solidez de conhecimentos quanto à seriedade da situação, mesmo entre algumas pessoas mais envolvidas. Há por vezes uma noção deturpada quanto à realidade dos problemas e suas melhores e mais recomendáveis soluções por parte daqueles que são detentores de condições para muito sérias tomadas de posição e que certamente poderiam dar às pessoas deficientes tudo aquilo de que elas precisam para uma participação social efetiva. Aqueles que trabalham em programas reabilitacionais de caráter global ou que têm uma formação técnica adequada detectam com muita precisão atitudes descabidas, programas superados, posicionamentos desastrosos, que levam à confusão, ao fracasso técnico, ao descrédito e, pior do que tudo, ao atendimento falho e inadequado. A análise do quadro completo da evolução, do progresso ou do retrocesso no atendimento a pessoas deficientes no Brasil é uma tarefa impossível, enquanto que um simples olhar para o futuro poderá nos parecer nebuloso e sinistro, se algo de decisivo não for feito com urgência. Talvez o que realmente poderá nos ajudar seja um olhar demorado para o passado, pois sempre houve pessoas deficientes no mundo e as que sobreviveram fizeram-no de alguma forma com a ajuda de alguém, além de um enorme esforço pessoal. A sobrevivência das pessoas com deficiências aqui no Brasil e em boa parte do mundo, na grande maioria dos casos, tem sido uma verdadeira epopéia. Essa epopéia nunca deixou de ser uma luta quase que fatalmente ignorada pela sociedade e pelos governos como um todo-uma verdadeira saga melancólica--assim como o foi em todas as culturas pelos muitos séculos da existência do homem. Ignorada, não por desconhecimento acidental ou por falta de informações, mas por não se desejar dela tomar conhecimento. Ao tentarmos voltar no tempo, todavia, algumas questões afloram de imediato: O que pensavam nossos antepassados distantes de pessoas que tinham defeitos físicos ou problemas mentais? O que faziam as sociedades hoje inexistentes com pessoas portadoras de deficiências? E talvez as suposições do que seriam as respostas a essas perguntas indiquem uma certa posição nossa cultural, ou quem sabe pessoal, velada, secreta, muito íntima - e preconceituosa! Muitas outras perguntas podem ser levantadas, como, por exemplo: Qual tem sido o destino de crianças nascidas com deformações entre culturas primitivas que ainda hoje existem? Qual terá sido o destino de soldados com seus braços ou mãos decepados nos violentos combates corpo a corpo das campanhas romanas, gregas, egípcias, hebréias? Como foi possível a alguns poucos homens passar para a História, apesar de suas deficiências? Mesmo que poucos, o que tornou esses homens e mulheres diferentes para serem aceitos, assimilados e respeitados? Anomalias físicas ou mentais, deformações congênitas, amputações traumáticas, doenças graves e de conseqüências incapacitantes, sejam elas de natureza transitória ou permanente, são tão antigas quanto a própria humanidade. Através dos muitos séculos da vida do homem


sobre a Terra, os grupos humanos de uma forma ou de outra tiveram que parar e analisar o desafio que significavam seus membros mais fracos e menos úteis, tais como as crianças e os velhos de um lado, e aqueles que, vítimas de algum mal por vezes misterioso ou de algum acidente, passavam a não enxergar mais as coisas, a não andar mais, a não dispor da mesma agilidade anterior, a se comportar de forma estranha, a depender dos demais para sua movimentação, para alimentação, para abrigo e agasalho. Muitos dos que começam a estudar o assunto deduzem apressadamente que o indivíduo doente, deficiente ou portador de um problema sério qualquer, era exterminado pelo grupo primitivo. Outros acham que não. Apresentam como prova eventual o aparecimento e a evolução da medicina, a existência de esqueletos com sinais de fraturas solidificadas e o achado de crânios trepanados. O levantamento histórico apresentado na primeira parte desta obra, cobrindo desde os tempos sem registro da Pré-História até o Ano Internacional das Pessoas Deficientes (1981) não teria muita utilidade nem justificativa sem objetivos mais amplos e mais ambiciosos. Ele poderá, por exemplo, levar a um entendimento de certas atitudes e de muitas das preocupações de nossos dias quanto a deficiências que atingem o ser humano, pois de acordo com a incisiva afirmação do historiador Will Durant, "o estudo da Antigüidade perde o valor, exceto quando se torna um drama vivo, ou quando lança luz em nosso viver contemporâneo". Há, no entanto, outros motivos para o trabalho apresentado na primeira parte deste livro, e dentre eles um poderá ser expresso com palavras escritas por Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século da Era Cristã: "Aqueles que se determinam a escrever história a isso nem sempre são levados pela mesma razão". E, ao alinhar algumas dessas possíveis razões, indica como última a seguinte: “... e outros, por fim, o fazem porque não podem tolerar que coisas dignas de serem conhecidas fiquem sepultadas no silêncio". No entanto, não é apenas a curiosa, tocante e por vezes trágica referência histórica que tem relevância neste trabalho sobre as pessoas deficientes no mundo de ontem e de hoje. Ressaltemos que, dentre os variados aspectos de toda a questão que não podem de maneira alguma ficar "sepultados no silêncio", esquecidos, deturpados ou minimizados, estão aqueles que retratam a maneira como a humanidade de hoje vê as pessoas portadoras de deficiências e também aqueles relacionados com os caminhos novos - técnicos, bem cuidados e criteriosos da chamada "reabilitação" - para colaborar com essas mesmas pessoas para poderem ser inseridas em determinado contexto, assumindo seu papel com dignidade e competência.


PRIMEIRA PARTE A POSIÇÃO DAS PESSOAS DEFICIENTES NAS SOCIEDADES DE ONTEM E DE HOJE "Toda filosofia depende da História" (Nietzsche) "O estudo da antigüidade perde o valor, exceto quando se torna um drama vivo, ou quando lança luz em nosso viver contemporâneo" (Durant)

CAPÍTULO PRIMEIRO A PESSOA DEFICIENTE NO MUNDO PRIMITIVO Se tomarmos, como elemento de classificação das diversas etapas da vida do homem sobre a Terra, o material principal e mais relevante com que procurava ele fabricar todos os seus utensílios e instrumentos destinados à sua sobrevivência e conforto, poderemos dividilas em: -- Idade da Pedra Lascada -- Idade da Pedra Polida -- Idade do Bronze -- Idade do Ferro. A Idade da Pedra Lascada corresponde a uma boa parte do também chamado Período Paleolítico -- uma vastidão de tempo, com milhares de séculos muito obscuros, iniciados provavelmente há mais de um milhão de anos atrás. A Idade da Pedra Polida já corresponde aos Períodos conhecidos como Mesolítico e Neolítico, isto é, a épocas correspondentes a 10.000 anos antes da Era Cristã até 2.500 a.C. Os tempos que costumamos chamar de históricos começaram a ser vislumbrados com a Idade do Bronze e definidos com a Idade do Ferro. Essas Idades ou Períodos indicam graus de desenvolvimento e não necessariamente períodos cronológicos da história do homem sobre a Terra. Esses graus de desenvolvimento, nos quais alguns poucos povos até hoje existentes encontram-se mergulhados por milênios, foram por vezes atingidos com rapidez por algumas raças. Para ilustrar essa disparidade de momentos de desenvolvimento basta lembrar que, enquanto os egípcios já viviam na Idade do Ferro, os gregos estavam vivendo sua Idade do Bronze e as tribos bárbaras do norte europeu viviam na Idade da Pedra Polida. Em regiões onde a natureza sempre foi mais pródiga e o tempo mais acolhedor e ameno, a velocidade do desenvolvimento foi muito menor. Ainda hoje vemos em zonas tropicais ou temperadas do globo terrestre -- inclusive no Brasil - povos que vivem vidas altamente primitivas e sem qualquer contato com a civilização, como homens das Eras Mesolítica e Neolítica. - *O homem neolítico no Brasil de hoje.* "No dia 8 os kranhacãrores estão de volta ao mesmo local. Nova correria no acampamento. Orlando, que havia rumado para lá logo que soube do primeiro contato, apanha os presentes e corre para a canoa. Avança lépido pela picada, apesar do corpo


volumoso e apesar de quase não enxergar com um olho, operado de catarata. A canoa sai carregada de gente. Os kranhacãrores estão na outra margem, a 100 metros. Entre a canoa e os kranhacãrores, 100 metros de água e 30.000 anos de cultura. É o homem que já ronda as estrelas, atrás do seu irmão da Idade da Pedra Polida" ... "entre os presentes há um machado que o kranhacãrore mais jovem apanha e examina com curiosidade. Solta um grito, interpretado como de contentamento e vai para junto de uma árvore. Ergue os braços rígidos e vibra um golpe vigoroso, soltando outro grito. O machado escorrega de suas mãos, indo parar perigosamente perto de seu pé". "E se o kranhacãrore se ferir e interpretar aquilo como uma artimanha dos brancos? é o que a maioria pensa. Mas nada acontece. O kranhacãrore ergue o machado novamente e encaixa um golpe profundo no tronco. A pancada ecoa pela mata e o kranhacãrore dá o grande salto da Idade da Pedra para a Idade do Bronze" (in "Realidade", de abril de 1978, reportagem e texto de Luigi Mamprin). - *As primeiras civilizações do mundo.* As primeiras civilizações de alguma sofisticação começaram a desenvolver-se nas proximidades dos rios e em especial junto aos grandes rios que banhavam terras planas e de boa qualidade, tais como o Eufrates, Tigre, Nilo, Ganges, Amarelo e Indo. Foi exatamente ao longo desses grandes rios que, no ponto do Oriente conhecido como "Crescente Fértil" - situado entre o norte da África e o Oriente Médio -- logo distinguiram-se muitos grupos humanos que, devido às características de então e ao seu isolamento quase que contínuo, além de um incontido receio pelo desconhecido, formaram as primeiras civilizações: egípcios, assírios, babilônios, hebreus, fenícios, mesopersas e outros. Do Oriente, as facilidades de vida individual e de grupo conhecidas por nós como civilização foram levadas muito vagarosamente para o Ocidente, tendo chegado primeiramente à Grécia, antes de chegar a Roma, o que sucedeu diversos séculos depois. De Roma elas foram levadas também às regiões mais ocidentais da Europa, tendo afinal chegado ao Novo Mundo e à Oceania. 1. O Alvorecer da Humanidade. Nada de concreto existe quanto à vida de pessoas com deficiências físicas ou mentais, do velho e do doente nos primeiros nebulosos e muitas vezes enigmáticos milênios da vida do homem sobre a Terra, a não ser supostas situações que estão baseadas em indícios extremamente tênues. É evidente que fatos concretos ou situações comprovadas de vida, em toda a fase pré-histórica da História da Humanidade, são impossíveis de serem estabelecidos, mesmo com o magnífico concurso dos sábios que dominam muito bem toda a ciência arqueológica e áreas afins. Poderemos, sim, tentar imaginar o ambiente de então e o que ele poderia significar para a sobrevivência dos grupos humanos como um todo, elaborando um pouco quanto às hipotéticas situações a serem enfrentadas por um eventual portador de alguma deficiência limitadora de suas funções básicas daquelas mesmas épocas. - *Os males incapacitantes de sempre* Lembremo-nos de início que muitos dos males incapacitantes de hoje sempre existiram, desde os primeiros dias do homem sobre a Terra. Muitos deles por muitos milênios foram fatais devido à falta de recursos no seio das populações primitivas. Apesar de nos encontrarmos diante da impossibilidade de citar com segurança os males que rapidamente deterioravam a vida do homem pré-histórico, ainda achamos válido, apenas para ajudar


nossa imaginação e nosso raciocínio, anotar mentalmente que os seguintes males sempre foram e sempre serão muito sérios para a sobrevivência do homem, ou para sua integração ao seu grupo principal como elemento participante: -- Amputações em vários níveis e membros -- Artrites em suas várias caracterizações -- Cegueira ou limitações de visão -- Defeitos de nascimento ou malformações -- Surdez ou reduções graves de audição -- Afasia ou problemas de comunicação oral -- Desordens sanguíneas graves -- Problemas cerebrais -- Câncer nas muitas de suas caracterizações -- Queimaduras em vários graus e localizações -- Desordens cardíacas de gravidades diversas -- Paralisia cerebral de intensidades diversas -- Fibrose cística -- Problemas de abuso de medicamentos ou de álcool -- Epilepsia -- Diabete -- Problemas renais -- Doenças mentais das mais variadas intensidades -- Deficiências mentais nos variados graus -- Esclerose múltipla -- Distrofia muscular -- Gota em suas manifestações mais graves -- Desordens neurológicas diversas -- Fraturas e problemas ortopédicos os mais variados -- Problemas respiratórios e/ou pulmonares -- Paralisias (paraplegia, tetraplegia, hemiplegia) -- Doenças venéreas -- Fissuras lábio-palatais -- Hemofilia -- Síndromes incapacitantes diversas -- Hanseníase -- Paralisia infantil -- Incapacidades múltiplas -- Doenças crônicas -- Doenças dermatológicas transmissíveis -- Idade avançada Para vários dos males indicados poderemos de alguma forma imaginar as soluções dadas durante aquelas longínquas épocas, por paralelos ou comparações que fazemos com populações de cultura primitiva ainda existentes. Para alguns males é muito difícil elaborarmos qualquer quadro, como em casos de ósteoartrite. Existe evidência de sua ação não só no esqueleto de um homem de Neanderthal, de mais de 40.000 anos atrás, mas também de sua devastadora existência em dinossauros do período Mesozóico.


- *O ambiente físico* Há muitos milhares de anos o homem vivia desprotegido num mundo hostil, habitando em abrigos naturais de pedra ou em cavernas. O número dessas cavernas era exíguo para toda a humanidade francamente em expansão e às vezes imobilizada por invernos rigorosos. É praticamente certo que as melhores e mais protegidas cavernas foram sendo ocupadas e defendidas por muitas gerações de um mesmo grupo. Dentre os primeiros habitantes de cavernas que povoaram esparsamente a Europa préhistórica, devemos destacar o Homem de Neanderthal, que viveu há uns 70.000 anos. Pelos achados ocorridos em cavernas da Europa utilizadas naquelas épocas, podemos chegar a algumas conclusões. Uma delas é que em geral tratava-se de grupos humanos que adotavam cuidados básicos muito rudimentares com tudo. Em boa parte dos casos estudados, eram seres humanos pouco dados à ordem ou à limpeza de seus ambientes. Praticamente tudo o que utilizavam ou que deixavam de usar por ser considerado como inútil, e mesmo restos de animais devorados eram jogados fora em cantos das cavernas habitadas, o que levava à formação gradativa de camadas de depósitos de detritos, incluindo neles pedaços de armas, ossos, cinzas de fogueiras destinadas ao aquecimento ou ao preparo de alimentos. Algumas das cavernas utilizadas pelo homem primitivo eram grandes, escuras e um tanto tenebrosas, mesmo para os dias de hoje. Mas seus ocupantes viviam apenas nas áreas próximas à entrada, como bem o demonstram os estudos arqueológicos. Lá eles se sentiam não só protegidos do vento, da chuva, do calor e do frio, como também das incertezas da noite, das grandes tempestades, dos animais ferozes e dos inimigos que continuamente procuravam desalojá-los. Os homens hoje conhecidos como Cro-Magnon, surgidos ao final da Idade do Gelo há mais ou menos 30.000 anos e muito parecidos com algumas raças de homens da atualidade, começaram a povoar esparsamente diversas partes da Europa, pois aos poucos tinham conseguido explorar e descobrir locais mais longínquos de seus abrigos originais, permanentemente ameaçados por tribos rivais. Tinham aprendido a construir abrigos provisórios de peles de animais abatidos e tinham também descoberto sítios mais adequados para caçadas mais promissoras. Esses foram os homens que começaram a documentar o mundo que os cercava, os animais que caçavam ou que os ameaçavam nas caçadas sem fim, para as quais plena agilidade, força e domínio do corpo eram fundamentais, num esforço de grupo. Bisões, mamutes, ursos, velozes javalis e ágeis cervos foram desenhados, entalhados e mesmo pintados com pormenores de cores vivas em pedras, pedaços de osso, paredes e tetos das cavernas. Esses desenhos e peças entalhadas são encontradiços principalmente nas cavernas ao sul da França e ao norte da Espanha. O interessante é que essas obras, em quase sua totalidade, não estão nem foram encontradas na boca das cavernas, mas em pontos bem mais afastados do ambiente habitado, e às vezes à beira de grandes buracos, em pontos de difícil acesso até para os nossos recursos de hoje, inclusive nos tetos das cavernas. Para lá trabalhar nas muitas horas e dias de dedicação à obra, durante os longos invernos, o supersticioso homem primitivo certamente precisou primeiro vencer o medo que sentia pela escuridão sempre povoada por seres tenebrosos e o próprio ambiente mais profundo e misterioso das cavernas que refletiam sombras confusas à luz de tochas fumarentas. Junto aos desenhos desses bisões e demais animais da época, existem contornos de mãos -- muitas mãos --inclusive diversas com dedos visivelmente em falta! - *Os desafios para a vida do homem primitivo*


Dentre os principais problemas enfrentados pelo homem pré-histórico para poder sobreviver, estavam não apenas o abrigo e o aquecimento durante os meses de inverno ou durante as intempéries, mas também as dificuldades, quase que diárias durante as épocas mais quentes do ano, para obter alimento fresco. Ele não dispunha de meios para manter em bom estado de conservação para consumo a carne dos animais caçados nos dias de muito calor, enquanto que durante os meses de inverno a caça tornava-se rarefeita e ele mesmo dispunha de poucas condições para sobreviver por longos períodos de tempo fora de seus abrigos. O homem das Épocas Paleolítica e Mesolítica praticamente não plantava e não dispunha de animais domesticados, tais como os bovinos e eqüinos, que poderiam ser sacrificados para resolver o problema da falta de caça para alimentar o grupo. Além disso, ele dependia quase que exclusivamente da caça de certos animais muito cobiçados, se quisesse garantir peles quentes e adequadas para cobrir seu corpo e proteger seus pés durante o inverno, sem o que não conseguiria expor-se por longo tempo ao frio para matar animais atentos e muito velozes. Assim, durante muitos milênios dominando apenas armas de curto alcance, não há dúvida que os requisitos básicos para a atividade principal, que era a caça, eram a sua inteligência muito superior à dos animais cobiçados, a capacidade de atuar em grupos bem coordenados e criativos e . . . uma capacidade física total. Dessa forma, é muito difícil imaginarmos como um homem ou uma mulher poderiam sobreviver naquelas remotas eras com uma deficiência física muito limitadora. Mas o homem primitivo aprimorou suas condições de vida e já na época Neolítica (há aproximadamente 10.000 anos), em parte graças ao gradativo término da chamada Idade do Gelo e à progressiva e amena mudança de temperaturas nas várias regiões do globo terrestre, notamos que ele começou a ter melhores condições para explorar por muito mais tempo territórios jamais trilhados, com suas campinas, florestas e rios. Foi exatamente o homem neolítico que conseguiu tornar a caça muito mais racional, montando armadilhas, redes, chegando mesmo a construir represamentos de riachos para obtenção mais fácil de peixes para seu consumo. E, avanço muito significativo, inventou armas de mais longo alcance. Foi ele também que começou a solidificar o grupo familiar, que acabou por se tornar uma unidade social básica. Foi igualmente esse primitivo homem neolítico que tornou mais elaborada a idéia de um Deus ou das muitas divindades, e mesmo de seu culto e das religiões. Em suas explorações longínquas encontrou, talvez com surpresa, novos grupos de homens e com eles misturou-se. Segundo nos relatam especialistas no assunto, foi o homem neolítico que se organizou em grupos mais heterogêneos e que certamente começou a desenvolver uma primitiva, mas marcante, consciência social. - *O cuidado para com doentes e a incipiente medicina* Como das demais Épocas, desta Época Neolítica também não temos dados ou sinais de qualquer significado quanto ao problema causado pelas eventuais incapacidades físicas ou mentais em membros dos vários grupos humanos, a não ser presumirmos que, não só com um paciente e sempre muito curioso olhar, comparar e também estudar o comportamento animal (por exemplo, a absoluta solidariedade dos elefantes para com seus membros feridos), mas com o despertar dos vínculos mais fortes de ordem familiar, e com o surgimento da consciência social, o homem começou a atuar diferentemente. Já havia a linguagem falada em plena evolução e mais, a idéia de um ser superior - ou seres superiores - ainda de caráter punitivo e severo, o que talvez tenha levado o homem primitivo a melhor considerar as pessoas adoentadas, as acidentadas em atividades de caça e pesca, as vitimadas


por ciladas ou agressões de grupos rivais. Provavelmente dessas não registradas épocas da vida do homem sobre a Terra foram surgindo os primeiros passos para uma medicina não só de medicamentos provenientes de plantas, frutos e alguns minerais, mas também as primeiras tentativas cirúrgicas mais sérias. Dedos das mãos amputados, não se sabe por que causas, já haviam surgido por milhares de anos em desenhos das cavernas habitadas. Ao final da Época Mesolítica, passando aos poucos para a Neolítica, amputações de pés, de mãos e também a incrível cirurgia craniana conhecida como "trepanação", com a comprovada sobrevivência do "operado", foram realizadas, conforme indicam achados da época. Facas, serras, instrumentos pontiagudos haviam surgido para utilização nas atividades principais relacionadas à alimentação e vestuário de todo o grupo. Talvez que de sua contínua utilização para esquartejamento de caça, retirada e preparo de suas peles, divisão das carnes em pedaços menores e mesmo preparo de algumas armas, tenha surgido a idéia de, com cuidados bem maiores, usá-los para intervenções cirúrgicas. O homem primitivo que se dedicava à arte de aliviar dores, estancar sangue e mesmo curar males, tinha seus conhecimentos de anatomia derivados exclusivamente da observação constante e da contínua e necessária atuação e experimentação. Essas experiências foram sendo acumuladas por alguns homens considerados como especiais, depois chamados de feiticeiros, magos, druidas, pajés, além de seus auxiliares e foram sendo passadas de geração para geração, de grupo para grupo, de milênio para milênio, propagando-se e enriquecendose continuamente. Na Época conhecida como Neolítica, ou seja, aproximadamente 8.000 anos atrás, o homem descobriu muitos dos segredos básicos da natureza, da vida e da própria terra, tais como a domesticação de animais e a agricultura. Assim, a vida de cada grupo foi-se tornando cada vez menos difícil e menos perigosa uma vez que esse domínio maior do ambiente que o cercava acabava por não exigir grandes riscos de vida para garantir a sobrevivência pela caça quase que diária. O homem tornou-se dono de sua vida, de seu relativo bem-estar e de seu futuro, embora ainda vivendo em situações bastante precárias, como diversas das raças primitivas de hoje que ainda vivem como homens neolíticos. - *As fraturas na Pré-História* Membros fraturados certamente que eram tratados à semelhança da forma como animais superiores o fazem, muito mais por instinto do que por conhecimento de causa ou raciocínio, descansando a parte afetada ou deixando de utilizá-la. Provavelmente ainda na Era Paleolítica, durante a qual o homem esteve mais do que nunca sujeito a grandes quedas e a pancadas violentas, seja de inimigos portadores de armas contundentes, seja de animais acuados durante uma caçada, a própria vitima ou seus companheiros aliviariam o membro atingido com uma primitiva imobilização, por meio de pedaços de ramos de árvores ou pequenos arbustos atados por tiras de couro de animal, tufos ou cordas de capim, de cascas de árvores ou de outra natureza. Segundo o Dr. Edgard M.Bick, citado por Agüero, o homem pré-histórico que inventou a imobilização de um membro fraturado mereceria a mesma honra e teria os mesmos méritos que aquele que idealizou a roda ou que descobriu a forma de fazer e de controlar o fogo. Logo antes de partir para uma caçada ou para uma operação guerreira, os homens préhistóricos reuniam-se ao redor do fogo, em algum tipo de cerimônia religiosa, que certamente demonstrava a importância e o significado do empreendimento. Nessas atividades perigosas e muitas vezes imprevisíveis, fraturas por golpes de clavas, patadas,


quedas e mesmo pelos azares do dia-a-dia eram freqüentes. E certamente devido a essa freqüência, nas cavernas, abrigos e casas primitivas de então os acidentados já deveriam contar com homens mais idosos que tinham experiência e que sabiam como tratar com certo sucesso casos dessa natureza. Nas diversas cavernas pesquisadas pelos arqueólogos, e nos locais onde foram encontrados muitos esqueletos pré-históricos, vários ossos apresentam-se com fraturas solidificadas e bem tratadas. Esses ossos solidificados e com evidentes sinais de fraturas anteriores foram estudados meticulosamente por cientistas diversos que notaram a ocorrência maior e mais significativa de fraturas do ante-braço (radius). Nesses esqueletos pré-históricos encontrados e analisados até hoje, podemos citar sinais de fratura tratada em ossos de omoplata (em Vendreste), de tíbia (encontrados em dólmens da África do Sul e em Meudon), do perônio (terço superior), do fêmur (bastante comum), do húmerus, da clavícula e mesmo do metatarso. Em sua obra "La Médecine chez les Peuples Primitifs (Préhistoriques et Contemporains)", Stéphen-Chauvet afirma que um grande estudioso dos achados pré-históricos, o Dr. Raymond, pôde estudar um fêmur direito encontrado numa gruta do vale Petit-Morin que havia sido fraturado em seu terço inferior, e que apresentava um forte deslocamento. O fragmento inferior tinha sua ponta, na linha áspera e quebrada, solidificada à extremidade baixa do pedaço superior do fêmur, mas com grande desvio. Assim, o conjunto é envolvido numa calosidade óssea de aproximadamente 20 cm de circunferência, daí resultando um considerável encurtamento da coxa. Todas essas fraturas mesmo a do metatarso chegavam a impedir o homem primitivo da participação em atividades de caça ou de guerra praticamente durante meses. Viviam com seus membros imobilizados - ou pelo menos não usados - sobrevivendo na dependência dos demais. Eram, assim, transitórias, mas seriamente deficientes. No entanto, seja pelos dedos amputados, que podem ser notados nos desenhos das cavernas habitadas, seja pelo exemplo da incrível calosidade óssea com grande desvio da linha do fêmur e evidente encurtamento da perna, tivemos na Pré-História pessoas deficientes que sobreviveram por muitos anos. Como sobreviveu esse homem de perna com fratura solidificada com sério desvio? Como conseguiu integrar-se ao seu grupo, e com que tipo de papel? Sim, pois se não tivesse sido integrado, seus ossos não estariam na caverna em que foram encontrados... Como participou, pelo resto de sua longa vida, das atividades de sua família ou de seu grupo? Seu vulto, coxeando pelos agrestes e perigosos caminhos, num ponto perdido da Pré-História, permanecerá sem maiores explicações em nossa imaginação. Além das providências de imobilização para os casos de fraturas, membros ou partes do corpo atingidos por um golpe devem ter sido instintivamente socorridos por massagens do próprio indivíduo, da mesma forma como certas dores reumáticas podem ter sido aliviadas com o calor das fogueiras ou das pedras aquecidas ao seu redor nas primeiras cavernas habitadas pelos grupos humanos. - *O que nos ensinam os ossos pré-históricos* Os homens que se dedicam ao estudo de ossos pré-históricos têm desenvolvido denodados esforços para a criação de uma nova especialidade: a paleopatologia. Praticamente toda a especialidade aqui referida volta-se para achados que indicam a existência de patologias incapacitantes. Seus estudos não podem desconsiderar desenhos, estatuetas, relevos, além da análise sistemática de ossos que apresentam anomalias. A nova ciência da paleopatologia nos ensina que a doença e a deficiência física são tão antigas quanto a própria vida sobre a Terra.


Pois bem, é a paleopatologia que nos diz que ossos de animais de todas as épocas indicam a presença de distrofias - sejam elas congênitas ou adquiridas - e lesões traumáticas ou infecciosas. Dentre os ossos encontrados na França, na Espanha e na Argélia, existe mais de uma centena que apresenta anomalias. Vejamos alguns exemplos mais marcantes: a) Pythecanthropus Erectus - Existem poucos ossos do tipo conhecido por esse nome científico: uma calota craniana, três dentes e um fêmur. O fêmur apresenta uma espécie de tumor ósseo bem volumoso no terço superior, próximo à sua cabeça, atribuído pelos estudiosos a uma fratura ou a um aneurisma. b) Homem de Neanderthal -- Há ossos do chamado Homem de Neanderthal que apresentam traços de traumatismo. Há, por exemplo, no úmero esquerdo, uma cicatriz que corresponde a uma lesão séria. No esqueleto desta espécie, descoberto em Krapina, existe um sinal de fratura solidificada na clavícula. O esqueleto de La Chapelle-aux-Saints mostra sinais de artrite deformante. c) O esqueleto analisado por Raymond - O fêmur com grande desvio citado mais atrás, foi descoberto por Raymond na gruta de Baye. É interessante notar que ossos provenientes dessa mesma caverna apresentam, quase todos, sinais de osteoartrite de natureza reumática. Segundo alguns especialistas, essa afecção apresenta-se como um real obstáculo à boa solidificação de uma fratura. d) Homem Cro-Magnon -- A espondilose foi encontrada num esqueleto de homem préhistórico conhecido como Cro-Magnon. Trata-se de um mal de efeitos muito limitadores, pois a espinha dorsal em geral fica com uma curvatura bastante acentuada, a cabeça inclinase para a frente e as coxas flexionam-se. e) Freqüência do reumatismo -- O reumatismo foi muito freqüente e devastador na PréHistória. Havia casos que iam desde a chamada osteopatia peri-articular, até a total imobilização do homem primitivo. Um exemplo marcante é encontrado em ossos do Homem de Neanderthal, descobertos em La Chapelle-aux-Saints, na França. Pela análise dos mesmos, especialistas constataram sinais claros de articulações coxo-femurais com artrite seca e com poli-artrite. Na Era Neolítica a presença média do reumatismo é estimada em 20% dos esqueletos ou ossos encontrados. A incidência do mal talvez esteja relacionada à má qualidade da alimentação (que pode também ter causado muitos casos de cegueira), devido a infecções e também devido à exposição à umidade e ao frio. Convém que lembremos ter o homem primitivo vivido muito exposto às alterações do clima, muitas vezes em cavernas cheias de umidade. Assim, os casos de reumatismo não aconteciam apenas em faixas etárias mais elevadas; ocorriam também muito antes dos 30 anos de idade (Ver Goldstein, Guthrie, Gonzales, Stephen-Chauvet e Dastugue). - *A origem dos males que afetavam os homens* A rude e muito difícil vida do homem em seus primeiros milênios de existência sobre a Terra não admitiam fraquezas. A doença e os acidentes aconteciam, muitas vezes avassaladores e de muito rápido desfecho; mas por vezes o homem vencia, e uma primitiva medicina -- se assim poderá ser chamada -- ajudava com um socorro paliativo, cada vez mais eficaz, por meio de homens observadores, muito voltados para os recursos da natureza e para os misteriosos segredos do "desconhecido". Afirmam Graña, Rocca e Graña Jr. em "Las Trepanaciones Craneanas em el Perú en la Época Pré-Hispánica": "Se considera una doctrina plenamente confirmada que el hombre


primitivo, a través de todos los tiempos y en todas las regiones del globo, observó las mismas creencias, iguales supersticiones y atravesó por semejantes etapas de cultura". "Y así, concurren a una interpretación común las leyendas y tradiciones más remotas sobre el origen de las enfermidades. Ignoradas las causas reales, el hombre invocaba lo ignoto y misterioso, lo invisible e palpable, o sea, el concepto de los espíritos y la influencia de la divindad. Desde este punto de vista el folk-lore médico es el mismo en todas las civilizaciones primitivas". "Elocuente demonstración de estos hechos ofrecen ciertas prácticas quirúrgicas registradas en la história de los pueblos más antiguos, y una de verdadera significación y importância es, sin duda, el caso de las trepanaciones craneales, realizadas desde muchos milenios anteriores a nuestra era. Ya en el período neolítico se realizaba con extraordinaria frecuencia esta grave y dificil intervención, juzgada" como la operación más antigua de la cual existen huelas comprobadas". Como demonstración palmaria de las ideas enunciadas antes, podemos aducir que dicha intervención en el pasado lejano se llevó a cabo en las regiones más distantes de la tierra: Africa y Asia, entre los "Chaouias" de la Algeria, las tribus Bere-Bere, que la practican aún hoy. Se han descubierto cránios horadados en Herzogovina, Montenegro Y Albania; igualmente em las islas del Pacifico, la Malasia, Polinesia, Tahiti. En Nueva Bretaria, en el Archipiélago de las Bismark; en diversos paises del Mediterráneo, Itália, Francia. En Inglaterra y Austria; en las Islas Canarias y, bien lo sabemos, en diversos paises de la América Del Sur, Perú, Bolivia y Colombia". É indiscutível que o homem pré-histórico procurava a origem das enfermidades em crendices de natureza mística ou fantasiosa, mais de ordem demoníaca ou resultante de atitudes punitivas das divindades ou seres superiores. Apesar de podermos duvidar da profundidade ou da diversidade de conhecimentos dos aplicadores da primitiva medicina, a eficácia de muitos tratamentos é fato inquestionável. Data, por exemplo, de tempos imemoriais a utilização de uma lama especial para muitos casos de afecções cutâneas, bem como o uso de teias de aranha em cortes e feridas, com resultados positivos, Embora ainda não fosse do conhecimento do homem primitivo, hoje sabemos que os produtos naturais indicados acima contêm uma espécie de elemento protetor quase tão eficaz quanto a penicilina. Certamente que são surpreendentes para todos nós conhecimentos primitivos quanto à eliminação da dor, ao estancamento de sangue, à assepsia ou às técnicas operatórias, porque não há dúvida de que de alguma forma eles existiram. - *O tratamento primitivo e as deficiências* Comprovadamente tanto a existência quanto o tratamento de males diversos no seio das populações primitivas e pré-históricas sempre estiveram ligados à magia. A própria trepanação -- ou seja, a abertura de um orifício em alguma parte do crânio -indica uma crença primitiva quase que demonológica ou maligna de origem desconhecida de certos males físicos ou mentais. No entanto, o tratamento dos feiticeiros ou mágicos daquelas épocas incluía, além de cerimoniais com evidente simbologia, providências de natureza objetiva, muitas vezes hoje utilizadas em tratamentos de urgência ou tratamento médico regular, como o calor, o frio, a sangria, os banhos, a sucção, dentre muitos outros meios que apenas podemos imaginar. Conforme referimos anteriormente, a massagem, certamente descoberta por mero acaso num momento perdido de dor na história do homem, levava – como sempre levou -- a uma


sensação de alívio; assim também a proximidade com o calor do fogo, ou o amortecimento em contato com o gelo ou neve. O uso eventual de uma erva -- à semelhança do que fazem certos animais em momentos de dor -- pode ter levado a alívios pouco esperados. Cada povo ou cada tribo, por experiências acumuladas e por observações próprias, foi desenvolvendo seus próprios meios de tratamento de males. Por uma questão de sobrevivência da raça apenas, cuidados um pouco diferenciados podem ter sido dados às mães e aos recém-nascidos -- desde que perfeitos e, conforme as circunstâncias, desde que do sexo masculino. É quase certo que uma criança nascida com aleijões ou aparentando fraqueza extrema terá sido eliminada de alguma forma, tanto por não apresentar condições de sobrevivência, quanto por crendices que a vinculavam a maus espíritos, a castigos de divindades ou mesmo por motivos utilitários. Os primeiros auxílios prestados pelos homens primitivos foram relacionados a lesões do tipo traumático, como as feridas, os dilaceramentos causados por pedras, espinhos, flechas, lanças, garras ou presas de animais caçados, todas elas provocadoras de perda de sangue ou de fraturas. As circunstâncias da ocorrência desses fatos ou acidentes certamente levaram os companheiros ou a própria vítima a buscar na natureza que os cercava os remédios necessários. A compressão normalmente feita pelas mãos e as proteções por ataduras primitivas estavam incluídas nessas providências iniciais. Ressaltemos que os homens pré-históricos, assim como os nativos de certas tribos existentes hoje em dia, dispunham de armas de curto alcance, tanto para caçar como para se defender, sendo a maioria delas de efeito contundente (bastões, marretas, porretes, tacapes ou algo semelhantes). Essas armas e seu uso contra outros homens também levavam à existência de contusões ou de ferimentos sérios que nem sempre causavam a morte. Assim, seja durante um ataque ou uma operação de defesa contra inimigos racionais, ou mesmo durante uma caçada, o homem atingido por uma flechada, por uma pancada mais forte ou por garras afiadas, era socorrido --como não poderia deixar de ser -- pelos companheiros, que o abrigavam ou cuidavam dos ferimentos por meios rudimentares e naturais, e o levavam de volta ao núcleo de habitação, onde recursos maiores deveriam existir. Em alguns casos o indivíduo gravemente ferido não falecia, mas podia ficar vitimado por uma seqüela qualquer e se tornava limitado para a atividade principal da qual originalmente participara: a caça ou a guerra. - *O destino das pessoas deficientes na Pré-História* O que sucedia a esse homem? Ele fora valente, respeitado e útil ao grupo, mas a partir de então não tinha mais utilidade. Seria ele mantido pelo grupo na esperança de voltar à atividade? Seria ele utilizado em funções menos exigentes de perfeito domínio da força e do físico? Seria ele levado às planícies ou às armadilhas para, num último gesto de colaboração com o grupo, servir de isca para animais ferozes? Aceitaria ele funções menos briosas, ao lado de mulheres e crianças? Nada disso sabemos. Só conjecturas podem ser feitas e talvez com boas oportunidades de estarem certas. Lembremo-nos que, de acordo com o progresso lento da humanidade e o gradativo domínio dos ambientes e da natureza, certas funções começaram a existir: os fabricantes de cestos ou de armadilhas, os preparadores de peles para vários fins, os fabricantes de esteiras e de vasos para armazenamento de água, dentre muitas outras coisas. Por que um homem brioso, valente, lutador, corajoso, não poderia ter sido usado para esses fins, seja provisoriamente, seja permanentemente?


Dos períodos mais adiantados da Pré-História para os dias de hoje, na Era Neolítica, vasos e urnas foram sendo decorados das mais variadas maneiras e com os mais incríveis motivos. Foram encontrados em alguns desses vasos ou urnas homens com evidentes sinais de deformidades de natureza permanente, sendo algumas delas conseqüentes de mal-formações congênitas: corcundas, coxos, anões e amputados. Isso nos indica que desde épocas as mais remotas as deficiências e mesmo as deformidades de nascimento ou adquiridas por traumatismos e doenças já eram um verdadeiro flagelo da humanidade. Indicam-nos também esses objetos da primitiva arte neolítica que esses homens sobreviviam até a idade adulta e poderiam ter algum valor, seja por motivos de superstições, seja por real utilidade, para merecer sua representação num utensílio permanente e de vital utilidade para os grupos sociais de então. 2. Culturas Mesolíticas e Neolíticas mais Recentes Muitos daqueles que se interessam por pessoas deficientes ou por grupos minoritários em culturas pré-históricas e em culturas primitivas dos dias de hoje, seja por falta de maiores informações, seja devido a uma projeção das tendências subjetivas de cada um, consideram inevitável generalizar a aplicação de procedimentos adotados por muitos séculos e defendidos até em uma lei básica de Roma ou em costumes adotados em Esparta, que determinavam a eliminação de crianças nascidas com deficiências físicas. No entanto, esses procedimentos não foram e nunca poderiam ter sido generalizados ou generalizáveis. Muitos dos hábitos e costumes adotados em culturas muito mais antigas que a nossa são até hoje aceitos por povos bastante primitivos que vivem uma vida praticamente ao nível dos antigos homens das épocas conhecidas como neolíticas. Alguns deles referem-se aos seus componentes mais fracos, mais idosos ou defeituosos. Exemplos concretos, coletados por antropólogos pacientes, podem de fato ser citados às dezenas. - *O porquê das atitudes face a grupos minoritários* Na abalizada opinião de antropólogos e mesmo de historiadores da medicina, pode-se observar basicamente dois tipos de atitudes para com pessoas doentes, idosas ou portadoras de deficiências: uma atitude de aceitação, tolerância, apoio e assimilação e uma outra, de eliminação, menosprezo ou destruição. Na primeira, as pessoas que estão à margem do grupo principal devido a doenças, acidentes, velhice ou defeitos físicos são em geral aceitas das mais variadas maneiras, incluindo-se a tolerância pura e simples, chegando até ao tratamento carinhoso, ao recebimento de honrarias e à obtenção de um papel relevante na comunidade. Na segunda, todavia, essas mesmas pessoas são destruídas também de formas variadas, incluindo-se desde o abandono à própria sorte em ambientes agrestes e perigosos, até a morte violenta, a morte por inanição ou o próprio banimento. Esses mesmos antropólogos e historiadores observam que as encontradiças atitudes positivas e de aceitação não correspondiam necessariamente a raças mais cultas, experimentadas ou evoluídas. Na verdade, o que sucedia com os grupos que precisavam coletar alimentos, pescar e caçar era que, apesar de haver um bom tratamento para com doentes e deficientes e mesmo para com os mais idosos de seus membros, de um modo especial na garantia da alimentação, o grupo maior tinha necessidade de livrar-se do peso que significavam as dificuldades na movimentação geral quando do escasseamento da caça, da pesca e dos outros tipos de


alimentos. Problemas muito sérios surgiam com a mudança para regiões mais férteis e mais promissoras. Essa atitude é bem diferente daquela da destruição habitual e sistemática adotada por grupos primitivos mais complexos dedicados à agricultura e também ao pastoreio e uma incipiente pecuária. A causa principal da destruição das pessoas era evidentemente, econômica, face à quase inutilidade das mesmas. No entanto, observa-se também que a partilha de alimentos nesses mesmos grupos parece ter declinado em importância com os gradativos progressos verificados na agricultura e no pastoreio. Foi exatamente nesses grupos que aos poucos começou a surgir a caridade organizada, em seus primeiros sintomas. - *Atitudes de aceitação, apoio e assimilação* Vejamos, por exemplo, povos primitivos que adotam atitudes de apoio, assimilação, aceitação ou tolerância para com pessoas portadoras de deficiências, problemas mentais ou velhice: -- Aona: Os Aona residem ainda hoje à beira do lago salgado de Rudolf, no Quênia, numa ilha conhecida como Elmolo. De nômades que eram, transformaram-se em pescadores. Segundo eles acreditam, os cegos mantêm relação direta com o sobrenatural e os espíritos do sobrenatural moram no fundo do lago salgado e previnem diretamente os cegos quanto aos locais onde há peixe. Assim, os cegos sempre participam das pescarias primitivas, levando em consideração a lança atirada por eles que são sempre bem tratados e respeitados. -- Azande: Trata-se de um povo muito primitivo que habita as florestas situadas entre o sul do Sudão e o Congo, caracterizando-se pelo seu nomadismo esporádico. Todos os componentes dessa raça acreditam muito em feitiçaria. No entanto, não chegam a relacionar defeitos físicos e anomalias com intervenções sobrenaturais. Crianças anormais nunca são abandonadas ou mortas. Não lhes falta carinho dos pais ou de parentes mais próximos. Segundo antropólogos estudiosos de seus costumes, dedos adicionais nas mãos ou nos pés são bastante comuns e eles se orgulham de os possuir. -- Ashanti: Habitam a parte sul de Gana, a oeste da África, totalizando mais de um milhão de membros. Quando constituíam um reino próprio era costumeiro enviar à corte crianças com defeitos físicos para serem treinadas como arautos do rei. Esses mensageiros com deficiência física eram destacados para missões delicadas, como, por exemplo, a iminência de guerras com tribos vizinhas. Em geral a mensagem do rei Ashanti era incisiva e terminava com um recado do arauto: "se esses termos não forem aceitos, poderei ser morto agora mesmo". No entanto, parece que isso não acontecia, pois limitavam-se os inimigos a cortar um dos dedos do arauto, o que equivalia a uma declaração de guerra. Além dessa perigosa missão, os arautos eram também utilizados como inspetores sanitários ou coletores de impostos. Eram igualmente usados como bufões e tinham o privilégio de dizer a seus mestres o que bem entendiam. Foram também usados como espiões. -- Dahomey: Entre os habitantes mais antigos do Dahomey atual, localizado na África Ocidental, sempre foi considerado como fato costumeiro -- apesar de singular na grande maioria dos povos primitivos – que as autoridades conhecidas como "condestáveis do Estado" fossem selecionadas principalmente entre pessoas portadoras de deficiências físicas ou sensoriais. Em várias aldeias do país crianças nascidas com anomalias físicas sérias eram tidas como protegidas por agentes sobrenaturais especiais. Segundo crença popular, essas crianças existem para trazer sorte à aldeia. No entanto, em tempos passados, o destino de


muitas delas dependia de alguns sinais supostamente sobrenaturais que podiam decretar seu abandono à beira de um rio. -- Macri: Pessoas deformadas ou portadoras de deficiências não são mortas nem abandonadas nas aldeias dos Macri, nativos da Nova Zelândia. Elas sobrevivem, embora com dificuldades, pois não encontram muito apoio e chegam mesmo a receber tratamento ou apelidos de natureza desagradável. -- Pés Negros: Tribo praticamente extinta da América do Norte, entre os Pés Negros cuidava-se bem de familiares com deficiência. Essas pessoas eram responsabilidade do próprio grupo familiar, mesmo que isso chegasse a acarretar sacrifícios. -- Ponapé: Nas ilhas Carolinas Orientais, entre seus primitivos habitantes pertencentes à tribo dos Ponapé, crianças com defeitos físicos ou evidentes sinais de retardo mental sempre foram bem tratadas como se fossem normais. -- Semang: Entre os nativos da raça Semang, habitantes de parte da Malásia, só pessoas que se movem com o auxilio de um bastão ou de uma muleta, devido a um defeito físico ou à cegueira, é que são procuradas para conselhos ou para decidir disputas. Trata-se de uma tribo Negrito, muito primitiva, que ainda vive em cavernas ou em abrigos de folhas. -- Truk: Para os nativos da ilha Truk -- uma das Carolinas -- as pessoas portadoras de deficiências das mais diversas naturezas e também as pessoas muito idosas que não podem prover seu próprio sustento ou que dependem necessariamente dos outros -- são consideradas como supérfluas. No entanto, esses aborígenes não tomam qualquer providência para sua segregação ou eliminação. -- Xagga (ou Chaggal): Nas fraldas do monte Kilimanjaro, ao norte da Tanzânia (leste da África), vivem os nativos do grupo Xagga. No seio dessa tribo primitiva ninguém se atreve a prejudicar ou a matar crianças ou adultos com deficiências, pois segundo acreditam, os maus espíritos habitam nessas pessoas e nelas se aquietam e se deliciam, o que torna a normalidade possível a todos os demais. -- Tupinambás -- Entre os nossos antigos índios da grande raça Tupinambá do século XVI, o adulto doente ou deficiente por ferimentos graves de guerra, de caça ou devido a acidentes da vida na floresta era deixado à vontade em sua cabana, praticamente sem contato algum com o restante da tribo. Ficava sem comer se assim o desejasse, pois podia pedir alimentos, que lhe seria fornecido pelo tempo que achasse necessário, mesmo que pelo resto de sua vida. O que em geral acontecia, porém, por posicionamento do guerreiro ferido, era que acabava morrendo à míngua. -- *Causas das atitudes de abandono, segregação ou destruição* Alguns dos povos primitivos a respeito dos quais obtivemos informações não se preocupam ou não se preocupavam (conforme o caso) com as pessoas deficientes em termos de vida ou de morte, mas tomavam atitudes discriminatórias contra elas, como nos casos ainda hoje verificados dos habitantes da ilha de Bali -- Os nativos da ilha de Bali, na Indonésia, estão tradicionalmente impedidos de manter contatos amorosos com pessoas muito diferentes do normal, ou seja, albinas, retardadas, hansenianas, e em geral com pessoas portadoras de defeitos físicos sérios ou problemas mentais. Por vezes, no entanto, é a pressão pela sobrevivência que determina certas tomadas de posição quanto a pessoas idosas, doentes ou deficientes. É o que acontece com os índios Chiricoa -- eles habitam as matas colombianas e mudam-se com facilidade ou de acordo com as exigências para sobrevivência do grupo. Esses índios, tanto quanto certas tribos do Caribe antigo também o faziam, abandonam pessoas muito idosas ou incapacitadas por doenças ou por mutilações por ocasião de suas mudanças. Cada membro da comunidade


carrega tudo o que pode levar e transportar pela selva, e que é considerado como estritamente necessário. Essas pessoas deficientes ou muito velhas e doentes terminam seus dias abandonadas nos antigos sítios de morada da tribo, por não poderem se movimentar ou por não serem consideradas como fundamentais para a sobrevivência do grupo. Em alguns casos pesquisados, o abandono e a morte por opção do próprio indivíduo idoso, doente ou portador de deficiência séria, para benefício da tribo ou mesmo da raça, também acontecem. É o caso observado entre os Esquimós -- Entre os esquimós mais antigos que mantiveram contatos com missionários franceses nos séculos XVII e XVIII nos territórios canadenses de hoje, as pessoas idosas ou deficientes eram deixadas, por sua própria orientação e muitas vezes por sua própria escolha e vontade, num local mais propício e próximo dos pontos onde todos sabiam ser a área de convergência contínua e de aparecimento de ursos brancos, para serem por eles devoradas. Segundo acreditavam, os ursos brancos eram considerados como animais sagrados e de grande utilidade para a tribo e que deviam manter-se sempre bem alimentados. Assim, sua pele mantinha-se também em ótimo estado para, quando mortos, bem agasalharem a população. Existem relatos de abandono mais evidente e aberto, ou um tanto velado, como no caso dos Tupinambás, acima indicado. O abandono intencional ocorre com os Siriono - Esses índios são seminômades e de língua Guarani, e habitam nas selvas da Bolívia, próximo ao Brasil. Para eles a doença e a incapacidade física, bem como a velhice, podem levar ao abandono e mesmo à morte com certa freqüência, devido a constante movimentação da tribo. O mesmo sucede com os pertences ou com a cabana de alguém que morre, que são destruídos pelo fogo. -- *O extermínio de pessoas deficientes* A maioria dos povos primitivos, no entanto, indicava o extermínio como solução para o problema de crianças ou adultos com deficiências físicas ou mentais. Vejamos alguns casos mais marcantes: -- Ajores -- Os índios Ajores vivem ainda hoje como nômades, em região pantanosa, entre os rios Otuquis e Paraguai, nos isolados confins da Bolívia e do Paraguai. São índios orgulhosos do Gran Chaco. Devido ao nomadismo, todos os recém-nascidos com deficiências, ou mesmo aqueles não desejados, são enterrados juntamente com a placenta, ao nascer. Os velhos Ajores, ou aqueles que devido às circunstâncias ficaram deficientes, são enterrados vivos, por solicitação própria ou mesmo contra sua vontade. Consideram alguns esse tipo de morte altamente desejável, pois a terra os protegerá contra tudo e contra todos. -- Creek -- Velhos doentes e vítimas de males crônicos eram mortos por misericórdia. Acreditavam os Creek que esses velhos ou doentes poderiam acabar por cair nas mãos do inimigo e sofrer muito mais. Os demais idosos sempre foram respeitados e mesmo reverenciados por todos os componentes da tribo. -- Dene -- Entre os índios Dene, do Noroeste do Canadá, bem como junto aos esquimós da região e algumas tribos da Sibéria antiga, era costume eliminar pessoas incapacitadas seja por idade, seja devido à deformidade apresentada. Eram abandonadas nas planícies geladas de seus imensos territórios. -- Dieri -- O infanticídio acontece com freqüência na tribo dos Dieri que ocupa algumas regiões do Centro da Austrália. Dele são vítimas não apenas crianças que nascem com defeitos físicos, mas também, por motivos de ordem social, os filhos de mães solteiras. No entanto, nessa e em várias outras tribos australianas, o respeito pelos idosos é constantemente citado pelos antropólogos que se dedicam ao seu estudo. Em quase todas as tribos da Austrália os velhos são respeitados como líderes e como conselheiros.


-- Jukun -- Trata-se de uma tribo da Nigéria, na qual as crianças que nascem com deformações não sobrevivem. Elas são abandonadas nas matas ou nos lugares ermos onde logo encontram a morte. Acreditam os nativos Jukun que as crianças com defeitos físicos são tomadas, ainda no ventre da mãe, por espíritos malignos. -- Masai -- Os nativos da raça Masai são os sempre elegantes, magros e muito altos componentes de uma definida origem nilo-hamítica nômade. Eles tiram a vida das crianças recém-nascidas que se apresentam muito fracas ou que já apresentam deformações ao nascer. -- Navajos -- Os índios Navajos, aparentados dos Apaches e formadores da maior raça indígena norte-americana, no passado distante não permitiam que uma criança com defeito físico sobrevivesse. Ela era asfixiada ou afogada, abandonada no meio do mato ou ocasionalmente queimada viva. Mesmo hoje em dia os Navajos não se sentem muito à vontade diante de pessoas com deficiências, por considerar em seu íntimo que elas estão fora da harmonia das forças da natureza e que o contato com elas acabará trazendo desarmonia na vida de cada um. -- Ojibwa -- Conhecido grupo étnico de índios norte-americanos, existem famílias Ojibwa residentes ainda hoje nas ilhas Parry (Canadá) que acreditavam (e que talvez ainda acreditem) que pessoas com defeitos físicos eram feiticeiras e que sofriam com seus problemas físicos porque os seus poderes de cura acabavam voltando-se contra elas mesmas. Essas pessoas com deficiências podiam ser acusadas de feitiçaria e se fossem condenadas eram mortas a pauladas. -- Sálvia -- Nas matas fechadas da selva amazônica vivem os índios Sálvia, em extinção. Eles costumam dar a morte aos fisicamente deficientes por serem considerados como elementos claramente marcados por espíritos malignos. -- Saulteaux -- Pertencentes à grande raça dos Ojibwa, os Saulteaux estão espalhados tanto pelos Estados Unidos quanto pelo Canadá, na região dos Grandes Lagos e também do lago Winnipeg. Pensavam esses índios que as pessoas com deficiências físicas eram possuídas por espíritos malignos, o que levava a tribo a matá-las. Eram também consideradas como verdadeiras ameaças aos deuses que, com sua morte, mantinham-se pacificados e contentes. -- Uitoto -- Segundo costume observado pelos integrantes dessa tribo do alto Amazonas, a sudeste da Colômbia e nas proximidades do Peru, o recém-nascido era sempre submerso num riacho próximo à sua aldeia, por alguns segundos, a pretexto de sua limpeza e também para verificar sua resistência física. Segundo acreditavam, caso a criança não fosse suficientemente saudável e bem constituída, melhor seria morrer naquela hora do que passar uma vida toda de atribulações para si e para sua família, devido à fraqueza ou à deficiência física. No caso específico de ser portadora de alguma deformidade durante seu crescimento, o feiticeiro da tribo declarava abertamente que ela havia sido vítima de algum mau espírito, podendo causar malefícios para toda a aldeia. A esse pretexto ela acabava sendo eliminada. -- Wageo -- Entre esses primitivos habitantes da Nova Guiné, as crianças com deformidades físicas eram enterradas logo após o seu nascimento. No entanto, se a deficiência ocorresse durante a vida, as vítimas eram tratadas com cuidado e mesmo com carinho. -- Xagga - Muito embora os Xagga jamais procurassem se livrar de uma criança ou de um adulto com defeitos físicos ou problemas mentais, conforme vimos anteriormente, tinham atitude diferente face ao nascimento de uma criança defeituosa. A parteira, ou o próprio pai, tinham o direito de tomar uma decisão quanto à vida ou a morte de um bebê nascido com deformidades, no próprio ato do nascimento, se as circunstâncias assim o recomendassem.


Nota-se nessas várias culturas aqui citadas que muitas vezes a não-sobrevivência ocorria mais devido à pressão causada pelas dificuldades na obtenção de alimentos ou mesmo de auto-suficiência e agilidade para cuidar de si mesmo em hora de perigo, quando não devido a questões de utilidade do componente do grupo. Há vários casos de eliminação de velhos ou de deficientes devido à ignorância das causas dos males considerados como misteriosos, ou por medo das divindades vingativas que poderiam estar envolvidas ou mesmo interessadas. No entanto muito raramente a rejeição ou a morte ocorriam devido a atitudes de ostracismo ou de discriminação intencional que, segundo nos parece, são produtos de civilizações mais sofisticadas. -- *A pessoa deficiente como objeto de ridículo* Um exemplo da pessoa deficiente como objeto de ridículo nos é citado por Wolfensberger: Entre os Aztecas da época de Montezuma (1466 a 1520) havia uma espécie de jardim zoológico na capital do Império, Tenochtitlán (hoje México, D.F.), que chegou a impressionar os homens do conquistador Cortés pela sua organização e variedade de animais. O que mais chocou os homens espanhóis, porém, foi o fato de Montezuma ter em instalações separadas homens e mulheres defeituosos, deformados, corcundas, anões, albinos, onde eram apupados, provocados e ridicularizados. Infelizmente em quase todas as culturas que indicamos restavam às pessoas marcadas pela incapacidade ou pela idade apenas duas alternativas: resignação à situação ou a morte. -- *O povo Inca e as trepanações cranianas* Embora não possa absolutamente ser considerada como primitiva, nem de caráter mesolítico ou neolítico, a cultura Inca será aqui inserida como uma nota especial, devido ao inusitado e surpreendente conhecimento que conseguiu acumular e que vale a pena aqui lembrar. O povo Inca habitou regiões do atual Peru desde épocas que certamente datam de 1.000 anos antes de Cristo, com os povos originais que formaram a cultura Paracas. Estudos feitos por diversos especialistas da cultura Inca concluem que, mesmo antes da descoberta da América, esse povo já desenvolvia um incrível padrão de medicina e de cirurgia. Um dos indicativos mais sérios a esse respeito está no enorme acervo de crânios encontrados nos túmulos de várias cidades Incas daquelas épocas, com sinais evidentes de terem sido objeto de trepanação ainda em vida, e muitos deles com sinais de sobrevida, pelo crescimento centrípeto do osso perfurado. Supõe-se que muitos dos povos que praticavam a trepanação -- e seus indícios surgem em todos os quadrantes da Terra -- eram levados a ela por dois tipos básicos de motivos: devido a um problema de perigo de vida causado por um traumatismo craniano, ou uma solidamente arraigada crença de origem misteriosa que indicava como certa a localização de maus espíritos na cabeça do individuo. A crença de que males ou enfermidades eram causados por deuses vingativos ou enfurecidos, ou por maus espíritos, sempre existiu desde épocas pré-históricas, principalmente devido ao fato de os antigos habitantes da Terra desconhecerem as causas dos males. No entanto, quando se analisa os procedimentos e os métodos curativos de alguns povos como é o caso dos Incas verificamos que essa posição não pode ser generalizada. Não há muita lógica nas suposições de que nesse conceito cheio de mistério da origem dos males como castigo, maldição, magia negra, possam ser inseridos os procedimentos de tratamento usados nas intervenções cirúrgicas, nas amputações, nas trepanações, nas correções de defeitos congênitos, por exemplo.


Na cultura Inca nota-se que incisões muito bem feitas denotam um conhecimento quase perfeito do mapeamento do sistema nervoso, pois cirurgias efetuadas do lado esquerdo do crânio destinavam-se a resolver problemas de paralisias do lado oposto do organismo, segundo nos provam especialistas no assunto. Nota-se pelo raciocínio lógico que, apesar de não dominarem o conhecimento das causas de certos males, os curandeiros ou os feiticeiros dominavam para seu próprio uso os procedimentos e as técnicas incipientes de tratamento físico. Usavam, sim, o fetiche, o amuleto, o palavreado misterioso, a fumaça cheirosa, o que não passava, na maioria dos casos, de um certo conforto psicológico para o doente. As trepanações entre os Incas das épocas anteriores ao descobrimento estão ligadas, em grande parte, a males incapacitantes. Dentre eles cumpre destacar os traumatismos cranianos por armas contundentes, os tumores internos e as infecções. Muito embora alguns dos estudiosos que analisam as cirurgias cranianas antigas e genericamente reconhecidas como trepanações, achem tratar-se de simples meios para facilitar a saída de espíritos malignos e prejudiciais que tinham entrado na cabeça da vítima, há cientistas que, ao se debruçar sobre crânios trepanados com muita cautela e muito espírito científico, admitem como causas dessas cirurgias tão sérias quanto perigosas, a dor, o vômito, a vertigem, as dificuldades de deambulação, a afasia, a cegueira, as convulsões e outros males incapacitantes. Sem esses sintomas é muito difícil imaginarmos a ocorrência de uma cirurgia dessas proporções e que demandava -- como ainda hoje demanda -- tantos cuidados na recuperação do doente. -- *As deficiências físicas há mais de 20 séculos na Califórnia* No Museu de Antropologia da Universidade da Califórnia existem ossos descobertos na região de Bodega Head, a 70 quilômetros aproximadamente ao norte de Golden Gate, São Francisco. São esqueletos de 44 indivíduos que fazem parte de um acervo de achados arqueológicos de aproximadamente 2.200 anos. Eles nos trazem dados de um passado surpreendente e muito distante, quanto à forte incidência de certos males que, agravados pela falta de tratamento, levavam a situações de incapacidade naquela região de natureza litorânea. Essas informações preciosas foram levantadas graças aos especialistas em paleopatologia que é, como verificamos anteriormente, o estudo das doenças conforme ocorreram na vida das populações passadas. Num interessante artigo a respeito, James G.Roney Jr. dá-nos informações como estas: -- Dos 44 esqueletos encontrados e analisados, 20 (ou seja, 45% do total) apresentam sinais de condições patológicas parcial ou totalmente incapacitantes para uma vida plena. Quais eram esses males? Artrite, periosteíte, osteomielite, fraturas e anomalia congênita. Todas elas são encontradas nos esqueletos dos indivíduos adultos de mais de 20 anos de idade presumíveis. -- A artrite, segundo Roney, e suas lesões nos esqueletos em pauta atingem não só a área lombar, mas também eventualmente o tórax, a região sacro-ilíaca, os ombros, os joelhos, os dedos das mãos e dos pés e mesmo a área cervical. Vejamos algumas observações a respeito de um dos esqueletos estudados: "Número 7969: Adulto do sexo masculino, 35-39 anos de idade ao morrer, tinha osteoartrite na espinha cervical, toráxica e lombar e nas juntas sacro-ilíaca e nos joelhos"..."Além disso ele tinha periostelite em ambas as tíbias nas superfícies medial e lateral" .."Apresentava duas anomalias congênitas: uma costela bífida e espinha bífida no sacro. Tinha também fraturas solidificadas do quarto e quinto metatarsos direitos". Apesar de tantos problemas -- e com eles tantos e tão fortes sofrimentos -- foi um indivíduo que alcançou uma faixa etária elevada para o grupo em questão.


O mesmo estudo indica que um dos esqueletos apresenta sinais evidentes do mal de Pott, com três costelas em forma de cunha e com a característica formação encurvada da espinha dorsal. Segundo Roney, as fraturas ocorriam basicamente devido a atividades de caça e de pesca, talvez devido a quedas nas rochas escorregadias muito características daquela região de beira-mar da Califórnia. Não nos resta dúvida de que diversos adultos do grupo analisado viveram anos a fio com dores atrozes e limitações de severidade variada. Mas vale a pena ressaltar que muitos dos esqueletos sem qualquer sinal de males incapacitantes eram de indivíduos abaixo de 19 anos (são 11 ao todo) e abaixo de 1 ano (6 ao todo). Talvez esse dado nos indique que os males aqui mencionados fossem conseqüentes a atividades de caça e pesca, básica para a sobrevivência do grupo.


CAPÍTULO SEGUNDO A PESSOA DEFICIENTE DENTRO DAS CULTURAS ANTIGAS Muito embora seja difícil encontrarmos traços de civilização ou de sociedades melhor organizadas em épocas anteriores ao ano 4000 a.C., o homem conseguira já nas várias fases de eras muito remotas e sem memória da chamada Pré-História, trabalhar em criações e descobertas que foram de extremo valor para o estabelecimento de facilidades na vida dos grupos humanos. Dentre essas quase que "invenções" é necessário que destaquemos a utilização e o controle do fogo, as armas de médio e longo alcances, incluindo nelas até as lançadeiras de pedras, a utilização prática da roda, as embarcações, as armadilhas para prender animais selvagens, as roupas para melhor proteção de seu corpo, cestos para transportar e armazenar bens, as cerâmicas utilitárias, e também as residências mais seguras e mais confortáveis. O homem dominou igualmente os primeiros passos na utilização de alguns poucos metais básicos. No entanto, essas adaptações, descobertas e verdadeiras invenções muito criativas ocorriam de um modo geral em pequenos grupos de famílias e nem todas elas eram conhecidas e bem dominadas em todos os grupos espalhados pelas muitas regiões ocupadas pelo homem. Por volta do quarto milênio antes da nossa Era começaram a surgir grupos bem maiores de homens nas regiões da Mesopotâmia, no Egito e também no vale do famoso rio Indo. Esses grupos eram de alguma forma organizados e capazes de rápidos progressos, tanto em sua organização básica quanto no aprimoramento das habilidades manuais. Muito embora a preocupação básica com a sobrevivência levasse todos os grupos ao desenvolvimento de trabalhos relacionados à alimentação, ao abrigo e à defesa dos seus componentes, está fora de dúvida que neles também as artes, os ofícios e o que poderia ser chamado hoje de primeiros ensaios da ciência surgiram aos poucos e se firmaram; muito lentamente tornou-se notória a diferença entre os artífices e aqueles indivíduos mais qualificados por funções consideradas como vitais para o grupo: os que cuidavam das construções, os que entendiam das doenças ou dos ferimentos, os observadores e entendedores dos corpos celestes e todo o seu significado misterioso, os que se dedicavam aos elementos da natureza, à criação das crianças, à troca de bens, aos mistérios do mundo, à ordem, à defesa e também aos seres superiores. Fator de mais rápido e seguro progresso do homem primitivo foi o estabelecimento gradativo de alguns códigos de comunicação e de armazenamento de informações. A invenção da escrita, por exemplo, foi de notável utilidade e deve ter sido contemporânea com a instalação dos primeiros grupos mais civilizados no Egito. E foi por meio da escrita, cada vez melhor elaborada, que o homem conseguiu documentar sua evolução e transmitiu melhor aos demais os segredos que ia desvendando no mundo que o cercava. Tabuinhas assírias e papiros egípcios de aproximadamente 3.000 anos antes da Era Cristã nos dão algumas informações sobre incipientes profissões e sobre normas e regulamentos que o povo devia obedecer. Mas nem tudo estava necessariamente ligado à natureza ou a suas manifestações na vida diuturna do homem. Sua existência era muito sofrida e repleta de problemas que não tinham soluções fáceis. E ainda por cima surgia um elemento que o deixava sempre medroso: o desconhecido. Fenômenos da natureza, males incontroláveis e outros eventos foram levando o homem na direção daquilo que hoje conhecemos genericamente como "magia". Esta foi aos poucos sendo transformada em "religião" e desta foram surgindo pensamentos mais


elaborados, ou seja, o raciocínio filosófico. Este tipo de encadeamento de pensamentos acabou levando à ciência, ou seja, ao método cientifico. Segundo autores diversos, a magia nada mais é do que uma errônea associação de idéias e suas leis não se baseiam em observações muito precisas. Baseiam-se, sim, em observações eventuais e também no desejo existente nas pessoas de concretizar atos ou fatos em geral, que estão fora de seu alcance. A idéia de divindade e de seu significado como origem de tudo foi deixando a magia de lado, embora esta não tenha desaparecido até os dias de hoje. E os deuses -- ou seja, essa mesma divindade transformada em seres de boa ou de má índole -- eram animadores, verdadeiros donos e gestores do céu, das nuvens, dos trovões e raios, da terra, dos ventos, da luz, da chuva, da água, do sol, da lua, do fogo, sendo imaginados de acordo com esses mesmos elementos. Dentre os grupos de homens mais evoluídos e dominadores de maior volume de conhecimentos das Eras Pré-Históricas, os que formaram as incipientes civilizações do Egito e da Mesopotâmia são muito mais antigos do que quaisquer outros de que tenhamos notícia, talvez 5.000 anos que antecederam a Era Cristã. Os primeiros indícios da cultura grega surgiram muito depois, talvez pelo ano 2000 a.C. A cultura romana por sua vez apenas floreceu a partir do século VIII a.C. Por que a humanidade evoluiu mais e com rapidez maior no Egito e na Mesopotâmia? Por uma série de razões bastante concretas, sendo a mais significativa a fertilidade das terras banhadas por rios generosos. A fertilidade do solo na região da Mesopotâmia, por exemplo, era sempre assegurada pela cheia de seus rios, provocada principalmente pelo degelo das neves que cobrem as montanhas de grandes altitudes do interior do Oriente Médio. Havia também o próprio esforço dos povos que ali habitavam, construindo diques, melhor utilizando o fluxo das águas vindas pelos canais naturais de irrigação. Peixes eram de uma fartura sem par, aves das mais variadas espécies habitavam a região e animais ali viviam em grandes manadas. Além disso, a terra era muito fértil, levando o homem a cultivar com facilidade o trigo, a cevada, o arroz e outros cereais e frutas. Lutas começaram a ocorrer pelo domínio de terras férteis e dessas lutas surgiram domínios cada vez maiores e suas conseqüências: escravos, muitas vezes marcados como tal. Os poderosos senhores defendiam-se com homens armados que aos poucos foram se definindo em unidades organizadas e essas em exércitos. A religião floreceu sob a proteção desses donos de imensas glebas, muitas vezes para proteger seus interesses. Da mesma forma sucedeu com o mundo dos comerciantes. E as classes sociais foram aos poucos também sendo definidas: potentados e seus protegidos diretos de um lado, e do outro os lavradores, os que cuidavam de animais, os artífices, os escravos ou subjugados, todos sujeitos a entregar ao senhor (rei, monarca, faraó, emir, imperador, chefe absoluto, não importa o nome) parte de sua produção, ou seja, os tributos. Nessas condições de certa segurança, o comércio -- ou seja, a troca de bens -- começou a florescer, principalmente ao longo dos caminhos ou à beira dos rios navegáveis. Surgiram então os aglomerados de casas ou de abrigos. No caso da Mesopotâmia sabemos que ela se transformou quase que imediatamente num ponto de forte atração para essas trocas vitais de bens e de informações. Cereais eram trocados por prata ou cobre; tecidos eram trocados por marfim; madeira por utensílios usados em casa. Os meios de troca não eram suficientes para a variedade oferecida, o que levou à criação de outros meios de pagamento. Uma das conseqüências desses contatos de


homens vindos de muitas paragens estranhas foi a troca de informações, levando à acumulação de conhecimentos e ao domínio de invenções e de idéias novas, o que beneficiou evidentemente os moradores fixados nos aglomerados ou cidades. Não é difícil deduzir que, ao estudarmos as culturas mais significativas da antigüidade e que mais se relacionaram com a formação de nossa própria cultura, não poderemos deixar de ressaltar as provenientes dos milênios de experiência do Egito e da Mesopotâmia -enfatizando principalmente o povo hebreu -- em muitas de suas fases de desenvolvimento, anteriores ou posteriores a Cristo. Além delas, jamais poderemos nos esquecer do muito que herdamos dos gregos e dos romanos. No ligeiro passar por esses tão distantes tempos vividos na história dos povos que tiveram significado na definição de nossa própria cultura e civilização, procuraremos voltar nossa atenção de um modo todo particular para os problemas decorrentes de deficiências físicas ou mentais, além de muitos males limitadores ou causadores de marginalidade, e o que eles podem ter significado para as pessoas e para as sociedades de então. Algumas referências são esporadicamente encontradas quanto ao problema que esses males representavam e quanto ao tratamento a eles dispensado. Documentos das mais variadas naturezas referem-se a eles sob ângulos variados e por vezes incomuns. Assim, nossas citações e informações deverão limitar-se aos mesmos sem muitos comentários, procurando deixar ao leitor a liberdade de análise dos usos, das leis, das obras de arte, do envolvimento da medicina e de outras ciências, de fatos históricos, de personalidades famosas que conseguimos coletar por esse rápido passar pela história dos egípcios, dos hebreus, dos gregos e dos romanos. 1. Os Egípcios e seus vizinhos A civilização egípcia, conforme comentamos, é das mais antigas da humanidade. Quando falamos de Egito Antigo é bom que frizemos estarmos nos referindo a quase 5.000 anos de evolução anteriores, contemporâneos e posteriores a Cristo; e nele, durante muitos séculos, as classes sociais foram representadas pelos nobres, sacerdotes, guerreiros, escribas, mercadores, artesãos, lavradores e escravos. Estes últimos eram, em geral, povos mantidos em cativeiro ou prisioneiros de guerra. O desenvolvimento da civilização egípcia acha-se fortemente vinculado a fatores geográficos e climáticos favoráveis e relacionados à região onde ela se instalou. Trata-se de uma extensa área -- o vale do rio Nilo --localizada entre o Mediterrâneo, o Mar Vermelho e o deserto de Saara que foi ocupada muito vagarosamente por tribos que viviam da caça, na Era Neolítica. Seus descendentes lá se fixaram, agrupados em famílias que dominaram aos poucos as peculiaridades da região e a natureza por vezes hostil. Diminutos principados, separados uns dos outros, foram as incipientes comunidades espalhando-se devido ao domínio da agricultura, dos instrumentos que facilitavam o trabalho com a terra, das armas para a caça, para o ataque pessoal ou para defesa do grupo. Como na Mesopotâmia, pequenas propriedades começaram também a se agregar em propriedades mais extensas; diminutos reinos independentes, chamados "nomos", sob o domínio absoluto de seu líder, começaram a existir. Com o passar dos séculos, dois grandes reinos surgiram: o do Norte e o do Sul. Por volta do ano 3000 a.C. o reino do Sul conquistou o do Norte, sendo estabelecida uma liderança única de um rei absoluto, um faraó, considerado a própria encarnação do deus Hórus.


Essa civilização apresentava uma organização social e econômica muito própria e com uma sociedade toda hierarquizada, sendo que o faraó - deus entre os vários deuses ficava bem acima da pobre humanidade. Das classes sociais a dos sacerdotes era a mais poderosa, como é fácil de se deduzir, pois era ela que defendia a pretensa divindade do faraó e a sua intocabilidade. Os grandes templos, como os de Amon, chegaram a ter milhares de sacerdotes e terras úteis que chegaram a representar quase um décimo de toda a terra fértil do Egito. Essa situação toda era mantida pelos guerreiros que, evidentemente, tinham uma das melhores posições na sociedade egípcia, com os privilégios decorrentes. Os escribas, por sua vez, eram médios e pequenos servidores. Tinham posição invejada pelas camadas mais baixas da sociedade, mas mantinham-se firmes em sua posição devido à sua imprescindibilidade na sociedade egípcia. As atividades ligadas à produção de bens eram desenvolvidas por artífices e por camponeses, ajudados pelos escravos. A estes cabiam os trabalhos mais pesados para evitar o desgaste rápido dos bois. Coube aos escravos trazidos pelos guerreiros em suas inúmeras campanhas de conquista, a construção de diques, de templos, de palácios, de pirâmides, de monumentos. Além disso, eram também usados para bombeamento de água para os canais de irrigação durante a época das secas muito severas. Os mercadores, por sua vez, negociavam a grande produção armazenada nos anos de fartura, provocando trocas por mercadorias não produzidas no Egito com nações vizinhas e amigas. Muitas atividades artesanais sempre foram desenvolvidas no Egito, em oficinas próprias ou no lar, incluindo nelas a fabricação de diversos tipos de tecidos, especialmente do linho, sandálias de papiro, cerâmicas, jóias e muitos outros produtos. A produção artesanal de maior significado, no entanto, sempre foi a de rolos de papiros. -- *A atenção médica no Egito Antigo* Apesar de não existirem referências muito expressas sobre o assunto, por muitas dinastias da História Egípcia a atenção a pessoas que apresentavam indícios de males graves ou de deficiências físicas e mentais, fossem elas conseqüentes a malformações congênitas, acidentes ou infortúnios das guerras, circunscreveu-se aos membros da nobreza, aos sacerdotes, aos guerreiros e seus familiares. Todos eles podiam ser objeto das atenções dos sacerdotes especializados nos chamados "Livros Sagrados" sobre doenças e suas curas. Quanto ao atendimento médico às camadas menos favorecidas da população, sabe-se, por alguns documentos, que em dias prefixados os doentes eram transportados ao templo, onde sacerdotes mais jovens ou em formação davam seu atendimento gratuito. Era através dessa clínica ambulatorial incipiente que os jovens sacerdotes colocavam em prática os conhecimentos contidos nos livros e aprendiam a prática da arte da medicina - exclusividade sua. E era nessas clínicas para os pobres que também treinavam a arte da cirurgia. Os numerosos e estranhos instrumentos descobertos nos templos pelos egiptologistas deviam pertencer a esses locais de atendimento à pobreza. Para o novo sacerdote o ensino da arte médica podia durar muito tempo, dependendo do interesse e da própria inteligência do aluno. E quando seus mestres julgavam que estava pronto para a iniciação independente, o novo médico-sacerdote jurava solenemente não ensinar a ninguém os segredos dos livros sagrados. Os médicos-sacerdotes que conseguiam chegar ao final desses estudos e da prática requerida neles e passar pelas provas finais eliminatórias contra os quatro elementos (água, terra, fogo e ar), transformavam-se numa


importante personalidade: faziam parte do alto clero, podiam usar a peruca de Osíris e o manto branco dos sábios. Seus serviços eram muito caros. Assim, não é de admirar que muito poucos conseguiam ter um médico para cuidar de seus males. Membros das classes de rendimento médio precisavam contentar-se com alguns charlatões ligados à seita da deusa Sekhmet e que faziam parte de um clero inferior. Esses sacerdotes, em geral, haviam tentado inteirar-se da ciência dos livros sagrados, sem o conseguir, mostrando-se dessa forma indignos e incompetentes. Nesses sacerdotes inferiores, entretanto, predominava uma notória experiência. Como nos casos da China e da Índia, os templos egípcios sempre foram cercados por verdadeiros jardins botânicos, sendo um dos piedosos exercícios dos candidatos a médicossacerdotes, durante sua formação, cuidar das platibandas dos templos, todas elas plantadas com flores ou arbustos de poderes curativos, utilizados tanto pelos detentores da mais alta sabedoria quanto pelos experimentados médicos-sacerdotes da deusa Sekhmet. De um modo geral as camadas mais pobres da população do Egito, tais como os lavradores, os artesãos e os escravos, dispunham de pouquíssimos recursos e ficavam à mercê de improvisadores, de exorcistas ignorantes que vendiam amuletos e feitiços aos trabalhadores e suas famílias. Dependiam também de algumas pessoas que pela vida afora haviam acumulado certos conhecimentos quanto aos efeitos de poções, ungüentos, sangrias e medicamentos naturais. A rica e muito diversificada experiência dos médicos-sacerdotes egípcios, que era sempre acrescida de novidades provenientes de reinos e estados da Mesopotâmia, nunca chegava às camadas mais pobres da população. -- *A medicina egípcia e os males incapacitantes* A medicina só surgiu no Egito no final do Velho Império e, em grande parte, acabou sendo um produto importado da Mesopotâmia. Mas o povo egípcio foi um dos primeiros a se preocupar em fazer, na História do Mundo, um registro de sua medicina, inclusive da medicina cirúrgica. Em papiros recentemente descobertos e decifrados, revela-se que os egípcios chegaram a tentar operações cranianas, operações no rosto e até na coluna vertebral, apesar da medicina daquelas eras ter sido quase que totalmente empírica. Na verdade, o sistema de medicina pré-científica que mais vestígios deixou foi o egípcio. Uma série de princípios mágicos e falsos o informava, além de haver nele inserida uma série de normas de higiene impostas a todos os habitantes. A medicina egípcia pairava entre o místico e o prático. Seus médicos-sacerdotes usavam poções, linimentos, cataplasmas, mel, sal, óleo de cedro, cascas de árvores, óleo de camomila, chifre de veado, excrementos, entre outros produtos, aliados a orações, oferendas, sacrifícios, além de uma indispensável fé nos deuses invocados. Heródoto (484 a 425 a.C.), o chamado "Pai da História", comenta com frases de muito respeito sobre os médicos-sacerdotes de Tebas e de Mênfis, tal a sua competência. A medicina egípcia muito colaborou para garantir ambientes mais limpos e mais sadios nas aglomerações urbanas, pois dela emanavam orientações para quase tudo o que poderia afetar a saúde pública e privada, tais como os enterros, a limpeza das casas, os banhos, a disposição e eliminação dos dejetos humanos e outras mais. Segundo os médicos do Antigo Egito as doenças graves e as deficiências físicas ou os problemas mentais graves eram provocados por maus espíritos, por demônios ou por pecados de vidas anteriores que deviam ser pagos. Dessa maneira não podiam ser debelados a não ser pela intervenção dos deuses, ou pelo poder divino que era passado aos médicossacerdotes que às vezes tinham meios para chegar a esse desiderato. Em sua terapêutica


usavam as preces, os exorcismos, os encantamentos, somados a poções, pomadas, elementos ou também a eventuais cirurgias. Existem alguns papiros que são excelentes referências quanto à arte médica egípcia e quanto à forma como ela cuidava de alguns problemas incapacitantes. E dentre eles cumpre que destaquemos o Papiro de Ebers, o de Edwin Smith e o de Brugsch. -- *Os famosos papiros e os problemas de deficiências* O papiro de Ebers, que hoje é patrimônio da Universidade de Leipzig, tem o comprimento de pouco mais de 20 metros -- talvez o correspondente a 110 páginas -- e foi descoberto no Egito em 1873, na necrópole de Tebas, pelo egiptólogo Ebers, que imediatamente o traduziu. É provavelmente o mais considerável de todos os documentos escritos sobre a medicina egípcia. Contém numerosos pequenos tratados que remontam a quinze séculos antes de Cristo, com fórmulas para tratar doenças as mais variadas, incluindo algumas que podem levar ao estabelecimento de uma deficiência física ou sensorial, como males dos olhos, problemas de ouvido, dos membros, dos vasos, da cabeça. Além disso, inclui tópicos importantes sobre ferimentos, queimaduras, fraturas e outros. Há receitas contra a conjuntivite, hemorragias do globo ocular e esquimoses perioculares. Há indicações de operação de catarata. Nenhuma outra cirurgia, entretanto, é nele indicada. Nesse famoso papiro de Ebers existe um tratado chamado de "Livro de Uchedu" no qual há trechos que falam com clareza a respeito da surdez. O papiro de Brugsch, propriedade do Museu do Estado (Berlim), foi descoberto nas proximidades de Zaqqarah. Data do século XVI a.C. e nele existem 204 prescrições de remédios. Ali, dentre as muitas receitas, o leitor encontrará algumas contra dores nos olhos e também contra a surdez. Uma delas é pomada para uso local, cuja fórmula é a seguinte: Planta "ank" - 1 Bálsamo - 1 Planta "ma" - 1 "Plast" - 1 Gordura animal Dos três papiros relacionados à arte médica no Egito o mais importante é o de Edwin Smith, que fala sobre cirurgia no Antigo Egito, em especial da cirurgia dos ossos, em casos de sérios problemas ortopédicos. Os casos e exemplos são citados sistematicamente nesta ordem: queixa, exame, diagnóstico e veredicto. Esse papiro, incompleto como foi achado, pertence à Sociedade Histórica de New York e tem apenas quatro metros e 68 centímetros de comprimento. Foi adquirido em Luxor, no ano de 1862, pelo próprio Edwin Smith. Segundo seus analistas, foi copiado há 3.600 anos atrás, embora contenha matéria já conhecida no Egito há mais de 4.000 anos. Seu autor parece ter sido um hábil cirurgião, além de um perfeito observador. Supõe-se que o tratado original lidava com a cirurgia de todo o corpo, mas o fragmento encontrado analisa apenas cirurgias da cabeça, do pescoço e do peito. O autor menciona fraturas tratadas com talas, fala sobre redução de deslocamentos da bacia e sobre sutura de ferimentos. Acham alguns autores que o papiro de Edwin Smith foi escrito pelo médico Imhotep, que séculos após sua morte foi transformado no padroeiro egípcio da arte de curar, e mesmo no deus da medicina. -- *As deficiências físicas no Antigo Egito* Se de um lado os ossos pré-históricos nos dão certeza da existência de males incapacitantes nos muitos milênios de vida do homem primitivo, conforme vimos antes, de


outro, os remanescentes das múmias, os papiros e a arte dos egípcios apresentam-nos indícios muito seguros não só da antigüidade de alguns males, como também da maneira como alguns ferimentos eram cuidados e das várias formas adotadas para o tratamento das doenças. A paleopatologia tem tido um campo muito fértil nas terras do Egito, onde mais do que em qualquer outra parte do mundo, as técnicas de embalsamamento conseguiram sucesso na conservação dos corpos. Tem sido exatamente nesses corpos embalsamados que os cientistas têm podido reconhecer ferimentos graves, processos degenerativos, fraturas e várias outras lesões que fornecem abundante material sobre a medicina egípcia. Segundo muitos autores, provavelmente o povo egípcio foi o mais saudável da antigüidade, devido à sua dieta vegetariana e também à amplidão de seus muitos dias ensolarados. No entanto, o exame patológico de algumas múmias tem comprovado que várias doenças graves chegaram a atingir duramente o povo egípcio e uma delas era uma infecção dos olhos que muitas vezes levava à cegueira. O Egito chegou a ser conhecido por muito tempo como a "Terra dos Cegos", tal foi a extensão e a gravidade desse problema . -- *Os males que levavam a deficiências físicas* Dentre as lesões descobertas através dos exames feitos em múmias ou em esqueletos do Egito Antigo, cumpre que destaquemos aquelas que provocam em suas vítimas lesões mais limitadoras, levando o homem a tornar-se temporária ou permanentemente limitado em suas atividades: --artrite crônica --espondilite deformante --Mal de Pott --pé varo eqüino --hidrocefalia -- gota --osteosarcoma --fratura --amputação Convém ressaltar que em boa porcentagem do vasto material estudado pelos paleopatologistas, as lesões em esqueletos revelam de um modo todo especial a presença da artrite crônica, com forte incidência na coluna lombar. Sir Armand Ruffer, uma reconhecida autoridade no assunto, analisou múmias nos museus de Alexandria e do Cairo e notou diversas lesões sérias em algumas delas. Ao escrever a respeito de suas conclusões afirmou: "As lesões que descrevemos não poderiam ter sido produzidas em povo não-civilizado, pois os doentes morreriam de inanição antes que as mesmas chegassem ao ponto que chegaram e sua existência é a melhor prova do alto grau de civilização atingida pelos antigos egípcios" (Apud Riad). -- *Casos concretos de lesões incapacitantes* Vejamos alguns exemplos de lesões provocadoras de deficiências físicas que chegaram até nossos dias devido à existência das mesmas em múmias, esqueletos ou obras de arte de naturezas várias: - No ano de 1910 vários cientistas estudavam e descreviam a múmia de um sacerdote do deus Amon, da XXI Dinastia (aproximadamente século X e XI a.C.). O corpo apresenta indícios claros de ter sido vítima do Mal de Pott, com um forte deslocamento da coluna


vertebral. Registre-se que vários outros casos do mesmo mal foram igualmente identificados, dentre os quais salientamos alguns registrados na arte egípcia, como segue: Múmia de um nobre (XII Dinastia - aproximadamente século XIX a.C.), localizada num belíssimo túmulo de Beni-Hassan, com lesões que indicam o atingimento das regiões cervical inferior e dorsal superior; em outro túmulo (XVIII Dinastia--aproximadamente século XIV a.C.), existente em Tel-el-Amarna, podemos observar uma pintura mural na qual há um nobre com lesões nas regiões dorsal superior e lombar; num túmulo existente em Tebas (XIX Dinastia-aproximadamente século XIII a.C.) podemos admirar uma pintura que representa um jardineiro com evidentes sinais do Mal de Pott levando água a um elevador do liquido. - Em Beni-Hassan podemos também admirar a estátua de um anão com as pernas defeituosas, com forte arqueamento. - Casos de pés tortos ou caídos existem diversos. Dois deles são de anões mumificados que se encontram em Beni-Hassan. Existem também figuras de anões com os dois pés tortos (varos eqüinos) em outro túmulo de Tel-el-Amarna. Há no Museu do Cairo a famosa múmia do faraó Siptah (XIX Dinastia, ou seja, século XIII a.C.), com o pé esquerdo visivelmente deformado. - Uma estátua da XI Dinastia (por volta do século XXI a.C.) deixa muito claro o problema de elefantíase nas pernas do faraó Mentuhotep. -- *A incidência de fraturas e outros problemas* Quanto à incidência de fraturas, existe um estudo de aproximadamente 6.000 esqueletos de todas as idades e de todos os períodos da História do Egito Antigo. Segundo os resultados apurados, um em cada 32 indicam a existência de fratura solidificada corretamente. A mais comum delas é a fratura do ante-braço (31% dos casos estudados), certamente devido a atividades desportivas ou conseqüentes a acidentes das mais variadas ordens. Fraturas da clavícula e mesmo do fêmur chegam a mais de 10% dos casos (Apud Salib, Dastugue e Wells). Muito embora a cirurgia egípcia não tenha podido se voltar para casos de malformações congênitas, há autores que afirmam que a fissura lábio-palatal chegou a ser atendida. Um indício desse atendimento é encontradiço numa das muitas múmias examinadas, que tem uma prótese rudimentar ligada aos molares por fios de ouro. -- *Os anões na vida e na arte egípcias* Na cultura egípcia antiga os anões jamais foram olhados como seres marginalizados ou desgraçados, inferiores aos outros homens. Os de classes mais elevadas podiam aspirar a qualquer cargo que fosse; os provenientes de classes mais pobres eram por vezes adquiridos por grandes somas por faraós ou ricos senhores. Os anões da raça Dang, por exemplo, eram os mais procurados por serem excelentes dançarinos. Há textos hieroglíficos que a eles fazem menção: ..."ele dançará como um anão diante de Osíris" (Apud Riad). Afrescos existentes nas paredes e outros recantos dos túmulos por vezes magníficos e algumas estatuetas sugerem-nos que havia um elevado número de anões no Egito. Eles são em geral representados com fidelidade: corpos musculosos, um pouco gordos, membros curtos, cabeças grandes, pernas por vezes arqueadas e muitas vezes corcundas. Em algumas obras de arte os anões aparecem aos pés de seus mestrês ou cuidam de animais favoritos. Aparecem levando um cão para passear, caçando pássaros, ou segurando um macaco preso; outras vezes são representados fazendo trabalhos de ourivesaria ou de joalheria.


Um dos deuses do imenso panteão egípcio é representado como um anão disforme de pernas arqueadas e aparência feroz. Trata-se de Bés, deus dos combates, dos jogos e das danças. Servia de amuleto contra todos os males devido à sua feiúra. Segundo alguns autores, Bés personificava os sentimentos que os homens deficientes suscitavam, mas basicamente como gênios bons. Existe no Museu do Cairo um sarcófago da época Saita (1150 a 336 a.C.) com a famosa múmia de Talchos, representado na tampa como um anão que realmente era em vida. A inscrição cita sua piedade, pois dançava magnificamente em festas religiosas. -- *Uma estela votiva dedicada à deusa Astarte da Síria por um porteiro* Uma placa de calcáreo com ilustrações e palavras em símbolos hieroglíficos e hoje em dia muito famosa entre os ortopedistas e profissionais de reabilitação. Ela retrata um momento muito significativo na vida de um homem portador de deficiência física que viveu no Egito aproximadamente 1.300 anos antes da Era Cristã e que tinha uma profissão de alta responsabilidade no mundo egípcio de então: era porteiro, e seu nome era Roma. Devido à multiplicidade de versões quanto ao significado da cena ali retratada, nada melhor do que o próprio museu onde a peça se encontra para estabelecer com clareza o seu sentido. Segundo a Ny Carlsberg Glyptotek, de Copenhague (Dinamarca), que é a proprietária da citada obra de arte, estes são os dados principais a seu respeito: -- Trata-se de uma estela votiva classificada como AAEIN 134, da XIX Dinastia e originária de Mênfis. Tendo sua parte superior côncava, ela mede 0,27 cm de altura por 0,18 cm de largura e sua coloração natural está parcialmente conservada. -- Ao alto da estela está inscrita sua dedicatória com hieróglifos coloridos de azul: "À Deusa Astarte". E no campo principal, logo abaixo, vemos o "porteiro Roma", sua esposa "Amaô" e seu filho "Ptahemheb". O grupo leva oferendas à famosa e muito conceituada deusa originária da Síria. Roma aproxima-se de uma pequena mesa coberta de alimentos e de flores que ele molha com água benta,apresentando um pão num vaso de pé alto. Com uma postura muito digna, expressa seu pedido à deusa nestes termos: "Receba estes bens para a tua alma". -- A esposa leva um recipiente com alguma fruta (ao que parece são bananas) e conduz um antílope seguro pelos chifres. O porteiro Roma, de cabeça zelosamente raspada, como era costumeiro, veste uma túnica pregueada, curta e parcialmente transparente. Sua perna esquerda apresenta anomalia de musculatura e o pé está atrofiado ("pés eqüinus"), talvez devido a paralisia infantil, segundo alguns médicos contemporâneos. Não pode andar com firmeza sem seu bastão de apoio que durante a pequena cerimônia permanece preso a seu corpo por meio de seu braço esquerdo. Abaixo da cena, num campo separado, temos a prece básica e motivo da própria estela, em caracteres negros semi-destruídos: "Que o rei esteja de acordo e conceda, para que Astarte Síria, a soberana do céu, a senhora das duas terras, a primeira entre os deuses, também esteja favorável e conceda.....boa...alegria e felicidade e um bonito enterro no deserto ocidental de Mênfis à alma do porteiro Roma" (Apud KoefoedPetersen). -- *As especialidades médicas e o problema das deficiências no Egito* Segundo Heródoto, a medicina egípcia era muito sábia. Já naquelas remotas eras havia especialidades, pois havia médicos para males da cabeça, para problemas com dentes, para dores no ventre e regiões vizinhas e para males internos. Havia também médicos para problemas de ossos. Praticamente todos eles aprendiam e exercitavam a arte da cirurgia.


Apesar de suas falhas e de seu empirismo todo, a medicina egípcia era famosa e a mais conhecida por séculos em todo o mundo civilizado de então. Homero fez referências a seus médicos e tanto Ciro quanto Dario tinham médicos egípcios. Ciro, por exemplo, mandou buscar o melhor especialista em problemas da visão com o Faraó de nome Ahmasis (560 a.C.), como veremos mais adiante. No entanto, pouco nos é relatado quanto a problemas relacionados a males deformantes, amputações e paralisias. Todo estudioso da História Egípcia já ouviu falar em "Livros Herméticos". São obras muito importantes relacionadas à arte médica e atribuídas ao deus Toth, ou seja, a Hermes Trismegisto, usualmente representado por um homem com a cabeça de Ibis, e considerado o patrono da medicina. Dentre os famosos "Livros Herméticos" há um conhecido como "Livro dos Cyranidos", que contém 24 capítulos e apresenta um manancial muito importante de conhecimentos. Procura voltar às tradições de Zoroastro, citando para cada um dos capítulos uma planta, uma pedra, um pássaro e um peixe que reúnem suas virtudes para combater os males neles discutidos. Quanto a problemas que levam a deficiências são citadas as seguintes pedras com propriedades terapêuticas: o berilo alivia ataques de epilepsia e também a nefrite; o âmbar e a esmeralda são poderosos e muito eficientes nos males da visão. Apesar de diminuir em importância com o surgimento da medicina grega no cenário mundial, durante séculos a medicina greco-romana socorreu-se da medicina egípcia; médicos como Galeno e Dioscórides, por exemplo, mencionavam medicamentos e métodos de tratamento egípcios e faziam prescrição de remédios usados no Egito, graças a conhecimentos adquiridos nos templos de Ptah ou de Imhotep, em Mênfis. -- *Conceito da medicina egípcia na Odisséia, de Homero* Os egípcios não gozaram apenas de merecida fama de sábios e eruditos, conforme bem o demonstraram viagens de alguns dos maiores sábios da antigüidade, dentre os quais estão Heródoto, Thales de Mileto, Pitágoras, Demócrito, Platão e Eudóxio. Por vários séculos desfrutaram também da fama de constituírem um povo que possuía os melhores médicos do mundo. Homero faz menção expressa a isso na Odisséia, escrita cinco séculos antes do nascimento de Cristo. Diz o seguinte em seu Canto IV: "Neste momento, Helena, filha de Zeus, concebeu novo plano. No vinho da cratera donde bebiam, lançou de súbito uma droga, um calmante da dor e do ressentimento, que fazia esquecer todos os males. Bastaria que alguém a tragasse para que em todo o dia as lágrimas lhe não corressem pelas faces, nem mesmo que morressem sua mãe e seu pai em sua presença, nem diante dos olhos seu irmão e filhos fossem mortos pelo bronze, tais as drogas engenhosas e salutares que a filha de Zeus recebera em dádiva de Polihamna, mulher de Ton, nascida no Egito, país onde a terra, fértil em trigo, produz também símplices em abundância, com os quais se preparam misturas, umas benéficas, outras nocivas. Todos ali são médicos, os mais hábeis do mundo, porque todos descendem do sangue de Péon" ("Odisséia", de Homero). Segundo a mitologia egípcia Péon era considerado como o próprio médico dos deuses. -- *Anísis, faraó cego da IV Dinastia: século XXV a.C.* Heródoto fala-nos de um faraó cego, sem citá-lo como lendário. Trata-se de Anísis, que viveu muitas atribulações como rei dos egípcios em época localizada aproximadamente 2.500 anos antes da Era Cristã. Em breves palavras o Pai da História informa que durante seu reinado o Egito foi invadido pelos etíopes--vizinhos do sul - não restando ao faraó outra alternativa a não ser a fuga.


O então jovem rei fugiu através dos pântanos e ali viveu refugiado durante a longa ocupação inimiga por nada menos do que 50 anos. Heródoto acrescenta que "assim que Sábados" - o rei dos invasores - "deixou o Egito, Anísis (o cego) saiu da região pantanosa onde se refugiara e retomou as rédeas do governo. Tinha permanecido 50 anos numa ilha por ele próprio formada com cinza e terra, pois quando os egípcios lhe iam levar víveres, cada um de acordo com as suas posses, ele lhes pedia um pouco de cinza, que ia acumulando em mistura com a terra" ("História", de Heródoto). -- *A deficiência visual na mitologia egípcia* O mesmo historiador refere-se a mais dois faraós que ficaram cegos, mas seus nomes são um tanto lendários. O primeiro deles é Sesóstris, que dividiu o Egito em 36 "nomos" e conquistou pelas armas todo o mundo conhecido. De volta ao Egito com uma multidão de cativos, foi bastante exaltado, fez construir muitos monumentos e mandou executar muitas obras de utilidade pública. Ficou cego em sua velhice e acabou suicidando-se. Seu sucessor foi Phéron, que ficou cego logo após assumir o poder. A narrativa de Heródoto leva nos a analisar fatos bastante fantasiosos: "Conta-se que tendo o Nilo transbordado dezoito côvados nessa ocasião" - correspondem a mais de onze metros acima de seu leito original - "submergindo todos os campos vizinhos, começou a soprar um vento impetuoso, agitando as vagas com violência. Phéron, numa louca temeridade, tomou de um dardo e lançou-o no meio do turbilhão das águas. Pouco depois seus olhos eram acometidos de um mal súbito e ele ficava cego. Permaneceu dez anos nesse estado" ("História", de Heródoto). No décimo primeiro ano, já muito arrependido, obteve do deus Nilo a promessa de recuperar a visão, desde que lavasse os olhos com a urina de uma mulher que nunca tivesse tido contato com outro homem senão com o seu próprio marido. A experiência com a urina de sua própria esposa não deu resultados. O infeliz faraó continuou a fazer tentativas, até que um dia recuperou a visão. Agradeceu ao deus Nilo com oferendas e tomou uma providência adicional: reuniu todas as mulheres infiéis aos seus maridos - inclusive a sua - numa cidade abandonada e mandou incendiá-la, matando a todas elas. Logo em seguida casou-se com a mulher que lhe devolvera a visão. -- *Um coral de homens cegos para Amenhotep IV* Na XVIII Dinastia de faraós egípcios, ou seja, no século XIV a.C., Amenhotep IV destacou-se pelas suas fortes e persistentes tentativas de introduzir no Egito o culto a um deus único. Durante os 18 anos de seu reinado combateu duramente toda a plêiade de deuses e deusas, incluindo o mais forte de todos eles: Amon. O novo deus era representado pelo sol e seu nome era Aton. Em sua homenagem Amenhotep IV alterou seu próprio nome para Akhenaton (ou Ikhnaton), nome que significa "aquele que torna Aton feliz" ou algo semelhante. Fez mais, mudando a sede imperial de Tebas para uma nova cidade planejada para homenagear Aton: Akhetaton (hojeTel-elAmarna). Foi casado com Nefertiti, tendo o casal gerado seis filhas, ou seja, nenhum herdeiro do sexo masculino, o que, segundo Neubert, talvez explique o rosto triste da rainha em contraste com sua beleza pura, retratado numa famosa estatueta de 34 cm de altura, que todos conhecem. Foi considerado um idealista, um pacifista, um revolucionário. O clero voltado ao deus Amon considerava-o evidentemente um herético. Akhenaton era um homem doentio e sofria muito com ataques epiléticos, então considerados como evidentes sinais de contatos com o seu deus. Vários historiadores


dedicaram-se a esse estranho faraó monoteísta. Contam alguns deles que em sua nova capital ele cultuava esse seu deus único não só em público, mas também particularmente e em especial quando sentia a iminência da "aproximação de Aton", nos ataques de epilepsia. E, para não haver testemunhas oculares de suas crises quando em palácio, só admitia cantores cegos no coral masculino do templo do palácio. Esse coral de homens cegos cantava em tons severos a exaltação a Aton, em um hino que passou para a posteridade e do qual destacamos o seguinte belo trecho: "Quão vastos são os vossos trabalhos! Eles estão escondidos em nossa frente, O deus único, cujos poderes nenhum outro possui! Criastes a terra de acordo com o vosso coração" (Apud Encyclopaedia Britannica). Akhenaton, o primeiro rei monoteísta e o que mais se destacou no Egito em termos de idéias religiosas, viveu duzentos anos depois de Moisés ter deixado o Egito com seu povo também monoteísta... Haveria alguma ligação entre uma idéia e outra? O tema da vida de Akhenaton foi bem explorado por Mika Waltari, escritor finlandês, no romance "Sinuhe, o Egípcio", depois transformado em magnífico filme, com o título de "O Egípcio". -- *As penas mutiladoras no Egito Antigo* Durante os muitos séculos de sua interessante história os egípcios conheceram as seguintes penalidades por crimes: - a morte - os trabalhos forçados - a mutilação (das duas mãos, das partes genitais, do nariz, da língua ou das orelhas) - a servidão - o flagelo - o jejum forçado - a infâmia - o confisco de bens - a multa Eram penas freqüentemente aplicadas e não há indícios confiáveis de que os faraós se voltassem de um modo especial para sua amenização. Em geral a mutilação atingia os membros ou a parte do corpo com os quais o condenado havia cometido seu crime. Diodoro de Sicília, historiador grego radicado em Roma, contemporâneo tanto de Augusto quanto de Caio Júlio César, afirma que cada um "pela punição da parte do corpo com a qual o crime havia sido cometido, portava até a morte uma indelével marca que, pela divulgação desse castigo, devia impedir outros de agir contra a lei" (Apud Thonissen). Era costumeiro no Egito Antigo mandar-se cortar o nariz da mulher adúltera, enquanto que seu cúmplice recebia mil golpes de vara. Cortava-se também a língua do espião delator, especialmente quando revelava segredos de Estado. O conquistador etíope Actisanos, por exemplo, era um rei considerado "bondoso", segundo Diodoro de Sicília. Essa bondade transparecia principalmente durante anos de fartura e prosperidade. No entanto, mostrava-se muito severo para com os assaltantes, os criminosos em geral e os bandidos que punham a população sob contínuo terror. O famoso historiador grego afirma que "ele não condenava os culpados à morte, mas não os deixava sem punição. Reunindo todos os condenados do reino, tomou conhecimento preciso de seus


crimes; fez então cortar o nariz dos culpados, mandando-os para os confins do deserto e fixando-os numa cidade que, para lembrar essa mutilação, tomou o nome de Rhinocolura (de "rhinos" = nariz e "koluros" = cortado)" (Apud Thonissen). A cidade de Rhinocolura ficava próximo ao ponto em que hoje se localiza El-Arish, no Sinai, nas costas do Mediterrâneo. -- *Médico egípcio especializado em males da visão na corte de reis persas* Conforme referimos anteriormente o rei Ciro, o Grande (reinou de 558 a 529 a.C), garantiu a presença contínua de médicos egípcios em sua corte. E devido a graves problemas com doenças dos olhos que levavam muitos de seus súditos à cegueira - sem muita diferença do Egito - Ciro solicitou também ao faraó Ahmasis que lhe enviasse o seu melhor especialista. O faraó atendeu imediatamente e o médico especializado em problemas da visão atuou na Pérsia durante vários anos, combatendo a alta incidência de casos que corriam riscos sérios de ficar cegos. À morte do grande fundador do Império Persa, esse médico egípcio, que jamais conseguira perdoar seu faraó por tê-lo mandado à Pérsia, onde ficara longe de sua esposa e filhos e de seu próprio ambiente, começou a trabalhar o jovem rei Cambises (reinou de 529 a 522), filho e sucessor de Ciro, para poder vingar-se de Ahmasis e eventualmente voltar ao Egito. Chamou sua atenção para a beleza da mulher egípcia e convenceu-o a pedir a filha do faraó para casar-se com ela. O faraó, sabedor das intenções de Cambises e achando inaceitável mandar sua filha para viver, como concubina do novo monarca, enviou em seu lugar a filha de Apries, faraó por ele destronado. A linda jovem Nitétis chegou a Cambises com vestidos caríssimos e cheia de jóias. Mas logo Cambises ficou sabendo do engano, pois, conforme relata o historiador Heródoto, "algum tempo depois, como Cambises a saudasse pelo nome do pai, ela replicou: Ahmasis, senhor, vos enganou. Enviou-me ele a vós com estas ricas indumentárias em lugar de sua filha. Meu pai chamava-se Apries, por ele destronado e morto pelos egípcios que se sublevaram sob seu comando" ("História", de Heródoto). Cambises ficou enfurecido e pouco depois invadiu o Egito (em 525 a.C.) como desforra pela deslealdade de que se sentira vítima. Deixou governando a Pérsia seu irmão mais novo, Smérdis. Ao vencer Ahmasis e tomar posse de todo o Egito, no qual permaneceria até sua morte, encerrou a XXVI Dinastia e introduziu os faraós da XXVII Dinastia. -- *Gaumata, um famoso mago de orelhas amputadas* O mesmo Cambises, logo ao início de seu reinado de sete anos, mandara um dia amputar as orelhas de um mago de sua corte devido a faltas muito graves. O castigo era inusitado para os magos, pois eles eram membros importantes da casta sacerdotal persa. Apesar da forte marca pelo resto de seus dias, o mago castigado, cujo nome era Gaumata, disfarçou muito bem sua deficiência infamante, pois a circunstância de ser bastante parecido com Smérdis, irmão de Cambises, acabou levando-o a usurpar o trono persa. Como sucedeu o logro? Heródoto conta-nos que durante a ausência da Pérsia em campanha no Egito, Cambises aos poucos começou a desconfiar seriamente de Smérdis, seu irmão, que havia deixado como ocupante provisório do mais alto mandato para governar a região em sua ausência prolongada. Sob um forte esquema sigiloso mandou seus oficiais de confiança matar seu irmão, o que foi feito sem qualquer comoção junto às tropas persas ou junto à nobreza, pois na verdade ninguém ficou sabendo do hediondo crime. No entanto, o esperto Gaumata soube do evento e apareceu em cerimônia da corte como o próprio Smérdis, sem qualquer surpresa, tal sua parecença com o rei assassinado.


