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PAIXÃO INTENSA Princess In The Making

Michelle Celmer

A bela mãe solteira Vanessa Reynolds pode até achar que se tornará rainha, mas o príncipe Marcus Salvatora fará de tudo para impedir que ela se case com seu pai, o rei. Contudo, quando se aproxima da adorável americana e de sua linda filhinha, ele fica confuso. Vanessa não é uma aproveitadora. Na verdade, ela pode ser justamente o que falta em sua vida. O casamento real se aproxima, Marcus, porém, sabe que não será ele quem subirá ao altar. Disponibilização: Projeto Revisoras Revisão: Ale Ramos


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Querida leitora, O príncipe Marcus Salvatora está convencido que Vanessa Reynolds, sua futura madrasta, não passa de uma golpista antes mesmo de ser apresentado a ela. Mas quando se conhecem melhor, Marcus entende o motivo do encanto de seu pai, pois ele próprio se apaixona por Vanessa! Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books Tradução Angela Monteverde HARLEQUIN 2013 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: PRINCESS IN THE MAKING Copyright © 2012 by Michelle Celmer Originalmente publicado em 2012 por Harlequin Desire Projeto gráfico de capa: Nucleo i designers associados Arte-final de capa: Ô de Casa Editoração eletrônica: EDITORIARTE Impressão: RR DONNELLEY www.rrdonnelley.com.br Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: FC Comercial Distribuidora S.A. Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171,4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: mdireto@record.com.br

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CAPÍTULO UM

A COSTA do Varieo, lá do alto, com seu oceano azul e cristalino e praias de areias imaculadamente brancas parecia o paraíso. Aos 24 anos, Vanessa Reynolds já vivera em mais continentes e cidades do que a maioria das pessoas muito mais velhas que ela — história típica de uma filha de militar — contudo agora esperava que o minúsculo principado na costa do Mediterrâneo se tornasse seu lar definitivo. — É isso aí, Mia — murmurou para sua filhinha de 6 meses. Depois de passar a maior parte da viagem de 13 horas entre períodos de sono agitado e berreiros, a criança acabara por sucumbir ao cansaço e no momento dormia placidamente no assento para bebês. O avião desceu até a faixa de aterrissagem onde mãe e filha seriam recebidas por Gabriel... Parecia ridículo para Vanessa chamá-lo de namorado, levando em conta que tinha 56 anos, e ela não era sua noiva oficial. Ainda não. Quando Gabriel a pedira em casamento ela não dera uma resposta precisa, embora não tivesse recusado também. E para resolver a questão estava fazendo essa visita. Resolver se queria se casar com um homem não apenas muito sofisticado e 32 anos mais velho que ela, mas que também era rei. Olhou pela janela e, à medida que os prédios lá embaixo iam se tornando maiores, sentiu um aperto nervoso no estômago. Vanessa, no que você foi se meter dessa vez? Provavelmente seria o que seu pai diria se Vanessa tivesse a coragem de lhe contar a verdade sobre essa viagem. Ele lhe diria que estava cometendo mais um erro crasso. Tudo bem, talvez ela nunca tivesse tido muita sorte com os homens desde... bem, desde a puberdade, todavia dessa vez era diferente. A grande amiga Jessy também questionara sua decisão. — Gabriel parece perfeito agora — dissera, sentada na cama de Vanessa, vendoa fazer a mala —, mas e se ele se revelar um tremendo tirano? — Então voltarei para casa — replicara Vanessa. — E se ele a mantiver prisioneira? Se a forçar a casar contra sua vontade? Já ouvi histórias horríveis a esse respeito. Esses tiranos tratam as mulheres como lixo. — Isso acontece do outro lado do Mediterrâneo — explicara Vanessa. — Varieo fica na parte europeia. Jessy franzira a testa. — Pouco importa. Continuo não gostando da situação. Vanessa também sabia que estava se arriscando. No passado esse tipo de aventura sempre resultara em um tiro pela culatra, Gabriel, porém, era um cavalheiro da cabeça aos pés. Gostava dela de verdade. Lembrou-se de todas as traições pelas quais passara com os namorados. Entretanto, Gabriel jamais roubaria seu carro e a abandonaria em uma lanchonete no meio do deserto do Arizona. Não pediria um cartão de crédito no nome dela para depois se apossar do dinheiro e arruinar sua ficha na praça. Não fingiria estimá-la apenas para persuadi-la a escrever seu trabalho sobre a História Americana e depois trocá-la por uma jovem animadora de torcida.

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E, sem dúvida, Gabriel jamais a engravidaria para depois desaparecer e deixá-la sozinha criando um bebê. O jato particular foi sacudido por uma violenta turbulência, acordando Mia. A criança piscou diversas vezes, os lábios cor-de-rosa começaram a tremer, e então deixou escapar um berro de arrebentar tímpanos que aumentou a dor de cabeça de Vanessa. — Shhh, bebê, está tudo bem — sussurrou apertando a mãozinha gorducha de Mia. — Estamos quase chegando. O avião aterrissou e Vanessa sentiu o coração na boca. Estava nervosa, animada e aliviada ao mesmo tempo, além de sentir mais uma dúzia de emoções desconhecidas. Embora conversasse com Gabriel pela internet quase todos os dias desde que ele fora para Los Angeles, não se viam pessoalmente havia quase um mês. E se ele notasse seu conjunto amarfanhado, o delineador borrado e o cabelo emaranhado? Será que a mandaria imediatamente de volta para os Estados Unidos? Ridículo, tratou de se tranqüilizar enquanto o avião corria pela pista de aterrissagem até o pequeno terminal particular da família real. Vanessa não se iludia, e sabia que a primeira coisa que chamara a atenção de Gabriel no hotel de luxo em Los Angeles onde ela trabalhava fora sua aparência. A beleza, assim como sua vivência no exterior, lhe permitira conquistar, embora muito jovem, o importante cargo de coordenadora para os hóspedes internacionais. Ela e Gabriel tornaram-se grandes amigos logo de início. Confidentes. Gabriel confessara que a amava, e Vanessa tinha certeza de que era um homem de palavra. Havia apenas um pequeno problema. Embora o respeitasse muito e o estimasse como amigo, não podia afirmar que o amava... e Gabriel estava plenamente ciente disso. Daí o convite para uma visita longa a Varieo. Ele tinha convicção de que nesse período... seis semanas para ser exato, já que fora o máximo de licença concedida pelo hotel... Vanessa aprenderia a amá-lo. Gabriel estava certo de que teriam uma longa vida juntos. E casamento era uma coisa muito séria para ele. Seu primeiro matrimônio durara três décadas, e Gabriel sempre dizia que duraria mais três se o câncer não tivesse levado sua esposa oito meses antes. Mia tornou a berrar, as lágrimas escorrendo pelas bochechas redondas e rosadas. Assim que o avião parou, Vanessa pegou o celular e enviou uma breve mensagem à Jessy, dessa forma quando a amiga acordasse saberia que chegaram sãs e salvas. Depois desafivelou o cinto do luxuoso bebê conforto que Gabriel providenciara para Mia e ergueu a menina nos braços. Apertou a criança com força, inalando o perfume delicado de sua pele. — Chegamos, Mia. Nossa nova vida começa agora. Segundo seu pai, Vanessa se tornara uma especialista em tomar decisões erradas na vida, agora, porém era diferente. Ela estava diferente, e agradecia a Mia por isso. Passar sozinha oito meses de gravidez fora difícil, e a ideia de uma criança indefesa dependendo inteiramente dela a amedrontava. Houvera momentos em que duvidara se seria capaz e se estava preparada para tal responsabilidade, mas, no instante em que pousara os olhos em Mia, quando o médico colocara a menina em seus braços, após um trabalho de parto de 26 horas, Vanessa a adorara. E agora tomar conta e dar felicidade à filha era sua maior prioridade. O que mais desejava era proporcionar um bom lar para Mia com um pai e uma mãe. Casar-se com Gabriel garantiria à menina privilégios e oportunidades com as quais Vanessa jamais sonhara. Isso não fazia valer a pena um casamento com um homem que... bem, não a deixava exatamente vibrando de emoção? Afinal, respeito e amizade não eram mais importantes? Tornou a olhar pela janela no momento em que uma limusine surgia e parava a poucos metros do avião.

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Era Gabriel, pensou Vanessa com um misto de alívio e animação. Viera recebê-la como prometera. A aeromoça surgiu ao seu lado, apontando para a parafernália de artigos de bebê e para a bolsa aos pés de Vanessa. — Sra. Reynolds, posso ajudá-la? — Seria ótimo — respondeu Vanessa erguendo a voz acima do berreiro da filha. Passou a bolsa pelo ombro enquanto a aeromoça pegava o resto das coisas, e, quando se levantou do assento pela primeira vez em muitas horas, suas pernas estavam duras como ferro. Não era sedentária, seu trabalho no hotel a fazia circular de um lado para o outro por oito a dez horas por dia, e Mia a ocupava durante o pouco tempo que passavam juntas. Vanessa tinha de trocar fraldas, preparar as mamadeiras, fazer o supermercado e lavar a roupa. Quando podia dormia cinco horas à noite. Quando não, quase não dormia. Quando conhecera Gabriel não tinha vida social desde o nascimento de Mia. Na verdade, muitos homens no hotel a convidavam... a maioria hóspedes... porém Vanessa não gostava de misturar negócios com prazer ou dar a falsa impressão de que seus deveres de hospitalidade se estendiam até o quarto. Entretanto, quando um rei convidava uma garota para um drinque, em especial um rei tão bonito e charmoso quanto Gabriel, era difícil dizer não. E ali estava ela, alguns meses mais tarde, recomeçando a vida. Talvez. O piloto abriu a porta do avião deixando entrar uma golfada de ar quente de julho que trazia consigo o odor pungente do oceano. Fez um gesto de simpatia ao ouvir o choro de Mia. Vanessa se deteve e voltou os olhos para o assento que ocupara. — Oh, vou precisar do bebê conforto para minha filha. — Deixe que cuido disso, senhora — garantiu o piloto com um forte sotaque. Vanessa agradeceu e desceu a escadinha, tão feliz por voltar a pisar em terra firme que tinha vontade de se ajoelhar e beijar o chão. O sol do fim da manhã a queimava enquanto a aeromoça a conduzia para a limusine. Quando se aproximaram mais, o motorista desceu e deu a volta para abrir a porta de trás. Ele puxou a maçaneta e o coração de Vanessa começou a pular em seu peito. A primeira coisa que viu no interior do veículo foi um par de sapatos caríssimos... italianos, provavelmente... e quando o dono desses sapatos por sua vez também desceu, ela prendeu a respiração... desapontada. Esse homem possuía o mesmo físico longilíneo e as mesmas feições bem delineadas e olhos expressivos de Gabriel, mas não era Gabriel. E mesmo que não tivesse pesquisado longas horas na internet sobre a história do país, saberia instintivamente que a figura atraente que se encaminhava em sua direção era o príncipe Marcus Salvatora, o filho de Gabriel. Era idêntico às fotos que Vanessa vira... muito moreno e sério demais para um homem de apenas 28 anos. Trajando calça cinza e camisa de seda branca que acentuava a cor de sua pele e o cabelo negro, ondulado, mais parecia um modelo de capa de revista do que um futuro líder de governo. Vanessa relanceou um olhar para o interior da limusine na esperança de ver mais alguém lá, no entanto não havia ninguém. Gabriel prometera recebê-la, porém não cumprira a promessa. Lágrimas de cansaço e frustração ameaçaram rolar pelas suas faces. Ela precisava de Gabriel. Só ele a fazia se sentir serena e bem. E podia imaginar perfeitamente o que o filho pensava dela. Jamais demonstre fraqueza. Fora isso que seu pai martelara em sua cabeça desde a tenra idade. Então respirou fundo, ergueu os ombros e cumprimentou o príncipe com um sorriso confiante, inclinando a cabeça como mandava a tradição de seu país.

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— Srta. Reynolds — pronunciou ele estendendo a mão. Vanessa ajeitou Mia no outro braço, a menina parara de berrar e agora choramingava baixinho. — Vossa Alteza, é um prazer conhecê-lo. Ouvi tanto a seu respeito. Muitos homens costumavam dar um aperto de mão frouxo em uma mulher, porém Marcus apertou com força e confiança, os dedos secos apesar do calor que fazia, os olhos escuros presos em Vanessa. O cumprimento e o olhar duraram tanto tempo que ela começou a pensar se Marcus desejava fazer uma queda de braço ou desafiá-la para um duelo. Resistiu ao impulso de retirar a mão enquanto gotas de suor escorriam pelas suas costas. Quando por fim ele a largou, continuou a sentir nos dedos uma estranha sensação de eletricidade. Refletiu que devia ser o calor. Como o príncipe podia aparentar ter saído do banho nesse minuto enquanto ela devia estar com uma aparência horrível? — Meu pai envia suas desculpas — disse ele em um inglês perfeito com um leve sotaque e a voz parecida com a de Gabriel. — Precisou viajar inesperadamente. Questões de família. Viajar? Para fora do país? O coração de Vanessa ficou apertado. — Informou quando voltará? — inquiriu murmurando. — Não, mas entrará em contato. Como Gabriel podia deixá-la se arranjar sozinha em um palácio cheio de pessoas estanhas? Vanessa sentiu um nó na garganta e seus olhos arderam. Não vá chorar, comandou para si mesma, mordendo o interior da bochecha para deter o fluxo de lágrimas que ameaçava cair. Caso tivesse um estoque de fraldas e mamadeiras suficiente para regressar aos Estados Unidos, ficaria tentada a voltar ao avião no mesmo instante. Mia choramingou e Marcus arqueou as sobrancelhas. — Minha filha Mia — apresentou Vanessa. Ouvindo o próprio nome, a menina ergueu a cabeça do ombro da mãe e se voltou para olhar para Marcus, os olhos azuis arregalados de curiosidade, o cabelo louro grudado nas faces molhadas de lágrimas. Em geral, era arisca com estranhos, então Vanessa se preparou para ouvir outro berreiro, porém, para seu espanto, a criança exibiu seu sorriso de dois dentes que podia derreter o mais duro dos corações. Talvez fosse pela semelhança do príncipe com Gabriel, a quem Mia adorava, refletiu Vanessa. Por sua vez, Marcus não conseguiu resistir e sorriu também... exibindo covinhas no rosto moreno... e Vanessa estremeceu. Isso a fez se sentir culpada. Que tipo de mulher depravada sentia atração pelo filho de seu possível futuro marido? Devia estar mais cansada e estressada do que imaginara, pois não estava raciocinando com clareza. Marcus retornou a atenção para ela e parou de sorrir. Apontou para a limusine onde o motorista ajeitava o bebê conforto de Mia. — Vamos? Vanessa concordou com um gesto de cabeça, dizendo a si mesma que tudo ficaria bem. Mas ao deslizar para o interior refrigerado do carro não pôde deixar de pensar se estava cometendo um erro outra vez. ELA ERA pior do que Marcus imaginara. Sentado em frente à Vanessa na limusine, analisou sua nova rival, a mulher que em poucas semanas conseguira enfeitiçar seu pesaroso pai e apenas oito meses após a morte da rainha, sua mãe. De início, quando seu pai lhe dera a notícia, Marcus pensara que perdera o juízo. Não apenas por ter se apaixonado por uma americana, mas alguém tão jovem que mal conhecia. Entretanto, agora, vendo-a cara a cara, não havia dúvidas a respeito do motivo para o rei se apaixonar. O cabelo sedoso louro cor de mel eram naturais e

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nenhuma tintura poderia lhe dar tal brilho e tom. Vanessa tinha um corpo escultural e um rosto que inspiraria Da Vinci ou Ticiano. Quando descera do avião com um ar cansado e zonzo carregando um bebê aos berros, ele esperara que fosse uma dessas louras bonitas e idiotas de algum show de Hollywood, no entanto então seus olhos haviam se encontrado e ele notara o brilho inteligente por trás da íris acinzentada. Um brilho inteligente e um pouco desesperado também. Embora odiasse a sensação, ao vê-la tão cansada e despenteada Marcus, sentira pena. Entretanto isso não mudava o fato de Vanessa ser sua inimiga. Mia tornou a choramingar e depois soltou um berro tão agudo que Marcus fez uma careta. — Tudo bem, querida — sussurrou a Srta. Reynolds, segurando o punho fechado da criança. E depois o fitou. — Desculpe. Em geral ela é muito meiga. Marcus sempre gostara de crianças, embora preferisse vê-las sorrindo. Um dia teria seus próprios filhos. Como único herdeiro ao trono era sua responsabilidade continuar com a estirpe dos Salvatora. Contudo isso poderia mudar, lembrou. Com uma linda e jovem esposa seu pai poderia produzir novo herdeiro. A ideia de Gabriel fazendo filhos com uma mulher como essa o fez sentir cãibras no estômago. A Srta. Reynolds abriu uma das sacolas que trazia e retirou uma mamadeira com algo que parecia suco, dando para a filha. A criança sugou por alguns instantes e depois, inesperadamente, atirou no chão a mamadeira que atingiu o sapato do príncipe. — Desculpe — balbuciou a Srta. Reynolds enquanto a menina voltava a berrar. Marcus observou que a mãe também parecia prestes a se desmanchar em lágrimas. Então ele ergueu a mamadeira e lhe entregou. Dessa vez ela procurou um brinquedo na sacola e tentou distrair Mia, mas após alguns segundos isso também voou pelos ares atingindo a perna de Marcus. Vanessa tentou outro brinquedo com o mesmo resultado. — Desculpe — repetiu desanimada. Ele recolheu os dois brinquedos e entregou a ela. Ficaram vários minutos em um silêncio constrangedor, até que Vanessa mencionou de improviso: — É sempre assim tão conversador? Ele nada tinha a lhe dizer. Além disso, teria de berrar para se fazer ouvir acima dos gritos da menina. Então, quando não respondeu, Vanessa prosseguiu de maneira nervosa: — Não pode imaginar como desejava vir para cá. E conhecê-lo. Gabriel me falou tanto a seu respeito. E tanto sobre Varieo. Marcus não compartilhava seu entusiasmo e não pretendia fingir. Também não acreditava nem um só segundo que Vanessa fosse sincera. Não era preciso ser um gênio para adivinhar o motivo de ter vindo, estava atrás da enorme fortuna de seu pai e de seu prestígio social. Vanessa tentou a mamadeira de novo e dessa vez o bebê se acalmou. Sugou alguns minutos e depois fechou os olhos. — Ela não dormiu bem durante o vôo — explicou como se isso importasse para o príncipe. — Além do mais, tudo aqui não nos é familiar. Creio que levará algum tempo até minha filha se adaptar em um novo lugar. — O pai não faz objeções que se mude com a criança para um outro país? — perguntou ele sem poder se conter. — O pai de Mia nos deixou quando soube que eu estava grávida. Desde então nada sei a seu respeito — respondeu Vanessa prontamente. — É divorciada?

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Vanessa balançou a cabeça em negativa. — Nunca nos casamos. Maravilha. Mais um ponto negativo para ela, refletiu Marcus. Um divórcio já seria ruim, mas uma criança bastarda? O que, em nome dos céus, seu pai andara pensando? E será que acreditava de verdade que Marcus aprovaria alguém como essa mulher e a receberia de braços abertos na família? O desprezo deve ter ficado evidente em seu rosto, porque a Srta. Reynolds o encarou e declarou: — Não me envergonho de meu passado, Vossa Alteza. Embora as circunstâncias possam não ter sido as ideais, Mia é a melhor coisa que já me aconteceu. Não tenho arrependimentos. Ela não temia expor suas ideias, certo? Bem, isso não era necessariamente uma qualidade para uma futura rainha. Embora ele não pudesse negar que a própria mãe sempre revelara o que pensava em alto e bom tom, expressando suas opiniões. E fora um exemplo para as mulheres mais jovens. Mas havia uma grande diferença entre ser uma pessoa de princípios e uma irresponsável. E pensar que Vanessa desejava substituir sua mãe no trono o deixava enojado. Só esperava que seu pai voltasse a raciocinar direito antes que fosse tarde demais e fizesse algo ridículo como casar com ela. E por mais que desejasse lavar as mãos e esquecer o assunto, prometera ao pai que seria um bom anfitrião. Para Marcus a honra era tudo. Embora houvesse limites — Seu passado — murmurou por fim — é assunto seu e de meu pai. — Contudo, Vossa Alteza me julga. Talvez devesse me conhecer primeiro para depois me julgar. Ele a fitou com seriedade. — Não vou perder meu tempo. Vanessa nem piscou. Continuou a fitá-lo com determinação e ele sentiu... algo. Uma emoção que ia do ódio ao desejo. E foi o desejo que o fez se contrair como se tivesse levado uma bofetada. E a Srta. Reynolds então teve a audácia de sorrir. Isso o enfureceu e o fascinou ao mesmo tempo. — Muito bem — disse ela pondo um fim à discussão. Estranhamente constrangido, Marcus pegou o celular querendo dizer que a conversa entre os dois terminara. Pela primeira vez, desde a morte da esposa, seu pai parecia feliz, e Marcus não desejava privá-lo disso, mas sabia que tal felicidade seria passageira. Com sorte, seu pai recuperaria o bom senso a tempo e enviaria Vanessa de volta para o lugar de onde viera. Essa era a única esperança.

CAPÍTULO DOIS

A VISITA ia de mal a pior. Vanessa sentou ao lado da filha adormecida com o coração apertado. Parecia que Marcus já formara uma opinião a seu respeito. Não iria nem lhe dar uma oportunidade, e a perspectiva de ficar sozinha com ele até Gabriel voltar a fazia estremecer.

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Agora percebia que desafiar o príncipe tão abertamente não fora sua melhor ideia. Ela era uma pessoa de fortes convicções, porém em geral conseguia se conter. Entretanto, o olhar irônico que Marcus lhe lançava e sua enorme arrogância a faziam perder as estribeiras, e antes que tivesse tempo de pensar sua boca já dizia palavras agressivas. Fitou o príncipe de soslaio, porém ele continuava concentrado no celular. Era um homem muito lindo. Pena que sua personalidade carecesse de beleza. Ouça o que está dizendo para você mesma. Ela deu uma sacudidela nos próprios pensamentos. Estaria tirando conclusões apressadas? E, assim agindo, não demonstrava ser igual a Marcus? Sim, ele estava procedendo como um grosseiro, mas, se seu pai fosse desposar uma mulher muito mais jovem e que ela nunca conhecera, iria agir da mesma forma, refletiu. E caso seu pai fosse um rei bilionário sua desconfiança seria ainda maior. Sem dúvida, Marcus se preocupava com o pai, e Vanessa não podia esquecer que perdera a mãe oito meses antes. Pensando assim sentiu-se melhor. Porém... e se Marcus antipatizasse tanto com ela a ponto de tentar interferir em seu relacionamento com Gabriel? Será que estava disposta a passar o resto da vida se sentindo uma intrusa em sua própria casa? Ou jamais se sentiria em casa ali? Estaria cometendo mais um de seus grandes erros? Com o cérebro fervendo, Vanessa respirou fundo e tentou relaxar. Nem mesmo sabia ainda se desejava se casar com Gabriel. Afinal, não era esse o objetivo de sua viagem? Ainda estava em tempo de voltar para casa se as coisas não dessem certo. Seis semanas representavam um período muito longo. E muita coisa poderia acontecer. No momento, tentaria não se preocupar e aproveitar a estada em Varieo. Uma sensação de paz a invadiu enquanto olhava pela janela da limusine e via o charmoso vilarejo de Bocas onde lojas, butiques e restaurantes se alinhavam em ruas de pedras repletas de turistas. Enquanto subiam a escarpa que levava ao palácio pôde ver a distância a praia cheia de gente, os iates e um navio de turismo atracado nas docas. Lera que a estação de veraneio ia de abril a novembro, e nos outros meses os turistas se dirigiam às montanhas onde praticavam os esportes de inverno. Segundo informara Gabriel, grande parte da economia de Varieo era gerada pelo turismo. Os portões se abriram de par em par e o palácio surgiu, deixando Vanessa boquiaberta. Parecia um sonho com sua arquitetura romana, fontes, gramados verdejantes e jardins luxuriantes. Sem dúvida as coisas começavam a melhorar. Virou-se para Marcus que parecia impaciente para descer da limusine e se ver livre dela. — Seu lar é maravilhoso. Ele a fitou com desdém. — E esperava outra coisa? Ela engoliu em seco. — O que quis dizer foi que as fotos que vi do palácio não lhe fazem justiça. Estar aqui em pessoa é emocionante. — Posso imaginar — retrucou ele sem conseguir esconder o sarcasmo. Aliás, nem tentara esconder. Sem dúvida não pretendia dar descanso à Vanessa, que suspirou quando a limusine se deteve diante dos degraus de mármore da entrada com altas colunas brancas. O edifício era maior que a Casa Branca, porém muito menor que o Palácio de Buckingham. Marcus desceu, deixando que o motorista ajudasse Vanessa a fazer o mesmo. Ela segurou Mia ainda adormecida e penetrou no vestíbulo circular decorado em tons de bege com assoalho de mármore. Um gigantesco candelabro de cristal pendia do

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centro, suas peças brilhando como diamantes sob os raios do sol que entravam pelas janelas tão altas que alcançavam o teto. Uma escadaria dupla com corrimão de ferro batido se estendia à direita e à esquerda conduzindo ao segundo andar. Entre os dois lances surgia uma mesa grande de mármore entalhado com um arranjo de flores exóticas cujo aroma enchia o ar. A impressão era uma mistura de tradicional e moderno com muita sofisticação. E foi só nesse momento, enquanto admirava o cenário em volta, que a realidade a atingiu em cheio. Esse palácio fantástico poderia se transformar em seu lar. Mia cresceria ali, teria do bom e do melhor, e, o mais importante, teria um homem que a aceitaria como filha. Parecia um sonho. Desejou externar sua admiração a Marcus, porém calou-se. Temia ouvir mais um comentário irônico. Vários empregados se enfileiravam à entrada e Marcus fez as apresentações. Célia, a governanta-chefe, era alta e severa usando um uniforme cinza e o cabelo prateado preso em um coque. Suas três ajudantes vestiam-se do mesmo modo, apesar de serem mais jovens. Nenhuma usava maquiagem ou jóias, e todas possuíam a mesma expressão distante nos rostos. Vanessa sorriu e inclinou a cabeça para elas. — Esta é Camille — comunicou Célia em inglês, indicando a mais nova das ajudantes. — Ela será sua criada particular durante sua estada. Durante sua estada? Será que já estavam antecipando sua volta para os Estados Unidos? — Muito prazer, Camille — sussurrou Vanessa sorrindo e oferecendo a mão. Um pouco nervosa, a jovem estendeu a mão também baixando os olhos e murmurando com um forte sotaque: — Senhora. O mordomo, George, usava fraque e colarinho alto. Era magro como um caniço, vergado, e parecia ter quase cem anos... se é que já não tinha. Possuía dois subordinados trajados da mesma maneira, ambos jovens e com ar esperto, e os demais empregados eram um cozinheiro e uma confeiteira vestidos de branco, e tão gordinhos que deviam apreciar bastante os quitutes que faziam. Marcus se voltou para George e apontou para a bagagem trazida pelo motorista. Em silêncio os dois ajudantes correram para pegá-la. Uma senhora de meia-idade e elegante se adiantou e se apresentou como Tabitha, secretária particular do rei. — Se precisar de alguma coisa, não faça cerimônia — esclareceu a Vanessa em um inglês perfeito, mas com um ar neutro. Apontou para a moça ao seu lado que usava um uniforme parecido com a das criadas. — Esta é Karin, a babá. Ela tomará conta de sua filha. Vanessa não gostou muito da ideia de uma estranha cuidando de Mia, todavia tinha certeza de que Gabriel jamais escolheria alguém que não fosse de total confiança. — Muito prazer em conhecê-la — murmurou para Karin. — Senhora. — A garota inclinou a cabeça com educação. — Por favor, me chame de Vanessa. Nunca fui adepta de formalidades. Todos podem me chamar pelo meu nome. Não houve reação por parte da equipe. Nem um sorriso. Seriam sempre tão distantes ou apenas não simpatizavam com ela? Teriam decidido, como Marcus fizera, que não era digna de confiança? Isso iria tornar o ambiente ruim, e Vanessa precisaria se esforçar para provar o contrário a seu respeito. Marcus a fitou, dizendo: — Vou levá-la aos seus aposentos.

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Sem esperar resposta subiu a escadaria da esquerda e tão depressa que Vanessa precisou correr para acompanhá-lo. Ao contrário do saguão onde a cor predominante era o bege, o segundo andar ostentava tons quentes de vermelho, laranja e púrpura, que não agradavam Vanessa, o resultado porém, era elegante sem ser espalhafatoso. Marcus a conduziu por um vestíbulo acarpetado, e Vanessa brincou com certa ironia: — Os empregados são sempre tão alegres e sorridentes? — Além de servi-la terão de rir o tempo todo? — retrucou ele com azedume. Sim, ainda mais com uma visitante de quem não gostavam, refletiu Vanessa. Ao final de um corredor viraram à direita e ele abriu a primeira porta. Gabriel revelara à Vanessa que ficaria hospedada na maior suíte de hóspedes, mas ela não imaginara que seria tão grande. A suíte presidencial do hotel onde trabalhava parecia insignificante diante dessa. Era tudo muito espaçoso com o teto alto e janelas enormes. A cor principal ali era o amarelo. Havia uma saleta acolhedora junto a uma lareira. Também uma alcova que servia de sala de jantar, além de uma escrivaninha ladeada por estantes repletas de livros encadernados. — É lindo! — exclamou ela. — Adoro amarelo. — O dormitório fica ali — informou Marcus indicando a porta ao final da suíte. Ela cruzou o carpete fofo e abriu a porta do quarto. Havia ali uma cama luxuosa com colunas, outra lareira e um aparelho de televisão com tela plana. Entretanto, Vanessa não viu o berço que Gabriel prometera. Continuava carregando a filha adormecida, e o peso começava a cansá-la, então arriou Mia com cuidado no centro da cama e colocou uma série de almofadas em volta no caso de a criança acordar. Antes de voltar para a sala deu uma olhada no closet imenso onde viu suas malas. O banheiro também possuía todo o conforto moderno. Foi encontrar Marcus à porta, os braços cruzados sobre o peito e com ar impaciente. — Não há um berço para Mia — anunciou ela. — Gabriel me assegurou que colocaria um ao lado de minha cama. — O quarto de bebê fica no final do corredor — informou ele meio chateado. — Então espero que haja também uma babá eletrônica. Como poderei ouvi-la se acordar no meio da noite? — Embora Mia costumasse dormir bem, Vanessa ainda trocava sua fralda de madrugada. Marcus pareceu confuso. — Isso é trabalho para a babá — resmungou. Para Vanessa a babá serviria apenas para olhar a menina de vez em quando, não em tempo integral. Já passava tantas horas longe de Mia, e essa viagem seria também para aproximá-la da menina. — O quarto da babá é anexo ao da criança — explicou Marcus cada vez mais aborrecido. Vanessa refletiu que no mundo do príncipe devia ser natural que uma empregada tomasse conta o tempo todo de uma criança, porém ela pensava diferente. Não queria ofender Karin, mas ainda precisava decidir se deixaria Mia aos seus cuidados à noite. Se achasse melhor, pediria que o berço fosse trazido para sua suíte ou ela iria dormir no quarto de Mia. — Bem, se não precisa de mais nada... — Ele estava mesmo desesperado para ir embora, no entanto Vanessa indagou: — E se eu precisar? Quem deverei chamar? — Há um telefone sobre a escrivaninha e uma lista com os ramais internos. Cozinha se quiser comida, lavanderia se precisar de toalhas — declarou ele com ironia na voz.

