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Quarta-feira, 14 de março de 2012

GAZETA DO POVO Editora responsável : Themys Cabral saude@gazetadopovo.com.br

Aplicativos para smartphones e tablets ajudam o usuário a cuidar da saúde

Veja como escolher bem o seu colchão e garantir noites de sono mais tranquilas

Aprenda a aplicar a manobra que ajuda a expulsar o alimento em casos de engasgos

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O homem biônico Aço inoxidável, titânio, cromo, cobalto, nylon, acrílico, cerâmicas, polietileno, silicone e PVC. Reportagem especial deste mês mostra como estes e outros materiais fazem parte do nosso corpo hoje em dia Página 4 e 5


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Notas

EU SUPEREI

ciÊnciA

Dormir mal aumenta risco de prematuro

“O Parkinson não me impede de ser feliz”

Felipe Rosa / Gazeta do Povo

Doença de Parkinson

Jorge Magno Lima, 75 anos: diagnosticado depois que o banco começou a devolver seus cheques.

Rafaela Bortolin

A

doença é degenerativa e progressiva, compromete os movimentos e muda a rotina do portador. Desde amarrar o cadarço do tênis ou abrir um pote de margarina até dirigir ou contar cédulas de dinheiro, há tarefas que ficam mais complicadas para quem tem Parkinson. Mas se engana quem pensa que isso impediu o comerciante aposentado Jorge Magno Lima, 75 anos, diagnosticado com o problema há 25 anos, de viver da melhor forma possível. Pode parecer exagero, mas ele garante: a vida ficou melhor depois do Parkinson. “Faço tudo o que sempre fiz. Claro que com certa dificuldade, mas os sintomas não inviabilizaram uma vida normal. Às vezes, tenho crises em que minha musculatura fica rígida e não consigo me mover direito. Espero passar e volto às minhas atividades. Não é o Parkinson que vai me impedir de ser feliz.” E não demora para Lima abrir um

É uma doença degenerativa causada pela falta de algumas substâncias no cérebro, principalmente a dopamina, um neurotransmissor que facilita a comunicação dos neurônios. Sem ela, os movimentos do corpo deixam de ser harmônicos. O problema não tem cura e não há formas de prevenção. Em média, aparece a partir dos 60 anos, mas há casos inclusive em adolescentes.

Sintomas sorriso quando começa a enumerar as mudanças em sua vida após o diagnóstico. “Virei poeta, passei a estudar música e perdi o medo de usar o computador. Antes, fugia o quanto podia do mouse.” Lima lembra que descobriu a doença por acaso. “O banco devolveu uma série de cheques meus alegando problemas na assinatura. Quando fui comparar, vi que minha letra estava modificada. Um médico me diagnosticou com a Síndrome do Escrivão, problema de pessoas que passam o dia escrevendo. Depois de dois anos, conseguimos identificar o Parkinson.” Sobre o diagnóstico, ele diz que o primeiro passo é aceitar o problema. “Não adianta ficar revoltado. É comum questionar ‘por que eu?’, mas o sofrimento é dispensável e não leva a nada. A pessoa precisa parar de se queixar, levantar a cabeça e se adaptar à nova realidade.” Um dos problemas para os portadores, segundo Lima, é que, como a doença ainda é envolta em uma série de mitos, acaba gerando preconceito. “Nas ruas, as pessoas

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nos olham assustadas e acham nosso comportamento estranho, pensam que estamos bêbados ou drogados e se afastam. Há quem tenha até receio de colocar as mãos, por achar que é contagioso. Hoje, o portador de Parkinson não luta somente contra a doença, mas enfrenta uma batalha ainda mais dura contra o preconceito.” Morando em Curitiba há 12 anos, Lima explica que desde que chegou à cidade percebeu que os próprios portadores desconheciam a doença. Por isso, decidiu criar um grupo de apoio, que deu origem à Associação Paranaense de Portadores de Parkinsonismo (APPP), da qual ele é o presidente. “Hoje temos uma lista grande de atendimentos oferecidos, como neurologia, acupuntura, nutrição e musicoterapia, além de atividades, como coral e grupo de dança. Não poderia prever tanto sucesso.” seRViço

São três: tremor, rigidez e lentidão de movimento. Para ser diagnosticada com Parkinson, a pessoa precisa ter dois deles. Com a evolução da doença, o paciente passa a ter perda de equilíbrio.