Houve tentativas frustradas para desmascarar a fraude levada a efeito por um homem que poderia estar marginalizado devido às suas orelhas cortadas. Sete líderes das melhores e mais fortes famílias persas decidiram cautelosamente esclarecer o assunto e na tentativa final participou uma jovem de nome Fédima, uma das concubinas do falso rei da Pérsia. Ela pertencia a uma das sete famílias interessadas e, instigada pelo pai, verificou no meio da noite, enquanto o falso rei dormia, que se tratava de Gaumata (ela viu que suas orelhas eram realmente amputadas) que continuamente disfarçava o problema com os cabelos longos usados então. E foi exatamente nesse ponto importante da História Persa que surgiu a vivaz figura de Dario, jovem e audacioso nobre persa que até então fizera parte da guarda pessoal de Cambises, que assumiu rapidamente a liderança do grupo dos sete líderes que sempre havia desejado livrar o Império daquele impostor. Smérdis (na verdade, Gaumata, o mago de orelhas amputadas) foi morto pelo próprio Dario, tendo conseguido permanecer por sete meses no trono como soberano persa. O evento foi imortalizado num famoso e estranho monumento nas montanhas de Behistun, a oeste do Iran, gravado em pedra a mais de 100 metros de altura, com dizeres em três línguas diferentes e em caracteres cuneiformes. Nesse alto-relevo, concluído em 516 a.C., aparece Dario pisando o prostrado Gaumata, tendo à sua frente mais oito reis por ele vencidos. Dentre eles cumpre que chamemos a atenção para o último da fila, de chapéu ponteagudo à cabeça, ou seja, o rei Phaortes II que foi duramente castigado por sua resistência às forças de Dario: teve seu nariz, suas orelhas e sua língua amputados e seus olhos vazados. Em conseqüência do desmascaramento do falso monarca Smérdis, ocorreu uma verdadeira chacina geral dos magos na cidade de Persópolis. Foi então instituída a grande festividade persa que foi comemorada por muitos séculos, conhecida pelo nome de "magofonia" (de "magos" = mago e "phonia" = matança). Subiu ao trono o jovem Dario I (reinou de 521 a 485 a.C.) graças a um truque denotador de sua criatividade e vivacidade, e que devido a um acidente logo ao início de seu reinado quase foi vítima de uma bastante séria limitação física, da qual se livrou graças a um médico grego, conforme veremos mais adiante ao nos referirmos à expansão da medicina grega e seus famosos médicos. -- *Zópiro; tudo pela vitória de Dario I em Babilônia* Dentre os sete magnatas persas que colaboraram para a eliminação de Gaumata, o mago de orelhas cortadas de que falamos acima, Zópiro foi o que mais se sobressaiu, tendo marcado sua existência por uma extremada amizade por Dario I. Embora fosse sátrapa (governador) de uma das províncias persas, colaborou forte e decisivamente na feroz batalha pela tomada da sempre cobiçada Babilônia, capital do Império Assírio, cujo imperador era Nabucodonosor III. Na verdade, Zópiro viabilizou diretamente a queda de Babilônia por meio de um truque único na História do mundo: Fez com que seus servos o chicoteassem até o sangramento e logo em seguida amputassem seu nariz e suas orelhas. Nesse lamentável estado apresentou-se às forças assírias e culpou Dario I por aquele "castigo". Eles acreditaram e o aceitaram em seu meio. Mais do que isso, face ao ódio que Zópiro demonstrava contra Dario, e considerando sua experiência militar, agregaram-no logo ao próprio sistema de defesa das muralhas, encarregando-o da guarda de dois portões que davam acesso à maravilhosa cidade. Nessa privilegiada condição de comandante, ele próprio abriu o acesso às forças de Dario que conquistaram Babilônia em 519 a.C. E em reconhecimento pelo seu feito heróico e de


lealdade fora do comum, Dario I deu-lhe o governo de Babilônia, concessão essa garantida a seus descendentes. Luís de Camões faz menção ao feito heróico de Zópiro com os seguintes versos: ... "Que mais o Persa fez naquela empresa Onde rostos e narizes se cortava? Do que ao grande Dario tanto pesa Que, mil vezes dizendo, suspirava Que mais o seu Zópiro são prezara Que vinte Babilônias que tomara" ("Os Lusiadas", de Camões). -- *A Escola de Anatomia da cidade de Alexandria: século IV a.C.* Ainda durante a vida de Aristóteles, o grande sábio ateniense, Alexandre, o Grande, praticamente conquistou o mundo ocidental conhecido em sua época e fundou cidades cujos habitantes falavam grego e adotavam costumes gregos. No ano de 332 a.C. fundou no delta do rio Nilo a cidade de Alexandria, que foi por muitos anos o maior centro de cultura do mundo. Alexandria era uma cidade moderna, com suas ruas em forma de xadrez de linhas paralelas, canais subterrâneos para dejetos humanos e para água servida em cada uma delas; duas avenidas principais com mais de 60 metros de largura e o Grande Farol -- uma das sete maravilhas do mundo -- eram algumas das características marcantes da famosa cidade. O sucessor de Alexandre, Ptolomeu Soter, reinou no Egito de 323 até 285 a.C. e foi um grande protetor e promotor da sabedoria e da cultura. Sob seu reinado foi criada a mundialmente famosa Escola de Alexandria. E dentre suas diversas unidades destacou-se desde logo a Escola de Anatomia, inserida na Academia de Ciências. A medicina egípcia -- que procurava dar cobertura a males que afetavam duramente o povo e as classes privilegiadas, inclusive a problemas de ossos e dos olhos, que levavam a muitas deficiências físicas e sensoriais -- fez rápidos progressos científicos após a instalação da Escola de Anatomia. E nela, dois nomes destacaram-se face à importância de seus estudos para melhor compreensão dos males incapacitantes; Herophilus de Chaludônia e Erasistratus de Kéos. - Herophilus foi um anatomista que viveu no século IV a.C. e um dos fundadores da Escola de Anatomia. Um dos primeiros médicos a desenvolverem exames post-mortem, pôde estudar em muitos pormenores o globo ocular e os males que levavam à cegueira, como a catarata. Dentre seus diversos estudos ressalta-se aquele que demonstra o valor curativo da ginástica e dos exercícios físicos. Ele é considerado como o "Pai da Anatomia". - Erasistratus de Kéos, igualmente do século IV a.C. foi também um renomado anatomista e fisiologista, co-fundador da Escola de Anatomia, ao lado de Herophilus. Seus estudos levaram-no a sugerir que o excesso de sangue no corpo (chamava de "pletora") era a causa de muitos males, inclusive de um mal considerado como sagrado, que era a epilepsia. Sua terapêutica preferida era também o exercício físico. É considerado como o "Pai da Fisiologia". -- *Os egípcios sob os olhos críticos de um imperador romano* Adriano (Publius Aelius Hadrianus -- 76 a 138 d.C.) foi imperador de 117 até o ano de sua morte. Durante sua gestão o Império Romano viveu anos de grande desenvolvimento. O imperador viajou durante vários anos por quase todos os quadrantes do vasto Império e no ano 130/131 esteve no Egito não só como imperador mas também como estudioso dos usos e costumes do Egito. E, em uma carta escrita a seu cunhado Serviano, Adriano afirma:


"Tenho estudado bem os egípcios de que me falaste"... "A sua cidade é de tudo abundante, e pessoa alguma está ali ociosa, nem mesmo os cegos. Um sopra o vidro; outro faz papel, aqueles tecem; todos se ocupam em algum mister" ("História Universal", de Cantu). 2. Os Hebreus Analisar os usos e costumes de um povo multimilenar sem conhecer um pouco de sua história é tarefa inviável. No caso dos hebreus, por exemplo, esse conhecimento torna-se muito importante para nós, face às estreitas ligações que com eles temos mantido através dos séculos. Dentre elas, a mais significativa é o monoteísmo. O povo hebreu adotou-o em meio a uma tendência generalizada ao politeísmo, muito típico das culturas mais antigas. Existem autores que chegam a fazer uma relação entre sua adoção pelos hebreus e as tentativas do já citado faraó egípcio Ikhnaton, que pregava a existência de um deus único a seus adeptos de Akhetaton, aspirantes ao sacerdócio. No entanto, o monoteísmo hebreu vem de épocas bem anteriores à própria migração das várias tribos ao Egito, ou seja, desde o patriarca Abraão. O culto ao Deus Único e Verdadeiro dos hebreus foi estruturado por Moisés e a própria elaboração do decálogo leva à sua sustentação. Foi esse mesmo Deus Único (Javé) que se transformou no mais forte elo de ligação das doze tribos do povo hebreu através dos séculos. Como surgiu esse sofrido povo hebreu? Originalmente alguns grupos de famílias nômades de origem hebraica, provenientes da Mesopotâmia, habitaram a Palestina por muitos séculos. De lá foram tangidas pela escassez de alimentos e de bons pastos para seus rebanhos. Gradativamente dirigiram-se para as férteis terras do delta do rio Nilo, sobejamente conhecidas pelos mercadores e caravaneiros. E lá entraram quase ao mesmo tempo que os povos hicsos, também afastados de suas terras pela falta de alimentos. Ali viveram por 430 anos, mudando seus hábitos e passando do nomadismo para atividades de um povo mais fixado à terra, mas sob escravidão. Após a expulsão dos hicsos pelos exércitos do faraó, pelo ano de 1570 a.C., os hebreus perderam seu ponto principal de sustentação e começaram a ser considerados como indesejáveis. E foi provavelmente no reinado de Tutmés I, morto em 1512 a.C., que os hebreus, sob o forte comando de um líder que conhecia muito bem as altas esferas governamentais egípcias e seu sistema de funcionamento, Moisés, iniciaram seu êxodo na direção da Terra Prometida, tão sonhada durante todos os anos de permanência no Egito. Aquele povo buscava um retorno à sua terra original, terra de seus ancestrais. Na verdade, tratava-se de um povo que havia abandonado circunstancialmente o nomadismo dos pastores há poucas gerações, dedicando-se à vida agrícola, e que se via de certa forma forçado a voltar a um quase que indesejável nomadismo, na busca da sua terra, onde poderia se instalar em definitivo. A maioria certamente nem imaginava que ficaria perambulando pelo deserto durante mais de 40 anos... Após toda a migração pelo deserto os hebreus tiveram que enfrentar a resistência natural daqueles que tinham passado a ocupar seus antigos territórios. As doze tribos uniram-se para fazer frente às dificuldades e combateram os moabitas, os amoritas, os filisteus, entre outros. Após a morte do rei Salomão, dez tribos instalaram-se ao norte da Palestina, com sua capital na Samaria, passando a identificar-se como Reino de Israel. Duas tribos ficaram mais ao sul, com sua capital em Jerusalém, constituindo o reino de Judá. Com o passar de muitos séculos os hebreus foram combatidos e dominados pelos assírios, babilônios, persas e pelos macedônios de Alexandre, o Grande. Caíram finalmente sob a possessão romana em 63 a.C.


Todas essas lutas, opções, fugas, migrações forçadas, dominações, desterros e conseqüentes sofrimentos fizeram os hebreus viverem por milênios em ambientes rudes e situações por vezes muito cruéis. Essas imensas dificuldades vividas por um povo tão sofrido e sonhador num futuro libertador, o Messias, transparecem em seus códigos de leis e costumes antigos. Nota-se neles também a absorção de práticas adotadas por outros povos com os quais foi forçado a se relacionar. E dentre esses usos e costumes, normas e leis que formaram o importante acervo cultural e religioso do povo hebreu, vejamos alguns que se relacionam com pessoas portadoras de deficiências e identifiquemos alguns de seus líderes que viveram sob o impacto de limitações variadas, especialmente da visão e da palavra. -- *Noé: a primeira pessoa com deficiência?* Noé, o décimo descendente de Adão segundo as palavras do Gênesis, homem honesto (e sua arca tão universalmente comemorada), é uma das primeiras figuras muito humanas a nós repassadas pela Bíblia, em contraposição a outras figuras a ele anteriores, com as de um Adão meio ingênuo, de um Abel sonhador, de um Caim vilão e fratricida e de um Matusalém muito elevado em anos. O nascimento de Noé nos é descrito pela Bíblia (Gênesis) em palavras muito breves. Existe, no entanto, um documento escrito em linguagem "apocalíptica" (repleta de sinais) conhecido como "Livro de Enoc, o Profeta", que parece ter sido escrito um ou dois séculos antes do nascimento de Jesus. É um documento proscrito pela Igreja Católica. Pois bem, nesse livro o nascimento de Noé é relatado em termos mais ou menos místicos e nos dá conta de alguns problemas bem humanos e concretos. "Depois de algum tempo meu filho Matusalém escolheu uma esposa para seu filho Lamec. Ela engravidou e deu à luz uma criança cuja pele era branca como a neve e vermelha como uma rosa; cujo cabelo era comprido e alvo como a lã e cujos olhos eram lindos. Quando os abriu iluminou toda a casa, como o sol; a casa toda ficou cheia de luz". Lamec, pai do rebento, ficou intrigado com a aparência do recém-nascido e no fundo da alma deve ter duvidado da fidelidade de sua esposa. Foi procurar seu pai, Matusalém, a quem descreveu o menino, informando dentre outras coisas: ... "parece o fruto dos anjos do céu; é de natureza diferente da nossa, sendo no todo diferente de nós"..."ele parece não ser meu, mas dos anjos". Com as características básicas de um albino, o bebê devia realmente ser muito diferente dos primos, tios, avós e demais parentes, todos morenos e de olhos escuros. E essa diferença deve ter sido considerada problemática o suficiente para levar o avô Matusalém, já com 369 anos de idade, a empreender uma viagem longa e cansativa para procurar seu pai, o patriarca Enoc, bisavô do recém-nascido, retirado do mundo "nas extremidades da terra". Enoc, o velho patriarca, analisou a questão com a sabedoria de seus muitos anos de vida, com o seu misticismo nato e informado por seus alegados contatos diretos com Deus. Matusalém voltou sabendo que o bebê era, de fato, filho de Lamec, que ele deveria ser chamado de Noé (Consolo da Terra) e com isso ser preparado para os eventos que culminariam com o dilúvio, 600 anos após. Ao discutir a eventual origem do albinismo de Noé, Sorsby, a quem devemos os textos acima do "Livro de Enoc, o Profeta", comenta que Lamec e sua esposa eram primos em primeiro grau, sendo "o tipo comum de consangüinidade em albinismo". O autor citado conclui com certa dose de ironia britânica: "A possibilidade de Noé ter herdado o albinismo de um anjo caído não necessita ser considerada com seriedade. Essa hipótese levanta consideráveis dificuldades genéticas. Uma delas teria que postular que BT'NWS" - a esposa de Lamec - "e o anjo seriam portadores não-relacionados do gens numa


época em que não deveria estar amplamente espalhado, ou também, alternativamente e ainda menos plausivelmente, que o albinismo é mais dominante nos anjos do que nos homens" ("Noah--an Albino", de Sorsby). -- *As deficiências físicas entre os hebreus* Para os antigos hebreus tanto a doença crônica quanto a deficiência física ou mental, e mesmo qualquer deformação por menor que fosse, indicava um certo grau de impureza ou de pecado. Tanto isso é verdade que chegou a ser determinado por Moisés no seu livro "Levítico" (conjunto de normas e orientações para os sacerdotes): "O homem de qualquer das famílias de tua linhagem que tiver deformidade corporal, não oferecerá pães ao seu Deus, nem se aproximará de seu Ministério; se for cego, se coxo, se tiver nariz pequeno ou grande, ou torcido; se tiver um pé quebrado ou a mão; se for corcunda "... No tratado de Bekhorot são citados oito tipos de defeitos, inclusive a falta de orelhas, seu tamanho ou formato defeituoso, como impedimento para os serviços do templo. A discriminação contra pessoas portadoras de qualquer deficiência era, portanto, aberta e manifesta nas próprias leis. E certos livros da Bíblia dão-nos algumas indicações de costumes ou de ambientes, além de apresentar relatos às vezes elaborados na própria época, sobre os preconceitos contra pessoas e mesmo contra animais defeituosos. Será interessante saber que no verbete "defeito" da Enciclopédia Judaica lemos o seguinte texto: "Defeito (Heb. mum) -- Termo bíblico referente a um defeito físico ou ritual, que excluía uma pessoa do serviço do templo e tornava um animal impróprio para ser sacrificado. Segundo a Bíblia, existem doze defeitos físicos aparentes, qualquer um dos quais desqualifica um sacerdote para o desempenho de suas funções (Lev. 21:16-23), mas a "Halachah" aumenta essa lista para cento e quarenta e dois. Os defeitos físicos que desqualificam um animal para o sacrifício também são enumerados (Lev. 22:20-25) e aumentados para setenta e três na Lei Rabínica. Um defeito temporário desqualifica um sacerdote para sua função e um animal, para o sacrifício, apenas pelo tempo que durar. Segundo a Lei Rabínica, por exemplo, um defeito físico do marido ou da mulher pode, em certas circunstâncias, até invalidar um contrato de casamento". O Levítico é contundente quanto aos homens portadores de deficiências físicas, afirmando taxativamente: "Todo homem da estirpe do sacerdote Arão que tiver qualquer deformidade (corporal), não se aproximará a oferecer hóstias ao Senhor, nem pães ao seu Deus; comerá todavia dos pães que se oferecem no santuário, contanto, porém, que não entre do véu para dentro, nem chegue ao altar, porque tem defeito e não deve contaminar o meu santuário" (Lev. 21:21-23). -- *A cegueira de Isaac por 80 anos* Segundo nos é colocado pelo Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, o grande patriarca hebreu Isaac ficou cego por muitos anos. Talvez seja ele o homem que mais tempo viveu numa situação de deficiência. A bonita e por vezes empolgante história de Isaac indica-nos que se casou com uma linda jovem da Mesopotâmia, Rebeca, que lhe gerou dois filhos do sexo masculino somente 20 anos após o casamento: Esaú e Jacó. Eram gêmeos, tendo Esaú nascido em primeiro lugar. Esaú era considerado como primogênito, mas era um homem rude, cheio de pêlos no corpo e nas mãos, que se tornou caçador, dedicado às atividades do campo e da guerra, enquanto que Jacó era um homem simples e, como diz o Gênesis, "habitante de tendas". O pai preferia seu primogênito pelo que era e pelo que trazia das caçadas; Rebeca dedicava sua atenção e carinho a Jacó, protegendo-o sempre e mal imaginando que ele se transformaria no


maior patriarca hebreu e que um dia receberia de Deus o nome de Israel ("O que luta com Deus"). Embora primogênito, Esaú não titubeou em vender seus direitos a Jacó sem muitos questionamentos. Mais ou menos à época em que estava com 100 anos de idade Isaac ficou cego. É desta forma que o Gênesis o relata: "Ora, Isaac envelheceu e a vista escureceu--se-lhe e não podia ver" (Gen. 27:1). O mesmo livro conta-nos em pormenores marcantes o verdadeiro golpe tramado por Rebeca para obter as bênçãos formais de Isaac ao seu filho Jacó. Para tanto foi fundamentalmente importante o fato do velho Isaac estar cego, muito embora se mantivesse desconfiado e estivesse muito atento àquele importante momento da vida de seu clã. Mesmo desconfiado, Isaac acabou dando sua bênção solene a Jacó que se disfarçara com peles de carneiro pelo corpo e nas mãos e vestira as roupas de Esaú. Mais tarde Isaac explicaria a Esaú o engano e daria o veredito final: "Eu o constituí teu senhor e sujeitei à sua servidão todos os seus irmãos; estabeleci-o na posse do trigo e do vinho. Depois disto que te posso eu fazer, meu filho?" Nem o fato de ser cego e de ter-se enganado devido à deficiência visual levou Isaac a mudar sua posição anteriormente assumida. Isaac viveu até os 180 anos de idade e dessa vida toda passou 80 anos na dependência de Rebeca e de seus criados. Não fôra a vivacidade de Rebeca e de Jacó, o abençoado e herdeiro na grande família teria sido Esaú, o homem rude, o caçador, o guerreiro. A história do povo hebreu teria sido diferente e não teria evoluído da forma como evoluiu sob a inspirada liderança de Jacó. -- *Moisés e suas sérias dificuldades em falar com clareza* De acordo com afirmações inseridas no livro de sua autoria, o "Êxodo", Moisés foi vítima de um sério e perturbador distúrbio da comunicação. Esse problema, já antigo em sua vida, deve ter-se agravado num momento de forte tensão em que ele, morador no deserto por muitos anos, decidiu levar seu rebanho ao monte Horeb para pastar. No meio da noite calma viu uma grande touceira de sarça pegando fogo, mas sem queimar. Aproximando-se com cautela, ouviu uma voz que, segundo suas informações, era do próprio Deus, chamando-o para a grande missão de sua vida: tirar os hebreus do Egito e conduzi-los à Terra Prometida. A reação de Moisés, naquele momento, foi no mínimo cuidadosa. Eis o que está registrado no Êxodo: "Perdoa, Senhor, eu não falo bem desde ontem e antes de ontem" quer dizer, há muitos anos - "e desde que falaste ao teu servo sinto-me com mais dificuldade e mais atrasado em minha língua". Mas Deus contra-argumentou, segundo Moisés, com o seguinte e forte questionamento: "Quem faz a boca do homem? Ou quem faz o mudo e o surdo, o vidente e o cego? Sou eu?"... Deus procurou encorajá-lo também por outros meios para enfrentar os desafios que se punham à sua frente, ou seja, os líderes hebreus e a corte do faraó, chegando a demonstrar que Ele estaria efetivamente ao seu lado. Mesmo assim Moisés continuou cônscio de suas limitações quanto à desenvoltura em falar, o que levou Deus a indicar uma solução: o irmão de Moisés, Aarão, seria seu companheiro de todas as horas, tanto para convencer os líderes hebreus quanto para falar ao faraó nas horas aprazadas. Aliás a figura de Aarão foi vital para o sucesso de todo o ambicioso projeto, uma vez que os planos, os comentários, as novas ações e providências, e mesmo os novos argumentos


eram diretamente transmitidos por Deus a Moisés e este os repassava a Aarão. Por sua vez este não dispensava nunca a carismática presença de Moisés e tudo transmitia ao faraó e sua corte, aos líderes hebreus e ao povo, tendo desempenhado essa missão por muitos anos. Após diversas tentativas frustradas de tirar o povo de uma escravidão cada vez mais opressora, Moisés queixou-se com seu Deus: "Eis que sou incircunciso dos lábios, como me ouvirá o faraó?" Deus continuou com a mesma orientação operacional até então adotada, indicando Aarão mais uma vez como seu porta-voz: "Tu lhe dirás tudo o que te mando e ele falará ao faraó". . . Apesar dessa deficiência funcional de ordem bastante grave face ao papel indicado e assumido por Moisés, ele conseguiu sair-se bem da missão, com a ajuda permanente de seu irmão Aarão e foi, sem dúvida, uma das mais fortes figuras de toda a História dos Hebreus. Foi um grande legislador, profeta, mediador dos hebreus e grande líder daquele povo que conseguiu tirar da mais negra escravidão. Conseguiu ele, com a superação de sua deficiência e com um indispensável carisma pessoal, além de um profundo conhecimento do deserto, realizar a grande proeza de levar mais de meio milhão de hebreus com seus pertences e criações das terras do Egito até as fronteiras da Terra Prometida a Jacó, onde nunca entrou. -- *As leis criadas no deserto do Sinai* De acordo com o "Êxodo", durante a épica migração de todo o povo hebreu do Egito para a Terra Prometida, quando estacionado por anos a fio no sopé do monte Sinai, Moisés elaborou não apenas o Decálogo, mas muitas outras determinações, regulamentos e leis adicionais que se destinavam a pôr um fim às mazelas de um povo volúvel e a tentar ordenar sua vida. Assim é que havia leis e normas a respeito de escravos, de conflitos e suas soluções, de homicídios e seus castigos, de roubos, de seduções, de magia e também a respeito de diversos assuntos de medicina. Moisés elaborou com muito cuidado os preceitos relacionados à higiene e à saúde de seu povo, no cenário grandioso do deserto, lembrando muitas daquelas normas que ele conhecia muito bem do Egito, onde havia sido educado bem próximo à nobreza e aos sacerdotes. Não é, portanto, de espantar que apenas sobre a hanseníase haja capítulos inteiros do "Levítico". E exatamente como no Egito e outros países da Mesopotâmia ele colocava a responsabilidade da medicina sob os cuidados dos sacerdotes, que eram os Levitas. Na legislação dos hebreus daquelas eras violentas e muito problemáticas nas quais era fundamental manter o povo unido, mas também disciplinado, apenas argumentos relacionados à vontade expressa de Deus ("temerás o Senhor teu Deus, porque eu sou o Senhor") não surtiram os efeitos esperados. A lei de talião, reinante em alguns países de então, foi também introduzida pelo líder maior, Moisés, que certamente já conhecia o Código de Hamurabi. Algumas dessas severas normas lavradas em pedra muitos anos antes de Moisés existir passaram para o código dos hebreus quase que com as mesmas palavras. -- *O Código de Hamurabi: severidade vizinha dos hebreus* No Museu do Louvre, em Paris, existe o original do Código de Hamurabi. Trata-se de uma pequena coluna de 2,25 m de altura, de cor negra, em forma de cone, e toda escrita em caracteres cuneiformes. Essa obra está dividida em 46 pequenas colunas em toda a sua volta, com 3.600 linhas escritas. Bem ao alto, num baixo-relevo bastante claro, o grande monarca da Babilônia apresenta-se em atitude de adoração diante de Shamash, o deus do sol e das leis. O texto, segundo seus estudiosos, não apresenta nenhuma divisão a não ser esta: sua primeira parte relaciona-se a propriedades e sua segunda parte a pessoas. É a coleção mais antiga de leis que se conhece -- bem mais antiga que o Decálogo de Moisés e que as normas


por ele traçadas no "Levítico", com o qual existem pontos de similaridade eventual. Há semelhanças também no "Deuteronômio". Vejamos alguns pontos que indicam, como punição, amputações. "Eu, Hamurabi, chefe designado pelos deuses, Rei dos Reis, que conquistei as cidades do Eufrates, introduzi a verdade e a eqüidade por todo o país e dei prosperidade ao povo. De hoje em diante"..."Se alguém apagar a marca de ferro em brasa de um escravo, terá seus dedos cortados"..."Se um médico operar um patrício com faca de bronze e causou-lhe a morte, ou abriu-lhe a órbita do olho e causou-lhe a destruição, terá sua mão cortada"... ..."Se um escravo disser ao seu dono: "Tu não és meu Senhor", seu senhor provará que o é e cortará sua orelha"..."Se um homem bater em seu pai, terá as mãos cortadas"... ..."Um olho por um olho, um dente por um dente. Trata-se de justiça sem piedade. Se um homem tira um olho de um patrício, também seu olho será tirado; se ele quebrou o osso de um patrício, seu braço será quebrado. As classes inferiores da sociedade também merecem compensações. Se ele tirou o olho ou quebrou o osso de um plebeu, ele deverá pagar uma miná de prata; se foi de um escravo, pagará metade de seu preço"... No "Levítico" há textos e palavras tão semelhantes que parecem pura cópia. Eis um deles: "Se alguém ferir o olho de seu escravo ou de sua escrava e os deixar cegos de um olho, deixa-los-á ir livres pelo olho que lhes tirou"..."O que ferir qualquer de seus compatriotas, assim como fez, assim se lhe fará a ele; quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; qual for o mal que tiver feito, tal será o que há de sofrer". A mesma linha de pensamentos encontramos no "Êxodo": "Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé"... Para nós torna-se óbvio que tanto entre os babilônios como entre os antigos hebreus sempre houve muitas pessoas marcadas por crimes cometidos. No entanto, nem sempre a deficiência ou deformação física ou sensorial correspondiam a uma demonstração de castigo por feitos delituosos ou à "troca" por males cometidos a outrem. Reis, generais, líderes, soldados eram por vezes castigados por combaterem os grandes poderosos e levavam consigo pelo resto de seus dias as marcas impostas pelos vencedores, como aconteceu com Sedecias. -- *Sedecias, rei de Judá: cego por Nabucodonosor* Sedecias foi o último rei de Judá. Além de mencionado na Biblia (Segundo Livro dos Reis e Jeremias), Sedecias é também citado em diversos documentos e crônicas da Babilônia que relatam os principais acontecimentos políticos, religiosos e guerreiros dos séculos VI e VII a.C. sob o ponto de vista babilônico. Segundo todos esses documentos e relatos, Nabucodonosor, famoso rei da Babilônia, colocou Sedecias no trono do reino de Judá, como substituto ao destronado Joaquim, refém mantido na capital do reino babilônico. Apesar de ter sido indicado e empossado por Nabucodonosor, Sedecias logo começou a conspirar contra o poderoso rei, fazendo contatos pessoais com diversos monarcas dos minúsculos países e também com o faraó egípcio. Sedecias tinha apenas 21 anos de idade ao iniciar seu reinado e sua intenção era empreender uma guerra geral contra o monarca conquistador. No entanto, no nono ano do reinado de Sedecias, Nabucodonosor, bem informado das pequenas conspirações e traições, tomou providências enérgicas. Mandou todo o seu exército cercar Jerusalém e lá se plantou durante dois anos. Em 586 a.C. o exército sitiante conseguiu abrir uma brecha na muralha externa da cidade e o povo, já sem pão por muito tempo, sofreu todo o impacto da fúria dos soldados invasores que buscavam tesouros, que incendiavam, que matavam e que espalhavam o pânico para todos os lados. Sedecias, ciente


do perigo, fugiu pelos jardins dos fundos do palácio, mas foi preso, e levado à presença do temido rei da Babilônia, em Riblah, ao lado de Jerusalém. Seus filhos ainda novos foram mortos em sua presença. E segundo todos os documentos, Sedecias teve seus olhos vazados ali mesmo. E quando o enorme exército movimentou-se de volta a Babilônia, levando as últimas levas de prisioneiros de Judá, Sedecias, carregado de ferros, cego e amargurado, empreendeu a mesma caminhada. Terminou seus dias numa prisão da Babilônia. O Livro de Jeremias assim relata o infortúnio de Sedecias: "E degolou o rei da Babilônia os filhos de Sedecias ante seus olhos; e matou também a todos os príncipes de Judá em Riblah. E tirou os olhos a Sedecias, e o carregou de ferros e o rei da Babilônia o conduziu a Babilônia e o pôs na casa do cárcere até ao dia de sua morte" ("Jeremias", 52:10/11). -- *O preço da paz: um olho de cada habitante* Os Amonitas, povo habitante a leste do rio Jordão, foram contínuos inimigos dos hebreus (na verdade aqueles que compunham as tribos de Israel e não as de Judá) em épocas bem anteriores aos anos de problemas com o cativeiro da Babilônia, ou seja, em épocas que beiram a um milênio antes da Era Cristã. O Primeiro Livro dos Reis conta-nos que Najash Amonita, ao sitiar a vila de Yabesh-Guilead, recebeu uma preocupada proposta da população sitiada, para não ser dizimada. Os anciãos da vila foram os portadores da seguinte mensagem: "Toma-nos como aliados e nós te serviremos"... Najash Amonita, inimigo cruel ao extremo, respondeu: "A aliança que eu farei convosco será tirar-vos a todos o olho direito e tornar-vos o opróbio de todo o Israel". Os anciãos da vila sitiada conseguiram, no entanto, o apoio de um famoso herói da Bíblia, que foi Saul. Ele conseguiu juntar, na base de violentas ameaças àqueles que não aderissem, um exército de trezentos mil homens das tribos próximas de Israel e mais trinta mil das tribos de Judá. Com esse impressionante contingente bateu decisivamente o exército inimigo que apavorava o pacato povo de Yabesh-Guilead. Já anteriormente ungido por Samuel como primeiro rei de Israel, foi nessa oportunidade que Saul foi confirmado como tal. -- *Mais normas e o papel do médico* Ao analisar as muitas normas que orientaram a vida do povo hebreu pelos seus muitos séculos de existência, notaremos que gradativamente elas foram entrando em pormenores bastante indicativos das muitas ocorrências que levavam a necessidade de sua criação. No Tratado de Kidushin (sétimo e último tratado da Ordem de Mishnah Nashin, do Talmud) encontramos o seguinte trecho que nos é transmitido por Heiman: "Se alguém pegar um homem e lhe soprar a orelha, daí resultando a surdez, o agressor será punido de acordo com a lei. Da mesma forma, quem golpear seu pai na orelha e assim provocar a surdez, será condenado à morte, pois em conseqüência do ferimento, uma gota de sangue penetrou no interior da orelha" (Apud Heiman). Poucos são os documentos da antiga cultura dos hebreus que nos falam sobre o progresso da medicina. Dentre eles, cumpre que façamos menção a alguns livros da Bíblia, ao Talmud e aos escritos de Flávio Josefo, em especial na sua "História dos Hebreus”. Além de material escrito, alguns líderes e homens especiais que sempre tiveram influência sobre o povo hebreu também influenciaram quanto ao desenvolvimento de sua medicina. Esses foram os casos de alguns reis e de diversos profetas. Ao que parece pelos relatos contidos na Bíblia, os profetas de Israel não eram meros homens que previam acontecimentos (em certas épocas conhecidos como "videntes", conforme nos é contado no "Primeiro Livro dos Reis" ao relatar a história de Saul), mas personalidades que se


preparavam muito bem para sua missão, estudando muito e tornando-se verdadeiros sábios, e que, exatamente por esse motivo e pela sua bondade, desfrutavam da total confiança do povo hebreu. E com a fé que despertavam, chegavam mesmo a realizar milagres. Muitos dos conselhos e dos preceitos deixados por homens dessa natureza levaram o povo a moderar seu modo de agir, a alterar seus costumes e a respeitar tudo aquilo que julgava vir de Deus, como, por exemplo, a importância da medicina e do papel do médico para o povo hebreu. Segundo o "Livro da Sabedoria" de Sirac, muito mais conhecido como "Eclesiástico", era bem alto o conceito dos médicos na cultura hebréia. Lá encontramos afirmações como esta: "Honra o médico, porque ele é necessário; porque o Altíssimo foi quem o criou. Porque toda a medicina vem de Deus e receberá donativo dos reis. A ciência do médico exaltará sua cabeça e será louvado na presença dos grandes". Esse mesmo conceito, encontradiço em diversas culturas, prevalecia entre os hebreus pelo ano 200 a.C., uma vez que essa é a idade presumível do livro "Eclesiástico”. -- *As causas da deficiências entre os hebreus* Além das deficiências ou das deformações consideradas como conseqüências diretas de pecados ou de crimes, tais como a cegueira, a surdez, a paralisia, por exemplo, entre os hebreus havia também aquelas provenientes de acidentes, de agressões, de participação em lutas armadas contra inimigos do povo, e também de punições previstas em lei. Havia também as deficiências que eram marcas da própria escravidão: orelha ou nariz cortado, dedos ou a mão decepados, olhos vazados. Vejamos alguns exemplos: O livro da Bíblia conhecido como "Deuteronômio" corresponde a uma espécie de repetição ou reformulação de leis e normas para o povo. Na verdade significa "segunda lei". Moisés foi seu autor, nele repetindo e elaborando melhor depois de muitos anos do Decálogo e do Levítico, os preceitos contidos tanto no "Êxodo" quanto no próprio livro de normas para os sacerdotes, ou seja, o "Levítico", também de sua autoria. O "Deuteronômio" é uma espécie de testamento do velho Moisés às bordas da Terra Prometida. Pois bem, nesse livro encontramos um castigo severo (amputação da mão) para um procedimento considerado altamente pecaminoso por parte da mulher: "Se se levantar alguma pendência entre dois homens e um começar renhir com o outro, e a mulher de um querendo livrar seu marido da mão do mais forte, estender a mão e lhe pegar pelas partes vergonhosas, cortar-lhe-ás a mão, e não te moverás de compaixão alguma por ela" (Deut. 25:11/12). Os castigos ou penas por faltas contra as leis de Deus e mesmo de Israel eram por vezes muito cruéis e de caráter extremo. Eles correspondiam a alguma necessidade da própria época em que foram estabelecidos. Segundo o próprio Moisés que elaborou muitos deles, "a fim de que todo Israel, ouvindo isto, tema e não torne mais a fazer coisa semelhante a esta" (Deut. 13:11)... ou então, "o povo da cidade a apedrejará e ela morrerá, para que tires o mal do meio de vós e todo Israel, ouvindo isto, tema" (Deut. 21 :21). Maldições sem fim são indicadas para os que não seguiam os preceitos e uma delas era esta: "O Senhor te fira de loucura e de cegueira e de frenesi, de sorte que andes às apalpadelas nas trevas e não acertes nos teus caminhos" (Deut. 28:28/29). O Livro dos Juízes, da Bíblia, é uma obra que procurava levar o povo hebreu a melhor conhecer seus grandes heróis, tais como Otoniel, Aod, Barac, Débora, Gedeão, Jefté e Sansão. Eles procuraram libertar o povo da opressão constante dos inimigos e tentaram fazer com que esse mesmo povo observasse as leis estabelecidas. É o Livro dos Juízes que nos relata fatos que demonstram claramente que, na luta pela segurança do povo hebreu, às vezes era indispensável "passar a fio de espada" todos os homens aprisionados. No entanto, existe o relato de um caso de evidente "desencorajamento" permanente aos ataques aos


hebreus, num severo castigo aplicado a um líder cananeu por uma das tribos de Judá que atacara Bezec e lá matara 10.000 homens. Nesse relato menciona-se, no entanto, a fuga do líder Adonibezec. Mas, "indo eles ao seu alcance, apanharam-no e cortaram-lhe as extremidades das mãos e dos pés. E Adonibezec disse: Setenta reis a quem tinham sido cortadas as extremidades das mãos e dos pés, apanhavam debaixo de minha mesa os sobejos da comida; como eu fiz, assim Deus me fez" (Juízes, 16:21). Conforme vimos anteriormente, o vazamento dos olhos era um castigo severo, um tanto em moda naquelas regiões. Existe um baixo-relevo da cultura assíria, muito conhecido, que nos mostra um soberano vazando os olhos de três prisioneiros, um deles ajoelhado e os outros dois, de pé, puxados pelo próprio rei para perto de si por meio de um fio preso aos lábios dos infelizes por argolas. Esse castigo desencorajava as fugas, sem causar maiores limitações ou dificuldades para trabalhos pesados. Foi o que sucedeu com um dos fascinantes heróis da Bíblia: Sansão. Conforme é ali relatado, "os Filisteus, tendo-o tomado, tiraram-lhe logo os olhos e levaram-no a Gaza, atado com cadeias e, encerrando-o no cárcere, o fizeram girar a mó" (Juízes, 16:21). Não seria exagerado depreender que da mesma forma eram tratados os mais perigosos ou mais fortes inimigos e prisioneiros de guerra em muitos dos pequenos ou dos grandes reinos da antigüidade. Depois de marcados pela mutilação estigmatizadora e cerceadora de movimentos, eram colocados a trabalhar em serviços pesados, dos quais não conseguiam jamais se afastar. -- *A medicina dos hebreus* Conforme nossos comentários anteriores, pouco nos é relatado pelos diversos livros da Bíblia a respeito da medicina. Sabemos, sim, que a cirurgia ocorria basicamente para a circunstância da circuncisão, com uma lâmina de sílex. Outras informações são quase inexistentes. Quanto ao tratamento de problemas ortopédicos, sempre houve cuidados caseiros com bons resultados. Há uma citação de Ezequiel que mostra ter havido na cultura hebréia antiga plenos conhecimentos dos tratamentos indispensáveis para pernas ou braços quebrados. Diz ele em seu quarto oráculo contra o Egito: "Quebrei o braço do Faraó, rei do Egito, e eis que não foi tratado para se lhe restituir a saúde, nem atado com panos, nem embrulhado com toalhas, para que, tendo recobrado as forças, pudesse manejar a espada" (Ezequiel, 30 :21). -- *Tobias fica cego e recupera a visão: caso de leucoma?* Um dos juízes da tribo de Nephtali, Tobias viveu no século VII a.C. e sua história nos é narrada por um dos livros da Bíblia. Trata-se de uma verdadeira jóia de delicadeza e de arte que chegou até os nossos dias graças aos trabalhos de São Jerônimo . Tobias era um dos muitos hebreus desterrados em Nínive. Ele procurava dedicar todos os seus dias à misericórdia, a fim de minorar os sofrimentos dos seus compatriotas. Em certa ocasião, cansado de cavar para enterrar secretamente os mortos, "deitou-se junto duma parede e adormeceu e, enquanto dormia, caiu-lhe dum ninho de andorinhas um pouco de esterco quente sobre os olhos e ficou cego" (Tobias, 2:1 0/1 1 ), Temendo estar próxima sua morte, mandou seu filho que também se chamava Tobias resgatar o pagamento de uma dívida na cidade de Ragés, no reino dos Medos. Em sua viagem, ao lado de Azarias, que na verdade era o anjo Rafael disfarçado, Tobias aprendeu dele que o fel de peixe poderia ser usado com sucesso como ingrediente para remédios.


Segundo a narrativa, "e o fel é bom para untar os olhos que tem algumas névoas, e sararão" (Tobias, 6:9). Em sua volta, tendo guardado o fel de um enorme peixe que o havia atacado quando da travessia de um rio, Tobias tomou-o e fez a tentativa que lhe havia sido indicada: untou os olhos do pai. Segundo a Bíblia, esperou meia hora. E "começou a sair de seus olhos uma belida" - que é uma espécie de membrana opaca sobre a pupila - "como a película de um ovo. E Tobias, pegando nela, tirou-a de seus olhos, e imediatamente recobrou a vista" (Tobias, 11:13 a 15). O velho Tobias viveu até a idade de 102 anos sem maiores problemas com a vista. -- *Os cegos na cultura hebréia antiga* O "Levítico", nas suas normas e leis relativas à santidade, à caridade e à justiça, recomendava a todo o povo hebreu não apenas respeitar os pais, guardar o sábado, evitar a idolatria, a vingança, o ódio, o furto, mas também que fossem respeitados os surdos e os cegos. Vejamos o que nos diz Moisés em suas orientações: "Não amaldiçoarás o surdo, nem porás tropeços diante do cego, mas temerás o Senhor teu Deus, porque eu sou o Senhor" (Lev. 19:14). Por sua vez, o "Deuteronômio" recomendava aos hebreus que garantissem a proteção e o bom tratamento aos cegos, colocando essas atitudes positivas diretamente ao lado e em pé de igualdade com o amor aos pais, a certeza da justiça, a condenação da idolatria, a garantia da propriedade e algumas outras práticas relacionadas a sexo e também a traições. Diz o chamado Livro da Segunda Lei de Moisés, que é o “Deuteronômio”: “Maldito o que faz o cego errar num caminho: e todo o povo dirá: Assim seja” (Deut. 27:18). Todavia será interessante saber que, apesar dessa forte ênfase nas várias normas de conduta do povo hebreu, o cego viveu praticamente por muitos séculos em absoluta degradação social, que só começou a ser combatida sob o reinado do príncipe Judah-haNasin (135a 217 d.C.). Cumpre notar que a literatura sobre o Talmud ((O ensinamento de toda a cultura hebréia tem alcançado todas as gerações por dois canais: a lei escrita (a Bíblia) e a oral (a Tradição). Esta foi aos poucos compilada pelos sábios e desse esforço surgiu o Talmud, com seus dois livros principais: O Mishnah (aprendizado) e o Guemara (esclarecimento).)) fala de quando em quando sobre a sabedoria de alguns mestrês e mesmo de alguns juízes cegos. Dentre as limitações de atuação a eles impostas, não lhes era permitido ler o Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) nem oficiar serviços religiosos públicos. Não tinham também nenhuma obrigação de ir até Jerusalém para suas orações, nem de cumprir obrigações religiosas que demandassem o uso da visão. O Talmud referia-se a esses sábios mestrês e juízes cegos por meio de um apelido afetuoso, ou seja, de "saguí Nehor" (ricos em luz, ou videntes). -- *Zacarias castigado por não ter acreditado em Gabriel* Um parente de Jesus foi vítima de uma deficiência passageira. Segundo o Evangelista Lucas, na verdade foi por castigo, corroborando a idéia de que as doenças e as deficiências estavam fortemente relacionadas a castigos ou penitências para pagamento de faltas ou pecados. Zacarias era sacerdote e casado com Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus. Eram os dois considerados como justos e harmoniosos em seu modo de viver e não tinham filhos, pois Isabel era estéril. Lucas conta-nos: Sucedeu que, exercendo Zacarias diante de Deus o cargo de sacerdote na ordem de sua turma, tocou-lhe por sorte, segundo o costume que havia entre


os sacerdotes, entrar no templo do Senhor e oferecer o incenso; e toda a multidão do povo estava fazendo oração na parte de fora, à hora do incenso. E apareceu-lhe o anjo do Senhor, posto em pé ao lado direito do altar do incenso". Zacarias ficou assustado e não sabia o que fazer. O anjo tranqüilizou o velho sacerdote e anunciou que sua esposa engravidaria. Ele reagiu como qualquer outro homem reagiria: duvidou. E perguntou o óbvio: "Como conhecerei que isto acontecerá? Porque eu sou velho e minha mulher está avançada em anos". O anjo identificou-se como Gabriel, "que assisto diante de Deus; fui enviado para te falar e te dar esta boa nova. E eis que ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que estas coisas sucedam, visto que não acreditaste nas minhas palavras, que se hão - de cumprir a seu tempo". Nove meses depois, nascido João Batista - primo de Jesus - Zacarias indicou numa tabuinha o nome que o menino deveria ter e imediatamente voltou a falar. -- *As pessoas deficientes nos Evangelhos* Se continuarmos a folhear esse documento sagrado que é a Bíblia, encontraremos também as narrativas relacionadas ao Novo Testamento que retratam uma Judéia muito viva, muito real. Detectamos costumes, atitudes e encontramos diversas considerações sobre pessoas deficientes ou com doenças muito sérias. Percebemos também repetidamente a crença arraigada no povo de que a maioria dos males de então era tida como conseqüência da interferência de maus espíritos ou como um castigo para pagamento de pecados antigos. Passando os olhos por alguns episódios anotamos frases que eram destinadas a leitores daquelas épocas e que certamente aceitavam os posicionamentos expostos. Uma dessas frases que nos chama a atenção é esta: "E eis que veio uma mulher que estava possessa de um espírito que a tinha doente há 18 anos; e andava encurvada e não podia absolutamente olhar para cima". Essas palavras são de Lucas, o Evangelista médico, mas que naturalmente media as palavras face ao público, ao povo que precisava ler suas páginas ou interpretar os fatos que pretendia repassar. No entanto, na mesma passagem, ele coloca na boca de Jesus palavras que demonstram um enfoque diferente: "Mulher, estás livre de tua enfermidade" ... Nem demônio, nem castigo ... apenas enfermidade. No Evangelho escrito por Mateus encontramos estas frases: "E tendo-se estes retirado, apresentaram-lhe um homem mudo, possesso do demônio, E, expulso o demônio, falou o mudo" . . . Esse mesmo Evangelista escreveu: "Quando o espírito imundo saiu de um homem, anda por lugares secos, buscando repouso, e não encontra. Então diz: Voltarei para minha casa de onde saí" ... "Então vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro". Na Judéia Antiga, inclusive no tempo de Jesus Cristo, o destino dos deficientes era esmolar para conseguir sobreviver. Os cegos, os amputados, os paralíticos pelas mais variadas causas, ficavam expostos nos caminhos, ruas e praças. E pelo que se lê, deviam ser apenas tolerados. Depreendemos isso das parábolas de Jesus, ou mesmo das atitudes do próprio Jesus para com eles, demonstrando que estava errada a forma como eram tratados, mesmo sem expressar esse modo de pensar. Segundo o Evangelista Lucas, o ambiente de exposição da pessoa para esmolar era um fato concreto e percebemos isso em sua afirmativa: "Vai já pelas praças e pelas ruas da cidade e traze cá os pobres e os aleijados, e cegos e coxos". Mateus corrobora a impressão ao dizer: "E eis que dois cegos que estavam sentados junto à estrada"... Como não poderia deixar de ser, a movimentação externa ou a simples mudança de lugar de um caso mais sério de paralisia ou de enfermidade grave sempre era dramaticamente mais


difícil. Podemos imaginar a aflição de parentes e amigos desses doentes ou deficientes que, ao saber da existência ou da presença de um rabino miraculoso nos arredores, procuravam alcançá-lo por todos os meios. O Evangelista Marcos, por exemplo, conta-nos: "E foram ter com ele conduzindo um paralítico que era transportado por quatro. E como não pudessem apresentar-lhe por causa da multidão, descobriram o teto pela parte de baixo da qual Jesus estava e, tendo feito uma abertura, arriaram o leito em que jazia o paralítico"... Elgood, estudioso dos usos e costumes dos povos do Oriente Médio, afirma que a medicina contida nos Evangelhos e mesmo nos Atos dos Apóstolos aceitava basicamente três tipos de causas para as doenças e para as muitas limitações e deficiências que afligiam os homens: o castigo pelos pecados, a interferência dos maus espíritos e finalmente as forças más da natureza, contra os quais o poder divino era o único remédio - ou pelo menos era assim considerado. Eis alguns pontos citados nos Evangelhos que ilustram essa assertiva: João 5:14 -- "Depois, achou-o Jesus no templo e disse-lhe: Eis-te curado! Não torna a pecar para que não te suceda algo pior". João 9:2 -- "Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele nem seus pais pecaram mas foi para se manifestarem nele as obras de Deus". Lucas 9:38-39 -- "Mestre, rogo-te para que olhe para meu filho, porque é o único que eu tenho e um espírito imundo se apodera dele e subitamente dá gritos e o lança por terra e o agita com violência, fazendo-o espumar". -- *Os milagres de Jesus e as pessoas deficientes* Dentre os muitos documentos antigos que nos falam sobre deficiências ou sobre pessoas deficientes, os mais explícitos são os Evangelhos. Eles mostram, por exemplo, que o povo hebreu -- e com ele quase todos os povos ao seu redor – estava acostumado não apenas à existência das doenças e das deficiências que levavam o homem a uma vida de quase certa indigência ou total dependência, mas também à busca de soluções naturais e sobrenaturais, quando possível, para sua eliminação. Em Jerusalém dos tempos de Jesus Cristo, por exemplo, havia bem ao lado do templo uma piscina ou tanque destinado à purificação de animais que eram sacrificados e que era por esse mesmo motivo conhecida como "piscina probática" (do grego "probatikón", ou seja, carneiro ou relativo a ovinos em geral), ou como Betsaida na língua hebraica. As suas bordas, a despeito dos objetivos principais, mantinha-se verdadeira multidão de enfermos, coxos, cegos e paralíticos porque, segundo todos acreditavam, várias vezes ao dia um anjo de Deus ali descia para "movimentar as águas". Era, como se pode bem imaginar, um momento muito esperado, muito tenso, pois apenas o primeiro que ali se banhasse teria seus males curados. Foi exatamente nesse ambiente que Jesus realizou um dos seus famosos milagres, beneficiando um homem paralítico há 38 anos e que nunca havia conseguido ser o primeiro a chegar às águas de Betsaida por não ter pessoa alguma que o ajudasse. Esse foi um dos muitos milagres a nós transmitidos pelos evangelistas. Segundo seus relatos, Jesus fez mais de 40 milagres notórios. Deles todos, pelo menos 21 são relacionados a pessoas portadoras de deficiências físicas ou sensoriais, a saber: - Cego de nascimento - João 9:1-7 - Cego em Betsaida - Marcos 8:22-26 - Cego Bartimeu de Jericó - Marcos 10:46 e Lucas 8:35-43 - Dois cegos de Jericó - Mateus 20:29-34


- Dois cegos de Cafarnaum - Mateus 9:27-31 - Cegos na Galiléia - Mateus 15:29-31 - Cego e mudo (endemoniado?) - Mateus 12:22 - Mudo de Cafarnaum - Mateus 9:32-34 - Mudos na Galiléia - Mateus 15:29-31 - Surdo-mudo na Decápole - Marcos 7:31-37 - Surdo-mudo de Cesaréia - Marcos 9:16-26 e Lucas 9:37-43 - Coxos na Galiléia - Mateus 15:29-31 - Leprosos de Cafarnaum - Mateus 8:1-4, Marcos 1 :40-45e Lucas 5:12-14 - 10 leprosos - Lucas 1 7 :1 3-1 9 - Hidrópico - Lucas 14:1-6 - Mulher com espinha curvada - Lucas 13:11-13 - Homem de "mão seca" - Mateus 12:9-13, Marcos 3:1-6 e Lucas 6:6-11 - Paralítico servo do centurião - Mateus 8:5-13 - Paralítico em Betsaida - João 5 :5-9 - Paralítico de Cafarnaum - Mateus 9:1-8, Marcos 2:1-12 e Lucas 5:17-26 - Outros deficientes na Galiléia - Mateus 15:29-31 -- *A cegueira de São Paulo, Apóstolo* A conversão de São Paulo tem sido considerada por todos os cristãos como um fato decisivo na história do Cristianismo. Ela teve seu início com um evento universalmente conhecido que o deixou cego por três dias, deles emergindo como um novo homem. Saulo havia sido por diversos anos um fervoroso fariseu, além de um convicto perseguidor dos adeptos da nova seita do Nazareno que se afirmara Filho de Deus, considerada então uma verdadeira heresia na Sinagoga Judaica. Na verdade, tão envolvido estava Saulo que, quando o primeiro mártir da incipiente religião -- Santo Estêvão -- foi apedrejado, esteve não só presente como também indiretamente ajudou na execução da pena, segurando os mantos dos apedrejadores para melhor executarem sua tarefa. Diversos médicos e estudiosos escreveram a respeito do fato que modificou drasticamente a vida de Saulo de Tarso. Alguns acham que ele foi vitima de um ataque epilético, podendo a intensa luz por ele relatada ter sido a aura que antecede esses eventos médicos. Há outros que especulam em torno de problemas relacionados a uma artrite ou mesmo malária. O que parece certo é que, intervenção miraculosa à parte, Saulo foi severamente atingido, física e psicologicamente. Para uma análise objetiva do que sucedeu, é preciso conhecer um pouco as circunstâncias por ele vividas. Em primeiro lugar é básico considerar que a distancia percorrida por Saulo, entre Jerusalém e Damasco, é de pouco mais ou menos 200 quilômetros, quase toda ela coberta por um deserto de areia branca e de natureza inóspita. Essa viagem, numa caravana de camelos, demandava de seis a sete dias de marcha, muito embora estejamos acostumados a visualizar um Saulo de Tarso caindo de fogoso cavalo, o que não corresponde à realidade daqueles tempos. A caravana cruzou o deserto pelas colinas da Samaria, sob sol ardente e muito brilhante, num calor fortíssimo. Ao final dessa cansativa viagem, é natural que Saulo estivesse preocupado com sua missão, a ele confiada pelo sumo sacerdote através de cartas às sinagogas de Damasco. Cansado e tenso, ele aguardava os primeiros sinais da paisagem de seu destino quando, segundo seus relatos, viu uma luz muito forte e caiu ao chão, ouvindo uma voz que se identificava como de Jesus Nazareno. Cego ao levantar-se, Saulo teve que ser "levado pela mão" à cidade à busca de ajuda, pois estava doente e não podia nem beber nem comer por três dias.


Virtualmente fechado em ambiente escuro por todo esse tempo, devido às dores nos olhos, com certeza muito abalado com sua cegueira que provavelmente associava a um castigo divino, como era costumeiro no seio do povo hebreu, Saulo foi inicialmente atendido por solícitos adeptos da "seita do Nazareno". Pode ter parecido a ele um verdadeiro milagre quando Ananias entrou, conversou com ele, tocou-o e ele recuperou sua visão. O que deve ter acontecido com os olhos de Saulo de Tarso? Autores categorizados acham que sua cegueira temporária foi causada pelos efeitos nocivos de muita irradiação solar sobre os olhos, causando alguma queimadura da córnea por raios ultravioletas. Esse tipo de cegueira acontece devido aos reflexos do sol na areia branca do deserto ou aos reflexos na neve. "O efeito no olho é cumulativo e Paulo deve ter recebido mais do que suficiente radiação, especialmente quando olhou para o céu. Este é um efeito biótico e a recuperação do estágio agudo requer vários dias de convalescença. A vitima fica temporariamente cega, não pode abrir seus olhos e sofre com muitas dores e ansiedade. Fica inutilizada e é compelida a manter-se no leito. Todavia, como o epitélio se regenera com rapidez, a sensível córnea nua volta a ser coberta e então o paciente vive uma brusca e dramática recuperação como viveu Paulo" ("The Blindness of Saint Paul", de Manchester e Manchester). São Paulo viveu todo o resto de sua vida com algumas seqüelas do mal e isso é perceptível ao analista cuidadoso por alguns sinais, um dos quais seria sua própria informação quanto à sua letra provavelmente maior ou diferente do que a costumeira: "Vejam com que letras eu lhes escrevi com minhas mãos" (in Epistola aos Gálatas) e "Minha saudação da mão de Paulo: que é minha marca em toda carta. Assim escrevo" (in Eprstola aos Tessalonicenses (2a ), ao final). A tradução corresponde às palavras na Vulgata, em latim. São Paulo tinha algumas dificuldades para ler, escrever e mesmo reconhecer pessoas a certa distância, o que talvez indique grave redução de sua acuidade visual. Vejamos, por exemplo, o fato narrado nos Atos dos Apóstolos (23:1 a 6): Levado diante do Sinédrio para esclarecer graves acusações feitas contra ele, Paulo olhou o aglomerado de sacerdotes e não distinguiu a presença muito importante do sumo sacerdote Ananias. E foi considerado irreverente pela mais alta autoridade da Sinagoga Judaica, tanto assim que recebeu uma bofetada na boca tão logo começou a falar, por ordem de Ananias. Paulo reagiu e qualificouo de "parede caída". Na confusão estabelecida, ele foi questionado se estava maldizendo o sumo sacerdote. Neste ponto ele afirmou: "Não sabia, irmãos, que era o sumo sacerdote"... Parece também evidente que São Paulo foi vítima de um mal crônico e desagradável que, em suas cartas, chama de "espinho da carne". Relembremos uma pequena frase sua inserida na carta aos cristãos de Gálata, com os quais convivera bastante: "Sabeis que ao princípio vos preguei o Evangelho com enfermidade na carne: e sendo eu a vossa provação na minha carne, vós não me desprezastes nem rejeitastes" (Gal. 4:13/14). A tradução aqui também leva em conta a Vulgata latina. Para os cristãos o fato concreto é que, logo após o evento que levou Saulo de Tarso a três dias de cegueira, ele mudou drasticamente e foi um dos maiores esteios da Cristandade. Conviveu o resto de seus dias com alguma deficiência parcial da visão e certamente com algum outro mal (epilepsia, malária, artrite, não se sabe) indefinido e marcante que não diminuiu em nada o seu entusiasmo na transmissão da doutrina de Cristo, mas que acabou influenciando seus pensamentos e suas pregações. 3. Os Gregos


Em grande parte devido à inexistência de bases científicas para melhor compreender a vida e a natureza, o homem grego antigo sentia-se envolvido por muita fantasia e por uma infinidade de pequenas crenças e, conseqüentemente por centenas de deidades. A variedade de deuses e deusas que habitavam o portentoso e, nas palavras de Homero, "nevoso Olimpo", ou que o haviam abandonado em busca de mais tranqüilidade e da proximidade dos ambientes a eles dedicados, é bem indicativo desse estado de espírito. Na fantástica mitologia de tantos deuses de vários escalões e de tantos seres fantasiosos, o homem grego, além de dedicar altares a um Deus Desconhecido -- conforme comenta o Apóstolo Paulo -acabou não se esquecendo de um ser portentoso prejudicado por uma deficiência física séria, bastante competente em seus misteres, mas que sempre foi de certa maneira ridicularizado, além de envolvido pela estrondosa risada da maioria de seus fisicamente magníficos colegas do Olimpo. Tratava-se de Hefesto (Hephaestos, em grego), o deus do fogo, das artes manuais, da metalurgia e das indústrias, que era filho de Zeus e de Hera. -- *As deficiências na mitologia grega* Homero, o mais famoso dos grandes poetas gregos, que foi cego, segundo relatos baseados na tradição e em diversos escritores antigos, e que certamente viveu em épocas anteriores ao século VII a.C., é autor dos poemas épicos Ilíada e Odisséia. Na Ilíada ele nos revela algumas particularidades interessantes a respeito de Hefesto, de sua deficiência física nas pernas e de suas altíssimas habilidades em metalurgia e artes manuais. No Canto XVIII desse famoso poema ele narra uma das mais conhecidas intervenções desse deus portador de deficiência: o quase invulnerável Aquiles, durante o cerco de Tróia encontrava-se muito abatido com a morte de seu amigo Pátroclo e ao mesmo tempo enfurecido com o líder troiano Heitor não só por tê-lo morto como também por tê-lo despojado de armadura, elmo, escudo e espada, além de todos os demais acessórios invejáveis pela sua beleza e perfeição e que eram propriedade de Aquiles. Ele pede o auxílio de sua mãe, a deusa Tétis, dizendo: "... não me incita a viver meu coração, nem a ficar entre os homens, a menos que Heitor, ferido primeiro por minha lança, perca a vida e pague por Pátroclo, filho de Menetes, sua presa". "Debulhada em lágrimas Tétis respondeu: - Rápido será teu destino, meu filho, com tais palavras, pois, logo após Heitor, o momento fatal soará para ti". "Acabrunhado retrucou Aquiles, de alígeros pés: - Morra eu neste instante, visto que não fui capaz de proteger da morte meu companheiro"... No entanto, de fato Aquiles não tinha mais armas, pois o corpo de Pátroclo havia sido despojado de todos os magníficos apetrechos de guerra que tornara o filho de Tétis um incrível herói. É Tétis que observa: "Mas tuas belas armas estão nas mãos dos Troianos, tuas armas de coruscante bronze; o próprio Heitor de fúlgido capacete tem-nas sobre os ombros e com elas se paramenta"... Tétis, muito chocada com a tragédia de seu filho-herói, considerou a determinação de Aquiles e foi à procura do único "imortal" capaz de fazer armas próprias e dignas para ele: Hefesto. Quando chegou ao Olimpo, notou nas oficinas um deus trabalhador, suado, um verdadeiro operário da metalurgia com deficiência física. "Encontrou-o suando; apressando-se à volta dos foles, empenhado no fabrico de nada menos de vinte trípodes, para encostar à parede, em torno de uma sala bem construída"...


Homero apresenta neste poema Hefesto casado com a belíssima Cáris ("Cáris de brilhante toucado, a formosa Cáris, esposa do insigne coxo"), a deusa da primavera. Após acomodar a veneranda deusa Tétis em um trono cravejado de prata, Cáris chama o marido: -- "Hefesto, vem como estás; Tétis precisa de ti". "respondeu o ilustre coxo:--Sim, é uma deusa temida e veneranda que está em minha casa; que me acudiu quando o sofrimento me acometeu, depois da longa queda provocada por minha mãe de olhos caninos, que queria esconder-me porque eu era coxo. Eu teria, então, sofrido muito, se Eurínome e Tétis não me tivessem recebido em seu seio; Eurínome, filha do Oceano, que volta sobre si mesmo. Ao pé dela, durante nove anos, forjei muitas jóias bem feitas em profunda gruta, além de presilhas, espirais de formosas curvas, cálices de flores e colares". Hefesto, agradecido por ter sido amparado e amado, e por ter com elas aprendido um verdadeiro ofício, mostra-se mais do que disposto a pagar pelo imenso favor recebido durante anos a fio. "... da bigorna ergueu-se manquejando o ser monstruoso, enorme; debaixo dele agitavamse-lhe as pernas finas" ... "Vestiu uma túnica, empunhou um grande cetro e encaminhou-se para a porta, coxeando". A pedido da desesperada mãe de Aquiles, Hefesto fabricou então um escudo que Homero chega a descrever com muitos pormenores. E continuando com a descrição das fabulosas peças de armamento, afirma: "E depois de ter forjado o escudo grande e robusto, fabricou para Aquiles uma couraça, mais brilhante do que o esplendor do fogo; fabricou-lhe espesso capacete adaptado as têmporas, belo, feito com arte, encimando-o um penacho de ouro; e fabricou-lhe "cnêmides", com o estanho que se modela bem ("Ilíada", de Homero, trechos do Canto XVIII). ( * “Cnêmides” eram perneiras usadas pelos gregos. Protegiam a parte dianteira da perna até o joelho. Eram forradas interiormente de couro e amarradas à perna por correias. A parte externa era de bronze ou de estanho, segundo Homero.) Na Odisséia, Homero apresenta Hefesto casado com Afrodite, a deusa do amor (a Vênus dos romanos), furiosamente ciumento, magoado e ardiloso, mostrando todo o seu ressentimento devido à deficiência nas pernas de uma forma bem franca e muito aberta. O que havia sucedido para tanto? De fato o assunto era sério, pois Ares, deus da guerra (Marte para os romanos), havia-se enamorado de Afrodite e começara a encontrar-se com ela em sua própria casa, logo após Hefesto sair para trabalhar em suas oficinas. Sabedor do adultério de sua mulher, Hefesto planejou com muito cuidado a armadilha para o estabelecimento de um flagrante incontestável: fabricou uma rede quase invisível, mas de "laços inquebráveis, inextricáveis, para que neles ficassem retidos os dois amantes". E, de fato, a rede foi colocada cuidadosamente sobre o leito e prendeu os dois na hora exata; deixou-os debatendo-se no ar, sem qualquer possibilidade de escapar, pois o engenhoso Hefesto preparara tudo para a invisível rede ser puxada para o alto, sem qualquer apelação. Hefesto, que havia acionado a armadilha por suas próprias mãos, sentia-se vilmente traído devido à sua deficiência física e explodiu para todo o Olimpo ouvir: -- "Zeus, pai, e todos os deuses restantes, bem-venturados e sempiternos, vinde aqui presenciar uma cena ridícula e monstruosa; por eu ser coxo, Afrodite, filha de Zeus, de contínuo me cobre de desonra; ela ama Ares, o destruidor, porque é belo e tem as pernas direitas, ao passo que eu sou defeituoso de nascença. Mas a culpa não é minha, apenas de meus genitores, que melhor teriam procedido se não me houvessem gerado"... "a minha rede os reterá cativos até que o pai dela me restitua todos os presentes que lhe dei por sua descarada filha. Pode ser bela, mas não tem vergonha".


Homero entra em alguns pormenores quanto ao vexame imposto a Ares e Afrodite, presos na rede invisível que os puxara para o alto, sendo observados por outros deuses -- todos eles do sexo masculino, uma vez que as deusas, por pudor, haviam preferido ficar fora. Todos eles riram muito dos dois amantes e no meio dos comentários bastante humanos para os portentosos imortais, surgiu uma observação de alta valorização das habilidades de Hefesto, o artífice deficiente: -- "De que aproveitam as más ações? Um coxo alcança o que é ágil, como agora aconteceu: este cambeta Hefesto, lento como é, apanhou com seus artifícios a Ares, o mais veloz dos deuses, habitantes do Olimpo" (trechos do Canto VIII da "Odisséia", de Homero). Naturalmente que estamos apenas analisando cenas de pura ficção, mas que foram escritas diversos séculos antes da Era Cristã. Acresce a isso dizer também que Homero, segundo a tradição, foi um escritor cego. Não deixam de ser palavras de certa forma indicativas da crença na utilidade de um homem competente, mesmo que porta dor de uma séria deficiência e na justa explosão desse mesmo homem face à traição e à desonra de que foi vítima. Demonstram elas também uma posição já arraigada no seio do povo grego de que crianças com defeitos de nascimento não deveriam sobreviver, sendo obrigação dos pais não as deixar viver, tomando para tanto medidas práticas, conforme verificaremos mais adiante. -- *Lenda e realidade; Hefesto na vida dos gregos* Quanto a seus traços principais, Hefesto parece sempre justo, sério, fortemente competente em sua arte e muito cônscio de seu papel. E, como vimos, é conhecedor de seus direitos e sabe lutar por eles. Conquistara o respeito dos deuses pelo seu trabalho e suas obras, e nada mais. Desfrutava de um amor tranqüilo de uma linda deusa da primavera, Cáris, segundo o poema Ilíada, e de um atribulado afeto por Afrodite, na Odisséia, tendo-se considerado no direito de lhe dar uma lição completa, como outros homens jamais poderiam arquitetar. Analistas dos poemas de Homero têm sugerido que, devido à apresentação de Hefesto como o deus da metalurgia e das artes manuais, a profissão de ferreiro e atividades afins talvez fossem especialmente preferidas por homens com deficiências físicas nas pernas. Vale ressaltar que na cidade industrial de Atenas, Hefesto sempre foi considerado um deus importante, mantendo-se a classe dos artesãos sob sua proteção. Seu casamento com Afrodite foi conseqüência de um ardil muito bem preparado. Durante os nove anos que passara sob a proteção de Tétis e Eurínome, Hefesto guardou consigo um profundo ressentimento contra sua mãe devido ao fato de o ter feito cair do alto do Olimpo. Arquitetou uma terrível vingança contra ela: fabricou-lhe um lindo trono de ouro, todo trabalhado, e mandou que lhe fosse entregue durante uma festa. Hera ficou contentíssima por ouvir a respeito do filho que já considerava morto há anos, e muito orgulhosa sentou-se no trono. Ao tentar levantar-se, porém, sentiu-se presa, agarrada por mãos invisíveis. Hefesto, que não estava presente, recusou-se a sair de sua gruta e deixou os demais deuses tentar livrar Hera inutilmente. Afinal, face à insistência de todos, Hefesto concordou, impondo uma única condição: casar-se com a mais bela de todas as deusas, ou seja, com Afrodite. Hefesto dava-se importância e sabia o que lhe convinha. Segundo as lendas, cuidava de sua aparência com esmero e procurava reduzir as dificuldades provocadas por sua deficiência nas pernas de um modo bastante sofisticado. Primeiramente, quando recebia visitas de importância, o fabuloso ferreiro e artesão parava para lavar o rosto, os braços, o pescoço e o peito. Logo após, vestia uma túnica limpa e, apoiado num trabalhado bastão que ele mesmo fabricara, ia sentar-se em seu trono. Refinado como era, inventara duas estátuas


feitas de ouro e que muito se assemelhavam a duas lindas jovens, que se movimentavam e falavam, e que ficavam ao seu lado para tornar mais cômodos todos os seus movimentos! ... Segundo as lendas Hefesto teve vários filhos e um deles, Perifetes, tinha o mesmo problema físico do pai -- o que talvez indique certa crença popular de que alguns defeitos físicos podiam ser hereditários. Diferentemente do pai, Perifetes foi um bandido, assaltante de estradas. Teseu, o destruidor de monstros, arrancou-lhe o terrível bastão com que matava suas vítimas, terminando com o pavor que rondava Epidauros e os devotos de Asclépios, o deus da cura. Hefesto está representado no símbolo da Associação de Avaliação Profissional e de Ajustamento ao Trabalho dos Estados Unidos da América do Norte. -- *Outros seres mitológicos e as deficiências físicas e sensoriais* Existem diversas deidades e seres um tanto quanto irreais que estão inseridos na mitologia grega e que apresentam algumas anomalias ou deficiências que por vezes são sua característica principal. Vejamos os mais notórios: a) Deuses da Fortuna, do Amor e da Justiça: Segundo afirmam os especialistas em mitologia grega, as figuras dos deuses do Amor e da Fortuna são eventualmente apresentadas como pessoas cegas. Um dos mais marcantes exemplos dessas apresentações ocorre com a peça "Plutão, o Deus da Riqueza", de autoria de Aristófanes. Nela o temido senhor das profundezas do inferno é um mendigo cego e sobre ele falaremos mais adiante ao analisarmos Epidauros e sua importância na vida grega. Todos nós conhecemos também a apresentação simbólica da Justiça como uma jovem cega, figura que chegou aos nossos dias e é muito utilizada em nossos meios jurídicos. b) Édipo e sua tragédia: Uma figura trágica das muitas e coloridas histórias e lendas gregas é aquela de Édipo. Matou o próprio pai para poder casar-se com a mãe, sem estar consciente do relacionamento que havia entre eles. Ao descobrir toda a verdade, com a ajuda do adivinho cego, Tirésias, o rei Édipo arrancou os próprios olhos e viveu o resto de seus dias em total isolamento, numa atitude de autopunição e desespero. c) Filomela e Procné: a andorinha e o rouxinol: Segundo lendas que cercam essas duas figuras da mitologia grega, Pandion era rei de Atenas e tinha duas filhas muito belas que eram Filomela e Procné. Esta casou-se com Tereu, rei da Trácia, e teve um filho, cujo nome era Itys. Com o passar dos anos, entretanto, Tereu começou a prestar mais atenção à sua linda cunhada e ficou apaixonado por ela. Tendo-a em determinada circunstância forçado a ter com ela relações amorosas e notando sua revolta, cortou-lhe a língua para impossibilitar a formulação de alguma acusação de sua parte. Todavia Filomela encontrou um meio convincente de apontar o culpado. Bordou uma toalha com figuras, contando todo o drama. As duas irmãs passaram a perseguir ferozmente a Tereu que, com o auxílio de outros seres mitológicos, conseguiu transformá-las em pássaros para sempre: Procné tomou a forma de um rouxinol e Filomela de uma andorinha. d) Licurgo, rei mitológico da Trácia: Foi castigado com a cegueira por ter proibido em seu reino o culto a Dionísio, deus do vinho e correspondente ao Baco dos romanos. Essa proibição ocorreu depois do corajoso rei ter tomado atitudes bastante agressivas contra o mencionado culto. Mandara, por exemplo, arrancar de seu reino todas as vinhas e maltratara pessoalmente o famoso e muito popular deus do vinho. e) Fineu, outro rei da Trácia: Igualmente mitológico, abusava dos seus poderes de adivinhação, revelando aos homens as confidências e as intenções dos deuses moradores no Olimpo. Foi castigado pelos poderosos imortais a fazer uma opção: viver uma longa vida sem visão ou morrer. Preferiu a primeira opção. Casado com a filha do rei Bóreas,


Cleópatra, teve com ela dois filhos, Depois de algum tempo de casado repudiou a esposa, como era facultado aos homens fazer, e casou-se com Idéia, filha de Dárdano, o famoso construtor das muralhas de Tróia. Esta não gostou dos filhos adolescentes de Cleópatra e logo encontrou meios para acusá-los de terem tentado violentá-la. Fineu, muito furioso e intempestivo, mandou vazar os olhos dos dois, sem fazer qualquer averiguação. No entanto, o castigo prometido pelos deuses chegou quase que imediatamente, pois os irmãos da repudiada Cleópatra que faziam parte da expedição dos Argonautas, vazaram seus olhos. -- *As deficiências físicas na realidade da vida militar grega* Na Grécia Antiga, em épocas anteriores ao surgimento do Cristianismo, encontramos muitos indícios de medicina bastante evoluída e da organização de diversos serviços de saúde, tanto para o povo quanto para os soldados que procuravam garantir a sobrevivência e a pujança de sua pátria. Serviços médicos na área militar não atendiam apenas a soldados gregos e seus aliados mas também a prisioneiros com problemas de mutilações ou com doenças graves. As amputações traumáticas das mãos, braços e pernas ocorriam com freqüência nos campos de batalha devido aos combates corpo-a-corpo e ao uso de armas cortantes. Para as pernas havia algumas proteções por meio das já citadas "cnêmides", que certamente impediam muitos ferimentos mais sérios em guerreiros importantes. Lâminas ameaçadoras que eram colocadas nos eixos dos carros de combate eram um dos perigos de amputações ou ferimentos sérios. Ocorriam também ferimentos com pancadas violentas e armas penetrantes. Médicos destacados para servirem nos exércitos de então acumulavam rapidamente larga experiência, apesar de disporem de parcos recursos para aliviar dores, estancar o sangue ou outras providências que poderiam salvar vidas em perigo. Hemorragias eram estancadas por vezes com ferro em brasa ou com o cobre superaquecido. Às vezes ferimentos graves eram tratados na retaguarda com óleo fervendo e alguns escapavam com vida a tais tipos de tratamentos. -- *As principais causas de deficiências na Grécia Antiga* Na antigüidade clássica praticamente todos os povos chegaram a desenvolver atividades de assistência pública devido à insuficiência daquelas prestadas pela população, de maneira direta. Segundo alguns autores, Aristóteles já indicava que "é mais fácil ensinar a um aleijado a desempenhar uma tarefa útil do que sustentá-lo como indigente". Não só para Aristóteles, mas para muitos pensadores e políticos gregos, competia ao Estado proteger os pobres, os miseráveis e, quase sempre no meio deles, os portadores de deficiências devido a qualquer causa. Na abalizada opinião do Professor Pournaropoulos, na Grécia Antiga havia três tipos de pessoas com deficiências: - os mutilados ou deficientes devido a ferimentos ou a acidentes próprios da guerra e de atividades afins; - os prisioneiros de guerra com deficiências físicas, ou os detentos criminosos civis, cuja mutilação ou deficiência era causada por uma pena ou castigo; - os deficientes civis por doenças congênitas ou adquiridas, ou também por acidentes os mais variados. Dentre os acidentes da vida civil (na vida industrial e também na forte construção civil gregas) os acidentes de trabalho ocorriam com bastante freqüência devido à falta de medidas de segurança ou de proteções especiais. Um caso que passou para a História Grega ocorreu com o famoso arquiteto Mnésicles, que no ano 435 a.C., ao inspecionar as obras de


construção da monumental propiléia da Acrópole de Atenas, caiu de um dos andaimes. Segundo nos relatam os historiadores e analistas da História Grega, Mnésicles não ficou paralisado pelo resto de seus dias por mera sorte. Entretanto o misticismo grego conta-nos uma história interpretativa diferente, afirmando que quem o salvou foi a deusa Athena (Minerva para os romanos), pois ela apareceu num sonho a Péricles, que àquela oportunidade comandava os destinos da cidade-estado de Atenas. A ele a deusa sugeriu um misterioso tratamento que deveria ser aplicado no famoso arquiteto acidentado. Com a sua recuperação miraculosa, tão vital para a glória da poderosa Atenas, Péricles mandou erigir uma linda estátua de bronze da deusa salvadora no próprio lugar da queda, e em seu pedestal mandou gravar estas palavras reconhecidas que só foram descobertas muitos séculos após, devido às escavações: THEY ATHENAI HIGIEIAI (A Athena Salvadora) -- *Tirteu, poeta Lírico com deficiência física* Nascido na Ática em meados do século VII a.C., Tirteu é identificado pelos historiadores como um dos poetas líricos elegíacos iâmbicos mais expressivos da Grécia Antiga. Trabalhou no inicio de sua vida como professor de uma escola ateniense, embora sofresse bastante com as limitações físicas marcantes que o obrigavam a claudicar significativamente. No entanto, o poeta Tirteu viveu numa época em que a poesia era muito valorizada, o que o tornou muito aceito nos meios atenienses mais cultos. Conta-nos sua quase lendária história que durante a Segunda Guerra Messênica os espartanos foram obrigados a fazer aos atenienses um pedido incomum: precisavam de um general para comandar suas forças, não porque inexistissem homens capazes na aguerrida Esparta, mas devido a uma clara indicação do sagrado oráculo de Delfos. Os atenienses ironicamente mandaram aos espartanos o poeta Tirteu, manco como era, sem nenhum conhecimento de vida militar e um mero poeta. Mas os espartanos respeitaram a indicação, pois viram naquele homem, cuja figura física seria inaceitável nas elites de Esparta, um verdadeiro sinal de Apolo, o deus dos oráculos e também do canto. Na prática Tirteu provou ser muito competente em sua missão inusitada. Explorou a interpretação indicada e as diversas conotações da mesma. Adotou uma linha de valorização da coragem dos soldados espartanos em todos os seus cantos de guerra, conduzindo-os dessa forma à vitória final contra seus inimigos. Eis um de seus cantos que chegaram até nós: "Que honra para o jovem valente ser morto pelo seu país com a espada em sua destra" (Apud Pournaropoulos). - *As leis que favoreciam as pessoas deficientes* Na História Grega existem citações relativas à assistência destinada a pessoas deficientes que são muito mais claras e específicas do que aquelas encontradiças em culturas anteriores, contemporâneas ou posteriores. Havia, por exemplo, em Atenas e em Esparta - rivais famosas - determinações oficiais que davam aos soldados feridos e seus familiares vantagens de diversas naturezas. Existiam provisões especiais relacionadas à alimentação, como as que eram conseqüentes a uma lei de Sólon (640 a 558 a.C.) que determinava: "Soldados feridos gravemente e os mutilados em combate serão alimentados pelo Estado". Plutarco (45/50 a 125 d.C.), historiador e moralista grego, afirma que esse tipo de lei favorecia pessoas consideradas incapacitadas para obtenção ou a garantia de seu próprio sustento, mas que tais provisões não tinham sua origem tanto na sensibilidade de Sólon a respeito do problema geral dos soldados mutilados durante as muitas batalhas nas quais


Atenas estava continuamente envolvida. Na verdade, a compreensão mais aguda do problema que o grande estadista demonstrara originara-se do conhecimento que tivera das dificuldades vividas por alguém que Plutarco chega a identificar em sua obra apenas pelo nome, não lhe dando, porém, maiores qualificativos. O historiador grego afirma que essa famosa determinação legal "foi promulgada devido ao fato de Térsipo ter ficado inválido, e essa mesma lei foi usada mais tarde para uma outra semelhante, de Pisistrato" ("Sólon", de Plutarco). Houve, por muitos séculos, nas cidades de Atenas e de Esparta, determinações que davam aos soldados e seus familiares vantagens que todo o povo considerava como justas. No entanto, mesmo naquelas épocas surgiam elementos viciosos que procuravam tirar proveito das situações e tentavam indevidamente se enquadrar nessas vantagens, como podemos deduzir de um interessante discurso de Lysias (459 a 380 a.C.), orador extremamente eloqüente, citado pelos historiadores como inimigo ferrenho dos chamados Trinta Tiranos. Nesse discurso, Lysias faz comentários a respeito de diversos problemas das pessoas que tinham mutilações ou que apresentavam algum tipo de deficiência. E faz referências irônicas aos pseudo-deficientes perante o Senado Ateniense. Esse discurso chegou até nossos dias e é intitulado, na língua grega, "Uper tou Adunatou" (Em favor do deficiente). A questão deve ter deixado as autoridades e mesmo o povo ateniense bastante preocupados não só com o franco desmascaramento dos falsos deficientes, mas também com a necessidade de garantir a sobrevivência dos heróis atenienses do presente e do passado e daqueles outros que certamente iriam se prejudicar fisicamente em defesa de Atenas. Em seu trabalho relativo à constituição de Atenas, intitulado no grego "Athenáion Politéia", Aristóteles (384 a 322 a.C.), um dos maiores sábios de todos os tempos, afirmou taxativamente aos membros do Conselho Ateniense: "O Conselho passará agora a examinar o problema dos deficientes. Existe, de fato, uma lei que estabelece que todo ateniense cujos bens não ultrapassem três "minás" e cujo corpo esteja mutilado ao ponto de não lhe permitir qualquer trabalho, seja examinado pelo Conselho e que seja concedido a cada um deles, às expensas do Estado, dois óbulos por dia para sua alimentação. E existe um tesoureiro dos deficientes, designado para tal" ("Constitution d'Athène", de Aristóteles). Percebe-se, portanto, que não se tratava de mero paternalismo nem de esmola oficializada pelo Estado. O indivíduo tinha seu caso estudado antes de receber os óbulos estabelecidos e ao início da aplicação desses planos não ocorreram muitas fraudes. A cidade-estado de Atenas tivera meio século após o discurso de Lysias para achar uma fórmula mais objetiva de atendimento aos deficientes. Defendia-se, na verdade, um direito adquirido pela prestação de serviços à Pátria. Nota-se pelo estudo da História Grega que esse beneficio foi aos poucos sendo estendido a outras pessoas portadoras de deficiências ou de incapacidade para o trabalho, independentemente da causa do problema, abrangendo eventualmente os pobres em geral. Na época em que Aristóteles chamou a atenção do Estado para o problema, já havia mais de 20.000 pessoas alimentadas às expensas do governo ateniense, devido a muitos tipos de deficiências e doenças, correspondendo a 20% da população total de Atenas. - *A medicina grega e as deficiências físicas* A Grécia Clássica foi a pioneira dos movimentos de assistência médica à sua população civil. Nomes famosos como os de Asclépios (Esculápio para os romanos), médico renomado que muitos anos após sua morte foi transformado no próprio deus da medicina, Demócedes de Crotona, Eródicos, Hipócrates e Cláudio Galeno, enriqueceram o cabedal de estudos


sobre medicina e também sobre questões ligadas direta ou indiretamente a deficiências físicas e sensoriais, durante muitos séculos. Dentro dos objetivos deste trabalho, procuraremos restringir a pesquisa às atividades ou personalidades de alguma forma relacionadas a deficiências físicas ou mentais sérias e também ao eventual tratamento dispensado aos portadores de algum tipo de deficiência na Grécia Antiga. É do conhecimento geral que a medicina grega não conheceu fronteiras, pois seus mais famosos e competentes homens eram avidamente procurados por reis e pela nobreza de vários paises vizinhos, tais como do Egito, Roma, Pérsia e outros mais. Um pequeno exemplo poderá muito bem ilustrar essa procura e ao mesmo tempo a velada disputa existente entre médicos egípcios, também muito famosos por séculos, e os médicos gregos. Um acidente na área da ortopedia, que quase levou um rei famoso a uma séria deficiência física, fez com que a medicina grega penetrasse no Império Persa, no qual médicos egípcios pontificavam, devido ao fato de por muito tempo terem sido considerados como os mais competentes e mantenedores de renome soberbo. Heródoto que nos relata que Dario I (521 a 486 a.C.), orgulhoso soberano persa, ao descer num salto arrojado de seu cavalo durante uma caçada, torceu violentamente o pé. Os médicos de sua corte - todos eles egípcios por preferência e exigência do próprio monarca eram adeptos de técnicas um tanto violentas para casos de deslocamento, fraturas, luxações e males afins e acabaram piorando o problema de Dario. Por sete dias e sete noites ele ficou sem dormir devido às fortes dores no pé, todo inchado e dolorido ao extremo. No oitavo dia ele não suportava mais as dores e o desconforto de não poder nem dormir e, quando todos aos seu redor já sentiam que a irritação do soberano persa poderia fazer rolar algumas cabeças, inclusive de assustados médicos egípcios, Demócedes, médico grego nascido em Crotona, que vivera em Atenas e na ilha de Samos onde havia aprendido e praticado medicina, foi levado à sua presença, às pressas e também à força. Mal vestido, sujo e cheirando mal devido às circunstâncias de sua verdadeira caçada para ser levado ao rei, e além disso, arrastando ruidosa e acintosamente seus grilhões de prisioneiro, não causou boa impressão. Dario, irritado sobremaneira pelo seu próprio problema e pela decepção face à sua esperança naquele médico grego sobre o qual seus auxiliares vinham falando há dias e que poderia tirá-lo daquela desconfortável situação de incapacidade física, perguntou aos gritos se ele pelo menos entendia um pouco de medicina. Demócedes, de seu lado muito preocupado em poder voltar à Grécia, respondeu que não. O que ele não esperava é que Dario, que antes ouvira falar de sua vasta competência em medicina, mandasse seus servos buscar açoites e instrumentos de tortura. Diante da negra perspectiva, confessou que entendia um pouco de medicina e que vivera um pouco com um outro médico grego, mas que seus conhecimentos eram muito limitados e jamais poderiam chegar aos pés daqueles dos médicos-sacerdotes egípcios ali mesmo presentes. Mesmo assim o desesperado Dario fez questão de ficar sob seus cuidados. Demócedes, já limpo e sem grilhões, começou por usar métodos mais suaves para recuperar o dolorido pé do monarca persa. Usou ungüentos e remédios que conhecia graças à sua experiência na Grécia, tendo tomado antes a sábia decisão de fazer o irritado Dario dormir, para depois, por um tratamento mais prolongado e menos traumatizante, recuperá-lo - impedindo uma eventual amputação - e fazê-lo voltar a andar. O médico grego transformou-se no médico favorito de Dario, lá estabelecendo-se com o mais absoluto sucesso e abrindo caminho para muitos outros médicos gregos no Império Persa. Demócedes tornou-se muito rico e famoso


desde então, tendo sido um dos fatores decisivos na finalização dos planos de Dario I para a invasão da Grécia à qual sempre pretendeu voltar e nela se radicar. - *A medicina de Hipócrates e as deficiências* Eródicos, médico grego de vastíssima experiência, foi um dos principais mestrês de Hipócrates (460 a 377 a.C.). Segundo a opinião de alguns estudiosos da história da medicina, foi Eródicos o primeiro médico mais famoso que começou a utilizar técnicas de tratamento que ele mesmo chamava de "ginástica médica", uma incipiente fisioterapia . Hipócrates, por seu lado, apresenta em muitos de seus trabalhos várias descrições e análises sobre males incapacitantes ou limitadores. Dentre eles destacamos a espondilite, a escoliose, o deslocamento congênito da bacia. Além disso o grande mestre da medicina indicava como fazer o tratamento por meio de massagens, de calor e de sua "ginástica terapêutica" - também uma antecessora da fisioterapia. Segundo estudiosos dos trabalhos de Hipócrates, foi ele que deu início à árdua tarefa de separar a superstição e o misticismo da realidade dos fatos em medicina, especialmente no tratamento de alguns males misteriosos para aqueles afastados séculos. Sua famosa máxima "divinum opus est sedare dolorem" (aliviar a dor é uma obra divina) durante muitos séculos levou muitos homens dedicados à ciência de curar a continuamente procurar métodos mais humanos e menos dolorosos durante procedimentos cirúrgicos, de um modo especial nas amputações causadas por lesões de origem traumática. Hipócrates dedicava-se à medicina como um todo, não sendo nada estranho, portanto, que conhecesse bem uma infinidade de problemas médicos e seus remédios. Dentre eles destaquemos cerca de 30 doenças relacionadas à visão. Lidou, portanto, com males que levavam também a deficiências físicas ou sensoriais. - *Hipócrates e suas idéias quanto à epilepsia* Com relação a um dos principais e mais misteriosos problemas causadores de muito séria marginalização, ou seja, a epilepsia, Hipócrates insistia que o famoso "mal divino", tão comum nos oráculos, nos sacerdotes e mesmo nos imperadores da antigüidade nas mais variadas culturas e povos, não passava de um mal que não era nem sagrado nem divino, pois tinha causas naturais. Eram a ignorância, o medo, a superstição e a crendice que levavam o homem a crer em sua sobrenaturalidade, muitas vezes até sugerida ou confirmada por homens dedicados à medicina, principalmente por não saberem como tratá-la. Sobre esse assunto Hipócrates diz textualmente: "Na minha opinião pessoal, aqueles que primitivamente deram a essa doença um caráter sagrado eram feitos mágicos, exorcisadores, curandeiros e charlatões dos nossos tempos, homens que se gabam de possuir grande devoção e não menor sabedoria. Não sabendo e não possuindo medicamento algum que os possa auxiliar, escondiam-se e abrigavam-se por detrás da superstição, chamando a essa doença de sagrada, a fim de que sua profunda ignorância não chegasse a manifestar-se"... "Mas essa doença, na minha opinião, não é mais divina do que qualquer outra; possui a mesma natureza das demais, com a mesma causa que dá origem a cada uma das doenças"... "Sua origem, como a de outras, reside na hereditariedade" ..."O fato é que a causa dessa afecção, como em geral a de todas as doenças mais graves, reside no cérebro" (Apud Tavlor). - *Adaptações para prevenir deformações em crianças* Já era do tempo de Hipócrates, que certamente deu relevante contribuição ao assunto graças à sua vasta experiência, a adoção de medidas preventivas de defeitos físicos em


crianças de pouca idade. Os gregos e muitos outros povos que viviam no século IV a.C. usavam certos tipos não identificados de recursos artificiais que são citados por Aristóteles meio século após a morte de Hipócrates. A afirmação taxativa do grande filósofo grego é esta: "Todos os movimentos aos quais as crianças podem se sujeitar em idade tenra são muito úteis. Mas, a fim de preservar seus frágeis membros de defeitos, tem usado aparelhos mecânicos que fortificam seus membros" ("Politics", de Aristóteles). A tradução do grego para o inglês utiliza as palavras "mechanical appliances", enquanto que a versão francesa adota a palavra "machines" para o mesmo vocábulo grego. É de se ressaltar, entretanto, a importância já dada a medidas preventivas generalizadas, segundo afirmação de Aristóteles. Foi exatamente sua relevância que o levou a fazer dela menção expressa em uma de suas obras mais importantes. - *Cláudio Galeno e sua importância* Nascido mais de cinco séculos após a morte de Hipócrates, um outro médico grego que teve grande influência no desenvolvimento da medicina como um todo e que também trabalhou com situações de deficiências físicas foi Cláudio Galeno (131 a 201 d.C.), na cidade de Pérgamo, na Grécia. Trabalhou muito em fisiologia experimental, passando a maior parte de sua vida em Roma e outras paragens do Império Romano - o que não era de estranhar nos séculos do apogeu romano. Foi primeiramente médico de arena dos famosos circos romanos; após, foi destacado para ser médico de várias legiões romanas por muitos anos, durante os quais acumulou enorme experiência. Posteriormente, devido à sua competência, foi promovido para médico imperial e também para professor de medicina. Seus trabalhos e sua relatada experiência sobreviveram a ele e foram quase dominantes em medicina durante muitos séculos da Idade Média, chegando a ser usados em diversas escolas de medicina até o século XVII. Escreveu sobre várias paralisias, tendo estudado a fisiologia patológica de maneira mais cientifica do que a anteriormente conhecida. Sempre muito envolvido no atendimento a casos de ortopedia, como é fácil de imaginar pela sua vida juntos aos circos romanos e a legiões diversas; foi o primeiro a utilizar certos termos médicos identificadores de males e que são até hoje empregados, tais como: "kyphosis", "lordosis", "skoliosis", dentre vários outros. - *Demócrito e Homero: homens cegos e muito famosos* Dos homens gregos portadores de deficiências ou de limitações, que se notabilizaram e passaram mesmo para a História, o leitor certamente apreciará a lembrança de Demócrito e de Homero. Demócrito (470 a 360 a.C.) foi um físico e filósofo grego. Em seu modo de ver, devemos procurar tudo de bom que o mundo pode ter, dentro de um otimismo moderado e sem esquecer dos problemas inerentes a ele, Embora suas obras mais famosas não tenham chegado até nós, escreveu-as com títulos interessantes, como, por exemplo, "sobre a tranqüilidade da alma", "sobre a natureza do homem", "sobre as causas da harmonia celestial" e outros. Dele, quase quatro séculos após sua morte, escreveu Cícero: "Demócrito, após perder a visão, não podia mais distinguir o branco do preto; mas distinguia o bem do mal, o justo do injusto, o honesto do desonesto, o útil do inútil, o grande do pequeno. Pode-se ser feliz sem distinguir a verdade das cores, mas não se poderá sê-lo sem dominar idéias verdadeiras. Esse


homem acreditava até que a visão era um obstáculo às operações da alma" ("Tusculanae Disputationes", de Cícero). Diz a lenda que, para melhor meditar, Demócrito havia inutilizado seus próprios olhos, pois expusera à luz do sol por muito tempo uma placa de cobre brilhante, fazendo incidir seus raios sobre seus olhos (Apud Cabanès). Quanto a Homero, já notamos a grandiosidade de suas obras Ilíada e Odisséia - ao falar de Hefesto, o deus da metalurgia. A respeito desse grande poeta grego, afirmou Cícero quando analisava os males que aparentemente podem tornar uma vida miserável, mas que podem ser superados graças à força de cada um: "Homero era cego, segundo a tradição. Seus poemas são verdadeiros quadros: que lugares, que praias, que paragens da Grécia, que tipos de combates, que estratégias de batalhas, que manobras navais, que movimentos de homens e de animais são tão fielmente retratados pelo autor, que parece nos colocar sob os olhos, o que ele mesmo não havia nunca visto! O que é, então, que faltou a esse grande gênio não mais do que a outros homens verdadeiramente sábios, para aproveitar todos os prazeres de que a alma é capaz?" ("Tusculanae Disputationes", de Cícero). - *Demóstenes e seus pouco conhecidos problemas* Homem famoso e importante do século IV a.C. foi o orador e político ateniense, Demóstenes. Embora tenha nascido de família bastante abastada, o garoto perdeu seus pais muito cedo e sua fortuna foi malbaratada pelos seus tutores. O jovem Demóstenes tinha sérias dificuldades para falar correntemente. Gaguejava muito, segundo os historiadores. Ao que parece ele colocava pedrinhas na boca e gritava ao arrebentar das ondas, a fim de vencer a dificuldade. De fato, obteve uma grande vitória sobre os problemas de comunicação que o afligiam, pois chegou a tornar-se um dos mais enfáticos oradores atenienses, chamando sempre a atenção de seus concidadãos para o perigo contínuo dos espartanos. Existem, no entanto, algumas dúvidas quanto à extensão dos males que de fato afetaram Demóstenes durante toda a sua vida e a mais séria delas nos é sugerida por duas obras de arte existentes no Museu Britânico, de Londres. Trata-se de duas cabeças do grande orador que nos dão a nítida impressão de que ele tinha lábio leporino do lado esquerdo. Saul M. Bien, do Instituto Gugenheim de Pesquisa Dentária da Universidade de New York, publicou na revista médica The Lancet uma interessante carta ao editor, anexando uma cópia de foto da peça em questão e afirmava àquela ocasião, entre outras coisas: "Lembrando que Demóstenes costumava descer à beira-mar, lá enchendo sua boca com pedrinhas para discursar acima do barulho das ondas, ocorreu-me que com toda a certeza o objetivo era conseguir uma pedra lisa e plana que serviria como um obturador para uma possível fissura palatal associada com presumível defeito no desenvolvimento labial". Se a hipótese de Bien estiver correta, ressaltemos que o esforço para a superação dos problemas que afetavam Demóstenes duramente foi bem maior do que o imaginado por muitos séculos já passados após sua morte. - *Pessoas deficientes trabalhando citadas em obras gregas* Homero faz diversas citações de pessoas portadoras de deficiências desempenhando funções com grande sucesso. Uma dessas citações fala de Hefesto, conforme tivemos oportunidade de ver anteriormente: um ser superior com deficiência nas pernas e indicado como exímio artífice e magnífico ferreiro. Lenda provavelmente indicativa dos costumes e usos da sociedade de então, cinco séculos antes da época de Hipócrates. Outra figura citada pelo mesmo autor relaciona-se a um contador de histórias e de rapsódias, além de cantor de voz agradável: Demódoco, "ao qual, mais do que a ninguém, a


divindade outorgou o dom de deleitar com seus cantos, seja qual for o assunto que seu coração lhe inspire" . . . Homero afirma também que Demódoco era "entre todos querido da Musa, a qual lhe dera, a um tempo, o bem e o mal, pois, o privara da visão e lhe concedera o melodioso canto" ("Odisséia", de Homero). Há uma terceira figura citada por Homero na Odisséia: Tirésias. Era um adivinho cego, muito famoso, proveniente da vila de Tebas. Inserido em diversas outras obras, a história de Tirésias confirma a crença de que a cegueira não era só um mal, mas um castigo também. Ele ficara cego por ter revelado à humanidade os segredos do Olimpo. Segundo as lendas, foi Tirésias que colaborou com o rei Édipo na descoberta das origens e circunstâncias de seu nascimento, o que levou o infeliz monarca a arrancar os próprios olhos, conforme vimos em páginas anteriores. As lendas acrescentam que mesmo após a morte, do próprio Hades (mansão dos mortos) para onde foi, Tirésias continuou a fazer adivinhações. Retratando ou não a viabilidade da função de adivinho ou oráculo ter sido bastante desempenhada por pessoas deficientes, um pouco mais adiante citaremos casos reais que comprovam essa possibilidade. As aplicações da vida prática nas obras literárias são muito comuns e certamente influenciaram também os escritores gregos. Os exemplos citados acima, que são apenas uma ilustração retirada das obras de Homero, deixam-nos a impressão de que pessoas deficientes tinham seu lugar na sociedade produtiva grega, desde que exercendo funções à sua altura. O próprio Homero é um incrível exemplo de competência. - *Creso, o mais feliz dos homens* Creso é uma figura conhecida na História dos povos que gravitavam ao redor da Grécia, da Pérsia, do Egito e de outros países mais fortes e pujantes do século VI a.C. Foi rei da Lídia entre 563 e 548 a.C. e, tido como riquíssimo, considerava-se para todos os efeitos o homem mais feliz de todo o mundo. Foi em certa ocasião visitado por Sólon (640 a 558 a.C.), um dos sete sábios de Atenas, já com mais de 75 anos de idade que, embora impressionado com a sua riqueza, considerou outros homens já mortos como mais felizes do que Creso. Segundo o velho legislador ateniense, ninguém poderia afirmar com segurança que este ou aquele homem era o mais feliz durante sua vida. A infelicidade sempre poderia surgir repentinamente. E Creso teve de fato, logo a seguir, dois problemas seríssimos que provaram a teoria de Sólon, empanando de vez a sua felicidade: teve dois filhos, "um dos quais vitimado por uma desgraça de nascença: era surdo-mudo" ("História", de Herodoto). O outro filho, apesar dos extremos cuidados do pai por muitos anos, morreu acidentalmente durante uma caçada em companhia de amigos e nobres da corte de seu pai. Creso teve também a infelicidade de ver seu reino invadido e dominado por Ciro, rei dos persas, sendo por ele condenado à morte. Deveria ser decapitado na presença do filho surdomudo e de sua corte. No momento em que o carrasco, de espada levantada, ia desferir o golpe mortal, o filho de Creso, num emocionante gesto de amor filial, superando a deficiência que o mantivera mudo até então, gritou: "Soldado, não mate Creso!" Ciro ficou tão impressionado com a reação do garoto e com a coragem demonstrada por Creso que mandou soltá-lo e recebeu-o como um de seus conselheiros. Apreciou tanto seu modo de ser que o recomendou a Cambises, seu sucessor, do qual já falamos. - *A importância dos oráculos e adivinhos na vida grega*


Todos os historiadores gregos transmitem-nos uma nítida impressão da crença que todo o povo e mesmo todas as autoridades depositavam nos oráculos e nas mensagens transmitidos por sacerdotes, pitonisas e adivinhos, quase todos eles verdadeiros recados cifrados dos deuses consultados que admitiam algumas interpretações. Raramente decisões de importância eram tomadas sem que esses canais de comunicação com os deuses fossem consultados. O costume era tão arraigado e tão levado a sério que cada comandante mantinha ao seu lado um adivinho incorporado e pago pelo governo, consultando-o antes de movimentar suas tropas para um combate. Alguns desses adivinhos eram portadores de deficiências as mais variadas, conforme comentamos anteriormente, sendo vítimas da epilepsia (o famoso "mal sagrado") ou de cegueira, na maior parte dos casos. Muitos deles tornaram-se famosos no exercício de sua função, quer analisando o vôo dos pássaros, quer examinando as entranhas de animais sacrificados, ou mesmo dando interpretações instantâneas a alguns sinais da natureza, como os ventos, raios, trovões, tremores de terra, eclipses do sol ou da lua, por exemplo. Heródoto fala-nos a respeito de diversos adivinhos, durante a fortíssima campanha do rei Xerxes, soberano dos persas, contra a Grécia, nos anos 480 a 479 a.C., sendo Megístias um deles. Seguia esse adivinho o heróico grupo dos 300 espartanos de Leônidas que, no estreito das Termópilas, chegou a bloquear por vários dias o imenso exército do poderoso Xerxes, com mais de três milhões de soldados. Conta-nos Heródoto: "O adivinho Megístias, tendo consultado as entranhas das vítimas, comunicou aos gregos que guardavam o desfiladeiro das Termópilas, que eles deviam perecer no dia seguinte, ao romper da aurora" ("História", de Heródoto). A credibilidade do adivinho era tal que Leônidas ordenou às suas tropas de apoio (4.000 homens de cidades aliadas à causa) para se retirar naquela noite mesmo, permanecendo no local apenas ele, seus trezentos espartanos e o próprio Megístias que não quis abandonar seu rei. E lá deixaram uma mensagem famosa e tocante que hoje está inscrita no belo monumento ali existente: "Caminhante, vá dizer aos espartanos que aqui morremos em obediência às suas ordens" ... - *A história de um adivinho famoso que era cego* Outro adivinho mencionado por Heródoto na mesma obra, de nome Deifono, originário de Apolônia, na Ilíria (hoje Albânia), era filho de Eveno, adivinho muito mais famoso e que era cego. A história de Eveno, nas palavras do próprio Heródoto, é esta: "Durante todo aquele dia os combatentes gregos mantiveram-se em repouso, e na manhã do dia seguinte realizaram sacrifícios aos deuses, sendo-lhes favoráveis os augúrios deduzidos do exame das entranhas das vítimas. Tinham eles por adivinho Deifono, de Apolônia, cidade situada no golfo lônio, filho de Eveno, a quem aconteceu estranho fato, que passo a relatar. Existem na cidade de Apolônia rebanhos consagrados ao sol. Durante o dia esses rebanhos pastam às margens de um rio que desce do monte Lácmon, atravessa aquela cidade e desemboca no mar perto do porto de Órico; mas à noite são guardados por um habitante da cidade, escolhido todos os anos entre os cidadãos da mais alta categoria, quer pelo nascimento, quer pelas suas posses; pois os Apolonitas, em vista da advertência de um oráculo cercavam esses rebanhos do maior cuidado. Passavam eles a noite numa gruta afastada da cidade. Eveno, tendo sido escolhido para essa missão, dormiu quando devia velar. Os lobos, entrando na gruta, devoraram cerca de sessenta animais. Despertando e vendo o que acontecera, Eveno resolveu ocultar o fato, com a intenção de adquirir outros animais para substituir os que haviam sido devorados pelas feras. Contudo, os Apolonitas vieram a ter conhecimento da


verdade e, indignados, submeteram Eveno a julgamento, condenando-o a perder a vista, por ter dormido quando devia estar vigilante. Mas depois que lhe vazaram os olhos, os rebanhos deixaram de procriar e a terra cessou de produzir frutos. Essa calamidade lhes havia sido predita pelo oráculo de Dodona e de Delfos. Os profetas, consultados sobre a causa de tamanha desgraça, responderam constituir aquilo uma punição pela injustiça que haviam cometido, cegando Eveno, guarda dos rebanhos sagrados. Disseram que eles próprios tinham enviado os lobos e que continuariam a vingá-lo até que os Apolonitas reparassem a sua injustiça para com ele. Quando isso se desse, eles próprios concederiam a Eveno um dom que o faria parecer a muitos um homem verdadeiramente feliz". Heródoto continua a narrativa, informando: "Ante essa resposta, que lhes foi dada sob sigilo, os Apolonitas incumbiram alguns de seus concidadãos de irem à procura de Eveno, a fim de sondá-lo quanto à sua maneira de sentir com relação à pena que lhe fora imposta. Os emissários foram encontrar Eveno sentado numa cadeira. Tomando assento ao seu lado, puseram-se a falar-lhe sobre coisas banais, fazendo, aos poucos, recair a conversa sobre a desgraça que o atingira, terminando por perguntar-lhe como receberia uma reparação dos Apolonitas, se eles se mostrassem dispostos a assim proceder, e qual a que ele considerava mais justa no caso. Eveno, que ignorava a resposta do oráculo, respondeu que, se os Apolonitas, em reparação ao mal que lhe causaram, lhe concedessem terras, escolheria as de dois de seus concidadãos, cujos nomes citou, consideradas as melhores de todo o país. Gostaria também que lhe dessem a mais bela casa da cidade. Com tais compensações ficaria satisfeito, cessando as suas queixas contra os seus concidadãos". "Eveno - disseram os emissários - os Apolonitas lhe concedem, obedecendo às ordens do oráculo, a reparação que exiges pela perda da visão". Posto, então, ao corrente dos fatos que se seguiram à sua punição, Eveno mostrou-se bastante contrariado por haver sido enganado; mas os seus desejos foram satisfeitos, pois os Apolonitas adquiriram as propriedades que ele havia escolhido e fizeram-lhe presente delas. Logo depois, os deuses lhe concederam o dom da adivinhação, com o que ele adquiriu grande celebridade" ("História", de Heródoto). - *As próteses de Hegesístrato, adivinho grego* Hegesístrato de Eléia é considerado como o adivinho "mais célebre das Telíadas", na opinião de Heródoto, aparecendo como agregado às tropas de Xerxes, por volta de 479 a.C., ao final da grande luta contra os gregos. Vários anos antes disso, todavia, os espartanos haviam capturado Hegesístrato que era apenas um rebelde que combatia continuamente a Lacedemônia. Posto a ferros, devia ser executado após inimagináveis torturas, Heródoto nos conta que "encontrando-se em tão triste situação e tendo antes de ser executado de sofrer ainda os mais cruéis tormentos, praticou um ato de incrível temeridade. Achava-se com os pés presos em entraves de madeira guarnecidos de ferro. Servindo-se de um instrumento cortante, que alguém, sem dúvida, lhe havia trazido, seccionou a parte do pé acima dos dedos, depois de ter examinado se poderia libertar dos entraves o resto do pé. Depois de ter praticado a mutilação e retirado o pé, como a prisão estava guardada, fez um buraco na parede e fugiu, caminhando durante a noite e escondendo-se durante o dia nos bosques. Na terceira noite de caminhada chegou a Tegéa, apesar das buscas dos lacedemônios, que se mostraram bastante espantados com a audácia do fugitivo ao verem nos entraves a parte dos pés mutilados". "Assim Hegesístrato, tendo conseguido escapar à perseguição dos lacedemônios, refugiou-se em Tegéa, que não se mantinha, naquela ocasião, em muito boas relações com


Esparta. Curando-se dos ferimentos praticados em si próprio, passou a usar pés de madeira e tornou-se inimigo declarado dos lacedemônios" ("História", de Heródoto). Diversos anos após, ocorrida a invasão de Xerxes, Hegesístrato trabalhou como adivinho de seus exércitos sendo muito apreciado e admirado por Mardônio, general comandante dos persas na Grécia. Vaticinara maus resultados para a batalha de Platéia, mantendo com isso o exército persa parado por 10 dias. Mardônio, entretanto, não lhe deu ouvidos, entrou na batalha e foi morto, deixando aos gregos a sensação de que finalmente Leônidas havia sido vingado. Os persas retiraram-se para a Tessália de onde prosseguiram, em retirada, até a Pérsia. - *Peste Ateniense: o terror generalizado* Dentre as epidemias graves, ou "pestes" como foram muitas delas conhecidas, podemos destacar três na antigüidade: a "Peste Ateniense", a "Peste Antonina" e uma outra, sem nome, que ocorreu no século III d.C. A "Peste Ateniense" teve uma testemunha ocular muito precisa no historiador Tucídides (471 a 395 a.C. ), tido como o mais brilhante dos historiadores gregos, que a relatou em sua obra "A Guerra do Peloponeso". Ela ocorreu no ano 428 a.C. e matou mais de 20 mil dos 100 mil habitantes de Atenas. Deixou um elevado número de vítimas com deficiências físicas. Tucídides nos conta com muita clareza: "Se se escapava dos problemas mais graves, o mal atingia as extremidades que, nesse caso, mantinham as marcas da sua passagem; atacava os órgãos sexuais, os dedos das mãos e dos pés. Muitos livraram-se dela com a perda desses membros, outros pela perda dos olhos: outros, enfim, ficaram totalmente privados da memória" ("Histoire de la Guerre du Péloponèse", de Tucídides). - *A atenção a soldados feridos ou doentes. Anábase, de Xenofonte* Raros são os autores gregos que analisam ou mesmo fazem qualquer menção ao problema dos feridos ou doentes nos exércitos da Grécia Antiga, muito embora as batalhas fossem sempre sanguinolentas e os tipos de armas então utilizadas levassem a incontáveis riscos não só de perfurações graves ou fatais, como também de cortes profundos e de amputações. Encontramos em "Anábase", a famosa obra de Xenofonte (430 a 355 a.C.),um relato pormenorizado sobre a retirada de 10.000 mercenários gregos contratados por Ciro, que disputava com seu irmão Artaxerxes II a coroa do Império Persa. Essa famosa "marcha para o norte", que começou em Cunaxa, onde Ciro foi morto em acirrada batalha, durou cinco meses entre 401 e 400 a.C. e nela tomou parte o próprio Xenofonte, como um de seus comandantes. É nessa obra que podemos encontrar algumas referências à questão dos feridos e dos doentes, e que poderão ser ilustrativas quanto ao tratamento e à atenção dispensados aos soldados fisicamente prejudicados em batalha. No enorme esforço coletivo para viabilizar o retorno de todo aquele infeliz exército, podemos imaginar a dramática situação vivida pela totalidade de seus homens e acompanhantes, sempre perseguidos por destacamentos das forças de Artaxerxes II ou pelas tribos habitantes das montanhas do Turquistão e da Armênia por onde passaram. O drama ficou muito mais forte quando tiveram que enfrentar os perigos das montanhas próximas ao nascedouro do Eufrates, cobertas de neve, uma vez que as circunstâncias da marcha contínua não permitiam deixar ninguém para trás.