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— E se precisar de você? Tem um número também? — questionou sem malícia, porém receosa. — Não, e não estarei disponível. — Nunca? Ele se controlou para responder: — Na ausência de meu pai, tenho muitos deveres com o país. Vanessa se interrogou por que ele precisava estar sempre na defensiva. — Entendo como deve se sentir a meu respeito — murmurou, tentando passar o máximo de sinceridade na voz. — Você nem faz ideia de como me sinto — replicou ele com tanta animosidade que fez Vanessa recuar um passo. — Meu pai me pediu que a instalasse no palácio, e cumpri a obrigação. Agora, se me der licença... Alguém pigarreou à porta e os dois se voltaram para ver a babá. — Vou deixá-la para dar as ordens à Karin — sussurrou Marcus, contente por ter um motivo imediato para ir embora. — Posso levar Mia para descansar? — inquiriu a jovem com timidez, assim que o príncipe saiu. Vanessa ainda tinha dúvidas, mas acabou por sorrir. — Acho que estou precisando tirar uma soneca também, mas se ela acordar e chorar, traga-a para cá logo, por favor. Mia poderá ficar desorientada em um lugar estranho com alguém que não conhece. — É claro, senhora. — Por favor, me chame de Vanessa. Karin aquiesceu com um gesto de cabeça, todavia pareceu desconfortável com o pedido. Vanessa ergueu Mia da cama e as três rumaram para o quarto adiante. Era menor que a suíte com uma área de brinquedos e outra para dormir. A decoração era simples e neutra. Paredes verdes, mobília branca e cara, e prateleiras repletas de brinquedos e jogos para todas as idades. Sem dúvida era um quarto de criança elaborado para os hóspedes. Muito impessoal. Vanessa decidiu que se casasse com Gabriel o quarto de Mia ficaria ao lado do deles. A ideia de dividir um dormitório e uma cama com Gabriel a fez sentir um aperto no estômago. Tudo dará certo. Fique calma. Deitou Mia no berço e a cobriu com uma coberta leve. A criança nem se mexeu. A pobrezinha estava exausta. — Vou arrumar as coisas do bebê, senhora — pronunciou Karin. Vanessa suspirou com resignação. Continuava sendo a “senhora”. — Obrigada, Karin. — Beijou os dedinhos de Mia. — Durma bem, querida. Depois de repetir para Karin chamá-la quando Mia acordasse, retornou para sua suíte. Verificou o celular, mas não havia nenhuma chamada. Ligou para o número particular de Gabriel, porém a ligação caiu na caixa de mensagens. Fitou o sofá macio pensando em tirar um cochilo ali, porém a cama com sua coberta cor de creme e travesseiros fofos a atraía mais. Depositando o celular no criado-mudo, recostou-se nos travesseiros, deliciada com o conforto, e seus olhos se fecharam imediatamente. Quando os reabriu o quarto estava mergulhado na escuridão.

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CAPÍTULO TRÊS

APÓS DEIXAR a suíte da Srta. Reynolds, Marcus parou em seu escritório onde sua assistente, Cleo, diminutivo de Cleópatra — seus pais eram egípcios e muito excêntricos — se encontrava sentada em frente ao computador jogando paciência como todas as tardes. — Notícias de meu pai? — interpelou ele. Atenta à tela, ela balançou a cabeça em negativa. — Fico feliz por ver que usa seu tempo de maneira produtiva — provocou Marcus como sempre fazia ao pegá-la em flagrante com seus joguinhos. Mas sem dúvida Cleo não o levava a sério, pois nem piscou ou afastou os olhos da tela. Apenas murmurou: — Mantém o cérebro ativo. Já passara dos 70 anos, mas continuava com a mente afiada. Trabalhava para a família real há quase 40 anos e fora secretária da mãe de Marcus. Todos esperavam que se afastasse após o falecimento da rainha e gozasse de uma confortável aposentadoria, porém Cleo não estava pronta para parar de trabalhar. Dizia que isso a mantinha jovem. E, depois da morte do marido, dois anos antes, Marcus suspeitava que se sentia solitária. Cleo terminou o jogo e abandonou o computador, substituindo as cartas pelo protetor de tela com a foto de seus oito netos. Virou-se para Marcus no instante em que ele bocejava. Franziu a testa, perguntando: — Cansado? Após um mês lutando contra a insônia, ele se sentia sempre cansado e não estava disposto a ouvir outro sermão. — Tenho certeza de que dormirei como um bebê depois que ela for embora. — Tão ruim assim? Ele se acomodou na quina da escrivaninha, declarando: — Horrível. — E tem convicção disso após apenas... 30 minutos na companhia dela? — Soube cinco minutos depois que ela chegou. Aliás, no instante em que desceu do avião. Cleo se inclinou para a frente na cadeira com os cotovelos sobre o tampo da escrivaninha, o cabelo branco emoldurando o rosto jovem para sua idade e que nunca passara por cirurgia plástica. — Pensa isso com base em quê? — Ela só quer o dinheiro de meu pai. Cleo arqueou as sobrancelhas. — Confessou isso a você? — Não precisa dizer. É jovem, bonita e mãe solteira. O que mais poderia querer de um homem com a idade de meu pai? — Para sua informação, Vossa Alteza, 56 anos não é a idade de Matusalém. — Sim, em comparação com a idade dela. — Seu pai é atraente e charmoso. Quem pode afirmar que ela não se apaixonou perdidamente? — Em poucas semanas? — Pois eu me apaixonei pelo meu marido no primeiro encontro. Nunca subestime o poder da atração física.

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Ele se encolheu. A ideia do pai fazendo amor com aquela mulher... Nem queria pensar nisso. Embora tivesse certeza de que ela o seduzira. Era assim que mulheres desse tipo agiam. Sabia por experiência própria. E seu pai, apesar da rígida integridade moral, fora vulnerável e caíra na armadilha. — Então ela é assim tão atraente? — Cleo quis saber. Por mais que desejasse, Marcus não podia negar a beleza de Vanessa. — Sim. Porém teve uma filha sem ser casada. Cleo fingiu estar chocada, levou a mão ao peito e vociferou: — Cortem-lhe a cabeça! Depois fitou Marcus com seriedade. — Sabe em que século estamos? Direitos e igualdade da mulher, e tudo o mais? — Sim, mas e meu pai? Ele é tradicional. Certos deslizes estão além de sua compreensão. Porém está solitário, sente falta de minha mãe, e não consegue raciocinar com clareza. — Você não lhe dá muito crédito, não é? O rei é um homem muito inteligente. Sim, de fato era, porém não estava pensando direito nos últimos tempos. Ninguém convenceria Marcus que a batalha estava perdida para ele. E até que a Srta. Reynolds partisse, simplesmente permaneceria longe de seu caminho. VANESSA SE sentou na cama, o coração batendo forte, sem saber onde estava. Então, enquanto seus olhos se ambientavam com o escuro e o quarto se delineava à frente, lembrou. Primeiro pensou que era tarde da noite, mas logo percebeu que alguém fechara as cortinas. Agarrou o celular e verificou o horário, aliviada por ver que só dormira uma hora e meia e que não deixara de atender a nenhuma ligação de Gabriel. Ligou para o número dele, contudo de novo foi a secretária eletrônica que respondeu. Então pegou o laptop na bolsa, esperando que ele tivesse enviado um email, porém a rede estava protegida por uma senha e ela não pôde verificar. Precisaria pedir a senha. Fechou o laptop e suspirou. Já que Karin não a chamara, imaginava que Mia ainda dormisse, e sem a filha para cuidar Vanessa não sabia o que fazer. Então se lembrou das malas no closet... todo o seu guarda-roupa de verão... e resolveu passar o tempo arrumando. Deixou a cama ainda fatigada, todavia descobriu que toda a sua bagagem já fora arrumada. A criada devia ter entrado enquanto dormia o que provavelmente era algo comum ali, porém que a deixava um tanto constrangida. Não gostava que outra pessoa mexesse nas suas coisas, porém precisaria se acostumar com isso, já que certamente não permitiriam que lavasse sua própria roupa. Despiu a calça e a blusa amarrotadas, vestiu um fusô de ioga e um top de algodão, imaginando a que horas a chamariam para o jantar, já que estava morta de fome. Pegou o celular e se dirigiu para a sala onde o sol do fim de tarde se infiltrava. Abriu as portas-janelas e saiu para um terraço com balaustrada de ferro e plantas exóticas. Dali se estendia um cenário de gramados verdes e canteiros coloridos. Mais além surgia uma piscina olímpica e a cabana da qual Gabriel lhe falara. Ele se vangloriava de ter mandado construir a piscina porque Marcus fora campeão de natação na faculdade, e ainda costumava nadar com freqüência. Isso explicava seus ombros largos, pensou Vanessa. Nesse instante o celular tocou e o número de Gabriel surgiu na tela. Oh, graças a Deus. Ela se sentiu tão feliz que quase perdeu o equilíbrio. Atendeu, e o som da voz dele foi um bálsamo. Lembrou-se de seu rosto, dos olhos escuros e meigos, de seu sorriso, e percebeu quanta falta Gabriel fazia. — Lamento não ter podido recebê-la — pronunciou ele no idioma de Varieo que era tão parecido com italiano que chegava a confundir. E como Vanessa era fluente em italiano, entendia muito bem. — Estou com saudades — sussurrou.

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— Sim, desculpe. Como foi seu vôo? Como vai Mia? — O vôo foi longo, e Mia não dormiu muito, mas agora está fazendo a sesta. Também dormi um pouco. Seu filho me informou que precisou tratar de assuntos de família. Espero que esteja tudo bem — disse Vanessa com preocupação. — Gostaria de poder responder que sim. Trata-se da meia-irmã de minha falecida esposa, Trina, que vive na Itália. Foi internada com uma infecção. — Ah, Gabriel, lamento tanto. — Ele falava com freqüência sobre sua cunhada e o ajudara muito nos últimos dias de vida da esposa e logo depois também. — Sei que vocês dois são muito unidos, e espero que não seja nada de grave. — Trina ainda não está fora de perigo. Espero que compreenda, Vanessa, não posso deixá-la agora. Trina é viúva e sem filhos. Não tem mais ninguém. E esteve presente quando eu e Marcus necessitamos. — É claro — respondeu Vanessa com sinceridade. — A família sempre vem em primeiro lugar. Ela o ouviu suspirar de alívio. — Sabia que iria entender. É uma mulher extraordinária, Vanessa. — Posso fazer alguma coisa? Ajudar? — Apenas sendo paciente comigo. Gostaria de convidá-la a ficar aqui, mas... — Trina é a irmã de sua falecida esposa. Seria estranho — comentou Vanessa com bom senso. — Sim, seria. — Quanto tempo espera ficar aí? — Duas semanas talvez. Só saberei quando ela responder ao tratamento. Duas semanas? E ela, Vanessa, ficaria sozinha com Marcus? Estaria o destino lhe pregando uma peça? Não que Vanessa esperasse que o príncipe lhe fizesse companhia. Com sorte, ele ficaria afastado, e ela não precisaria vê-lo. — Prometo voltar assim que possível — disse Gabriel. — A menos que prefira retornar para casa até minha volta. Voltar para casa com que propósito? O apartamento de Vanessa estava sublocado por seis semanas. Ela vivia com um orçamento muito apertado e, tendo saído em licença não remunerada, não teria dinheiro para pagar um aluguel. Apesar do que Marcus pensava, jamais aceitara dinheiro de Gabriel e sua fortuna não era o mais importante para ela. Até que fossem casados... se esse dia chegasse... Vanessa se recusava a ser sustentada. Por mais que Gabriel já tivesse tentado. Vanessa aceitara jantares com ele, mas no terceiro encontro ele lhe comprara um par de brincos de brilhantes para demonstrar seu agradecimento pelo modo como era tratado no hotel. Vanessa se recusara a aceitar o presente apesar de já ter se deslumbrado admirando brincos parecidos na joalheria do hotel. Depois foram os arranjos maravilhosos de flores que começaram a chegar à sua sala todas as manhãs quando Gabriel retornara a Varieo, e os brinquedos para Mia. Vanessa tivera de lhe dizer com firmeza para não mandar mais presentes. Não era preciso comprar sua afeição. Retornando ao momento presente, murmurou: — Esperarei por você, Gabriel. Mesmo que tivesse um lugar para ficar se voltasse para casa, só em pensar em outro vôo longo e cansativo pouco depois de ter chegado ali a Varieo a deixava trêmula. — Prometo que conversaremos todos os dias — assegurou Gabriel. — Trouxe seu laptop? — Sim, mas não consigo acessar a internet. — Peça a Marcus. Pedi que providenciasse tudo que você precisar. Por falar nisso, ele foi recebê-la no aeroporto? — Sim, foi. — Foi gentil com você?

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Ela poderia contar a verdade para Gabriel, contudo de que adiantaria além de deixá-lo triste? E Marcus a odiaria ainda mais. A última coisa que queria era causar uma briga entre pai e filho. — Ele me recebeu muito bem — acabou por dizer. — Fico aliviado. A perda da mãe o deixou muito mal. — E é difícil para ele imaginar você com outra mulher — acrescentou Vanessa sem ironia. — Exatamente. Por isso fico feliz que tenha recebido você bem. Não ficaria tão feliz se soubesse como Marcus agira de verdade, porém Vanessa nada declarou. — Gostou da sua suíte?– perguntou ele. — Adorei! E quero conhecer o vilarejo. — Marcus ficará contente em levá-la. Peça a ele. Quando os porcos criassem asas, pensou Vanessa. Preferia sair sozinha com Mia. Mas respondeu: — Talvez peça. — Sei que vocês dois ficarão amigos — garantiu Gabriel. Ela duvidava muito disso. Mesmo que desejasse, Marcus se recusaria a fazer amizade. — Deixei uma surpresa para você — continuou Gabriel. — Está na gaveta de cima da escrivaninha. Vá ver. Vanessa abriu a gaveta. Dentro encontrou um cartão de crédito com seu nome. Suspirou. — Gabriel, aprecio o gesto, mas... — Já sei, já sei. É orgulhosa demais para aceitar. No entanto quero fazer isso por você. — Não me sinto bem gastando seu dinheiro — sussurrou ela. — Você já fez demais. — E se por acaso encontrar algo que lhe agrade no vilarejo? Sei que suas economias são pequenas. Desejo que possua coisas bonitas. — Tenho você, e isso basta — retrucou Vanessa com sinceridade. — E é por isso, querida, que se torna uma mulher tão especial. E por isso a amo. Mas me prometa que ficará com o cartão de crédito em caso de necessidade. Não me importo que gaste 5 euros ou 5 mil. Se descobrir algo que a agrade, por favor, compre. — Ficarei com o cartão na bolsa — respondeu ela, todavia o guardou de novo na gaveta, sabendo que jamais o usaria. — Estou com saudade, Vanessa. E ansioso para começarmos nossa vida juntos. — Se eu ficar — lembrou ela para que Gabriel não fizesse castelos no ar. — Ficará — garantiu ele confiante como no dia em que a pedira em casamento. Então ela ouviu vozes ao fundo. — Vanessa, preciso ir, o médico chegou e devo falar com ele. — É claro. — Conversaremos amanhã, certo? — Sim. — Eu a amo, minha doce Vanessa. — Também o amo — respondeu ela antes de desligar. Franziu a testa e pôs o telefone sobre a escrivaninha, esperando que chegasse o dia em que pudesse dizer essas palavras com a mesma intensidade e propósito de Gabriel. Que um dia seu sentimento se transformasse em amor e não apenas em amizade. É claro que considerava Gabriel atraente. Talvez já não tivesse a pele tão rija e seu cabelo fosse cinzento nas têmporas, porém isso não a incomodava. Era o interior

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que contava. E sentia uma verdadeira afeição por ele. O que faltava era aquele... tchan. Como o que sentiu ao apertar a mão de Marcus? Afastou o pensamento incômodo. Sim, Marcus era um homem atraente também. Não tinha a pele flácida, cabelo prateado nem cintura grossa. Mas lhe faltava o principal: o bom humor e o coração generoso do pai. Quando Gabriel a abraçava e deslizava os lábios por sua face Vanessa se sentia respeitada e segura. Tudo bem, talvez isso não fosse a receita para sexo selvagem, contudo sabia por experiência própria que o sexo podia ser valorizado demais. O que importava de verdade era o respeito e a amizade. Era isso que ficava quando o tchan desaparecia. E sempre desaparecia. Homens como Marcus em geral abandonavam as mulheres e deixavam corações partidos. Ela podia imaginar quantas já abandonara. Porém Gabriel era diferente, e era isso que ela precisava. Já se deixara encantar, agora queria um relacionamento maduro e estável. E que ela fosse inteligente e sensata o suficiente para aceitar o que Gabriel lhe oferecia.

CAPÍTULO QUATRO

MARCUS ESTAVA atravessando a piscina pela segunda vez com fortes braçadas nessa noite. Seus músculos doíam e queimavam como se estivessem em brasa quando ouviu o celular. Nadou até a borda, deu impulso para se erguer da piscina, e se dirigiu à mesa onde deixara o telefone. Era o pai. Teve ímpetos de não atender. Acreditava que a essa altura Gabriel já conversara com a Srta. Reynolds, e ela provavelmente se queixara da acolhida pouco amável do príncipe. A primeira coisa que ela tentaria fazer seria causar desconforto entre ele e o pai. Talvez não logo, mas eventualmente, e Marcus ficaria feliz por deixá-la se enforcar com a própria corda, porque ele e Gabriel jamais brigariam. Mesmo que o pai lhe passasse um pito por não tratá-la bem. Então atendeu. — Pai, como vai tia Trina? — Não muito bem, filho. — Foi a resposta. O coração de Marcus ficou apertado. Ainda não estava preparado para se despedir de mais um ente querido. Indagou em voz baixa: — Qual o prognóstico? — No momento a situação é crítica, no entanto os médicos esperam que ela se recupere completamente. Marcus suspirou de alívio. Ninguém merecia sofrer duas mortes na família no espaço de oito meses. — Se precisa de alguma coisa, é só dizer, pai. — Sim, mas primeiro, filho, queria agradecer e dizer que estou orgulhoso de você. E envergonhado de mim mesmo. Orgulhoso dele? Envergonhado de si mesmo? Talvez Gabriel ainda não tivesse conversado com a Srta. Reynolds, afinal. Ou seria possível que já tivesse percebido as artimanhas dela e retomado o bom senso? Marcus limpou a garganta e questionou: — O que quer dizer? — Sei que aceitar meu amor por uma nova mulher... em especial alguém tão jovem...foi difícil para você. — Fez-se uma breve pausa. — Temi que você tratasse

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Vanessa... com grosseria. Todavia sabendo que a fez se sentir bem-vinda... Filho, lamento não ter confiado em você. Deveria ter percebido que é adulto e íntegro. O cérebro de Marcus dava voltas e ele não sabia o que responder. Que diabos ela fora dizer ao seu pai? As palavras do pai o deixavam cheio de culpa. Como Gabriel se sentiria se soubesse da verdade? E por que Vanessa mentira? Que tipo de joguinho estava fazendo? Ou seria possível que tentara não causar mal-estar entre pai e filho? Claro que não era isso. Estava planejando alguma coisa, era assim que mulheres desse tipo agiam. — A filha dela não é uma graça? — interrogou Gabriel com voz encantada. Marcus jamais o ouvira usar a palavra graça nesse contexto. — Sim, é — admitiu, apesar de só ter visto Mia chorando ou dormindo. Mudou de assunto. — Alguma questão urgente de que devo tratar? — Não se preocupe com isso, filho. Decidi chamar minha equipe para cá e montar um escritório temporário. — Não é preciso, pai. Posso tratar de tudo na sua ausência. — Sabe que ficaria louco sem ter o que fazer — retrucou Gabriel. — Assim poderei trabalhar e ficar com Trina. Parecia muita confusão e mão de obra para uma visita curta, a menos que não fosse tão curta, refletiu Marcus. — Quanto tempo espera ficar ausente? — inquiriu. — Bem, mencionei à Vanessa duas semanas, porém a verdade é que poderá ser por mais tempo. Marcus ficou preocupado de novo e interpelou: — Quanto mais? — Se tudo correr bem, ficarei ausente de três a quatro semanas. Um mês. Não havia dúvida que Trina... um membro da família... vinha em primeiro lugar, contudo parecia tempo demais, em especial já que havia uma visita no palácio. — Um mês é muito tempo para se ausentar — comentou Marcus por fim. — Mas já pensou que Trina abdicou da própria vida para ficar com sua mãe quando ela estava doente? Sim, a tia ficara vários meses com eles nos últimos estágios da doença da rainha, e mais algumas semanas depois do funeral. Então Marcus não podia criticar o pai por ficar com ela agora. — Desculpe, estou sendo egoísta. É claro que precisa ficar com ela. Pelo tempo que tia Trina precisar. Talvez eu deva ir à Itália também. — Preciso de você no palácio — replicou Gabriel. — Já que Tabitha ficará comigo você deverá providenciar para que Vanessa e Mia passem semanas agradáveis com tudo que precisarem e se divertindo. Marcus gostaria de não ter ouvido as últimas palavras. Diversão? — Faça as duas se sentirem bem-vindas o tempo todo — continuou o pai. — Leve-as para conhecer Varieo. A ideia inicial de Marcus fora ficar o mais afastado possível de Vanessa, não ser seu guia. — Pai... — tentou dizer. — Sei que estou pedindo demais para você nas circunstâncias — interrompeu Gabriel — e tenho certeza de que de início irá se sentir um pouco constrangido, porém isso dará a oportunidade de vocês dois se conhecerem melhor. Garanto que ela é uma mulher notável, meu filho. Creio que quando a conhecer melhor, irá gostar muito de Vanessa. Nada que o pai revelasse o faria desejar passar seu tempo com Vanessa Reynolds. Nem em um século juntos ele “gostaria” dela. — Pai, não acho...

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— Imagine como ela e a filha se sentem em um país estranho onde não conhecem ninguém — interrompeu Gabriel de novo. — E me sinto muito mal por ter colocado Vanessa nessa situação. Levei semanas para convencê-la a viajar. Se ela for embora agora, talvez nunca mais volte. E isso por acaso seria ruim?, pensou Marcus, mas nada disse. Tinha convicção absoluta de que Vanessa se fizera de difícil para agarrar Gabriel, e, agora que estava em Varieo, duvidava muito sobre a disposição dela de partir fosse lá pelo motivo que fosse. De repente sorriu consigo mesmo. Talvez a distância entre ela e o rei diminuiria o entusiasmo. Talvez isso desse tempo para seu pai refletir sobre o relacionamento e perceber o erro que estava cometendo. Ou, quem sabe, em vez de esperar que isso acontecesse Marcus pudesse agir de maneira mais proveitosa persuadindo Vanessa a partir. Tal ideia o fez sorrir ainda mais. — Está bem — respondeu para o pai. — Tenho sua palavra? — Sim — garantiu Marcus, já se sentindo melhor com a situação. — Tem minha palavra. — Obrigado, filho. Não faz ideia do quanto isso significa para mim. E não quero que se preocupe com mais nada. Considere-se de férias até minha volta. — Gostaria que eu levasse a Srta. Reynolds para algum lugar especial? — Marcus quis saber. — Enviarei um e-mail com uma lista de passeios que irão agradá-la. — Vou esperar — disse Marcus sentindo-se feliz pela primeira vez depois de muitas semanas, desde que o pai voltara para casa agindo como um adolescente apaixonado. — Ela mencionou que deseja conhecer o vilarejo — sugeriu Gabriel. Era um bom começo, e Marcus concordou, dizendo: — Bem, então iremos lá amanhã. — Estou tão aliviado! — bradou Gabriel. — Se precisar de alguma coisa, é só me avisar. Marcus quis pedir que a mandasse de volta aos Estados Unidos no primeiro avião, mas calou-se. Ele mesmo providenciaria isso, porém a chave-mestra com uma mulher desse tipo era paciência e sutileza. Ele a faria entrar correndo no avião. Desligou o celular e o arriou sobre a mesa. Fitou a piscina e ergueu o rosto para o terraço da suíte de Vanessa. Precisava lhe transmitir as novidades imediatamente para que ela tivesse tempo de se preparar para o passeio do dia seguinte. Então se enxugou com a toalha, enfiou a camisa, short e sandálias, penteando o cabelo úmido com os dedos, enquanto se preparava para entrar e subir. Já esperava ouvir o bebê berrando ao se aproximar da suíte, porém o corredor estava silencioso. Bateu à porta, e Vanessa devia estar perto, porque abriu quase que imediatamente. Usava calça de algodão preta, uma camiseta cor-de-rosa simples, e o cabelo estava preso em um rabo-de-cavalo. Parecia ainda mais moça e muito mais serena do que quando surgira do avião. Marcus se surpreendeu ao ver o quanto era atraente. Sem maquiagem era menos exótica e vamp, porém o formato do rosto e suas feições chamavam atenção pela beleza. Ele passeou o olhar pela suíte e viu que ela esticara um cobertor no centro do quarto. Mia estava no meio do cobertor tentando engatinhar e oscilando como um pêndulo maluco. Então caiu de lado e ficou de barriga para cima com ar de surpresa. Marcus quase entrou em pânico. Será que a criança estava tendo um surto? — Ela está bem? — perguntou, já pensando em chamar o médico. A Srta. Reynolds sorriu para a filha. — Está ótima.

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— O que estava fazendo? — insistiu Marcus. — Engatinhando. Engatinhando? — Não parece ir muito longe — comentou ele. — Ainda não. O primeiro passo é aprender a se equilibrar nas mãos e joelhos. Na opinião de Marcus, o bebê ainda tinha muito a aprender. Mia soltou um gritinho e rolou de barriga para baixo, depois se ergueu de novo e voltou a oscilar se equilibrando com as mãos e os joelhos como um pêndulo. Parecia estar fazendo bem o exercício, até que seus braços cederam e caiu para a frente. Marcus fez uma careta ao vê-la dar com o rosto no cobertor. A criança ergueu a cabeça por um instante parecendo espantada, e então começou a chorar. Quando viu que a Srta. Reynolds não se mexia, ele indagou: — A menina está bem? — Provavelmente mais frustrada que machucada. Após mais alguns segundos ouvindo Mia berrar, ele perguntou: — Não vai pegá-la no colo? Vanessa balançou a cabeça. — Se eu pegá-la no colo cada vez que se sente desencorajada acabará por não tentar mais. — Sorriu. — Vai parar de chorar já, já. Dito e feito, os gritos de Mia cessaram de repente, e ela voltou a se erguer nas mãos e joelhos, recomeçando o processo. Oscilando, caindo, chorando... Levantando. — Ela faz isso com freqüência? — questionou Marcus com grande seriedade como se estivesse questionando algum cientista em seu processo de descoberta. Vanessa suspirou com resignação. — O tempo todo nos últimos três dias. — E... é normal? — Para ela sim. Mia é um bebê muito determinado. Costuma repetir a mesma coisa diversas vezes até fazer direito. Acho que puxou essa qualidade do meu pai. Marcus via no olhar amoroso da mãe e em seu sorriso orgulhoso o quanto a Srta. Reynolds amava a filha. E isso o fez odiar ainda mais o fato de tentar conquistar Gabriel. — Desculpe — pronunciou ela por fim, virando-se para ele. — Queria alguma coisa...? Piscou diversas vezes como se só então notasse como o príncipe estava vestido. Começando das sandálias, passeou o olhar pelas pernas à mostra, o short, e o tórax que surgia da camisa aberta. Por vários segundos pareceu hipnotizada, depois ergueu os ombros tentando se dominar. — Desculpe, o que foi mesmo que mencionou? — murmurou. Marcus começou a pensar se teria se enganado anteriormente sobre a inteligência dela. Devia ser uma loura idiota igual a muitas. — Não declarei nada. Mas você me interrogou se eu queria alguma coisa vindo aqui. Ela corou até a raiz do cabelo. — Tem razão, perguntei. E então? Deseja alguma coisa? — Se tiver um minuto, gostaria de lhe falar. — É claro — respondeu ela, se afastando da porta e dando passagem com tanto ímpeto que tropeçou no próprio pé. — Desculpe. Quer entrar? Ele entrou imaginando se a Srta. Reynolds estava um pouco zonza por ter explorado o conteúdo do bar que ficava a um canto da saleta. — Sente-se bem? — inquiriu. — Tirei um cochilo. Acho que ainda não acordei completamente. E ainda estou sofrendo com o fuso horário da Califórnia. Mal passa das 7h em Los Angeles. Tecnicamente fiquei acordada grande parte da noite.

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dela.

Isso explicava, refletiu ele, porém continuou a questionar a capacidade mental

Vanessa fechou a porta e o fitou. — Sobre o que deseja conversar comigo? — Quero saber por que mentiu para o meu pai — retrucou ele sem pestanejar. Entretanto, ela piscou diversas vezes diante da pergunta agressiva, abriu a boca, mas nada balbuciou. Então, como se estivesse se armando de paciência, respirou fundo e interpelou: — Se puder refrescar minha memória, sobre o que menti? Será que sinceramente ela não sabia do que ele estava falando, ou eram tantas mentiras que não se dava mais conta? Marcus se armou de calma e explicou: — Contou ao meu pai que eu a recebi bem. Nós dois sabemos que não é verdade. Ela arregalou os olhos como se dissesse: “Ah! É isso?” — E o que deveria contar? — retrucou. — Que o filho que ele ama e respeita me tratou com a rudeza de um grande idiota... — Tampou a boca com a mão, mas sem dúvida era o que pretendera dizer. Marcus mão podia acreditar no que acabara de ouvir e cerrou as mandíbulas com força. — Você me chamou de idiota? Ela balançou a cabeça com força sempre com os olhos arregalados. — Não. — Sim, chamou. Você falou que sou um grande idiota. Ela hesitou muito constrangida. — Talvez tenha dito isso. — Talvez? — indagou Marcus resmungando com raiva. — Muito bem, eu declarei. Estou com sono ainda. É uma questão de... disposição física. E, sejamos honestos, Marcus, você agiu como um idiota. Ele acreditava que as pessoas falavam a seu respeito pelas costas o tempo todo, no entanto ninguém jamais ousara insultá-lo pessoalmente. E duas vezes. Deveria se sentir furioso ou aborrecido, porém, por estranho que parecesse, estava achando graça. — Está tentando me fazer antipatizar com você? — quis saber fitando Vanessa. — Você já antipatiza. A essa altura duvido que qualquer coisa que eu diga ou não diga mude sua opinião a meu respeito. O que acho triste, mas... — Vanessa deu de ombros. — E para sua informação não menti para Gabriel. Apenas... maquiei um pouco a verdade. — Por quê? — Ele já tem muitas preocupações. Não precisa que eu o aborreça e o preocupe. Além disso, posso lutar minhas próprias batalhas. Se Marcus já não tivesse sua opinião formada poderia se iludir que ela de fato se importava com seu pai. Porém ele conhecia esse tipo de mulher. Saíra com uma dúzia parecida com ela. A Srta. Reynolds só estava atrás de uma coisa... sua herança... e como fizera com as outras Marcus iria garantir que isso jamais acontecesse. — Não chamaria isso de batalha — acabou por dizer. Ela cruzou os braços sobre o peito, enfatizando a curva do seios. — Chamaria sim se fosse eu. Marcus se esforçou para erguer os olhos dos seios dela e fitar seu rosto. Mas continuou extasiado porque era um rosto lindo e muito sexy. Uma linda mulher com um coração negro. Ela desceu o olhar para seu peito e, percebendo o que fazia, desviou o rosto depressa. Marcus ficou surpreso, porque a Srta. Reynolds não fazia o tipo tímido diante de um homem. Ou, quem sabe, ele a incomodava muito.