❚ Um estudo publicado no periódico científico Sleep mostra um risco significativo de parto prematuro em mulheres que relataram sono interrompido durante o primeiro e o terceiro trimestres. Para os autores, a má qualidade do sono pode iniciar uma inflamação, possivelmente ativando processos associados à prematuridade. A interrupção do sono pode estar associada também ao estresse, conhecido por sua relação com a inflamação. A qualidade do sono no segundo trimestre de gestação não foi correlacionada com o aumento do risco de parto prematuro, segundo a pesquisa. Os autores dizem que nesse período o sono frequentemente melhora, mas ainda não se sabe bem o porquê.

Causas Cogita-se que apareça por causa de predisposição genética e uma combinação de fatores ambientais (como exposição a toxinas nocivas durante a vida). Fonte: Renato Puppi Munhoz, médico neurologista da Associação Paranaense dos Portadores de Parkinsonismo.

conteúdo extRA No site www.gazetadopovo.com.br/

A APPP fica na Avenida Silva Jardim, 3180.

saude, você confere outros

Informações nos telefones (41) 3014-5617 e

trechos da entrevista com

(41) 3014-5618 e no site www.appp.com.br.

Jorge Magno.

expediente

Caderno Saúde é um suplemento especial da Gazeta do Povo desenvolvido pelo núcleo de Saúde. Diretora de Redação: Maria Sandra gonçalves. Editor Executivo: guido Orgis. Edição: Themys Cabral. Design de Página: allan Reis. Capa: Banco de imagem. Redação: (41) 3321-5316. Fax: (41) 3321-5472. Comercial: (41) 3321-5904. Fax: (41) 3321-5300. E-mail: saude@gazetadopovo.com.br. Endereço: R. Pedro ivo, 459. Curitiba-PR. CEP: 80.010-020. Não pode ser vendido separadamente.

Próxima edição 11 de abril


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Tecnologia

Cuidado na ponta dos dedos Seja medindo a quantidade de calorias ingeridas ou lembrando a hora de tomar um remédio, aplicativos para smartphones e tablets facilitam cuidados do dia a dia

conteúdo extRA Veja outros aplicativos para saúde em

www.gazetadopovo.com.br/saude

Dâmaris Thomazini

E

les não substituem os médicos, nem a ida ao consultório, mas facilitam a vida de quem se preocupa com a saúde. Os aplicativos (apps) disponíveis para smartphones e tablets prestam um serviço que ajuda os pacientes a administrar seus remédios durante o dia, a contar as calorias das refeições, monitorar o sono, o índice de glicose e até o período menstrual. A maioria dos apps, ainda, é gratuita e usar a ferramenta não traz dificuldades mesmo para aqueles menos familiarizados com inovações tecnológicas. “Antes dos aplicativos serem inventados, as pessoas criavam várias alternativas para não esquecer seus remédios: escreviam mensagens nos calendários, colocavam a embalagem do remédio ao lado da pasta de dente. Hoje, os pacientes sempre estão com os celulares ao lado e os apps facilitam o processo”, analisa o ginecologista e diretor da unidade de negócios de saúde feminina do laboratório Bayer, Fernando Caron. Preocupado com o fato de sua sogra, uma senhora de 84 anos, esquecer de tomar seus remédios com frequência e até trocá-los, o engenheiro industrial Hélio Antônio Assalim decidiu agir por meio da tecnologia. Mesmo sem conhecer profundamente o funcionamento das plataformas iPhone e iPad, ele idealizou o app É Hora. “Primeiro pensei em um programa de computador, mas isso não seria tão ágil. Ter algo a mão seria melhor. Desenhei o projeto e demos um iPad para minha sogra melhorar seu controle de medicações”, conta. Confira as sugestões de apps de saúde:

hoRA dA pílulA

peRiod diARY

Bastante popular entre o público feminino, este app fornece lembretes que indicam o momento em que a mulher deve tomar a pílula anticoncepcional diária. As configurações permitem ajustar o melhor horário para o lembrete. O layout apresenta uma cartela com a quantidade de pílulas da embalagem real.