Em sua narrativa cristalina Xenofonte fala de relance no sério problema dos soldados doentes ou feridos. Faz menção àqueles que haviam ficado cegos ou que tinham tido membros amputados devido ao congelamento. Descrevendo a pressa em subir as montanhas e em escapar dos desfiladeiros perigosos, cita os suprimentos e bens abandonados e imediatamente capturados e repartidos com um grande alarido pelos bárbaros que os perseguiam muito de perto. "Deixamos também para trás os soldados que a neve havia cegado ou que o frio havia congelado os dedos dos pés. Podia-se proteger os olhos do brilho da neve colocando diante deles um objeto negro enquanto se marchava. Podia-se também impedir os pés de congelar movimentando-os, não os deixando em repouso e tirando o calçado antes de dormir" ("Anábase", de Xenofonte). Esses homens eram sempre colocados e protegidos na retaguarda e ocasionalmente participavam das escaramuças com as tribos de montanheses, pelo menos com seus gritos furiosos e com o barulho infernal que podiam fazer batendo espadas e lanças contra seus próprios escudos. Nota-se em certos pontos do livro IV a preocupação e o carinho para com esses homens feridos ou doentes. Tanto isso é verdadeiro, que, após cinco meses de marcha para o Mar Negro, tendo chegado às costas e se instalado com certa tranqüilidade por um mês, decidiuse buscar a ajuda dos navios gregos. Enquanto ela não chegava para transportar os 8.600 homens e seus acompanhantes que haviam sobrevivido à travessia, os primeiros a embarcar para a pátria nos navios ali mesmo disponíveis foram os doentes e alguns outros componentes das forças gregas. Segundo palavras de Xenofonte, "embarcamos os doentes" - e dentre eles estavam os que podiam ser considerados como deficientes - "os soldados com mais de 40 anos, as crianças, as mulheres e a carga supérflua". - *Homens com sérias luxações nas pernas: sapateiros, ferreiros, seleiros* Informações interessantes sobre a utilização de homens com deficiências físicas nas profissões de selaria, sapataria e ferraria nos são transmitidas por Hipócrates ao comentar sobre a sociedade das Amazonas. Eram mulheres guerreiras que, segundo algumas lendas, habitavam a região da Capadócia. A etimologia da palavra não é muito segura, mas há os que afirmam tratar-se de antiga composição grega para o correspondente a "sem seio". As histórias relatam que as mães superaqueciam metais e outros objetos para deixá-los durante longo tempo bem próximos ao seio direito das meninas, dificultando com isso o seu crescimento e dando a cada uma delas, quando adultas, melhores condições para manuseio do arco e da flecha. Na verdade, nessa estranha e semi-fantasiosa cultura comentada por vários autores, tais como Homero, Heródoto e mesmo Hipócrates, cabia às mulheres lutar e aos homens, desenvolver trabalhos manuais sedentários em situações especiais, uma vez que toda criança do sexo masculino praticamente era levada ao próprio pai, em outras nações e terras distantes, para ser criada. Hipócrates, em sua obra sobre as articulações tece comentários bem específicos e muito claros quanto a deformações provocadas pelas Amazonas em seus filhos do sexo masculino que excepcionalmente ficavam com as respectivas comunidades. Diz o grande sábio: "Contam que as Amazonas provocam, desde a infância, em seus filhos do sexo masculino, uma séria luxação, seja nos joelhos seja nos quadris, com objetivo de, sem dúvida, transformá-los em coxos, e de impedir que os homens conspirem contra as mulheres; servem-se elas depois desses deficientes como trabalhadores, para as tarefas de sapateiro,


ferreiro e outros ofícios sedentários. Ignoro se a referência é verídica, mas o que é certo é que as coisas aconteceriam mesmo assim, se as crianças fossem mutiladas durante a infância" (Apud Moreno). - *Alexandre, o Grande: sua atenção a soldados com deficiência* Um dos maiores gênios militares que a Humanidade já conheceu, Alexandre III, o Grande (356 a 323 a.C.), rei da Macedônia de 336 a 323, criou o chamado Império Grego que ia desde os limites da Índia, a Leste, até a Cítia, ao Norte. Ao Sul atingia o Egito e o Golfo Pérsico. Foi educado por Aristóteles, especialmente contratado por Felipe da Macedônia, seu pai. Além de monarca e comandante militar, Alexandre foi filósofo, homem que respeitava os usos e costumes dos povos subjugados e repleto de dignidade. Morreu com apenas 33 anos de idade e ao final de sua curta vida, havia não apenas conquistado terras e reinos, mas também feito muitos amigos e aliados. Eventualmente encontramos informações de que Alexandre sofria de epilepsia, mas nem todos os autores o confirmam. Alexandre sempre foi muito participante da vida e das agruras sentidas por seus comandados, tendo em certa ocasião ficado quase cego devido ao seu envolvimento. É Plutarco que nos conta com pormenores coloridos o acontecimento. Foi durante violento ataque a uma fortaleza de tribos conhecidas como "malianas", atualmente em território da Índia. O destemido rei dos macedônios estava tentando galgar um dos lados da muralha que defendia as instalações, por meio de uma escada, juntamente com os demais companheiros, no auge da batalha, quando ela cedeu fragorosamente. Alexandre, agarrado que já estava ao alto da muralha, ali permaneceu e não teve outra alternativa a não ser saltar no meio dos inimigos que contra ele atiravam setas e pedras. Com o barulho do guerreiro e de suas armas batendo fortemente no chão, todos fugiram para os lados, mas logo voltaram-se para verificar se ele ainda vivia. E o ataque sobre ele foi feroz. Alexandre e apenas dois companheiros encostaram-se contra a muralha, próximos que estavam de uma grande árvore, e daquele ponto mesmo enfrentaram a multidão de inimigos e seus golpes violentos. Chegaram a ferir seriamente Alexandre com um golpe que furou sua armadura na altura do peito. "O golpe foi tão forte que ele, perdendo as forças, caiu de joelhos: aquele que havia desferido o golpe correu depressa com a cimitarra desembainhada na mão, mas Peceutas e Limneu lançaram-se à sua frente e foram ambos feridos; Limneu morreu na hora e Peceutas enfrentou-o, enquanto o próprio Alexandre matava o bárbaro com suas próprias mãos, depois de ter recebido várias feridas pelo corpo todo. Finalmente desferiram-lhe um golpe de cacete na nuca, deixando-o atordoado" ("Alexandre, o Grande", de Plutarco). Forrest, porém, discorda dessa tradução, uma vez que, segundo ele, "Alexandre recebeu um violento golpe na nuca com uma pedra, que apagou sua visão por um bom tempo" (Apud Forrest) Alexandre foi salvo pela imediata afluência de soldados macedônios, mas permaneceu muitos dias entre a vida e a morte. Pois bem, esse inimitável herói da história greco-macedônica que foi Alexandre, o Grande, sempre foi muito apreciador dos esforços e dos sacrifícios feitos por seus soldados. Tanto isso é verdade que, um ano antes de morrer procurou mandar de volta à Macedônia, com todo um aparato de segurança, "os doentes e os inválidos, que haviam perdido algum membro na guerra" ... Alexandre passou alguns dissabores com seus principais comandantes devido a esse plano, mas acabou por fazê-los retornar todos à pátria, "após lhes haver dado


magníficos presentes; escreveu ao seu lugar-tenente Antípater, que em todas as assembléias de jogos e de divertimentos públicos, eles fossem preferidos e se sentassem nos melhores lugares, coroados de flores e quis ainda que as crianças órfãs dos que haviam falecido, ao seu serviço, recebessem o soldo de seus pais" ("Alexandre, o Grande", de Plutarco). - *Asclepéia de Epidauros: seu significado para pessoas deficientes* Conforme analisamos anteriormente, a influência dos deuses foi marcante em praticamente toda a vida da Grécia Antiga, e mesmo depois de instalado o Cristianismo. Mais do que ninguém conhecedores disso, os sacerdotes e sacerdotizas procuravam, por todos os recursos à sua disposição, tornar o seu deus específico o mais eficaz e o mais poderoso possível. Asclépios, que os romanos, devido a uma corruptela de pronúncia, muito mais tarde passariam a chamar de Esculápio, reconhecido como o deus da cura e da medicina, foi um caso todo especial e que merece toda a nossa atenção, dentro do tema que estamos procurando analisar, contando com templos em cidades, ilhas e mesmo nações as mais diversas que recebiam a influência grega. Seu templo mais famoso foi aquele localizado em Epidauros, vila situada a nordeste do Peloponeso, ao sul da Grécia de nossos dias. Havia, no entanto, muitos outros templos e alguns deles considerados como muito importantes, tais como o de Pérgamo, de Tricca e de Cós. Em sua grande maioria os templos de Asclépios localizavam-se em pontos de alta salubridade devido ao ar muito puro, às águas termais e algumas outras condições que hoje caracterizam em geral as "estações hidrominerais". Quanto ao templo e às diversas instalações adjacentes de Epidauros, podemos admirar apenas suas ruínas, a mais de doze quilômetros do porto de Palaia Epidhavros. E o visitante não pode deixar de ficar admirado com a extinta pujança daquilo que por séculos diversos foi reconhecido como a "Asclepéia de Epidauros". Foram escavadas, parcialmente restauradas e tombadas as ruínas de seu teatro – famoso e muito bem conservado, sendo considerado como um dos melhores de toda a Grécia de hoje - do estádio esportivo, do ginásio que contava até com piscina, de uma espécie de hotelaria, de um muito sofisticado e complexo templo circular conhecido como "tholos", do próprio templo de Asclépios, de uma construção adjacente ao templo e conhecida como "abaton" e também de um hospital. Lemos no estudo biográfico romanceado sobre a vida de Marco Túlio Cícero, intitulado "A Pilar of Iron", da escritora norte-americana Taylor Caldwell, uma descrição minuciosa de Epidauros do século I a.C. e muitas de suas instalações. Vários pontos dessa descrição dos ambientes são muito importantes para melhor entendermos o real significado do conjunto de construções chamado de Santuário de Asclépios, ou "hiéron", no próprio grego, para pessoas vítimas de doenças crônicas, de males misteriosos e tidos como incuráveis e de deficiências das mais variadas naturezas. A escritora valeu-se de uma vasta documentação, visitas aos locais e conhecimentos acumulados por estudiosos especializados nas ruínas e no antigo funcionamento de Epidauros. Baseou-se também em muitas discussões com sociedades históricas e arqueológicas gregas. Diz ela em seu famoso livro que o "santuário de Asclépios, conhecido em todo o mundo civilizado, não era apenas um templo religioso e miraculoso, mas toda uma comunidade". Segundo a autora, em consonância com documentos históricos sobre o assunto, o santuário recebia continuamente pessoas portadoras de males os mais variados e muitos de natureza grave, e era o último recurso para aqueles que haviam sido abandonados ou desenganados pelos médicos como casos incuráveis ou sem qualquer possibilidade de solução.


Ali surgiam continuamente pessoas com artrite, cegos, surdos, mudos, deficientes mentais, vitimas de paralisias, reumáticos, casos de doenças degenerativas, vítimas de picadas de aranha ou de cobra, casos de gestação difícil, vítimas de acidentes com seqüelas graves e muitos outros. Por essa razão, e levando-se em conta o cerimonial adotado pelos sacerdotes para permitir a aproximação ao famoso deus da cura e da medicina, não é de admirar que eles fossem sempre médicos muito experimentados que guardavam em segredo fechado um verdadeiro e surpreendente monopólio de conhecimentos passados muitas vezes de pai para filho. Tratavam os casos não apenas com atenção e carinho de um sacerdote ou autoridade religiosa, mas com avançados conhecimentos de medicina. Epidauros, devido ao seu movimento contínuo e permanente afluência de casos médicos que durou mais de quatro séculos, chegou a representar um campo de observação e de prática da medicina antiga dos mais sérios de toda a Grécia Clássica, mas quase que totalmente inserido num ambiente fechado e muito místico no qual a fé nos poderes de Asclépios desempenhou um papel de fundamental importância. - *As famosas instalações de Epidauros* Analisemos um pouco suas instalações. O recinto sagrado propriamente dito ("hiéron") contava com algumas áreas especiais, conforme poderá ainda hoje ser observado nas próprias ruínas ali expostas. Dentre esses ambientes físicos especiais é necessário destacar o chamado "abaton" e o próprio templo do deus Asclépios. O primeiro é um amplo pórtico, todo construído em colunadas praticamente ao lado do templo, sendo internamente dividido em dois níveis. No nível inferior ficavam os casos de pessoas impossibilitadas de andar ou que provocavam sérios empecilhos para seu transporte e no superior havia acomodações para os casos menos graves. Há alguns estudiosos de Epidauros que afirmam ser a separação em níveis correspondentes à distribuição por sexo. Para todos os fiéis que desejavam uma aproximação a Asclépios havia condições previamente estabelecidas pelos sacerdotes tanto para entrada no templo como para utilização do "abaton". Os médicos-sacerdotes ficavam conhecendo todos os casos com antecipação e, a pretexto de regras do culto, iniciavam um tratamento prévio através de ritos purificadores incluindo neles os banhos medicinais, jejuns, dietas especiais, sacrifícios ao deus, donativos ao complexo sagrado e outros tipos de intervenção que procuravam ligar intimamente aos ritos de aproximação ao "abaton", caso o devoto tivesse condições de cura, possibilidades eventuais de volta ou necessidade de orientações para cura mais demorada. Após esses trabalhos iniciais e caso o devoto cumprisse todos os requisitos iniciais, ele era aceito para passar uma noite no "abaton", dormindo sobre uma pele de animal sacrificado ao deus ou sobre um catre, em ambiente intencionalmente misterioso. O templo de Asclépios, em Epidauros, era de um estilo dórico puro, todo cercado de colunas, medindo 25,50 metros de comprimento e 13 metros de largura. Suas paredes eram construídas de pedra rebocada de branco. Seu teto era todo forrado com táboas de cipreste. No frontão do templo havia uma vistosa estátua de Niké, a deusa da vitória. A entrada principal do templo era bem ampla, com cinco colunas dóricas e contava com uma rampa de acesso. Rampas de acesso eram também usadas nas instalações do edifício conhecido como "tholos", do "abaton" e da "propiléia" do famoso templo, conforme podem ainda ser notadas nas ruínas existentes em Epidauros. O piso da nave do templo era acabado em mármore branco e preto. O altar interno do templo (havia o altar externo, para sacrifícios de animais), a meio caminho da nave, era de mármore branco, levemente iluminado por lamparinas. E ao fundo, em ambiente suavemente


rebaixado e cercado por leves degraus, ficava um trono no qual estava a bela imagem de Asclépios, em marfim e ouro, rosto sereno, com uma das mãos segurando um bastão e a outra pousada sobre a cabeça de uma serpente sagrada. A seus pés, um cão sagrado. - *O sistema de funcionamento de Epidauros* Desde a entrada do templo até o trono de Asclépios, sacerdotes e auxiliares espalhavam-se por todo o ambiente, ajudando os enfermos ou as pessoas devotas, orando ou entoando cânticos sacros. Cuidavam para que tudo corresse bem para os fiéis, evitando zelosamente para que ali dentro não sucedessem nem mortes nem nascimentos. Eventualmente alguns cães cruzavam o local, pois além de serem considerados animais sagrados, eram ali mantidos para a vigilância e salvaguarda do templo. Serpentes sagradas e não-venenosas eram olhadas com extremo respeito em seus raros e ocasionais passeios pelos cantos do templo ou pelo arvoredo que o cercava - eram elas consideradas como o próprio símbolo do deus Asclépios. O devoto portador de um mal ou de uma deficiência, e em geral desenganado por médicos - ou deles desiludido - após um período de preparação já citado e que poderia durar alguns dias, dormia uma noite no local conhecido como "abaton", sendo preparado por alguns métodos hipnóticos ou pelo consumo de alimentos ou poções soníferas receitadas pelos médicos-sacerdotes. Essa espécie de "retiro espiritual" para o qual havia uma série de orientações, era conhecida como "noite de incubação", e considerada como elemento essencial para o culto do deus e a eventual efetivação da cura. Era durante essa noite que aconteciam visões ou sonhos, e pela manhã os sacerdotes anotavam e interpretavam todos eles, como se fossem mensagens diretas do próprio Asclépios, sem, todavia, descuidar das medicações ou das providências que vinham adotando desde a chegada do devoto ao santuário. - *Plutão, deus da riqueza, curado por Asclépios* Aristófanes (450 a 388 a.C.), em sua peça "Plutão, o Deus da Riqueza", fala-nos pormenorizadamente do ritual utilizado em templos de Asclépios. Trata-se de uma trama bem desenvolvida na peça na qual vemos Cremilos, pobre e honesto, procurando um oráculo para encontrar a riqueza. Logo após, ao perseguir e dominar um mendigo cego, percebe tratar-se de Plutão, o próprio deus da riqueza. Vejamos um trecho em verso, no qual Aristófanes indica a já consagrada fama de Asclépios: "Cremilos - Restaurar a visão... Blepsidemos - . . . Restaurar a visão de quem? Cremilos - Restaurar a visão de "Riqueza", do modo que pudermos! Blepsidemos - O que? ! Ele é realmente cego? . . . Cremilos - Ele é, realmente! Blepsidemos - Ah! Porisso é que ele jamais veio a mim. . . Cremilos - Mas agora ele virá, se for o desejo dos céus. Blepsidemos - Não seria melhor chamarmos um médico? Cremilos - Existe neste instante algum médico em toda a cidade? Não há pagamentos e, portanto, não há especialistas! Blepsidemos - Pensemos um pouco. . . Cremilos - Não há nenhum! Blepsidemos - Não há mais nenhum. . .


Cremilos - Então, será melhor fazermos aquilo que eu já pretendia: Fazê-lo dormir no templo de Asclépios a noite toda. Blepsidemos - Estou certo de que é melhor mesmo. Portanto, deixe de vadiar: Rápido, faça alguma coisa..." (Apud Edelsteinl Carion, outro personagem da comédia, encarregado de levar Plutão até então disfarçado em mendigo cego ao templo de Asclépios, volta muito feliz de sua viagem e conta à esposa como havia ocorrido a cura. Usa uma linguagem pitoresca e por vezes muito irreverente. Vejamos, numa tradução em prosa, os pontos que mais nos interessam em sua narrativa e lembremo-nos de que ela foi escrita quatro séculos antes do nascimento de Jesus Cristo. Ela nos fala de perto a respeito dos problemas das pessoas com deficiência à busca de cura para seus males, para os quais os médicos de então não encontravam soluções. "Carion (dirigindo-se à esposa) - Ouça, eu vou lhe contar todo esse negócio incrível, dos pés até a cabeça"... ... "Logo atingimos o templo do deus, levando o homem muito infeliz então, mas tão feliz e tão rico agora. Imediatamente levamo-lo até o mar e lá o banhamos"... ..."Depois, levamo-lo ao recinto sagrado. Lá, sobre o altar, bolos de mel e guloseimas eram oferecidos, alimento para a chama de Hefesto"... "Esposa - Não havia outros para serem curados?" "Carion - Neocleides era um deles; o pobre cego que durante seus furtos havia furado seu próprio olho. E muitos outros, doentes com todas as formas de doenças. Logo o servidor do templo apagou as luzes e mandou-nos dormir, sem nos movermos ou falarmos a qualquer barulho que ouvíssemos. Assim sendo, deitamo-nos num repouso tranqüilo". Carion, muito observador, muito irreverente e muito curioso do que ali poderia suceder, vê na penumbra do "abaton" a figura de um sacerdote coletando e levando as oferendas que estavam sobre o altar, colocando-as todas num saco. E após algumas peripécias no ambiente de recolhimento pretendido pelos sacerdotes, conta o aparecimento de Asclépios, acompanhado das deusas Panacéia e laso. O deus vai de paciente a paciente, muito calmo, estudando cada um deles. Perto do cego Neocleides um servente coloca ao lado do deus um pequeno pilão e uma caixa de medicamentos; o deus faz a mistura com vários ingredientes e coloca-a nos olhos de Neocleides, sem curá-lo, mais para castigá-lo por seus furtos do que para livrá-lo da cegueira parcial. A seguir, dá atenção ao cego Plutão: "Carion - Depois, sentou-se ao lado de Plutão e primeiro apalpou a cabeça do paciente e depois, tomando um lenço de linho, limpo e branco, limpou seus lábios e os secou. Então, Panacéia, com um manto vermelho, cobriu seu rosto e sua cabeça; o deus assobiou e duas grandes serpentes saíram do santo altar. E escondidas sob o manto vermelho, elas lamberam seus olhos, segundo me parece. E, querida, antes mesmo que você pudesse tomar dez cálices de vinho, Plutão levantou-se e enxergou" (Apud Edelstein). - *Os testemunhos das muitas curas* Segundo arqueólogos e historiadores especializados no assunto, ocorreram, só em Epidauros e sem considerar outros templos, curas verdadeiras devido a medicações corretas e bem dosadas, devido a intervenções cirúrgicas das mais variadas naturezas, devido a banhos especiais, devido a massagens e certos tratamentos ligados àquilo que hoje podemos chamar de fisioterapia, e também devido à sugestão. No entanto, destaque-se que em todos os casos que recorreram a Asclépios existiu por parte dos beneficiários uma fé muito forte em seu poder de cura. Sua fama ultrapassava em muito o Mar Egeu e o Adriático.


Uma pequena parte dessas curas mais misteriosas foi para sempre registrada em pedras votivas, em ex-votos especiais, em placas de agradecimento, em pergaminhos, em colunas votivas, hoje localizados em diversos museus e no próprio acervo histórico de Epidauros. Existem, por exemplo, algumas colunas votivas que citam muitos casos, incluindo mais de cem curas consideradas hoje como inexplicáveis e tidas como miraculosas. Eis um testemunho eloqüente relativo à cura de um mal indefinível, mas de natureza grave: "O lugar está deserto e não há ninguém ao meu redor para ouvir minhas palavras. Acreditem-me, ó homens, estive morto durante todos os anos que eu já havia vivido. O belo, o sagrado, o mau eram todos semelhantes para mim; tal era, segundo me parece, a escuridão que me envolvia em minha compreensão e que de mim escondia todas essas coisas. Mas agora que aqui vim, recomecei a viver pelo resto da minha vida, como se eu tivesse dormido no templo de Asclépios e tivesse sido salvo. Este sol tão grande, tão belo, agora por mim descoberto pela primeira vez, homens! Agora, hoje, eu vejo vocês, o ar, a acrópole, o teatro, sob o céu claro!"... (Apud Edelstein) Outro caso citado por vários autores está retratado numa invocação muito fervorosa que mostra a imensa fé e o forte conceito de Asclépios no seio do povo. Diz ela: "Ó Asclépios, ó desejado, o invocado deus! Como poderei ir ao teu templo se tu mesmo não me conduzires a ele, ó invocado deus que superas o esplendor da terra primaveril! E esta é a oração de Diofanto. Salva-me, ó misericordioso deus; somente tu, na terra e no céu. Ó piedoso deus, o deus de todos os milagres, graças a ti Diofanto não andará mais como um caranguejo, mas terá bons pés como tu o quiseste" (Apud Montanelli). Na maioria dos casos considerados como inexplicáveis e milagrosos, não tem sido viável à ciência médica fazer julgamentos objetivos das curas por não ser mais possível contar com qualquer base cientifica para análise quanto aos males alegados que afetavam as pessoas beneficiadas e muito agradecidas ao deus da cura e da medicina. Vejamos, a título de ilustração, alguns casos de pessoas que haviam levado ao templo de Asclépios em Epidauros problemas de deficiências sérias, tais como a cegueira, dificuldades de locomoção e outros, e as circunstâncias de sua cura. a) Nicanor - deficiência nas pernas: Segundo uma das colunas votivas acima indicadas e que mais parecem compilações de dados a respeito de curas miraculosas, Nicanor era um homem que sofria séria limitação nas pernas. É indicado como manco. Estava recolhido e sentado no interior do templo de Asclépios, orando em preparação para a sua "noite de incubação" no "abaton". Ao seu lado, a bengala que era forçado a usar. De súbito um misterioso e travesso menino passou correndo ao seu lado e tirou-lhe a bengala, dirigindo-se na direção da saída. Nicanor, surpreso e aborrecido, levantou-se para perseguir o garoto. Só quando chegou ao lado externo do templo, à procura do menino, é que notou que estava curado de sua limitação física. b) Alkétas, de Haliéis - homem cego: Este homem cego, durante a noite que passou no "abaton" teve um sonho: viu o próprio deus Asclépios chegar até ele e abrir-lhe os olhos com seus dedos. As primeiras coisas que enxergou, enquanto o deus manipulava seus olhos, foram as sombras das árvores do lado de fora do santuário, no meio da noite. Ao chegar o dia saiu curado. c) Lyson, de Harmione - menino cego: Como milhares de outros casos, este menino cego estava no templo de Asclépios para pedir sua cura e nada mais. Ali sentado, esperava pacientemente. Em certo momento sentiu, um tanto surpreso, que um dos cães sagrados do santuário havia chegado perto dele e começara a lamber seus olhos. Um pouco depois levantou-se muito feliz, pois começara a enxergar as coisas. Ficou também curado.


d) Eschino - homem cego por ferimento recente: Com este homem aconteceu algo desagradável, muito embora o incidente seja bastante interessante. Curioso por saber o que poderia estar acontecendo no "abaton", no meio da noite, com tantos doentes ali dormindo e as histórias de que Asclépios aparecia em pessoa, subiu numa das grandes árvores que davam sombra ao recinto, sem que os vigias ou os sacerdotes percebessem. Procurou um galho que lhe desse acesso ao muro perto das colunadas do "abaton", para poder ver melhor. O galho, entretanto, não suportou seu peso e ele caiu fragorosamente sobre umas estacas existentes no jardim, ferindo gravemente os olhos. Em lamentável estado, foi socorrido. Suplicou perdão pela sua curiosidade. Depois dos primeiros cuidados foi recolhido ao "abaton" para uma noite de preces, tendo de lá saído curado. e) Menina muda: Não identificada, existe a história de uma menina muda que, ao entrar no recinto sagrado, corria de cá para lá, curiosa e muito irriquieta. De repente, pega de surpresa e aterrorizada com uma serpente sagrada que descia de uma árvore, gritou pelo pai, pedindo socorro. A partir desse momento voltou a falar. f) Menino mudo não identificado: Também sem identificação, este menino mudo chegou ao templo de Epidauros acompanhado pelo pai, com o objetivo evidente de recuperar a voz. Após ter feito os sacrifícios e passado pelos ritos iniciais, como era costumeiro para todos os casos, estava sentado no templo, aguardando, em oração, ao lado do pai. O servente do templo, que acendia as lamparinas para sua iluminação interna, olhando para o pai do menino sugeriu que ele deveria prometer trazer, dentro de um ano, a oferta de agradecimento pela cura do filho, caso o garoto obtivesse aquilo que viera buscar naquele templo de Asclépios. Mas foi o próprio menino mudo que de repente respondeu: "Eu prometo". O pai, espantado, pediu que ele repetisse. O garoto respondeu sem hesitação - e depois disso ficou curado. O leitor talvez tenha curiosidade de saber a natureza de mais algumas dessas fantásticas curas, consideradas como milagrosas, ocorridas em Epidauros, da mesma forma como aconteceram em muitos outros dos templos de Asclépios. Apenas nas colunas votivas citadas acima pudemos constatar: 12 curas de oftalmias sérias, incluindo a cegueira total 9 curas de defeitos nas pernas, incluindo paralisias 3 curas de afasia 2 curas de casos de surdez 1 cura de tuberculose 1 cura de convulsões (talvez epilepsia) 2 curas de casos de gota 2 curas de enxaquecas 1 cura de picada de tarântula 1 cura de infecção por piolhos. Além disso, há citações de diversos casos de gravidez problemática, que era uma verdadeira especialidade de Epidauros, de partos difíceis e também de diversos casos curados por intervenções cirúrgicas que chegam a totalizar mais de uma dúzia. Naturalmente que os casos mais graves ou que não poderiam encontrar solução nem pela fé nem pela intervenção dos médicos-sacerdotes, abrigavam-se pelas imediações em alojamentos ou, muito mais próximo do aparecimento do Cristianismo como nova força, num "hospital"construído por Antonino Pio (86 a 161 d.C. e lá, depois de muito sofrimento ou de um definhar continuo, muitos deles acabavam morrendo. O problema da grande


afluência de mulheres em adiantado estado de gravidez e também de doentes desenganados por médicos e à beira da morte levaram também à construção de uma espécie de hotel ou abrigo. Essas instalações ficaram conhecidas como "Katagógion", tendo mais ou menos 160 quartos. Existem ainda hoje alguns trechos da estrada entre as ruínas de Epidauros e o porto da Palaia Epidhavros que fazem parte do chamado "caminho sagrado", todo ele ladeado por túmulos daqueles distantes séculos. De acordo com alguns autores, Epidauros e alguns outros templos de Asclépios tiveram durante séculos a influência talvez correspondente àquela que hoje em dia tem Lourdes, na França e vários outros lugares considerados como milagrosos. Os tratamentos nesses templos de Asclépios funcionaram da mesma forma como ainda hoje funcionam os tratamentos ministrados em templos na ilha grega de Tenos, que são prescritos através das interpretações de sonhos ou de visões ocorridas durante a noite num recinto considerado sagrado do templo. A forte influência de Asclépios, seja em Epidauros, seja em muitos outros templos espalhados pelo mundo greco-romano, só foi cedendo muito vagarosamente aos ataques do Cristianismo que procurava sistematicamente anular o significado da miríade de deuses e deusas do mundo pagão. - *"Apothetai" do monte Taygetos, em Esparta* Todos aqueles que trabalham em reabilitação já ouviram de alguma forma falar a respeito de um certo costume espartano de lançar crianças defeituosas em um precipício, em épocas anteriores ao advento do Cristianismo. Pessoalmente sempre tivemos curiosidade a esse respeito e chegamos mesmo a fazer contatos diretos e visitas, procurando das autoridades de reabilitação da Grécia algum esclarecimento a respeito do assunto. Talvez que ajude no entendimento dessa questão - que, segundo os espartanos de hoje em absoluto relaciona-se exclusivamente a Esparta antiga - a menção a ele feita claramente por Plutarco, em sua obra "Licurgo". Segundo nos conta o escritor o que sucedia era isto: O pai de qualquer recém-nascido das famílias conhecidas como "homoioi" (ou seja, "os iguais") e que eram a nata de Esparta, não tinha o direito de criá-lo, pois o Estado subordinava a todos. Pelas leis vigentes, ele era obrigado a levar o bebê, ainda bem novo, a uma espécie de comissão oficial formada por anciãos de reconhecida autoridade, que se reunia para examinar e tomar conhecimento oficial do novo cidadão. Segundo Plutarco, eles se reuniam num local conhecido como "leschi" (correspondendo certamente a "edifício", "órgão oficial", "repartição") para esse fim. Se nesses locais os autorizados anciãos anotavam ou não os dados pessoais de identificação, de paternidade, de maternidade, de local e de data do nascimento, de sexo e outros, o historiador não nos indica. Pelo seu relato sabemos que, se fosse um bebê normal e forte ("se o achavam belo, bem formado de membros e robusto") ele era devolvido ao pai que passava a ter a incumbência de criá-lo. Depois de certa idade entre os 6 e 7 anos - o Estado tomava a si a responsabilidade e continuava sua educação, que era dirigida para a arte de guerrear, como podemos comprovar pelos estudos da História Grega Antiga. No entanto, "se lhes parecia feia, disforme e franzina", como refere Plutarco, esses mesmos anciãos, em nome do Estado e da linhagem de famílias que representavam, ficavam com a criança. Tomavam-na logo a seguir e a levavam a um local chamado "Apothetai", que significa "depósitos". Tratava-se de um abismo situado na cadeia de montanhas Taygetos, perto de Esparta, para lá a criança ser lançada e encontrar sua morte, "pois, tinham a opinião de que não era bom nem para a criança nem para a república que ela


vivesse, visto como desde o nascimento não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a vida" ("Licurgo", de Plutarco). - *Como era o ambiente de Esparta* Não nos é fácil nem tranqüilo entender esse costume - ou outros adotados em Atenas, Roma e outras cidades - a respeito do qual o leitor poderá encontrar menções também em alguns escritores e filósofos antigos, tais como Platão e Aristóteles, citados um pouco mais adiante neste mesmo capítulo. Talvez ajude nossa compreensão o conhecimento dos usos e costumes, das circunstâncias e do ambiente que imperavam em Esparta ao redor do século V ou IV a.C.. O próprio Plutarco, ao comentar a vida de Licurgo, poderá nos dar uma idéia aproximada dessas características, especialmente quando considera as tentativas que fazia para tornar os espartanos um povo inexpugnável. Separemos alguns trechos dessa famosa obra: "XXV - Quanto à educação das crianças, que ele estimava ser a mais bela e a maior coisa que poderia estabelecer, ou introduzir um reformador de leis, começando de longe, considerou primeiro os casamentos e a geração das crianças. Pois, quanto ao que diz Aristóteles, que ele ensaiou reformar as mulheres e disso desistiu incontinenti, ao ver que não podia consegui-lo, por causa da enorme licença que elas haviam usurpado na ausência dos maridos, porque estes eram constrangidos a partir constantemente para as guerras, durante as quais os homens se viam obrigados a deixá-las senhoras de suas casas, honrandoas e acariciando-as além da medida, chamando-lhes damas e senhoras - isso me parece falso: a verdade é que tratou de regulamentar-lhes e ordenar-lhes a maneira de viver, assim como a dos homens, de acordo com a razão. Primeiramente, pois, ele quis que as moças enrijecessem o corpo, exercitando-se em correr, lutar, jogar a barra e lançar o dardo, a fim de que o fruto que concebessem, vindo a tomar forte raiz num corpo disposto e robusto, germinasse melhor; e também para que, reforçadas por tais exercícios, suportassem com mais vigor e facilidade as dores do parto. E para tirar-lhes toda a delicadeza e ternura feminina, acostumava as mocinhas, assim como os rapazes, a freqüentar as procissões, dançarem nuas em algumas festas e sacrifícios solenes e cantarem na presença e à chegada dos rapazes, aos quais, muitas vezes, ao passarem, dirigiam algum brocardo apropriado, tocando ao vivo aqueles que em alguma coisa tivessem esquecido seu dever; e não raro também recitavam em suas canções os louvores dos que destes eram dignos" ... "XXVI - Mas, quanto ao fato de se mostrarem inteiramente nuas em público, não havia nisso vilania alguma, pois, a exibição era acompanhada de toda a honestidade, nem lubricidade nem dissolução; antes pelo contrário, trazia consigo o costume da simplicidade e, entre elas, a vontade de possuir o corpo mais robusto e melhor disposto" ... “XXX - Pois, em primeiro lugar, Licurgo não queria que as crianças pertencessem a particulares, mas fossem comuns à república, desejando, assim, também que aqueles que tivessem de ser cidadãos fossem gerados não por todos os homens, mas somente por gente de bem" .."Não obstante guardavam as mulheres encerradas debaixo de chaves com medo de que elas concebessem de outros que não eles, mesmo quando desmiolados, doentios e velhuscos, como se não fosse primeira e principalmente por culpa dos pais e mães, e dos que as educam, que as crianças nascem viciosas e defeituosas, quando filhas de pessoas taradas"... No item XXXII Plutarco fala das crianças defeituosas e da solução que a sociedade espartana havia encontrado para elas no "Apothetai" da cadeia de montanhas Taygetos, conforme comentamos um pouco acima. O livro continua, porém, a nos dar indicativos


muito ricos do ambiente que imperava em Esparta, onde uma pessoa deficiente de fato não conseguiria sobreviver. “XXXIII - ... e assim, não era permitido aos pais educar os filhos à sua moda, como bem lhes parecesse. Pois, logo que estes chegassem à idade de sete anos, ele os tomava e as distribuía por grupos para serem educados e se habituarem a brincar, aprender e estudar uns com os outros; depois, escolhia em cada grupo aquele com aparência de ser o mais avisado e o mais corajoso no combate, ao qual dava a superintendência do grupo todo. Os outros sempre tinham a vista voltada para ele e obedeciam às suas ordens, suportando pacientemente as punições que ele lhes ordenava; de maneira que quase todo o estudo era aprender a obedecer" ("Licurgo", de Plutarco). - *Outras formas de eliminar crianças defeituosas na Grécia Antiga* No antigo Peloponeso, sob a liderança guerreira de Esparta, havia também outras formas de dispor de crianças malformadas ou doentias. Não ocorria necessariamente a morte, mas a "exposição" (* tal exposição dava-se em local onde a criança podia ser encontrada. No entanto, o chamado “abandono” correspondia a deixar à própria sorte para morrer. Princípio genericamente aceito na Grécia, não era todavia aceito na sociedade de Tebas, igualmente “civilizada”). Recorriam os seus habitantes a lugares considerados como sagrados, tais como as florestas, os vestíbulos dos templos, as beiras dos rios, as cavernas, onde as crianças eram deixadas bem embrulhadas numa grande panela de barro ou num cesto, com roupas que continham seus símbolos maternos ("Xymbola metrós"). Elas podiam sobreviver ou não. Os símbolos bordados nas roupas e nas cobertas poderiam inclusive levar à identificação da família original. Caso uma criança assim exposta morresse, a manta e vestidos acabavam servindo para adorno em seu funeral. No entanto, alguns filósofos dos mais renomados chegaram a alimentar a idéia do extermínio das crianças defeituosas, sendo um deles um dos maiores e mais conceituados pensadores gregos: Platão (428 a 348 a.C.). Ao filosofar sobre uma utópica república completamente nova para a Grécia, Platão afirma:. . . "e no que concerne aos que receberam corpo mal organizado, deixa-os morrer". Afirma ainda o insigne filósofo: "Quanto às crianças doentes e às que sofrerem qualquer deformidade, serão levadas, como convém, a paradeiro desconhecido e secreto". ("República", de Platão). Assim, na famosa república idealizada por Platão, só os bem formados de corpo e de espírito é que teriam qualquer papel. A criança ou adulto deficientes estariam, nessa hipotética realidade, fadados a morrer. Em seu conceito, e em suas próprias palavras, "estabelecerás em nossa república uma medicina e uma jurisprudência, como acabamos de dizer, que se limitem ao cuidado dos que receberam da natureza corpo são e alma formosa". E é certamente deste pensamento e desta frase de Platão que se originou o ainda hoje usado moto característico de programas esportivos ou de bom condicionamento físico: "Mens sana in corpore sano" - Mente sã num corpo sadio. De sua parte Aristóteles escreveu o seguinte: "Quanto a saber quais as crianças que se deve abandonar ou educar, deve haver uma lei que proíba alimentar toda criança disforme" ("Politics", de Aristóteles). Existem relatos de afogamentos de recém-nascidos defeituosos, ou de abandono dos mesmos às margens do rio Eurotas, que corta o sudeste do Peloponeso, na Lacônia, indo desaguar no Mediterrâneo, após banhar a cidade-estado de Esparta dos séculos anteriores a Cristo.


Algumas das circunstâncias que teriam levado governantes a adotar medidas tão difíceis de aceitar hoje foram mais ou menos as seguintes: os cidadãos espartanos não eram nem a totalidade nem mesmo a maioria dos habitantes de Esparta, mas uma elite da população local que habitava aquela região. Eles eram conhecidos como os "homoioi" (os "iguais"), conforme referimos anteriormente. Dedicavam-se às guerras e suas obrigações giravam em torno de estar preparados para enfrentar não só as eventuais convulsões internas provocadas pelas demais facções da sociedade espartana, como também os inimigos externos da grande e poderosa Esparta. Assim, a cidade-estado não contava, como também não queria contar, com cidadãos fracos, doentios e imperfeitos. No entanto, a sobrevivência eventual de uma criança defeituosa podia perfeitamente ocorrer, como ocorria, uma vez que as leis de extermínio diziam apenas respeito aos filhos dos "homoioi", que eram os descendentes diretos dos dórios. Nas outras classes sociais não ocorria esse tipo de restrição. Tais eram os casos dos "periecos", dedicados aos trabalhos da lavoura ou cuidado com o gado, ou dos "ilotas", escravos que eram obrigados a manter-se vinculados à terra, sem qualquer tipo de privilégio. - *A história de Labda, mãe de um rei de Corinto* Os costumes que imperavam em Esparta não foram necessariamente universalizados por todas as cidades-estado da Grécia dos seis últimos séculos antes da Era Cristã, pois cada uma delas, bem como cada uma das pequenas ou grandes nações ao seu redor, desenvolvia seu próprio sistema de leis e de governo, e seus próprios usos e costumes. No tocante às atitudes face a crianças nascidas com deficiências físicas e ao trato a elas dispensado, encontraremos na história de Corinto, uma das mais fortes e melhor conceituadas cidades-estado da Grécia dos séculos VII e VI a.C., indícios interessantes inseridos no livro "Terpsícore", parte integrante da obra intitulada "História", de Heródoto. Lá encontraremos referências à filha de um dos importantes membros da oligarquia dos Báquidas, dominante em Corinto há muitos anos, e que formava uma enorme família devido ao fato de todos os seus membros casarem entre si. Acontece, porém, que em época não bem determinada, Anfíon, um dos seus membros, teve uma filha que nasceu com malformação congênita, ao que parece, pois tinha uma das pernas mais curta que a outra, o que a levava a claudicar sensivelmente. Seu nome era Labda. O costume de casamentos consangüíneos, entretanto, não funcionou no caso dessa jovem, pois nenhum Báquida queria casar-se com ela devido a sua deficiência física. Assim, casaram-na com um jovem do burgo de Petra, aparentemente de poucas qualificações, embora de sangue nobre, cujo nome era Eécion, filho de Echacrates. Depois de algumas dúvidas quanto à fertilidade de Labda, o que levou o jovem marido a consultar uma pitonisa, ela engravidou e deu à luz um menino. Segundo o oráculo ele governaria Corinto e esmagaria os déspotas Báquidas. Sabedores do oráculo, os Báquidas aguardaram o nascimento e dez deles receberam a missão de ir a Petra e matar o garoto. A gentil Labda, ao receber a visita dos dez homens de Corinto - de certa forma seus parentes - singelamente achou que se tratava de visita de cordialidade, após tantos anos de desprezo e marginalidade. Passou o filho aos braços do primeiro visitante, ignorando completamente o propósito criminoso do grupo: esmagá-lo contra o chão. Mas naquele mesmo instante a criança de poucos meses sorriu para o estranho, "deixandoo tão comovido que não teve coragem de matá-la, passando-a para as mãos do outro companheiro. Este, também tocado de piedade, transferiu-a para as mãos de um terceiro e


assim passou ela de mão em mão, sem que nenhum se animasse a sacrificá-la. Devolvendo o recém-nascido ao carinho de sua mãe, deixaram a casa" ("História", de Heródoto). Diz-nos mais o historiador que Labda teve que tomar providências que denotaram extrema vivacidade e sangue frio para salvar o menino, uma vez que os dez revistaram a casa toda após terem voltado para consumar o crime para o qual tinham sido destacados. Apesar de tudo, conseguiu sozinha ludibriá-los. O filho dessa jovem mãe portadora de deficiência recebeu o nome de Cípselo; ele, chegando à idade adulta, angariou bens e reuniu homens, atacou Corinto e dela se apoderou. Tornou-se logo após seu rei e, após ter vingado sua mãe e muitos dos injustiçados pelos Báquidas, reinou por 30 anos. Terminou bem seus dias. - *Os costumes em Atenas face a deficiências físicas* No que diz respeito a Atenas - a grande rival de Esparta - quando nascia uma criança, o pai celebrava uma festa conhecida como "amphidromia" (de "amphi" que significa "ao redor" e "dromos", para "volta"). Os costumes exigiam que ele tomasse a criança em seus braços, dias após o nascimento, e a levasse solenemente à sala para mostrá-la aos parentes e amigos e para iniciá-la no culto dos deuses. A festa terminava com banquete familiar. Caso não fosse realizada a festa, era sinal de que a criança não sobreviveria. Cabia, então, ao pai o extermínio do próprio filho. Durante sua vida, entretanto, os cidadãos atenienses tinham ampla proteção das leis para manterem-se livres de agressões provocadoras de lesões que os pudessem incapacitar para a vida normal. Segundo Plutarco, Sólon estabeleceu normas bem claras para proteger também cidadãos atenienses enfraquecidos por doenças ou vitimados por deficiências. Em Atenas essas normas, além de garantir a alimentação, davam ampla liberdade para que qualquer agressor fosse processado por atos de injúria ou de ataques físicos, caso algum desses cidadãos deficientes fosse assaltado, espancado ou sofresse qualquer tipo de violência. "Qualquer homem que fosse poderia processar o malfeitor" ("Sólon", de Plutarco). Acresce considerar também que as leis atenienses ordenavam que os filhos tinham obrigação de amparar e sustentar seus pais, seja devido à velhice, seja devido a deficiências físicas (Apud Durant). - *O legado da Grécia Antiga* Para quem vive em pleno século XX na cidade de Esparta, ou visita o produtivo e poético vale do rio Eurotas, torna-se muito difícil imaginar que as palavras de Plutarco ou os fatos relatados por historiadores sejam verdadeiros. No entanto, a eliminação de crianças disformes foi uma constante na História dos povos guerreiros de toda a antigüidade. Foi o Cristianismo que levou a Grécia, em suas múltiplas sub-divisões em cidadesestados, a muito vagarosamente alterar esse e outros costumes, que já vinham sendo modificados pelos séculos afora por diversos governantes e por diversos dos filósofos que enriqueceram sua cultura e sua tradição. A implantação do Império Romano do Leste, posteriormente transformado no Império Bizantino, encontrou a Grécia organizando instituições mais e mais voltadas para problemas específicos: lares para deficientes ("paramonaria"); lares para pessoas cegas ("tuflokoméia"); instituições para pessoas com doenças incuráveis (arginoréia "); e também organizações para pessoas muito pobres e para mendigos ("ptochéia"). Apesar das histórias sobre Taygetos e sobre o rio Eurotas, a Grécia deixou para o mundo um saldo muito positivo de leis e costumes que valorizam a bravura e a dedicação à pátria, ao preço da própria integridade física ou da vida. Deixou também muitos conhecimentos


relacionados à medicina, além de vários exemplos de organizações que, muito embora de caráter segregativo e assistencialista, chegaram a tornar-se um claro demonstrativo do reconhecimento do indivíduo como um ser repleto de valores. 4. Os Romanos O legado de Roma ao mundo tem sido de extremo valor através dos séculos em praticamente todos os campos. Dentre eles cumpre que destaquemos a arquitetura, a saúde pública, as artes, as leis, a literatura e a medicina. Dos assuntos que mais nos interessam neste estudo e rápido passar pela História, o das leis é dos mais relevantes. Ninguém jamais poderá negar que uma significativa porcentagem de todo o acervo de leis que chegou até nós e foi por nós de certa forma absorvido, derivou do cuidadoso e muito esmerado trato que os romanos sempre deram ao assunto. Nem tudo, porém, foi bom ou aceitável para nós na legislação romana; nem tudo foi adaptado ou seria adaptável à nossa realidade ou ao nosso sistema de leis. O mundo de então era bem diverso daquele em que hoje vivemos. No que diz respeito a pessoas com deficiências, não é fácil encontrarmos referências precisas, mas se nos dispusermos a exercícios cuidadosos de estudo da História Romana, encontraremos não apenas leis, mas também fatos, costumes, obras de arte que nos surpreenderão. Veremos, por exemplo, que tanto a história da evolução da medicina romana, tão intimamente ligada à medicina grega, quanto a dos gradativos progressos em termos de saúde pública (por exemplo, abundância de água potável, latrinas públicas, rede de esgotos) garantiram a prevenção de muitos males incapacitantes. E ficaremos espantados ao reconhecer dentre os Césares, dois com sérias deficiências físicas; reconheceremos também um famoso censor romano que foi cego; e leremos páginas que nos falam da competência de pessoas deficientes... - *O problema da forma humana no direito e nos costumes de Roma* No Direito Romano havia leis que se referiam ao reconhecimento dos direitos de um recém-nascido e em que circunstâncias esses direitos deveriam ser garantidos ou poderiam ser negados. Dentre as condições para negação de direito, a chamada "vitalidade" e a forma humana eram as principais. Como exemplo poderemos mencionar que, tanto os bebês nascidos prematuramente (antes do 7º. mês de gestação) quanto os que apresentavam sinais da chamada "monstruosidade", não tinham condições básicas de capacidade de direito. Além de não encontrarmos uniformidade nos pontos de vista de autores quanto aos requisitos básicos para o reconhecimento dos direitos de um ser humano recém-nascido, dentro do Direito Romano, os sinais indicativos da "monstruosidade" eram um fator decisório para sua negação. Alguns abalizados estudiosos deixam a nítida idéia de que ela não se limitava à eventual similaridade com algum animal - principalmente no rosto ou devido a malformações de membros - mas também a mutilações ou falta de membros. Moreira Alves afirma que a solução dada pelas leis romanas, que àquelas épocas não contavam com a medicina ao seu lado ou com mais sólidos princípios de defesa da incipiente vida humana, advinha especificamente de uma lei régia atribuída a Rômulo nos primórdios da vida formal de Roma. De acordo com ela, estava proibida a morte intencional de qualquer criança abaixo de três anos de idade, exceto no caso de a criança ter nascido mutilada, ou se fosse considerada como monstruosa. Para casos dessa natureza a lei previa a morte ao nascer.


Segundo o autor citado, havia para o "pater famílias", dentre as faculdades a ele outorgadas pelo poder paterno (pátria potestas), uma alternativa: poderia expor a criança às margens do rio Tibre ou em lugares sagrados, desde que antes de o fazer tivesse mostrado o recém-nascido a cinco vizinhos, para que fosse de certa forma certificada a existência da anomalia ou da mutilação. A obra "De Legibus", de Cícero (Marcus Tullius Cicero - 106 a 43 a.C.), comenta que nas Leis das Doze Tábuas havia uma determinação para o extermínio de crianças nascidas com deformidades físicas ou sinais de monstruosidade. Em sua linguagem original, a famosa lei dizia o seguinte: "Tabula IV - De Jure Patrio et Jure Connubii Lex III - Pater filium monstrosum et contra formam generis humani, recens sibi natum, cito necato". Em nossa língua: "Táboa IV - Sobre o Direito do Pai e Direito do Casamento Lei III - O pai imediatamente matará o filho monstruoso e contrário à forma do gênero humano, que lhe tenha nascido há pouco". Sêneca (Lucius Annaeus Seneca - 4 a.C. a 65 d.C.) indica que os recém--nascidos com deformidades físicas eram mortos por afogamento. O grande pensador e filósofo romano não analisa, em seus comentários, a validade da lei em si mesma. Analisa apenas a necessidade de, em nossas vidas, fazermos tudo, mesmo as coisas desagradáveis e chocantes, sem ira, sem ódio. Segundo Sêneca, devemos fazer tudo o que precisamos fazer com naturalidade, eliminando da obrigação o aspecto ódio. Ele cita alguns exemplos que, segundo deduzimos, eram bastante óbvios para os romanos daquela época, quando o Cristianismo começava a desabrochar e seus principais apóstolos atingiam Roma pela primeira vez. Vejamos o que afirma Sêneca: "... Riscai, então, do número dos vivos a todo culpado que ultrapasse o limite dos demais, terminai com seus crimes do único modo viável, mas fazei-o sem ódio" ... "Não se sente ira contra um membro gangrenado que se manda amputar; não o cortamos por ressentimento, pois, trata-se de um rigor salutar. Matam-se cães quando estão com raiva; exterminam-se touros bravios; cortam-se as cabeças das ovelhas enfermas para que as demais não sejam contaminadas; matamos os fetos e os recém-nascidos monstruosos; se nascerem defeituosos e monstruosos, afogamo-los; não devido ao ódio, mas à razão, para distinguirmos as coisas inúteis das saudáveis" ("De Ira", de Sêneca). O trecho latino pertinente é o seguinte: "... portentosos fetus extinguimus, liberos quoque; si debiles monstrosique editi sunt, mergimus; nec ira sed ratio est, a sanis inutilia secernere" ("De Ira", de Sêneca). O termo "portentosus" significa extraordinário, muito diferente, monstruoso; a palavra "debilis", segundo o autor Plínio, pode significar tolhido de algum membro ou de alguma parte; Sêneca usa o termo "inutilia", no neutro plural, referindo-se a "fetus" e aos demais itens mencionados no mesmo texto (cães, touros, ovelhas, membro gangrenado). No entanto, talvez o uso do neutro neste caso relembre-nos que mesmo ao nascer, sem ainda ter o cordão umbilical cortado (ato dos mais importantes no estabelecimento do direito da pessoa nas leis romanas) o recém-nascido era apenas um ente sem direitos - e podia ser eliminado.


Presume-se que eram considerados como "monstros" todos os recém-nascidos que tivessem características bem diferentes dos normais, com membros a mais ou a menos, e também aqueles que apresentassem alguma deformidade muito séria. Houve em épocas bem precisas da História Romana muitos nascimentos de crianças ou abortos de fetos com deformações congênitas, devido a causas não identificadas. Segundo Plutarco "no ano 280 de Roma, um temor supersticioso tinha invadido toda a cidade, porque as mulheres grávidas davam à luz crianças quase todas elas defeituosas e imperfeitas em alguma parte do corpo, e não havia nenhuma que viesse a termo" ("Publius Valerius Publicola", de Plutarco). Face à legislação vigente desde os tempos dos primeiros reis de Roma, não se deve nutrir qualquer dúvida quanto ao destino desses recém-nascidos: a lei de extermínio da vida incipiente, seja por afogamento, seja por outros meios, mesmo antes de completado o nascimento com o corte do cordão umbilical, foi aplicada. Publícola, que era cônsul de Roma, mandou consultar os livros Sibilinos, como era costumeiro fazer ao acontecer fatos misteriosos e causadores de grandes desgraças. Fez a população romana oferecer sacrifícios especiais a Plutão, o deus das profundezas do Inferno, para tentar eliminar o problema que afligia a todos. De providências práticas e próprias para resolver a situação, entretanto, não se tem notícia e nem Plutarco entra em maiores considerações. - *O destino das crianças deficientes em Roma* Mesmo com a anuência da lei, o infanticídio legal não foi praticado com regularidade. Crianças malformadas, doentias ou consideradas como anormais e monstruosas eram, no máximo, abandonadas em cestinhas enfeitadas com flores às margens do Tibre. E os escravos ou as pessoas empobrecidas que viviam de esmolas ficavam na espreita e atentos para eventualmente se apossarem dessas crianças, criando-as para mais tarde servirem como meio de exploração do compadecido e por vezes muito culpado coração romano, obtendo esmolas volumosas. A esmola chegou a ser um negócio muito rendoso em Roma Antiga. Na verdade foi tão rendoso que houve épocas em que foram realizados raptos de crianças patrícias muito novas, para serem mutiladas ou deformadas a fim de se tornarem pedintes nos templos, nas praças e nas ruas de Roma e das outras importantes cidades do vasto Império Romano. Certamente foi por motivos dessa natureza que durante a decadência do Império, os patrícios que ocasionalmente tinham filhos defeituosos, sabedores dessas histórias, passaram a usar das prerrogativas dadas pelo instituto do "patria potestas" para eliminar a vida desses recémnascidos, não correndo eles mais o risco de se tornarem mendigos e de terem seus corpos deformados. Na Roma dos tempos dos Césares, ou seja, em séculos mais sofisticados e menos bárbaros, deficientes mentais, em geral tratados como "bobos", eram mantidos nas vilas ou nas propriedades das abastadas famílias patrícias, como protegidos do "pater familias". Cegos, surdos, deficientes mentais, deficientes físicos e outros tipos de pessoas nascidas com malformações eram também de quando em quando ligados a casas comerciais, a tavernas, a bordéis, bem como a atividades dos circos romanos, para serviços simples e às vezes humilhantes, costume esse que foi adotado por muitos séculos na História da Humanidade. É o historiador Durant que nos informa ainda sobre este assunto "... existia em Roma um mercado especial para compra e venda de homens sem pernas ou braços, de três olhos, gigantes, anões, hermafroditas" ("História da Civilização", de Durant). Foi extremamente notória em Roma também a utilização de meninas e moças cegas como prostitutas, além de rapazes cegos como remadores, quando não eram usados simplesmente para esmolar.


- *O deus da medicina: Esculápio* A exemplo do que ocorrera na Grécia desde o século V a.C. com o deus da cura e da medicina, Asclépios, os romanos também dedicaram templos a um deus semelhante (e importado da Grécia...), numa espécie de Epidauros romana; o mais famoso desses templos era localizado numa pequena ilha do rio Tibre, a "Insula Tiberina". O interesse dos romanos pelo deus da cura e da medicina, em seu próprio modo de ver muito mais específico para o tratamento de males instalados do que a deusa Salus (significa "saúde"), surgiu em conseqüência de violenta epidemia ocorrida no ano 293 a.C. Os romanos consultaram os Livros Sibilinos e resolveram mandar uma delegação oficial a Epidauros, sob a chefia de Caio Ogúlnio, que de lá voltou com um símbolo vivo do deus, isto é, uma serpente sagrada, além das instruções para a organização do templo, para a construção de instalações para doentes e para o culto. Acontece, porém, que quando a delegação estava chegando à cidade de Roma, remando rio acima, a serpente escapou e foi nadando até a "Insula Tiberina". Tomando o acontecimento como um verdadeiro sinal do deus, lá os romanos erigiram um templo a Esculápio, novo nome de Asclépios graças a uma diferença de pronúncia. Depois de muitos anos, em consideração pelos bons resultados obtidos com esse novo deus, os romanos resolveram "casá-lo" com a deusa Valetudo, uma deidade correspondente à Higiéia dos gregos (deusa da Saúde). Nas instalações sagradas da ilha Tiberina havia acomodações para os que procuravam a ajuda do deus da medicina e também para os sacerdotes. De acordo com gravuras da época havia instalações magníficas das quais nada restou. O acabamento externo dava à ilha a forma de um portentoso barco. A ilha Tiberina hoje comunica-se com ambas as margens do rio Tibre, ressaltando-se que sua ligação com a margem esquerda é feita por meio de uma antiga ponte construída no ano 62 a.C., a ponte Fabrício, que é a mais antiga de toda Roma. De todas as originais proteções laterais hoje podemos ver alguns blocos de pedra travertina no lado leste da famosa ilha. O Cristianismo, que combateu duramente as crenças ligadas ao paganismo, fez desaparecer o templo de Esculápio e todas as demais instalações ligadas ao seu culto. Mais tarde foi ali construída a igreja de São Bartolomeu, consagrada no ano 1000 com a presença do imperador Otto III. Segundo tudo indica, não só parte do revestimento da igreja, mas também sua escadaria foram executados com pedras retiradas das ruínas dos templos e do acabamento lateral da ilha. Ali foi também construído um hospital, o Ospedale di San Giovanni di Dio, dirigido pelos Fatebene Fratelli. - *Horácio Cocles, um herói com deficiências* Horácio foi um famoso guerreiro romano da "gens Horatia" que viveu nos primórdios da vida de Roma. Recebeu o cognome de Cocles que significa "cego de um olho". Conta a história desse valente homem de armas que, com apenas dois companheiros, conseguiu defender a ponte Sublício por ocasião da pretendida invasão dos exércitos etruscos comandados por Porsena, ficando esses inimigos impedidos de penetrar em Roma. A refrega no meio da ponte foi muito violenta e Horácio ficou gravemente ferido numa das coxas, tendo logo após sido atingido num olho. Na grande confusão da luta os dois companheiros de Horácio tiveram tempo suficiente para cortar a golpes de espada os tirantes da ponte, lançando-a às águas do rio Tibre. Sangrando muito devido aos ferimentos recebidos, Horácio lançou-se ao Tibre com suas armas e a muito custo foi nadando até a margem onde foi socorrido pelos companheiros de armas.


Elevaram-lhe depois de sua morte uma estátua na antiquíssima praça Vulcanal da velha Roma, que ficava localizada ao pé do Capitólio, representando-o como coxo e cego de um olho. Consideravam-no os romanos como de certa maneira associado a Vulcano, o correspondente a Hefesto na cultura romana. - *Ápio Cláudio, Censor: século IV a.C.* Conhecido na História de Roma como Appius Claudius "Caecus" (ou seja, Ápio Cláudio "Cego") este grande homem público foi um dos mais célebres censores de Roma. Foi ele responsável direto por obras famosas das quais existem ruínas notórias. E uma delas é o aqueduto conhecido como Aqua Appia, originalmente com 15 quilômetros de comprimento e que conduzia a água potável por meio de canais subterrâneos até Roma . Outra obra é a famosíssima Via Appia, estrada que a época de sua construção tinha quase 200 quilômetros, indo de Roma até Campania (Cápua). Mais tarde, devido à sua importância para a manutenção do comércio e da segurança interna, ela foi ampliada até o "salto" da bota italiana (Brindisi). Ápio Cláudio havia sido cônsul duas vezes antes de ser censor. É importante lembrar que os censores, sempre em número de dois, eram eleitos por cinco anos e detinham a magistratura mais elevada. Encarregavam-se eles do recenseamento e do inventário dos bens; faziam a relação dos senadores, estabeleciam os parâmetros do orçamento público e eram os responsáveis pelas obras públicas. Contam os historiadores que Ápio Cláudio, já avançado em idade, dissuadiu o Senado Romano por meio de um inflamado discurso, de dar consideração e guarida a um eloqüente apelo feito por Pirro, através de seu enviado especial, Cineas, para fazer a paz. Sempre esteve fortemente interessado em questões de gramática da língua latina; é considerado como o responsável pela distinção entre o "R" e o "S", em termos de fonética, na escrita latina, e também pela eliminação de uma letra que considerava dispensável: o "Z". Dele Cícero escreveu: "Ápio Cláudio, já velho e cego" (et caecus et senex), "responsabilizava-se por quatro filhos robustos e cinco filhas, além de uma grande mansão e toda a sua clientela. Mantinha um espírito tão tenso quanto um arco e não se deixava subjugar pela velhice para se transformar num homem sem energia. Mantinha também autoridade e poder sobre os seus: os escravos temiam-no, seus filhos o veneravam e todos o queriam bem; em seu lar reinavam os costumes dos ancestrais e a disciplina" ("Cato Major, seu De Senectute Dialogus", de Cícero). - *Amputação como penalidade nas legiões romanas* Segundo Mítton, a mutilação do nariz e das orelhas foi muito utilizada como castigo ou como vingança contra inimigos capturados pelas legiões romanas, nos tempos de guerra. Caio Júlio César (Caíus Julius Caesar - 102 a 44 a.C.) confessa em sua obra "De Bello Gallico" que aplicava essa pena em seus próprios soldados nos casos de faltas muito graves contra a disciplina militar ou de deserções. Diversos séculos após o imperador Justiniano I (Flavius Anicius lustinianus - 483 a 565) chegou a ordenar a amputação do nariz de soldados incriminados em faltas graves contra a disciplina. A mesma penalidade foi aplicada em soldados envolvidos com mulheres dos países cruzados ou dominados por legiões romanas (Apud Mitton). As punições não se limitavam, todavia, a essas amputações estigmatizadoras. Na abalisada opinião de Bubois, grande estudioso do direito criminal dos povos antigos, "abandonar o estandarte era um sacrilégio; esse crime era punido, conforme a gravidade do


caso, com a mutilação do punho, com a decapitação, com a exposição a animais ferozes, com a crucificação e até com o afogamento. A desobediência às ordens dos superiores era punida com a mesma pena"... ... "O roubo era também punido com a mutilação do punho direito" ("Histoire du Droit Criminel des Peuples Anciens",de Dubois). - *Caio Júlio César: atitudes face a seus males* Certamente um dos romanos mais importantes que a História registrou, Caio Julio César não era o tipo atlético, alto e sem problemas que muitos imaginam ao analisar seus feitos. Além de magro e de estatura bastante medíocre, sempre esteve sujeito a fortes dores de cabeça e, segundo muitos historiadores, sofria do famoso "mal divino", ou seja, de epilepsia. Plutarco faz algumas afirmações a respeito de suas atitudes face ao mal, dizendo que "às vezes, atacado de epilepsia, que contraíra pela primeira vez, como se diz, em Córdova, cidade da Espanha" .."ele não se serviu da fraqueza de seu corpo, como de um pretexto para delicadeza e comodismo em sua vida, mas ao contrário, tornou as agruras da guerra como um remédio para fortificar sua pessoa, combatendo contra a doença, caminhando sempre, vivendo sobriamente, dormindo ordinariamente ao relento, pois, a maior parte das noites, dormia num carro ou dentro de uma liteira, empregando sempre o descanso em fazer alguma coisa" ("Caio Júlio César", de Plutarco). Autores atuais, entretanto, ao considerar que César teve suas primeiras convulsões aos 52 anos de vida e a segunda apenas três anos após, ponderam diferentemente da quase totalidade dos historiadores que consideram o grande imperador romano como o mais famoso epilético da História. Socorrem-se para isso da própria informação de Suetônio de que nos últimos tempos de sua vida César teve dores de cabeça e vários desmaios. Levam em conta o fato dele não ter tido nenhum parente próximo com indicações de males convulsivos. Concluem que Caio Júlio César foi vitima de um tumor cerebral benigno e não de epilepsia. - *Ferimentos graves e deficiências físicas em batalhas* As atividades guerreiras sempre tiveram como conseqüência natural muitas mortes e muitos casos de ferimentos de todas as naturezas e gravidades. Essas desgraças marcaram muitos homens pelo resto de seus dias, como não podia deixar de ser. Os feitos heróicos, no ardor das batalhas, são por vezes relatados em cores muito vivas por uns poucos autores latinos e gregos, mas apenas alguns deles fazem menção aos problemas supervenientes, como o fez Plutarco. Chega o historiador a aludir a problemas dessa natureza quando estuda a vida de Caio Júlio César, já citado. Deixa no leitor de hoje, 20 séculos após, a sensação de que a vida com deformidades ou com amputações conseqüentes à guerra era algo a ser muito temido pelos jovens romanos. Plutarco narra cenas pormenorizadas de batalhas e numa delas mostra-nos com clareza esse temor dos soldados mais jovens e inexperientes. . . . "as seis coortes que César tinha colocado atrás de sua ala direita avançaram contra a cavalaria e, em lugar de lançar longe seus dardos, segundo seu costume, e ferir a golpes de espada as pernas e as coxas dos inimigos, golpeavam os olhos e procuravam ferir-lhes os rostos; era a ordem que haviam recebido de César que duvidava que esses cavalarianos, tão noviços nos combates e pouco acostumados às feridas, ainda na flor da idade, se deixassem desfigurar, sacrificando sua juventude e beleza e evitariam com todo o cuidado essa espécie de ferida, não sustentando esse gênero de combate, tendo a temer tanto o perigo atual, como a deformidade no futuro" ("Caio Júlio César", de Plutarco).


Muitos feriam-se gravemente e sobreviviam com deficiências sérias. Nas legiões romanas havia homens que lutavam por absoluta dedicação ao seu líder ou general. Plutarco também nos relata como César conseguia levar seus homens a atos de bravura insuperáveis, pois sabia inspirar afeição e muito ardor. Segundo ele, "nada resistia à impetuosidade de seus ataques, quando se encontravam nos mais graves perigos". E conta-nos a história de Acílio que, num ataque a um navio inimigo, teve sua mão direita decepada. Segurando a espada com a esquerda, continuou a luta, matando os inimigos. - *Cláudio I, um imperador bastante controvertido* Com a morte de Calígula em 41 d.C., Cláudio (Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus - 10 a.C. a 54 d.C.), reconhecido na História Romana apenas como Cláudio I, foi elevado ao trono por imposição da forte Guarda Pretoriana, talvez por ter sido considerado muito mais manobrável do que qualquer outro "pretendente" ou "herdeiro" ligado a grupos que vinham de há muito se locupletando devido aos enormes desmandos existentes na corte imperial. Cláudio era aparentemente tolo, inofensivo e inconseqüente. No entanto, assim que assumiu o poder, surpreendeu a todos com as muitas demonstrações que deu de inteligência, sagacidade administrativa e cultura. Todavia, fisicamente ele não correspondia à imagem que o povo romano poderia fazer de seu imperador, uma vez que era, de fato, um tipo muito estranho: apesar de alto e bem forte, tinha cabelos quase brancos aos 51 anos de idade; feições agradáveis, tinha problemas físicos de bastante seriedade para aqueles tempos. Uma paralisia ("paralisia infantil", segundo o historiador Durant) e algumas doenças, dentre as quais todos os historiadores destacam a epilepsia, haviam-no quase que deformado. Apresentava-se com andar claudicante sobre pernas compridas e finas; mantinha a cabeça oscilante sobre o pescoço longo e fino; além disso, gaguejava e sofria muito com as dores provocadas pela gota. Seus pais haviam-no considerado, quando pequeno, uma espécie de retardado mental e sua mãe chegara a ele se referir como um "monstro inacabado", segundo informação de Durant. Esse tipo inacreditável como imperador chegou a declarar ao senado romano que se fizera passar por tolo e inconseqüente durante todo o governo calamitoso de Calígula apenas para salvar a própria pele. Cláudio desenvolveu um governo controvertido durante o qual reformulou leis, construiu grandes obras públicas, instalou novos serviços, garantiu maior proteção aos escravos, emancipou a Gália, conquistou a Bretanha e efetivou sua romanização. Terminou seus dias num emaranhado de disputas e de intrigas palacianas, envenenado por Agripina, sua própria esposa, por ter favorecido como seu herdeiro a Nero em detrimento de seu filho Germânico. Sêneca foi seu contemporâneo e preceptor de Nero, o futuro imperador. Em sua obra "Apokolokyntosis" ironiza com o imperador após sua morte, apresentando um perfil bastante indicativo dos problemas físicos de Cláudio e, por via de dedução, do que se pensava também das pessoas deficientes em Roma. E, ao fazer uma alegoria sobre seu destino após a morte, afirma: "Anunciam a Júpiter a chegada de alguém, estatura normal, cabelos quase brancos: Não deve ter boas intenções, pois abana continuamente a cabeça; e coxeia do pé direito" ("Apokolokyntosis", de Sêneca). - *Galba, imperador romano com diversas deficiências*


Plutarco, Suetônio e Tácito são os historiadores que mais pormenorizadas informações nos dão quanto à vida dos grandes homens de Roma. Falam, de um modo todo especial, a respeito de seus imperadores. Segundo eles, nos anos 821 e 822 de Roma (68 e 69 d.C.), que se seguiram à morte trágica de Nero, a História Romana mostra-nos um quadro assaz confuso, no qual aparecem três homens que sobem ao poder e dele são afastados com bastante rapidez, graças à força dos militares que não desejavam ver os senadores proclamando a república. São eles: Galba, Othon e Vitélio. Galba (Servius Sulpicius Galba - 3 a.C. a 69 d.C.) era originário de família nobre, tendo tido em sua família um sério problema de deformidade física indicado por Lissner. Segundo o historiador, "o pai de Galba, doentio e disforme, ativo, trabalhador e inteligente mesmo, era advogado. Quando a rica e bela Lívia Ocelina quis casar com ele para compartilhar a antiga nobreza dele, Galba, o pai, sem intenções maldosas, mostrou-lhe sem pejo suas deformidades. Ocelina, entretanto, não se atemorizou" ("Les Césars", de Lissner). É sobre Galba que vamos encontrar nos renomados historiadores romanos indicados, traços bastante marcantes. Todos são unânimes em afirmar que Galba foi muito severo na aplicação da justiça. Achava ser sua obrigação. Na verdade foi tão severo na administração das despesas públicas que acabou desgostando não apenas o povo mas também os diversos escalões do sistema militar romano. Esse velho general foi imperador romano por apenas sete meses, com mais de setenta anos, portanto. Foi portador de sérias limitações físicas tanto nas mãos quanto nos pés. Sofria muito com as dores artríticas. "A estatura de Galba era mediana, sua cabeça, completamente calva, seus olhos, de um azul escuro, seu nariz aquilino, suas mãos e seus pés, inteiramente deformados pela gota, a tal ponto que não podia nem agüentar um calçado, nem desenrolar ou mesmo segurar uma missiva. Ele tinha também, no flanco direito, uma excrescência de carne tão volumosa que apenas conseguia contê-la com uma faixa" ("Vie des Douze"). Plutarco apresenta-o como "doce e humano por natureza: a velhice aumentou ainda a opinião que se tinha dele, de que era tímido" ("Galba", de Plutarco). Segundo Tácito, todavia, esse grande personagem da História Romana poderia ter sido considerado ótimo para o Império, se não tivesse sido imperador... - *Othon, um imperador nascido com malformações* Othon (Marcus Silvius Othon - 32 a 69 d.C.) era filho de Lúcio Othon e de Álbia Terência, sendo a família de origem aristocrática. Muito embora diversos autores não façam nenhuma menção, revela-nos o historiador Lissner algo surpreendente sobre Othon, imperador por três meses, depois de ter mandado assassinar o imperador Galba: "No dia 28 de abril do ano 32 d.C. a esposa de Lucius Othon, Álbia Terência, de origem aristocrática, colocou no mundo uma criança do sexo masculino cujas pernas tortas constituíam uma malformação incurável" ("Les Césars", de Lissner). O defeito físico não impediu Marco Silvio de procurar os ambientes e as amizades inclusive a de Nero - que lhe dariam mais tarde condições para a busca de cargos importantes e muito rendosos. Exemplo dos mais marcantes foi o seu casamento com Popéia por solicitação de Nero que dela se enamorara e dela queria se aproximar sem chamar muito a atenção de toda a corte imperial. Foi em conseqüência dessa situação e de seus desmedidos desejos que Nero mandou Othon em missão especial para bem longe de Roma, como


governador dos lusitanos que ocupavam território que mais tarde seria transformado em Portugal. Segundo os historiadores Othon não conseguiu demonstrar o quanto podia, apesar da verdadeira adoração que suas legiões tinham por ele, devido à cobiça e à inconseqüência de outro homem que, por coincidência, também apresentava limitação física muito evidente: Vitélio. Othon suicidou-se ao perceber que fora a causa primeira de uma guerra civil. - *Vitélio, imperador romano por oito meses* Vitélio (Aulus Vitelius - 15 a 69 a.C.), nasceu em Lucéria e morreu em Roma; ele foi o sucessor de Othon, por escolha das legiões romanas sediadas no Reno. Durante sua vida dissoluta foi protegido por quatro imperadores também dissolutos: Tibério, Calígula, Nero e Cláudio. Ainda bastante jovem foi empregado, como hábil condutor de carros que era, para ensinar o jovem Calígula a mesma arte, incluindo bigas aquadrigas. Foi no exercício dessa função que teve um acidente e sofreu violenta queda, recebendo, em conseqüência, um sério ferimento na perna. Acabou ficando com uma lesão permanente que o faria mancar bastante pelo resto da vida. Esse defeito físico não prejudicou tanto seu conceito quanto o de ser o maior e mais famoso glutão que Roma já teve. Muito obeso e vermelho, a excentricidade de Vitélio aumentava conforme era obrigado a andar. Foi um dos imperadores mais lamentáveis de Roma e morreu tragicamente, quase que linchado pela plebe furiosa devido a seus desmandos, ajudada pelos soldados de Vespasiano, que acabava de tomar o poder. - *Os milagres de Vespasiano* Tanto Suetônio quanto Tácito informam que Vespasiano (Titus Flavius Vespasianus - 7 a 79 d.C.) participou de um evento estranho e que nos é transmitido como um "milagre". O fato envolve duas pessoas com deficiências físicas diferentes. Vejamos, nas próprias palavras de Tácito, o que sucedeu na cidade de Alexandria: "Durante os meses em que Vespasiano esteve em Alexandria, época na qual os ventos de verão vinham regularmente garantir a boa navegação, ocorreram muitos milagres ("multa miracula evenere", no original latino) que manifestaram o favor celeste e a simpatia dos deuses para com Vespasiano. Um habitante de Alexandria, pertencente à classe modesta, conhecidamente vítima de uma degeneração da vista, lançou-se aos seus pés e pediu-lhe gemendo que o curasse da cegueira. Obedecia, segundo informava, às ordens de Serápis, deus ao qual aquele povo, entregue a superstições, honrava mais do que a qualquer outro; e ele suplicava ao príncipe que se dignasse umedecer-lhe o rosto e ao redor de seus olhos com a secreção de sua boca. Um outro tinha sua mão defeituosa, e, por sugestão do mesmo deus, pedia a César para pisá-la com a planta de seu pé. Vespasiano zombou deles naquele momento e os afastou, mas, devido à sua insistência, começou a hesitar, de um lado por acreditar estar sendo vaidoso e presunçoso e do outro por confiança, pois, as veementes preces daqueles dois doentes e os elogios de seus cortesãos inclinavam-no à esperança. Ordenou, finalmente, aos médicos para verificar se a cegueira e a paralisia poderiam ser vencidas por meios humanos. Os médicos, após alguma discussão, responderam que dos dois doentes, um não tinha a força visual, já eliminada, e que ela voltaria se o obstáculo fosse removido; o outro tinha as articulações desviadas e, se fosse exercida sobre elas uma pressão saudável, poderiam retomar a posição normal; que os deuses tinham talvez desejado essa cura e que haviam escolhido o príncipe para essa divina missão; enfim, que se o remédio desse certo, a glória seria dele"...


Vespasiano deixou-se levar e mostrou-se feliz, pois ficou absolutamente persuadido de que tudo seria possível à sua boa fortuna. Cercado pela multidão que já se aglomerara, acedeu ao pedido dos dois doentes. E Tácito finaliza: "Imediatamente a mão retomou suas funções e o cego de novo viu o brilho do dia. Esses dois milagres, testemunhas oculares lembram-nos ainda hoje"... ("Histoires", de Tácito) Suetônio, em sua obra sobre os doze Césares, conta o mesmo fato, ao dissertar sobre a vida de Vespasiano. Além de pequenas circunstâncias ligeiramente diferentes, ele altera a deficiência de um dos suplicantes diante de César: um era cego, mas o outro tinha um problema de paralisia na perna e não em sua mão. - *As deficiências citadas por Plínio, em sua "História Natural"* Plínio (Caius Plinius Secundus - 23 a 79 d.C.), em sua monumental obra "História Natural", escreve a respeito de alguns males bastante notórios que podem levar as pessoas a situações limitadoras e mesmo a deficiências físicas sérias. Dentre eles cumpre notar citações sobre a elefantíase, gota, paralisia, epilepsia e outros. Em sua extensa obra de trinta e sete volumes aborda assuntos de grande valia, mas de quando em quando transmite informações fantasiosas e sem qualquer base na realidade. Quanto à elefantíase, por exemplo, Plínio afirma que quando reis e príncipes eram as vítimas do mal, os médicos recomendavam banhos em sangue humano. O problema passava a ser não apenas deles, mas principalmente dos homens escravizados que precisavam submeter-se a sangrias ou à própria morte. A gota, por ele citada com o nome de "podagra", é bastante analisada. No seu livro XVI (item LXIV) afirma que "a alfavaca-de-cobra diminui e cura varizes sem dor, se colocada sobre a parte doente. A gota é muito rara, não apenas na época de nossos pais e avós, mas ainda em nossos dias. Esse mal é estrangeiro, pois se ele tivesse sido freqüente na Itália teria um nome latino. Não se deve acreditar que é incurável, pois tem desaparecido em muitas pessoas e em muitas tem havido sua cura. Prescreve-se contra a gota raízes de panacéia com uva-passa, suco ou sementes de meimendro com farinha, escórdio com vinagre, mastruçobravo aplicado conforme explicado anteriormente, verbena moída com gordura, raiz de pãode-porco, cujo cozimento também é bom para frieiras. Para eliminar o calor da gota prescreve-se raiz de espadana, semente de zaragota, cicuta com picumã ou gordura e sempre-noiva, ao primeiro acesso do mal" ("Histoire Naturelle", de Plínio). Para as paralisias Plínio recomendava igualmente o uso de plantas medicinais, afirmando acreditar-se que a betônica e o mastruço-bravo curavam a paralisia ou os membros entorpecidos. Segundo ele, a argêmona tinha a mesma virtude, além de ser uma espécie de elemento estimulador da circulação, chegando até a evitar a amputação de membros. Por absoluta falta de conhecimento mais profundo Plínio acreditava nas chamadas "panacéias": remédios preparados com o concurso de várias plantas medicinais. Afirmava categoricamente que elas curavam até a epilepsia. Sua frase é incisiva: "Comitiales sanant panacis". É Plínio que cita algo interessante e curioso para a época (primeiro século de nossa Era) sobre membros artificiais. Afirma-nos que Estérgio, bisavô de Catalina, usara mão feita de metal para disfarçar amputação ocorrida em campo de batalha. Também conhecido como Plínio, o Velho, faleceu no ano 79 d.C. durante a erupção famosa do Vesúvio que sepultou Pompéia e Herculanum sob espessas camadas de cinzas e lava. Plínio, almirante da frota de Miseno, tendo aproximado seus navios para salvar


habitantes em fuga, aproveitou a oportunidade para estudar os fenômenos mais de perto e morreu asfixiado. - *As automutilações para dispensa do serviço militar* Na douta opinião de Ammiano Marcellino, citado por Lucchini, os jovens romanos que viviam nos anos de decadência do Império Romano odiavam o serviço militar obrigatório e de duração por vezes indefinida. Alguns moços chegavam até a amputar o próprio polegar da mão direita, pois com essa deficiência estariam dispensados de ingressar nas legiões romanas, por não poderem usar a espada, além de não estarem de acordo com a qualificação física mínima de um recruta. Na obra "De Re Militarii", escrita em 390 d.C., Vegetius (citado por Cotrell em "The Great Invasion") afirma que existia a seguinte recomendação no recrutamento de soldados em todo o Império: ... "quem estiver alistando recrutas deve primeiro olhar para o rosto, os olhos, a forma toda do homem para ver se ele poderá ser um bom lutador. Assim, um jovem eventualmente adequado para a guerra deverá ter olhos brilhantes, postura ereta, peito amplo, ombros musculosos, braços fortes, dedos longos, ventre modesto, pés e barrigas da perna com tendões fortes" (Apud Penn). Um dos exemplos registrados quanto à reação dos governantes contra as automutilações que dispensavam o jovem do serviço militar, durante os anos do Império, é o caso de um certo Caio Vatieno que durante a chamada "Guerra Social" amputou sua própria mão esquerda, pois era com ela que os soldados seguravam seu escudo. Como castigo o Senado mandou vender todos os seus bens e rebaixou o jovem cidadão à categoria de servo. O imperador Trajano (Marcus Ulpius Trajanus Crinitus - 52 a 117 d.C.) mandava punir com a deportação o pai que, ao saber da convocação de seu filho para a vida militar, amputasse seus dedos ou o deformasse de alguma forma grave (Apud Lucchini) . Amputações para evitar o engajamento no serviço das legiões romanas tornaram-se freqüentes do século II ao século IV, tendo Constantino I (Caius Flavius Valerius Aurelius Constantinus - 270 a 337 d C.) assinado um decreto determinando que qualquer pessoa que tivesse provocado sua automutilação para fugir ao serviço militar deveria ser encaminhada, dentro da realidade das forças armadas romanas, para qualquer outro serviço para o qual fosse capaz. O imperador Valentiniano (Flavius Valentinianus - 321 a 375 d.C.) também assinou um decreto em 367 d.C. corroborando as ordens de Constantino. Com o passar dos anos, porém, aprovou determinações muito mais severas, face aos abusos freqüentes. Uma delas era a mais contundente: aquele que amputasse os próprios dedos para não servir nas legiões imperiais seria "queimado vivo" e seu "senhor" (pai ou responsável) que não o impedira de tal ato, sofreria uma grave condenação. Vejamos o texto original latino dessa forte determinação: "Si quis ad fugienda sacramenta militiae fuerit inventus truncatione digitorum damnum corporis expedisse, et ipse flammis utricibus concremetur et dominus eius, qui non prohibet, gravi condemnatione feriatur" (Apud Costa). - *Males incapacitantes e soluções paliativas* Romanos abastados sempre encontravam soluções, mesmo que apenas de caráter paliativo, para certos males que, por serem mal controlados, levavam muitos a situações de contínuo desconforto, enquanto que alguns chegavam a ficar parcial ou totalmente incapacitados para uma vida ativa e independente. Um dos casos mais notórios que são


citados por Cícero foi o de Lúcio-Júlio César, cônsul romano e contemporâneo de Caio Júlio César. Lúcio-Júlio César sofria de reumatismo muito sério que o mantinha praticamente paralisado, conforme relata Cícero em uma carta dirigida a seu genro, Público Cornélio Dolabella. "Lúcio César, de fato, foi até Nápoles (Pompéia), porque estava muito oprimido por dores em todo o corpo" ... Pompéia contava com recursos naturais significativos, àquela época, pois Cícero afirma que "muitos cidadãos abastados procuram esses lugares por motivos de saúde" (Apud Menière). Cícero menciona também alguns grandes oradores romanos, conhecidos seus, que tinham problemas muito sérios e que procuravam tais recursos para aliviar seus males. Ele cita Caio Sexto Calvísio, que sofria de gota e mal podia andar; cita Cneo Otávio, que sofria de dores nas articulações e vivia envolto em faixas, coberto de medicamentos. De fato, os romanos conheciam muito bem as virtudes de certos recursos naturais, como as águas termais e sulfurosas, por exemplo. Sabiam que elas podiam ser muito úteis e benéficas para o tratamento dos males das articulações. Usavam-nas como um recurso básico para qualquer problema de dores musculares ou articulares e chegavam a beber grandes quantidades. Plínio afirma que algumas pessoas, desejosas de apressar a cura das dores que levavam às dificuldades de movimentação, bebiam as águas sulfurosas em excesso, ao ponto de comprometer a própria vida. Águas termais e sulfurosas que brotavam do próprio chão tornaram-se a causa do surgimento de muitos centros populacionais. Foi o que sucedeu com Epidauros, na Grécia, e tantos outros lugares considerados como miraculosos. Foi o que aconteceu com Pouzzoles, por exemplo, na Província de Nápoles, que surgira com o nome de "Dicaearcha", pelo ano 522 a.C., sendo depois reconhecida como Puteoli (Poços) pelos romanos, devido aos seus poços de águas termais e medicinais. Para lá romanos abastados acorriam em verdadeiras multidões - e lá Cícero mantinha também uma vila. - *O problema da surdez na opinião de Cícero* "In surditate vero quidnam est mali?" pergunta Cícero em seus Debates Tusculanos. Afinal qual é o mal que há na surdez? Segundo seu depoimento e suas considerações quanto às misérias humanas, Crasso, conhecido como "Agelastos", era meio surdo, mas ouvia o suficiente para saber tudo o que dele se falava de mal. "Os surdos não ouvem a música, é verdade, mas não sentem seus ouvidos dilacerados pelo ruído da serra quando é afiada, ou pelo grunhido do porco quando está sendo degolado". Finaliza dizendo: "Assim como consolamos os cegos a todo o instante com os prazeres da audição, devemos também consolar os surdos com os prazeres da visão" ("Tusculanae Disputationes", de Cícero). - *Deficiências múltiplas e morte* Cícero continua com suas considerações e suas análises sobre os mais sérios problemas que podem atingir um ser humano, fazendo um comentário que só é compreensível para aquela época: "Reunamos agora todos esses males num só indivíduo. Que ele seja surdo e cego e que prove atrozes dores - ele será logo consumido por esses sofrimentos, e se, por falta de sorte, eles chegarem a se prolongar, por que suportá-los? A morte é um refúgio seguro onde esse indivíduo estará ao abrigo dessas horrendas misérias" ("Tusculanae Disputationes", de Cícero). - *A medicina grega e sua infiltração no Império Romano*


Todos aqueles que estudam a História de Roma sabem que ela foi uma continua emprestadora, tanto nas ciências quanto na arte. E a Grécia foi uma das maiores colaboradoras do Império Romano, tanto numa quanto noutra área. A medicina grega, por exemplo, foi levada a Roma aos poucos, por alguns médicos gregos que deixaram de lado seus princípios éticos e passaram de imediato a explorar os abastados romanos. Catão, o Censor (Marcus Porcius Cato - 234 a 149 a.C.), detestava os gregos. Em sua obra "Praecepta ad Filium" diz: "Falarei dos gregos no tempo e no lugar, meu filho" ... "É uma raça perversa e indócil; creia que um oráculo te fala quando digo: Todas as vezes que essa nação trouxer seus conhecimentos, ela a tudo corromperá. E será bem pior se ela nos mandar seus médicos; eles juraram entre si matar a todos os bárbaros à custa da medicina". "De uma vez por todas, eu te proíbo os médicos" (Apud Laignel-Lavastine). Plínio comenta em sua História Natural: "É uma pena que não haja uma lei para punir médicos ignorantes e que a pena capital nunca é ditada para eles. No entanto, eles aprendem com o nosso sofrimento e fazem experiências, colocando-nos diante da morte" ("Histoire Naturelle", de Plínio). Marcial (Marcus Valerius Martialis - 40 a 102 d.C.) foi um mordaz autor latino que num dos seus muitos e irreverentes epigramas ironizou da seguinte forma com um médico de problemas visuais. "Agora você é gladiador, quando antes você era médico dos olhos. Como médico você fazia o que faz hoje como gladiador" ("Epigramas", de Marcial). - *Médicos romanos famosos e os males incapacitantes* Não há dúvida de que havia muitos médicos dedicados e competentes, tanto gregos quanto romanos. Falaremos sobre apenas três daqueles que lidaram com problemas de deficiências e que são citados por historiadores. Alem de Dioscórides, autor de um compendio sobre assuntos de medicina, incluindo neles doenças e alguns problemas que levavam a deficiências, "De Matéria Médica" (Sobre Matéria Médica), destaquemos dois famosos médicos que pela sua inquestionável competência passaram para a História da Medicina. O primeiro deles é Asclepíades de Bitínia, nascido em 124 a.C. e que, apesar de grego de nascimento, sempre viveu e trabalhou em Roma, semelhantemente ao que sucederia séculos depois com Cláudio Galeno, conforme verificamos quando discutíamos alguns aspectos de procedimentos precursores da reabilitação na Grécia. Asclepíades estabeleceu a prática médica com base na chamada "teoria da modificação corpuscular", segundo a qual qualquer doença resultava de uma certa movimentação de corpúsculos no corpo humano de uma forma não-harmoniosa. Em seus trabalhos procurava restabelecer a indispensável harmonia através de dieta acompanhada de alguns procedimentos terapêuticos reconhecidos hoje em fisioterapia, tais como a massagem, a hidroterapia e os exercícios físicos. Foi Asclepíades de Bitínia o primeiro médico a usar a música no tratamento e na recuperação de pessoas afetadas por doenças mentais. O segundo nome é o de Celso (Aulus Cornelius Celsus - 42 a.C. a 37 d.C.), famoso, competente e reconhecido por muitos séculos como o "Cícero dos Médicos" devido à sua interessante obra "De Re Medica" (Sobre a Medicina). Nessa obra Celso descreve um número bastante elevado de doenças e seus sintomas principais, incluindo as paralisias e males de extremidades, indicando textualmente tratamentos de massagens, de calor e de exercícios físicos. Em seu livro V Celso indica remédios para dores articulares, afirmando o seguinte: "Os ungüentos são bons principalmente nas afecções dos tendões e das articulações; também o


ungüento de Euthycléa deve ser empregado" ..."quando é preciso combater a imobilização das articulações provocada por uma cicatrização recente, estado que os gregos chamam de "ankylose" ("De Re Medica", de Celso). No mesmo livro Celso dá uma descrição sucinta que demonstra amplo conhecimento da paraplegia e de suas características quando da sobrevivência de paraplégicos, afirmando textualmente: "Nas lesões da medula da espinha há paralisia ou movimentos convulsivos e privação de sensibilidade; ao final de algum tempo, o esperma, a urina e as matérias fecais são eliminados involuntariamente". Celso discute também a epilepsia num capítulo bastante longo de sua obra, recomendando lavagem intestinal com heléboro negro, planta medicinal até hoje utilizada para problemas neurológicos. Segundo ele a alimentação do epilético devia ser leve. A carne de porco devia ser a ele proibida. Além disso o doente devia evitar tensões e cansaço, sendo necessário raspar a cabeça e tomar duchas de água salgada. Para alguns casos Celso recomendava exercícios e massagens. - *Os serviços médicos e os hospitais militares romanos* Nos primeiros tempos da História de Roma o tratamento dos doentes e dos feridos em batalhas era deixado aos próprios companheiros de armas. Tanto assim que por muitos séculos os soldados levavam consigo, como parte de seus pertences, pomadas, hervas e bandagens para a eventualidade não descartável de serem feridos. Os soldados mais experimentados dominavam por vezes conhecimentos estranhos para um dos principais problemas enfrentados pelos soldados: o do estancamento do sangue em ferimentos profundos. A preocupação estendia-se à eventualidade da perda de um membro e à morte devido à hemorragia. Uma receita popular e muito divulgada entre os soldados que nos é transmitida por Samônico é esta: cozer estrume de cavalo com cascas de ovo trituradas, colocando a pasta sobre o ferimento. Sabe-se que os comandantes e oficiais mais graduados tinham o privilégio de serem atendidos por seus médicos, especialmente contratados para segui-los e estar ao seu lado nas batalhas. E houve também médicos das casernas que acumularam tanta experiência que se tornaram famosos. São os casos de Scribonius Largus, médico de Cláudio I durante a invasão da Bretanha; de Dioscórides, médico militar nos tempos de Nero; de Cláudio Galeno, a respeito do qual já falamos; de Jápide, médico que atendeu a Enéas ferido, em pleno campo de batalha, e vários outros que passaram para a História da Medicina. Embora haja poucas referências, sabe-se que sempre houve preocupação com a assistência aos casos de doenças e de ferimentos mais sérios nas legiões romanas, preocupação essa que muito vagarosamente foi requerendo algumas providências, principalmente com a chegada dos médicos gregos a Roma. Tácito, por exemplo, fala-nos sobre a existência de tendas para doentes e feridos nos acampamentos romanos. Sabe-se também que por séculos os soldados gravemente feridos e amputados eram deixados para maiores cuidados em cidades romanas, sob a custódia de cidadãos responsáveis e suas famílias, após terem recebido algum tipo de atenção em sua própria legião. Com a gradativa penetração e divulgação da medicina grega chegaram as legiões romanas a contar com 40 médicos em cada uma delas (ou seja, para dar cobertura a 6.000 homens armados). Existem em alguns autores menções quanto à distribuição das áreas nos acampamentos de guerra, incluindo a localização das chamadas "valetudinaria", uma espécie de enfermaria para os "grandes feridos", claramente delimitadas e que muito mais tarde se transformariam em hospitais de campanha, nos casos de acampamentos permanentes.


Ao que parece aos historiadores as "valetudinaria" foram inicialmente instaladas durante o governo de Augusto, sendo certo que sob Trajano, ao final do século I d.C., elas já existiam em todas as legiões. - *As "valetudinaria" descobertas em estudos arqueológicos* Estudos arqueológicos têm revelado ao mundo muito das características dos exércitos romanos através dos séculos, inclusive seus hospitais militares de retaguarda e mais permanentes, isto é, "valetudinaria" construídas dentro de planos mais cuidadosos e materiais muito mais duráveis. Um dos pontos escavados situa-se a 30 quilômetros de Viena, às margens do rio Danúbio. O local era conhecido como Carnuntum, pujante cidade de aproximadamente 100.000 habitantes, que mantinha em suas imediações duas legiões permanentemente estacionadas. O hospital militar romano de Carnuntum tinha um saguão principal que levava a uma sala de recepção, atrás do qual havia uma sala especial para cirurgias ou curativos para ferimentos graves. Ao seu redor havia uns 60 quartos pequenos. Existem outros locais escavados e que correspondem a hospitais militares romanos, tais como Novaesium, perto de Dusseldorf na Alemanha, provavelmente construído pelo ano 100 d.C. no sistema de corredores; Borcovicus, perto de Housestead e vários outros na Inglaterra, incluindo um hospital conhecido como Pinnata Castra, em Perthshire, uma enorme construção de 7.000 m2 (Apud Penn). Graças aos médicos e seus auxiliares das legiões e dos navios de guerra romanos muitos homens feridos foram salvos da morte certa. E, sem sombras de dúvida, muitos também sobreviveram após amputações ou com algum outro tipo de problema incapacitante e voltaram para a vida civil. - *Os auxiliares de médicos nas legiões romanas* Soldados gravemente feridos, muitos dos quais com membros decepados a golpes de espada ou com seus olhos vazados, sobreviveram graças a um socorro médico de urgência que era viabilizado por certos tipos de auxiliares lotados nas legiões romanas em épocas difíceis de determinar. Dentre eles cumpre chamar a atenção primeiramente para os "Optiones valetudinarii", ou seja, ajudantes ou auxiliares de enfermaria. Eram meros funcionários administrativos aos quais cabia cuidar da limpeza local, da alimentação dos acamados, dos curativos e dos remédios dos soldados gravemente feridos e alojados nas "valetudinaria". Havia, no entanto, um tipo especial de auxiliares diretos dos médicos das legiões que eram conhecidos como "deputati" (mais tarde, no Império Bizantino foram conhecidos como "deputatoi"), ou seja, elementos delegados que não faziam parte dos contingentes guerreiros e que eram obrigados a seguir numa pequena distância a coorte à qual estavam destacados, durante uma batalha. Seu objetivo básico era prestar socorros a feridos que tombavam ao chão, levando-os imediatamente a cavalo para a retaguarda, onde por vezes havia carroças e meios mais seguros para seu transporte às "valetudinaria". Como acontecia esse incipiente serviço de socorro volante? Cada general colocava oito ou dez "deputati" atrás das linhas de combate direto com o inimigo, tendo antes feito uma cuidadosa seleção entre civis muito vivos e cheios de iniciativa. Ficavam a mais ou menos 50 metros de distância, agindo com rapidez a fim de que os feridos que tombavam ao chão não fossem pisoteados nos casos de retirada ou de avanço de uma segunda ala de combatentes de sua própria legião.


Para cada soldado ferido transportado o "deputatus" recebia uma certa quantia de dinheiro. Para bem desenvolver sua tarefa eles levavam cavalos com selas especiais que tinham dois estribos suplementares, com os quais conseguiam remover até dois feridos por vez. Suspenso à sela levavam também um recipiente com água para poder reanimar um ferido desmaiado. Julius Pollux em sua obra "Onomásticon" recomenda inclusive que esses "deputati" exercitem seus cavalos a dobrar as pernas dianteiras para facilitar a um soldado ferido montar ou ter acesso aos estribos (Apud Cabanès). Esse sistema foi gradativamente sendo melhorado nas legiões romanas tendo sido continuamente adotado sob o imperador bizantino Mauricio que o menciona em sua obra "Stratégicon", conforme veremos mais adiante. - *O sistema hospitalar romano* Na medicina pura os romanos não realizaram muito. No entanto, uma das maiores contribuições de Roma à História da Medicina foi iniciar uma espécie de sistema de atendimento hospitalar para a população civil, incluindo o atendimento a pessoas com sérios problemas incapacitantes. Sua organização estava muito relacionada com a experiência vivida e acumulada por centenas de anos de lutas e de dificuldades das legiões romanas em várias partes do mundo. Os médicos que serviam nessas legiões não lidavam apenas com ferimentos, mas também com febres, doenças graves e corriqueiras, acumulando com isso uma vasta experiência. Muitos desses médicos passavam a dar atendimento à população em geral, tão logo deixavam os serviços nas legiões ou nos navios de guerra, o que tornou viável a organização desse incipiente sistema hospitalar. Foi em Roma que surgiram também as primeiras organizações separadas que cuidavam e davam abrigo a doentes crônicos e incapacitados. Lúcio Júnio Moderato Columella cita em seus trabalhos as "valetudinaria" para escravos doentes e incapacitados, em pleno século I d.C. Os patrícios e todos os demais cidadãos romanos que tinham posses suficientes para pagar médicos eram tratados em suas próprias vilas ou residências. Mas com o resultado satisfatório do tratamento que era dispensado nas "valetudinaria", romanos livres aos poucos começaram a usar esse novo tipo de recurso de tratamento médico, especialmente quando vítimas de males crônicos ou de problemas físicos limitadores. Nas escavações de Pompéia existem locais que parecem indicar que médicos mantinham instituições como se fossem casas de repouso ou de convalescença. E, segundo Cláudio Galeno de Pérgamo, nas províncias do Império Romano estabelecimentos de cuidados médicos acabaram tornando-se hospitais para atendimento a doentes graves e pessoas mutiladas, com o subsídio financeiro do poder central e pessoal pago pelo Império. - *O ensino da medicina no Império Romano* O atendimento melhor qualificado às pessoas doentes e àquelas limitadas por alguma deficiência física, sensorial ou algum mal crônico dependia da existência de médicos bem preparados, e estes existiriam na medida em que houvesse boas oportunidades de adquirir conhecimentos e experiência. Estes, por sua vez, dependiam da existência de recursos para treinamento. O ensino destinado à preparação de médicos não foi organizado em Roma a não ser na fase áurea do Império. Inicialmente o ensino das várias áreas conhecidas da medicina era feito em bases puramente individuais.