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— Ah — ironizou Vanessa —, não gosta de mim, e tudo bem. Posso até entender seus motivos. Fico desapontada por ver que não me dará uma chance, mas estou conformada e, para ser honesta, também não simpatizo muito com você. Então por que não fazemos um trato e ficamos longe um do outro? — Srta. Reynolds... — Meu nome é Vanessa. Poderia pelo menos me chamar assim. — Vanessa — repetiu ele. — Que tal uma trégua?

CAPÍTULO CINCO

UMA TRÉGUA? Vanessa analisou o rosto de Marcus, tentando descobrir se suas palavras eram sinceras. Contudo, só conseguiu se concentrar no cabelo ondulado negro e na mecha que caía sobre sua testa. Teve ímpetos de afastá-la para trás com os dedos. Por que não conseguia parar de admirar seu físico? — Por que faria isso? — perguntou por fim, se forçando a fitá-lo nos olhos. Ele cruzou os braços sobre o peito e Vanessa imaginou se teria visto quanto o admirara, segundos atrás. Será que o estava assustando? No lugar dele ficaria com medo de uma mulher com olhar tão insistente. — Pensei que você queria que lhe desse uma chance — provocou ele. Mas por que a súbita mudança de atitude? Algumas horas atrás ele mal suportava ficar no mesmo ambiente que ela. Vanessa não conseguia parar de sentir que Marcus tramava alguma coisa. — Claro que quero. Você é quem não pareceu muito entusiasmado com a ideia. — Isso foi antes de saber que iremos nos ver muito nas próximas semanas. Ela piscou diversas vezes. — O que quer dizer? — Meu pai acha que seria bom nos conhecermos melhor e pediu que eu fosse seu acompanhante durante a ausência dele. Irei divertir você e sua filha e mantê-las entretidas. Ah, não, o que Gabriel fora fazer? Ela queria que Marcus lhe desse uma chance, mas não forçado. Isso apenas faria com que se ressentisse ainda mais. Sem mencionar que Vanessa não imaginara que pudesse ser tão... Alguma coisa. Ele possuía alguma coisa que a fazia tropeçar nas próprias palavras e ter atitudes bobas... como ficar olhando para seu tórax sem camisa e gritar palavras ofensivas no seu rosto. — Não preciso de acompanhante — informou ela por fim. — Eu e Mia ficaremos bem sozinhas. — Para sua própria segurança não poderá deixar o palácio sem acompanhantes. — Minha segurança? — repetiu ela um pouco assustada. — Existem elementos perigosos por aí. O coração de Vanessa acelerou. — De que tipo? — indagou. — Do tipo que adoraria pôr as mãos na futura rainha. E pedir um enorme resgate por você.

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Ela não sabia se Marcus falava a verdade ou tentava apenas assustá-la. Por certo seqüestros aconteciam em todos os países, porém Varieo era tão tranqüilo e pacífico. Ali não se falava sobre assaltos e a taxa de criminalidade era mínima. Além disso, Gabriel nunca mencionara qualquer ameaça ou perigo em potencial. Bem, por que faria isso se tentava convencê-la a desposá-lo? E havia uma razão para a realeza em todo o mundo ter guarda-costas, não? Mas quem sabia que ela estava ali em Varieo hospedada no palácio real? Apenas Marcus e os funcionários do palácio que nada sabiam a seu respeito. Gabriel não iria divulgar aos quatro ventos que após oito meses do falecimento de sua esposa estava trazendo uma namorada americana para visitá-lo. Iria? — A questão — esclareceu Marcus — é que meu pai gostaria que você tivesse um acompanhante que serei eu mesmo. — E que tal Tabitha? — Vai viajar para a Itália a fim de ficar com meu pai. Ele a leva a todos os lugares. Algumas pessoas chegaram a pensar que... — Fez uma pausa e balançou a cabeça. — Nada. Esqueça. Bem, agora ele estava querendo confundi-la de verdade. Mas será que você conhece Gabriel tão bem assim? A pergunta irritante e insegura a dominou. Quem sabe o rei tinha uma dúzia de amantes espalhadas pelo mundo. Apenas por que jurava que fora fiel à esposa não significava que fosse verdade. Talvez não existisse nenhuma cunhada doente. Quem sabe nesse momento Gabriel estava com outra de suas namoradas. Talvez acontecera um conflito de programação e ele escolhera ficar com a outra em vez de Vanessa. Talvez ele... Opa! O que está fazendo? Pare de imaginar tolices! Ela confiava em Gabriel e detestava ver que Marcus podia abalar sua confiança com uma simples insinuação. E uma muito ridícula. Podia não conhecer Gabriel há muito tempo, porém ele sempre fora honesto e leal com ela. Até que alguém lhe desse provas irrefutáveis do contrário, Vanessa estava determinada a confiar nele. Gabriel não tinha culpa se ela só tivera relacionamentos ruins, e não era justo julgá-lo com base em suas próprias experiências negativas. Se Gabriel desejava que passasse algumas semanas conhecendo seu filho mais profundamente, então era isso que Vanessa faria, mesmo que não confiasse muito em Marcus e questionasse seus motivos. Trataria de agir com naturalidade, esperando que Marcus afastasse as próprias dúvidas e a aceitasse. — Então creio que não há jeito — acabou por dizer. Marcus franziu a testa como se ela acabasse de ferir seus sentimentos. — Se a ideia de passar algum tempo comigo é tão ofensiva... — Não! — gritou Vanessa. — Claro que não. Não foi o que quis dizer. — Fosse lá o que mencionasse parecia ser sempre a coisa errada. — Gostaria muito de fazer amizade com você, Marcus. Só não quero que se sinta pressionado já que não tem escolha. Posso imaginar como está constrangido com o pedido que seu pai lhe fez. E sei como ficou devastado com a morte de sua mãe. — Suspirou antes de prosseguir. — Pelo que ouvi era uma mulher extraordinária e jamais, em tempo algum, eu tentaria tomar seu lugar ou mesmo pensar que poderia. Só quero a felicidade de Gabriel. Ele merece. E creio que isso teria mais chance de acontecer se eu e você fôssemos amigos. Ou, pelo menos, se não fôssemos inimigos mortais. — Concordo que talvez tenha me apressado em julgar você — confessou Marcus. — E, para sua informação, meu pai não está me forçando a nada. Poderia ter-me recusado, mas sei que é importante para ele. Não era bem um pedido de desculpas pelo modo como a tratara de início, porém já era alguma coisa, refletiu Vanessa. E ela esperava de coração que Marcus fosse gentil dali em diante.

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— Nesse caso, ficarei honrada com a sua companhia — pronunciou sorrindo. — Então é uma trégua? — questionou ele se aproximando com a mão estendida. Vanessa sentiu seu perfume, um aroma de especiarias que a fez desejar enterrar o rosto em seu pescoço e aspirar profundamente. Não, definitivamente não queria fazer isso. E também não queria sentir a emoção que sua mão forte produzia ao prender a sua. Como podia se sentir atraída por um homem de quem não gostava? — Meu pai enviará uma lista de atividades que considera do seu gosto e me pediu que a acompanhasse ao vilarejo amanhã. Se há algo em especial que desejava fazer ou algum lugar que pensa em visitar pode dizer que incluiremos no roteiro. Na verdade ela adoraria apenas ficar deitada perto da piscina e repousar por uma semana, porém sabia que Gabriel desejava que se familiarizasse com a região. Do contrário como decidir se desejava morar ali? — Se houver algo eu o avisarei, Marcus. — Então fique pronta amanhã às 10h. — Está bem. Ele acenou e saiu, fechando a porta. Vanessa se sentou no chão ao lado da filha que se cansara de oscilar de um lado para o outro e agora estava deitada de barriga para cima toda contente com o mordedor na boca. A ideia de passar tanto tempo sozinha com Marcus deixava Vanessa desconfortável, no entanto não tinha escolha. Recusar seria ofender os sentimentos de Gabriel e fazê-la parecer a vilã da história. No mínimo, quando a criadagem visse que Marcus parecia aceitá-la, passaria também a simpatizar com ela. O celular tocou e ela pulou para atender, esperando que fosse Gabriel. Mas era sua melhor amiga, Jessy. — Ei! Acabei de acordar e li sua mensagem — contou Jessy enquanto Vanessa a imaginava sentada na cama de pijama, os olhos inchados de sono e o cabelo ruivo amassado depois de passar a noite sob as cobertas. — Como foi seu vôo? — Um pesadelo. Mia quase não dormiu. — Sorriu para a filha que balbuciava e babava sobre a coberta no chão. — Porém agora começa a se ajustar por aqui. — Gabriel ficou feliz ao vê-la? Vanessa hesitou. Não queria mentir para Jessy, contudo temia que a verdade fosse aumentar seus temores. Mas se não podia se abrir com sua grande amiga, com quem mais faria isso? — Houve uma ligeira mudança de planos. — Explicou a situação de Gabriel com a cunhada e os motivos para que ele ficasse ao lado da doente. — Sei o que deve estar pensando, Jessy. — Sim, eu tive dúvidas a respeito da sua viagem, mas você deve saber o que é melhor para as duas. — Mesmo que você não concorde? — Nada posso fazer além de me preocupar, e detesto a ideia de vê-la se mudar para sempre. Mas o que penso não importa. Importava muito para Vanessa. As duas eram inseparáveis desde que se mudara para Los Angeles. Com seu corpo maravilhoso e rosto lindo... atrativos que com modéstia preferia minimizar... Jessy também sabia o que era ser rotulada de moça “bonita”. Sabia que, dependendo das circunstâncias, era um ponto negativo e não positivo. As duas amigas além de serem ambas lindas, também compartilhavam o péssimo gosto por homens, embora no momento Jessy se relacionasse com Wayne, um representante farmacêutico, que achava ser o homem certo. Wayne era atraente sem ser bonito demais... o que era bom, pois a maioria dos bonitões costumava ser arrogante... era inteligente e generoso, tinha uma profissão estável, um belo carro, e morava em um condomínio junto ao oceano. E exceto pelo fato de ter uma ex-esposa amarga e uma filha adolescente ressentida era quase perfeito.

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Vanessa esperava que as duas tivessem encontrado seus homens perfeitos. Deus sabia com ambas haviam sofrido. — Então o que fará até que Gabriel volte? — interrogou Jessy enquanto Vanessa ouvia a cafeteira chiando ao fundo. — O filho dele será meu acompanhante — respondeu sentindo um leve malestar. — Acompanhante? — repetiu Jessy do outro lado da linha. — Sim, vai me levar para conhecer os pontos turísticos e me manter entretida. Fez-se um breve silêncio e depois Jessy inquiriu: — Ele é lindo como mostram as fotografias na internet? Infelizmente. Vanessa respondeu com honestidade: — Em uma escala de 1 a 10 ele é 15. — Então se as coisas com Gabriel não derem certo... — provocou Jessy. — Mencionei que ele também é um completo imbecil? E não gosta muito de mim. Até compreendo seus motivos. — Vanessa agarrou um fiapo de carpete antes que Mia colocasse na boca. — Gabriel deseja que sejamos amigos. E eu daria tudo para Marcus não me odiar tanto. — Vanessa, você é uma das pessoas mais meigas, bondosas e generosas que conheço. Como ele pode odiar você? O problema era que ela às vezes era meiga, generosa e bondosa demais, deixando que as pessoas a pisassem. E Marcus lhe parecia o tipo de homem que faria exatamente isso. Ou, quem sabe, já estava ficado paranóica. — Ele é muito... intenso — confessou à Jessy. — Quando entra em uma sala... Dá um pouco de medo. — Bem, o sujeito é um príncipe — consolou Jessy. — E Gabriel é um rei, mas me sinto sempre muito bem ao seu lado. — Não me leve a mal, mas sendo Gabriel um homem mais velho se torna uma espécie de... figura paterna. — Jessy, meu pai já foi o suficiente como figura paterna. — Sim, e você já me contou milhões de vezes que as críticas dele a deixaram se sentindo um fracasso. Vanessa não podia negar isso, todavia as atenções de Gabriel a faziam se sentir especial, e não estava procurando um substituto para seu pai. Na verdade, queria o oposto. No passado fora sempre atraída por homens que desejavam controlá-la e dominá-la. E o pior era que quase sempre ela permitira isso. Dessa vez desejava um parceiro. Alguém igual. Talvez o que mais a incomodava em Marcus... além do fato de ele desprezá-la... era que se parecia um pouco com os homens com quem já se relacionara. — Não confio em Marcus — disse à amiga. — Ele deixou claro no instante em que desci do avião que não me aprovava e algumas horas depois se ofereceu para ser meu cicerone em Varieo. Disse que fará isso por causa do pai, mas não engoli. Não teria sido amável comigo assim que cheguei se desejava mesmo agradar Gabriel? — Acha que tentará interferir entre você e Gabriel? — interpelou Jessy. — A essa altura dos acontecimentos não sei o que pensar. — Vanessa só sabia que algo em Marcus a deixava nervosa e detestava essa sensação, no entanto as circunstâncias a prendiam a ele até a volta de Gabriel. — Tenho boas notícias — avisou Jessy. — Wayne me convidou para ir a Arkansas por alguns dias por causa da festa de 40 anos de casamento de seus pais. Quer que conheça sua família. — E você vai, certo? — Adoraria. Faz ideia de há quanto tempo não conheço a família de um namorado? Mas os pais de Wayne moram em uma região remota sem grande

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cobertura para celulares e será difícil entrar em contato com você. Preocupo-me que precise falar comigo e... — Jessy, ficarei bem — interrompeu Vanessa. — Na pior das hipóteses posso chamar meu pai. — Apesar de que as coisas deveriam ficar muito ruins para que fizesse isso, refletiu consigo mesma. — Tem certeza? — Jessy quis saber preocupada. — Vive me dizendo que está tudo bem, mas ainda não me convenceu. — Bem, não se preocupe mais — garantiu Vanessa. — Posso controlar o príncipe Marcus. No fundo de seu coração esperava que isso fosse verdade.

CAPÍTULO SEIS

MARCUS TINHA certeza de que analisara corretamente o caráter de Vanessa, porém após passar um dia com ela no vilarejo, começava a refletir se suas suposições iniciais a seu respeito seriam... confiáveis. O primeiro sinal de que a julgara mal foi quando bateu à sua porta às 10h em ponto, já antecipando uma espera de 15 a 20 minutos até que ela acabasse de se preparar. Era um jogo que todas as mulheres gostavam de fazer. Pareciam acreditar que isso atraía mais o sexo oposto, que lhes dava poder ou qualquer outra dessas tolices quando, na realidade, só deixava os homens aborrecidos. Entretanto, quando Vanessa abriu a porta usando um short discreto de algodão, top, sandálias confortáveis e um chapéu de palha de abas largas, sem dúvida estava pronta para sair. E com a câmera a tiracolo, uma sacola de bebê no outro ombro, e a filha agarrada aos quadris, mais parecia uma turista americana típica do que uma caçadora de ouro almejando o posto de rainha. As suspeitas de Marcus de que a julgara mal foram aumentando ao longo do dia enquanto analisava seus hábitos de compras... ou nenhum hábito, melhor dizendo. Pensando apenas no bem do rei, Tabitha contara a Marcus sobre o cartão de crédito que o pai dera à Vanessa com seu limite exorbitante. Portanto, o príncipe alertara seu motorista para que se preparasse, a fim de carregar montanhas de embrulhos e sacolas. Entretanto, no meio da tarde, quando já haviam visitado pelo menos 12 lojas de suvenires e outras mais de roupas de grife e joias caras, tudo que Vanessa comprara fora uma camiseta para a filha, um cartão-postal que pretendia enviar para sua grande amiga em Los Angeles e um romance de bolso... Tinha um fraco por romances, confessara com um sorriso tímido. Marcus a vira lançar olhares de desejo para um par de brincos modestos feitos à mão, mas não os comprara. E pagara suas compras com dinheiro. A surpresa dele foi ainda maior quando a ouviu conversando com um negociante no seu idioma e fluentemente. — Nunca mencionou que sabia falar minha língua — comentou. Ela deu de ombros, respondendo: — Você nunca perguntou. Ela estava certa. E tudo a seu respeito o deixava atônito. Vanessa Reynolds era uma mulher viajada e com sofisticação, porém havia um brilho infantil e curioso em seus olhos a cada novo lugar que visitava. Ela não apenas

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olhava para os cenários, mas absorvia a cor local como uma esponja, dos detalhes mais simples aos mais importantes... coisas para as quais Marcus já não dava muita atenção... E ela fazia milhões de perguntas. Seu entusiasmo e animação eram tão contagiantes que Marcus passara a olhar para o vilarejo de uma nova maneira. Vanessa vibrava com tudo mesmo que estivesse cansada e sem ter dormido o suficiente. Era uma mistura de mulher inteligente, espontânea, e ao mesmo tempo pueril. Graciosa, mas às vezes engraçada e desajeitada, de vez em quando tropeçando na calçada ou em outro transeunte... ou nos próprios pés. Em determinado momento ficara tão extasiada diante da arquitetura de uma antiga igreja que quase derrubara uma turista que parara de repente para tirar uma foto. Porém em vez de ficar aborrecida ou sem graça, Vanessa apenas rira, pedira desculpas e elogiara os sapatos da mulher. Também tinha o hábito divertido de dizer exatamente o que pensava, no momento em que pensava, muitas vezes constrangendo a si mesma e surpreendendo as pessoas ao seu lado. E embora ela possuísse diversas e paradoxais qualidades... ou pelo menos fingisse ter para impressioná-lo... se Marcus tivesse que escolher uma só palavra para defini-la seria... imprevisível. Vinte e quatro horas antes ele ficaria feliz em nunca mais vê-la. Entretanto, nesse momento, mudara de opinião enquanto se sentava a sua frente sobre uma manta à sombra de uma oliveira perto das docas, no ponto privado da marina. Ela comia salsichas com queijo e biscoitos... com Mia entre os dois de novo oscilando sobre as mãos e os joelhos. Marcus sentiu uma estranha mistura de perplexidade, suspeita e fascinação. — Achei que estaria com fome — disse enquanto Vanessa pegava o último pedaço de queijo e colocava na boca. — Tenho tendência à hipoglicemia, portanto preciso ingerir alimentos de cinco a seis vezes por dia. Também fui abençoada com um metabolismo rápido e nunca engordo, mais um motivo para muitas mulheres me odiarem. Ele arqueou as sobrancelhas e indagou: — Por que as outras mulheres a odiariam? — Está brincando? Alguém com a minha aparência que pode comer o que bem entender sem engordar um grama? Há quem considere isso um crime imperdoável. — Ela riu. — Como se eu pudesse controlar o fato de ser bonita ou como meu corpo reage às calorias! Não faz ideia do quanto desejei na adolescência ser um tipo mais comum. Falar sobre a própria beleza poderia simplesmente deixá-la arrogante, porém Vanessa fazia os comentários com tanto desdém e desinteresse que Marcus chegou a sentir um pouco de pena. — Pensei que todas as mulheres desejassem ser belas — comentou. — A maioria sim, mas as mulheres não querem que as outras sejam também. Não gostam de competição. Eu era popular, no entanto não tinha amigas de verdade no colégio. Não fazia o menor sentido para Marcus que questionou: — Como podia ser popular se não tinha amigas? Vanessa tomou um gole de água mineral do gargalo e depois tampou a garrafa. — Acredito que conhece o ditado que diz: “Mantenha seus amigos próximos, e os inimigos mais próximos ainda.” Pois bem. Não tinha amigas de verdade. E era popular com os rapazes. — E você era a inimiga delas?

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— Mais ou menos. O estereótipo que mostram nos filmes sobre as garotas populares e bonitas acontece na vida real. Mia caiu de costas sobre a perna de Marcus. Sorriu para ele e gorgolejou toda feliz. Marcus não pôde deixar de sorrir também. Tinha a impressão de que a menina seria tão linda quanto a mãe. — Por que não procurou fazer amizade com as garotas menos competitivas? — Elas se sentiam intimidadas comigo. Levavam muito tempo para me ver como eu era de verdade e descobrir meu caráter. E quando começavam a perceber que eu não era uma esnobe e tratavam de me procurar, meu pai nos fazia mudar de cidade de novo e eu precisava reiniciar do zero em uma nova escola. — Mudavam-se com tanta freqüência assim? — interrogou ele. — Pelo menos uma vez ao ano, às vezes duas. Meu pai é do Exército. Marcus teve dificuldade em assimilar essa informação. Imaginara que ela fora criada sempre na mesma casa de bairro de classe média alta com uma mãe embonecada e mimada. Aparentemente se enganara em muitas coisas. — Em quantos lugares diferentes já morou? — inquiriu. — Muitos. O treinamento de armas especiais que meu pai fazia significava muitas mudanças. No exterior moramos na Alemanha, Bulgária, Israel, Japão e Itália. Também vivemos em oito estados diferentes dos Estados Unidos em 11 bases militares. Tudo isso até eu fazer 17 anos. Intimamente penso que todas essas mudanças eram apenas maneiras de papai lidar com a morte de mamãe. O fato de Vanessa também ter perdido a mãe o surpreendeu, fazendo-o perguntar: — Quando ela faleceu? — Quando eu tinha 5 anos. Uma gripe. A morte da própria mãe, a injustiça que isso fora para ele, o deixara sob uma nuvem escura o tempo todo e com a sensação de que jamais voltaria a ser feliz. Entretanto, Vanessa parecia manter uma atitude sempre positiva e uma disposição sempre alegre. — Mamãe tinha apenas 26 anos — acrescentou ela. — Muito jovem — comentou Marcus com seriedade. — Uma fatalidade. Ela foi piorando cada vez mais, e quando procurou tratamento a gripe já se transformara em pneumonia. Na ocasião papai estava fora, baseado no Golfo Pérsico. Creio que jamais se perdoou por não estar ao lado dela. Marcus refletiu que pelo menos tivera sua mãe durante 28 anos. Embora isso não aliviasse a perda. E apesar disso acontecer o tempo todo em todos os lugares do mundo, ainda o abalava como sendo uma enorme injustiça uma criança perder a mãe tão jovem e por um motivo aparentemente tão banal. — E você? — interpelou Vanessa. — Onde morou? — Visitei muitos lugares — declarou Marcus — mas sempre morei no palácio. — Nunca desejou ser independente? Sair pelo mundo por conta própria? Milhares de vezes. Quando as pessoas ouviam a palavra realeza presumiam uma vida grandiosa e cheia de excessos, mas as responsabilidades ligadas à coroa podiam sufocar. Sempre que Marcus precisava fazer alguma coisa ou tomar uma decisão necessitava primeiramente pensar no seu título e em como sua atitude afetaria as outras pessoas. — Meu lugar é ao lado de minha família — explicou para Vanessa. — É o que se espera de mim. Mia gorgolejou e estendeu os bracinhos, querendo chamar a atenção do príncipe, então Marcus lhe fez um carinho no queixo e a menina deixou escapar uma risada tão alegre como só os bebês sabem fazer. — Se tivesse de viver com meu pai todos esses anos estaria louca — confessou Vanessa com expressão sombria que fazia pensar em animosidade.

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— Vocês dois não se dão bem? — quis saber Marcus. — Com meu pai tudo deve ser do jeito dele. — Sorriu. — Digamos que não concorda com certas decisões minhas. — Posso saber quais? Ela suspirou. — Ah, quase todas. É até irônico. Existem pessoas que não gostam de mim porque me consideram perfeita demais, porém aos olhos de meu pai nunca fiz nada certo na vida. Marcus achou que era um exagero, nenhum pai podia ser tão crítico a respeito da filha. — Por certo ele está contente agora que planeja se casar com um rei — comentou com voz neutra. Vanessa riu com desdém. — Posso dizer a papai que pretendo ser a nova Madre Teresa e ele descobrirá algo de ruim nisso. Além do mais, não lhe contei sobre os planos de me casar com Gabriel. A única pessoa que sabe onde estou neste momento é minha grande amiga Jessy. Marcus arqueou as sobrancelhas e perguntou: — Por que manter sua viagem em segredo para seu pai? — Não quis contar a ninguém até ter convicção de me casar com Gabriel. — E QUAL razão pode haver que a impeça de se casar com ele? — indagou Marcus enquanto Vanessa hesitava. Embora desejasse conhecer Marcus melhor, não estava certa se deveria discutir detalhes íntimos de seu relacionamento com Gabriel. Mas ao mesmo tempo odiava se omitir já que esse primeiro passeio estava dando mais certo que o esperado. E enquanto ficava sentada sobre a manta de lã à sombra, o ar marinho refrescando sua pele quente pelo sol, e com Mia brincando feliz entre os dois, sentiu uma grande paz como há muito tempo não sentia. A primeira hora do passeio fora como se andasse na ponta dos pés sobre um campo minado, se sentindo monitorada e vigiada. Cada palavra que dizia podia ser analisada por Marcus que desejava descobrir significados velados. Porém aos poucos começara a relaxar, assim como o príncipe. E, para dizer a verdade, ele era mais parecido com o pai do que ela imaginara. Sem dúvida tinha um temperamento nervoso, todavia era muito inteligente e tinha senso de humor. E embora fosse evidente que não sabia muito bem como agir ao seu lado... algo com que Vanessa estava acostumada, pois nunca correspondia às expectativas das pessoas... tinha a sensação de que ele podia estar começando a simpatizar com ela. Ou, quem sabe, antipatizar menos. E estava claro que adorava Mia... a pequena namoradeira... que não tirava os olhos dele. — A menos que não queira falar sobre isso — acrescentou Marcus com um tom de voz e um olhar que sugeriam que Vanessa devia ter algo a esconder. Ela amassou a ponta da manta. Apesar de seu relacionamento com Gabriel não ser da conta dele se não respondesse pareceria suspeito. — Meu relacionamento com Gabriel é... complicado. — Como assim? Você o ama, não? Havia uma sutil acusação em sua voz. Justamente quando Vanessa pensava que as coisas estavam melhorando e que Marcus mudaria de ideia a seu respeito ele voltava com a guerra tentando desacreditá-la e expô-la como uma fraude. Bem, talvez devesse dar a ele o que queria. Não faria diferença alguma. — Amo — respondeu. — Só não sei se estou apaixonada por ele. — Qual a diferença entre as duas coisas? Vanessa arregalou os olhos. Será que ele honestamente não sabia? Ou pensava que ela não sabia? Seria apenas um teste?

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— Seu pai é um ser humano extraordinário — explicou. — É inteligente, bondoso, e o respeito muito. Amo-o como amigo e quero que seja feliz. Sei que um casamento comigo o deixaria contente ou, pelo menos, foi o que Gabriel me confessou. E, naturalmente seria ótimo que Mia tivesse alguém para chamar de pai. — Mas...? — incentivou Marcus, se reclinando sobre a manta e esticando as longas pernas como se estivesse se preparando para ouvir uma boa história. — Mas quero ser feliz também. Mereço — finalizou ela. — Meu pai não a faz feliz? — Sim, mas... — suspirou ela. Não havia como evitar a franqueza total quando falava sobre isso. — O que você acha sobre sexo antes do casamento? Ele não hesitou um só segundo e respondeu: — Imoral. A resposta a pegou de surpresa e comentou: — Essa é nova. — Como assim? — Jamais conheci um virgem de 28 anos. Ele franziu a testa. — Não disse que sou... — Deteve-se ao perceber que falara demais e caíra em uma armadilha. — Ah! — exclamou Vanessa continuando: — Então o que quer dizer é que sexo antes do casamento apenas é imoral quando se trata do seu pai? Contudo quando o assunto é com você não há problema? — Meu pai é de outra geração. Pensa diferente. — Bem, nisso você tem razão. E é grande parte do meu problema. — O que quer dizer? — incentivou ele. — Creio que duas pessoas devem saber se são sexualmente compatíveis antes de mergulharem no casamento. Vamos ser sinceros, sexo é uma parte muito importante de um relacionamento estável. Não concorda? — questionou ela se voltando para fitá-lo em cheio. — Suponho que sim — respondeu Marcus. — Supõe? Seja honesto, casaria-se com uma mulher com quem nunca dormiu? Ele hesitou e depois respondeu: — Provavelmente não. — Bem, Gabriel é um homem tão tradicional que não irá me beijar antes de ficarmos noivos oficialmente. E considera o sexo antes do casamento algo fora de questão. Foi a vez de Marcus encará-la e perguntar: — Quer que acredite que você e meu pai nunca... — Não conseguiu pronunciar as palavras, e Vanessa achou graça. — É tão espantoso assim? Você mesmo revelou que ele é de outra geração. Não fez sexo com sua mãe antes da noite de núpcias e mesmo então assegurou que levaram algum tempo para se entenderem bem. Marcus fez uma careta, e Vanessa murmurou: — Desculpe. Informação demais? — Sim, um pouco — concordou ele. — Sinceramente não sei por que estou lhe contando todas essas coisas, já que não é da sua conta. E nada do que eu esclarecer mudará sua opinião a meu respeito. Marcus sorriu. — Então por que está me contando? — Talvez porque passei grande parte de minha vida sendo injustamente avaliada e estou farta. Na verdade não deveria me importar se você gosta ou não de mim, mas por algum motivo tolo me importo. Marcus não sabia em que acreditar e acabou por dizer: — Não desgosto de você.

