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Mar de Espinhos A DANGEROUS SOLACE

Lucy Ellis

Despida de suas defesas... Gianluca Benedetti, o playboy mais desejado da Itália, não reconheceu imediatamente Ava Lord, a linda desconhecida que roubou sua atenção e dormiu com ele tantos anos atrás. Mas basta uma rápida apreciação das curvas dela sob as roupas convencionais para ele recuperar a memória! Um beijo apaixonado é o barril de pólvora que explode, provocando um escândalo na mídia. Para se afastar de tanto incômodo e não desgastar sua imagem, Gianluca leva Ava para a Costa Amalfitana. Ao experimentar o calor da paixão novamente acesa, Ava sente o perigo de abrir seu coração. Pois, quanto mais perto Gianluca chega, maiores se tornam as rachaduras em sua armadura cuidadosamente construída. Digitalização: Simone R Revisão e Formatação: Deda Dantas


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Querida leitora, Nesta edição de Jessica, temos dois casais que relutam em se entregar ao amor, mas não conseguem controlar o desejo. Em Mar de espinhos, Ava Lord e Gianluca Benedetti se reencontram anos depois de passarem uma noite juntos, e descobrem que ainda são fortemente atraídos um pelo outro. Em O preço do dever, Ava de Veers e James Wolf sabem que devem manter uma relação profissional, afinal, ela é uma princesa, e ele, seu guarda-costas. Mas a paixão é mais forte que o protocolo real... Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books Tradução Joana Souza HARLEQUIN 2014 PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: A DANGEROUS SOLACE Copyright © 2013 by Lucy Ellis Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance Título original: DUTY AT WHAT COST? Copyright © 2013 by Michelle Conder Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance Projeto gráfico e arte-final de capa: Isabelle Paiva Diagramação: editoríarte Impressão: RR DONNELLEY http://www.rrdonnelley.com.br Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: FC Comercial Distribuidora S.A. Editora HRLtda. Rua Argentina, 171, 4o andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: mailto:virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis

CAPÍTULO 1

Gianluca Benedetti avaliou o casaco disforme e, em seguida, a mulher nele. Tinha potencial, se abandonasse o chapéu, soltasse o cabelo, tirasse o casaco e começasse do zero. Ela tinha o essencial. Era alta, as pernas eram boas e possuía uma vivacidade que parecia estar reprimindo. — Devolva meu dinheiro! — Sua voz era clara, nítida e séria, e ela estava, obviamente, zangada. Gianluca poderia dizer por seu sotaque que era australiana. O rapaz a estava enrolando. Na galeria lotada, as pessoas desviavam da morena de pé em frente ao quiosque. Ela parecia uma bomba relógio prestes a explodir. — Eu não vou a lugar nenhum até que você me devolva esse dinheiro. Dei à sua empresa um aviso com 48 horas de antecedência. No seu site está claro que as restituições são possíveis com aviso de 24 horas. Gianluca fechou o jornal e saiu pela porta do café que ele frequentou durante toda a sua vida adulta em Roma. A educação impecável incutida nele por uma avó siciliana o fez se aproximar dela. — Signora, posso ajudar? Ela sequer se virou. — Eu não sou uma signora, sou uma signorina. E não, você não pode me ajudar. Sou perfeitamente capaz de me ajudar. Vá oferecer seus serviços a algum outro turista idiota. Gianluca se inclinou mais perto. — Meus serviços? — Gigolô. Acompanhante. Vá embora. Não quero você. Aquela grossa achava que ele era um prostituto? Ele a olhou de cima a baixo. Ela não tinha sequer se preocupado em virar. O bom senso lhe disse para dar de ombros e ir embora. — Então, signorina... Talvez você seja pobre. Você precisa se lembrar de como é ser uma mulher? — Desculpe-me? — Ela se virou, e imediatamente Gianluca perdeu todos os preconceitos que ele havia construído ao redor dela, as roupas disformes, seu tom. Ele havia pensado que era mais velha e. Certamente menos atraente do que aquilo. Ela tinha a pele sedosa, maçãs do rosto incríveis e lábios exuberantes. Mas seu rosto era dominado por óculos de sol brancos feios, e ele teve de resistir ao impulso de retirá-los. — É você! — disse ela. Ele levantou uma sobrancelha. — Já nos conhecemos? Aquele não era um cenário estranho. Sua carreira anterior no futebol — dois anos chutando uma bola por aí profissionalmente pela Itália — combinada com seu título lhe havia rendido certo reconhecimento.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Não — respondeu ela defensivamente. Ele percebeu que ela estava olhando em volta como se buscasse uma rota de fuga e ficou tenso. Madre di Dio, o que estava acontecendo? A base de sua garganta pulsava e ele não sabia o motivo. Ela fez um som suave de pânico. Gianluca a encarou, e uma tensão sexual irrompeu entre eles. Tão rápido, tão forte, que o pegou totalmente desprevenido. Ele deu um passo em direção a ela, mas ela não se moveu um milímetro. Seu queixo se elevou e suas pupilas dilataram, como se esperasse algo. Algo dele. Algo que Gianluca não conseguia definir. Basta! Aquilo não o estava levando a nada. Irritado com o próprio comportamento sem precedentes, saiu. — Neste caso, aproveite sua estada em Roma, signorina. Ele só tinha dado alguns passos quando se virou. Ela ainda estava lá, afundada naquele casaco horrível e usando aquelas calças que não ajudavam em nada, no entanto. Gianluca percebeu outras coisas nela, o nariz rosado, a expressão um pouco agitada no rosto. Ela esteve chorando. Aquilo despertou algo nele. Uma memória. Uma mulher chorando geralmente o deixava frio. Ele sabia tudo sobre manipulação feminina. Cresceu observando-a em sua mãe e irmãs. As lágrimas eram geralmente um dispositivo feminino para conseguir o que queriam. Nunca deixava de surpreendê-lo como uma bugiganga bonita ou uma promessa poderia fazê-las chorar. Mas, em vez de se afastar, ele caminhou até o quiosque, leu a placa que dizia “Fenice Tours”, que era administrada por uma subsidiária do conglomerado de viagens com que a Benedetti International tinha negócios, e pegou seu telefone. Disse ao rapaz que ele tinha 60 segundos para reembolsar a turista ou fecharia o lugar. Com mais algumas instruções bem colocadas, ele entregou seu telefone. O homem aceitou-o com um olhar cético que desapareceu quando a voz irritada de seu empregador zumbiu como uma mosca varejeira do outro lado. — Mi scusi, principe. Foi um mal entendido — gaguejou o rapaz. Gianluca encolheu os ombros. — Desculpe-se com a moça, não comigo. — Si, si... scusa, signora. Com os dentes cerrados, ela aceitou os euros. Apesar de todo o barulho que havia feito, Gianluca notou que ela não se preocupou em conferir, apenas os guardou silenciosamente em sua bolsa, acessório que também parecia propositalmente desfavorável à sua imagem. — Grazie — disse ela. Gianluca estava na calçada abrindo sua Lamborghini quando olhou para trás. Ela o seguiu e o observava, sua expressão quase cômica em uma guerra entre a curiosidade e o ressentimento. E algo mais. 4


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Foi o algo mais que o impediu de entrar no carro. — Desculpe-me. — Sua voz era dura e sua cautela a fazia parecer estranhamente cerimoniosa. — Estou curiosa — disse ela. Ele podia sentir o olhar dela vasculhando seu rosto, como se à procura de alguma coisa. Curiosa, mas não grata, observou ele. Divertindo-se, apesar da cautela que lhe dizia que algo não estava certo. — Você realmente poderia fechar o estabelecimento? Ela inclinou o queixo. Onde ele havia visto esse gesto antes? Ele deu um sorriso cortês. — Signorina — disse. — Aqui é Roma. Eu sou um Benedetti. Tudo é possível. Ele trafegava pelo trânsito caótico de Roma quando a reação dela foi registrada. Ela não parecia lisonjeada. Sequer chocada. Parecia furiosa. E contra sua vontade deu meia-volta.

CAPÍTULO 2

Ava ficou de pé na calçada em choque enquanto o esportivo rebaixado sumia. Benedetti. Ao longo dos anos ela teve alguns alarmes falsos. Momentos em que uma voz profunda, um sotaque italiano, um par de ombros largos a faziam virar a cabeça com os sentidos disparando. Mas a realidade sempre intervinha. Evidentemente a realidade havia decidido dar-lhe um tapa na cara. A memória veio depressa. Um pulso bronzeado na ignição de uma moto Ducati. O aperto de seus braços ao redor de uma cintura musculosa enquanto eles faziam sua fuga de um casamento. A memória de um voo em uma noite de verão sete longos anos antes, da qual ela ainda não conseguia se desvencilhar. Ava se esforçou para afastar algumas imagens altamente sexuais. Encontrar-se nas primeiras horas de uma manhã de verão deitada na grama no monte Palatino com seu vestido enrolado em torno da cintura, sob o peso musculoso de um jovem deus romano não era algo que uma mulher se esquecia com facilidade. Encontrar-se repetindo isso uma hora depois, em uma cama que havia pertencido a um rei, em umpalazzo construído literalmente para uma princesa, em uma belapiazza no centro da cidade, e de novo e de novo manhã adentro, também era algo que havia ficado com ela. E todo o tempo ele havia lhe derramado elogios, fazendo-a se sentir como uma deusa. 5


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis No brilho de uma nova manhã, Ava havia escorregado do palácio despercebida, e, como Cinderela, deixou os sapatos para trás na pressa de fugir. Com os pés descalços e o vestido azul levantado para que pudesse correr, ela havia sido em igual medida contente e triste, seu corpo agradavelmente dolorido de todas as contrações dos músculos que não sabia que tinha. Fez sinal para um táxi e foi embora, e se havia olhado para trás, fora apenas para fixar a memória, porque sabia que nunca iria acontecer novamente. Ava voou de volta para Sydney no dia seguinte, voltou a subir a escada corporativa e presumiu que nunca iria vê-lo novamente. Claramente ela supôs errado. Recompondo-se, Ava se afastou do meio-fio e disse a si mesma que definitivamente não permitiria que a memória de uma noite com o atraente jogador de futebol montado em uma Ducati estragasse seus planos. Ela vinha lidando com tudo muito bem até o momento. Talvez bem demais, pensou. Ela não deveria estar de coração partido? A maioria das mulheres estaria. Ser dispensada na véspera de um pedido de casamento do namorado de longa data em uma cidade estrangeira e, em seguida, viajar naquela cidade por conta própria abalaria qualquer um. Felizmente, ela não era tão mole. Era por isso que estava em seu caminho para a Praça de Espanha, para participar de uma excursão de locais literários em Roma. Ela certamente não ia permitir que avistar uma das maravilhas naturais da Itália em uma rua da cidade a desviasse de seu propósito. E daí se aquele vestido azul estava enterrado no fundo de seu armário em casa? E daí que havia guardado o vestido? E daí que estava em Roma? Não tinha nada a ver com aquela noite de muito tempo atrás, quando tudo o que ela acreditava sobre si mesma havia sido virado de cabeça para baixo. Bem, não daquela vez. Hoje em dia ela tinha tudo sob controle. Quando não estava correndo de cabeça quente pelas ruas de Roma, procurando o. O que era? Ela consultou seu mapa. A Piazza di Spagna. Ela ignorou a aceleração de seu coração, disse a si mesma que não havia nenhuma chance de buscar em uma lista telefônica italiana pelo endereço do Palazzo Benedetti. Ela não deveria nem pensar nisso! Roma havia sido definitivamente um erro. Quanto mais cedo ela pegasse o carro alugado e seguisse para o norte, melhor. Ava olhou ao redor em confusão, descobrindo que estava em uma quadra que não reconhecia. — Isto é pazzo — murmurou Gianluca enquanto estacionava o carro do outro lado da pequena piazza. Inferno, o que ele estava fazendo? Ele era Gianluca Benedetti. Não seguia mulheres pelo meio-fio. E não aquele tipo de mulher. Uma que usava calças masculinas e uma camisa de seda abotoada até o queixo, parecendo não ter noção do que era ser uma mulher. Ela não era o tipo dele. No entanto, ali estava. Ele podia vê-la andando para um lado e para o outro sobre os paralelepípedos, 6


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis segurando algo no ar. Teve a impressão de que era um mapa pela forma como ela o estava posicionando. Seu celular vibrou. — Onde você está? — Gemma parecia levemente irritada. Perseguindo uma turista. — Preso no trânsito. Ele verificou as horas. Estava extremamente atrasado. O que diabos estava fazendo? — O que eu digo aos clientes? — Deixe-os esperar um pouco. Estou a caminho. Gianluca guardou o telefone e se decidiu. Enquanto atravessava a praça, pensou na complicação que estava trazendo para a sua vida. Ela estava caminhando lentamente para trás, tentando descobrir o nome da praça em uma placa na parede acima dela. Ela esbarrou nele. — Desculpe-me — disse educadamente. As boas maneiras, observou ele, eram para outras pessoas. Foi seu último pensamento antes de ele colidir com seus olhos. Uma parte de seu cérebro se perguntou se eram lentes de contato coloridas, exceto que, a julgar pelo resto de sua vestimenta, ele duvidava que ela se importaria com isso. Não, a cor era dos olhos dela. Um verde extraordinário. Uma dessas cores que mudavam com a luz ou seu humor. Olhos e uma boca e um corpo macios que ela havia tirado dele quando ele mais precisava. As feições dela se fecharam em torno de seus olhos. A outra parte do cérebro dele estava em queda livre. — Você! Exatamente os sentimentos dele. Ava saltou para trás com horror. Mas ele percebeu que ela envolveu a mão em seu braço, como se ancorando-se a ele. O que lhe pareceu totalmente irônico, já que na última vez que ele pôs os olhos sobre essa garota ela estava tão ansiosa para escapar de sua cama que havia deixado seus sapatos para trás. Do nada, um ressentimento que ele não sabia que carregava ricocheteou como uma bala perdida em torno de seu corpo. Que diabos ela estava fazendo de volta a Roma? De volta em sua vida? Seus olhos se estreitaram sobre ela. — Você está me seguindo? — Acusou ela. — Si. Por que negaria? O olhar em seu rosto era impagável. — Você parece perdida, signorina - observou ele, passando o olhar pelo rosto dela. — E como já nos conhecemos. 7


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis O horror no rosto dela apenas aumentou, crescendo sua sensação de satisfação. — Permita-me oferecer ajuda. Ela agarrou a própria camisa e ficou um pouco mais ereta. Ele iria desfrutar fazê-la sofrer e depois a deixaria ir. — Isso é uma profissão para você? Seguir mulheres pela cidade, ajudá-las, queiram ou não? — Você parece ser a exceção à minha regra de deixar mulheres se virarem sozinhas. Ela apertou os lábios, olhando para o mapa. A dúvida estava clara em seu rosto. A indecisão e a ansiedade. Gianluca disse a si mesmo que um homem sensato iria embora. Qualquer coisa entre eles agora estava abaixo dele. Ele havia feito a identificação. Sabia exatamente quem era essa mulher. Há sete anos havia desenvolvido todo tipo de fantasia romântica em torno daquela menina. Além disso, agora ela estava se mostrando completamente normal, um pouco deselegante, na verdade. Certamente não uma mulher para a qual ele olharia duas vezes. O que não explicava por que ele a havia seguido e agora era incapaz de desviar os olhos dela. — É tarde demais, de qualquer forma — murmurou ela, para si mesma. — Perdi o início do tour. Gianluca esperou. — Nós deveríamos nos reunir na Praça de Espanha — acrescentou a contragosto. — Entendo. Não que ele entendesse. Gianluca decidiu ir direto ao ponto e diminuir o tempo que isso estava levando. — A Praça de Espanha é por aqui - apontou ele. — Vire à esquerda e, em seguida, a segunda à direita. Ela estava tentando seguir suas direções, o que significava que foi forçada a olhar para ele, e ao mesmo tempo estava desastradamente colocando seus feios óculos escuros. Como o céu estava nublado, era claramente uma tentativa desajeitada de disfarce. Algo sobre sua tentativa apressada de se esconder o irritou. Ela não era muito boa em subterfúgios. Ainda assim havia sido verdadeiramente genial em sua fuga há sete anos. Gianluca se sentiu tentado a confiscar os óculos. Segura por trás das lentes sombreadas, Ava inclinou suas gloriosas maçãs do rosto. — Acho que deveria agradecer. — Não se sinta obrigada, signorina. Aqueles lábios se franziram, mas nada poderia destruir sua forma sedutora. Deixando de lado o conhecimento de que isso prometia complicações infindáveis, ele enfiou a mão no casaco e tirou um cartão, agarrou a mão dela e fechou seus dedos sobre ele. Eram quentes, suaves e surpreendentemente delicados. Ela puxou a mão para trás e olhou para ele como se a houvesse tocado de forma 8


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis inadequada. — Se você mudar de ideia sobre me agradecer, signorina, estarei no Rico’s Bar hoje por volta das 23h — disse ele, perguntando-se o que diabos achava que estava fazendo. — É uma festa particular, mas vou deixar seu nome na porta. Aproveite seu tour. — Você nem sabe o meu nome. Soou como uma acusação Seu estômago se apertou. Exatamente. Se ele soubesse o nome dela há sete anos este pequeno negócio inacabado haveria sido esquecido. Só mais uma garota em uma noite. Mas não havia sido apenas mais uma noite. Era uma noite marcada em sua alma, e a mulher que estava na praça era uma grande parte disso. Si, isso explicava por que seu peito estava apertado, e seus punhos cerrados ao lado do corpo. Impiedade estava em seu sangue e Gianluca nunca esquecia que era um Benedetti. Nesta cidade lendária era impossível de esquecer. Seus ancestrais comandaram legiões romanas, emprestaram dinheiro para papas e financiaram guerras ao longo dos séculos. Havia sangue o suficiente nos anais da família para deixar o Mar Tirreno vermelho. Isso lhe permitiu olhar para ela com indiferença. — Que tal Morango? — disse lentamente. A ameaça silenciosa em seu tom de voz era geralmente o suficiente para deixar presidentes de multinacionais pálidos como leite. Ela abaixou os óculos de sol e aqueles olhos verdes o penetraram. Uma admiração sombria se acendeu. Esta mulher tinha os ingredientes de um oponente formidável. Ele poderia gostar disso. Basta! Isso não era uma vendetta. Ela era, afinal, uma mulher, e ele, naturalmente, não era esse tipo de homem. Ele era cavalheiresco, civilizado, membro da alta sociedade romana. Isso era apenas por curiosidade, para colocar um ponto final em um episódio de sua vida. A primeira e única vez que uma mulher havia fugido dele. Ele voltou para o carro. No entanto, quando mergulhou no trânsito caótico novamente, reconheceu que não era o seu lado Benedetti que estava no comando. Era o sangue siciliano do povo de sua mãe, e ele respondeu instintivamente ao conhecimento de que aquele pequeno pedaço de negócio inacabado estava afinal em sua mira mais uma vez.

CAPÍTULO 3

Ava se obrigou a bloquear o encontro de sua cabeça enquanto seguia suas instruções e obtinha seu primeiro vislumbre da Praça de Espanha em sete anos. Apesar da multidão, encontrou seu grupo de passeio. 9


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Gianluca a seguira. Sim, mas ele gosta de mulheres. Esse é seu modus operandi. Ele vê uma garota. Ele a leva. Ele viu você, ele quer você. Ava tentou se concentrar no que o guia estava dizendo sobre a morte de Keats, mas tudo o que podia pensar era na derrota de seu orgulho, pois queria desesperadamente ir àquela boate para vê-lo novamente. Fechou os olhos. Não era o tipo de mulher que dormia com homens aleatórios e isso era tudo o que um homem como Benedetti poderia ser. Uma noite, algumas horas. Entretenimento para ele. Você gostou. Ele viu você. Ele quer você. Não houve qualquer razão para se oferecer para se machucar novamente. Você não tem nada a perder. É uma mulher solteira, e aqui é Roma. Além da multidão apressada e do ruído do tráfego, estava a própria cidade, impressa em sua mente por inúmeros filmes de Hollywood. Bella Italia, onde coisas mágicas deveriam acontecer com moças solteiras se jogassem moedas em fontes. E às vezes essas coisas realmente aconteciam, mas essa moça havia interpretado mal os sinais. Toda vez ela entendia errado. Não ia errar novamente. Emoções brotaram inesperadamente, enchendo sua garganta, tornando difícil respirar. Ela esteve chorando novamente esta manhã e ela nunca chorava! Nem mesmo quando Bernard ligou três dias atrás, no aeroporto de Sydney, uma hora antes da decolagem, dizendo que não viria para Roma. Quando começou a perceber que não haveria pedido de casamento romântico em frente à Fonte de Trevi e antes que pudesse examinar o enorme sentimento de alívio, ele dera a notícia de que havia encontrado outra mulher e que, com ela, ele tinha paixão. Foi um golpe baixo, mesmo para Bernard. Ele nunca havia sido particularmente sensível aos seus sentimentos, mas ela presumira, até aquele momento, que metade da culpa por sua vida sexual sem brilho era compartilhada por ele. Aparentemente, não. Aparentemente, era tudo culpa dela. — Paixão? — gritou ao telefone. — Nós poderíamos ter paixão. Em Roma! No entanto, desde então, durante o longo voo, na viagem de táxi do aeroporto ao hotel, ao longo das duas noites que havia passado olhando para as paredes, Ava vinha suspeitando de que ela escolhera Roma por razões inteiramente românticas que claramente não tinham nada a ver com Bernard. Ela começava a suspeitar que havia um desejo incompleto dentro dela por uma vida diferente. Uma vida romântica. Mas era inútil. Romance era coisa de cinema, não da vida real. Certamente não da sua vida. Ela havia aprendido jovem ao ver a separação de seus pais, vendo sua mãe mentalmente doente lutar para criá-los com a pensão, que a única maneira de sobreviver como mulher era se tornar financeiramente independente. Então, ela trabalhou duro para chegar onde estava, mas isso significava que ela nunca havia tido tempo para uma vida social, nunca havia passado pelos ritos de 10


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis passagem que para seus colegas haviam sido a coisa mais natural do mundo. Como consequência, ela tinha feito uma coisa muito tola há sete anos e uma outra coisa tola quando ela se convenceu a se casar com um homem que não amava. Não, Bernard não era o homem certo para ela. Mas também não era um jogador de futebol atraente que pensava que poderia apenas pegar uma mulher como uma moeda na sarjeta e colocá-la no bolso. Seu punho se abriu para revelar o cartão que estava carregando pela última meia hora. Segurou-o e leu os vários telefones para contato. A memória caiu como um estilete entre suas costelas. Todos aqueles números. Mas ela havia ligado para seus números antes, não havia? Nenhum deles havia levado a ele. Sacudindo-se, Ava se afastou do grupo. Voltaria ao hotel. Tudo estava uma bagunça e a culpa era dele. Não de Bernard. O que ela estava pensando para ficar com Bernard por dois longos anos? Para orquestrar um pedido de casamento romântico? Reservar as passagens de avião, um hotel de luxo, um passeio de carro na Toscana? O que a havia possuído para criar um cenário romântico tão ridículo com um homem que ela não amava, logo nesta cidade? O coração de Ava começou a martelar, porque ela tinha a resposta em sua mão. O que ela estava fazendo de volta a Roma? Atrás dele, a festa de boas-vindas a Roma para seu primo Marco e sua nova esposa estava a pleno vapor, mas Gianluca encontrou-se constantemente buscando na piazza uma certa morena. Ele não havia sido capaz de tirá-la de sua cabeça durante todo o dia. Não a menina ainda jovem que havia se deitado com ele na grama no Palatino, porém, mas a mulher tensa e irritada que parecia não ter um homem entre suas coxas por muitos anos. O tipo de mulher que, por qualquer motivo, havia se esquecido de como ser uma mulher, embora, no caso dessa moça, ele suspeitasse que poderia ser um ato intencional. Ele sorriu, imaginando o quão difícil seria realizar esse milagre. Dada a atração sexual entre eles, não seria difícil. Raiva, reconheceu, poderia ser um poderoso afrodisíaco. Seu sorriso desapareceu. Seus pais haviam mantido esse tipo de relacionamento: volátil, com performances com vidros quebrados por parte de sua mãe siciliana e atos passivo-agressivos de sabotagem de seu pai enquanto ele recusava dinheiro, acesso às joias da família e o uso dos palazzi Benedetti espalhados pelo país. A ironia era que ele estava ali celebrando um casamento. A chegada de um bebê. As coisas que compunham a felicidade na vida de outras pessoas. Não apenas se possuísse Benedetti no nome. Era um pensamento solitário e ele o afastou. A vida era boa. Ele era jovem, em forma e obscenamente bem- sucedido. Mulheres caíam a seus pés. Tudo o que ele tocava virava ouro. Esqueça aquela mulher. Esqueça o passado. Aplique as lições ao que está por vir. Ele se afastou de sua contemplação da famosa praça abaixo e atravessou o terraço para participar da festa. - Signorina, ficaremos sentados aqui a noite toda ou vou levá-la a outro lugar? 11


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Do outro lado da rua, Ava podia ver mulheres parcamente vestidas entrando alegremente na boate. Ela empurrou o dinheiro para o motorista, respirou fundo e lançouse para fora do táxi. O ar frio envolveu suas pernas, e Ava quase voltou para o carro. Sabia que estava sendo boba. O vestido vermelho ia até seus joelhos e cobria os ombros e braços. Era perfeitamente aceitável. Talvez ele se agarrasse a suas longas pernas enquanto ela se movia e suas panturrilhas em meias pretas parecessem expostas enquanto atravessava a rua com os saltos estalando, mas ninguém iria rir e apontar. Quando Ava se aproximou do vidro frontal da boate, começou a se sentir um pouco diferente. As luzes pulsantes davam uma atmosfera onírica e, longe de se sentir exposta, percebeu que se encaixava perfeitamente. Tinha um medo enorme de passar vergonha. Enquanto crescia, a doença mental de sua mãe havia fornecido demasiadas oportunidades para que isso acontecesse. Planejara sua vida para evitar situações sociais tanto quanto possível, mas naquela noite não tinha muita escolha. O porteiro disse algo agradável para ela em italiano, e Ava entrou, esperando atrás dos outros clientes. Havia sido sua escolha usar um cocktail dress. Que fosse novo e ela não conseguisse se lembrar da última vez que havia usado um vestido não tinha absolutamente nada a ver com um homem esta manhã dizendo que ela havia se esquecido de como era ser uma mulher. Ava não podia vê-lo enquanto descia os degraus e caminhava lentamente através do lugar lotado. Confusão a invadiu. Deveria esperar? Perguntar pela mesa dele? Preocupantemente, o lugar parecia estar cheio de mulheres bonitas que não usavam muita roupa. Ela não poderia competir. Sentindo sua confiança escapulindo, Ava esquadrinhou o local e avistou as escadas em caracol em cada extremidade. Havia outro nível. Deveria subir? Deveria perguntar pela mesa dele? Pela primeira vez, ocorreu-lhe, com uma pontada de desconforto, que o convite havia sido geral, mais algo como venha... Divirta-se. Não específico. Não um acho você atraente, talvez até em algum nível subliminar me lembre de você e quero passar algum tempo com você. Era perfeitamente possível que ela houvesse entendido mal. Sim, Ava, você entendeu tudo errado de novo... Mas naquele momento ela avistou uma mulher de cabelo escuro em um vestido cor de vinho olhando para ela do outro do ambiente. Seus olhos eram escuros e misteriosos, sua boca era de um vermelho vívido, como uma rosa, explosiva e apaixonada. Ela era algo além de bela. Ela era dramática. Ao levar os dedos ao cabelo, Ava experimentou um pequeno choque de reconhecimento. Era uma parede espelhada. A mulher olhando para ela era. Bem, ela. Ela ignorou as vozes trovejantes que diziam que estava se preparando para se atirar de um abismo e subiu as escadas. Marco entregou-lhe uma cerveja gelada. — Ao futuro. Esta era a primeira vez que Gianluca se encontrava com seu primo desde o grandioso casamento em Ragusa. Eles haviam jogado futebol profissionalmente juntos por volta dos 20 anos. Marco havia parado devido a uma lesão e Gianluca havia rescindido seu contrato no auge de sua carreira e fama para realizar o serviço militar 12


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis esperado de um Benedetti. Ele ainda sentia os efeitos de sua breve carreira esportiva. Futebol era a religião de seu país e durante dois anos ele havia sido seu ídolo. O filho favorito de Roma, e ninguém o deixava esquecer. — Seu futuro — emendou ele, buscando sua noiva. Ela estava próxima, conversando com as amigas. Ela também estava visivelmente grávida. Viu-os e foi até eles. — Estávamos cumprimentando-a.

brindando

ao

herdeiro

Benedetti

informou

Gianluca,

— Este é o seu filho, não o meu — lembrou Marco. — Não vai haver nenhum, meu amigo. Então beba. — De acordo com Valentina haverá. — Você vai se apaixonar, Gianluca — disse Tina Trigoni. — E antes que perceba terá seis filhos e seis filhas. E é melhor ter — acrescentou. — Não tenho nenhuma intenção de sacrificar meus filhos ao legado Benedetti. — Valentina. — começou Marco, mas Gianluca deu um leve sorriso. — Fico feliz com a atenção, Tina. — Embora você nunca vá sossegar enquanto sair com essas cabeças de bolha. Ele levantou uma sobrancelha. — Mulheres com bolhas acima de suas cabeças, como nos quadrinhos — disse Tina fazendo um gesto ilustrativo. - Bolhas em branco para que outras pessoas preencham com palavras. Gianluca reconheceu privadamente que não estava longe da verdade. No entanto, ele não estava procurando uma mãe para seus filhos. — Você andou falando com a minha mãe. — Deus, não. Não sou tão corajosa. Você sabe que ela pensa que uma virgem siciliana de 20 anos preencheria a vaga? Ouvi-a falar com suas irmãs sobre isso. Marco bufou. — Sua mãe conhece você, afinal? Conhecia? Dificilmente. E esse era o ponto. Os Benedetti jogavam seus meninos para serem criados como Rômulo e Remo no mito da fundação de Roma, para serem amamentados pela loba dos militares até que atingissem a maioridade. Sua mãe havia aceitado as tradições Benedetti como todas as mulheres que vieram antes dela e esperava que ele fizesse o mesmo. Não, a mãe não o conhecia. — Encontre-me uma esposa, então, Tina — disse ele ironicamente. — Uma boa e gorda virgem siciliana, e seguirei todos os costumes. — Encontre-lhe uma esposa e milhares de mulheres esperançosas vão chorar — acrescentou Marco, balançando sua cerveja. Mas Valentina parecia interessada. — Não sei quanto a virgens. Elas ainda existem aos 21 anos?