Na severa opinião de Cláudio Galeno, era necessário que o aprendiz de médico trabalhasse por 11 anos até poder ser considerado um verdadeiro médico. Tessalo achava que 6 meses eram suficientes para praticar os rudimentos da medicina. No ano 46 a.C., quando os direitos de todos os cidadãos foram reconhecidos e aprovados, organizou-se com certa regularidade e critério o ensino médico. Assim é que, terminados os estudos de botânica, anatomia e cirurgia, os aprendizes da ciência médica recebiam o título de "Medicus a Republica" (médico pela República). O imperador romano Sétimo Severo (Lucius Septimius Severus - 146 a 211 d.C.) conseguiu locais para as incipientes escolas de medicina e para suas indispensáveis bibliotecas. - *Categorias de médicos em Roma* No final do Império Romano do Ocidente - ou seja, aquele liderado por Roma - havia cinco categorias de médicos: "Archiatri suori palatini", ou seja, os médicos do imperador e do palácio imperial; "Archiatri municipales populares" que eram os indicados para servir, às custas do Império, nas grandes cidades das províncias romanas e nos arredores importantes de Roma; "Archiatri scholares" que dirigiam as escolas de medicina ou nelas participavam no preparo de novos médicos. As outras duas categorias englobam os médicos dos ginásios esportivos, aqueles que serviam nas termas e banhos públicos, os que atuavam nos circos e que deviam ser também bons cirurgiões, e os médicos das vestais. - *Implantação de serviços de assistência médica* Dentre os fatos que aos poucos foram afetando a vida das pessoas deficientes ou portadoras de males que normalmente podem levar à instalação de uma situação incapacitante, no Império Romano todo, ressaltemos a gradativa implantação de serviços médicos mantidos pelos seus governantes desde os primeiros tempos do Império. Médicos (archiatri) eram indicados para diversas cidades ou para instituições existentes na ocasião, tanto em Roma como nas vizinhanças e também nas suas mais longínquas províncias, onde permaneciam estacionados servidores públicos provenientes da Capital do Império e suas legiões. O sistema de assistência aos doentes, incluindo os portadores de deficiências de ordem física, sempre esteve em bem melhores condições junto às legiões romanas do que nas cidades, como vimos anteriormente. - *A higiene e os banhos públicos* Desde o século VI a.C. Roma contava com uma obra que até hoje é testemunha do zelo de alguns de seus governantes pela saúde publica: a Cloaca Máxima construída pelos Tarquínios, famosos reis de Roma. A ela ligavam-se encanamentos de esgoto e de água servida. Gradativamente latrinas públicas foram instaladas, e na época de Constantino havia 150 delas. Água potável e de boa qualidade certamente ajudou também os romanos na luta contra epidemias e contra muitos males. As adutoras de água foram objeto de um grande esforço dos romanos mais civilizados, pois até o ano 300 a.C. Roma ainda não era alimentada por fonte alguma de água, a não ser o próprio Tibre, acima da Cloaca. Na época imperial Roma chegou a contar com 14 aquedutos. Os romanos, que se contentavam anteriormente em lavar os braços e as pernas todas as manhãs e o resto do corpo uma vez por semana, puderam, sob o Império, dispor de 500 litros de água por dia cada um! A cidade recebia mais de um bilhão


de litros diários de água potável, volume que nenhuma cidade moderna, de porte médio, recebe. Os banhos públicos tornaram-se, nas últimas décadas da República Romana, verdadeiros lugares de prazer, onde era mostrado um luxo refinado. Na época de Constantino existiam aproximadamente 850 banhos públicos em Roma. Inicialmente separados por sexo, os banhos tornaram-se comuns, tendo sido essa uma das causas da depravação dos costumes de Roma, rigorosa e continuamente combatidos pelos cristãos, impedidos de os freqüentar. - *As pessoas deficientes nas artes romanas* No museu do Louvre, em Paris, existe um vaso de origem romana - provavelmente do Século IV a.C. - no qual está representada uma pessoa com deficiência motora. Ela se apóia num bastão e utiliza um pilão na parte inferior da perna direita, devido a uma deformidade de origem poliomielítica talvez. Nota-se também o seu pé esquerdo numa posição deformada, como se fosse um pé eqüino. A coluna de Trajano, em Roma, é uma obra de arte "sui generis" e muito interessante. Ela apresenta numa seqüência ininterrupta, em forma de espiral ascendente, toda a vida de lutas, vitórias e dificuldades do imperador Trajano e suas legiões. Um dos trechos dessa famosa ilustração seqüencial mostra-nos com bastante clareza o atendimento a feridos nos campos de batalha. Nota-se, por exemplo, um soldado fazendo curativo num colega de armas, enquanto dois outros ajudam um terceiro, bastante ferido e que mal consegue manter-se em pé. Nas poéticas paragens do vale do rio Gave, a nordeste dos Pirineus, a 5 quilômetros da vila de Pau, fica o vilarejo de Lescar. Num passado bem remoto ali estava localizada Beneharnum, muito aprazível cidade galo-romana que foi mais tarde destruída pelos sarracenos. A mais importante de suas antigas construções é sua catedral, pois Lescar já foi sede de bispado. Num de seus mosaicos parcialmente destruídos percebe-se a figura de um homem dando uma larga passada à frente de um animal. A perna direita da figura, todavia, não tem o pé e o homem usa uma espécie de pilão para apoiar o joelho, formando uma primitiva e eficiente perna de madeira. - *Valores espirituais em pessoas deficientes* Em Roma, alguns anos antes de Cristo e mesmo à época da vida de Jesus, mas sem com Ele ter tido qualquer contato, dois sábios romanos chegaram a expressar com muita clareza o que pensavam de pessoas portadoras de deficiências de seu conhecimento. São eles Cícero e Seneca. Cícero é bem explícito quanto a um problema incapacitante na vida de uma pessoa, ou seja, quanto à cegueira. Fala sobre a adequacidade de alguns homens cegos famosos, ou de seu conhecimento face à vida. "O velho Ápio, apesar de cego depois de longo tempo, exercia a mais elevada magistratura, sem faltar em nada a qualquer de seus deveres, públicos ou privados. A casa de C. Druso, o jurisconsulto, estava sempre cheia de clientes que, por terem sido pouco clarividentes em seus negócios, ali tomavam um cego como guia. Em minha infância, Cneo Aufídio, que havia sido pretor, não apenas dava seus pareceres no senado e ajudava seus amigos com conselhos, apesar de ter perdido a visão, mas também escrevia sobre história grega e era versado em literatura. Tive em minha casa por muito tempo o estóico Diodote. Depois que perdeu a visão, ele se aplicou mais do que nunca à filosofia, sem distrações outras a não ser tocar o alaúde à moda dos pitagoreanos. Liam para ele dia e noite; e, o que


poderia parecer impossível sem a visão, continuou a ensinar geometria, demonstrando com clareza a seus alunos como traçar linhas. Diz-se que Asclepíades, filósofo, bastante conhecido entre os homens de Eritrícia, respondeu a alguém que lhe havia perguntado o que lhe incomodava mais com a perda da visão: ... "é que me falta um criado para me acompanhar" ("Tusculanae Disputationes de Cícero). Sêneca, o grande pensador e filósofo romano que nasceu no ano 4 a.C. e morreu em 65 d.D., sendo, portanto, contemporâneo de Jesus Cristo, escreveu muitas obras de grande interesse até nossos dias e dentre elas cumpre destacar, neste contexto, mais de 100 cartas ao seu amigo Lucílio. Numa delas ele analisa o problema das deficiências físicas de ordem mais grave e os valores espirituais existentes nas pessoas deficientes. Diz ele: "Finalmente, se eu considerar nosso amigo Clarano, ele me parece belo e tão reto de corpo quanto de espírito. Um grande homem pode sair de um lar pequeno e uma grande alma pode ser encontrada num corpo pequeno e disforme; o que me faz crer que a natureza produz essas pessoas a fim de que se perceba que a virtude pode nascer em qualquer lugar" ... ... "Parece que Clarano existe expressamente para nos ensinar que a alma não é manchada por deformidades do corpo, mas que o corpo recebe certos brilhos pela beleza da alma" ("Lettrês à Lucilius", de Sêneca). Em outra de suas obras, Sêneca também comenta a respeito da importância de compreender os problemas que nos afetam, mesmo que sejam deficiências físicas sérias: "Existe alguma vantagem, diz você, em ser mandado para o exílio, em ver seus filhos cair na miséria, em enterrar sua mulher, em ser marcado pela calúnia, em ser mutilado?" ... ... "Se você imagina que, como remédio, deve-se às vezes amputar membros que não poderiam ficar unidos ao corpo sem causar sua destruição, você se deixará convencer que certos males são vantajosos para aqueles que os sofrem" ("De Providentia", de Sêneca). Eis alguns outros pensamentos desse sábio pensador romano: "Ninguém, em absoluto, me parece mais infeliz do que o homem ao qual nada de infeliz aconteceu jamais". "Ninguém conhece o que pode, sem ter-se provado antes". "O importante não é o que você sofre, mas como você sofre".


CAPÍTULO TERCEIRO O CRISTIANISMO, O IMPÉRIO BIZANTINO E A IDADE MÉDIA FACE AS PESSOAS DEFICIENTES 1. O Advento do Cristianismo Se analisarmos as circunstâncias que cercaram o aparecimento do Cristianismo no mundo, ficaremos muito admirados, pois foi precisamente quando o Império Romano apresentava-se a todas as nações como uma realidade imbatível e de sólidas raízes, com seus mais de sete séculos de lutas e muitas vitórias, e seus muito pomposos governantes desfrutando de muita autoridade, sempre garantida pela força de legiões bem treinadas e bem armadas, que um grupo de homens muito simples, sem cultura e de origem judaica, surgiu e colocou-se face à humanidade para iniciar uma substancial transformação que alteraria todo o curso da História do Mundo. Embora a própria origem da nova doutrina tivesse sido um dos principais fatores diretos de seu sucesso, ela não pode ser considerada como o único. Houve também fatores indiretos que deverão ser levados em conta, e um dos mais significativos foi a consagrada "Pax Romana": a paz garantida a vastíssimas e muito diversificadas regiões do mundo conhecido, coordenadas num imenso Império cujo poder central localizava-se em Roma. Essa paz que passou para a História não foi garantida apenas pelas armas muito superiores dos romanos e de seus "aliados", mas também por um aceitável sistema administrativo nas províncias e nações conquistadas e por boas estradas. E havia um outro fator ponderável: pelo fato de haver duas línguas básicas em quase todo o Império, ou seja, o latim e o grego. E não podemos nos esquecer do fator que talvez tenha sido dos mais relevantes àquela época, fator que de certa forma viabilizou inicialmente a divulgação do novo modo de ser e pensar "cristão", ou seja, a uniformidade de direitos garantidos a todos os seus habitantes, direitos esses que eram conseqüentes do esmero com que eram tratadas as leis em Roma. Esses fatores todos - por mais estranho e irônico que possa parecer apresentaram-se no início da vida cristã como agentes facilitadores. Mas, muito mais do que eles, convém ressaltar aqui o lamentável estado moral da sociedade romana como um todo - especialmente a mais favorecida - que, além dos desmandos quanto a usos e costumes, não chegava a atinar com o verdadeiro significado dos problemas que atormentavam continuamente certas camadas da população, tais como os escravos, os oprimidos, os servos e outros mais - enfim, todos aqueles que compunham a massa dos pobres do glorioso Império Romano. O conteúdo da doutrina cristã que era toda voltada para a caridade, ou seja, para o amor ao próximo, para o perdão das ofensas, para a valorização e compreensão do significado da pobreza, da simplicidade de vida e da humildade, conteúdo esse pregado por Jesus Cristo e divulgado com nuances cada vez mais convincentes, conquistou a grande horda dos desfavorecidos em primeiro lugar. No meio deles, aqueles que eram vítimas de doenças crônicas, de defeitos físicos ou de problemas mentais. Tudo isso deixou perplexos todos os que deles viviam despreocupados. Aos poucos, alguns começaram a posicionar-se favoravelmente a esse novo modo de ver o seu semelhante; outros mantiveram-se alienados como sempre; muitos reagiram ferozmente contra tudo o que se relacionava com cristãos ou sua doutrina. Nos primeiros tempos da Igreja Cristã houve um significativo impulso ao sentimento fraternal entre os cristãos, não importando em nada sua situação social ou mesmo sua nacionalidade, fosse ela romana, grega, egípcia, franca, hebréia ou de qualquer outra natureza. A minoria cristã foi aos poucos adquirindo mais e mais adeptos para se transformar


em pouco mais de três séculos maioria absoluta, principalmente na Europa e no Oriente Médio. E houve, com a implantação e solidificação do Cristianismo, um novo e mais justo posicionamento quanto ao ser humano em geral, ressaltando a importância devida a cada criatura como um ser individual e criado por Deus, com um destino imortal - o que, sem dúvida, muito beneficiou os escravos e todos os grupos de pessoas sempre colocadas de lado e menosprezadas na sociedade romana, tais como os portadores de deficiências físicas e mentais, antes considerados como meros pecadores ou pagadores de malefícios feitos em vidas passadas, inúteis, possuídos por maus espíritos, ou simplesmente como seres que, em muitos casos, deveriam continuar sendo eliminados ao nascer, segundo as leis e costumes de Roma recomendavam há séculos. No entanto, a História nos conta que as conquistas do Cristianismo não aconteceram nem com facilidade nem com tranqüilidade. Problemas graves e muito sérios surgiram desde os primeiros anos e mantiveram-se por três séculos. - *As perseguições aos cristãos nos primeiros séculos* A nascente Igreja Cristã foi primeiramente desalojada da Sinagoga e depois perseguida pelos judeus devido às profundas divergências existentes, o que levou seus primeiros líderes e adeptos (muitos dos quais haviam conhecido Jesus em vida) a procurar montar sua própria organização, em vez de tentar inutilmente manter-se como parte da religião dos judeus, como talvez fosse a intenção inicial. O próprio Concílio de Jerusalém, citado nos Atos dos Apóstolos, estabeleceu as bases para transformar o Cristianismo incipiente em uma religião de caráter absolutamente internacional, universal. Essa característica chamou imediatamente a atenção dos governantes romanos, pois o Império e seus mandatários, que respeitavam (ou ignoravam) as religiões e crenças locais ou nacionais dos povos conquistados, não aceitavam em hipótese alguma essa espécie de organização judaica que se instituía e que afirmava manter uma religião "não licenciada" pelas autoridades de Roma à busca de adeptos em qualquer das nações integrantes do Império. Foi dessa maneira que o Cristianismo começou a ser olhado pelas autoridades como movimento ilegal, tendo sido extremamente fácil descobrir aspectos "negativos" na audaciosa religião de um só Deus, que não apenas desprezava deuses sem conteúdo e "surdos-mudos", como afirmavam seus líderes, como também recusava-se a reconhecer a pretensa característica de divindade no imperador romano. Iniciaram as autoridades romanas a repressão violenta, para desencorajar sua expansão: as famosas perseguições aos cristãos. Foram elas decretadas por diversos imperadores romanos: Nero, Domiciano, Trajano, Marco Aurélio, Sétimo Severo, Maximino, Décio, Valeriano, Aureliano e Diocleciano (e sob seu nome, a feroz perseguição de Galério). Tiveram como conseqüência muitas mortes provocadas por sentenças injustas e por vezes muito cruéis, cuja intenção principal era desencorajar as afrontas dos cristãos aos usos, costumes e autoridades estabelecidos. A grande tragédia das violentas perseguições, seguidas de aprisionamento, condenação sumária ao suplício ou apenas perpétuas e mesmo à morte durou 129 anos. E durou tanto tempo com certos imperadores que seus juízes chegaram a ficar literalmente cansados de não obter resultados satisfatórios. Alguns desses imperadores, preocupados em manter uma certa imagem de clemência e de humanidade, resolveram mudar de tática: os juízes passaram a receber ordens para não mais condenar os cristãos à tortura e à morte, "por um ato de clemência do imperador"...


Eusébio, bispo de Cesaréa, que viveu entre 267 e 340 e foi um religioso que gozava da mais absoluta confiança de Constantino I, o Grande, testemunha o seguinte ao falar dos cristãos perseguidos e condenados: "Ordenou-se que a partir de então vazassem nossos olhos e aleijassem uma de nossas pernas. Esta foi a humanidade e esse lhes pareceu um gênero brando de suplício contra nós. Dessa forma, por causa dessa brandura dos homens ímpios, de maneira alguma seria possível contarmos o número daqueles aos quais foi primeiramente extraído o olho direito e depois cauterizado com um ferro, ou daqueles aos quais foi estropiada (a musculatura) a barriga da perna esquerda com um ferro em brasa, sendo imediatamente após condenados às minas existentes na província, não tanto para trabalharem mas para serem atormentados" ("História Eclesiástica", de Eusébio de Cesaréa). Ao comentar a questão das mutilações impostas aos cristãos, sob o ponto de vista do Código Penal Romano, Mommsen afirma que "na perseguição aos cristãos que teve lugar sob Diocleciano, deixava-se inicialmente a cada tribunal, se estivermos bem informados, a liberdade de agravar as penas como bem lhes parecesse, pela da mutilação corporal e finalmente o governo mandou adicionar à pena das minas, o vazamento do olho direito e a amputação do pé esquerdo" (" Le Droit Pénal Romain", de Mommsen ). De sua parte Allard nos diz, em seu pormenorizado estudo sobre a implantação do Cristianismo no Império Romano, o seguinte: "De 308 a 310, as pedreiras da Tebaida, as minas da Cilícia, da Palestina e do Chipre, viam chegar longas cadeias de cristãos, quase todos coxos e cegos" ("Le Christianisme et l'Empire Romain",de Allard). Por vezes os algozes desses muitos cristãos que estavam condenados às minas pelo resto de seus dias permitiam que se reunissem para orar e mesmo para formar pequenos grupos que foram sendo chamados de "igrejas". Depois, todavia, dependendo sempre dos tipos de homens encarregados de sua vigilância, bem como da produção das diversas minas, começou a ocorrer a dispersão violenta, sua transferência de mina para mina e finalmente a decapitação dos condenados enfermos e menos produtivos, incluindo sempre os portadores de deficiências sérias e limitadoras da capacidade de trabalho. - *Sétimo Severo, o sábio e firme imperador* Nascido em Leptis Magna, na África, e morto na Bretanha (hoje Inglaterra), Sétimo Severo foi imperador dos romanos de 193 a 211 d.C. Segundo os historiadores, desenvolveu um governo bastante firme. Uma séria mancha em seus dezoito anos de imperador foi uma acirrada e forte perseguição contra os cristãos. Já no final de sua vida, com 62 anos de idade, organizou uma campanha contra os caledônjos revoltados, levando consigo seus dois filhos e herdeiros, Marco Aurélio Antonino,que depois tornou-se imperador com o cognome de Caracala, e Lúcio Sétimo Geta, assassinado pelo próprio irmão em 212, após a morte do pai. Devido a atrozes dores provocadas pela gota em seus pés e pernas, Sétimo Severo não conseguia mais andar. No entanto, manteve-se sempre muito ativo, superando a dificuldade de movimentação de varias maneiras, levado de um lado para o outro pelos seus soldados ou escravos. É o historiador Lissner que nos conta sobre o grave problema físico desse grande imperador romano, informando: "Sofrendo atrozmente de gota, Sétimo Severo, durante a campanha da Inglaterra, fez-se transportar em liteira" ... "os soldados, compadecidos com os sofrimentos de Severo, quiseram proclamar Antonino imperador. Severo fez-se transportar ao tribunal, puniu implacavelmente os responsáveis por essa iniciativa inoportuna, exceto


seu filho, e declarou: Sabeis agora que se governa com a cabeça e não com as pernas" ("Les Césars", de Lissner). - *"Praecepta Medica" e os males incapacitantes* Quando da morte de Sétimo Severo no ano 211 d.C., assumiu o poder seu filho cognominado Caracala (Marcus Aurelius Antoninus Bassianus - 188 a 217 d.C.). Para garantir-se no poder, eliminou primeiramente seu irmão Lúcio Sétimo Geta e, numa seqüência macabra, mandou matar mais de 20.000 homens importantes que considerava seus críticos e opositores. Dentre eles iremos encontrar o grande sábio Samônico (Quintus Severus Samonicus) que foi assassinado durante uma festa por ordem direta do imperador, no ano 212. Para compreendermos o significado de seu nivel de cultura, basta que saibamos o seguinte: Samônico tinha uma biblioteca com mais de 60.000 obras que continuamente consultava. Escreveu uma interessante farmacopéia em versos que chegou até nossos dias e intitulada "Praecepta Medica". Através dela passou para a posteridade receitas de muitos remédios e orientações quanto ao combate de certos males bem específicos. Neles vemos inseridos algumas doenças ou problemas que podem levar a deficiências físicas ou sensoriais, tais como a gota, a elefantíase, os males das articulações, a epilepsia, as doenças da visão e da audição e outros. Embora tenha sido escrita no início do século III d.C., a menos de dez anos após a morte de Cláudio Galeno, nota-se na obra de Samônico progressos muito pouco significativos na medicina. Há conceitos baseados apenas em crendices e há indicações de alguns preparados inócuos. Verifica-se, todavia, certa objetividade face a problemas graves, tais como a gota, para a qual poucos remédios surtiam efeitos reais. Diz, então, o sábio Samônico: "Vários, portanto, são os remédios próprios para a cruel podagra, da qual o deus de Epidauros enumerou 30 espécies. Ele próprio afirmou que impor o repouso ao paciente será correto para pelo menos mitigar sua triste dor". É sobre a epilepsia que ele faz uma alegação pouco aceitável, mesmo para aquela época:... "o próprio Esculápio lembrava que as pessoas concebidas durante o tempo da lua (cheia) estarão sujeitas a ataques epiléticos". A respeito de sangramentos ou hemorragias por cortes profundos ocorridos em acidentes ou em campos de batalha, Samônico indica um preparado popular que devia ser muito utilizado - e com sucesso - por soldados e por civis sem qualquer distinção, e que já mencionamos anteriormente: "O esterco de cavalo, cozido com casca de ovo, é ainda um remédio de maravilhosa eficácia para estancar a saída de sangue" ("Praecepta Medica", de Sammonicus). - *Galério, imperador que morre com deficiência séria* No ano 311 falecia Galério (Caius Galerius Valerius Maximianus) imperador entre 293 e 311 d.C., um dos integrantes da tetrarquia romana e dos mais cruéis perseguidores dos cristãos por um longo periodo de doze anos. Embora pareça irônico, foi ele o primeiro imperador que, ao final de sua vida, formalmente permitiu à religião cristã sair da clandestinidade em que vivia, por meio de um édito especial. No entanto, essa liberação só aconteceu devido a uma gravíssima moléstia que o atingira e que o havia incapacitado de andar no último ano de sua vida. O mal caracterizava-se por ulcerações muito sérias e que, apesar de serem tratadas com ferro em brasa - como era rotina - reabriam sempre, levando Galério a perder muito sangue. Enfraquecido ao extremo, e sem mais poder mover suas pernas devido à deformação de seus pés, o cruel imperador mandou vir médicos de todos os


recantos de seu Império, sem qualquer tipo de resultado. Chegou até a recorrer a Apolo e a Esculápio, mas seu problema não só continuou como piorou. As feridas chegaram a atingir seus intestinos. Galério, muito irritado com a falta de bons resultados, mandou executar diversos médicos que não haviam conseguido minorar seus males ou que não haviam suportado o mau cheiro de suas úlceras. No entanto, um deles, que era cristão, vendo-se em verdadeiro perigo de vida ao tratar o imperador, usou de absoluta sinceridade. Disse-lhe que ele se enganava em esperar que os homens pudessem livrá-lo de um mal que lhe fora mandado por Deus. E lembrou Galério sobre os muitos anos de perseguição feroz dos cristãos, indicando com isso onde poderia estar a solução. Acreditando em tudo o que lhe sugeriam, resolveu o imperador desesperado publicar um édito imperial de caráter geral, pelo qual liberava a religião cristã. Mas colocou algumas restrições aos cristãos: "... considerando nossa mui doce clemência e o costume que temos sempre observado de perdoar a todos os homens, cremos dever dessa forma estender nossa ampla indulgência sobre eles (os cristãos) de tal maneira que possam ser cristãos como antes, e restabelecer seus lugares de reunião, na condição de que não façam nada contra as leis; de resto, faremos cientes os juízes, por outra carta, tudo o que deverão observar. Portanto, de acordo com esta graça que nós lhes fazemos, eles serão obrigados a rezar ao seu Deus por nossa saúde, pela segurança da república e deles mesmos, a fim de que a república prospere de todos os lados, e que eles possam viver seguramente em suas casas" (Citação de Santo Eusébio, apud Rohrbacher). Galério morreu pouco depois da divulgação de seu decreto em todo o Império Romano, no qual já haviam sido iniciadas as providências concretas para não mais perseguir os cristãos e para libertar os que estavam presos e condenados à morte ou ao suplício. Sua grave enfermidade e sua morte trágica foram consideradas por todos os cristãos como um verdadeiro castigo de Deus. - *Mutilações em cristãos: a língua de São Romão* Conforme nos relata o historiador Rohrbacher, a crueldade dos juízes e das mais altas autoridades nas diversas Províncias do Império Romano era por vezes incompreensível e assustadora. E as decisões quanto à imposição de torturas eram sumárias. Para uma infinidade a morte foi o destino imediato. Para outros o severo castigo deixaria as marcas impostas pelo imperador ou em seu nome. Mutilações ocorriam em muitos casos, conforme indicamos antes. Durante a perseguição conhecida como de Diocleciano, pelo ano 303 aproximadamente, um corajoso diácono da igreja de Cesária, na Palestina, chegou a Antióquia e interpelou um juiz chamado Asclepíades, que estava condenando os cristãos a diversos tipos de tortura, simplesmente por não quererem se curvar ou reverenciar o imperador Diocleciano como divino. Diante do desafio público, o juiz mandou aprisioná-lo e torturá-lo. No entanto, durante as torturas o bravo diácono não deixava de reprovar o que estava acontecendo, condenando em altos brados a vaidade da idolatria e ressaltando a excelência do Cristianismo. Devido à óbvia inconveniência da palavra desabrida daquele cristão, conhecido como Romão, Asclepíades mandou amputar sua língua. Para tanto, foi chamado um médico ali presente, que também era cristão, mas que não havia suportado o martírio. Esse médico, Ariston, usou instrumentos próprios para essa operação e guardou consigo a língua decepada, como uma espécie de relíquia.


O mártir, mandado de volta à prisão, foi barrado por um soldado que perguntou seu nome. E ele respondeu com clareza, apesar da língua amputada. O juíz e o próprio Diocleciano, presente em Antióquia, suspeitaram do médico e mandaram-no chamar. Ariston mostrou a língua decepada e disse-lhes que Romão era um homem protegido por Deus. Diocleciano passou a temer tanto a influência desse loquaz cristão aprisionado que mandou colocá-lo com os pés presos ao chão por argolas de ferro, em sua própria cela. E assim mesmo, pés presos ao chão, foi enforcado no mesmo dia em que Diocleciano celebrava a festa do vigésimo aniversário de seu Império, ocasião em que mandou soltar muitos prisioneiros, inclusive os detestados cristãos. O castigo infligido a Romão é um pequeno exemplo das muitas mutilações de que foram vítimas, no Império Romano, os criminosos - dentre os quais os cristãos estiveram inseridos por longo tempo. - *Alterações substanciais provocadas pelo Cristianismo* O Cristianismo foi muito relevante na mudança da mentalidade imperante no século IV, pois condenava abertamente muito do que o sistema vigente aprovava, como a libertinagem das pessoas solteiras, a perversão do casamento, a morte de crianças não desejadas pelos pais devido a deformações, dentre muitos. Foi o imperador Constantino que, em 315, editou uma lei que bem demonstra a influência dos princípios defendidos pelos cristãos de respeito à vida. Essa lei considerava os costumes arraigados - embora não generalizados - de mais de cinco séculos, prevalecentes em Roma e em Esparta principalmente, que não só permitiam como também exigiam que o pai de família, senhor absoluto de tudo e de todos no lar, fizesse morrer o recém-nascido que ele não queria que sobrevivesse, devido a defeitos ou a mal-formações congênitas. Constantino taxou esses costumes de "parricídio" e tomou providências para que o Estado colaborasse para a alimentação e vestuário dos filhos recém-nascidos de casais mais pobres. Exigiu que essa nova lei fosse publicada em todas as cidades da Itália e da Grécia, e que fosse em todas as partes gravada em bronze para, dessa forma, tornar-se eterna. - *Um bispo com deficiência: Castigo de Deus?* Há fatos narrados por historiadores da Igreja que falam sobre deficiências físicas, relacionando-as com manifestações superiores, indicando por vezes castigo de Deus por faltas cometidas. Um desses fatos está inserido na vida de São Miles, bispo de Susa. Segundo a história, havia um bispo chamado Papas, cujo temperamento, arrogância e orgulho haviam causado sérios problemas ao clero a ele subordinado, levando a verdadeiro cisma na Igreja da Selêucia e de Ctésiphon. Diante da seriedade do problema, os bispos reuniram-se num sínodo no ano 314. Ocorreram discussões apaixonadas, principalmente entre São Miles e Papas. Procurando descobrir a causa do ódio com que Papas agia para com seus sacerdotes, Miles perguntou se ele afinal considerava-se um Deus. No calor das discussões Papas respondeu muito irritado: "Insensato! Tu queres me ensinar coisas como se eu não as conhecesse?" Tomando o livro dos Evangelhos que trazia consigo, Miles colocou-o sobre a mesa dos debates e lhe disse: "Se menosprezas aprender coisas de minha parte, por eu ser um mortal, não desdenhe aprendê-las do Evangelho do Senhor que aqui está" ... Papas não conseguiu conter-se mais, pois tomou o livro entre as maos e olhando-o ferozmente gritou: "Fala, Evangelho, fala!" ...


Miles, assustado e ao mesmo tempo chocado com aquela atitude questionadora, tirou-lhe o Evangelho das mãos, beijou-o com respeito e aproximou-o dos olhos. Em seguida, num tom profético e inspirado disse ao bispo irreverente: "Já que em teu orgulho ousaste falar dessa maneira contra as palavras de vida do Senhor, eis que seu anjo está pronto para secar metade de teu corpo para inspirar o terror a todos; portanto, não expirarás: a vida ser-te-a conservada como um milagre de punição". No mesmo instante Papas sentiu a metade de seu corpo sem movimento e sem vida. Tombou sobre um lado e assim permaneceu. Viveu assim por mais doze anos, até sua morte no ano 326. - *Dídimo, teólogo cego: diretor da Escola de Alexandria* Dídimo perdeu sua visão aos 4 ou 5 anos de idade, quando começava a aprender a ler. No entanto, esse problema não diminuiu sua vontade de saber. Pelo contrário, parece que até a inflamou. Gravou o alfabeto em madeira e depois aprendeu pelo tato as letras, as sílabas, as palavras e depois as frases inteiras. Seu ardor pelo estudo não o fez parar nesse ponto de conquista. Tomava providências para ouvir professores célebres, quando já era moço, e conseguiu ajuda de pessoas que se prontificavam a ler para ele, a fim de tomar conhecimento dos melhores livros. Quando seus ledores, cansados, adormeciam, ele meditava muito sobre o que acabara de ouvir e assim gravava o assunto em sua memória. Aprendeu as regras de línguagem e da gramática, os mais belos trechos dos poetas e dos oradores, e também noções de retórica. Tornou-se um ótimo conhecedor das letras sagradas e de assuntos humanos, das Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, que conseguia explicar, trecho por trecho, das mais variadas maneiras. Dominava a dogmática da Igreja Católica, e sobre os dogmas discutia com precisão e muita propriedade. Conhecia a filosofia de Platão e de Aristóteles, a geometria, a música, a astronomia e as diferentes opiniões dos filósofos. Quando chegou a Alexandria, atraiu muito a atenção e recebia muitas visitas de pessoas que queriam ouvi-lo. Tinha amigos importantes, dentre os quais cumpre citar Santo Atanásio, que acabou indicando seu nome para Diretor da Escola de Alexandria. Era estimado e respeitado pelos mais santos monges e eremitas do Egito. Recebeu um dia a visita de Santo Antão - talvez o mais famoso dos eremitas - que lhe perguntou se a cegueira o incomodava. Dídimo teve vergonha de responder e de confessar sua fraqueza. Mas Santo Antão repetiu a pergunta uma segunda vez, e à falta da resposta perguntou uma terceira. Dídimo confessou que sim, a cegueira o afligia, o bloqueava. Segundo seus biógrafos, Santo Antão lhe disse nessa oportunidade: "Admiro-me muito que um homem sábio como voce se aflija de haver perdido aquilo que as formigas e as moscas possuem, em vez de se alegrar de ter o que os santos e os apóstolos tinham. É mais importante preocupar-se com a alma do que com esses olhos dos quais um só olhar poderá perder o homem eternamente". Dídimo foi Diretor da Escola de Alexandria do ano 345 até 395, ano anterior à sua morte. Dentre seus alunos mais renomados podem ser citados São Jerônimo, Rufino e Paládio. Dídimo escreveu diversos estudos e deles os mais famosos são "Sobre o Espírito Santo" e "Sobre a Trindade". - *Os primeiros hospitais cristãos e as pessoas deficientes* Sob a influência da religião cristã e graças aos seus preceitos de mansidão, de caridade e de respeito a todos os semelhantes (motivos bastante sérios para dedicação a uma beneficência ativa e voltada à população mais pobre) começou logo a ocorrer o surgimento


de hospitais em algumas localidades, marcados pela finalidade expressa de abrigar viajantes enfermos de um lado, e doentes agudos ou crônicos (e dentre estes muitos casos de pessoas deficientes) de outro lado. Sozomen (* Sozomen foi um historiador da Igreja Católica que viveu no século V. Uma das suas obras mais conhecidas é a “História Eclesiástica) relata-nos a fundação do chamado "Hospital de Edessa", na Síria, cidade hoje conhecida como Urfa. Naquele ano (370), assolada por uma terrível onda de carestia de víveres e de males decorrentes, Edessa recebeu a intempestiva visita do eremita Efraim, que havia saído de sua reclusão no deserto para censurar todos os cidadãos ricos da cidade devido à sua falta de caridade face à situação. Os pobres morriam sem receber ajuda, e as riquezas e comodidades dos mais poderosos continuavam intactas. Muito aborrecido com essa falta de envolvimento cristão, Efraim lhes disse: "Essa riqueza que acumulais com tanto cuidado, servirá apenas para condenar-vos, pois estais perdendo vossas almas, que valem mais do que todos os tesouros da terra"... Assustados e persuadidos por essas contundentes palavras do anacoreta, os ricos cristãos de Edessa argumentaram que não tinham podido até aquele momento decidir qual deveria ser a pessoa honesta à qual poderiam confiar dinheiro para uma justa distribuição ou uso, pois as que conheciam eram pouco honestas e confiáveis e seriam capazes de desviar o montante coletado dos seus fins originais. Efraim não duvidou e lançou a pergunta: "E qual é a vossa opinião a meu respeito?" Os apaniguados cidadãos responderam que ele certamente era um homem honesto e a ele entregariam de bom grado as contribuições para uma aplicação justa. Efetivada a coleta, recebeu Efraim um significativo volume de dinheiro, com o qual encomendou imediatamente trezentas camas que foram instaladas no vestíbulo de um edifício público cedido pelos poderes locais. Ali começou a ser dada atenção a todos os que sofriam de doenças graves conseqüentes à falta de gêneros ou à alimentação deficiente (Apud "Encyclopaedia of Religion and Ethics"). Há historiadores da Igreja Católica, entretanto, que afirmam ter sido o papa Anacleto, que reinou entre 76 e 88 como Bispo de Roma, o primeiro a organizar um abrigo para as vítimas de uma violenta peste que assolava toda a região, vítimas da carestia de víveres e também de vários outros males, numa ala de sua propriedade. Isso aconteceu em 76 e deve ter sido o primeiro exemplo de um hospital cristão. Segundo alguns outros autores, todavia, o primeiro hospital cristão de que se tem notícia foi aquele criado por São Basílio, o Grande (329 a 379), célebre autoridade da Igreja Cristã, na cidade de Cesaréa, na Capadócia, hoje Turquia. Esse hospital teria sido construído às portas de Cesaréa, no ano 375, consistindo de vários edifícios separados. Era conhecido pela genérica e famosa designação de "xenodóchium", termo muito utilizado, tanto naquelas épocas quanto durante toda a Idade Média, e que acabou sendo aceito para designar "abrigo para doentes", quando na verdade pela sua derivação do grego significa "abrigo para estrangeiros" ("xenós" para estrangeiro e "dócheion" para abrigo e proteção). Num trabalho escrito no século passado Broglie apresenta a seguinte descrição desse verdadeiro conjunto hospitalar: "Às portas de Cesaréa, sobre um terreno antes deserto, elevava-se como por encantamento toda uma comunidade edificada pela esmola e habitada pela caridade. Era a hospitalidade sob todas as formas, dando-se a essa palavra toda a acepção que lhe fez tomar a língua cristã, ou seja, considerando todo aflito em geral como hóspede de Deus e da Igreja. Ali havia um lugar de repouso para o viajante, um abrigo para o velho, um hospital para o doente, com instalações reservadas para males humilhantes que arrastam consigo o contágio e a vergonha. E eram essas instalações que São Basílio visitava mais vezes, lançando-se espontaneamente, ele mesmo, aos braços dos leprosos. Ao centro


desses edifícios elevava-se uma vasta igreja, ornamentada com todos os esplendores do culto triunfante e servida por uma comunidade de monges, dos quais o próprio São Basílio era o superior. Nas imediações todas movia-se uma multidão de auxiliares, de enfermeiros, de fornecedores, de carroceiros, cuidando das coisas necessárias à vida. Era o próprio movimento de uma cidade populosa. E, no meio dessa população animada, São Basílio passava a toda hora, inspecionando tudo, falando com todos, edificando a todos pelo seu zelo. Um século depois, todo esse lugar de Cesaréa ficou conhecido como "Basilíada" ("L'Eglise et l'Empire Romain au IVe Siècle", de Broglie). Naqueles três primeiros séculos da Igreja Cristã os doentes de famílias mais abastadas continuavam a ser tratados em suas próprias residências, da mesma forma como sucederia por séculos mais. - *Fabíola e Pammachius associados num hospital de caridade* Na Roma do século IV d.C., no seio da famosa, multissecular e muito abastada família patrícia dos Fábios, uma notável mulher de nome Fabíola dedicou toda a sua fortuna e todo o seu tempo e energias para organizar o que é reconhecido como o primeiro hospital de caridade do Império Romano. Lá ela recebia pessoas com os mais severos males, conforme poderá ser constatado em um documento daquela época, ou seja, uma carta de São Jerônimo (347 a 420) a um cristão de Roma, Oceanus. A famosa e muito inspiradora carta, que procurava incentivar a comunidade cristã local a dedicar-se cada vez mais ao próximo dentro dos princípios básicos da caridade cristã, é uma análise sintética da vida dessa mulher muito dedicada, que nascera fora do Cristianismo e a ele se convertera quando já era casada pela segunda vez. Num certo ponto da missiva São Jeronimo afirma: "Todo o seu patrimônio, que era considerável e proporcional à sua linhagem, ela distribuiu e alienou, destinando o dinheiro aos mais necessitados dos pobres; e logo em seguida ela fundou um hospital para nele abrigar os doentes abandonados nas ruas e mitigar os sofrimentos dos infelizes acometidos por doenças ou consumidos pela fome". Ao analisarmos os termos utilizados pelo famoso santo da Igreja Católica, ao escrever essa carta, não podemos nos esquecer de que aproximadamente à mesma época surgira a primeira tentativa bem sucedida de cristãos na aplicação prática dos preceitos da caridade, criando em Cesaréa, como vimos, o que era conhecido pelo nome de "xenodóchium", ou seja, um grande e bem organizado abrigo para peregrinos e estrangeiros doentes ou com problemas, que recebia também doentes e miseráveis da própria localidade e seus arredores. Verificamos que no texto original latino São Jerônimo utilizou estas palavras: ... "et prima omnium "nosokómeion" instituit" ( e antes de mais nada criou um "nosokomeion"). O uso do termo grego, com caracteres gregos em sua carta original, indica-nos a inexistência de um termo próprio em latim para o novo tipo de organização de caridade na qual Fabíola e seus colaboradores cuidavam apenas de doentes, recebendo também pessoas deficientes, como veremos a seguir. São Jerônimo fala expressamente delas em algumas considerações adicionais que faz a Oceanus: "Mencionarei agora algumas calamidades humanas, tais como, nariz decepado, olhos vazados, pés mutilados, mãos enfraquecidas, ventrês tumefeitos, pernas enfraquecidas, pés inchados?" Na verdade, esses eram os tipos de doentes e de pessoas deficientes que Fabíola por vezes chegava até a carregar em seus braços para levar ao hospital. Ressaltemos que o esforço de Fabíola não foi isolado, pois ao que tudo indica, o empreendimento foi concretizado e fortificado com o concurso de outras fontes de dedicação pessoal e financeira, como a de Pammachius, por exemplo.


A ele São Jerônimo escrevera uma carta, mas quatro anos antes daquela outra a respeito de Fabíola, com o expresso intuito de consolar esse importante cristão pela morte de sua esposa Paulina. E é nessa carta que o leitor poderá encontrar esta pergunta: "Ouvi dizer que voce construiu um hospital no porto romano?" E se for analisar de perto os originais do documento famoso, perceberá que São Jerônimo, ainda pouco informado sobre todo o empreendimento, no texto latino usou a palavra grega geralmente adotada para tal fim: "xenodochium". Fabíola e Pammachius, segundo a grande autoridade da Igreja, "uniram seus bens, associaram suas vontades, a fim de aumentar pela sábia inteligência o que a rivalidade poderia ter dissipado. E conforme foi dito foi feito. Foi construído um hospital e a ele a multidão acorreu e não há mais aflições em Jacó nem dor em Israel" ... "O mundo todo ouviu quase ao mesmo tempo que um hospital havia sido construído no porto romano. A Bretanha ficou sabendo no verão; o Egito e Parthus souberam na primavera". As palavras de São Jerônimo deixam-nos a impressão clara de que verdadeiramente algumas riquezas existentes nos primeiros séculos do Cristianismo haviam-se voltado à causa dos mais miseráveis dos pobres, ou seja, aos doentes crônicos e também aos portadores de deficiências físicas graves. Repare o leitor neste outro trecho que se relaciona à faustosa vila da família de Pammachius, bem como ao novo hospital, em que as deficiências são expressamente citadas: "Aquele cego que estendia a mão e que muitas vezes pedia esmola a quem não o podia socorrer, é hoje herdeiro de Paulina e co-herdeiro de Pammachius. Aquele homem deformado e forçado a arrastar seu corpo, a mão de uma jovem ampara. Aquelas portas que vomitavam uma multidão de cortesãos, são hoje assediadas pelos pobres. Um é hidrópico que traz a morte dentro de si; outro não tem língua e é mudo, sem a faculdade de pedir esmolas, mas que as solicita de maneira mais tocante por não ter língua para a pedir. Aqui, um defeituoso de nascimento pede esmola, mas não para si". Essas precisas informações e os comentários que a elas estão relacionados poderão ser encontrados na íntegra no volume intitulado "Lettrês Choisies de Saint Jérome", destacandose as cartas a Oceanus, sobre Fabíola, e a Pammachius, sobre Paulina. - *A hospitalidade cristã e o papel dos bispos* Para melhor compreendermos a prioridade que a Igreja Cristã deu às atividades que garantiram a assistência a pessoas pobres e marginalizadas nos seus primeiros séculos de existência, é necessário lembrar que ela colocava a hospitalidade como a virtude mais importante dos bispos. Ao tentar convencê-los da necessidade de uma atuação prática, o concílio da Calcedônia (em 451) adotou a diretriz com ênfase e em seu cânone oitavo deu aos bispos a responsabilidade de organizar e prestar assistência aos pobres e aos enfermos. Os primeiros indícios de regulamentação dessa assistência surgiram em alguns concílios da Igreja Gaulesa. O primeiro desses concílios (Orléans, 511) contou com a autoridade interessada de Childebert, filho de Clóvis e Clotilde. O cânone décimo sexto dizia: "O bispo proverá alimentos e roupas, dentro da possibilidade de suas posses, para o pobre e para o enfermo que devido a seus males estejam impossibilitados de trabalhar por sua conta". O papel dos bispos no atendimento aos mais carentes da população foi aos poucos sendo delineado, visando uma atuação prática. Tanto isso é verdadeiro que já no 5º concílio da Igreja Gaulesa (ano 549), o cânone vigésimo primeiro determinava: "Os bispos devem cuidar especialmente dos leprosos, dando-lhes comida e roupas" (Apud "Encyclopaedia of Religion and Ethics").


- *Notícias de organizações para pessoas deficientes* Como resultado prático de muitas recomendações conciliares a História da Humanidade nos mostra que várias organizações de caridade ou de assistência a pobres, a deficientes abandonados e a doentes graves ou crônicos, conhecidas popularmente e impropriamente como "xenodochium", foram estabelecidas já a partir do século V por influência direta da Igreja. No ano 542, convencido das prementes necessidades dos pobres impossibilitados de se cuidar, o rei franco Childebert construiu um hospital de caridade na cidade de Lyon, com recursos e instalações que de alguma forma se assemelhavam àquela primeira e bem sucedida experiência de Cesaréa, iniciada quase dois séculos antes. Foi levado a isso pela pressão da Igreja Gaulesa e de um modo especial do bispo de Lyon. Todos os envolvidos rei e bispos - viam-se quase que forçados pelas decisões conciliares (na verdade a Igreja havia já organizado os concílios de Nicéa (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451), considerados como dos mais importantes) a dar abrigo e ajuda aos pobres e àqueles doentes que eram abandonados pelos seus parentes. Esta construção foi reconhecida e confirmada no concílio de Orléans (549), através de seu cânone décimo quinto. - *A questão das deficiências físicas em sacerdotes cristãos* Segundo alguns historiadores da Igreja Católica, já nos chamados "Canones Apostolorum", cuja antigüidade todos desconhecem e que, no entanto, foram elaborados no correr dos três primeiros séculos da Era Cristã, existem restrições claras ao sacerdócio para aqueles candidatos que tinham certas mutilações. Para a Igreja surgiam problemas sérios, durante esses três ou quatro primeiros séculos, com mutilações de ordem sexual principalmente. Na verdade, mutilações sexuais eram muito comuns, seja como pretexto para "fuga do pecado", seja em conseqüência de castigos impostos pelos tiranos daqueles distantes séculos. Tentando disciplinar a questão e esclarecer os bispos quanto à seriedade do problema, os "Cânones Apostolorum", do cânone vigésimo primeiro ao vigésimo quarto, indicam o seguinte: "Que não se coloque dificuldade em sagrar como bispo, se o candidato for considerado capaz, aquele que for eunuco por natureza, ou que se tornou eunuco por malícia dos homens ou por crueldade dos tiranos" ... Logo a seguir o cânone vigésimo segundo declara como "irregulares" os casos de sacerdotes que se automutilavam, porque "eles são homicidas de si mesmos". Para casos de sacerdotes que tomavam essas medidas, o cânone vigésimo terceiro castiga com sua deposição, seu afastamento das funções sacerdotais. Finalmente o cânone vigésimo quarto "priva da comunhão pelo período de três anos o leigo que fez a automutilação sexual" ("Les Conciles Généraux et Particuliers", de Guérin). O Padre Louis Thomassin (1619 a 1695), em sua obra "Ancienne et Nouvelle Discipline de l'Église" analisa em muitos pormenores diversas situações relacionadas aos bloqueios que as deficiências físicas ou sensoriais significavam para um homem ser aceito como sacerdote da Igreja Católica desde o início de sua criação até o final do século V. Segundo esse famoso autor, um dos primeiros papas a se manifestar abertamente a esse respeito foi Hilário, que reinou entre 461 e 468. De acordo com as próprias palavras do papa, na conhecida Epistola II, "propisciendum ne duo simul sint in Ecclesia sacerdotes: nec literarum ignarus, aut carens aliqua parte membrorum". Ou seja, na Igreja Católica não deveria haver dois tipos de sacerdotes: nem o analfabeto, nem o que não tivesse alguma parte de seus membros (Apud Thomassin).


A obra de Louis Thomassin sobre a disciplina na Igreja, que foi escrita e publicada entre os anos de 1678 e 1679, foi revista e ampliada por M.André, um também famoso doutor em direito canônico, que a publicou em sete volumes em 1865. Encontraremos, portanto, mais adiante neste trabalho, dados mais atualizados sobre o assunto. Mas ainda no século V houve posicionamentos de dois concílios, confirmando inclusive a posição do papa Hilário, mais tarde canonizado pela Igreja. Assim, é de se ressaltar que a posição dos concílios nunca foi dissonante. Vejamos os dois acima citados: Primeiramente o concílio realizado em Angers, em 453, estabeleceu em seu cânone terceiro uma forte medida contra sacerdotes que adotavam procedimentos cruéis, muito generalizados no seio da população, acostumada com barbáries sem conta: "São proibidas as violências e as mutilações de membros". Já o concílio realizado em Roma no ano 465, reunido sob a autoridade do papa Hilário, aprovou por aclamação cinco cânones. Um deles, o de número três, diz com clareza: "Deve-se também excluir das ordens aqueles que não sabem ler, ou que deceparam algum membro" (Apud Guérin). Gelásio I, papa que reinou de 492 a 496, reafirmou a mesma orientação de Hilário e do Concílio de Roma contra a aceitação de sacerdotes com deficiências, ao afirmar em sua carta ao bispo de Lucânia que candidatos ao sacerdócio não poderiam ser nem analfabetos nem "ter alguma parte do corpo incompleta". Esse mesmo papa afirmava ainda, muito convicto dessas justificativas para essa atitude de bloqueio a pessoas com defeitos ou problemas físicos, que "se trata de uma antiga tradição e um costume observado desde muito tempo em Roma; mais do que isso, que se trata de um desses louváveis costumes que a Igreja emprestou da Sinagoga" (Apud Thomassin). Encontramos ocasionalmente pequenos relatos relacionados ao problema aqui analisado. Existem histórias até de automutilação, destinada a caracterizar uma irregularidade, como no caso de Amônio, um santo eremita que ao se perceber praticamente "ameaçado" pelo povo de ser elevado à dignidade do bispado, tomou uma providência extrema: cortou uma de suas orelhas. Todavia, as pessoas que o haviam procurado na tentativa de fazê-lo bispo, ficaram sabendo posteriormente que aquela mutilação seria apenas válida dentro da religião judáica e não para os cristãos. Assim sendo, voltaram a insistir com o mesmo propósito. Tiveram, todavia, uma surpreendente decepção, pois o eremita, muito resoluto em sua posição de humildade, de faca em punho ameaçou cortar a própria língua na frente deles, conseguindo dessa forma dissuadi-los. Caso tivesse efetivado sua ameaça, Amônio estaria incapacitado inclusive para ser sacerdote. A Igreja Católica dos primeiros cinco séculos sempre procurou demonstrar pelos mais diversos meios que essas restrições ao sacerdócio davam-se para benefício maior da Igreja e não por considerar as pessoas deficientes como indignas ou manchadas pelo pecado. Ressalte-se também que quando as deficiências ou males incapacitantes ocorriam "após a ordenação sacerdotal", a Igreja usava do máximo de benevolência e em geral não impedia o sacerdote de suas funções básicas. - *Papel dos mosteiros na assistência aos miseráveis* Conforme verificamos anteriormente, com o advento e o fortalecimento do Cristianismo, um grande impulso foi dado às diversas formas de assistência aos necessitados, por ser a caridade a própria essência da nova religião. Praticamente durante a Idade Média inteira, somando aos esforços dos bispos, já engajados por determinações conciliares, os mosteiros constituiram-se numa nova força impulsionadora da assistência social como pura expressão da caridade.


De outra parte, responsáveis pela vida e bem-estar de seus súditos, alguns senhores feudais sentiram-se também obrigados a cuidar dos menos afortunados, doentes ou deficientes físicos e mentais, de bom ou mau grado, desde que dentro de seu feudo. No entanto, espalhados por toda a Europa e Oriente Médio, os mosteiros eram de fato os únicos lugares que possuiam alojamentos destinados a recolher enfermos, utilizando as instalações dos chamados "xenodóchium" ou "nosocomium", abrigando também eventualmente mendigos aos quais distribuiam a alimentação disponível, roupa e algum dinheiro. 2. O Império Bizantino e as deficiências A História da Humanidade, conforme nos é transmitida nos países do mundo ocidental, minimiza e chega mesmo a deturpar a importância eventual do Império Bizantino, isto é, do Império Romano do Leste, que durou nada menos do que onze séculos. Instalado no ano de 330 d.C. por Constantino I, o Grande (274 a 337), ocasião em que inaugurou a nova capital imperial com o nome de Nova Roma e para lá transferiu o governo, caiu apenas em 1453, ano em que Constantinopla tornou-se uma possessão dos turcos otomanos liderados por Maomé II. Foram onze séculos pujantes, intensamente vividos na mesma época em que a Europa mergulhava numa etapa obscura e problemática da História que foi a Idade Média. Durante vários desses onze séculos foi uma notável unidade política que manteve muito viva a cultura clássica de gregos e de romanos - e durante toda a sua duração estabeleceu com clareza sua característica fundamentalmente cristã. Neste trabalho sobre deficiências e pessoas deficientes o Império Bizantino tem um lugar especial, uma vez que diversos de seus imperadores destacaram-se em sua história não apenas por suas lutas, conquistas e intransigente defesa do Cristianismo, como também pela severidade dos castigos e penalidades que infligiam, apoiados ou não nas leis. Marca registrada da realidade bizantina foi, de fato, a existência legal de punições de mutilação de membros ou do vazamento dos olhos das muitas vítimas - culpadas ou não - que caíram nas mãos da justiça. Essas punições foram generalizadas e atingiram tanto a nobres senhores quanto a membros das camadas mais pobres da população, incluindo integrantes das forças armadas. Não nos é difícil imaginar a extensão dos problemas das pessoas portadoras de deficiências pelas causas usuais, quando a elas eram acrescentadas todas aquelas outras cegas e amputadas devido a penalidades impostas pela lei ou pelo poder absoluto dos imperadores. - *Constantinopla, o "Reino de Deus na Terra"* Capital do Império Bizantino, a maravilhosa cidade das muitas mansões senhoriais, dos inumeráveis palácios e das incontáveis cúpulas douradas, localizada em ponto privilegiado e banhada pelas águas azuis do Chifre Dourado, do Bósforo e do mar de Mármara, toda cercada por aproximadamente 20 quilômetros de muralhas inexpugnáveis, Constantinopla foi por muitos séculos considerada pelos seus habitantes como o verdadeiro "Reino de Deus na Terra". Os bizantinos aceitavam e defendiam o seu império como "sui generis", pois havia sido estabelecido por ordem direta de Deus e questionar sua existência ou seu sistema de governo estava totalmente fora de cogitação. Brilhou como estrela solitária no mundo durante toda a Idade Média e significou para muitos potentados um sonho impossível. Além de tudo, Constantinopla era um verdadeiro


bastião fortificado da Cristandade que desafiou durante todo um milênio o mundo bárbaro após a queda de Roma. Séculos após séculos, mongóis, tártaros, búlgaros, árabes, mas principalmente os turcos, atacaram-na, maravilhados pelo que conseguiam ver por cima das muralhas: suas cúpulas douradas e os seus palácios. E dentro desses palácios e igrejas as inimagináveis riquezas. No entanto, a vida de Constantinopla era enclausurada nos tempos de guerra, que foram muitos. Sua população, constituída de gregos, latinos e asiáticos (todos reconhecendo-se como "romanos") não conseguia imaginar o mundo além do horizonte das muralhas. Nesse universo limitado seu imperador sempre foi considerado como o representante de Jesus Cristo e sua figura autocrática era o próprio coração e a força propulsora de toda sua administração, localizada e concentrada no palácio imperial. - *A pompa e a circunstância na corte bizantina* Não é de admirar que as autoridades existentes no palácio do imperador e que com ele mantinham contatos próximos tinham permanente e inquestionável importância. Mas elas todas respeitavam ao preço da própria vida uma linha hierárquica muito rígida e garantida por leis de muita severidade. Numa clara demonstração da importância dessas autoridades, havia na corte bizantina muitos títulos, sendo que alguns deles eram honoríficos e não estavam ligados a funções específicas; correspondiam a verdadeiras sinecuras. Eram outorgados através de cerimônias faustosas durante as quais o imperador entregava títulos, diplomas e ensígnias; títulos correspondentes a funções oficiais (de trabalho propriamente ditas) eram confirmados por éditos do imperador. Exclusivamente para a família do imperador havia títulos honoríficos especiais, tais como "césar", "nobilíssimo" e "curopalato". Com o correr dos séculos e mesmo com a criatividade de algumas dinastias outros títulos foram a eles adicionados: "sebastocrator" e "déspota", por exemplo, que correspondiam ao de "césar" em termos de sua importância. Todos os titulares tinham o direito de serem tratados como "majestade imperial", sendo respeitados como tal. Muitos outros títulos havia para os nobres ou as personalidades importantes do Império, sendo o mais elevado dentre eles o de "magister". - *As grandes e poderosas famílias do Império* Em boa parte dos fatos que passamos a relatar e que se relacionam a deficiências físicas ou sensoriais graves, desejamos destacar algumas famílias que muito significaram na vida bizantina e a respeito das quais faremos menção mais adiante. São os Phocas, Commenus, Angelus, Tzimisces, Dukas, Paleólogus, Briennes, Lascáris, Diógenes e Argiros principalmente. A imensa influência desses fortissimos clãs nos assuntos de Estado está evidenciada nas muitas páginas da vida de todo o Império Bizantino. E o historiador ou o interessado nessa realidade conhece também o evidente perigo que eles podiam constituir para determinado imperador, conforme circunstâncias que mais adiante pretendemos expor. Os palácios dessas enormes e fortes famílias nobres na capital e principalmente nas províncias (por séculos conhecidas pela designação de "temas") eram verdadeiras cidadelas e cortes em miniatura. - *A miséria na capital bizantina e as pessoas deficientes* O vasto triângulo de terras cercado por imponentes muralhas que compunha o cenário de Constantinopla nunca foi uniformemente povoado. No século VII, por exemplo, nele viviam com certeza cerca de 500 a 800 mil pessoas, compondo uma sociedade diversificada não só


em termos de raças e origens, como também em termos de poderio econômico: havia a nobreza dominante, a nobreza oprimida, as famílias ricas, as remediadas, as pobres e as miseráveis. "O número de pessoas miseráveis em Constantinopla durante o citado século era de pelo menos 30.000 e o número de ladrões e outros criminosos não pode ter sido muito menor. É dificil imaginar que, numa cidade na qual a polícia era extremamente ativa e uma organização municipal das mais apuradas, que supervisionava a imigração e cuidava dos empregos, esses elementos possam ter excedido a cinco por cento da população total, mesmo considerando terem sido os pobres reconhecidos como uma parte integrante e socialmente importante de sua composição" ("Cambridge Medieval History", de Hussey). A vida de Constantinopla, é fácil imaginar, mostrava muitas situações contrastantes, nas quais cumpre que enfatizemos as suas misérias e tragédias. Além de toda a população pobre e pedinte e dos portadores de deficiências por causas naturais ou por acidentes que àqueles séculos pupulavam pela cidade, havia a presença incômoda de ex-criminosos ou de traidores mutilados (olhos, nariz ou orelhas atingidos por carrascos frios cumprindo as sentenças previstas por lei) mostrando a quem quisesse olhar os cotos de mãos amputadas ou seus olhos vazados, deixando uma desagradável impressão de tudo. Ressaltemos neste ponto que o segmento comercial da sociedade bizantina não era composto apenas de prósperos negociantes. Havia também um grande número de pequenos comerciantes, lojistas, artesãos e seus assemelhados. E, procurando sobreviver a duras penas, abaixo deles surgiam os braçais que trabalhavam por dia e aqueles que, devido a circunstâncias, estavam em condições piores, ou seja, braçais não-qualificados, mendigos, ladrões e prostitutas. No meio dos mendigos havia sempre pessoas com deficiências ou vítimas de males crônicos, todos vivendo de esmolas que lhes garantiam condições mínimas de sobrevivência. Mas mendigar era por vezes uma atividade muito rendosa. Numa pequena comparação existente na obra de Hussey, já citada, as prostitutas recebiam à época do reinado de Romano I, o Lecapeno (919 a 944), uma certa quantia de dinheiro por mês para deixarem a prostituição, enquanto que muitos dos mendigos mais prósperos ganhavam bem mais do que elas, pois a renda de um ponto estratégico de coleta de esmolas poderia levantar importâncias muito significativas. Esta não se caracterizava, no entanto, como uma situação comum e muito menos generalizada. O mais encontradiço mesmo era, no inverno, ver-se mendigos em condições de extrema miserabilidade, esquálidos, tremendo de frio em casebres mal cobertos com palha em muitos pontos da cidade. A realidade de Constantinopla e das grandes cidades do Império Bizantino mostrava que longe dos palácios e das grandes mansões, havia as áreas mais miseráveis da cidade, com seus becos sujos e escuros. Mas mesmo essas enormes áreas de Constantinopla eram insuficientes para abrigar toda a população mais pobre e suas multidões de mendigos, de soldados estropiados pela guerra ou pelas penalidades impostas pelo regulamento militar, aos quais adicionavam-se camponeses fugitivos e aqueles que procuravam na grande capital uma oportunidade para se refazer das suas desgraças. Dormiam ao relento ou sob as arcadas existentes nos muitos pontos das grandes avenidas, em instalações do famoso e soberbo Hipódromo e nos átrios das muitas igrejas. Às vezes juntavam-se grupos durante o inverno para se aquecer ao redor de uma estufa ou de uma esterqueira, à falta de outros locais mais saudáveis (Apud Hussey). - *As doenças e as deficiências físicas e sensoriais*


A quase totalidade desses infelizes sem condições de trabalhar para sua subsistência e para garantia de uma habitação menos infecta, ficava exposta a males endêmicos e epidêmicos que em geral eram provocados pela total ausência de condições mínimas de higiene e de saneamento. Algumas doenças graves e muitos males considerados como misteriosos levavam à instalação de limitações físicas e de males sensoriais severos, sendo a grande maioria deles considerada como sacrifícios para aperfeiçoamento da vida espiritual e também para pagamento de males feitos anteriormente. Mesmo na mais alta nobreza, todavia, a alta morbidade, a mortalidade infantil e a existência de deficiências físicas não eram incomuns. Um marcante exemplo poderá ser dado com a família do Imperador Basílio I, o Macedônio (867 a 886). De seus cinco filhos homens, apenas um sobreviveu e depois foi coroado como Leão VI. Este, por sua vez ficou viúvo três vezes e morreu com apenas 45 anos de idade. Dos seus filhos, um morreu logo após o batismo e o outro teve uma séria deficiência por toda a vida. Se esse podia ser o destino de uma família da mais alta nobreza, que vivia protegida na limpeza, na boa alimentação e no luxo, imagine-se a dificuldade para o restante da população em termos de morbidade, mortalidade, longevidade e deficiências, vivendo em ambientes menos saudáveis, alimentando-se mal e abrigando-se mal. - *Os miseráveis no "Reino de Deus"* Mas com certeza uma das mais surpreendentes características da vida de Constantinopla foi a aplicação prática que sua população deu à caridade cristã, insistente e aguerridamente defendida pela Igreja. "Os benefícios espirituais da prestação da caridade naturalmente dependiam da existência de uma classe à qual essa caridade poderia ser dedicada. Os "pobres", portanto, eram uma parte integrante da sociedade" . "Ao pedir esmolas os mendigos gritavam: "O paraíso bate à sua porta" ... e esmolas eram dadas com liberalidade. Mendigar era uma profissão reconhecida, da qual, como de outras profissões, os intrusos eram expulsos. Os pontos mais valiosos eram preservados ciumentamente. Cada átrio de igreja era cercado por mendigos, cuja inoportunidade garantiria um suprimento liberal para seu pão de cada dia. Mas a caridade organizada transcendia de longe os limites da ajuda meramente casual. A cidade era com justiça famosa pelos seus hospitais, seus orfanatos e seus abrigos para idosos e para carentes" ("Cambridge Medieval History", de Hussey). Nos trabalhos de organização e de manutenção dessas instituições a família imperial e a nobreza mais refinada tomavam parte ativa. Os seus membros do sexo feminino dedicavamse ativamente à ajuda aos doentes. Algumas mulheres chegaram mesmo a adquirir o hábito de visitar as prisões, que eram os ambientes mais degradantes da miséria humana na esplendorosa capital. E a Igreja era a principal responsável por essas organizações várias, desempenhando um papel de auxiliadora. Ressalte-se que somas fabulosas, levantadas em banquetes ou por meio de doações e legados, eram continuamente destinadas aos cofres da Igreja para distribuição aos pobres e, segundo os historiadores, essa distribuição era sempre feita com justiça, conhecimento de causa e pontualidade dignos de nota. - *As organizações assistenciais de Constantinopla* A Igreja e o Estado deram-se as mãos desde a época de Constantino I para prover os serviços assistenciais básicos, muito antes de existir qualquer serviço ou esforço organizado


na Europa ocidental e cristã. Assim é que foram gradativamente estabelecidas entidades diversas que acabaram sendo classificadas em nove categorias, a saber: "brephotróphium" - lar para recém-nascidos; "gerontotróphium" - lar ou abrigo para pessoas idosas abandonadas ou sem condições familiares de sustento contínuo e seguro; "lobotróphium" - abrigo e internato para pessoas vítimas de limitações físicas crônicas e muito severas; "nosokómeion" - criado para tratamento e abrigo de doentes agudos e crônicos sem posses nem condições para tratamento domiciliar; "orphanotróphium" - abrigo e alimentação para crianças órfãs ou abandonadas pela família ; "pandóchium" - abrigo polivalente destinado indiscriminadamente a todos os tipos de desamparados não enquadrados nas demais organizações; "ptochotróphium" - abrigo e alimentação para mendigos e pessoas pobres e abandonadas sem condições de sustentação própria; "typhlokómeion" - abrigo e alimentação para pessoas cegas pobres e desprovidas de condições famíliares para garantir seu sustento; "xenodóchium" - organização destinada - pelo menos no início - a viajantes e peregrinos estrangeiros adoentados ou em sérias dificuldades de abrigo. A eventual "latinização" das palavras não disfarça de maneira alguma sua origem grega. Os radicais "kómeion" e "dócheion" correspondiam a abrigo, proteção, cuidado, recipiente, enquanto que o radical "trópheion" relacionava-se à idéia de alimentação e de educação. Observe-se que o "Orphanotróphium" de Constantinopla foi tão importante e tão magnificamente construído e montado que levou o Império a manter o título honorífico de "orphanotróphus" para seu diretor, geralmente outorgado a um sacerdote ou bispo da Igreja. - *O imperador Justiniano e as pessoas enfermas e deficientes* Em uma de suas muitas leis (Nova Constituição n°. LXXX) o imperador Justiniano (482 a 565) tratou dos problemas dos mendigos que não tinham doenças graves ou deficiências. E nessa norma fica muito patente a preocupação da sociedade bizantina em ocupar essas pessoas em algum tipo de trabalho ou atividade. O imperador deu à mais alta autoridade judicial do Império, o questor, a responsabilidade de não deixar essas pessoas à mercê da sorte e da esmola. "Convém que ele as faça comparecer imediatamente aos diretores de trabalhos públicos, aos chefes das padarias, aos encarregados do correio, aos diretores dos jardins ou das demais oficinas existentes, nas quais elas possam ao mesmo tempo trabalhar, ser alimentadas e também passar de uma vida ociosa para uma vida mais útil. Mas se algumas delas não quiserem trabalhar nas oficinas para as quais tiverem sido encaminhadas, o questor as expulsará desta cidade real”. A orientação do imperador Justiniano era para que o questor usasse sempre de indulgência para com as pessoas pobres encaminhadas de acordo com a lei; a preocupação expressa era que a preguiça não levasse as pessoas em dificuldades para atos ilícitos e com isso fossem condenadas pela justiça civil. Ainda sobre mendigos ou sobre pessoas pobres em dificuldades existia uma distinção importante que levou a sociedade bizantina a manter e mesmo ampliar sua organização de socorro aos necessitados. Afirmou o imperador Justiniano, ao final de sua Nova Constituição n°. LXXX: "Não obstante, é nossa vontade que as pessoas de um ou de outro sexo que não


sejam sãs de seus corpos" (ou seja, pessoas portadoras de condições incapacitantes) "ou que sejam gravemente enfermas, não sejam molestadas em nossa cidade; queremos, pelo contrário, que elas sejam atendidas por pessoas piedosas”. - *O desenvolvimento da medicina e dos hospitais* No ambiente criado em conseqüência de um governo autocrático com fortes pinceladas de teocracia e ampla aceitação, havia muitos contrastes entre ricos e pobres, entre palácios e casebres paupérrimos em ruas cobertas de imundícies, conforme vimos anteriormente. E, segundo especialistas, tudo, absolutamente tudo, inclusive a miséria, a doença, a mutilação, a cegueira, tudo era considerado como motivo para se pensar no pagamento de pecados cometidos, no cerceamento dos impulsos carnais, na purificação da alma e no seu aperfeiçoamento. E esse modo de ver o mundo sempre foi considerado como uma positiva influência do Cristianismo. Não é de estranhar que tenha havido uma forte proliferação de entidades assistenciais e caritativas de um lado, e certa estagnação na ciência médica, de outro. Houve, entretanto, o cuidado de se estabelecer uma pormenorizada compilação dos conhecimentos já acumulados de medicina na realidade grega anterior à construção e à consagração de Constantinopla como capital do Império Bizantino. Essa mesma realidade, influenciada pelo Cristianismo tão marcante, considerava o enfermo, o acidentado, a vítima da justiça, o portador de uma deficiência congênita ou adquirida, como "santos" em potencial. Para todos os que sofriam, o melhor e mais certo remédio era a oração orientada e dosada por sacerdotes; o melhor hospital que poderia haver deveria estar funcionando em ambiente da Igreja; o melhor e mais seguro "curativo" era o próprio Jesus Cristo. Do milênio de existência do Império Bizantino não podemos dar relevância especial a quase nada, em termos de medicina, a não ser aos nomes universalmente conhecidos de Cosme e Damião, santificados pela Igreja. - *A mutilação nas leis bizantinas* A uma análise superficial a lei criminal bizantina mostra-nos alguns traços de uma positiva influência cristã, embora haja categóricas afirmações em contrário. Vindos de um sistema de penalização muito severo em que a pena de morte prevalecia para muitos crimes, os sistemas introduzidos por Justiniano e por Leão III, o Isauriano (680 a 741), foram amenizando as penas, graças à influência do Cristianismo. A "Écloga" (Código de Leis) de Leão III restringe a pena de morte a alguns crimes apenas: assassinatos, alta traição, deserção das forças armadas e práticas sexuais não-naturais. Além disso, prevê diversas penas por mutilação ou por vazamento dos olhos que não existiam no Código de Justiniano, em vigência desde o século V. Muito embora a "Écloga" e as legislações posteriores tenham significado, para aquela época, uma amenização de parte do sistema penal, o fato concreto é que, com as penas de mutilação e de vazamento dos olhos provocava uma verdadeira e desagradável regressão a épocas anteriores a Constantino I, que proibia mutilar o rosto humano que era "feito à imagem da beleza divina". A suposta amenização não ocorreu em todas as linhas, porém, de cominações estabelecidas no Código de Justiniano em simples multas, verificou-se na "Écloga" um forte endurecimento para a pena máxima. No entanto, a Cristandade do Império Bizantino não questionava nada do que vinha do imperador e para ela, a substituição da pena de morte por mutilações podia até ser justificada


no próprio Evangelho. Era questão de se tomar a palavra de Mateus ao pé da letra: ... "se tua mão ou teu pé te escandalizam, corta-os e atira-os fora" ..."e se teu olho te escandaliza, arranca-o e atira-o fora". Havia também outro fator de extrema importância: ao criminoso, ao pecador, seria dada a oportunidade de arrepender-se de seus pecados e se regenerar na penitência, na dor, na fome, na miséria, muitas vezes confinado num mosteiro. Ressalte-se, todavia, que o imperador bizantino, representante de Cristo na Terra, em seu juramento de coroação, obrigava-se a ser misericordioso e humano para com seus súditos, evitando a pena capital e a mutilação tanto quanto possível – isso nos interesses da justiça e da propriedade, e em fidelidade à verdade e à retidão. No rolar dos séculos, porém, o que sucedeu nas muitas histórias de mutilações e vazamentos de olhos foi que essas punições aconteceram, numa grande variedade de casos, devido a meras vinganças políticas e para afastar sérios pretendentes ao trono. A Igreja colaborava dentro dessa realidade muito concreta com o banimento a um de seus muitos mosteiros retirados da civilização, demonstrando com isso a sua influência no sistema penal em vigor. Ela tomava em suas mãos tanto a execução de partes das penas, como também a reabilitação de muitos desses criminosos. A profanação de sepulturas, a rapinagem de igrejas, a pederastia, as fraudes de funcionários eram reprimidos pela mutilação. "Pergunta-se como esse costume atroz, cuja crueldade refinada supõe uma perversão do senso moral, pôde ser introduzido na sociedade bizantina", comenta Bréhier ao analisar as mutilações. Segundo o famoso historiador, o gosto pela mutilação pode ter sido o resultado do ambiente que cercava a sociedade local, ao redor do século VII, e a influência da imigração de consideráveis contingentes de turcos, árabes, sírios e outros, dentre os quais o suplício era prática corrente desde muitos séculos (Apud Bréhier). - *Períodos principais do Direito Penal Bizantino* Para que bem entendamos a questão das penalidades impostas pelas leis imperiais que redundavam na instalação de limitações físicas e sensoriais, é fundamental que distingamos pelo menos dois períodos na história desses castigos. O primeiro vai do século V até o século VII, notando-se um esforço para o estabelecimento de alguma humanização do corpo geral da legislação romana pertinente, esforço esse feito principalmente sob Justiniano e expresso em seu Código, aprovado em 534. Esse Código, somado à legislação aprovada e codificada anteriormente pelo mesmo imperador, teve o enriquecimento de mais de 150 "Novas Constituições" que foram assinadas entre os anos 534 e 565, formando o famoso "Corpus Juris Civilis" de Justiniano. O segundo período vai do século VII em diante. Nota-se nele, especialmente pela aprovação da "Écloga" de Leão III, o Isauriano, uma tendência a certa humanização (ou pelo menos amenização) da drasticidade da pena de morte, surgindo em seu lugar maior incidência de penas de mutilação ou de castigos corporais. Note-se que no estudo das leis todas, tanto de Justiniano e de imperadores que ocuparam o trono depois dele, quanto de Leão III, deve-se ressaltar a relevância da existência de uma verdadeira universidade, criada no ano 425 em Constantinopla, na qual estudava-se mais profundamente assuntos leigos (não-religiosos), dentre os quais a Filosofia e as Leis. - *A moderação nas penalidades impostas no tempo de Justiniano*


Inserida numa de suas "Novas Constituições" (a de nº CXXXIV, ou seja, assinada quando Justiniano estava no final de sua vida) encontramos uma orientação geral do velho imperador a todos os governadores e autoridades judiciais do Império, na qual fica evidente uma séria tendência à humanização, com determinações explicitas de moderação na aplicação de penas corporais. Diz o imperador: "Como precisamos proteger a fraqueza humana, diminuimos uma parte das penas corporais e abolimos a amputação de duas mãos, de dois pés e o suplício da separação das juntas, que é ainda mais grave do que a amputação das mãos". "Mas se a espécie de crime comportar a amputação de um membro, limitar-se-á à amputação de uma só mão. Proibimos que seja indicada a amputação de um membro por um simples furto, ou que o culpado sofra a pena de morte, mas desejamos que ele seja punido de outra maneira". Ao final dessas considerações e determinações relacionadas à moderação que as autoridades deveriam observar na aplicação de penas corporais ou pena de morte, Justiniano procura garantir a severidade da pena para aqueles que ameaçavam a estabilidade da coroa imperial, afirmando: "Mas ordenamos que a força das antigas leis seja conservada para os indivíduos condenados por crime de lesa-majestade". - *As "Novas Constituições" de Leão III: "leis mais cristãs"* As chamadas "Novas Constituições" editadas pelo imperador Leão III, o Isauriano (717 a 741), após a publicação da "Écloga", são verdadeiras ordens imperiais. São leis escritas num linguajar quase coloquial, expressas em todos os seus termos na linguagem própria da época. Trata-se de um total de 113 "Novas Constituições", das quais desejamos aqui fazer menção a algumas que estabelecem a precisa condenação por certos crimes, incluindo o açoitamento, a amputação do nariz, da língua ou das mãos, o vazamento dos olhos e também a pena do "raspamento" de cabelos e barba, considerada como difamante. Essas Constituições procuravam impedir a criminalidade por meio de cominações severas; buscavam também desencorajar que o povo imitasse os imperadores ou as autoridades maiores do Império que, no uso (e no abuso) de seu direito supremo derivado de Deus, mandavam vazar os olhos ou amputar as mãos dos traidores do Divino Império. Procuravam também garantir direitos, estabelecer penas corporais ou pecuniárias e regulamentar alguns assuntos relacionados ao clero. Poderá nos parecer irrelevante nessa legislação, por exemplo, a preocupação com os cegos poderem ou não fazer testamento de seus bens, uma vez que não havia provisão alguma que garantisse direitos básicos a esses mesmos cegos, mas a preocupação da nobreza (das fortes e grandes famílias que já mencionamos) era compreensível face à realidade do que continuamente sucedia: o problema de muitos dignatários, militares ou nobres, que tiveram seus olhos vazados, seja por crimes de traição (sob a ótica do imperador reinante), seja por falsas acusações, seja mesmo por pertencerem à família de um indiciado traidor, não poderem legar seus bens. Será interessante ressaltarmos que das 113 Novas Constituições de Leão III três nos interessam diretamente neste trabalho. A respeito delas comentamos a seguir. - *A defesa de um direito dos cegos: fazer testamento* O próprio texto da Nova Constituição n°. LXIX é suficiente para compreendermos a totalidade do problema e a solução encontrada. Vejamos como o imperador considerou a questão: "Levantam-se muitas vezes dúvidas quanto à questão de se saber como os cegos podem fazer testamento, e essas dúvidas são originárias das leis que decidiram em contrário, e


também dos costumes existentes sobre esse assunto: não é nem inconveniente nem difícil para mim, esclarecer e decidir sobre o assunto. Há uma lei que proíbe aos cegos de fazer um testamento secreto e estabelece que tal testamento não terá força a menos que testemunhas confirmem ter ouvido o testador proferir de viva voz as disposições por ele guardadas; o testemunho por si só não pode fazer fé de sua vontade. Outra lei, ao contrário, permite às mulheres e às pessoas iletradas fazer testamento na forma mística, e não as sujeita a outras formalidades, a não ser assiná-los, se souberem escrever, ou se não souberem, a fazê-los assinar por um terceiro. Essas duas leis estão evidentemente em contradição sobre o mesmo objeto; pois se as mulheres e pessoas desprovidas de toda instrução, que sabem apenas o que desejam, podem fazer seu testamento na forma mística, por que um cego não o poderia? Mas se essas leis estão em oposição entre si, estão ainda mais com os costumes. De fato, os costumes estabelecem que os testamentos das mulheres, de pessoas iletradas ou de cegos, feitos na forma mística, não podem ter força alguma. Nesse estado de coisas, ordenamos que os testemunhos secretos dos cegos ou de quaisquer outras pessoas tenham um pleno e inteiro efeito e adicionamos a essa disposição que, antes de as testemunhas serem ouvidas, os que lavraram o testamento e que a ele aporão as suas assinaturas, declararão ter escrito o que o testador lhes ditou; e se logo em seguida for reconhecido que cometeram alguma falha, serão despojados de seus bens se forem ricos, ou então serão açoitados e exilados se forem pobres. Adicionamos mais que, se para confirmação do testamento for necessário recorrer a juramento, como acontece freqüentemente, os que o lavraram deverão estar concordes com as testemunhas, que jurarão atestar e confirmar a coisa" (Apud Bérenger). - *Penalidade prevista para o vazamento dos olhos de outrem* A segunda Nova Constituição de Leão III que nos interessa neste trabalho procura coibir frontalmente os crimes de vazamento dos olhos de alguém. Para tanto o legislador imperial estabeleceu penas severas e bastante desencorajadoras. Essa norma específica está intitulada no documento original como "Qual deve ser a pena para quem cega alguém voluntariamente". Ela analisa a aplicação direta da lei do talião, fazendo menção expressa desse procedimento. Estuda também o problema que poderia ser criado com o fato de o malfeitor ter os dois olhos vazados por crime semelhante. Leão III pondera e decide da seguinte forma: ... "se ele tiver tirado" - extirpado, arrancado ou mesmo vazado são termos correspondentes - "os dois olhos, como nesse caso a igualdade da pena não traria nenhum proveito para o que perdeu a visão (pois qual a vantagem que pode achar um cego em um outro também ser cego?) e que a pena do talião, mesmo que merecida, seria muito cruel para o culpado (pois nada é mais triste do que a cegueira), decidimos que ele não a sofrerá e que será punido de outra maneira, capaz de garantir alguma compensação à vítima. É assim que concebemos a lei: qualquer pessoa que tiver vazado os dois olhos de um indivíduo, terá um vazado e, como mereceria perder a mão que cometeu o crime, pagará em seu lugar uma indenização igual à metade de seus bens, que será entregue àquele que teve seus olhos vazados, como um abrandamento de sua miséria. Dessa maneira este será consolado e o culpado será punido, tendo um olho vazado e em seguida perdendo seus bens no lugar de sua mão" (Apud Bérenger). Mas o que sucedia se o malfeitor fosse uma pessoa pobre ou sem recursos suficientes? Neste caso, não podendo o criminoso cumprir o estabelecido em termos de compensação, era condenado a experimentar idêntico mal infligido à sua vítima: tinha os olhos vazados.


- *Crime de rapto e sua condenação nos tempos de Leão III* Dentre os diversos crimes citados nessa legislação coberta pelas Novas Constituições de Leão III, o rapto de uma jovem solteira merece nossa atenção especial. Essa Nova Constituição - de n°. XXXV - estava intitulada: "Da pena pronunciada contra o raptor de uma jovem e seus cúmplices". Ela é clara, incisiva e não desperta qualquer dúvida. ... "Se o rapto for cometido sem o uso de armas, então o raptor não será punido com a morte, porque ele não manifesta a intenção de a provocar. Mas terá a mão cortada e aqueles que o ajudaram, ou que tenham tomado qualquer parte em seu crime, serão açoitados, raspados e exilados". A mesma Constituição estabelece que todos os que ajudavam nesse tipo de rapto, mas a mão armada, seriam punidos da seguinte maneira: ... "terão o nariz decepado e serão açoitados e raspados". E conforme indicamos acima ser raspado correspondia a ter os cabelos e a barba cortados à força, o que era considerado como um castigo estigmatizador e difamante. Quanto ao autor desse crime de rapto de uma mulher solteira a mão armada, a Nova Constituição n°. XXXV confirmava a pena de morte, já estabelecida séculos antes no Código de Justiniano. - *General Belisário: lenda e realidade de sua carreira* Belisário foi um general bizantino nascido na Trácia aproximadamente em 505, tendo falecido em 565, após ter vivido seus últimos anos cego, pobre e mendigo. Após alguns anos de glórias e vitórias à frente dos exércitos que combatiam os muitos inimigos de Constantinopla, o imperador Justiniano transformou Belisário no primeiro general de todo o Império. Seus contínuos sucessos, todavia, acabaram por despertar em Justiniano os sentimentos de ciúme e de desconfiança, apesar dos incontáveis atos de fidelidade de seu general maior. No ano 562 Belisário foi envolvido numa conspiração e injustamente deposto de seu cargo. Acusado do crime de lesa-majestade, sofreu a pena usual amenizada: perda da visão, somada à perda de seus proventos de todos os seus bens. A lenda mostra-nos Belisário cego por ordem direta de Justiniano, mendigando com o auxílio de um garoto para poder sobreviver. Sua figura magnífica de general adorado pelos seus subalternos e pelo povo em geral, transformado em mendigo, levou alguns pintores a criar obras de arte que ficaram famosas, destacando-se dentre eles Van Dick, Salvatore Rosa, David e Gérard. Levou também o escritor Nepomuceno Lemercier a escrever um romance em versos que foi musicado por Dominique Pierre Jean Garat, famoso compositor e cantor francês, no final do século XVIII. Um dos versos musicados da obra intitulada "Belisário" relata-nos o seguinte: "Seguro o capacete do guerreiro, Terror dos Vândalos e dos Godos. Caminhou, dizem, sem escudo Contra a fatal impostura. Um tirano fez queimar seus olhos Que velavam sobre toda a terra. A noite cobre para sempre os olhos Do triste e pobre Belisário" (Apud "Larousse du XXe.Siècle"). Em algumas culturas européias de hoje o nome Belisário é muito utilizado para fazer referência simbólica a uma pessoa cega de boa educação e de refinadas maneiras.


- *Notícia sobre uma prótese no século IV* Nos muitos documentos encontrados na pujante nova capital do Império Bizantino, e que escaparam à fúria destruidora dos seus muitos invasores, principalmente dos turcos, foram encontradas algumas referências a próteses. Mencionam essas citações eventuais casos de braços de metal, pernas de madeira e até mesmo casos de nariz ou de orelhas artificiais. George Kredinos, escritor grego do século XI, narra-nos o seguinte caso que nos informa da fabricação de uma importante prótese: "Uma pessoa da Macedônia, de nome Basílio, afirmava falsamente que era Constantino, filho de Dukas. Tendo maliciosamente persuadido muita gente a segui-lo, reuniu-a ao seu redor e, viajando a pé, causou distúrbios nas cidades e instou com a população para se levantar contra o imperador de Constantinopla. E, tendo sido aprisionado por um general chamado Elefantino, e levado ao imperador bizantino, foi condenado a ter um dos seus braços cortado. Depois de sua libertação da prisão, colocou no lugar do braço cortado um outro artificial feito de cobre e, fazendo uma enorme espada, perambulou pelo país ludibriando outra vez os cidadãos mais ingênuos" (Apud Pournaropoulos). - *Abrigos para cegos e outros refúgios para doentes e deficientes* Segundo alguns biógrafos de São Basílio, o Grande, ele patrocinou a criação e inaugurou um abrigo especialmente destinado a cegos em Constantinopla, conhecido pela genérica designação de "tuphlokómeion". Outro famoso santo da Igreja no Império Bizantino foi São Lineu que chegou a organizar e manter outros abrigos para cegos na cidade de Syr, na Síria atual. Esses abrigos eram compostos de pequenas cabanas onde os internados viviam por sua conta e graças à caridade das pessoas que garantiam seu sustento, todas elas ligadas a ricas famílias da região. Essa experiência foi levada a efeito no século V. No mesmo século, entre os anos 400 e 403, São João Crisóstomo fez construir alguns abrigos para doentes crônicos e pessoas que apresentavam condições incapacitantes de seriedade, impeditivas de atividades rentáveis. Usou para tanto as esmolas que coletava e os excedentes que juntava de seus proventos como arcebispo de Constantinopla. No final do século IV, bem nos primórdios da vida monástica que foi muito pujante no Império Bizantino, o cuidado dos pobres em geral e das pessoas deficientes no meio delas, segundo nos relata São João Crisóstomo, passou a ser uma preocupação básica e continua dos mosteiros. Afirma esse famoso santo da Igreja que "atendem os mendigos e os aleijados que vêm a eles às refeições e para abrigo"... "um dos irmãos cuida das feridas de um mutilado, outro cuida de um homem cego, enquanto que um terceiro apóia alguém que perdeu uma perna" (Apud French). - *Assistência a soldados a partir do século VI* O Império Bizantino, sempre bastante criativo, mantinha atendimento separado para soldados feridos ou deficientes, quando eram mutilados em atividades guerreiras, antes do início da Idade Média no mundo europeu ocidental. Em um trabalho escrito pelo imperador Mauricio Flávio Tibério (539 a 602) e intitulado "Strategikón", encontraremos esta frase: "Cuidados especiais devem ser prestados para proteger os feridos após a guerra" (Apud Pournaropoulos). No mesmo trabalho consta uma referência quanto à idade de incorporação às forças armadas, indicando que todos os súditos abaixo de 40 anos de idade eram obrigados ao serviço militar, dando-nos assim uma idéia da eventual incidência de lesões graves por ferimentos inclusive em homens com família formada e quase no final da vida. Existem outras referências também quanto ao assunto, nesse mesmo trabalho, e uma delas


conta-nos em poucas palavras e sem maiores comentários - como se estivesse falando de assunto sobejamente conhecido - o que sucedia com os feridos em campos de batalha. Garantiam os exércitos bizantinos um sistema de recolhimento desses feridos e de seu atendimento na retaguarda, salvando-os de morrer devido a hemorragias, pancadas, pisaduras, queimaduras e outros traumatismos. Afirma o imperador Mauricio o seguinte: "Durante as batalhas um corpo de auxiliares volantes" - citados como "ambulanciers" na versão original francesa - "a cavalo, os "deputatoi", estava encarregado de recolher os feridos e de os transportar à retaguarda para serem tratados. De suas selas pendiam estribos duplos que lhes permitiam erguer os feridos e os fazer montar. Recebiam eles um "nomisma" por guerreiro salvo" ("Les Institutions de l'Empire Byzantin", de Brehier) . Uma referência a benefícios estabelecidos para soldados que voltavam com sérias deficiências físicas ou doenças graves dos campos de batalha também é mencionada pelo autor na mesma obra: ... "sob Constantino VII, o Porfirogeneta, os detentores de bens militares que ficavam inválidos continuavam a gozar de suas rendas a título de pensão". - *Os primeiros hospitais da Terra Santa e de Bagdá* Carlos Magno (742 a 814), rei dos Francos e chamado de "Imperador do Ocidente", em contraposição aos imperadores bizantinos que eram por vezes conhecidos como imperadores do oriente, é uma das mais impressionantes figuras da História da Idade Média. Sua vida toda esteve repleta de lances importantes. Uma de suas características principais era sua habilidade de administrador; dizem que em vez de criar organizações novas, reformava e melhorava as já existentes, levando-as a funcionar bem. Aliado ao famoso califa Haroun-al Raschid com o fito de intimidar o Império Bizantino, foi o co-patrocinador da construção do primeiro hospital ("nosokómeion") separado dos abrigos para peregrinos e estrangeiros ("xenodóchium") construído na Terra Santa. Segundo seus biógrafos, Carlos Magno protegia também os cegos, tendo estabelecido severas penas para aqueles que os maltratassem. Foi no século X que surgiu na cidade de Bagdá um segundo hospital do mundo islâmico, sob o governo do califa Al-Muktadir. Um terceiro foi construído no mesmo século (ano 970), também em Bagdá, contando com 25 médicos. Caracterizava-se este último hospital como entidade de tratamento, de observação, de ensino e de treinamento dos médicos. Esses hospitais e todos os demais 34 que foram organizados até o final do século X recebiam não apenas doentes mas também portadores de deficiências sérias e limitadoras. - *Castigos bárbaros levam a deficiências no Império Bizantino* Conforme tivemos oportunidade de verificar anteriormente, muito cruéis para os nossos dias eram as penalidades aplicadas por alguns imperadores ou potentados bizantinos. No entanto, ressalte-se que elas estavam perfeitamente bem estabelecidas em lei e o mundo oriental vivia séculos que demandavam fortes providências para cercear o crime, o roubo, o estupro, a traição e a deserção das forças armadas. Alguns exemplos serão apresentados deste ponto em diante quanto à aplicação de diversas dessas penas, embora estejamos todos muito certos de que inúmeros outros casos poderão ser coletados pelos estudiosos do assunto. Na obra intitulada "Vie et Mort de Byzance", de Bréhier, há uma introdução escrita por uma das maiores autoridades no assunto, que foi Henri Berr. Esse famoso historiador chamanos a atenção para um fato que caracterizou o Império Bizantino, ou seja, as mutilações:


"Temos encontrado sem cessar nestas páginas, a menção não apenas de assassinatos, mas de torturas as mais diversas, de "suplícios refinados": arranca-se os olhos, a língua,queimase com ferro em brasa; mas sobretudo vaza-se os olhos. Vazar os olhos é prática corrente". De fato, tao corrente é essa prática que, só de acontecimentos importantes e muito notórios - e tão notórios e importantes que passaram para a História - poderíamos citar mais de trinta. Todos eles - vazamento dos olhos de um modo todo especial, mas incluindo mutilações como penas por crimes e traições, ou mesmo para incapacitar certos pretendentes ao trono ou a postos importantes - foram praticados contra membros da nobreza mais alta do Império, contra príncipes herdeiros, contra imperadores aprisionados ou destronados, durante toda a duração do Império Bizantino. Só no século VIII, por exemplo, encontramos diversos fatos que ocorreram após 741, ano em que Constantino V (718 a 775) procurava combater com muita força os povos árabes nas terras da Ásia, tendo para tanto se ausentado longamente de Constantinopla. Durante seu afastamento da corte, porém, seu cunhado Artavasde conspirou contra ele e chegou mesmo a ser proclamado imperador por suas tropas. Entrou vitorioso e sem maiores resistências na capital do Império e foi coroado e abençoado pelo patriarca Anastácio. Logo em seguida, para garantir sua sucessão, associou seu filho mais velho ao trono. No entanto, um ano e pouco após esses eventos Constantino V retornou e conseguiu retomar o trono com as forças armadas ainda à sua disposição. Logo em seguida castigou severamente a traição do cunhado, mandando vazar seus olhos e de seus pretensos herdeiros, ou seja, seus filhos. Fez mais o imperador: mandou açoitar publicamente a maior autoridade da Igreja que não lhe tinha sido fiel, o patriarca Anastácio. Já reafirmado no poder, encetou vários anos após uma violenta e pertinaz campanha contra o culto das imagens na Igreja - parte do chamado movimento iconoclasta, ou seja, movimento contrário à adoração de imagens no culto cristão - e, demonstrando um quase que incontrolável ódio contra os monges, mandou exilar, aprisionar e mesmo mutilar um imenso número deles. Nas províncias os governadores e autoridades da justiça procuravam seguir o exemplo do imperador. O governador da Trácia, por exemplo, fez reunir à força todos os monges e religiosas daquelas terras numa praça de Éfeso, obrigando-os a fazer ali mesmo uma opção: deviam escolher o casamento ou perder a visão (Apud Bréhier). - *A imperatriz Irene e sua luta para conquista do trono* Ainda no século VIII, durante um curto espaço de vinte anos, a História Bizantina relatanos algumas amputações de língua e vazamento de olhos na mais alta nobreza de Constantinopla durante a vida da famosa imperatriz Irene, ou seja, entre os anos 780 e 800. Para nós, em pleno século XX, trata-se de uma história no minimo bizarra. E poderá ser iniciada com o jovem príncipe herdeiro do trono, Leão, filho de Constantino V, com 25 anos de idade, casando-se numa faustosa cerimônia realizada na igreja de Santa Sofia, com uma belíssima jovem ateniense de 18 anos de idade, de nome Irene, que era plebéia e órfã de pai e mãe. Explica-se: a escolha de algumas imperatrizes ou de esposas de governadores e de alguns nobres dava-se em verdadeiros concursos de beleza e de talento, segundo alguns historiadores. Irene fora escolhida exatamente assim, pelo imperador Constantino V, cinco anos antes do velho imperador falecer. Irene conquistou com extrema facilidade não só o amor e a confiança do marido, como também do sogro, que já colocava toda a sua esperança de sucessão adequada no filho herdeiro do trono e em sua jovem, prendada, inteligente e belíssima esposa.


- *Os primeiros castigos contra conspiradores dentro da família* A morte de Constantino V levou Leão IV ao trono. Ja estava casado com Irene e seu filho Constantino já havia nascido, mas o imperador estava doente e era muito inexpressivo em contraposição a uma imperatriz saudável e muito vivaz. Leão IV faleceu logo, deixando Irene como guardiã de seu herdeiro ao trono, então com 10 anos de idade. Esse acerto prévio esperado que tinha o intuito de garantir a coroa para o filho, não agradou aos cinco irmãos de Leão IV. Em circunstâncias normais poderiam ter reconhecido o direito do sobrinho, mas jamais poderiam permitir que a plebéia Irene assumisse o posto de imperatriz. Os títulos de "césar" e de "nobilíssimos" que haviam recebido do falecido pai não lhes interessavam mais. Queriam o poder, a glória e as riquezas sem fim. Foi face a essa situação que os cinco começaram uma trágica seqüência de conspirações, antes e depois da morte de Leão IV. A primeira tentativa de golpe, abortada, foi perdoada pelo imperador enfermo, sem maiores castigos. A segunda, entretanto, que aconteceu alguns anos após, tinha encontrado Irene com as rédeas do poder nas mãos na qualidade de regente. A penalidade imposta por ela foi suave, mas contundente: os cinco irmãos foram forçados a assumir o estado sacerdotal. E para que toda a nobreza e todo o povo soubessem da realidade do castigo, "convidou-os" a oficiar os solenes ritos do Natal na igreja de Santa Sofia, distribuindo inclusive a comunhão aos fiéis. O estado sacerdotal forçava as pessoas a manterem uma atuação a tempo integral e proibia o envolvimento em assuntos alheios àqueles próprios da função, o que presumivelmente deixaria Irene e o filho Constantino sossegados. Poucos anos depois, entretanto, ocorreu nova e séria conspiração dos cinco irmãos. Irene perdeu a paciência e mesmo na qualidade de regente considerou-se atingida por crime de lesa-majestade. Mas aplicou penas "suavizadas", face à perspectiva da pena de morte: mandou amputar a língua dos quatro "nobilíssimos" e vazar os olhos do "césar" Nicéforo. - *Punições severas continuam na corte bizantina* Com o evidente intuito de continuar com a totalidade do poder em suas mãos, mesmo após a subida do filho ao trono como Constantino VI, Irene procurou sistematicamente abafar qualquer iniciativa dele, provocando com sutileza e malícia o fracasso de seus projetos. Seu plano, na verdade, começara muito antes quando negligenciara com sagacidade e muita perspicácia sua preparação para o trono. No entanto, a situação vivida pelo Império levou o general Mouselen a destronar a imperatriz, aprisionando-a e garantindo a plena autoridade de Constantino VI. Muito embora as forças armadas tivessem a intenção de afastar a má influência da mãe sobre Constantino VI, a fim de que ele governasse em toda a sua plenitude, não contaram com o afeto natural, além de uma certa dependência do jovem imperador para com sua mãe, o que se tornava cada vez mais evidente conforme a visitava na prisão. A conseqüência não demorou quase nada: Irene foi libertada por Constantino VI que, arrependido, restaurou-a ao poder com o título de imperatriz e com poderes para governar ao seu lado. Ano após ano Constantino provou ser um imperador fraco e Irene foi crescendo em sua influência, seu poder e mesmo em sua aceitabilidade antes muito questionada na corte. E foi por sua influência (e talvez exigência) direta que o general Mouselen, comandante da revolta que a levara à prisão vexatória, foi preso e teve seus olhos vazados, sem maiores considerações. Para a nobreza e para o povo esse ato demonstrou uma impressionante ingratidão do imperador; demonstrou também a evidente força de Irene que, com esse ato, vingava-se da vergonha que lhe fora imposta.


- *A selvageria de uma imperatriz na defesa de seu trono* Com o ambiente propício criado pela dualidade do poder de comando, as intrigas foram crescendo no palácio imperial, agora infestado por eunucos e por religiosos venais. No ano 797 Constantino percebeu que sua sustentação era precária e que sua vida corria sério perigo dentro da corte, tal o nível das intrigas e das conseqüentes e esperadas suspeitas. Sorrateiramente fugiu do palácio, mas foi preso em curto espaço de tempo e levado de volta; foi trancado, por ordem da mãe, no mesmo quarto onde nascera 26 anos antes. E lá mesmo, no meio da noite, teve seus olhos selvagemente vazados por ordem de Irene. Sobreviveu à violência do ataque que o inutilizou para o trono, vivendo ainda muitos anos verdadeiramente oprimido pela corte e esquecido pelo seu povo (Apud Gibbon). Anos após, a quarta conspiração dos infelizes irmãos de Leão IV aconteceu e Irene, plenipotenciária e despótica, não teve dúvidas em aplicar a pena que considerou como definitiva para eliminar de vez suas pretensões ao trono: mandou vazar os olhos dos "nobilíssimos" já de língua anteriormente amputada e mandou amputar a língua do "césar" Nicéforo, já cego; logo após exilou os cinco para longe. Irene foi destronada e exilada para a ilha de Lesbos alguns anos após; ali morreu trabalhando com suas próprias mãos e muito pobre. Segundo a Encyclopaedia Britannica, devido à sua intransigente luta pela restauração do culto das imagens nas igrejas do Império Bizantino, a Igreja Ortodoxa Grega elevou-a à categoria dos santos. - *Mutilação documentada em pintura do século IX* Se o leitor tiver oportunidade de visitar o Museu Nacional de Espanha, em Madri, poderá admirar muitas miniaturas que foram pintadas com esmero por monges da Sicília, diversas das quais registram fatos ligados à história de Basílio I, imperador bizantino que reinou entre os anos 867 e 886. Nessa verdadeira história em quadrinhos nota-se momentos muito importantes da vida desse surpreendente imperador, sendo que dois deles nos interessam sobremaneira neste estudo sobre deficiências e pessoas deficientes. O primeiro retrata uma encarniçada batalha, aparecendo ao centro o general bizantino Procópio mortalmente ferido por um magote de soldados inimigos, enquanto seus comandados, de costas para ele, batem em retirada. O episódio retrata uma derrota bizantina causada por um desentendimento entre o citado general e um outro, também de confiança de Basílio, de nome Leão. E o desentendimento havia ocorrido pouco antes da batalha, levando Leão a não colaborar com Procópio na hora necessária. Tendo tomado conhecimento do fato o imperador mandou prender o general Leão e leválo à sua presença. E é exatamente isso que o segundo quadro nos mostra em seu lado direito, aparecendo Basílio I de dedo em riste e o ar preocupado de Leão. Mas há algo mais que impressiona neste quadro de reduzidas proporções: são as duas cenas pintadas em seu lado esquerdo. Trata-se da execução das penas impostas pelo imperador, após Leão ter sido destituído de seu alto posto de general. Vemos o infeliz condenado com os braços amarrados às costas e deitado no chão, com o carrasco imobilizando-o com suas pernas e cegando-o com um ferro em brasa seguro firmemente com ambas as mãos. E mais à esquerda vemos ainda o mesmo prisioneiro com o braço estendido sobre um pedaço de madeira enquanto o carrasco está com um machado a meio caminho para decepar-lhe a mão. Contam os historiadores que esse comandante deposto não morreu devido a esses castigos e viveu até idade avançada, mas exilado e na mais negra miséria. - *Barbáries que levaram a deficiências físicas*


Notícias de barbáries sem precedentes - ou pelo menos conhecidas em países cristãos são relatadas no século XI. E a mais chocante de todas relaciona-se a um imperador cristão considerado como um dinâmico líder bizantino, no final do primeiro milênio da Era Cristã. Trata-se de Basílio II, que recebeu apelido histórico e muito sugestivo: "Bulgaroctonus", ou seja, matador de búlgaros. Nascera ele em 958, tendo falecido em 1025. Reinou entre os anos 976 e o ano de sua morte. Dentre suas campanhas militares mais significativas para a História Bizantina, destaca-se a que empreendeu em 1014 contra a Bulgária. Basílio II subjugou-a completamente. No entanto, o golpe de misericórdia que aniquilou a resistência dos patriotas e dos soldados búlgaros e que terminou a guerra, levando os inimigos de Constantinopla à rendição total daquele país (qual bomba atômica daqueles tempos) foi uma ação de crueldade fora do usual. E ao citar o fato o historiador Gibbon nos diz: "Sua crueldade infligiu uma vingança fria e estranha a 15.000 cativos que haviam sido culpados apenas de defender seu país. Foram privados de sua visão, mas para um em cada cem, um só olho foi deixado, para que pudesse conduzir a sua centúria cega à presença de seu rei. Dizem que seu rei faleceu de pesar e de horror; a nação toda ficou traumatizada com esse terrível exemplo" ("Histoire de la Décadence et de la Chute de l'Empire Romain", de Gibbon). Ao escrever sobre esse mesmo episódio vergonhoso da vida de Basílio II, o historiador inglês George Finlay apresenta alguns pormenores mais. Conta-nos ele que "no dia 29 de julho de 1014 o imperador bizantino e seus generais estavam analisando a situação da campanha contra a Bulgária e considerando tudo na mais perfeita ordem para a completa rendição da Esclavônia" (parte da Bulgária). "Seu inimigo principal e mais persistente, que era o rei Samuel, opôs-se ao seu poderoso exército num desfiladeiro, à frente de considerável força militar". Muito irritado, Basílio II fez seus homens parar e deu ordens para que o governador de Philipópolis, Nicéforo Xiphias, com um bem aparelhado contingente de soldados, desse a volta numa das montanhas para assim atingir o exército búlgaro por um dos flancos. E numa ação conjugada, os bizantinos venceram as forças búlgaras; mas não tiveram a oportunidade de prender Samuel que escapou ileso. Finlay afirma neste ponto o seguinte: "O ato de vingança de Basílio II foi terrível. Sua desumanidade amedrontadora forçou a História a despresar sua conduta e a quase enterrar no esquecimento os relatos de suas conquistas militares. Nesta ocasião, ordenou que os olhos de todos os seus prisioneiros" 15.000 segundo o próprio Finlay - "fossem arrancados" ("taken out", na versão inglesa) "deixando um só olho para o lider de cada cem, e nesta condição enviou os desgraçados cativos para procurar seu rei ou para perecer no meio da jornada. Quando chegaram a Achrida, um boato de que os prisioneiros haviam sido libertados levou Samuel a sair ao seu encontro. Quando tomou conhecimento da extensão da tragédia toda, caiu desmaiado ao chão, tomado de excessiva ira e dor, e faleceu dois dias depois" ("History of the Byzantine Empire from DCCXVI to MLVII", de Finlay). - *Constantino VIII: "A violência dos fracos e dos poltrões"* A morte de Basílio II, que não tinha filhos, levou ao trono o seu irmão que era "coimperador" desde seu nascimento, Constantino VIII (960 a 1028). Era um homem frívolo ao extremo, muito forte e de crueldade renomada. Segundo Bréhier, tinha "a violência dos fracos e dos poltrões".


