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literatura, HQ, design, humor, arte

fev_2018


e

lá se vão dois meses sem publicar. Enrolação mesmo, mas também por causa de outros projetos que estão brigando por minhas prioridades, tipo um romance a ser escrito (que demanda uma boa dose de paciência e algum transtorno psicológico) e outras coisas. Por isso acho que saiu uma grande salada que mistura Millôr Fernandes, Hilda Hilst, Charles Bukowski e Robert Crumb, juntos a umas tirinhas mais leves para dar um respiro. Assim, o que há de cada um: dois contos de Millôr Fer­ nandes, que deixou um vácuo de inteligência no Brasil com sua morte recente. Dois poemas de Bukowski, escolhidos aleatoriamente de blogs dedicados a ele, porém, não muito conhecidos. Um conto de Hilda Hilst, de sua fase mais saca­ na, no sentido erótico/pornográfico do termo, escrito em um período em que, cansada de esperar por reconhecimento popular, embarcou num caminho deliciosamente permeado por sexualidade explícita. Três fragmentos da graphic novel Kafka, feita pelo quadrinista Robert Crumb, ilustrando escri­ tos de Kafka, um trecho de uma de suas obras mais famosas, O Processo, e de seu conto Um artista da fome. Há, também duas tirinhas que baixei não sei de onde, mas que curti e decidi publicar, além de um texto que circulou muito pela internet há uns anos atrás, sobre palavrões. Acho que a história de paulinhagata já está se aproxi­ mando do seu final. Vamos acompanhar.


Contos

Millôr Fernandes

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Eros uma vez O que tivesse de ser, somente sendo Hilda Hilst

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Contos d´escárnio/Textos grotescos Charge

Ricardo Coimbra

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Escolinha construtivista Anônimo

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Houston, temos um problema Poesia

Charles Bukowski

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Uma abelha Garotas voltando para casa Crônica

Anônimo

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Palavrões HQ

Robert Crumb

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Kafka Relato

Saci Pererê

Paulinhagata (Parte 7)

Email tr3sdoi2@gmail.com Facebook www.facebook.com/groups/tr3sdoi2/ Editor Alfredo Albuqerque Capa e contracapa Alfredo Albuqerque

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CONTOS

MILLÔR FERNANDES

Eros uma vez

U

m dia, Aphrodite, posteriormente fonetizada para Afrodite (e traduzida para Vênus), não agüentou mais. Chamou o filhinho, Eros, conhecido também como Cupido, e disse: - Pombas, qualé? Que é que adianta ser Deusa e linda, se toda hora tenho que entrar em concurso pra ver se ainda sou a maior? Agora é essa tal de Psychê! Vai lá e dá uma flechada nela, meu filho. Cupido ainda tentou sair pela tangente: - Por que, mamãe? Chama o Papai, que é o Deus da guerra. Mas a mãe, venérea como era, apenas mandou que ele xarape a boca e obedecesse. Eros, assim que avistou Psychê, caquerou-lhe uma fle­ cha nos cornos, mas era tão ruim de pontaria que a flecha acertou-o no próprio coração. Desesperado de amor autoinfligido, Eros mesmo assim esperou a noite ficar bem negra pra possuir Psychê sem ser visto pela mãe, pelo público e – pasmem! – até pela própria atriz convidada, que, contudo, diante da performance dele, exclamou, gratificada: - Rapaz, sinceramente, nunca vi nada mais erótico! Porém, as irmãs de Psychê, chamadas Curiosidade, Perfí­ dia e Prospecção, começaram logo a envenenar as relações 3


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da irmã com aquele desconhecido, afirmando que devia se tratar pelo menos do Corcunda de Notre-Dame ou do Ho­ mem Elefante na versão original. Curiosidade dizia: - Se ele não se assume, é porque tem medo das grandes claridades. Vai ver, ele é o Eros-Close. Perfídia ajuntava: - Uma noite, manda Celacanto em teu lugar. Evita mare­ moto. E Prospecção concluía: - Mata ele. Um pouquinho só. Se é Deus como diz, depois ressusita em forma de butique. Psychê não resistiu às más influências, e uma noite en­ trou na câmara escura em que Cupido dormia, levando uma lamparina numa mão e uma adaga na outra: “Vou lhe fa­ zer um teste sexual pré-olímpico e depois enfio esta adaga em seus boIEROS.” Porém, quando a luz bateu em Cupido, e Psychê viu aquele gatão, ficou tão excitada, que... Nesse momento, porém, uma gota de óleo da lamparina caiu no ouvido de Eros, que acordou assustado, saltou de lado e desa­ pareceu para sempre. Durante dez anos, Psychê procurou em vão o seu amor. Afinal, subiu ao Olimpo pela escadinha dos fundos e implo­ rou a Aphrodite: - Minha querida sogra, por favor, me dá de volta Cupido, que perdi por ser muito cúpida. Ao que Aphrodite respondeu: - Está bem, vou te dar três tarefas. Se cumprir as três, eu te devolvo meu filho. 1ª tarefa) Enfiar o dedo no nariz de outra 5