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Completamente do nada sua mente voltou a um par de olhos verdes incomuns. Existiu, pensou. Uma vez. Há muito tempo. — Mas, francamente, Gianluca, não sei se deveria apresentar alguma das minhas amigas a você. Nunca quer nada sério com nenhuma mulher. — Suas amigas estão fazendo fila para serem apresentadas — acrescentou Marco. — Estou contente por não ganhar tanto dinheiro quanto você. — Sim, porque então eu haveria me casado com você pelo seu dinheiro — disse Valentina, suavemente. — Em vez de pelo seu charme. — Ela deu a seu marido um olhar inteligente. — Além disso, não acho que elas estejam inteiramente atrás do dinheiro dele. Gianluca ouviu a brincadeira de Marco e sua esposa e por um momento percebeu que era disso que iria sentir falta. Tudo indo bem, Marco e Tina iriam envelhecer juntos, colocariam netos no colo, conversariam sobre uma vida bem vivida. Em 40 anos. Ele parou. Pela maneira como estava indo, seria um homem rico em um castelo vazio. Ele olhou através do casal feliz e viu apenas as gritarias de seus pais, suas vidas vazias encenadas no palco que era o Palazzo Benedetti. Uma das mais admiradas propriedades de Roma. Se ao menos as pessoas soubessem das gerações de mulheres infelizes que assombravam seus corredores. A própria mãe havia sido uma belíssima garota de sangue quente das colinas de fora da Ragusa. Maria Trigoni havia se casado na estratosfera social e se contorcido no papel de principessa romana. Ela havia atuado irregularmente em seu papel de esposa e mãe quando não estava completamente ocupada com amantes ou seu papel muito desejado na sociedade. Sua única lealdade real era para com sua família no sul. Os Trigoni. O pai de Marco era seu irmão. Ela desaparecia lá embaixo por longos períodos. Ele se lembrava de cada um daqueles desaparecimentos como cortes em suas costas. A primeira vez que isso havia acontecido ele tinha 3 anos e havia chorado durante uma semana. A segunda vez tinha 6 e havia sido espancado por suas lágrimas. Quando ele tinha 10 anos, tentou telefonar para a mãe em Ragusa, mas ela se recusou a atender. Intimamente, Gianluca suspeitava que no momento em que uma mulher colocava a tiara de casamento dos Benedetti perdia um pouco de sua alma. Então, ele não passaria esta pequena tradição adiante. Ele bebeu sua cerveja sem sentir o gosto. Ele não tinha a intenção de se estabelecer e dar um herdeiro ao nome Benedetti. Já era o suficiente que ele lhe houvesse restaurado a honra. Além disso, depois de dois anos de serviço ativo, ele sabia melhor do que a maioria que a vida era vivida no momento, e neste momento ele estava gostando de um pouco de variedade em sua vida. Ele sabia que isso irritava sua mãe, decepcionava sua avó, mas, como um Benedetti, era quase esperado que ele fosse perseguir mulheres em números. O velho clichê de que havia segurança nos números era verdade. Ele tinha uma reputação agora por ser solteiro. Como se conjurada pela direção de seus pensamentos, uma mulher saiu para o terraço. Era esbelta e curvilínea e as luzes deixavam seu cabelo platinado. — Esta é a minha deixa — disse Gianluca. — Carros rápidos e mulheres rápidas. Por isso me recuso a apresentá-lo para as minhas amigas — disse Tina, maliciosamente. Quando ele se aproximou, a loira mostrou um rosto impecável. 14


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Venha dançar comigo, Gianluca. — Tenho uma ideia melhor — sugeriu ele assumindo seu passado. — Vamos pegar uma bebida. — Ele não conseguia lembrar o nome dela. — Donatella — disse ela friamente. — Donatella. Si. — Pelo tom, suspeitava que houvesse esquecido seu nome mais de uma vez esta noite. Não era importante. Ela só estava com ele por causa de seu nome, sua reputação. Ele deslizou a mão em sua jaqueta, puxando seu telefone. Tomaria um drink, trabalharia um pouco e despacharia a loira. Mas ela era uma boa desculpa para colocar sua cabeça de volta no que importava. Firmar um acordo, organizar o seguinte e ficar de olho no que os mercados da Ásia-Pacífico estavam fazendo durante a noite. Não ficar contemplando o que Marco havia encontrado aparentemente sem esforço: uma boa mulher. Enquanto ele, preeminente solteirão de Roma, havia levado um bolo de uma mulher australiana assexuada. Ava deu seu nome à hostess e, naturalmente, não obteve sucesso. — Morango — sussurrou. — Scusi, signorina? Ava pigarreou. — Acredito que esteja listada como “Morango”. Sua boca secou, sua pele formigou, e ela tinha certeza de que o casal atrás dela estava achando isso hilário. Ela fechou os olhos por alguns instantes. A humilhação pública, de repente, parecia muito próxima. — Sou convidada do signor Benedetti. Dizer aquilo tornou tudo real e Ava sentiu seu estômago embrulhar. — Ah, si. A mulher não pareceu achar nada incomum uma outra estar nomeada como uma fruta na lista de convidados de Gianluca Benedetti, e o pensamento fez a barriga de Ava se apertar um pouco mais. Ela atravessou uma multidão de mulheres de salto e homens em Armani antes de parar. Gianluca Benedetti estava com os braços jogados nas costas de um sofá de couro preto, seu peito poderoso delineado em uma camisa preta. Ele não estava sozinho. O que ela esperava? Sua cabeça estava inclinada para que uma loira seminua sussurrasse palavras doces em seu ouvido. Uma sensação de mal-estar a invadiu. Ela nunca seria aquela mulher. Por um instante, Ava foi transportada para o casamento de seu irmão. Ela havia sido uma jovem socialmente desajeitada que simplesmente não havia se encaixado na glamorosa multidão internacional, observando enquanto Gianluca Benedetti, o astro do futebol italiano e, possivelmente, o homem mais desejado do planeta, gesticulava enquanto falava de futebol com outro rapaz. Ele tinha duas meninas em volta dele como trepadeiras e sequer havia prestado atenção nelas. 15


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Na época, Ava as tinha batizado de trepadeiras, mas, ah, como queria ser como elas. Só por uma noite ser uma garota sexy e inconsequente, pendurada no cara mais bonito da festa. Seus olhos se moveram para o objeto de sua atenção e, pela primeira vez em sua vida, foi atingida por algo e não havia sido capaz de revidar. O tsunami de sentimentos aquela noite a havia empurrado além de suas inibições. Além da pequena voz de cautela que sempre perguntava se isso era a coisa certa a fazer, a voz de uma menina que teve que cuidar de si desde muito jovem Naquela noite, não se importou com as consequências. Ava só se importara com ele. Com tê-lo. Sentindo-se enjoada, ela era incapaz de aceitar que houvesse se colocado tão facilmente na mesma situação, que não havia aprendido nada com suas experiências. Antes que pudesse formular seu próximo passo, ele se levantou e se dirigiu a ela. Foi tão repentino que seu primeiro instinto foi virar as costas e fugir, mas não era mais uma menina insegura. Podia lidar com isso. Ava se preparou para o que diria. Eu vim, mas preferia não vir. Você é mulherengo, grosseiro e um patife, e preferia nunca tê-lo conhecido. Gianluca estava a menos de um metro de distância quando Ava percebeu que não estava vindo até ela. Seu olhar duro passou por ela como se fosse mais uma na multidão. Ele fez o convite, mas já havia se esquecido dela. Seu estômago se apertou. Ava o viu caminhar até a saída. Só percebeu que estava se empurrando pelo caminho através da multidão quando alguém pisou no seu pé, e ela perdeu um sapato. Parando para recolhê-lo, empurrou as portas de saída. Parou nos degraus, procurando-o desesperadamente. Teve um sobressalto quando o avistou, do outro lado do ambiente. Empurrando de lado uma vida de prudência, planos e autoproteção de homens como aquele. Bem, qualquer homem. Ava começou a correr atrás dele.

CAPÍTULO 4

Gianluca ouviu os passos leves sobre os paralelepípedos. Virou-se e, por um momento, eles simplesmente olharam um para o outro. Quando ela começou a caminhar lentamente, ele se perguntou o que havia acontecido com sua determinação de nunca deixar a vida surpreendê-lo novamente. Sua 16


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis boca secou, seu corpo fez o que era natural quando confrontado com uma mulher daquelas. Ela, obviamente, estava bem arrumada. Não era um exagero supor que era tudo para ele. Gianluca correu os olhos de sua boca ao peito e até seus sapatos femininos. As roupas que ela estava escondendo esta manhã não haviam anunciado uma forma que só poderia ser totalmente notada por um homem italiano: generosas curvas ressaltadas por sua cintura estreita. Era a maneira como ele descobrira quando finalmente a livrou daquele vestido azul. Ela era uma fantasia ambulante, se você gostasse do estilo Gina Lollobrigida. Ele gostava. Tinha um pôster dela na parede de seu quarto na casa de campo de seus avós. Parte do prazer das férias da academia militar era voltar para aquela casa, para seus amáveis avós, mas também para Gina. Repentinamente, o passado voltou com força. Ela não era a garota que havia ficado com ele na grama no Palatino. Essa menina nunca existira. Quando ela se aproximou, as luzes baixas da praça iluminaram seus olhos e ele vislumbrou incerteza e outra coisa. Esperança. Mas deve ter sido um truque da luz, porque ela ergueu o queixo e seus olhos verdes se chocaram com os dele. Havia uma espécie de satisfação em saber que ela havia vindo atrás dele. Naquele mesmo momento, ele viu algo que havia deixado passar. Um amontoado de paparazzi do outro lado da praça. Em um segundo eles se aglomerariam sobre ele e, nesse humor, a última coisa que ele queria era um bando de chacais ao redor dele. Reafirmando a masculinidade fria e dominante que o levava onde queria na maioria das situações, ele se aproximou dela, enganchou seu braço ao redor de sua cintura e disse a si mesmo que isso não tinha nada a ver com o que ele queria, era por necessidade. — Scusi, signora — murmurou e no instante seguinte ele a estava beijando. Ela se contorceu freneticamente contra ele. Ele fechou a outra mão em suas nádegas largas. Ele começou a gostar de sua resistência. Queria que ela batesse os punhos contra seu peito, que sua fúria fosse liberada. Vamos ver se você consegue fugir desta vez. Ele estava fortemente excitado, não só por seus pensamentos, mas por senti-la. Seu corpo era tão descaradamente feminino que cada movimento era praticamente pornográfico. Obrigou-se a soltá-la. Tudo o que podia ver eram aqueles brilhantes olhos verdes, seu lábio superior pontilhado com pequenas gotas de suor e o ondular de seu peito. Instantaneamente ele quis puxá-la novamente. Em um mundo de mulheres em quem os saltos altos só as colocavam sobre palafitas, falhando em dar-lhes o comprimento em seu corpo que ele precisava, ele tinha uma em seus braços que era construída na escala perfeita para um homem como ele: pouco mais de 1,80m, com generosos quadris e seios macios e volumosos. Ele sabia que haviam sido vistos. Então, inclinou a cabeça sobre ela em um gesto íntimo. Seus olhos verdes voaram para ele. Espanto dando lugar à fúria. Ela estava 17


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis literalmente fervendo e os feromônios femininos o atingiram forte e rápido, apertando seu corpo com o tipo de desejo que ele havia tido o cuidado de manter sob controle naquela noite a muito tempo. Ela havia estado tão insegura. Ele não queria dominá-la. Mas ela não era mais aquela garota. Era a mulher que havia fugido dele. E ele a queria de qualquer forma agora. Em um beco escuro, levantando sua saia, rasgando sua meia-calça, ensinando a ela quem estava no comando. Gianluca podia ouvir sua própria respiração áspera. Por que ela estava fingindo não conhecê-lo? O que ela estava fazendo, entrando no bar vestida assim? Que tipo de mulher ela era? Por que diabos estava de volta em sua vida? Em que exatamente ele havia se metido? Ele olhou na direção dos paparazzi. Luxúria e raiva se misturaram em um coquetel perturbador. O que aconteceu com o homem pragmático e frio de sua reputação? Ele a encarou. — Scusi, signorina. — A ironia em sua voz era clara, mas o seu código de honra determinava que ele deveria dizer. — Mi volevi dire nulla di male. Ele não queria causar nenhum dano. Não, nenhum dano. Ele queria matá-la. Oprimida, chocada com a proximidade súbita de um homem grande e imensuravelmente forte caindo sobre ela, Ava lutou para dar sentido ao que havia acabado de acontecer. Ela deveria se afastar. Aquilo era altamente imprudente e nada entre eles poderia acabar bem. Agora era sua chance. Ele não perguntaria nada. Ela ainda era uma estranha para ele. Mas Ava não havia exagerado a memória do efeito daquele homem em seus sentidos. Houve algo naquela noite a tanto tempo que a fez jogar toda a cautela pelos ares. Ela suspeitava que tivesse algo a ver com aquele arrastado sotaque italiano. — Signora? Ele estava olhando para ela intensamente. — Signorina — respondeu com a voz estrangulada. — Lembre-se, não sou casada. Ele recuou um pouco, antes que seus olhos se estreitassem pensativamente sobre ela. Por um momento, nenhum dos dois falou, em seguida, seu olhar dourado semicerrado queimou na escuridão. — Você consegue correr com esses sapatos? — C-Como? Não era o que ela esperava ouvir. — Aqueles homens ali são paparazzi. Se eles me reconhecerem, seu rosto estará em todos os lugares que você não quer que ele esteja. Você consegue correr com esses sapatos? 18


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele não esperou pela resposta dela. Ele a puxou contra ele, com uma mão na parte inferior das costas, e começou a andar rápido através da praça. Ava sabia que deveria estar protestando, mas se sentia estranhamente viva. Furiosa com ele um momento, arrebatada de entusiasmo no seguinte. Ela pensou fugazmente na Fonte de Trevi nas proximidades e como, em outra vida, ela deveria estar lá com Bernard agora, fingindo estar em um velho filme de Hollywood enquanto ele deslizava o anel que ela havia escolhido em seu dedo. A ideia de quão errado esse cenário era em todos os níveis a calou. O que ela estava pensando? Ava olhou para o perfil daquele homem, para as linhas duras que demonstravam uma masculinidade agressiva, que tomava o que queria. Algo feroz serpenteou por ela em resposta e ela acelerou o passo. Ele a encarou duramente. — Você veio. Ava afastou o arrepio de premonição, a suspeita de que ele não estava falando apenas desta noite, porque de repente ele tomou a mão dela e estavam correndo. Viraram uma esquina e uma limusine preta deslizou na rua em direção a eles. — Esta é a minha carona — disse ele. — Prefiro andar em uma bela noite, mas parece que não estamos com sorte, signorina. Ele soltou sua mão para abrir a porta. Ela ficou para trás, abraçando-se na noite fria. — Deixe-me levá-la aonde você quer ir — ofereceu ele, segurando a porta para ela. E Ava sentiu-se voltando no tempo até que ela fosse mais uma vez aquela menina infeliz em um vestido azul, de pé nos degraus de um grande palácio, procurando em vão por um táxi. E ele era o menino bonito, com o ego inflado e uma Ducati rosnando entre as pernas, oferecendo-lhe uma carona com total confiança. A confiança havia claramente se solidificado com os anos. Ela havia estado em limusines antes, mas, quando ela deslizou pelo assento de couro escuro, reconheceu que aquela era puro luxo. Confinada dentro do carro, Ava sentiu-se submersa em sua fisicalidade. Ela desejou ter um casaco, ciente de que seu corpo estava em exposição naquele vestido. Puxou-o para baixo, sem muito sucesso. — Peço desculpas por todos os subterfúgios. — Ele parecia tão italiano, tão formal, como se não a houvesse beijado e levado para seu carro. Ele havia retirado o casaco, revelando os contornos rígidos de um corpo em ótima forma. Suas roupas exalavam dinheiro e bom gosto e se ajustavam a ele com uma fidelidade que tornava impossível para ela não olhá-lo. Aqueles olhos dourados piscaram levemente por um momento sobre seu corpo, tão íntimos quanto qualquer toque, e Ava sentiu seus mamilos endurecendo enquanto um calor se acumulava em sua pélvis. Era um choque desejá-lo desse jeito. Ela não esperava que a atração entre eles fosse tão forte. Mas talvez isso explicasse uma ou duas coisas. — Se você me der o nome do seu hotel, posso levá-la lá. Todos os seus medos de ser exposta, de ser decepcionada, de perder a excepcionalidade de sua memória daquele homem fundiram-se em um momento decisivo: 19


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis ele iria se livrar dela. — Ou — disse ele em um tom tranquilo — poderíamos ir para um lugar mais calmo que conheço primeiro, tomar um drink, e você pode me dizer o que lhe traz a Roma. Ele disse primeiro. O que viria depois? Será que ele queria ir para seu hotel, tirar suas roupas e.? Até aquele momento, havia concordado com Bernard quando ele lhe disse que ela não era uma mulher ardente, porém ali estava ela, iniciando uma espécie de fantasia sexual ativada por nada além de uma única palavra: primeiro. — Eu não. — começou ela. Eu não sei, terminou silenciosamente. Não sei como fazer isso. — Um drink em um lugar público. Duas pessoas civilizadas. — Por isso você está aqui? Para tomar um drink comigo? Para seu espanto, ela sentiu o desejo deslizar como mel através de seu corpo. Isso não acontecia com ela. Nunca. Desejo sexual era algo que ela tinha que trabalhar. Nunca surgia assim O calor em seu sangue de repente a esfaqueou. — Eu não vou dormir com você. Ele lhe deu um olhar divertido. — Não foi para isso que a convidei. Constrangimento rastejou através dela. Ela era quem estava pensando em sexo. — Queria deixar claro — disse ela, desconfortavelmente. — E se nós apenas tomássemos aquele drink? Ele se inclinou para a frente e, enquanto ele dava instruções ao motorista, Ava se perguntou o que exatamente pensava que iria conseguir ali esta noite. Ela olhou para ele com incerteza. Imaginou que a vida privada de Gianluca Benedetti se movesse a uma velocidade supersônica, e se alguém terminava alguma coisa, era ele. — Desculpe-me — disse ele, recostando-se. — Não era minha intenção ignorá-la esta noite. Minha mente estava um pouco preocupada. — Sim — disse ela, incapaz de conter o escárnio em sua voz. — Eu vi o que o estava ocupando. Ele franziu o cenho. — A mulher loira que esqueceu as roupas? — Lembrou-lhe ela. Sua expressão se aliviou. — Ah, Donatella, si. Ava tentou não cerrar os dentes. Eles não estavam saindo. Ele não lhe devia nada. Ela ainda queria bater nele. Realmente não sabia o que estava esperando. Ava suspeitava que fosse algo como eu me lembro de você. Nunca esqueci. Nunca recebi sua mensagem... — Há algo que lhe devo dizer. — Si? 20


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Esta não é a primeira vez que nos encontramos. — É mesmo? — Não pareço familiar? Gianluca deu de ombros. Ava soube então que qualquer chance de fazer uma piadinha sobre o assunto, ou ele estar encantado ou curioso ou até talvez um pouco arrependido havia evaporado. — Eu encontro muitas pessoas. Perdoe-me se não me lembro de seu rosto. Seu tom era razoável, suas palavras, educadas. Mas os sentimentos. Não me lembro de seu rosto. Não me lembro de deitar na grama no Monte Palatino, embalando você em meus braços. Não me lembro de nenhuma das confissões pessoais que você fez, porque não significaram nada para mim. — Você realmente não se lembra? — Insistiu. Ele pareceu se irritar. — Sem dúvida, você vai me dizer. Ava sabia que era irracional. Ela sabia que não tinha direito de esperar que algo tão fugaz, há tanto tempo, pudesse haver ficado com ele como havia ficado com ela. Ela não havia percebido até aquele momento o quão fundo mergulhara na fantasia. Realmente tinha que parar, a menos que estivesse interessada em se humilhar. — Estou esperando — insistiu ele. Por que ele estava olhando para ela daquele jeito? Ela estava prestes a quebrar algum tipo de regra contra mencionar encontros ilícitos em parques romanos? Não era como se ela estivesse perseguindo ele por sete anos. Ela havia feito o possível para evitar pensar nele! — Não é importante — disse duramente. — Vamos simplesmente esquecer. Ele espalhou suas mãos grandes expressivamente, como se a incentivando a esclarecê-lo. Mas ela não se deixou enganar. Ela havia negociado com tubarões antes em sua vida profissional. — Entendi algo errado? Você me espreita, persegue-me em uma praça pública e agora faz esta pequena confissão. Qual é o ângulo aqui, signorina? O ângulo? Por um momento, ela se esforçou a fazer a conexão. Ela entendia o tom Mas por que ele estava falando com ela assim? Ela não esperava que ele fosse tão. Intimidador. Onde estava o rapaz sensível e carinhoso que havia conhecido? Ela poderia haver passado apenas uma noite com ele, mas tinham falado, realmente conversado. Ela dissera coisas que nunca disse a outra pessoa, e no momento havia parecido mútuo. Como ele havia evoluído para este homem desconfiado, pronto a pensar o pior dela? — Eu não persegui você — disse, rigidamente, determinada a não mostrar como realmente estava. — Esses não são os fatos. — Ah, por favor! Você vem ao Rico’s, vestida assim. Ele apontou para seu belo vestido como se sua roupa fosse uma provocação. Ela ficou tentada a dizer-lhe que estava longe de ser uma femme fatale. — Trazida por um convite banal que uma mulher com qualquer bom senso e autoestima ignoraria. 21


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ava estava tão ocupada pensando em sua roupa que quase perdeu o impacto do resto da sua declaração. Ela não sabia para onde olhar. Estava correta quando pensou que ele não estivesse falando sério. Mas ela havia levado muito a sério, a sério demais, e agora era tarde para evitar o desastre. Ela havia confundido o beijo com uma prova de alguma coisa. O que havia de errado com ela? Sempre interpretava mal a interação social entre homens e mulheres. Por isso ela havia ficado com Bernard por tanto tempo, aterrorizada com o que aconteceria com ela se ficasse solteira. Ela havia passado por isso uma vez antes. Quando voltou de Roma, há sete anos, procurando algo parecido com o que havia encontrado naquela noite com aquele homem. O que ela conseguiu foi um cara chamado Patrick, cujo carro esportivo e a boa aparência haviam sido sua tentativa incipiente de correr na pista rápida, e o namoro dele com ela havia sido uma tentativa de retardar-se. Ela havia descoberto alguns meses depois que ele não havia se retardado em nada. Agora ela só queria sair do carro. Ela precisava correr e se esconder, dar sentido àquilo. E depois se chutar por ser tão idiota. — Eu não emiti aquele convite. Se foi banal, você é quem sabe — murmurou ela. — E não precisa questionar meu bom senso. Estou questionando por nós dois! Ava viu os olhos dele se semicerrarem, como se alguma coisa não estivesse saindo como ele esperava. Quando Gianluca voltou a falar, foi em um tom baixo, sedoso. — Então, o que está errado, signorina? Praticamente tudo! A lógica sempre havia sido a sua âncora, seu guia, e Ava se agarrou a ela agora. — Convite banal ou não, você me convidou! — Como ele não reagiu, ela repetiu teimosamente. — Você me convidou. Ele começou a mexer em seu celular. Parecia tão relaxado, como se toda aquela discussão não fosse nada. — Você chamou os paparazzi? Ava bufou e ele ergueu os olhos como se nenhuma mulher devesse fazer algum som perto dele. Ótimo. Ela não queria ser o seu tipo de mulher de qualquer maneira. — Você sabe o que você é? Um valentão e um. playboy e nada disso é justo. — É mesmo? Sua atenção voltou para o telefone. — Só estou pensando nas horas que passei me aprontando para hoje à noite — admitiu ela, perguntando-se por que estava lhe dizendo isso. Ele estava muito mais interessado em seu telefone. — E não tenho a menor ideia de por que fiz isso. — Para me impressionar — disse ele, como se fosse óbvio. O queixo de Ava caiu. — Seu ego é surpreendente! — Ela teve uma explosão de raiva. — Abaixe este telefone e escute-me. 22


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele levantou os olhos lentamente e Ava desejou que não houvesse feito aquilo. Ela engoliu em seco, mas ela havia percorrido um longo caminho na vida e não deixava que ninguém a intimidasse. — Não sou uma daquelas vagabundas subindo em cima de você naquele bar. Deixe-me lhe dar alguns fatos. No mês passado, fui listada como uma das 50 mulheres mais importantes no mundo dos negócios na Austrália. Pode não significar muito para você, príncipe Benedetti, mas certamente significa que não exploro homens por lucro e certamente não tenho nenhuma ideia de como entrar em contato com um paparazzo. — E por que você está me dando este fascinante vislumbre de sua vida? O que ela estava fazendo? Tinha uma única memória de algo maravilhoso e ela estava se despedaçando na frente de seus olhos. Não podia nem culpá-lo, porque, embora esse homem houvesse retirado sua venda há sete anos, a verdade era que ela mesma havia se lançado a uma vida desprovida de cor, de paixão, de sexo. Era uma percepção surpreendente, e como se a realidade houvesse decidido derrubar todos os seus suportes, a tensão combinada com uma taça de vinho branco e três de vinho tinto que ela havia tomado no hotel começaram a girar e se revirar em sua barriga. Todo o resto foi varrido pelo conhecimento muito real de que ela provavelmente ia ficar enjoada. — Hora de acabarmos com isso — disse ele. Ele queria que ela saísse. Isso não era problema dele. Ela recolheu sua bolsa. — Vamos — disse ele, bruscamente. — Dê-me o endereço do seu hotel e vou levála em casa. Ava o ignorou e lutou para abrir a porta. — Por que se preocupar? Você não se preocupou da última vez. Era uma coisa injusta de se dizer, mas ela já não se importava e aquela seria uma grande frase de despedida, se não estragasse tudo caindo de quatro na sarjeta. Poderia ficar pior? Xingando, colocou-se de pé, pulando para fora de seus saltos. Ava se arrastava pela rua, sem saber para onde estava indo, quando o ouviu gritar em sua voz profunda e ressonante. — Evie! Ela sequer se virou, imaginando quem diabos era Evie. Agora, só se afastava o máximo dele. Por que era tudo tão difícil para ela? Outras mulheres tinham encontros, eram beijadas, acariciadas e adoradas. Outras mulheres vinham a Roma e tinham aventuras. Estava certa de que todas essas mulheres não terminavam a noite andando descalças pelas ruas. Ela procurou em sua bolsa pelo cartão do hotel. Tudo o que precisava fazer era encontrar alguém e conseguir algumas direções. Quão difícil poderia ser? Ava quase caiu sobre um banco de pedra que, de alguma forma, pulou em seu caminho, mas uma mão masculina fechou em torno de seu cotovelo e a puxou em seus braços. — Pare com isso, deixe-me ir! — bufou ela, empurrando contra seu peito, consciente principalmente do calor de seu corpo, seu delicioso cheiro, e de sua própria reação vertiginosa enquanto tentava se libertar. Ela se debateu até perceber que ele não a 23