Acolhia com facilidade qualquer tipo de calúnia, sem o mínimo discernimento e "punia faltas veniais com a ablação dos olhos" ("Vie et Mort de Byzance", de Bréhier) . Entre as mais lamentáveis vítimas desse imperador os historiadores destacam o nobre Constantino Boutzès, cujo pai havia sido detentor do mais elevado dos títulos existentes fora da família imperial: o de "magister". O imperador, que o odiava de longa data porque ele havia por diversas vezes denunciado seus desmandos e atos indignos a Basílio II, apressouse em mandar vasar seus olhos. Embora não fosse considerado à época um tirano cruel, ele fazia vazar os olhos de pessoas importantes das quais suspeitava, deixando-as logo após em liberdade. Sobre Constantino VIII e as penas de vazamento de olhos por ele aplicadas, Zonaras, cronista bizantino do século XII, afirma: "Ele tinha verdadeira predileção por esse tipo de suplício que imobiliza a vítima e a torna incapacitada, sem a fazer perecer. Ele utilizou continuamente durante seu reinado esse terrível suplício para reduzir a nada uma multidão de homens eminentes. Dava-se a isso, em Constantinopla, um nome repleto de dolorosa ironia: a divina clemência do imperador" (Apud Schlumberger). Diversos são os historiadores que relatam fatos indicativos do uso e do abuso do poder por parte de Constantino VIII. O caso mais flagrante e que provocou uma mudança de rumo na História do Império Romano do Leste, relacionou-se à sua sucessão. Vejamos o que aconteceu: Constantino VIII tinha três filhas e nenhum herdeiro do sexo masculino; a mais velha das princesas ingressara num convento e as duas outras - Teodora e Zoé já com seus cinqüenta anos de idade, não haviam casado. Em 1028, nos primeiros dias de novembro, já em seu leito de morte após três anos de lamentável reinado, resolveu casar urgentemente pelo menos uma das filhas, podendo dessa forma passar seguramente o trono a ela e a seu príncipe consorte. Para assegurar um casamento condigno, convocou ao palácio o candidato mais indicado pelos eunucos e por alguns nobres de seu círculo mais próximo: Romano Argiro. Colocado aos pés do leito do imperador moribundo, tendo ao lado sua esposa, foi "intimado a se divorciar dela e a casar-se com uma das princesas, ou teria os olhos vazados. Tendo Teodora se recusado ao casamento, Romano Argiro casou-se com Zoe no dia 8 de novembro, três dias apenas antes da morte de Constantino VIII. Muito embora os dois cônjuges fossem parentes, o patriarca de Constantinopla, Alexius, relevou a dificuldade no interesse do Estado" ("Vie et Mort de Byzance", de Bréhier). Romano III, Argiro, foi o primeiro dos três maridos de Zoé. - *Miguel V: imperador bizantino por apenas 132 dias* A imperatriz Zoé é lembrada na história bizantina tanto por sua vaidade quanto por suas aventuras amorosas. Mas ela é também lembrada pelas diversas tragédias acontecidas durante seus 20 anos de imperatriz, tragédias que aconteceram devido aos seus casamentos. Romano Argiro, seu primeiro marido, por exemplo, que passou para a História como um imperador muito voltado aos interesses do Império, esquecendo as atenções que poderia dar à sua imperatriz que ainda era uma mulher bonita, bem conservada e saudável, teve sua morte por ela encomendada no ano de 1034, depois de ocupar o trono por seis anos. O motivo de Zoé: estava profundamente apaixonada por um novo amante seu e queria transformá-lo em imperador. Morto Romano, a imperatriz casou-se imediatamente, subindo ao trono Miguel IV. No entanto, o que logo a imperatriz descobriu foi que seu amado era doente e sofria de ataques epiléticos cada vez mais constantes. Tanto isso é real que logo se desinteressou da imperatriz e retirou-se a um mosteiro longínquo. Antes disso, porém, havia


convencido Zoé a adotar um sobrinho seu como herdeiro do trono, o que a imperatriz fez com poucas hesitações face à paixão que a consumia. Em fins de 1041 o imperador foi substituído pelo herdeiro que assumiu o cargo com o nome de Miguel V. Para este jovem imperador leviano, hipócrita, bajulador e sem caráter, que reinou por pouco mais de 4 meses, a glória terminou numa negra tragédia pessoal. Miguel V irradiava uma antipatia tão forte ao seu redor que logo se tornou intolerável para a imperatriz e para a corte toda. Percebendo o perigo que corria, Miguel procurou bajular e agradar em público a imperatriz. Em tudo Miguel V procedia de acordo com orientações recebidas de um tio seu, Constantino, que recebera o título de "nobilíssimo". No dia 18 de abril de 1042, entretanto, as intenções de Miguel V e de seu tio confidente vieram à tona: Zoé foi presa e internada num convento. Antes, porém, foi vítima de supremo ultraje, pois teve seus vistosos e bem cuidados cabelos loiros cortados por ordem do imperador. No dia seguinte a esses acontecimentos a revolta popular e das forças armadas estava montada e o palácio completamente cercado. Teodora, irmã da imperatriz destronada, foi trazida às pressas de volta a Constantinopla e coroada como "basilissa" na igreja de Santa Sofia. No dia 21 de abril Miguel V estava deposto. Mas sua história não termina aí, pois ele e Constantino conseguiram fugir e procurar a segurança de um mosteiro. Lá foram localizados. "Miguel e Constantino fugiram por mar para o mosteiro de Stoudios onde, por ordem de Teodora, vazaram seus olhos e internaramnos cada um num mosteiro diferente ("Vie et Mort de Byzance", de Bréhier) . Em julho de 1042 Zoé casava-se com Constantino Monômaco. - *Constantino IX, Monômaco: limitações físicas muito sérias* Levado ao trono bizantino graças à sua boa estrela, Constantino Monômaco (980 a 1054) iniciou a parte mais conhecida de sua vida após o casamento com Zoé, ele com 62 e ela com 64 anos de idade. Transformou-se dessa forma em seu terceiro marido e príncipe consorte, com o titulo de Constantino IX. Constantino era um homem especial, segundo os historiadores. Ele é assim descrito logo ao início de seu governo: "Seu rosto era encantador: tinha a tez clara, traços finos, um sorriso delicado, uma irradiação de graça espalhava-se sobre toda a sua figura. Admiravelmente bem proporcionado, tinha um talhe elegante e bem dosado, mãos finas e bonitas" ("Choses et Gens de Byzance", de Diehl). Estamos, no entanto, falando de um imperador que viveu muito intensamente uma seriíssima deficiência física, sofrendo muito com os problemas decorrentes de um mal que os historiadores identificaram como gota, mas que poderá ter sido artrite reumatóide ou artrite deformante. Para que tenhamos uma idéia viva das limitações físicas que atingiram o imperador bizantino é importante que analisemos os escritos de um contemporâneo seu: Miguel Psellos, autor de 125 trabalhos escritos, professor de filosofia, escritor renomado e Secretário de Estado de Constantino IX. Em sua notável obra "Chronographie" ele nos refere, na línguagem própria da época e com os limitados conhecimentos de medicina de então, o seguinte: "Os elementos essenciais desagregaram-se e embaralharam-se e, tanto nos pés e no âmago das juntas, quanto nas mãos, afluíam para dali inundar os músculos e os ossos da própria região lombar"... O mal não atingiu de imediato o corpo todo. Seus pés foram os atingidos em primeiro lugar, impedindo-o imediatamente de andar. Movimentava-se apenas com a ajuda dos outros, sempre carregado de um lado para o outro, no palácio, como um fardo. Psellos entra


em pormenores preciosos quanto à vida diária do imperador e sua deficiência física tão séria, pois privava muito com ele. "...o fluxo de imediato atingiu suas mãos e depois seus ombros, e acabou atingindo o corpo todo. A partir daí, todo membro inundado por esse fluxo terrível perdia sua energia e, com as fibras e ligamentos embaralhados, os elementos da harmonia deslocaram-se, resultando em desequilíbrio e enfraquecimento. E eu vi seus dedos, tão bem feitos, negar sua própria forma e, retorcidos e desalinhados, tornar-se incapazes de segurar não importa o que; seus pés ficaram totalmente inchados e dobrados sobre si mesmos; seus joelhos, também inchados, formavam uma saliência como um cotovelo, a tal ponto que não eram capazes de assegurar sua marcha; e, impossibilitado de manter-se em pé por longo tempo, passava a maior parte do tempo no leito e quando desejava dar audiências, fazia-se preparar e arrumar para tal fim" ("Chronographie", de Psellos). No entanto, o povo tinha o direito e ansiava mesmo pelas cerimônias e procissões imperiais, tão repletas de cores e de fausto. Constantino reconhecia isso e participava, como era seu dever; mas seu sofrimento aumentava muito nessas ocasiões.Algumas providências eram tomadas para reduzir a um mínimo as dores do imperador. "Uma certa arte, a dos cavaleiros, o auxiliava e mantinha sobre a sela; depois, uma vez a cavalo, respirava com dificuldade e as rédeas eram supérfluas; levado por sua montaria, escudeiros vigorosos e de boa estatura sustentavam-no de ambos os lados e assim, apoiandoo daqui e dali, seguravam-no como um fardo e transportavam-no para onde deveria ser levado. Mas ele, mesmo no meio de tantos males, não deixava de lado suas características básicas; muito pelo contrário, ele compunha com elegância sua aparência; depois movia-se e mudava de lugar sozinho, ao ponto de aqueles que o viam não ficarem muito seguros de que vivia entravado pelas dores e minado pela doença" (Chronographie", de Psellos) . Que outras providências eram tomadas nessas procissões solenes para reduzir a um mínimo suas dores e dificuldades? Cobriam todo o trajeto com tapetes a fim de evitar que seu cavalo escorregasse nas lajotas das avenidas entre o palácio imperial e a basílica de Santa Sofia. Em sua vida de todo o dia e dentro do palácio, para se movimentar de ambiente para ambiente ele era carregado por camareiros bastante fortes sem maiores dificuldades, a menos que houvesse a incidência de um forte ciclo de dores. Para repousar à noite com um mínimo de desconforto, a dificuldade crescia, pois qualquer posição lhe era incomoda e diante disso seus camareiros ajudavam-no a procurar posições, viravam-no com cuidado no leito e com isso conseguiam acertar almofadas e adaptações não especificadas mas citadas na obra de Psellos, para tornar o sono possível. O grande cronista bizantino não faz qualquer comentário quanto à intervenção de médicos ou ao uso de medicamentos, muito embora seja certo que tudo era feito para diminuir as dificuldades do imperador. Com o passar dos anos Constantino IX sentia dores até na língua ao falar, sendo-lhe um suplício mudar de lugar. Assim, ele acabou paralisado num lugar só praticamente. Psellos informa também que Constantino, apesar da verdadeira batalha com dores e problemas delas decorrentes, jamais deixou escapar uma palavra contra Deus. E se alguém vinha se queixar dos próprios sofrimentos, ele ficava aborrecido e mandava a pessoa se retirar, às vezes até usando de palavras rudes. No mais recôndito de seu ser Constantino IX aceitava suas dores e a limitação física como uma punição pelos seus pecados passados e como freio de sua natureza. "Como meus instintos não cedem à razão, capitulam diante dos sofrimentos do corpo; meu corpo sofre,


mas os impulsos desordenados de minha alma são assim controlados", afirmava ele (Apud Psellos). - *Romano IV, Diógenes: presa de um soldado com deficiências* Este imperador bizantino permaneceu na liderança do Império de 1067 até 1071. Logo que se casou com a imperatriz viúva, Eudóxia, no ano de 1067 e mal investido da autoridade e da dignidade de imperador, Romano, que era um general muito competente, partiu no comando de um grande exército para combater sarracenos e turcos Seljuk, em três diferentes campanhas. Na última delas, levou suas tropas contra o sultão turco Alp Arslan, com ele defrontando-se na grande batalha de Mantzikert. Muito embora tenha lutado com extrema valentia e competência, Romano IV foi feito prisioneiro e levado à presença de Alp Arslan, com o qual acabou assinando um tratado de paz que os bizantinos consideraram vergonhoso. Nesse evento, todavia, queremos chamar a atenção para uma pequena informação do historiador Gibbon sobre as circunstâncias de seu aprisionamento. Afirma ele o seguinte: "Enquanto a esperança sobrevivia, Romano tentava reagrupar e salvar o restante de seu exército. Quando o centro, a estação imperial, ficou sem proteção de todos os lados e cercado pelos turcos vitoriosos, ele, ainda com desesperada coragem, manteve a luta até o final do dia, à testa dos bravos homens que haviam aderido ao seu estandarte. Eles caíram ao seu redor; seu cavalo foi morto; o imperador foi ferido. Apesar disso ele se manteve só e intrépido até que foi dominado e imobilizado pela força das multidões. A glória por essa ilustre presa foi disputada por um escravo e por um soldado: um escravo que o havia visto no trono de Constantinopla e um soldado cuja extrema deformidade havia sido relevada face à necessidade de serviços de sinalização" ("Histoire de la Décadence et de la Chute de L'Empire Romain", de Gibbon). Como podemos muito bem notar por essa informação, às vezes pessoas deficientes eram consideradas aproveitáveis nos exércitos em funções que pouco ou nada demandavam quanto ao uso de armas. E no caso do aprisionamento de Romano IV, esse soldado com sérias deformidades físicas teve um destacado papel a fim de possibilitar que seu importante prisioneiro chegasse ao dia seguinte com vida. Assinale-se que havia prêmios altamente compensadores por prisioneiros resgatáveis - e um imperador era um caso altamente excepcional que levava não só a resgates a peso de ouro, como a tratados diversos. O próprio historiador Gibbon afirma que, já despojado de suas armas, das suas jóias e do seu manto de púrpura, Romano IV passou uma noite muito perigosa para sua vida no devastado campo de batalha, cercado por uma multidão quase sem controle que saqueava tudo o que podia. Voltando a Constantinopla, Romano IV foi destronado, preso e teve seus olhos vazados, por ordem do césar João Dukas; foi internado num mosteiro, em Proti, no mar de Mármara, ao sul de Constantinopla. - *Enrico Dandolo: "doge" veneziano cego* Enrico nasceu perto de Veneza no ano de 1105 e faleceu com exatamente 100 anos de idade na grande capital do mundo oriental daquele século: Constantinopla. Sempre muito hábil e corajoso em suas atividades comerciais e guerreiras, Dandolo foi um ótimo político e um hábil negociador, excelente orador e dono de um soberbo nome de família romana das mais antigas tradições que o tornaram muito influente na República de Veneza. Foram essas condições básicas e as circunstâncias relacionadas a negócios de Estado que o levaram a Constantinopla, em missão oficial e na qualidade de enviado das autoridades da poderosa República de Veneza. O objetivo era resolver uma pendência muito séria no ano de


1171 quando Dandolo já estava com 66 anos de idade: Manuel Comnenus (1143 a 1180), imperador bizantino, havia aprisionado navios e tripulações de Veneza e recusava-se a devolvê-los, desafiando acintosamente os direitos reclamados e mesmo o cumprimento dos tratados assinados entre o Império Bizantino e a República Veneziana, que era muito importante àquela época. Dandolo foi incisivo na corte bizantina e expressou com extrema clareza e em termos convincentes a indignação sentida pelos venezianos face às atitudes do imperador quanto aos navios e suas tripulações. O que o velho embaixador certamente não havia imaginado era o tipo de reação do imperador bizantino que, enfurecido ao extremo e ofendido com as argumentações fortes de Dandolo, apelou para a tortura refinada e cruel, típica de sua corte: mandou colocar próximo aos seus olhos vasos de metal incandecente que acabaram comprometendo seriamente sua visão. Dizem os historiadores que Dandolo ficou completamente cego. De volta a Veneza foi reconhecido como fiel intérprete da opinião do governo e do povo veneziano e, apesar de cego, foi eleito "doge" - cargo supremo daquela república - alguns anos após o incidente na corte de Manuel Comnenus. Dandolo foi extremamente importante nos eventos que transformaram por completo a História Bizantina e a História de Veneza. Esses eventos envolveram a Dinastia Angelus e levaram à introdução de algo totalmente novo na história tumultuada de Constantinopla: os imperadores latinos. Levaram também à partilha do grande Império entre os nobres cruzados e a República de Veneza, como veremos a seguir. - *Isaac II, Angelus: olhos vazados, volta a ser imperador* Durante a primeira parte do reinado do questionado imperador Isaac II, Angelus, que vai de 1185 a 1195, um parente seu, Constantino Angelus, proclamou-se imperador bizantino com o apoio de suas tropas. Foi vencido e destronado pelas forças de Isaac II, tendo sido julgado de acordo com as leis. A sentença: vazamento de seus olhos. No entanto, um outro parente - e desta vez seu próprio irmão Alexius – liderou outra revolta no ano de 1195, procurando afastar o incompetente e alienado imperador. Desta vez Isaac II foi preso e teve seus olhos vazados por ordem do irmão a fim de eliminar suas pretensões de volta ao trono do Império Bizantino. Alexius assumiu o Império com o nome de Alexius III e imperou de 1195 até 1203, mantendo seu irmão na prisão ao lado do filho e pretenso herdeiro do imperador destronado. Com o passar dos anos, porém, o novo imperador soltou o sobrinho, que tinha também o nome de Alexius, fazendo-o participar de campanhas militares ao seu lado. O jovem príncipe mantinha-se inconformado e fazia planos para voltar a Constantinopla e conquistar o trono que por herança teria sido seu. E na primeira oportunidade fugiu e foi buscar a colaboração de nobres europeus que em Veneza procuravam organizar uma cruzada à Terra Santa e ao Egito, sob a forte liderança do "doge" cego, Dandolo. Com o aval do papa Inocêncio III conseguiu convencer o grupo de nobres a viajar para Constantinopla a fim de derrubar Alexius III e de garantir sua instalação no trono. Havia condições muito pesadas para tanto: pagar o aluguel dos barcos usados para todo o transporte dos cruzados e seus exércitos, ajudar financeiramente na organização de uma cruzada ao Egito e submeter a Igreja Ortodoxa a Roma. E a empreitada foi aceita na presunção líquida e certa de que Isaac II, cego como estava, não poderia mais ocupar o trono bizantino e de que Alexius seria, como de fato era, seu herdeiro.


No entanto, quando Alexius III foi afastado do trono, enquanto os garbosos cruzados avançavam deslumbrados pelas avenidas de Constantinopla, os habitantes de origem grega libertaram Isaac II e colocaram-no no trono como imperador de fato. Quando o jovem Alexius e os cruzados chegaram ao palácio imperial tiveram a surpresa do fato consumado: o trono estava ocupado pelo velho imperador cego. "O choque foi muito grande para Alexius e para os cruzados, pois de acordo com a tradição bizantina, a cegueira incapacitava um homem para ser imperador" ("Cambridge Medieval History", de Hussey). Mas foi um impasse curto, pois pai e filho, após o reencontro, conversaram muito e Isaac II acabou aceitando as condições negociadas pelo filho, embora deixando claro que duvidava de sua viabilidade. E o velho imperador cego estava certo. Ficou logo claro que não seria possível pagar os cruzados e cumprir o prometido. Foram ambos afastados do trono, inaugurando-se então a fase de investidura dos imperadores latinos, sob a custódia dos cruzados Os imperadores do ocidente europeu. - *Outros eventos que levaram a deficiências físicas e sensoriais* Muitos outros eventos aconteceram no milênio de existência do Império Bizantino que levaram nobres e imperadores a terem seus olhos vazados ou corpos mutilados. Dentre eles cumpre destacar: - Filípico - cognominado de Bardane - foi imperador entre 711 e 713, sendo originário da Armênia. Foi infeliz em seu governo por ter que lutar contra búlgaros e árabes - inimigos externos além de enfrentar internamente os problemas com os ortodoxos e com os que pressionavam em favor da Igreja vinculada a Roma. Deposto finalmente, teve seus olhos vazados. - Heracleonas - imperador de fevereiro a setembro de 641. Ao final do governo de seu pai, imperador Heraclius, obteve o título de "augusto", por influência direta de sua mãe. Dessa forma, foi proclamado imperador ao lado de seu irmão, Constantino III. A morte prematura deste levou a corte a suspeitar de Heracleonas e de sua mãe. Foi logo após destronado e preso; segundo os historiadores foram mutilados e banidos para a ilha de Rhodes. - Bryenne, general bizantino - Nicéforo Bryenne, general bizantino do século XI, era originário de importante família. Foi nomeado duque da Bulgária em 1075, 60 anos após a derrocada provocada por Basílio II. No ano de 1077 proclamou-se imperador da Bulgária mas foi derrotado por Nicéforo Botoniate em 1078, preso e, por ordem do imperador Miguel VI, teve seus olhos vazados. - Andrônico I - Andrônico Comnenus liderou revolta contra o imperador Alexius II, Comnenus, destronando-o. Enquanto se manteve precariamente no poder mandou cegar o "protosebaste", cujo titular tinha importância correspondente à de um primeiro ministro. Entretanto, suas lutas acabaram por garanti-lo no trono de 1183 até 1185. Foi um imperador cruel. "Multidões reuniam-se para ver o desfile ou a imolação de alguns traidores ou criminosos horrivelmente mutilados; e as ferozes execuções ordenadas por Andrônico I foram o prelúdio natural para seu terrível fim, que, todavia, ele suportou com uma valentia muito própria" ("Cambridge Medieval History", de Hussey). Andrônico I morreu mutilado. - Teodoro Dukas - Foi imperador da província de Tessalônica e era irmão de Miguel Angelus Comnenus. Fez algumas tentativas para conquistar Constantinopla e para tanto procurou atacar a cidade pelo norte. No entanto, não quis "dar as costas" à Bulgária, considerada um perigo para seus exércitos. Com isso, provocou um sério atrito com antigo amigo seu, o czar búlgaro João Asen. Foi por ele derrotado na batalha de Klokotnika, em 1230, tendo lá sido preso. E, por ordem do "amigo" czar, teve seus olhos vazados. Teodoro


Dukas, no entanto, era muito dinâmico e sagaz. Acabou reconquistando a amizade de João Asen e foi posto em liberdade. Voltou incontinenti à Tessalônica e viveu uma vida de contatos políticos muito intensos, conseguindo inclusive lançar o chamado Império Grego da Tessalônica em violentas lutas, influindo decisivamente nas tomadas de decisão de seu irmão Manuel e de seus dois filhos, João e Demétrio. Para finalizar os relatos de eventos históricos ou de fatos relacionados a personalidades que marcaram o Império Bizantino, resta-nos falar de algumas figuras históricas que viveram nos séculos XIII e XIV: destaquemos, para tanto, os nomes famosos de Miguel Paleólogus e de João V, Paleólogus. - *Ato friamente planejado instala a Dinastia dos Paleólogus* Um ato muito frio e cruel nos é relatado por diversos historiadores e em especial por Gibbon, em sua obra anteriormente citada. Esse proceder desumano ocorreu no início do século XIII. O jovem príncipe João Lascáris (1250 a 1300 aproximadamente) que passou para a História Bizantina como João IV, era filho de Teodoro II, falecido em 1259. Com apenas 8 anos de idade o herdeiro do trono bizantino teve como tutor o próprio patriarca de Constantinopla, Arsenius Autorianus. No entanto, graças a tramas muito bem urdidas e contando com o total apoio da grande família dos Paleólogus, Miguel foi apontado como tutor do jovem príncipe, tendo então recebido o titulo honorífico de "déspota" e algum tempo após o de "imperador-adjunto". Para efeitos desse segundo titulo, ele foi coroado na cidade de Nicéa em 1260. No ano seguinte, estando João IV, Lascáris, com apenas 11 anos de idade, Miguel Paleólogus resolveu destronar o príncipe e com isso afastar a dinastia dos Lascáris. Para tanto mandou cegá-lo. "A perda da visão incapacitou o jovem príncipe para as atividades do mundo: em vez da violência brutal de arrancar os olhos, o nervo ótico foi destruído com o intenso brilho de um vaso incandescente, e João Lascáris foi levado para um castelo distante, onde passou muitos anos na privacidade e na obscuridade" ("Histoire de la Décadence et de la Chute de l'Empire Romain", de Gibbon). Arsenius Autorianus, ex-tutor de João Lascáris, patriarca da Igreja Ortodoxa, excomungou Miguel Paleólogus por esse ato - o que de fato provocava uma situação especial, pois o imperador era considerado o representante de Cristo. No entanto, após muita insistência do imperador e da corte, não ocorrendo a revogação do ato punitivo, o patriarca foi trocado e a excomunhão revogada. Além de cegar João IV, Miguel VIII, Paleólogus, mandou cegar vários nobres recalcitrantes e inconformados com a situação. "Em 1261 Miguel Paleólogus, querendo punir seu secretário Manuel Holóbolus por ter-se apiedado da sorte do infeliz João Lascáris, fez amputar seu nariz e seus lábios, após ter ele os olhos vazados" ("Les Institutions de l'Empire Byzantin", de Bréhier). - *O dilema de João V, Paleólogus (1319 a 1389)* Durante o governo de João V, Paleólogus, sob a quase total custódia do sultão otomano Mourad I, o imperador bizantino procurou manter com os turcos um relacionamento cordial. Praticamente todo o território do Império Bizantino já havia sido tomado pelos turcos, à exceção de Constantinopla fortificada, que se mantinha intocada devido a um certo receio


que os tão aguerridos otomanos tinham dos cruzados e das reações da Europa Cristã, caso a cidadela fosse tomada e saqueada. Enquanto João V mantinha sua capital na inexpugnável Constantinopla, o sultão turco colocava a sua na cidade de Adrianopla, próximo às fronteiras da Bulgária e da Grécia e a pouca distância da capital bizantina. Havia visitas cordiais à corte do sultão e as famílias ficaram se conhecendo bem. Tanto isso é verdade que Andrônico, o filho mais velho de João V, fez uma boa amizade com Saoudj, filho mais velho e eventual sucessor de Mourad I. Os dois jovens pretendentes aos respectivos tronos começaram a conspirar contra seus pais logo após Andrônico ter sabido que João V o havia afastado da sucessão em beneficio de seu irmão Manuel. Mourad I descobriu a conspiração dos dois príncipes e tomou uma decisão drástica contra a traição de seu filho primogênito: mandou vazar seus olhos, o que ocorreu em 1376. Mas o rigoroso sultão não deixou o assunto morrer aí, pois forçou o imperador bizantino a se manifestar, confrontando-o com o aspecto "traição". "O otomano ameaçou seu vassalo com o tratamento de um cúmplice e de um inimigo, a menos que ele infligisse a mesma punição a seu filho. Paleólogus tremeu e obedeceu, e uma precaução cruel envolveu na mesma sentença a infância e a inocência de João, filho do criminoso. Mas a operação foi feita tão brandamente ou tão imperitamente que um manteve a visão de um olho e o outro foi vítima apenas do mal do estrabismo" ("Histoire de la Décadence et de la Chute de l'Empire Romain", de Gibbon). Os dois príncipes conspiradores foram presos na famosa torre de Anema e a sucessão aos dois poderes ficou garantida para Manuel, do lado bizantino, e para Bayazet, do lado otomano. Dois anos após a aplicação da pena, os dois mandatários foram depostos e encerrados na mesma torre da qual os dois príncipes foram retirados para ocupar os seus respectivos tronos (Apud Gibbon). 3. As Pessoas Deficientes na Idade Média Dos anos 500 até o final do século X, mergulhada num generalizado estado de ignorância, uma leve e quase imperceptível chama de cultura clássica era conservada na Europa e em muitos pontos do Oriente Médio. Os povos invasores e desmanteladores do antes inexpugnável Império Romano mantinham-se em franca e obscura atitude contrária aos ensinamentos deixados pelos grandes pensadores gregos e romanos, enquanto que no Oriente Médio, numa situação bem diversa daquela encontradiça na Europa, os povos árabes, igualmente invasores e expansionistas, procuravam desvendar todo o mistério de conteúdo da propalada sabedoria grega e dos seus mais renomados filósofos e cientistas. E no meio do caos do destroçado Império Romano, a Igreja Cristã demonstrava sua pujança e sua rigidez: ela passou a ser quase que o único baluarte capaz de manter a cultura clássica que ela preservava com segurança nas bibliotecas dos mosteiros e dentro de seus fortes muros organizacionais. - *A criação de hospitais e abrigos para pobres* Apesar de todas as concepções místicas, mágicas e muito misteriosas, de muito baixo padrão, que foram a tônica da cultura das populações menos privilegiadas e mais empobrecidas durante muitos séculos da Idade Média, em muitas partes da Europa e do Oriente Médio, os casos de doenças e de deformações das mais diversas naturezas ou causas passaram aos poucos a receber mais atenção. Isto é verdadeiro não só quanto à


Europa Cristã mas também a todo o leste islâmico. Um dos sintomas dessa atenção mais humanizada foi a continua criação de hospitais. No leste da Europa, por exemplo, hospitais e abrigos para doentes e pessoas portadoras de deficiências mais pobres eram criados por vezes por senhores feudais ou por governantes de aglomerados urbanos mais fortes ou de burgos mais significativos, sempre ajudados pela cooperação de esforços provenientes da Igreja. Além disso tivemos no século VII a criação de uma instituição para cegos perto de Pontlieu, na França, por iniciativa do bispo de Le Mans, São Bertrão. Foi um projeto diferente daqueles usualmente encontrados na mesma época. - *Um santo cego na história da Bretanha do século VI* A história de Santo Herveu, o monge cego, é típica do início da Idade Média, pois está repleta de poesia e de crendices. Segundo ela, Herveu nasceu no ano 520 na Bretanha continental. Seu pai foi o bardo (cantor e poeta) Hoarvian e sua mãe, uma piedosa jovem que cantava os salmos com excelente voz, Rivanone. Dizem os poucos biógrafos desse pouco conhecido santo bretão que sua jovem e inexperiente mãe, muito inquieta com os perigos do mundo, pediu a Deus que seu filho nascesse cego. O pai, menos sonhador e muito mais prático, ficou atemorizado com essa prece e repreendeu-a, dizendo: "Ó mulher, não é cruel por parte de uma mãe pedir que seu filho seja privado da luz da vida? Se ele deve nascer assim, todavia, peço de minha parte a Deus todo poderoso, que essa criança já daqui desse mundo tenha visão dos esplendores do céu. E para que minha prece seja atendida, renuncio desde agora a todas as vaidades deste mundo para servir apenas a Deus pelo resto de meus dias". E o pai acabou partindo de fato, sem ter chegado a ver o filho que, de acordo com orações de sua mãe, nasceu cego. O nome Herveu, recebido no batismo, significa "amargo". Bem mais tarde a mãe também deixou o filho com um monge conhecido pelo nome de Arzian, passando o menino a viver confinado no mosteiro. Herveu aprendeu muito com a escola existente no mosteiro de Arzian, incluindo em suas preferências também as ciências profanas, além de todos os salmos que sua mãe - ele recordava muito bem - cantava com límpida voz. No seu dia-a-dia o jovem Herveu movimentava-se com a ajuda de um guia chamado Guiac'han. Foi durante sua adolescência que deixou o mosteiro de Arzian e foi em busca do retiro do eremita Urfold, num local próximo ao convento onde sua mãe vivia confinada. Com a ajuda do eremita, Herveu acabou encontrando sua mãe, muito debilitada pelos jejuns e pelas penitências. Transformou-se logo em professor, apesar da cegueira. No entanto, por humildade afastou-se e começou a peregrinar de mosteiro a mosteiro, seguido por grupos de alunos seus. Nessa espécie de peregrinação constante, o grupo visitou o bispo de Houardon que quis ordenar Herveu sacerdote. Mas, devido à sua cegueira e à sua humildade, não aceitou a ordenação. Recebeu finalmente as chamadas "ordens menores" e o poder do exorcismo. Fundou um mosteiro próprio pelo ano de 540, num local posteriormente conhecido como Lanhouarneau. Apesar de não ser sacerdote, recebeu o título de abade de sua congregação e nessa qualidade foi convocado para o concílio que ia ser realizado em Menez-Bré, em 545. Contase que os participantes ficaram o dia todo esperando por ele para iniciar o conclave, o que irritou sobremaneira um dos bispos presentes.


- "O que? ! ... Foi para esperar esse ceguinho que perdemos um dia todo?", explodiu o prelado. Sentiu-se uma indignação geral contra o bispo que, castigado no próprio ato, caiu cego ao chão. Herveu aproximou-se e tomando de um pouco de água que começara a brotar de seu bordão, umedeceu os olhos da vítima que logo a seguir voltou a enxergar (Apud Le Berre). Suas relíquias ainda hoje existentes no mosteiro de Lanhouarneau (distrito de Finistère, na Bretanha, a oeste da França, entre a Baía de Biscaia e o Canal da Mancha) são sempre usadas para a benção das águas da Fonte de Santo Herveu, em procissão solene realizada no dia de sua festa. Dizem que essas águas têm virtudes um tanto misteriosas para a cura de males dos olhos nelas lavados. Seus restos mortais foram transferidos para a catedral de Nantes em 1002. Santo Herveu é considerado o patrono dos cantores populares e é festejado em 17 de junho. - *Santo Egídio, padroeiro dos deficientes* Santo Egídio (Gilles, em francês e Aegidius, em latim) é patrono da pequenina cidade de Saint Gilles, ao sul da França. Fica situada no Departamento de Gard, as margens do canal do rio Rhone-à-Sète. Existe na vila uma antiga abadia que chegou a ser expressamente protegida por Carlos Magno e que hoje guarda as relíquias de seu santo padroeiro, que lá viveu no século VI. É ele considerado na França como um dos dez santos que mais ajudam à população desamparada e sempre foi venerado na Europa como o padroeiro dos mendigos, dos ferreiros e das pessoas com defeitos físicos. Sua fama foi tão importante no passado que os peregrinos agradecidos chegaram a contribuir para a melhoria da vila e da abadia. O famoso santo é representado tendo ao seu lado uma flecha e uma corça. Segundo lendas do século X Egidio era um jovem aristocrata de origem ateniense que, após ter visitado o mosteiro de São Cesário de Arles, pelo ano 543, passou a viver como eremita no meio do bosque. Foi ferido acidentalmente pelo rei Flavius dos Godos quando este perseguia uma corça e ela procurara segurança aos pés de Egídio. Arrependido com o engano, Flavius mandou imediatamente construir uma abadia naquele bosque e nomeou Egídio seu abade. Sua festa é celebrada no dia primeiro de setembro. Os restos mortais de Santo Egídio, levados a Toulouse no século XVI, foram transladados para Saint Gilles apenas em 1862. - *Assistência aos pobres pela Igreja* Os pobres, os doentes e os deficientes físicos e mentais foram objeto de uma norma da Igreja Católica em pleno século VI, norma essa que pretendia assisti-los e ao mesmo tempo circunscrever seus movimentos a um determinado território. E foi o concílio de Tours, realizado nos anos 566 e 567 que decretou pelo seu cânone quinto o seguinte: “Cada cidade alimentará os seus pobres. Os sacerdotes da zona rural e os habitantes também alimentarão seus pobres, a fim de impedir os mendigos vagabundos de correr as cidades e as províncias” (Apud Guérin). É também relevante saber que o concílio de Lyon (583) aprovou, em seu último cânone, a seguinte medida relacionada aos hansenianos: “Os leprosos de cada cidade e de seu território serão alimentados e abrigados às expensas da Igreja, aos cuidados do bispo, a fim de lhes impedir a liberdade para serem vagabundos em outras cidades” (Apud Guérin).


- *A mutilação como castigo no século VII* Desde épocas imemoriais, em quase todas as culturas espalhadas pela Europa e por todo o resto do mundo conhecido até o século VII d.C., praticamente todos tinham o direito - ou viam-se investidos desse direito - de punir severamente seus criados, seus escravos ou empregados, mesmo que fosse, conforme as circunstâncias, pela mutilação de parte de seus corpos: orelhas, nariz, dedos, membro sexual, etc. Durante os primeiros séculos da Idade Média essa punição tanto podia ser aplicada diretamente pelo senhor como, de um modo indireto, por meio de juízes. A gravidade da situação poderá ser bem retratada por uma decisão tomada num dos concílios particulares da Igreja. Foi o concílio de Mérida, em Portugal, no ano 666 que procurou cercear esse bárbaro costume, pelo menos com relação aos bispos e sacerdotes, já um tanto distanciados dos preceitos da caridade. O cânone décimo quinto, aprovado nesse concílio, “proíbe aos bispos e aos sacerdotes maltratar os empregados da igreja pela mutilação e manda que, se forem eles considerados culpados de qualquer crime, que sejam entregues aos juízes seculares, pelo menos para os bispos moderarem a pena à qual serão condenados, e não deixarem que sejam marcados com ignomínia” (Apud Guérin). - *O milagre de fazer um mudo falar* São Vedo, cognominado “o Venerável”, tem sido considerado nos meios católicos ingleses não só como um homem santo, mas também como um sábio e grande historiador. Nasceu em 675, vindo a falecer em 735. Escreveu muitas obras dentre as quais não podemos deixar de chamar a atenção para a História Eclesiástica da Nação Inglesa a qual cobre período que vai desde os primórdios da Igreja Cristã na Inglaterra até 731. Consta nessa obra que em 685 um bispo católico chamado João, tido como santo e miraculoso, ensinou um jovem que nunca havia pronunciado palavra alguma a falar. Apesar do Santo historiador inglês citar o fato como um milagre, não causaria impacto maior hoje em dia ou mesmo há dois ou três séculos atrás. Segundo São Bedo, o bispo João pediu ao jovem para mostrar sua língua e soltar o som já, o que foi feito aparentemente sem maiores dificuldades. A partir desse ponto, pronunciando uma a uma as várias letras do alfabeto, o bispo orientou o jovem a repeti-las. Daí por diante o prelado começou a inserir sílabas, palavras curtas mesmo frases simples. O moço obteve pleno êxito e não parou mais de falar. No campo da comunicação dos deficientes da palavra falada esse é um fato totalmente isolado ocorrido no início da Idade Média, uma vez que só ouviremos falar sobre o ensino de surdos e de surdos-mudos pelo final do século XV (Apud Muller). - *Amputações como penalidade por crimes cometidos* Embora não disponhamos de dados muito precisos, existem evidências de penas severas para crimes considerados graves durante toda a Idade Média, em diversos países europeus. Na maioria dos casos o objetivo dessas penas - principalmente as mutilatórias - não era matar o criminoso, mas deformá-lo, sendo a mutilação um meio visual destinado a amedrontar outros criminosos. Cuidavam os aplicadores das penas mutilatórias que os condenados não morressem devido à hemorragia ou a eventuais complicações. Como as vítimas dessas penalidades quase sempre se viam impedidas de trabalhar, restava-lhes o recurso de esmolar, que de certa forma, como no Império Bizantino, levava o povo cristão a ter oportunidade de fazer caridade...


Dentre os diversos crimes que podiam ter como pena a amputação das mãos, por exemplo, um deles (bastante específico para determinado fato ocorrido na História) sucedeu em Milão em 630, durante uma violenta peste. De acordo com muitas acusações baseadas em observações e também em crenças de natureza pseudo-científicas, a peste era espalhada por um certo ungüento que era esfregado nas paredes das casas por indivíduos criminosos. As autoridades e o povo deram caça aos mesmos, tendo todos eles sido submetidos a torturas, amputações e mesmo à morte. Um dos castigos a eles aplicados foi a amputação de uma das mãos, conforme nos é mostrado em estampa existente no Welcome Medical Historical Museum, de Londres (Apud Brothwell e Muller-Christenseln). - *A evidência de dupla amputação: século VII* Foi em 1956 que uma área desabitada na ilha de Tean (uma das Scilly, a sudoeste da Inglaterra) mereceu toda a atenção dos cientistas do Departamento de Arqueologia PréHistórica da Universidade de Edinbourgh. É que lá haviam sido descobertos diversos túmulos - talvez do século VII d.C. - e um dos esqueletos apresentava peculiaridades bem marcantes. Eram os restos mortais de um homem de 40 a 50 anos presumíveis ao morrer que, além de ter sido vítima de um processo artrítico sério, apresentava algo bastante inusitado. Eis os dados que nos são repassados por dois cientistas: - O braço esquerdo apresenta sinais da amputação da mão a 10 mm acima do punho. Com a sobrevida de mais de um ano, a extremidade áspera correspondente ao ponto da mutilação ficou arredondada e quase lisa e uma espécie de calosidade óssea uniu as duas pontas do rádio e do cúbito num único osso. Há leves sinais de infecção, mas ao que parece não houve dificuldades na fase de cicatrização sem inflamações. - A perna direita apresenta mutilação do pé, tendo a amputação cortado 50 mm da tíbia e do perônio. Como no caso do braço esquerdo, o coto está arredondado, com a união de ambos os ossos num só. Segundo Broththwell e Moller-Christensen, acrescente-se a esses problemas o fato de que vários anos antes o mesmo indivíduo havia fraturado a clavícula e uma vértebra toráxica que, embora bem solidificadas, provocaram alguma deformidade. As mutilações indicadas pelos dois autores provavelmente não foram feitas sem conhecimento de causa. Vejamos a sua opinião: “Com certeza somente um ou dois anos antes de sua morte foi realizada a amputação de sua mão esquerda a 10 mm acima do punho e do seu pé direito aproximadamente a 50-60 mm acima da junta do tornozelo. Essas mutilações não foram provavelmente feitas com uma serra ... mas foram o resultado de uma remoção intencional por machado ou faca pesada e martelada com um malho - métodos sabidamente empregados como punições na Inglaterra durante a Idade Negra. (Médico-Historical Aspects of a Very Early Case of Mutilation de Brothwell e Muer-Christensen). - *Os hospitais criados pela Igreja na Europa* No ocidente europeu hospitais continuaram sendo organizados graças à iniciativa e à contínua ação de segmentos da Igreja Católica, tendo as ordens monásticas dado uma relevante contribuição, pois a experiência dos religiosos enclausurados em tratar seus irmãos feridos ou doentes, bem como os pobres e desvalidos portadores de sérias limitações físicas, passou a ser um verdadeiro modelo. Era já o resultado de uma experiência multissecular


desenvolvida por mosteiros espalhados pela Europa e pelo Oriente Médio, além daqueles localizados na África. No entanto, já no ano 845, o concílio de Meaux referiu-se ao que chamou de “Hospitia Peregrinorum” (Abrigos dos Peregrinos) e de “Hospitia Scotorum” (Abrigos dos Escoceses), queixando-se que eles haviam sido desviados de seus propósitos originais de hospitalidade e pedindo sua reinstalação em moldes diferentes, não só como casas destinadas à assistência aos peregrinos ou a viajantes doentes, como também abrigos aos inválidos. Duzentos anos antes desse concílio, considerando que era uma obrigação quase que funcional dos bispos dar abrigo e proteção a peregrinos e a doentes pobres, o bispo Landry, de Paris, organizou um lar para inválidos e para peregrinos doentes num local bem perto de sua igreja. Foi dessa experiência do século VII que surgiu o nome de “Hôtel Dieu” para hospital de caridade na França. Do século VII ao século XII os hospitais mantidos nas propriedades dos mosteiros e das abadias ou mesmo das poucas instituições especialmente preparados para tanto foram praticamente as únicas organizações européias que mantiveram como seus objetivos básicos cuidar do doente agudo e em muitos casos também do crônico. Serviram também de abrigo para pessoas impossibilitadas de prover seu próprio sustento devido a sérias limitações físicas e sensoriais. Convém aqui voltar a ressaltar que não havia propriamente nenhum mosteiro ou abadia de porte, durante a Idade Média, que não mantivesse seu “xenodóchium” devido ao espírito de caridade e de hospitalidade cristãs, enquanto que muitos foram se aparelhando e alterando seus serviços para um atendimento próprio de um “nosocómium”. - *A profissão de massagista no Japão do século IX* Segundo documentos históricos existentes no Japão do século IX os cegos passaram a dominar completamente a profissão de massagista, considerada desde então como de sua exclusividade absoluta. Além disso, eram os cegos os quase que exclusivos aplicadores de certas técnicas especiais de acupuntura. Esse verdadeiro privilégio foi-lhes garantido devido à circunstância de o filho do imperador japonês, o príncipe Hitoyasu, ter perdido a visão e ter fortemente influenciado seu pai em favor dos cegos que não tinham trabalho digno e que podiam perfeitamente bem desenvolver aquelas atividades. Esses privilégios para cegos prevaleceram praticamente por dez séculos, mas ainda hoje percebemos resquícios deles, uma vez que é notória a presença muito numerosa de cegos como massagistas não só no Japão como em muitos outros países que recebem ou receberam sua influência. - *Bispo Hincmar, vítima da crueldade de seus algozes* Hincmar (830 a 882) foi um dos bispos mais jovens de que se tem notícia na História da Igreja Católica. Foi sagrado bispo de Laon, na França, com apenas 20 anos de idade, por indicação e por influência direta do rei Carlos, o Calvo, que logo lhe confiou duas missões diplomáticas na Germânia. No entanto, depois de 21 anos de bispado, durante o concílio de Douzy, presidido por um arcebispo que tinha o mesmo nome e que era seu tio, Hincmar foi deposto e aprisionado. As condições da cela e do próprio ambiente para onde o bispo deposto foi mandado eram terríveis, tendo ele sido deixado sob violentos maus tratos de seus algozes que vazaram seus olhos. Essas violências desumanas aconteceram, segundo os historiadores, por ordem direta do arcebispo Hincmar de Reims, que levara o sobrinho prelado à prisão.


Passados cinco anos, todavia, Hincmar foi liberto por influência direta do papa João VIII, que reinou entre 872 e 882. E, um fato singular na história da disciplina da Igreja Católica, esse mesmo papa autorizou Hincmar a celebrar missa, por ter considerado que sua cegueira não era impeditiva, pois havia ocorrido após sua ordenação, não significando, portanto, nenhuma irregularidade. - *Deficiência física na mitologia germânica* Wayland, o ferreiro, é um herói mitológico famoso na cultura germânica. Não necessariamente uma réplica nem cópia de Hefesto, já citado e inserido em muitas histórias da mitologia grega, Wayland também era um excelente artesão e ferreiro. Chegou a fabricar peças famosas que passaram para diversas histórias da avantajada mitologia do norte da Europa dos meados da Idade Média. Dentre essas peças imortais é importante destacarmos que, segundo as lendas, Wayland fabricou a espada de Siegfried (Nothung) e a do rei Artur (Excalibur). Wayland, o único herói teutônico assimilado pela cultura e pelo folclore de diversos países europeus, inclusive pela mitologia inglesa, aparece em histórias lendárias tanto na Alemanha quanto na Escandinávia. A lenda principal relacionada a esse fantasioso ser fala a respeito de sua vingança contra o rei que o havia aprisionado. Esse rei havia mandado quebrar seus joelhos para torná-lo incapacitado de se mover com destreza e rapidez. O objetivo era retê-lo no reino e com isso garantir seus serviços de alta qualificação. No entanto, o muito sagaz Wayland, depois de anos de paciente planejamento e da espera de um momento mais adequado, matou os dois filhos do rei Nipopr. Fez mais para dar mais peso à sua vingança: deflorou a princesa, sua filha. Logo após, tendo completado todos os atos que havia premeditado, empreendeu uma fuga espetacular, utilizando-se de um par de asas por ele mesmo fabricadas. - *As deficiências em sacerdotes cristãos na Idade Média* Questão permanentemente discutida por autoridades eclesiásticas, tendo já merecido o posicionamento de papas e concílios e um lugar permanente no Código de Direito Canônico, o problema das deficiências físicas e sensoriais nos sacerdotes ou nos bispos é citado por Thomassin. No que diz respeito a alguns dos primeiros séculos da Idade Média essa autoridade da Igreja informa: “O Concílio de Tribur (Cânone XXXIII) alega as decisões do Concílio de Nicéia sobre os eunucos, aquelas do papa Inocêncio I sobre quem amputou seu próprio dedo, ou a quem se cortou o próprio dedo acidentalmente, dos quais o primeiro é irregular e o outro não o é: enfim, aquelas de Gelásio que excluem do clero todos os que são mutilados de qualquer parte do corpo. Esse concílio confirma em seguida todas essas ordens e a elas acrescenta que aqueles que se tornaram coxos por qualquer enfermidade corporal não devem ser impedidos das santas ordens” (“Ancienne & Nouvelle Discipline de l’Église”, de Thomassin). Nesses primeiros séculos da Idade Média a Igreja Ortodoxa Grega seguia basicamente as mesmas regras, sendo mais condescendente para com candidatos ao sacerdócio que apresentassem deficiências. Essa facção da Igreja decidira mesmo, por meio de cânones apostólicos, que os coxos e mesmo os que haviam perdido um olho, podiam ser ordenados e até mesmo elevados ao bispado. O motivo alegado era contundente para a época, mas muito real: “São as manchas da alma e não os defeitos do corpo que nos afastam dos divinos mistérios”... Segundo seus lideres e autoridades maiores, cegos e surdos eram considerados


como impedidos ao sacerdócio porque essas deficiências os incapacitavam para exercer as funções múltiplas da vida sacerdotal. No entanto, os que já haviam sido ordenados podiam continuar exercendo o sacerdócio sem maiores dificuldades e não perdiam de maneira alguma a dignidade ou os benefícios e proventos que recebiam. Teodoro Balsamon, canonista grego do século XII, afirma ter conhecido diáconos, padres e mesmo bispos que, tendo-se tornado surdos ou cegos, não foram por causa disso privados de sua dignidade, e que a lei civil possibilitava àqueles que haviam perdido a visão gozar de sua antiga posição de juíz ou de senador, apesar de não permitir o acesso a outro tipo de magistratura (Apud Thomassin). Vários papas foram aos poucos tornando o assunto mais e mais esclarecido através de decisões, permissões, epístolas e regras. Encontramos no século XII, durante um reinado de 22 anos, entre os anos de 1159 e 1181, o papa Alexandre III esclarecendo que, quanto a mutilações e deformações do corpo, elas tornavam uma pessoa “irregular” para o sacerdócio quando essas dificuldades fossem de tal monta que seria impossível exercer as funções sacerdotais sem provocar escândalo ou problemas. Ocorreram casos de sacerdotes parcialmente impedidos de ordens devido a deficiências físicas e sensoriais. Esses impedimentos incluíam: sacerdotes proibidos de celebrar a missa, sem ser impedidos das demais funções de seu ministério, por ter perdido metade de uma das mãos. O motivo: o alegado escândalo que já àquela época correspondia a algo chocante e que chamava muito a atenção. Os textos latinos, porém, utilizam o termo indicado: “nec sine scandalo propter deformitatem membri”. Inocêncio III, reinando ao final do século XII e entrando no século XIII até o ano de 1216, analisou o assunto em maiores detalhes, indicando que os mesmos defeitos e mutilações que tornavam impedido um homem para as chamadas ordens maiores não precisavam necessariamente excluir das ordens menores, pois estas expunham muito menos os candidatos já clérigos à vida pública. Esse mesmo papa, ao julgar o problema de um sacerdote que fora atingido por um assaltante e com isso perdera um dedo da mão esquerda, decidiu que não incidira em qualquer impedimento às suas funções, uma vez que o acidente ocorrera após sua ordenação. Foi Inocêncio III também que chegou a determinar a deposição de um abade, pois o mesmo não tinha uma das mãos (a esquerda), o que, se descoberto a tempo, e se tivesse sido constatado antes de sua ordenação, teria sido impeditivo dos mais sérios. Um outro motivo alegado pelo papa foi a dissimulação do referido abade: ele havia muito habilmente escondido o defeito durante sua eleição para o cargo de superior (talvez tivesse usado uma prótese). - *Luís III, o "Cego", rei da Provença e da Itália* Luís III, conhecido pelo cognome de o “Cego”, nasceu em 880 e era filho de Boso, rei da Provença - hoje parte Sudeste da França. À morte de seu pai em 887 foi protegido pelo imperador Carlos, o Gordo. Luís foi reconhecido como rei da Provença com 10 anos de idade, sob o forte apoio do papa Estêvão V. No correr do ano 900, quando estava com 20 anos de idade, por insistência e muita pressão dos inimigos de Berengar, rei da Itália, cruzou os Alpes com suas forças, depôs o monarca após muita luta e reclamou sua coroa. Foi coroado rei dos lombardos na cidade de Pávia e rei da Itália em Roma, em fevereiro de 901, ocasião em que recebeu a coroa real das mãos de Benedito IV, papa que ocupava então o trono da Igreja Católica.


Mas o jovem rei tinha deixado em seu rastro um feroz e muito cruel inimigo: Berengar. Após poucos meses de reorganização de suas forças e de insistente luta, conseguiu surpreender Luis III em Verona e lá mesmo, com muito ódio, mandou vazar seus olhos. Levado de volta à sua Provença, Luís III, o “Cego”, lá permaneceu em Arles, vivendo por mais de 26 anos uma vida atrapalhada devido à cegueira. Deixou os negócios de sua coroa aos cuidados de um primo seu, Hugo, duque de Provença, que bem mais tarde tornou-se rei da Itália. Na vida deste personagem da História da Provença e da Itália há um registro lamentável e raro nos países da Europa, embora não tão surpreendente na corte bizantina: mandou vazar os olhos de seu irmão Lamberto, marquês de Toscana, por motivos de alegada traição. Berengar, que havia derrotado e vazado os olhos de Luis III, acabou derrotando também as forças deste odioso Hugo, rei da Itália, em 945. - *Deficientes físicos impedidos de participar da Primeira Cruzada* Apesar de ter sido Urbano II o papa que verdadeiramente inventou as Cruzadas e que estimulou fortemente a realização da primeira delas, que aconteceu entre 1096 e 1099, é muito importante que ressaltemos e prestemos a devida atenção ao papel de um típico pregador daqueles dias que ficou muito famoso no centro da Europa: Pedro, o Eremita. Vestido com uma longa túnica de lã parcialmente coberta por um manto escuro com capuz, Pedro, o Eremita, andava descalço e apoiado em longo bastão; comia muito pouco, alimentando-se de peixe e vinho unicamente. Ele teve muita influência no surgimento da chamada “Cruzada Popular”, que se caracterizava por bandos de pessoas do povo interessadas em peregrinar até Jerusalém e ali lutar pela libertação da cidade santa, mesmo à custa da própria vida. Esse movimento quase espontâneo acabou levando à organização precária de uma Cruzada do próprio povo contra os infiéis, bem dentro do espírito pregado pelo papa Urbano II. E esse foi o seu mérito maior. No entanto, procurando ordenar um pouco a incontrolável horda que já se movimentava antes mesmo de os nobres terem se organizado, o papa tomou uma posição de energia: proibiu que participassem dessa peregrinação guerreira desordenada os velhos, as mulheres solteiras e os deficientes físicos. Essa posição do papa foi sacramentada pelo concílio de Clermont, convocado para discutir a questão das Cruzadas no ano de 1095. Com essa ordem do chefe máximo da Igreja Católica os portadores de deficiências físicas foram bloqueados de lutar também pelos próprios postulados da Cruzada, ou seja, a imediata reconciliação do pecador com a Igreja por meio da confissão, mas sem os deveres da penitência (que seria a peregrinação guerreira...). A Cruzada Popular, como alguns historiadores a intitulam, acabou em total tragédia nas proximidades de Nicéa e de Constantinopla, graças à incompetência de seus chefes, e de não ter coincidido com o esforço guerreiro dos nobres latinos de diversas partes da Europa, sob a liderança de um delegado papal. - *Barbeiros-cirurgiões na Idade Média* Os clérigos e monges que viviam em mosteiros e abadias eram os detentores dos melhores conhecimentos a respeito de doenças e doentes, e das limitações físicas que sempre levavam as pessoas a situações de miserabilidade e dependência. Logo após 1163, todavia, surgiria um outro grupo de pessoas que muito se envolveu por séculos: os barbeiros. E por que motivo?


Foi precisamente em 1163 que o concílio de Tours proibiu todo o clero derramar sangue, seja em lutas, seja em hospitais (“Ecclesia abhorret a sanguine”). Com o documento papal a função passou aos poucos a outras pessoas, sendo a mais indicada a do barbeiro porque desde 1031 havia obrigatoriamente barbeiros nos mosteiros e abadias; a partir desse ano todos os monges e sacerdotes deviam respeitar um cânone do concílio de Bourges: ... “todos os que forem empregados em funções eclesiásticas portarão tonsura e terão a barba feita”. O uso de navalhas e tesouras recomendava o barbeiro para funções de sangria, lancetamentos e curativos. - *A evolução dos hospitais medievais e as deficiências* As Ordens dos Cavaleiros que se preocupavam de um modo especial com doentes e com peregrinos, serviam também para socorrer as vítimas de ciladas, os acidentados, os portadores de males mais graves e as vítimas das intempéries à época dos rigorosos invernos. A primeira das Congregações Religiosas que surgiu para dar atendimento direto só de enfermagem, entretanto, foi a Congregação das Irmãs de Santo Agostinho, no ano de 1155. Após a total desintegração do Império Romano Ocidental, sob a forte pressão dos invasores bárbaros, os hospitais de diversos feudos e reinos da Europa foram sendo instalados em cidades melhor organizadas ou mais ricas e aos poucos, com a ajuda de comerciantes abastados, bem como de médicos formados em algumas das novas unidades de ensino chamadas de universidades, foram melhorando de padrão. E as cidades mais pujantes e dinâmicas passaram de certa forma a competir para montar hospitais cada vez mais sofisticados, dando assistência a um mais amplo número de pacientes, sempre, entretanto, sob a custódia ou a manutenção de serviços de enfermagem por parte de diversas ordens religiosas. Durante os últimos séculos da Idade Média encontra-se noticias de associações especialmente criadas que tentavam levantar e manter fundos para a assistência a doentes e aos permanentemente deficientes que eram mais pobres e que se mantinham alojados nas instalações dos hospitais, sem qualquer esperança de cura. A iniciativa tinha a intenção de evitar ou pelo menos de minorar as dificuldades causadas pela superlotação perniciosa que estava ocorrendo nos hospitais, onde esses pobres acabavam abrigando-se até a morte. Não há notícia de tentativas bem sucedidas na construção ou mesmo na simples instalação de entidades com finalidades muito específicas no atendimento aos portadores de deficiências, a não ser nos casos de cegos e também dos hansenianos, àquela época e por vários séculos futuros reconhecidos por “leprosos”, “lázaros” e outros apelidos, sempre temidos e marginalizados em todo o mundo. Do século XII em diante os hospitais, que conforme vimos eram organizados e mantidos por religiosos recolhidos em mosteiros ou abadias, salvo raras e muito honrosas exceções, ainda misturavam pessoas doentes com as que não tinham meios de subsistência e dentre estas ficavam sempre os portadores de deficiências físicas e sensoriais mais graves. Esses hospitais foram a pouco e pouco sendo secularizados e, devido às conseqüências cada vez mais sérias da concentração urbana, da falta de cuidados básicos com a saúde e da inexistência de medidas de saneamento básico e outras, um volume muito mais expressivo de doentes levou ao aumento substancial de seu número. Do século XII ao século XV, por exemplo, só a Inglaterra chegou a organizar 750 hospitais, dos quais 217 eram destinados às vítimas da temível “lepra”. - *O estigma da hanseníase durante toda a Idade Média*


A lepra, hoje mundialmente conhecida como hanseníase, sempre causou muitas mutilações e outros tipos de deficiências. Já existia no Egito e na Índia muitos séculos antes da Era Cristã e foi conhecida dos gregos e dos árabes. Levada para toda a Europa pelos soldados romanos, espalhou-se mais ainda durante a época das Cruzadas. Para combatê-la durante toda a Idade Média, foram tomadas muitas providências concretas por todos os povos, face à periculosidade que apresentava e ao pavor de suas conseqüências. Embora até hoje permanece como um verdadeiro mistério o surgimento da hanseníase no mundo, apavorando por milênios a humanidade, é mistério maior ainda o seu quase desaparecimento ao redor do século XVII na Europa. Nos tempos bíblicos e nos primeiros dez séculos da Era Cristã já havia uma certa variedade de males dermatológicos considerados como contagiosos. Dentre eles destacavase evidentemente a hanseníase, mas com ela confundiam-se a psoríase, a escabiose e o ergotismo. Na Idade Média, quando um homem era declarado “leproso” tinha apenas um destino: banimento da sociedade e do convívio de seus familiares pelo resto da vida. Para tal fim a sociedade armava-se de certas cautelas, sendo uma delas o estabelecimento de uma comissão responsável pelo reconhecimento do mal. Nessa comissão estavam obrigatoriamente incluídos um médico e um hanseniano. Muitos casos foram vítimas de diagnósticos mal formulados. Os casos de ergotismo, por exemplo, apresentavam mutilações seriíssimas nos dedos devido à gangrena. Era um mal causado pelo uso continuado de farinha de centeio com fungos venenosos e que em sua forma gangrenosa levava a amputações muito sérias dos dedos. Se o resultado do exame do doente suspeito de “lepra” fosse positivo, rezava-se uma missa de Réquiem sobre o doente, o que correspondia a um sepultamento simbólico. Era então conduzido para fora da cidade e no caminho o sacerdote, acompanhado de um acólito que tocava uma matraca, dava orientações básicas ao doente, repassando as proibições que iriam marcar sua vida futura. Era-lhe proibido: - entrar em igrejas, mercados, moinhos, padarias ou qualquer lugar público; - lavar as mãos ou o corpo em qualquer riacho ou fonte (devia saciar sua sede usando uma caneca de sua propriedade exclusiva); - sair às ruas sem as vestes identificadoras do leproso e sem calçados; - tocar em objetos que desejava comprar (devia apontar com um bastão); - tocar os beirais das pontes ou batentes de portas (devia ter as mãos cobertas); - tocar ou ter relações sexuais com qualquer pessoa, inclusive sua própria esposa; - comer ou beber na companhia de qualquer pessoa que não fosse leprosa. Com alguma sorte e com o apoio de sua família poderia conseguir um lugar num “lazareto” ou “leprosário”. Caso contrário passaria a vida toda espalhando o terror da doença, mendigando por comida e por bebida. Muitas vezes identificando-se por roucos gritos de “impuro, impuro” o temido “leproso” era também reconhecido por sinetas, matracas ou pequenas cornetas. A esmola a eles destinada era colocada às carreiras no meio das vielas ou dos campos. Foram por séculos marcados e a marca mais forte e evidente ficava nas roupas que eram obrigados a usar, nas cores cinza ou preta. Deviam usar chapéus ou capuzes e às vezes faixas vermelhas. Épocas houve na Europa durante as quais eles eram obrigados a levar ao peito um tecido vermelho com desenhos característicos. Só na França dos séculos XII e XIII havia em torno de 2.000 “lazaretos” que se destinavam apenas à segregação e nunca ao tratamento dos doentes. Na Europa inteira,


devido à extensão do problema, havia aproximadamente 19.000 desses abrigos, todos separando duramente seus doentes da sociedade e deixando que morressem sem qualquer assistência. - *Ricardo Coração-de-Leão e sua vingança* Ricardo Coração-de-Leão (1157 a 1199), rei da Inglaterra, muito envolvido com as Cruzadas e com diversos feitos heróicos que se tornaram lendários, tem sido citado como personagem quase que de ficção, tal a quantidade de lendas e de histórias a seu respeito. Um dos traços característicos desse rei famoso dos ingleses era sua crueldade. Ricardo era valente, destemido, aventureiro, mas muito cruel e vingativo. Quando em guerra com a França, que procurava a todo custo desalojar os ingleses da Normandia, Ricardo Coração-de-Leão chegou a praticar um dia uma barbaridade inacreditável. Devido ao extermínio de um grupo de seus melhores homens pelos franceses, Ricardo mandou que trezentos cavaleiros franceses fossem atirados ao rio Sena com suas armaduras, para ali morrerem afogados. Ainda não satisfeito, mandou vazar os olhos de 15 outros cavaleiros que foram mandados de volta, ao encontro do rei Felipe Augusto (1165 a 1223), guiados por um cujo olho direito havia sido poupado, imitando de certa maneira a brutal atitude de Basílio II, imperador bizantino. Segundo historiadores como Finlay, Felipe Augusto não se deixou ficar atrás: tratou quinze cavaleiros ingleses aprisionados da mesma forma. Finlay comenta em sua obra que vazar os olhos de soldados ou de pessoas culpadas, em geral, foi um costume comum em toda a Europa, por diversos séculos. Era visto, portanto, sem exagerado horror, como o fazemos hoje. Na Inglaterra foi apenas em 1403, durante o reinado de Henrique IV, que o Parlamento inglês aprovou um ato que considerava como crime as penas de cortar a língua ou de vazar os olhos das pessoas (Apud Finlay). - *Hospitais proliferam no Oriente Próximo: século XIII* Prosseguindo seus esforços para dar assistência aos doentes mais necessitados, e para melhor desenvolver os conhecimentos médicos de então, o governante turco Seljuk e seus sucessores (turcos otomanos) criaram diversos hospitais e escolas de medicina. Segundo o Professor Dr. A.Süheyl Unver, diretor do Instituto de História da Medicina da Universidade de Istambul, os mais antigos desses estabelecimentos de ensino teórico e prático foram os de Kayseri (1206) e de Amasya (1205). Ainda dentro do século XIII surgiram os hospitais-escola de Sivas, no ano de 1214, Konya, em 1219, Çankiri, em 1235 e outros mais. É interessante notar que os hospitais estabelecidos em Kayseri e Çankiri colocaram, à sua entrada, a figura de uma serpente. Este símbolo, apesar de grego em sua origem, graças aos templos de Asclépios, chegou aos turcos por influência dos egípcios (Apud Unver). - *Os progressos da medicina até o século XIV* Por volta de 1250, a Europa Ocidental e suas novas organizações ou associações de ensino programado (universidades) começaram a absorver os conhecimentos e as experiências médicas acumulados pelos árabes, quase todos extraídos da cultura grega clássica. Na Itália e na França a cirurgia começou a dar passos interessantes, especialmente com o concurso de Guy de Chauliac (1300 a 1368) que chegou a fazer operações de catarata com sucesso. A anatomia teve também seus progressos marcantes com o médico italiano Mondino De Luzzi


(1270 a 1326). A dissecação de cadáveres, deixada de lado por aproximadamente dez séculos, foi retomada, uma vez que os médicos tinham apenas noções de anatomia retiradas das obras de Galeno. Mondino De Luzzi escreveu uma obra intitulada “Anathomia” no ano de 1316, e essa obra tornou-se padrão para ensino por mais de duzentos anos na Europa. Evidentemente esses progressos todos beneficiaram toda a humanidade, e dentro dela, de um modo especial pessoas que sofriam as conseqüências das doenças crônicas ou que provocavam limitações na plena utilização do corpo. Um dos resultados práticos da formação de médicos em universidades foi uma pequena ampliação do número de hospitais mais dedicados a tratamento do que a abrigo, como era de se esperar. De acordo com o cronista italiano Giovani Villani, só na cidade de Florença havia, pelo ano de 1300, trinta hospitais gerais e uma verdadeira rede de assistência a doentes e deficientes pobres, com capacidade para 1.000 vagas. - *Epidemias na Idade Média e suas conseqüências: "Castigo de Deus"?* É preciso aqui relembrar que dos anos 500 até o século XVI - portanto, durante toda a Idade Média praticamente - o mundo europeu viu decrescer muito os cuidados básicos com a saúde e com a higiene na imensa maioria das cidades, um pouco em decorrência do seu contínuo crescimento. Os aglomerados urbanos menores também não tinham qualquer infraestrutura ou recurso voltado para a saúde de sua população. E por muitos séculos, os habitantes das cidades medievais viveram sob o permanente receio das epidemias ou das doenças mais sérias. Devido à ignorância imperante, as epidemias, as doenças mais graves, as incapacidades físicas, os sérios problemas mentais e as malformações congênitas eram considerados como verdadeiros sinais da ira celeste e taxados como “castigos de Deus”. E, como não podia deixar de acontecer, e como nos relatam todos os historiadores, ocorreram diversas epidemias de gravíssimas conseqüências, grandes incidências de males não controlados pelos médicos que nem chegavam a atinar com suas causas ou não dispunham de meios para debelá-los com sucesso. Hanseníase, peste bubônica, difteria, influenza e outros males devastaram diversas vezes a Europa durante os vários séculos da Idade Média e deixaram um significativo saldo de pessoas que sobreviveram. Muitas delas conseguiram salvar-se, mas com sérias seqüelas, para ver o resto de seus dias passar em situações de extrema privação e quase que absoluta marginalidade. - *A medicina qualificada e a falta de assistência geral* Durante todo o período medieval, com exceções não levantadas mas que certamente devem ter ocorrido, o trabalho do médico mais qualificado, isto é, daquele formado pela prática ao lado de outros médicos ou daquele que depois do século XI começou a ser formado pelas universidades, na grande maioria dos casos continuava não sendo desenvolvido dentro dos hospitais. A proliferação dessas casas especialmente destinadas a recolher os doentes provenientes de famílias sem recursos, muitos deles portadores de males incuráveis ou defeitos físicos bastante limitadores, foi um fato comprovado e verificado em todos os países europeus. Construções especiais eram raras e dentre elas cumpre destacar o Hospital de São Bartolomeu, em Londres, que começou a funcionar no ano de 1123. E para nós, mesmo tão distanciados da Idade Média, não é nada difícil imaginar que esses doentes não tinham a mínima condição de pagar, quer pelos serviços do médico, quer pelas mezinhas ou pelos curativos feitos em outros ambientes. Assim, hospitais continuariam por séculos sendo verdadeiros depósitos de pessoas pobres, à beira da morte, ou vitimadas por


males crônicos e defeitos físicos graves que lá ficavam até morrer, sem família e sem amigos. Os médicos continuariam também por séculos como profissionais muito caros e muito raros em muitas partes da Europa para a população mais pobre e desprovida de recursos mínimos para encontrar soluções aos problemas decorrentes de enfermidades ou de acidentes a não ser aquelas advindas da medicina caseira ou dos charlatães. - *As soluções populares e as crendices* Como em épocas mais antigas da História da Humanidade, as camadas mais pobres da população tinham suas soluções para doenças. Muitas delas eram multi-seculares, enriquecidas com a experiência de certos núcleos populacionais mais adiantados, mas empobrecidas pela falta de registro de seus segredos. Benzeduras de um lado, exorcismo e ritos misteriosos de outro, entremeados pelo uso de medicamentos extraídos de produtos naturais, tudo isso fazia parte da medicina popular. A crença generalizada nas maldições e nos feitiços, na existência das doenças e das deformidades físicas ou mentais como indícios da ira de Deus, ou como resultado da atuação de maus espíritos e do próprio demônio, sob o comando direto de bruxas, era às vezes levada a extremos. Acreditava-se, por exemplo, que a epilepsia era conseqüência de uma possessão instantânea por um espírito maligno e o remédio era o exorcismo por ritual ou pela tortura. - *O destino das pessoas deficientes na Idade Média* Durante toda a Idade Média e principalmente durante seus séculos mais obscuros crianças que nasciam com seus membros disformes tinham pouca chance de sobreviver, devido às crenças e às histórias fantásticas transmitidas pelas mulheres que praticavam a função de curiosas ou aparadeiras. Essas crianças cresciam separadas das demais e eram ridicularizadas ou desprezadas. Os exemplos de anões e de corcundas inseridos na sociedade medieval com certo destaque são significativos. As superstições da época medieval levavam a atribuir a essas pessoas poderes especiais para uma espécie de contra-ataque aos efeitos deletérios de feitiços ou de maldições, do mau-olhado e mesmo das pragas e das epidemias. Com o tempo, essas pessoas disformes foram sendo objeto da diversão das grandes moradas e dos castelos dos nobres senhores feudais e seus vassalos, e mesmo das cortes de muitos reis, devido à sua aparência grotesca, aos seus trejeitos e também a uma propalada sabedoria de que não dispunham. Esses tipos de pessoas deficientes - corcundas e anões – começaram aos poucos a ter livre acesso a todos os ambientes - traziam sorte e afastavam os demônios - podendo alguns inclusive participar de todas as conversas e falar o que bem entendessem, pois eram supostamente tolos, divertidos e inconseqüentes. Os famosos indivíduos deformados e por vezes repelentes, segundo os historiadores, extravagantemente vestidos, temidos por serem manipuladores de situações embaraçosas e conhecedores de segredos delicados de alcova, chantagistas e confidentes de seus senhores, na maioria dos casos acabaram não passando de pessoas simplórias. E a História do mundo conta-nos casos em que esses "bobos da corte" cumpriam ordens criminosas de seus senhores, aos quais deviam servil obediência. O bufão corcunda hindu conhecido por "Vidusala" (significa atrevido) é certamente um dos primeiros a aparecer com destaque na literatura, pois logo nos primeiros séculos da Era Cristã ele aparece em trechos de dramas e mesmo em eventos da antiga sociedade da Índia. - *O significado das deficiências da Idade Média*


Conforme verificamos anteriormente, por falta de conhecimentos mais profundos quanto às doenças e suas causas, falta de educação generalizada e o receio do desconhecido e do sobrenatural,ocorria na Idade Média uma verdadeira necessidade no seio do povo e mesmo das classes mais abastadas, de dar aos males deformantes uma conotação diferente e misteriosa, muito mais diabólica e vexatória do que em qualquer outro sentido mais positivo. O significado religioso ou sobrenatural das deformidades mais marcantes, durante essa época, pode ser perfeitamente notado em alguns quadros pintados durante o seu transcorrer. Neles, tanto os espíritos malignos da hierarquia imaginária de Satã quanto os seres lendários e de comportamento malévolo e desumano são invariavelmente representados por seres com os rostos monstruosos, os pés deformados, as cabeças enormes ou muito pequenas, as orelhas desproporcionais, o nariz aquilino muito comprido, corcundas, membros retorcidos... E apesar dos esforços eventuais dos grupos religiosos - e mesmo da própria doutrina cristã o povo em geral acreditava que um corpo deformado somente poderia abrigar uma mente também deformada. Caso contrário certamente não teria havido necessidade das autoridades da Igreja Católica, por meio dos preceitos canônicos, justificar a não aceitação de pessoas com deficiências ao sacerdócio com estas palavras que bem mostram a atitude imperante, ou seja, o reverso da medalha: ... "essas restrições ao sacerdócio davam-se para benefício da Igreja e não por considerar as pessoas como manchadas ou indignas" (Apud Thomassin). (* Na verdade algumas dessas situações não são de todo diferentes hoje. Se nós observarmos, por exemplo, as ilustrações em histórias de quadrinhos e sem dúvida alguma muitos dos desenhos animados apresentados em nossa televisão para entretenimento de nossos filhos além de peças teatrais e filmes, notaremos que algo de medieval e, no fundo, de muito cruel existe em nossa sociedade pretensamente cristã e humanista. Bandidos, bruxas, gente perversa ou mesmo pervertida, por vezes são apresentados com seus corpos ou alguns de seus membros deformados. Qual o motivo? Está ainda subjacente a crença de que um corpo defeituoso apenas pode abrigar um espírito malévolo? Ou será para ir condicionando nossas crianças e nossa sociedade ao repúdio do mal, ligando o às idéias de deformidade? ...) Dentro desse ambiente e devido ao fato de não poder contar com meios para garantir sua sobrevivência de maneira digna, restou ao portador de defeitos físicos ou sensoriais a posição de elemento marginalizado e o recurso à esmola diária, sistemática, para com isso ganhar seu sustento. Pelas estradas e caminhos mais importantes da Europa Medieval, por onde passavam de quando em quando nobres cortejos e os bem ajaezados cavaleiros e cruzados, sujos e por vezes asquerosos seres humanos, com seus membros deformados ou suas feridas à mostra, defendiam-se como podiam para garantir seu infeliz sustento. Chegaram a organizar-se em verdadeiras redes para angariação de esmolas e de donativos. De seu lado, a população ligada aos vassalos e seus senhores, aos reis e à nobreza toda, bem como os comerciantes e homens enriquecidos pela sorte ou pela aventura - e mesmo o povo mais simples - todos temerosos dos invisíveis e fantasiosos poderes malignos que esses seres deformados poderiam ter, faziam de tudo para os afastar, mantendo-os longe de si em todas as ocasiões e por vezes até pagando por isso com comida ou com esmolas. - *Os privilégios para cegos durante a Idade Média* Sob diversos aspectos a situação era bem diferente para os cegos, principalmente para aqueles que viviam na França durante o século XIII, por exemplo. Já ao final do século XI e início do século XII, em Rouen, em Chálons e perto da cidade de Orléans, havia abrigos que aceitavam os cegos mais pobres. Também na cidade de Chartres havia um recurso para


atendimento aos cegos. Era uma verdadeira comunidade criada por Renaud Barroult e conhecida como "Les Six-Vingts". Sob o reinado de Luís IX (1214 a 1270), conhecido como São Luís de França, foi criado um novo abrigo chamado "Hospice des Quinze-Vingts", por iniciativa direta do rei no ano de 1260. Sua criação chegou a beneficiar fortemente uma confraria pobre de cegos cujos membros, à falta de outro local, reuniam-se no Bosque de Garenne, em Paris. Quando o local foi descoberto pela coroa e pelo povo em geral, ficou conhecido pelo apelido de "Champovri", de uma corruptela para as palavras "Champ des Pauvres" (Campo dos pobres). Qual teria sido o interesse direto de Luís IX para dedicar tempo e dinheiro na criação de uma organização dispendiosa só para cegos? Segundo consta, quando Luís IX foi aprisionado pelos sarracenos durante sua primeira Cruzada, trezentos de seus soldados tiveram seus olhos vazados pelos inimigos, por ordem direta do sultão, à base de vinte por dia durante quinze dias, enquanto aguardava os resultados da demorada negociação para pagamento do pesado resgate exigido para libertação do rei da França. Quando de sua volta São Luís dedicou-se com seriedade e muito empenho ao problema do abrigo dos cegos e mandou construir a famosa entidade para dar assistência de morada e alimentação pelos menos a 300 cegos. Entretanto, o incidente alegado para justificar o interesse de Luís IX nos cegos não é confirmado por vários de seus biógrafos. O rei foi muito atacado ainda durante sua vida por ter dedicado tanto esforço oficial aos cegos. Rutebeuf, trovador e satirista francês do século XIII, cantava ironicamente pelas ruas de Paris: "Eu não sei porque o rei juntou trezentos cegos em uma casa, só para eles saírem às ruas de Paris, o dia inteiro, pedindo esmolas incessantemente. Eles dão encontrões uns com os outros, machucando-se, pois, não há nenhum deles que os lidere" (Apud French). Entre os reinados de Luiz IX e Luiz XVI os cegos emanciparam-se e receberam privilégios tanto de reis quanto de bispos da Igreja Católica, chegando mesmo a acumular riquezas enormes e a vestir-se de veludo, um dos tecidos mais dispendiosos da época. A Igreja ajudou significativamente dando-lhes permissão expressa e exclusiva para esmolar nas escadarias e nas portas das igrejas. Tinham também autorização eventual para vender grinaldas e flores dentro de suas naves. Não é difícil imaginar que idéias de emancipação dos cegos nesses 500 anos da História Francesa fossem tidas como uma espécie de questionamento da autoridade da poderosa Igreja Cristã, ou talvez um sacrilégio. Os primeiros bispos que deram as famosas autorizações exclusivas tanto para mendigar nas portas das igrejas quanto para comercializar flores foram o de Paris e o de Chartres. Não foram autorizações individuais, mas dirigidas às corporações dos cegos. A organização dos cegos em corporações, confrarias ou associações não ocorria apenas na França. No ano de 1337 surgia em Pádua, na Itália, a Congregação de Santa Maria dos Cegos. Uniam-se esses cegos sob a liderança de um mestre, observando regras próprias e muito severas, por eles estabelecidas, como, por exemplo, a proibição de dizer palavrões e blasfêmias... - *Dois heróis históricos com deficiência nos séculos XIII e XIV* Podemos destacar duas personagens históricas, uma na Europa e a outra África, e ambas com deficiências físicas sérias. São elas: Sundiata, um líder negro Mandingo que, após ter conquistado Gana, no Oeste Africano, estabeleceu as bases de um novo e mais poderoso império Mandingo, ou seja, o chamado "Império Mali", em pleno século XIII. Sundiata era um homem com ambas as pernas


paralisadas, segundo depoimento de N'Kanza, alta funcionária da Organização das Nações Unidas e ex-diretora do Centro das Nações Unidas para Assuntos Humanitários e Sociais de Viena. João de Luxemburgo, também conhecido como João, o Cego, nascido em 1296, era rei da Boêmia, filho de Henrique VII. João de Luxemburgo ficou cego em 1340, com 44 anos de idade, devido a um mal não identificado pelos médicos de sua corte. Mesmo cego, sempre imbuído de um vivo espírito aventuresco que o caracterizou fortemente até sua morte, continuou a participar de diversas campanhas militares, em muitas partes da Europa. Foi morto em plena batalha, em Crécy, no ano de 1346, lutando em prol de Felipe, rei da França. - *Os hospitais face às pessoas deficientes nos séculos XIV e XV* Apesar dos tropeços sem fim e da heterogeneidade das situações encontradiças nos diversos países europeus que se formavam com o gradativo esfacelamento do sistema feudal, o atendimento médico de um modo geral progredia - o que seguramente muito significou para pessoas que sofriam as conseqüências de males limitantes. Dentre providências marcantes no sentido de ampliar o atendimento nos hospitais existentes podemos citar aquela tomada por Carlos VI, da França (1368 a 1422). Assinou uma ordem real estabelecendo uma coleta obrigatória em beneficio dos hospitais, por ocasião dos casamentos. Essa coleta ajudou efetivamente na redução dos custos tanto dos hospitais quanto dos remédios, e na construção de alguns novos hospitais para dar atendimento e abrigo a um maior número de doentes, de pobres sem família e sem condições de sobrevivência e também de pessoas com deficiências permanentes. Uma outra iniciativa interessante ocorreu na Espanha. A rainha Isabella, a Católica (1451 a 1504), mandou montar verdadeiros hospitais em localidades próximas às frentes de combate. Eram hospitais transitórios e foram quase que institucionalizados desde então, pois foram considerados como muito úteis para o atendimento imediato e a conseqüente salvação de vidas em grave perigo. Durante o cerco de Málaga - talvez a primeira experiência desses hospitais de campanha - receberam o nome de "ambulâncias". Uma observação final quanto aos hospitais existentes na Idade Média: Segundo diversos autores, eles existiam mais para o cuidado do que para a cura das pessoas; menos para alívio do corpo e de suas dores do que para assistência da alma e sua preparação, considerada indispensável pelas religiosas que dentro deles trabalhavam, para a vida futura. Na verdade, não havia na quase totalidade dos hospitais medievais qualquer conhecimento científico ou preparo técnico, mas outros ingredientes, tais como o amor ao próximo e a fé na outra vida, na vida após a morte. Parece, todavia, que médicos treinados em universidades, principalmente as inglesas, eram muito mais comuns de se encontrar nos hospitais da época do que se poderia supor. Dessa forma podemos também imaginar que, apesar dos relatos transmitidos pelos historiadores menos avisados, todos os pacientes internados em hospitais europeus de certa qualidade, seja por doença, seja por pobreza atroz, seja por deficiências muito graves, recebiam mais cuidado profissional do que o imaginado. De outra parte pode-se também afirmar que ao final da Idade Média as sociedades existentes na Europa deram seus primeiros passos no sentido do reconhecimento de sua responsabilidade face aos pobres em geral. Inseridos no contexto estavam todos aqueles que eram, além de pobres, deficientes e impossibilitados de se sustentar. No final do século XV os problemas específicos das pessoas deficientes ainda não eram nem entendidos nem atendidos com propriedade, uma vez que faziam essas pessoas parte de


um grupo bem maior e de uma problemática mais séria ainda, ou seja, aquela representada pelos pobres, pelos enfermos, pelos mendigos. Ela marcou e chegou mesmo a caracterizar os ambientes das cidades e dos campos europeus do final da Idade Média. Na penosa história do homem portador de deficiência começava a findar uma longa e muito obscura etapa. Iniciava a humanidade mais esclarecida os tempos conhecidos como "Renascimento" - época dos primeiros direitos dos homens postos à margem da sociedade, dos passos decisivos da medicina na área de cirurgia ortopédica e outras, do estabelecimento de uma filosofia humanista e mais voltada para o homem, e também da sedimentação de atendimento mais científico ao ser humano em geral.


CAPÍTULO QUARTO A PESSOA DEFICIENTE DO RENASCIMENTO ATÉ O SÉCULO XIX Todas as pessoas que estudaram um pouco de História Universal sabem que entre os séculos XV e XVII ocorreu no mundo europeu cristão uma paulatina e inquestionável mudança, com o surgimento do chamado "espírito científico", e com o parcial desmoronamento das concepções muito tradicionais de "natureza", muito afastadas que eram da realidade. O que sucedia era que o homem estava vivendo num mundo difícil e repleto de problemas no qual os homens ligados ao poder espiritual taxavam muito do que era "natural" e relacionado ao dia-a-dia - ou seja, bens e/ou comportamentos - como desprezível, miserável, pecaminoso face ao destino imortal do homem, sua vida eterna e as idéias de paraíso, purgatório e inferno. No entanto o homem, no fundo de seu coração, não podia negar que achava bons, bonitos e agradáveis essas coisas e esses comportamentos considerados como proibidos e pecaminosos. Evidentemente que essa ambivalência é multissecular, e dela alguns homens da Idade Média procuraram escapar sem ferir seus princípios e seu modo de viver cristãos das mais variadas maneiras. Segundo sabemos, alguns utilizaram-se da pintura, outros da poesia ou do canto, enquanto uns poucos procuraram derivativos na arquitetura. o fato é que o aceno do paraíso como recompensa por uma vida mortificada, sacrificada e miserável, e a contrapartida das ameaças do inferno e do castigo eterno, continuavam a deixar na alma do homem medieval grandes e doloridas dúvidas. O mundo europeu foi sentindo de várias maneiras que era necessário alterar essa situação e dar um corajoso mergulho na direção da luz, da cultura, das coisas novas e desconhecidas e - por que não? - também das coisas tidas como proibidas. Há um versinho popular do século XII que expressa muito bem esse forte conflito vivido pela humanidade e que diz: "Vita mundi, res morbosa, Magis fragilis quam rosa; Cum sis tota lacrimosa, Cur est mihi gratiosa? . . . " (Apud Taylor) Ou seja: Vida terrena, coisa doentia, mais frágil que a rosa; por que me parece tão graciosa, se és toda lacrimosa? Conforme a incômoda situação do homem medieval ia sendo definida, mesmo que por meio de modinhas ou versinhos populares de um latim também popular um tanto universalizado, surgiam contos em verso ou em linguagem corrente, divulgados cada vez mais, não graças aos arautos que sempre se limitaram a ler aos berros as ordens régias ou as imposições dos senhores e dos governantes, mas graças à invenção da imprensa, por Gutenberg. Pensadores começaram a ser mais popularizados e a se impor. A cultura, tão confinada que era e tão restrita a certas áreas especiais do mundo feudal, foi sendo espalhada por toda a Europa. E com ela chegou também a sede pela sabedoria dos clássicos gregos e latinos, muito famosos e praticamente esquecidos pelo povo, e que acabaram se transformando numa espécie de paixão dos estudiosos.


Além disso tudo, outras alterações caminhavam celeremente pela Europa com a descoberta de novas terras no final do século XV e início do século XVI; com a contínua chegada de sábios de Constantinopla, que não suportavam a pressão dos turcos invasores; com a proteção que reis e nobres davam aos artistas da época. Esses fatos de inegável valor foram - somados a muitos outros de menor e menos significativo vulto - os verdadeiros incentivadores da nova onda intelectual e cultural que, iniciada na Itália, passou logo para a França, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Holanda e alguns outros países. Nomes famosos que antecederam imediatamente esse período foram os de Dante, Bocaccio, Giotto e Petrarca. Durante essa importante onda de mudanças e de progressos, depois universalmente aceita e batizada como "Renascença", nomes destacados e muito representativos foram os de Donatello, Ariosto, Machiavel, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Raffaelo, Calvino, Montaigne, Erasmo, Cervantes, Camões e muitos outros escultores, escritores, pintores, arquitetos, filósofos humanistas e homens voltados para a religião. Nesse movimento novo e muito renovador, o reconhecimento do valor do homem era a nota dominante - era o Humanismo que surgia e se fortificava. Por meio dele, pelo menos no campo das idéias, o homem se sentiria mais livre, menos oprimido, mais valorizado, não mais um mero escravo dos poderes da Terra, nem mesmo preso à crença de que tinha que fazer o bem para merecer o céu ou simplesmente para escapar às torturas do inferno. Revolucionário sob muitos aspectos, esse novo modo de ser alteraria a vida do homem menos privilegiado também, ou seja, a imensa legião dos pobres, dos enfermos, enfim, dos marginalizados. E dentre eles, sempre e sem sombra de dúvidas, os portadores de problemas físicos, sensoriais ou mentais. A Renascença surgia no mundo para tirar o homem de uma era de trevas, ignorância e superstição, que foram os séculos da Idade Média. - *O problema dos hospitais e abrigos ao início da Renascença* Dentro desse contexto, ao analisarmos o desenvolvimento dos hospitais e de muitos abrigos destinados a enfermos pobres ao se encerrar a Idade Média, verificamos que os cuidados prestados em muitos casos mostravam também sinais de um indisfarçável e novo modo de ver e de considerar o ser humano atingido por algum mal e não apenas os resultados de novas técnicas médicas em experimentação ou em vias de aperfeiçoamento. O cuidado para com as pessoas deficientes como um grupo especial e sempre marginalizado, diferente da significativa massa atingida e marcada pela pobreza, começava a se definir em pontos isolados do mundo, surgindo por meio de providências bastante práticas. Fato que não pode ser desmentido é que, apesar da baixa qualidade dos serviços, nos últimos decênios da Idade Média a Europa estava praticamente coberta por uma verdadeira rede - desarticulada, é verdade - de hospitais, casas de abrigo a doentes, enfermarias em conventos e mosteiros e também de casas montadas para abrigar pessoas necessitadas de tudo para poder sobreviver. Corresponde a uma verdade histórica e não há exagero algum em assinalar o desenvolvimento dos hospitais e a gradativa humanização das atenções para com os doentes ou pessoas deficientes, como um dos marcantes feitos do final da Idade Média. Tanto a provisão de serviços individualizados quanto a indispensável garantia e manutenção permanente de serviços de saúde para as cidades, na Europa, durante os séculos XVI e XVII, firmaram-se e permaneceram como uma responsabilidade de cada comunidade e não do Estado como um todo. Os poderes comunais, as paróquias, os mosteiros e abadias que já acumulavam experiências das mais variadas naturezas, procuravam cuidar dos


doentes agudos e crônicos, prestando-lhes serviços de ordem cada vez mais eficiente. O cuidado médico começara a ser prestado através desses hospitais, em geral por meio de médicos contratados ou pagos pelo poder público local. No entanto, quanto aos homens de maior posse e suas respectivas famílias, continuou a prevalecer o costume de serem tratados em suas próprias casas, e nunca nos hospitais. No século XVI foram dados alguns passos decisivos no atendimento de pessoas portadoras de deficiências auditivas que até então eram consideradas como ineducáveis, quando não possuídas por maus espíritos. - *Os problemas dos deficientes auditivos no século XVI* Com o aparecimento e fortalecimento de novas formas de ver o homem, que vinham no próprio bojo do movimento renascentista, muitos esforços começaram a ser desenvolvidos para compreender os problemas vividos por seres humanos deixados à margem da sociedade por milênios. Dentre esses esforços e movimentos destaquemos os relacionados aos deficientes da audição e da palavra, ou seja, os surdos-mudos. Na verdade a luta chamara a atenção já no final do século XV, com a publicação da obra "De Inventione Dialectica", de Rudolph Bauer (1433 a 1485). Nessa obra o autor faz menção a um surdo-mudo que se comunicava por escrito. No entanto, foi apenas um século após que Jerônimo Cardan (1501 a 1576), médico, matemático, astrólogo e, segundo alguns contemporâneos, jogador e ardiloso egomaníaco de origem italiana surgiu no panorama, questionando um princípio defendido por Aristóteles (o pensamento é impossível sem a palavra). Cardan inventou um código para ensinar os surdos a ler e escrever, à semelhança do futuro código de escrita e leitura Braille para os cegos que surgiria apenas no século XIX. Foi Cardan quem influenciou as idéias do monge beneditino espanhol Pedro Ponce de Léon (1520 a 1584), muito dedicado à educação dos deficientes auditivos e que nunca escreveu sobre seu método de trabalho. Ainda no século XVI o médico francês Laurent Joubert (1529 a 1582) inseriu todo um capítulo sobre o ensino de surdos-mudos em sua obra "Erros Populares relativos à Medicina e ao Regime de Saúde". Defendia um outro princípio de Aristóteles (o homem é um animal social com habilidade para se comunicar com os outros homens). Desse ponto ele partiu para desenvolver todos os postulados que defendia: a habilidade existia em toda e qualquer criança, mesmo nas nascidas surdas ou que mais tarde viriam se tornar surdas. O mestre dessas crianças deveria agir com paciência e cuidado, pois da mesma forma como uma criança aprende uma língua estrangeira poderá aprender a se comunicar em seu próprio ambiente se ela for surda. Devia o mestre começar por palavras simples e pequenas, reforçando sempre as expressões faciais. E acrescentava sua enfática opinião: a criança com deficiência auditiva aprenderia a falar mesmo sem se ouvir, desde que ensinada com paciência (Apud Mullett). - *A pintura renascentista e as pessoas com deficiências* Muitos pintores do conhecido Período Renascentista retrataram em suas obras cenas em que aparecem pessoas portadoras dos mais variados males incapacitantes. Alguns dos quadros mostram-nos com clareza a situação de miserabilidade em que viviam; outros ressaltam cenas que deixam patente a inadequacidade de atitudes; e vários outros são retratos encomendados. Alguns exemplos serão aqui citados para propiciar ao leitor mais curioso algumas indicações caso deseje aprofundar-se no assunto.


a) Anões retratados individualmente ou inseridos em grupos: "Retrato da família da Marqueza de Mãtua", de Mantegna (1431 a 1506); "O Anão de Felipe IV", "Retrato de Dom Antônio, o Inglês" e "Menino de Vallecas", de Velazques (1599 a 1660); "Conde Tomás Alveo e sua mulher", de Rubens (1577 a 1640); "O Anão de Carlos V" e "Retrato do Bufão Péjéron", de Moro (1512 a 1578). b) Anões inseridos em cenas variadas: "Os Anões",de Johann Van Kessel (1626 a 1679); "Cilene como a Bacante", de Rubens (1577 a 1640); "A Ceia na Casa dos Fariseus", de Moretto da Brescia (1490 a 1555); "Núpcias de Caná", de Paulo Veronese (1528 a 1588); "Estudo sobre Anões", de Tiepolo ( 1693 a 1770). c) Pessoas com deficiências físicas ou sensoriais: No tocante a deficiências físicas, um dos pintores mais célebres da Renascença, Rafaello (1483 a 1520), desenhou uma interessante gravura que se encontra no Museu de South Kensington. Ela nos mostra um homem paralítico na porta de um templo, perto de São Pedro e de São João em seu trabalho de assistência a enfermos. Fra Angelico (1387 a 1455), do Período Pré-Renascentista, sempre devotado à arte sacra, é autor de um quadro muito famoso que se encontra na Capela de Nicolau V, no Vaticano, intitulado "São Lourenço distribui bens aos pobres". Nele aparecem diversas pessoas com deficiências: um amputado bilateral das pernas usando apoios para as mãos e um cego usando um longo bastão. Ambos levam grandes sacolas destinadas às esmolas angariadas, como era costumeiro. Outros quadros relevantes que conhecemos e que podem ser melhor estudados são os seguintes: "Parábola dos Cegos", que retrata uma cena em que vários cegos Vão caindo numa valeta. É de autoria de Pieter Bruegel (1530 a 1569). "Combate entre o Carnaval e a Quaresma" do mesmo pintor. Nele são retratados diversas figuras com deficiências físicas, inclusive um amputado da perna direita com guizos na perna esquerda. "O Tocador de Alaúde", de Georges La Tour (1593 a 1652), no qual o pintor retrata um tocador de alaúde cego. "A Briga dos Mendigos", do mesmo pintor e no qual podemos ver o mesmo tocador de alaúde do quadro anterior numa violenta briga com outros mendigos. "São Pedro cura os enfermos com sua sombra", de autoria de Masaccio (1401 a 1428), também do período que antecedeu a Renascença nas artes. O pintor retrata em sua obra duas pessoas deficientes e seus aparelhos para locomoção ao lado esquerdo do quadro. "O Pé Aleijado", quadro de Ribera, pintado em 1642 e exposto no Museu do Louvre, em Paris. Mostra um sorridente jovem com seu pé direito e sua mão direita com evidentes deformações. "Os Cegos de Jericó", de autoria de Nicolas Poussin e pintado no ano de 1651, no qual aparecem dois cegos sendo curados por Jesus. "A Fonte da Juventude", pintado por Lucas Cranach, o Velho, em 1546, mostra-nos com clareza alguns meios de transporte de pessoas deficientes. - *Ambroise Paré: os primeiros passos da futura "ortopedia"* Foi nos meados do século XVI que a luta pelo estabelecimento de uma especialidade médica que tratava de ossos se iniciou. Nessa luta Ambroise Paré (1510 a 1590), dono de notável experiência, teve um papel relevante.


Paré começou a preparar-se para a medicina com um barbeiro de Angers e continuou em Paris com um barbeiro-cirurgião, homem evidentemente mais experimentado. Logo que sentiu ter adquirido experiência suficiente procurou emprego no hospital de atendimento geral da população parisiense, ou seja, o Hôtel Dieu e lá permaneceu trabalhando como auxiliar durante três anos. Engajado como cirurgião no exército do Marechal Montejan, introduziu muitas inovações, das quais duas são mais relevantes no tratamento de ferimentos por projéteis que no século XVI provocavam muitas mortes. Quando não ocorria o óbito ocorria em geral um acervo de seqüelas que podiam levar a deficiências físicas. Esses tipos de ferimentos eram tidos como "queimaduras envenenadas". O tratamento original consistia na aplicação de azeite fervendo para sua desinfecção e cicatrização. Caso ocorresse a necessidade de amputação do membro atingido, o estancamento do sangue demandava o uso de ferro em brasa. Por ver-se em certa ocasião em dificuldades por não haver "azeite fervendo" à sua disposição, Paré teve oportunidade de observar seus pacientes passando muito melhor. Experimentou a ligação das artérias e vasos, prática que havia sido abandonada e quase que esquecida pelos poucos médicos que faziam cirurgia naquele século. Nas muitas amputações de membros que fez, Paré teve oportunidade de tentar também o uso de retalhos da pele do doente, junto ao coto, para recobrir a superfície da amputação. Sempre lutando pela melhoria das condições de seus pacientes com seqüelas de problemas ortopédicos, de amputações ou mesmo de males neurológicos, Ambroise Paré chegou a propor o uso de coletes reforçados com tiras de aço para problemas ocasionados pelos desvios da coluna vertebral, botas especiais para pés tortos, dentre vários outros aparelhos. Acresce também lembrar que Paré foi o cirurgião que lançou a expressão "Bec de Lièvre" (entre nós "lábio leporino") e chegou a preparar obturações palatais para perfurações traumáticas, de ordem sifilítica ou congênita. Usava igualmente obturadores para defeitos causados pelas armas de fogo. - *Antonio de Cabezón: compositor cego* Um dos maiores e mais conceituados compositores de música para órgão da Espanha, Cabezón nasceu em Castrillo de Matajudios no dia 30 de março de 1500 e morreu em Madri no ano de 1566. Cego desde a primeira infância, conseguiu a custo superar todas as dificuldades que se lhe interpunham e em 1521 conseguiu iniciar seus estudos em Palencia. Alguns anos após, já com 26 anos de idade, foi designado organista e clavicordista da Rainha Isabel da Espanha, tal a sua competência na execução da música sacra nesses dois instrumentos. Em 1548 passou a prestar serviços semelhantes ao próprio rei da Espanha Felipe II. Viajou com a Capela Real da Espanha para a Itália, Alemanha, Holanda e Inglaterra, tendo obtido um sucesso enorme e feito muitos amigos e admiradores. Foi um verdadeiro mestre da polifonia e influenciou decisivamente vários organistas de seu tempo, inclusive o famoso Thomas Preston, da Capela de Windsor, na Inglaterra, seu contemporâneo. - *Goetz von Berlichingen, o "Mão de Ferro"* São poucas as referências históricas a membros artificiais durante a Idade Média e primeiros tempos da Renascença. Uma delas diz respeito a uma prótese parcialmente funcional que foi utilizada durante muitos anos por uma figura um tanto fora de moda em sua própria época - início e meados do século XVI - durante a qual boa parte do mundo não


estava mais preocupada com valores predominantes na Idade Média, mas estava francamente à busca de um modo de viver mais humano. Trata-se de um famoso cavaleiro alemão apelidado de "Mão de Ferro", ou seja, Goetz von Berlichingen, nascido em 1480 e morto em 1562. Viveu ele numa região da Europa que procurava manter um sistema feudal absolutamente decadente e uma cavalaria em extinção, muito embora como cavaleiro lutador tenha sido muito valoroso e útil para seus senhores. O apelido de "Mão de Ferro" deve-se ao fato de Goetz ter recebido uma profunda ferida na mão direita durante o cerco de Landshut. Complicações que se seguiram ao acidente ocorrido durante a sangrenta luta levaram à necessidade de amputação de sua mão. Estava então com menos de 30 anos de idade. Logo após sua recuperação tomou todas as providências com pessoas entendidas no assunto e principalmente com armeiros para a fabricação de uma mão de metal que mais tarde o imortalizaria. Ela foi tão bem planejada que podia ligar-se com absoluta segurança e firmeza ao seu antebraço e tinha a característica principal de poder manter sua espada firmemente presa em posição de ataque ou defesa. Por muitos anos mais Goetz envolveu-se em campanhas militares e escaramuças, tornando-se quase lendário. Casou-se duas vezes e teve diversos filhos. Foi sem dúvida um dos últimos cavaleiros medievais e da incipiente Renascença de soberbo renome. Não terminou seus dias sem antes escrever sua biografia, intitulada: "Vie de Gotz von Berlichingen, dit Main de Fer". - *O problema da mendicância organizada nos séculos XVI e XVll* Muito embora a teoria do humanismo renascentista procurasse valorizar o homem, na prática as situações de vida continuavam muito abaixo do mínimo aceitável. A necessidade de sobrevivência continuava levando muitos a recorrer não apenas à esmola como a expedientes menos honestos, como o furto e o dolo. Os mais ágeis e menos escrupulosos chegavam a tirar vantagens muito acentuadas, ao passo que os doentes e os deficientes socorriam-se apenas das esmolas e muito sofriam com a desleal concorrência dos falsos mendigos e falsos doentes. Havia para todos a obrigatoriedade estabelecida pelo imenso grupo dos mendigos de se vincular a organizações ou a confrarias de miseráveis, pagando taxas pré-estabelecidas. Houve épocas, na História da Europa, em que a esmola pública foi explorada dentro de uma forte organização na qual a figura do doente crônico e do deficiente físico teve um relevante papel. Podemos verificar a veracidade dessa afirmação pelo relato objetivo de historiadores. - *A grande malha organizacional dos miseráveis na França* Liderados por um personagem conhecido pelo título misterioso de "Grand Coesre", muitos grupos de mendigos (falsos e autênticos, reuniam-se em grandes confrarias em diversos países europeus, no correr dos séculos XVI e XVII. Reuniam nelas malfeitores, ladrões, bandidos, assaltantes de estrada, alguns tipos de artistas e integrantes do mundo boêmio, além dos pobres autênticos. Paul Lacroix (1806 a 1884), literato e erudito francês, autor de importante série de obras sobre usos e costumes da Idade Média e da Renascença, apresenta-nos pormenores muito interessantes sobre os mendigos e miseráveis. É ele que nos informa que na França existia a Ordem de Argot que congregava diversos tipos de indigentes. Eles usavam um linguajar muito seu, repleto de gírias exclusivas e matreiras, conhecido pelo nome de "le jargon".


Dentre esses grupos que mantinham identificação própria, nos quais estavam invariavelmente inseridos pobres com deficiências evidentes, é importante destacar alguns, tais como: - os "Orphelins" - mendigavam chorando pelas ruas das cidades; - os "Marcandiers" - errantes, andavam vestidos com um gibão velho mas de qualidade, fazendo-se passar por comerciantes arruinados; - los "Malingreux" - cobertos de andrajos, mostravam suas feridas e chagas (falsas muitas vezes) e pediam dinheiro para uma pretendida viagem de peregrinação a um templo milagroso para sua cura; - los "Piètres" - mendigos com deficiências físicas, locomoviam-se com muletas ou pequenos aparatos para as mãos e joelhos; -os "Sabouleux" - pedintes em feiras, mercados e igrejas, simulavam ataques e convulsões, espumando pela boca graças a um pequeno pedaço de sabão, rolando pelo chão e conseguindo polpudas esmolas. Havia também outros grupos de mendigos filiados e especializados em seu modo de se apresentar ou de atuar em determinados ambientes para angariação de esmolas em dinheiro ou em espécie: "Callots", "Coquillards", "Hubins", "Polissons", "Francs Mitoux", "Ruffés", "Millards", "Convertis", "Narquois" e muitos outros. Em Paris todos eles pagavam uma taxa fixa por ano ao rei dos mendigos, o "Grand Coesre", enquanto que nas maiores cidades da França havia seus lugares-tenentes, conhecidos pelo título generalizado de "Cagoux", que coletavam as taxas, além de serem os responsáveis diretos pelo treinamento dos novos mendigos quanto à apresentação, aos apelos ao público e à linguagem da Confraria. Esses grupos reuniam-se diariamente, comiam, bebiam, inteiravam-se das novidades e divertiam-se um tanto grotescamente naqueles famosos e comentados "Pátios dos Milagres" ("Cours des Miracles"), que eram logradouros mal iluminados e infectos da mais triste memória. À noitinha aos poucos iam aparecendo os mais variados tipos de verdadeiros e de falsos mendigos: amputados, paralíticos, cegos, epiléticos - cada qual trazendo em seus alforges ou debaixo dos braços algum alimento ou bebida. Lá muitos abandonavam suas muletas ou bengalas, transformando-se em pessoas bem dispostas que dançavam todo tipo de música e que bebiam à vontade, fartando-se sem a mínima preocupação com eventuais dificuldades no dia seguinte. Sua diretriz maior era alimentar-se e divertir-se no Pátio dos Milagres "ni foi ni loi" (sem fé nem lei). Embora a França não fosse a única nação européia a viver esse problema, ela tomou uma providência que iniciou os primeiros passos no sentido do equacionamento do "modus vivendi" dos miseráveis daqueles séculos: foi organizado o "Grand Bureau des Pauvres". - *O problema da mendicância organizada em outros países* A Espanha, a Itália, a Inglaterra, a Alemanha e todo o resto da Europa viviam situações quase que inteiramente semelhantes durante diversos séculos e que, devido ao alheiamento da nobreza, da burguesia e dos governantes, muito demoraram para ser sanadas. A Itália, por exemplo, tinha os seus mendigos e indigentes (conhecidos pelo apelido de "Bianti" e também de "Ceretani") subdivididos em mais de quarenta grupos reunidos numa só organização. Dentre eles cumpre destacar os "Affrati" (vestidos com hábitos sacerdotais, roubavam as esmolas das igrejas e santuários), os "Accatosi" (pareciam cativos recém-libertos, com restos de algemas nos punhos e nos tornozelos), os "Allacrimanti" (apresentavam-se chorando


muito suas desgraças), e mais, os "Morghigeri", os "Felsi", os "Vergognosi" e muitos mais (Apud Lacroix). Dentre os que obtinham mais e melhores esmolas sempre estavam os mendigos com deficiências físicas mais sérias ou que mais tocavam a população. - *Deficientes mentais no século XVI: entidades não-humanas* Até o século XVI as crianças com retardo mental profundo eram consideradas em certos meios como entidades que se assemelhavam a seres humanos, mas que não o eram. Havia a crença generalizada principalmente entre alguns religiosos que essas crianças ocupavam o lugar e chegavam a substituir mesmo crianças normais, através da atuação e interferência diretas de maus espíritos, de bruxas ou de fadas maldosas e de duendes demoníacos. E é surpreendente verificar que mesmo intelectuais do mais alto nível acreditavam sem qualquer sombra de dúvida nesses postulados. Exemplo dos mais marcantes foi o de Martinho Lutero que negou a própria natureza humana de uma criança com retardo mental de alguma seriedade. Eis o que Martinho Lutero relatou a respeito desse caso: "Há oito anos atrás havia em Dassau uma dessas crianças que eu, Martinho Lutero, vi e examinei. Tinha doze anos de idade, usava seus olhos e todos os seus sentidos de tal maneira que a gente poderia pensar que era uma criança normal. Mas ela só sabia fartar-se tanto quanto quatro lavradores. Ela comia, defecava e babava e se alguém tentasse segurá-la, ela gritava. Se alguma coisa ruim acontecia, ela chorava. Assim, eu disse ao príncipe de Anhalt: se eu fosse o príncipe, eu levaria essa criança ao rio Malda, que passa perto de Dassau e a afogaria. Mas o príncipe de Anhalt e o príncipe da Saxônia, que estavam presentes, recusaram-se a seguir meus conselhos. Eu disse, então: Bem, então os cristãos rezarão o Pai Nosso nas igrejas e pedirão que Deus leve o demônio embora. E assim foi feito diariamente em Dassau, e o retardado morreu um ano depois". Lutero chegou a afirmar que estava convencido de que aquele retardado de doze anos de idade era apenas massa de carne ("massa carnis") sem alma. "O demônio possui esses retardados e fica onde suas almas deveriam estar" (Apud Wolfensberger). - *A "Lei dos Pobres" e as pessoas deficientes na Inglaterra* Passos muito importantes foram dados durante os séculos XVI e XVII na Inglaterra quanto ao atendimento a alguns grupos especiais de pessoas incluídas num grupo muito maior: o dos miseráveis. Com o esfacelamento do regime feudal e a posterior dissolução dos conventos, mosteiros e abadias, por expressa determinação do rei Henrique VIII (1491 a 1547), logo após seus desentendimentos com o Vaticano, todos os religiosos foram expulsos da Inglaterra. Houve uma parcial paralisação e mesmo destruição do sistema de abrigo e de tratamento de doentes, bem como de assistência vigente e organizado pelo catolicismo sob a forma de caridade. A maioria desses edifícios religiosos foi sendo ocupada e utilizada para outros fins. Entre essa época (1536 a 1539 aproximadamente) e o século XVII poucos estabelecimentos hospitalares foram criados no Reino Britânico. Durante esses séculos da Renascença muitos hospitais não sofreram alterações substanciais na Inglaterra, uma vez que continuaram com suas características básicas de abrigo ou de mero asilo para doentes até a sua morte, ou também para deficientes físicos sem condições de sobrevivência e mesmo para velhos abandonados. O pauperismo na Inglaterra agravou-se com o fechamento dos mosteiros e abadias. A deterioração das condições de vida das populações mais pobres, dos enfermos e dos doentes ou deficientes em geral levou o próprio Henrique VIII a promulgar a primeira "Lei


dos Pobres", pela qual todos os súditos eram obrigados a recolher o que foi chamado de "taxa da caridade". As famosas "Leis dos Pobres" da Inglaterra começaram a ser aplicadas na prática apenas no ano de 1531, pois foi exatamente nesse ano que surgiu um primeiro ato oficial, autorizando juízes a dar licenças para velhos abandonados e para pessoas portadoras de defeitos físicos sérios pedir esmolas, mas apenas em suas próprias comunidades ou, no máximo, em áreas circunvizinhas. O problema dos pobres passou a ficar tão sério na Inglaterra que em 1535 iniciaram-se discussões gerais para encontrar soluções aos seus múltiplos aspectos, sendo uma delas a inserção dos pobres "sem deficiência física" em trabalhos que eram pagos pela Coroa Inglesa. No ano seguinte a pressão continuava a mesma, senão maior do que antes, de tal forma que fundos privados foram organizados para de certa maneira forçar a participação do povo na solução do problema. A contribuição para a necessária ajuda aos pobres passou a ser, então, uma obrigação social em toda a Inglaterra. Essa contribuição, estabelecida no ano de 1576, levou ao desaparecimento do caráter voluntário daquela anteriormente existente. Mesmo antes dessa contribuição decorrente de uma determinação legal, porém, a Inglaterra já vinha estudando as miríades de ângulos da questão da pobreza e montava instituições em diversos centros urbanos dos mais pujantes, para o atendimento separado dos pobres devido a incapacidades físicas ou mentais e pobres devido a circunstâncias de vida, tais como acidentes e doenças. Estavam incluídos nessas considerações os pobres por mero desleixo ou por falta de condições para a necessária auto-suficiência. - *O atendimento às crianças deficientes na Inglaterra: século XVI* As crianças inglesas abandonadas, doentes ou portadoras de males incapacitantes começaram então a ser assistidas por organismos vinculados à Coroa Britânica e também por iniciativa das comunidades que procuravam manter seus esquemas com alguns objetivos mais ou menos bem definidos e que por vezes chegam a surpreender-nos em pleno século XX, pois já no século XVI incluíam, pelo menos na teoria ou nos seus postulados, o seguinte: - a obtenção de trabalho para essas crianças ao chegarem à idade requerida para uma atuação rentável; - a definição de alguma proteção para elas fora dos orfanatos e dos abrigos provisórios, ficando aos cuidados de famílias que delas se dispusessem a cuidar por baixo custo para o governo ou para instituições privadas bem organizadas; - internação definitiva em orfanatos, caso nenhuma dessas duas alternativas chegasse a se concretizar ou a se mostrar viáveis. - *O "Grand Bureau des Pauvres" da França* No ano de 1544 foi fundado o "Grand Bureau des Pauvres" na França, sob o reinado de Francisco I (1494 a 1547), um monarca seguidor de uma filosofia aparentemente humanista, além de muito voltado para as inovações da Renascença na Europa. O "Grand Bureau" era composto de burgueses ocupantes das mais importantes posições em Paris e ficou conhecido pelo apelido de "Aumône Générale" (Esmola Geral). Com as contribuições que recolhia conseguia manter os hospitais da Trindade e das "Petites Maisons", atendendo a doentes pobres, incluindo aqueles com paralisias, amputações, deformações e cegueira. Organizações semelhantes existiam em diversas importantes cidades francesas, dando


alguma cobertura aos desamparados em geral quando em situação de doença ou de impedimento contínuo para ganhar a própria vida. - *Classificação de indigentes na França no século XVI* Henrique II (1519 a 1559), rei da França, casado com Catarina de Médicis, tomou a sério e resolveu prosseguir os esforços de Francisco I. Assinou um decreto em 1547 através do qual impôs aos parisienses uma coleta em favor dos indigentes. Eles eram, àquela época, classificados em três categorias principais: "Robustes" - os que não eram doentes ou deficientes e podiam trabalhar ; "Invalides" - com problema sério de invalidez, mas com domicílio; "Invalides sans feu ni lieu" - deficientes sem abrigo nem domicilio. A primeira categoria tinha direito a empregos sem dificuldades; a segunda recebia ajuda em seu próprio domicilio; a terceira - a dos inválidos sem lar - era recolhida a um abrigo. - *Luís de Camões, o poeta épico português por excelência* O "cavaleiro-fidalgo" Luís de Camões (1524 a 1580) engajou-se na vida militar, servindo em Marrocos entre os anos de 1545 a 1548. Ali perdeu um de seus olhos em escaramuças com os marroquinos. Pouco depois voltou a Lisboa e aos ambientes da corte. Tendo lá chegado, a notória deficiência passou logo a ser motivo de algumas brincadeiras e zombarias por parte de uma jovem por quem Camões sentia forte atração. Segundo amigos mais próximos do poeta, ela se referira a ele como "cara sem olhos". Luís de Camões, em seus 25 anos, sentiu a agulhada do comentário. Mas acabou por transformá-lo em um galanteio com o seguinte verso dirigido à mimosa dama: "Sem olhos vi o mal claro Que dos olhos se seguiu: Pois cara sem olhos viu Olhos que lhe custam caro. De olhos não faço menção, Pois quereis que olhos não sejam Vendo-os, olhos sobejam, Não vos vendo, olhos não são" ... A deficiência, que poderia ter arruinado a vida de um jovem galante, não prejudicou nem a vida guerreira e aventuresca, nem a vida literária de Luís de Camões que muitos anos mais tarde, após infindáveis viagens para Goa, Calabar, Meca, Índia, China, Málaca, ilhas de Malásia, Moçambique e outros lugares, escreveu a epopéia portuguesa que intitulou de "Os Lusíadas". - *Pintor mudo decora El Escorial, na Espanha* Navarrette, conhecido pelo cognome de "El Mudo" foi pintor da Escola Espanhola. Nasceu em 1526 em Logroño e faleceu em Toledo em 1579. Recebeu lições de Ticiano e com 42 anos de idade foi convidado pelo rei Felipe II (o mesmo rei que tinha um organista cego) a decorar El Escorial. A incapacidade de falar não o inibiu em seus múltiplos relacionamentos durante o empreendimento. Cita-se entre suas obras mais famosas o quadro intitulado "São João Escrevendo o Apocalipse". Outra obra sua muito conhecida é o quadro "Martírio de São Tiago, o Maior".