Registra o período menstrual da usuária. Nele é possível gravar dados sobre sintomas como dores de cabeça e cólicas recorrentes. O app produz gráficos e relatórios dos ciclos, que podem ser enviados por e-mail e ser muito úteis durante a conversa com o médico.

Compatível com: iPhone, iTouch e iPad. Grátis

Compatível com: iPhone, iTouch e iPad. Grátis

Compatível com: Android. Grátis

sleep cYcle AlARm clocK

dRinKing WAteR

pillBoxie

Não só acorda o usuário, mas também analisa a qualidade do sono. Antes de dormir é preciso colocar o aparelho sobre o lençol, com a tela virada para baixo. O aplicativo monitora os movimentos da pessoa enquanto ela dorme. Ao despertar, é possível conferir um gráfico com cada fase do sono. Compatível com: iPhone, iTouch e iPad. Pago: USD 0.99

cAloRie counteR & diet tRAcKeR Tem um banco de dados com mais de 1 milhão de alimentos. O app conta calorias da dieta e fornece gráficos com grupos de nutrientes mais consumidos pelo usuário. Dá para traçar metas para perder peso e registrar exercícios físicos feitos. Apesar de ser em inglês, tem informações em português. Compatível com: iPhone, iTouch, iPad, Android, Blackberry e Windows Phone 7. Grátis

Este aplicativo lembra o usuário de tomar a quantidade de água necessária durante o dia. É possível programar o número de copos a serem consumidos. O app emite sons que indicam que é hora de uma pausa para se hidratar, além de compor um gráfico sobre o hábito de beber este líquido tão importante.

sleep Bot tRAcKeR log Assim como o Sleep Cycle para iPods, este app analisa o sono do usuário, disponibiliza informações em gráficos, indica quantas vezes a pessoa acordou durante a noite e também faz o mais simples: funciona como um despertador.

Memória fraca não é mais desculpa. O aplicativo lembra a hora certa de tomar o remédio. Ele tem uma série de imagens de pílulas, comprimidos, cápsulas, inalador, injeção e pó, que deixam o processo mais atrativo. Dá para escolher o formato, as cores dos medicamentos e escrever o nome de cada um.

Compatível com: Android. Grátis

Compatível com: iPhone, iTouch e iPad. Grátis

ViRtuAgYm

glicocARe

Com este personal trainner virtual, o usuário pode fazer várias séries de exercícios físicos, durante o tempo que tiver disponível – mesmo que sejam apenas 15 minutinhos por dia. Um avatar 3D mostra como os movimentos devem ser feitos, o que facilita a vida de quem deseja entrar em forma sem errar os exercícios.

Permite que o usuário acompanhe suas medidas de glicose e tenha acesso a gráficos, dicas de saúde e de atividades físicas para controlar o nível de açúcar no sangue. Os registros podem ajudar o paciente a expor, de forma mais fácil, as variações de seu nível de glicose ao médico.

Compatível com: Android. Grátis

Compatível com: iPhone, iTouch e iPad. Grátis

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Ciência

Da indústria para o corpo humano Materiais como

Rafaela Bortolin

cerâmicas, nylon, aço

ço inoxidável, titânio, cromo, cobalto, nylon, acrílico, cerâmicas, polietileno, silicone e PVC. Esta pode até parecer uma lista do que é necessário para fazer algum experimento, mas, acredite: esses e outros materiais são usados hoje no corpo humano para substituir tecidos, cartilagens, ossos danificados, realizar implantes dentários, re-estabelecer funções orgânicas e até melhorar a autoestima e a qualidade de vida dos pacientes. E esse avanço não deve parar por aí. Segundo especialistas, em um futuro próximo, a expectativa é de que as pesquisas abram caminho para a produção de órgãos. De acordo com o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Sociedade Latino Americana de Biomateriais, Engenharia de Tecidos e Orgãos Artificiais (Slabo), Luís Alberto dos Santos, os chamados biomateriais, produtos sintéticos compatíveis para utilização no corpo humano, são usados principalmente nas áreas de ortopedia, odontologia e em realização de implantes. Em comum, todos têm duas características: a durabilidade e a resistência. “Os fluidos corpóreos podem ser comparados com a água do mar, por sua capacidade de danificar materiais. Por isso, cada produto usado dentro do organismo precisa ter grande capacidade de aguentar corrosão”, explica a professora do departamento de En­­ genharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Cecília Zavaglia. Embora alguns dos materiais sejam os mesmos usados na indús-

inoxidável e titânio são usados para substituir tecidos danificados e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. E os especialistas garantem: em poucos anos, será possível até produzir órgãos com biomateriais