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis estava segurando, apenas tentando equilibrá-la. Ava o ouviu dizer: — Dio, você está bêbada. Não era uma acusação. Era uma observação. — Vou levá-la de volta para o seu hotel — informou com uma voz firme, mas de alguma forma ele não parecia mais com raiva. Ava quis argumentar, mas já sabia que não estava em condições de reclamar. - Onde, príncipe? O motorista, Bruno, se dirigiu a Gianluca calmamente sobre o telhado da limusine, como se transportar mulheres bêbadas pelas casas noturnas da cidade fosse uma ocorrência regular. Boa pergunta. Um homem sensato descobriria onde ela estava hospedada, faria a coisa certa e não olharia para trás. Si, um homem sensato. Ele se inclinou para descobrir onde ela estava hospedada. Para sua surpresa, ela parecia estar dormindo. Ele lhe deu uma sacudida suave. Sua cabeça caiu para a frente. Bene! Bêbada. Bêbada cega. Praguejando baixinho, ele notou que sua mão direita estava segurando alguma coisa. Quando abriu seus dedos, encontrou alguns euros amassados e um cartão. Ela pensou que ele iria simplesmente jogá-la em um táxi? Naquela condição? Gianluca pegou o cartão. O Excelsior. Bom hotel. Não muito longe dali. Ele delicadamente a colocou em uma posição mais confortável. Sua boca estava entreaberta e ela estava respirando suavemente. Pela primeira vez, a tensão havia deixado seu rosto. Ava parecia uma mulher que não ia a bares arrumar homens e beber até desmaiar. Parecia o tipo de mulher que precisava de cuidados. Ele tirou o casaco e colocou-o sobre ela. Inesperadamente, ela puxou a cabeça para trás e abriu os olhos. Parecia estar tentando se concentrar. Por um momento nenhum dos dois falou e então ela baixou a cabeça novamente e fez um som que lembrava um porco. Ele ficou tão surpreso que sorriu. Endireitando-se, Gianluca deslizou o cartão do hotel no bolso de trás. — Casa mia — disse a Bruno.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis

CAPÍTULO 5

— Acorde, Bela Adormecida. Uma voz sexy masculina a puxou para fora de seu sonho. Quem disse que eu não sou uma mulher ardente? Pensou Ava alegremente, conforme o rosto dele se ampliava até que tudo o que ela podia ver era a escuridão de sua íris. Tudo estava escuro e quente e real. Ele a estava beijando. A sensação dos lábios dele aliciando os dela com tanta confiança fez seus hormônios parecerem sementes brotando depois de um longo inverno. Ela se forçou contra ele e longos dedos se enredaram em seu cabelo enquanto ele murmurava contra seus lábios: — Cosi dolce, cosi dolce, mi baci bella. Tão romântico. Tão atraente. Tão real... Ela recobrou plena consciência. Seus olhos se abriram e se fixaram na versão viva do sonho que ela havia nutrido ao longo dos anos. — Você! — Sim, eu, bella. Quem você acha que estava beijando? Erguendo as mãos, deu-lhe um poderoso empurrão. Mas ele estava fixo sobre ela, sua expressão nem de perto tão amigável quanto sua boca havia sido. — Saia de cima de mim, seu. Ava não tinha certeza do que chamá- lo e seu protesto soou um pouco fraco para seus ouvidos. Era evidente que ele também pensava assim Ele avaliou intrigantemente seu cabelo, seus olhos e seus ombros nus. Ombros nus. Ava colocou a mão em seu peito. Estava nua. Meu Deus! Ela se contorceu Não, não estava nua. Ela ainda estava com sua calcinha. Lembrava-se vagamente de se despir. Ela tinha certeza de que mais ninguém havia estado envolvido. — Saia — disse novamente. — Gosto mais de você quando está inconsciente — comentou ele. Mas, antes que pudesse processar isso, ele se dirigia para a porta. Seus olhos se arregalaram um pouco, porque por um momento ela pensou haver visto uma protuberância naquele jeans. Sua cabeça doeu e ela fez uma careta. — Aonde você vai? — gemeu ela. — É um novo dia, Ava. Vista-se. Ava olhou para a porta que ele fechou atrás dele e, em seguida, para baixo, para a 25


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis sua própria forma comprida envolta em um lençol branco como uma sereia. Por um momento, sua mente ficou confusa novamente e ela sentiu a suavidade da respiração dele se misturando com a dela, o peso sólido dele sob a pressão de suas mãos e o novo conhecimento de que ele era tão suscetível quanto ela. Volte, implorou sua libido. Ela bateu com a mão na cabeça. O que havia dado nela? Seus hormônios a haviam conduzido a todo esse problema! A pulsação atrás de seus olhos se intensificou, como se para lembrá-la dos males de ceder a impulsos maliciosos, e ela abaixou a cabeça cuidadosamente sobre o travesseiro. Parecia um tijolo. Vista-se, Ava... Ele poderia ir para o inferno. Ava. Vista-se, Ava. Ava. Ela quase caiu da cama. Ele sabia. Ele precisava de um banho frio. Gianluca ficou sob o jato de água massageando sua nuca. Ava Lord. Não Evie. Ava. Durante sete anos, quando ele pensava nela — já era hora de ele reconhecer que pensara nela — havia sido como Evie. Havia sido uma noite, anos atrás. Como ele poderia acertar o nome dela? Mas ele nunca soubera seu nome real. De alguma forma ouvira mal e ela não o corrigira. Havia sido tão anônimo para que ela não precisasse de nomes? E por que esse pequeno detalhe incomodava? Ou melhor: por que seu estômago se apertava quando se lembrava de acordar e não encontrá-la? Ele tinha 22 anos na época, tinha o que ele imaginava ser sucesso, na forma de um frenesi da mídia em torno de sua carreira no futebol, e choviam mulheres. Gianluca já era bem experiente quando Evie. Ava caiu em seu colo. Contudo, havia sido diferente. Ela havia sido diferente. Mesmo na época, ela tinha atitude, dando-lhe direções e reclamando enquanto cruzavam o centro da cidade na Ducati. Ele fingiu se perder. Pensou que iria gostar de vê-la perder o controle. Mas Ava não perdeu. Em vez disso, relaxou e ficou curiosa sobre a cidade, e, em seguida, animada quando ele a levou ao Fórum, onde ela quis saber de toda a história do lugar. Ele teve que competir por sua atenção com monumentos e figuras históricas mortas há muito tempo. Ela o havia forçado ao que outras garotas nunca exigiam: ser divertido. Quando chegaram ao topo do Monte Palatino, ela o tinha na palma da mão. Ava falou bastante, lembrou-se, e ele descobriu que não se importava de ouvir. Gianluca também disse algumas coisas e, quando ela começou a chorar, ele a beijou, porque as lágrimas pareciam reais. Provavelmente não teria ido além disso. Mas ela cheirava tão bem, tinha um gosto tão doce, era tão quente e macia. No minuto em que ele deslizou as mãos sob o corpete do vestido e sentiu o peso quente de seus seios, seus mamilos empurrando contra as palmas das mãos, não havia como voltar atrás. 26


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Gianluca sabia que ela não era como qualquer garota que ele já havia conhecido. Sabia que seria complicado depois, que estava atraindo mil complicações para sua vida, mas mergulhou de qualquer maneira. Evie, Evie, Evie. Ava. O que ele não sabia era que ela iria fugir e que poucos minutos após acordar em uma cama vazia receberia o telefonema que mudaria sua vida. Ainda estava arcando com essas mudanças. O que Gianluca também não sabia era que, sete anos depois, seria acordado às 6h por outro telefonema, desta vez de sua prima Alessia, para dizer que a irmã de seu marido estava em Roma, e que se recusava ferrenhamente a ir até eles. Gianluca deveria trazê-la com ele neste fim de semana. — O nome dela é Ava Lord e está hospedada no Excelsior. Josh está ligando e ligando, mas o telefone dela está desligado. Este foi seguido por outro telefonema de sua mãe. — Você precisa pegar essa garota, Gianluca. Alessia me disse que ela se recusa a vir até nós. Não fomos gentis com ela no casamento de Alessia, e temo que isso esteja influenciando sua decisão. Sinto que é culpa minha. Gianluca fechou o chuveiro e saiu, puxando uma toalha sobre os ombros. Ava Lord. Alessia só teve de dizer seu nome e ele sabia o que havia feito. Havia dormido com a irmã do noivo! Ele se barbeou e se vestiu rapidamente. Quando entrou em seu quarto aquela manhã, tinha a intenção de confrontá-la. Mas esse havia sido seu primeiro erro. Gianluca a encontrou deitada no meio da cama, enrolada em um lençol que não fazia nada para não lembrá-lo de como suas curvas eram exuberantes, deixando bastante óbvio que ela estava nua sob o lençol. Ava se movera, e todo o impacto de seu corpo feito para o pecado havia sido delineado em algodão egípcio branco. Todo o sangue em seu corpo desceu para sua virilha. Madre di Dio. Como ele deveria conduzir qualquer tipo de conversa com ela e não pensar em sexo? Irritado, ele abriu as persianas e uma onda de luz da manhã espalhou-se pelo quarto. — Vamos, acorde. Ele estendeu a mão para sacudi-la e tentou encontrar uma parte de seu corpo que pudesse tocar impunimente, mas ela parecia ser feita inteiramente de zonas erógenas. Ele sabia que se tocasse qualquer parte dela seu autocontrole desapareceria. Xingando baixinho, lutou para desviar sua mente do movimento de seu peito. — Acorde, Bela Adormecida. Ela murmurou alguma coisa e seu olhar foi atraído para sua boca, tão exuberante quanto qualquer de suas curvas. Sensuais olhos verdes brilharam por trás de suas pálpebras. Gianluca queria outra amostra da suavidade de seus lábios, do calor de sua boca, da reação explosiva do beijo que haviam compartilhado na noite anterior. Sua imaginação 27


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis desgovernada havia seguido, retirando lentamente o lençol. Ele iria moldar seus seios com as mãos e saborear mamilos que se lembrava de forma incrivelmente clara como sendo da mesma cor de morango de sua boca. E quando Ava estivesse molhada e desejosa, pedindo-lhe para vir para dentro dela, Gianluca iria empurrar-se para lá e. Ela deu um suspiro, olhando sonhadoramente para ele. Havia apenas uma coisa a fazer. Ele se inclinou para baixo e encontrou seus lábios, e aquele beijo na piazza na noite anterior foi deixado de lado com a doçura deste. Ainda meio adormecida, ela o havia beijado como se seu coração e alma estivessem envolvidos, e ele encontrou- se enredando suas mãos em seu cabelo espesso e sedoso até. — Você! Ele havia recuado e visto o choque e a acusação em seus olhos. Como se ela não tivesse ideia de quem estava beijando. Como se ela respondesse a todo homem que colocasse as mãos nela com o mesmo incrível abandono. Dio mio, disse ele a si mesmo agora, ao colocar a mão na porta. Não era ciúme de outros homens que a fizeram sair daquele quarto direto para um banho frio. Era uma questão de bom gosto. Aquela não era uma mulher que ele havia simplesmente arranjado na noite passada. Não agora que ele sabia a sua identidade. Ela era sua convidada. Era cunhada de Alessia. Era a única mulher em Roma com quem ele definitivamente não deveria dormir. Desta vez, ele bateu antes de abrir a porta. Ele não sabia o que esperava, mas pelo menos uma mulher vestida. Em vez disso, ela estava sentada no meio da cama, com as pernas debaixo dela, vestindo o lençol. Ainda vestindo o lençol. Nua. — Santa Maria — rosnou ele. — Você poderia, por favor, se vestir? Ela olhou para ele e por um momento parecia chocada. Mas foi possivelmente um truque da luz, porque aqueles olhos verdes se estreitaram instantaneamente e ela agarrou o lençol, enrolando-se mais seguramente nele em seus braços suaves, pálidos. Bene. Isso era exatamente o que ele queria. Ela coberta. Salvo que o gesto apenas aumentava o volume de carne sob suas belas clavículas. Ele não havia percebido até o momento como uma mulher voluptuosa podia ser atraente em nada além de um lençol. Ele claramente estava dormindo com demasiadas garotas magras. — É isso que você tem a me dizer? — Ela parecia incrédula. Ele afastou os pensamentos de seu decote generoso e disse a si mesmo que precisava enfrentar isso racionalmente e, para que acontecesse, idealmente, certas coisas precisavam acontecer. Ele precisava de outro banho de água fria e ela precisava estar vestida. Mas ele não tinha tempo. Cruzou os braços. — Tenho muito a lhe dizer, signorina Lord. Dada sua falta de modéstia, vamos 28


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis começar agora. O seu irmão sabe que você está aqui? Ela piscou para ele. É claro que não era o que ela esperava que ele dissesse. — Meu irmão? — Si... O irmão que você tão habilmente deixou de mencionar. Ela balançou a cabeça. — Por que você está interessado no meu irmão? — Suspeito que ele estaria interessado em mim há sete anos, quando eu deflorei sua irmã em um parque público. O olhar no rosto dela era impagável. Ela claramente não entendeu nada. — Sou o chefe da família Benedetti. Você é parte desta família pelo casamento. Sou responsável por sua segurança enquanto você está na minha cidade. Era uma coisa perfeitamente razoável de se dizer. Gianluca esperou pela resposta. Ela lhe deu um olhar incrédulo. — Você está brincando? Gianluca percebeu que seria uma longa manhã. — Eu raramente... Brinco. — Então peço-lhe gentilmente para manter o nariz fora de minha vida privada. Você certamente não é responsável por mim, nem, posso acrescentar, meu irmão. — Na verdade. Eu sou responsável por seu irmão. Sou seu empregador. — Não é — afirmou ela confiante. — Josh administra um vinhedo em Ragusa. — Si... Na minha terra, na Sicília. Ava franziu o cenho. Esta não era a imagem que Josh havia pintado em suas raras ligações. Ela pensava que ele estava indo bem, que era seu próprio patrão e que o vinhedo que possuía era próspero. Na verdade, da última vez que ela havia falado com ele, há alguns dias, ele usou o início da safra como desculpa para não vê-la. — Não estou mais feliz do que você, signora Lord. Um dia nunca começa bem quando minha mãe sente a necessidade de me telefonar. — Signorina — lembrou ela, mas desejou que não houvesse, considerando o olhar especulativo no rosto dele. — Signorina — disse ele, de forma perturbadoramente suave. — Sim, bem. Já ouvi falar no quão próximos os homens italianos são das mães — disse secamente. — Nós nos falamos três vezes ao ano: Páscoa, Natal e seu aniversário. Esta manhã foi a quarta por causa de você, signorina. — Estou aproximando mãe e filho — respondeu ela secamente. — Estou lhe fazendo um favor. Ele a ignorou. — De acordo com as mulheres da minha família, com quem não costumo me 29


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis envolver — acrescentou ironicamente. — Você se recusa a ver o seu irmão porque sente que eles a ofenderam de alguma forma. Ela percebeu o jeito que ele fez parecer duvidoso que qualquer um a houvesse ofendido, como se a sua preciosa família não pudesse possivelmente fazer nada para magoá- la. — O que isso tem a ver com eles? — Aparentemente, eles se sentem responsáveis por alguma infelicidade que você experimentou no casamento de seu irmão. Você. Você é responsável por minha infelicidade! Ava respirou fundo, consciente de que esteve perto demais de deixar escapar esse sentimento. De onde havia vindo? Certamente ela não acreditava nisso. Mas estava com muito medo que acreditasse e isso estava motivando sua frustração com ele. Silenciosamente, desejou que ele mencionasse o verdadeiro problema, que era a noite que passaram juntos há muito tempo, para que então ela pudesse rejeitá-lo em voz alta, como sem importância e totalmente no passado. — Não é da conta deles — teimou Ava. — Você pode discutir isso com eles — disse ele. — Certamente não vou discutir com você! — Bene. Não tenho nenhum interesse em sua vida sexual variada. No entanto, sou o homem que irá mandá-la para o sul esta tarde. Que vida sexual variada? Ele claramente confundia ela com uma de suas amantes. Ela o observou recolher seu vestido, que ela havia jogado no chão em seu estado de embriaguez na noite passada. Ele o sacudiu e o atirou para ela. Ava assistiu com horror quando ele pegou seu sutiã e balançou na frente dela. Ela o pegou, estreitando os olhos para ele, que provavelmente tinha uma pilha deles. Lembranças de todas as outras mulheres que passaram por aquele quarto. Ah, se ela pudesse encontrar aquela pilha, apontar seu esconderijo e confrontá-lo com a sua promiscuidade. Gianluca disse calmamente: — Conversamos sobre isso quando você estiver vestida. O quê? Sem comentários sugestivos? Sem perguntas a respeito de por que ela achou por bem se despir no meio da noite? Nenhum interesse em ela estar nua? Ava percebeu de repente que o que ela estava sentindo estava se aproximando rapidamente de decepção. Era completamente inapropriado e ela desviou seus pensamentos em outra direção. Ela deveria ter se vestido há algum tempo, em vez de ficar remoendo o que ele sabia e não sabia. Estava claro que ele sabia de tudo.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis

CAPÍTULO 6

— Você me ouviu? — repetiu ele, impaciente. — Vista-se e conversamos. — Espere um pouco. O que você disse à sua mãe sobre mim? — À minha mãe? — Ele esfregou a nuca. — Sim, a mulher que colocou você no mundo — retrucou impacientemente. — Você realmente quer discutir a minha mãe? Não, ela queria correr cem milhas na direção oposta da mãe dele! Maria Benedetti — La Principessa — havia olhado para Ava há sete anos como se a família Lord não fosse boa o suficiente para os Benedetti. Se ao menos ela não houvesse ligado para Josh. Mas ela estava tão infeliz quando chegou a Roma que estava desesperada para ouvir uma voz familiar. Ele tinha sido tão distante que ela havia desligado o telefone e agora sua esposa queria meter o nariz em. — Signorina Lord? — disse ele, impaciente. — O que foi? — Vista-se. — Não. Quero saber o que você disse a ela! — gritou Ava, estridentemente. Ele esfregou o queixo. — Não vou mencionar nosso pequeno encontro, se isso a preocupa. — Eu não quis dizer isso. Ela se perguntou por que ele não iria contar. O que havia de errado com ela? — De qualquer forma, não houve nenhum “encontro” — resmungou Ava. — A menos que você tenha feito algo enquanto eu estava inconsciente. — Não que eu esteja acusando você de nada — emendou ela, começando a se sentir um pouco desconfortável. O silêncio se prolongou. — Tudo bem, esqueça — murmurou, sem saber para onde olhar. — Posso assegurar que isso não aconteceu. — Eu estava brincando. — Você está nua na minha cama. Chamo isso de um encontro. — Você deve estar brincando. Ele deu-lhe um longo olhar e ela começou a se sentir um pouco embaraçada. — Devo estar — disse ele, por fim. — Como você denominaria a noite passada? Uma típica noite de sexta- feira?

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Uma típica noite de sexta-feira para ela era trabalhar até depois de todos os outros, beber uma taça de seu vinho favorito e assistir a um episódio de Poirot. Ela morreria se ele soubesse disso. — Eu chamo de estar bêbada e deprimida — disse ela com altivez. — Bêbada, sim. Mas, por mais lisonjeiro que possa achar, cara, deprimida? E se estiver — disse ele — você precisa superar isso. Do nada, o ressentimento explodiu em seu corpo como um foguete. — Deprimida por causa do meu namorado, seu porco, não por você! A expressão dele ficou tensa novamente. Ava sentiu o calor em seu rosto e sabia que estava revelando muito sobre si. — Peço desculpas — disse ela, secamente, antes de acrescentar: — Mas você provocou. Ele ergueu uma sobrancelha. — Onde está esse namorado? — disse ele, claramente cético. — Não é da sua conta. — Ele permite que você saia à noite sozinha? Para sentar-se em bares e beber? — Eu não sento em bares e bebo! E o que você quer dizer com “me permite”? Sou uma mulher adulta. Posso fazer o que quiser. — Ele não é italiano, então? — Quem? — O namorado. Agarrando-se ao lençol, ela pulou para fora da cama e se dirigiu à sua bolsa. Furiosamente remexeu nela com uma das mãos. — O que você está fazendo agora? O baixo ruído de diversão em sua voz não estava ajudando. Ela escancarou a bolsa e a revirou até encontrar seu telefone. — Aqui. Este. Olhe. Ela levantou uma imagem de Bernard ao lado dela no famoso restaurante portuário de Sydney. Ela gostava dessa imagem porque nela ele parecia tudo o que ela precisava que ele fosse, mas muitas vezes não era: sólido e confiável. — Meu namorado — disse, como se retirando um coelho da cartola. Gianluca olhou aparentemente sem interesse para a imagem — Você poderia fazer melhor. — Perdoe-me? — Ele não tem amor por você ou você não estaria aqui sozinha. Se você fosse minha mulher, você não se comportaria como na noite passada. Ava tentou não imaginar exatamente o que ser sua mulher envolveria. Ela não aceitaria isso. Não dele. — Você está falando sério? — Sua voz se elevou a um nível impróprio. — Sua mulher? O que isso significa? E você não sabe de nada sobre meu relacionamento com 32


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Bernard! — Bernard? — repetiu ele, parecendo se divertir. — Sim, Bernard. — Para seu horror, lágrimas surgiram por trás de seus olhos. Ela não poderia aguentar este homem fazendo piada com ela, de suas tristes razões confusas para aquele relacionamento. — Para sua informação, viemos a Roma para ficarmos noivos, mas terminamos! Ah, o que você sabe sobre relacionamentos, afinal? Você usa as mulheres, depois as joga fora. — Cosa? — Você me ouviu. Você é um. Um ancinho. — O meu inglês é geralmente muito bom — disse ele, suavemente. — Mas você está me comparando a uma ferramenta de jardinagem? Ele não levava nada daquilo a sério, e ela parecia idiota. Ava balançou a cabeça e calmamente colocou Bernard de volta em sua bolsa. Ela examinou o piso, buscando seus sapatos. — Preciso ir — disse ela. — Apenas esqueça que tudo isso aconteceu. Gianluca não respondeu e quando ela olhou para ele percebeu o motivo. Ele havia sacado o telefone. Otimo. Completamente desiludida e infeliz consigo mesma, Ava caiu de joelhos e olhou debaixo da cama, buscando seus sapatos. Tardiamente, percebeu que estava colocando seu mais valioso atributo em destaque, mas nesse ponto não importava mais? Gianluca Benedetti era um homem lindo com um hábito de mulheres bonitas e ela não era o tipo dele... — Ava. A maneira como ele disse o nome dela lhe causou arrepios. — O que foi? — perguntou, retirando a cabeça debaixo da cama. Ele estava olhando para suas nádegas. — Bella, o que você está fazendo? Era sua imaginação ou a voz dele estava em tom mais baixo? E por que ele a estava chamando de bela? — Meus sapatos, sumiram — Não me diga? Venha cá. Ele acenou para ela. Ela hesitou. — Adesso, cara. Tenho algo para lhe mostrar. Ele estendeu o telefone para ela. Seu estômago afundou. Um homem e uma mulher abraçados em uma praça à noite. — Está muito longe. Não dá para ver os rostos — disse ela, esperançosamente, com a voz abafada. Gianluca passou para a próxima imagem 33


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele beijando uma mulher cujos olhos estavam fechados, e tinha um olhar em seu rosto que Ava não sabia que podia produzir. Ela parecia estar extasiada, e talvez estivesse. Parecia tudo o que Bernard a havia acusado de não ser. Uma mulher levada pela paixão. — Sou eu? — Bem-vinda à minha vida. Ava pegou o telefone dele e começou a passar as fotos freneticamente. Em duas, era claramente ela. — Oh, céus, eu pareço tão gorda! — Isso é tudo que você tem a dizer? Gianluca pegou o telefone. — Você está bem. E esse não é o problema. — Você precisa deixar Roma. Agora. E vou precisar saber onde você está. — Deixar Roma? — repetiu. — Deixar Roma?! Por quê? — Porque mais fotografias serão tiradas de você. Informações serão colhidas. Você terá seus 15 minutos de fama. — Informação? Que informação? — Seu nome, sua origem, o que você faz, quem você é. Rotina para mim, mas não tanto para você, si? Então você vai para Ragusa por alguns dias e isso morre. — Claro que não! — Há também o pequeno problema da minha futura esposa — disse baixinho, enquanto mexia em seu telefone. A cabeça de Ava se revirou. — É uma piada, Ava. — Ele fez um gesto. — Non e importante. Ava esqueceu tudo sobre ela ser mostrada pelo mundo quando sentiu murchar algo frágil e novo brotando dentro dela. — Você está noivo? — Ela não conseguiu esconder o sentimento de sua voz. — Ainda não estou noivo. Ava virou a cabeça rapidamente. Ele estava olhando para ela com aquele sex appeal frio italiano que algumas mulheres provavelmente achavam irresistível. — Olha, entendo que você esteja com o coração partido ou qualquer outra coisa, mas você não estava procurando pelo Príncipe Encantado na noite passada — disse, com franqueza brutal. — E adivinhe. — retrucou ela. — Não o encontrei! Nesse momento, ela o odiava tanto que se tivesse algo na mão jogaria nele. Ele estava noivo. E Deus sabe quantas mulheres estiveram em sua cama nos últimos sete anos. Como ele ousava questionar sua moral? — Eu não vou a lugar nenhum, amigo. Isso é problema seu. Você causou isso. Foi você quem me beijou. 34


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Devo lembrá-la de que foi você quem correu atrás de mim naquela praça. Não tive escolha depois daquela pequena performance. Ótimo. Agora ele a havia beijado porque precisou. — E agora, signorina, por causa de suas atividades na noite passada, estamos na primeira página do principal tabloide de Roma. O que significa que meu pessoal estará cuidando disso porque você é da família, e assim, como parte da família Benedetti, você estará onde o resto de nós estaremos neste fim de semana. — O que você quer dizer? Não sou parte da família Benedetti! — Você, madame, irá para Ragusa. — De jeito nenhum! Reservei um tour pela Toscana. Uma viagem romântica que ela agora faria sozinha. Gianluca gargalhou. Ela não pensou. Reagiu. Tomada por uma onda de sentimento muito além do que a reação dele justificava, Ava investiu contra ele. Gianluca pegou o braço dela com facilidade e desalojou o lençol. Ava engasgou e, incapaz de se conter, empurrou seus seios contra o peito dele, efetivamente prendendo o lençol. De repente ela se encontrou em uma posição muito precária. Ele estava quente, rígido e... Interessado. Sim, consideravelmente interessado. Um raio de calor sexual subiu por seu corpo em resposta e seus mamilos saltaram como pequenos lançadores de mísseis róseos. Se ela queria a atenção dele, agora tinha. Estava chocada com a rapidez como toda essa situação havia saído do controle. Ela não podia acreditar que o atacara fisicamente. Não podia acreditar que algo naquela confusão a estivesse excitando e, inesperadamente, a ele. Ah, sim, sua excitação era inequívoca contra a barriga dela e ela podia sentir o tremor em seu corpo. — Deixe-me ir! — guinchou, incapaz de olhar para cima porque estavam tão próximos. Ela não confia em si ou nele. Ela havia sido forçada a encarar a base de sua garganta, onde a pele era dourada e pelos escuros se enrolavam convidativamente, e lutou contra a vontade de tocá-lo. Para sua surpresa, ele fez o que ela pediu. Ava pegou o lençol, colocando-o no lugar e se sentando pesadamente na cama, sentindo-se em grande desvantagem — Não sou parte da sua família — reiterou. — Você não pode me obrigar a ir a qualquer lugar. Ela olhou desconfiada para ele e descobriu que a estava observando pensativamente. Por um momento ela pensou que ele estava, na verdade, considerando que poderia estar certa. Em vez de se sentir triunfante, Ava experimentou uma gota de desconforto quando percebeu que depois desta manhã provavelmente nunca iria vê-lo novamente. — Além disso — disse ela, tentando ignorar esse sentimento. — Como você vai explicar beijar alguém de sua família? — Foi um beijo amigável, exposto como outra coisa pela natureza da fotografia — disse ele com surpreendente calma. — Havíamos jantado com amigos e eu estava levando você de volta ao palazzo. Sua boca se abriu ligeiramente. Nossa, ele era bom. Devia ser a prática. — Você ia, naturalmente, ficar aqui esta noite e hoje vamos viajar para o sul e nos 35


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis juntarmos ao resto da família para a festa de aniversário de minha mãe no fim de semana. Ava engoliu em seco. Outra reunião do clã Benedetti. Outra oportunidade para ela se sentir como um peixe fora d’água. Ela realmente não queria ir. — Sua noiva vai estar lá? Ele realmente parecia desconcertado. — Não há noiva — disse ele. Para espanto de Ava, ele corou. — Haverá muita gente em Ragusa no próximo fim de semana. Essas fotografias serão discutidas. Ninguém que me conhece vai acreditar na história. Vamos ser objeto de algumas especulações. — Isso o incomoda, não é? — disse ela, rigidamente, pensando na loira com quase nenhuma roupa da noite anterior. Ele poderia muito bem ter dito: não quero que meus amigos e familiares achem que somos um casal. Ele passou os dedos pelo cabelo espesso. — Dio, é o costume na minha família que o filho mais velho se case e produza a próxima geração. Por isso, nunca, nunca, levo uma mulher comigo para Ragusa. Isso. — ele apontou para ela e a cama desarrumada — e eu chegando com você a reboque vai causar problemas. — Não se preocupe — disse ela friamente. — Sua mãe me odeia. Ela provavelmente vai colocar estricnina na minha água e então toda a especulação vai parar. Houve um silêncio carregado. — Além disso, eu não vou. Se eu não aparecer não haverá problema. Ava disse a si mesma que a petulância em sua voz era apenas resultado de uma semana em que estava tendo problemas não com um, mas com dois homens. Dois homens que ficavam claramente felizes em colocar o próprio conforto antes do dela. Como se Ava e seus sentimentos não valessem sequer um pouco de consideração. Como se simplesmente não tivesse sentimentos. Foi por isso que Bernard achou por bem romper com ela por telefone? Quanto à Maravilha Natural da Itália alim, ela o viu em ação na noite passada e não tinha ilusões quanto ao tipo de mulher com que ele saía ou como as tratava. Ava deveria estar feliz por saber como Gianluca a via: um erro do passado que estava fazendo o melhor que podia para limitar os danos à sua reputação. Ela sabia tudo sobre isso. Seu pai lhe dera as primeiras lições de quão descartável ela poderia ser, sempre colocando suas necessidades em primeiro lugar, sempre cancelando visitas, até que, eventualmente, não se incomodou mais em aparecer. Ava precisava manter isso em mente. Dessa forma, não faria nada bobo, como ontem à noite, quando o beijou, ou esta manhã, quando o beijou novamente. Mas nada disso explicava por que esse homem se colocar em primeiro lugar a machucava, quando as ações de Bernard não haviam feito nada além de perturbar seus planos de viagem. Era desconcertante. Ele não era nada para ela.