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— No entanto não confia em mim, o que é justo, creio. Porque também não confio em você. CAPÍTULO SETE

EM VEZ de parecer insultado Marcus riu, o que deixou Vanessa completamente confusa. — Acha engraçado? — interrogou. — O que me fez rir é que falou sem rodeios — respondeu ele. — Será que alguma vez consegue guardar seus pensamentos para você? — Às vezes. Vanessa não revelara, por exemplo, que sua calça de linho cinza-claro se ajustava perfeitamente às nádegas musculosas, e a camisa de seda branca com mangas curtas valorizava a pele bronzeada. E também não mencionara que o início de barba em seu queixo lhe dava vontade de passar os dedos ali. Ou que a curva de sua boca a fazia desejar... Bem, não vinha ao caso. — Quando criança todas as vezes que expressava uma ideia ou pensamento meu pai dava o contra. E assim me fazia sentir inferior e estúpida, e eu não sou estúpida. Levei pouco tempo para perceber esse problema. E hoje em dia digo o que penso e não me preocupo com o que os outros irão pensar, porque a maioria das opiniões não me importa. — Respirou fundo e prosseguiu: — Quando se trata de me valorizar a única opinião que interessa é a minha. E embora tenha levado muito tempo para chegar até aqui, estou muito feliz por ser quem sou. — Fitou as próprias mãos. — É claro que minha vida não é perfeita e ainda me preocupo em não cometer erros, mas sei que sou capaz e inteligente e, se me enganar, pretendo sempre aprender com isto. Marcus aguardou que ela terminasse o longo raciocínio, e inquiriu: — Então o que fará? Sobre meu pai, quero dizer. Se ele não deixar de lado seus princípios. — Espero tomar minha decisão depois que passarmos mais tempo juntos. — Você mesma disse que meu pai parece estar muito apaixonado. Creio que com um pequeno esforço poderá fazê-lo esquecer de sua rigidez moral. Afinal, é uma mulher muito bonita — sussurrou Marcus. Estaria sugerindo que ela seduzisse Gabriel? E por que, quando aludira sobre sua beleza, ela sentira um frio na espinha dorsal? Já ouvira elogios tantas vezes na vida e de tantos homens que deixaram de ter significado. Então por que era diferente com Marcus? E por que ela se importava tanto com a opinião dele? E por que, em nome dos céus, ela começara essa conversa? — Jamais farei isso — respondeu por fim. — Respeito muito Gabriel. Mia começou a se impacientar e Vanessa aproveitou a oportunidade para dar um fim ao bate-papo estranho e muito inconveniente. Não importava o que ela fizesse ou falasse, não vinha ao caso como procedesse, a situação com Marcus parecia ficar cada vez mais estranha. Então tratou de ir embora, dizendo: — É melhor levar Mia de volta ao palácio para dormir um pouco. E eu também gostaria de descansar. Continuava zonza por causa do fuso horário de Los Angeles e apesar de exausta na noite anterior não dormira bem. Marcus se levantou. — Vamos.

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Juntos limparam os restos do piquenique e, para surpresa de Vanessa, Marcus ergueu Mia nos braços enquanto ela dobrava a manta. Ainda mais surpreendente era vê-lo segurando o bebê com tanta naturalidade como se fizesse isso todos os dias. Mia se agarrou ao seu pescoço e apoiou a cabecinha em seu ombro quando a mãe tentou tomá-la. Pequena traidora, pensou Vanessa, porém não pôde deixar de sorrir. — Ela quer ficar com você — informou a Marcus, que não pareceu se importar nem um pouco em continuar carregando Mia. Arrumaram o resto de suas coisas e retornaram para a limusine que aguardava no estacionamento da marina. Sentaram-se no banco de trás com o ar-condicionado ligado, e Vanessa amarrou Mia ao seu assento. Esperava que retornassem diretamente ao palácio, mas Marcus fez com que o motorista parasse em frente a uma das lojas que haviam visitado mais cedo e entrou rapidamente. Saiu minutos depois carregando um embrulhinho que guardou no bolso da calça, voltando a ocupar seu assento. Apesar de curiosa, Vanessa não fez perguntas com medo de provocar alguma resposta mordaz. Provavelmente Marcus fora comprar um presente para sua namorada. Um homem com sua aparência e ainda mais príncipe e muito rico sempre tinha uma namorada... ou duas e três. E segundo Gabriel, seu filho estava sempre muito bem acompanhado por garotas. Mia adormeceu na volta ao palácio, e, quando estacionaram na porta principal, mais do que depressa Marcus desafivelou o cinto do bebê e a levou para fora do carro nos braços. — Posso carregá-la — protestou Vanessa. — Está tudo bem — tranqüilizou ele e não apenas levou Mia até seu quarto, mas também a colocou no berço e a cobriu como se fosse um pai. No íntimo, Vanessa sofria porque, em sua pequena existência, a filha ainda não sentira os carinhos de um pai. Esperava de todo o coração que, se casasse, Gabriel preenchesse esse vazio em seu peito, e que os meses sem a presença paterna não deixassem marcas em Mia. — Ela se comportou muito bem hoje — comentou Marcus, sorrindo para a criança adormecida. — Mia é um bebê tranqüilo. Você a conheceu em um dia péssimo — explicou Vanessa. Pediu à Karin que tomasse conta de Mia enquanto ela tirava um cochilo... pensando que, afinal de contas, ter uma babá era bastante conveniente... e depois Marcus a acompanhou pelo corredor. Ela parou diante da porta de sua suíte e se virou para ele. — Obrigada por me levar ao vilarejo hoje. Foi muito divertido. Ele arqueou as sobrancelhas e murmurou: — Isso a surpreendeu? — Na verdade sim, pois poderia ter dado tudo errado. Ele sorriu de leve fazendo surgir covinhas nas faces. O coração de Vanessa pulsou com mais força. Marcus era atraente demais. E perturbador. — Fui franca demais outra vez? — quis saber. Ele deu de ombros. — Estou me acostumando com isso. Bem, já era um começo. — Meu pai gostaria que a levasse ao Museu de História amanhã. — Ah. Ele tornou a arquear as sobrancelhas. — O que quer dizer com “Ah”? — Bem, ainda estou muito cansada por causa da viagem e pensei em passar um dia inteiro à beira da piscina para relaxar. Mia adora brincar na água e eu gostaria de

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me bronzear um pouco. Não se sinta obrigado a ficar conosco. Tenho certeza de que tem suas obrigações. — É isso que deseja? — interpelou Marcus. — Sim. — Então podemos visitar o museu em outro dia? Ela aquiesceu com um gesto de cabeça. — Seria perfeito. Ele começou a se virar, mas parou de repente. — Ah, quase me esqueci. Retirou a sacolinha do bolso e entregou a Vanessa. — É para você. Perplexa, ela aceitou. — O que é? — Abra e veja. Ela abriu a sacola e olhou dentro, prendendo a respiração ao ver do que se tratava. — Mas... como soube? — Notei que você os admirou na loja — sussurrou Marcus. Ele não perdia nada, hein? Vanessa retirou os brincos da sacola, eram feitos a mão com minúsculas esmeraldas incrustadas em delicadas rodas de prata. Ela se enamorara da peça no instante em que a vira na loja, entretanto custava 150 euros, e estava além de suas posses. — Marcus, estes brincos são maravilhosos. — Ela ergueu os olhos para fitá-lo. — Não entendo. Com as mãos enfiadas nos bolsos da calça de maneira casual, ele deu de ombros. — Se você estivesse lá na loja com meu pai certamente ele os compraria na mesma hora. E sei que era o que ele gostaria que eu fizesse. Ela não pôde deixar de apreciar tal gesto. Era algo significativo. — Não sei o que dizer — murmurou. — Muito obrigada. — Como é mesmo que dizem vocês, americanos? — Ele pareceu pensar. — Ah! Já sei: não foi nada. Não, era muita coisa. Vanessa ficava constrangida quando Gabriel a presenteava. Era com se ele sentisse que precisava comprar seu afeto. Porém Marcus não tinha motivos para lhe comprar nada, portanto quisera comprar. Fora um gesto espontâneo. Mais do que qualquer coisa que Gabriel já dera para ela... ou, pelo menos, era assim que Vanessa se sentia. Engolindo as lágrimas de pura felicidade... e sem saber muito bem por que o gesto de Marcus significava tanto... ela sorriu e declarou: — Preciso ir. Logo falarei com Gabriel. — Sim, é claro. Vejo você amanhã. Ela o viu descer o corredor até desaparecer na volta e só então fechou a porta. Esperava sinceramente que ela e Marcus pudessem ser amigos, porque era isso que Gabriel desejava. E parecia que esse sonho estava se tornando realidade. MARCUS DEU as últimas braçadas, já muito cansado, pois se exercitara 30 minutos a mais que o usual, refletindo sobre a conversa que tivera com Vanessa. Se o que ela revelara era verdade e não mantivera intimidades sexuais com Gabriel, o que fascinava tanto o rei? A juventude dela? A promessa de um recomeço? Certa vez, muito tempo atrás, sua mãe lhe confidenciara que ela e seu pai desejavam uma família grande, porém após complicações no parto de Marcus mais filhos se tornaram um sonho impossível.

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Talvez Gabriel visse a chance de começar a família que jamais pudera ter antes. Sem dúvida alguma com o instinto maternal que possuía Vanessa desejaria mais filhos. Ou talvez Gabriel tivesse visto o que Marcus vira nesse dia. Uma mulher inteligente e divertida, e um pouco bizarra. E, sem dúvida, linda. E por isso você precisou lhe dar um presente? Ele alcançou o outro lado da piscina, parou de dar braçadas e se apoiou nas mãos para subir até a borda. Não fazia ideia do motivo para ter comprado os brincos para Vanessa. Contudo, quando voltavam para o palácio e ele vira a loja, sentira o impulso de pedir ao motorista que parasse e, antes que se desse conta do que acontecia, estava lá dentro, entregando seu cartão de crédito, e a vendedora colocava os brincos na minúscula sacola. Talvez ele e Vanessa tivessem realizado um tipo de... conexão. Porém isso não vinha ao caso, porque aquilo que confessara a ela era a verdade, caso Gabriel a visse admirando os brincos como ele próprio vira, os teria comprado no ato. Marcus fizera isso para agradar o pai e nada mais. Porém a surpresa no rosto dela quando abrira a sacola e vira o seu conteúdo... Parecera tão feliz e agradecida com os brincos modestos que Marcus temera que fosse cair em prantos. E isso teria sido horrível, porque não havia nada pior que uma mulher presa pela emoção incontrolável. E tudo por causa de um presente simples. Se Vanessa só estava pensando em riqueza não deveria se deslumbrar apenas com a visão de diamantes e pedras preciosas bem grandes? E se estava manipulando seu pai, por que admitir que não estava apaixonada? Por que conversar sobre esse assunto com Marcus, seu filho? Sem querer tudo fora um teste. E Vanessa passara com nota máxima. Marcus saiu da água sacudindo o cabelo e aborrecido por estar remoendo consigo mesmo essa história. Respirou fundo e estreitou os olhos diante do sol, um globo vermelho intenso de encontro ao horizonte que escurecia. A brisa do anoitecer refrescou sua pele quente. A questão era que, apesar de não querer simpatizar com Vanessa, não conseguia se conter. Jamais conhecera alguém igual a ela. Na mesa onde o deixara, seu celular começou a tocar. Pensando que podia ser seu pai com notícias sobre tia Trina, levantou-se e correu para a mesa. Porém ao ver o número de Carmela praguejou entre os dentes cerrados. Não tinha o menor interesse em nada que sua ex-namorada desejasse dizer, e após três semanas evitando seus constantes telefonemas e mensagens, esperara que ela tivesse desistido. Aparentemente não. Marcus refletiu por que se interessara por ela. Como uma mulher que antes o enfeitiçara podia aborrecê-lo completamente agora? Mulheres agressivas na verdade não faziam o seu tipo. No entanto, sendo sexy, ardente e com um corpo escultural, Carmela o perseguira com uma tenacidade que apagara a presença de outras mulheres. Ela era tudo que Marcus poderia desejar em uma esposa ou assim pensara. E como ela pertencia a uma família rica e de prestígio jamais imaginara que estivesse atrás do seu dinheiro. Após seis semanas de namoro começara a pensar em alianças de noivado, e então descobrira que se enganara redondamente com Carmela, ela tinha um gênio terrível, era indelicada com as pessoas mais simples... e o traíra com outro homem. E embora a primeira semana após o rompimento fosse difícil, aos poucos fora percebendo que seus sentimentos por ela eram baseados mais no desejo do que no amor verdadeiro, e o envolvimento só se explicava porque estivera fragilizado pela morte da mãe. E o fato de Carmela ter se aproveitado disso a tornava aos seus olhos desprezível. E imperdoável.

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Estremecia ao pensar no que aconteceria se a tivesse pedido em casamento ou, pior ainda, se casado com ela. Já se sentia bastante desapontado consigo mesmo por ter deixado a situação se prolongar tanto apenas por se sentir atraído pela sua sensualidade. E, para dizer a verdade, o sexo entre os dois não era assim tão espetacular. Fisicamente Carmela podia lhe dar tudo, mas emocionalmente seus encontros na cama o deixavam... vazio. Quem sabe era o desejo inconsciente de uma ligação mais profunda que o fazia sempre retroceder e não assumir um relacionamento mais sério. E, olhando para trás agora, percebia o quanto sua decisão fora acertada. Havia uma mensagem de Carmela no celular. — Chega — resmungou ele atirando o aparelho na piscina. Só quando ergueu os olhos para o caminho que levava ao jardim percebeu que havia alguém assistindo a cena. VANESSA ESTAVA parada no caminho para o jardim vendo o celular de Marcus atingir a superfície da água da piscina e depois, lentamente, afundar, até se tornar uma sombra nos ladrilhos do fundo. — Sabe — disse para Marcus que sem dúvida não percebera sua presença ali a não ser nesse instante. — Tenho esse impulso quase todos os dias de minha vida. Só que me imagino atirando o celular do telhado do hotel ou debaixo das rodas de um caminhão em movimento. Ele suspirou e passou os dedos pelo cabelo. Os últimos raios de sol incidiam em seus bíceps e tórax, e nas coxas musculosas. O calção o cobria decentemente, mas... nem todas as... protuberâncias ficavam ocultas. Vanessa cerrou os dentes. Nossa! Quem era ela? Uma menina de 12 anos? Será que nunca vira um homem de calção antes? Já vira homens completamente sem roupa. É claro que nenhum tão... atraente. Lembre-se que este é o filho de seu quase noivo. E está olhando para ele como se quisesse devorá-lo. O pensamento a encheu de culpa. Muito bem, talvez fosse um exagero, porém se sentira atraída. — Foi infantilidade minha — desculpou-se Marcus com olhar humilde. — Mas fez você se sentir bem? — perguntou ela. Ele hesitou e depois sorriu. — Sim, fez. E, de qualquer jeito, precisava de um celular novo. — Então valeu a pena. — O que faz aqui fora? — indagou ele segurando a toalha e começando a se enxugar da cabeça aos pés... Nossa! O que Vanessa não daria para ser essa toalha nesse momento. Raciocine, Vanessa! Ponha a cabeça no lugar! Esse é o filho de Gabriel. — Mia tinha descido com a babá e fiquei preocupada — explicou. — Resolvi dar uma volta. — Depois do passeio que demos hoje? Deve estar exausta. — Fico de pé o tempo todo e todos os dias. Hoje não foi nada. Além disso, estou tentando me adaptar ao fuso horário. Se for para a cama muito cedo jamais me ajustarei, e, para sua informação, estou de fato exausta. Não durmo direito desde que cheguei aqui. — Por que não? — Ele estendeu a toalha nas costas de uma cadeira e sentou-se reclinando o corpo sem o menor constrangimento. E nada era mais atraente do que um homem relaxado em uma cadeira sem o menor constrangimento. Em especial de calção e lindo como ele. — Acordo o tempo todo e tento ouvir Mia. Aí me lembro de que está do outro lado do corredor. Então, é claro, sinto necessidade de levantar e ver se está tudo bem com ela. Depois é difícil tornar a dormir. Pensei que um passeio agora me relaxaria. — Por que não tomamos um drinque? — sugeriu ele. — Pode ajudar.

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Vanessa nunca fora de beber muito e nos últimos tempos, com um bebê, quase parara completamente. Mas no momento havia uma babá para tomar conta de Mia sempre que ela precisasse. Talvez o drinque fosse fazer bem. E talvez Marcus resolvesse vestir mais roupas. — Sim, é claro. Gostaria muito — respondeu. E como por mágica o mordomo surgiu abrindo as portas-janelas que levavam ao... bem, ela não sabia. Saíra por uma porta lateral até o jardim com sentinelas por todos os lados. Provavelmente não teria conseguido chegar à piscina se não lhe mostrassem a direção. O palácio tinha mais curvas e meandros do que um labirinto de parque de diversões. — O que prefere? — questionou Marcus. — O que temos? — Um bar completo, e George pode preparar o que você quiser. Ela repassou mentalmente uma lista de drinques que apreciava e pediu a George: — Que tal... vodca com tônica e uma fatia de limão? George aquiesceu com um gesto de cabeça e se voltou para Marcus, perguntando com a voz de cana rachada própria de um velhinho: — E Vossa Alteza? — O mesmo. E, por favor, avise Cleo que preciso de um novo celular e um novo número. George inclinou a cabeça e saiu, parecendo se esforçar muito para dar cada passo. Vanessa se sentou na frente de Marcus e, quando o mordomo desapareceu, sussurrou: — Quantos anos ele tem? — Não tenho certeza. Uns 80, 90 — respondeu Marcus no mesmo tom de voz. — Só sei que trabalha para nossa família desde que meu pai era criança. — Parece se esforçar muito para cumprir suas tarefas. — George tem artrite reumatoide. E apesar de sua equipe fazer a maior parte do trabalho atualmente, posso garantir que é ainda muito capaz e não pretende se aposentar logo. — Marcus sorriu com brandura. — Sinceramente, creio que não teria para onde ir. Pelo que sei, nunca se casou. Não tem filhos. Somos sua família. — Isso é triste — comentou Vanessa sentindo uma súbita onda de simpatia pelo velho e encarquilhado mordomo. Não podia se imaginar tão só no mundo. Ou talvez George não visse as coisas desse modo. Quem sabe sua profissão, sua ligação com a família real e a equipe fossem tudo de que precisava para ser feliz. — Se me der licença um momento — pronunciou Marcus de repente, levantandose —, vou trocar de roupa antes de pegar um resfriado. Sim, Vanessa desejara que se vestisse para ocultar o físico maravilhoso, mas de qualquer forma se sentiu um pouco desapontada. Porém a verdade era que o calor da tarde começava a desaparecer com a chegada do sereno, e uma brisa fria tomara conta do ambiente. Quando Marcus se foi, Vanessa tirou as sandálias e se encaminhou para a piscina. Sentou-se na borda, mergulhando os pés na água ainda morna e ótima para um mergulho. Nunca fora boa nadadora... ou dedicada a qualquer outro esporte, apesar do pai incentivá-la sempre a se exercitar. Não tinha nenhuma flexibilidade atlética nem muita graça. As armas de fogo eram as especialidades de seu pai e sua paixão, e ele tentara exaustivamente fazê-la aprender tiro ao alvo. Chegara a comprar um rifle para Vanessa quando ela completara 14 anos, todavia as armas a assustavam e ela se recusara. Pensava que o pai adoraria ter tido um filho e não uma filha, e se alguém lhe oferecesse uma troca aceitaria sem pestanejar.

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Por fim os últimos vestígios do dia desapareceram no horizonte e as luzes do jardim e da piscina foram acesas. Então Vanessa notou a sombra do celular de Marcus no fundo da água, e imaginou o que... ou quem... o fizera jogá-lo lá. Pelo que Gabriel lhe contara, Marcus era sempre controlado, portanto algo muito sério deveria tê-lo feito perder a paciência dessa maneira. Vanessa suspirou ao se lembrar de Gabriel, e imaginou o que estaria fazendo. Provavelmente estava sentado no hospital, onde passava a maior parte do tempo. Trina continuava muito doente, mas reagindo bem ao tratamento, e os médicos estavam otimistas a respeito de sua recuperação. Vanessa esperava que isso trouxesse Gabriel mais cedo para casa. Queria retomar sua vida normal e planejar seu futuro, pois no momento estava muito confusa e irrequieta. — Seu drinque — anunciou Marcus. Mergulhada nos próprios pensamentos, Vanessa se assustou e deu um pulo. Virou-se para vê-lo usando short cáqui e uma camisa de mangas curtas que, no luscofusco, tanto podia ser cinza como azul-clara. — Desculpe, não queria assustá-la. — Ele lhe estendeu um copo e se sentou ao lado na borda da piscina, enfiando também os pés descalços na água. Estava tão próximo que Vanessa podia sentir seu perfume, e, se movesse a perna um milímetro, suas coxas se tocariam. Contudo, por algum motivo essa ideia fez seu coração pular no peito. Nunca faria tal coisa.

CAPÍTULO OITO

— ESTAVA PERDIDA em meus pensamentos — desculpou-se ela. — Já falei com Gabriel hoje e ele me informou que sua tia está reagindo bem ao tratamento. Marcus aquiesceu com um gesto de cabeça, tomando um gole de sua bebida. — Falei com ele hoje à tarde. Estão mesmo otimistas. — Gostaria que voltasse logo, mas não quero ser egoísta — Vanessa tomou um gole. — Uau! É forte. — Prefere outra coisa? — Não, está ótimo. — Tomou um gole menor dessa vez. — Não acho você egoísta — comentou Marcus. — Diria que tem sido muito paciente. Se fosse comigo, provavelmente daria meia-volta e retornaria ao avião, considerando também o modo rude como a recebi no aeroporto. — Se não fosse por Mia talvez tivesse feito isso — respondeu ela com a franqueza habitual. Ele resmungou alguma coisa. — O que mencionou? — interrogou Vanessa. — Sua franqueza brutal me obriga a ser franco também. Meu pai me confessou que deverá ficar ausente de três a quatro semanas. Não queria que você soubesse por receio que fosse embora, por isso me pediu que a distraísse o tempo todo. Ela sentiu um aperto no coração e balbuciou: — Mas minha visita será de seis semanas. O que nos dará apenas duas ou no máximo três para nos conhecermos melhor. E se não fosse tempo suficiente? Marcus deu de ombros. — Então fique mais.

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Magoada e se sentindo traída, Vanessa tomou um gole do drinque. Se Gabriel mentira sobre isso que outras mentiras seria capaz de dizer? — Não posso ficar além do tempo previsto. Minha licença no trabalho é de seis semanas. Se não voltar serei despedida. E até saber com certeza que ficarei aqui preciso do emprego. Caso contrário nada me restará. Minhas economias são pequenas, e ficaria desamparada com minha filha. — Meu pai é um nobre — assegurou Marcus com orgulho. — Mesmo que decida não se casar com ele, jamais permitirá que você e sua filha fiquem na miséria. Providenciará tudo para que sejam bem cuidadas. — Se é tão nobre, por que mentiu para mim? — Só fez isso porque se importa com você. De nada adiantava, pois ela jamais aceitaria caridade. Mesmo se aceitasse não havia como prever seu futuro. Marcus leu sua mente, porque acrescentou: — E caso meu pai não providenciasse seu bem-estar eu providenciaria. Essas palavras a surpreenderam. — Por que faria isso? Ainda hoje de manhã pensava que eu estava me aproveitando de Gabriel. — Digamos que mudei de opinião. — Mas por quê? Ele deixou escapar uma risada agradável e quente. — Você me deixa perplexo, Vanessa. Fica me dizendo que deveria lhe dar uma chance, porém quando faço isso questiona meus motivos. Talvez seja você quem me deva dar uma chance. Ela sorriu e o tocou no braço. — Tem razão. Desculpe. Ele olhou para a mão que Vanessa pousara em seu braço e murmurou: — Desculpas aceitas. De repente Vanessa sentiu calor da cabeça aos pés. É por causa da vodca, declarou a si mesma. Afastou a mão do braço dele e tomou um grande gole da bebida. — Quer mais um drinque? — inquiriu ele. Ela fitou seu copo vazio enquanto o dele continuava cheio. Será que mais um não era uma boa ideia? Afinal, Mia estava com a babá. — Ora! E por que não? Afinal, não preciso dirigir de volta para casa. Marcus ergueu a mão, e George deve ter visto, pois momentos depois ressurgiu com um novo drinque. Desinibida por causa do álcool, Vanessa quis saber: — Seria muita indiscrição perguntar por que atirou seu celular na água? — Uma ex-namorada insistente — respondeu ele com franqueza. — Presumo que foi você quem terminou o romance. — Sim, depois que a flagrei no banco de trás da limusine com meu melhor amigo. — Nossa! Eles... estavam... — Sim. E com grande entusiasmo. Vanessa fez uma careta. Então Marcus perdera a mãe, a namorada e o melhor amigo. — Lamento — sussurrou. Ele sacudiu os pés dentro da água da piscina e tocou o pé de Vanessa, que precisou se conter para não dar um pulo. — Ela ainda tenta me convencer de que meu amigo a fez entrar na limusine sob falsas alegações e que depois a atacou. Vanessa afastou o pé imaginando se ele iria tocá-la de novo. — Então ela alegou que foi violentada? — Mais ou menos — respondeu Marcus dando de ombros.

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— O que disse seu amigo? — insistiu Vanessa. — Que foi ela quem o fez entrar no carro e se ofereceu. Vanessa sorriu. — Em quem você acredita? — Em nenhum dos dois. Nos 30 segundos que fiquei ali parado junto ao carro, em choque, não a ouvi protestar nem repeli-lo. E os gemidos que soltavam eram autoexplicativos. O pé de Marcus voltou a tocar o seu, e Vanessa sentiu um arrepio que não era adequado ao relacionamento entre os dois. — Você a amava? — Pensei que sim, mas agora percebo que era apenas atração sexual — respondeu ele sem hesitar. — Às vezes é difícil separar as coisas — murmurou Vanessa. Ele a fitou. — É assim entre você e meu pai? O que Vanessa sentia por Gabriel sem dúvida não era atração sexual. Ela tratou de responder: — Já lhe assegurei que não. Gabriel é um bom amigo, e eu o amo e respeito por isso. É justamente a questão física que ainda precisamos resolver. A franqueza de Vanessa nunca deixava de surpreender Marcus que insistiu: — Ele sabe como você se sente? — Fui completamente honesta com Gabriel. Está convencido que meus sentimentos por ele irão aumentar. Espero que tenha razão. Dessa vez quando o pé de Marcus se encostou ao seu ela teve convicção de que era intencional. Estaria flertando? E por que o coração dela disparara? Porque há algo muito errado em você, querida. Mas saber disso não a impediu de se reclinar para trás apoiada nos cotovelos e fazer a coxa encostar-se à dele. Isso que ela sentia no momento, sim, era desejo. E tão errado. — Soube na semana passada que a empresa do pai de minha ex está com graves problemas financeiros e à beira da falência — comentou Marcus. — Creio que ela pensou que uma aliança com a família real o tiraria do buraco. — Então ela o usou — sussurrou Vanessa mais para si mesma. — Parece-me uma suposição válida — retrucou ele sem emoção na voz. Bem, isso explicava o motivo para desconfiar tanto das mulheres, refletiu Vanessa. Balançou a cabeça com desprezo e bradou: — Que vagabunda! Marcus arregalou os olhos, e Vanessa bateu com a mão na boca. — Desculpe, foi totalmente sem propósito de minha parte dizer isso. Porém, em vez de ficar zangado, Marcus riu. — É mais apropriado do que imagina. E, infelizmente, Carmela não foi a única vagabunda que deixei entrar na minha vida. Mas em geral sou mais esperto. Creio que a morte de minha mãe me deixou muito vulnerável. Estava desesperado para encontrar alguém. Vanessa sorriu. — Quer ouvir algo irônico? Na escola flagrei meu namorado no banco de trás do carro com minha suposta amiga. Ele arqueou as sobrancelhas. — Era uma limusine? Vanessa soltou uma risada bem-humorada. — Não. Um calhambeque caindo aos pedaços. — E o que fez? — Atirei um tijolo na janela de trás. Ele riu mais ainda.

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— Talvez eu devesse ter feito o mesmo. — Fiquei louca. Acabara de fazer um trabalho sobre História para ele, que conseguiu a maior nota. Depois descobri por outra de minhas “amigas” que ele me usara porque eu era boa aluna. Fui estúpida por cair na esparrela e fazer seus deveres de casa. Todos no colégio sabiam que ele estava me usando. — E ninguém lhe contara antes? — Não tinha amigos de verdade. Um mês depois do incidente meu pai foi transferido para outro lugar. Foi uma das poucas vezes em que fiquei contente por partir. — Vanessa suspirou. — Desejei procurar o diretor e contar o que acontecera. Teria feito com que o hipócrita fosse expulso do time de futebol e da escola. — E por que não o fez? Ela o fitou nos olhos. — Porque eu seria expulsa também por ter feito os trabalhos escolares dele. E meu pai me mataria. — Não se culpe. Você é uma pessoa que confia nos outros com facilidade. Isso é bom. Nem sempre era, pensou Vanessa. — Infelizmente, pareço atrair homens desleais. Como se tivesse um cartaz na testa com a palavra simplória impressa e que só um mau-caráter consegue ler. — Nem todos os homens usam as mulheres — observou Marcus. — Todos que conheci usam. — Sem dúvida está exagerando — insistiu ele. — Acredite em mim, se houvesse um registro mundial das mulheres mais azaradas com os homens, eu estaria em primeiro lugar. Quando o pai de Mia me abandonou, jurei nunca mais permitir que um homem me usasse. Que jamais confiaria cegamente, mas então conheci Gabriel e ele é tão... maravilhoso. E sempre me tratou como se eu fosse especial. — Porque para ele você é especial — replicou Marcus. — Assim que voltou dos Estados Unidos não parou mais de falar a seu respeito. — Pousou a mão no braço de Vanessa e apertou de leve com o olhar cheio de compaixão. — Ele não está usando você, Vanessa. Mesmo enquanto falava, ele pensava que até o dia anterior a julgara uma mercenária. Quando fora que a situação mudara tanto? Por seu lado Vanessa não entendia por que se sentia tão atraída por Marcus. Talvez fosse melhor se ele tivesse continuado a agir com rudeza, pois estava se tornando claro que a cada momento se aproximava mais do homem errado nessa história. — ACHA QUE alguém pode se apaixonar de verdade em duas semanas como Gabriel se apaixonou por mim? — indagou a Marcus. Ele poderia responder que isso só acontecia em contos de fadas e que seu pai devia estar gagá. O que Gabriel sentia por ela não passava de deslumbramento e iria entender isso quando regressasse da Itália. Marcus devia dizer isso à queima-roupa para Vanessa que, do modo como andava confusa, acreditaria e ficaria desencorajada a continuar com o relacionamento. Afinal, não era esse o plano? Entretanto, Marcus não conseguia pronunciar as palavras. Algo mudara. Estava fascinado por ela, e por razões que nada tinham a ver com a felicidade de seu pai. E o aroma de Vanessa... Carmela se banhava em perfumes caros, mas Vanessa cheirava a sabonete e xampu. Podia sentir porque estavam sentados muito perto um do outro. Perto demais. Caso desejasse lutar contra essas sensações era melhor recuar. — Creio que quando se trata de amor tudo é possível — acabou por responder. Só que no caso de seu pai e de Vanessa não acreditava que assim fosse. Porém a ideia de vê-la magoada o incomodava. E isso seria inevitável.