A

tria, para a nobre destinação na medicina eles precisam passar por rígidos controles de qualidade e até mudanças em sua composição. “São materiais bem similares aos usados no dia a dia e na indústria, mas são produzidos com normas próprias quanto à composição química e em ambientes que seguem o grau médico, com cuidados redobrados de higiene e limpeza”, esclarece Santos. Com isso, o silicone de cirurgias de implante tem uma composição diferente do usado na indústria, assim como o aço inoxidável de próteses não é o mesmo do usado em panelas, carros e navios. “E é fácil notar o tamanho do problema quando há troca. Foi o que aconteceu com as próteses de silicone PIP, na França. O gel médico foi trocado pelo industrial, que é mais barato, mas tem qualidade inferior, o que causou rupturas”, diz. No Brasil, o controle dos produtos é feito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Danos Além das normas de higiene e segurança, os pesquisadores se preocupam em verificar se o material não causa danos ao organismo. “Eu não posso desenvolver um produto para substituir um osso do pé e ele gerar dor no joelho, alergia ou até um câncer. Tudo tem que funcionar sem danos, da mesma forma como acontece com os ossos e tecidos do corpo”, explica a professora Cecília. Mas ela garante que, como são amplamente testados antes da fase de implantação no corpo, são raros os casos de reações do organismo ao material. “São anos ou até décadas de testes, então o produto final, quando aprovado para uso, é seguro.”

Rosto e corpo É possível usar injeção de peças de acrílico para tirar rugas, fazer preenchimento facial e moldar as formas do rosto. Em outras partes do corpo, como braços, nádegas e pernas, o produto é utilizado para aumentar o volume da região e passar uma impressão de definição muscular.

Boca, dentes e face Feitos em hidroxiapatita, óxido de alumínio, polietileno ou cerâmica, os implantes dentários são resistentes a desgaste e podem substituir dentes (ou partes deles) e ossos da mandíbula. Também há técnicas de regeneração de dentes e ossos da face a partir de celulose bacteriana.

Coluna vertebral É possível injetar porções de acrílico na coluna em caso de ruptura de uma ou mais vértebras.

Ossos Podem ser feitas próteses para substituição de ossos ou articulações inteiras usando materiais como aço inoxidável, titânio, cromo, cobalto ou biovidro, uma composição rica em cálcio e fósforo. Outro material que ganha força é a hidroxiapatita, substância com uma composição química semelhante a dos ossos e dentes e que pode tanto substituir quanto colaborar na regeneração dessas partes.

Cartilagens A partir de polímeros, são desenvolvidas cartilagens artificiais para substituir tecidos danificados. Também é possível empregar hidrogel para preencher falhas em orelhas, joelhos e outras articulações.

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Crânio, ossos e membros É possível utilizar placas e parafusos de aço inoxidável ou titânio para fixação de fraturas, seja somente durante o período pós-operatório – para fixar o resultado da cirurgia – ou de maneira permanente. Além dos metais, podem ser confeccionados parafusos e placas bioabsorvíveis usando ácido polilático.

Dedos Implantes de juntas são feitos em silicone.

Olhos

Seios, panturrilha e nádegas

Lentes de acrílico intraoculares podem ser implantadas para acabar com a catarata.

Um dos biomateriais mais conhecidos, o silicone pode ser usado de maneira estética.

Pele Coração Desenvolvimento de corações artificiais, marcapassos e válvulas cardíacas, que podem ser orgânicas (feitas a partir de válvulas de animais) ou artificiais (produzidas com liga de titânio ou poliacetato). Ganham força as pesquisas de válvulas descelularizadas, obtidas de doares de múltiplos órgãos – estruturas sem as células, que são repovoadas por células in vitro. Nos últimos anos, também vem se desenvolvendo o implante de stents, próteses metálicas colocadas dentro de artérias obstruídas.