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CAPÍTULO 7

Gianluca ficou na janela olhando enquanto Ava entrava no táxi. Ela estava fugindo novamente, depois de ele lhe dar instruções específicas para se vestir e se juntar a ele no andar de baixo. Poucas pessoas o desafiavam e, apesar do problema que ela havia causado, ele não podia deixar de admirá-la. Rapidamente, passou-lhe pela cabeça que ela havia ido embora anos atrás. Seu sorriso desapareceu. Lembrava-se de acordar e buscar algo, alguém, que não estava mais lá. Quando ele percebeu que ela tinha ido embora sem deixar nada — nenhuma nota, nenhum contato, nenhum nome, apenas sapatos -, em vez do alívio que havia sido sua reação habitual naquela idade, quando uma garota da noite anterior desaparecia no éter de onde viera, instintos possessivos que ele não sabia possuir o fizeram sair daquela cama decidido a localizá-la. Então, veio o telefonema. O corpo de seu pai havia sido descoberto e levado ao hospital. Ele tinha ido até lá e quando conseguiu voltar para procurar não existia vestígio da Cinderela. Apenas os sapatos que ela deixara para trás. Aqueles sapatos. Vermelhos, com tiras complicadas. Si. Sua expressão ficou tensa e ele apertou as mãos na moldura da janela. Eram os sapatos que ele havia reconhecido ontem em algum nível subliminar. Não a garota. Ela estava escondida sob camadas que qualquer mulher que se preze não se arriscaria a sair na rua usando. Completamente sem estilo, sem educação e sem nenhum interesse em sua feminilidade. Nenhum homem haveria olhado duas vezes para ela. No entanto, ele havia. O que o fez suspeitar que algo mais estava acontecendo ali. Os diagnósticos racionais que lhe serviram de base para construir uma das empresas comerciais mais bem- sucedidas no mundo claramente não eram páreo para as tradições enraizadas durante sua criação. Os Benedetti não mostravam emoção. Eles colocavam o dever acima do desejo pessoal, serviam ao Estado. Mas os costumes da família siciliana volátil de sua mãe — camponeses das montanhas, bandidos e sacerdotes — diziam que, quando você tirava a virgindade de uma mulher, isso significava alguma coisa. Lá no fundo, em algum nível masculino primitivo, aquilo havia criado um vínculo. Em tempos antigos, provavelmente teria se casado com ela. Gianluca pigarreou. Felizmente eles não viviam em tempos antigos. Além disso, ele era o preeminente solteiro de Roma. Certa vez, disse que se casaria quando George Clooney abandonasse seus dias de solteiro, e isso havia aparecido na imprensa, alguns 37


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis dias depois, fora de contexto, consolidando sua vantagem para certa classe ambiciosa de mulher. Embora Ava parecesse achar imperativo fugir dele sempre que tivesse a oportunidade. Fugir dele. Mesmo agora, algo quase primitivo martelava dentro de seu crânio. Ela iria sair quando ele dissesse que poderia. Era uma noção feudal, mas ele não fugiria de seu forte instinto masculino de agarrar o que era dele. No táxi, Ava pegou seu telefone. Era apenas uma pesquisa inofensiva, disse a si mesma, enquanto digitava o nome dele em uma busca. Ela verificou suas muitas entradas, perguntando-se onde sua carreira no futebol havia parado. E o tipo de perspicácia financeira e planejamento estratégico que ela havia levado em conta em sua reconhecidamente obsoleta imagem daquele homem O negócio da família, disse a si mesma com firmeza. Apenas isso. Ele era um Benedetti. As finanças estavam em seu sangue. A família havia sempre sido dona de bancos. A Benedetti Internacional, no entanto, era uma entidade relativamente nova e já dominava os mercados. O que significava que ele devia estar fazendo algo certo. Um pouco desconcertada por suas descobertas, ela vasculhou imagens de Gianluca Benedetti em estreias de filmes, festas, na Copa do Mundo da FIFA, em uma partida de polo no Bahrein, como convidado em um casamento real. Em quase todas as fotos uma garota bonita estava ao seu lado. Mas ele não parecia querer nada sério com nenhuma delas, não que isso importasse. Ela acreditava que, quando finalmente quisesse, Gianluca Benedetti faria o pedido de casamento romântico perfeito, mesmo que só porque gostasse de ser o melhor em tudo. Ava fechou seu telefone. Bernard era tranquilo e seguro. Seu porto seguro. Quando as pessoas perguntavam como ia sua vida, não queriam saber sobre seus negócios ou qualquer outra coisa. O que as pessoas realmente queriam saber era sobre seus relacionamentos. Todo mundo queria que você estivesse em par. Que tivesse o que tinham Caso contrário, você se destacava muito, você atraía a atenção, você era diferente. Encontrar Bernard havia sido uma enorme liberação de tais demandas. Em vez de aparecer com um homem diferente a cada vez, ou, pior, sozinha, ela tinha Bernard. As pessoas começaram a se lembrar de seu nome. Eles foram convidados para eventos mais íntimos. As pessoas passaram a se referir a eles como um casal e aos poucos eles se tornaram um Havia sido conveniente tanto profissional quanto pessoalmente. Se a chama inicial entre eles nunca foi nada além de uma faísca, ainda tinham uma amizade efetiva com a qual podiam contar. Mas no fundo ela sempre soube que, caso ele partisse, diferentemente de como havia acontecido com seu pai, ela não ficaria de coração partido. Talvez o pedido de casamento em Roma houvesse sido sua carta de “saída livre da prisão”. Talvez, no fundo, ela soubesse que isso levaria Bernard a tomar a decisão que ambos sabiam que provavelmente aconteceria. Sua vida íntima sequer existia durante os últimos seis meses. Agora ela sabia por quê. Ele procurara em outra mulher a paixão. 38


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Mas ela quase não percebia. E o que diabos isso dizia sobre ela? O que Bernard havia dito. Ela simplesmente não era uma mulher ardente. Mas ela queria um pouco de romance. Em seu desejo por isso, ela havia esquecido que seu relacionamento com Bernard era baseado em aspectos práticos. Aspectos práticos que ela havia estabelecido. Então, por cinco minutos, ela se imaginou em uma relação que não existia. O pedido de casamento na Fonte de Trevi. Um passeio de carro pela Toscana. Talvez eles encontrassem uma antiga casa de campo, voltassem para a Itália a cada verão e a restaurassem. Ela poderia até usar um vestido de algodão com botões na frente e se esquecer de colocar os sapatos, pisar em uvas com os dedos dos pés. Todos os clichês que ela tinha retirado de filmes e livros sobre a bella Italia. Com Bernard? Ele nunca havia gostado dela de saia. Ela sempre abotoava suas camisas quando estava com ele, pois Bernard dizia que seu decote a fazia parecer uma garçonete. Além disso, ele não seria capaz de restaurar qualquer coisa, não com sua alergia a poeira. E sobre pisar em uvas com os pés descalços. Bem, ela não conseguia se lembrar de um momento em que o houvesse visto sem sapatos e meias fora da cama. Não, ele usava as meias na cama. O pensamento a deprimiu tanto que Ava se sentou um pouco mais reta. Inesperadamente, ela pensou nos pés longos e de belo formato de Gianluca Benedetti, a pele suave, a maneira como os pés menores dela haviam se enroscado com os dele nos lençóis de seda branca. Não, não, não. Ela abriu a janela e o ar frio atingiu seu rosto quente. Olhou para o trânsito movimentado da manhã e disse a si mesma para fazer o que seu pai, nas poucas ocasiões em que havia estado com ele, sempre lhe dizia para fazer quando ela perguntava por que ele não morava mais com eles e se era culpa dela: não faça perguntas estúpidas e assim não irá ganhar uma resposta estúpida. Ava fechou os olhos. Sem mais perguntas estúpidas. Quanto mais cedo ela se afastasse de Sua Alteza, melhor. Segura em sua suíte de hotel, Ava tomou banho e, ainda de roupão, começou a colocar as roupas em sua mala, consciente de que tinha apenas meia hora para sair de lá. Estava convencida de que fazia a coisa certa. Então, por que sua consciência formigava? Josh não queria vê-la. Ele não precisava dela. Deixara bastante claro. Sete anos atrás, Ava lhe disse que achava que ele estava cometendo um erro se casando tão jovem, quando ainda tinha a vida toda pela frente. Josh havia dito que o motivo pelo qual fugira da Austrália com 18 anos era para sair do domínio dela, e que não tinha nenhuma intenção de aceitar seu conselho. Além disso, Ava não sabia nada sobre o amor, porque a única coisa com que se importava era com seu saldo bancário. Se algum dia encontrasse um homem que ficasse com ela, provavelmente seria por seu dinheiro. Ela ia acabar rica, decepcionada e sozinha. Ava fechou a mala ruidosamente. Houve uma batida afiada em sua porta. Serviço de quarto com seu café da manhã tardio. — Está aberta! — Você deveria ser mais cuidadosa, bella. Esta não é uma cidade segura para uma 39


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis mulher sozinha. Gianluca entrou antes que ela pudesse sequer se mover para bater a porta na cara dele. — É bom ver que você já fez as malas, mas você precisa se vestir. Quanta bagagem você tem? Não há muito espaço no carro. — Não vou a lugar nenhum com você — protestou ela. — Venha. — Ele sorriu para ela, apertando-lhe o queixo. — Chega de jogos, Ava. Vamos agora. Ela libertou o queixo, chocada com a intimidade do gesto. — Isto não é um jogo, Benedetti. Tenho um carro reservado. Pretendo ver a Toscana. — Segunda-feira. — Como? — Levarei você até lá eu mesmo. Na próxima segunda-feira. Mas primeiro você deve fazer a coisa certa, si? Junte- se à família. — Sua família. Não minha. — Depende — disse ele, afastando o cabelo dos olhos dela como se tivesse todo o direito de tocá-la. Ava tentou evitar sua mão. — Seu irmão está em dificuldades financeiras com o vinhedo. Ava parou de tentar desviar de sua mão. Agora ele tinha sua atenção. — O que você está falando? — Que talvez o casamento dele não esteja em boa forma por causa disso? Ava franziu a testa, tentando se concentrar no que ele estava dizendo sobre Josh. Ela realmente deveria fazê-lo parar de mexer em seu cabelo. — Sua presença poderia ser. Como é que se diz? O elixir que eles precisam. — O casamento vai mal? Ava digeriu essa notícia surpreendente e disse a si mesma que ela não estava pensando que Eu disse isso a ele. Eu avisei. Eu estava certa. Josh precisava dela. De repente a Toscana não parecia tão importante. — Por que eu deveria acreditar em você? Ele simplesmente pegou a mala dela. - Vista-se, cara. Partimos em dez minutos. Ele estava esperando do lado de fora, encostado na mesma máquina rebaixada que ela tinha visto no outro dia. Parecia saído das páginas da GQ: 2 metros de frieza italiana. Ela disse a si mesma para se mexer e parar de admirá-lo. Ele era um homem lindo, mas se soubesse o poder que tinha sobre ela, certamente o usaria contra Ava. — Bem, vamos acabar com isso — disse ela. Gianluca simplesmente a encarou.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ava ficou inquieta. — O que você está olhando? — Por que você está vestida como um homem? Um homem? Sua pele começou a formigar. Ele achava que ela parecia um homem? Ava desejou que o chão a engolisse. Não parecia um homem, lembrou-se. Vestida como homem. Não é a mesma coisa. — Não é possível que você seja lésbica agora. Em qualquer outra situação, Ava teria se lembrado de que louvava a sexualidade humana em toda a sua riqueza e diversidade. Agora, sob o escrutínio do homem mais agressivamente heterossexual que já conhecera, sentia como se levasse um tapa. Com poucas palavras, ele retirara as camadas de confiança que Ava tinha construído ao longo dos anos e exposto a jovem sensível que nunca encontrara seu lugar no mundo, até que havia endurecido e criado um lugar para si. Aquele homem nascera lindo e rico. Um homem que nunca duvidara de seu lugar no mundo. — Sim — disse ela, inclinando o queixo. — É exatamente o que sou. Uma lésbica de carteirinha. Podemos ir agora? Quanto mais cedo começarmos, mais rápido vai acabar. Ele abriu a porta para Ava. — Posso fazer isso sozinha — retrucou ela entrando. Ele fechou a porta com um clique. — Também posso fazer isso — murmurou. Gianluca ficou ao seu lado, mas não fez nenhum movimento para ligar o carro. — Pensei que estivéssemos com pressa — disse ela rigidamente. Ava odiou estar se sentindo desconfortável com suas calças pretas e blusa de seda branca. Não havia nada de errado com suas roupas. — Por que não estamos indo a lugar algum? — perguntou ela. — Eu ofendi você — começou ele inesperadamente. — Não seja ridículo. — Não estou acostumado a mulheres que usam calças — disse cuidadosamente. — Eu não deveria ter sugerido que lhe falta feminilidade por causa de suas escolhas de roupa. Ava sentiu seu estômago embrulhar. — Você pressupõe que eu me importo com o que você pensa. Mas ela se importava. De repente, desejou estar de saia. Contudo, não possuía uma. Ava virou a cabeça e imediatamente se arrependeu, porque ele estava tão perto. Perto demais. Podia ver a curva de seu lábio superior e teve um desejo súbito de pressionar a boca contra a de Gianluca. — Sei que você estava tentando me insultar, mas é inútil — informou ela. — O que eu vou dizer será um choque para você, pois suspeito que nenhuma mulher jamais lhe disse a verdade. 41


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Você pode estar certa. — Mas eu não tenho medo da verdade. Gosto de encarar as coisas de frente. — Vá em frente — encorajou, quase gentilmente. Ele não estava sendo legal com ela. Queria levá-la a atacá-lo e, em seguida, responderia com algo insultuoso que a faria se sentir, sentir. — A verdade é que você é apenas um rosto bonito, com um monte de dinheiro e um hábito de controle, por isso as mulheres deixam você fazer o que quiser e sair incólume. Eu não fiz isso e você não gosta disso. — É isso mesmo? — Ele estava sorrindo. Ava olhou para longe, cruzando os braços. — É — disse ela, perguntando-se por que não parecia convicta.

CAPÍTULO 8

Gianluca pulou para fora do carro com uma energia e resolução que zombavam da indecisão dela. Ava tremeu, frustrada com seus próprios desejos complicados enquanto saía do carro. — Por que você me trouxe aqui? — É a minha casa. — Entendo — disse ela com paciência exagerada, mas ele já havia se afastado. Ele não estava lhe dando tempo para pensar. Ava praguejou baixinho e saiu atrás dele. Gianluca estava subindo pelas escadas do hall de entrada. — Benedetti! Ele não respondeu. — Exijo que você me responda! — gritou, sua voz ecoando em torno deles. Ela deu um pulo, assustada. Ele ergueu as mãos em um gesto de impaciência masculina. — Precisa fazer um escândalo toda vez que você deixa de notar o óbvio? Ava estava à beira de informar que nunca fizera um escândalo em sua vida. Era uma mulher calma, comedida e nunca gritava. Só o fazia agora porque ele. Foi quando percebeu que Gianluca se movia novamente. Ela correu atrás dele. Por que estavam indo lá para cima? Seu quarto era no andar de cima. Muitos quartos eram no andar de cima. — O que é óbvio? — perguntou Ava com a voz trêmula. — Aqui não é o aeroporto. — Não, é a minha casa. 42


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Correndo o risco de apontar o óbvio novamente, sua casa não é um aeroporto! Como vamos daqui para Ragusa? Ele parou tão de repente que ela bateu nas costas dele. A mão dele disparou para equilibrá- la e a excitação floresceu dentro dela quando ele sorriu como um lobo. Ela puxou o braço, olhando para ele. Ava prendeu a respiração. — Helicóptero — disse ele, simplesmente. Helicóptero? Quando chegaram ao telhado, Ava foi incapaz de tirar os olhos das lâminas giratórias. — Eu não vou subir nisso! — gritou. — Tarde demais, dolcezza. — Sua voz ressonante era facilmente ouvida acima do barulho dos rotores. — Nós temos um compromisso em Ragusa e esta é a forma mais rápida de chegarmos lá. Ragusa. Claro. Ela disse a si mesma que milhares de pessoas voavam em helicópteros a cada ano e ninguém caía, e então teve a ideia inesperada de que ele poderia não estar vindo com ela. — Ava, você não tem problema com alturas, não é? Ela balançou a cabeça vigorosamente, com um não me deixe entalado em sua garganta. — Enjoo? — Não. Ele a encarou longamente e então, surpreendentemente, levantou uma das mãos e lhe acariciou o cabelo. — Bene. Não podia suportar que ele fosse gentil com ela. Ele não entendia que tudo isso era difícil para ela? Estar com ele depois de sete anos, sabendo que do outro lado daquele voo estava sua família e o escrutínio social, algo que ela nunca havia sido capaz de suportar? Ele não entendia que a raiva era o que a estava sustentando? Um jorro de fúria esguichou através dela quando Gianluca tentou colocar o capacete sobre sua cabeça e ela o arrancou dele. — Eu não sou uma incapaz, sabia? Eu ando de bicicleta. O piloto deu uma risada e disse algo em italiano. O que ela não entendia era por que ele estava passando os controles para Gianluca. — Você vai pilotar essa coisa? — Um homem deve tentar de tudo uma vez, cara. Ela tentou não aproveitar o momento. De verdade. Mas no momento em que eles estavam no ar, seu coração quase saiu pela boca. Lá embaixo estava Roma em toda a sua glória e, ao lado dela, com as mãos firmes nos controles, o herdeiro de uma das famílias mais célebres de Roma. Ao lado dela, Ava Lord, a quem nada notável havia acontecido que ela não houvesse planejado, organizado 43


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis e executado. — É bom, não é? Ele estava olhando para ela com aqueles olhos hipnotizantes. Ela não sabia o que dizer sem soar estúpida, emocionada demais. Ela se sentia como uma menina no topo de uma montanha-russa. Ele deu uma gargalhada rouca pela expressão perplexa dela. Ava tinha que dizer alguma coisa. — Quando você aprendeu a pilotar? — Na Marina Militare. — Você esteve na Marinha? — Si. — Mas. — começou ela, e então parou. O quê? Ele não pode ter uma vida além do que você lhe permite, Ava? — Antes ou depois de ser o jogador de futebol favorito de todos? — Eu joguei futebol profissionalmente por cinco minutos, cara. Não foi minha vida. — Eu imaginei... — Ah, si, aquela sua imaginação. Ele estendeu a mão de forma inesperada e pegou sua mão. — O que você tem imaginado, Ava? — Nada — disse ela, imediatamente. Tudo. Todas essas mulheres! — Eu não tenho imaginação. — O que ele sabia sobre sua imaginação, afinal? Então ela foi forçada a enfrentar a realidade, até que um dia as pessoas começaram a rotulá-la como sem graça e tediosa. Sempre a nova aluna da escola que nunca entendia a piada, nunca fazia amigos, que usava as mesmas roupas fora de moda dia após dia. Não havia importado. Ela havia estado ocupada demais com o trabalho, cobrar Josh sobre sua lição de casa e manter um teto sobre suas cabeças para se preocupar com a sua popularidade. Ela recolheu sua mão. — Quanto tempo você ficou na Marinha? — Dois anos. Pilotei um Apache no Afeganistão. — Você voou em uma zona de guerra? — Si, em um esquadrão de resgate. Ava esqueceu seu próprio desconforto. Como ela não soube disso? — Por que você se alistou? — Gosto de voar — disse ele, dando de ombros. — Gosto de me desafiar. A Marinha tem o melhor equipamento do mundo. Eu queria experimentá-lo. — É o pior motivo que já ouvi para entrar para as forças armadas. — Há motivos piores. — Ele pareceu triste por um momento. — Além disso, o que eu sabia? Eu era apenas um jogador de futebol burro. — Duvido que você tenha sido um burro, considerando o que você alcançou. E você 44


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis ainda não tem nem 30! — Não disse que eu não era um jogador de futebol burro sortudo. — Então, você se juntou aos negócios do seu pai, afinal? — Você se lembra de muita coisa para uma mulher que quer esquecer, cara. Ela corou. — Eu não me juntei a nada — continuou ele. — Quando saí da Marinha, o Banco Benedetti já não existia. — Mas você tinha conexões? Ele riu, mas pareceu sem graça e Ava sentiu-se culpada por levantar o assunto. — Saí com nada além de um Maserati, que vendi. Investi em um negócio de construção de um barco de um amigo e segui daí. Capital de alto risco e a maioria das pessoas não tem estômago para isso. Ela sabia disso. Era uma dessas pessoas. — Você tem? — O que você acha? De repente, tanta coisa fazia sentido. O corpo forte que não se encaixava com um homem lidava com os mercados financeiros, a insensibilidade que ela sentia em seu núcleo. Ava não sabia o que dizer. — Você esteve ocupado. Ele riu. — O que é tão engraçado? — Sua expressão. — Está ficando difícil, não é, cara? — Oi? — Encontrar razões para não gostar de mim — Eu não disse que eu não gosto de você. — Devíamos fazer algo juntos. Ainda organizando seus sentimentos, um grande conjunto de lembranças de coisas que haviam feito juntos cintilou em sua mente. Ava sentiu seu rosto se aquecer. — Fazer algo? Ele sorriu, como se soubesse para onde seus pensamentos haviam caminhado. — Si. Você é obviamente muito talentosa. — Eu sou? — Oh, céus, ele não está falando sobre sexo, Ava! — A Lord Trust Company... Uma empresa de corretagem fundada há quatro anos. — Ele sorriu e o coração dela saltou. — Você tem alguns clientes fiéis. Negócios. Ele está falando sobre negócios. — Você me pesquisou? — Estou sempre à procura de novas empresas para adicionar ao meu portfólio. 45


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ela havia quase esquecido que aquele era um homem que rondava os mercados de ações do mundo como uma besta voraz. Pela primeira vez em muitos anos, ela não dava a mínima para seus negócios. Seu olhar caiu para as mãos dele nos controles e uma imagem daquelas mãos tão escuras contra sua carne pálida brotou em sua mente. — Ava? Ela piscou para ele, confusa, e o lento sorriso dele fez seu coração saltitar. — Quando você me pesquisou? O sorriso dele aumentou. — Esta manhã, durante o café. — Engraçado, fiz o mesmo com você. — O que você descobriu? — Bastante. Mas, de alguma forma, não tudo. Seu sorriso desapareceu. — A Benedetti Internacional é uma empresa extensa, cara, até eu tenho dificuldade em manter o controle sobre nossos interesses. Ela duvidava. Gianluca Benedetti lhe parecia um homem que sabia com o que estava lidando. Mas foi um choque perceber que ela não estava pensando sobre negócios. Seus pensamentos haviam sido totalmente ocupados com sua vida privada. O terreno montanhoso abaixo foi dando lugar à costa e Ava preferiu ver a paisagem, em vez de analisar onde seus pensamentos a estavam levando. Os penhascos eram estupendos, descendo em direção à água. As cidades se agarravam a eles. Ela havia visto cartões-postais da Costa Amalfitana, mas não havia acreditado que fosse tão bonita. — É lindo, si? — disse ele, baixinho. — Sim, lindo. Gostaria. — Ela parou. — O que você gostaria, cara? O que ela gostaria? Muitas coisas. Ser a garota daquela noite. Mais suave, disposta a partilhar seus sentimentos pela primeira e única vez em sua vida, em vez de estar constantemente em guarda contra ser atacada, ridicularizada, exposta. Decepcionada. — Segure-se — disse, inclinando o helicóptero. No início, ela pensou que ele estava lhe dando uma melhor vista da cidade, mas então ela percebeu que eles estavam descendo abaixo do pico da montanha. Muito baixo. Muito, muito baixo. O pulso de Ava se acelerou. Diretamente abaixo deles, estava um heliporto acima de um bosque de pinheiros. Com uma sensaçãode inevitabilidade, ela percebeu que realizaria seu desejo. Eles estavam aterrissando.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis

CAPÍTULO 9

O motor foi desligado e os rotores desaceleraram gradualmente. — O que está acontecendo? O que estamos fazendo aqui? — Tenho uma reunião que deveria ter tido hoje em Roma — respondeu ele, como se estivesse afirmando o óbvio. — Decidi tê-la em Positano. Ava ficou boquiaberta. — Você o quê? Mas ele já estava pulando para fora. Ele havia feito isso de propósito. Ela tinha certeza de que ele fazia tudo com o propósito de confundi-la. Frustrada, Ava começou a mexer no cinto de segurança, enroscando-se irremediavelmente. Ela sabia que estava exagerando, mas seus próprios anseios subitamente pareciam perigosos demais nesta nova situação. — Isso não foi o que combinamos — explodiu ela quando Gianluca chegou ao seu lado. — Relaxe, cara. A parte difícil acabou. Um pouco atordoada que ele houvesse reconhecido seu medo de altura quando pensou que havia escondido tão bem, Ava ficou quieta tempo suficiente para que ele a soltasse. Enquanto desembarcava, ela caiu para a frente. Ele a segurou e ela de repente ficou muito consciente de seus seios macios pressionados contra o peito duro dele. A memória da última vez que haviam estado tão perto ardeu em sua mente. Suas pernas oscilaram — O hotel aqui é de propriedade de um amigo meu — disse ele. Ela tentou se desvencilhar, mas isso apenas gerou atrito entre eles. Atrito do qual ela não precisava! — Nós relaxamos, desfrutamos das comodidades, você me fala sobre você e seguimos daí, si? Seguir para onde? Do que ele estava falando? Ela tremeu quando uma das mãos dele vagou para sua cintura, apertando. Ele a encarou. — Sete anos é muito tempo, Ava. Temos muito para pôr em dia. O que ele estava dizendo? Estava dizendo o que ela achava que ele estava dizendo? Ela deu um pequeno suspiro. O que ele estava fazendo com a mão? De alguma forma, ele deslizou seus dedos ásperos e largos por baixo de sua blusa, acariciando levemente. Seus longos dedos subiram até suas costelas e Ava prendeu a respiração, seus seios inchando, seus mamilos se apertando em antecipação. — Pare com isso! — sussurrou ela, fracamente. 47


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Dois homens vinham subindo a ladeira até o heliporto e, com um olhar poderosamente penetrante, Gianluca virou-se para lidar com eles como se nada extraordinário houvesse acontecido. Quando tudo havia acontecido com ela. Ouviu-o dar instruções em italiano, algo sobre sua bagagem, e percebeu que ainda estava de pé onde ele a havia deixado, com sua blusa bagunçada, olhando estupidamente para ele. — Oh, céus — murmurou, rapidamente ajeitando a blusa. O que ela estava fazendo? Onde estava sua dignidade? Ela caminhou até ele e parou a um metro de distância, de braços cruzados. — O que você está pensando, Benedetti? Ele a olhou de cima a baixo, parecendo se divertir, mas ela viu que ele estava percebendo que uma parte de sua camisa ainda estava solta. Ela a colocou para dentro da calça rapidamente com a mão livre. — Fico feliz em ver que o voo não prejudicou seu charme, cara — observou ele, sorrindo. — Mas da próxima vez que você se jogar nos meus braços, avise-me e vou tentar fazer com que não tenhamos companhia. — Eu não me atirei em você — sussurrou ela. Mas ele já estava descendo as escadas. — Pensei que a ideia fosse ir de A para B da forma mais eficiente possível — continuou ela. — Isso é mais eficiente. Eu conduzo um pequeno negócio, você desfruta de um descanso, nós fazemos companhia um ao outro. — Companhia? Ele deu de ombros. - Meu irmão. — começou ela, correndo para acompanhar seus passos largos. — Há 24 horas você se importava tão pouco com o seu irmão que se recusava a responder às suas ligações. — Como você sabe disso? - Além disso, você nunca teve qualquer intenção de vê-lo. Não posso evitar me perguntar, cara, se esta súbita vontade de estar ao lado dele não tem mais a ver com passar algum tempo comigo. Ava quase engasgou. — E, como eu já disse a você. — Ele se virou. — Estou muito feliz em acomodá-la. — Acomodar-me? — Meu inglês. — Ele deu de ombros, mas ela notou o divertimento naqueles olhos dourados. Seu inglês era perfeito, pensou, sentindo-se quente por toda a parte. Ela o seguiu por um caminho de areia até um jardim, mas Ava estava muito focada no físico musculoso do homem na frente dela para prestar muita atenção. Por sua atitude, ele claramente esperava que ela agisse de acordo com seus desejos e necessidades. Fazer-lhe companhia! Ele poderia encontrar toda a companhia que quisesse, mas não seria a dela. 48


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis No instante em que ela estivesse de posse de seus pertences novamente, iria tomar providências e sair dali rapidamente. — Não sei por que você imaginou que eu iria deixá-lo se safar dessa — disse ela. Ele continuou andando pelo caminho. — Trazer-me aqui como uma espécie de concubina. — Você realmente precisa controlar sua imaginação, cara. Eu tenho uma reunião. — E já lhe disse que não tenho imaginação. Você é inacreditável. Você tem uma reunião. E quanto à minha vida? — Você está de férias. Ele se virou e Ava tentou não se deixar levar por seus olhos quentes. Ele parecia completamente relaxado e ela se sentia. — Sim, minhas férias.— Ela aproveitou o conceito. — E você é tão Neandertal que acha que pode simplesmente roubá-las por um capricho. — Está é a segunda vez que você me compara aos nossos ancestrais. Ava se sentiu um pouco desconfortável. Ela realmente não havia pensado que ele estava prestando atenção aos seus insultos. — Por que será? — Devolveu ela. — Tenho uma visão contemporânea — disse ele, simplesmente. — Sim, isso é aparente — retrucou ela. Ele ergueu uma sobrancelha. — Você se comporta como um imperador romano. Você passa por cima dos meus desejos desde o momento em que nos conhecemos. Você critica minhas roupas, como se eu devesse me vestir apenas para os homens! — Está claro que não é o caso — respondeu ele, retomando o passo. Ava o ignorou. — Você se comportou na noite passada como se eu houvesse cometido um crime informando que já nos. — Ela buscou uma descrição neutra para uma noite que ela nunca havia esquecido. — Conhecíamos. — Eu estava naturalmente cauteloso. — Tenho certeza que você encontra mulheres predatórias o tempo todo. Deve ser decepcionante que eu não seja uma! — Sim, nós possivelmente teríamos menos problemas agora. Ava não teve certeza se aquilo era um insulto ou um elogio indireto, mas estava claro que tipo de mulher ele preferia. — Sinto muito por você. Nunca pode saber se uma mulher está interessada em você ou em seu saldo bancário. Ele deu de ombros. — E você é promíscuo. Você me repreende, mas você, Benedetti, é um playboy da pior espécie. Você trata as mulheres como brinquedos. Esse tipo de pensamento desapareceu nos anos 1970, junto com Sean Connery atuando como James Bond. — Connery continuou a atuar como Bond nos anos 1980 — acrescentou ele, 49


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis secamente, quando se aproximaram de um grande portão cortado como um buraco na parede de pedra. Ele deu um sorriso surpreendentemente carismático sobre seu ombro. — Mas continue. Quero ouvir um pouco mais da sua opinião sobre mim Ele estava achando graça! — Não quer, não. O que você quer é ser elogiado. Todos os homens querem — Todos os homens? Isso vem de sua vasta experiência com meu sexo, cara? Ele se virou, cruzando os braços sobre o peito. — Conte-me sobre todos esses homens. Ava, de repente, desejou haver dormido com centenas de homens. Neste exato momento, a devassidão parecia uma utilização muito melhor de seu tempo a se prender a um homem chato e construir um negócio com reputação nacional. — Não sei como você se atreve a julgar minha vida sexual quando a sua própria não é nada para se gabar. — Como assim se gabar? Ava não sabia. Ela não sabia nada sobre ele além de como ele a fazia se sentir. Fora de si, sem limite, um pouco louca. Apaixonada. Olhe para mim, pensou, um pouco tonta. Queimando como um fogo de artifício desde que apareceu novamente em minha vida... — É óbvio que você tem orgulho de sua reputação. Você acha que dormir com centenas de mulheres faz de você um homem, quando na verdade tudo o que você faz é ordinário. Ele a observava com um leve sorriso, relaxado, como se estivesse oferecendo uma forma de entretenimento, mas suas últimas palavras haviam atingido o alvo, porque o sorriso desapareceu. Certo... Otimo. — Sim, ordinário. Ter qualquer uma que levante a saia e bata os cílios para você. Ele se aproximou dela, e Ava teve que se esforçar para se manter firme. O cheiro dele a deixou um pouco tonta. — Pelo que me lembro, você fez ambas as coisas ontem à noite. E ainda assim eu recusei você. Suas palavras a atingiram como uma faca entre as costelas. — Bem, sorte a minha. Essa passou perto. Ele inclinou a cabeça apenas ligeiramente, porque já estava perigosamente próximo, e sua respiração acariciou a orelha dela. — Passou longe, cara — disse ele. Essas três pequenas palavras foram o suficiente para desaparecer com sua disposição, sua raiva e sua excitação. Ele se virou e abriu o portão, dando- lhe um bom empurrão. Ele parecia com raiva de repente. Ele não tinha o direito de estar. Ela era quem estava sendo insultada. No entanto, de repente, ela apenas se sentia excluída.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis O portão rangeu e se abriu para uma estrada iluminada do lado de fora. Ele atravessou e esperou por ela no outro lado. Ava veio piscando. Estava quente, mas ela sentia frio, e sua atenção não estava em seu entorno. Estava nas palavras dele. Sentindo-se um pouco perdida, ela deixou escapar suas incertezas. — Eu não pisquei os olhos e. E não levantei a minha saia. — Como queira. — Eu podia estar bêbada, mas eu me lembro disso. — Si, você estava. — Estava o quê? — Bêbada. Ava tentou afastar a sensação de haver perdido algo que tinha quase em mãos por um momento naquele jardim — Ah, e você foi um cavalheiro! — Sim, eu fui. Ele disse isso com uma calma tão letal que ela estremeceu e realmente não quis ouvir o que viria depois. Ela o observou caminhar à frente dela pela estrada sinuosa. A vista do topo dos pinheiros e um vislumbre do mar azul estavam diante deles. Era tão incrivelmente belo, mas tudo o que Ava queria fazer era agarrá-lo e sacudi-lo e. E provar que havia algo entre eles. A percepção a paralisou. Era isso? Ele estava certo? Ela estava ali porque queria passar mais tempo com ele? — Eu não tirei vantagem de você — repetiu ele. — E ainda você fala como se estivesse decepcionada, cara. Você não pode ter as duas coisas. Ou você tenta se valer da minha tal reputação ou você bebeu tanto na noite passada que não se importava mais. Não posso dizer que algum desses cenários reflete bem você, mas vá em frente e escolha e nós vamos respeitar essa versão. Ava ficou boquiaberta. Ela começou a correr um pouco para acompanhá-lo. — Não foi assim. Você distorceu tudo! Ele deu de ombros. — Não estou mais interessado em nada disso, Ava. Se você quiser justificar seu próprio comportamento, converse com um terapeuta. Não é o que mulheres como você fazem? — Mulheres como eu? — Nervosas, com tempo de sobra, com necessidades sexuais que, obviamente, não estão sendo atendidas. Ava absorveu o impacto de sua opinião sobre ela. Estava errada. Estava tão errada. Ele havia entendido tudo errado. Mas de alguma forma, naquele momento, ela pensou que ele poderia estar certo. Playboy. Libertino. Escravo de sua libido.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis De onde ela tirou isso? Abriu as portas e esperou a poeira se assentar antes de entrar. Qualquer uma que levante a saia e bata os cílios... No entanto, ele já havia ouvido essas palavras antes, não havia? Seu pai, gritando tanto que seu rosto havia ficado púrpura. Ele, sete anos mais jovem Estava assinando um segundo contrato com a equipe italiana, não tinha nenhuma intenção de fazer o serviço militar, pois, quanto a sua vida social, ele queria estar com todas as mulheres de Roma. Foi quando as dores começaram? Será que sua cor não natural havia sido o primeiro sinal? Será que ele poderia ter se adiantado, colocado seu braço ao redor de seu pai, o acalmado em uma cadeira, ido buscar um médico, uma ambulância. Ajuda? A culpa nunca iria embora, e maldita seja Ava Lord por trazer tudo à tona. Ele a deixara na beira da estrada. Tinha que descer a montanha e a forma convencional — um caminho que mergulhava pela lateral de um penhasco até a estrada abaixo — não era a ideal para uma mulher que ficava pálida como leite a 30 metros de altura. Talvez fosse por isso que ele a houvesse levado para a costa. O gesto de um homem que estava acostumado com as mulheres concordando com seus planos sem perguntas. Ele havia errado feio. Mas aquele vislumbre de vulnerabilidade no ar o fez querer cuidar dela. Jogá-la do penhasco em um saco seria como seus ancestrais lidariam com ela. Gianluca teria que ser mais criativo. Ele puxou a lona que cobria a moto e empurrou-a para a estrada. Ela não era como qualquer mulher que ele já havia conhecido. Algo em sua briga com ela o estava excitando e ele era um homem que fazia questão de honra não se envolver em disputas com mulheres. Já havia disputas demais entre seus pais. Mulheres eram inevitavelmente confusas e emocionais, e um homem nunca ganhava. Não, as mulheres não lutavam com ele. Elas faziam beicinho e se amuavam, fazendo ameaças bobas, mas no final elas faziam exatamente o que deveriam fazer. Parecia bom e proporcionava um pouco de entretenimento. No entanto, nos últimos dois dias aquilo o havia deixado irritado, provocado, urpreso e estava nas mãos de uma poderosa combinação de sentimentos, principalmente sexuais. Estava definitivamente começando a se tornar doloroso. Vestida como estava, cuspindo-lhe insultos, a antítese de tudo que era feminino e polido. Ele ainda a desejava de uma forma que estava além de sua experiência anterior. Que ela parecesse completamente ignorante quanto ao seu poder sobre ele era sua salvação. Embora ele estivesse começando a pensar mesmo que aquilo era intencional. Mulher louca. Ele deu a partida na moto e ela ronronou como um gatinho. Um lento sorriso curvou sua boca. Ela adoraria isso. Ela não conseguiria ficar emburrada na parte de trás da Ducati. — Grazie bene Molto bene. Foi muito gentil de sua parte. Havendo esgotado seu italiano, Ava acenou para o senhor enquanto ele ia embora. 52


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ela ficou sob o sol, ao lado da bomba hidráulica, pensando no que Gianluca estava fazendo. Provavelmente já estava no hotel, relaxando com algum tipo de bebida exótica e uma loira que, na imaginação de Ava, assemelhava-se a Donatella. Ah, Gianluca, você é tão maravilhoso, tudo que você faz é maravilhoso, deixe-me tirar mais roupa... Ela rangeu os dentes. Era melhor que ela se concentrasse no que poderia melhorar em si. Havia sido um longo dia e estava longe de acabar. Ela deveria aproveitar este tempo para se recompor, não para pensar na vida sexual de Gianluca Benedetti e sua falta de uma. Era reservado ali, mais fresco também Paolo havia dito que ela poderia ficar o tempo que quisesse, mas que eles partiriam as cinco, usando uma estrada antiga direto para a aldeia, e ela poderia ir com eles. Ele lhe deu um jarro de barro para encher com água e ela se concentrou em enchê-lo. Depois de um rápido reconhecimento da área, Ava determinou que estava sozinha e tirou sua blusa. Ela jogou água fria da torneira nos braços e nas costas, peito e barriga. Escorreu para o cós de sua calça e ela ficou tentada a tirá-la também. Mas isso teria que esperar até que estivesse atrás de uma porta fechada. Ela determinou uma coisa. Quando voltasse para Sydney faria uma fogueira com elas, todas as 12 calças, e, em seguida, faria um alvoroço sexual na vida adulta masculina de Sydney. Ele veria quem era nervosa e frustrada sexualmente, então!

CAPÍTULO 10

Gianluca não podia acreditar no que estava vendo. Ele se encontrou varrendo a área em busca de pervertidos mesmo enquanto avançava sobre ela, não inteiramente certo de seu propósito neste momento. Havia voltado para buscá-la com a moto, apenas para passar a última meia hora procurando por ela. Ava tinha voltado para o jardim, mas em vez de encontrar uma mulher contrita descobriu uma ninfa da floresta. Ela deve ter ouvido seus passos, mas o ignorou e jogou mais água sobre a parte de trás do seu pescoço, em seguida, uniu as mãos e trouxe um pouco até a boca. Era demais. Ele estendeu a mão e interrompeu o fluxo com um movimento agressivo. — Ei! — disse ela, tossindo. Ele jogou sua camisa para ela. — Cubra-se. Ela se virou e o dele olhar caiu instantaneamente para seus seios, para os reluzentes filetes de água escorrendo por aqueles relevos para ver qual chegaria ao sutiã de algodão branco primeiro. 53


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele reconheceu que ela estava dizendo alguma coisa, mas ele se perdeu no rugido de testosterona correndo por ele. Seu olhar caiu um pouco mais e ele percebeu que suas feias calças haviam perdido o botão de cima e pendiam no ponto mais largo de seus quadris, revelando seu umbigo e uma obra-prima de uma suave barriga feminina. Como a maioria dos homens, ele não gostava realmente de um abdômen feminino plano e apertou os dedos para resistir à tentação de tocá-la. — Controle-se, Benedetti. Sua atenção voltou para os seios. Seus mamilos rosados já eram visíveis. Ele rosnou: — Coloque a camisa, Dio! Quando ela simplesmente ficou lá, piscando, ele pegou uma de suas mãos e começou a empurrá-la pela manga. Ela se afastou dele e rapidamente puxou a camisa sobre os ombros, virando-lhe as costas. Ele deu alguns passos para trás, impressionado com a maneira como estava se comportando. Como um louco. Por que ele havia complicado algo tão simples? Ele nunca deveria tê-la trazido ali. Ele observou Ava vestindo sua blusa, murmurando alguma coisa sobre ele ser um puritano, sempre tentando cobri-la. Sua cabeça estava para baixo e ele podia ver os cachos suaves na base de sua nuca, em desacordo com suas roupas implacáveis. A ternura o desconcertou. Quando Ava o ouviu vindo, seu coração pulou, mas ela havia reprimido seu primeiro instinto de se cobrir. Ah, ela sabia que estava brincando com fogo, mas, no fundo, uma parte dela queria vingança. Sexualmente frustrada, é? Bem, dois poderiam jogar esse jogo. Mas ele olhou para ela como se fosse feito de pedra. Ela havia pensado que seus seios ficavam muito bem naquele sutiã. Ava encerrou essa linha de pensamento. Não ajudava em nada. — As pessoas aqui são conservadoras — comunicou ele, asperamente. — Mostre respeito. Ava perdeu a paciência. — Respeito? — murmurou ela. — Por que você não começa a demonstrar algum respeito por mim? Ela se virou e descobriu que ele estava bem atrás dela. Ela olhou para cima e piscou. Ele tinha um olhar estranho, satisfeito, em seu rosto. Ela deu um suspiro suave quando ele a pegou e a jogou como um saco de batata por cima do ombro. — Coloque-me no chão! — gritou. Mas, aparentemente, 70 quilos de mulher se contorcendo não detinha um homem que havia sido levado ao seu limite.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Gianluca só a abaixou quando chegaram à sua Ducati vermelha. — O que é isso? — Transporte para descer a montanha. Enquanto falava, ele subiu na moto. Os pés de Ava estavam congelados. Ela definitivamente não subiria naquela coisa. — Desculpe, Benedetti. Já passei por isso. — Suba na moto, Ava. Algo em seu tom de voz e o fato de ela estar se sentindo cansada e confusa lhe fizeram fazer o que ele pediu. Ela se aproximou e subiu cuidadosamente no assento. Não havia muito espaço. Eles estavam colados. Ela se segurou o mais rígida que pôde, mas ele era grande, quente e sólido, e, quando eles partiram, suas mãos tatearam instintivamente até sua cintura. Ela apertou as chapas de músculo forte e quente e jurou que as sentiu se mover. Suas coxas se derreteram com a sugestão. Não era nada bom A moto saltou quando eles pegaram a estrada. Sem capacetes, havia algum risco. Mas ela sentiu algo mais nele, certa tensão. — Da próxima vez, me lembre de pegar um ônibus — comentou quando pararam para deixar um carro passar pela pista única. — Si? Você não duraria cinco minutos, cara. No instante em que você abrisse essa sua linda boquinha, o motorista iria despejá-la na beira da estrada. — Cuidado, Benedetti, ou vou pular fora. E como é que você vai explicar isso para sua mãe e Alessia? — Acredite em mim, bella, quando conhecerem você, ninguém vai me questionar por despejá-la. Ele ligou o motor e partiu novamente. Ava pensou que merecia aquilo. — Segure-se — instruiu ele, virando em uma estrada fechada. Em poucos minutos, tornou-se cada vez mais rochosa. — Esta não foi sua melhor ideia! — gritou ela, quicando atrás dele. — É muito mais segura do que a estrada — respondeu ele, severamente. — Pelo menos sobrevivemos. — Com hematomas no traseiro! Para sua surpresa, ele começou a diminuir. Ava olhou para as rochas escarpadas erguendo-se acima deles e, por algum motivo, entrou em pânico. — E agora? — perguntou ela, nervosa. — Você sai, empurra a moto do desfiladeiro e ninguém nunca mais ouve falar de mim? Ele se virou e ela recuou, incapaz de soltar as pernas. Ela estava presa em uma moto, no meio do nada, com um homem que parecia ser puro músculo. E ela o esteve cutucando com vara curta. O dia inteiro. Seus olhos dourados se moveram sobre ela com franqueza desconcertante e ela 55


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis corou. — Precisamos acabar com isso — afirmou asperamente. Era a última coisa que ela esperava que ele dissesse. — O quê? — Qual é o ditado australiano? Precisamos trepar como coelhos até que não seja mais novidade. Ava ficou boquiaberta. — Nós o quê? — O vernáculo está errado? Ela estava prestes a lhe dizer exatamente o quão errado estava quando viu o brilho em seus olhos dourados, e tudo doloroso e errado em sua vida desapareceu. Ele não estava rindo dela, percebeu. Ele a estava incluindo na piada. E com isso, uma peça muito importante daquele antigo quebra-cabeça se encaixou. Era daquele jeito que ele a fazia se sentir. — Sim, o vernáculo está errado — disse ela fracamente. A boca dele se contorceu. Ela não ia rir. — E eu posso garantir que não vai acontecer — emendou rapidamente. Mas, por mais que ela tentasse soar formal e decisiva, tudo ruiu dentro dela. Ele estendeu a mão e fez algo tão inesperado que ela parou de respirar. Gianluca segurou seu rosto com a mão, forçando-a a olhá-lo, delineando a curva de sua bochecha suavemente com a ponta do polegar. — Então, estamos de acordo? Ela queria empurrar a mão dele, mas esta gentileza repentina de sua parte trouxe suas emoções à superfície. Ela piscou rapidamente. — Você me lembra daqueles pequenos porcos-espinhos, se enrolando em uma bola de cerdas para se proteger, mas por baixo você tem essa barriguinha aveludada. — Porcos-espinhos são roedores - respondeu ela. — Você está me comparando a uma praga. Então percebeu que havia acabado de fazer exatamente o que ele havia dito. — Do que é que você está fugindo? O que ameaça você, Ava? — A voz dele era baixa, e Gianluca continuou a acariciá- la. Seu coração palpitava descontroladamente. Ela olhou em seus olhos e ele sorriu. — Você me acha atraente, si? Não é nada para se envergonhar. Salva por seu ego! Ela afastou a mão dele. Todos os tipos de anseios foram soterrados por sua incrível arrogância. — Ah, sim, todas as mulheres devem achá-lo totalmente irresistível. Deve ser difícil saber que sou imune. — Imune? Como seria mais fácil se você fosse. Eu não teria que aturar a sua constante busca de atenção. — Busca de quê? Não estou fazendo nada do tipo. — Ela desviou o olhar, porque era mentira. Ela estava gostando de ter toda a atenção dele durante o dia. 56


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — É apenas o seu ego colossal — murmurou. — Eu lembro que você admirava meu ego, há sete anos, cara. — Eu não quero falar sobre isso! — Sim, você quer — rosnou ele. — É tudo sobre o que você quer falar. — Eu era estúpida. Você se aproveitou de mim! — atacou, pega de surpresa pela verdade. — Você era mais velha que eu — inseriu ele, calmamente. Ava lhe lançou um olhar incrédulo. — Não posso acreditar que você esteja esfregando minha idade na minha cara! Ele fez um gesto impaciente de descrença com uma das mãos e, com outro movimento, deslizou a mão na mochila amarrada atrás da moto. Ele destampou uma garrafa e jogou para ela. — O que é isso? — Para você se refrescar. Não tenho um balde de água à mão. — Não era eu quem estava falando de coelhos — murmurou, irritada. — Eu nunca dormiria com você se estivesse em sã consciência aquela noite — murmurou, mais para si mesma do que para ele. Ele ficou sério. — Cosa? Ela não queria dizer isso, mas não podia voltar atrás. Se o fizesse, ele veria seu medo de intimidade e somaria dois mais dois. Ela temia aquela exposição mais do que sua raiva. — Você me ouviu. — Ela evitou seus olhos. — Estava chateada e não pensei direito, e você veio como um raio. — Você deveria verificar seus fatos antes de começar a fazer acusações, signorina Lord. Ava engoliu em seco. Ela não queria conversar sobre aquilo. Era reservado demais, não havia para onde correr e ele poderia esmagar seu frágil ego. — Você se jogou em mim — observou ele, como se comentando sobre o clima. Ava estremeceu. — Você fez isso ontem à noite e há sete anos — continuou implacavelmente. — Parece ser o seu modus operandi, tesoro. Suponho que eu não deveria me sentir lisonjeado. Enquanto ela absorvia o impacto de sua opinião, o motor da moto rugiu novamente e Ava agarrou a cintura dele. Ele não disse mais nada até descerem a montanha, porque, realmente, o que mais havia a ser dito?