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Seu pai cairia em si ao voltar e terminaria tudo, contudo Marcus esperava que agisse com delicadeza. Quem sabe, após esperar tantas semanas, a própria Vanessa desistisse? Agora que a conhecia melhor, Marcus já não tinha certeza sobre o que esperar. Nunca conhecera uma garota mais confusa e imprevisível quanto Vanessa. E, estranhamente, podia se relacionar com ela... entendê-la... apesar disso não fazer o menor sentido. George apareceu ao seu lado com dois drinques novos. Ela fitou o próprio copo com expressão de surpresa ao ver que estava vazio. — Ah, não deveria, no entanto seria uma vergonha desperdiçar bebida tão boa. Porém, esse é o último. George se afastou com os copos vazios, balançando a cabeça não se sabe se achando graça ou aborrecido. Marcus reparou nisso e voltou a pensar que ninguém a conhecia direito e sabia como julgá-la. — Gabriel me contou que foi amor à primeira vista com sua mãe — pronunciou Vanessa. — E foi um grande escândalo porque ela não era da realeza. — Sim, meus avós paternos eram muito tradicionais. Já haviam arranjado um casamento para papai, mas ele amava minha mãe. Ameaçaram deserdá-lo. Papai conta que foi a única vez em que se rebelou contra a vontade de meus avós. — Deve ter sido uma época difícil para sua mãe — comentou Vanessa. — Saber que a repudiavam tanto a ponto de deserdar o próprio filho. — Gostavam dela, todavia detestavam a ideia de minha mãe se tornar a rainha. Porém as coisas evoluíram depois que nasci. Meu pai era filho único e meus avós ficaram felizes por terem um neto. — Então Gabriel não se importaria se você se casasse com uma plebéia? — Meus pais sempre declararam que faziam questão que eu me casasse por amor. — Como eles fizeram — murmurou Vanessa. Ele aquiesceu com um gesto de cabeça. — Como era sua mãe? — perguntou Vanessa. O rosto dele se iluminou. — Linda, leal, franca ao extremo... um pouco diferente do que certas pessoas achavam conveniente em uma rainha. Era de uma família de classe média da Itália e respeitava muito as pessoas simples. — Fitou Vanessa. — De certa forma você lembra minha mãe. Vanessa piscou diversas vezes surpresa. — Lembro? — Sim. Ela era corajosa, inteligente e não tinha medo de dizer o que pensava. Mesmo que isso às vezes a deixasse em situações difíceis. E sempre foi um exemplo para as mulheres mais jovens de Varieo. — Corajosa? — repetiu Vanessa arregalando os olhos como se Marcus tivesse perdido o juízo. — Estou sempre com medo de fazer a escolha errada. — O que não a impede de escolher, e isso requer coragem. — Talvez, mas não sou exemplo para outras mulheres. Minha vida até hoje foi uma sucessão de decisões erradas. Será que ela não percebia o que conquistara? Então ele confessou: — Você é viajada, inteligente e bem-sucedida. É uma mãe excelente, criando uma criança sozinha. Por que as outras mulheres não a tomariam como exemplo? Ela mordeu o lábio e por um instante Marcus pensou que fosse chorar. — Essa é a coisa mais bonita que alguém já me disse. Contudo acho que não mereço. Sou um desastre gigante sempre prestes a se repetir. — É seu pai falando por você — observou Marcus. — Em parte sim, mas não posso negar que tomei péssimas decisões na vida.

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— Todo mundo faz isso. Como aprender sem cometer alguns erros de vez em quando? — O problema é que não aprendo nunca — sussurrou ela. Marcus refletiu que ela fora tão marcada pelas críticas do pai que perdera a confiança em si mesma. Como fazê-la perceber o quanto era rara e especial? Então as palavras saíram de sua boca sem sentir: — Você se menospreza, Vanessa. Se não fosse uma pessoa extraordinária, acha que meu pai se apaixonaria tão depressa e tão profundamente?

CAPÍTULO NOVE

SEUS OLHOS se encontraram e Marcus viu tanta esperança e vulnerabilidade no rosto dela que precisou lutar contra o ímpeto de tomá-la nos braços. Fitou seus lábios polpudos e imaginou como seria beijá-los. O súbito desejo o pegou desprevenido, no entanto não conseguiu afastar o olhar. Carmela e a maioria das outras mulheres que ele namorara gostavam de usar decotes profundos e roupas justas. Vestiam-se para chamar atenção. Usando short longo, camisa larga e sem maquiagem, o cabelo claro caindo displicente sobre os ombros, Vanessa não fazia exatamente o tipo sensual. Além de sua excepcional beleza, não parecia ostentar os atributos usuais de mulher sexy, porém ele não conseguia desviar os olhos. Mas ela desviou o rosto com ar de culpa, e Marcus percebeu que também andara tendo pensamentos impróprios. Vanessa esfregou os braços, e murmurou: — Está esfriando, não? — Quer entrar? — sugeriu ele. Vanessa balançou a cabeça em negativa, fitando o céu estrelado. — Ainda não. — Posso pedir que George nos traga algo quente para beber. — Não, obrigada. Ficaram em silêncio por alguns minutos, porém uma indagou o incomodava desde a conversa de tarde no parque. — Declarou temer que duas ou três semanas não fossem o suficiente para conhecer melhor meu pai — começou Marcus. — E que garantias teria disso se dispusesse de quatro semanas? Ou mesmo de seis? Vanessa deu de ombros. — Não havia garantia, mas pelo menos eu precisava tentar. Por ele. Por Mia. — E quanto a você? — Por mim também — consertou ela, evitando fitá-lo. Mas Marcus teve a impressão de que suas necessidades e interesses estavam em último lugar. No seu entender ou se sentia atração por alguém ou não se sentia. Não havia meio-termo para essas coisas. E parecia um pouco de egoísmo do pai forçá-la a algo quando sem dúvida ela hesitava. Vanessa tomou um gole da bebida e piscou diversas vezes. — Acho que já bebi demais. Estou um pouco zonza. E já é tarde. Devo ver como Mia está. Estranho, refletiu Marcus, pois apesar de não ter tido a intenção de passar toda a noite na companhia dela agora não desejava deixá-la.

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Então era mais um motivo para se separarem. — Quer que a acompanhe até sua suíte? — Acho que sim. Ainda me perco neste palácio. — Amanhã pedirei que Cleo faça um mapa para você. Dois dias antes Marcus pouco se importaria, mas agora desejava que Vanessa se sentisse confortável sempre no palácio. Era o mínimo que podia fazer. Levantou-se e sentiu o ar frio da noite na pele, estendendo a mão para ajudá-la. Vanessa tinha uma mão pequena e frágil, e foi bom segurá-la, porque ela perdeu o equilíbrio e quase caiu na piscina. — Tudo bem? — questionou ele, afastando-a da borda. — Sim. — Vanessa balançou a cabeça, agarrando a mão dele com força. — Não deveria ter tomado o último drinque. Foi demais. — Quer se sentar na cadeira? Ela pareceu pensar por um segundo e depois respondeu: — Acho melhor me deitar logo. Marcus pensou em sugerir que deitassem juntos, entretanto, nunca diria isso em voz alta. E, o mais importante, jamais faria tal coisa. É O cúmulo do constrangimento! Sentindo-se uma idiota, Vanessa se agarrou ao braço de Marcus que a conduzia pelo pátio. — E agora também vai pensar que sou alcoólatra — resmungou contrafeita. Marcus riu, fazendo surgir covinhas no rosto e deixando Vanessa acalorada. Ele precisava ser assim tão... charmoso? — Talvez pensasse se tivesse tomado dez drinques — respondeu ele, parando para Vanessa pegar seu celular e ambos calçarem as sandálias. — Mas só tomou três, nem terminou o último. Creio que a tontura tem mais a ver com a diferença de fuso horário. — E diferença de fuso horário pode dar tontura? — Claro, assim como o cansaço. Acredita que pode subir as escadas? Senão terei de carregá-la. E isso seria a humilhação final, refletiu ela. Não. Preferia se agarrar ao braço de Marcus. Ficava pensando como seria abraçá-lo de verdade. É claro que jamais faria isso e não estaria se sentindo assim se não fosse pelo álcool em seu cérebro. Bem, talvez se sentisse, mas jamais em tempo algum iria abraçá-lo ou acariciálo. Mesmo que estivesse feliz porque Marcus a elogiara por sua inteligência, coragem e sucesso. E deixara de lado a questão da beleza. Em geral sua beleza era o que a maioria das pessoas notava logo de início. O próprio Gabriel já mencionara centenas de vezes que ela era linda. Todavia Marcus parecia ignorar esse detalhe. — Acho que dou um jeito — murmurou ela. Mas ao chegarem às portas-janelas se deteve. — Será que poderíamos ir pelo jardim? — pediu Vanessa. — Por quê? Ela mordeu o lábio. — Estou envergonhada e receio que alguém me veja. Toda a criadagem já me julga uma pessoa horrível. Agora vão dizer que sou bêbeda e irresponsável. — O que importa? — Por favor — insistiu, empurrando Marcus na direção do atalho para o jardim. — Sinto-me tão estúpida. — Não precisa. Contudo se faz questão entraremos pela porta lateral. — Obrigada. Agora que se levantara Vanessa se sentia mais firme, mas continuou a segurar o braço dele. Só por garantia. Ou porque era bom. Marcus era alto, forte e passava a

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sensação de segurança. Além de ter a pele quente. Fazia com que sentisse salva. Tentou lembrar se já se sentira assim com outro homem, no entanto ninguém lhe ocorreu. Caminharam pelo atalho, deram a volta pela parte de trás do palácio na direção leste. Ou talvez fosse oeste. Ou norte. De repente tudo começou a girar, todavia de qualquer modo Vanessa se lembrava desse caminho que fizera com o sol forte. Ouviu um barulho às suas costas e, sendo moradora de Los Angeles, seu primeiro instinto foi abrir o celular no caso de precisar chamar a polícia, contudo então percebeu que já não segurava o aparelho. Estacou e largou o braço de Marcus. — O que houve? — interrogou ele. — Está passando mal? Ela balançou a cabeça com indignação. — Não estou tão bêbeda. Deixei cair meu celular. — Onde? — Acho que aqui perto, ouvi o barulho. Voltaram pelo mesmo caminho, escrutinando o solo por vários minutos, porém nada encontraram. — Quem sabe caiu nos canteiros de flores — sugeriu ela se ajoelhando para examinar a folhagem e caindo sentada. — Se está aí não encontraremos durante a noite — avisou Marcus. — Ligue para mim! — exclamou Vanessa, orgulhosa por ter tido uma ideia tão brilhante quando estava tão zonza. — Se tocar saberemos onde está. — Certo. Vou pular na piscina, pegar meu celular e ligar para o seu — falou ele em tom irônico. — Ah, tinha me esquecido. Não pode pegar um celular emprestado? — Que tal procurarmos amanhã? — Não! — bradou Vanessa. Marcus podia se dar ao luxo de atirar celulares na piscina, mas ela precisava do aparelho para trabalhar e não tinha secretária que a ajudasse. — Além de ter custado uma fortuna aquele telefone é a minha vida, minha agenda está lá. Meus contatos profissionais e minhas músicas. E se chover ou um animal o estraçalhar? Marcus suspirou fundo. — Espere aqui que irei pegar um celular. Ela franziu a testa. — Vai me deixar aqui sozinha no escuro? — Garanto que a propriedade é muito bem guardada e totalmente segura. — E os elementos perigosos que adorariam seqüestrar a futura rainha? Ele sorriu envergonhado. — Talvez eu tenha exagerado um pouco. Você ficará bem. Sim, Vanessa deveria ter esperado por isso. Marcus de início desejara mandála embora para casa. E por mais que irritasse o fato de saber que ele tentara assustála, todas as coisas boas que Marcus fizera nas últimas horas compensavam o início desastroso. — Fique próxima ao lugar onde acha que o seu celular caiu — insistiu ele — ou então levaremos a noite toda. — Vou ficar plantada aqui — obedeceu ela, sentando no gramado e cruzando as pernas. O solo ainda estava quente do sol. Marcus riu e balançou a cabeça. Ela o viu desaparecer pelo atalho e atrás de uns arbustos. Ficou ali sentada muito quieta, ouvindo os sons noturnos... grilos e a brisa leve no arvoredo. Refletiu que se apurasse o ouvido chegaria a escutar o murmúrio do oceano e sentir o cheiro de maresia. Mas talvez fosse apenas sua imaginação. De todos os lugares diferentes onde seu pai fora enviado a trabalho sempre preferira

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aqueles perto do mar. No entanto apesar de adorar isso, a vida na costa da Califórnia era muito cara. Talvez um dia morasse em Varieo. O palácio não ficava exatamente perto do mar, porém bem próximo. Após alguns minutos de espera começou a sentir as costas doloridas, então se deixou cair sobre a grama e fitou o céu. Era uma noite muito clara com a lua crescente e milhões de estrelas no céu. A única maneira de ver as estrelas em Los Angeles era dirigindo até as montanhas. Ela e o pai de Mia costumavam ir com o caminhão dele, ficavam fazendo amor e admirando as estrelas alternadamente. Não tinha certeza, mas talvez Mia tivesse sido concebida em uma dessas ocasiões. A boleia do caminhão. Um estranho lugar para engravidar, porém nada no relacionamento dela com Paul fora comum. Ela costumava se animar pensando que todos os relacionamentos “normais” que tivera não haviam dado certo. Até que chegara a casa e encontrara uma carta de Paul. Estivera errada. De novo. Ele nem tivera a coragem de dizer pessoalmente que não se sentia preparado para ser pai, e que seria melhor para Vanessa ficar sozinha. Depois encontrara um rei. Gabriel. E ali estava, deitada no gramado de um palácio real em uma noite de verão sob um céu forrado de estrelas. O que não era uma pose muito real. Imaginou se alguma vez a esposa de Gabriel ou ele mesmo haviam se deitado ali olhando para o céu, ou caminhado sob a chuva, descalços no jardim. Ou quando nevava. Será que Gabriel e Marcus já haviam feito um homem de neve juntos? Com olhos de carvão e nariz de cenoura? Anjos de neve? Guerra de bolas de neve? E será que ela seria feliz com alguém que não sabia relaxar e se divertir com coisas simples? Porque todo mundo precisava ser infantil de vez em quando. Ou estaria se preocupando à toa? Sofrendo de insegurança? Criando problemas que na realidade não existiam? Tentando sabotar algo bom porque tinha muito medo de aproveitar uma oportunidade? Ponderou a esse respeito algum tempo, até ouvir passos, erguer o rosto e se dar conta de Marcus caminhando em sua direção. Com olhar perplexo, ele passou os dedos pelo cabelo e parou ao seu lado com as mãos nos quadris, inclinando a cabeça. — Você está bem? Ela sorriu e aquiesceu com um gesto. — É uma linda noite, estava olhando para as estrelas. Ele pareceu não estar convencido. — Tem certeza de que não caiu no chão? — Tenho. Quer se sentar também? A menos que não tenha permissão. — Por que não teria? — inquiriu Marcus. — Talvez não seja uma atitude muito aristocrática. Marcus franziu a testa. — Você não está fazendo muito sentido, Vanessa. — E não sou sempre assim? — retrucou ela. Marcus riu. — Bem pensando. Então se escarrapachou ao seu lado sobre a grama, tão perto que seus braços se tocaram. E Vanessa gostou da sensação. Demais. Gostava de ficar perto dele. Era excitante e apavorante ao mesmo tempo. — Tem razão — assentiu Marcus. — É lindo este céu estrelado. Ela virou a cabeça para olhá-lo. — Você me acha esquisita, não? — Não exatamente esquisita, porém posso afirmar que jamais conheci alguém como você. — Não sei se sirvo para ingressar na realeza. Creio que não desistiria de fazer isso — confessou ela.

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— O quê? Deitar na grama? Vanessa aquiesceu com um gesto de cabeça. — Não entendo o que é ou não aceitável para vocês. Quero dizer, se me casar com Gabriel ainda terei permissão para fazer bonecos de neve? — Não vejo motivo para não fazer. — Poderei beber água da chuva e sentir o gosto da neve na língua? — Creio que sim. — E caminhar descalça na areia? Fazer tortas de lama com Mia? Marcus suspirou. — Nós da nobreza não somos tão esnobes que não possamos nos divertir também. Somos pessoas como quaisquer outras. Longe do olhar público levamos vidas bastante normais. Entretanto, normal para Vanessa era algo diferente do que Marcus pensava. — Tudo aconteceu tão depressa — confessou ela. — Não sei o que fazer ou o que esperar. Marcus girou a cabeça para fitá-la. — Está ciente de que se casando com meu pai continuará sendo a mesma pessoa de agora? Não existe poção mágica que a transforme de repente em alguém de sangue real. — Suspirou. — Mas existem algumas regras e protocolos que deverá seguir. Gabriel era quem deveria ter explicado isso para ela, não Marcus, refletiu Vanessa. Era Gabriel quem Vanessa precisava conhecer melhor. Entretanto, ela estava ali com Marcus. Confortavelmente. Tudo era confuso. E a bebida não estava ajudando. Tudo ficará mais claro amanhã, disse a si mesma. Conversaria de novo com Gabriel, e as coisas voltariam ao normal. Ela e Marcus seriam amigos, e essa atração ridícula terminaria. — Deveria ligar para seu pai e dizer onde está — sugeriu Marcus. — Para que ele me diga que estou cometendo outro erro estúpido? — retrucou Vanessa. — Está cometendo um erro? — interpelou Marcus. Se ela pudesse responder a essa pergunta seria ótimo. Então confessou: — No momento não sei. Ele suspirou com paciência. — Muito bem. Vou reformular a pergunta. Você acha que está cometendo um erro? Estaria aqui se achasse que tudo acabaria em desastre? Ela pensou um pouco e respondeu: — Não, não acho que estou cometendo um erro. Porque mesmo que não me case com Gabriel terei conhecido outro país, outra cultura, e isso é bom. — Então não importa que seu pai saiba ou não — comentou ele. — Se deseja que ele a respeite precisa confiar em si mesma e em suas decisões. — Você confia em suas decisões? — rebateu ela. — Na maior parte das vezes. Para ser um líder preciso ser seguro de mim mesmo. Sorriu de novo, e Vanessa observou: — Você tem um lindo sorriso, deveria sorrir mais. — Acho que é a primeira vez que sorrio tanto desde a morte de minha mãe. Ela deixava tudo alegre e divertido. Como você. Vanessa gostou do elogio, mas logo pensou se era esse o motivo para Gabriel ter se interessado por ela. Seria por que lembrava sua falecida esposa? Ela acabaria sendo a substituta? O prêmio de consolação? De repente Vanessa sentiu um aperto no estômago.

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CAPÍTULO DEZ

LEMBRE-SE DO que contou a Marcus, falou Vanessa para si mesma. Ainda que isso não dê certo não terá sido um erro. O pensamento a fez se sentir um pouco melhor. — Ah, a propósito... — Marcus retirou um celular do bolso. — Qual seu número? Vanessa se esquecera completamente da perda do telefone. Deu o número e logo ouviram o som conhecido... no bolso do short dela! Vanessa agarrou o aparelho com expressão confusa, e Marcus começou a rir. — Mas... ouvi quando caiu — justificou-se ela muito sem graça. — Seja lá o que ouviu sem dúvida não foi o celular. — Ah, desculpe. — Tudo bem — pronunciou ele levantando e ajudando-a a levantar-se também. — Que tal irmos dormir? Apesar de estar se sentindo uma grande idiota Vanessa gostaria de continuar a conversar ali. No entanto era tarde e provavelmente Marcus tinha compromissos importantes no dia seguinte. Quando a ajudou a se levantar o celular caiu de verdade. Ambos se abaixaram para pegá-lo e bateram as cabeças com força. Vanessa se empertigou tocando a testa com uma careta de dor. Ótimo. Dessa vez teria uma ressaca e uma concussão. Será que poderia ser mais idiota do que isso? Marcus afastou uma mecha de cabelo do rosto dela e examinou o machucado. Ah, céus. As pernas de Vanessa pareciam de geléia. O rosto dele estava tão próximo que podia sentir o calor de seu hálito então os olhos de Marcus fitaram os seus e o que ela viu ali a deixou trêmula. Ele a desejava. De verdade. Não faça isso, Vanessa. Nem pense nisso. — Está doendo? — quis saber Marcus com voz rouca. A única coisa que doía nesse momento... além de seu orgulho ferido... era seu coração por causa da culpa que sentiria quando falasse com Gabriel no dia seguinte. Porém mesmo isso não a fez retroceder e incentivou o beijo erguendo o queixo. E quando seus lábios se encontraram... Foi perfeito. O tipo do primeiro beijo que toda garota desejava. Indescritível. E mesmo que tivesse sido inevitável não podia deixar que acontecesse de novo. Dizer que fora um erro era muito pouco. Mas o problema era que não parecia errado. Ela se sentia como se tivesse sido a primeira coisa certa que fizera em anos. E por isso provavelmente continuava a beijá-lo. Com os braços passados em volta de seu pescoço e os dedos enfiados em seu cabelo. E continuaria a beijá-lo se Marcus não se afastasse de supetão, dizendo: — Não acredito que fiz isso. E ela se sentiu muito mal. Ele a arruinara.

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Marcus parecia doente de remorso. Ela também deveria estar, refletiu Vanessa. Acabara de trair Gabriel com seu próprio filho. Que tipo de pessoa depravada fazia isso? — Não foi sua culpa — sussurrou. — Eu permiti. — E por quê? — perguntou ele. — Porque... — Vanessa se deteve. Poderia responder que se sentia só ou que ele a fazia se lembrar tanto de Gabriel que ficara confusa. Mas era feio mentir, e havia apenas uma resposta honesta. — Porque quis que você me beijasse. E nada fez para me incentivar! Juro! Quero dizer, fomos nós dois. Estamos ambos confusos ou... algo assim. E é melhor não analisarmos muito. Para quê? O importante é que sabemos que foi errado e que não poderá acontecer de novo. Certo? — Certo — respondeu Marcus. — Então tudo acaba por aqui? — indagou ela. Em vez de dizer que sim, Marcus balançou a cabeça. — Talvez não. Parecia impossível, todavia o coração de Vanessa se apertou de angústia e se dilatou de prazer ao mesmo tempo. — Por que não? — Porque — respondeu Marcus —, se descobrirmos o motivo para isso ter acontecido, vou desejar fazer de novo. MARCUS A viu lutar contra as próximas palavras sem saber o que responder. Parecia que eram atores em uma telenovela. Essas coisas não aconteciam na vida real. Pelo menos não em sociedades civilizadas. Os homens não costumavam ter um caso com as mulheres de seus pais, e era exatamente isso que Marcus desejava. O que havia de errado com ele? Vanessa admitira não estar apaixonada por seu pai nem atraída fisicamente. Marcus acreditava firmemente que os dois não iriam se casar. Mas até que o relacionamento dela com Gabriel estivesse definitivamente encerrado ele não tinha o direito de tocá-la. E mesmo quando esse relacionamento tivesse acabado era provável que uma aproximação com ela trouxesse conflitos para ele e o pai. Isso se Marcus desejasse ter um relacionamento com ela. Depois de Carmela prometera a si mesmo permanecer sozinho por um bom tempo. E seu fascínio por Vanessa não devia ser mais do que uma sensação passageira como era para seu pai. Era bom lembrar disso. Tal pai, tal filho. — Marcus... — Não, você está certa — interrompeu ele. — Foi um erro, prometo que não acontecerá de novo. — Certo — murmurou ela. Marcus não soube se estava aliviada ou desapontada. Ou se acreditava nele. Nem ele mesmo acreditava em si. Caminharam em silêncio até a suíte de Vanessa que se sentia mais sóbria. — Adorei esta noite. E nossa conversa — declarou ela antes de entrar na suíte. — Obrigada. No instante seguinte desapareceu atrás da porta. Marcus ficou parado no corredor com a sensação de que nada fora resolvido e querendo bater na porta. Mas não sabia o que dizer à Vanessa. Isso deveria ser o fim do episódio, contudo alguma coisa não estava certa. Está perdendo o juízo, pensou dando uma risada amarga e se afastando. Sem saber muito bem o que fazia, pegou o celular e colocou o número de Vanessa na memória. Não dormia bem nas últimas noites e uma boa noite de sono faria maravilhas.

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Esta noite dormirei, disse a si mesmo, e de manhã tudo estaria claro. Entretanto, ficou rolando na cama sem parar de pensar em Vanessa e no beijo que nunca deveria ter acontecido. Cochilava e acordava, sonhos estranhos povoando sua mente. Às 6h se obrigou a deixar a cama com o cérebro tão confuso quanto na noite anterior. Depois do banho tomou o café e tentou se concentrar no trabalho, porém sua mente ficava voltando para Vanessa e Mia. George o informou que as duas haviam descido para a piscina por volta das 11h, no entanto Marcus resolveu não procurá-las. Ligou para alguns amigos a fim de almoçar fora, porém todos estavam ocupados ou já tinham compromisso, então almoçou em sua suíte e leu o jornal. A sensação de inquietação não desaparecia. — Nadar — sussurrou para si mesmo. O exercício sempre aliviava o stress. Passava da uma e meia da tarde, portanto Mia já devia estar fazendo sua soneca. E se encontrasse Vanessa, tanto melhor. Precisava confrontá-la e saber que poderia resistir. Vestiu o calção, uma camisa e desceu para a piscina. Vanessa continuava lá com a filha, dentro da água, o cabelo preso em um rabo de cavalo e sem maquiagem. Um desejo intenso de ficar perto dela o assaltou. E tudo em que conseguiu pensar foi: Marcus, você se meteu em uma grande encrenca. VANESSA CARREGOU Mia pelo lado raso da piscina balançando a filha que batia com os punhos na água, rindo e dando gritinhos de prazer enquanto molhava o rosto das duas. Depois de outra noite mal dormida tudo que Vanessa desejava era se deixar cair em uma das espreguiçadeiras e cochilar a tarde toda. É claro que pensando o tempo todo no beijo da noite anterior. Poderia chamar Karin e pedir que cuidasse da filha, mas Mia estava se divertindo tanto que não desejava tirá-la da água. Estava aliviada por Marcus não ter resolvido aparecer na piscina. Porém sentiase desapontada ao mesmo tempo. Quem sabe, como ela, também precisasse de um ou dois dias para esfriar. Ou nada tinha a ver com isso e estivesse muito ocupado com outras coisas. Então, à hora do almoço, já se resignara em não vê-lo nesse dia. — Acho que hoje estamos sozinhas — murmurou para Mia. — Vocês duas parecem estar se divertindo muito. O coração de Vanessa quase parou ao ouvir aquela voz e virou-se para ver Marcus caminhando em sua direção de calção e camisa. Céus! Fechou a boca depressa. — Olá! — saudou não muito entusiasmada. Por outro lado, Mia, ouvindo a voz já sua conhecida, quase quebrou o pescoço para olhar para trás e, quando conseguiu se virar, soltou um gritinho, batendo com as mãos na água muito contente. Marcus se sentou na beira da piscina enfiando os pés dentro da água Imediatamente Vanessa se lembrou do beijo e o que poderiam ter feito se continuassem a se beijar. Se ela o convidasse a entrar em sua suíte. Desastre. Era isso que aconteceria. Pelo menos o beijo não causara nenhum dano irremediável. Mais um beijo, e não saberia o que poderia acontecer. Por outro lado, Mia não sentia vergonha nenhuma de demonstrar suas emoções. Quase pulou dos braços de Vanessa tentando alcançar Marcus. Vanessa riu. — Acho que está pedindo para você entrar na água. Ele obedeceu e Vanessa ficou aliviada por não precisar mais ficar olhando para seu corpo por inteiro. Mia estendeu os braços, e ele questionou: — Posso pegá-la? — Claro. — Vanessa entregou o bebê para ele.

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Marcus segurou com cuidado como se temesse deixá-la cair. Garotinha de sorte, pensou Vanessa. — Se virá-la e passar o braço pela sua barriga, ela poderá brincar na água — avisou, e, assim que Marcus a virou, Mia começou a dar suas braçadas desengonçadas, atirando água para todos os lados. — Tudo bem se o cloro entrar nos olhos? — interrogou ele preocupado. — Não tem problema. Ela adora. Faz o mesmo na banheira. Não acreditaria na bagunça. E, quando está toda ensaboada, é como tentar agarrar uma enguia. Marcus riu. — Se quiser pode colocá-la na bóia redonda. Ela gosta de percorrer a piscina. — Vamos tentar — falou ele. Colocaram Mia dentro da bóia redonda com certa dificuldade, pois a menina parecia um polvo se debatendo o tempo todo. Marcus a fez circular em volta da piscina, e Mia não cabia em si de contente. Vanessa observava, feliz e preocupada ao mesmo tempo por ver como os dois se entendiam bem. — Ela adora a água — pronunciou por fim. — Gostaria de ter mais tempo para levá-la para nadar, e nosso prédio não tem piscina. Poderia ser no hotel onde trabalho, porém se ouso aparecer lá no meio de meu dia de folga logo me arrumam algo para fazer. — Algum dia Mia será uma campeã de natação — prognosticou Marcus. — Gabriel me contou que você competia. — Poderia fazer parte da equipe olímpica, porém os treinos começaram a interferir com meus deveres de príncipe e precisei desistir. Hoje em dia nado para me manter em forma. E sem dúvida estava em forma, refletiu ela, dizendo em voz alta: — Deve ter sido frustrante. — Sim, fiquei desapontado, mas passou. Sempre soube que minha vida estava destinada para outras coisas. Às vezes era difícil, quando Marcus se mostrava tão simples e jovial, imaginar que seria rei um dia. Gabriel, apesar de muito simpático, era mais sério e formal. Jamais admitia uma fraqueza. Entretanto, Marcus não tinha medo de mostrar sua vulnerabilidade. Vanessa olhou em volta e comentou: — Deve ter sido bom viver em um palácio. — Na verdade fiquei no colégio interno grande parte de minha infância — explicou Marcus. — Porém vinha para casa nas férias e feriados. — Não sei se mandaria Mia estudar em um colégio interno. Ficaria devastada de tristeza. — Bem, era o que se esperava na minha família. Foi o mesmo com meu pai e o pai dele. — E sua mãe? — Acho que ela sofreu mais ao me enviar para o internato, porém era rainha e tinha seus deveres também. — Se me casar com seu pai precisarei enviar Mia para o internato? — inquiriu ela com o coração apertado. Ele pareceu não saber o que responder, e por fim mencionou: — Acredito que sim. — E se me recusar? — É sua filha, Vanessa. Deve educá-la como achar melhor. Mas, se Gabriel adotasse a menina, ela seria filha dos dois. Até esse momento Vanessa achara que seria maravilhoso, mas agora tinha dúvida. E se tivessem pontos de vistas diferentes sobre a educação de Mia?

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— Creio que será mais uma coisa que teremos de discutir quando Gabriel voltar — sussurrou para depois perguntar de improviso. — Você enviaria seus filhos para o colégio interno? Mal interpelou e logo se arrependeu. O que tinha a ver com isso? — Acho que nunca pensei a respeito — respondeu Marcus. — Creio que discutiria o assunto com minha esposa. Vanessa imaginou se teria dado uma resposta politicamente correta ou se realmente falara com sinceridade, mas, afinal, o que interessava isso?