pessoa com o mesmo prazer com que enfia no seu. 2ª) Trans­ formar 85 torturadores da polícia em outros tantos perfeitos democratas. 3ª) Descer aos infernos e me trazer a caixa preta (também conhecida como Boceta) de Pandora. Psychê desprezou as duas primeiras propostas, pegou o primeiro buraco de tatu pro inferno e trouxe consigo a tal coisa de Pandora. Mas, no caminho pro Olimpo, não resistiu e resolveu olhar o que tinha na caixa. Imediantamente, de dentro da caixa fugiram todos os males do mundo – a inveja, a preguiça, o colégio eleitoral e o jornalismo brasileiro -, e Psychê desmaiou. Eros se materializou no mesmo momento, mais apaixonado do que nunca, e, olhando na caixa, viu que nem tudo estava perdido. Bem no fundo, escondidinha, lá es­ tava a esperança. Por isso ele se casou com Psychê e tiveram três filhas – Volúpia, Titila e Tara – e três filhos – Aconchego, Deleite e Orgasmo. Moral: A psychêatria não resiste à cupidez.

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O que tivesse de ser, somente sendo Estilo antifigúrico (à maneira de Guimarães Rosa)

N

o contravisto do caminho, Capuchinho Purpúreo ia à frente, a com légua de andada, no desmedo da floresta. O bornoz estornava demasias de gula, car­ nalidades, guleimas, bebeiras e pitanças pra boca de pessoa, a vó, sem nem aviso antes. Sente o muito bicho retardar, pon­ derado. Hora de poder água beber, esses escondidos. Por ali sucuri geme. O céu embola no brilho de estrelas, cabeça de Chapeuzinho vai que esbarra nelas. É um escurão que peia e pega. Dali vindo, um senhor Lobo, na frente da boca todos os demais dentes de caso quisesse. - Se é, sê, linda menina, que parece dispor de muita virtu­ de na pressa desse aonde. - Nada, nada vezes - disse, e pensou Capuchinho, deve ser o Incapacitado, no irreconhecível do demônio. E nem indagou nonada, mas Lobo no após, santificado de maldade, ensoou que só estava na busca do significante de sua indagação. Consoante falou soez, amiudado, com propó­ sito de voz. Capuchinho arrenegou e, suspendida no fôlego, atravessou o Pardo e o Acari, pela Vereda do Alegre, no céle­ re do pressentido. O lobo, coração quejando nas esquerdas 7


foi pelo Piratinga, que é fundo, mas subindo beira desse, se passava. Chegou em inhantes, não muitos, com tempo de as­ sinalar à vó outros caminhos, só você entende, com padre Quelemém, e se botou, assim deitado coberto, na espera que o que viesse vinha - o que não é de Deus, é estado do Demô­ nio. Capuchinho foi chegando, mostrou papanças e pitanças, salivas de goelas, bocas e queixadas, e daí deu-se ver na vó sinais discordes. - A ser, avó querida, no desarranjo da forma, sem falar feieza, suas orelhas desmandam. O velho lobo, no entendido da hora disse que na velhice os sons se vão-se e a orelha sai em busca, o nariz dá no mes­ mo de comprido tentando tragar cheiro esfugido. E que os dentes vão crescendo pro Vups, que ele deu logo na garganta da carótida salutar da carne doce doçura. E pois, pelos entre­ tantos, dito Zé Bebelo, provedor da estúrdia forca de enforcar no morrote de São Simão do Bá, se apareceu, ele mesmo em sua pessoa, de laço e baraço devido restante enforcamento. Capuchinho, agora pois, no choro. Nem todo mundo carece, mas tem os que. No mais, nada. O que termina acaba. Viver é muito perigoso, compadre meu Quelemém.