Fios de nylon podem ser utilizados, externa ou internamente, para realizar pontos e sutura em cirurgias. Películas de celulose bacteriana também são usadas para realizar enxertos e facilitar a regeneração da pele.

Fontes: Carlos Nelson Elias, professor do Laboratório de Biomateriais do IME; Cecília Zadaglin, professora da Engenharia Mecânica da Unicamp; Tatiana Santos de Araújo Batista, professora do Instituto Federal de Sergipe; Luís Alberto dos Santos, presidente da Slabo;

Vasos sanguíneos Feitos a partir de polímeros, pequenos tubos substituem artérias e veias.

Materiais também contribuem com a regeneração

O

s biomateriais não são usados apenas para substituir tecidos, mas, em alguns casos, para ajudar na regeneração. Em uma neurocirurgia, por exemplo, é preciso fazer uma abertura no crânio e até tirar

Reinaldo Marchetto, professor do Instituto de Química da Unesp; Mário José Dallavalli, professor do departamento de Engenharia Química da UFPR; Francisco Diniz Affonso da Costa, chefe de Cirurgia Cardíaca do Hospital Santa Casa de Curitiba.

pedaços de osso inteiros para chegar ao cérebro. Para fechar essa abertura, são usadas peças absorvíveis de hidroxiapatita. “Como o tecido ósseo identifica esse material como osso também, cresce em cima dele e se regenera. Em algum tempo, a hidroxiapatita é totalmente absorvida e o paciente volta a ter seu osso normalmente”, explica o presidente da Slabo, Luís Alberto dos Santos. Hoje, um processo semelhante é feito em casos de implantes den-

tários. Segundo o professor do Laboratório de Biomateriais do Instituto Militar de Engenharia (IME) Carlos Nelson Elias, quando há perda de um dente devido a desgaste, o organismo começa a absorver o osso e, para resolver esse problema, é usado um biomaterial que induz as células a se diferenciarem. “Após 8 a 10 meses da colocação do biomaterial, há formação de osso com qualidade adequada para permitir o implante e para suportar as cargas mastigatórias.”

Expectativa Biomateriais vão dar lugar à engenharia Em alguns anos ou, no máximo, décadas, a meta é que os biomateriais não sejam mais usados para substituição de tecidos. Uma tendência que se fortalece é a da engenharia de tecidos, com cultivo de células – seja células-tronco, células da própria pessoa ou de outras –, para desenvolvimento e implante de tecidos, órgãos e até membros. “Imagine que a pessoa perdeu um pé. Com o desenvolvimento da engenharia de tecidos, vai ser possível que ela vá a uma clínica e escolha um pé para um implante ou poderemos escanear o outro pé, desenvolver uma estrutura de pele, músculos, ossos e tendões, semear células retiradas do paciente, desenvolver esses tecidos e fazer a cirurgia para implantar um pé igual ao que ela tinha”, explica o presidente da Slabo, Luís Alberto dos Santos. Neste caso, os biomateriais seriam utilizados somente como um arcabouço onde as células se desenvolveriam até serem implantadas no organismo. “Em inglês, é o que chamamos de scaffolding, aquela estrutura temporária de madeira que se usa em construções até que a estrutura final esteja pronta e ela possa ser retirada. Com ela, o tecido do implante se desenvolveria, o biomaterial seria absorvido pelo organismo e a pessoa teria de volta o tecido ou órgão comprometido.” Segundo Santos, há pesquisas com testes em animais para criar órgãos de maneira experimental, como bexiga, pulmão, rim e coração, além de estudos para o uso de impressoras capazes de produzir células e biomateriais. “É um trabalho minucioso, que ainda deve demandar tempo para gerar resultados, mas as expectativas para o futuro são as melhores possíveis.”