- *Continua a epopéia dos hospitais nos séculos XVI e XVII* Ainda dentro do século XVI a situação dos hospitais continuava extremamente ruim nos países do continente europeu, apesar dos muitos esforços feitos pelas ordens religiosas. Havia enorme falta de higiene, negligência e às vezes até crueldade por parte de atendentes mal preparados. E foi nessa situação que surgiu no cenário dos hospitais a figura de Camilo De Lélis (1550 a 1614) que com 25 anos de idade resolveu devotar-se a doentes hospitalizados. Trabalhou inicialmente com doentes crônicos internados no Hospital de São Tiago para Incuráveis, em Roma. Fundou uma congregação de religiosos para o serviço hospitalar que preparava ministros para os enfermos, a fim de dar a requerida atenção ao corpo e à alma do doente. Ele mesmo foi mais tarde vítima de ulcerações malignas numa das pernas, que o tornaram parcialmente deficiente até o final de sua vida. Os "Camilianos", como passaram depois de muitos anos a ser reconhecidos, contribuíram muito, através dos vários séculos de sua existência, para a melhoria dos padrões de atendimento nos hospitais e nas casas de saúde onde tiveram oportunidade de atuar. Com raras e honrosas exceções muitos hospitais da Alemanha e da França começaram, já no século XVII, a passar gradativamente para o controle dos governos locais. Sob a firme orientação do cardeal francês Jules Mazarin (1602 a 1661), alguns esforços especiais foram coordenados pelo governo francês para colaborar na solução ou pelo menos na diminuição dos sofrimentos e das dificuldades vividas pelos mendigos e pelos doentes pobres e incuráveis, e no meio deles sempre inseridos por não terem outro destino os deficientes físicos e mentais. Foram também criados na França, em 1656, os chamados Hospitais Gerais (Hôpitaux Généraux) que eram uma combinação de asilo e de hospital, mas bem melhor organizados e onde os serviços médicos estavam sempre presentes e a medicação era melhor controlada e administrada. Foi nesses hospitais gerais da França que pessoas deficientes foram também atendidas e passaram a ser objeto não só de abrigo e alimentação, como de assistência médica. - *Galileo Galilei, matemático, astrônomo e físico* Nascido em Pisa no ano de 1564, Galileo foi o primeiro homem a usar um telescópio. Após anos de contínuos e dedicados estudos, provou que a terra não era o muitas vezes pretendido "centro do universo", e que ela girava em torno do sol. Era uma teoria muito ousada para a época da incipiente Renascença e principalmente para as autoridades da Igreja Católica. Face à gravidade das suas afirmações que, no conceito de muitos iria atingir duramente a posição até então assumida e defendida pela Igreja e seus doutores, Galileo foi preso e formalmente acusado na Inquisição. Devidamente julgado, foi condenado a se desdizer e a passar seus últimos oito anos de vida em casa, sob custódia. No entanto, continuava a crer em sua teoria e morreu em 1642 balbuciando suas famosas últimas palavras: "Eppur, si muove" (no entanto, ela se move ...). Galileo sofria de um problema reumático sério e em conseqüência dele acabou ficando cego nos últimos quatro anos de sua vida. Continuou, todavia, estudando e mantendo correspondência científica, ditando seus trabalhos e suas cartas a dois de seus alunos: Viviani e Torricelli. No dia 4 de julho de 1637 o grande cientista escreveu uma carta a Donati, seu antigo companheiro, na qual se queixava: " ... Encontro-me acamado há cinco semanas ... Acrescente-se, oh dor!, a perda total de meu olho direito que é aquele que fez tantos tantos e tantos, seja-me lícito dizer, trabalhos gloriosos! Ele está agora, meu senhor, cego: o outro,


que era e é imperfeito, mantém-se ainda sem o pouco uso que dele poderia fazer se o operasse, uma vez que um lacrimejar contínuo me tira a possibilidade de fazer qualquer qualquer qualquer das funções que se espera da visão" (Apud Germani). - *O continuo problema dos soldados mutilados* No atendimento ao soldado doente ou mutilado devido a atividades relacionadas às lutas armadas ou em atividades afins, sabe-se que, por ordens diretas de Henrique IV, da França, que reinou entre 1589 e 1610, foi organizado na Maison de la Charité, em Paris, um abrigo para os soldados franceses de todos os níveis. Era uma das primeiras e notórias tentativas européias destinadas a dar cobertura de assistência aos problemas daqueles homens que arriscavam sua integridade física e sua saúde em benefício de sua terra, de sua gente e de seu rei. - *Os trabalhos com os deficientes auditivos no século XVII* As idéias defendidas no correr do século XVI sobre os surdos e surdos-mudos não eram na maioria dos casos passadas para a prática e foi Juan Pablo Bonet que deu os primeiros passos nesse sentido. Escreveu sua obra intitulada "Reducción de las Letras y Arte para Enseñar a Ablar los Mudos", levantando questões a respeito das causas das deficiências auditivas e dos problemas da comunicação oral. Chegou a indicar qual a idade mais recomendável para crianças mudas poderem se beneficiar do aprendizado para falar. Concluiu que havia basicamente duas causas para o mutismo: a primeira e mais importante era a surdez; a segunda era algum eventual defeito na língua. Quanto à melhor idade para a criança surda aprender, achava que seria entre 6 e 8 anos, apesar de reconhecer as dificuldades de fazer as crianças exercitar-se para tornar a língua mais ágil para articular palavras: elevá-la até o palato, entortá-la, baixá-la, curvá-la para a direita e para a esquerda, colocá-la para fora da boca em posições diversas, atritá-la ou raspá-la contra os dentes, enfim, todas as posições indispensáveis para alguém falar. Além disso Bonet condenava métodos brutais de gritarias e de enclausuramento em caixas que provocavam ressonância, defendendo sempre a necessidade de se garantir a compreensão dos alunos quanto ao que deles se esperava. Achava que o mestre e o aluno deviam ficar a sós e num ambiente bem iluminado porque a instrução exigia toda a concentração possível e o aluno precisava também observar bem a boca de seu mestre tanto do lado de fora quanto do lado de dentro. Outro autor que marcou época no século XVII no campo da surdez foi o inglês John Bulwer (1600 a 1650), com sua obra intitulada "Philocophus" e que tinha como sub-título elucidativo a pouco modesta intenção do autor: "O amigo dos homens surdos e mudos mostrando a verdade filosófica da sutil arte que pode capacitar alguém com olhar observador a ouvir o que qualquer homem fala pelo movimento de seus lábios. Provando aparentemente que um homem nascido surdo e mudo pode ser ensinado a ouvir o som das palavras com seu olhar e de aprender a falar sua língua" (Apud Mullett). Bulwer foi um dos primeiros educadores que defendeu um método de ensino da leitura labial, apesar de ter escrito também sobre a linguagem dos sinais. Há outros autores e educadores que atuaram com determinação e competência nesse campo no correr do século XVII e dentre eles cumpre chamar a atenção para Kenelm Digby, John Wallis, William Holder, John Wilkins e Francis Mercury van Helmont. - *Johannes Kepler, astrônomo alemão*


Nascido em 1571 e falecido em 1630, Kepler desenvolveu importantes estudos sobre o movimento dos planetas, que muito ajudaram na elaboração das bases modernas da astronomia. O que poucos sabem, todavia, é que Kepler tinha uma séria deficiência visual, causada pelo sarampo contraído aos quatro anos de idade. As dificuldades causadas pela severa redução da acuidade visual, entretanto, não afetaram sua forte vontade de aprender e de estudar. Apesar de pobre, superou os problemas e mil dificuldades que se interpunham aos seus propósitos e trabalhou muito. Kepler legou ao mundo três leis básicas da astronomia, conhecidas pelo seu nome, das quais a mais popular é esta: "As órbitas dos planetas são elipses, tendo o sol como um dos seus focos" ... - *Padre Lejeune, maior pregador do século XVII* Nascido em Poligny (França, o padre Jean Lejeune foi o mais célebre pregador de seu século, segundo seus biógrafos. Perdeu a visão aos 43 anos de idade quando pregava durante a quaresma na cidade de Rouen. Mas a cegueira não diminuiu sua competência de grande orador nem sua alegria sempre muito natural. Lejeune morreu aos 80 anos de idade, muito ativo e muito vivaz, apesar das doenças. A solidez de suas idéias e o seu estilo levaram o prelado e ao mesmo tempo grande pregador das cortes de Luís XIV e Luís XV, Massillon, a recomendar a muitos seminaristas e jovens sacerdotes o estudo de seus maravilhosos sermões publicados em dez volumes sob o título de "Le Missionaire de l'Oratoire", entre 1662 e 1676. - *Novas formas de utilizar os hospitais* A permanente luta para a criação de entidades hospitalares, ou pelo menos de organizações destinadas ao atendimento de pessoas com problemas crônicos ou gravemente incapacitadas para a vida independente, na época da Renascença, refletia o crescente papel que o Estado assumia para encontrar soluções para problemas sociais e econômicos de sua população, ou também de algumas entidades privadas em muitos países europeus. Na Alemanha, por exemplo, a responsabilidade pela manutenção de hospitais, após a reforma protestante, passou durante muitos anos para as mãos das corporações municipais. Devido à precariedade de recursos para o aprendizado da medicina, além das dificuldades dos médicos em adquirir experiência de ordem mais significativa na proximidade e mesmo convívio com colegas de profissão e de trabalho, uma importante e muito auspiciosa tendência começou a surgir no século XVII: a de considerar os hospitais não mais como meros depósitos de doentes pobres e nos quais os médicos quase nem compareciam ou davam atendimento, mas como uma organização destinada ao tratamento e à cura das pessoas doentes, com uma inegável possibilidade de se tornarem centros de estudos de casos e de treinamento prático de estudantes de medicina. A Holanda, liderando o ainda mal definido movimento, e reconhecendo a necessidade de poder contar com médicos melhor preparados, instalou no ano de 1626, na cidade de Leyden, o primeiro sistema de treinamento prático e bem orientado de médicos nos hospitais, o que sem dúvida acabou levando a medicina a prestar muito maior atenção não apenas aos doentes vitimados por males curáveis e comuns, mas também por males ainda pouco conhecidos que levavam à permanente vinculação ao leito, ou ainda a problemas incapacitantes do físico e do mental.


- *As deficiências físicas em peças de Shakespeare* Nascido no ano de 1564 e morto em 1616, William Shakespeare foi o maior poeta e dramaturgo inglês de todos os tempos. Tal é sua versatilidade que para muitos ele dá a impressão de ter formação médica, devido à demonstração que faz de seus conhecimentos de anatomia, neurologia, fisiologia e outras áreas afins, colocados em diversas de suas peças. O volume de citações que faz de males incapacitantes é bastante expressivo. Em diversas de suas obras o leitor poderá encontrar casos de fraturas graves, de mutilações, de deformidades congênitas ou adquiridas. Como todos sabem, Shakespeare escreveu peças imorredouras, tais como Romeu e Julieta, Hamlet, Sonho de uma Noite de Verão, Rei Lear, Mácbeth e outras. Há diversas que são pouco conhecidas entre nós e que têm muita importância em sua imensa obra literária, e nas quais o genial escritor insere personagens com deficiências, como em Ricardo III, Henrique IV, Henrique VI, Henrique VIII, Tróilus e Créssida, a Tempestade, Titus Andronicus, Péricles e Otelo. Vejamos alguns exemplos ilustrativos, iniciando pela peça Titus Andronicus. Trata-se de uma tragédia de proporções vastas. Um dos personagens, Lavínia, filha de Titus, teve seus braços cortados e sua língua decepada em dramáticas circunstâncias. O autor explora muito bem o fato narrado e suas circunstâncias, dando cores muito vivas a todas as cenas em que Lavínia aparece. Esse realce é mais evidente na cena em que, de certa forma imitando a lenda de Filomela, Lavínia consegue indicar os culpados pela sua situação, mesmo sem ter mãos para escrever ou língua para falar. Na tragédia Otelo, o personagem Cássio é ferido traiçoeiramente na perna pelo pérfido lago e grita desesperado na escuridão de uma rua cipriota: - "Estou aleijado para sempre! Socorro! Assassino!", ... Ao leitor não fica muito clara a extensão da lesão, embora algumas frases dos diálogos que seguem sejam bem indicativas. Da boca de Cássio temos, por exemplo, estas duas frases: - "lago? Oh! ... Fui inutilizado, aniquilado por vilões" ... - "Minha perna foi cortada em duas" ... Já na tragédia Ricardo III, Shakespeare associa o defeito congênito com maldade, perfídia, malícia, o que sucede também na peça Tróilus e Créssida, com a indefinível figura de Térsites. Ricardo III (rei que existiu de fato, mas certamente sem muitas das aberrações alegadas por Shakespeare) é identificado na peça como "montão de ódio", "massa ignóbil e disforme", "tão disforme de maneiras quanto de corpo", "rochedo fatal e disforme" e "sapo". Essa peça é iniciada com um monólogo muito revelador desse rei controvertido a respeito de cuja figura histórica surgem muitas dúvidas: - "Mas eu, que não fui talhado para habilidades esportivas nem para cortejar um espelho amoroso; que, grosseiramente feito e sem a majestade do amor para pavonear-se diante de uma ninfa de lascivos meneios; eu, privado dessa bela preparação, desprovido de todo encanto pela pérfida natureza; disforme, inacabado, enviado por ela antes do tempo para este mundo dos vivos; terminado pela metade e isso tão imperfeitamente e fora de moda que os cães ladram para mim quando paro perto deles; pois bem, eu, neste tempo de serena e amolecedora paz, não acho delícia em passar o tempo, exceto espiar minha sombra no sol e dissertar sobre a minha deformidade" (Apud Miller e Davis). - *A superação de deficiências no século XVII: um exemplo* Por toda a história do homem na Terra certamente que esforços individuais de naturezas as mais variadas foram desenvolvidos para a eliminação dos bloqueios e das muitas


dificuldades causados por limitações físicas e sensoriais. Bengalas ou bastões de apoio, calçados especiais, muletas, coletes, próteses, macas e camas móveis, cadeiras especiais, carros adaptados, liteiras e muitas outras idéias devem ter surgido em muitas ocasiões. No entanto, por milênios, essas adaptações e criações não causaram maior impacto sobre os homens detentores do poder ou do dinheiro, uma vez que o problema sempre foi considerado como puramente individual e não dos governantes. Conforme percebemos até este ponto da existência do homem, diversos casos de pessoas portadoras de deficiências foram até passados para a imortalidade da História. Relembremos aqui os nomes de Homero, de Dídimo de Alexandria, dentre tantos. O primeiro, apesar de cego escreveu fabulosos poemas épicos que integram até hoje o acervo dos melhores trabalhos já produzidos pelo homem. E quanto a Dídimo, também foi um exemplo digno de nota, chegando o ilustre diretor da Escola de Alexandria - também cego - a utilizar-se de um recurso até hoje muito usado pelos cegos que pretendem estudar ou manter-se atualizados: os ledores. Pela metade do século XVII, na Europa, alguns homens notáveis procuravam também solucionar problemas de ordem prática para pessoas portadoras de deficiências físicas sérias, especialmente nos casos daquelas que tinham posses e podiam pagar pela criatividade dos artesãos. E um dos homens inventivos e de grande iniciativa foi o alemão Stephen Farfler, que havia sido vítima de algum tipo de paralisia nas pernas. Segundo nos conta Pecci, foi ele "o primeiro a se locomover numa cadeira de rodas. Paraplégico desde os três anos, ele mesmo a idealizou e construiu quando tinha 22 anos, em 1655. Era uma cadeira baixa, pequena, toda de madeira, com duas rodas atrás e uma na frente. A da frente era acionada por duas manivelas giratórias. O próprio Stephen a movimentava. Ele utilizava essa cadeira não apenas em casa, mas saia com ela, trabalhava e passeava. Usou-a até a sua morte, aos 56 anos, ocasião em que o veículo foi levado à Biblioteca Municipal de Nuremberg, onde ficou exposta até 1945, quando um bombardeio a destruiu" ("Minha Profissão é Andar", de Pecci). Outros homens do século XVII superaram sua deficiência e deixaram legados brilhantes. Milton (1608 a 1674), um dos maiores poetas ingleses, ficou cego com aproximadamente 45 anos de idade. Conseguiu ajuda e continuou suas obras, tendo escrito o monumental "Paraíso Perdido" e outras obras mais, após a instalação da cegueira. - *John Milton: o significado de sua cegueira* Alguns autores têm escrito sobre a cegueira desse grande escritor inglês e têm arriscado um diagnóstico da causa desse grave problema que mudou a vida de John Milton. Dentre esses diagnósticos cumpre destacar os seguintes: castigo de Deus devido à sua participação na revolta de Cromwell, catarata, glaucoma crônico, complicações de miopia, descolamento de retina, glaucoma agudo devido a crises emocionais, albinismo, neuroretinite de origem sifilítica congênita, e também "fraqueza natural". A fonte mais preciosa de informação quanto às reações de Milton à perda da visão é uma carta que ele mesmo escreveu a seu amigo Leonard Philaras. Dentre os muitos ângulos abordados pelo escritor cego, convém ressaltarmos as belas frases em que mostra a forma como aceita sua cegueira. Diz ele: " ... minha escuridão, por singular misericórdia de Deus, com a ajuda de estudos, lazer e a bondosa conversação de meus amigos, é muito menos opressiva do que a mortal escuridão à qual se alude. Porque se, conforme está escrito, o homem não vive só de pão, mas de cada palavra que vem da boca de Deus, por que um homem não pode realmente aceitar isso, pensando que só pode obter a luz de seus próprios olhos, julgando-se, todavia, suficientemente iluminado pela orientação e providência de Deus? Portanto, já que Ele prevê


as coisas e me dá cobertura, como faz, e me leva para diante e para trás pela Sua mão, como se o fizesse pela vida toda, não poderei eu dar uma folga a meus olhos, já que esse parece ser o Seu prazer?" Na verdade, durante os 22 anos de sua cegueira, Milton tornou-se bem mais ativo e sua atividade de trabalho cresceu como nunca antes ocorrera. Os primeiros oito anos de sua vida como cego ele os dedicou a Cromwell, como Secretário para Línguas Estrangeiras. Traduzia cartas do latim para o inglês e vice-versa. Milton trabalhava com a ajuda de secretários e amanuenses. Organizou um dicionário de latim, preparou uma história da Inglaterra para publicação e chegou a publicar um estudo muito sério sobre a doutrina cristã. Além disso, sempre manteve extensa correspondência, como era costumeiro. Conforme nos diz Snyder, o fato de Milton ser lembrado pelos seus escritos quase desconhecidos nos dias de hoje não é tão significativo. O fundamental é nos lembrarmos que suas lindas declarações de fé foram compostas por um homem que era cego. Milton, que sempre se sentiu nas mãos de Deus, conseguiu no seu mundo de escuridão o que muito poucos homens que vivem na luz conseguiram sequer igualar. John Milton casou-se três vezes. Sua terceira esposa era uma mulher muito bela, mas dona de um temperamento difícil e muito violento. Dizem que quando o Lord Buckingham comentou com ele que considerava que ele havia casado com uma verdadeira rosa, Milton respondeu: "Não posso julgar pelas cores, Lord, mas sinto-o pelos espinhos". - *São Vicente de Paulo: suas obras face às tendências do século XVII* Nas muitas tentativas de atendimento à vasta população mais pobre em diversos países da Europa, começaram a surgir novidades e alterações significativas, quando em 1634 apareceu um abnegado e obscuro sacerdote: Padre Vicente de Paulo (1581 a 1660), nascido em Pouy, na França. Fundou instituições para crianças pobres e abandonadas, doentes e defeituosas e que em muitos casos estavam sendo exploradas para mendigar. Sua atuação levou à criação de congregações religiosas que se destinaram ao cuidado do doente pobre, como os Padres Lazaristas e as Irmãs de Caridade. Assim como em outras áreas do desenvolvimento humano e científico incrementado durante a Renascença, no século XVI I começara a brilhar muito tenuemente um pouco de justiça para pessoas fisicamente limitadas, bem como para toda a parcela da humanidade que se encontrara até então subjugada pela miséria e pela doença, pois durante quase toda a sua duração o mundo caminhou com firmeza para melhores condições de vida. - *A "Velha Lei dos Pobres" da Inglaterra* Conforme verificamos anteriormente, toda a legislação relacionada aos pobres que "infestavam" a Inglaterra, desde o seu aparecimento, foi revista e re-editada em 1601, sob a rainha Elizabeth I (1533 a 1603). Esse acervo de leis e de normas, que levou muito em consideração os incapacitados devido a qualquer tipo de mal, foi de certa forma codificado no ano de 1623, tendo a partir daí sido reconhecido como "A Velha lei dos Pobres". Nessa codificação nova, as paróquias foram reconhecidas definitivamente como unidades básicas para sua administração e coordenação. Essa função adicional aos trabalhos da Igreja coube a supervisores designados por juízes locais que tinham a função de avaliar o montante de contribuição destinada a cada pobre e o volume de ajuda que cabia a cada cidadão. Quando estabelecida e ratificada pelo juíz local, essa ajuda tornava-se obrigatória para a comunidade.


Pois bem, foi com esses fundos que os velhos e os deficientes foram atendidos e receberam abrigos em áreas pouco povoadas; crianças pobres receberam treinamentos; os pobres sem deficiência foram encaminhados para empregos. O período de vigência da "Lei dos Pobres" (Poor Law) que vai até o ano de 1644 foi muito importante. Foi iniciado um sistema centralizado de cobrança de providências a nível local, pois era notório o fato de que, mesmo onde não havia pressão de trabalho, onde esquemas assistenciais funcionavam bem, nas paróquias muito distantes e onde a supervisão tornava-se impraticável, muitas vezes os pobres eram assistidos sem qualquer relação aos preceitos da lei que forçava a isso. Houve também uma chamada "lei de localização e de remoção", de 1662, definindo melhor o papel de cada paróquia. As leis iniciais indicavam que o direito à assistência era local e da comunidade. Assim, as paróquias tinham que se prevenir contra a presença de estranhos ou de pessoas que poderiam se beneficiar de mais de um programa assistencial ou dispensarial. O preâmbulo dessa "lei de localização e de remoção" dizia que pessoas pobres não eram impedidas de se mudar de uma paróquia para outra e podiam assim estabelecer-se naquelas em que havia melhor estoque de matéria prima (para os trabalhos destinados aos pobres), os maiores terrenos para construir barracos e o maior volume de madeira para queimar durante o inverno e também para outros usos. Essa nova legislação dava às paróquias até poder para remover pessoas idosas, defeituosas e incapacitadas, com menos de três anos de residência. Dessa maneira, nenhuma ajuda poderia ser dada aos pobres, aos aleijados e aos mendigos quando fora de suas paróquias, a menos que houvesse autorização especial de um juíz. Os nomes desses pobres, seguidos de dados de identificação, eram lançados num livro especial que era revisto cuidadosamente uma vez por ano. Ao final do século XVII, formalizou-se na Inglaterra a estigmatização dos pobres velhos, órfãos, deficientes - pois aqueles que eram "autorizados" a receber ajuda mensal das paróquias, eram obrigados - a partir de 1697 - a usar em sua roupa externa (casaco, capa, manta, abrigo) um grande "P" vermelho ou azul. - *O nascer da ortopedia como especialidade* Dentre os muitos progressos e melhoramentos ocorridos no século XVII, é de se ressaltar o que sucedeu na área da medicina, praticamente em conseqüência do que vinha sendo feito desde vários séculos antes. Na França, por exemplo, no ano de 1662, foi determinado pela coroa real que cada cidade deveria criar o seu próprio hospital. As especialidades médicas começaram também a se definir, tendo a ortopedia sido, sem qualquer dúvida, a primeira a ser estabelecida como tal, apesar de não ter sido, de início, reconhecida pela nomenclatura de "ortopedia". Dessa forma, foi durante a Renascença que ficou registrado um dos primeiros avanços muito sérios na medicina, desde as remotas épocas clássicas grecoromanas. Dentre os muitos motivos que podem ter levado à definição de uma especialidade médica que cuidava dos problemas de ossos e de mutilações, não se deve menosprezar o fato de a ortopedia ter se desenvolvido mais rapidamente devido à obrigação de o Estado manter serviços médicos para seus soldados feridos ou amputados em batalha, desde tempos os mais remotos, conforme pudemos observar. A proteção a soldados mutilados ou inválidos pelos azares das batalhas mereceu a atenção de toda a Europa Renascentista, e de um modo especial da França que, por determinação do rei Luís XIV (o Rei Sol), em ato assinado no dia 15 de abril de 1670, mandou construir um verdadeiro palácio (Hôtel, em francês) para alojamento e tratamento de seus oficiais e soldados feridos e inválidos para o serviço militar.


Temos hoje, no centro de Paris, o famoso "Hotel des Invalides", um monumento do passado que é ainda hoje um orgulho dos franceses. Certamente dentro dessa linha de pensamentos e de preocupações, e por certo para não ficar numa posição de desequilíbrio de prestígio com a França, o rei Carlos II, da Inglaterra (1630 a 1685), fundou em Chelsea um lar para o que chamava, em sua linguagem pitoresca, de "worthy old soldiers, broken in the wars" (velhos valorosos soldados, batidos pelas guerras). Tratava-se do Hospital Real de Chelsea que teve suas instalações concluídas em 1692. O imprevisível Carlos II mandou abrir uma lista de subscrições para a construção, para a qual cedeu o terreno. Muitos contribuiram, inclusive Sir Stephen Fox, Diretor Geral das Finanças do Reino, que foi nomeado pelo rei como administrador geral dos edifícios. O arquiteto que planejou e construiu o Hospital Real de Chelsea não conseguiu disfarçar a forte influência das idéias contidas no Hôtel des Invalides e no Hospital de Kilmainham, de Dublin, na Irlanda. Compõe-se ele de dois edifícios principais, podendo abrigar até seis companhias, num total de 558 pensionistas. Cada homem tinha e tem até os dias de hoje um alojamento (quarto) próprio, pequeno mas totalmente individualizado. Os pensionistas enfermos eram alimentados e medicados na enfermaria que foi completamente destruída durante um bombardeio alemão na Segunda Guerra Mundial. Desde a sua criação até os dias de hoje os pensionistas devem ter mais de 55 anos de idade, ter uma deficiência física e ser auto-suficientes em seus cuidados pessoais. O visitante desse antigo abrigo e hospital para soldados portadores de deficiências físicas poderá ainda hoje apreciar uma interessante coleção de quadros, de fotos, de medalhas e de condecorações, expostos no espaçoso salão de entrada da organização. Troféus e bandeiras capturados durante as muitas batalhas em que pensionistas participaram não podem, entretanto, ser mais apreciados ali, uma vez que foram todos devolvidos às unidades de origem dos homens ali internados. - *Quatro cegos brilhantes: Saunderson, Metcalf, Euler e Blacklock* Nicolas Saunderson (1682 a 1739), apesar da cegueira, chegou a inventar uma prancheta de calcular e publicou várias obras, dentre as quais destacamos "Elementos de Álgebra". O primeiro volume desta obra expõe um método que ficou conhecido como "aritmética palpável" e que permite ao usuário fazer todas as operações de aritmética com o uso do tato. Saunderson tornou-se professor brilhante na Universidade de Cambridge e foi um dos grandes expositores das teorias de Newton, dedicando-se de um modo todo especial às teorias da luz e das cores. John Metcalf (nascido em 1717) perdeu a visão aos 7 anos. Sempre foi muito hábil e de quando em quando as pessoas desconfiavam que não era cego devido à sua extrema facilidade em se movimentar, cavalgar e em nadar. Sua genialidade levou-o a dedicar muito de seu tempo à construção de pontes e de estradas. Foi conhecido nos meios oficiais ingleses como "Blind Jack". Sua competência comprovada na remodelação de estradas em péssimas condições e na construção de pontes tornou-o uma figura imortal na história das estradas em todo o mundo. Leonhard Euler (1707 a 1783) foi um geómetra suíço que perdeu a visão aos 58 anos de idade. Adaptou-se bem à nova situação e prosseguiu com extremo afinco em suas atividades científicas. Escreveu "Elementos de Álgebra" e três volumes sobre dióptrica, que é a parte da física que estuda a luz de acordo com os elementos que atravessa. A Academia de Ciências de Paris chegou a premiar várias de suas obras. Thomas Blacklock (1721 a 1791) perdeu a visão aos 6 meses de idade devido ao sarampo. Desenvolveu muito bem seus estudos e chegou a se formar na Universidade de Edinbourgh.


Tornou-se ministro evangélico em 1759 e destacou-se nas letras como um dos melhores poetas escoceses. É conhecido como "O Poeta Cego". Redigiu diversos tratados de teologia e foi colaborador da Enciclopédia Britânica, escrevendo um artigo sobre a cegueira. Escreveu também: "Consolações Tiradas da Religião Natural e Revelada", o poema épico "Graham" e "Observações sobre a Liberdade". Thomas Blacklock deu também apoio a poetas mais jovens, sendo Robert Burns o exemplo mais marcante. - *Alexandre Pope: um poeta com deficiências físicas* Alexandre nasceu em Londres no ano de 1688, de pais católicos e bastante idosos, tendo sido considerado por todos que o conheceram um poeta nato. Além de suas obras originais (as "Pastorais", a "Floresta de Windsor", o "Tratado sobre a Crítica", o "Tratado sobre o Homem" e várias outras). Pope traduziu o poema épico Ilíada, de Homero, pelo que recebeu um total de £5.000. Segundo diversos críticos, foi a mais nobre versão de poesia épica que o mundo jamais apreciou. O sucesso foi tão grande que Pope traduziu também a Odisséia, com o que ganhou mais £3.000. Com isso, tornou-se financeiramente independente. Ele foi o mais famoso poeta de seu tempo na Inglaterra, tendo mostrado forte predileção pela crítica mordaz, com a qual agredia seus desafetos, dando vazão à sua agressividade. No entanto, cabe notar que Alexandre era portador de sérias limitações físicas desde o nascimento. Existe a seguinte descrição de Pope, feita por um brilhante pintor inglês, Sir Joshua Reynolds: "Ele tinha aproximadamente 4 pés e 6 polegadas de altura" (1,37 m), "muito corcunda e deformado. Usava um casaco preto e, de acordo com a moda de então, usava uma pequena espada. Tinha olhos grandes e bonitos, e um nariz longo simpático; sua boca tinha aquelas marcas peculiares que sempre são encontradas nas bocas de pessoas falsas; e os músculos que lhe corriam pela face eram tão fortemente marcados que pareciam pequenos cordéis" (Apud MacNalty). Sempre doentio, dizia que sua musa ajudava-o na sua longa doença, ou seja, sua vida. Na infância sofreu severamente com raquitismo e por causa desse mal ficou corcunda, com acentuada curvatura da espinha dorsal. A parte da frente da caixa toráxica também era deformada e um dos lados do corpo era afetado por uma forte contração. Dizem seus biógrafos que a amargura de suas poesias e a agressividade de muitos momentos seus são devidos a essas deformações. Adicionando aos seus problemas já tão graves, Pope teve um dia os tendões de dois dedos da mão direita gravemente prejudicados durante um acidente. Pope morreu em 1744, após uma continua e heróica luta contra doenças e dificuldades causadas por suas deficiências físicas. Sua vitória maior está retratada em sua poesia. E foi exatamente esse produto de sua inteligência, criatividade e sentimentos que lhe garantiram um imorredouro lugar na literatura inglesa, sendo o representante principal de seu classicismo. - *A reformulação hospitalar inglesa* Ainda no início do século XVIII, em conseqüência dos atos que levaram ao confisco e à destruição dos mosteiros e conventos e à expulsão dos religiosos que estavam vinculados à Santa Sé, em Roma, atos esses iniciados aproximadamente nos anos de 1536 a 1539, sob o reinado de Henrique VIII, poucos hospitais existiam. A maioria deles encontrava-se localizada em Londres e quase todos dispunham de instalações muito precárias. Nessa situação continuavam eles a receber doentes crônicos e pessoas seriamente incapacitadas por


deficiências físicas e por problemas mentais, uma vez que fora de suas instalações não conseguiriam sobreviver. Pela metade do século XVIII, quando Londres contava apenas com 7 hospitais gerais, alguns hospitais especializados foram construídos ou montados em instalações adaptadas. Um deles passou a servir pessoas que até hoje são marginalizadas da sociedade maior, ou seja, as vítimas de problemas mentais graves. Tratava-se do Hospital Saint Luke. Foi mais ou menos por essa época que outras áreas da medicina começaram a melhor definir-se como especialidades médicas também na Inglaterra, em adição àquela que cuidava dos problemas dos ossos, das amputações e dos males deformantes. No atendimento à população civil, surgiram algumas instituições em diversos países europeus, seguindo exemplo na Inglaterra, financiadas pelo poder governamental, somando esforços com muitas contribuições obrigatórias, ou mesmo por doações avulsas e eventuais de ricas famílias ou nobres abastados, como sucedeu no caso do Conde Baden, que no ano de 1722 criou um lar para inválidos em Pforzheim. - *A "Ortopedia" de Nicholas Andry* No ano de 1741 Nicholas Andry, um professor da Universidade de Paris, adotou um neologismo para identificar a mais antiga das especialidades médicas: "Ortopedia". Segundo seus esclarecimentos, essa nova e jamais anteriormente utilizada palavra derivava de "orthos", que significa "direito" ou "reto", e "pais, paidós", que corresponde a "criança", na língua grega. Segundo o próprio Andry, tratava-se de uma nova "arte de prevenir e de melhorar nas crianças as deformidades do corpo". Outros autores e médicos que viveram muito mais tarde, verificando o alcance da especialidade e notando que ela não se limitava a atender apenas crianças mas a adultos também, de todas as idades, mantiveram a mesma designação para a especialidade mas questionaram a derivação proposta para composição daquele neologismo pelo seu criador. Achavam que a raiz adequada não estava relacionada a "criança", mas a "educação" (da palavra "paidéia", em grego). O que nos resta como certo é que muitos séculos antes de surgir a palavra "ortopedia", dentro da especialidade que recebia esse nome existiam já muitos de seus diversos componentes, porque doenças e acidentes que deformam o homem e o desviam de sua aparência original sempre existiram e já tinham recebido muita atenção por parte daqueles que se dedicavam à arte médica desde os primeiros tempos da vida do homem na Terra. Tanto isso é verdade que, segundo vimos em épocas anteriores ao século XVIII, as noções fundamentais já eram encontradiças em trabalhos egípcios, em tratados de Hipócrates, e nos muitos outros autores. De sua parte, Nicholas Andry procurava sempre atender bem os seus doentes, mas adicionava a essa atitude prevista no código de ética médica uma perfeita e fortemente humana compreensão dos males que levavam a uma deformidade do corpo humano, dedicando-se exclusivamente ao cuidado de crianças. Procurava pautar bem suas atividades e restringi-las a problemas passíveis de uma correção por meio de aparelhagem simples e de natureza prática. Quando, em 1781, Jean André Venel, um médico de Genebra, fundou na vila de Orbe-deVaux, na Suíça, o primeiro centro especializado de atendimento ortopédico, lançou o marco mais importante não só para o desenvolvimento mais criterioso e pormenorizado de técnicas de aparelhagem e de correção, como também para o desenvolvimento mais aprimorado da cirurgia ortopédica, que tanto tem contribuído desde aquela época para a eliminação ou para a redução de deficiências físicas. A esse instituto de tratamento ortopédico acorriam não apenas crianças mas adultos também, acometidos por males das mais variadas origens. A


partir de então a fabricação de próteses e de aparelhos de suporte e outros mais alcançou o esplendor de seu desenvolvimento. No entanto, cumpre ressaltar que todos esses progressos e indicativos de aprimoramento técnico e científico atingiam apenas a pessoas ricas ou àquelas que dispunham de meios para cobrir as despesas enormes incidentes sobre os mesmos. A grande massa dos pobres continuava à parte e sem qualquer acesso a esses melhoramentos ou benefícios. Ainda no que diz respeito a deficiências físicas vale a pena ressaltar que, ao encerrar-se o século XVIII, dois irmãos - os Hunter - muito contribuíram para o desenvolvimento e para o aprimoramento da cirurgia ortopédica, com estudos especiais a respeito da estrutura das juntas e do crescimento dos ossos. - *Maria Tereza von Paradis: pianista e compositora cega* Maria Tereza von Paradis (1759 a 1824) foi uma música austríaca que nasceu e morreu em Viena. Ficou cega aos 5 anos de idade. Tendo aprendido piano e se transformado numa excelente concertista, percorreu toda a Europa e foi ouvida em diversas oportunidades pelo público de Paris. Ao voltar a Viena dedicou-se à composição. Três óperas dessa compositora cega devem ser ressaltadas: "Ariane em Naxos", "Ariane e Baco" e "O Candidato Instrutor". Maria Tereza conheceu Valentin Haüy em Paris e manteve com ele sólida correspondência a respeito dos problemas dos cegos. - *A assistência aos cegos: final do século XVIII* Um opúsculo interessante intitulado em sua versão original de "Lettre sur les Aveugles à l'Usage de Ceux qui Voient" (Carta sobre os Cegos para Uso daqueles que Enxergam) surgiu na França em 1749. Seu autor foi Diderot (1713 a 1784). Chegou a ficar confinado na prisão de Vincennes por três meses devido a esse corajoso trabalho, no qual enfatizava a dependência do homem das impressões sensoriais e dava um audacioso passo na direção do ateísmo. Diderot, filósofo e homem de letras, foi um dos mais brilhantes pensadores de sua época e foi o editor da "Enciclopédie", o mais importante testamento da era do iluminismo. Sua famosa e discutida "Carta sobre os Cegos" foi muito importante também devido à sua proposição para o ensino do cego a ler pelo uso do tato. No ano de 1751 publicou também uma carta a respeito dos surdos e dos mudos, sem maiores repercussões. Diderot procurou mostrar em sua "Carta sobre os Cegos" que as idéias dos cegos quanto a assuntos ou mesmo quanto a coisas de natureza abstrata são diferentes daquelas dos videntes. Afirma, por exemplo, que essas idéias a respeito de religião e de Deus não são idênticas às das pessoas videntes, sugerindo daí que as idéias religiosas daqueles que enxergam e não sentem a limitação causada pela perda da visão são conseqüentes às convenções estabelecidas pela sociedade. Entretanto, o preocupado trabalho de Diderot não levou a nenhuma conseqüência prática detectável, a não ser talvez influenciar os pensamentos e as preocupações de Valentin Haüy, que viveu um pouco mais tarde e a respeito do qual falaremos no tópico seguinte. Em termos de trabalho prático de assistência mesmo que segregativa, ou de ajuda mais concreta a cegos, devemos ressaltar que no ano de 1780 o famoso e antigo "Hospice des Quinze-vingts" foi transferido de sua localização original no Faubourg de Saint-Honoré para instalações mais amplas e melhores no Faubourg de Saint-Antoine, em Paris, no prédio do Hospital dos Mosqueteiros Negros. Inicialmente dependente do Ministério do Interior, sobreviveu esta organização até os dias de hoje, mantendo-se com seus próprios recursos. Abriga aproximadamente 300 cegos - de acordo com seus objetivos


originais - dos dois sexos, com mais de 40 anos de idade, que lá vivem. Solteiros ou casados ocupam instalações separadas mas mobiliadas por eles mesmos. Além desse abrigo, o Hospice provê uma pensão mensal a mais de 2.000 cegos franceses com pelo menos 21 anos de idade. Foi em suas instalações que em 1880 foi montada uma clíniCa nacional de oftalmologia (Apud "Larousse du XXe. Siècle"). No ano de 1784, setenta anos após a rainha Ana, da Inglaterra, ter concedido uma patente a Henry Mill, engenheiro inglês, "por uma máquina ou método artificial para a impressão ou transcrição de letras separadamente ou progressivamente, uma após a outra, como na escrita”, foi inventada na França uma outra máquina para imprimir letras especialmente para cegos. Ressaltemos que muitas outras máquinas eram também destinadas a produzir cópias para que os cegos pudessem ter acesso à leitura pelo tato (Apud "Encyclopaedia Britannica"). - *Valentin Haüy, "Pai e Apóstolo dos Cegos"* Surgiram na mesma época dos eventos citados acima os primeiros esforços sistemáticos para a melhor educação dos cegos. Valentin Haüy (1745 a 1822), o homem que mais tarde seria reconhecido como "Pai e Apóstolo dos Cegos" teve sua atenção atraída para as questões ligadas à educação dos deficientes visuais, não só graças ao estudo das idéias de Diderot. Um momento decisório surgiu em sua vida quando, levado pelas circunstâncias, fez uma comparação entre apresentações musicais da pianista e grande concertista e compositora Maria Tereza von Paradis de um lado, e de outro, os entristecedores e grotescos espetáculos dados por alguns cegos, muito inadequados em seu modo de trajar ou se comportar, tentando executar música na rua para chamar a atenção dos transeuntes e com isso angariar esmolas. Haüy, depois de estudar muito bem o problema, fundou em Paris uma nova organização que levou o nome de "Institute Nationale des Jeunes Aveugles" (Instituto Nacional dos Jovens Cegos), em 1784. Essa organização provocou reações muito positivas e fez um grande sucesso desde o seu início. A causa principal dessas reações foi esta: o Instituto não asilava simplesmente o cego, mas procurava ensiná-lo a ler, tendo a Academia de Ciências de Paris examinado e aprovado os tipos em relevo que o Instituto utilizava. Com o passar dos anos o seu sucesso foi tão grande que Haüy acabou sendo convidado a comparecer à corte de Luiz XVI para fazer uma detalhada exposição quanto ao empreendimento, um pouco antes da eclosão da Revolução Francesa que desacelerou ou eliminou muito do que fizera antes a França com o apoio da nobreza. Mas logo após a regularização da vida do país novas escolas para cegos foram abertas. E isso aconteceu também em diversos outros países da Europa, quase todas elas seguindo o novo modelo apregoado por Haüy. Os exemplos mais positivos dessas escolas foram as de Liverpool em 1791, de Londres no ano de 1799 e, já no século XIX, de Viena em 1805 e de Berlim em 1806. - *Educação dos deficientes auditivos no século XVIII* De outra parte, envolvendo diferentes segmentos da sociedade mais esclarecida, notaremos a marcante evolução dos sistemas montados para a educação dos deficientes auditivos em geral. E no começo do século XVIII encontraremos o nome de John Conrad Amman (1699 a 1724) publicando sua "Dissertatio de Loquela", que recebeu em inglês um título enorme: "Uma dissertação sobre a fala, na qual não só a voz humana e a arte de falar são analisados


desde a sua origem, mas são descritos os meios pelos quais aqueles que são surdos e mudos desde o nascimento podem conquistar a palavra, e aqueles que falam imperfeitamente, podem aprender como corrigir suas dificuldades". Foi por essa época - início do século XVIII - que os educadores concluíram que era necessário um alfabeto manual para que o surdo pudesse melhor se comunicar e melhor entender o que precisava ser a ele repassado. Grande colaboração foi dada para a definição do alfabeto manual por membros da família Wren, da Inglaterra. Fato importante na gradativa definição da realidade em que viviam os surdos-mudos foi a publicação de Diderot intitulada "Carta sobre o Surdo e Mudo para Uso daqueles que Ouvem e Falam". Em 1755 o abade Charles Michel Epée (1712 a 1789) reconhecia que a psicologia do surdo era diferente daquela da pessoa que ouvia. Fundou uma escola para educação dos surdos em Paris, aperfeiçoando a linguagem por sinais como meio para instrução e comunicação de seus alunos. Acreditava que era necessário fazer entrar pelos olhos dos surdos tudo o que o restante da sociedade absorvia por meio do som, pela audição. O abade Sicard (1742 a 1822) ampliou as idéias de Epée no trabalho intitulado "Relato sobre um Menino Nascido Surdo e Mudo". - *Os primeiros sinais de assistência nas Américas* Enquanto todos esses desenvolvimentos ocorriam na Europa, nas Américas as mesmas tendências eram reconhecíveis com facilidade uma vez que todos os núcleos de colonização recebiam direta influência da respectiva Pátria-Mãe. Na verdade, os hospitais haviam há tempos surgido nas Américas. De fato, logo após o descobrimento por Cristóvão Colombo ocorreram diversos esforços para dar cobertura à população colonizadora. Os conquistadores espanhóis procuraram, é natural, seguir mais ou menos os padrões estabelecidos e encontradiços na Europa, nos seus esforços de criação de casas de tratamento e mesmo de hospitais. Esses recursos primitivos foram organizados pelos religiosos que haviam acorrido ao Novo Mundo (às Índias Ocidentais) para a ingente tarefa de catequização dos selvagens, com forte subsídio da coroa espanhola. Assim é que já em 1524 havia surgido o Hospital Jesus de Nazaré, a mais antiga organização de assistência médica do continente, no México. O mesmo sucedeu nas colônias mais tarde estabelecidas pelas coroas francesa, holandesa, inglesa e portuguesa. Ressaltemos, entretanto, que só dois séculos após é que podemos localizar nas Américas um primeiro esforço de organizada assistência médica e hospitalar, com sucesso absoluto. Tratava-se do hoje conhecido Hospital de Pennsylvania, na Philadelphia, inaugurado no ano de 1751. É bastante válido chamar a atenção para o fato de que os descobridores e colonizadores espanhóis já encontraram verdadeiros hospitais em nosso continente. Segundo nos conta De La Vega, as expedições espanholas comandadas por Cortés, conheceram hospitais mantidos pelos Aztecas nos locais conhecidos como Cholula, Tlescoco, Tlaxcala e na sua mais importante cidade, Tenochtitlán (hoje, Cidade do México). Falando sobre a mesma questão junto aos Incas, no Peru, Poma de Ayala, citado por De La Vega, afirma: "Nas grandes cidades havia verdadeiros hospitais que admitiam os anões, os corcundas e os indivíduos com lábios leporinos". Tinham eles também hospitais destinados a doentes incuráveis ou enfermos de aspecto repugnante, segundo o mesmo autor. Ele acrescenta que, à mesma época, os hospitais destinavam-se também a peregrinos, loucos, velhos e desvalidos (Apud De La Vega).


Finalmente, ao terminar o século XVIII foi inaugurado o Hospital de New York, mas relativamente poucos foram os hospitais criados na América do Norte, seja pelos ingleses, seja pelos franceses, antes do século XVIII, devido ao fato de haver muito poucas comunidades de porte suficiente para mantê-los com a indispensável propriedade. Como sucedia na Europa, esses hospitais das colônias caminhavam para a implantação de especialidades médicas e dentro de algumas delas ocorriam os atendimentos às pessoas deficientes, como não poderia deixar de acontecer. - *O desencontro de atitudes na Europa* Durante o século XVIII atitudes as mais desencontradas são relatadas por estudiosos do desenvolvimento hospitalar em alguns países da Europa. No Hospital Real de Bethlehem, de Londres, popularmente conhecido na época pelo apelido de "Bedlam" (que significa manicômio ou confusão) muitas pessoas de baixa cultura e possuidoras de doentia curiosidade chegavam a pagar algumas moedas a vigias ou a atendentes do hospital para observar e para rir de certos doentes acorrentados, de seus gritos e dos seus rostos desfigurados e contorcidos, especialmente quando apresentavam deformações sérias ou deficiências físicas e mentais, segundo nos relata Wolfensberger. De um modo geral, todavia, a sociedade do século XVIII dos países europeus, embora não homogeneamente, organizava-se para continuar a dar cobertura cada vez melhor, pelo menos de abrigo e de alimentação mais humanos àqueles que não dispunham de meios para se manter vivos fora dos hospitais, e que não apresentavam mais problemas de natureza médica. Abrigos e asilos mais modernos foram organizados, alguns já com os primeiros indícios de valorização real do ser humano, a despeito das suas malformações, da sua aparência ou das deficiências que apresentavam. - *Inovações nas "Leis dos Pobres"* No ano de 1723, na Inglaterra, foram aprovadas algumas alterações operacionais nas conhecidas "Leis dos Pobres". Foi autorizado, por exemplo, que cada paróquia construísse e colocasse em funcionamento casas de trabalho ou oficinas ("workhouses") e que recusasse prestar ajuda aos pobres que dela não participavam. Dessa forma, a situação das pessoas portadoras de deficiências físicas ou sensoriais deteriorou muito. Passaram a ficar bloqueadas dessa participação através do trabalho, uma vez que a prioridade para atuar nessas casas de trabalho recaia sobre os pobres com dificuldade de obter trabalho, mas sem qualquer tipo de deficiência. A experiência foi um fracasso, pois não eliminou nem a mendicância nem a pobreza. Apesar do objetivo original ter sido bom, ou seja, eliminar a inatividade e dependência da assistência prestada pela comunidade, selecionar melhor os candidatos ao recebimento de ajuda, abrigar as pessoas realmente enfermas, os velhos e as crianças, e dar trabalho real aos fisicamente habilitados, essas oficinas degeneraram completamente e com grande rapidez, tornando-se verdadeiros depósitos de pessoas em situação de miserabilidade. Esse fragoroso insucesso não nos permite, porém, esquecer algumas tentativas válidas para tornar as casas de trabalho um recurso útil para o atendimento à pobreza generalizada do século XVIII na Inglaterra. Seu eventual sucesso, entretanto, foi efêmero e sem muito significado. - *Bloqueios ao sacerdócio para pessoas deficientes*


Os bloqueios interpostos pela Igreja Católica para pessoas deficientes se tornarem sacerdotes continuavam inabaláveis durante o século XVIII. Alguns exemplos práticos nos são relatados por M.André, doutor em direito canônico e membro de diversas sociedades de sábios do final do século XIX, em adição à obra de Thomassin ("Ancienne & Nouvelle Discipline de l'Église") que fora escrita ao final do século XVII. Alguns dos mais significativos, citados ao final do capítulo sobre as irregularidades relacionadas aos defeitos de nascimento, são os seguintes: - No dia 20 de janeiro de 1789 a Sagrada Congregação recusou concordar com a ascensão às santas ordens de um clérigo "manco" da Diocese de Albenga, na Ligúria; - O padre François Pujol, da Diocese de Vincennes, na França, tendo sofrido um acidente vascular cerebral, perdeu o uso do braço e da mão esquerdos; solicitou ao bispo a dispensa da irregularidade para exercício das funções sacerdotais e para celebrar a missa numa capela privada. Embora seu bispo tenha apoiado sua consulta, a Sagrada Congregação recusou o pedido no dia 19 de agosto de 1797; - O seminarista Ambroise Lamberti, da Diocese de Albenga, tinha um problema de movimentação da perna esquerda, de tal forma que precisava andar com o apoio contínuo de uma bengala. O bispo da Diocese foi consultado a respeito e opinou que haveria graves inconvenientes em promovê-lo às sagradas ordens, no que foi apoiado pela Sagrada Congregação no dia 20 de janeiro de 1798; - O sacerdote Philippe Maggiorani, da Diocese de Borgo San-Sepolcro, na Toscana, teve sua mão esquerda de tal forma mutilada pela acidental explosão de espingarda excessivamente carregada, durante uma caçada, que foi necessário amputar parte do braço para evitar sua morte. Solicitou dispensa da irregularidade para prosseguimento de seus trabalhos como sacerdote e esta lhe foi negada em 18 de junho de 1785. No ano de 1787 apresentou uma nova e humilde solicitação, acompanhada do parecer favorável de seu bispo e do total apoio de seus paroquianos. No entanto, a Sagrada Congregação, depois de haver submetido o assunto à consideração pessoal do papa, manteve a recusa à dispensa de irregularidade por um decreto de 7 de julho de 1787. Outros casos poderiam ser acrescentados, mas os citados acima mostram a posição quase que inalterada da Igreja Católica na aceitação de pessoas portadoras de deficiência para o exercício do sacerdócio até o século XVIII. - *Hospitais públicos na França: final do século XVIII* Na segunda metade do século XVIII os hospitais públicos da França haviam decaído tanto na qualidade de seus atendimentos que já estavam sendo abominados até pelos pobres. É Voltaire que comenta a respeito no ano de 1768: "Temos em Paris um Hospital ("HôtelDieu") onde reina o perpétuo contágio, onde inválidos pobres, amontoados uns sobre os outros, contagiam seus vizinhos com a praga e com a morte". O historiador francês Michelet também comenta a respeito do mesmo problema, dizendo: "Os doentes pobres e os prisioneiros ali confinados eram geralmente considerados como condenados, atingidos pela mão de Deus, cujo primeiro dever era expiar seus pecados e eram sujeitos a tratamentos cruéis. Caridade desse tipo pavoroso faz-nos sentir horror. No entanto, foi feita uma tentativa para eliminar a sensação de pavor dos hospitais: começaram a dar-lhes nomes sugestivos: Hotel de Deus, A Caridade, A Piedade, O Bom Pastor, etc. Mas isso não convenceu os doentes e os inválidos pobres que se escondiam em casa para morrer, tão horrorizados estavam face à possibilidade de serem levados pela força para esses lugares" (Apud "Encyclopedia of Religion and Ethics").


Foi nessa mesma época que os doentes mentais eram acorrentados em suas celas, pois acreditava-se que eram possuídos pelo demônio. O Dr.Philippe Pinel (1745 a 1826) tomou uma iniciativa revolucionária entre os anos de 1792 e 1826: quebrou as correntes que prendiam esses doentes às celas, substituindo o chocante tratamento anterior por um trabalho cientifico onde prevalecia uma enorme dose de bondade e de doçura. - *Progressos no campo do atendimento à cegueira: século XIX* Em 1819 um oficial do exército francês de nome Charles Barbier procurou o Institute Nationale des Jeunes Aveugles, de Paris, com uma novidade que esperava ser útil aos seus professores e alunos. Barbier pretendia adaptar o que chamava de "sonografia" para o uso dos cegos. Era, na verdade, um processo de escrita codificada e expressa por pontos salientes, chegando a ter representados os 36 sons básicos da língua francesa. Fora idealizado pelo oficial para ser usado na transmissão de mensagens no campo de batalha à noite, sem chamar a atenção do inimigo pelo uso de qualquer ponto de luz. A idéia interessou sobremaneira alguns professores do renomado Instituto de cegos e logo começou a ser adaptada para uso dos alunos ali internados. Em 1833 surgiu nos Estados Unidos da América do Norte o primeiro livro para cegos de que se tem notícia. Adotava um alfabeto idealizado pelo educador Frielander. De outra parte, na Inglaterra, havia informações de que o primeiro livro para cegos surgira já em 1827, usando letras comuns em relevo, o que não era muito inovador. Desde o século XVIII havia máquinas de escrever em relevo essas mesmas letras comuns. Foi alguns anos mais tarde que um jovem professor cego do Institute Nationale des Jeunes Aveugles - Louis Braille (1809 a 1852) - baseado na idéia de Charles Barbier e na experiência acumulada com a utilização diuturna daqueles pontinhos em relevo, desenvolveu um sistema seu, já pelo ano de 1825, também de pontinhos em relevo, que podiam não apenas ser lidos como também produzidos com facilidade pelos cegos com instrumentos bastante simples. Na combinação de apenas seis pontinhos em relevo, Louis Braille garantia noventa e seis símbolos para letras comuns e acentuadas, números, pontuação e outros mais. A adoção do novo sistema em toda a França só ocorreu em 1854, dois anos após a morte de seu idealizador, Louis Braille. - *Ludwig van Beethoven: a trágica surdez* Em 1827 morria Ludwig van Beethoven, que nascera em 1770 e que se transformara num dos maiores gênios da música erudita, apesar de ter sofrido imensamente com a gradativa perda da audição, em seus últimos anos de vida. A surdez o isolara do restante do mundo, mas não o impedira de continuar sua obra criadora. A surdez de Beethoven começara em seu ouvido esquerdo quando estava com 27 anos de idade. Logo a perda se transformara numa dificuldade bi-lateral de ouvir bem, principalmente os sons de alta freqüência. Usava o grande compositor o auxílio de trompas de ouvido e outras adaptações próprias para seu trabalho quando ao piano. Em algumas de suas cartas a amigos e confidentes, principalmente ao Dr. Franz Gerhard Wegeler, nota-se sua aflição pelo mal que o atingia. Com 31 anos de idade escrevia o seguinte: " ... minha faculdade mais nobre, minha audição, tem piorado muito ... esse problema causa-me as dificuldades menos significativas ao tocar ou ao compor e as maiores quando em contato com os outros" ... "meus ouvidos assobiam e fazem barulho sempre, dia e noite. Em qualquer outra profissão isso poderia ser mais tolerável, mas na minha, essa condição é verdadeiramente atemorizante. Posso lhe dizer que vivo uma existência miserável" (Apud Landon).


A surdez gradativa influenciou o próprio estilo de Beethoven. Com a plena consciência de sua surdez total próxima, tornou-se fortemente deprimido. Parece até ter pensado no suicídio. E aos 52 anos de idade estava surdo. Foi na fase inicial de sua perda de audição que o grande mestre compôs suas obras mais românticas e de melodia da mais alta suavidade: "Apassionata" e "Sonata ao Luar", em 1804; Sinfonias n° 3 até 6, de 1804 a 1808. Contam seus biógrafos que ele foi o maestro honorário na primeira apresentação de sua 9°. Sinfonia, mantendo-se sentado ao lado do maestro regente. Não ouvia nada de toda a execução da magnífica peça musical, mas seguia sua evolução pela partidura em suas mãos. Próximo ao final estava alguns compassos atrasado e não notou quando a orquestra terminara. Um dos solistas veio imediatamente até ele e virou-o para a platéia que aplaudia delirantemente a obra e seu compositor. - *Nelson, herói da Marinha Britânica* Nascido no ano de 1758, o Visconde Horácio Nelson tornou-se o mais famoso e talvez o mais querido dos heróis ingleses. Ele era mais do que um brilhante dominador de táticas da guerra naval - era um líder sob todos os aspectos. Há uma famosa frase de Nelson que passou para a História da Inglaterra e que é a seguinte: "A Inglaterra espera que cada homem cumpra o seu dever". Ela não foi dita por Nelson em reuniões ou em pronunciamentos a seus subalternos. Ela foi transmitida de seu navio capitania, o "Victory", por sinais, a toda a frota que navegava para a grande batalha de Trafalgar. A estratégia tática que Nelson imprimiu na luta contra a esquadra dos poderosos navios das forças napoleônicas (os franceses e os espanhóis) consagrou-o para sempre. Mas foi exatamente nessa batalha que Nelson foi atingido por um projétil que fraturou sua espinha dorsal. Sem recursos médicos de grande monta que talvez pudessem ter salvo pelo menos sua vida, o grande herói inglês faleceu no meio do fragor da batalha que se desenrolou no dia 21 de outubro de 1805. Segundo alguns autores, se tivesse sobrevivido Nelson provavelmente teria sido vítima da paraplegia por secção da medula. - *Os progressos nos Estados Unidos da América do Norte* As primeiras providências observadas nos Estados Unidos da América do Norte com relação à assistência mais organizada aos soldados feridos ou mutilados parece terem acontecido em 1811, quando o Congresso autorizou o Secretário da Marinha a construir um lar permanente para seus oficiais. Esse novo recurso logo começou a aceitar marinheiros e fuzileiros navais com problemas físicos sérios e outros problemas limitadores da independência individual. Foi construído na cidade de Philadelphia e só entrou em funcionamento em 1831. E no ano de 1867 surgiu um outro recurso: o Lar Nacional para Soldados Voluntários Deficientes, assim que terminou a Guerra Civil Americana, com o seu primeiro núcleo na cidade de Togus, Me. (Apud "Encyclopaedia Britannica"). - *Os sinais de melhor compreensão dos problemas dos deficientes* Foi no século XIX que a sociedade começou a assumir a responsabilidade sobejamente reconhecida para com as pessoas portadoras de deficiências. Até o século XVI, durante o fortalecimento da Renascença, os homens em geral ainda relacionavam muito do que acontecia ao ser humano à força das superstições, das diversas crendices dominantes e do sobrenatural. Mas, do século XVI em diante, o mundo já se acostumara a examinar fatos em termos mais práticos e naturais.


Precedida pela Revolução Industrial, a Revolução Intelectual fez com que a sociedade de muitos países europeus pensasse um pouco nos seus grupos minoritários e marginalizados como uma de suas muitas responsabilidades e não apenas como objeto de promoções caritativas e de caráter voluntário. Chegou-se à conclusão de que a solução para esses problemas não era apenas uma questão de abrigo, de simples atenção e tratamento, de esmola ou de providências paliativas similares, como sucedera até então. Ao se dar maior volume de atenção, por exemplo, aos cegos, aos velhos, aos surdos, aos mutilados de guerra, aos doentes crônicos e aos deficientes de um modo mais amplo, chegou-se a pensar que eles na verdade não precisavam tanto de hospitais de caridade ou de casas de saúde, mas de organizações separadas, o que tornaria seu cuidado e seu atendimento mais racional e menos dispendioso. Foi em boa parte devido a esse tipo de raciocínio e à troca de experiências que a sociedade de alguns países europeus, quase que exclusivamente por iniciativa de particulares, fundou algumas entidades especializadas, sem lembrar talvez que Constantinopla havia acenado para essa posição desde o alvorecer do Cristianismo, ou seja, há mais de 15 séculos... Essas novas organizações, todavia, não se destinavam apenas à assistência e à proteção desses grupos marginalizados, mas também para estudo de seus problemas e dificuldades, para o estabelecimento de algumas alternativas de atendimento e também para o tratamento de situações concretas. Surgiram abrigos para crianças (orfanatos, em geral) e para velhos (asilos), lares para as crianças com defeitos físicos e muitas outras organizações separadas dos hospitais gerais oficiais ou particulares. Embora no século XIX ainda não se pensasse na integração do homem deficiente à sociedade aberta ou mesmo à sua família, ele passou a ser visto como ser humano (infeliz, desafortunado e coitado para aquela época, é evidente) dono de seus sentimentos e capaz de viver ou de pretender levar uma vida decente, desde que fossem garantidos meios para isso. Para um bom volume de casos a questão acabava restringindo-se à redução de uma situação de miserabilidade a um mínimo suportável, dando ao indivíduo atingido um restante de vida mais tranqüilo, desde que possível. - *Uma iniciativa de Napoleão Bonaparte* Pensando mais avançada e utilitariamente, o arguto Napoleão Bonaparte, que nasceu em 1769 e morreu em 1821, exigia de seus generais que olhassem os seus soldados feridos ou mutilados como elementos potencialmente úteis, tão logo tivessem seus ferimentos curados. Os exércitos franceses passaram, em muitas de suas unidades, a utilizar esses soldados nos esforços de guerra de tal forma que conseguiam ainda tornar-se produtivos e diretamente ligados às suas unidades. Napoleão procurava utilizar seus esforços conforme as circunstâncias o permitiam. E foram usados em serviços de manutenção montados na retaguarda, de acordo com suas capacidades físicas, conservando fardamentos, trabalhando em selaria, cuidando dos equipamentos, de alimentação, de limpeza de animais e outras atividades. - *Madre Agostinha, fundadora das Irmãs Irlandesas da Caridade* Mary Aikenhead (1787 a 1858), por solicitação do bispo Murray, de Dublin, na Irlanda, fundou a congregação religiosa conhecida como Irmãs Irlandesas da Caridade. As irmãs religiosas não eram enclausuradas e visitavam famílias pobres em suas próprias casas. Devido às características de desenvolvimento daquela época, durante a qual não havia a emancipação dos católicos na Irlanda, Mary adotou o nome religioso pelo qual ficou sendo


conhecida (Madre Agostinha) apenas para contatos com outras religiosas, e o seu nome leigo para todos os demais contatos externos. Um dos trabalhos mais notáveis dessas religiosas ainda durante a vida de Madre Agostinha ocorreu durante uma epidemia de cólera. Madre Agostinha ficou muito enferma em 1831 e impossibilitada de se locomover até a sua morte, no ano de 1858. Dirigia sua comunidade mesmo com a desvantagem da deficiência que a bloqueava e impedia de uma participação maior e mais efetiva. - *Lord Byron, poeta e satirista inglês* George Gordon (1788 a 1824), barão e o sexto Lord Byron, teve uma vida que cativou a imaginação de toda a Europa. De um lado era profundamente melancólico e de outro era um homem repleto de aspirações políticas. Nasceu com um problema físico (pé torto) e sempre foi muito afetado por essa deficiência. Tratado como "garoto aleijado" por uma linda jovem da qual estava enamorado, alimentou sua mágoa com poemas de profunda tristeza, muitas vezes relacionados a amores inatingíveis. Dedicou muito de seu tempo e fortuna à causa da libertação da Grécia e lá morreu. Foi considerado e até hoje muitos o consideram um"herói nacional grego". - *Antonio Feliciano de Castilho, um dos maiores literatos portugueses* Castilho (1800 a 1875) tem sido indicado como poeta, prosador, ensaísta, escritor e pedagogo, mas é, sem dúvida, uma das mais importantes figuras literárias nascidas em Portugal. Perdeu a visão aos 6 anos de idade, mas seu denodado irmão Augusto, percebendo sua incrível memória, ajudou-o a estudar e a inteirar-se do mundo que o cercava. Já prestes a finalizar seu curso em Coimbra, publicou em 1821 seu primeiro trabalho de verdadeira importância: "Cartas de Eco e Narciso". Com a publicação de seu livro de poesias "O Outono", após uma viagem ao Brasil e seus anos em Açores, despertou nos meios literários lusitanos uma violenta polêmica que ficou conhecida como "Questão Coimbrã". Nela estiveram envolvidos nomes famosos, como Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e outros. A cegueira não impediu Antonio Feliciano de Castilho de se transformar num dos mais respeitados nomes de toda a literatura portuguesa. - *Outros cegos do século XIX que ficaram famosos* Embora numa brevíssima nota, é importante que nos lembremos de três cegos que ficaram famosos pela sua competência em pleno século XIX: *Jacques Nicolas Augustin Thierry* (1795 a 1856) um grande renovador da ciência histórica francesa e autor de "Narrativas dos Tempos Merovíngios", "Considerações sobre a História da França" e "Ensaio sobre o Terceiro Estado". *William Hickling Prescott* (1796 a 1859), historiador inglês, autor de "História do Reino de Fernando e Isabel" e "Conquista do México". *Henry Fawcett* (1833 a 1884), economista e político inglês, autor de "Manual de Economia Política" e catedrático na Universidade de Cambridge. Foi casado com a famosa Millicent Garrett. - *A ortopedia do século XIX e as deficiências físicas*


Já nos primeiros decênios do século XIX foi surgindo a própria base da reabilitação de pessoas portadoras de lesões físicas. Essa base, ainda não estabelecida, defenderia a idéia de que as pessoas que apresentavam deficiências físicas deveriam receber, além dos cuidados médicos de que precisassem, serviços especiais para poder continuar uma vida de acordo com suas aspirações e a própria dignidade do homem - conceito esse derivado da filosofia humanista somada às experiências práticas advindas do forte progresso da ciência médica. Dentro dessa corrente de raciocínio, muito maior e melhor volume de atendimento médico-cirúrgico e/ou ortopédico surgiu em poucos anos na Europa e em diversas outras partes do mundo. Vejamos alguns progressos mais significativos: 1812 – Johann Georg von Heine criou um hospital só de atendimento ortopédico na cidade de Würzburg, na Prússia. 1817 - Foi criado na cidade de Birmingham, na Inglaterra, um hospital dedicado apenas a casos de ortopedia, ou seja, o chamado Orthopaedic Hospital. 1818 - Em Lübeck, Alemanha, foi também fundado um hospital destinado a pacientes que apresentassem males ortopédicos, por influência do médico Lesthof. 1821 - Foi fundado na cidade de Bar-le-Duc, na França, um hospital semelhante. 1826 - São construídos em Berlim, Alemanha, dois hospitais para ortopedia, enquanto que no mesmo ano em Paris dois outros são também organizados. 1828 - Um hospital ortopédico é inaugurado na cidade de Montpellier, França. 1830 - Inaugurado na cidade alemã de Hannover o famoso Stromeyer Hospital, destinado exclusivamente ao atendimento de casos de ortopedia. Muitos outros evidentemente surgiram à mesma época ou durante a segunda metade do século XIX, não só na Europa como nos Estados Unidos, e dentre eles cumpre que destaquemos os de Haia, Londres, Copenhague, Praga, Florença, Petrogrado e New York. Este avanço fulminante da ortopedia, aliada a outras áreas do atendimento médico, levou a uma atenção muito mais apropriada a males diretamente relacionados a deficiências físicas, conseqüentes a fraturas, amputações, deformações e outros males do esqueleto. - *Atendimento mais especializado aos cegos* Verifiquemos alguns desenvolvimentos adicionais ocorridos no século XIX no campo da cegueira: - Três escolas destinadas ao atendimento especializado de cegos foram organizadas nos Estados Unidos, sendo a mais famosa delas a New England Asylum for the Blind, inaugurada no ano de 1832, hoje reconhecida no mundo todo com o famoso nome de "Perkins School for the Blind". Está localizada em Boston, Masachussets. As outras duas foram organizadas em 1832 e 1833, nas cidades de New York e Philadelphia respectivamente. Em outros países o atendimento mais específico e mais cuidadoso de cegos gradativamente se implantava: 1863 - Em Lisboa, Portugal, no Castelo de Vide, foi iniciado o ensino profissionalizante para alunos cegos. 1866 – Na Cidade do México foi criada e instalada a primeira escola para cegos mexicanos. 1876/1880 - Em Kyoto e em Tóquio foram criadas duas modernas escolas para receber somente alunos cegos. 1882 - Foi criada em Londres a Sociedade de Prevenção da Cegueira - entidades semelhantes foram também organizadas em outros países logo após. 1888 - Criada em Buenos Aires, Argentina, a Escola para Cegos e para Surdos.


1890 - Em Santiago de Chile foi também criada uma escola para cegos. De uma certa forma o Brasil foi pioneiro nas Américas Central e do Sul, com a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, no ano de 1854, no Rio de Janeiro. Sobre essa experiência daremos pormenores no capítulo seguinte. Ainda no atendimento a cegos, dentro do Continente Asiático, ocorreu o início da primeira escola para cegos da China em 1876, por iniciativa do missionário William Hill Murray, da Sociedade Escocesa da Bíblia. Murray dedicou-se muito a esse empreendimento e chegou mesmo a inventar um sistema Braille para a língua chinesa, mais tarde substituído pelo Braille Union Mandarin, aceito em todas as regiões da vasta China onde o Mandarin era falado. Um pouco antes disso, no ano 1868, durante a restauração Meiji, no Japão, os privilégios especiais até então dados aos cegos para se dedicarem com exclusividade à massagem e a certas áreas da acupuntura foram suspensos. A tradição, porém, manteve-se e até hoje o número de massagistas cegos é muito grande no Japão e em muitas outras partes do mundo. - *A pessoa deficiente vista com potencial para o trabalho* A partir da segunda metade do século XIX houve um forte incremento às atenções destinadas às pessoas portadoras de males limitadores de sua atuação, mais em concordância com as características individuais, tornando-se, portanto, mais humanas no mundo todo mais atualizado. Em alguns países nórdicos surgiram preocupações muito sérias quanto ao aspecto do potencial da pessoa deficiente para a produção de bens e para desenvolvimento de serviços, pelo menos para cobrir as próprias necessidades de sobrevivência. Como resultado prático dessa preocupação, no dia 1º de maio de 1863, um grupo de pessoas influentes da sociedade novaiorquina criou a New York Society for Relief of Ruptured and Crippled, em plena Segunda Avenida, no distrito de Manhattan. Hoje essa mesma sociedade foi transformada no New York Hospital for Special Surgery, um dos melhores do mundo todo no atendimento a casos de deficiências físicas das mais variadas ordens. A Dinamarca também entrou na luta para um melhor aproveitamento da mão-de-obra em potencial das pessoas deficientes, fundando uma organização especial para atendimento social e profissional, em 1872, ou seja, a Sociedade e Lar para Defeituosos (Society and Home for Cripples), seguindo praticamente exemplo sueco que, segundo parece, havia sido divulgado alguns anos antes de seu estabelecimento. Outro exemplo de tentativa para encontrar uma solução de trabalho para pessoas portadoras de limitações físicas surgiu com a iniciativa do Pastor Hoppe, um alemão que em 1885 organizou uma sala de aulas para ensino de um ofício para crianças deficientes. Sua iniciativa encontrou um sucesso muito grande, pois toda aquela escola foi transformada num lar para pessoas com deficiências aprenderem profissões diversas. - *O problema dos surdos e dos surdos-mudos e suas soluções* O atendimento aos surdos e aos surdos-mudos também progrediu muito no século XIX. Exemplos desse progresso são os seguintes: - Na Inglaterra, ao final do século XVIII e início do século XIX, o educador Thomas Braidwood (1715 a 1806) organizou uma escola para surdos em Edinbourgh e logo após uma outra em Londres. Eram escolas particulares e a pagamento, que tiveram o condão de despertar a atenção para o problema dos surdos e para as soluções que se apresentavam viáveis. A primeira escola para surdos pobres havia já sido aberta em 1792, em Londres (Old Kent Road) mudando-se mais tarde para Margate.


Durante o século XIX muitas outras escolas para surdos foram organizadas na Inglaterra, tanto assim que em 1870 havia dez escolas residenciais dessa natureza. O governo inglês finalmente assumiu a responsabilidade pelo ensino oficial dos surdos e dos cegos em 1893, tornando-se obrigatório entre os 7 e 16 anos de idade, como parte integrante do ensino oficial. - Na Alemanha, Moritz Hill (1805 a 1874) desenvolveu um método próprio de educação para crianças surdas, usando a comunicação oral e seguindo exemplo do educador alemão Samuel Heinicke (1727 a 1790). Hill sempre foi considerado um dos melhores educadores de surdos de todos os tempos. - Nos Estados Unidos, em 1803, Francis Green de Boston já fizera juntamente com alguns religiosos protestantes, uma tentativa de recenseamento de surdos em todo o Estado de Masachussets, encontrando 75 surdos. Supondo, pelo seu levantamento, que no país todo deveria haver bem mais do que 500 surdos, sugeriu a criação de escolas especiais. No ano de 1815, em Hartford, Connecticut, foi organizada uma sociedade para a instrução de surdos que tomou a sábia iniciativa de levantar fundos para mandar o jovem professor Thomas Hopkins Gallaudet à Europa para aprender métodos comprovados de ensino para surdos. Chegou a estudar o método de sinais na escola do Abade Sicard, em Paris, e em 1816 voltou aos Estados Unidos com um professor surdo: Laurent Clerc. No dia 15 de abril de 1817 foi aberta a Escola Hartford para Surdos que começou a utilizar tanto os sinais quanto o alfabeto normal e a própria escrita. Foi em 1818 que foi criada a New York Institution for the Deaf, graças à influência marcante e ao interesse direto do Reverendo John Stafford. O ano de 1867 viu surgirem duas escolas de importância nesse campo: a Clarke School, em Northampton, Masachussets e a Institution for the Impaired Instruction of the Deaf, em New York, hoje chamada de Lexington School for the Deaf. Elas usavam métodos de comunicação oral em contraposição ao de comunicação por sinais, usado nos primeiros cinqüenta anos do século XIX. - *Proteção ao acidentado de trabalho por legislação recente* Otto von Bismark, Chanceler do Império Alemão, aprovou no ano de 1884 o que é considerado como a primeira lei do mundo que protegia o acidentado no trabalho, no que foi imediatamente imitado por muitos outros países europeus. Era uma das primeiras providências objetivas relacionadas a trabalhadores civis, levando gradativamente às programações de recuperação física e de reabilitação, com tentativas de readaptação ao trabalho e reaproveitamento daquela mão-de-obra prejudicada. Boa parte da pressão por soluções que visualizassem a volta ao trabalho como um ideal a ser atingido partiu de companhias de seguros, envolvidas no processo devido às determinações legais de proteção ao trabalhador. - *A modernização da cirurgia ortopédica e as pessoas deficientes* Ao se especular sobre cirurgia ortopédica e seu significado na eliminação, na redução ou na prevenção de deformidades físicas, na segunda metade do século XIX, não se pode deixar de mencionar nomes como os de John Hilton, G.F.Stromeyer, William J.Little, H.O Thomas, Sir Robert Jones e outros. Como é sobejamente sabido, a cirurgia ortopédica pode ser preventiva ou reconstrutiva. E apenas para que possamos ter uma idéia do escopo amplo dessa especialidade médica dentro da ortopedia, que tanto tem a ver com o mundo das pessoas deficientes, relembremos que as deformidades podem ser adquiridas ou congênitas.


Paremos por um instante apenas em nosso desenrolar histórico e meditemos sobre a importância que teve e tem a cirurgia ortopédica em problemas relacionados aos portadores de deficiências físicas, e façamos justiça aos médicos que têm procurado dedicar-se a essa especialidade. Dentro do vasto campo para suas intervenções, lembremos as mais significativas: a cirurgia reconstrutiva da coluna vertebral e das extremidades é da mais real importância; fraturas mal solidificadas ou mal restauradas são tratadas por procedimentos cirúrgicos dentro da cirurgia ortopédica; tendões podem ser reparados por transplantes e outros procedimentos específicos; diferenças nos tamanhos das pernas podem ser acertadas; muitas doenças do esqueleto humano podem ser resolvidas pela cirurgia ortopédica; amputações a níveis adequados e com técnica cirúrgica que permita o uso de próteses são possíveis; a prevenção de deformidades por procedimentos cirúrgicos é também perfeitamente viável. Essas são algumas das intervenções mais conhecidas da cirurgia ortopédica que avança continuamente para uma atuação cada vez mais primorosa. Dentre os cirurgiões ortopédicos mais famosos cumpre que separemos o nome de Stromeyer, de Hannover, na Alemanha. Ele havia desenvolvido uma operação conhecida por tenotomia (corte dos tendões), pela qual conseguia corrigir com menos dificuldade alguns tipos de deformidades. Foi a ele que um novo pioneiro da cirurgia ortopédica - William J. Little, da Inglaterra - recorreu no ano de 1836. O Dr.Little havia nascido com uma paralisia no pé, e com o tempo este havia ficado deformado. Venceu barreiras, enfrentou ambientes e formou-se médico. Seus estudos sobre as causas do pé torto e a introdução, na Inglaterra, da tenotomia, sobre a qual tanto aprendera com Stromeyer antes, durante e depois de sua própria cirurgia foram providências muito significativas para o desenvolvimento da cirurgia ortopédica. - *Reabilitação desabrocha num centro de atendimento, em Cleveland* Os primeiros indícios de reabilitação aplicada como tal surgiram nos Estados Unidos no ano de 1889 com a criação de uma organização especial para o atendimento de pessoas deficientes e que utilizou o nome de Cleveland Rehabilitation Center. Um pouco depois, no ano de 1893, foi organizada na cidade de Boston uma entidade chamada Boston Industrial School for the Crippled and Deformed, que não só oferecia alguns treinamentos profissionalizantes mas também vários outros serviços que o individuo necessitasse. À época do nascimento de Helen Keller, em 1880, já havia movimentos bem conscientes no Alabama quanto aos problemas de pessoas deficientes. Havia profissionais que começavam a expressar sua preocupação com o conteúdo e com a própria metodologia (ou ausência dela) dos programas que se iniciavam em diversas áreas. Um dos sintomas claros dessa preocupação foi a criação da American Association of Workers for the Blind (Associação Americana de Trabalhadores com os Cegos, em Washington, no ano de 1895. O conceito de reabilitação em seu sentido amplo e de atendimento às necessidades do ser humano com deficiências, mas como um todo, tomou forma no final do século XIX, devido a fatores múltiplos, dentre os quais não podemos deixar de mencionar a preocupação de algumas sociedades com o homem em seu sentido mais profundo, as tendências humanísticas em algumas profissões, tais como a medicina psiquiátrica, e também o surgimento de outros grupos de profissionais mais voltados para problemas sociais ou para dificuldades individuais do ser humano num contexto familiar e comunitário. Algumas organizações continuaram e continuam a manter uma tônica custodial, assistencialista, caritativa e segregacionista. Mas o reconhecimento da pessoa humana como


um indivíduo de méritos próprios e de potencial a ser melhor aproveitado passava a ser irreversível. - *Helen Keller, cega, surda e muda: um marco indelével* Ao final do século XIX (1880) nascia Helen e com 19 meses ficou cega e surda. Logo a seguir não conseguiu mais falar. Foi com 7 anos de idade que começou a receber a ajuda de Anne Sullivan, graças a uma sugestão de Alexander Graham Bell, consultado pelos Keller quanto a uma solução para os problemas de Helen. A assistência a Helen Keller resultou de uma combinação de esforços de várias organizações que levaram a jovem a ler, escrever e até falar. Em 1900 Helen entrou no Colégio Radcliffe, graduando-se em 1904 "cum laude". Desse ponto em diante sua vida foi marcada por uma plena dedicação à causa de pessoas vítimas de múltiplas deficiências. Ela foi um verdadeiro marco nos esforços para melhor compreensão das potencialidades do ser humano para superar problemas considerados insuperáveis. Lutando com problemas semelhantes à mesma época, mas vivendo situações de vida bem diversas, poderemos citar alguns nomes que fortalecem a crença no potencial do ser humano e na criatividade de muitos profissionais que levam a verdadeira ciência do atendimento para melhores e mais objetivos resultados: Laura Bridgman (que só tinha o sentido do tato e que mesmo assim recebeu uma educação metódica) e Richard Clinton, ambos dos EUA; Marthe Obrecht, da França; Inocêncio Juncar y Reyes, da Espanha; Eugênio Malassi, da Itália e Marie Heurtin, da França - todos com deficiência visual e auditiva. Marie Heurtin nasceu cega e surda e ao ser encaminhada a uma escola especial em Notre Dame de Larnay, perto de Poitiers, rolava na terra e grunhia como um pequeno animal. Segundo Pierre Villey, autor cego dos mais categorizados, que escreveu sua interessante obra "Le Monde des Aveugles" em 1914, Marie Heurtin "é hoje uma jovem de 25 anos, cordata, ativa, alegre, que raciocina bem"... e ... "Laura Bridgman, que não tinha apenas a visão e a audição, mas também o paladar e o olfato, fornece a prova irrefutável que apenas as impressões do tato são suficientes para emancipar uma alma e para liberar seu eco para os mais altos cimos que o espírito humano tem explorado" ("Le Monde des Aveugles", de Villey).


CAPÍTULO QUINTO A PESSOA DEFICIENTE NO BRASIL COLONIAL E IMPERIAL Conforme tivemos oportunidade de verificar no rápido passar pelos muitos séculos da História do Homem, as doenças graves, os acontecimentos nefastos e os muitos infortúnios que sempre levaram às situações de deficiências físicas ou sensoriais jamais deixaram de existir. Essa verdade sempre foi válida em todos os quadrantes da Terra, em qualquer época. Ela é válida também para todos os períodos da História do Brasil, tanto para os nossos aborígenes ou para os negros escravos que para cá foram trazidos como carga humana em navios infectos e superlotados, como também para os nossos muitas vezes bravos colonizadores provenientes de Portugal, da França, da Holanda e da Espanha. Se buscarmos nos arquivos de nossa História, poderemos surpreender-nos com normas ou decretos que chegaram a abordar os problemas de pessoas com defeitos físicos. E se formos pesquisar as atividades de organizações de épocas remotas em diferentes cidades (principalmente entre os séculos XVI e XVIII) certamente que acharemos referências várias a "aleijados", "enjeitados", "mancos", "cegos", "surdos-mudos" e outras mais. No entanto, assim como na velha Europa, a quase totalidade das informações sobre pessoas defeituosas está diluída em comentários relacionados aos doentes e aos pobres de um modo geral, como era usual em todas as demais partes do mundo. Na verdade, também no Brasil a pessoa deficiente foi considerada por vários séculos dentro da categoria mais ampla dos "miseráveis", talvez o mais pobre dos pobres. Os mais afortunados que haviam nascido em "berço de ouro" ou pelo menos remediado, certamente passaram o resto de seus dias atrás dos portões e das cercas vivas das suas grandes mansões, ou então, escondidos, voluntária ou involuntariamente, nas casas de campo ou nas fazendas de suas famílias. Essas pessoas deficientes menos pobres acabaram não significando nada em termos de vida social ou política do Brasil, permanecendo como um "peso" para suas respectivas famílias. Sempre que analisamos o problema das pessoas deficientes em épocas passadas da História do Mundo, não podemos deixar de prestar a devida atenção à evolução das ciências e de um modo todo especial à evolução do atendimento médico, à existência de recursos de assistência hospitalar das mais variadas naturezas e à manutenção, pela sociedade ou pelos governantes, de entidades de beneficência para pobres, pois as pessoas deficientes sempre estiveram inseridas nesses reduzidos contextos. É fácil depreender que no Brasil - uma mera colônia de Portugal - a situação não foi e nem poderia ter sido muito diferente. Assim, é muito importante que tentemos encontrar meios para visualizar, durante os primeiros três séculos de nossa História, os problemas das pessoas com males incapacitantes, em nossa realidade geral, sem entretanto poder destacálos por quase absoluta falta de dados específicos. - *Os primeiros hospitais do Brasil Colonial* Comecemos por verificar como nossos ancestrais enfrentavam os problemas de saúde. E nesse sentido notaremos que não existe concordância entre os autores quanto à criação de uma primeira entidade hospitalar no Brasil. Seguindo modelo português, a tendência foi criar as Casas de Misericórdia, com recursos provenientes da comunidade e com o fim específico de atender aos doentes necessitados de assistência médica, sem ter condições de pagar por esses serviços especiais.


Alguns historiadores defendem como ano de fundação da primeira Casa de Misericórdia o de 1545, enquanto que outros falam do ano de 1567. Ao que parece, Estácio de Sá (1520 a 1567), terceiro Governador Geral do Brasil e sobrinho de Mem de Sá, trouxera orientações diretas do rei de Portugal, não só para expulsar os franceses de Villegaignon, instalados na baía da Guanabara, mas de construir ali, próximo ao morro conhecido com o nome de Pão de Açúcar, uma cidade. Nela, dentre os recursos essenciais, o rei determinava a construção de uma casa para abrigar a Confraria da Misericórdia e seus serviços. A cidade recebeu o nome de São Sebastião, em homenagem ao rei. Mas Estácio de Sá não teve muito tempo para se dedicar à completa construção da nova cidade, pois no ano de 1567, com apenas 47 anos de idade, faleceu, vítima de uma flechada no rosto, após ter passado semanas com alta febre e com seriíssima infecção causada pelo ferimento. Anchieta, um dos maiores jesuítas que atuaram no Brasil, esteve presente à sua morte. Segundo vários autores, só mesmo no dia 24 de março de 1582 é que foi determinada a construção de diversas palhoças de pau-a-pique cobertas de sapé, onde o padre José de Anchieta instalou, na vila de São Sebastião do Rio de Janeiro, o que foi depois conhecido como Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. A construção fora acelerada para poder dar abrigo urgente à tripulação e aos soldados da esquadra de um corajoso almirante espanhol, Dom Diogo Flores Valdez, todos atacados por escorbuto e por febres malignas durante sua longa viagem da Espanha para o Estreito de Magalhães, com 23 naus e 5.000 homens armados, a fim de lá construir fortificações e povoados. A volumosa esquadra havia surgido na baía da Guanabara muito cautelosamente, com a temida cruz negra no alto dos mastros de todas as naus. Era o indicativo de peste a bordo. E foi socorrida. Alojados, ainda que precariamente, os soldados e marujos espanhóis, Anchieta e os outros jesuítas auxiliados por colonos de boa vontade e por índios amigos, prepararam pomadas e mezinhas todas elas extraídas de nossa muito rica flora. Há autores que discordam da data e do local de instalação do primeiro hospital brasileiro. Segundo Zarur, por exemplo, o Barão do Rio Branco afirmava ter ocorrido no dia 24 de fevereiro de 1583 um violento combate entre dois galeões ingleses e três espanhóis em pleno porto de Santos, praticamente à frente de São Vicente. Devido a esse combate e aos seus desastrosos resultados em termos de destruição de casas e ferimentos em muitos marujos e habitantes da vila, ali foi organizada, no mesmo ano, a primeira Casa de Misericórdia do Brasil. As informações de Santos Filho dão-nos, todavia, uma visão bem mais ampla de todo o assunto. Segundo esse renomado professor de medicina, eis algumas datas de fundação de nossos hospitais de misericórdia no século XVI: 1543 - Data considerada incerta mas provável para a criação da Casa de Misericórdia de Santos. 1549 - Ano de criação da Casa de Misericórdia da Bahia. 1540 - Embora anterior a todas, a data é bastante incerta para a alegada criação da Casa de Misericórdia de Olinda. 1570 - Data das primeiras instalações da Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, retomadas em 1582 com a construção de palhoças para a tripulação e soldados embarcados com Dom Valdez. 1590 - Instalação da Casa de Recife. 1595 - Instalada a do Espírito Santo.


Lembremo-nos que quase todas essas pobres Casas de Misericórdia mantinham a tristemente famosa Roda dos Expostos, na qual muitos recém-nascidos com deformações foram colocados por mães desesperadas, tendo eles sido criados em orfanatos ou nos conventos, como elementos à margem da sociedade. - *Anchieta e seu exemplo de assistência aos doentes* Ressaltemos que bem antes dos empreendimentos acima indicados outras iniciativas de assistência a enfermos, a doentes crônicos e enjeitados vinham sendo levadas a efeito. Isso ocorreu com a presença dos jesuítas desde o começo da fundação de São Paulo. Nada melhor do que buscarmos as palavras de quem realmente esteve ali presente, por aqueles agrestes e muito difíceis anos do início da maior metrópole brasileira, ou seja, o padre José de Anchieta. Em carta datada de 1554, enquanto ainda estava em Piratininga, ele narra o seguinte: "De janeiro até o presente tempo, permanecemos algumas vezes mais de vinte em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo catorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha e a dispensa" (Apud Rodrigues). Doentes e acidentados acorriam a esse incipiente recurso polivalente surgido em São Paulo de Piratininga no próprio ano de sua fundação. Ao descer a serra para São Vicente, ainda no ano de 1554, Anchieta escreveu uma carta especial para os seus irmãos jesuítas doentes em Coimbra, afirmando: "... neste tempo que estive em Piratininga servi de médico e de barbeiro, curando e sangrando a muitos daqueles índios dos quais viveram alguns de que não se esperava vida, por serem mortos muitos daquelas enfermidades" (Apud Rodrigues). O termo "barbeiro" relaciona-se aqui à função de cirurgião e não à de cortador de cabelos e aparador de barbas, pois conforme verificamos anteriormente, durante vários séculos as sangrias e certas intervenções hoje inseridas em cirurgia eram praticadas por esses profissionais. Ao referir-se às atividades de José de Anchieta quando "sangrava" portugueses e índios, o historiador Robert Southey (1779 a 1843) afirma: "suscitaram-se escrúpulos a respeito desse ramo de sua profissão, pois que ao clero é proibido derramar sangue; consultado Loyola, respondeu que a caridade se extendia a tudo ("História do Brasil", de Southey). O mesmo autor afirma também que Anchieta dispunha apenas de um canivete de afiar penas de escrita para realizar essas famosas sangrias. Não nos é difícil imaginar que Anchieta tenha lutado fortemente contra a desabusada e muito aceita atuação de benzedores ou feiticeiros, uma vez que, de acordo com seus próprios escritos, ele chegou a preparar mezinhas, operou, sangrou, fez partos, exumou cadáveres, curou feridas bravas, tratou de cancros, fez curativos, assistiu a velhos, crianças, moribundos e loucos. Cuidou também de problemas decorrentes de flechadas, golpes de tacape, feridas de guerra; combateu pestes, infecções, febres e até suicídios; chegou até a descrever males desconhecidos à época e diversos tipos de doentes. - *Males incapacitantes nos primeiros anos de Brasil* Falando sobre nossos indígenas, Santos Filho informa-nos incisivamente: "Eram raríssimos os aleijados e as deformações reconheciam origem traumática". E cita-nos uma frase de Anchieta a esse respeito: "Achava-se raramente um cego, um surdo, um mudo ou um coxo, nenhum nascido fora do tempo" (Apud Santos Filho).


Sobre os nossos índios dos meados do século XVI Jean de Léry, que os viu muito de perto e com os mesmos conviveu muito enquanto aguardava navio para voltar à França, afirma: "Não são maiores nem mais gordos que os europeus; são, porém, mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias, havendo entre eles muito poucos coxos, disformes,aleijados ou doentios" ("Viagem à Terra do Brasil", de Léry). Entre os portugueses, no entanto, a situação era outra e não era tão serena. No início da colonização brasileira, os colonos sofriam muito com a quantidade de insetos nocivos à sua saúde e bem-estar. Afetavam-nos muito também os males próprios dos trópicos e característicos de uma terra nunca desbravada, alguns deles de natureza muito grave e que acabavam levando a severas limitações de natureza física ou sensorial. Havia, por exemplo, um inseto chamado "chigua", citado por diversos autores da época. Era de proporções reduzidíssimas, muito encontradiço nas primeiras pousadas ou fazendas que se dedicavam à produção de cana de açúcar. Infestava também outras regiões, evidentemente. Essa espécie de inseto pólvora introduzia-se entre as unhas e as carnes dos dedos das mãos e dos pés. Chegava a afetar muito seriamente algumas juntas do corpo. Léry conta que, por maior cuidado que tivesse e por maior esmero que procurasse empregar para deles se livrar, não conseguia. Segundo seu relato, chegaram a extrair dele mais de vinte "chiguas" num só dia. E, de acordo com Southey, muita gente chegou a perder os pés de uma forma pavorosa, por causa desse inseto. Os nossos índios e nossos mamelucos sabiam de uma segura solução para o problema dos "chiguas", não sendo por eles muito molestados. Aos poucos foram os europeus também seguindo seu exemplo. "Untavam as partes que mais expostas andavam a esta praga, com um azeite vermelho e espesso, espremido do "courouq", fruta que em nossa terra é parecida com a castanha. Por felizes se deram os franceses quando souberam desse preservativo. Para feridas e contusões era o mesmo óleo soberano ungüento" ("História do Brasil, de Southey). Santos Filho, analisando peculiaridades do Brasil nesse incrível e muito difícil século XVI, afirma que após anos de colonização "tal e qual como entre os demais povos, e no mesmo grau de incidência, o brasileiro exibiu casos de deformidades, congênitas ou adquiridas. Foram comuns os coxos, cegos, zambros, corcundas" ("História Geral da Medicina Brasileira", de Santos Filho). - *Cegueira noturna no Brasil dos séculos XVI e XVII* O naturalista holandês Guilherme Pison viajou em companhia de outro amigo das ciências, Margraff, ao Brasil no início do século XVII e escreveu sua principal obra em 1648, à época intitulada "História Naturalis Brasiliae". Nela ele nos fala de severos males dos olhos, mencionando-os como oftalmias de muita seriedade e muito comuns aos moradores de nossa Terra. E diz que "entre as calamidades do Brasil, não ocupam o último lugar as doenças dos olhos, atacando mais que todos os soldados e os oprimidos pela miséria". Pison não coloca esses males como epidemias, mas culpa as pessoas vitimadas pelo mal devido à sua vida desregrada e corrupta. "Desses, uns perdem a vista quando o sol se põe", diz ele, e "outros a perdem com o crepúsculo matutino". Pison chama o problema médico de "gota-serena" e também de "amaurose", palavras que até hoje correspondem a cegueira parcial ou total. E comenta que as vítimas tratavam-se com "guabiraba" ("História Natural do Brasil Ilustrada", de Pison). Robert Southey, por sua vez, analisa o mesmo problema. O historiador inglês parece terse baseado na opinião de Pison, pois a semelhança de seus comentários é óbvia quando diz:


"Moléstias dos olhos eram tão vulgares, mormente entre soldados e pobres; a mais freqüente era essa meia cegueira que os europeus freqüentemente experimentam entre os trópicos; os remédios eram o fumo de tabaco, carvão de casca de guabiraba ou alvaiade em leite humano, então muito empregada como medicinal" ("História do Brasil", de Southey). A meia cegueira citada ("evening blindness", no original da obra), a "amaurose" ou a "gota-serena" devem corresponder à xeroftalmia, a cegueira noturna dos nossos dias, cuja causa básica deve ter sido alimentação com perniciosa falta de vitamina A. - *Os problemas médicos nos séculos XVI e XVII no Brasil* Não resta dúvida que a situação deve ter sido incrivelmente difícil e muito problemática durante os séculos XVI e XVII, para casos de doenças mais sérias, casos de fraturas expostas ou complicadas, ou mesmo de deslocamentos e, ainda pior, casos que provocavam lesões permanentes e de natureza incapacitante. Quando surgia uma epidemia nesses terríveis duzentos anos da História do Brasil, era um verdadeiro "salve-se quem puder". Nessas horas só se apresentavam para dar algum atendimento à população mais pobre os improvisadores e também os muito experimentados curadores. Pedro Calmon, em sua "História do Brasil", relata-nos a epidemia da febre amarela, em pleno século XVII, da seguinte forma: "A "bicha" era a febre amarela. Trouxera-a da Ilha de São Tomé para o Recife um brigue negreiro. Abertas duas barricas com carnes salgadas, logo morreram, como se vitimados pelo ar empestado, dois marítimos; e o mal se espalhou pelo porto, pela vila de Olinda e seus arredores, sem haver medicina que o atalhasse. Verificou-se na Bahia o primeiro caso de doença em abril. A sordície dos sobrados, cujos porões andavam cheios de escravos da África, o calor, as ruas sujas, a falta de higiene, agravada pelo número crescente de negros mercadejados nos bairros da praia, favoreceram a expansão da epidemia, "novo gênero de peste nunca visto nem atendido dos médicos, de que já morreram dois", como participou Vieira ao Conde de Castanheira em 1º de julho de 1686. Feria de preferência os brancos, os menos adaptados ao clima. Dias houve em que morreram na cidade duzentas pessoas" ... ... "Chegaram as ruas a estar despovoadas, não só morrendo de vinte a trinta todos os dias, mas não havendo casa em que não houvesse muitos enfermos e em algumas todos" ("História do Brasil", de Calmon). Diante de situação de tal seriedade podemos imaginar o abandono a que foram relegados os infelizes que padeciam de males crônicos ou que carregavam consigo a dificuldade própria de uma deficiência física ou sensorial. - *Médico com deficiência física na História de Pernambuco* João Fernandes Vieira (1613 a 1681), herói da guerra contra os holandeses que haviam invadido o Brasil, durante muitos anos organizou planos para a libertação de toda a região ocupada do Nordeste. Participou valentemente das duas batalhas de Guararapes, tendo sido um forte aliado de Vidal de Negreiros, Camarão e Henrique Dias. Tendo tomado posição em Covas com um improvisado exército mal treinado e sem qualquer disciplina, João Fernandes teve que se haver com descontentes e traidores em potencial, utilizando-se de medidas bastante severas para contê-los. No entanto, o problema da falta de assistência médica que afetava a todos, sem exceção, levou João Fernandes a mandar um pequeno grupo de soldados a Santo Amaro, para dali raptar um médico francês conhecido como Mestrola, homem devotado ao seu mister, apesar de séria deficiência física que o impedia de muita movimentação pelo local. É Southey que nos conta: "Ao ver-se nas mãos de tal gente clamou o pobre cirurgião que era cristão católico romano, e sempre curava os portugueses com o maior cuidado e carinho;


se aqueles fidalgos queriam levá-lo para as matas e lá assassiná-lo, suplicava-lhes a bondade de o matarem antes ali mesmo perto da igreja, onde algum bom cristão o enterraria pelo amor de Deus. Mas se queriam que ele tratasse dos portugueses feridos, lhe dessem um cavalo, que tinha ele a perna doente, com que não podia andar" ("História do Brasil", de Southey). O médico com a séria deficiência na perna conseguiu o cavalo e não teve outro remédio a não ser aderir ao pobre e valente exército de João Fernandes, ao qual prestou bons serviços. - *O problema das paralisias no Brasil do século XVII* Simão Pinheiro Morão foi um médico português que viveu muitos anos no Brasil em pleno século XVII, depois de ter passado sérias frustrações em Portugal. Ao final de sua permanência no Nordeste Brasileiro, precisamente no ano de 1677, resolveu escrever aquilo que intitulou pouco sutilmente de "Queixas Repetidas em Ecos dos Arrecifes de Pernambuco contra os Abusos Médicos que nas suas Capitanias se Observam Tanto em Dano das Vidas de seus Habitadores". O trabalho destinava-se principalmente às pessoas que improvisavam na área da medicina. Nesse extenso manuscrito que ficou perdido por séculos, ele arrola diversos males. Destaquemos aquilo que chama de "paralisia", mencionada inespecificamente, mas dando a entender tratar-se das seqüelas de um acidente vascular cerebral ou de alguns outros males que podem levar à perda eventual da sensibilidade. Percebe-se nas entrelinhas a inexistência de maiores preocupações com o problema familiar ou social causado pelo mal, limitando-se Morão a registrar o que pode ser usado em determinadas circunstâncias como medicamento. " ... se à paralisia sobrevier tremor não é ruim sinal, senão bom, assim como também se acharmos a parte ofendida com quentura, ou com calor, porque com isso nos dá esperança de melhoria; e muito melhor se à paralisia sobrevier febre. E também podemos fazer ruim prognóstico quando a parte ofendida se for secando, a que os médicos chamam atrofia". Um pouco mais adiante Morão começa a desfiar idéias suas e de outras autoridades médicas daqueles tempos quanto à cura eventual da paralisia. Eis algumas delas: "O mais eficaz remédio para este acidente de paralisia de que todos os autores fazem particular menção, e a experiência tem mostrado infinitas melhoras, é o das caldas, aonde acodem todos os anos, nos meses destinados a isso, todos os enfermos desta enfermidade e de outras muitas igualmente rebeldes; donde os mais deles saem com manifesta melhoria"... Morão não entra, todavia, em muitos pormenores por julgar inoportuno e devido ao fato de no Brasil - colônia portuguesa - não existirem então estações de águas termais. Mas a medicina, auxiliada por boticários experientes, já demonstrava sua criatividade e supria a falta das águas termais por "suores de salsaparrilha ou de pau-da-china". Após esse tratamento inicial de "suores" abundantes, o paciente devia continuar os cuidados intensivos, caso não ocorresse a melhora. E nesses casos, o que devia fazer? "Seja a primeira mezinha untarem a nuca e o espinhaço todo com óleos seguintes. Tomem de óleo de lírio e de arruda de cada um uma onça, de aguardente do Reino meia onça com enxúndias de ganso e uns pós de mostarda pisados se faça linimento, e com ele quente se untarão as partes ofendidas, fazendo-lhe primeiro nelas uma esfregação com pano quente perfumado com alfazema. E aqui se advirta, que as partes paralíticas se não carreguem com coberturas". O autor menciona outros tratamentos por meio do que chama de "rubificantes". Um dos tratamentos mencionados é defendido por outro médico e cientista português do século XVII, o Dr. Henrique de Quintal: “... tomar folhas de mostarda bem pisadas, cozidas em


urina fresca de meninos, até que tome forma de papas, e estas moderadamente quentes se ponham nas partes paralíticas". Havia variações no uso de ervas, incluindo sempre a mostarda e muitas vezes a salva, manjerona e arruda, misturadas e cozidas em óleo para "untar as vértebras do espinhaço". Morão chega a discutir o problema da paralisia na eventual clientela pobre e que jamais poderia ter acesso a ingredientes dispendiosos como a salsaparrilha e o pau-da-china pareciam ser. O substitutivo por ele indicado era a salsa-da-praia, encontradiça com maior facilidade. As pormenorizadas informações de Morão e de outros autores já citados indicam-nos que sem a menor sombra de dúvida alguns procedimentos indicados por eles provocavam algumas curas, bastante melhora ou pelo menos algum alívio em pessoas que eram vítimas de algum tipo de paralisia nos primeiros séculos de Brasil. - *A medicina do século XVIII entre nós* As crendices passadas de geração a geração pelos escravos, índios e europeus predominavam no Brasil do século XVIII. Embora toda a situação fosse muito primitiva e nosso país não contasse com recursos significativos, alguns médicos procuraram documentar cientificamente o problema. No ano de 1741 o médico João Cardoso de Miranda escreveu um pequeno tratado intitulado "Relação Cirúrgica e Médica", dando alguns pormenores quanto às nossas doenças, nossas endemias, os contágios relacionados a males trazidos pelos negros escravizados e infecções várias. E no final do século XVIII, exatamente em 1796, o Dr. José Mariano Leal procurou organizar algumas aulas para demonstração e para tratamento cirúrgico, a fim de repassar a colegas seus as experiências que conseguira acumular durante toda a sua vida de médico. Em seus sonhos profissionais havia também a preocupação de combater mais sistematicamente a temida "lepra". E tentativas para melhorar o padrão de atendimento médico e ampliar o campo de conhecimentos da medicina ocorreram em vários pontos do país. Com esse avanço os charlatães e os barbeiros foram sendo acuados para pontos menos desenvolvidos do Brasil. No entanto, bloqueios muito sérios ocorriam e a grande maioria deles oriundos da PátriaMãe, Portugal. Em 1768, por exemplo, os vereadores de Sabará, na Província de Minas Gerais, pediram ao rei de Portugal permissão para a fundação oficial do que chamavam "Casa de Aulas", para ensinar anatomia e cirurgia, tanto na teoria quanto na prática. A resposta, vinda do reino depois de muito tramitar pelos corredores da corte, foi lacônica e desagradável ao extremo: "Não convém"... O rei procurava preservar, custasse o que custasse, a inquestionada liderança de Coimbra entre nós. De lá emanava todo o saber lusitano (Apud Calmon). Aqui em nossa Terra havia reduzido número de formados em Coimbra e todos eles localizados nas melhores cidades. Só atendiam à elite portuguesa ou aos homens mais ricos daqueles tempos. Para o povo em geral e para os pobres prevalecia a experiência dos sangradores, dos utilizadores de ventosas e sanguessugas e dos charlatães em geral. Não licenciados para essas funções, na verdade tratava-se de padeiros, barbeiros, negros experimentados, homens supostamente bem informados, mulheres habilidosas e curiosas, além dos sempre famosos curandeiros. - *Males limitadores que afetavam muito os negros escravos*


Muitos dos africanos que foram trazidos à força para o Brasil como escravos aqui sofreram muitos castigos físicos, chegando mesmo a terem o corpo marcado pelos maus tratos a eles infligidos. Muitas vezes eram vítimas de raquitismo, de beribéri, de escorbuto (também conhecido como "mal de Luanda"), ou seja, das síndromes mais sérias denotadoras de carências alimentares. "Foram portadores de defeitos físicos provocados por castigos e desastres nos engenhos" ("História Geral da Medicina Brasileira", de Santos Filho). Falando sobre os efeitos da varíola sobre os escravos negros, Sigaud nos esclarece que "com o fito de provocar a erupção e de evitar tanto quanto possível os acidentes provocados pelo seu atraso, ou também pelo surgimento de pústulas nas mucosas e em alguns Outros órgãos (casos de cegueira foram muito comuns, especialmente entre os negros), o Dr. João Alves de Moura, médico do Rio de Janeiro, mandava fazer fricção na pele com certo óleo extraído do corpo de lagartos brancos" ("Du Climat et des Maladies du Brésil", de Sigaud). - *Deficiências físicas e sensoriais entre nossos índios* Como resultado da profícua viagem de uma comissão cientifica ao Brasil durante três anos (1817 a 1820), Carl Friedrich von Martius (1794 a 1868) escreveu um interessante trabalho: "Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros". Nessa obra do botânico alemão encontraremos algumas afirmações interessantes quanto a deficiências entre nossos índios do norte do Brasil. Vejamos algumas referências do cientista: "Escoliose, "pied-bot" e deformações outras do esqueleto não observamos em parte alguma. Provavelmente, quando essas deformidades são hereditárias, o que é admissível, sacrificam as crianças aleijadas, ao nascer. Além disto é singular, e se poderá apresentar como característica da história dos costumes daquela raça, que tantos enigmas nos oferece, que o índio representa o curupira, produto de sua superstição, o assombro da mata, sempre mau e hostil ao homem, com "pied-bot" ou pé torto, voltado para trás, saindo do tórax". Em nota explicativa à informação de von Martius, o tradutor Pirajá da Silva acrescenta que o curupira "é gênio silvestre, o gnomo, anão de um pé só, ou de uma banda só. Cavalga, às vezes, um caitetu ou taitetu e transmite a desgraça a quem o avista. Sacy-pererê é outro gênio maléfico". Von Martius confirma ainda que "às vezes aparecem paralíticos e coxos; sua deformidade é sempre de origem traumática". Diz mais, quanto à cegueira: "Por causas traumáticas ficam muitas vezes cegos, porém a catarata só raramente os ataca"... A respeito da surdez o botânico alemão afirma que "os autóctones brasileiros sofrem mais dos ouvidos que dos olhos. Observamos muitos homens e mulheres completamente surdos; mais numerosos ainda eram os casos de meia surdez" ("Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros", de von Martius). - *Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho"* Um exemplo muito importante de trabalho de alta qualidade de uma pessoa portadora de deficiência física muito séria e progressiva aconteceu na metade do século XVIII e alvorecer do século XIX. Em 1800 Antônio Francisco Lisboa (1730 a 1814), apelidado pela população que o conhecia mais de perto e reconhecido por todos como o "Aleijadinho", com setenta anos de idade acertava um contrato para a execução em pedra dos doze profetas no adro da igreja do Bom Jesus dos Matozinhos. Por essa época já tinha que ser carregado, provavelmente devido


à tromboangeíte obliterante, que em seu caso se caracterizava por ulcerações nas mãos e nos pés. Com alguns dedos das mãos perdidos ou imobilizados, mandava que seus auxiliares ou empregados amarrassem o martelo e o cinzel às suas mãos. Morreu aos oitenta e quatro anos de idade, sozinho e esquecido, meio paralisado e cego. Foi um homem competente em sua arte considerada hoje como genial. O apelido de "Aleijadinho" provavelmente indica a comiseração de seus contemporâneos, muitos dos quais reconheceram sua arte e seu valor por muitos anos. - *Uma primeira tentativa em projeto de lei: ajuda a cegos e a surdos* Desde 1835 surgira formalmente no Brasil a idéia de se fazer algo sério em favor dos cegos, o que na certa já ocorrera em anos anteriores por meio da iniciativa privada, tendo sido já tentado em alguns pontos mais civilizados de nossa jovem pátria. Infelizmente a idéia não foi concretizada, mas o leitor interessado poderá encontrar nos Anais da Câmara de Deputados do Rio de Janeiro, um projeto de lei datado de 29 de agosto de 1835, que está assim redigido: "Art. 1°. - Na Capital do Império, como nos principais lugares de cada Província, será criada uma classe para surdos-mudos e para cegos". O Deputado Cornélio Ferreira França, seu autor, devido a motivos políticos não esclarecidos, nem chegou a ver seu projeto devidamente discutido em plenário. Seu mérito, porém, e incontestável. Apesar da restrita distribuição da notícia, chegou a chamar a atenção da sociedade para o assunto e despertar o interesse dos familiares das pessoas cegas, surdas e surdas-mudas. - *O problema das amputações do século XVI ao XIX* Durante os primeiros quatro séculos de nossa História, as amputações foram a mais séria e a mais comum das cirurgias. Compreende-se, dessa forma, a conotação dada naqueles séculos à cirurgia como técnica mutiladora. Naturalmente as amputações ocorriam devido a acidentes, gangrena, tumores, golpes violentos, entre diversas outras causas. O que sucedia com os amputados, no entanto, não nos é relatado pelos historiadores nem pelos cronistas. Os nossos "físicos", como eram conhecidos os médicos, e os barbeiros que tinham licença para ser cirurgiões, dispunham de poucos e mal conservados instrumentos cirúrgicos. Santos Filho relata-nos ilustrativamente que o cirurgião-mor do Hospital Militar de São Paulo, em 1804 dispunha para amputações de uma única serra de carpinteiro. Os demais ferros de cirurgia eram mal conservados e guardados em qualquer lugar. Muitos morriam em conseqüência da cirurgia, em grande parte devido a infecções pósoperatórias. Não é de estranhar que isso acontecesse. Basta ler um pequeno trecho de Luccock, que em 1809 visitou um cirurgião alemão em São Pedro do Rio Grande do Sul. Ele "praticava tanto a cirurgia como a medicina e de uma feita os instrumentos que usava caíram sob os meus olhos. Estavam na maior das desordens e absolutamente impróprios para a mais vulgar das intervenções. Tomando de uma serra enferrujada, perguntei-lhe se se atreveria a amputar um membro com semelhante instrumento. "Por que não?", replicou, "é a melhor que possuo e ninguém mais aqui é capaz de realizar tal operação" ("Notas sobre o Rio de Janeiro e Partes Meridionais do Brasil", de Luccock). - *A influência européia no Brasil*


No ano de 1841 Dom Pedro II mandou construir um hospital de misericórdia ligado à corte, a fim de substituir as superadíssimas e sujas enfermarias da praia de Santa Luzia. O estilo da nova construção adotava uma mistura do gótico com o neoclássico. O edifício era portentoso, digno de alguns países europeus bem adiantados. E com a presença da rica colônia portuguesa que aqui se radicara em definitivo, começou também a surgir nas cidades mais importantes do Império as chamadas "Beneficências Portuguesas", sustentadas por taxas diversas cognominadas de "impostos da vaidade". O Imperador, com o propósito de incentivar essas iniciativas e também aquelas que levavam à criação e à manutenção das Santas Casas de Misericórdia, honrava-as com títulos e condecorações. De outra parte, com a própria Independência do Brasil já havia ocorrido um inegável bloqueio à influência científica de Coimbra em nosso meio. Nossos estudiosos começaram a procurar as escolas e as universidades francesas, alemãs e austríacas. E a civilização francesa principalmente começou a invadir o Brasil sedento de cultura e de modernização, chegando a dominar nossos usos e costumes por aproximadamente um século todo. Alunos jovens de famílias ricas, bolsistas, ou estudantes das mais variadas origens lá iam estudar e, ao voltar, começavam a criar o nosso próprio ensino e o nosso próprio meio técnico e cultural. Foi o que ocorreu com a medicina entre os anos de 1824 e 1854. Foi também o que sucedeu no campo de atendimento a pessoas com deficiências. - *Organizações para pessoas deficientes criadas por Dom Pedro II* No campo da assistência à população prejudicada por alguma deficiência em épocas anteriores aos meados do século XIX, não encontramos nada de relevante. A pessoa vítima de alguma paralisia, alguma deformação congênita, algum tipo de amputação ou em conseqüência de alguma doença mais grave, certamente acabava por se tornar responsabilidade de sua própria família. (* Mesmo hoje, aqui no Brasil, o problema continua pouco alterado. Temos, entre nós, aproximadamente dez milhões de pessoas deficientes, mas não as vemos. Onde estão elas? Nos quartos dos fundos da casa? Nos quintais cercados por altos muros? Institucionalizadas? Longe dos olhos curiosos do povo? Essa população "continua" sendo responsabilidade de suas famílias...). As condições delas no Brasil do século XIX não era outra. Ou antes, certamente que era outra e bem pior do que hoje - e as pessoas apelidadas de "aleijadas", "manetas", "pernetas", "zambras", "cambaias", "mancas", "paralíticas", "ceguinhas", "loucas", "bobas" e defeituosas de um modo geral ficavam sendo problema de seu grupo familiar e nunca do Estado ou da sociedade. As tendências européias que chegavam ao porto do Rio de Janeiro com o atracar dos navios de passageiros, com a distribuição das revistas atrasadas, com os livros publicados meses antes nos países mais adiantados e influentes e também com o contínuo retorno ao Brasil de homens inteligentes, estudiosos, bem preparados e interessados em sua Terra Natal, acabaram provocando o esperado avanço brasileiro no sentido da modernização. Foi por esses anos de renovação cultural e de ânsia de modernização que foram criadas três organizações por iniciativa de Dom Pedro II, homem público que esteve sempre muito voltado para as conquistas da civilização européia para a solução de problemas cruciais da população. A elas nos limitaremos neste capítulo. a) Imperial Instituto dos Meninos Cegos Em termos de empreendimentos concretos, nada havia sido feito no Brasil Imperial em favor dos cegos até 1854, a não ser algumas iniciativas privadas de mero alojamento, asilo ou segregação dos cegos em instituições mal organizadas. Mas no dia 17 de setembro de


1854 foi inaugurado por Dom Pedro II o primeiro recurso de iniciativa da coroa brasileira, ainda modesto mas bastante significativo: o Imperial Instituto dos Meninos Cegos. De onde surgira a idéia? Por que a corte brasileira poderia estar interessada em manter uma organização especialmente dedicada aos garotos deficientes da visão? Por que o próprio Imperador havia se envolvido a ponto de dar o peso da autoridade do governo a essa nova organização? Dentre os fatos mais relevantes que cercam a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos cumpre que destaquemos que no ano de 1853 desembarcara no Rio de Janeiro, proveniente da França onde havia ido estudar no já famoso Institute des Jeunes Aveugles de Paris, o jovem brasileiro José Álvares de Azevedo. Muito animado com o progresso que sentira em sua própria educação e especialmente com as alterações positivas verificadas em sua vida pessoal, esse jovem pensara muito durante seus estudos e durante sua longa viagem de volta ao Brasil, e decidira, antes mesmo de pisar a terra natal e ser recebido pelos seus familiares, considerar como sacerdócio, como missão de sua vida, comunicar a outros brasileiros também cegos tudo o que havia aprendido. E pouco tempo após sua volta, em sua busca de autoridades brasileiras que poderiam se interessar e apoiar o que considerava sua missão, ficou sabendo que o Dr.Xavier Sigaud, médico da família imperial, tinha uma filha cega. Animado e instigado por sua idéia de organizar no Rio de Janeiro uma instituição semelhante àquela que lhe dera tanto durante anos em Paris e que pudesse ser realmente útil aos cegos brasileiros, procurou a residência do Dr. Sigaud e ofereceu seus serviços para a educação especial da jovem Adélia. A oferta, surpreendentemente generosa e interessante, foi aceita e acabou dando ótimos resultados em muito pouco tempo. Adélia Sigaud aproveitava ao máximo os ensinamentos práticos transmitidos pelo jovem Azevedo, deixando toda a família muito contente. O Dr.Xavier Sigaud comentou com a família imperial e com o próprio Imperador sua felicidade, os trabalhos de ensino de sua filha e os evidentes e rápidos progressos observados. Como era de se esperar, Dom Pedro II percebeu logo a importância de um apoio oficial a essa causa e mandou organizar, ligada à corte brasileira, uma instituição que seguia quase que até no próprio nome aquela onde Azevedo havia estudado, ou seja, o Institute des Jeunes Aveugles, de Paris. A nova organização levou o nome de Imperial Instituto dos Meninos Cegos. As primeiras regletes, punções, chapas para escrita e os primeiros livros de pontos combinados em relevo chamados de "escrita pelo método Braille" foram encomendados e chegaram ao Brasil em 1856, tendo sido uma doação pessoal do Imperador ao novo Instituto. E vale a pena relembrar e enfatizar aqui que esse sistema de escrita em relevo recémestabelecido e reconhecido na França apenas naqueles anos, dava, com essa encomenda de Dom Pedro II, seu primeiro passo no sentido de sua internacionalização. O pedido brasileiro foi executado com esmero e foi o primeiro em uma língua que não a francesa. O jovem idealizador não teve a ventura de ver o Instituto instalado e em funcionamento, pois faleceu no dia 17 de março de 1854, com apenas 17 anos de idade. Adélia, sua pupila aplicada e inteligente, embora por muito pouco tempo, foi professora do Imperial Instituto dos Meninos Cegos e atuou no ensino de cegos até sua aposentadoria. Por sua vez, seu pai, o Dr.Xavier Sigaud, foi indicado para seu primeiro diretor pelo Imperador Dom Pedro II. Foi dezoito anos após sua instalação que o Imperador fez a doação de um vasto terreno ao Instituto, à avenida Pasteur, no Rio de Janeiro, onde até hoje encontram-se as portentosas e muito conhecidas instalações do Instituto.