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CAPÍTULO 11

O hotel, como tudo em Gianluca Benedetti, não era o que ela esperava. Era sutil e encantador e aproveitava as melhores vistas de Positano. Enquanto atravessava o saguão, Gianluca parecia um anúncio de fragrância masculina. Algumas garotas de belas pernas se agitaram e deram risinhos quando Gianluca segurou a porta para elas. Completamente desnecessário. Elas tinham braços, não tinham? Uma das mulheres parou para falar com ele. Flertar. Seu coração começou a martelar. Tudo bem Ela podia cuidar de si. Cruzou os braços e olhou em volta. Viu a mesa de recepção e foi até lá. Ela estava entregando seu passaporte quando uma voz profunda se intrometeu. — Ela tem um quarto, Pietro. Ava ignorou. — Como eu estava dizendo, eu gostaria de um de solteiro. Mas o funcionário da recepção estava olhando por cima do ombro dela. Frustrada, Ava se virou para Gianluca. — Você poderia cair fora? Ele simplesmente olhou para ela de forma desaprovadora. Porque ela estava se comportando dessa maneira pela razão mais óbvia. Estava com ciúmes. Note-me! Era o que ela queria dizer. Mas o que ele notaria? Uma mulher cansada, suja, irritável, que não havia feito nada além de importuná-lo o dia todo. — Desculpe-me — disse ela. — Foi rude de minha parte. — Foi um longo dia, Ava, e tenho negócios a tratar — interrompeu ele. — Vou preparar um carro para você pela manhã para levá-la a Roma ou Ragusa. O que você preferir. O que ela preferia era colocar a cabeça em seu ombro e pedir desculpas por todas as coisas horríveis que havia dito hoje, que ele tomasse seu rosto nas mãos novamente como havia feito na moto e não olhasse para outras mulheres. Isso nunca iria acontecer agora, e ela estava se sentindo muito cansada e com pena de si mesma para ficar brava com isso. No elevador, ele pegou seu telefone. Fechada em um espaço confinado com ele, ela não podia deixar de inalar seu cheiro. Ele cheirava tão bem, mesmo depois de um dia inteiro. Ele cheirava a pele masculina quente, a relva, sal e um pouco de fumaça de gasolina da moto. Era uma combinação explosiva nele, mas provavelmente não tão fascinante nela. Um olhar furtivo no espelho apenas reforçou o contraste e Ava percebeu que ele 58


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis estava certo. Essas roupas não a favoreciam Quando ela havia começado a se vestir assim? Bernard dizia que uma mulher na sua posição precisava tomar cuidado. Então, ela tomava cuidado. Blusas de gola alta. Nada de saias. Nada que pudesse chamar a atenção para sua feminilidade. Não era de se admirar que Gianluca não se importasse se ela estava em Ragusa, Roma ou em qualquer lugar. Em seu andar, ele abriu uma porta e deu um passo para trás para permitir que ela entrasse. Ela esperava algo como seu esportivo de luxo. Uma assinatura de Gianluca Benedetti. Em vez disso, ele havia reservado um hotel com uma mistura de encantador ambiente antigo e mobiliário contemporâneo. Ela notou as portas e janelas em arco, o que fazia os ocupantes sentirem que estavam dentro de algo que não era desta época. Inesperadamente, ela se sentiu a beira das lágrimas. — Este é o meu quarto? — perguntou ela, com espanto. Ela lembrou que ele havia dito algo sobre o lugar pertencer a um amigo. Ela se perguntou se poderia usar isso para iniciar uma conversa, para mostrar a ele que poderia ser tão charmosa, acessível, amigável como aquelas meninas bobas lá embaixo. Ela limpou a garganta e o que saiu foi: — Eu realmente devo insistir em pagar. A porta se fechou com um clique. Por um momento, Ava não se mexeu. Ele nunca havia realmente sido rude com ela antes e uma parte do seu cérebro disse que era claramente outra mensagem. Ele havia aberto a porta para aquelas meninas. E depois batido a porta na cara dela. Ela não soube como chegou ao banheiro. Não estava realmente consciente de que estava tirando a roupa até que os botões pareceram complicados sob seus dedos. Ficando de roupa de baixo, olhou-se no espelho. Ainda que de algodão branco simples, o conjunto custava mais do que algumas pessoas ganhavam em uma semana de trabalho. Não havia por que negar que, depois que Gianluca havia aparecido em seu quarto de hotel hoje de manhã, ela tinha trocado suas habituais calçolas da vovó por estas. Ela era uma fraude. Entrou no chuveiro e esperou que a água morna fizesse sua mágica em seus músculos tensos. Ela teve que lutar contra a memória. A dor em sua pélvis a provocou. O que você vai fazer sobre isso, Ava? Sussurrou uma voz odiosa. Ele acha que você está tensa e frustrada, e precisa de um psicólogo. Era inútil. Ele era um homem que namorava modelos e atrizes e dava festas em bares chiques onde garotas vestindo quase nada se jogavam sobre ele. Ela era uma mulher que fazia listas na cabeça durante o sexo, quando não estava encolhendo a barriga e tentando esconder seu bumbum. Nunca funcionaria. No entanto, ele também era um homem que pilotou helicópteros em zonas de guerra e se importava o suficiente para tentar acalmar seus temores no helicóptero. 59


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ava estava se sentindo realmente infeliz quando saiu do chuveiro. Não conseguiu vestir outro par de calças compridas, ela não iria a lugar nenhum, então vestiu o shortinho que usava para dormir e uma blusinha azul antes de escovar o cabelo. Ela pediria serviço de quarto e telefonaria para seu escritório. Só que eram as primeiras horas da manhã na Austrália. O que significava que teria que encontrar outra coisa para manter sua mente ocupada. O resto da tarde se estendia diante dela. E o resto de sua vida medrosa que ela quis mudar vindo para a Itália. Ela se sentou na cama e olhou em volta tristemente. Havia chegado à conclusão de que criara esta situação. Mas era mulher o suficiente para corrigi-la? Gianluca mal ouvíu a conversa de seu advogado enquanto se sentava em uma mesa com seus consultores e um oligarca russo. A maioria das mulheres ficaria grata de passar alguns dias de descanso na Riviera Italiana. Na verdade, ele poderia pensar em várias que brigariam para ter a chance de passar alguns dias com ele naquele ambiente. Ele era conhecido por ser generoso. Não negava a uma mulher um pouco de compras, alguns mimos. Isso sempre as deixava muito mais relaxadas e submissas quando chegavam ao objetivo para o qual ambos estavam ali. Si, havia muitas mulheres que apreciariam esse gesto. Claramente, Ava não era uma delas. Ela tinha uma língua afiada e nenhuma consciência de seu papel como mulher. Suavizar o momento de constrangimento, esperar a ajuda dele. Em vez disso, ela o pressionava a tratá-la como se fosse um homem, mas o que ela não entendia era que, se um homem se comportasse como ela havia se comportado hoje, ele estaria enterrado naquela encosta, não sentado agradavelmente em um hotel de luxo. Basta. Ele tinha passado muito tempo pensando sobre isso. Não havia necessidade de se verem novamente. Além disso, existia cura para aquilo. Ali era Positano. Havia mulheres bonitas e disponíveis. Ardentes mulheres italianas que sabiam como lidar com um homem, sabiam quando desafiar e quando abaixar as armas e oferecer um pouco de docilidade. Ele observou alguns exemplos desses enquanto tomava sua vodca. Os advogados continuaram a conversar. Quando os negócios do dia foram postos de lado, o russo se inclinou casualmente para trás em sua cadeira e disse em seu italiano carregado: — Voe comigo esta noite, Gianluca. Podemos analisar planos durante o jantar. Os planos. Drinks e jantar. Um bando de garotas bonitas que viajavam o mundo com um dos homens mais ricos da Europa. O oligarca era famoso por suas festas. Mas os pensamentos de Gianluca vagaram para a réplica australiana de Gina Lollobrigida, abanando o dedo para ele e lhe dando aula sobre James Bond nos anos 70. Foi quando ele riu pela primeira vez desde que ela o acusou de ser um playboy. Foi quando ele soube que não iria a lugar nenhum. O que ele queria estava ali em Positano.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis

CAPÍTULO 12

Ava sentou-se atordoada. Ela não tinha a intenção de adormecer. Esfregou os olhos com indiferença. A luz entrando pelas janelas era diferente, mais suave. Algum tempo havia passado. Ava congelou. Existiam um casaco esportivo sobre uma das cadeiras e chaves e um telefone em cima da mesa. Podia ouvir o barulho de água corrente. Era o chuveiro. Ava lançou-se para fora da cama. Ele estava no chuveiro dela. Deles. Eles estavam dividindo um quarto? Ele não havia dito nada sobre dividir um quarto. Típico! Foi uma grande presunção da parte dele. Especialmente quando sabia de seus sentimentos sobre o assunto. Ava parou. Seus sentimentos tinham mudado. De alguma forma, em algum momento descendo a montanha, seus sentimentos mudaram. E ela estava fazendo isso de novo. Evitando enfrentar seus medos. Ava voltou para a cama. Ele iria voltar para ela. Ela mordeu o lábio e sorriu. Pense, Ava, pense. Lembra o que ele disse sobre você ser sexualmente frustrada e nervosa? Você poderia mostrar a ele. Você poderia fazê-lo engolir essas palavras. Havia apenas um pequeno problema e, uma vez que ele era um deus do sexo, ele poderia nem sequer notar. Ela não era muito boa nisso. Sexo. Mas talvez houvesse ali uma oportunidade para ela. Ele tinha toda a habilidade. Ela poderia tirar proveito disso. Estava ali naquele lugar lindo, com um dos homens mais sexy do mundo. Lembravase do sexo muito bem sucedido da última vez. Gianluca Benedetti não era um homem que gostava de profundidade. Sabendo disso ao entrar, ela não se apegaria. Seria sexo. Se ela pudesse relaxar e seguir os ditames de seu corpo, não sua consciência. Nem seu coração. Ficaria bem. Muito bem. Ela olhou para a porta do banheiro. Talvez se ela apenas verificasse. Engolindo em seco, ela se aproximou da porta, cuidadosamente colocou sua orelha contra a madeira e escutou. Definitivamente água. E outro som. Ele estava cantando? De alguma forma, a ideia de que ele estava cantando a animou. Ele não podia estar muito zangado com ela se estava cantando. O vidro do chuveiro estaria embaçado. Ela não teria sequer que olhar. E se, por exemplo, vislumbrasse a sombra de seu corpo por trás do vidro opaco, não estaria quebrando qualquer grande tabu. Todo mundo sabia que os homens eram muito menos modestos sobre essas coisas que as mulheres. Qualquer outro raciocínio se dissolveu quando ela foi atingida por vapor, um vidro nada embaçado e 2 metros de nudez masculina, com ombros largos, nádegas firmes e pernas longas e poderosas. Gianluca ficou com o rosto no fluxo de água, enxaguando seu cabelo preto, e estava cantando. Sua voz era uma voz profunda e, claro, o italiano tornava tudo muito mais 61


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis ressonante. Ele era a coisa mais sexy que Ava já havia visto. Se ela desistisse agora, ele jamais saberia que tinha estado lá, mas ela simplesmente não conseguia tirar os olhos dele. Ela disse a si mesma que tinha 31 anos de idade. Já havia visto muitos homens nus no chuveiro. Tudo bem, dois. Dois homens atléticos e perfeitamente saudáveis. Homens normais. Ele se virou, os olhos fechados, jogando a cabeça para trás, levantando um braço para ensaboar a nuca. Ava prendeu a respiração quando seus olhos recaíram sobre o prêmio. Gianluca Benedetti era acima da média. Ele disse algo básico em italiano e Ava deu um pequeno suspiro quando nu, transbordando testosterona, ele a pegou como se ela fosse uma pluma e a arrastou para o chuveiro, empurrando-a contra os azulejos e beijando-a. Simples assim A língua dele estava em sua boca, sua barba estava esfregando contra a pele dela e seus lábios se sentiam acariciados e devorados ao mesmo tempo. Ela não sabia que beijar poderia ser assim. Sim, era isso, sua altura e sua compleição. Seu grande corpo masculino, que o fazia impossível de resistir. A água tornava tudo muito escorregadio. Ela não pôde evitar o movimento circular de seus quadris contra ele, silenciosamente incentivando o pulsar de sua ereção contra sua barriga. As mãos dele foram até sua cintura, retirando sua blusa. — Il seno bello — rosnou ele, e Ava de repente estava consciente do peso de seus seios enquanto suas zonas erógenas entravam em ação. Uma grande mão cobriu a parte inferior de seu seio esquerdo quando ele se inclinou e colocou seu mamilo na boca através do algodão molhado, esfregando-o com os dentes. Ele fez o mesmo com o outro, com as mãos retirando o short dela, encontrando a curva nua de suas nádegas e apertando- as com um gemido de apreciação. Tudo o que ela podia fazer era agarrar-se a ele, acariciando a extensão de seus ombros, costas e peito. — Você está protegida? — perguntou ele. Ava assentiu vigorosamente, enquanto continuava a beijá-lo. — Tenho preservativos. Posso usar um, se você preferir. Ela quase lhe disse que não, mas então se lembrou terrivelmente. Só Deus sabia com quantas outras mulheres ele havia dormido apenas este mês, quanto mais este ano. Algo se apertou dentro de seu peito e Ava sentiu seu pulso começar a acelerar. Não pense nisso, insistiu a nova Ava imprudente. Apenas aproveite sua brincadeira no chuveiro e siga em frente com sua vida. Não é para isso que você está aqui? Terminar as coisas de uma maneira melhor? Ela empurrou as mãos contra o peito dele. — Eu quero que você use um preservativo — disse ela. — Si — assegurou ele, em seguida, sua língua estava em sua boca novamente. Ela o empurrou. — Não. Agora. 62


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Gianluca não respondeu. Simplesmente desligou o chuveiro e a levou molhada e pingando até o quarto. Ele a jogou na cama e mergulhou em busca de sua bolsa de higiene pessoal. Ava se sentou, puxando para baixo sua blusa. Seu estômago despencou quando ele derrubou a bolsa no chão. — Você não tem preservativos? Gianluca expirou entre os dentes e encontrou o olhar acusador dela. Ele estava tão bonito, excitado e predatório, tudo o que ela havia fantasiado por tanto tempo. — Não posso acreditar que logo você não tem preservativos! Ele estava olhando para ela de forma estranha. — Acalme-se, cara. Vou dar um telefonema. O queixo de Ava caiu ligeiramente. — O serviço de quarto oferece preservativos? — Por que não? — Talvez não seja uma boa ideia. Gianluca ficou imóvel. — O que mudou? Ava cruzou os braços sobre os seios. De repente, não havia mais o calor do momento. Ela se sentia exposta e queria se esconder. Ela parecia que ia irromper em lágrimas. O que havia de errado com ela? Sem dizer uma palavra, Gianluca caminhou até o guarda-roupa, pegou um par de jeans e empurrou as pernas dentro deles. Então, pegou uma camisa, enfiando os braços através das mangas. — O que você está fazendo? — Espere aí. Ava pulou da cama, mas em um único passo, com um braço estendido, ele a puxou contra ele. Masculino, potente e perigoso. Ela tremeu, mas não resistiu quando ele apertou seu queixo e deu-lhe um beijo ardente na boca. — Espere — disse ele. — Eu não. Mas ele já havia ido embora. Ela ouviu a porta bater. Ficou na cama durante um minuto inteiro, só pensando sobre as consequências e no que poderia acontecer no dia seguinte. Ela iria estragar tudo. Sexo não era algo em que ela era boa. Patrick e Bernard a haviam achado decepcionante; só pode ser catastrófico com um deus do sexo como Gianluca. Todos os seus sentimentos anteriores de ser sexy e querer algo mais haviam se tornado uma pilha de inseguranças. 63


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ela considerou brevemente arrumar suas coisas e desaparecer antes que ele retornasse. Mas havia sido covarde uma vez antes, e como ela iria encará-lo em Ragusa no domingo se corresse hoje? Não, ela havia começado isso e sempre terminava o que começava. Quando ele percebesse que ela não era boa, tudo iria acabar. Enxugando os olhos úmidos, ela tirou a roupa molhada e se enrolou em seu roupão. Mal havia se coberto quando a porta se abriu. Todos os argumentos que ela havia inventado desmoronaram quando ele jogou várias caixas em cima da cama. — Onde você conseguiu isso? — Farmácia — disse ele. — Você foi à farmácia? — Si. — Ele sorriu. — Por que não está nua? Ela o ignorou. — Você está pensando em dormir com muitas mulheres enquanto estiver aqui? — Eu acho que o meu tempo será gasto com você, bella — disse ele, avançando sobre ela. — Mas quatro caixas? — Ela recuou, batendo na parede. — Eu estava com pressa — disse ele. Os medos e argumentos de Ava desapareceram. Ele não havia planejado nada disso! Um homem com sedução em mente não estaria munido do necessário? Todos os seus preconceitos estavam ruindo. Ele não estava agindo como se isso não significasse nada. Ele havia saído e ido à farmácia. Como uma pessoa normal. Ava viu a urgência feroz em sua expressão, o jeito com que ele estava olhando para ela, como um leão olhava uma gazela que estava se preparando para abater. — E as suas reuniões? — perguntou ela. — Que reuniões? Ele se inclinou sobre ela, prendendo- a com uma das mãos, a outra habilmente lidando com a faixa do roupão. Seus dedos roçaram sua barriga nua quando ele se abriu. Ele arrastou os dedos pelo vale entre seus seios até chegar à sua clavícula, então empurrou delicadamente o manto sobre a curva de seu ombro até que ele caísse um pouco em suas costas, revelando seu ombro e um seio. Ele acompanhou a borda do manto até a margem externa de seu mamilo. — Você é sensível aqui? Ava tremeu. — S-sim. Por que ele estava fazendo essas perguntas? Por que ele não ia em frente? Ela o observou circundar o mamilo com o polegar. Ela deu um pequeno salto. Queria que ele usasse os dentes, como no chuveiro, fazendo os músculos do interior de suas coxas se contraírem. No entanto, ela também queria sua gentileza. 64


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele empurrou o roupão de seu outro ombro e ele caiu pesadamente no chão. Ava esperava que a luz sombria fosse boa para ela. Ele estava acariciando levemente seus seios enquanto simplesmente olhava para ela, como se estivesse memorizando a plenitude de sua forma acima do espaço restrito de sua cintura, a curva suave de sua barriga abaixo e o arredondamento mais dramático de seus quadris, os pequenos cachos castanhos que guardavam seus segredos entre a solidez de suas coxas. Ava sabia todas essas coisas sobre si. Ela também sabia que era difícil ficar nua com alguém e que excitação não era uma coisa fácil para ela. No entanto, ali estava ela com a energia se movendo através de seu corpo como luz, aquecendo-a, deixando-a incandescente. — Você é perfetto.- As mãos dele desceram até seus quadris e ele a trouxe tão perto que ela podia sentir o tremor em seu corpo. Ok. Isso era bom Ele estava olhando para ela como se fosse uma deusa e a fazia se sentir bem. Isso a fazia se sentir bem. Forte. Feminina. Ela não deveria tocá-lo também? Ela não queria ser acusada de ser fria. Bernard sempre reclamava de sua falta de participação, mas ela sempre se perdia em sua cabeça, começava a fazer listas para o dia seguinte. Apoiou as mãos sobre o peito dele, desfazendo os botões, tocando seu peito levemente no início e depois com mais confiança. Ela não estava acostumada a músculos. Não estava acostumada a se sentir menor, delicada, feminina. Ele a deitou na cama e, segurando as mãos dela sobre o colchão, começou a beijála. Beijos lentos e alucinantes, seduzindo-a apenas com a boca. Ela estava consciente dele tirando a camisa e deu um suspiro involuntário quando Gianluca correu o polegar sobre a divisória de seu sexo, separando as dobras, mergulhando. Ela parou de pensar. Sentiu-o beijar a curva de seu pescoço, subindo de volta para sua boca. A sensação de sua boca era tão atraente. O deslizar de sua língua em ressonância com a sensação de seus dedos em sua carne íntima. Ele grunhiu baixo quando ela encontrou a pele nua de seu peito e enredou os dedos em seu cabelo, desenhando círculos ao redor de seus mamilos masculinos, colocando sua boca lá e lambendo-o. Ele tinha gosto de sal e pele masculina: Gianluca. Por alguma razão ela sabia qual era o gosto dele e isso a deixou louca de desejo. Ela deslizou a mão para abrir seu zíper, mas ele já estava fazendo isso, retirando seu jeans e movendo-se sobre ela com toda a graça predatória de um homem que sabia o que queria e como conseguir. Ava flexionou a mão sobre o comprimento rígido dele e viu como seus belos traços ficaram tensos e pronunciados. Ela circulou a cabeça com o polegar, perguntando-se se deveria ficar preocupada ou feliz com seu tamanho. Suas coxas se abriram naturalmente para ele. Mas ele não estava com pressa. Beijou o topo de um seio suavemente, movendo-se lentamente até o mamilo, a curva de seu quadril, sua barriga. — Se você pudesse apenas. — começou ela. Ele ergueu a boca momentaneamente. — Se eu pudesse o quê, dolcezza? — perguntou ele, rodeando seu umbigo com a língua. O estômago de Ava se contraiu e ela agarrou os lençóis. — Demorou um pouco — afirmou ela, sem fôlego, ao mesmo tempo que lhe ocorreu que não estava demorando nem um pouco. — Há determinadas coisas que você precisa 65


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis fazer. Maneiras como preciso ser tocada. Ah. Ele deslizou um dedo dentro dela, depois outro, e ela fechou os olhos, perdida por um momento nas sensações. — Isso é bom? — Bom. Sim Oh, sim — gemeu Ava, mordendo o lábio enquanto tentava não gritar. — Mia ragazza bella — disse ele com uma voz áspera. — Lasciarsi andare. — Luca — soluçou, e no momento antes de ela explodir em um milhão de pedaços de prazer, teve a satisfação de ver sua expressão vigilante se tornar selvagem. Ele ainda estava olhando para ela com olhos ferozes enquanto se posicionava, poderosamente masculino acima dela, e Ava pôde ver a tensão reveladora em seu corpo enquanto ele se segurava. Ela ergueu o corpo, em resposta, passando os dedos pelo cabelo dele. Enquanto a preenchia, sua contenção cuidadosa era quase tão erótica quanto a sensação de seus tecidos macios se expandindo para envolvê-lo. — Luca. — sussurrou conforme ele se aprofundava. — Bom, minha doce Ava? Ele disse algo em italiano de tal forma que ela sabia que isso era tão bom para ele quanto para si mesma. Talvez melhor. Por um momento, tudo pareceu estar em câmera lenta. Não é a sua primeira vez. Seu corpo se lembra dele. Você se lembra dele... — Agora — sussurrou ela. — Ah, Luca, agora. Seus quadris se elevaram por vontade própria quando ele começou a ir mais profundo. Seus olhos não deixaram os dela. Oh, Deus. Sinto que nasci para fazer isso com este homem. Tendo ele dentro dela, podia se sentir indo em direção ao impossível, raramente mais do que um eco fraco para ela antes, mas se tornando mais e mais forte, pulsando através de suas terminações nervosas conforme ele adentrava nela. Isso nunca acontecia com ela. Mas estava acontecendo. Ela cravou as unhas em suas costas quando a sensação explodiu em longas tiras pulsantes de intenso prazer. Ele empurrou de novo, uma vez mais, teve a sua libertação com um gemido profundo de satisfação. Ava podia sentir seu coração batendo contra o dela. Ele rolou para o lado, levando-a com ele, acariciando-a enquanto ambos ainda tremiam com a força do que havia acontecido naquela cama. Ela escondeu o rosto em seu ombro, sentindo-se quente, suada e definitivamente fora do controle. — Mia bella, Ava — disse ele com voz rouca. E ela era.

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CAPÍTULO 13

E agora? As perguntas começaram no instante em que ele foi para o banheiro. A extensão vazia do colchão se estendia ao seu redor. Instintivamente, ela puxou a colcha sobre seu corpo, querendo entender aquela necessidade arrebatadora de estar nos braços dele. Ele lhe havia dado o santo graal do prazer sexual... Um orgasmo durante o sexo. Não um, Ava, mas dois... Talvez três. Era por isso que ela estava se sentindo tão. emotiva? Porque estava se sentindo afável, pegajosa e um pouco chorosa. É claro que ela era uma lunática! A cama afundou quando ele deslizou ao lado dela, tão à vontade com sua nudez quanto ela não estava. Não entre em pânico. Você tem as ferramentas para sair dessa. Só precisa de tempo para processar o que aconteceu e uma solução virá... Oh. Ava arregalou os olhos quando ele a envolveu com seus braços e acariciou seu cabelo, olhando para ela como se fosse dele. Ele começou a sussurrar coisas para ela em italiano. Coisas doces. Sua voz era tão profunda, mas ele falava tão suavemente, e ele a tocava como se ela fosse algo infinitamente precioso. Ava engoliu em seco. Ninguém nunca a havia tratado daquele jeito. Ela não sabia o que fazer. — Gianluca? — Sua voz era áspera, ela nem sequer a reconheceu. — Luca. Quero que você me chame de Luca, innamorata. — Ele tocou sua orelha com os lábios e ela gemeu involuntariamente. Sentiu-o sorrir. — É assim? Quando você leva uma mulher para a cama, ela tem acesso ao seu nome secreto? — Se ela pensou que poderia encobrir suas ansiedades com uma piada, havia saído pela culatra. Foi muito agressiva. Mas como poderia ser diferente quando tudo o que ela estava sentindo era tão vulnerável? Ele se apoiou abruptamente no cotovelo e ela ficou em uma posição ainda mais vulnerável tendo que olhar para ele e sem ter para onde ir. — Por que você está fazendo isso? O homem que havia sussurrado palavras doces para ela era, de repente, o homem que ela havia insultado. Ela entendeu que seus comentários cáusticos feriram seu orgulho. Seu machismo latino, que o fazia parecer impenetrável, também era o que tornava vulnerável aos seus ataques. Ela não tinha a intenção de atacá-lo. Ela só queria se proteger. — Não estou fazendo nada — disse ela, baixinho. — Você fala de outras pessoas enquanto você está na minha cama. Você fala de mim como se eu fosse algum tipo de predador. 67


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Eu não acho isso. E-eu só queria que nós fôssemos honestos um com o outro. Você age como se. — Como se o quê, Ava? — Como se eu tivesse alguma importância para você, mas é possível? E Donatella? Gianluca demorou um momento para descobrir quem diabos era Donatella, e quando descobriu fez ainda menos sentido. Aparentemente fazia sentido para Ava. Ela o estava encarando. Ele fez um imenso esforço para não rir. — Ava, eu nunca fui íntimo de Donatella. Ela era. Como você diz? Um apoio. — Apoio? — Donatella carregava minha bebida. — Você fazia uma mulher segui-lo pela boate carregando a sua bebida? — É um eufemismo, Ava. Eu não queria ser incomodado por ninguém, então eu escolhi o menor dos males, Donatella. Gianluca viu varias emoções cruzarem seu rosto. Finalmente. Progresso. — Você deve pensar que eu sou uma completa idiota! Ela se atirou para fora da cama, arrastando o lençol com ela, mas ele não aceitaria isso. Ele o agarrou com uma das mãos e ela ficou nua ao lado da cama. Fez a pose clássica cobrindo as partes íntimas com as mãos. — Cara. — disse ele, fazendo um gesto apaziguador. — Não me bajule, seu mentiroso! Ele brincou com a ideia de apenas pegá-la e jogá-la de volta na cama. Mas disse a si mesmo que ela estava exausta e que, se ele não tivesse cuidado, ela poderia se machucar. Ou a ele. Ele tentou não sorrir enquanto saltava para fora da cama. Ava vestiu seu robe em um instante e recuou contra a parede. — O quão estúpida você acha que eu sou? — retrucou ela. — Ela era linda. Não estava vestindo nada. — Sua voz tremeu. — Ela não era um acessório! — Apoio — corrigiu Gianluca, avançando cuidadosamente. — Também não era isso. É assim que você vai me descrever para a próxima mulher que sequestrar? Um apoio? Ava ficou chocada quando ele jogou a cabeça para trás e riu. — Por que você está rindo? — Ava, se eu não rir, vou esganar você. — Eu não entendo — disse ela, mais para si mesma do que para ele. — Eu sei, cara.- Ele apoiou uma das mãos na parede ao lado da cabeça dela. Grande, nu, magnífico, ele a fazia se sentir feminina demais para seu conforto. Ava se abraçou. Essa era a consequência de ceder à fantasia, de deixar as emoções governarem Isso sempre trazia coisas ruins. Era isso que ela havia ensinado a Josh. Pensar com a cabeça, não com o coração, correr apenas riscos considerados, não vir para a Itália e se casar com uma garota italiana de uma família antiga e arruinar sua vida. 68


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Mas quem havia arruinado a vida dela? Ela era uma mulher que tinha jogado tudo fora há sete anos com aquele homem, e até cinco minutos antes ela estava deitada em seus braços. Apenas para começar a desfazer o encanto novamente. — Desculpe-me — disse ela, sem jeito. — Não deveria ter atacado você. Gianluca não estava realmente escutando. Ele estava distraído. Nenhum homem poderia culpá-lo. Ele podia sentir o calor dela, sentir o cheiro de baunilha em sua pele. Ele conhecia intimamente agora a maciez daquela pele. Todas as mulheres tinham a pele macia, mas com Ava parecia. simplesmente melhor. Ele voltaria para o quarto e sua ideia era trabalhar um pouco enquanto esperava Ava acordar. Havia planejado pedir comida. Eles comeriam, conversariam. Ele pediria desculpas por trazê-la ali sem consultá-la, ela se desculparia por ser uma megera e tolamente imprudente, e talvez algo pudesse ser recuperado dos destroços do dia. Talvez ele houvesse sido ligeiramente arrogante com ela, mas não estava acostumado a mulheres que dificultavam sua vida. Ao encontrá-la enrolada, parecendo tão doce em seu short minúsculo, havia perdido todo o interesse em conversar. Uma parte até então desconhecida dele quis acordá-la e sacudi-la, dizer que ela não tinha a menor noção de como cuidar de si mesma com homens. Ela não deveria ter insistido em quartos separados. Deveria ter mudado para outro hotel. Ela deveria estar a meio caminho de volta para Roma! Com certeza não deveria confiar nele! Se ela fosse uma de suas irmãs. Foi quando ele tirou o casaco, o relógio e o telefone, puxando sobre ela um edredom. Ficou ali, olhando para ela, e, em seguida, perguntou-se o que diabos ele achava que estava fazendo. Quando nenhuma resposta lhe ocorreu, foi para o chuveiro. Agora ele se sentia da mesma maneira que Ava quando ela pronunciou aquelas palavras imortais “talvez não seja uma boa ideia”. Ele realmente havia corrido do hotel, atravessado a rua e comprado proteção suficiente para reduzir a taxa de natalidade de uma pequena ilha? Tudo o que ele sabia era que precisava de uma farmácia, precisava de preservativos. Precisava agir certo com ela. Só quando ele a viu enrolada naquele roupão, parecendo assustada, reconheceu que precisava desacelerar, persuadi-la a voltar à tona. Ela havia quase morrido, mas desmantelar o mecanismo protetor de Ava tinha sido possivelmente uma das circunstâncias mais eróticas de sua vida. Ele não ia fazer movimentos bruscos agora. — Você responderia a uma pergunta? — Ele manteve os olhos fixos nos dela. Ela estava olhando para ele, toda a ansiedade estampada em sua expressão. — Acho que não tenho escolha — disse ela relutantemente. Ele quase sorriu. — Ava, você sempre teve escolha. Você a exerceu continuamente. E agora você quer fingir mais uma vez que me aproveitei de você quando nós dois sabemos que era isso que você queria desde o momento em que eu lhe ofereci meus serviços. — Serviços?