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Compare

Durma nas nuvens Escolha certa do

Dâmaris Thomazini

colchão pode garantir

perdido

scolher o colchão errado não prejudica somente a qualidade do sono: o corpo todo sofre na tentativa de se acomodar sobre uma superfície desconfortável. “Um colchão ruim pode provocar insônia e tensão muscular, o que acarreta dores crônicas, problemas na coluna e

vícios de postura”, alerta a coordenadora da escola da coluna do curso de Fisioterapia da Pontifícia Uni­ver­sidade Católica do Paraná (PUCPR), Auristela Moser. Dormir em um colchão confortável contribui para um sono tranquilo, o que traz reflexos diretos na disposição e produtividade durante o dia. Segundo o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), quem chegar aos 60 anos terá passado pelo menos 20 anos de sua vida deitado sobre um colchão. Dormir por duas décadas sobre um produto inapropriado rende dores de cabe-

Molas

Espuma

Látex

duas décadas de noites tranquilas, ou vinte anos de sono

E

ça, torcicolos, incômodos musculares e na região lombar. “Não existe um colchão para cada tipo de problema de coluna. O produto precisa ser confortável e ajudar a manter as curvas fisiológicas do corpo para que, quando deitados, a coluna se mantenha na mesma posição de quando estamos em pé”, explica o vice-presidente da regional paranaense da Socie­dade Brasi­leira de Ortopedia (SOB) e chefe do grupo de coluna do Hospital de Clínicas da Univer­ sidade Federal do Paraná (UFPR) e do Hospital do Trabalhador, Xavier Soller.

Os profissionais de saúde lembram que um colchão não deve ser companheiro de uma vida toda: a cada 10 anos é preciso trocar o produto, pois ele se adapta às curvas do corpo, o que “vicia” o formato do material e força as articulações e músculos. Antes de escolher o seu próximo colchão, compare os detalhes abaixo:

Viscoelástico

Na medida

Conteúdo extra Confira no site www.gazetadopovo.com.

br/saude dicas de como escolher o seu colchão.

Fotos: Felipe Rosa / Gazeta do Povo

O colchão não pode ser nem macio demais, nem muito duro. Veja por quê: u Colchão muito duro: não traz

Um colchão não deve ser só de molas: elas são acompanhadas por uma camada extra em espuma, látex ou viscoe­­­lástico, chamada pillow top. u Vantagens: acompanha o

movimento do corpo; respeita a curvatura da coluna; tem durabilidade e boa adaptação para casais. Prefira as molas ensacadas, em que a superfície se mantém estável onde não há pressão. Molas entrelaçadas ou bonnel garantem molejo, mas, se usadas por casal, caso um se mexa, o outro sentirá. u Desvantagens: se o colchão

não for de boa qualidade e se não for bem conservado, as molas centrais afundam no centro. u Preço*: solteiro R$ 500 a R$ 5,2

mil e casal R$ 800 a R$ 8,1 mil (colchão com mola e outro material).

A dica é procurar a densidade 28, que possui uma maciez intermediária e é coringa para a maioria das pessoas. A densidade 32 é mais dura e necessita de um tempo de adaptação para que o corpo se acostume a ela. u Vantagens: preço mais

acessível. u Desvantagens: não é ideal

para casais, pois ao escolher uma densidade, um dos dois dormirá em um colchão inapropriado; baixo poder de amortecimento; com o tempo a espuma perde a capacidade de voltar para a forma original.

O látex pode ser do tipo natural ou sintético. u Vantagens: material mais

nobre, é recomendado para todas as pessoas; rígido, mas também macio, o látex mantém muito bem a curvatura da coluna e se adapta aos demais contornos do corpo; é recomendado para quem transpira demais; higiênico, inibe a proliferação de fungos, ácaros e bactérias, sendo um alternativa ideal para os alérgicos. u Desvantagens: como é feito

com uma matéria-prima mais nobre, há um reflexo no preço do produto, que, em média, é mais alto do que o dos demais materiais.

u Preço*: solteiro R$ 300 a

u Preço*: solteiro R$ 2,6 mil,

R$ 1,2 mil e casal R$ 500 a R$ 1,8 mil.

em média, e casal R$ 3,8 mil, em média.