No entanto, segundo Silvado, durante muitos anos o Instituto só foi um mero asilo e não passou disso, sempre sob a custódia imperial. "Em uma palavra: uma escola que se limitava a preparar apenas seus próprios professores" ("Les Aveugles au Brésil", de Silvado). Muitos desses mestres chegaram a ser nomeados sem qualquer qualificação para sua missão. Os poucos casos de sucesso aconteceram mais devido aos esforços pessoais de alunos mais aplicados e inteligentes do que ao sistema de ensino adotado. Este era excessivamente técnico e as oficinas ali montadas limitavam-se às de tipografia e de encadernação para rapazes, e de tricô para as meninas. A afinação de pianos, tão comum como atividade profissional bem remunerada para cegos em muitos países, não foi levada muito a sério entre nós, nem o Imperial Instituto dos Meninos Cegos deu a ela qualquer ênfase. Cláudio Luiz da Costa foi o segundo diretor do Instituto. Este homem de sérios propósitos tinha uma filha que havia casado com um jovem professor de matemática que lecionava no Instituto desde 1861: Benjamin Constant. Este sucedeu o sogro na direção do Instituto, por indicação do Imperador, dirigindo-o por vinte anos seguidos. Durante os anos que dedicou à direção do Instituto dos Meninos Cegos participou ativamente e foi um dos líderes na preparação das idéias para a Proclamação da República. Como diretor do Instituto procurou chamar a atenção das autoridades imperiais para o estado lamentável em que o Instituto se encontrava, propondo diversas soluções, sem ter obtido qualquer decisão. Com a Proclamação da República parece que conseguiu seu intento. Elevado ao poder na qualidade de Ministro de Estado, o ex-diretor do Instituto conseguiu rapidamente o decreto para sua reforma. A construção do prédio definitivo, que começara em 1872, foi concluída em parte e suas novas instalações foram ocupadas apenas após a Proclamação da República, ou seja, no ano de 1890. Foi no dia 17 de maio de 1890, pelo Decreto 408, assinado pelo Marechal Deodoro da Fonseca e por Benjamin Constant, que o Instituto mudou de nome e teve seu regulamento aprovado. Diz o Decreto: "O chefe do governo provisório, constituído pelo Exército e pela Armada, em nome da Nação, resolve aprovar o regulamento para o Instituto Nacional dos Cegos, que a este acompanha, assinado pelo general de brigada Benjamin Constant Botelho de Magalhães, Ministro da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, que assim o faça executar. Palácio do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, 17 de Maio de 1890 - 2ºda República". No entanto, Benjamin Constant faleceu logo a seguir, em 1891, e o governo republicano rebatizou o Instituto em sua homenagem com o seu nome atual: Instituto Benjamin Constant. b) Instituto dos Surdos-Mudos Existe também um relato publicado em 1887 por Tobias Leite, sobre o Instituto dos Surdos-Mudos, hoje conhecido como o Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES. Era um centro vinculado à coroa brasileira, por Decreto de Dom Pedro II. Tratava-se, à época de sua criação, de uma organização especial, também criada e inaugurada por Dom Pedro II, e que se caracterizava como um estabelecimento de educação que tinha como finalidade a educação literária e o ensino profissionalizante para garotos surdos-mudos. Embora não houvesse o volume de conhecimentos relacionados à surdez como ocorre hoje, já naqueles anos algumas preocupações básicas transparecem no relato indicado acima: "O ensino pela palavra articulada e leitura sobre os lábios, está a cargo de um professor


expressamente habilitado na Europa, para dá-lo aos surdos-mudos nas condições de recebêlo". Havia nesse Instituto ensino da linguagem escrita, para o qual o estabelecimento contava com coleções européias de objetos, instrumentos, aparelhos e estampas que enriqueciam seu museu escolar, coleções essas bem completas que cobriam assuntos relacionados a substâncias alimentares, habitações, instrumentos de caça e pesca, "meios de locomoção terrestre desde o burro até o trem de caminho de ferro", meios de navegação, fios para roupas, lãs, calçados, utensílios para a vida nas cidades e nos campos, móveis, materiais para construção, globos e mapas geográficos e outras mais. A maior parte desse material fora trazido da Europa, como era costumeiro em quase todas as áreas do ensino em todos os níveis. A educação profissional mantida pelo Instituto dos Surdos-Mudos do Rio de Janeiro era dada em oficinas de sapataria e de encadernação. (* Algumas instituições existentes ainda hoje lançam mão apenas dessas duas áreas de treinamento). O rendimento pela venda dos produtos era dividido em 2 (duas) partes: uma pagava o custo do produto e a outra era recolhida à Caixa Econômica, já existente no final do século XIX, e era escriturada nas cadernetas individuais de cada aluno. Ao final do curso cada um retirava o capital somado aos juros. Nesse Instituto eram admitidos alunos entre 7 e 14 anos de idade, apenas do sexo masculino. Viviam em regime de internato, sem qualquer distinção de tratamento ou de instalações entre garotos ricos ou pobres. Nenhum deles pagava qualquer tipo de contribuição para ali ser internado e educado. Numa orientação aos pais e à sociedade em geral, o autor da obra aqui analisada fazia algumas considerações quanto à futura vida profissional do ex-aluno surdo-mudo. E dentre as orientações mais interessantes cumpre destacar as seguintes: - "É inquestionavelmente de máxima importância e conveniência que o surdo-mudo tenha um ofício, ou arte de que subsista". - "Na escolha do ofício ou arte a que o surdo-mudo deve aplicar-se, convém atender-se à sua constituição física, à localidade em que tem de residir, à sua aptidão e até à posição ou gênero de vida de seu pai". - "Em geral, as artes e ofícios convêm mais aos habitantes das cidades e a agricultura aos dos campos". - "Das artes e ofícios devem ser preferidos os que podem ser exercidos em qualquer parte, cidade ou pequenos povoados. Sapateiro, alfaiate, correeiro, torneiro, oleiro, chapeleiro, tintureiro, impressor e encadernador, são indústrias que muito lhe convém". - "Os ofícios de carpinteiro, pedreiro e outros que exigem comunicações simultâneas com o trabalho, não lhe são tão convenientes". Princípios básicos da programação do Instituto já eram bem estabelecidos e de certa forma bem aplicáveis para nossos dias, embora tivessem sido formulados há cem anos atrás: ... "os que não se deixam levar pelas exterioridades e encaram as situações pelo lado utilitário entendem que o objetivo da educação dos surdos-mudos é dar-lhes uma profissão de que subsistam nobremente, e habilitá-los a comunicar-se com os seus concidadãos pelo meio que lhes for mais fácil e mais cômodo" ("Notícia do Instituto dos Surdos-Mudos no Rio de Janeiro", de Leite). c) Asilo dos Inválidos da Pátria


Outro relato de extrema importância para análise de atitudes predominantes no Brasil Imperial com relação a pessoas portadoras de deficiências diversas é o que se relaciona com o "Asilo dos Inválidos da Pátria", de autoria de Manoel da Costa Honorato e intitulado "Descripção Topográphica e Histórica da ilha do Bom Jesus e do Asylo dos Inválidos da Pátria", publicado no ano de 1869 pela Typographia Americana. Esta organização, destinada ao abrigo e à proteção dos soldados brasileiros mutilados em guerras ou em operações militares, surgiu em nossa terra, não só devido a uma necessidade premente da segunda metade do século XIX, mas também, para a grande maioria dos governantes e da população, por uma questão de gratidão e de justiça para com os jovens soldados feridos ou "inutilizados" para a vida militar e talvez até para a civil. No entanto, nota-se nas entrelinhas de crônicas da época um outro motivo, ou seja, o forte orgulho de uma jovem Nação do Novo Mundo que não pretendia ficar muito atrás das nações civilizadas da Europa. Orgulho, ufania, comiseração, caridade, emoção, interesse genuíno, reconhecimento patriótico a seus heróis, alguns lances literários e pouco práticos sobre integração à família e à sociedade, e muito mais, um leitor curioso poderá encontrar nessa interessante obra. É um relato bem elaborado, curioso, ao estilo da época imperial, às vezes emotivo, apresentando ambientes e circunstâncias que cercaram a criação e principalmente a inauguração de um abrigo oficial (esse o verdadeiro sentido da palavra "asilo") para os soldados que estavam lutando uma guerra sangrenta e muito difícil contra o desafiador vizinho nosso que era o Paraguai, e que poderiam voltar para o Brasil doentes ou incapacitados, tanto para o serviço militar quanto para atividades da vida civil. A idéia da criação do Asilo dos Inválidos da Pátria encontra vários similares na Europa do século XIX, dentre os quais o mais famoso do mundo todo era o "Hôtel des Invalides" (Palácio dos Inválidos) de Paris. Luís XIV mandara edificar esse monumental abrigo para soldados desde o século XVII, mas suas obras haviam sido concluídas pomposamente apenas no século XIX, um pouco antes do empreendimento brasileiro. Havia outros exemplos, como o Chelsea Hospital, em Londres; o Invalidenhaus, em Berlim; as Soldier's Homes, nos Estados Unidos da América do Norte em várias de suas unidades federadas. A Espanha mantinha o conhecido Cuartel de Invalidos, em Madri, junto à igreja de Atocha. Na Itália existia o Ricovero dei Veterani, localizado em Milão, enquanto que na Turquia havia o Malja El-Kuçah, em Constantinopla. A Áustria já organizara o Kund Iz Invalidenhaus, na cidade de Thyrnan que hoje fica na Hungria. A Grécia tinha sua organização com o nome de "Tephonomeisda" na cidade de Atenas. Muito mais perto do Brasil, o Uruguay contava com o Asilo de Invalidos na cidade de Três Cruces e a Argentina com o Asilo de los Invalidos, na própria capital Buenos Aires. Muito mais próximo à cultura brasileira havia também o exemplo dado pelo reino de Portugal, que durante o governo de Dom José I (entre 1750 e 1777) fundara o Asilo dos Inválidos Militares, também conhecido como Hospital de Runa, organizado e inaugurado pela princesa Dona Maria Francisca Benedicta. Trata-se de um edifício em um só andar, mas bastante imponente, que havia sido uma quinta e fora adaptado para os fins acima. Só a título de curiosidade, o Asilo famoso tinha 99 metros de frente, por 61 metros de fundo e era acabado em mármore. O nosso Asilo dos Inválidos da Pátria, entretanto, era composto de edifícios mais simples do que aqueles que Luís XIV mandara construir para seus soldados, mas talvez correspondessem mais aos bons sentimentos daqueles que haviam patrocinado sua edificação. "O luxo foi inteiramente banido dos edifícios em que os bravos abrigam-se, pois, o luxo não é decência", segundo Honorato.


Analisemos, porém, alguns pontos desse precioso documento para nele buscarmos indicativos do modo de ver a pessoa deficiente e das atividades dominantes, que muitas vezes transparecem no linguajar inflamado e colorido do autor, ou no conteúdo dos documentos e dados transcritos na mesma obra. A idéia da criação do Asilo não foi novidade no Brasil. Já em 11 de março de 1840 Dom Pedro II havia criado na corte brasileira e nas Províncias do Pará, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, asilos para receberem soldados incapacitados para o serviço militar, ou em vias de baixa da ativa, por doença, por deficiência ou por idade. Em 30 de novembro de 1841, também por Decreto Imperial, criara-se nas imediações da corte brasileira um asilo de inválidos que, graças a uma Resolução da Assembléia Geral, recebera um pormenorizado regulamento para seu funcionamento e para que um soldado fosse ao mesmo admitido. Pelo que se pode deduzir, pouca gente era ali recolhida, pois por um Decreto de 1843, Dom Pedro II mandou ali recolher também os marinheiros deficientes. Todavia, apesar dos esforços e dos investimentos para garantir no Brasil os indícios de civilização no estilo europeu, e também por falta de experiência e de conhecimento de causa, nenhuma dessas medidas havia sido implantada. Eram empreendimentos puramente militares e de questionável qualidade. "Sem disciplina, ordem e asseio, eram essas companhias mais centros de distúrbios e focos de vícios do que asilos protetores de mutilados da pátria", segundo Honorato. No dia 25 de fevereiro de 1865, quando o Brasil se empolgava numa resposta efetiva a provocações e a incursões paraguaias e marchava para a guerra, os filiados, diretores e membros mais proeminentes da Comissão da Praça do Comércio do Rio de Janeiro reuniram-se no Palácio Imperial e, ansiosos para colaborar de alguma forma com os esforços do governo e dos homens que, deixando tudo, lutavam abertamente contra o inimigo, resolveram defender a idéia de angariar fundos e tomar providências para criar um "asilo para os que se invalidassem pela pátria"..."e em sessão solene desse mesmo dia 25 de fevereiro, foi aclamado seu presidente nato o nosso Augusto Monarca o Senhor Dom Pedro II". O imperador deve ter apreciado muito a idéia, que talvez tenha até brotado de seu espírito estudioso e interessado ou de algum colaborador recém-chegado do Velho Mundo e conhecedor das experiências ali mantidas. O fato é que louvou os planos todos e nomeou um delegado seu para a missão, não se omitindo, porém, de seguir pessoalmente as providências necessárias. "Escolheu o lugar que melhor lhe pareceu para que os inválidos tivessem liberdade sem obstáculos da massa popular e gozassem de melhor clima, mandou fundar os edifícios e ativou aos trabalhadores, a fim de que não houvesse retardamento, animando-os com sua presença quase diariamente". O Asilo foi construído numa pequena e muito aprazível ilhota conhecida como a ilha do Bom Jesus, em plena Baía da Guanabara. E Dom Pedro II, numa festa engalanada e completamente dedicada aos heróis mutilados ou paralisados na guerra contra o Paraguai, inaugurou o Asilo no dia 29 de julho de 1868, aniversário de nascimento de sua filha e herdeira do trono brasileiro, a Princesa Isabel. Conta-nos Honorato que "às 9,30 horas era recebido Sua Majestade o Imperador ao som do Hino Nacional, que de todas as partes se ouvia, repiques de sinos e salvas". Com ele estavam a Imperatriz Da.Thereza Christina, a Princesa Isabel e o Conde d'Eu; também presentes estavam todos os seus ministros de estado, o corpo diplomático em peso, o corpo consular, as autoridades eclesiásticas e também os oficiais de navios de guerra americanos, ingleses, franceses e espanhóis que com a sua presença demonstravam apoio formal à causa


brasileira; e, como não podia deixar de ser, havia muita gente representativa do comércio, da indústria, das corporações e muito povo. A chegada do Corpo dos Inválidos, como era conhecido o grupo de oficiais e soldados mutilados, parece que foi muito comovente ao Imperador que tanto havia acarinhado aquele projeto e que tanto apreciava o sacrifício feito pela Pátria Brasileira. E deve ter sido comovente também à família imperial; e certamente muita gente vibrou com o foguetório, com o repicar dos sinos, enfim, com a "pompa e circunstância" toda que fora armada na ilha do Bom Jesus. O próprio Imperador, em seu traje de gala, "com sua Imperial família e sua corte pôs-se no lugar do desembarque a fim de receber os infelizes que eram objeto da solenidade". Bandeiras tremulavam por todas as partes, arcos triunfais estavam montados desde o cais até a capela onde seria cantado um solene "Te Deum" e todos estavam colocados em alas para a passagem dos"mutilados de guerra", sob salvas de palmas e vivas misturados a marchas militares, na manhã ensolarada da baía da Guanabara. Pela narrativa de Honorato, os heróis assim recebidos, porém, "eram infelizes" e à Pátria restava amenizar seus dias para viverem em paz. Todos eles estavam voltando da frente de batalha contra os paraguaios e recebiam - pelo menos naquele dia - o carinho de seu Imperador e de toda a multidão presente. "... Aqueles homens foram os que inutilizaram-se pela Pátria, foram os bravos que regaram os campos de batalha com o sangue de suas veias, foram os que viram para sempre a estrela fagueira, que lhes acenava para o futuro, desaparecer"... O Corpo dos Inválidos era composto de oficiais, cadetes e soldados, quase todos mutilados ou sem maiores possibilidades de atuar no serviço militar ativo. E eram todos pobres - segundo relato da época - e não tinham qualquer chance de receber da sociedade brasileira do final do século XIX muita coisa, a não ser talvez compaixão, como podemos notar nas entrelinhas de alguns documentos transcritos no livro de Honorato que aqui estamos analisando. O Imperador brasileiro, ao notar a finalização das manobras de atracação do barco que trazia o Corpo dos Inválidos, quebrou o protocolo e dirigiu-se à prancha de desembarque. "Os raios do sol, a fadiga do cansaço, a aglomeração do povo, a demora do desembarque não o incomodaram; com o semblante risonho, a todos os que desembarcavam dava a mão, ajudava-os a subir a escada de desembarque e recomendava aos demais que facilitassem-lhes a passagem, ajudando-os em seu caminho; e a Imperatriz parecia atravessada por tantas setas quantos eram os mutilados que passavam"... Esse corpo de soldados prejudicados por ferimentos graves, por amputações ou por doenças sérias, durante a guerra contra o Paraguai, havia sido provisoriamente instalado na Ponta da Armação, da Marinha Brasileira, e no dia da inauguração do Asilo correspondiam a "29 oficiais, 67 sargentos, 6 cornetas, 1 coronheiro, 7 músicos, 239 cabos e semelhantes, 1.010 soldados e 1 tambor". E, no mesmo lote de doentes e deficientes do exército brasileiro, "havia também 42 prisioneiros paraguaios nas mesmas condições físicas". Num comentário empolgado Honorato analisa com ênfase o sentimento brasileiro naqueles exatos momentos: "Quando pensaram nossos antepassados que o Brasil possuiria um estabelecimento tão importante, que transmitirá às gerações vindouras a idéia do verdadeiro reconhecimento aos que por ela sacrificaram-se? Pois bem, o Brasil já não deve estar tão atrás da civilização; o Brasil, rico em tudo, será também nobre de sentimentos. Os inválidos são pobres, é verdade; porém, são nobres; eles deram em favor da pátria tudo quanto tinham, a vida, a saúde, tudo eles expuseram; e por atos de tanta generosidade são credores de tudo quanto em seu favor se possa fazer".


Mas vale a pena conhecer um pouco do cenário da festa toda. O Asilo dos Inválidos da Pátria estava localizado na ilha do Bom Jesus, e a descrição de Honorato é esta: " ... desde logo principia a ver os edifícios que constituem a encantadora vista do Asilo dos Inválidos; vê uns à beira da praia entre dois elevados morros, cercados todos da bela verdura que orna esta aprazível ilha, e com suas imponentes perspectivas atraindo a atenção de quem para aí se dirige". Na realidade, a "aprazível vista" - irreconhecível no Rio de Janeiro do século XX - referiase a dois edifícios, um em cada lado do ancoradouro; o da direita continha em seu andar térreo as oficinas destinadas às atividades dos asilados. Veja-se, portanto, que já na fase de planejamento havia sido considerado, como em vários projetos similares europeus, o fator ocupação e, quem sabe, a aquisição de conhecimentos profissionais suficientes para o individuo poder deixar o Asilo, se quisesse integrar-se na sua própria comunidade, como era, aliás, permitido pelo Regulamento. O andar superior do primeiro prédio era destinado apenas a uma espécie de museu militar, O outro edifício - o da esquerda do cais - era também de dois andares e servia para enfermaria e acomodação dos mais doentes no andar superior, enquanto que no inferior residiam as irmãs de caridade que eram as responsáveis pelos serviços de enfermagem da entidade. Dos edifícios localizados nas elevações, um servia para cozinha e como refeitório, pois só no dia da inauguração o Corpo dos Inválidos contava com aproximadamente 1.500 homens. O pavimento superior servia para recreação e lazer dos asilados. Havia na ilha também um antigo convento franciscano que o Asilo utilizava como escola primária para os asilados, sob a responsabilidade do Capelão. Mais para trás e para o interior da ilha, seguindo paralelo ao antigo convento, havia outro prédio para abrigo de outras companhias de "inválidos". E, separado de todos, havia também o local onde se abrigavam os prisioneiros paraguaios. Terreno havia bastante na ilha para hortas e para diversos tipos de plantação mais extensa, nas quais os soldados ali recolhidos eram de certa forma "obrigados" a atuar, de acordo com sua capacidade física. O próprio Regulamento do Asilo diz: "Compete ao Comandante do Asilo: ..6º Obrigar os inválidos a que trabalhem na horta, nas oficinas, conforme suas aptidões e forças físicas". Cremos não ser muito de espantar essa autoridade para obrigar os soldados a fazer isto ou aquilo, uma vez que o Artigo 8º das Instruções para o Asilo diz muito claramente: "O Asilo fica sujeito ao regime e disciplina militar". Havia, pelo Regulamento já indicado, obrigatoriedade de participação e de colaboração também nos aspectos financeiros. Na verdade, cada soldado ou oficial ali recolhido por invalidez ou doença deveria contribuir para as despesas do estabelecimento com as pensões que recebiam do Tesouro Nacional; os que não recebiam pensões, por serem idosos, por exemplo, deviam contribuir com a metade do soldo de sua reforma. No entanto, cumpre destacar que não era vedado ao internado trabalhar no próprio Asilo e ganhar algum dinheiro extra. Pelo Artigo 19, por exemplo, fica bem claro que tanto os oficiais quanto os praças considerados como inválidos poderiam exercer no Asilo os empregos que seriam compatíveis com suas forças físicas - e eram remunerados pela atividade . E havia mais - alguns dos que eram casados poderiam viver com suas mulheres e filhos, em quartos próprios, sendo até possível às mulheres trabalhar no próprio Asilo com as irmãs de caridade. Quanto aos produtos, tanto de horta quanto de oficinas, o Regulamento estabelecia que eram todos destinados ao proveito do estabelecimento, no que se referia aos da horta.


Quanto aos da oficina, dois terços destinavam-se aos indivíduos que os haviam produzido e uma terça parte era creditada em favor do Asilo. Do esmerado sermão proferido na cerimônia religiosa de 29 de julho de 1868 pelo Cônego Joaquim José da Fonseca Lima, com a presença de Dom Pedro II, de tantas autoridades e dos beneficiários do novo Asilo, encontramos palavras que representam vislumbres de total compreensão daquilo que é integração social, idéias que já brotavam naquelas épocas em ambientes mais cultos e seletos - há mais de um século atrás: "O inválido da pátria que aqui vier descansar à sombra de seus louros, terá ainda o honroso direito de tomar parte na vida ativa da sociedade: o seu trabalho continuará a enobrecer sua existência"... José Joaquim de Lima e Silva, Presidente da Comissão Central da Praça do Comércio do Rio de Janeiro, em seu relatório datado de 31 de agosto de 1869, um ano após a inauguração do Asilo, afirma textualmente: "É hoje na velha Europa questão duvidosa a eficácia dos asilos para os inválidos, embora ali se veja obras soberbas para esse fim, como o dos Campos Elíseos em Paris e do Greenwich em Inglaterra; sustentando muitos a preferência de se deixar o inválido livre na escolha de sua moradia e trabalho, recebendo do estado a pensão e socorro que as leis criaram ou criarem". E continua o interessante relatório: "Que o inválido deve ser livre em recolher-se ou não ao asilo é questão que nos parece liquida e jamais pensamos que, criando o asilo, se faça dele uma morada forçada para o inválido e principalmente quando atendendo para o caráter dos nossos homens vemos que eles são essencialmente e em grande número, amigos da vida social ou da família, e que assim preferirão a mais humilde choupana ao mais deslumbrante palácio, contanto que ali encontrem o prazer da família que aqui não podem ter. Essa liberdade de vida e esse amor da família não dispensa a criação do asilo, que será sem dúvida procurado por muitos que nele acharam os cômodos que não podem encontrar em outra parte e para quem o sentimento ou o amor da família não e dominante"... Mas, o sonho não durou muito tempo, não. Terminada a guerra contra os paraguaios e os envolvimentos brasileiros em ações armadas, terminou também a euforia e o projeto caiu no rápido esquecimento do governo e do povo. Logo após a proclamação de nossa República, a situação na ilha do Bom Jesus já estava péssima. No ano de 1899, ou seja, dez anos de República, um jornalista resolveu tirar tudo a limpo e foi à ilha famosa. Era Ernesto Senna. Seu relato, em cores muito vivas e realistas, deixa-nos a sensação de um sonho desmoronado - talvez bem pior do que isso. Nem o Império soubera manter o Asilo dos Inválidos da Pátria, nem a nova República por ele se interessara. A burocracia ministerial acabara deformando o empreendimento. Algumas frases do jornalista serão suficientes para que compreendamos a fraqueza da organização e a debilidade do interesse. A sorte dos mutilados de guerra passara a ser problema deles mesmos. ... "Repetidas queixas chegaram à redação do Jornal do Comércio sobre o estado de abandono em que se achava o Asilo. Tantas foram elas que há tempos enviamos à ilha do Bom Jesus um nosso representante para "de visu" conhecer a realidade das queixas. Efetivamente eram justas e mereciam ser de pronto sanadas. Repugnava-nos, então, dar publicidade minuciosa do estado do Asilo, contando com as providências que se esperavam fossem tomadas pelo Quartel Mestre General, Senhor General Santiago, que havia visitado o estabelecimento e que mostrava-se interessado em melhorar a situação dos inválidos ali recolhidos. Como, porém, fossem improfícuas as medidas tomadas, a julgar pelo estado cada vez mais deplorável em que se acham aqueles servidores da pátria, resolvemos hoje publicar


as notas que colhemos em uma recente visita, depois de uns ligeiros reparos que foram feitos no edifício." ..."dos 46 prédios que existiam em 1869, todos pertencentes ao Estado, apenas existe uma meia dúzia em ruínas, graças ao abandono e à indiferença. Os inválidos construíram à sua custa, por toda a ilha, 36 casinhas (ranchos), onde habitam com suas famílias, já por falta de acomodações no Asilo, já para evitar a morada em velhos pardieiros, que ameaçam ruínas" ... ... "Logo ao desembarcar na ilha notamos o abandono em que está a instituição acobertada com o pomposo título de Asilo dos Inválidos da Pátria. O capim cresce com abundância e o local que se prestava para um belo e formoso jardim apenas ostenta vistosas palmeiras enfileiradas em frente do edifício enegrecido pela ação do tempo, pela falta de pinturas e de consertos externos e internos"... ... "Mas quem transpuser a entrada principal de uma ou outra ala do edifício, sente certa opressão ao reparar nas escadas velhas, imundas, deixando à mostra os montantes laterais do estuque sem reboco e os ferros azebrados pela umidade que se escoa pelas paredes e onde existem faltas de táboas. Galqando a escada da ala direita, no segundo pavimento, o visitante sente as exalações das imundas latrinas sem água, sem portas, sem tampas e sem a menor atenção aos preceitos de higiene. É nesta ala do edifício que se acham os quartos reservados aos oficiais" ... ... "Velhas camas de ferro enferrujado, com as molas partidas e sem táboas e sobre elas colchões imundos e travesseiros que reclamam de muito um lugar na ilha da Sapucaia"... ... "O estabelecimento não fornece ao oficial nem um acessório de cama ou de quarto, de maneira que para lavar o próprio rosto é preciso que comprem bacia" ... ... "Latrinas foram colocadas nos alojamentos unicamente por luxo, pois que não existe encanamento para o serviço das mesmas. Não tem o Asilo mesas dignas de figurarem no refeitório, porque as duas que vimos, apesar de serem de mármore, precisam de guarnições e de pronta pintura"... ... "As praças não têm um banheiro e o fogão para as que tem família é comum, pois, está no pavimento térreo do alojamento dos casados e consta de um grosso paredão de tijolos com 36 bocas, e isto mesmo em péssimas condições" ... O artigo de Ernesto Senna entra em pormenores suficientemente claros quanto ao estado de coisas, apenas 30 anos após a festiva inauguração do Asilo dos Inválidos da Pátria, orgulho de um Brasil progressista. No entanto, o que escapou ao arguto jornalista é que o Ministério da Guerra já iniciara providências muito sérias para a devida recuperação do Asilo. Tanto é verdade que o Governo Republicano com ele se preocupava, que os heróis mutilados ou gravemente enfermos vindos da Guerra de Canudos para lá foram encaminhados no ano de 1897/98. Reformas muito sérias foram empreendidas e alguns dos edifícios em piores condições foram demolidos e substituídos. Se o leitor desejar conhecer algumas das instalações do Asilo dos Inválidos da Pátria, precisará saber o seguinte: 1. A ilha do Bom Jesus não existe mais. Ela foi inserida nos imensos trabalhos de aterro da ilha da Cidade Universitária, que eliminou algumas ilhas e as uniu num bloco só. No entanto, as pontas e contornos das ilhas do Fundão e do Bom Jesus permaneceram inalterados, embora ligados à ilha principal da Cidade Universitária. A antiga ilha do Bom Jesus fica ao sul, após os prédios relacionados à agronomia. Sua área original, pertencente ao


Exército Brasileiro, é ocupada pela Cia. de Comando da Primeira Região Militar, além de residências de militares e funcionários civis do Ministério do Exército. 2. Existem alguns prédios originalmente inaugurados por Dom Pedro II, ocupados pelo Comando da Companhia ali sediada. A igreja também está intacta, no alto de uma elevação. Lá dentro estão enterrados os restos mortais do Marechal Osório. 3. Há alguns descendentes dos "inválidos" nela instalados no final do século passado, e de vários outros soldados que ficaram mutilados em operações militares mais recentes. E se o leitor chegar até lá, verá que se trata de uma "ilha" de contornos agradáveis, sem alterações em sua forma original. E terá a surpresa de encontrar quase que exatamente o que é descrito por Honorato em 1869 quando diz: "Collocado em frente ao desembarque o visitante vê dous edifícios, não tão elegantes, quanto forão aquelles que o faustoso Luiz XIV fez edificar para os seos soldados, mas tão singelos quanto podem ser os bons sentimentos daqueles que os fizeram fundar". De fato, os dois edifícios são vistosos, ao estilo da época, e muito sólidos. Estão atualmente muito bem conservados, pintados e limpos, após restauração bastante significativa. ... "Sobe-se por uma espaçosa escada com os corrimãos e balaústrês envernisados, no patamar da qual, fronteira à porta, vê-se gravada em uma pedra mármore a seguinte legenda: No reinado do Sr.D.Pedro II, sendo ministro da guerra o conselheiro João Lustosa da Cunha Paranaguá, erigio-se este edifício em 1868. - Dahi partem duas escadas em sentido inverso à primeira, uma para o lado direito e outra para o esquerdo". E é exatamente isso que o visitante interessado lá irá encontrar. ... "Passemos agora à igreja. A igreja do Bom Jesus, fundada em 1705, como diremos, no alto deste môrro não podia ser edificada em melhor posição. Elevada a uma altura proporcional, com uma escadaria de sete degráos de pedra, tem na frente tres arcadas, sobre as quaes vê-se outras tantas janellas que ficão no côro da mesma igreja, e uma porta que dá entrada para o interior"... A linda igreja do Bom Jesus lá está, no alto de um pequeno morro, olhando a baía da Guanabara há mais de dois séculos. No entanto, o visitante deverá ficar atento para o fato de que o Asilo dos Inválidos da Pátria não funciona mais. Segundo informações obtidas no próprio local, foi desativado no ano de 1976, 107 anos, portanto, após sua festiva inauguração por Dom Pedro II.


CAPÍTULO SEXTO O SÉCULO XX E OS CAMINHOS DA REABILITAÇÃO NO MUNDO Como em quase todas as áreas de atendimento à população mais pobre, houve um incremento substancial de assistência a pessoas portadoras de deficiências no mundo todo, durante todos os anos até agora vividos do século XX. Esse incremento não ocorreu apenas em razão de uma filosofia social mais voltada para a valorização do homem em alguns países mais proeminentes, mas também devido ao engajamento de muitos setores da sociedade no bem-estar comum - e por que não o dizer, em conseqüência dos evidentes progressos das ciências e suas aplicações práticas, em todos os campos. Mesmo nos países sub-desenvolvidos, muitas áreas receberam o impulso no sentido da modernização e do avanço técnico. Além de se beneficiar dessa tendência geral, a medicina progrediu muito também em todos os seus setores especializados, tais como na cirurgia ortopédica, na ortopedia e na traumatologia - áreas que mais nos tocam neste estudo - devido a muitos fatores, mas em especial devido a duas guerras mundiais e várias outras de âmbitos mais restritos que assolaram o mundo. Os problemas múltiplos de grandes contingentes populacionais desabrigados ou simplesmente desalojados pelas ações destruidoras da guerra, as imensas dificuldades encontradas pelos refugiados, pelos doentes e pelos mutilados nos conflitos, a orfandade e o abandono quase que generalizados, levaram a grandes programas assistenciais de caráter internacional. Além disso, o contato direto com elevados contingentes de população que apresentavam problemas especiais teve como conseqüência melhores e mais precisas providências de ordem prática para o encontro de soluções que incluíam a completa reintegração dos mesmos à vida normal, numa sociedade produtiva devidamente reconstruída. Esforços especiais foram criados para lutar pela normalização da vida desses grupos populacionais vítimas das atividades de guerra. Antes dos conflitos armados, porém, no que concerne às medidas relacionadas diretamente aos portadores de deficiências de países mais evoluídos, a atenção para com as crianças portadoras de deficiências físicas foi se concentrando efetivamente em seu melhor cuidado e em sua educação especial, desde a primeira década do século. Princípios já defendidos há séculos na Europa, desde a época da Renascença, para o atendimento de


órfãos e de crianças carentes e deficientes, foram efetivamente melhor definidos e postos em prática no início deste século. Além da simples proteção, da assistência para prevenir o abandono e a criminalidade, e da educação, algum treinamento profissionalizante, através do qual a criança ao chegar à idade adulta poderia obter meios para sobreviver, começou a ser de fato implantado em diversas entidades. O humanismo filosófico, em constante ascensão, sem dúvida que ajudou na ênfase a ser dada a esse grupo marginalizado, e ao seguir os seus princípios fundamentais, a medicina mais especializada encontrou o caminho ideal para um completo engajamento. E com ela vieram outras ciências e outros grupos de profissionais ou de voluntários interessados e muito vinculados a uma população de classe média politizada e mais consciente da necessidade de beneficiar a todos os que precisavam de ajuda. A crescente migração de segmentos populacionais deslocados ou tangidos pelo sofrimento das guerras e suas conseqüências amedrontadoras, procurando resolver os seus problemas básicos de vida, e a troca mais fácil de experiências devido aos meios de comunicação mais penetrantes e convincentes, levou a todos os quadrantes do mundo novas tecnologias e novos sistemas para análise e tratamento dos problemas sociais. Em várias das nações mais civilizadas do mundo ocorreram nesses períodos de pós-guerra melhorias consideráveis nos sistemas de bem-estar social, chegando ao seguro social, à assistência pública, à promoção social e também, de um modo todo especial, às atividades totalmente voltadas para a saúde publica. Os avanços cada vez mais acelerados da medicina começaram a surtir efeitos surpreendentes, aumentando a expectativa de vida, reduzindo o número de mortes por acidentes ou por doenças, diminuindo a taxa de mortalidade e morbidade infantil e quase extinguindo as epidemias avassaladoras. Esses resultados não teriam sido viabilizados se, por outro lado, os serviços públicos, mais conscientes de seu papel na garantia do bem-estar de todos, não tivessem atuado com eficiência na implantação de melhores sistemas de tratamento de água, de fiscalização de alimentos, de tratamento de esgotos, de vacinação contra males contagiosos e muitos mais. O mundo comercial e industrial muito colaborou também para definições mais precisas daquilo que era preocupação de todos, ou seja, a garantia de certa dose de qualidade de vida, a fim de dar condições essenciais para o homem progredir. Profissões voltadas para o atendimento aos problemas de pessoas em dificuldades foram surgindo e se fortificando, algumas delas como verdadeiro desdobramento da medicina, enquanto que outras, especialmente nos campos da educação, em razão da inegável valorização do ser humano. Mas a medicina sem dúvida que antecedeu no atendimento ao portador de problemas incapacitantes ou de lesões conseqüentes a doenças graves, chegando ao ponto de assegurar a vida aos casos antigamente considerados como fatais, e aumentando a expectativa de vida ao homem idoso. O Dr.Bernard Baruch, com carradas de razão já afirmara certa vez que "a medicina adicionou alguns anos à vida do homem, e agora depende da educação adicionar vida a esses anos"... Nesse contexto é interessante ressaltar o delineamento de profissões como a do serviço social (que muita gente até hoje chama de "assistência social"), que desde seus primórdios tem procurado levar para uma atuação de cunho técnico velhos e superados conceitos muito diluídos e por vezes até desacreditados de toda a área correspondente ao bem-estar social situação que mesmo ao final do século XX persiste em muitos países do mundo em desenvolvimento.


Vejamos alguns dos pontos mais relevantes dessa evolução toda nos programas de assistência às pessoas deficientes, dentro do século XX. - *O panorama europeu da assistência a deficientes no início do século* Entre os anos de 1902 e 1912, na Europa, mais de 20 instituições destinadas ao exclusivo atendimento de pessoas que apresentavam problemas de deficiências físicas já existiam, levantando fundos e fazendo campanhas para garantir sua manutenção e para incrementar sua causa, em acréscimo às campanhas e aos levantamentos de dinheiro que já vinham ocorrendo para causas anteriormente absorvidas pela sociedade, como as de ajuda aos pobres, de proteção aos velhos, de assistência à criança desamparada, entre muitas. De outra parte, a ajuda a pessoas deficientes - não só as provenientes das fileiras militares, como das atividades civis - começou a se firmar em bases novas, mais modernas. Esse novo tipo de ênfase no atendimento, que brotara nos Estados Unidos, causou na Europa um movimento bastante dinâmico e coerente, incorporando-se a vários empreendimentos vindos do século XIX, ou mesmo dos primeiros anos do século XX. Por exemplo, em 1904 ocorrera já a organização da Primeira Conferência sobre Crianças Inválidas, em Londres. No ano de 1909, seguindo a mesma tendência de dar cada vez maior atenção aos portadores de deficiências, um primeiro censo de pessoas deficientes foi levado a efeito na Alemanha, por iniciativa de Bielaski, que tentava com isso aquilatar a extensão do problema. No mesmo ano, nos Estados Unidos, havia também sido organizada a Primeira Conferência da Casa Branca sobre os Cuidados de Crianças Deficientes, que havia aprovado uma resolução incentivando programas de preparo das crianças institucionalizadas para sua futura integração na sociedade (Apud Agüero). - *EUA: um primeiro congresso mundial de deficientes auditivos* No ano de 1904, na cidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, foi organizado um primeiro congresso destinado a estudar todos os problemas das pessoas surdas - era o Congresso Mundial dos Surdos. Nesse conclave, o método oral de comunicação foi combatido pelos seguidores do método de comunicação por sinais. No entanto, o chamado "oralismo" foi seguido por escolas particulares e por semi-internatos, combinando sua técnica com a dos sinais. Foi exatamente por essa época que Helen Keller recebia suas primeiras lições de linguagem falada, por meio de professores da Escola de Horace Mann. - *A gradativa implantação da reabilitação* O desenvolvimento de atividades coordenadas que chegariam a ser genericamente reconhecidas como "reabilitação" (e não apenas um nome de centro, como o de Cleveland à época de sua fundação...), aconteceu lentamente e sua implantação foi um tanto indecisa, quase que conseqüente à impotência dos médicos Face à multiplicidade de problemas que afetavam diretamente as pessoas mutiladas ou portadoras de outros tipos de deficiências. E isso ocorreu logo após a Primeira Guerra Mundial. Já fazendo parte de um programa de assistência ampla a pessoas deficientes e que logo se transformaria num esquema de reabilitação, o primeiro Estado norte-americano a fazer uma provisão específica para tal fim foi o Estado de Minesota que em 1897 já havia feito uma dotação para assistência a "crianças defeituosas" e com necessidade de tratamento médico. Mas as primeiras organizações norte-americanas a estudar o problema geral das pessoas com deficiências e desse ponto partir para programas destinados à melhoria de sua condição física e social foram a Fundação Russel Sage e o Bureau do Deficiente da Sociedade Organização de Caridade, da cidade de New York, no ano de 1908.


- *As tentativas iniciais para a solução do problema de trabalho* Em 1907 surgia na cidade de Boston a Goodwill Industries, até hoje mundialmente famosa. Não se dedicava ao problema geral das pessoas deficientes nem se preocupava com problemas de ordem médica ou social que elas pudessem apresentar. Dedicava-se intencionalmente aos aspectos de envolvimento da pessoa deficiente em atividades de trabalho remunerado mesmo que separado, isolado das outras empresas, institucionalizado ou "protegido", como viria a ser conhecido. Essa organização foi uma iniciativa da Igreja Metodista, tornando-se posteriormente dela desvinculada e sem qualquer cor religiosa. O plano original era dar às pessoas deficientes sem emprego ou sem qualquer rendimento, uma oportunidade de ganhar a vida pelo recondicionamento de roupas, sapatos, móveis descartados como velhos e outros artigos, cuidando a Goodwill Industries de vender todos esses artigos por preços muito módicos à população mais pobre. Focalizando o ângulo de treinamento para o trabalho melhor definido e qualificado, surgiu no ano de 1906, no Estado de Pennsylvania, a Widener Memorial Training School for Crippled Children, uma das mais importantes do gênero durante muitos anos. - *Implantação de serviços de naturezas diversas* Foi também no ano de 1906 que, na pequena cidade de Kallithéa, na Grécia, surgiu uma primeira escola para cegos, baseada na experiência localmente acumulada por pessoas interessadas no problema. Essa velha escola é hoje conhecida como Centro de Educação e Reabilitação. Enquanto isso, nos Estados Unidos, criava-se a Primeira Comissão Estadual para o Cego, no Estado de Masachussets, destinada a implementar programas pela primeira vez financiados pelo governo federal. No campo da assistência a deficientes mentais, os Estados Unidos, a par com muitos esforços do continente europeu, haviam também dado passos importantes ao finalizar o século XIX e iniciar o século XX, com as iniciativas de Horace Mann e Samuel Howe, criando organizações de atendimento a deficientes mentais. Programas equivalentes para surdos e também para cegos espalharam-se pelo país todo, e pelo ano de 1914 classes especiais com pessoal especificamente preparado existiam nas escolas públicas de Baltimore, Detroit, New York e também em Philadelphia. Como conseqüência da guerra que eclodira no continente europeu, no ano de 1915, em Londres, o Saint Dunstan's Hostel for the War Blinded foi organizado e iniciou seus valiosos serviços, atendendo os soldados cegos provenientes dos campos de batalha. Soldados de Colônias de toda a Comunidade Britânica também eram atendidos. - *Os esforços de pós-guerra* Após o ano de 1918, apesar de todas as dificuldades econômicas e sociais causadas pela guerra que assolara o mundo, com o volume de pessoas mutiladas, acidentadas, deslocadas ou refugiadas bem à mostra, os países mais evoluídos aumentaram substancialmente seus esforços para a sua ajuda, não só na área militar mas também na civil. Impulso dos mais significativos foi dado à reabilitação de pessoas deficientes na Inglaterra, assim que terminou a Primeira Guerra Mundial, pois muitos esforços foram surgindo para a elas dar todo o atendimento requerido, bem melhor e mais completo do que por meio das tentativas anteriormente adotadas. Devido ao quase que contínuo envolvimento da Inglaterra em guerras nas mais diversas partes do mundo, os problemas das deficiências eram tão generalizadamente conhecidos que muitos esforços isolados existiam, mas que


requeriam uma certa coordenação. Criou-se então a Comissão Central da Grã-Bretanha para o Cuidado do Deficiente. Também devido aos seus muitos envolvimentos em guerras, surgiu nos Estados Unidos, na cidade de New York, no ano de 1917, uma entidade que desempenharia no futuro da reabilitação um dos papéis mais marcantes: a chamada Red Cross Institute for the Crippled and Disabled Men, mais tarde redenominada de Institute for the Crippled and Disabled, já atendendo a civis. Hoje é conhecida essa organização como ICD Rehabilitation and Research Center. E como não poderia deixar de ser, de muita influência para definição dos programas de reabilitação foram os esquemas montados para dar assistência completa a soldados que voltavam mutilados de guerras em diversos países do mundo. Exemplo interessante disso foi o que sucedeu na França, onde, por lei assinada em 2/1/1918, todo militar ferido na guerra ou portador de uma deficiência devido às suas atividades de soldado e que se tornasse incapacitado para o trabalho civil ou militar, tinha o direito de inscrever-se gratuitamente numa escola profissionalizante, tendo em vista a necessidade de sua readaptação para o trabalho e sua colocação no mercado competitivo. A prioridade para obtenção de empregos na área civil, de cuidados médicos, de aparelhos ortopédicos e de cadeiras de rodas gratuitas, fazia e faz até hoje parte desse direito. Uma lei de 30 de janeiro de 1923 deu aos mutilados de guerra e também às conhecidas como viúvas de guerra, direito de preferência para certas funções no Estado, funções essas que, se fossem ocupadas, não poderiam ser extintas pelo Governo. - *Surge a "Easter Seal Society"* Enquanto essas necessidades começavam a ser cobertas em vários países, era criada nos Estados Unidos uma associação já de caráter nacional que, graças à cooperação de diversas outras organizações, passaria a ser de importância fundamental no desenvolvimento de uma reabilitação muito mais técnica, precisa e objetiva, ou seja, a Associação Nacional para Crianças e Adultos Deficientes - muito mais conhecida como a "Easter Seal Society". Essa entidade de caráter nacional, que foi criada em 1919, existe até os dias de hoje e tem um relevante papel na manutenção de programas os mais variados. - *O Código de Direito Canônico e os bloqueios a homens deficientes* O Código de Direito Canônico continuou mantendo seus bloqueios a candidatos ao sacerdócio católico que apresentassem defeitos. O Capítulo Segundo do Código versa sobre as chamadas Irregularidades em Particular e analisa em pormenores o assunto. Seu Artigo Primeiro fala sobre as Irregularidades por Defeito e indica que existem oito espécies de defeito que podem tornar um candidato impedido de chegar até o sacerdócio: 1º - Por defeito de espírito 2º - Por defeito de corpo 3º - Por defeito dos pais 4º - Por defeito de idade 5º - Por defeito de liberdade 6º- Por defeito de sacramento 7 º - Por defeito de mansidão 8º - Por defeito de fama. Vamos nos limitar, todavia, a uma pequena análise dos chamados "defeitos corporais" e seu relacionamento à irregularidade ou impedimento canônico que torne ilícita a recepção do


sacramento da Ordem, de um modo direto, ou o exercício das funções sacerdotais, de um modo indireto. Segundo a disciplina da Igreja Católica, a irregularidade não é um castigo, mas um dos meios encontrados através dos séculos para preservar a dignidade do estado sacerdotal e para a exclusão daqueles que não tem capacidade ou aptidão para o mesmo. Enquanto a irregularidade é permanente, o impedimento é transitório. Dentro dos regulamentos e normas vigentes na Igreja, são considerados como irregulares, além dos casos citados mais acima, os "corporalmente defeituosos que por fraqueza não podem exercer as funções do altar com segurança ou que por deformidade não o puderem fazer com dignidade. Quem se torna defeituoso depois de legitimamente ordenado, só pode ser impedido no exercício de suas funções se o defeito for notável. Não se proíbem, porém, atos que, apesar dos defeitos, puderem ser exercidos convenientemente" ("Compêndio de Moral Católica", de Jone-Fox). Os mesmos autores enumeram com exemplos pormenorizados os defeitos que tornam um candidato ao sacerdócio "irregular", da mesma forma que o faz o Padre João Pedro Gury em sua memorável obra "Compêndio de Teologia Moral", ao analisar o Código de Direito Canônico e jurisprudência encontrada. Segundo eles, são "irregulares" aqueles que não têm um dedo polegar ou um indicador, ou ambos; que usam uma perna mecânica ou que estão impossibilitados de usar as mãos; aqueles que tremem tanto que poderiam "derramar o preciosíssimo Sangue"; os cegos ou que tenham deficiência visual tão grave que não conseguem ler o conteúdo do missal; os casos de surdez que não consigam ouvir a voz do ajudante de um ato litúrgico; os que gaguejam de tal maneira que provoquem riso e desprezo; os que são vítimas de paralisias ou deformações que causem o andar típico de um "coxo", e que não conseguem ficar no altar sem bengala ou muleta; os que estão desfigurados por mutilações ou por outra causa (por agenesias de qualquer natureza ou por defeitos causados por males degenerativos); os que têm corcunda muito grande que provoque riso ou que os impeça de se colocar em posição ereta. As normas relacionadas a defeitos corporais entram em pormenores quanto a problemas de visão. Assim, a falta da vista esquerda não caracteriza casos de irregularidade, se o defeito for disfarçado por uma prótese ocular. O olho esquerdo, considerado como o Olho do Canon, é necessário para o sacerdote ler o Canon da Missa; se o sacerdote conseguir fazê-lo sem maiores problemas, a irregularidade poderá ser dispensada. Quem se torna surdo "depois da recepção das ordens", não fica proibido de celebrar os atos litúrgicos. Ainda para casos de ocorrência de uma deficiência após a ordenação as normas são bastante condescendentes. Vejamos alguns casos: - Quem estiver quase cego, segundo Jone-Fox, poderá obter do Papa dispensa para celebrar a chamada missa "de Beata", ou a missa cotidiana dos defuntos. Se um sacerdote ficar completamente cego, só poderá rezar a missa com a assistência de outro sacerdote. - O sacerdote que não consegue ficar de pé junto ao altar, ou que puder assim permanecer apenas com o uso de muletas ou apoio especial, só poderá celebrar missa privadamente e nunca em público. Isso também é verdadeiro para o sacerdote que sofrer de hanseníase ou doença grave. - Nos casos de epilepsia e de psicopatias ocorre também a irregularidade, dependendo do bispo local ou das autoridades eclesiásticas constituídas a permissão do exercício de suas funções sacerdotais, depois de curados ou de terem o mal sob controle. É evidente que existe nesses regulamentos da Igreja Católica grande preocupação pela aparência física de seus ministros, mas muito mais do que isso, o firme propósito de não levar os fiéis a se distrair ou a desconsiderar seus serviços, sua palavra e os atos litúrgicos.


Em diversas cerimônias litúrgicas da Igreja Católica é fundamental no sacerdote poder ajoelhar-se e levantar-se diversas vezes, em atos de adoração; é básico também que tenha a mão direita para distribuir a comunhão ou para dar a bênção. (* Quando em meus dez ou doze anos fui "coroinha" de um sacerdote que pessoalmente considero um mártir do câncer: Pe. Luiz Alves de Siqueira. Lembro-me perfeitamente bem quando chegou de volta a paróquia sem o braço esquerdo, amputado por um tumor maligno. Celebrava missa, desenvolvia todos os atos requeridos - e fora disso tudo, ainda guiava automóvel por algumas ruas do bairro. Colocado o braço artificial, continuou da mesma forma atuante, usando o braço mecânico para segurar o cibório na distribuição da comunhão a seus paroquianos...) - *Reconhecimento das verdadeiras necessidades das pessoas deficientes* Uma centena de leis que reconheciam os direitos e favoreciam às crianças portadoras de deficiências surgiu em diversos países, e de um modo todo especial nos Estados Unidos da América do Norte, durante os primeiros trinta anos deste século. A maioria dessas leis referia-se a cuidados médicos e a programas educacionais. Graças a programas parecidos desenvolvidos nos Estados de New York e de Ohio, e iniciados no ano de 1917 com a colaboração de comissões locais com a ajuda dos governos estaduais, houve progressos bastante significativos no cuidado à pessoa deficiente porque mostraram que a solução de seus problemas não dependia apenas de providências na área médica nem de esquemas educacionais mantidos em hospitais, asilos ou instituições de diversas naturezas. Ficou muito claro que o que era necessário compreender era que tanto crianças quanto adultos com deficiências necessitavam não só dos cuidados que instituições especiais pudessem lhes prover, mas também de atenção pessoal, de carinho, de relacionamento familiar e de um ambiente que possibilitasse alguma participação na vida comunitária, como qualquer outra pessoa. - *A previdência social e os acidentes de trabalho* As primeiras leis de compensação a trabalhadores que se acidentavam nas atividades industriais aconteceram a partir do ano de 1911 nos Estados Unidos, seguindo um exemplo de legislação que vinha sendo promulgada na Europa, desde o final do século XIX. Na verdade essa legislação acabou significando um passo à frente na fixação da responsabilidade que o governo deve assumir face ao problema de deficientes provenientes da indústria. Ao se findar a Primeira Guerra Mundial, a legislação de aposentadoria ou de compensação financeira para os acidentados no trabalho civil foi sendo introduzida com mais regularidade e foi se tornando cada vez mais comum no mundo ocidental. Acabou por se transformar em um dos mais sérios fatores que chegaram a levar muitas nações a aprovar extensos programas de volta das pessoas aposentadas à vida de trabalho, o que de fato acabou se definindo como programa de reabilitação profissional. E nesse movimento todo, a experiência acumulada por centenas de empreendimentos de assistência financeira, de abrigo ou de compensação por danos sofridos pelos soldados nas fronteiras em litígio aberto ou nos conflitos armados, foi de alto significado. Benefícios acarretados aos trabalhadores foram, de início, muito bem recebidos, mas esses programas provaram logo não ser muito eficientes, especialmente quando mantidos por companhias de seguro e outras organizações privadas, e em muitos casos, mesmo pelo sistema oficial de seguro social.


O atendimento às vezes não era nem completo nem adequado, ou apresentava-se como de caráter paliativo e muito superficial, vendo-se as pessoas forçadas a comparecer às atividades programadas para poder receber os proventos a que tinham direito. Esses programas iniciais limitavam-se aos acidentados no trabalho, como hoje está ocorrendo com órgãos ligados ao nosso sistema nacional de previdência social e vários de seus programas, ressaltando-se o programa de reabilitação profissional mantido pelo Instituto Nacional da Previdência Social. As pessoas que, já na década de vinte, eram vítimas de acidentes domésticos, de trânsito e de outras naturezas, ou eram atingidas por alguma enfermidade grave ou malformação congênita, não podiam ser atendidas em sua reabilitação - como acontece na década de oitenta em nosso Brasil. - *A reabilitação de jovens veteranos da Marinha e do Exército* O ano de 1918 foi aquele que viu aprovada a lei conhecida nos Estados Unidos da América do Norte como Vocational Rehabilitation Act. Essa lei dava condições de reabilitação para o trabalho a veteranos portadores de deficiências, vindos quer das fileiras da Marinha, quer do Exército. Em 1920 o chamado Fessenyon Civilian Vocational Rehabilitation Act autorizou o atendimento de civis com deficiências físicas. Esta legislação procurou enfatizar soluções de trabalho e descuidou-se excessivamente dos aspectos de recuperação ou de restauração física, como parte do programa. No entanto, foi uma grande colaboração aos programas de reabilitação, pois abriu uma grande avenida para a compreensão da problemática global das pessoas deficientes e reconhecimento da necessidade de se implantar programas mais abrangentes. - *A retração dos anos trinta e as pessoas deficientes nos EUA* A década de trinta constituiu-se num período dos mais obscuros para pessoas deficientes, devido especialmente à retração econômica que varreu o país norte-americano. Todos os progressos até então feitos para empregar adequadamente as pessoas deficientes acabaram caindo a quase zero. A enorme avalanche de desempregados que não tinham qualquer deficiência, cujas necessidades de emprego pareciam à primeira vista mais urgentes do que aquelas das pessoas deficientes que sempre haviam sido consideradas como objeto de caridade e comiseração e não tanto como potencial humano sério a ser considerado para o mercado de trabalho fez com que o valor de seu trabalho fosse subestimado. Apesar da depressão econômica, muito se aprendeu quanto ao atendimento social das pessoas deficientes através de serviço social bem orientado. Mas a herança deixada pelo colapso econômico norte-americano foi muito amarga, e uma dessas heranças foi a criação das chamadas agências de bem-estar social, nas quais havia atendimento individualizado, com aconselhamento para o trabalho, orientação para treinamento profissionalizante, serviços globais de saúde, assistência psicológica e por vezes psiquiátrica, conforme o caso. - *A influência da Segunda Guerra Mundial na reabilitação* Quando a Segunda Guerra Mundial foi deflagrada, o problema dos soldados vítimas de deficiências causadas pela guerra atraiu novamente a atenção do mundo. Mas a situação era bem diferente daquela deixada pela Primeira Guerra Mundial, pois logo ao terminar o segundo conflito, já existiam serviços de reabilitação tanto para civis como para militares. Para atender a esses problemas de deficiências, funcionavam agências que já haviam trabalhado por anos a fio com esse assunto. O que contribuiu grandemente para obter melhores condições para o desenvolvimento de reabilitação mais completa, nos EUA, foi a presença de Franklyn Delano Roosevelt, um paraplégico por poliomielite, na Presidência do


país, eleito em 1932. Ficou evidente que uma pessoa deficiente poderia realizar perfeitamente bem até uma função de natureza executiva de alto nível, sustentando sua própria vida através de um emprego remunerado. Durante a Guerra, graças à escassez de braços e à premência de desenvolver os esforços de guerra, tanto as mulheres quanto os portadores de deficiências foram aproveitados aos milhares nas indústrias, nas vagas daqueles que haviam sido incorporados às forças armadas. Um dos grandes resultados da atuação de profissionais que cuidavam dos problemas de deficiências foi o avanço incontestável da Medicina Física e da Terapia Ocupacional. Além disso, foi sendo reforçada a impressão que havia de que a pessoa deficiente não precisa nem ser carga pública nem dependente; que a pessoa deficiente pode ser útil, contribuinte à economia geral de um país, participante na formação da riqueza nacional. Dessa época de anos difíceis do pós-guerra é que foram se definindo preocupações cada vez mais marcantes como o ajustamento psico-social das pessoas portadoras de deficiências. - *A criação de sociedades internacionais privadas* Quase sempre serviços de assistência a grupos minoritários são organizados e desenvolvidos por entidades da área privada. Cada esforço novo tem sido sempre inspirado em sucessos de esforços semelhantes ocorridos em países ou cidades vizinhas. Essa tendência é encontradiça em reabilitação e em esquemas de assistência a pessoas deficientes em todas as partes do mundo. Estudiosos do assunto "reabilitação" acabaram provocando no início do século o intercâmbio de informações e de sugestões entre todos os que se interessavam pelo problema, estabelecendo uma espécie de organização internacional de caráter informal. No entanto, havia claramente a necessidade de existir organizações do tipo não-governamental, mas de caráter internacional, voltadas para toda essa imensa problemática legada pela Primeira Guerra Mundial. A mais antiga dessas sociedades internacionais surgiu na Escandinávia, no início do século. Foi a Sociedade Escandinava de Ajuda a Deficientes congregando entidades que atendiam pessoas deficientes na Suécia, Noruega e Dinamarca, desde o século XIX. A sociedade internacional que hoje é conhecida mundialmente como a Rehabilitation International surgiu como uma das primeiras e mais importantes organizações voluntárias interessadas no ângulo internacional do problema, com o objetivo principal de manter contato com o progresso mundial na ajuda a pessoas deficientes. Ela foi fundada em 1922 com o nome inicial de Sociedade Internacional para a Criança Deficiente, graças a alguns interessados pertencentes ao Rotary International que, ao observar movimentos semelhantes aos que eram organizados nos EUA para crianças deficientes, compararam-nos a outros movimentos em outras partes do mundo. O Rotary International acabou patrocinando a idéia de formar uma federação para coordenar e estimular atividades destinadas a pessoas deficientes. O primeiro Congresso Mundial dessa sociedade internacional que já adotara o nome de Sociedade Internacional para o Bem-Estar dos Aleijados (International Society for the Welfare of the Cripples) foi na cidade de Genebra, na Suíça, no ano de 1929, graças a interessados no problema que participavam de uma reunião do Rotary International. Existem versões diferentes para a criação da Sociedade Internacional para o Bem-Estar dos Aleijados. Segundo uma delas, no ano de 1919, na cidade de Elyria (Estado de Ohio EUA), foi fundada a International Society for Crippled Children, mas no ano de 1922 ela foi dividida em duas outras organizações internacionais, ou seja, a "Easter Seal Society for Domestic Action" e a "International Society


for the Welfare of Cripples". Tendo seu nome sido alterado para "International Society for Rehabilitation of the Disabled", na década de cinqüenta, ela é hoje conhecida como "Rehabilitation International", conta com 115 organizações do mundo todo a ela filiadas, incluindo nisso 64 países de todos os continentes. Evidentemente que existem hoje diversas organizações conhecidas como "nãogovernamentais", que têm características internacionais, que se dedicam aos problemas de pessoas deficientes. Dentre elas cumpre destacar as seguintes: - Federação Mundial dos Veteranos - Sociedade Internacional de Medicina Física - Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais - Confederação Mundial de Fisioterapia - Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos Todo o esforço de muitas das organizações não-governamentais é atualmente coordenado pela Conferência de Organizações Mundiais, Interessadas na Pessoa Deficiente. - *O envolvimento das organizações inter-governamentais* Desde o final da segunda guerra que assolou o mundo no século XX, ou seja, desde o ano de 1945, expandira-se muito a compreensão daquilo que vinha insistentemente sendo chamado de "reabilitação". E com essa compreensão, muitas sociedades caminhavam para a plena conscientização quanto à sua necessidade, havendo muito pouca gente que duvidava que problemas sérios das pessoas deficientes só poderiam ser cobertos com sua aplicação. Programas muito mais amplos precisavam ser garantidos para dar assistência não só aos deficientes do aparelho locomotor, mas também que apresentavam dificuldades sensoriais e mentais. Um dos fatores mais significativos na divulgação dessa nova técnica de trabalho foi, sem dúvida, o envolvimento das organizações internacionais de caráter inter-governamental, comandadas pela Organização das Nações Unidas, incluindo nessa verdadeira família de organizações o Fundo de Emergência das Nações Unidas para as Crianças (UNICEF), a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Organização das Nações Unidas para Refugiados e a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). O verdadeiro envolvimento dessas organizações internacionais iniciara-se mesmo antes da própria criação da ONU, quando o organismo de congregação das nações do mundo era ainda a Liga das Nações, com sua sede em Genebra. Um exemplo desse envolvimento está no documento intitulado"Report on the Welfare of the Blind in Various Countries" (Relatório a respeito do Bem-Estar dos Cegos em Vários Países), datado de 1929 e publicado sob a responsabilidade da Liga das Nações. Esse documento apresentou um resumo analítico da evolução dos serviços de proteção e de assistência aos cegos, na Europa e na América do Norte. No entanto, um passo decisivo para um maior envolvimento da ONU e de suas Agências Especializadas ocorreu quando, no mês de dezembro de 1946, sua Assembléia Geral adotou uma resolução que estabelecia o primeiro passo para um programa de consultoria em diversas áreas do bem-estar social, nele incluindo a reabilitação das pessoas deficientes, como uma das principais áreas com possibilidades de captar recursos financeiros para assistência técnica a ser colocada à disposição dos países sub-desenvolvidos e interessados no assunto. Foi montado o Bureau of Social Affairs, dentro do Secretariado da ONU, que iniciou seu funcionamento quando a ONU ainda trabalhava em Lake Sucess, nos arredores


de New York. Dentro da estrutura do Bureau foi inserida uma Unidade de Reabilitação de Pessoas Deficientes. Enquanto isso começava a acontecer a nível da nova Organização das Nações Unidas, os programas da já antiga Organização Internacional do Trabalho continuavam, pois já haviam sido montados há alguns anos. Logo envolveram-se as outras organizações e devido ao volume surpreendente de atividades e ao estabelecimento de áreas específicas de atuação para cada uma delas, gradativamente surgiu a necessidade de um sistema de coordenação internacional, envolvendo não só as organizações inter-governamentais, mas também as organizações mundiais de caráter não-governamental que iam proliferando em diversos campos. Durante o Seminário Internacional sobre Administração de Programas e de Centros de Reabilitação nos Países em Desenvolvimento, organizado pela ONU e pelo Governo da Dinamarca, em Copenhague, de 18 de julho a 5 de agosto de 1966, e do qual participamos como Secretário-Técnico, tivemos oportunidade de analisar a questão da coordenação em um painel de especialistas, sendo nossa missão apresentar pontos relevantes que justificavam a necessidade de coordenação a nível internacional. Fizemo-lo em nome da Unidade de Reabilitação de Pessoas Deficientes do Bureau de Assuntos Sociais, da qual éramos funcionário técnico. O trabalho escrito, apresentado na ocasião, aplicável quase que "in totum" à realidade de hoje, é relevante no contexto deste capítulo, face à importância que a ONU e suas Agências Especializadas têm tido no desenvolvimento da reabilitação no mundo de hoje. Alguns trechos parecem-nos relevantes: ... "A prevenção das deficiências e a reabilitação de pessoas deficientes são problemas nos quais a ONU e um certo número de Agências Especializadas têm demonstrado grande interesse muito antes de 1950. Nesse ano, tendo em mira obter uma atuação bem coordenada nesse campo, o Conselho Econômico e Social da ONU solicitou ao Secretário-Geral para planejar “inter-alia”, juntamente com as Agências Especializadas e em consultoria com as organizações não-governamentais interessadas, um bem coordenado programa internacional para a reabilitação das pessoas fisicamente deficientes. Planos para esse programa foram inicialmente discutidos por um grupo técnico de trabalho composto de especialistas indicados pela ONU, pela Organização Internacional do Trabalho, pela UNESCO, pela Organização Mundial de Saúde, pela Organização Internacional dos Refugiados e pelo Fundo de Emergência das Nações Unidas para as Crianças. O grupo reuniu-se em Lake Success e em Genebra, e o novo programa internacional, dinâmico em sua forma e baseado em princípios sólidos, começou a existir." Coordenação prática dessas atividades - o tópico principal das primeiras reuniões continuou a constituir-se no foco de discussão através dos anos. Em tese parecia haver uma clara divisão de responsabilidades, mas na prática havia diversas áreas nas quais a sobreposição de responsabilidades persistia. Os problemas colocados por essas áreas "cinzas", poderiam ser resolvidos apenas por meio de uma eficiente coordenação que, em contrapartida, dependeria de uma precisa definição de responsabilidades. Depois de muita discussão, planejamento e revisão, a seguinte alocação de responsabilidades foi aceita: a) A Unidade de Reabilitação de Pessoas Deficientes das Nações Unidas ficou encarregada de aspectos de Planejamento, Administração, Legislação, Aspectos Sociais, Aspectos Psicológicos e Próteses. Além disso, a Unidade de Reabilitação ficou responsável por manter um controle sobre todas as providências tomadas com relação a projetos práticos, e por garantir, tanto quanto possível, que as Agências Especializadas se mantivessem em dia e estivessem perfeitamente informadas das atividades umas das outras.


b) A responsabilidade da Organização Internacional do Trabalho cobria todos os aspectos profissionais da reabilitação, tais como treinamento de re-condicionamento, de avaliação e de atividades pré-profissionais (como eram conhecidas àquela época); emprego protegido e organização de oficinas protegidas; medidas especiais para garantia de emprego para a pessoa deficiente; e centros de reabilitação industrial. Deve-se notar aqui que os princípios gerais da reabilitação profissional sempre estiveram baseados na Recomendação nº 99 da OIT, aprovada pela Conferência Internacional do Trabalho, em junho de 1955. c) A competência técnica da UNESCO no campo da reabilitação cobre o que é conhecido por todos nós como educação especial. A UNESCO inclui, nesse sentido, alguns programas para cegos, para surdos e em geral para os deficientes físicos e mentais. Uma Resolução sobre educação especial foi adotada pela Conferência da UNESCO de 1964, e espera-se que atividades de assistência técnica dessa Agência Especializada, em educação especial, aumente durante os anos futuros. d) A responsabilidade da Organização Mundial de Saúde em geral é promover a saúde de todas as pessoas. Quanto a atividades de reabilitação, seu papel é prevenir, sempre que possível, males incapacitantes, e desenvolver programas em cirurgia ortopédica e protética; em medicina física; em fisioterapia; em enfermagem especializada; em próteses e órteses na prática médica. e) O papel do UNICEF em reabilitação, bem como em outros campos de assistência, é prover equipamento e transporte. O UNICEF normalmente coordena seus próprios planos com os planos da ONU e de suas Agências Especializadas e somente dá assistência a projetos que tenham a aprovação técnica da relevante Agência das Nações Unidas". (Isto era verdade à época em que o documento foi apresentado e discutido - hoje em dia o UNICEF mantém seus próprios programas e suas próprias consultorias, contratando eventualmente a assessoria de especialistas mundialmente renomados ou de organizações nãogovernamentais especializadas). O trabalho em pauta, que foi devidamente liberado pela ONU antes de sua apresentação quanto ao seu conteúdo e análise das atuações das Agências citadas em seu corpo, continua, estudando os fatores comuns encontradiços em seu trabalho, e que caracterizavam as organizações inter-governamentais. Só para informação do leitor, esses pontos comuns eram os seguintes: a) todas as organizações internacionais de caráter inter-governamental, inseridas na família de Agências das Nações Unidas, estavam e estão preparadas para prestar assistência técnica, mas apenas quando fossem apresentadas solicitações pelos governos; b) essa assistência técnica tanto poderia ser dirigida a órgãos ou programas oficiais, quanto àqueles da área privada; c) todas elas praticamente prestam serviços de consultoria de técnicos especializados ou provêm bolsas de estudos para o treinamento de pessoal local, sendo que uma boa parte delas ainda prepara literatura básica (monografias, estudos, pesquisas e outras publicações); d) elas organizam seminários inter-regionais ou internacionais, cursos intensivos e viagens de estudos, conforme programação aprovada com antecipação e notificação aos governos; e) elas de um modo geral procuram envolver outras agências internacionais nos programas desenvolvidos em determinado país.


Para obter a almejada coordenação, até hoje cabe à ONU uma série de providências práticas, tais como a organização periódica de Reuniões Inter-Agências, a freqüente troca de informações e também as publicações conhecidas como "Summary of Information on Projects and Activities in the Field of Rehabilitation of the Disabled Throughout the World" (Sumário de Informações sobre Projetos e Atividades no Campo da Reabilitação do Deficiente através do Mundo). Pessoalmente vivenciamos não só a preparação dessas publicações mas também seu significado para as organizações Inter-Governamentais e as Não- Governamentais envolvidas, uma vez que foi nossa responsabilidade direta sua elaboração do volume V (relacionado a atividades de 1963) até o volume IX (sobre atividades de 1967), correspondendo exatamente aos cinco anos de trabalho nosso na Unidade de Reabilitação das Pessoas Deficientes da O N U, em New York. O chamado "programa internacional coordenado" que havia sido recomendado pela Assembléia Geral da ONU ao seu Secretário-Geral, sempre foi levado a efeito por meio de um trabalho burocrático silencioso e persistente (e por que não o dizer, paciente) do qual percebíamos os resultados por vezes promissores, por vezes extremamente desoladores. Personalidades envolvidas dificultavam muitas vezes o andamento usual de processos; atitudes de ciúme de antigos funcionários internacionais barravam o dinamismo de pessoal mais novo; surgiam pruridos por "avanços" milimétricos nas conhecidas e muito disputadas "áreas cinzentas"; ocorriam bloqueios velados a projetos - mesmo que de boa qualidade elaborados por alguma cabeça de origem "ocidental" quando a cabeça "oriental" estava no poder, e vice-versa ... e tantos problemas mais! Olhando daquele prisma que costumávamos olhar (ou seja, de dentro da ONU para fora), considerávamos um verdadeiro prodígio ninguém de fora perceber o drama que significava lutar sob a égide da bandeira azul e branca da ONU, na qualidade de funcionário público internacional, procurando dar ao barco de tantas velas desencontradas um rumo que era de fato esperado por todos os que se envolviam em reabilitação. Foram anos muito difíceis, e no trabalho que citamos há um desabafo velado nas entrelinhas, nos dois últimos parágrafos que dizem o seguinte: "Por todos esses meios e outros que podem surgir no correr do tempo, e também por meio da experiência acumulada, espera-se continuamente que a plena coordenação torna-se-á útil na manutenção de um programa internacional de reabilitação para todos os tipos de pessoas deficientes, com a eliminação de toda a duplicação desnecessária, sobreposições ou antagonismos, que normalmente surgem devido à ignorância quanto às atribuições e às atividades dos outros". "Certamente que muitos anos deverão passar antes que tal programa – e outros que possam ser organizados no futuro - traga completo alivio para a pessoa deficiente no mundo todo. Cada ano esperamos ver grandes progressos na direção de nosso objetivo último em reabilitação, de um plano claro e objetivo que possa ser seguido desde agora". Muita gente que se diz conhecedora da Organização das Nações Unidas faz dela a idéia de um órgão político, no qual se ressaltam dois constantemente citados setores: a Assembléia Geral e o Conselho de Segurança. No entanto, a ONU mantém, através de seu Executivo, que é o Secretariado (funciona no prédio que todos conhecem, localizado em New York, às margens do East River, e que é todo envidraçado em todos os seus 38 andares) uma incrível programação em contínua expansão, que levou a uma descentralização inicial, dentro da própria cidade de New York. Toda a área de Desenvolvimento Social, Defesa Social, Reabilitação da Pessoa Deficiente e outras, foi transferida para alguns andares do Chrysler Building. Anos após, num audacioso momento de decisão do Secretário Geral Kurt Waldheim, esses assuntos todos passaram para o Centre for Social Development and


Humanitarian Affairs (Centro para Desenvolvimento Social e Assuntos Humanitários), em Viena, na Áustria, onde se localiza hoje. Muitos, dessa forma, não tem a mínima idéia do montante de atividades que são programadas e desenvolvidas para o benefício da humanidade que vive nos países em desenvolvimento. Gostaríamos de documentar a pujança das programações e o seu inquestionável alcance, no campo da reabilitação apenas, durante um curto período de tempo, já pertencente ao passado, mas muito ilustrativo. Responsabilizamo-nos pessoalmente pela informação, pois delas participamos num trabalho diuturno. Período de 1964 a 1966 apenas: *Técnicos* - Vinte e oito técnicos em reabilitação em diversos aspectos foram enviados pelas Nações Unidas para missões em vinte e dois países em desenvolvimento. A grande maioria dessas missões internacionais foram de curta duração e destinadas a pesquisas iniciais para que o governo pudesse tomar uma posição face à problemática das pessoas deficientes. No entanto, algumas dessas missões, especialmente nos campos de fisioterapia e de próteses, duraram mais de um ano. *Bolsas de treinamento* - A ONU concedeu 45 bolsas de treinamento para estudos de diferentes aspectos de reabilitação. Os bolsistas eram oriundos de 17 países e tiveram uma duração entre 3 e 14 meses seus respectivos treinamentos. Foram também concedidas 96 bolsas de treinamento para a participação de profissionais de alto nível em seminários internacionais ou viagem de estudo, organizados pela ONU ou contando com sua colaboração, no campo da reabilitação. Com essas bolsas de curta duração, 45 países em desenvolvimento foram beneficiados. *Seminários internacionais* a) Seminário Internacional das Nações Unidas sobre Próteses para Pessoas Deficientes Este Seminário foi organizado pelas Nações Unidas com a cooperação da Sociedade e Lar para Aleijados na Dinamarca (Society and Home for Cripples in Denmark) e do Comitê Internacional de Próteses e Órteses da Sociedade Internacional para Reabilitação do Deficiente (hoje Rehabilitation International). Foi realizado em Copenhague, de 5 de julho a 15 de agosto de 1964 (um curso intensivo, portanto), com a presença de 32 participantes de 26 países em desenvolvimento na América Latina, África, Ásia, Oriente Médio e Europa. Os participantes foram selecionados entre candidatos designados pelos governos e, em sua grande maioria, eram diretores ou gerentes de importantes oficinas de próteses em seus países. Do Brasil tivemos dois participantes de São Paulo, ligados a projeto do Centro de Demonstração a que nos referimos um pouco mais adiante, neste mesmo capítulo. Participamos na qualidade de Diretor, em nome das Nações Unidas. Durante este Seminário - organizado como um curso intensivo e com firmes propósitos de elevar os conhecimentos dos participantes - foram dados certificados de sua conclusão apenas para aqueles que tivessem passado nos exames finais. Ao encerrar-se o Seminário, diversas recomendações foram aprovadas. E a mais relevante foi, sem dúvida, aquela que indicava a necessidade de se organizar outro Seminário da ONU para o estabelecimento de padrões mínimos para treinamento de pessoal. A recomendação foi aprovada logo em seguida pela Comissão Social do Conselho Econômico e Social da ONU, e incluída no programa de trabalho da Unidade de Reabilitação para 1968. b) Viagem de Estudos das Nações Unidas para Recursos de Reabilitação na Polônia e na Rússia, organizada pela ONU em estreita colaboração com os países visitados. Foi realizada


em setembro de 1965, com 34 participantes de 24 países em desenvolvimento, incluindo pessoal de alto nível em seus respectivos países, mas envolvidos em reabilitação. Tiveram oportunidades de observar as várias modalidades de programas para resolver os problemas dos deficientes, todos eles baseados em vastos programas de seguro social. Enquanto a viagem era realizada, permanecemos em New York na direção da Unidade de Reabilitação. Brasil com dois participantes. c) Seminário Internacional das Nações Unidas sobre Administração de programas e de importantes Serviços de Reabilitação em Países em Desenvolvimento. Foi realizado em Copenhague, sob a égide da ONU, com o patrocínio do Governo da Dinamarca, de 18 de julho a 5 de agosto de 1966. Foram 31 participantes de 26 países em desenvolvimento, tendo o Brasil participado com dois profissionais, sendo um da Coordenação da Reabilitação Profissional do INPS e o outro, o Diretor de um Centro de Reabilitação da Bahia. Também na forma de um curso intensivo, foi um Seminário bem agradável aos participantes, pois incluiu viagem a várias cidades dinamarquesas e à bonita cidade de Oslo, na Noruega, mas com compromissos de aulas e conferências em todas elas. Os assuntos tratados cobriram aspectos médicos, sociais, psicológicos e profissionais da reabilitação e suas tendências mais atualizadas. Participamos deste Seminário na qualidade de Secretário Técnico, em nome da ONU. É evidente que muitos outros Seminários Internacionais, cursos ou viagens de estudos empreendimentos que envolvem grupos - foram patrocinados ou organizados tanto pela ONU quanto pelas agências de sua família organizacional, no campo da reabilitação, com resultados que só poderão ser dimensionados com o tempo. Se formos analisar os resultados dos Seminários aqui indicados, com informações eventuais que temos recebido, poderemos afirmar sem susto que para 50% dos participantes eles devem ter significado apenas uma viagem às custas das Nações Unidas e seu Programa Ampliado de Assistência Técnica, de um país sub-desenvolvidos para os extraordinariamente belos países escandinavos. Aprenderam muita coisa, é óbvio, pois a freqüência às atividades dos mesmos era obrigatória e eventuais distrações ou atividades sociais ocorriam apenas aos sábados ou domingos. Esses Seminários caracterizavam-se por atividades muito bem programadas pela manhã e à tarde - e às vezes à noite. E o local de concentração, conferências, trabalhos em grupo, refeições e alojamento para dormir não era perto de Copenhague. Mas sempre era a Dinamarca, a Suécia, a Noruega e aquele povo por vezes indiferente, por vezes formal, por vezes gentil e correto, mas quase sempre bem diferente das realidades encontradiças nos países africanos, asiáticos ou latino-americanos ... Para esses 50% certamente que os melhores momentos estiveram ligados a recordações que nada têm a ver com os Seminários em si: Tivoli, "smorebrods", gramados e jardins floridos, a sereiazinha triste, restaurantes, bicicletas, bandeiras, muita gente loira, uma língua impossível, planuras imensas com plantações de cereais quase sem fim, nenhum rio, nenhuma montanha, ferryboats e as gaivotas em seu encalço, palácios reais, museus - enfim, a Dinamarca propriamente dita. Mas houve o restante dos participantes - os 50%, que devem ter aproveitado e muito, ouvindo, discutindo, estudando, escrevendo. E para esses o programa de reabilitação deve ter aproveitado muito. Saldo positivo deve haver, sem a menor sombra de dúvida! O que nos fica muito patente é que assegurar resultados imediatos não está nem poderia estar relacionado ao conteúdo desses eventos, mas aos tipos de participantes que nem sempre foram (ou são) os mais indicados ou os mais competentes para tirar o devido proveito de encontros tão cuidadosamente preparados.


Uma boa porcentagem das atividades destinadas à transferência de tecnologia de reabilitação dos países mais evoluídos para aqueles em estágio menos avançado de desenvolvimento, na ONU e em suas Agências Especializadas, sempre se concentrou na preparação e na distribuição de bibliografia relevante. Não são apenas relatórios de missões de consultores em áreas pouco evoluídas do mundo, ou missões de caráter regional e interregional, que às dezenas enriquecem o acervo de informações relacionadas ao desenvolvimento da reabilitação no mundo, mas também estudos especiais. A maioria das publicações da ONU e de suas Agências Especializadas leva em consideração as discrepâncias culturais e sociais do mundo, e respeitam os processos implantados nos seus diversos Estados-Membros. Preocupação das mais relevantes ocorreu na década de sessenta, quando a Unidade de Reabilitação de Pessoas Deficientes da ONU iniciou uma série muito interessante intitulada: "Serviços e Material Básicos para os Centros de Reabilitação". Visava a série transmitir idéias, programas, exemplos dos serviços básicos existentes em centros de reabilitação, com o propósito de chegar aos diretores de programas, de atingir os profissionais, de alertar os governos. A série chegou a incluir números sobre fisioterapia, terapia ocupacional, serviço social, psicologia, próteses em geral, próteses para hansenianos. E seu grande alcance levou a Organização das Nações Unidas a traduzir cada volume (de aproximadamente oitenta páginas cada), em várias línguas. Essa série chegou a contar com suas publicações em inglês, espanhol, francês, russo e árabe. Na relação bibliográfica deste volume o leitor poderá ter uma diminuta idéia de publicações da ONU sobre reabilitação. Muitos outros trabalhos foram publicados, é evidente, sendo impossível a apresentação de uma relação completa. A mesma observação relacionada a publicações é aplicável à Organização Internacional do Trabalho, e em menor escala à Organização Mundial de Saúde e UNESCO nos assuntos de reabilitação. Outros esforços muito sérios foram desenvolvidos pela família de Organizações das Nações Unidas para divulgar, implantar ou fortificar programas de reabilitação em todas as partes do mundo. Um deles, quase esquecido entre nós, é o Centro de Demonstração de Reabilitação, a respeito do qual algumas explicações precisarão ser feitas, a fim de que seja feita justiça - tanto à ONU, OIT e OMS, quanto àqueles que a esse plano dedicaram seus esforços, suas inteligências, seu gabarito técnico, em quatro pontos diferentes do mundo. - *Centros de demonstração de técnicas de reabilitação* No início da Década de Cinqüenta a ONU, em decorrência de uma deliberação de caráter inter-organizacional da qual participaram os seus representantes e aqueles da OIT, OMS e UNESCO, resolveu adotar uma estratégia mais efetiva para a implantação de projetos de reabilitação nos quatro continentes: provocar a organização de centros de Demonstração de Técnicas de Reabilitação, que acumulassem a responsabilidade de não só dar atendimento qualificado, mas também de desenvolver cursos para a formação de pessoal básico nessas mesmas técnicas. O plano contava com o apoio das organizações envolvidas, mas de um modo todo especial da própria Organização das Nações Unidas, da Organização Internacional do Trabalho e da Organização Mundial de Saúde. As três organizações haviam estabelecido prioridade em programações de assistência técnica, dentro de certas condições, e haviam igualmente combinado as condições fundamentais para montagem de centros dessa natureza. Além de ser necessário manter um em cada continente, seus especialistas internacionais levaram a campo e indicaram aos governos visitados os critérios para escolha dos países,


estados e cidades onde esses novos recursos poderiam ser instalados. Esses critérios resumiam-se nos seguintes: a) A existência de uma realidade universitária pujante que desse cobertura à formação de pessoal destinado aos programas do centro, ou seja, médicos, assistentes sociais, enfermeiros e psicólogos. Essa mesma realidade universitária deveria estar apta a, com esforço adicional, cobrir ainda a necessidade de formação de profissionais faltantes numa equipe de reabilitação (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, técnicos em próteses e órteses e conselheiros de reabilitação), com a montagem de cursos ainda não existentes no país, mas básicos para programas reabilitacionais. b) Existência de uma realidade industrial, comercial e de serviços em franca expansão, devido ao seu significado na montagem de programas de aconselhamento e de colocação da mão-de-obra das pessoas deficientes adultas em programas de reabilitação. c) Disponibilização de instalações, se possível nas proximidades de um complexo hospitalar que contasse com serviços de ortopedia e neurologia, suficientes para localização de todos os serviços e espaço para internamento de adultos de ambos os sexos. d) Preferência seria dada a país que já contasse com alguns profissionais que tivessem experiência no campo da reabilitação, e com recursos institucionais já instalados de treinamento profissional. e) O compromisso formal e o interesse direto do governo federal e do local (estadual) para a organização do centro de reabilitação e para sua manutenção como projeto de demonstração de tecnologia e de aproveitamento dos novos profissionais em formação. f) O compromisso adicional do governo central de dar prioridade aos pedidos de assistência técnica à família de organizações da ONU, não só pedindo especialistas nas áreas necessitadas de cobertura, mas também bolsas de estudos para a preparação adicional dos profissionais que trabalhassem como assistentes dos consultores das Agências Internacionais, se de todo necessário. Após exaustivos estudos e muitas consultas, os quatro pontos foram escolhidos de comum acordo com os governos interessados. Os Centros de Demonstração de Técnicas de Reabilitação foram instalados na lugoslávia (Skopje), Egito (Alexandria), Índia (Bombaim) e . . . Brasil (São Paulo). Criava-se em nossa Pátria um recurso altamente promissor que deveria ser o elemento catalítico do desenvolvimento da reabilitação em nosso meio: o Instituto Nacional de Reabilitação (INAR) da Universidade de São Paulo! - *O Instituto de Reabilitação: vida e morte* Analisemos, pelo menos superficialmente, o esquema de assistência técnica montado em termos de São Paulo para a implantação de um centro de reabilitação de natureza demonstrativa, padrão de atendimento, voltado para a formação de pessoal especializado. No ano de 1956 o Governador Jânio Quadros assinava decreto criando na USP, o Instituto Nacional de Reabilitação, algum tempo depois transformado em Instituto de Reabilitação. Foi instalado na Clínica Ortopédica do Hospital das Clínicas (1° Andar), sob a direção forte do Professor Doutor Francisco Egydio Godoy Moreira. Conforme instalado, já contando com alguns profissionais que haviam se beneficiado de bolsas de estudos nos Estados Unidos, tornou-se o Instituto, o primeiro centro de reabilitação global do Brasil, um verdadeiro modelo para futuros empreendimentos. Havia outros esforços no Brasil, não se pode negar, como aquele desenvolvido por um grupo dedicado e aprimorado de médicos e assistentes sociais do antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários; havia também as tentativas de um grupo do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários.


Outros nomes de organizações daquela época podem ser relembrados pelos imensos esforços feitos, sem contar com as vantagens de assessoria de técnicos internacionais, como a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação, o Instituto Baiano de Reabilitação, o Hospital Arapiara, a Associação de Assistência à Criança Defeituosa, o Lar-Escola São Francisco, o Serviço de Reabilitação do SESI e outros mais. E já em 1958/59 a nascente Brasília, tão nova e tão surpreendente, contava com um singular e moderníssimo prédio muito bem instalado e equipado – mas sem clientes - que era o Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek. Os técnicos especializados da ONU, indicados para o projeto do Instituto de Reabilitação da USP, enfatizavam continuamente em seus relatórios confidenciais às suas organizações de origem que aquele novo centro piloto de reabilitação deveria ser um paradigma para toda a América Latina - pretensão extremamente alta, tanto para as Organizações Internacionais que demonstravam pouco conhecer a realidade latino-americana, quanto para o próprio Brasil e em especial São Paulo, pois todas as autoridades envolvidas haviam se embalado naquela suave e hipnotizante melodia e na utópica vanglória de estar montando um recurso para todo um continente, esquecendo-se de se voltar para uma realidade bem própria e bem nossa - nada, ou quase nada, estava sendo feito em reabilitação pelos milhões de deficientes brasileiros. Conforme foram chegando, os especialistas internacionais foram cobrindo as áreas de consultoria geral e administração de reabilitação, aspectos especiais de reabilitação de cegos, aspectos profissionais de reabilitação, fabricação de próteses e treinamento de seu pessoal, organização dos departamentos de fisioterapia e terapia ocupacional e montagem dos cursos específicos. Bolsas de estudos foram concedidas em número bem reduzido nas áreas de enfermagem, medicina física, administração de centros e aspectos profissionais de reabilitação. Uma bolsa especial foi concedida na área de locomoção de cegos, um dos aspectos enfatizados pelos consultores da OIT. Após diversos anos de funcionamento, contava o Instituto de Reabilitação com uma equipe especializada, tinha um bom número de leitos para casos que precisavam de internação, atendia um bom volume de clientela e dava cursos de preparação dos técnicos em fisioterapia, em terapia ocupacional e no campo de próteses e órteses. Além disso, o Instituto aceitava profissionais formados ou alunos dos últimos anos para estágios de especialização, organizava congressos, seminários e dava uma expressiva cota de contribuição ao desenvolvimento dos ideais da reabilitação em nosso meio. Os problemas internos, seja de ordem financeiro-administrativa, seja de ordem técnica, eram discutidos, e os caminhos eram encontrados. Tratava-se de um centro de reabilitação que era o real detentor de um papel de alta relevância. O sucesso dos centros da Iugoslávia, do Egito e da Índia poderá, sem qualquer sombra de dúvida, ser medido pelos frutos gerados nesses países. Entre nós, porém, o final dessa promissora tentativa foi no mínimo lacônica: o Instituto de Reabilitação da Universidade de São Paulo, apesar de contar com bons profissionais e de ter potencial para atendimento de clientela adulta diversificada, acabou fechando suas portas ao final da década de sessenta, devido a problemas muito sérios. Seus cursos de Terapia Ocupacional e de Fisioterapia, acrescidos de um curso de Fonoaudiologia, foram absorvidos pela Faculdade de Medicina da USP. As instalações ocupadas foram devolvidas integralmente ao Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Seus profissionais, por anos a fio sem ter clientela para atender, sem verbas para atuar, dispersaram para outros serviços do Hospital das Clínicas ou pediram demissão.


E, o mais terrível desse desfecho todo, as pessoas deficientes adultas ficaram sem um importante centro de reabilitação que procurava oferecer serviços globais - aliás, à época de seu fechamento, era o único centro fora da Previdência Social que atendia a adultos em São Paulo - lacuna essa até hoje não preenchida condignamente. - *A evolução mais recente da reabilitação* Houve um incremento tão grande a programas de reabilitação de pessoas deficientes que seria tarefa impraticável tentar relatar a história da evolução mais atualizada dessa técnica no mundo todo ou mesmo entre nós. Injustiças muito flagrantes poderiam ser cometidas com a citação de alguns nomes e a omissão de outros. Só na capital paulista estão cadastradas hoje mais de setenta entidades privadas que trabalham em prol das pessoas deficientes, seja em termos de abrigo, seja em termos de tratamento, seja em termos de reabilitação. Procuramos, através do reconhecimento das muitas atuações das organizações intergovernamentais filiadas ao Sistema Nações Unidas, compensar por essa lacuna. Façamos justiça à Organização das Nações Unidas, à incansável Organização Internacional do Trabalho, à inovadora Organização Mundial de Saúde, à batalhadora Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura - UNESCO, e também ao tão prestigiado UNICEF em sua contínua luta pela infância carente do mundo atribulado de hoje. Essas organizações desenvolvem um trabalho silencioso e continuo, e sempre anônimo, que se tem mantido na sua meta original, ou seja, fazer com que a reabilitação e serviços afins cheguem a todos os recantos do mundo. Mas façamos também justiça àquelas organizações que não estão na família organizacional da ONU, ou seja, as Não-Governamentais voltadas para os problemas dos cegos, dos veteranos, dos surdos, das pessoas deficientes de um modo geral. E não nos esqueçamos daquelas que, apesar de não serem destinadas especificamente a esses propósitos, desenvolvem atividades que beneficiam as pessoas deficientes. E mais uma vez para não fazer qualquer injustiça, sem mencionar qualquer nome em especial, limitando-nos a prestar nossas homenagens à Conferência das Organizações Mundiais Interessadas nas Pessoas Deficientes, que as congrega desde o final da década de cinqüenta. Essas organizações todas, sejam elas Inter-Governamentais ou Não-Governamentais, continuam seus trabalhos cada vez com maior ênfase e grau mais elevado de especialização, face a uma problemática que agora todo o mundo desenvolvido ou em desenvolvimento conhece, ou seja, a dos quase quinhentos milhões de pessoas portadoras de deficiências, das quais apenas menos de um terço tem possibilidade de receber algum tipo de serviço. Esse novo despertar para um problema tão grave aconteceu também por iniciativa da Organização das Nações Unidas, com o mais completo apoio das entidades não-governamentais, através do Ano Internacional das Pessoas Deficientes.

CAPÍTULO SÉTIMO 1981 - ANO INTERNACIONAL DAS PESSOAS DEFICIENTES


Desde os primeiros dias do estabelecimento da Organização das Nações Unidas tem havido uma ênfase especial a programas destinados a encontrar soluções para toda a gama de problemas sociais sérios causados pela guerra e pelo sub-desenvolvimento, conforme vimos anteriormente. E, como analisamos no capítulo anterior, o problema de deficiências ocasionadas pelas atividades de guerra era tão significativo que demandou a concentração de esforços em programas de reabilitação das pessoas deficientes, quer tivessem elas sido envolvidas na guerra como integrantes das forças em conflito, quer como vítimas civis. No entanto, os esforços internacionais dirigidos para esse objetivo acabaram sendo muito pouco eficazes devido à sua falta de coordenação - na verdade não havia um plano mundial para dar cobertura a toda a magnitude de dificuldades. E descobriu-se rapidamente que, devido à dispersa - apesar de grande - quantidade de esforços na tentativa de remediar problemas de deficiências instaladas, pouca atenção estava sendo devotada à prevenção de outras deficiências - situação que perdurou por vários anos do pós-guerra. Assim, hoje em dia não é muito de espantar que o mundo tenha um total de aproximadamente 500 milhões de pessoas que sofrem com algum tipo de restrição séria à sua atuação, devido a deficiências de naturezas variadas. Percebemos hoje que as guerras, apesar de serem uma das causadoras mais sérias de deficiências, certamente que não são nem jamais foram as únicas. As sociedades continuam, talvez por falta de atenção ou por mera negligência, a produzir as pessoas com deficiências físicas e mentais, e aquelas que sofrem com os bloqueios de problemas sensoriais, orgânicos, comportamentais e sociais dos mais sérios. Ações preventivas são imperativamente importantes - talvez sejam mesmo tão importantes quanto a própria reabilitação. E uma importante razão para dar ênfase à prevenção de males é evitar o desperdício de recursos humanos, que são um componente básico de qualquer processo de desenvolvimento, somados que devem ser aos recursos naturais e financeiros. - *As declarações de direitos e sua importância* Com esse tipo de raciocínio dominante, a Assembléia Geral da ONU tem mantido muitos esforços para dar cobertura a esse problema social de alto significado, tendo sempre sua atenção voltada para a grande variedade dos demais problemas de desenvolvimento. Assim é que no ano de 1971 a Assembléia Geral proclamou a aprovação de uma resolução de alto significado a respeito das pessoas deficientes: a Declaração dos Direitos das Pessoas com Retardo Mental. No ano de 1975, por sua vez, aprovou a Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes. Este documento internacional é fundamental e o leitor não poderá em absoluto deixar de conhecê-lo pelo menos em seus postulados principais que são os seguintes: 1) O termo pessoas deficientes refere-se a qualquer pessoa incapaz de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal, em decorrência de uma deficiência, congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais. 2) As pessoas deficientes gozarão de todos os direitos estabelecidos a seguir nesta Declaração. Estes direitos serão garantidos a todas as pessoas deficientes sem nenhuma exceção e sem qualquer distinção ou discriminação com base em raça, cor, sexo, língua, religião, opiniões políticas ou outras, origem social ou nacional, estado de saúde, nascimento ou qualquer outra situação que diga respeito ao próprio deficiente ou e sua família.