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ela teve um sobressalto quando ele se inclinou e roçou sua boca contra seu ouvido. — Gigolô, acompanhante. Ele recuou um pouco, o suficiente para ver que seus olhos estavam fechados e sua boca tremia. — É essa fantasia que você quer? — murmurou ele, sobre aqueles lábios carnudos. — Porque serei o que você quiser que eu seja nesta cama. Mas não me peça para não ser carinhoso com você. Não me peça para não ser apaixonado, para fingir que isso não é importante para você. — Como você sabe que isso é importante para mim? — Porque. — Ele colocou um dedo na borda do roupão. — Meu pequeno porcoespinho. — Gianluca empurrou até a fenda entre seus seios ficarem à vista. — Caso contrário, você não estaria tão encolhida agora, quando tudo que consigo ver são cerdas. Ah, olha. Aí está. — Ele abriu o roupão e espalhou a mão sobre sua barriga. — Sua barriguinha aveludada — disse ele e sentiu os músculos de seu abdômen se contraírem Qualquer desconforto que Ava sentia foi superado por sua insatisfação com seu próprio comportamento. Aquele homem não havia sido descuidado com seus sentimentos, maravilhou-se. Na verdade, havia sido cuidadoso e incrivelmente sensível. — Eu disse a você, um porco-espinho é um roedor — murmurou ela. — Você não respondeu à minha pergunta. — Pergunte-me, então. — Sua voz estava cheia de desejo. — Por que você foi ao Rico’s? — Eu queria ver se você havia mudado. — Ela hesitou. — Queria passar mais tempo com você. Ele não parecia surpreso. Pressionou um beijo no canto de sua boca. — Si, e por que você acha que eu trouxe você aqui, hein? Poderia ser tão simples com um homem tão complicado quanto aquele? Mais uma vez, Gianluca Benedetti havia jogado suas expectativas pelos ares. Ava deu um pequeno suspiro e ouviu o estrondo de uma risada em seu peito. Sim, ela era bobalhona e ele sabia que a tinha na palma da mão. Eles saíram para a rua ensolarada em frente ao hotel por volta do meio-dia do dia seguinte. Ele segurou a mão dela e passaram pela trupe de garotas bonitas que ontem havia tomado tanto do tempo dele. Ava olhou para elas e torceu para que seu sorriso não estivesse muito presunçoso. Enquanto se movia à frente dela para abrir a porta do carro, ela observou seu próprio reflexo na janela e soube sem sombra de dúvida que precisava comprar roupas novas. Gianluca não havia dito nada sobre suas calças esta manhã e ela tinha escolhido sua blusa mais feminina: uma branca de algodão de mangas curtas com decote cavado. Mas se a roupa fazia a mulher, aquelas não refletiam nem um pouco como ela estava se sentindo. O esportivo italiano disparou para o tráfego, com Gianluca dirigindo com a despreocupação pela qual os italianos eram famosos: uma das mãos no volante e a outra brincando com seu cabelo, como se ele não conseguisse parar de tocá-la. O coração de Ava batia como um pássaro louco em sua gaiola.Ela queria dizer-lhe o 70


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis quão diferente era para ela. A Costa Amalfitana, estar em um carro esportivo com seu amante. Seu amante. Ninguém acreditaria. Um nervosismo percorreu seu corpo. Havia tantas coisas que poderiam dar errado. Mas ela não se sentia insegura com Gianluca. Enquanto dirigiam dessa maneira louca entre lambretas, pedestres e outros carros esportivos caríssimos, o controle daquele homem ao seu lado não só sobre o carro, mas sobre o ambiente, era reconfortante. Gianluca Benedetti. Talvez não tão playboy. Talvez nem um pouco. Ela olhou para ele suavemente. Talvez o homem que tiraria uma mulher louca de situação crítica. — Se você ficar olhando para mim desse jeito, tesoro, não chegaremos onde estamos indo. — E onde estamos indo? — Pensei em um passeio ao longo da costa. Há algumas vistas bonitas que eu gostaria de mostrar a você. — Eu gostaria muito, mas. Como abordar isso? Preciso parar em algumas lojas. — Mas. Tesoro? — Posso ter uma hora sozinha? — Você não vai fugir? — perguntou ele, sério. — Não! — respondeu Ava, igualmente séria. — Por que você acha isso? Ele sorriu. — Estou apenas verificando. Ela relaxou e sentiu-se tola. Não estava acostumada a esse tipo de brincadeira, apesar de que poderia rapidamente se acostumar. — Onde eu deveria deixá-la? Quando devo buscá-la? Ava mordeu o lábio. Ela queria roupas. Só que não sabia por onde começar a procurar. — Ava? Ela examinou a rua e viu algumas mulheres bem-vestidas saindo de uma loja com sacolas. Bingo! — Em qualquer lugar por aqui — instruiu ela, indiferente. Ele sorriu para ela, como se Ava não o houvesse enganado minimamente. — Tem certeza de que não quer companhia? Ela queria, mas precisava fazer isso sozinha. Como seria embaraçoso pedir a um homem para fazer compras para ela porque não tinha a menor ideia do que combinava com ela. — Volte em uma hora. As lojas pareciam igualmente comuns e, então, Ava entrou em uma boutique onde imediatamente avistou o que estava procurando. Um vestido longo de seda azul-claro com uma sobreposição de tecido transparente bordado com pequenas flores azuis. Quando menina, ela havia sentido falta de uma mãe que gostasse de vesti-la. Ela cresceu de jeans e camiseta, uma verdadeira moleca, não por preferência, mas necessidade. Este era o tipo de vestido que ela sempre pensou que era demasiado feminino para ela, 71


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis mesmo que ela o admirasse em outras mulheres. Ignorando os preços, Ava finalmente saiu com três sacolas carregadas de compras. Estava se sentindo melhor sobre seu corpo e isso lhe deu mais confiança para experimentar roupas. Ela fez mais algumas compras pela rua, deixando de lado as calças compridas e se sentindo muito mais livre em um par de calças capri brancas. Avistou o carro esportivo no trânsito e acenou para ele. Mesmo apenas uma hora longe dele, sentiu seu coração se expandir quando entrou no carro. — Compras? Eu devia ter adivinhado. — O que você quer dizer? — perguntou, inquieta. — Mulheres e compras. Ela relaxou. — Ah, sim Aquela velha piada. Sabia que estudos mostraram. Ele se inclinou e a beijou. — Ah. — Ela olhou para ele. — Isso foi bom. — Você está linda — disse, e ele não estava olhando para suas novas calças. — Apenas comprei algumas coisas mais adequadas para o litoral. Ele estava olhando para ela e ela não conseguia tirar os olhos dele. Uma buzina soou na rua, mas Gianluca continuou a olhar. — O que foi? — perguntou ela, constrangida. — Eu estava pensando. — disse ele, lentamente. — Eu estava com pressa naquele dia. Quase não parei no Nero’s. — Nero’s? — O café em Roma. Eu teria perdido você. Ele estendeu a mão e acariciou sua bochecha. Inexplicavelmente, os olhos de Ava se encheram de lágrimas. — Mas você não me perdeu — disse ela com voz rouca. — Então por que você está chorando, tesoro? Ava deu uma risada. — Eu não sei. Mas ela sabia. Seu coração estava a ponto de transbordar. Ele não era nada parecido com o que ela havia imaginado de um aristocrata privilegiado e mimado que não se importava com as mulheres com quem dormia. A vida inteira, ela havia sido quem assumia o comando. Era bom saber que ela não precisava. Ele iria cuidar dela. — Para onde vamos agora? — perguntou. — Minha vez de surpreendê-la.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis

CAPÍTULO 14

— Não, eu não posso. É demais, Gianluca. — Pelo contrário. É perfeito. Ele segurou o colar, com suas pequenas turmalinas, berilos verdes, ametistas, safiras rosa e diamantes delicadamente forjados em uma corrente de ouro branco, contra sua garganta. — Permita-me mimá-la, tesoro — disse ele. — Mas não preciso que você compre coisas para mim — respondeu ela. - Tenho meu dinheiro. — Não é pelo valor, Ava, é pelo sentimento. Ela olhou ansiosamente para a corrente brilhante divina que ele segurava diante dela. — Isso é um não? Ela queria tanto. Gianluca sempre lhe dava uma escolha e, depois de uma vida lutando para fazer suas próprias escolhas, ter sua voz ouvida era um verdadeiro presente para além do brilho de uma obscenamente cara peça de joalharia. — Não. — Quando ele lhe deu um olhar interrogativo, ela sorriu. — Quero dizer, sim. Sim, quero ser mimada. Se você quiser. Ela abriu mão oficialmente de sua independência naquele momento, mas Gianluca não parecia ver o significado. Ele simplesmente colocou o colar de volta na caixa e, com um aceno de cabeça quase imperceptível, sinalizou para que o joalheiro transferisse a pequena compra para uma caixa requintada. — Mas o deixamos para trás — disse Ava quando saíram da joalheria. — Não, cara, será entregue ao hotel. Não achei que você gostaria de carregá- lo o dia todo em sua bolsa. Estou certo? — Não, claro que não — murmurou ela, sentindo-se um pouco tola. Ele era o primeiro homem que lhe havia comprado joias. — Você é realmente muito doce — disse ele, colocando o braço em volta dela. Ava não gostava de demonstrações públicas de afeto. Ela não gostava de nada que chamasse atenção para ela, mas seu julgamento parecia fora do lugar neste momento, com aquele homem. E a Itália parecia estar cheia de casais meigos. — Você também — disse ela, apoiando a cabeça em seu ombro. — Eu sou doce, tesoro? — Sim, você sempre foi. Lembro- me. — Ela parou, consciente de que havia quebrado a sua própria regra de não falar sobre sete anos atrás. Mas já era tarde demais. Ele abaixou a cabeça perto dela. — Você se lembra. 73


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Quando você tinha 23 anos. Quando nos conhecemos. — Ela tocou o peito dele com a mão. — Você era tão gentil, amável e sensível, porém forte. Senti-me segura com você. — Tesoro — disse ele, levando a mão dela aos lábios. — Você nunca deve dizer a um italiano que ele é sensível. — Mas você era. É. Ela podia sentir o peso de sete anos saindo de seu peito. — Se lhe agrada pensar assim, então fico feliz. Mas ela sentiu sua resistência. Ele estava mais do que simplesmente desconfortável com a descrição. Cautelosamente, Ava estendeu a mão e tocou-lhe o queixo, correndo os dedos levemente sobre a barba incipiente. — É um estorvo — disse ele em voz baixa, segurando sua mão. — Preciso me barbear duas vezes por dia. Mesmo assim, provavelmente marcarei sua pele macia. — Não. Eu gosto. Eu. Uma onda de vergonha a invadiu. Ela estava no meio de uma rua movimentada, do outro lado do mundo, nos braços daquele homem incrível, dizendo em voz alta coisas que normalmente ela só sussurraria para seu travesseiro, e ele estava escutando e olhando para ela com aqueles olhos, como se... como se... — O que mais você gosta? — perguntou ele. — Eu gosto de você — confessou Ava, perguntando-se o que tinha dado nela. — Si, isso me ocorreu — disse ele. Eles dirigiram pela estrada costeira sinuosa de Positano. Beberam limoncello e comeram mexilhões no almoço no terraço de um restaurante com vista sobre a baía de Amalfi. Caminharam pela cidade e no início da noite passearam com metade dos habitantes ao longo da orla. Gianluca descobriu que queria saber tudo sobre ela. Onde ela havia ido para a escola, seu primeiro emprego, sua cor favorita, sua música favorita. Ela riu e fez algumas perguntas também. Quando ele disse a ela que havia ido para a Academia Militar aos oito anos, o sorriso no rosto dela desapareceu e ele percebeu que talvez as perguntas não fossem uma boa ideia. — Oito? — repetiu ela. — É assim que se faz na minha família, cara. Todos os Benedetti frequentaram a mesma academia militar por cinco gerações. — Assim? — Como não pretendo ter filhos, a questão para mim é discutível. Mas minhas irmãs não seguiram o costume com seus filhos homens. — Não? Ela estava se referindo às suas irmãs ou ao seu comentário sobre si mesmo? — Você tem irmãs? — Duas. Quatro sobrinhos, duas sobrinhas. Ele tentou não parecer desconfortável. 74


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Você não gosta de crianças? — Claro. Amo crianças. Ele se preparou para a sensação de aborrecimento e frustração que uma mulher o atormentando sobre este assunto sempre despertava. — Hmm — disse ela, virando-se para o mar. Apenas humm? Inferno, o que aquilo queria dizer? Ele não tinha que se explicar. Era uma longa e chata história. Mas talvez Ava devesse ouvi-la para que ela entendesse, para que não fizesse quaisquer planos envolvendo-o. — Isto é mágico. Entendo por que as pessoas aparecem à noite para um passeio — disse ela inesperadamente. — Devíamos passear na água amanhã. Amanhã ele havia planejado uma reunião com alguns investidores. — A menos que você tenha outros planos. Poderia uma mulher parecer mais sincera? Todas as suas expectativas e incertezas tremulavam naquelas poucas palavras. O que ele poderia dizer? — Tudo que você quiser, Ava mio. No dia seguinte, ele a levou em um barco ao longo da costa, em torno das Ilhas Li Galli. Um dia depois, ele a levou para as montanhas Lattari que circundavam a Costa Amalfitana. Uma leve chuva começou a cair e, de mãos dadas, eles correram para se abrigar em uma igreja local. À luz fraca, não conseguia tirar os olhos dela. Ele não sabia o que era, talvez fosse a luz do litoral, mas ela parecia brilhar na escuridão. Ela descansou contra ele, olhando para a chuva. O peso dela era perfeito. Ela cheirava a baunilha e cravo. Ela cheirava a Ava. — Você vê aquele monte? — Ela apontou para a frente. — Parece a cabeça de um coelho. Ele não conseguia ver o coelho. — Si, innamorata. Um coelhinho fofo. Ela olhou para ele com ironia. — E lá. A floresta. É uma bota. — Si, uma bota. — Essa era para ver se você estava apenas me agradando! Ela empurrou o ombro no peito dele de brincadeira. — Ah, olhe. É uma raposa? O risco vermelho cruzando o pasto era de fato uma raposa. Ele sentiu sua emoção e percebeu que, embora conhecesse esta área como a palma de sua mão, olhá-la através dos olhos dela o fazia se sentir como se estivesse vendo este lugar pela primeira vez. Mas ele só poderia estar ficando louco. Pazzo. Por que ele estava discutindo animais peludos em uma igreja em uma pequena aldeia que ninguém nunca havia ouvido 75


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis falar, quando havia uma suíte de hotel esperando por eles? Ele a arrastaria para fora dali e eles correriam para o carro, com ou sem chuva, e voltariam para Positano em alta velocidade. E quando eles chegassem ao hotel, ele arrancaria as roupas dela e faria o que um homem sensato estaria fazendo com uma mulher bonita. Não se entrincheirar em igrejas em um dia feito sob medida para atividades interiores mais adultas. Ela se virou em seus braços e olhou para cima, com os olhos brilhando. — Eu nunca vi uma raposa antes, pelo menos não tão perto. — Si, são animais tímidos. Você tem que ser cuidadosa perto deles. Sem movimentos bruscos. Foi quando, em vez de carregá-la para algum tipo de devassidão, como havia feito centenas de vezes com outras mulheres, ele abaixou a cabeça e beijou sua macia, deliciosa boca. Na cidade, ele a deixou sair para outra de suas misteriosas andanças, estacionando o carro próximo ao mar. Ele a viu atravessando o gramado. Ela parecia italiana em seu vestido de botão frontal. Ela parecia feliz, simples e incrivelmente sexy. Ele sabia que nunca iria esquecê-la como a havia visto a noite passada, usando apenas o colar em sua cama. Mesmo antes de ela aceitá-lo, ele o imaginou envolto em seu corpo nu. Ele também havia visto o tremor em sua mão enquanto ela lutava com sua consciência. Como você queria, idiota. Ele se mexeu desconfortavelmente em seus pés. Não era uma promessa. Não era um anel. Era apenas um símbolo de sua estima. De seu carinho. E por que ele não deveria se sentir afetuoso com ela? Era fácil colocar rótulos nos sentimentos e, sim, ele tinha sentimentos por ela. Sentimentos bastante fortes. Talvez ele sempre houvesse tido. Ela era algo além de sua experiência. O que ela pensaria sobre o seu plano? Se ela dissesse que não, se ela insistisse em continuar com esta ridícula excursão para Ragusa. Ava se virou e o sorriso dela fez seu coração revirar. Ela o fazia se sentir simplesmente feliz de estarem juntos. — Ava. Ela se virou para ele, que emoldurou o rosto com suas mãos grandes. — Volte para Roma comigo. Sua boca se abriu. Sem som Mas seus olhos se tornaram suaves e arredondados. — Nada de família. Nada de Ragusa, Nada de falsas aparências, Ava. Só você e eu. Diga que sim, innamorata. Ela não hesitou. — Sim — disse ela. Eles voaram de volta para Roma. Um pequeno jato em Nápoles, em consideração às necessidades de Ava. Eles partiram pela estrada em sua amada Lamborghini ao anoitecer. Gianluca diminuiu a velocidade quando chegaram às ruas da cidade que amava. Ele não queria dividir aquela mulher com sua família. Não queria que ela tivesse que lidar com seu irmão. 76


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Por isso, encomendara duas centenas de rosas vermelhas para sua mãe como desculpas, e Ava tinha telefonado para o irmão. — Josh me pediu para falar bem dele para você — disse ela, confusa. — Você disse que estávamos juntos? Gianluca não podia acreditar que ele havia sido sem tato o suficiente para dizer isso. A expressão de Ava tinha neutralizado em um instante. — Eu não sabia que era segredo. Não, não era um segredo, mas como explicar que as outras mulheres sempre apreciavam sua discrição? Eles não eram amantes. Nenhum dos dois deveria se envergonhar. Ele não tinha a intenção de escondê-la no palazzo. Queria mostrar Roma a ela. e, naturalmente, isso incluiria encontrar pessoas e apresentá-la como... como... Ele olhou para ela, que estava checando os e-mails em seu telefone. Gianluca limpou a garganta. — Ava. Ava xingou. — Cara? — Pare o carro. Por favor, Benedetti! Ele mal estacionou o carro e ela pulou para fora. Xingando bastante criativamente, Gianluca saltou atrás dela, indo até onde estava com uma das mãos no quadril e outra agitando o telefone para ele. — Adivinhe quem nos viu em um site de fofocas na internet? Adivinhe? Ele não havia visto esse lado de Ava desde. Bem, desde antes de ela estar em sua cama. — O papa? — Minha secretária! Você sabe o que isso significa? Todos no maldito escritório estão falando de mim e “o príncipe italiano”. Como se eu fosse Mary Donaldson ou algo assim — Cosa? — Mary Donaldson da Tasmânia. Que se casou com o príncipe herdeiro da Dinamarca. Grande casamento. Ele chorou. A Austrália finalmente conseguiu um membro da família real! — Ava balançou a cabeça. — Você realmente precisa prestar atenção às notícias. Gianluca pensou em dizer-lhe que havia estado no casamento, mas existiam coisas mais importantes a se pensar. — Você está infeliz porque seus funcionários sabem que você tem uma vida pessoal? — Isso não é uma vida pessoal. É pura decadência! Gianluca parou e olhou para ela. Ela estava com uma das mãos em seu quadril. — Você vai ter que consertar isso — disse ela, imperiosamente. — Consertar?

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Sim, dar algum tipo de declaração, inventar uma história como você disse que faria. Gianluca acreditava que isso se chamasse beber do próprio veneno. Ele voltou para o carro. — O que você está fazendo? — gritou ela. Ele ligou o motor e Ava se moveu rapidamente, deslizando ao lado dele com apenas uma certeza: isso precisava ser resolvido de uma vez por todas. — O que estamos fazendo aqui? — disse Ava, com a voz um pouco estridente. Saber que as pessoas estavam falando sobre ela, que aquelas fotografias estavam flutuando no éter, havia lhe desconcertado. Ela nunca tivera romance em sua vida, nunca se permitiu ficar vulnerável o suficiente com um homem para abaixar a guarda. E olha o que havia acontecido. As pessoas estavam falando sobre ela. Ela podia adivinhar o que elas estavam dizendo. Que ela era apenas mais uma na fila. Isso a fazia se sentir sem importância para ele. E, realmente, o que ela estava fazendo com aquele homem? Ava, você precisa ser sensata. Era a voz de seu passado. A menina que havia se tornado responsável por sua mãe e seu irmão bebê a partir de uma idade muito jovem Gianluca abriu a porta e pegou a mão dela não muito gentilmente. — Benedetti, eu não vou até que. O café a que ele a levou estava lotado e era assustadoramente elegante. Ava se sentiu mal vestida. Especialmente quando as cabeças viraram. — Gianluca, querido! Isso parecia vir de uma variedade de mulheres. Sua já abalada confiança despencou. — Onde você esteve, meu amigo? Um homem se levantou de sua mesa, mas Gianluca não parou. Ava tentou afrouxar seu aperto, mas agora ele tinha a mão em torno de sua cintura e a empurrava na frente dele enquanto o garçom os guiava até uma mesa de destaque. — Sente-se, Ava. Ela se sentou, espantada demais para fazer qualquer outra coisa. Olhou ao redor e se arrependeu. As pessoas estavam olhando para eles. — Por que estamos aqui? — sussurrou mantendo uma expressão tranquila. Gianluca se inclinou sobre a mesa e pegou as mãos dela. Houve uma pausa repentina na conversa ao redor deles. — O que você está fazendo? Ele lhe deu um sorriso caloroso. — Se eu beijar você agora, Ava, seremos notícia. Toda a sociedade romana falará sobre nós. Você vai ser a garota que roubou o coração do Príncipe Benedetti. Então, pense bem antes de me responder. Podemos tomar uma bebida, comer e nada precisa mudar. Entendeu? 78


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis O que ele estava dizendo? — Mas eu gostaria de beijá-la, Ava mio, se você permitir. Ela entendeu. E, olhando em seus olhos, começou a entender o resto. Quase como se estivesse em um sonho, ela umedeceu os lábios e fechou os olhos. Sua boca encontrou a dela em um beijo tão terno, tão sincero, ela só poderia entendê-lo como uma promessa. — Agora você é minha — disse ele, sorrindo. Ele lhe apresentou sua casa, seus amigos, sua vida. Levou-a para restaurantes, cinemas, festas. Eles comiam juntos e dormiam juntos. O que isso significava? Ava não sabia e isso a estava matando. A sensação de que ao virar a esquina algo grande e feroz a esperava, alguma coisa que ela não podia definir ou derrotar. Ela estava agora no estúdio de um dos principais estilistas de Roma, provando um vestido azul tão suntuoso que Ava não conseguia imaginar um evento grandioso o suficiente para usá-lo. Mas havia confiado em Gianluca quando ele explicou que o Baile Black & White, este ano em apoio a uma instituição de combate ao câncer de mama, era um dos destaques do calendário social. Era uma ocasião internacional e vestidos de baile era uma exigência. Nervosamente expressou seus temores às três mulheres circulando em torno dela. A costureira a seus pés olhou através das dobras de cetim e disse: — Este é um vestido dos sonhos, signorina. Tudo que você precisa é de confiança para carregá-lo. — Você tem a altura — disse outra. Ava traduziu o gesto da terceira para seus seios com seu italiano básico. — E o vavoom necessário. Quando ela saiu para a rua, queria se beliscar. Estas tinham sido as mais mágicas e maravilhosas quatro semanas de sua vida. Ela guardaria aqueles momentos em seu coração para sempre. Porque ela suspeitava que fosse amor. Quando deslizou para dentro da limusine que Gianluca havia colocado à sua disposição, ela reconheceu a verdade. Não teve muito em vida, mas sabia reconhecer.