CAPÍTULO ONZE

VANESSA OUVIU seu celular tocar. Pensando que poderia ser Gabriel, saiu da piscina e correu para atender, o calor intenso da tarde secando seu corpo em poucos segundos. Mas seu coração se apertou ao ver o número do pai no visor. Já ensaiara centenas de vezes o que dizer quando ele chamasse, todavia agora estava apavorada. Deixou a mensagem cair na caixa postal e ouviu: — Ei, Nessy, é o papai. — Vanessa rangeu os dentes com o tom de voz que poderia ser endereçado para uma garotinha, contudo não para uma mulher feita. E detestava ser chamada de Nessy. — Pensei em falar com você antes que fosse para o trabalho. Só queria dizer que a reunião de meu pelotão será em Los Angeles na próxima semana e voarei até aí. Oh, que horror. Ela fechou os olhos e suspirou. — Quero ver minha netinha, e viajarei na quinta-feira cedo. Não viajaria para ver Vanessa, apenas Mia. Irônico, levando-se em conta que praticamente ignorara a existência da neta até ela ter três meses. Antes disso se referia à ela como o mais recente erro de Vanessa. Sabendo como ficaria desapontado, Vanessa só contara sobre a gravidez quando se tornara impossível esconder por mais tempo. E a reação do pai fora um comentário dito em tom cansado: — Vanessa, quando irá aprender? — Depois darei as informações sobre meu vôo — continuou a mensagem. — Pode me buscar no aeroporto. Até breve! Seu pai nunca pedia nada, só dava ordens. E se Vanessa tivesse outros planos? Mas era próprio dele resolver fazer uma visita de última hora e esperar que a filha estivesse à sua disposição. Vanessa precisava suportar seu olhar ofendido sempre que ela se negava a fazer suas vontades. Deus a livrasse de não fazer as compras de supermercado, preparar a comida e lavar a roupa. E, é claro, precisava tirar notas altas na escola. Mas dessa vez não estaria lá para desagradá-lo... o que em si já era uma forma de desagrado. A verdade era que, fosse lá o que fizesse, sempre seria um erro aos olhos de seu pai. Suspirou e deixou o celular sobre a mesa de novo, surpresa ao ver Marcus e Mia na beira da piscina olhando para ela. — Tudo bem? — quis saber ele. Ela forçou um sorriso. — Claro.

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— Está mentindo. — Por que pensa assim? — Porque está roendo a unha do polegar, e as pessoas em geral fazem isso quando estão nervosas. Diabos. Ele não perdia nada, hein? E o modo como a olhava a fazia pensar se fizera bem em usar o biquíni em vez do maiô inteiro. Sentia-se tão... exposta, mas ao mesmo tempo gostava de vê-lo olhando para ela. Queria que olhasse. Vanessa, isso está errado. — Tudo bem se não quer falar a respeito — declarou Marcus. Ela sentou na borda e enfiou os pés na água. — Meu pai me deixou uma mensagem de voz. Vai para Los Angeles na próxima semana. — Quer dizer que você vai embora? A antiga Vanessa poderia fazer isso. Ficaria preocupada em não desapontar o pai. Entretanto, tinha 24 anos. Era hora de cortar o cordão umbilical e viver sua vida como desejava. Era a nova Vanessa, confinante e forte que já não se importava com as críticas do pai. Pelo menos assim esperava. — Não vou embora — declarou. — Vou ligar para ele e dizer que não estou em Los Angeles, e que terá de me visitar em outra ocasião. — E quando ele perguntar onde você está? Essa era a parte difícil. — Direi a verdade. Você é forte, tratou de lembrar a si mesma. É responsável pelo seu próprio destino e o que seu pai pensa não importa. E, se repetisse isso muitas vezes, acabaria acreditando. MARCUS PAROU atrás de Vanessa, refletindo que de todas as moças que levara ao museu, ao longo dos anos... e haviam sido muitas... ela era a mais interessada. Não ficava apenas olhando para as obras de arte disfarçando o tédio. Absorvia as informações, lendo todas as placas e descrições com cuidado como se quisesse memorizar tudo. Nesse momento ela admirava um artefato da guerra civil de 1899 de Varieo. — Adoro história — confessou com um sorriso. — Era minha matéria favorita na escola. Estou demorando demais? — Não tem importância — tranqüilizou Marcus. Como não tivera importância passar a tarde na piscina com ela e Mia no dia anterior. E não fora por causa do biquíni cor-de-rosa que ela usara. Bem, não só por causa do biquíni. Ele simplesmente... gostava da companhia de Vanessa. — Apenas gostaria que Mia se aquietasse e ficasse deitada no carrinho — murmurou Vanessa erguendo mais a menina no colo. — Ela precisa tirar uma soneca. Mas sempre que tentava colocar Mia no carrinho a criança berrava. — Deixe-me segurá-la um pouco — sugeriu Marcus. Mia apoiou a cabecinha em seu ombro e ficou quieta. — Ela gosta mesmo de você — comentou Vanessa. O sentimento era mútuo. Marcus estava gostando de ter um bebê no palácio. Embora a ideia de que essa criaturinha fosse se transformar em sua meia-irmã o deixasse mal. Não acreditava que isso fosse acontecer. Mas talvez significasse que estivesse pronto para começar sua própria família. Oito meses antes teria negado isso veementemente. Porém tanta coisa mudara desde então. Sentia-se diferente e sabia que certamente era por causa da visita de Vanessa. Prosseguiram para a próxima exposição e Vanessa parecia memorizar o nome de cada batalha e as datas. Marcus ficou mais atrás observando, memorizando, aprendendo cada traço de seu rosto, a curva da nuca e dos ombros. Sentia a

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necessidade de fazer isso o tempo todo nos últimos dias, e o impulso se tornava cada vez mais forte e difícil de ignorar. E ele sabia, pelo modo como ela o fitava e corava sempre que estava por perto, que sentia o mesmo a seu respeito. Quando chegaram ao final da galeria, Vanessa se voltou e sorriu. — Quem é você? O encantador de bebês? Ele baixou os olhos para ver Mia adormecida em seu ombro. — Bem, você assegurou que ela precisava de uma soneca. — Tente colocá-la no carrinho agora — sugeriu Vanessa. — Não me importo de carregá-la — protestou Marcus. — Tem certeza? — Claro. Por que nos arriscarmos a acordá-la? Na verdade, Marcus gostava de carregar Mia. E fazia isso cada vez com maior freqüência. No dia anterior a levara nos ombros enquanto passeavam pela faixa de praia particular na marina. Vanessa usava seu ridículo chapéu de palha e Mia se deliciava, rindo e puxando o cabelo dele. Essas atividades simples o deixavam mais feliz e se sentindo mais humano. Com Mia adormecida em seus braços foram para a próxima sala do museu. — Você é ótimo com Mia — comentou Vanessa. — Tem muito contato com crianças? — Alguns amigos meus têm filhos pequenos, mas não os vejo com frequência. — Os amigos ou as crianças? — Todos. Desde a morte de minha mãe não me sinto muito social. Nos últimos tempos só compareço a cerimônias formais onde crianças não são admitidas, em especial as muito pequenas. — Parece solitária — sussurrou Vanessa. — O quê? — Sua vida. Todo mundo precisa de amizades. Será que sua mãe ficaria feliz sabendo que anda isolado de todos? — Não, não ficaria. E o único grande amigo que tinha me traiu. Sinto-me melhor sozinho. — Posso ser sua amiga — comunicou ela em um impulso. — E sei o que é ser traída por amigos. Pode crer que nunca farei isso com você. Apesar de tudo que aprendera sobre ela nos último três dias, a oferta brusca o espantou. Portanto, ficou espantado com suas próprias palavras a seguir: — Nesse caso, quer jantar comigo no terraço hoje? Foi a vez de Vanessa ficar surpresa. — Hummm, sim, adoraria, a que horas? — Que tal às 20h? — Mia estará dormindo. Perfeito. E creio que se refere ao terraço da ala oeste, fora da sala de jantar? — Esse mesmo. Vejo que andou estudando o mapa do palácio. — Já que ficarei por aqui ainda um pouco é melhor aprender os caminhos do palácio. — Vanessa examinou o relógio de pulso e franziu a testa. — Uau, como é tarde. Vamos voltar? — Não há pressa se quer ficar — retrucou Marcus. — Gabriel prometeu entrar em contato às 16h — explicou ela contrafeita. Ela estava ansiosa para falar com seu pai, refletiu Marcus. Seria ciúme o que sentia nesse momento? Forçou um sorriso e manteve um tom de voz neutro ao dizer: — Então é melhor irmos embora já. NÃO TEM motivo para ficar nervosa, disse Vanessa a si mesma pela décima vez desde que deixara o quarto e se dirigira para o terraço. Haviam passado o dia inteiro juntos. Marcus fora um perfeito cavalheiro, e Vanessa tinha convicção de que continuaria sendo no jantar. Era provável que só a tivesse convidado porque prometera entretê-la. Ou então queria de fato ser seu amigo.

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Mas como fora ridículo de sua parte propor uma amizade entre os dois! Como se Marcus não tivesse centenas de pessoas a sua volta disputando sua amizade. O que tornava ela, Vanessa, tão especial para propor tal coisa? Ou será que no íntimo desejara sublinhar que amizade era tudo que podiam ter? Sim, tinha certeza de que com o tempo pararia de tecer fantasias sobre beijos e abraços com Marcus. Imaginava que ele devia ser quente e sensual e que a faria ir às nuvens. Controle-se, Vanessa. Só está dificultando as coisas para si mesma. Chegou à sala de jantar e passou pelas portas abertas que davam para o terraço exatamente às 19h59. Velas brilhavam em castiçais sobre uma mesa redonda e pequena posta para dois. O champanhe se encontrava em um balde de gelo ao lado. Além do terraço, passando pelos jardins com suas flores multicoloridas e perfumadas, o sol desaparecia em um espetáculo esfuziante de cores do vermelho ao laranja, em um céu muito azul. Uma brisa fresca espantava o calor da tarde. O cenário ideal para um jantar romântico, porém deveria ser apenas uma refeição entre amigos, não deveria? — Vejo que encontrou com facilidade. Ela deu meia-volta e viu Marcus logo atrás, encostado ao batente da porta, as mãos nos bolsos, a camisa branca contrastando com a pele morena, e um paletó da mesma cor de seus olhos. Penteara o cabelo para trás, porém uma mecha teimosa caía sobre a fronte. — Você está muito elegante — elogiou Vanessa , logo desejando não ter dito nada. Tratava-se de um jantar entre amigos, lembrou. Não devia fazer elogios pessoais. — Parece surpresa — replicou ele arqueando as sobrancelhas. — Não! Claro que não. Só quis dizer... — percebeu que Marcus sorria. Estava provocando. Então ela apontou para o vestido que usava cor de coral e sem mangas. Quisera parecer bonita, mas não sexy, e essa roupa era bastante simples. Não marcava suas curvas, no entanto ao mesmo tempo não era severa. — Não sabia bem como me vestir para este jantar. Ele a fitou de cima a baixo sem disfarçar e declarou: — Está adorável. Falou apenas com educação, porém o olhar era de desejo, e Vanessa sentiu uma onda de excitação percorrer seu corpo. Sentiu-se tão exposta que em vez do vestido simples parecia estar usando uma camisola transparente... ou nada. E a pior parte era que estava gostando. Adorava o modo como ele a olhava. Mesmo que fosse errado. Marcus apontou para a mesa. — Vamos sentar? Ela aquiesceu com um gesto de cabeça e ele puxou a cadeira, os dedos tocando de leve seus ombros nus. Vanessa estremeceu. Ah, meu Deus. Lera romances onde bastava um determinado homem roçar a pele de uma mulher que ela estremecia, isso, porém, nunca acontecera na vida real. Na verdade, sempre achara isso muito tolo. Mas mudara de ideia. — Champanhe? — ofereceu Marcus. Ah, podia ser uma péssima opção. A última coisa de que Vanessa precisava era perder o controle de seu raciocínio. Já estavam muito comprometidos, todavia a garrafa fora aberta e detestava ver champanhe... principalmente daquela qualidade... ser desperdiçado. — Só uma taça — ouviu-se dizer, ciente de que não deveria tomar a segunda nem a terceira. Marcus serviu a ambos e se sentou em frente erguendo sua taça. — Ao meu pai.

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Havia uma mensagem em seu olhar, porém Vanessa não entendeu o que desejava dizer. Será que o brinde significava que Gabriel estava presente entre eles e que seriam apenas amigos? Ou queria dizer outra coisa? Sem tentar analisar por mais tempo, Vanessa ergueu sua taça também. — A Gabriel. Imediatamente um dos ajudantes de George surgiu com uma bandeja de prata e serviu a sopa. Chegou a inclinar a cabeça com cordialidade quando Vanessa o saudou. Karin também parecia mais calorosa a seu respeito, e a empregada particular de Vanessa chegara a sorrir e dera bom-dia ao entrar em seu quarto para fazer a cama. A criadagem não estava exatamente estendendo um tapete vermelho para ela... mas já era alguma coisa. Achou delicioso o caldo de carne com bolinhos. A comida era sempre excelente no palácio. — Comunicou-se com meu pai hoje? — perguntou Marcus. Vanessa não queria mais falar sobre Gabriel, contudo respondeu: — Sim, esta tarde. — Ele lhe falou que minha tia continua na UTI? — Disse que ela não passou bem essa noite. Que teve muita febre e talvez precise ser operada. — Suspirou. — Sem dúvida ele não poderá voltar em breve. — Ele me indagou se estou cuidando bem de você — comentou Marcus. Ah, sem dúvida que estava. — E questionou se a trato com consideração. O coração de Vanessa pulou mais forte, e ela interrogou em um murmúrio: — Acha que...? — Suspeita de algo? — completou Marcus com brusquidão, balançando a cabeça. — Não. Acho que ainda está preocupado que eu não seja gentil com você. Ah, ele era muito “gentil”, sim. Até demais. — E mencionou — continuou — que você parecia constrangida em falar a meu respeito. Na verdade, Vanessa não sabia o que dizer a Gabriel. Temia que se mencionasse os brincos ou o passeio à noite Gabriel ficasse desconfiado. Não sabia até onde a atitude dela com Marcus era normal ou se já extrapolara os limites do adequado, então achava melhor não falar a respeito. — Da próxima vez que falar com Gabriel direi como você é bom anfitrião. Ficaram em silêncio até terminar a sopa, e depois Marcus inquiriu: — Já falou com seu pai? Ela baixou os olhos para o prato. — Ainda não. Ergueu os olhos e viu que ele a fitava intensamente. — Vou falar — garantiu. — Quanto mais esperar mais difícil será. Vanessa tomou um gole de champanhe. — Sei disso. Preciso esperar pela hora certa. — E quando será? Ela engoliu em seco. — Possivelmente amanhã. Mas o problema é que quando posso telefonar é madrugada onde ele está. Marcus arqueou as sobrancelhas. — Está bem — resmungou ela. — Mentira. Sou uma grande medrosa, é isso. O criado voltou para retirar os pratos de sopa. Quando a salada foi servida, o celular de Vanessa tocou. Era Karin. Talvez estivesse tendo problemas com Mia. Vanessa atendeu. — Mia acordou com febre, senhora.

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Os dentinhos que surgiam davam febre, e Vanessa quis saber: — Você verificou a temperatura? Estava muito alterada. Vanessa empalideceu, murmurando: — Vou subir. Marcus perguntou o que acontecera. — É Mia. Está com febre. Alta. Sem hesitação, Marcus pegou seu celular e ligou. — George, chame o dr. Stark e diga para vir ao palácio imediatamente.

CAPÍTULO DOZE

EXCETO POR um leve resfriado na primavera, Mia jamais ficara doente de verdade em sua curta vida. Apavorada, Vanessa correu para a suíte com Marcus nos seus calcanhares. Karin deixara Mia só de fralda e a embalava, o rosto do bebê estava vermelho e as pálpebras, fechadas. Vanessa correu para a filha e a tomou nos braços, dizendo à Karin para pegar gotas contra febre no armário do banheiro. Marcus interpelou: — Posso fazer alguma coisa? — Faça o médico subir o mais depressa possível — pediu Vanessa muito assustada. Karin voltou com as gotas e Vanessa administrou a dose certa. Mia engoliu sem problemas. — Acredito que não seja nada sério — tranqüilizou Marcus. — E se desse um banho para baixar a febre? — Por que não espera pelo médico? — sugeriu ele. — Chegará logo. — É pediatra? — Médico da família, mas garanto que muito competente. Vanessa nem por um minuto duvidava da competência do médico da família real. — Sente-se — pediu Marcus. — Os bebês pressentem quando a mãe está nervosa. — Desculpe ter interrompido o jantar. Por que não desce e termina de comer? Ele cruzou os braços sobre o peito de modo determinado. — Não vou sair daqui. Apesar de estar acostumada a tratar da filha sozinha, Vanessa agradeceu pela companhia. O dr. Stark, um senhor de rosto amável, chegou logo em seguida carregando sua malinha preta. Logo indagou: — Qual a idade da criança? — Seis meses. — Saudável? — Sim. Até hoje só teve um leve resfriado. — As vacinas estão em dia? Vanessa balançou a cabeça de modo afirmativo. — Veio de avião para cá recentemente?

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— Há cinco dias. Ele aquiesceu com um gesto de cabeça, e tocou a testa de Mia. — A senhora trouxe a ficha médica de sua filha? Vanessa correu até seu quarto a fim de buscar, e Marcus se ofereceu para segurar Mia. Vanessa pegou a carteira de vacinação e a pasta onde guardava todas as receitas dadas para Mia, voltando logo para o quarto. Marcus se sentara na cadeira de balanço e mantinha Mia nos braços. Karin permanecia à porta com ar confuso. O médico examinou os papéis e pediu que deitassem a menina. Marcus a colocou sobre o trocador de fraldas com o cuidado e carinho de um pai enquanto o dr. Stark examinava o bebê com atenção. Quando examinou seus ouvidos Mia começou a se debater. Quando terminou, Vanessa questionou: — É sério? — Ficará bem — garantiu o médico dando um tapinha amigável em seu braço. — Como logo suspeitei, trata-se de uma infecção no ouvido. Vanessa ficou tão aliviada que quase chorou. Agarrou Mia e a apertou de encontro ao coração. — Como foi pegar essa infecção? — murmurou. — Pode ser um vírus. Alguns antibióticos resolverão. E as gotas que a senhora deu baixarão a febre. Haviam começado a fazer efeito, pois as faces de Mia já não estavam tão vermelhas e ela abriu os olhinhos. — Algumas crianças são sensíveis à pressão no avião — explicou o médico. Vanessa sentiu o coração apertado. — O que fazer para que não aconteça no futuro? — interrogou. — Será melhor mantê-la longe dos aviões até a infecção terminar, e quando voltar para casa tente tampões de ouvido. Ajudará a regular a pressão. Isto é, se ela voltasse para casa. Vanessa olhou para Marcus que a fitava também. Estaria pensando o mesmo? — No momento para ela a melhor coisa é uma boa noite de sono — prosseguiu o dr. Stark. — Mandarei entregar os antibióticos logo. Siga as instruções e me telefone se a menina não tiver melhorado pela manhã. Do contrário virei vê-la dentro de dois dias. — Obrigada, dr. Stark — disse Vanessa apertando a mão do médico. Depois se voltou para Karin e avisou: — Vou levar Mia para o meu quarto. Obrigada por ter me chamado logo. Karin sorriu e foi embora. Marcus tirara o paletó e se recostava na parede. — Obrigada — agradeceu Vanessa. — O que foi que fiz? — arqueou ele as sobrancelhas. — Chamou o médico depressa. E ficou ao meu lado. — Olhou em volta. — Creio que não há um berço portátil no palácio. Mia se mexe tanto que tenho medo de que caia da minha cama. Marcus pegou o celular murmurando: — Se não temos logo teremos. O remédio chegou em 15 minutos, e Vanessa administrou uma dose para a filha. Meia hora depois um berço portátil estava no seu quarto ao lado da cama. Vanessa agradeceu a Marcus outra vez, colocou a filha no berço, e a cobriu com uma manta leve. Tocou a testa de Mia com cuidado e constatou que a temperatura estava quase normal. Voltou para a saleta onde Marcus a esperava. Estava escuro e apenas um abajur iluminava o ambiente. Ele parara junto às portas-janelas e fitava a noite lá fora. O

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primeiro impulso de Vanessa foi se aproximar, apoiar a cabeça em seu ombro e passar os braços pela sua cintura. Depois ele a abraçaria e a beijaria como fizera na noite anterior. Entretanto, por mais que desejasse isso... sofresse por isso... não faria nada. — Mia já está melhor — anunciou. — Que bom. O telefone sobre a escrivaninha começou a tocar. Era Gabriel. Graças a Deus não podia ver o rosto de Vanessa e sua expressão de culpa pelas coisas em que andara pensando. — George me ligou — declarou ele — e me contou que Mia estava doente. — Sim, acordou com febre. O dr. Stark veio logo. É uma infecção de ouvido. Está tomando antibióticos. — Quer que eu volte já? — inquiriu Gabriel. Chegara o momento crucial. Ela poderia responder que sim, fazer Gabriel voltar e terminar de uma vez com aquela... loucura com Marcus. Entretanto, respondeu: — Até você chegar ela já estará completamente recuperada. — Tem certeza? — Sim. Você é mais necessário onde está agora. Além disso, Marcus está ajudando — explicou Vanessa, olhando para as portas-janelas. — Então telefone se precisar de algo, dia ou noite — pediu Gabriel. — Farei isso, prometo. — É melhor você ir. Telefono amanhã. — Certo. — Boa noite, querida Vanessa. — Boa noite, meu querido — pronunciou ela com sinceridade. Amava-o como a um amigo. Então por que se sentia uma hipócrita? E tão constrangida por dizer essas coisas na frente de Marcus? É claro que sabia por quê. Desligou e se voltou para Marcus. Ele avançara até o sofá e cruzara os braços sobre o peito. — Seu pai — informou Vanessa sem necessidade. — Ele se ofereceu para voltar para casa? Ela aquiesceu com um gesto de cabeça. Marcus avançou em sua direção. — E você falou não? Ela tornou a concordar com um gesto. — Por quê? Não era o que desejava? — Era... quero dizer, é. Apenas acho... — Na verdade tinha medo que Gabriel voltasse, fitasse seu rosto e logo descobrisse seus sentimentos a respeito de Marcus. Gabriel confiava nela, amava-a, e ela o traíra. E continuava a trair cada vez que tinha um pensamento impróprio a respeito de seu filho, porém não conseguia se controlar. Ou talvez não quisesse se controlar. — Acho que precisamos de um tempo para resolver isso antes que Gabriel volte. — Resolver o quê? — Marcus quis saber. — Isso. Sobre nós dois — admitiu ela. — Pensei que não existisse nada entre nós dois. Que fôssemos fingir que nada acontecera. Parecera uma boa ideia na noite anterior, porém agora Vanessa não tinha tanta segurança. — Preciso... de tempo para pensar — sussurrou. Ele se aproximou mais com os olhos escuros presos aos dela. — Por favor, não olhe para mim desse jeito — pediu ela com o coração batendo forte.

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— Que jeito? — Como se quisesse me beijar de novo. — E quero — confessou Marcus. Ah, meu Deus. Os joelhos de Vanessa pareciam de gelatina. — Sabe muito bem que é uma péssima ideia. — Sim, sei — concordou Marcus. — Não deve fazer. — Então me mande não fazer — sugeriu ele. Queria que ela fosse a responsável? — Será que não prestou atenção em nada que lhe confessei esta semana? — interpelou irritada. — Ouvi todas as palavras. — Então deve saber que não pode pôr a responsabilidade inteira em cima de mim, considerando minha tendência para tomar decisões erradas. O sorriso dele a fez sentir um intenso calor. — No momento estou torcendo por isso — murmurou Marcus.

CAPÍTULO TREZE

VANESSA ESTENDEU as mãos e segurou as faces de Marcus, passando o polegar sobre a covinha adorável, algo que desejara fazer desde a primeira vez que o vira sorrir. O que estavam para fazer era uma completa loucura, pois dessa vez ela acreditava que não pararia em um beijo. Entretanto, com Marcus parado na sua frente e fitando-a com tanto desejo não conseguiu se conter. Seu último pensamento quando ele inclinou o rosto era como tudo isso era errado e ao mesmo tempo maravilhoso. E então se beijaram. Mas dessa vez foi diferente, de modo estranho era com se tivessem esperado por isso desde que ela descera do avião. Como se fosse inevitável. Era difícil para Vanessa pensar que chegara a não gostar de Marcus. Um grande idiota, fora esse seu pensamento. Como se enganara, refletiu. E sobre tantas coisas. — Quero você, Vanessa — sussurrou ele de encontro aos seus lábios. — Não me importo se é errado. Ela se afastou para mirá-lo. Como era possível só conhecer esse homem lindo há cinco dias quando nesse instante parecia uma eternidade? Ela começou a tirar o paletó de Marcus, descendo as mangas pelos braços, e fazendo com que caísse no chão. Deslizou as mãos pelo seu peito musculoso do modo como pensara em fazer desde que o vira com a camisa desabotoada. A sensação foi esplêndida. Marcus gemeu. E então, com se a última gota de controle evaporasse, beijou-a com fúria, ergueu-a do chão e a imprensou contra a parede. Ela perdeu o fôlego, passou as pernas por seus quadris e enfiou os dedos nos seus braços. Esse era o Marcus que iria possuí-la de todas as maneiras. Tudo no íntimo de Vanessa gritava: “Sim!” Marcus a colocou no chão de novo e ergueu a bainha de seu vestido, até a cabeça... tentando tirá-lo sem danificar a seda delicada. Quando a viu apenas de calcinha e sutiã, parou e apenas a olhou.

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— Você é deslumbrante — murmurou. Não bonita, mas deslumbrante. Será que via mais em Vanessa do que apenas seu rosto? Quando ela olhava para Marcus não via realeza, não um príncipe, no entanto um homem carismático, bom e divertido, e quem sabe um pouco vulnerável também. Um homem que nesse instante a tratava com a mesma afeição. Será que seus sentimentos por Gabriel jamais passariam de amizade? Que Marcus era o homem do seu destino? Porque por mais que lutasse estava definitivamente se apaixonando por ele. Tomou-lhe a mão e o levou para o sofá. Uma parte em seu íntimo dizia que devia sentir remorso pelo que estava fazendo... e uma semana atrás sem dúvida se sentiria assim...mas enquanto tiravam o resto de suas roupas, beijando-se e acariciando-se mutuamente, tudo parecia muito natural e certo. Quando ele ficou despido, Vanessa se permitiu um momento para admirá-lo. Fisicamente era perfeito, mas isso não vinha ao caso. Era sua mente o que mais a fascinava. Quem ele era no íntimo. Vanessa se recostou no sofá, puxando-o para si, de modo que Marcus se encaixou no meio de suas coxas. Sorriu, afastando o cabelo de seu rosto. — Sabe que isso é uma loucura, não sabe? — Sei — respondeu ela. — E imagino que não você não costuma fazer loucuras? — Nunca. — Eu também não. Posso cometer muitos enganos, todavia não sou aventureira. — Acariciou seu rosto másculo, o pescoço, e deslizou os dedos pelos ombros largos. Não conseguia parar de tocá-lo. — Talvez por isso seja tão bom. Talvez nós dois precisemos de um pouco de loucura. — Deve ser isso. — Ele se inclinou para beijá-la, contudo parou de repente e praguejou. — Se vai me dizer que precisamos parar agora, vou ficar muito zangada — alertou Vanessa. — Não, apenas me lembrei que não trouxe proteção. — Não? Os príncipes não devem estar sempre preparados? — Franziu a testa tentando se lembrar. — Ou são os escoteiros? — Na verdade, não estava planejando que isso acontecesse — sussurrou ele. — Sério? Marcus deixou escapar uma risada. — Sim, sério. Mas então você chegou usando aquele vestido... — Aquele vestido? Está brincando? É a coisa menos sexy que possuo no armário. Usei para não tentar você. Ele sorriu. — Na verdade poderia estar vestindo um saco de batatas que eu gostaria de arrancá-lo do seu corpo. É você quem desejo, não suas roupas. Era excitante saber que a desejava tanto e que se sentia atraído mesmo que ela estivesse em um de seus piores dias. — Vou ter de correr para o meu quarto e pegar proteção — anunciou Marcus sem parecer muito entusiasmado com a ideia. — Eu tomo pílula, portanto não se preocupe — anunciou Vanessa. — Tem certeza? — Sim. E agora que resolvemos essa questão, podemos parar de conversar e ir diretamente para o que importa? Marcus riu. — Pensei que as mulheres gostassem de conversar. — Sim, mas até nós temos nossos limites. Não precisou pedir duas vezes e ali, deitada com ele, beijando e abraçando, sentia-se totalmente à vontade. Não havia nada do constrangimento comum ao primeiro encontro. E no instante em que ele a penetrou todos os vestígios de reserva

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e hesitações desapareceram. Todas as preocupações e medos sumiram da mente e do coração de Vanessa. E ela soube no instante em que Marcus começou a se mover dentro de se corpo... devagar e gentilmente de início, depois com mais força, até que ambos escorregaram para o tapete... que isso estava destinado a acontecer. Ele a fazia se sentir uma mulher realizada. Adorada, desejada, protegida e forte como se nada nem ninguém pudesse derrubá-la. Ao mesmo tempo se sentia devastada, porque por mais que quisesse, Marcus não seria seu, e temia que nunca mais um homem a fizesse se sentir tão feliz outra vez. — ESTAMOS PERDIDOS, não? — perguntou Vanessa a Marcus, deitada ao seu lado, nua, no chão junto ao sofá, os seios despidos e arfantes após o ato sexual maravilhoso. Fora o melhor de toda a sua vida. Talvez tivesse sido a antecipação que o tornara tão especial ou o fato de ser proibido. Talvez porque ela não se envergonhasse de nada em seu próprio corpo nem tivesse inseguranças em demonstrar os próprios sentimentos. Ao contrário de muitas mulheres, sempre se entregava por inteiro. Ou, quem sabe, não era nada disso, e Marcus simplesmente gostava dela. A essa altura, que diferença fazia? E estava certa, os dois estavam perdidos. Como Marcus explicaria o que acontecera para Gabriel? — Desculpe, mas dormi com a mulher que você ama, e creio estar me apaixonando por ela também, porém não se preocupe, você encontrará outra. Havia um código de ética entre os homens quando se tratava de namoradas e esposas, e isso era ainda mais forte dentro da família. Era uma linha que um homem de bem não cruzava. No entanto Marcus cruzara, e o pior era que não se sentia culpado. — Meu pai não pode ficar sabendo — respondeu. Ela aquiesceu com um gesto de cabeça. — Sei disso. E agora não posso me casar com ele. — É verdade. — Marcus se sentiu mal a esse respeito, mas talvez fosse melhor assim. Agora acreditava que Vanessa viera até lá com a melhor das intenções, porém obviamente não amava Gabriel, seu pai, como uma futura esposa deveria amar. Quem sabe, se metendo no meio, ele agira a favor de todos. Vanessa era tão meiga e boa que podia imaginá-la comprometendo a própria felicidade para deixar seu pai feliz. No final ambos ficariam infelizes. Então, resumindo, ele os salvara de um casamento que já estava fadado à ruína. Ou estava apenas tentando racionalizar sobre uma situação que era totalmente irracional? Ela entrelaçou os dedos aos dele. — Não foi sua culpa, portanto, por favor, não se culpe. Ele apertou sua mão. — Não foi culpa de ninguém. Às vezes as coisas simplesmente... acontecem. Não precisa fazer sentido. Ela virou o rosto para olhá-lo. — Sabe que por mais que nos gostemos, nunca poderemos... — Sei — interrompeu ele, sentindo uma opressão no peito, e com ímpetos de gritar. Vanessa era a mulher certa para ele. Seu destino, ela e Mia, mas era impossível. Impossível se esperava ter um relacionamento civilizado com o pai. Parecia que o destino pregara uma peça cruel nos dois. Todavia no mundo de Marcus a honra imperava, e a família sempre vinha em primeiro lugar. Seus sentimentos, sua felicidade não importavam. Era injusto, mas quando a vida costumava ser justa? — Preciso telefonar para Gabriel e contar — comunicou Vanessa. — Avisar que está tudo acabado. Não falarei sobre mim e você.