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CHARGE

RICARDO COIMBRA

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POESIA

CHARLES BUKOWSKI

uma abelha suponho que como qualquer garoto tive um melhor amigo na vizinhança. o nome dele era Eugene e era muito maior do que eu e um ano mais velho. Eugene costumava me encher de porrada. estávamos sempre brigando. eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito sucesso. uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem para provar que éramos valentes. torci meu tornozelo e ele saiu ileso como manteiga recém-tirada do papel. acho que a única coisa boa que ele fez por mim foi quando uma abelha me picou o pé descalço e assim que me sentei para tirar o ferrão ele disse, “vou pegar a filha-da-puta!” e foi o que ele fez com uma raquete de tênis mais um martelo de borracha.

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estava tudo bem, dizem que de qualquer modo elas morrem. meu pé inchou e dobrou de tamanho e eu fiquei de cama rezando para morrer e Eugene seguiu em frente e se tornou um almirante ou comandante de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos e conseguiu passar por uma ou duas guerras sem se ferir. imagino-o envelhecido agora numa cadeira de balanço com seus dentes postiços bebendo seu leitinho enquanto eu bêbado masturbo esta tiete de 19 anos que divide a cama comigo. mas o pior é que (assim como naquele salto do telhado da garagem) Eugene segue vencendo porque ele nem sequer está pensando em mim.

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garotas voltando para casa as garotas voltam para casa em seus carros e eu me sento à janela e assisto. há uma garota num vestido vermelho dirigindo um carro branco há uma garota num vestido azul dirigindo um carro azul há uma garota num vestido rosa dirigindo um carro vermelho. quando a garota no vestido vermelho desce do carro branco eu olho para suas pernas quando a garota no vestido azul desce do carro azul eu olho para suas pernas quando a garota do vestido rosa desce do carro vermelho eu olho para suas pernas. a garota no vestido vermelho que desceu do carro branco tinha as melhores pernas a garota no vestido rosa que desceu do carro vermelho tinha pernas razoáveis

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mas sigo lembrando da garota no vestido azul que desceu do carro azul vi sua calcinha vocĂŞ nĂŁo sabe o quĂŁo excitante a vida pode ser por volta das 5h35 da tarde.

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CHARGE

ANÔNIMO

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CONTO

HILDA HILST

Trecho de

Contos d’escárnio Textos grotescos

O

que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas, intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres, mas como adoram o dinheiro as cadelonas! Uma de­ las, trintona, Flora, advogada que tinha um rabo brancão e a pele lisa igual à baga de jaca, citava Lucrécio enquanto me afagava os culhões e encostava nas bochechas translúcidas a minha caceta: ó Crasso (até aí o texto é dela) e depois Lucré­ cio: “o homem que vê claro lança de si os negócios e procura antes de tudo compreender a natureza das coisas”. A natureza da própria pomba ela compreendia muito bem. Queria umas três vezes por noite o meu pau rombudo lá dentro. E antes desse meu esforço queria também a minha pobre língua se adentrando frenética naquela caverna vermelhona e úmida. Empapava os lençóis. Era preciso enxugá-la com uma bela to­ alha felpuda antes de meter na dita cuja. Na hora do gozo ria. 17


- isso não é normal Flora. - bobinho! Isso é vida, alegria, o amor é alegre, Crassinho. Histérica e sabichona dava gritinhos e rápidos aulidos, e quando tudo acabava, sentava-se sóbria na beirada da cama: as causas judiciais demoram tanto para serem solucionadas, meu Crasso, tem algum numerário aí para mim? assim que receber dos meus clientes te pago. O seu único cliente era eu e claro que eu pagava. Afinal não me fazia mal ouvir Lucrécio de vez em quando, se a atriz discursante era dona daquela pomba molhada e faminta. Claro que nem todas as soi-disant cultas são assim tão chatas. Tive as cultas refinadas e origi­ nais também. Mas que mão de obra, meu pai! Uma delas é inesquecível. Josete. Inesquecível por vários motivos. Mas principalmente pelo gosto exótico na comida e no sexo. Ela adorava tordos com aspargos. E pastelões de ostras. Era preci­ so que eu telefonasse uma semana antes para os maîtres dos tais restaurantes. Tordo?! Nunca sabiam se era um pássaro ou um peixe. Eu imagino hoje que ela sempre acabava comendo um sabiá. Com aspargos. O pastelão de ostras era mais fácil. Mas os vinhos para acompanhar aquilo tudo! Josete enten­ dia de vinhos como se tivesse nascido embaixo duma parrei­ ra de Avignon. Depois desse inferno todo, ainda tínhamos que dançar, porque é delicioso dançar com você amor, se você tivesse mais tempo... tenho todo o tempo do mundo, querida (talvez tivesse, mas nem tanto!) Tinha mania de uma música: You’ve changed, e era aquela xaropada até às duas da manhã mais ou menos, quando eu já havia mergulhado meus dedos várias vezes 18