Espuma sintética. A dica é não comprar um colchão totalmente viscoelástico. O ideal é que ele tenha, no máximo, entre 50% a 70% deste material. u Vantagens: grande maciez e

sensação de conforto; capacidade de deformar e retornar ao formato original;

benefícios para a saúde. É como deitar sobre uma porta. Isto porque força a musculatura e as articulações, pois o colchão não acompanha a flexibilidade da coluna e os movimentos do corpo. É muito prejudicial para pessoas que sofrem com artrose, pois intensifica as dores devido à pressão nas articulações. u Colchão muito macio: pode

até ser confortável, mas é péssimo para a saúde. Não oferece resistência aos movimentos – o corpo afunda e isso provoca dores, pois os músculos ficam tensionados na tentativa de manter a curvatura da coluna.

u Desvantagens: é o colchão

que mais recebe críticas dos usuários em relação a dores no corpo; a maciez excessiva exige que a pessoa faça mais força para mudar de posição durante o sono, o que a leva a despertar mais durante a noite; a possibilidade de mobilidade é menor; não oferece resistência à pressão. u Preço*: solteiro R$ 700 a R$ 1

mil e casal R$ 1 mil a R$ 1,5 mil (colchão com molas e viscoelástico).

Fontes: Xavier Soller, vice-presidente da regional paranaense da SBO e chefe do grupo de coluna do HC e do Hospital do Trabalhador; Auristela Moser, coordenadora da escola da coluna do curso de Fisioterapia da PUCPR, e Michel Pereira Silva, diretor da Maxflex, fábrica de colchões paranaense. *Os preços apresentam grande variação, pois existem diversas linhas de colchões. Os valores foram levantados com a Maxflex e também com a Sleep Home, de Curitiba.

As fotos foram produzidas na Maxflex, loja da fábrica, em Curitiba.


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Vírus e bactérias a bordo do navio Doenças gastrointestinais e respiratórias são as mais comuns em viagens de cruzeiros. O passageiro que for embarcar deve se prevenir

Dicas Veja como se prevenir: u Confira se o seu calendário de

vacinas está em dia e não esqueça das exigências do destino e possíveis surtos locais. u Redobre os cuidados diários com a

higiene, como lavar as mãos com água e sabão, utilizar álcool gel e não passar a mão nos olhos. Esses hábitos ajudam a prevenir a contaminação. u Tome cuidado com alimentos e

bebidas, tanto no navio, quanto no desembarque em portos. Tente evitar comprar e consumir alimentos e bebidas vendidos por ambulantes, pois não se sabe como foi o manuseio deles. Prefira a água mineral engarrafada e evite alimentos crus. u Caso você tenha algum sintoma,

comunique o serviço médico da embarcação. Lá, eles podem avaliar se existe uma situação de risco para o passageiro ou uma possibilidade de surto. Fonte: Flávia Bravo, médica do Centro Brasileiro de Medicina do Viajante (CBMEVi).

Mariana Scoz

F

azer um cruzeiro em família ou com amigos parece somente diversão. Casos de surtos ou de pessoas doentes durante as viagens, porém, têm assustado aqueles que pretendem embarcar. O último deles aconteceu neste ano, com a morte da tripulante do navio MSC Armonia Fabiana dos Santos, de 30 anos, que chegou a ser internada com sintomas de Inf luenza B. Segundo especialistas, o fato de o navio ser um ambiente confinado e com muitas pessoas acaba facilitando surtos. Portanto, quem está pensando em fazer uma viagem dessas deve se prevenir. As doenças gastrointestinais e respiratórias são as mais comuns tanto em tripulantes, quanto em passageiros. O infectologista do Hospital Evangélico Sérgio Penteado afirma que, como a exposição das pessoas é grande, os surtos são mais prováveis, mas ele defende que a atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem contribuído para minimizar o problema. “Aqui você tem navios de quarentena até que se possa definir qual é o tipo de vírus e bactéria. Tem funcionado bem, quando há denúncia.” Sobre a morte da tripulante Fabiana, a médica Flávia Bravo, do Centro Brasileiro de Medicina do Viajante (CMBEVi), afirma que casos de Inf luenza B acontecem todo ano. “Não é frequente, mas pode acontecer de evoluir dessa maneira e ser devastador. A prevenção pode ser feita com a vacina”, diz. Flavia diz que uma das razões para o contágio ser tão fácil é que a gripe infecta superfícies e não é preciso contato íntimo com o doente para ser transmitida. Já no caso das doenças gastrointestinais, o infectologista e especialista em medicina do viajante Jaime Rocha, da Frischmann Aisengart, afirma que deve haver cuidados com a alimentação. “Em teoria, as empresas garantem a qualidade dos alimentos, mas o consumidor

Mauricio de Souza / Agência Estado

Cuidados

Navio MSC Armonia enfrentou surto de gripe B este ano: a tripulante Fabiana dos Santos, 30 anos, morreu.