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No minuto em que ela terminasse com Gabriel teria de partir. Não haveria motivos justificáveis para permanecer ali no palácio. E tal pensamento, saber que nunca poderia ficar com Vanessa, deixava Marcus muito triste. Não estava pronto para deixá-la partir. Ainda não. — Não é o tipo de atitude que deve tomar pelo telefone ou pela internet — declarou ele. — Não acha melhor esperar pela volta dele? Ela franziu a testa. — Não me parece justo deixá-lo pensar que está tudo bem, e depois atirar a bomba assim que chegar. É... cruel. E era essa a mulher que julgara de início ser uma cavadora de ouro, refletiu Marcus. Como pudera se enganar tanto? Porque era um idiota ou, pelo menos, fora. E seria de novo se a deixasse partir agora. — Pensa mesmo que é a melhor hora? — insistiu , buscando uma razão, qualquer razão, para fazê-la ficar. — Papai está tão aborrecido por causa de minha tia. Vanessa piscou diversas vezes. — Acho que não pensei nisso. Sim, seria injusto de minha parte. Porém não creio que deva esperar até a volta de Gabriel. Ainda poderão se passar várias semanas. — Então pelo menos espere até Trina sair da UTI. — Não sei... Ah, que diabos. Lá estava ela tentando ser honesta e ele procurando manipular a situação. — Na verdade, estou sendo apenas egoísta. Porque no minuto em que contar a ele, estará tudo terminado, e simplesmente não posso deixá-la partir ainda. — Apertou-a de encontro ao peito, e depois segurou seu rosto entre as mãos. — Fique comigo, Vanessa. Só mais alguns dias. Ela pareceu em conflito consigo mesma. — Sabe muito bem que estaremos nos torturando — murmurou. — Não me importo. Só quero mais um pouco de tempo ao seu lado. Não queria. Precisava. E jamais precisara tanto de alguém na vida. — Temos de ser discretos. Ninguém pode saber. Se Gabriel descobrir... — Não descobrirá — interrompeu Marcus. — Prometo. Ela hesitou um momento, depois sorriu e o tocou na face. — Muito bem. Mais alguns dias. Ele suspirou aliviado. Será que isso era mais errado do que pensavam? Estariam apenas postergando o inevitável? Claro que sim. E por acaso Marcus se importava? Não. Passara a vida fazendo sacrifícios, satisfazendo a vontade dos outros, então dessa vez seria egoísta e tomaria algo para si mesmo. — Mas depois precisarei partir — avisou Vanessa. — Continuar com minha vida. — Compreendo. E Marcus compreendia de verdade. Mas no momento ela lhe pertencia, e planejava aproveitar o máximo possível o pouco tempo que ficariam juntos. — VOCÊ FEZ o quê? — gritou Jessy ao telefone, tão alto que Vanessa precisou afastar o aparelho do ouvido. — Deixo de falar com você por alguns dias e é isso que acontece? Vanessa contraiu os músculos e fez uma careta. Talvez contar à Jessy que dormira com Marcus agora já várias vezes não tivesse sido uma boa ideia. No entanto se não contasse para alguém iria explodir. — Estava brincando quando mencionei que ele poderia ser uma opção — observou Jessy. — Sim. E não planejei que acontecesse. — Ele... Marcus... não a forçou? — Deus, não! Claro que não. Nem todos os homens são brutos insensíveis!

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— Tudo bem. Só estou preocupada com você — replicou Jessy. — Não se preocupe. Marcus jamais faria uma coisa dessas. É um dos homens mais gentis e bondosos que já conheci. Tudo aconteceu por consentimento mútuo. — Mas, só se conhecem há poucos dias. Não costuma dormir com homens que conheceu há uma semana. Céus! Já a vi fazê-los esperar por meses. — Sei disso — sussurrou Vanessa constrangida —, mas com Marcus me admiro de ter esperado tanto. Jessy riu. — Ah, meu Deus. Quem é você, príncipe Marcus, e o que fez com minha amiga? — E o mais estranho, Jessy, é que não faria diferente se pudesse voltar no tempo. Estou feliz por tê-lo conhecido, isso me mudou. — Em poucos dias? — Parece impossível, eu sei — disse Vanessa. — Nem eu mesma acredito, mas, me sinto diferente... uma pessoa melhor. Jessy riu de novo, e Vanessa começou a pensar se a amiga não estaria histérica por causa da revelação que lhe fizera. — Está dormindo com o filho do homem que supostamente iria ser seu marido e sente-se uma pessoa melhor? — repetiu Jessy. Parecia uma loucura quando Vanessa explicava desse jeito, e ela tentou de novo: — É difícil explicar. E embora odeie admitir, creio que você estava certa quando falou que Gabriel era uma figura paterna para mim. Nada do que faço é bom o suficiente para meu pai, e acho que de certa forma transferi meus sentimentos para Gabriel. No fundo, sempre soube que não o amava para ser sua esposa, mas ele parecia me amar tanto, e não queria decepcioná-lo. — Fez uma pausa. — Então conheci Marcus e algo simplesmente... despertou. Se não fosse por ele, poderia ter cometido outro erro enorme. — Então gosta mesmo de Marcus — murmurou Jessy. Se fosse assim tão simples. — É mais do que gostar — confessou Vanessa. Jessy ficou quieta por um instante e depois vociferou: — Está me dizendo que ama Marcus? Em apenas cinco dias? — Esquisito, não é? — E ele? Como se sente a seu respeito? Vanessa deu de ombros. — Isso importa? — Creio que sim, e muito. Ah, se ele a amasse! Mas Vanessa respondeu com sensatez: — Não podemos ficar juntos. Como acha que Gabriel reagiria se contasse que dormi com seu filho? Pode muito bem jamais perdoar Marcus. — Não acha que Marcus pode escolher você em vez do pai? — Não importa, pois eu jamais pediria isso a ele. Nem gostaria que o fizesse. Família e honra são tudo para Marcus. Uma das coisas que mais admiro nele. — Então — concordou Jessy com um gesto de cabeça do outro lado da linha telefônica — a coisa que mais admira nele é a mesma que os manterá afastados. — Creio que sim. — A ideia de partir, de desistir de Marcus, a deixava com cãibras no estômago. Sabia que quanto mais tempo ficasse pior seria a despedida, mas não tinha coragem de partir. — Estou muito triste. Vamos falar de outra coisa. Como foi sua viagem? — Boa — respondeu Jessy. — Na verdade... divertida. — A família de Wayne é simpática? — Sim. Seus pais são do interior, se é que me entende, e muito tradicionais. Wayne e eu tivemos de dormir em quartos separados. Eles moram em uma enorme casa de campo com muitas terras. Embora eu seja uma moça da cidade grande, achei lindo.

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Vanessa sorriu. — Fico feliz que tenha corrido bem. Pelo menos uma delas estava tendo um relacionamento com chances de dar certo. — Sei que não quer falar sobre isso — insistiu Jessy —, mas posso dizer só mais uma coisa a respeito de seu romance com o príncipe? Vanessa suspirou. — Pode. — Vai parecer estranho, no entanto estou orgulhosa de você. Dessa vez foi Vanessa quem riu. — Dormi com o filho do homem que poderia ser meu futuro marido e você está orgulhosa? — Sim. Você é sempre tão disposta a fazer os outros felizes, mas dessa vez foi egoísta e fez algo por si mesma. Um grande passo. — Nunca pensei que ser egoísta fosse uma coisa boa — replicou Vanessa. — Às vezes é. — Sabe qual será a pior parte de ir embora? Mia ficou tão ligada a Marcus, e ele a adora de verdade. — Vanessa fez uma pausa com dor no coração. — Creio que seria um pai maravilhoso. — Vai encontrar outra pessoa, Vanessa. Irá se apaixonar de novo, garanto. Mas Vanessa não tinha tanta convicção disso. Em toda a sua vida jamais se sentira assim com um homem. Não julgara possível amar tanto quanto amava Marcus e não podia imaginar que voltasse a acontecer com outra pessoa. E se Marcus fosse o homem de sua vida? Seu destino? Seria também parte do destino ir embora e deixá-lo livre?

CAPÍTULO CATORZE

VANESSA ACORDOU para ver uma nova mensagem do pai, a terceira em muitos dias, todavia essa era mais irritada e mal-humorada que as outras duas. “Nessy, por que não me ligou de volta? Liguei para o hotel e me comunicaram que você está de licença. Quero saber o que está acontecendo. Meteu-se em apuros de novo?” Sem dúvida essa seria a primeira conclusão de seu pai: Vanessa fez alguma coisa errada. O que mais poderia pensar? Ela suspirou, um pouco triste por perceber que o pai sempre imaginava o pior a seu respeito. “Telefone assim que receber esta mensagem.” Assim terminava o texto. Ela recolocou o celular sobre o criado-mudo e caiu sobre os travesseiros de novo. Marcus se espreguiçou ao seu lado, despertando aos poucos como era de costume. Ou, pelo menos, como acontecia nas últimas três manhãs quando acordavam os dois na mesma cama. Primeiro ele se espreguiçou, flexionando todos os membros do corpo musculoso, depois bocejou longamente e por fim abriu os olhos, vendo Vanessa deitada ao seu lado. Sorriu com ar de sono e o cabelo em desalinho o que o tornava ainda mais sexy. Marcas do travesseiro vincavam sua face.

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Observar esse ritual do despertar de Marcus se tornara a parte preferida das manhãs de Vanessa. Embora o que estivessem fazendo agora a enchesse de culpa e remorso. Entretanto, não conseguia se afastar dele. — Que horas são? — indagou ele com a voz rouca de sono. — Quase 8h. Marcus ficou de barriga para cima e riu, o movimento baixando os lençóis que exibiram seu torso. — Essa foi a terceira noite seguida em que dormi sete horas ininterruptas. Faz ideia de há quanto tempo não tinha uma boa noite de sono? — Então eu lhe dou sono, é? — brincou Vanessa. Ele sorriu e a puxou para ficar por cima de seu corpo, e Vanessa precisou passar as pernas de cada lado. O início de barba fez cócegas em seu rosto enquanto ele a beijava. — Diria que você está me deixando esgotado — corrigiu Marcus. Chovera nos últimos dois dias, e ele decidira que seria melhor ficarem no palácio, na suíte de Vanessa. Então ficavam conversando, brincado com Mia, e, quando a criança dormia, passavam o tempo fazendo amor. Algumas vezes Vanessa deixara Karin tomar conta da filha por algumas horas para ter mais tempo com Marcus. E embora já se tivesse passado uma semana, nem ela nem Marcus haviam discutido sobre sua partida, porém o assunto pendia sobre eles como uma espada ameaçadora. Era uma sombra negra que trazia vergonha, sufocando o que era, depois do nascimento de Mia, a maior alegria que Vanessa já sentira. Dizia a si mesma que quando chegasse a hora certa de partir ela e Marcus saberiam. Mas que essa hora ainda não chegara, e no íntimo ela esperava que nunca chegasse. Marcus era sua alma gêmea, tinha certeza. Pela primeira vez em sua vida não tinha dúvidas. Mas não sabia se Marcus pensava o mesmo. A única coisa que parecia certa era que não desejava que Vanessa partisse. Entretanto, será que a amava? Nada confessara a esse respeito, nem Vanessa. Mas que diferença faria? Seriam apenas palavras. Mesmo que ele a amasse seu relacionamento com o pai deveria vir em primeiro lugar. Depois da primeira vez que haviam feito amor, Vanessa passara a temer as conversas com Gabriel pela internet, certa de que ele perceberia no instante em que a visse, porém esperara durante horas e ele não a procurara. Ficara aliviada. No dia seguinte, Gabriel telefonara pedindo desculpas por não ter podido se comunicar antes e informou que seria melhor falarem apenas pelo telefone o que para Vanessa era ótimo. Já se sentia muito afastada de Gabriel. Agora suas conversas eram mais curtas e superficiais. E, certo dia, quando Marcus a levara para conhecer o chalé real nas montanhas... embora a palavra chalé não definisse o lugar, era como chamar o museu do Louvre de galeriazinha de arte... seu celular ficara fora de área e não conseguira falar com Gabriel. No dia seguinte Gabriel telefonara dizendo que estava com muito trabalho acumulado enquanto tomava conta de Trina e não tivera chance de ligar. Vanessa esperou que lhe perguntasse se havia algum problema, contudo, se Gabriel notara alguma diferença em seu comportamento nada revelou. Trina melhorava de saúde, e, embora ainda muito fraca, era apenas uma questão de tempo até ele regressar. Além disso, Vanessa precisava lidar com seu próprio pai. — Parece preocupada — disse Marcus afastando o cabelo de sua testa. Ele sempre sabia o que ela estava pensando. Parecia telepatia. — Meu pai telefonou de novo — explicou Vanessa. Marcus suspirou. — Isso explica.

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— Ligou para o hotel onde trabalho e descobriu que estou de licença, então, é claro, concluiu que estou em alguma enrascada. Exigiu que telefone para ele imediatamente. — Deve fazer isso. Aliás, deveria ter telefonado dias atrás. — Sim, sei disso. — Vanessa deixou escapar um suspiro e se encostou ao seu peito forte, pressionando o ouvido para ouvir as batidas de seu coração. — Então faça agora — ordenou ele. — Não quero. — Pare de ser covarde e telefone para seu pai. Ela se sentou na cama e o encarou. — Estou agindo como covarde porque sou. — Não é. Sim, ela era. Pelo menos quando se tratava do pai. — Telefonarei para ele amanhã, prometo. — Vai telefonar agora mesmo — exigiu Marcus, fazendo-a rolar de cima de seu corpo o colchão. Depois se levantou e se encaminhou para o banheiro, despido e maravilhoso. Parou à porta, virou-se e sorriu. — Agora vou tomar um banho, e, se quer vir também, é melhor começar a digitar o número do seu pai. Fechou a porta, e Vanessa ouviu o chuveiro sendo ligado. Raios. Ele sabia o quanto ela adorava o banho juntos pela manhã. Todas as noites agora Marcus levava uma muda de roupa para a suíte dela a fim de que ninguém no dia seguinte o visse usando a mesma da noite anterior. Também se deitava na própria cama, puxava as cobertas e dava socos nos travesseiros para dar a impressão que dormira ali. Era evidente que todos sabiam quanto tempo os dois passavam juntos, porém se alguém suspeitava de conduta imprópria mantinha os comentários para si mesmo. Vanessa suspirou e olhou para a porta do banheiro e depois para o celular. Aprumou-se na cama e ligou para o pai antes que a covardia a detivesse. Ele atendeu no primeiro toque. — Nessy, onde diabo se meteu? Estou doente de preocupação. Onde está Mia? Ela está bem? Vanessa refletiu se estava preocupado com as duas ou apenas com Mia. — Desculpe, papai, deveria ter ligado antes, mas, na verdade, estou fora do país. — Fora do país? — repetiu ele aos berros como se isso fosse um crime imperdoável. — Por que não me comunicou? E onde está minha neta? — Comigo. — Onde estão? — questionou ele com voz irada. Vanessa sabia que ele agia assim porque odiava não estar no controle constante da situação. O ideal seria que a filha fizesse relatórios de hora em hora sobre sua vida. Suspirou com aborrecimento. — Estamos em Varieo, você sabe, o pequeno país perto... — Sei onde fica Varieo — interrompeu ele. — Mas, em nome de Deus, o que está fazendo aí? — É uma espécie de... trabalho — respondeu, porque conhecera Gabriel no trabalho. — Entendi que tirou uma licença do hotel. Ou foi uma desculpa para encobrir que a despediram? É claro que ele pensaria isso. Vanessa ficou ainda mais aborrecida. — Não fui despedida — sussurrou de mau humor. — Não use esse tom comigo, mocinha — gritou o pai. Mocinha? Por acaso ela tinha 5 anos?

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Nesse instante algo pareceu se romper em seu íntimo e percebeu que estava farta de ser tratada como uma criança irresponsável. E se precisasse contrariar o pai para defender seus direitos, que assim fosse. — Tenho 24 anos, pai. Usarei o tom de voz que bem quiser. E, para sua informação, mereço a mesma consideração que exige para si. Estou cansada de vê-lo me menosprezar e sempre pensar o pior a meu respeito. E chega de procurar agradálo porque na verdade nunca consigo. — Respirou fundo e prosseguiu: — Sou inteligente, bem-sucedida, corajosa, e tenho amigos que me querem bem. Então, a menos que possa me dizer algo positivo, não me telefone mais. Desligou, e mesmo com o coração batendo forte e as mãos trêmulas se sentia... bem. Na verdade, se sentia maravilhosamente bem. Talvez Marcus tivesse razão. Quem sabe era corajosa e não sabia. E mesmo achando que isso não mudaria nada, pelo menos agora o pai sabia como ela se sentia. O telefone começou a tocar e ela deu um pulo. Era o pai. Sentiu-se tentada a deixar a mensagem no correio de voz, porém começara essa discussão e precisava terminá-la. Preparando-se para ouvir os berros, atendeu. — Alô. — Desculpe, Nessy. O queixo de Vanessa caiu. — O-o quê? — Pedi desculpas — repetiu ele com uma voz humilde que Vanessa nunca ouvira antes. E não se recordava de nenhuma ocasião em que o pai tivesse se desculpado por alguma coisa. — E lamento também ter erguido a voz — retrucou ela, mesmo sabendo que apenas se defendera. — Aliás, não, não lamento nada do que disse. Você mereceu, pai. — Tem razão. Não deveria tê-la criticado — murmurou o pai. — Mas quando fiquei sem notícias suas, temi que algo de ruim tivesse acontecido. — Estou bem, papai. E Mia também. Lamento ter assustado você. Estamos aqui em Varieo fazendo uma... visita. — Não sabia que tinha uma amiga aí. — Eu o conheci no hotel. Era um hóspede. — Ele? Um amigo? — Sim. Ele... — Ah, por que não contar a verdade de uma vez por todas? Vanessa já não se importava com o que o pai pensaria. — Ele é o rei de Varieo. — O rei? — Sim e, acredite ou não, quer se casar comigo. — Vai se casar? Com um rei? — indagou o pai, muito animado. Por fim estava feliz com ela, e agora Vanessa teria de acabar com sua alegria. Que irônico. — Ele quer se casar comigo, mas não vou aceitar. — E por que não? — Porque amo outro. — Outro rei — brincou o pai. — Não exatamente. — Então quem? Era hora de explodir com tudo. — Amo um príncipe. O filho do rei. — Vanessa! Ela se preparou para a ira que desceria sobre sua cabeça. Pelos gritos e insultos. Mas isso não aconteceu. Podia sentir a tensão no ar, porém seu pai nada falou. Devia estar mordendo a língua para se conter. E ela podia culpá-lo por isso? Às vezes ela mesma não conseguia acreditar no que andava fazendo. — Tudo bem, papai? — interrogou após alguns segundos.

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— Apenas... confuso. Quando foi que tudo isso aconteceu? Como aconteceu? — Já disse, ele estava hospedado no hotel e ficamos amigos. — O rei ou o príncipe? — O rei, Gabriel, que se apaixonou por mim, contudo sempre o considerei apenas um amigo. Porém está convencido que acabarei por amá-lo quando o conhecer melhor, então me convidou para vir a Varieo e ficar no palácio, no entanto precisou se ausentar por motivos de família quando aqui cheguei. Então pediu a Marcus... o príncipe... que fosse meu anfitrião e me fizesse companhia... — Engoliu em seco. — Bem, nos apaixonamos. Muito. Fez-se uma pausa e depois o pai inquiriu: — Quantos anos tem esse príncipe? — Creio que 28. — E o rei? — Cinquenta e seis — respondeu ela prontamente, ouvindo o resfolegar do pai do outro lado da linha. — O que é um dos motivos de estar insegura sobre aceitar sua proposta de casamento. — Compreendo — foi tudo que o pai declarou, porém Vanessa sabia que desejava dizer mais. Iria precisar de pontos depois dessa conversa, pois teria mordido muito a própria língua. Entretanto, Vanessa o admirou pelo esforço que fazia e desejou tê-lo enfrentando anos antes. — Então, presumo que casará com o príncipe — disse o pai por fim. Quem dera! — Não vou me casar com ninguém, pai. — Mas pensei que o amava. — E amo, no entanto não posso causar tal desgosto a Gabriel. Ele é um homem muito bom, pai, e tem passado por tanto sofrimento. Gabriel me ama e não posso fazê-lo sofrer assim. Sem mencionar que isso acabaria também com seu relacionamento com o filho. Não posso fazer mal a nenhum dos dois. Precisam mais um do outro do que de mim. Um novo silêncio se estabeleceu, e depois o pai disse: — Bem, você tem andando bem ocupada nessas últimas semanas, não? — Em geral tal comentário viria carregado de sarcasmo, mas dessa vez só havia surpresa na voz do pai. — Acho que não vou vê-la na quinta-feira. — Não, mas em breve eu e Mia voltaremos para casa. Talvez possamos fazer uma parada rápida na Flórida. — Gostaria muito — respondeu o pai. — Então, ama esse sujeito de verdade? — Sim. E Mia também. Ela adora Marcus. — Acha que faz bem em ir embora? — Não há nada mais a fazer. — Bem, você vai descobrir uma saída. E, Nessy, saiba que me orgulho de você. Ela esperara tanto por isso! — Obrigada, pai. — É admirável sacrificar sua própria felicidade pelo rei. Avise quando vier me visitar. — Sim, amo você, pai. — Amo você, Nessy. Ela desligou. — Não está feliz por ter telefonado? Vanessa ergueu a cabeça para ver Marcus à porta do banheiro e ainda sem roupa. Será que ouvira toda a conversa que tivera com o pai? A parte em que confessara estar apaixonada pelo príncipe? — Quem sabe sou corajosa, afinal. Ele avançou para a cama, deitou-se e a abraçou.

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— Obrigada por me fazer sentir confiante — sussurrou Vanessa. — Não fiz nada. Apenas mostrei o caminho, e, para sua informação... — Beijou-a na orelha. — Também a amo.

CAPÍTULO QUINZE

APÓS UMA semana de chuvas torrenciais, enfim o tempo melhorou, e embora Marcus ficasse muito feliz passando o dia na suíte de Vanessa mais uma vez, o céu azul e a temperatura amena os atraíram para fora. O mar muito calmo tornava o dia perfeito para esportes na água. E já que Vanessa nunca passeara em um barco particular, achou interessante levá-la. Deixaram Mia com Karin que parecia contente por ter alguma coisa para fazer. Muitos dos jovens casais com filhos que Marcus conhecia se aproveitavam ao máximo das babás... em especial os que nem sabiam trocar uma fralda... porém Vanessa era extremamente presente quando se tratava da filha. Marcus tinha a impressão que Karin se entediava com freqüência por não ter nada o que fazer, pois Mia estava quase sempre com a mãe. E como a menina em geral saía com os dois, sempre usavam a limusine. Mas hoje Marcus usaria seu favorito. — É muito antigo — comentou Vanessa quando ele abriu a porta do passageiro que parecia do lado errado do carro. — É um modelo de 1965. Pertencia ao meu avô que era grande fã do 007 de Ian Fleming. — Ah, meu Deus! — exclamou Vanessa. — É um... — Aston Martin DB5 Saloon — confirmou Marcus. — Uma réplica exata do carro de James Bond. Ela entrou, passando os dedos pelo estofamento como se fosse uma carícia. — É fantástico! Marcus deu partida no motor, que ronronou como um gatinho novo, e saiu pelos portões em direção à marina. — Sempre adorei este carro. Eu e meu avô costumávamos sair de fininho nos domingos e dirigir pelo campo durante horas. Ele me contava histórias de sua infância, tinha apenas 19 anos quando seu pai morreu, e me descrevia como era ser rei em idade tão tenra. — Marcus sorriu. — Na época me parecia que era maravilhoso ser tão importante e dar ordens para todos. Só quando fiquei mais velho e comecei a aprender sobre o trabalho duro de um rei percebi a imensa responsabilidade que teria em meus ombros. Costumava temer que meu pai morresse e eu fosse obrigado a me tornar rei muito cedo. — Quantos anos tinha Gabriel quando se tornou rei? — interpelou Vanessa. — Quarenta e três. Ela ficou em silêncio por um minuto e depois se voltou para Marcus dizendo: — Não vamos para a marina. Vamos dar uma volta no campo. Como você costumava fazer com seu avô. — Verdade? É o que prefere? — Sim. Adoraria ver os lugares onde ele o levava para passear. — Não vai ficar entediada? Ela se inclinou e tomou sua mão, sorrindo. — Com você nunca fico entediada. Com certeza.

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— Então está bem — concordou Marcus com um gesto de cabeça. — Vamos. Não se lembrava de estar em um carro com uma mulher e apenas dirigir. Segundo sua experiência elas sempre queriam ir a lugares sofisticados para serem vistas e receber presentes caros. Ao contrário, Vanessa apreciava os momentos em que ficavam sentados e apenas conversavam ou brincavam com Mia. E quanto a presentes, além dos brincos... que ela usava todos os dias... ele não lhe comprara nada e só a levava de vez em quando para jantar ou tomar um lanche. Vanessa pedia pouco e nada exigia, entretanto se doava com generosidade. Antes dela Marcus não soubera que existiam mulheres assim. Lembrar que a julgara interesseira agora parecia ridículo. — Posso lhe fazer uma pergunta? — indagou Vanessa, e ele aquiesceu com um gesto de cabeça. — Quando parou de pensar que eu estava atrás do dinheiro de seu pai? Ela devia ter lido sua mente. — Quando fomos ao vilarejo e você não usou o cartão de crédito que ele lhe deu nem uma só vez. Ela abriu a boca, surpresa. — Sabia do cartão? — A assistente dele me contou. Ela estava preocupada. — Gabriel insistiu para que o usasse, mas a verdade é que nem o tirei da gaveta. Não me parecia certo. Ele me deu muitos presentes, e fiz questão que os levasse de volta. — Bem — retrucou Marcus —, se o cartão de crédito não tivesse me convencido, sua reação diante dos brincos foi decisiva. Ela tocou as orelhas com os brincos de prata. — Por quê? — Porque nunca vi uma mulher tão encantada com uma joia tão simples. — Contudo o mérito é todo seu, Marcus. Você me deu os brincos porque sabia que eu gostara. Não estava tentando comprar minha simpatia. Comprou porque é um homem bondoso. Ele a fitou de relance. — Não sou bondoso. Vanessa riu. — É, sim. É uma das pessoas mais meigas e bondosas que já conheci. — Ela apertou sua mão. — Sabe que em breve terei de partir. Acho que já fiquei aqui tempo demais. Tenho a sensação que logo alguém descobrirá o que está acontecendo entre nós dois e contará para Gabriel. Não quero magoá-lo. Marcus não sabia o que pensar. Também não queria magoar o pai, mas cada vez se tornava mais difícil imaginar a vida sem Vanessa. Já não sabia se poderia deixá-la partir. — Quem sabe você não precise partir. Talvez possamos explicar para ele. Fazê-lo entender. Ela fechou os olhos e suspirou. — Não posso fazer isso, Marcus. Não posso causar sofrimento a Gabriel. Ou a você. Se nosso relacionamento interferisse entre você e seu pai, eu jamais me perdoaria. — Não podemos garantir que ele ficará aborrecido — sugeriu Marcus. Vanessa o fitou. — Provavelmente ficaria, no entanto iria se recuperar — continuou ele. — Se perceber o quanto você significa para mim, creio que compreenderá. — E se não compreender? — rebateu Vanessa. — Não quero me ariscar a fazê-lo sofrer.

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Caso Vanessa fosse igual às outras com quem se relacionara antes, isso não seria um problema para ela, refletiu Marcus. Pouco se importaria em magoar os outros contanto que obtivesse o que queria. E Marcus também sabia que quando Vanessa tomava uma decisão não mudava de ideia com facilidade. Sua teimosia era uma das características mais frustrantes e ao mesmo tempo adoráveis de seu caráter. Ele gostava do modo como Vanessa sempre o desafiava. E a amava demais para perder seu respeito. APÓS UM passeio de três horas conversando sobre suas infâncias e famílias, pararam em um vilarejo para almoçar, e depois Marcus retornou ao palácio. Acompanhou Vanessa até o quarto de Mia que tirava sua soneca da tarde. — Pode me chamar quando ela acordar — pediu Vanessa a Karin. Depois se voltou para Marcus e lhe lançou o olhar, aquele que dizia que estava pensando em travessuras. Ele a seguiu pelo corredor, porém se deteve à porta de sua suíte. — Que tal uma mudança? — sugeriu. — O que tem em mente? — quis saber Vanessa com curiosidade. — Vamos para o meu quarto. Ela parou de sorrir. — Marcus... — Mas você nem mesmo o conhece. — Se alguém nos flagrar entrando lá... — A ala da família é muito preservada. E, se você preferir, nada faremos além de conversar. Podemos até deixar a porta aberta e fingir que estou lhe mostrando essa parte do palácio. Ela pareceu hesitar. — Não sei... Apesar de correr o risco de encontrar um criado, Marcus segurou sua mão. — Não temos muito tempo. Dê-me pelo menos a oportunidade de compartilhar um pouco da minha intimidade com você. Viu que Vanessa se derretia com essas palavras. Por fim ela sorriu. — Está bem. Marcus omitira que no dia anterior Cleo o questionara a respeito do tempo que passavam juntos. — Fale com meu pai — respondera Marcus com agressividade. — Foi ele quem me pediu para manter Vanessa ocupada. Cleo arqueara as sobrancelhas. — Ocupada? — Sabe o que quero dizer. Cleo o fitara com ar de censura. — Creio que já não a considera tão terrível quanto imaginara de início? — Não é nada terrível — declarara Marcus com franqueza. Se Cleo acreditasse que o relacionamento entre os dois era platônico, ninguém ousaria desmenti-la, a não ser talvez George. Mas nesse momento com Vanessa não queria comentar sobre a conversa com Cleo. Conduziu-a para a ala da família, e os criados que encontraram apenas inclinaram a cabeça com polidez sem mostrar nenhuma suspeita. Quando chegaram à suíte de Marcus, o corredor estava deserto. Ele abriu a porta e fez um gesto para ela entrar. — Uau! — vociferou Vanessa, caminhando até o centro da sala de estar e olhando em volta. Marcus ficou parado à porta observando-a. — É imenso, grande como um apartamento. Tem até uma cozinha. — Ela o fitou. — Gostei. De muito bom gosto, masculino sem ser exagerado. Confortável. — Obrigado. E o decorador agradece também. — Quantos cômodos?