3) As pessoas deficientes têm o direito inerente ao respeito por sua dignidade humana. As pessoas deficientes, qualquer que seja a origem, natureza e gravidade de suas deficiências, têm os mesmos direitos fundamentais que seus concidadãos da mesma idade, o que implica antes de tudo, no direito de desfrutar de uma vida decente, tão normal e plena quanto possível. 4) As pessoas deficientes têm os mesmos direitos civis e políticos que outros seres humanos: o parágrafo sétimo da Declaração de Direitos das Pessoas com Retardo Mental aplica-se a qualquer possível limitação ou supressão desses direitos para as pessoas mentalmente deficientes. 5) As pessoas deficientes têm direito a medidas que visem capacitá-las a tornarem-se tão auto-confiantes quanto possível. 6) As pessoas deficientes têm direito a tratamento médico, psicológico e funcional, incluindo-se neles os aparelhos de próteses e órteses, a reabilitação médica e social, educação, treinamento profissional e reabilitação, assistência, aconselhamento, serviços de colocação e outros serviços que lhes possibilitem o máximo desenvolvimento de sua capacidade e habilidades e que acelerem o processo de sua integração ou reintegração social. 7) As pessoas deficientes têm direito à segurança econômica e social e a um nível de vida decente e, de acordo com suas capacidades, a obter e manter um emprego ou a desenvolver atividades úteis, produtivas e remuneradas, e a participar de sindicatos. 8) As pessoas deficientes têm direito de ter suas necessidades especiais levadas em consideração em todos os estágios de planejamento econômico e social. 9) As pessoas deficientes têm direito de viver com suas famílias ou com pais adotivos e de participar de todas as atividades sociais, criativas e recreativas. Nenhuma pessoa deficiente será submetida em sua residência, a tratamento diferencial, além daquele requerido por sua condição ou por sua necessidade de recuperação. Se a permanência de uma pessoa deficiente em um estabelecimento especializado for indispensável, o ambiente e as condições de vida nesse local devem ser, tanto quanto possível, próximos da vida normal de pessoas da sua idade. 10) As pessoas deficientes deverão ser protegidas contra toda exploração, todos os regulamentos e tratamento de natureza discriminatória, abusiva ou degradante. 11) As pessoas deficientes deverão poder valer-se de assistência legal qualificada quando tal assistência for indispensável para a proteção de suas pessoas e propriedade. Se forem instituídas medidas judiciais contra elas, o procedimento legal aplicado deverá levar em consideração sua condição física e mental. 12) As organizações de pessoas deficientes poderão ser consultadas com vantagem em todos os assuntos referentes aos direitos de pessoas deficientes. 13) As pessoas deficientes, suas famílias e comunidades deverão ser plenamente informadas por todos os meios apropriados sobre os direitos contidos nesta Declaração. Esta Resolução foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU, em sua trigésima sessão, no dia 9 de dezembro de 1975, levando o número XXX/3447. - *O significado de um "Ano Internacional"* Um ano depois, no dia 16 de dezembro de 1976, foi aprovada a Resolução n° 31/123, proclamando o ano de 1981 como o Ano Internacional para as Pessoas Deficientes (International Year for Disabled Persons). Estava muito claro o propósito dessa última declaração universalmente conhecida: dar condições para a implementação das resoluções


anteriores, através da conscientização do mundo todo quanto à problemática das pessoas portadoras de deficiências. Muita gente que ouve falar de Anos Internacionais, questiona-os sob um ângulo apenas: fala-se muito daquele assunto durante um ano todo e depois tudo cai no esquecimento e quase nada de concreto é feito. Será, entretanto, justo lembrarmo-nos que os princípios que lastreiam os chamados "Anos Internacionais" podem ser resumidos num único: Que a comunidade internacional tome conhecimento da existência de um certo problema que afeta segmentos da população, procurando soluções através de consultas internacionais, ação conjunta e cooperação. Neste caso particular do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, existe, de fato, um problema sério para a comunidade das nações concentrar toda a atenção de que puder dispor, dando-lhe a possível prioridade durante um ano todo. E o problema que estamos analisando é, de fato, o intolerável problema de "meio bilhão de pessoas" - sim, estamos falando de "meio bilhão de pessoas" - que se vê à margem de tudo e não desfruta de seus direitos. Caso, através de um Ano Internacional, a ONU consiga obter um nível de conscientização internacional bom, haverá pelo menos o início de uma mudança gradativa nas condições de vida dessas pessoas marginalizadas devido à deficiência. As necessidades são tão grandes e tão desproporcionais aos recursos disponíveis que a mudança jamais poderia ocorrer com a mera soma de esforços individualizados de cada país, ou das instituições oficiais ou privadas. Essa mudança requererá a interação de todos esses esforços, privados e oficiais, nacionais e internacionais. Apenas uma ação de caráter nacional e internacional, regional e mesmo local, bem coordenada, poderá garantir qualquer sucesso aos ideais do Ano Internacional das Pessoas Deficientes. - *O Ano Internacional das Pessoas Deficientes: trabalhos iniciais* Aprovada a idéia do Ano Internacional, era necessário que a própria ONU preparasse um plano de ação mundial de atuação. Para tanto, um Comitê Consultivo foi criado pela Assembléia Geral, composto de representantes de vinte e três países, dentre os quais o Brasil não estava incluído. As primeiras demonstrações de apoio à proposição do Ano Internacional das Pessoas Deficientes começaram logo a chegar à ONU, como nos é relatado pelo Boletim n° 1/79 sobre o assunto. Uma das primeiras veio da Organização de Unidade Africana que já aprovara uma resolução de apoio ao Ano Internacional, em fevereiro de 1978, indicando a possibilidade de organizar um Seminário a nível regional para encontrar meios destinados a implementar os objetivos do Ano. O Centro Europeu para o Treinamento e para a Pesquisa em Bem-Estar Social, a Organização Internacional de Padronização, o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e a Federação Mundial dos Veteranos indicaram seu apoio irrestrito. O Comitê Consultivo apresentou seu relatório ao Terceiro Comitê da Assembléia Geral da ONU em 1979 (34ª Sessão). Acabou tendo a satisfação de ver o substancioso documento inserido no próprio Relatório do Secretário-Geral da Organização. - *O conteúdo básico das idéias consensuais para um plano de ação mundial* Desse relatório decisivo do senhor Secretário-Geral Kurt Waldheim é que muito daquilo que tem sido citado como básico, seja verbalmente seja por escrito, a respeito do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, está inserido. E a maioria de seu conteúdo é de fato consideravelmente importante. Vejamos alguns trechos:


"16. Diversos membros do Comitê enfatizaram a necessidade de levar em conta as necessidades e os problemas das pessoas deficientes no processo de planejamento do desenvolvimento nacional, Pessoas deficientes devem ter o mesmo direito que todos os outros cidadãos de se beneficiar dos serviços postos à disposição pelo Estado e pela sociedade em geral a seus cidadãos. Pessoas deficientes devem ser consideradas como cidadãos comuns com problemas especiais em vez de uma categoria especial de pessoas com necessidades diferentes daquelas de outros cidadãos. Participação plena deve ser entendida como participação em todos os aspectos da vida comunitária: nas atividades políticas, econômicas, sociais, culturais e esportivas. Medidas que forem necessárias para tornar essa participação possível devem ser adotadas e colocadas em prática. Foi reconhecido que os obstáculos mais significativos à participação plena eram as barreiras físicas, os preconceitos e as atitudes discriminatórias, e que devem ser desenvolvidas atividades para remover essas barreiras. Foi também reconhecido que a sociedade, ao desenvolver seus ambientes modernos, tendia a criar barreiras novas e adicionais, a menos que as necessidades de pessoas deficientes fossem levadas em consideração nos estágios de planejamento. “17. Alguns membros afirmaram que estava ocorrendo uma dramática mudança nas atitudes das próprias pessoas deficientes. Elas estavam assumindo cada vez mais o papel de um grupo consumidor que tinha seus próprios pontos de vista quanto à forma como as melhorias de suas condições de vida deveria ser efetivada e desejavam que esses pontos de vista fossem conhecidos daqueles que tomavam decisões. Alguns membros sugeriram que essa tendência deveria ser encorajada, e que os representantes de pessoas deficientes deveriam desfrutar de plena participação não apenas no planejamento de programas a elas relacionados, mas também no planejamento do desenvolvimento social e econômico da sociedade em geral. Foi também sugerido que as organizações internacionais deveriam dar exemplo nesse sentido”. "22.Com relação ao programa de ação a longo prazo, alguns representantes enfatizaram que o Ano deveria marcar o início de um esforço internacional nesse campo e que o programa deveria ser preparado pelo Comitê baseado nas sugestões dos países-membros, das agências especializadas da ONU e das organizações não-governamentais próprias, no curso de 1980 e 1981. Poucos problemas poderiam vir a ser resolvidos durante o Ano e era também necessário considerar medidas baseadas em prazos mais longos de tempo, para assegurar ao máximo possível a concretização dos objetivos do Ano em todos os países". O relatório do Comitê Consultivo, aprovado pela Assembléia Geral ao ser apresentado como parte integrante do próprio relatório do Secretário-Geral da ONU, prossegue enfatizando a necessidade de medidas preventivas de males incapacitantes, bem como de envolvimento das próprias pessoas deficientes para a garantia de seus direitos. Havia, no entanto, membros desse mesmo Comitê que queriam saber de resultados práticos, de programas objetivos e de medidas exeqüíveis. "24. Diversos membros expressaram sua preferência por programas práticos para o Ano Internacional, que deverão incluir o uso de tecnologia apropriada para a reabilitação do deficiente, a concessão de bolsas de estudos para especialização, o desenvolvimento de um banco de equipamentos e outros programas que possam trazer benefícios diretos para as pessoas deficientes e assim tornar a observância do Ano mais significativa. 25. Alguns membros indicaram que pessoas deficientes, de fato, formavam um grupo bastante variado, dentro do qual havia pessoas com deficiências diferentes e que havia, em


conseqüência, grandes diferenças nas necessidades e nos requisitos para serviços. Foi sugerido que o programa para o Ano deverá levar em conta diferentes deficiências e prover meios para assegurar a implantação dos objetivos do Ano para todas as pessoas deficientes". "29. O representante da Organização Mundial de Saúde referiu-se particularmente a certos levantamentos recentes indicadores de que, presentemente, apenas uma pequena porcentagem de pessoas deficientes nos países em desenvolvimento recebiam os serviços de que necessitavam; o sucesso dos esforços para melhorar as condições de vida da maioria das pessoas deficientes da zona rural dos países em desenvolvimento depende da descoberta de novos meios para estender a prestação de serviços básicos necessários, a nível de comunidade, meios esses que devem estar em consonância com os recursos já colocados à disposição para tal finalidade nos países em desenvolvimento, ou que podem ser disponibilizados para tanto". - *As recomendações para atividades a nível nacional* Depois de discutir assuntos relacionados à cobertura de secretariado para o Ano Internacional, e de analisar algumas proposições que não chegaram a ser aprovadas, o documento apresenta suas Recomendações que, devido à sua relevância, transcrevemos. "III. RECOMENDAÇÕES A - Introdução - Princípios básicos adotados para as recomendações 57. A finalidade do Ano Internacional das Pessoas Deficientes é promover a concretização de objetivos de "participação plena" de pessoas portadoras de deficiências na vida social e no desenvolvimento das sociedades nas quais vivem, "igualdade" significando condições de vida iguais àquelas de outros cidadãos na sua sociedade e uma participação igual na melhoria das condições de vida que resultam do desenvolvimento social e econômico. Esses conceitos são aplicáveis da mesma maneira e com a mesma urgência em todos os países, independentemente de seu nível de desenvolvimento. 58. Problemas de pessoas portadoras de deficiências deverão ser apreendidos em sua totalidade e levados em consideração em todos os aspectos de desenvolvimento. Todavia, deve-se notar que, em vista dos muitos problemas de alta prioridade e de meios e recursos insuficientes, os países em desenvolvimento têm-se visto impossibilitados de alocar os necessários recursos para resolver os problemas de pessoas deficientes". "B - Atividades a nível nacional 68. A Comissão Consultiva recomenda que os Estados-Membros sejam convidados, em conformidade com seus direitos e responsabilidades, a determinar com plena liberdade seus objetivos de desenvolvimento e prioridades, e, à luz de suas próprias circunstâncias, considerar a adoção das seguintes medidas para a implementação e verificação dos objetivos do Ano Internacional, conforme estabelecido pela Assembléia Geral em sua resolução n.°31/123. Os Estados-Membros são convidados a: a) Fazer uma proclamação no início do ano (1981) contendo as medidas prioritárias a serem implantadas para a plena participação de pessoas portadoras de deficiências na sociedade. b) Estabelecer como medida preparatória, Comissões Nacionais ou Grupos semelhantes para o Ano, cujo nível de representação deverá ser de tal natureza que possa assegurar a


implementação de suas metas, com a finalidade de planejar, coordenar e executar, ou encorajar a execução de atividades de apoio aos objetivos do Ano Internacional a nível local e nacional; dentre os que participam de Comissões deverão estar incluídos representantes de Ministérios, organizações governamentais e organizações não-governamentais e grupos voluntários, inclusive aqueles que representam a juventude e a comunidade econômica. A participação de representante de organizações de ou para pessoas portadoras de deficiências em tais Comissões deverá ser considerada como prioritária. c) Preparar, ao final de 1981, planos nacionais para o prosseguimento dos objetivos do Ano, tendo em vista a revisão e a avaliação de resultados do ano, previstos para 1991. d) Promover campanhas de divulgação para disseminar informações sobre os objetivos do Ano Internacional e esclarecer o público, aumentando seu conhecimento quanto aos direitos das pessoas deficientes de participar e de construir para a vida econômica, social e política de sua sociedade, elevando também a consciência da comunidade para o potencial das pessoas portadoras de deficiências de assim o fazer. e) Integrar os serviços destinados a pessoas portadoras de deficiências nos programas de desenvolvimento geral da comunidade e adotar o conceito de reabilitação integral em todos os serviços de saúde, de educação e de serviços sociais. f) Treinar pessoal profissional e técnico nos números e nos níveis que garantam a implementação de programas nacionais relacionados a todos os aspectos da reabilitação integral, através, por exemplo, da inclusão no currículo das escolas, universidades e outras instituições educacionais, do conceito de reabilitação integral. g) Prestar atenção especial à coordenação e fornecimento de serviços governamentais no que diz respeito a pessoas portadoras de deficiências, particularmente nas áreas de prevenção, cuidados de saúde, educação, habilitação e reabilitação social e profissional. h) Estabelecer mecanismos apropriados governamentais para coordenação de toda a política relativa às pessoas portadoras de deficiências, particularmente nas áreas de prevenção, de cuidados com a saúde, de educação, de habilitação e de reabilitação social e profissional. i) Rever a legislação existente para eliminar possíveis práticas discriminatórias com relação à educação e ao emprego de pessoas deficientes. k) Tornar o planejamento para desenvolvimento e programação de prevenção e serviços de reabilitação uma parte integrante no processo de planejamento nacional. l) Concretizar programas existentes relativos a medidas profiláticas de moléstias, como importante passo na prevenção de deficiências. m) Desenvolver todo o esforço para analisar com seriedade a incidência de deficiências, por exemplo, por pesquisas preliminares em residências, a fim de capacitar as organizações que determinam a política de atuação a conhecer a natureza e a extensão das necessidades que os serviços devem atender. Os órgãos de planejamento econômico e social deverão estar envolvidos num nível mais elevado em questões relacionadas a deficiências, prestação de serviços de reabilitação, e a estimulação do treinamento de especialistas de planejamento neste campo. m) Rever seus serviços e benefícios para assegurar que ajudem e encorajem as pessoas portadoras de deficiências a permanecer e/ou a tornar-se uma parte integrante da sociedade onde vivem, em vez de provocar segregação e isolamento. n) Quando do estabelecimento de política para as pessoas portadoras de deficiências, dar ênfase ao desenvolvimento de suas habilidades e promover informação para o deficiente a respeito de serviços e benefícios que estão ao seu dispor.


o) Iniciar investigações quanto a restrições discriminatórias que limitam a liberdade da pessoa deficiente em participar plenamente da sociedade, e tomar as medidas que forem necessárias para remediar a situação. p) Promover condições adequadas, inclusive acesso sem obstáculos a instalações, para a plena participação de pessoas portadoras de problemas físicos em educação, trabalho, esportes e outras formas de recreação. q) Manter-se alerta para a necessidade de introduzir legislação que assegure que todos os edifícios novos e edifícios nos quais adaptações de grande monta estejam sendo iniciadas, garantam acesso pleno para pessoas com deficiência, e reconhecer formalmente que pessoas deficientes tenham o mesmo direito de acesso a todos os prédios públicos e sociais das demais pessoas. Isso deveria incluir também medidas para criar e aumentar o acesso à informação pública para pessoas surdas e aquelas que têm deficiência auditiva e visual, através, por exemplo, do aumento de literatura gravada em cassetes ou transcrição em Braille e com a provisão de equipamentos auxiliares de audição em edifícios públicos e serviços de intérpretes para surdos. r) Com relação à habitação para as pessoas portadoras de deficiências, evitar programas de reabilitação segregados que provocam um ambiente semelhante ao da vida institucionalizada e, em países onde instituições estão sendo reduzidas, transferir recursos de cuidados institucionais para cuidados relativos à integração e assegurar apoio adequado para pessoas portadoras de deficiências, em casa e junto à família. s) Rever e quando necessário revitalizar, programas destinados a prevenir a ocorrência de deficiências. t) Promover a saúde no contexto de "cuidados básicos com saúde" para a prevenção de deficiências, particularmente aquelas que são de origem pré-natal e natal, ou que ocorrem na primeira infância, pela adoção de atividades destinadas a melhorar os programas de reabilitação, nutrição, serviços de saúde maternal e infantil, assistência adequada durante a gestação e durante o parto, controle da doença microbacteriana e o controle de doenças crônicas, tanto transmissíveis como não-transmissíveis. u) Dar ênfase às normas de segurança no trabalho como medida preventiva, e adaptar sua aplicação à pessoa portadora de deficiência no trabalho às necessidades individuais. v) Tornar o ambiente de trabalho acessível à pessoa com mobilidade restrita, àquelas com problema de orientação e àquelas com problemas alérgicos. Atenção devida deverá também ser dada a fatores psicológicos no ambiente de trabalho e à influência das condições de trabalho sobre a saúde mental da pessoa. w) Possibilitar a isenção de taxas alfandegárias e de taxas sobre equipamentos, maquinaria, adaptação e outros materiais usados por e para benefício de pessoas deficientes, devido às suas incapacidades, e prover também a necessária licença de importação e alocações de câmbio para moeda estrangeira, quando aplicáveis. x) Assegurar, conforme for recomendável, que organizações não-governamentais estejam adequadamente envolvidas na preparação e implantação de programas nacionais no campo de serviços sociais para pessoas deficientes. y) Dar alta prioridade às atividades iniciadas por pessoas deficientes e encorajar o estabelecimento de organizações de pessoas deficientes. z) Indicar, se possível, representantes de pessoas com deficiência, para delegações que participem de encontros internacionais, particularmente quando os assuntos se relacionem a elas e ao Ano Internacional. aa) Proclamar o Dia Nacional das Pessoas Deficientes.”


(Extraído do Documento n°. A/34/158, de 13 de junho de 1979 "International Year for Disabled Persons - Report of the Secretary-General" - United Nations, New York). - *O Ano Internacional das Pessoas Deficientes a nível de Brasil* Foi através de uma carta datada de 25 de outubro de 1979 que Esko Kosunen, Oficial Encarregado do Ano Internacional para as Pessoas Deficientes e Chefe da Unidade de Reabilitação da ONU, remeteu-nos longos comentários e material farto e relevante quanto a 1981, até então conhecido como o Ano Internacional para as Pessoas Deficientes. Trabalháramos um ano e meio juntos na ONU, em New York, no final de nosso período de cinco anos de atuação na Organização, e sabíamos muito bem que a preocupação dele era que alguém, fora de âmbito oficial federal, pudesse dar um primeiro impulso a nível de Brasil, para que o evento internacional surtisse efeitos em nosso meio. Por remessa postal separada, enviou-nos também o seguinte material inicial, depois complementado por outros mais atualizados: - Resolução da Assembléia Geral da ONU, n° 31/123, sobre o Ano Internacional para as Pessoas Deficientes, datada de 2 de fevereiro de 1977; - Relatório do Secretário-Geral da ONU, datado de 11 de novembro de 1977, sobre o Ano Internacional; - Resolução da Assembléia Geral da ONU, n°. 32/133, de 28 de fevereiro de 1978, também sobre o Ano Internacional; - Relatório evolutivo do Secretário-Geral da ONU sobre Prevenção de Deficiências e Reabilitação do Deficiente, datado de 19 de fevereiro de 1978; - Relatório do Secretário-Geral da ONU juntando a minuta do Programa Internacional para os anos de 1980/81, para consideração da Assembléia Geral; - Anexo II do Relatório sobre a Situação Social do Mundo, contendo medidas relacionadas à Implementação dos Direitos das Pessoas Deficientes; - Circular n°. 3/79, de comunicação sobre o ano Internacional das Pessoas Deficientes; - Relatório do Secretário-Geral da ONU à Assembléia Geral, adotando o relatório da Comissão Consultiva, e apresentando-o na íntegra para aprovação contendo todas as proposições sobre o Ano Internacional das Pessoas Deficientes (transcritas em parte neste capítulo). De posse dessa documentação, tomamos providências pessoais para tradução dos trechos mais relevantes para o português, com o intuito de iniciar uma série de discussões sobre seu conteúdo, e de chegar ao final do ano de 1980 com algumas idéias bem estabelecidas. A primeira oportunidade surgiu em maio de 1980 quando um incipiente movimento de São Paulo, até então conhecido como "Coalizão de Pessoas Deficientes" e hoje conhecido como "Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes" reuniu-se numa manhã de sábado e discutiu as "proposições a nível nacional", contidas no documento. Os quase trinta participantes da reunião distribuíram-se em quatro grupos de trabalho e discutiram as vinte e sete proposições, elaborando propostas novas para aplicação local daquilo que, no documento original, parecia mais uma colcha de retalhos de idéias. A segunda oportunidade para estudar essas proposições surgiu durante o Segundo Congresso Brasileiro de Reintegração Social, organizado em São Paulo, no mês de julho de 1980. O tema "Ano Internacional das Pessoas Deficientes" foi incluído no programa para debates durante uma tarde toda de trabalhos. O congresso aprovou uma série de conclusões dos grupos de trabalho, bem mais profundas e mais incisivas do que as primeiras, devido à heterogeneidade dos grupos, à diversidade de sua composição, ao acervo de experiências de


seus debatedores e também devido ao fato de estar contando com os resultados das primeiras discussões durante o mês de maio, o que muito ajudou os membros integrantes dos grupos de trabalho. Também no início do mês de julho de 1980 surgiu em São Paulo um grupo conhecido como "de apoio e estímulo ao Ano Internacional das Pessoas Deficientes". Logo após sua primeira reunião, convocada por Dona Dorina de Gouvêa Nowill, foi tomada a deliberação de remeter ao Senhor Presidente da República ofício co-assinado por entidades participantes, para que ele desse ao Ano Internacional o nome correto, ao assinar o decreto criando a Comissão Nacional ao mesmo destinada. Ouvia-se falar de traduções inaceitáveis, tais como "Ano Internacional do Incapacitado", "Ano Internacional do Excepcional" e outros nomes que estavam sendo fortemente tentados. A mensagem, juntamente com outras de locais e iniciativas diferentes, parece que chegou ao destino, pois em 16 de julho de 1980 o Presidente da República assinava decreto criando a Comissão Nacional do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, vinculando-a ao Ministério da Educação e Cultura. Seus membros foram nomeados por Portarias do Senhor Ministro da Educação em 28 de agosto e 17 de setembro de 1980. - *A Comissão do Estado de São Paulo e seu relatório* A Comissão Estadual de São Paulo foi criada apenas no dia 5 de março de 1981, uma vez que a Secretaria de Estado da Casa Civil do Governador ficara aguardando orientações da Comissão Nacional até então. Foi criada com o nome de Comissão Estadual de Apoio e Estimulo ao Desenvolvimento do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, por meio de um decreto datado de 5 de março de 1981 e teve em sua presidência o próprio SecretárioChefe da Casa Civil do Governador. Recebeu o prazo de sessenta dias para apresentar seu relatório final. Prazo cumprido, o relatório foi impresso e amplamente distribuído para informação de todos os interessados no assunto, além de servir de base para discussão de seus temas nos mais variados níveis. Trata-se de um documento "que representa um consenso de opiniões de todos os seus componentes, analisa em cores adequadas a extensão dos problemas das deficiências entre nós e apresenta sugestões de naturezas várias, não só para 1981, mas para toda a Década de Oitenta, conforme indicado em suas considerações", segundo nota introdutória do documento em questão. - *As propostas para ação em São Paulo* A Comissão Estadual de Apoio e Estímulo ao Desenvolvimento do Ano Internacional das Pessoas Deficientes inseriu em seu relatório uma série de propostas para ação, a curto, médio e longo prazos. A primeira dessas proposições dirige-se ao Governo Estadual e a todos os Governos Municipais do Estado, indicando pontos básicos para o estabelecimento de uma política de ação para toda a Década de Oitenta. Assim, o relatório sugere medidas quanto à prevenção de males incapacitantes e à redução das conseqüências das deficiências já instaladas; sistemas municipais simples para a detecção precoce das deficiências, com o propósito de atender, tratar e reabilitar, levantando dados e adequando programas e ações futuras; acesso de pessoas deficientes de todas as idades à educação e à profissionalização; pesquisas das mais variadas naturezas nessas áreas; revisão de normas e padrões de funcionamento das entidades de atendimento; revisão tanto do Código de Obras quanto daquele relacionado a Normas Técnicas, e muitos outros pontos de relevância. Nesse importante documento a Comissão Estadual defende também a criação de um órgão de coordenação, a fim de verificar que a política de ação seja efetivada, assumindo a


responsabilidade de planejar, incrementar e coordenar as atividades de atendimento às pessoas deficientes e seus familiares. Segundo os postulados da Comissão Estadual, esse órgão deverá ser de caráter inter-secretarial, contando com representação não só das Secretarias de Estado envolvidas, mas também de entidades de/para pessoas deficientes. Indica também a Comissão Estadual a necessidade da criação de um Fundo Especial de desenvolvimento, com dotação orçamentária própria para subsidiar programas reabilitacionais. Esse Fundo, considerado um programa coordenado, só poderá ser gerido pelo Órgão de Coordenação já indicado. Logo a seguir a Comissão Estadual entra em pormenores quanto a outros objetivos, tais como Educação, Prevenção, Reabilitação Global, Trabalho, Conscientização, Acesso e Eliminação de Barreiras, Materiais e Equipamentos, e Legislação. Documento inédito em termos de Brasil, o relatório da Comissão Estadual de São Paulo foi amplamente distribuído para todas as Comissões Estaduais/Territoriais ainda em setembro de 1981, com o intuito de dar subsídios e de ajudar na discussão dos problemas. - *As realizações da Secretaria Executiva da Comissão Estadual* A Comissão Estadual para o Ano Internacional das Pessoas Deficientes que foi organizada em São Paulo entregou seu relatório dentro do prazo estabelecido, e no ato de sua entrega ela encerrou as suas atividades. Decidiu, entretanto, seu Presidente, manter em atuação sua Secretaria Executiva, cabendo a ela prosseguir os entendimentos até então mantidos e assumir a responsabilidade de continuar todos os esforços viáveis para o objetivo fundamental de levar a uma conscientização mais completa possível quanto à problemática das pessoas deficientes. Do mês de julho até setembro foram distribuídas mais de quinze mil cópias do Relatório da Comissão Estadual, tendo cada Comissão Estadual ou Territorial recebido cinqüenta cópias para seu uso e como subsídio da Comissão Paulista aos esforços que estavam sendo feitos a nível de cada Unidade Federada. Além disso, dentro do mesmo período de tempo, foram remetidas cópias para vários organismos internacionais, tais como a ONU e seu escritório central para o A.I.P.D., em Viena, a Organização Mundial de Saúde, a Organização Internacional do Trabalho, a Organização Pan-Americana de Saúde, a UNESCO, o UNICEF, a Rehabilitation International, o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, a Federação Mundial dos Veteranos e diversas outras organizações não-governamentais de caráter internacional, envolvidas no assunto. Reações as mais diversas ocorreram a esse documento básico, trabalhado por São Paulo. A Organização das Nações Unidas solicitou cópias adicionais, pois pretendia estudar seu conteúdo com cuidado. A Rehabilitation International, por meio de uma correspondência atenciosa, chegou a se expressar da seguinte forma, por meio de seu Secretário-Geral, Norman Acton: "Prezado Otto, Com a maior sinceridade quero que me desculpe porque até agora não me foi possível responder pessoalmente à sua carta de 11 de agosto e todas as informações que mandou com ela. Este foi um exemplo extremamente interessante dos tipos de coisas positivas que aconteceram durante o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, e eu sei que você deve ter uma sensação de grande satisfação porque a atuação de vocês, em São Paulo, foi muito maior e mais efetiva do que foi o caso ao redor da maior parte do mundo". - *Dois Encontros Regionais discutem as propostas da Comissão Estadual*


O Relatório da Comissão Estadual foi discutido em dois Encontros Regionais organizados especificamente para esse fim: - I Seminário Regional de Habilitação e Reabilitação das Pessoas Deficientes, organizado pela Comissão Municipal de Ourinhos com a estreita colaboração da Comissão Estadual; - Encontro Regional sobre Integração das Pessoas Deficientes, organizado pela Comissão Municipal de Bauru em colaboração com a Comissão Estadual. De ambos os Encontros conclusões interessantes foram encaminhadas à Secretaria Executiva da Comissão Estadual, contendo não só uma análise do relatório em discussão, mas também proposições para sua implementação a nível local e/ou regional. - *Conscientização: a meta para 1981* Mantendo-se na linha de garantir como prioridade para o Ano Internacional das Pessoas Deficientes o objetivo de conscientização, a Secretaria Executiva traduziu e conseguiu que fossem impressas 50.000 cópias da "Carta para a Década de Oitenta - Declaração", das quais 40.000 foram distribuídas até dezembro de 1981, tanto para Comissões Estaduais e Territoriais, à base de 500 cópias cada, como também para entidades que congregam pessoas deficientes, seminários, palestras, faculdades e outros pontos. Um volume de 500 cópias foi também remetido para o Secretariado Nacional de Reabilitação de Portugal. A Secretaria Executiva da Comissão Estadual também coordenou a gravação de quinze mesas redondas na Rádio Cultura de São Paulo, para transmissão em ondas curtas e longas, com a ampla participação de pessoas deficientes discutindo informalmente temas de alta relevância, como a necessidade de conscientização, a realidade de trabalho, a vida afetiva, as barreiras atitudinais e arquitetônicas e vários outros. Recebido o conjunto de gravações, providenciou também a Secretaria Executiva sua transcrição para o papel, com o intuito de futuramente preparar documento para impressão e distribuição. Esses conjuntos de gravações têm sido usados em Centros de Reabilitação e têm sido muito importantes para a discussão dos problemas de pessoas deficientes nos mais variados ambientes. Além disso, manteve também a Secretaria Executiva compromissos de palestras e conferências sobre o Ano Internacional em vários pontos do território nacional. Atuação das mais marcantes, entretanto, foi a pormenorização do projeto de órgão de coordenação para sua apresentação aos órgãos competentes, e o trabalho de elaboração dos projetos de reabilitação a nível comunitário, com o uso de tecnologia apropriada, e de cooperação e assistência técnica em reabilitação. Ambos os projetos foram preparados para serem colocados em prática tão logo o governo paulista se definisse quanto ao órgão coordenador, sem o qual pouca coisa poderia ser feita ordenadamente. Assim, muito embora sem qualquer divulgação externa, a Secretaria Executiva da Comissão Estadual do A.I.P.D. em São Paulo demonstrou que muito pode ser feito sem alarde, com o lançamento de sementes que são de fundamental importância no futuro desenvolvimento de programas de reabilitação no Brasil. - *O apagar das luzes para o Ano Internacional* Embora alguns artigos de jornal ou revista procurassem martelar uma certa sensação de vazio quanto a realizações concretas do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, o Encontro Nacional das Comissões Estaduais para o A.I.P.D. parece que demonstrou com clareza que ela não se justifica, a menos que se procurasse chegar apenas a realizações concretas.


Na verdade, ninguém em sã consciência poderia esperar que séculos - milênios, para ser mais preciso - de esquecimentos e de desvalorização pudessem ser suplantados em um ano apenas, com realizações marcantes, mudanças de atitudes, elevação de prioridades governamentais, construção de centros, adaptação de meios de transporte, rebaixamentos de guias e eliminação de barreiras. Poucas foram as realizações concretas. A totalidade das Comissões Estaduais e da própria Comissão Nacional para o A.I.P.D. tiveram o bom senso de trabalhar com o objetivo de "conscientizar" o mais possível a sociedade quanto ao problema e quanto à necessidade de todos nos voltarmos para essas pessoas marginalizadas que aspiram uma participação adequada, em condições de igualdade de direitos e deveres. O Encontro Nacional realizado na cidade de Contagem - ao lado de Belo Horizonte avaliou as atividades desenvolvidas e aprovou algumas recomendações fundamentais para toda a Década de Oitenta, relacionadas que devem estar a projetos a curto, médio e longo prazos. E finalizamos este trabalho com sua transcrição, esperando que não tenhamos todos nós passado por um Ano Internacional das Pessoas Deficientes sem dele termos saído convencidos de que precisamos interiorizar a extensão e a gravidade desses problemas todos que afligem gente semelhante a cada um de nós, e que precisam de uma solução agora, hoje - e não no século XXI, quando o nosso País estiver melhor desenvolvido e houver recursos específicos para atender a todos os males. - *Recomendações finais de todas as Comissões: um desafio para o futuro* "Irmanados na luta em prol da melhoria de condições de vida das pessoas deficientes, a Comissão Nacional do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, os representantes das Comissões Estaduais/Territoriais e do Distrito Federal, de Entidades não-governamentais de assistência às pessoas deficientes e de organismos que congregam essas pessoas, reuniramse em Contagem, Minas Gerais, de 23 a 26 de março de 1982. Este Encontro chegou a algumas conclusões fundamentais para o prosseguimento dos trabalhos ao longo da década, a partir das seguintes considerações: 1) As resoluções aprovadas pela Assembléia Geral da ONU, concretizadas na Carta para os Anos Oitenta, enfatizam sobretudo o esforço conjunto para a consecução dos ideais de Igualdade e Participação Plena; 2) Há necessidade de mudança de atitudes visando a eliminar os estereótipos e preconceitos que impedem a consecução dos ideais acima mencionados, o que foi amplamente evidenciado neste Encontro; 3) O trabalho, a educação e a saúde são direitos inalienáveis de todo ser humano e que tantas vezes são negados às pessoas portadoras de deficiências, pela insistência de muitos em conceitos obsoletos, ultrapassados e claramente preconceituosos; 4) Torna-se premente a cooperação técnica internacional no sentido de intensificar e divulgar estudos e pesquisas nas diferentes áreas do conhecimento humano com o intuito de prevenir deficiências ou reabilitar pessoas tornadas deficientes; 5) Os ideais visados pela ONU realmente se efetivarão quando todo aquele que sofrer de limitações de ordem física, sensorial e mental, tiver acesso, em sua conotação mais ampla, a um ambiente livre de barreiras de qualquer natureza; 6) Os legisladores devem estar atentos para que as pessoas ditas deficientes usufruam dos mesmos direitos assegurados aos demais cidadãos;


7) O A.I.P.D. não teve a finalidade e nem a pretensão de solucionar a problemática em que se debate a pessoa dita deficiente, mas objetivou sobretudo ser um grito de alerta para a consciência de todos nós. Com base nas premissas acima enunciadas, recomenda-se: 1. A utilização sistemática e continua dos veículos de comunicação de massa para disseminar e realizar o intercâmbio de idéias e temas relativos as pessoas ditas deficientes, promovendo, assim, tanto uma sensibilização cada vez mais crescente de todas as camadas da população como uma mobilização das pessoas ditas deficientes e suas famílias; 2. A intensificação das medidas de imunização, diagnóstico e tratamento precoce, de atendimento materno-infantil, bem como programas de prevenção de acidentes e de proteção ao meio-ambiente; 3. A implantação gradativa, na medida do possível, de Centros de Reabilitação, para aprofundamento e intercâmbio de tecnologia específica e treinamento de pessoal, ao lado de Centros Regionais de Reabilitação e dinamização de programas de reabilitação a nível comunitário com utilização de tecnologia simplificada e aproveitamento de recursos locais; 4. A crescente ampliação do atendimento em educação especial a crianças, adolescentes e adultos, portadores de qualquer tipo de deficiência, bem como um maior incremento à capacitação de recursos humanos; 5. O desenvolvimento de esforços para a adequação dos cursos profissionalizantes existentes e a criação de outros, ao mesmo tempo em que se intensifiquem não só a conscientização do empresariado como também trabalhos integrados para o encaminhamento a empregos condizentes, as pessoas portadoras dos vários tipos de deficiências; 6. Maior estímulo a projetos de pesquisa e construção e medidas práticas visando a melhoria de acesso das pessoas ditas deficientes a edifícios públicos e sistemas de transporte; 7. Gestão junto ao poder legislativo para a elaboração de novos projetos de lei visando eliminar a discriminação de que ainda são vítimas as pessoas ditas deficientes; Para que essas recomendações se efetivem ao longo da década, constatou-se, neste Encontro, a necessidade da criação de um Órgão Nacional para dar continuidade à coordenação desenvolvida pela Comissão Nacional durante o A.I.P.D. Esta medida virá responder ao anseio das Unidades federadas que, através de órgãos já criados para os fins propostos ou em vias de criação, prosseguirem, a nível estadual, os esforços em prol das pessoas ditas deficientes, iniciados durante o Ano Internacional das Pessoas Deficientes que ora se encerra."

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SEGUNDA PARTE A INTEGRAÇÃO DAS PESSOAS DEFICIENTES NA SOCIEDADE - O DESAFIO DE NOSSOS DIAS INTRODUÇÃO Aqueles que se defrontaram com a problemática das pessoas portadoras de algum tipo de deficiências pela primeira vez durante o ano de 1981 - por ter sido o Ano Internacional das Pessoas Deficientes – talvez não tenham tido oportunidade alguma de parar um pouco em sua própria vida e pensar sobre o assunto. Mas todos aqueles que têm algum tipo de problema limitador que pode levar em muitos casos à deficiência, seus familiares e todos os que de alguma forma trabalham ou se dedicam ao seu atendimento e à sua assistência sabem muito bem que tem havido uma inacreditável lentidão da sociedade e do governo em aceitar as reais dimensões do complexo de situações enfeixadas nas deficiências físicas, sensoriais, orgânicas e mentais. Podemos imaginar que essa atitude quase de imobilidade prevaleça devido à inexistência de dados entre nós. Nossos recenseamentos nacionais não têm inserido estudos dessa natureza em seus questionários. Diga-se de passagem que desde o ano de 1959, quando o General Lott ocupava provisoriamente a Presidência do Brasil, gestões tem sido feitas para tal fim, mas sem o menor vislumbre de sucesso. De outra parte, estimativas mundiais só começaram a ser profusamente divulgadas durante o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, que foi expressamente criado pela Organização das Nações Unidas para alertar o mundo todo a respeito da existência de um certo percentual de pessoas marginalizadas por problemas físicos ou sensoriais, seus direitos, deveres e aspirações. Mas não é somente por falta de dados que a sociedade em geral e nossos governantes tem se omitido. Existe uma certa dose oculta de rejeição, consciente ou não, que é muito ponderável nesse panorama todo que envolve pessoas com deficiências no mundo de hoje. Face a esses fatores é muito importante chamarmos a atenção para o fato de que, exatamente por haver desconhecimento quanto às verdadeiras dimensões dos problemas relacionados a deficiências entre nós, e por ocorrer uma evidente rejeição das pessoas que são diferentes devido a uma anomalia física ou mental, a maneira como o Brasil está encaminhando programas e atividades voltadas para pessoas deficientes - salvo raras e mui distintas exceções - tem sido na melhor das hipóteses limitada. Na pior, poderá ser inadequada, talvez inócua, irrelevante e mal fundamentada, quando não contra-producente. As conseqüências da falta de conhecimento e de convicção quanto à gravidade da situação e à dimensão do problema, mesmo por pessoas altamente envolvidas, levará fatalmente nossos planejadores de governo, nossas organizações privadas, nossas repartições públicas e nossa população em geral a não dar atenção própria, a eliminar possibilidades de estabelecimento de qualquer nível de prioridade, a preterir a adequada assistência a pessoas deficientes por outros programas e a não apoiar qualquer tipo de ênfase nesse campo. Acresce a tudo isso que, por estarem mal informados ou desinformados por completo sobre a verdadeira natureza do problema, todos aqueles que não estão diretamente envolvidos tentam ignorá-lo, evitá-lo ou simplesmente pretender que ele não existe. Quase toda a responsabilidade pelo atendimento dos casos concretos tem ficado nas mãos de algumas entidades privadas, bem ou mal preparadas para a tarefa, ou de órgãos governamentais,


lamentando-se de quando em quando, ao se deparar com situações mais chocantes, a inviabilidade de melhor ajudar a família que literalmente vive a dificuldade permanente. Temos visto e ouvido muito em nosso meio que as famílias "atingidas" acabam sentindo o problema como exclusivamente seu. Muitas delas procuram esconder seu membro deficiente, a fim de evitar também situações sociais embaraçosas, tais como contínuas interpretações quanto à natureza e gravidade do mal, esclarecimentos quanto a providências já tomadas, elucidações quanto a este ou àquele médico especializado que resolveu casos semelhantes e tantas mais. Os documentos das organizações internacionais mais categorizadas indicam-nos que pelo menos 10%, da população de qualquer país do mundo em tempos de paz sofrem as conseqüências de algum tipo de problema físico ou mental ou da combinação de males, de tal maneira que precisam de serviços especiais de alguma natureza. No entanto, se fizermos uma superficial análise da distribuição geográfica das populações no mundo e dos recursos disponíveis para ajudar as pessoas portadoras de deficiências, verificaremos que a maioria delas, por estarem localizadas em países sub-desenvolvidos, não teve, não tem e não terá qualquer oportunidade de acesso aos mesmos. A Rehabilitation International, em sua farta documentação para o Ano Internacional das Pessoas Deficientes e também para a Década de Oitenta, afirma categoricamente que as modernas e por vezes palacianas instalações que costumamos chamar de "centros de reabilitação" ficam tão distanciadas de suas vidas quanto um carro de luxo de último tipo. E um dos motivos é que a maioria das deficiências ocorre nas áreas mais pobres com muita probabilidade de complicações adicionais devido à falta de assistência. Nessas realidades o que conta é a sobrevivência, o pão, o teto e não as aspirações "mais altas". Como pensar em reabilitação quando não há dinheiro para a alimentação ou vestuário? As dimensões verdadeiras e realistas das deficiências no Brasil não podem ser estabelecidas apenas por números de pessoas atingidas, conforme indicamos anteriormente. O claro estabelecimento da verdadeira extensão desses problemas deverá levar em conta os efeitos das deficiências sobre a vida das pessoas, tanto a vida daqueles que são diretamente atingidos, quanto a de alguns dos membros de seu grupo familiar, do povo, da comunidade e da sociedade em geral. Por estudos realizados em países mais avançados que o nosso, sabemos que por causa da deficiência física ou mental, 1/4 da população de uma nação poderá estar, de uma maneira ou de outra, limitada ou bloqueada quanto à plena utilização de suas capacidades e de seu potencial. É evidente que existe o reverso da situação. A sociedade, a comunidade, os círculos de vizinhança ou de amizade, o grupo de referência familiar, têm uma reconhecida influência no eventual agravamento da situação, ou seja, na transformação daquilo que é um "impedimento" físico, sensorial, orgânico ou mental numa "deficiência". E isso ocorre devido a atitudes, receios, estigmas, comportamentos, preconceitos e também à discriminação, que são mantidos consciente ou inconscientemente para com pessoas que apresentam essas limitações. As dificuldades que cada um de nós individualmente cria para a sua educação, participação na vida social ou colocação em empregos, adicionais que sempre são às barreiras de acesso a edifícios, ao transporte, aos recursos relacionados à recreação e ao lazer, geram problemas que tornam sua solução cada vez mais difícil. Ressaltemos, a bem da verdade, que não são poucos os segmentos da sociedade diretamente atingidos por deficiências físicas ou mentais. Adicione-se que há outros que são responsáveis pelas conseqüências negativas das limitações acima referidas.


Uma redução objetiva dessas conseqüências poderá ser garantida por uma ação conjunta, dirigida a cada uma de suas origens. Como exemplo vale lembrar um maior provimento de serviços adequados de reabilitação para pessoas deficientes, incluindo nele serviços com tecnologia mais simplificada ou serviços baseados em recursos já existentes na comunidade. É fundamental que tenhamos programas de reabilitação mais dinâmicos, cujos profissionais não trabalhem apenas no físico, mas também nas atitudes e no comportamento das pessoas – tanto aquelas que são deficientes quanto as que não são portadoras de deficiências – quer individualmente, quer em grupo. Estaremos dessa forma dando àqueles que chamamos hoje, com uma certa despreocupação e sem medir bem o significado da palavra, de “deficientes”, oportunidades para superar o complexo de problemas que os afligem e passar a ser muito mais “eficientes” na sociedade. Analisarmos o quadro completo de evolução dessas situações no Brasil é tarefa impossível nos dias de hoje. Um olhar para o futuro poderá nos sugerir que o volume de problemas trazidos pelas deficiências continuará existindo e estará sempre vinculado às tendências mais gerais de evolução social e humana de nosso país. Essas tendências nos dias que correm mostram-nos taxas assustadoras de desemprego e num crescendo quase sem barreiras, o imenso acervo de pessoas sobrevivendo em situações de sub-emprego, o que deixa – aparentemente – as pessoas deficientes numa dificuldade ainda maior para serem absorvidas pelo mercado aberto de trabalho. Continua existindo a migração de pessoas provenientes de regiões mais pobres para áreas mais promissoras, caindo quase sempre em favelas, em cortiços que se encontram superpovoados, ou em outros tipos de habitações infra-humanas. Boa porcentagem da população, em vez de estar trabalhando em produção de alimentos, volta-se para ocupações não qualificadas do meio urbano, tangida pela ambição de obter melhores condições de vida. A tudo isso acrescentemos o imenso abismo, em continua expansão, que existe entre a nossa população que possui bens daquela população que não os possui. Procuremos, deste ponto em diante, analisar a situação das pessoas chamadas deficientes, dentro do final do século XX e dentro de nossa realidade brasileira. Tentaremos iniciar discussões quanto aos motivos que poderão levar pessoas portadoras de deficiências a uma situação de marginalidade. Elaboraremos também um pouco quanto ao verdadeiro significado e às implicações daquilo que é verbalizado muito facilmente como "integração social das pessoas deficientes". O que é que significam essas palavras bonitas em termos práticos? Como é que podemos traduzi-las para o nosso dia-a-dia? Analisaremos a importância do ajustamento do indivíduo portador de deficiência como pessoa, pois é a adequação pessoal o objetivo último do processo reabilitacional. É por meio dela que a pessoa poderá ter condições suficientes para sair de uma situação de dependência e marginalidade para uma outra de auto-suficiência na sociedade em que vive. Focalizaremos também um pouco mais pormenorizadamente os componentes do ajustamento à vida de trabalho, ou seja, a adequação da pessoa portadora de deficiência a uma situação concreta de produção de bens e serviços. Por não podermos de forma alguma desconsiderar a importância de uma consagrada ação que, sem a menor sombra de dúvida, desde os seus primórdios se caracterizou como um trabalho multi-profissional que extrapola em muito às atuações de um só profissional, teremos um capítulo especial de discussão quanto às características e as dificuldades do trabalho de equipe nos programas reabilitacionais de hoje. E finalmente iniciaremos pontos de discussão com o objetivo de dar uma visão de como poderá ser viável a avaliação e o controle das atividades de nossos centros e de nossos programas de reabilitação,


considerados tão dispendiosos para nossa sociedade, tão aparentemente fora de nossa realidade, mas tão fundamentais para aqueles que precisam de serviços especiais para terem condições mínimas a fim de tentar a grande aventura da integração completa na sociedade, pois têm o direito de desfrutar de tudo aquilo que está implícito nos temas básicos do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, ou seja, "participação plena e igualdade".


CAPÍTULO PRIMEIRO AS CAUSAS DA MARGINALIDADE DAS PESSOAS DEFICIENTES A ignorada epopéia de parcelas da população mundial, através dos muitos séculos da História do Homem sobre a Terra, mostra-nos com muita clareza que a sociedade dos homens, em todas as partes do mundo e em todas as épocas, sem qualquer exceção praticamente, colocou e continuará colocando por muito tempo mais à margem de sua correnteza principal certos tipos de indivíduos que dela poderiam fazer parte. A nossa sociedade, em seus múltiplos segmentos, não se apresenta como exceção, apesar de ser notória a pretensão que tem de muito aberta à integração de todos, sem adotar qualquer medida preconceituosa. A verdade dos fatos é outra, porém: as atitudes discriminatórias existem entre nós e com elas suas conseqüências mais lamentáveis, que são as situações reais de marginalidade social. Na tentativa de analisar com cuidado este tema, uma das primeiras e cruciais dúvidas aflora: quais os motivos que levam as pessoas ou os grupos a tomar uma atitude discriminatória e muitas vezes repleta de idéias pré-concebidas, em detrimento de outros indivíduos? Que tipo de raciocínio ocorre para alguém, sem muito pensar, simplesmente eliminar de sua vida e de seu meio uma pessoa por apresentar um tipo qualquer de anomalia? Embora muitos pontos possam ser colocados à consideração do estudioso do assunto, um dos mais sérios e significativos mostra-nos que a sociedade marginaliza - ou seja, retira da correnteza principal - alguns indivíduos devido a motivos vários e definidos, mas cumpre que coloquemos em relevo aqueles que se relacionam à apresentação visual, ou aqueles que estão diretamente relacionados ao comportamento face ao grupo. Com isso ela demonstra que existem alguns padrões de aceitabilidade. Essa verdade é aplicável a várias situações, mas de um modo todo especial ela é quase universal com relação às características físicas e/ou mentais dos indivíduos. Preconceitos e medidas discriminatórias existem concretamente contra quase todos os tipos de "anormalidades" ou de "anomalias", muito embora essas atitudes apresentem tonalidades de ênfase diferente, pois "a maioria das pessoas não tem contra os deficientes a mesma espécie de preconceitos, que alimenta contra certos grupos religiosos, raciais ou desfavorecidos" ("O Indivíduo Excepcional", de Telford e Sawrey). Para todo aquele que procura melhor compreender as origens deste problema de ponderável complexidade, será de grande valia conscientizar-se das características aproximadas da normalidade, em seu sentido sociológico, procurando especular um pouco quanto às características que o ser humano precisa apresentar para ser considerado como "normal", em nossos grupos sociais. É importante compreender com alguma segurança quais os fatores que determinam ser o indivíduo assimilável, ou então, pouco aceitável. Essa preocupação levar-nos-á, sem dúvida, a lembrar primeiramente que não existe um indivíduo sequer que seja idêntico a outro. Na verdade, ser diferente é bem próprio da natureza humana e as diferenças são de caráter universal. No entanto, há vagos limites de tolerância para essas diferenças individuais entre os homens, a tal ponto e de tal maneira que o grupo social poderá chegar mesmo a bloquear aquele seu membro "excessivamente diferente", colocando-o de lado. Para todos os efeitos, "ser diferente" é ser "colocado de lado", o que em linguagem de relações inter-pessoais, pode significar rejeição.


... "Muitos escritores têm também atribuído a rejeição de uma pessoa deficiente ao fato dela ser diferente. O "ninguém quer ser diferente" é aceito como uma lei óbvia do homem" ("Physical Disability - A Psychological Approach" de B. Wright). Tudo aquilo que é muito diferente, que não é nada igual ao costumeiro, que foge à normalidade, que é raro, chama a atenção. A diferença e a "excepcionalidade" podem existir tanto para melhor quanto para pior. Quando elas ocorrem para o lado positivo, como nos casos de beleza excepcional, da forma física perfeita, da inteligência fora do comum, elas causam deleite àqueles que com elas se defrontam. É a excepcionalidade positiva que estimula o homem a se aproximar ou a almejar o ideal perfeito, sempre sonhado e nunca atingido. No entanto, todos sabemos muito bem que há exceções que nos levam para o lado negativo e são essas as que mais causam dificuldades. Acontecimentos excepcionais catastróficos, grandes desastres coletivos, guerras ou revoluções como solução de disputas são acontecimentos que polarizam a atenção. Da mesma forma chamam a atenção os comportamentos irracionais e os padrões de desenvolvimento físico ou de aparência anormal do ser humano. Essas anomalias ou exceções preocupam as pessoas atingidas, as famílias envolvidas, as comunidades às quais pertencem, os poderes constituídos e a própria estruturação da sociedade. E chamam a atenção porque, para a grande maioria dos membros ativos ou passivos de nossa sociedade, num certo sentido não só desagradam, como também ameaçam a tranqüilidade, o bem-estar, o sentido de estética, a harmonia, a segurança pessoal e a familiar, criando eventuais dificuldades para a posição social das pessoas afetadas, além das respectivas famílias ou grupos de relacionamento, quando não da sociedade maior. Quando ocorrem catástrofes naturais ou situações anormais de caráter geral a sociedade mobiliza-se, pois ela sabe muito bem que esses eventos ou situações precisam ser contornados ou resolvidos - e mesmo eliminados - sempre que possível com a colaboração dos mais diversos setores da comunidade. Com essas providências ela se desenvolve cada vez mais e procura garantir melhores condições de vida e maior índice de segurança para o povo. As condições de divergência do usual atingem o homem como indivíduo e como membro de um grupo. Nesses casos a sociedade mais consciente, por meio de grupos os mais diversificados, procura também tomar sua posição. Assim como no primeiro exemplo, neste também ela se sente ameaçada. Dependendo de valores culturais predominantes, suas necessidades globais, sua composição, sua realidade política, seu grau e capacidade de desenvolvimento, seu modo de ver o indivíduo, seu nível de conscientização, e outros fatores, ela age através de atividades assistenciais que podem levar à compreensão do problema, à prevenção de males, eventualmente ao controle das pessoas afetadas por esses males e aos programas que levem à sua reabilitação global. Com isso ela "extermina" o mal, "elimina" a excepcionalidade, separa o contingente atingido, assiste-o financeiramente, abriga-o ou segrega-o do restante da sociedade, ou parte para sua completa integração em bases equânimes. - *Normal ou anormal: eis o problema* Será muito difícil para um estudioso afirmar com segurança que consegue indicar tudo aquilo que é "normal" ou "anormal" num ser humano, em dada realidade, seja em termos de desenvolvimento pessoal, seja em termos de comportamento. Ninguém sabe, na verdade, até que ponto uma diferença dos padrões da aceita "normalidade" poderá ser assimilada sem maiores dificuldades pela sociedade onde ocorre. O único ponto de conhecimento generalizado e que todos sabemos que existe um limite indefinido para as diferenças do


"normal" serem assimiladas pelo grupo social. Segundo cada realidade social e cada cultura podem ocorrer claras delineações quanto aos desvios da normalidade que são ou não aceitáveis, que podem até ser considerados como vantajosos, dependendo sempre dos resultados práticos provocados pela "anormalidade" e do papel que os indivíduos afetados possam ter na sociedade. Vejamos um exemplo prático: Na época em que atuamos na Unidade de Reabilitação do Deficiente - Departamento de Desenvolvimento Comunitário e Bem-Estar Social da Organização das Nações Unidas tivemos um dia a oportunidade de entrar em contato com uma situação "sui-generis", que estava embaraçando um consultor geral de reabilitação, em programa de assistência técnica num país africano de antiga vinculação com a Inglaterra. O governo federal dessa nação mantinha uma equipe volante de bem-estar social que passava parte do mês em viagens pelas aldeias da região norte do país. Rodava milhares de quilômetros para garantir o desenvolvimento contínuo de programas e para fazer os indispensáveis contatos oficiais. Um dos objetivos desse programa volante era também entrevistar pessoas deficientes e seus familiares para estabelecer um bom clima de relacionamento com os mesmos e com isso gradativamente encorajá-las a participar de um programa de capacitação para o trabalho rural. O relacionamento com o chefe da aldeia era fundamental sempre. No caso em pauta o objetivo principal era garantir o encaminhamento de pessoas adultas cegas para um centro de reabilitação dos arredores da capital, que mantinha programações práticas para nativos que quisessem se dedicar a atividades próprias da aldeia. O Centro em si era muito simples e adaptado à realidade do país e todo o treinamento era custeado por verbas federais. Quase sempre a equipe volante retornava à base com alguns cegos dispostos a residir por alguns meses nas instalações do centro e aprender não só habilidades da vida de todo dia, mas também aquelas relacionadas ao cultivo do milho, da mandioca, do café, de legumes e de hortaliças, além dos cuidados com animais domésticos. Numa certa aldeia localizada às margens de um sereno lago, entretanto, um velho e indecifrável chefe de aldeia protelava indefinidamente a viagem de três cegos. Aparentemente não havia motivo algum. O chefe não dizia um "não" categórico e os cegos, apoiados em seus bastões, sorriam e não diziam nada. Na comunidade em si ninguém apresentava qualquer explicação. Numa das últimas viagens empreendidas pelo especialista da ONU com a equipe de campo, foi feita uma visita especial à aldeia em questão. Como sempre, todos foram recebidos muito bem e após os cumprimentos sorridentes sentaram-se ao redor do chefeancião. No grupo de negros de características muito puras, a tez clara do estrangeiro sobressaía. E foi ele quem fez a pergunta direta que nenhum outro havia feito antes, seja por respeito às decisões do chefe, seja em conseqüência de uma posição cultural: "Por que esses três jovens, que são cegos, não viajam para nosso centro para ali poderem aprender a ser independentes, a cuidar de si mesmos, a ter suas plantas, suas cabras e sua própria cabana?". A resposta veio clara, embora repleta de cautela. Segundo os ancestrais daquela tribo, toda aldeia poderia ter motivos para ser valente e muito aguerrida. Mas só aquela que tivesse motivos para ajudar seus próprios membros é que poderia ser uma aldeia feliz. Ora, os cegos, os velhos, as mulheres sem seus maridos significavam uma bênção dos deuses e dos ancestrais, pois todos eram muito bem cuidados por todas as famílias que repartiam entre si a responsabilidade pela sua alimentação, vestuário e abrigo. Se eles fossem levados a um


centro para voltarem independentes, cuidando por si mesmos de suas plantas e seus animais, o que restaria àquela aldeia fazer para merecer a felicidade que só a caridade trazia?... - *As "diferenças" assimiláveis ou inaceitáveis* Situações que fogem aos padrões normais existem no mundo inteiro, mas as características próprias dos tipos de preconceitos e das diversas formas de discriminação a elas relacionadas dependem diretamente dos padrões culturais de cada povo. Têm elas significado bastante variável de povo para povo e só poderão ser bem compreendidas no contexto social onde ocorrem. Numa cultura primitiva, por exemplo, na qual a qualidade de vida, o bem-estar geral e o relativo conforto podem depender em grande parte dos resultados da caça, as aptidões individuais correspondentes a um físico ágil e forte são as mais relevantes para o grupo social. Nele, a deficiência física, a debilitação geral, a velhice, as demonstrações de medo, o excessivo cuidado com a segurança do corpo são graves desvantagens. Nessa mesma sociedade primitiva a inabilidade para falar desembaraçadamente, ou para fazer cálculos, a incapacidade para ler e para escrever, a falta de condições para o desenvolvimento de atividades artísticas são muito pouco relevantes. Numa outra realidade hipotética, escassamente habitada e de características agro-pastoris, o indivíduo mentalmente retardado ou aquele socialmente desajustado não oferece preocupações relevantes para o grupo maior. A criança de uma região dessa natureza, que é incapaz de ler ou de escrever, sempre poderá ser muito útil para o desempenho de diversas tarefas, podendo constituir-se num membro bastante produtivo da família ou do grupo social, enquanto que num ambiente mais competitivo e desafiador, como o de cidades, a situação seria bem diversa. As diferenças individuais e que caracterizam cada um dos seres humanos serão encontradas sempre. Será o grupo social, todavia, que irá estabelecer quais as divergências que poderão ser consideradas como prejudiciais ou como vantajosas e quais as que provocarão depreciações ou valorizações do ser humano. Analisemos um outro exemplo concreto: Numa ilha do Oceano Pacífico, sempre cercada por cardumes de vorazes tubarões, a atividade de pesca, muito mais do que a atividade agrícola ou pastoril, é a fonte principal de alimentos de toda a população. Devido às circunstâncias próprias, apesar de atividade vital, é sempre muito perigosa. Ocorrem de quando em quando acidentes com os pequenos barcos de pesca que atiram às águas seus ocupantes. E muitas vezes eles são quase que imediatamente atacados por tubarões. Dessas vítimas poucas são as que sobrevivem. Nessa perdida ilha o fato de um adulto não ter um braço ou uma perna não leva a depreciação alguma. Muito pelo contrário, a deficiência corresponde à garantia de uma inquestionável posição de prestígio na comunidade, pois todos sabem que aquele homem enfrentou o inimigo mortal durante a luta pela sobrevivência do grupo. O homem amputado é ali olhado com respeito e admiração. - *A questão em termos de Brasil* Qual a situação que encontramos no Brasil de nossos dias a esse respeito? Todos sabemos muito bem que existem no Brasil situações as mais díspares e costumes os mais estranhos, pois temos uma sociedade que no geral fala a mesma língua, distribuindo-se por um território de tamanho continental, com realidades bem evoluídas de um lado, enquanto que em regiões mais pobres e menos desenvolvidas há camadas da população que ainda não chegaram a entrar em contato direto com o mundo moderno.


Nessa realidade vastíssima, tão cheia de contrastes, observa-se também que em geral as pessoas com menor capacidade física e mental, com menor e menos atualizado conhecimento das implicações da vida moderna, vão sendo gradativamente marginalizadas. Com o desenrolar do tempo e com a real impossibilidade desses indivíduos conseguirem superar os problemas que os atiram à margem da sociedade atuante, acabam caindo, quer a contragosto, quer de bom grado, na dependência de membros mais ativos e produtivos. E há o contingente populacional de tamanho significativo que acaba como beneficiário dos bem ou mal definidos programas assistenciais mantidos pela comunidade. Entre nós, como em muitas outras sociedades do mundo moderno, existem diferenças que via de regra levam as pessoas a depreciar o indivíduo, quando essas diferenças são muito evidentes. E nas eventualidades dessas diferenças consideradas desagradáveis não serem pelo menos disfarçadas, escondidas ou reduzidas, acabam provocando reações que determinam providencias especiais para que o indivíduo seja separado, seja tratado ou seja simplesmente mantido longe. - *A visibilidade da deficiência* A visibilidade de uma diferença física menos agradável sempre dificulta tentativas de integração da pessoa humana atingida ao seu grupo, principalmente devido às dúvidas e à ansiedade que ela provoca. Há receios ocultos quanto às prováveis conseqüências das vinculações ou da convivência com o ser humano deficiente. A maioria das pessoas ditas normais não se sente à vontade na presença de pessoas gravemente deficientes que passam a ser tratadas como gente estranha e numa razoável distância social. As amputações de membros superiores (e em alguns casos as de membro inferior também), a paraplegia, a hemiplegia, a paralisia cerebral, as deformações congênitas em geral, todas tem grande visibilidade, enquanto que os males orgânicos, alguns sensoriais, os desvios psicológicos e sociais chamam muito menos a atenção e levam a menos significativas reações. Provocam em contrapartida menor índice de boa vontade por parte do público em termos de causas, de programas ou de campanhas. A visibilidade das alterações do padrão médio de normalidade física, às vezes precisa ser muito bem ponderada e cuidadosamente considerada por pais e educadores quando formulam planos educacionais para uma criança. E uma das perguntas mais cruciais é esta: "Até que ponto poderá uma criança diferente - portadora de algum tipo de deficiência mais facilmente perceptível - beneficiar-se de uma escola segregada ou de uma escola integrada?" - *O problema do "comum" e do "normal"* Conforme analisado, aparentemente um dos motivos mais ponderáveis para que se desencadeie um processo marginalizante é um certo desvio dos padrões da normalidade aceita pelo grupo. Embora seja muito importante a compreensão exata das implicações da "normalidade", a sociedade em geral confunde aquilo que é "normal" com aquilo que é "comum". Sob o ângulo prático de análise dos termos, "comum" é aquilo que é encontradiço, enquanto que "normal" é o desejável. O comum em termos de Brasil, por exemplo, pode ser um no Estado do Amazonas e outro bem diverso no Rio Grande do Sul - e ambos diferentes do que é encontradiço e considerado comum no Nordeste. Em algumas regiões brasileiras é comum vermos o homem analfabeto vinculado a situações quase que escravizadoras de trabalho. É comum a subnutrição, a ausência de recursos para ensino ou saúde. São situações comuns, mas não são normais, aceitáveis, dignas do homem. No


entanto, essas situações anômalas são tantas vezes tomadas como naturais, corriqueiras, usuais e sem maior importância, que ficam sendo consideradas como normais - e não o são! Nessa mesma linha de exemplificação prática de raciocínio, o "normal" é e sempre será o desejável e aquilo que está em plena concordância com a natureza humana e com a dignidade do homem. Em qualquer sociedade do mundo civilizado de hoje, no qual não existem mais barreiras de comunicação, a palavra "normal" deveria estar sempre incluindo todas as condições conseqüentes aos direitos básicos previstos na Declaração Universal dos Direitos do Homem. É muito difícil eliminarmos qualquer um dos direitos previstos nessa Declaração, pois cada um deles focaliza aspectos de inquestionável importância na vida do homem sobre a Terra. Entretanto, é nesse mesmo mundo de hoje, que aceita tranqüilamente uma Declaração Universal dos Direitos do Homem, adicionando a ela declarações subsidiárias relacionadas à mulher, às pessoas com retardo mental, às pessoas deficientes, que vemos de quando em quando situações realmente desumanas de natureza muito comum que acabam sendo assimiladas e aceitas por grupos da sociedade, inclusive pela nossa própria. Isso jamais poderá significar que elas possam ou devam ser aceitas ou consideradas como "normais". - *A grande variedade de condições marginalizantes* Esse ângulo da questão leva-nos, sem dúvida, a alarmantes conclusões quanto à situação da maioria dos países do mundo - inclusive do Brasil - pois se formos levar até as últimas conseqüências a consideração do problema das deficiências, sob esse prisma, deveremos considerar como indivíduos colocados à margem da correnteza principal da sociedade todos aqueles que: - recebem salários injustos e insuficientes para seu sustento e para manutenção de seu grupo familiar; - não têm acesso aos benefícios da previdência social estabelecida; - são impedidos, na prática, de receber instrução básica; - passam fome ou alimentam-se inadequadamente por não terem condições financeiras para adquirir alimentos; - habitam de forma infra-humana; - não conseguem livrar-se dessas situações apesar de tentarem. - *Como classificar as condições marginalizantes* Mas estamos aqui procurando analisar somente o problema das pessoas que sofrem o estigma das deficiências físicas, mentais, sensoriais, orgânicas, ou conseqüentes a doenças mentais ou à idade. Para podermos dimensionar e avaliar concretamente o desafio apresentado por esse estigmatizado segmento da sociedade, procuremos uma forma de classificar as diferenças dos padrões de normalidade considerados usuais e por ela idealizados. Poderemos ter dessa maneira, uma idéia mais clara da verdadeira extensão dos problemas daqueles que são muitas vezes conhecidos como "deficientes", "excepcionais", "incapacitados" - e que passaremos a chamar de "pessoas deficientes" - e do seu desafio para programas que pretendem ter como meta a sua integração plena na sociedade. Na bibliografia existente encontraremos vários tipos de classificação dessas diferenças ou situações de excepcionalidade. Uma das mais claras e mais felizes é aquela que analisa o problema sob o ângulo do desvio básico dos padrões de normalidade, adotada também por Telford e Sawrey. Limitemo-nos, entretanto, a discutir os desvios de normalidade de natureza mais agravante, conforme referido acima, que podem levar o indivíduo a um tipo


de marginalidade mais difícil de ser superada sem o concurso de serviços especialmente organizados. Mantenhamos em mente que para nossa cultura o indivíduo normal é o que tem um corpo praticamente perfeito e sem aberrações, aquele que tem os órgãos e os sentidos funcionando bem, com uma inteligência pelo menos em nível adequado, dono de um acervo de hábitos e de comportamentos que não chegam a causar preocupações e dentro de uma faixa etária considerada como produtiva e não muito avançada. Quase tudo que escapa desses padrões passa a ser visto com certa dificuldade e poderá levar o indivíduo a situações de certa marginalidade. É nesse sentido que poderemos citar os desvios intelectuais, os sensoriais, os motores, os funcionais e os orgânicos; além disso, incluiremos os problemas de personalidade e os sociais mais sérios; e não deixaremos de lado as dificuldades encontradas por pessoas de idade avançada. Procuremos analisar um a um, em poucas palavras, esses diversos tipos de desvios de que falamos acima. - *Desvios intelectuais* Existem estudos muito interessantes a respeito de problemas intelectuais que levam a certos desvios, tanto para o lado positivo quanto para o negativo, partindo sempre de um ponto médio. A preocupação básica de nossa sociedade, entretanto, tem-se centralizado nos desvios para menos, ou seja, nos casos de deficiências mentais de vários graus, incluindo os limítrofes, os educáveis, os treináveis e todos aqueles que não conseguem ser absorvidos pela sociedade devido a um rebaixamento intelectual. - *Desvios motores* Agrupados sob este tipo de desvio de normalidade encontraremos todos os casos de amputações, as malformações motoras congênitas ou adquiridas, os problemas ortopédicos de gravidade e provocadores de seqüelas incapacitantes, os males neurológicos com os mesmos tipos de conseqüências, dentre os muitos que poderiam ser aqui inseridos. Na verdade são os problemas que mais chamam a atenção quando se fala em reabilitação ou quando se menciona o problema das deficiências de um modo genérico. - *Desvios sensoriais* Sendo normal o uso de todos os sentidos, o ser humano que se vê privado de um só deles pode facilmente ser vítima de séria marginalização se não souber como superar o problema vivido. Assim é que, dentre os casos mais notórios, temos os cegos ou deficientes visuais, os surdos e casos afins, conhecidos como deficientes auditivos, com diminuição ou gradativa perda do sentido da audição. A perda ou redução de outros sentidos como o olfato, o paladar e o tato não é comum nem causadora de sérias dificuldades sociais, apesar de poderem ser arroladas as muitas exceções que acabarão por confirmar a regra. - *Desvios funcionais* Certas funções do organismo, quando prejudicadas por um defeito, por uma doença ou por um acidente poderão trazer sérios problemas para o indivíduo. Assim temos o caso dos afásicos ou daqueles que têm dificuldades de comunicação que é o tipo mais facilmente encontradiço neste grupo. - *Desvios orgânicos*


Dentre os desvios orgânicos que mais trazem problemas ao homem estão aqueles ocasionados por vários tipos de cardiopatias sérias e por males da respiração, incluindo-se nos mesmos os casos de tuberculose, dentre muitos outros. - *Desvios de personalidade* Este tipo de dificuldade está diretamente ligado a problemas emocionais ou distúrbios mais graves como as neuroses e as psicoses. Vários males relacionados à saúde mental podem também levar as pessoas a situações de marginalização. - *Desvios sociais* Os delinqüentes juvenis, os criminosos adultos, certos tipos de contestadores, os viciados em drogas, os alcoólatras, os fármaco-dependentes são alguns tipos que ilustram o chamado desvio social. Muitos deles não têm absolutamente nada em comum e os programas montados para sua assistência são muitas vezes totalmente separados ou alheios uns aos outros. - *Problemas de idade avançada* Os problemas ocasionados pela velhice são muito próprios e característicos. Apesar de em outros tipos de situações encontrarmos eventualmente certas superposições sempre agravantes, na velhice e que sempre encontramos a maior incidência dessas superposições que tornam a assistência a idosos muito difícil. São os casos de velhos cardiopatas, cegos, surdos e outros tipos. - *Outras condições que levam à marginalidade* Cada um desses problemas mencionados separadamente poderá levar uma pessoa menos preparada ou menos protegida a certo grau de marginalização, ou pelo menos a uma série de dificuldades para garantir uma completa integração ao seu grupo. Nos casos de desvio motor, sensorial, orgânico, intelectual, de personalidade e de idade avançada, no entanto, verificamos muitas vezes que, além de ocorrer uma eventual superposição de dificuldades, existe também com muita freqüência a ocorrência de hábitos, de atitudes e de comportamentos inaceitáveis ou inadequados, provocando situações muito mais sérias do que o próprio desvio em si mesmo. São também muito ponderáveis os problemas causados por certos tipos de rótulos estigmatizadores aplicados a indivíduos ou a populações que vivem em condições diferentes daquelas consideradas como aceitáveis, ou seja os "favelados", os "aleijados", os "paralíticos", os "loucos" e tantos mais. As dificuldades, entretanto, não se limitam a essa questões ou a esses ângulos, pois aos problemas ocasionados pela existência de uma deficiência qualquer ou pela ocorrência de estigmas rotuladores, eventualmente deve-se também adicionar uma série de situações causadas por fatores pessoais ou sociais. Dentre os fatores pessoais convém que não nos esqueçamos dos males provocados pelo analfabetismo, pelas crendices e superstições, pela ignorância generalizada, pela inabilidade de resolver problemas e pela miséria material. Dos fatores sociais mais significativos causadores eventuais de situações de marginalização cumpre que destaquemos o crescimento vertiginoso e desordenado de nossas grandes cidades, a falta ou a inoperância dos recursos humanos ou dos equipamentos sociais da comunidade, o evidente descompasso existente entre a educação e o desenvolvimento tecnológico, além dos preconceitos e das atitudes discriminatórias.


- *Deficiência e incapacidade: distinção importante* Segundo consenso internacionalmente existente, quando, em conseqüência de algum mal, o ser humano é vítima de um certo impedimento de ordem física, por exemplo, temos a instalação de uma deficiência. Essa deficiência poderá levar ou não a uma incapacidade, ou seja, a uma situação de desvantagem, de inferioridade. Claro que um impedimento sempre poderá causar uma deficiência inócua, pouco significativa e sem maiores conseqüências para o indivíduo afetado. Por exemplo, no caso de um auxiliar de caminhão perder o dedo mínimo da mão esquerda. Esse mesmo impedimento, fisicamente observado e diagnosticado, trará conseqüências marcantes para um pianista, para um datilógrafo, para um clarinetista profissional. O que sucede é que quando essa deficiência é tomada como uma desvantagem significativa para com os demais, ou quando ela é rejeitada sem que o indivíduo atente para suas conseqüências práticas, em geral a pessoa portadora da deficiência começa a agir e a desenvolver hábitos e atitudes tais que o grupo social se vê forçado a deixá-la de lado e cada vez mais à sua margem. Consideradas as circunstâncias em que acontecem e muitas vezes as pessoas que atingem, certas deficiências não podem nem devem ser tidas como "incapacidades", pois estas são realmente problemáticas e estão presentes sempre que ocorrer a somatória de três tipos de limitações: - a limitação objetiva, imposta pelo impedimento ou desvio (por exemplo, um paraplégico não consegue mais andar e tomar uma condução pública sem a ajuda de muletas ou de uma cadeira de rodas; um cego não poderá ler instruções em planilhas de trabalho; um amputado de mão, por mais hábil que procure ser, não poderá ser um violinista); - a limitação estabelecida por segmentos da sociedade com os quais o indivíduo se relaciona (por exemplo, clubes não aceitam pessoas com deficiências físicas, a sociedade evita contatos próximos com vítimas de paralisia cerebral, ou procura manter os hansenianos fora de seu alcance); - a limitação que o próprio indivíduo atingido estabelece (por exemplo, o paraplégico que acha estar liquidado para a vida de trabalho ou a vida social; o cego que não se dispõe a aprender o Braille ou a andar sem a ajuda dos outros por medo de não o conseguir). Conforme foi já comentado anteriormente, os objetivos da vida de cada um de nós é que acabam por determinar se uma deficiência pode ser desvantajosa, tornando-se uma incapacidade, ou não. Como indicamos, para um violinista profissional as conseqüências da perda do dedo mínimo da mão esquerda são muito mais contundentes do que para um ajudante de caminhão. Uma datilógrafa poderá ter uma feia cicatriz no rosto, mas não uma recepcionista. Em síntese, a marginalidade existe entre nós, como existe em todos os países do mundo moderno. Ao analisarmos a história da humanidade descobrimos que o indivíduo deficiente quase sempre foi relegado a segundo plano, quando não apenas tolerado ou exterminado. Verificamos, no entanto, que segmentos mais esclarecidos e politizados de nossa sociedade, bem como parcelas significativas de nossos programas oficiais de assistência à população, preocupam-se e armam-se para dar cobertura àqueles que sofrem as conseqüências da marginalização. Todos sabemos que essas providências não são fáceis, nem baratas, o que também nos leva a raciocinar em termos do desafio que significam atividades às vezes conhecidas como programas de reabilitação, programas de reinserção social ou de integração social, sem que haja plena consciência de seu escopo e do seu valor.


Fica conosco a dúvida: "Por que existem esses programas"? Em que tipo de raciocínio prático ou de princípios filosóficos, ou mesmo de racionalismos baseamo-nos para dedicarmos tempo e dinheiro destinados ao atendimento a portadores de deficiências? Qual é o verdadeiro significado da integração social das pessoas deficientes?


CAPÍTULO SEGUNDO O SIGNIFICADO DA INTEGRAÇÃO SOCIAL DAS PESSOAS DEFICIENTES Para muitos de nós o problema de integração de uma pessoa deficiente na sociedade é apenas questão de acomodação adequada, de equipamentos especiais, de arranjos práticos, de tratamento físico eficiente e muito pouca coisa mais. Acreditam muitos que a "integração" acontece naturalmente se a pessoa simplesmente voltar ao seu ambiente original com o auxílio dos recursos que a medicina coloca à sua disposição e com a remoção de alguns obstáculos físicos. Claro que esses fatores todos são importantes. No entanto, a desejada integração não acontece naturalmente; ela é resultante de um complexo processo cuja necessidade e significado pretendemos aqui estudar e discutir - ou seja, ela não é uma "volta", pura e simples. Antes de mais nada cumpre que notemos o seguinte: há pessoas que hoje têm uma deficiência e que por causa dela sentem-se marginalizadas, quando na verdade podem ter vivido e trabalhado em sua comunidade - antes da deficiência - sem ter estado realmente integradas nela. Viviam independentemente fazendo o que bem entendiam, sem se importar com o mundo ao seu redor. Quando uma pessoa desse tipo torna-se deficiente, percebe que não era tão integrada à sociedade quanto pensava. O contato restrito com os demais (que a pessoa nota pela primeira vez quando adoece ou quando se torna deficiente) acaba associando-se com a presença da deficiência. Se desejarmos trabalhar pela integração de pessoas deficientes na sociedade maior, é muito importante perceber que uma simples tentativa de fazê-la "voltar" à situação anterior à deficiência muitas vezes não é suficiente. Outro fator muito importante a ser lembrado é que a personalidade de uma pessoa deficiente não é a mesma antes e depois da deficiência surgir em sua vida. Se atuamos no sentido de colaborar para que a pessoa portadora de uma deficiência atinja o grau melhor possível de integração na sociedade, devemos estar preparados para ajudá-la a compreenderse melhor e a entender sua nova visão de vida, com a existência das limitações impostas pela deficiência. E isto é especialmente verdadeiro com aquelas pessoas deficientes que, antes de se tornarem deficientes, jamais se haviam preocupado com opções, com o significado de um bom ajustamento pessoal, e de repente notam a importância de tomar uma séria decisão face a esses requisitos invisíveis mas muito concretos e inseridos na vida social e familiar. Assim o processo de integração que a pessoa marginalizada por uma deficiência vive jamais poderá ser estacionário, pois move-se continuamente numa direção ou noutra: seja na direção de uma boa integração, seja na direção da segregação e do isolamento cada vez maiores. E todos os que trabalham em reabilitação ou que mantêm contatos com pessoas deficientes influenciam esse processo, quer o queiram, quer não. O processo de integração não acontece de repente ou só porque a pessoa deficiente de um lado, e o grupo social de outro, assim o decidem; ele demanda tempo para atingir sua plenitude e a plena consciência de todas as suas implicações. Em todas as comunidades e em todos os tempos encontramos pessoas que por alguma razão são segregadas, individualmente ou em grupos. Talvez elas mesmas tenham procurado o isolamento, mas em muitos casos elas são simplesmente excluídas da sociedade. Algumas resignam-se à situação, outras protestam contra isso. Há alguns anos atrás o indivíduo portador de uma limitação física ou sensorial cedia à evidência de fazer parte de um grupo marginalizado e marcado. Hoje a situação está ficando cada vez mais diferente entre nós,


seguindo as tendências mundiais. As pessoas deficientes protestam e com muito boas razões. Elas demandam participação total em igualdade de condições; de sua parte a sociedade exige a contrapartida, ou seja, competência pessoal e profissional, independência de atuação, comunicação adequada, comportamento social aceitável e um papel definido. Nesse processo todo é muito importante que haja muita compreensão de todos os lados, pois a integração verdadeira só poderá ocorrer como resultado de cooperação entre duas partes. Por essa razão resolver os problemas apenas em parte ou só de um lado não solucionará a questão. Não é só a pessoa deficiente que deve ser trabalhada, mas também a realidade social na qual a integração é pretendida, para que todos entendam os problemas em sua complexidade e ajudem na busca de suas soluções. Embora muitos peçam ou exijam mesmo a integração em bases equânimes, essa integração é um sonho impossível. A sociedade não poderá jamais integrar uma pessoa sequer. Ela poderá apenas oferecer as possibilidades de integração e ficar disponível para tanto. O trabalho de chegar a essa situação integrada dependerá da própria pessoa deficiente. Muitas pessoas que são marginalizadas procuram escapar a essa faceta do processo, esquecendo-se que apenas elas poderão atingir esse objetivo, responsabilidade da qual jamais poderão escapar. Os progressos da medicina, os recursos técnicos e a organização de serviços de reabilitação global poderão tornar o processo de integração bem menos difícil. - *A complexidade do desafio* Por mais paradoxal e estranho que possa parecer, certos segmentos da sociedade em que vivemos colocam de lado o homem indesejável e que consideram fora dos padrões de aceitabilidade, enquanto que, ao mesmo tempo e muitas vezes dentro de uma idêntica área geográfica restrita, outros setores da mesma sociedade procuram montar programas de assistência e proteção a esse mesmo homem. Dependendo muito do grau de desenvolvimento da área em que as situações concretas acontecem esses pretendidos programas de atendimento podem chegar a ser bastante diversificados, indo desde a mera assistência segregativa e estigmatizadora, até modernos e sofisticados centros de reabilitação ou serviços de integração social. Que motivos poderiam ser tão fortes e tão ponderáveis para levar uma sociedade toda, ou alguns de seus setores, a canalizar esforços, recursos financeiros, voluntariado e outros programas das mais variadas naturezas para o desenvolvimento dessas atividades? Que tipo de raciocínio lógico poderia ser tão convincente para levar autoridades a dar prioridade a programas tão complexos e de tão difícil concretização? Estaria a sociedade apenas investindo em reabilitação devido à sua preocupação com a solidariedade para com seus membros mais fracos? Estaria ela preocupada com a magnanimidade que precisa demonstrar para com os mais fracos? As injustiças que assolam nossa sociedade e a ameaça que elas representam levaram o Papa João Paulo II a assim se expressar em São Paulo no seu famoso encontro com os operários: "O bem comum da sociedade requer, como exigência fundamental, que a sociedade seja justa! A persistência da injustiça, a falta de justiça, ameaça a existência da sociedade de dentro para fora, da mesma maneira que tudo quanto atenta contra a soberania ou procura impor-lhe ideologias e modelos, toda chantagem econômica e política, toda força das armas pode ameaçá-la de fora para dentro. Esta ameaça a partir do interior existe realmente quando, no domínio da distribuição de bens, se confia unicamente nas leis econômicas do crescimento e do maior lucro; quando os resultados do progresso tocam


apenas marginalmente, ou não tocam em absoluto, as vastas camadas da população; ela existe também, enquanto persiste um abismo profundo entre uma minoria muito grande de ricos de um lado, e a maioria dos que vivem na necessidade e na miséria, de outro lado. Todo aquele que trabalha em programas de promoção humana ou desenvolve atividades de atendimento - profissionais ou voluntárias - a grupos marginalizados, e basicamente todos aqueles que vivem uma situação concreta de marginalidade, prefeririam que a sociedade se envolvesse nessas atividades principalmente devido ao reconhecimento quanto ao valor do homem - mas isso nem sempre ocorre, uma vez que a sociedade dos homens mobiliza-se apenas de acordo com as circunstâncias, os interesses de grupos e as pressões que sobre ela são feitas. A sociedade mobiliza-se, por exemplo, diante de grandes desastres, de acontecimentos especiais ou anormais, de catástrofes, porque esses eventos provocam mal-estar generalizado, trazem desconforto, ameaçam a estabilidade da família e da sociedade, pondo em risco a propriedade. As sociedades mais evoluídas têm demonstrado uma crescente preocupação não apenas com seus membros mais problemáticos ou anormais, mas também com grupos minoritários que acabam sendo prejudicados por atitudes preconceituosas. A despeito dessa preocupação crescente, nossa civilização tem dado mostras de suas fraquezas e de suas inconseqüências. Todos nós estamos acostumados e mesmo cansados de ouvir palavras ponderadas e altamente recomendáveis, ou ler estudos muito bem elaborados e louváveis quanto ao valor do homem, em contraposição a atuações de caráter aviltante e desumano. Tem-se a nítida impressão de que o indivíduo é visto por prismas que provocam espectros distorcidos, irreconhecíveis e que não correspondem a um mínimo desejável e mesmo esperado. "Talvez uma das mais evidentes debilidades da civilização atual esteja na inadequada visão do homem. A nossa época é, sem dúvida, aquela em que mais se escreveu e falou sobre o homem, a época dos humanismos e do antropocentrismo. Entretanto, paradoxalmente, é também a época das mais profundas angústias do homem com respeito à sua identidade e destino, do rebaixamento do homem a níveis antes insuspeitados, época de valores humanos espezinhados como jamais o foram antes" (João Paulo II - no Encontro com os Construtores da Sociedade Pluralista, em Salvador, no dia 7 de julho de 1980). Os programas destinados à adequada assistência ao homem marginalizado ou em franco processo de marginalização, e à sua integração à correnteza principal da sociedade, muito embora dispendiosos e de difícil concretização, sempre foram verdadeiras e inquestionáveis demonstrações da existência de uma sociedade voltada para os valores do ser humano e também da objetividade de seus propósitos. Segundo alguns autores, mede-se o nível de desenvolvimento e o grau de cultura de um povo pelo tipo e pela qualidade de preocupação que demonstra para com os seus grupos minoritários e marginalizados, ou para com os pobres. Mas por que falarmos em "integração social" que é tão complexa e problemática? Não seria suficiente para a sociedade falar apenas em "assistência social", em "abrigo", em "institucionalização"? Por que não a separação pura e simples desses marginalizados ou marginalizáveis, como se faz, institucionalmente, com todos os elementos que podem causar perigo ou preocupação séria à sociedade? Talvez a sociedade tivesse muito mais tranqüilidade se pudesse colocar, internar, segregar em organizações especiais aqueles que são rotulados como "débeis mentais", "leprosos", "tuberculosos", "cancerosos", "paralíticos", "cegos", "surdos" e ainda os "maloqueiros", "favelados", "pedintes", "trombadinhas", "viciados em drogas" e outros mais que, sob os olhos dessa sociedade comodista constituem


a legião dos miseráveis, ou dos assim chamados "carenciados", "excepcionais", dos dias em que vivemos. - *A integração social e seus porquês* Motivos para qualquer sociedade do mundo moderno e progressista valorizar o ser humano existem do sobejo. Muitos desses motivos, já estudados e arrolados, fazem parte quase que obrigatória das Declarações Universais de Direitos do Homem, da Criança e da Mulher. Mais recentemente a Organização das Nações Unidas, por meio de sua Assembléia Geral, aprovou Declarações dos Direitos da Pessoa com Retardo Mental, da Pessoa Deficiente e outras mais. Ao que nos parece, os motivos de que estamos falando são mais do que suficientes para o surgimento de programas destinados à assistência adequada e à integração social de todos os grupos existentes na sociedade, mesmo que marginalizados. Não há, na verdade, necessidade de mais Declarações de Direitos. Há, sim, necessidade de colocá-las em prática, em todos os quadrantes de qualquer nação, pois estamos falando do homem, a respeito do qual já se falou e escreveu tanto e tão bem, e pelo qual tão pouco tem sido feito de concreto. Existem alguns tipos de considerações bastante convincentes que têm sido decisivas para o estabelecimento de programas objetivos das mais diversas naturezas, especialmente os destinados à integração de grupos humanos colocados à margem da sociedade. No entanto, para não dispersarmos muito e entrarmos em divagações quanto à miríade de facetas existentes nos grupos especiais até aqui indicados, limitemo-nos a considerar o problema de uma significativa parcela dessa população: os chamados "deficientes". Por "pessoas deficientes" entendemos todas aquelas que estão abaixo dos padrões estabelecidos pela sociedade como de "normalidade", por motivos físicos, sensoriais, orgânicos ou mentais, e em conseqüência dos quais vêem-se impedidas de viver plenamente. Dentre as considerações mais relevantes e que têm sido utilizadas em muitas partes do mundo para o estabelecimento de adequados níveis de prioridade e para a montagem de programas, podemos destacar as seguintes: a) *O elevado número de pessoas consideradas como "deficientes".* Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas e de suas Agências Especializadas, o problema é dos mais graves, pois, "pelo menos 10% da população de qualquer país do mundo sofre de algum tipo de incapacidade física ou mental, sendo das formas mais prevalescentes a limitação física, a doença crônica, o retardo mental e as incapacidades sensoriais". "Há mais de 400 milhões de pessoas deficientes no mundo" ("Rehabilitation of the Disabled - The Social and Economic Implications of Investments for this Purpose", United Nations). Infelizmente a dimensão desse problema não está vivamente impressa e muitas das autoridades brasileiras o ignoram. A Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que ao final de 1980 realizou nosso recenseamento geral, não incluiu nos dados pesquisados qualquer menção ao problema discutido aqui, de forma que precisamos continuar a utilizar as estimativas internacionais. Dessa forma, já que temos uma população de mais de 120 milhões de pessoas, temos mais de doze milhões delas com problemas limitadores e que as bloqueiam de uma plena participação na sociedade. Segundo depoimento de Norman Acton, Secretário Geral da Rehabilitation International, órgão consultivo da ONU, através de seu Conselho Econômico e Social, "desconhecendo as reais dimensões da deficiência e suas muitas conseqüências, nossos planejadores, nossas instituições e nossos governos, com poucas exceções, não tem


dado atenção, prioridade ou apoio adequados a programas nesse campo. Desinformados quanto à real natureza do problema, nossos cidadãos tentam ignorá-lo ou evitá-lo, deixando a responsabilidade nas mãos das profissões e das instituições especializadas. Por vezes sem conta nossas comunidades lidam com esses problemas, escondendo as pessoas seriamente deficientes atrás dos muros de suas casas, ou então, nas áreas residenciais mais sofisticadas, por detrás das cercas-vivas dos jardins de rosas. A idéia de que nossos modernos conceitos de direitos humanos se estendam aos portadores de deficiências físicas e mentais é hoje mais revolucionária do que a própria doutrina de Karl Marx" ("The Global Dimensions of Disability", de N. Acton). Conforme indicamos no capítulo anterior, o volume de pessoas deficientes já é muito grande na forma como é considerado pelos órgãos internacionais. Se adicionarmos a ele os grupos de pessoas que são vítimas de outros males de natureza repulsiva ou de desvios de conduta, e ainda por cima somarmos aqueles indivíduos que ganham insuficientemente para viver e sustentar a própria família, os que habitam sub-normalmente, os desajustados tecnológicos, os que são privados da assistência médica, os que passam fome crônica, os que não tem acesso à educação e à previdência social - e também aqueles que não conseguem livrar-se dessas situações, ou seja, os deficientes sociais, certamente que formaremos uma visão desalentadora. b) *O valor próprio do ser humano* A idéia de se colocar o ser humano à margem da sociedade, sem que se estabeleça ou sem que se possibilite um caminho de retorno, não é aceitável, pois o homem tem o direito de fazer parte da correnteza principal da sociedade que gera e que consome bens, pelo simples fato de ser um indivíduo dono de um valor intrínseco próprio e inalienável. Só mesmo a ignorância maliciosa e o barbarismo primitivo ou ultra-moderno de atitudes chegam a negar a importância que o homem tem como componente da sociedade e como ser individualizado. O ser humano pode, de fato, chegar a situações de marginalidade tal que só com um preparo extraordinário passará a ter condições de ser assimilado pela sociedade. Ninguém pode se esquecer de que uma das características principais do homem é a sua perfectibilidade, ou seja, sua capacidade de melhorar sempre e de se superar. Além disso, nenhum grupo social pode se arrogar o direito de impedir um de seus membros de atingir o máximo do seu potencial latente, pois o direito à realização pessoal é muito próprio do homem, independemente das diferenças individuais de cor, sexo, idade, credo, atividades políticas ou profissionais, ou das prioridades governamentais. A sociedade que assume as atitudes que são demonstrativas de sua posição de comiseração, de caridade piegas, de assistencialismo, monta seu próprio estilo de ajuda a grupos marginalizados que é muito característico, pois apresenta quase que exclusivamente programas de natureza segregativa e assistencialista. São os orfanatos, os asilos, os lares, as colônias especiais que se localizam longe dos núcleos populacionais, os internatos das mais variadas naturezas, as casas especiais e muitos outros "recursos" da comunidade. No entanto, na medida em que a sociedade se conscientiza e raciocina concretamente quanto ao valor do ser humano, ela tende a se aparelhar para atendê-lo adequadamente e passa a demonstrar essa preocupação pelo desenvolvimento de programas muito mais destinados à promoção humana, à libertação do homem da dependência odiosa, e à sua integração ao grupo social. Embora todos acreditemos no valor próprio do ser humano, é necessário que se faça uma séria parada para um exame crítico, a fim de que passemos todos de uma cômoda posição


teórica, muitas vezes bem verbalizada, para uma atuação concreta, com o estabelecimento de programas objetivos de valorização do homem. c) *O valor econômico da mão-de-obra não utilizada* Em qualquer realidade existe elevado percentual de elementos considerados naturalmente como não-produtivos, ou seja, crianças e pessoas em idade avançada principalmente. Esse volume é aumentado por pessoas enfermas, por pessoas aposentadas precocemente e por contingentes populacionais marginalizados da força produtiva por muitos motivos e pretextos. As pessoas portadoras de deficiências físicas, sensoriais, orgânicas, funcionais e mentais encontram-se nessa situação, com a agravante de não só deixarem de produzir, como também de, apesar de terem potencial para o trabalho, serem ônus para a sociedade. No entanto, segundo Ballester Hoys, "nenhum país pode considerar-se hoje suficientemente rico para desprezar a mão-de-obra do incapacitado" (Apud Gonçalves). E, de fato, se raciocinarmos um pouco, verificaremos que, se dos 10% da população que é vítima de males incapacitantes, pelo menos 25% estivessem de alguma forma engajados na produção de bens e serviços, não estariam apenas consumindo e dependendo de elementos mais produtivos, recebendo por vezes a contragosto auxílios dos cofres públicos ou da previdência social. Em termos de realidade brasileira, essa mão-de-obra em potencial poderia chegar a mais de 3 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, em idade adulta, cujo objetivo principal de vida é trabalhar e sair da desagradável situação de dependência e de contínua frustração. O desemprego, a dependência econômica, o sub-emprego desumanamente remunerado e atividades muito pouco rentáveis são fantasmas que rondam significativa parcela da população em nossa sociedade repleta de contrastes e injustiças. No entanto, quando o emprego mal remunerado, o sub-emprego ou o desemprego ocorrem pura e simplesmente devido à existência de uma deficiência ou incapacidade de natureza física ou sensorial, ou de limitações orgânicas e mentais, eles passam a se tornar muito mais injustos e inaceitáveis, por melhores explicações que possam ser dadas ou encontradas para sua existência. Uma das principais tônicas de programas de bem-estar social com populações carenciadas e/ou marginalizadas deve ser a preocupação com o trabalho, ao qual elas têm direito. Os nossos governos - a nível federal, estadual e municipal - têm papel relevante nessa grande batalha de assimilação de mão-de-obra potencialmente produtiva, estando nela também engajados, além do poder público, o comércio, a indústria, o mundo dos serviços. Existem especialistas no assunto que se opõem à assimilação da mão-de-obra das pessoas deficientes em detrimento daquelas pessoas|não-deficientes desempregadas, como se as pessoas deficientes fossem meros cidadãos de segunda classe, com direito à sobrevivência após garantida a vida das pessoas consideradas como "normais". Esses argumentos são, no mínimo, "parvos", excessivamente pequenos para poderem ser levados em consideração. Cremos que talvez a colocação do argumento no sentido inverso poderia ser menos injusta, ou seja, aproveitamento da mão-de-obra das pessoas deficientes prioritariamente. - *Os princípios básicos da reabilitação* Essas poderiam ser as três pilastras básicas para garantir o desenvolvimento de programações destinadas a minorar toda essa gama de dificuldades, através da integração social. Se realmente pensamos em integrar socialmente o homem marginalizado e prejudicado por certos tipos de deficiências, temos a obrigação de nos inteirar de como iremos conseguir essa integração. Se as estimativas das organizações internacionais de inquestionável credibilidade são válidas para a nossa realidade - e por que não o seriam? -


precisamos analisar com muito cuidado em que ponto estamos na assistência adequada a esses grupos especiais de seres humanos que se vêem prejudicados em todos os seus direitos, inclusive no direito de participar. Muito embora possamos relacionar diversos pontos de partida para o deslanche de programas tendentes a resolver os problemas que levam as pessoas portadoras de deficiências à marginalidade social (como, por exemplo, o estabelecimento de prioridades governamentais nesse campo, incluindo ações de prevenção de impedimentos, atividades de detecção precoce das deficiências e seu atendimento, financiamento de programas de atendimento especializado, garantia da formação de pessoal para essa atuação especial, organização de esquemas que garantam a profissionalização de pessoas deficientes, programas educacionais próprios, revisão da Consolidação das Leis do Trabalho, regulamentação da Emenda à Constituição Federal de n°. 12/78 e muitos outros), não há dúvida que o desafio maior estará sempre na interiorização individual e na aplicação de tudo aquilo que pode ser chamado de credo no homem: - O ser humano, mesmo portador de deficiência e marginalizado, tem um valor próprio, intrínseco e inalienável. Tem, portanto, direito a todo o respeito devido a qualquer indivíduo. - A dignidade do homem independe de sua inteligência, raça, credo, idade, sexo, ideologia e integridade física. - Ele é único, complexo e diferente de todos os seus semelhantes; ele só poderá ser considerado globalmente e nunca em partes estanques. - O indivíduo, mesmo que marginalizado, tem um potencial que deverá ser enfatizado, apoiado e fomentado, pois todo homem é perfectível e tem condições de se superar. - Todo ser humano faz parte de uma sociedade na qual deverá ter seu papel; o indivíduo tem também seu valor econômico como colaborador em potencial no processo de produção de bens e de serviços. - *O despreparo nos programas reabilitacionais* Os problemas físicos, psicológicos, sociais, educacionais e de natureza profissional são aqueles que marcam a grande maioria dos casos de marginalização devido a deficiências diversas, demandando soluções que jamais poderão olvidar o homem como um todo. Ao trabalhar com a problemática das pessoas deficientes, porém, a maioria de nossas organizações, de orientação simplista ou puramente tecnicista (pseudo-técnica), consideram que a grande questão está relacionada apenas à eliminação ou redução quando não, à camuflagem - da deficiência. Esquecem-se que o indivíduo sem uma perna ou sem um braço, que não pode fazer uso da visão ou da audição, estigmatizado por algum mal ou incapacidade, faz parte (ou deveria fazer parte) de grupos e deseja legitimamente seu lugar na sociedade, sentindo que tudo isso está fora de foco e ameaçado. Esquecem-se essas entidades - e os profissionais nelas inseridos - que esse mesmo indivíduo, já frustrado e magoado, pode ter desenvolvido e adotado hábitos inadequados, apresentando um comportamento inaceitável. Mais do que tudo isso, esquecem-se que esse indivíduo deficiente poderá ter algo a dizer e a contribuir quanto à evolução de seus problemas e das perspectivas para sua solução. Nessa infeliz somatória de atitudes de esquecimentos, de “não-lembrancas”, de “estarfazendo-um-grande-favor”, de “a-gente-já-faz-muito-por-você-que-é-um-coitado-e-nãoreconhece” - intencional ou não - percebemos uma velada e latente descrença no homem diminuído, feito escravo das situações e das pessoas, que não tem importância em termos sociais, cujos direitos são analisados e avaliados só muito contingencialmente.


As organizações a respeito das quais comentamos acabam se esquecendo de que a marginalidade do indivíduo ocorre por uma série de motivos e não apenas devido à existência de uma anomalia, de uma deficiência física ou sensorial, por exemplo. Na verdade, a marginalidade surge no momento em que, além da deficiência apresentada, ocorrem limitações de graus e naturezas os mais variados quanto à estabilidade junto ao grupo e, de um modo todo especial, quanto a desvantagem sentida, pesada pelo próprio indivíduo, que é vítima do mal, da falta, da carência, da anomalia e de suas conseqüências. - *A complexidade do trabalho de equipe em reabilitação* Conseqüentemente, para a integração social de um indivíduo que já está colocado à margem dos grupos principais da sociedade, a questão não se limita e jamais poderia se limitar à mera solução de um problema físico, como não poderia se limitar à simples obtenção de um emprego remunerado. A integração social ocorrerá, de fato, desde que se obtenha o pleno envolvimento do indivíduo atingido, e mais, se desenvolva com ele um trabalho de reaquisição de valores perdidos, de sua dignidade, de seu amor próprio, de seu real sentido de homem. Trabalho de tal natureza só poderá ser desenvolvido em condições especiais, incluindo obrigatoriamente atividades que levam à valorização pessoal. Além disso, por menos agradável que possa parecer, é bom também que essas atividades mostrem ao indivíduo a importância que pode ter em sua vida a criação ou a mudança de hábitos e de atitudes, o desenvolvimento de comportamento que a sociedade aceite, por estar de acordo com aquilo que ela espera de cada um daqueles que dela pretende participar e nela ter um papel definido e digno. Estamos caracterizando, dessa forma, um trabalho que jamais poderia ser responsabilidade de uma pessoa só, requerendo uma atuação integrada e uma ampla e permanente colaboração da comunidade. Na verdade, é somatória de esforços nos quais dãose as mãos diversos profissionais, tais como médicos, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, além de educadores e conselheiros diversos, para ajudar cada indivíduo a se definir quanto aos seus objetivos de vida, numa situação de plena participação na vida da comunidade. - *Os programas necessários em nosso meio* Trabalho dessa natureza e qualidade poderá ser desenvolvido em organizações especificamente criadas para esse fim, ou seja, em centros de reabilitação, cuja organização e manutenção não são de natureza nem fácil nem barata. Programas de integração a nível de comunidade, com o uso de uma tecnologia menos dispendiosa são também recomendados, face ao nosso nível de desenvolvimento, tendo sido uma preocupação contínua da Organização Mundial de Saúde desde os meados da década de setenta. Tanto centros de reabilitação quanto programas que utilizam tecnologia mais simples e menos cara requerem profissionais muito bem preparados que, além de seus cursos básicos, dominam também uma série de conhecimentos adicionais relativos aos procedimentos e ao embasamento filosófico do processo de reabilitação e da própria integração social. Essa qualificação adicional e indispensável deverá ser sempre informada e alimentada por atitudes positivas quanto ao trabalho multiprofissional, sem as quais nenhum programa poderá ser produtivo e útil para quem dele necessita e muito mais do que isso, por atitudes de verdadeira e genuína crença no ser humano, em sua dignidade, em sua perfectibilidade, e de respeito ao indivíduo como ele é e onde ele está ou pretende ficar.


CAPÍTULO TERCEIRO ADEQUAÇÃO PESSOAL - O OBJETIVO ULTIMO DA REABILITAÇÃO Analisamos anteriormente algumas idéias quanto às dificuldades que podem levar indivíduos a situações sérias de marginalização; formulamos alguns princípios básicos sobre os quais programas de assistência a esses mesmos indivíduos podem basear-se; delineamos as condições fundamentais para um envolvimento da sociedade face a essa problemática; e chegamos à conclusão que os serviços destinados a dar apoio e cobertura de natureza integral a pessoas que vivem em situações dessa natureza não podem deixar de cobrir as necessidades essenciais do ser humano, em todos os sentidos. Verificamos também, que praticamente todos os desvios da normalidade podem ser considerados negativamente pelo grupo social e muitas vezes pela própria pessoa atingida, especialmente quando a anomalia provocadora do desvio não é bem aceita ou bem compreendida. Para especialistas em reabilitação, essa anomalia poderá chegar a significar uma “perda”, uma “restrição” ou um “bloqueio” a atividades usuais tais como andar, escrever, olhar, contar e outras - ou seja, uma deficiência; poderá também significar uma “desvantagem” - isto é, uma incapacidade. - *Impedimento, deficiência e incapacidade* Nunca será demais repetirmos um pouco o raciocínio a respeito dessa questão, uma vez que não estamos aqui discutindo apenas ângulos de sinônimos, pontos de semântica, mas de conceituações que são fundamentais para quem pretende compreender esses problemas e suas soluções. Assim é que, verificada a “anomalia”, o “defeito físico ou mental”, a “falta de um membro” (e tudo isso é reconhecido no Brasil como “impedimento”), temos instalado algum grau de deficiência, ou seja, o indivíduo não ouve, não fala, não vê, não anda; ouve mal, fala mal, enxerga mal, anda mal; não leva a mão à boca, não tem controle de esfíncteres. São conseqüências diretas da anomalia no funcionamento da pessoa. Portanto, a pessoa deficiente é aquela que vive em situações de bloqueios eventuais ou permanentes, em conseqüência de um mal, perda ou restrição. “Incapacidade” já e algo diferente. Na verdade, é o resultado da deficiência somado às conseqüências pessoais e sociais, com evidente prejuízo para o ser humano. No sentido de caminhar para uma uniformidade de conceitos, muitos profissionais têm adotado uma nomenclatura próxima àquela publicada pela Organização Mundial de Saúde e que foi inserida num importante documento da Rehabilitation International,em cooperação com o UNICEF, ou seja, “A Deficiência Infantil: Sua Prevenção e Reabilitação”. A guisa de esclarecimento: essa nomenclatura ou classificação terminológica é aqui transcrita: “Impedimento: um dano psicológico, fisiológico ou anatômico, permanente ou transitório, ou uma anormalidade de estrutura ou função”. “Deficiência: qualquer restrição ou prevenção na execução de uma atividade, resultante de um impedimento, na forma ou dentro dos limites considerados como normais para o ser humano”. “Incapacidade: uma deficiência que constitui uma desvantagem para uma determinada pessoa, porque limita ou impede o desempenho de uma função que é considerada normal, dependendo da idade, sexo, fatores sociais e culturais, para aquela pessoa”.


O documento prossegue com esclarecimentos que são relevantes para a diferenciação desses conceitos, ao afirmar: a) Um impedimento pode ser uma parte do corpo, ausente ou defeituosa; uma perna amputada, uma paralisia pós-poliomielite, diminuição da capacidade pulmonar, diabetes, miopia, retardo mental, diminuição da capacidade auditiva, deformação da face, ou outra condição anormal. b) Deficiência como resultado de um impedimento pode consistir de dificuldade de marcha, visão, fala, audição, escrita, de contar, de levantar-se ou de interessar-se em fazer contato com o meio-ambiente. c) A deficiência pode tornar-se uma incapacidade quando interfere com a execução do que seria normal em determinada época de uma vida. Crianças com deficiências podem tornar-se incapacitadas para cuidar de si próprias, relacionar-se socialmente com outras crianças e adultos, manifestar seus pensamentos e preocupações, aprender na escola e fora dela e desenvolver a capacidade para atividade econômica independente (A Deficiência Infantil: Sua Prevenção e Reabilitação, da RI/UNICEF). Pormenorizando um pouco e referindo-nos ao que foi expres