na sua suculenta xereca. Abria discreta e elegante as pernas nas boates, embaixo da mesa, enquanto engolia com avidez aqueles vinhos caríssimos. Sorrindo soltava um pífio arroto de tordos e ostras abafado entre os seus dois dedinhos, en­ quanto os meus (dedos naturalmente) beliscavam-lhe a cona. Muitas beliscadinhas, muito dedilhado até que ela gozava es­ condendo o gozo e simulando um segredo e enchendo de bafo, gemidos e saliva a concha do meu ouvido. Eu dizia com a caceta dura e espremida entre as calças: - vamos embora, hen bem? - tá tão gostoso, amor - eu sei, Josete, mas olha só o meu pau - não seja grosso, Crasso E aí eu tinha que começar tudo de novo, não sem primei­ ro ouvi-la pedir as sobremesas e os licores. Depois de Josete ter gozado umas dez vezes entre sabiás e mousses e álcoois dos mais finos que me custavam um caralhão de dinheiro, levantava-se garbosa, Espártaco antes da derrocada final, na­ turalmente. Eu ia atrás meio cego mas ainda sedento. Um tal de Ezra Pound, poeta norte-americano, era o xodó de Josete. Ô cara repelente. Um engodo. Invenção de letrados pedan­ tescos. No primeiro dia que ela citou o tal poeta eu lhe disse: meu tio Vlad quando eu era molequinho, tinha crises de lou­ cura quando ouvia esse aí falando numa rádio italiana. O cara era um bom fascistóide, você sabia? - bobagens, Crassinho, o homem foi um gênio. Para agradá-la, pedi que me emprestasse algum livro dele. Emprestou Do Caos à Ordem, cantar XV. Aquilo era uma 19


pústula, uma privada de estação em Cururu Mirim. Senão, vejam: “O eminente escabroso olho do cu cagando moscas, retumbando com imperialismo urinol último, estrumeira, charco de mijo sem cloaca... o preservativo cheio de baratas, tatuagens em volta do ânus e em círculo de damas jogadoras de golfe em roda dele.” Josete adorava. Os olhinhos cor de alcaçuz, úmidos, tre­ melicavam. A boca repetia lentamente (em inglês, lógico) esses últimos dois versos do tal gênio: “tattoo marks around the anus, and a circle of lady golfers about him”. Eu achava um lixo, mas não queria me desentender com toda aquela boceta-chupeta que literalmente, quando ativada, abraçava e quase engolia o meu pau. - tudo bem, Josete, se você gosta... de gustibus et coloribus etc. - pois gosto tanto, amor, que vou te mostrar a que ponto vai minha reverência por esse autor admirável Abatido, já me imaginei desperdiçando aquelas horas a folhear idiotias, ainda mais em inglês. Estávamos no apar­ tamento de Josete. Pensei: é agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E adeus mes­ mo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas! Josete deitou-se de bruços e ordenou lacônica: - pegue aquela grande lupa lá na minha mesinha. - lupa? - -upa, sim, Crassinho. Então peguei. 20


- faz um favor, benzinho, abra o meu cu. - como? - oh, Crassinho, como você está ralenti esta noite - e o que eu faço com a lupa? - a lupa é pra você olhar ao redor dele. - ao redor do seu cu, Josete? - evidente, Crassinho. Foi espantoso. Ao redor do buraco de Josete, tatuadas com infinito esmero e extrema competência estavam três da­ mas com seus lindos vestidos de babados. Uma delas tinha na cabeça um fino chapéu de florzinhas e rendas. - não acredito no que estou vendo, Josete, você tatuou à volta do seu cu pra quê? - homenagem a Pound, Crassinho - mas isso deve ter doído um bocado! - the courageous violent slashing themselves with knifes (que quer dizer: os violentos corajosos cortando-se com fa­ cas. Continuação do Canto XV). - coma meu cuzinho, coma meu bem, andiamo, andiamo (cacoetes de Pound) Aí achei o cúmulo. “Jamais, meu amor, machucaria essas lindas damas”. Josete começou a chorar. - ó Crasso, você é o primeiro homem a quem eu mostro esse mimo, essa delicadeza, essa terna homenagem ao meu poeta, andiamo, andiamo in the great scabrous arse-hole (no grande escabroso olho do cu) Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e 21


estraçalhei-lhe o rabo com inglesas ou americanas (who knows?) e babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir algumas pala­ vras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, entonação inglesa) Aou Ezra, aou my beloved Ezra! Nunca entendi por que Josete quando citava Pound colocava a entonação inglesa. Também nunca perguntei. Certamente o nojento era o Shakespeare dela (...)