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— Dormitório com banheiro, escritório, cozinha e sala de estar. Ela balançou a cabeça devagar. — Muito bom. — Fico feliz que goste. Ela deixou cair a bolsa sobre o sofá de couro e se virou para Marcus. — Talvez seja melhor fechar a porta. — Mas tínhamos combinado... — Feche a porta, Marcus. — O olhar voltara de novo, então ele obedeceu. — Tranque também — insistiu Vanessa. Ele trancou e cruzou a sala para se aproximar dela. — Mudou de ideia? — murmurou. Ela deslizou as mãos pelo seu peito, e começou a desabotoar a camisa. — Talvez seja a sensação de perigo, porém quanto mais nos aproximávamos de sua suíte mais ficava excitada... — Ergueu-se na ponta dos pés e o beijou, fazendo a camisa deslizar pelos braços musculosos. — Ou, talvez, quando ficamos sozinhos, não consigo manter as mãos longe de você. O sentimento era mútuo. — Sei que é errado — prosseguiu Vanessa —, mas não posso evitar. Isso me torna uma pessoa ruim? — Então também sou ruim — confessou ele. — Portanto, merecemos um ao outro. Ela acabou de retirar a camisa, mas, antes de partir para o cinto, ele a tomou nos braços e a ergueu nos ombros. Vanessa gritou de surpresa e depois caiu na gargalhada. — Marcus, o que está fazendo? — Bancando o homem das cavernas — respondeu ele, levando-a para o quarto e abrindo a porta com o pé. — Não me importo, mas por quê? Ele a atirou sobre a cama, depois ergueu a barra do vestido e tirou sua calcinha. — Porque não sou meigo. Vanessa sorriu. — Muito bem, eu estava errada. Então ela o segurou pelos ombros e fez com que caísse sobre seu corpo. A cada vez que faziam amor Marcus pensava que não poderia ser melhor, porém Vanessa sempre se superava. Era sensual, criativa e muito confiante em suas habilidades de amante. A palavra tímida não fazia parte de seu vocabulário. Sabia por instinto o que fazer para deixá-lo louco, e era muito fácil de agradar... Se Marcus a beijava atrás dos joelhos ia até as nuvens. Gostava de fazer amor devagar e com sensualidade. Em resumo, se existia no mundo a parceira sexual ideal para Marcus era Vanessa. E a cada vez que iam juntos para cama isso se tornava mais evidente. Pensou, enquanto ela baixava o zíper de sua calça, que se tratava menos de habilidade e mais do sentimento que compartilhavam. Contudo ela conseguiu tirar sua roupa toda, e ele não teve mais condições de raciocinar com clareza. Vanessa o fez deitar de costas e ficou por cima. Depois passou o vestido pela cabeça e o atirou ao chão. E, quando ele a penetrou, estava tão quente e úmida que quase o fez alcançar o clímax de imediato. Mas se dominou até que ambos gritaram de prazer. Depois ficaram abraçados, arfantes, e Marcus refletiu que deveria haver um modo de fazê-la permanecer em Varieo. Entretanto, ao mesmo tempo sua consciência interpelou: com que propósito?

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CAPÍTULO DEZESSEIS

NO TORPOR do sono Marcus ouviu uma espécie de martelar. Que diabo era aquilo? E como fazer que parasse? Então percebeu que batiam à porta. Alguém batia com força Abriu os olhos e tentou se sentar na cama, no entanto um corpo quente se prendia ao seu peito. Ele e Vanessa haviam adormecido profundamente. Olhou para o relógio do criado-mudo e percebeu que passava muito da hora do jantar. Ah, que inferno. Sem dúvida Mia já acordara. Sacudiu Vanessa. — Acorde! Ela abriu os olhos e sorriu com ar de sono. — Olá. — Adormecemos. É tarde. Ela se sentou com um gesto brusco e fitou o relógio. — Onde está meu celular? Mia já deve ter acordado. Por que Karin não me chamou? As batidas recomeçaram enquanto os dois pulavam da cama. — Quem é? — perguntou Vanessa olhando em volta muito nervosa, e Marcus refletiu que devia estar procurando pela bolsa. Ele enfiou a calça, dizendo: — Fique aqui. Vou ver do que se trata. Correu para a sala de estar, destrancou a porta e a escancarou. Cleo estava ali parada com a mão erguida para bater de novo. — Aí está você! — exclamou. — Estava... tirando um cochilo — sussurrou ele passando a mão pelo cabelo revolto. — Não tenho dormido bem. — Temos um problema, a pobre Karin está desesperada. Mia acordou há uma hora, mas Karin não encontra Vanessa, que não atende o celular e parece ter desaparecido do palácio. Pensei que talvez você soubesse onde ele está. Seria suspeita que Marcus via nos olhos de Cleo? Limpou a garganta e pronunciou: — Deve ter dado um passeio e esqueceu de levar o celular. — Se tivesse saído os seguranças saberiam — interpôs Cleo. Ele abriu a boca para replicar, mas a senhora acrescentou: — Também mandei checar os jardins e Vanessa não está lá. Parece ter desaparecido. — Dê-me um minuto para me vestir e irei encontrá-la. Mas às suas costas Marcus ouviu um gemido e o ruído de algo se quebrando. Deu meia-volta e se deparou com Vanessa no chão, perto do sofá, enrolada em um lençol, fazendo caretas e segurando o pé esquerdo. Ao seu lado jazia a luminária que ficava perto da mesa. Em seguida ele ouviu uma exclamação e percebeu que, escancarando a porta, deixara a sala totalmente à mostra, e Cleo podia ver o cenário escandaloso.

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— Srta. Reynolds — falou com o queixo duro — pode, por gentileza, ligar para Karin e dizer que está bem e não foi seqüestrada por terroristas? — Sim, senhora — respondeu Vanessa com voz trêmula, o rosto rubro de vergonha. Cleo se voltou para Marcus e murmurou com frieza: — Posso trocar uma palavra em particular com Vossa Alteza? — Você está bem? — indagou ele para Vanessa que parecia devastada. — Volto já. Saiu para o corredor fechando a porta da suíte, e o olhar que Cleo lhe lançou gelou o sangue em suas veias. — Mentiu para mim — disse ela. — O que podia fazer? Contar a verdade? — Marcus, o que estava pensando quando fez uma coisa dessas? Se fosse qualquer outra pessoa a questioná-lo assim ele daria as costas. Entretanto, Cleo conquistara esse direito após muitos anos de serviços leais. Era mais uma parenta que funcionária. — Cleo, acredite em mim. Não planejamos que isso acontecesse. E, se é algum consolo, ela não vai se casar com meu pai. — Assim espero! Era só o que faltava! Seu pai merece mais do que uma mulher que... — Não foi culpa de Vanessa — Marcus interrompeu com brusquidão, pois não aceitaria críticas. Ela não merecia. — Eu a persegui. — Olhe, Marcus — prosseguiu Cleo tocando seu braço. — Sei que está aborrecido por causa de Carmela, e talvez essa seja sua maneira de vingança, mas arriscaria seu relacionamento com o rei por causa de um... romance barato? — Não, mas arriscaria pela mulher por quem me apaixonei perdidamente. Cleo afastou a mão com surpresa. — Você a ama? — Ela é tudo que sempre imaginei em uma mulher e mais algumas coisas que não sabia até encontrá-la. E ela também me ama o que, considerando todos os meus relacionamentos errados, é assombroso. Contudo a grande ironia é que as qualidades que mais admiro em Vanessa são as mesmas que me impedem de ficar com ela. — Não pode ficar com ela? — Cleo arregalou os olhos. — Vanessa pensa que nosso romance irá interferir em minha relação com meu pai, e se recusa a permitir que tal aconteça. Cleo suspirou. — E você sabe que ela tem razão. — Confesso que às vezes nem ligo. No entanto ela liga, e por mais que eu queira, não irei contra sua vontade. Cleo balançou a cabeça. — Não sei o que dizer. Apenas... lamento que as coisas devam ser assim. — Espero que mantenha essa nossa conversa em segredo, Cleo. — Claro, Vossa Alteza. Ele se inclinou e beijou sua face. — Obrigado. Voltou para a suíte, deixando Cleo no corredor com uma expressão de grande tristeza. VANESSA ESTAVA completamente vestida e sentada no sofá, calçando as sandálias. Marcus entrou e sua expressão era misteriosa. — Lamento tanto, Marcus. — Tudo bem. — Deixei o celular na bolsa sobre o sofá, por isso não ouvi quando Karin chamou. Então saí correndo, escorreguei embrulhada no lençol e derrubei a estúpida luminária. — Suspirou. — Não tive a intenção de adormecer.

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— Também adormeci. Mas acho que a Mia está bem. — Sim, está. Imaginei que precisaríamos conversar, então já pedi que Karin dê o jantar para Mia e a coloque na cama depois. Ele se sentou ao seu lado no sofá. — Não há nada a conversar. Nenhum de nós dois teve culpa. Não, tinham muito de conversar. — Cleo parecia tão... desapontada — comentou Vanessa. Ele suspirou. — Sim. Mas expliquei toda a situação e ela compreendeu. — Isso não basta. — Vanessa... — Não posso continuar assim, Marcus. — Não estou pronto para vê-la partir. — Sabíamos que seria inevitável — rebateu ela. — Ficávamos dizendo o tempo todo que esse dia chegaria e eu teria de partir. Honestamente, creio que chegou a hora. Ele apertou sua mão e sorriu com tristeza. — Não posso perdê-la. Ainda não. Vanessa balançou a cabeça. — Já me decidi. Mas quero que saiba que essas foram as duas semanas mais felizes de minha vida, e jamais as esquecerei até morrer. — Diga que partirá amanhã. Que me dará mais uma noite ao seu lado. Ela fez um carinho em seu rosto onde a barba começava a despontar. — Lamento. Não posso. Marcus se inclinou para beijá-la, e de novo bateram à porta, fazendo-o praguejar em voz baixa. — Marcus, é Cleo! — Entre! — pediu ele com voz irritada e sem largar a mão de Vanessa. Cleo abriu a porta e passou a cabeça para dentro. — Lamento incomodá-lo de novo, mas a limusine de seu pai acabou de estacionar na entrada do palácio. Ele está de volta. Vanessa e Marcus soltaram exclamações ao mesmo tempo e se levantaram do sofá como se fossem impulsionados por molas. — Já vamos descer — comunicou ele a Cleo, agarrando a camisa jogada no chão. Vestiu-se às pressas e calçou os sapatos. Vanessa tinha certeza de que não estava com roupa de baixo e enfiara a calça por cima do corpo, contudo isso não fazia a menor diferença a essa altura dos acontecimentos, e suas mãos tremiam tanto que se alegrou por já ter se vestido. Marcus passou os dedos pelo cabelo e questionou: — Está pronta para enfrentar o que vai acontecer? Vanessa sempre pensara que sim, mas agora não tinha tanta convicção. Engoliu em seco e balançou a cabeça em negativa. — Também não estou — informou ele, puxando-a para si e beijando-a com paixão. Seu último beijo, e sem dúvida um grande beijo, então Marcus se afastou, incentivando: — Vamos. DESCERAM AS escadas correndo, Vanessa com dificuldade porque suas pernas estavam trêmulas. Havia uma maneira de se livrar dessa situação desastrosa, escorregar nos degraus, rolar e quebrar o pescoço ao atingir o chão de mármore. Entretanto, também seria covardia. Então ela tratou de se equilibrar. No instante em que tocou o chão de mármore a porta da frente se abriu e Gabriel entrou. Usava roupa esporte, calça cáqui e camisa polo. Vanessa esperara que estivesse com ar cansado e muito pálido por dividir seu tempo entre o trabalho e a

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cabeceira do leito de Trina, no entanto ao contrário estava com expressão descansada como se voltasse de longas férias. Viu os dois ali parados e sorriu. — Marcus, Vanessa. Dirigiu-se até eles e abraçou filho com carinho, depois apertando sua mão com firmeza. Em seguida se voltou para Vanessa. — Minha doce Vanessa — sussurrou, tomando suas mãos e apertando com firmeza. — É tão bom revê-la. Vanessa esperara um reencontro mais entusiasmado do homem que dizia amála. Ou, quem sabe, Gabriel não se sentia à vontade dando demonstrações de afeto na frente do filho? Fazia sentido. Mas fosse qual fosse a razão ela estava agradecida. Se Gabriel a tivesse tomado nos braços e a beijado teria sido terrível e muito constrangedor. E vendo Marcus e Gabriel ali juntos, lado a lado, percebeu que, embora parecidos e morenos, Marcus lembrava mais a mãe. — Conversamos ontem, mas você não me contou que estava voltando — murmurou Vanessa. — Quis fazer uma surpresa. Ah, e sem dúvida a surpreendera. — Está levemente bronzeada — comentou Gabriel tocando sua face com delicadeza. — Andou aproveitando a piscina. Na verdade, Vanessa não tomava sol há vários dias. Como podia...? A barba de Marcus roçando seu rosto deixara sua pele mais rosada. Fora seu último beijo. Então mentiu: — Sim, hoje mesmo tomei sol. — Onde está Mia? — perguntou Gabriel. — Lá em cima, jantando. — Ótimo, ótimo — sussurrou ele, e algo em sua postura não parecia muito... normal, como se estivesse nervoso, e Vanessa jamais o vira nervoso. E, por mais que fosse estranho, agora que estava frente a frente com Gabriel, não se sentia nervosa. Apenas pensativa. Embora sempre fosse amá-lo e respeitá-lo como amigo, qualquer intenção que já tivera em se casar com Gabriel desaparecera. No caso dos dois, a ausência não fizera o amor surgir. Ela estivera muito ocupada se apaixonando por outro... por seu filho. E não podia mais adiar o que tinha a dizer. Precisava terminar com isso agora. — Gabriel — disse forçando um sorriso —, podemos conversar? Em particular, quero dizer. — Sim, é claro. Por que não vamos para sua suíte? — Virou-se para Marcus que estava tão tenso que poderia explodir a qualquer momento. — Por favor, nos dê licença, filho. Conversarei com você mais tarde. Tenho novidades. Marcus apenas aquiesceu com um gesto de cabeça. Estava com ciúmes. Vanessa podia ver isso em seus olhos, porém ele permaneceu em silêncio. O que mais podia fazer? Enquanto subiam as escadas juntos, Gabriel não fez menção de segurar a mão dela e ficou falando sobre coisas superficiais como fizera nas últimas vezes em que haviam conversado pelo telefone. Quando chegaram à suíte de Vanessa, ela prendeu a respiração, apavorada que de repente Gabriel a tomasse nos braços e a beijasse. A ideia de ter de empurrá-lo para longe e ser cruel a deixava com o coração partido. No entanto, ele não fez nenhum esforço para tocá-la e, quando apontou para o sofá e pediu que ela se acomodasse, nem mesmo sentou ao seu lado. Dirigiu-se para uma poltrona em frente. E agora seu nervosismo era evidente. Vanessa imaginou se alguém lhe contara que no palácio suspeitavam de seu relacionamento escandaloso com Marcus. E se Gabriel exigisse saber a verdade, o que responderia? Poderia mentir para ele?

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Ou quem sabe não era nada disso e... Meu Deus! Ele iria fazer o pedido oficial de casamento? — Gabriel, antes que fale, preciso lhe contar uma coisa. Ele esfregou as mãos em um gesto inquieto, dizendo: — E eu tenho algo a dizer para você. — Vou falar primeiro — declarou Vanessa. — Não, é melhor que eu fale — retrucou ele. Vanessa se inclinou ligeiramente para a frente. — Na verdade, seria melhor que eu contasse primeiro. — Não, o que tenho a lhe dizer é muito importante — replicou ele um pouco aborrecido. — Eu também — insistiu ela, demonstrando irritação. — Vanessa... — Gabriel... E então os dois falaram ao mesmo tempo: — Não posso me casar com você.

CAPÍTULO DEZESSETE

MARCUS OBSERVOU Vanessa e o pai subirem as escadas juntos e refletiu que havia algo errado nessa cena. Se Gabriel estava feliz por revê-la, por que não a beijara logo de início? Por que não segurava sua mão? E por que parecera tão... nervoso? Nunca ficava nervoso. — Alguma coisa aconteceu — murmurou Cleo logo atrás de Marcus, que se voltou e falou: — Então não fui só eu quem reparou. Cleo acenou concordando. — Do modo como Gabriel estava apaixonado e nas nuvens quando voltou dos Estados Unidos, pensei que fosse levantá-la do chão e abraçá-la no momento em que entrasse por aquela porta, e depois se ajoelhasse para pedi-la em casamento. — Está pensando no que estou pensando? — inquiriu Marcus. — Ele não quer mais se casar com Vanessa — declarou Cleo. Marcus fez menção de se aproximar das escadas, mas ela o deteve, segurando-o pela manga da camisa. — Isso não significa que seu pai não vá ficar furioso ou se sinta traído se você contar a verdade. Cleo tinha razão, porém cada vez que Marcus pensava em Vanessa partindo sentia uma dor aguda no peito, como se alguém arrancasse seu coração e o apertasse. A ideia de vê-la pegar um avião com Mia, a imagem das duas deixando Varieo para sempre o enchia de um pânico tão intenso que era difícil respirar. Deu de ombros. — Não me importo, Cleo. Não posso permitir que Vanessa vá embora. Cleo largou seu braço e sorriu para ele. — Então o que está esperando? Ele subiu as escadas de dois em dois degraus e caminhou depressa pelo corredor até a suíte de Vanessa. Sem se importar em bater, escancarou a porta. Vanessa

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estava sentada no sofá diante de seu pai na poltrona, e a súbita intromissão assustou os dois. — Marcus — disse ela. — O que faz aqui? — Preciso falar com meu pai. Gabriel franziu a testa. — Algo errado, filho? — Sim e não. Depende de como se encara — retrucou Marcus. Vanessa ficou de pé e balançou a cabeça. — Marcus, não faça isso... — Preciso fazer, Vanessa. — Mas... — Sim — suspirou ele reunindo toda a coragem. — Preciso. Ela tornou a se sentar como se tivesse cansada de lutar e disposta a enfrentar as consequências fosse lá o que acontecesse a seguir. — Marcus, não pode esperar? — interveio Gabriel. — Preciso muito conversar com Vanessa. — Não, não posso. O que tenho a dizer deve ser dito agora. O pai fitou Vanessa muito quieta sentada no sofá. — Muito bem — consentiu com voz aborrecida. — Fale. Marcus respirou fundo e deixou o ar escapar dos pulmões lentamente, esperando que pelo menos Gabriel tentasse compreender. — Lembra-se quando me agradeceu por concordar em passar algum tempo com Vanessa? E quando falou que me ajudaria se precisasse de algo? Gabriel aquiesceu com um gesto de cabeça. — Sim, lembro. — Falava com sinceridade? — interpelou Marcus. — Claro que sim. Sou um homem de palavra, sabe disso. Um rei sempre deve manter suas promessas. — Então chegou o momento de fazer algo por mim, papai. — Qualquer coisa, Marcus. — Deixe Vanessa em paz. Deixe-a livre. Gabriel se levantou, deu um passo à frente e outro atrás, piscou diversas vezes em confusão. — Deixá-la em paz? Mas... acabei de fazer isso. Alguns segundos atrás comuniquei à Vanessa que não posso me casar com ela. — Não é o suficiente — discordou Marcus. — Quero que a deixe de verdade e permita que prossiga com sua vida sem se sentir ressentido. Gabriel arqueou as sobrancelhas. — Marcus, do que está falando? Por que essas exigências? — Para que eu me case com ela. O pai ficou de boca aberta, e Marcus prosseguiu: — Revelou-me que Vanessa era uma mulher extraordinária e que quando eu a conhecesse melhor iria amá-la. Bem, você tinha razão. Eu a amo. — Virou-se para Vanessa. — Mais do que ela possa imaginar. Demais para permitir que vá embora. Vanessa sorriu com lágrimas nos olhos. — Também o amo, Marcus. Ele se voltou para Gabriel, que tornara a se sentar, estupefato, e fitava os dois. — Precisa entender que não queríamos que isso acontecesse e lutamos contra. Mas... — Marcus deu de ombros. — Não conseguimos nos conter. — Vocês dois tiveram um caso — concordou o pai com um gesto de cabeça tranquilo. — Não foi um caso superficial — corrigiu Marcus. — Estamos apaixonados. — Então — sussurrou Gabriel se voltando para Vanessa —, por isso não pode se casar comigo?

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— Sim. Lamento, mas como Marcus esclareceu, não queríamos que isso acontecesse. De início seu filho nem mesmo simpatizava comigo. Gabriel fez um leve gesto de cabeça como se estivesse absorvendo as palavras e tentando entender. Mas, por estranho que pudesse parecer, não estava zangado. Quem sabe a monstruosidade da traição o deixara momentaneamente zonzo. — Tínhamos concordado em não contar nada e terminar nosso relacionamento — explicou Marcus. — Vanessa ia tomar a atitude mais honrosa e partir. Nenhum de nós dois suportava a ideia de magoar você, papai. Mas preciso de Vanessa. E de Mia também. O pai ficou sentado, as pálpebras abaixadas, balançando a cabeça devagar e esfregando as mãos. Marcus ergueu os olhos para Vanessa que estava triste e aliviada ao mesmo tempo, além de um pouco apreensiva. Contar a verdade para o pai fora muito penoso, mas Marcus sabia que viver uma mentira teria sido muito pior. Pesaria em sua consciência até o fim de seus dias. — Quer, por favor, dizer alguma coisa? — pediu ele. — Diga-me o que está pensando, papai. Por fim Gabriel ergueu o rosto. — Acho irônico. — Irônico por quê? — Porque também tenho um segredo. — A razão para não poder se casar comigo? — interpelou Vanessa. Gabriel concordou movendo a cabeça. — Sim, porque fiquei noivo de outra — revelou. Por um segundo Vanessa permaneceu rígida como uma estátua de pedra, uma expressão confusa no rosto, e depois riu. — Acha engraçado? — censurou Marcus. — Acho. Não é divertido, mas irônico, como Gabriel disse. Creio que estava tão concentrada em você, Marcus, que não percebi. E de repente tudo faz sentido. Marcus não estava entendo mais nada. — Que sentido? — Agora entendo por que Gabriel parou de conversar comigo pela internet e por que suas chamadas se tornaram cada vez mais raras e muito impessoais. — Fitou Gabriel com expressão serena. — Estava se apaixonando por outra pessoa. — Sim — concordou ele com um gesto de cabeça. — E era difícil encarar você e ouvir sua voz. Sentia-me tão culpado. Sabia que precisava dar um fim a isso, contudo não desejava magoá-la. — Sei exatamente o que quer dizer! — bradou Vanessa. — Não faz ideia do quanto me senti aliviada quando me informou que não falaríamos mais pela internet. Andava tão assustada e nervosa por pensar que no instante em que visse meu rosto saberia meu segredo. Gabriel sorriu. — Eu também estava com medo. — Desculpem — interrompeu Marcus erguendo a mão. — Podem me dizer por quem meu pai se apaixonou? Vanessa o fitou como se fosse uma criança ou um débil mental. — Sua tia Trina, é claro. Marcus se voltou com um repelão para Gabriel e viu pela expressão em seu rosto que era verdade. — Ficou noivo de Trina? Gabriel sorriu. — Quase a perdi e isso me abriu os olhos para os sentimentos que tenho por ela. Aos poucos Trina foi melhorando, e tivemos oportunidade de conversar muito. Gabriel e a tia Trina eram muito próximos, no entanto Marcus sempre pensara que seu relacionamento não passava de amizade.

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— Não planejamos que isso acontecesse — prosseguiu o pai —, mas depois de passarmos tanto tempo juntos percebemos claramente. Creio que entende o que quero dizer, filho. Mas Marcus quis saber: — Quando mamãe ainda estava viva você e Trina...? — Marcus, não! Claro que não. Eu amava sua mãe. Ainda amo sua lembrança. E até pouco tempo atrás não pensava em Trina a não ser como minha grande amiga. — Suspirou. — Ainda não sei o que foi exatamente que aconteceu e mudou entre nós dois, mas estou certo de que é algo bom e correto. — Voltou-se para Vanessa. — Ia lhe contar isso e pedir muitas desculpas por ter forçado você e sua filha a viajarem meio mundo, e por fazer promessas que não pude manter. — Sorriu com carinho. — Gosto imensamente de você, Vanessa. Foi por sua causa que consegui abrir meu coração de novo. Estava tão solitário e infeliz, então conheci você e pela primeira vez em meses me senti vivo de novo. E esperançoso. Queria me prender a essa sensação, porém no íntimo sabia que não iria durar. — Fez uma pausa e finalizou: — Sabia que nunca nos amaríamos como marido e mulher devem se amar. — Gostaria de amá-lo desse jeito — explicou Vanessa. — Queria ser esse tipo de mulher. — E você é, Vanessa. — Gabriel olhou para Marcus e sorriu. — Mas não para mim. — Então, não está zangado? — perguntou o filho. — Como é possível se sou culpado da mesma coisa? Vocês dois se amam. E iam sacrificar seus sentimentos para proteger o meu. — Bem, era esse o plano — concordou Vanessa com um gesto de cabeça, relanceando um olhar para Marcus e sorrindo também. — Então como poderia ficar zangado? — rebateu Gabriel. — Além disso, não conseguiria imaginar outra que me agradasse mais como nora. Na minha idade concluí que prefiro ser avô de Mia a ser seu pai. Sei que muitos homens de minha idade têm filhos, porém sou muito tradicionalista e arraigado aos meus próprios hábitos para começar tudo de novo. — Fitou Marcus. — Trina é da minha geração e nos entendemos muito bem. Passamos esse tempo juntos e a amizade se transformou em amor. Marcus sentiu que sua vida recomeçava. Como se tudo até esse momento fosse apenas um ensaio para a realidade que principiava. Era tudo tão perfeito que por um instante imaginou se ainda estaria dormindo em sua cama e sonhando com toda essa cena. Estendeu a mão para Vanessa que fez o mesmo na sua direção, e no momento em que seus dedos se tocaram ele soube que era real. E muito certo. — Pai, pode nos deixar sozinhos um pouco? — pediu. Gabriel se ergueu do sofá sorrindo. — O tempo que quiserem. A porta mal se fechara à saída do rei, e Vanessa já estava nos braços do príncipe. ELA ENTERROU o rosto em seu peito, apertando com força, com medo que não fosse verdade. Mas tudo dera certo. De algum modo, quebrando as regras e fazendo a coisa errada, conseguira exatamente um final feliz. Mas mesmo assim indagou para Marcus: — É verdade? Será que temos o direito de ser tão afortunados? Ele a apertou ainda mais de encontro ao peito e Vanessa o ouviu suspirar. — Para mim parece bastante real — respondeu. — Mas não creio que tenha algo a ver com sorte. Ela se afastou para fitá-lo nos olhos. — Por que fez isso? Arriscou tanta coisa.

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— Quando pensei em você e Mia partindo para sempre... simplesmente não suportei. E, quando vi o modo como papai a saudou ao voltar, tive a sensação que algo estava errado. — Mesmo assim ele poderia ter ficado furioso — rebateu Vanessa. — Sei disso, mas precisava tentar e usar minha oportunidade sem perda de tempo. — Por minha causa? — Claro. — Ele acariciou-lhe o rosto. — Amo você, Vanessa. Já falara isso antes, no entanto até esse momento ela não se permitira acreditar de verdade. Seria doloroso demais quando chegasse a hora de partir e ele nada fizesse para detê-la. Porém, nesse momento, todo o amor e sentimentos que Vanessa sufocara em seu coração afloravam e já não poderia contê-los mesmo que quisesse. — Amo você, Marcus. Tanto. Honestamente não sabia que se podia amar assim e ser tão feliz. — Bem, vá se acostumando — murmurou ele beijando-a com doçura — porque, se você me aceitar, passarei o resto de minha vida fazendo você e Mia felizes. — É muito tempo — brincou Vanessa. — Meu amor, para expressar o quanto a amo, aceita ser minha esposa e me tornar o homem mais realizado da face da terra? Em todos os diferentes lugares onde morara Vanessa jamais se sentira realmente em casa, mas ali, em Varieo com Marcus, soube sem a menor sombra de dúvida que finalmente chegara ao seu lar. — Sim — respondeu sem vacilar, pois jamais se sentira tão segura sobre alguma coisa. — Pode crer que aceito. PRÓXIMO LANÇAMENTO HERDEIRO ENTRE RIVAIS KATHERINE GARBERA De acordo com a opinião de todos, Marco Moretti era um homem que tinha tudo. A vitória daquele dia fazia parte do seu plano de se tornar o piloto mais premiado da família Moretti. Seu avô, Lorenzo, vencera três Grandes Prêmios consecutivos — o que Marco também fizera. Mas, naquele ano, ele pretendia superar aquele recorde. O número de vitórias dos dois Moretti estava empatado com outros três pilotos que já haviam vencido o Grande Prêmio, mas, com a vitória daquele ano, Marco venceria o campeonato pela quarta vez, alcançando o que sempre desejara desde que começara a correr. Não tinha dúvida de que conseguiria. Quando resolvia algo, nunca fracassava, e desta vez não seria diferente. Então, por que se sentia nervoso e aborrecido? Seu companheiro de escuderia, Keke Heckler, estava sentado ao seu lado num banco, durante o jantar, bebendo água e conversando com Elena Hamilton, modelo que saíra na capa da Sports Illustrated. Keke parecia se sentir o dono do mundo. Ao observar os dois, Marco só conseguia pensar que na vida existia algo além de correr, vencer e festejar. Ah, tudo bem, talvez ele estivesse se sentindo indisposto ou, quem sabe, incubando uma gripe ou algo semelhante. Ou talvez fosse a maldição da família. Hipoteticamente, nenhum homem da família Moretti teria sucesso no amor e nos negócios ao mesmo tempo. — Marco? — chamou Keke com um acentuado sotaque alemão. — O quê?

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— Elena perguntou se Allie virá se encontrar com você aqui, mais tarde — explicou Keke. — Não. Nós não estamos mais juntos. — Ah, sinto muito — disse Elena. Alguns minutos depois, Keke e Elena deixaram a mesa e foram dançar, e Marco recostou no banco forrado de couro e observou a multidão. A festa era dada não apenas para ele, mas para todas as celebridades que acompanhavam as corridas de Fórmula 1. Viu vários pilotos espalhados em meio a um verdadeiro oceano de belas mulheres, mas não fez um movimento para se aproximar de ninguém. Allie e ele haviam se distanciado durante o período entre as temporadas. Era como se ela só quisesse estar com Marco quando ele ocupava o centro das atenções. Em parte, Marco ansiava por uma vida sossegada, mas não conseguia se livrar da fascinação que as corridas lhe provocavam. Às vezes, quando estava sozinho, desejava ter alguém com quem compartilhar os momentos de tranquilidade da sua vida. Uma companheira com quem dividisse sua villaem Nápoles, lugar onde se refugiava para voltar a ser um homem comum. Marco olhou em volta do salão. Nenhuma daquelas belas mulheres lhe chamava a atenção. Todas eram extremamente bonitas, mas, ali, ele nunca encontraria uma que aceitasse aquele estilo de vida. O que havia de errado com ele? Estava destinado a inaugurar uma nova era na Moretti Motors. Ele e seus irmãos haviam crescido num estranho mundo de riqueza e privilégios, sabendo que nenhum deles possuía fortuna pessoal. E isso fora algo que ele, Dominic e Antonio corrigiram, assim que alcançaram idade suficiente. Os três se tornaram homens respeitáveis no impiedoso mundo automobilístico. Sob a orientação deles, a Moretti Motors havia recuperado a liderança no mercado de carros especiais. A potência do motor Moretti e o design primoroso dos modelos haviam feito com que seus automóveis se tornassem os mais velozes do mundo, algo que Marco constatava toda vez que se sentava ao volante do seu carro de corrida de Fórmula 1. O que mais ele poderia desejar?

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Michelle celmer paixão intensa (desejo 210)  
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