Casos Relembre alguns dos surtos ocorridos em navios nos últimos anos: u Fevereiro de 2012: No dia 17, a

tripulante do navio MSC Armonia Fabiana dos Santos, 30 anos, morreu em um hospital de Santos, após desembarcar com sintomas de gripe B. Ao menos oito outros tripulantes e três passageiros foram internados com sintomas semelhantes. u Novembro de 2011: Um

surto de gastroenterite no transatlântico Veendam, da Holland America, atingiu 79 passageiros e sete tripulantes. u Março de 2010: O navio Vision of

the Seas, da Royal Caribbean International, notificou 310 casos de passageiros com sintomas de gastroenterite.

deve estar atento. Especialmente em relação à refrigeração.” O maior vilão das viagens de cruzeiros, segundo os especialistas, é o norovírus. “Ele tem um período de incubação curto e a doença pode ser transmitida antes mesmo dos sintomas aparecerem”, explica Flávia, que também é autora e coordenadora do Guia de Saúde para Viagens em Navios do CMBEVi. A infectologista do Hospital Vita Batel Marta Fragoso lembra que outras doenças também podem acometer os passageiros. “Eventualmente a meningite e a varicela podem acontecer se houver algum portador da doença. O risco é grande por conta do ambiente confinado”.

Depoimento Carla (nome fictício), 26 anos, turismóloga.

“Tive duas passagens por navios como tripulante. A primeira foi de nove meses em um cruzeiro pela Europa e a segunda foi de um mês com passagens pelo Brasil e Argentina. Na questão de higiene, vi muitas coisas. Quando os camareiros limpam o banheiro, não têm um pano para cada cabine. Então, usamos a toalha utilizada pelo passageiro. E essa toalha que limpa o banheiro, limpa também o copo do passageiro que fica na

cabine, lavado com água quente. Vi vários camareiros que faziam questão de limpar o copo por último. Também já vi camareiro passar a escova de dente do hóspede na patente, porque a pessoa reclamava demais ou pedia coisas demais. Não trabalhei no restaurante, mas também ouvia histórias assim de lá. Se a bandeja de queijos caísse no chão, o pessoal só dava uma soprada no alimento e colocava de volta para consumo.”

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Guia

Procedimento salva vida em caso de engasgo

Guia da Gazeta do

Povo ensina como

aplicar a clássica

Manobra de Heimlich,

que ajuda a expulsar

o alimento Dâmaris Thomazini

U

m pequeno osso de ave, uma carne mal mastigada, a semente de uma fruta, um amendoim ou até mesmo um grão de arroz podem desencadear um engasgo. A situação bastante desconfortável ocorre quando o alimento, em vez de passar pela faringe e esôfago até o estômago, segue pelo “caminho errado”.“A obstrução pode ser total e a pessoa não fala, nem tosse: só consegue colocar as mãos no pescoço. Nesses casos, é preciso agir rápido e fazer uma manobra clássica chamada Manobra de Heimlich para expulsar o conteúdo”, alerta o professor de cardiologia e urgências da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e coordenador do Centro de Treinamento em Suporte Básico e Avançado de Vida, José Knopfholz. “Na maioria das vezes, o engasgo acontece com objetos e alimentos pequenos. Por alguma falha, a epiglote não sela as vias respiratórias no momento da deglutição e o conteúdo atinge a laringe e a traqueia”, explica o otorrinolaringologista coordenador do serviço de emergência do Instituto Parana­ ense de Otorrinolaringologia (IPO), Luciano Campelo Prestes. De acordo com os médicos, o engasgo pode ocorrer mesmo com líquidos ou com a própria saliva, mas, nestes casos, não causa tantas complicações, já que a pessoa elimina o conteúdo tossindo. Já com materiais mais sólidos, que bloqueiam a passagem de ar, a angústia é certa. Nessas horas, é preciso agir rápido para que a situação não seja agravada por um quadro de asfixia. Saiba como fazer a Manobra de Heimlich no guia ao lado.

GAZETA DO POVO

Caderno de Saúde Março 2012  

Suplemento do Jornal Gazeta do Povo

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