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CRÔNICA

ANÔNIMO

Palavrões

O

s palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nos­ so vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. “Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “Pra caralho”? “Pra cara­ lho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra cara­ lho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende? No gênero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!”. O “Não, não e não!” e tampouco o nada eficaz e já sem nenhu­ ma credibilidade “Não, absolutamente não!” o substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O imperti­ 23


nente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio. Por sua vez, o “porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que pos­ samos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozi­ nho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês po­ dem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “pre­ pone” - presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sono­ ridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-queo-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um “puta-que-o-pa­ riu!” dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurô­ nios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça. E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se diri­ 24


ge ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no olho do seu cu!”. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios. E seria tremendamente injusto não registrar aqui a ex­ pressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Fodeu de vez!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arra­ sadora para uma situação que atingiu o grau máximo imagi­ nável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do car­ ro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? “Fodeu de vez!”. Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversa­ mente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!”? O “foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. “Não quer sair comigo? Então foda-se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”. O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se.

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HQ

CRUMB

Kafka

Trechos da graphic novel Kafka, por Robert Crumb

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RELATO

SACI PERERÊ

paulinhagata

(parte 7)

10 Jul 2010 egativaNegativaNegativaNegativaNegativaNegaN tivaNegativaNegativaNegativaNegativaNegativa Experiência Negativa Recebi um inesperado telefonema de Paulinha me convocando para um encontro no final da tarde de hoje. Em pouco mais de um mês o nosso contato intensificou-se bastante, mas infelizmente não posso nomear a parceria de vitoriosa, pois como diz uma grande amiga que mora nos EUA: “o Brasil é o lugar onde puta goza e traficante é viciado”. Seguindo essa linha de raciocínio, é fácil entender que o treinamento emocional que aqui recebem esses profissionais não estabelece uma linha divisória entre os dois distintos mundos em que militam. Ambas as atividades terminam lhes empurrando ladeira abaixo, pois é necessário abrir mão de raros valores para que seja possível o exercício da profissão que tem como única meta o dinheiro, a sobrevivência. 29


Comigo e com a Paulinha existiram momentos de total afinidade que terminaram nos tornando cúmplices, nos conscientizando de que novos horizontes sempre existirão. A nossa experiência revelou que quando há saúde, a diferença de 35 anos na idade pode ser até proveitosa, como tem sido o nosso caso, mas não se sabe até quando. Por conta disso a senhorita Paulinha, ao encontrar em mim um cara completamente descomprometido com tudo que é passageiro, passou a ter uma referência, mas não soube dosar e passou a me hostilizar. Nesse encontro ela ficou absolutamente indócil e iniciou uma bateria de agressões no plano emocional. Misturou sentimentos com desejo, se negando a prestar o serviço ao qual se propõe de forma produtiva e salutar. Chegou a inverter os papéis e afirmar que ela era minha cliente, e portanto teria o direito de exigir e determinar, tendo sido esse o argumento para não beijar na boca, não querer, não participar. Saímos sem que nada de agradável houvesse acontecido. Nas despedidas, ao contrário do dia do nosso primeiro encontro, ficou apenas acertado que ela não mais ligaria, já que há muito eu havia deixado a iniciativa das operações a critério dela.

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Cada macaco no seu galho! Espichei os 100 reais na mão dela e partimos, cada um na sua direção. Dei por finda a parceria e já comecei a me mobilizar no sentido de fidelizar uma nova fornecedora, já que ando embalado por esse instinto acasalador, objetivando garantir sexo com qualidade, em muita quantidade, e sem compromisso... Paulinha despencou em queda livre e desce em velocidade assustadora rumo ao nada. Ela tem o melhor da mulher e pior da puta. Para unir esses extremos contraditórios, edifica uma ponte de mentiras, descasos, engodos, transformando a relação num namoro remunerado, posando sempre de dona da situação e mandante do crime. Pelo menos comigo tem sido assim Vai aqui este NEGATIVAÇO pela bagunça mental e emocional na qual foi transformada a relação de prestação de serviços. (continua...)

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EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É UMA ABERRAÇÃO 32


tr3sdoi2 #07  

Sétima edição do fanzine tr3sdoi2, já caminhando para o final da primeira temporada

tr3sdoi2 #07  

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