CAPÍTULO 15

Do outro lado da cidade, Gianluca estava em seu escritório. Ouvia desatentamente seu advogado do outro lado da linha enquanto olhava a praça movimentada pela janela. Para onde quer que olhasse, havia casais. Até os pombos empoleirados fora da janela vinham em pares. 79


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Duas gerações atrás, os casamentos de sua família ainda eram arranjados. Agora era diferente. Seu pai havia escolhido sua mãe, a bela modelo siciliana Maria Trigoni, que na época teve seu próprio pequeno momento de fama em um filme de Fellini. Príncipe Ludovico queria uma mulher bonita em seus braços e Maria gostava do título. Assistir seus pais se despedaçarem não o tinha encorajado a olhar para além das relações encenadas nas quais havia se envolvido. Até agora. Em Positano, haviam discutido seus trabalhos. Ele havia falado sobre os escritórios dele em Roma, Nova York e Londres. Ava havia falado sobre suas dificuldades com clientes... Um magnata da mineração que havia insistido em encontrá-la quando fosse a Sydney em sua academia, então ela acabou em uma bicicleta ergométrica falando sobre seu hedge fund. — Eu pareço ciclista? — Você, cara, parece uma deusa. Mas agora eles estavam em Roma e as conversas estavam se aprofundando. Ontem à noite, na cama, ele disse a ela sobre sua fascinação de infância com o voo, os incentivos de seu avô, a impaciência de seu pai. Coisas profundamente íntimas. — Ele não queria que você voasse? — Ele queria que eu fosse para os negócios da família. Ele via os aviões como um hobby, ou pior, uma distração. — Mas era sua paixão. — Não significava nada. Toda a minha educação foi baseada em disciplina. Ser forte, ser um homem O que eu queria não importava. — Mas você lutou pelo que você queria? — Si. — Ele notou o quão feroz Ava parecia naquele momento. — Você teve que lutar por algo também, Ava mio? — Menina da classe operária, larguei a escola aos 15 anos — disse ela. Então, ele a beijou e fez amor com ela até que as memórias ruins fossem substituídas por um profundo sentimento de ter algo especial finalmente ao seu alcance. Depois, deitada em seus braços, ela lhe contou mais sobre seus negócios — uma empresa multimilionária — e como ela havia trabalhado em tempo integral em uma variedade de empregos para terminar a faculdade, os três anos em que ela trabalhou para outras empresas como corretora, criando conexões, até que na idade incrivelmente tenra de 28 anos ela tomou a iniciativa e criou sua própria empresa. Ele contou a ela sobre os descansos que tirava em Anguilla, no Caribe, no refúgio que ninguém sabia que ele possuía. Quando revelou a ela, encontrou-se querendo lhe mostrar. Quando ele perguntou, Ava admitiu que havia um tempo desde que tirara férias. — Defina “um tempo”? — brincou ele. — Nunca. — Você nunca tirou férias? — Estou aqui agora e vim aqui no casamento de Josh. Ela parecia envergonhada. Um nó havia se formado na base da garganta dele. Seu advogado disse: 80


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Se agirmos agora, eles não terão escolha. Ele jogou seus pensamentos de volta ao presente. — Então vamos agir. Avise-me quando estiver feito. Afastou-se da janela. Certamente a levaria para Anguilla. Ele a levaria ao redor do mundo se seu coração desejasse. Mas agora ele queria matar o trabalho com ela. Tirar o dia de folga. Mas primeiro ele tinha uma missão importante. Ligou para sua secretária e pediu-lhe para notificar o banco que ele faria uma visita ao cofre em cerca de meia hora. Dirigiu-se ao Monte Palatino. Eles levaram um piquenique e no final da tarde subiram por entre as ruínas do complexo do palácio imperial, olhando para baixo sobre o Circus Maximus. Ava havia caído em silêncio quando eles chegaram. Não era o mesmo local de sete anos antes, mas era a mesma vista da cidade, a grama alta, os pinheiros. — Quando os meus avós estavam namorando, eles vieram aqui — disse ele. — Minha avó era arqueóloga e obcecada por este lugar. Foi um casamento por amor, nem um pouco arranjado — acrescentou. — Faz alguma diferença? — perguntou Ava, caminhando cautelosamente pelo chão rochoso. — Se combinado, haveriam ocorrido tardes respeitosas nas casas dos pais um do outro, idas acompanhadas à ópera e o verão no litoral, onde as duas famílias discutiriam termos. — Tudo para que dois estranhos pudessem se casar? — Estranhos não, cara. Todas as famílias se conheciam. Devo acrescentar que minha avó veio de outra família tradicional, por isso não era um conceito difícil para seus pais aceitarem. Ava ficou calada. Ele limpou a garganta. — É um pouco diferente agora. — Acho que Josh foi um choque, então — disse ela de repente. Josh quem? Seu cérebro normalmente afiado demorou alguns segundos para registrar o nome. — Seu irmão — concluiu ele, relutantemente, ciente de que à tarde estava indo a lugares que ele não tinha a intenção. — Não vou mentir e dizer que havia uma alegria universal, mas isso tinha menos a ver com ele não ser italiano e mais a ver com a sua capacidade de sustentar Alessia. — Sustentá-la? — Ava deu uma risada nervosa. — Da última vez que verifiquei, estávamos no século XXI, Benedetti, oi você não percebeu? Si, ele havia percebido. Se não fosse, ela estaria em cima de seu ombro a meio caminho do palácio, onde ficaria presa. — Esqueci. — Ela olhou para ele por cima do ombro. — Que você vive em uma caverna. — Um palazzo — disse lentamente. — Mas passou perto. 81


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ela precisava aceitar que ele era um homem que iria cuidar dela. Seguiu o balanço de seus quadris conforme ela andava cuidadosamente sobre o chão quebrado. — Olhe ao seu redor, Ava. As pessoas vivem no Palatino há mil anos e tenho certeza de que naquela época, como agora, o valor de um homem poderia ser julgado por sua capacidade de proteger sua família. Ava parou, mas não se virou. — Uma mulher também protege sua família. — Naturalmente. — Ele se aproximou por trás dela. — Você protegeu seu irmão durante toda a sua vida. Mas em algum momento ele tinha que cuidar de sua própria vida, Ava. — Como é que você sabe que eu o protegia? — Você me disse aqui, aquela noite, sobre a fragilidade da saúde mental de sua mãe. Como você se preocupava com ela, como você se esforçava para cuidar dela enquanto estava morrendo, como você se sentia culpada, sozinha. Lembro-me de me perguntar por que você não tinha nenhuma ajuda. Ava se virou, seu rosto estava pálido. — Eu não tinha ideia de que você era a irmã do noivo. Se eu soubesse, teria consertado o cara para você. — Consertado? — Reorganizado suas prioridades. Um homem deve ser responsável por sua mãe e irmã. — Eu não preciso que ninguém seja responsável por mim, Benedetti. Ele compreendia sua resistência. Ela não seria Ava se não lutasse contra qualquer intromissão em sua independência. — Entendo. Você não gosta do meu irmão. Você acha que ele está abaixo de sua poderosa família. Bem, veja só. Eu também não estava feliz com o maldito casamento. Fiz o meu melhor para dissuadi-lo. Disse-lhe que estava cometendo um grande erro. Alessia era muito jovem, e ele também, e eu sabia que sua família não aprovava. Sua mãe. Ela parou, franzindo os lábios. — Minha mãe era mais falante, entendo. Suspeito que ela não tenha sido gentil com você. Ela se virou. — Não falarei mal de sua mãe. — Então, permita-me. Ele a virou em seus braços. — Ela é uma mulher manipuladora. Também é altamente emocional e não se incomoda de usar de um pouco de chantagem para conseguir o que quer. Minhas irmãs atuam como suas damas de companhia, então eu imagino que as mulheres da minha família tornaram sua vida complicada. — Elas não foram acolhedoras — disse Ava, firmemente. — Por isso escolhi ir para um hotel. 82


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele tinha que perguntar. — Onde você estava hospedada? — No Excelsior — disse, em uma voz apertada. O mesmo hotel em que ele estava no último mês. O mesmo hotel em que ele havia passado por aquele dia em seu caminho para o hospital. Ele não podia acreditar. O Excelsior! — Eu fiquei lá o dia todo. — Ela levantou os olhos para ele. — Esperando que você ligasse. Ela esperou que ele ligasse? — Como? — disse agressivamente, soltando-a, pois não confiava na força em suas mãos. — Como eu poderia ligar? Você não deixou um número. Mas você sabia quem eu era. Não havia nada impedindo você, Ava. Ela parecia arrasada. — Eu sei. — Não. É o bastante. — Gianluca queria bater em alguma coisa. Ele se segurou às bordas de seu autocontrole enquanto uma onda de fúria varria tudo o que planejara para esta tarde. Não sabia até esse momento o quão forte eram seus sentimentos. Ava colocou os braços em volta de si. Mas seu queixo estava erguido e ela parecia desafiante, não assustada. — Eu também sei disso — disse ela. — Mas, realmente, o que aconteceria? Você havia ficado perdidamente apaixonado por mim? Íamos passar o resto de nossas vidas juntos? Foi apenas uma noite, Luca, e eu sabia que você havia tido muitas como aquela. Eu só tive aquela. Uma. — Sua voz falhou. — Eu queria levá-la comigo. Intacta, perfeita. — Perfeita? — rosnou ele. — O que havia de perfeito? Sexo casual com um cara que você não conhecia e não quis conhecer? Ela se encolheu, seus olhos cheios de reprovação. — Ah, e você nunca fez isso? Você nunca fez sexo com uma mulher que não tinha nenhuma intenção de ver novamente? — Si, eu fiz isso. — Ele olhou em seus olhos verdes tempestuosos. — Mas eu não tinha nenhuma intenção de fazer isso com você. A respiração rápida de Ava era o único som, mas em sua cabeça Gianluca estava se ouvindo pela primeira vez. As vozes alegres de um grupo de crianças vindo de baixo fizeram Ava reagir primeiro, olhando em volta, como se percebendo onde estavam. Semsequer olhar para ele, Ava saiu por um portão para o caminho sinuoso que serpenteava até a base do plano declive. Ele estava respirando com dificuldade quando a alcançou no carro, mas não tinha nada a ver com o exercício. Ela estava com os braços cruzados e parecia mortífera. — Não posso acreditar que você mentiria para mim assim — atirou ela. — Eu não minto, eu não engano, e você. — Ele apontou um dedo para ela. — Você não vai fugir de mim novamente! — Disse o Príncipe Benedetti, Príncipe de.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele a pegou pelo cotovelo e a puxou contra ele. O cheiro dela invadiu seus sentidos. Mas o calor e a suavidade perfumada de seu corpo não o lembraram de todas as vezes que ela havia se agarrado a ele nua, só serviram para enfurecê-lo mais. Ela fazia isso com ele. Ela o deixava louco e furioso e então ela o nocauteava com o fato de que era uma mulher pela qual ele faria qualquer coisa. E isso o deixou sem ter para onde correr. Ele a queria de maneiras que não eram apenas sexuais. Maneiras que deixariam qualquer homem solteiro nervoso. Talvez ele estivesse louco. Especialmente agora, enquanto a puxava e beijava. Não era tenro ou suave. Ele a beijou com toda a selvageria de seu desejo por ela e o corpo de Ava se impulsionou contra ele como se isso fosse o que ela estivesse esperando. Muitas coisas estavam diferentes na vida de ambos. Gianluca a tinha contra o carro, sua saia estava no alto de suas coxas, e a mão dele encontrou-a quente e molhada. Ela pulou e gritou quando ele a tocou, levantando uma perna para o quadril dele, puxando-o contra si, esfregando sua coxa no jeans de Gianluca, convidando-o para o que era inevitável. Ele sabia que tinha uma questão de segundos para se decidir antes que seu corpo fizesse isso. Estava a um passo de se livrar de suas calças e entrar nela. Ele xingou, afastando-se de Ava. Estavam no meio de um estacionamento! Ninguém estava por perto, mas isso não significava que não poderiam ter companhia nos próximos cinco minutos. Os olhos de Ava estavam fora de foco, escuros. Seu peito subia e descia enquanto ela puxava seu cardigã sobre os ombros. Alguns dos botões estavam abertos no topo de seu vestido, mas ela não parecia notar. — Vamos — disse ele, tentando exercer algum controle sobre a situação, empurrando-a para dentro do carro. — Precisamos sair daqui. Mas a cabeça de Ava estava baixa, ela parecia frágil e, embora ele dissesse a si mesmo que era culpa dela, que ela havia criado tudo isso, não era verdade. Ele era tão responsável quanto ela por aquela noite e Ava não tinha apenas fugido dele. Ele a havia perdido. Ele estava tão preso ao que sua família queria dele que havia deixado Ava ir. E talvez esse fosse o preço que seu pai tinha, finalmente, cobrado. Não o serviço militar ou a perda de sua carreira no futebol. O verdadeiro legado de ser um Benedetti era querer uma mulher e não ser capaz de tê-la. Não do jeito que ele queria. A pequena caixa quadrada pesava dentro de sua jaqueta. Sem falar uma palavra, ele a colocou no carro e a levou para casa. Ava tirou a roupa e mergulhou sob o chuveiro. Ela descobriu que não conseguia chorar, embora o sentimento fosse uma pressão em seu corpo que ela não conseguia liberar. Eu não tinha intenção de fazer isso com você. Aquelas palavras a haviam machucado. Porque elas insinuavam o que Ava suspeitava ser verdade. Que poderia ter tido tudo isso há sete anos e havia jogado fora, porque tivera medo de estender a mão e vê-lo desaparecer. — Ava. Ele estava nu. Eles sempre compartilhavam o chuveiro, mas naquele momento ela se sentia muito 84


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis exposta para ficar nua na frente dele. Virou-se em direção à saída de água, sentindo-se encurralada. Ela queria chorar quando as mãos dele deslizaram sobre seus quadris. Como se o sexo fosse consertar tudo. Ele era um homem. O que ela esperava? Sensibilidade? No entanto, conforme ele deslizava a mão sobre sua coxa e a outra segurava seu seio, e quando ele tocou sua boca quente e provocante em sua nuca, Ava podia sentir seu corpo se deliciando com seu toque, ansioso para experimentar aquilo mais uma vez. Ela nunca havia pensado em si mesma como uma criatura sexual. — Gianluca. — disse ela com um suspiro. Eles estavam frente a frente e sua ereção pressionava a barriga dela. Ele a beijou, sua boca quente, molhada sob o chuveiro. Ele tinha um gosto tão bom. Ela passou os dedos por seus ombros, seus bíceps. Seu peito áspero era tão bom roçando contra as pontas sensíveis de seus seios. Era muito fácil perder-se. — As coisas têm sido muito intensas ao longo das últimas semanas — explicou ele. Sua voz estava arrastada com o desejo. — Vamos apenas fazer isso, isso funciona para nós, tesoro. Havia tanta coisa para dizer. Mas, por enquanto, seria suficiente. Ele pegou um pano, encharcou-o e começou a esfregar nela até que estivesse com as pernas bambas e inclinando-se para trás contra os azulejos. Ele caiu de joelhos e encontrou um calor suave entre as pernas. Ava enfiou o punho na boca para abafar um grito. Ele a pegou e, pingando, a levou para a cama, colocando-a sobre sua barriga, penetrou-a por trás com uma certeza rápida que fez os sentidos dela dispararem. Ele estava incrivelmente fundo dentro dela e ela atingiu o clímax com uma rapidez chocante. A expressão dele quando a virou era quase selvagem Não havia nada da gentileza que ele geralmente demonstrava. Ava estava bem ciente de que teria hematomas no dia seguinte, mas não se importava. Ele se enfiou tão profundamente dentro dela que ela engasgou, e depois de novo e de novo, até que não havia espaço para o pensamento, só a tensão aumentando mais uma vez. Sua mente orbitou separada de seu corpo enquanto ela enrolava as pernas em volta dele, e agarrou-se até que ela estava gritando de prazer. Gianluca fez um som profundo, gratificado e então havia apenas seus corpos unidos, a respiração pesada dela enquanto estava deitada com a cabeça no ombro dele, a respiração dura daquele homem enquanto seu peito subia e descia. Ava lentamente tornou-se ciente de que a tensão ainda habitava seu corpo, apesar do orgasmo mais intenso de sua vida. Isso funciona para nós. Foi o que ele disse. Sem palavras suaves, sem promessas, nenhuma menção de que ela estaria indo para casa em breve. Apenas as coisas têm sido muito intensas... Isso funciona para nós. — Mais uma vez — disse ela. Horas mais tarde, quando estava era escuro e o único som era das cigarras através das janelas abertas, ele disse lentamente: — Aquela noite que nos conhecemos eu tinha muita coisa na minha cabeça. Meu pai e eu tivemos uma discussão no dia anterior. 85


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — O que vocês discutiram? — Sua voz era suave. — Eu tinha responsabilidades e estava tentando evitá-las. — Que tipo de responsabilidades? — Olhe ao seu redor, Ava. Eu sou um Benedetti. Ao redor deles havia um grande quarto. Uma grande lareira de mármore branco, luzes em arandelas, afrescos na parede, cortinas pesadas na cama. Ele se perguntou se ela entendia o peso de ter toda essa história em seus ombros. — Eu tinha 18 anos quando me formei na academia militar e parti para os Estados Unidos para estudar economia no MIT. Meu pai achou que eu usaria esse diploma para trabalhar no negócio da família e fez vista grossa para a minha vida nos Estados Unidos. Eu tinha quase 21 anos quando me formei e fui recrutado para a liga de futebol profissional. — Diga-me sobre o futebol. Deve ter sido muito glamoroso. — Às vezes. — Festas e garotas. — Foi uma época selvagem — admitiu ele. — Mas para mim a questão era a liberdade. — Vá em frente. — Tivemos uma discussão no dia anterior do casamento de Alessia. Eu disse a ele que aquela era a minha chance e eu não abriria mão. Meu pai disse que eu deveria estar ao lado dele nas reuniões com o Grupo Bancário Agostini. Eu disse a ele que não eram nada além de criminosos organizados e ele me bateu. Eu disse coisas que não podem voltar. Disse que o odiava, que ele era fraco. Eu o odiava por aquilo que ele havia feito com a minha mãe e que o meu propósito na vida era nunca ser como ele. Ele se pôs um pouco mais reto na cama. - Meu pai disse que eu deveria colocar um terno e ir para Nápoles com ele para a reunião. Eu ri e preferi ir para o casamento do meu primo. — Nossa noite — disse ela suavemente. — Sim, a nossa noite. Ambos pareciam estar segurando a respiração. — Conte-me — pediu ela. - Ele teve um ataque cardíaco fulminante. Tinha apenas 53 anos. — Sinto muito. — Eu nunca pude retirar o que disse. Ele estava sob tremenda tensão, cavou um buraco que remonta 20 anos, cheio de dívidas e corrupção. O grupo bancário inteiro entrou em colapso, dois de seus parceiros de negócios foram presos e a maior parte dos bens foi vendida para satisfazer as dívidas. — E você entrou para o exército, afinal. — Pela honra de minha família, por meu pai. Era o que ele queria — disse ele baixinho. — Sei que é difícil de entender e eu mesmo não entendo totalmente, nosso nome já havia sido um bom nome. Ele representava serviço ao Estado, uma integridade que não poderia ser comprometida e em duas gerações havia sido destruída. Eu queria construir algo a partir das cinzas e o serviço militar parecia um bom lugar. 86


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Por isso que eu não pude contatá-lo — disse ela, lentamente. — Telefonei para todos os números que você me deu, e apenas um deles, o de seu escritório, atendeu. Acho que a mensagem não foi passada. — A mídia foi atrás de nossa família como corvos. Todos os números foram alterados. Você deixou uma mensagem, cara? — Um número e meu nome. Gianluca ficou em silêncio. Ava umedeceu os lábios. — Então, por isso você nunca veio atrás de mim. — Ir atrás de você? — Quando eu saí de manhã, pensei que você sabia quem eu era. — Mas como, cara? Você só me deu seu primeiro nome e mesmo isso eu entendi errado. — Errado? — Pensei que você havia dito Evie. — Desculpe-me. Ela começou a rolar para fora da cama. Ele pegou a mão dela. — Aonde você vai? Ava puxou a mão. Pegou seu roupão de seda e cobriu sua nudez. — Pegar uma bebida. Gianluca tinha um bom leque de bebidas, mas Ava foi direto para o xerez. Ele podia não ter entendido o nome dela, mas foi ela quem havia entendido tudo errado! Crendo que aquela noite era especial só para ela, segurando-a em sua mãozinha quente como se pertencesse a ela. Ignorando-o completamente. A vida lhe havia ensinado a manter seus sentimentos trancados. O sumiço de seu pai. A reviravolta que a doença de sua mãe causara. Lembrava-se muito bem, quando pequena, de acreditar nas garantias de sua mãe de que seu pai voltaria para eles. Quando cresceu, aprendeu a confiar apenas no que poderia quantificar e trabalhou duro para sair do ciclo da pobreza que a doença de sua mãe lhe havia colocado. Mas aquela necessidade de se proteger e despir a realidade de qualquer ilusão não lhe havia ajudado em suas relações pessoais. Josh tinha fugido do país para fugir dela, ela tinha perdido dois anos de sua vida em um relacionamento com um homem que ela nunca amaria. E havia arruinado a sua única chance de ter alguma coisa verdadeiramente mágica simplesmente por medo. Ela espirrou um pouco de xerez no aparador. — Ava. — Sua voz profunda cortou as sombras. — Desculpe-me. — Tentou pensar em outra coisa para dizer, mas o que saiu foi: — Sinto muito. Ela deixou cair a taça quando ele se aproximou. 87


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele a tirou de sua mão, levando-a ao nariz. — Isso não vai funcionar, Ava. Xerez? — Desculpe-me — disse ela mais uma vez. — Por quê, innamorata? Ele parecia desnorteado. — O que você acha? Tudo. Tudo que você passou. — É a vida. Essas coisas nos fazem mais fortes, nos fazem apreciar o que temos no momento, você não acha? Ele não estava falando apenas de seu pai. Estava falando sobre eles. Não amor, sexo. Sexo era o que eles tinham O amor pode ter tido uma chance uma vez, mas ela havia jogado fora sem saber. Toda a sua vida ela tinha escolhido e vencido suas batalhas. Mas aquela batalha ela não escolhera e não sabia como lutar.

CAPÍTULO 16

O salão estava iluminado com milhares de pequenas velas e 400 pessoas que pagaram um bom dinheiro para estarem lá. O coração de Ava era como um pássaro preso dentro dela, batendo desesperadamente para sair. — Relaxe, Ava — disse Gianluca suavemente. — Você é a mulher mais bonita que eles já viram Está demorando um pouco para se acostumarem. Mas não havia nada reconfortante em sua voz. Carregava a mesma tensão que ela estava sentindo. Ela se sentia um pouco estranha usando joias que tinham pertencido à avó dele, mas Gianluca havia assegurado que as peças eram tão raramente usadas que era quase um favor exibi-las. Quando ela viu Maria Benedetti no meio da multidão, sentiu-se traída. — Você não me disse que sua família estaria aqui. — Eu não sabia. Gianluca não estava mais relaxado quanto a isso do que ela. Ela adivinhou que apresentá-la a seus amigos era uma coisa, à sua família era outra. Isso não lhe havia ocorrido até ela olhar para seu belo rosto, reconhecer em sua expressão que havia existido um método na loucura de sua viagem de Positano para Nápoles e seu voo de Nápoles para Roma. Não foi romântico. Foi pragmático. Foi o que um homem fazia quando se sentia encurralado. Ele a deslumbrou, cortejou, fez coisas com seu corpo que ela não poderia 88


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis imaginar fazer com qualquer outra pessoa, e quando aquilo acabasse ele iria embora. Não seria tão grosseiro a ponto de fazê-lo pelo telefone, mas a hora chegaria. Não seria no futuro próximo. Seu desejo por ela estava muito presente em suas vidas naquele momento. Aquilo era o que funcionava para eles, aparentemente. Sexo. Longa distância não iria funcionar, então, não é? Ela suspeitava que uma vez que voltasse para Sydney eles permaneceriam um pouco mais juntos, ele iria visitá-la, ela iria visitá-lo, mas outras mulheres cruzariam seu caminho e, sem alguma coisa mais forte para vinculá-los, quanto tempo ele ficaria com a cama vazia? Um dia, simplesmente não iria mais funcionar. Ela tinha aceitado tudo isso na noite anterior, disse a si mesma para ser forte, para aceitar isso como os homens. Os homens não confundiam a questão. Havia sexo e ligação emocional, e, aparentemente, eles poderiam existir separadamente. Ele poderia ter lhe dado todo o pacote um dia, mas essas águas já haviam passado. Mas era difícil ser forte em um glamoroso vestido que a fazia se sentir tão intensamente feminina que estava se esforçando para não sair girando como uma garotinha. Era difícil não chorar quando o homem que você amava não havia tido nenhuma intenção de apresentá-la a um único membro de sua família até o momento, quando ele estava sendo forçado a isso. Ele tinha se desviado de seu caminho há quatro semanas para se certificar de que isso não acontecesse. Ah, sim, agora ela sabia o motivo de sempre ter sido tão cautelosa com vestidos. Eles nos transformam em pessoas que não reconhecemos. — Minha mãe sempre recebe um convite, mas esta é a primeira vez que ela vem. Com o ar de um homem condenado, Gianluca a guiou através do salão. Ava percebeu que todos os olhares estavam sobre eles. Ela se sentia como uma aberração de circo em seu vestido glamoroso. Cada traje impróprio no qual sua mãe tinha desfilado, cada vez que um adolescente havia se pendurado para fora de uma janela de ônibus ou carro e gritado “aberração!” para sua mãe. Tudo de ruim sobre ser filha de Tiffany Lord veio à tona. Sabendo que precisava se conter, Ava parou de ouvir as instruções de Gianluca. Como se ele achasse que ela precisava de orientação sobre como estar com sua mãe. Ela não era uma idiota. Sabia como se comportar. Maria Benedetti pareceu ligeiramente surpresa quando Gianluca se inclinou e beijou a mão de sua mãe. Ava notou que havia uma rigidez estranha entre mãe e filho, mas, em seguida, a principessa a olhou com curiosidade. Gianluca as apresentou e Ava se ouviu dizendo educadamente: — Como vai? — Ava, como você se parece com seu irmão. Então, você é a jovem que enfeitiçou o meu filho? Não era o que ela esperava que a principessa dissesse, e Ava hesitou. — São as joias de principessa Alessandra, Gianluca? — Ficam bem em Ava — disse ele firmemente. A mulher deu de ombros despreocupadamente,lembrando estranhamente seu filho. — É bom vê-las fora do cofre. 89


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis — Você parece estar se divertindo muito, Ava. — Estou — mentiu Ava. — Que tal almoçarmos amanhã? Gostaria de saber o que você está achando de Roma. Ela olhou bem para Maria Benedetti e percebeu que a mulher que tanto havia desaprovado Josh estava lhe oferecendo um ramo de oliveira. — Sim, eu adoraria. — Ela se atrapalhou, pensando na sexta-feira. Pensando em sua passagem. Pensando no homem ao seu lado que ainda não havia lhe pedido para ficar. Ela sabia agora que ele não iria pedir. Mas ela tinha relaxado e percebeu que isso provavelmente tinha menos a ver com a principessa e mais a ver com sua atitude nas semanas que passara com Gianluca. Ela não era diferente naquela multidão. Ela pertencia àquele lugar tanto quanto Maria Benedetti. E não era apenas o vestido. Apesar de ele ajudar. Sorrindo um pouco, pela primeira vez durante toda a noite, Ava olhou ao redor do salão, observando a multidão. E então o viu. — Ava? — Ele ergueu a mão em um aceno. Josh apareceu como uma miragem na frente dela, alto e magro em seu smoking, puxando sua gravata-borboleta. — Eu nunca consigo lidar com essas coisas. Alessia estava brincando com ela no carro, e agora olhe para ela. Ele não a olhava nos olhos, e ela podia ver seu nervosismo. Seu primeiro instinto foi endireitá-la, mas depois se lembrou de que Josh não era mais seu irmãozinho. Era um homem crescido. Deveria tratá-lo dessa forma. Sem ao menos questionar o porquê, Ava jogou os braços ao redor dele. Ele a abraçou de volta, sem jeito. — Está tudo bem, mana — murmurou em seu ouvido. — Vou tirar você dessa. Ela olhou para ele com surpresa, quase lhe dizendo que não havia nada para tirá-la, mas o abraçou novamente. Era muito bom vê-lo. Foi muito bom ter a coragem de mostrar isso a ele. A maldição foi quebrada, pensou um pouco fantasiosamente. Rica, decepcionada e sozinha. Não vou passar minha vida sozinha e sem amor, pensou, porque não importa aonde a vida me leve, meu irmão sempre vai me amar. Ava tinha um grande sorriso em seu rosto quando uma pequena mão tocou seu cotovelo e ela reconheceu Alessia, 1,50 metro de energia crepitante. Ela quase não havia mudado. — Seu vestido é tão bonito. Você parece uma princesa. Gianluca, ela parece uma princesa! Por que você a manteve trancada? Pensei que teríamos que vir até Roma e libertá-la, Ava. — Gianluca tem sido muito gentil — disse Ava, e viu o olhar de surpresa no rosto dele. — Ele roubou você — acusou Alessia. Bem, o que ela diria sobre aquilo? Gianluca colocou uma taça de champanhe em sua mão. Outras pessoas se 90


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis juntaram a eles. O primo de Gianluca, Marco, e sua esposa, Valentina, o casal que ela já havia conhecido. Ela gostava de Tina. Elas poderiam ser boas amigas. Uma boa amiga muito grávida. — Sinto falta de champanhe — disse ela, indicando a taça de Ava. — Não é muito bom — mentiu Ava. Tina sorriu e, puxando seu cotovelo, conduziu-a para longe do grupo. — Eu vi você ser apresentada à Tia Dragão. Como foi? — A principessa foi muito gentil. — Sério? Que estranho. Ela geralmente é brutal com outras mulheres. Acho que foi um choque para ela ser apresentada a uma das namoradas de Gianluca. Ava estava prestes a deixar escapar não sou sua namorada quando Tina disse alegremente: — Na verdade, você é a primeira. Você não é siciliana, é? Perplexa, Ava balançou a cabeça. Tina se chegou um pouco mais perto. — Virgem? — Oi? — Não, você tem aquele olhar. Aquele olhar de bem-amada. — A outra mulher lhe deu um pequeno sorriso. — Não se vire, Ava, mas Gianluca não tirou os olhos de você. Acho que ele está preocupado com o que eu estou dizendo. Então, vou ser rápida. Ele é um pesadelo para mulheres. É lindo, tem status, todo aquele dinheiro. Mulheres desejando Gianluca são como. Não sei. Gelo na Sibéria. Sim, ela sabia. Mas pareceu outro soco em seu peito. — Eu nunca o vi tão feliz. — Feliz? Gianluca se aproximou dela e, por um momento, Ava se perguntou se ele tinha ouvido. Ele pegou sua mão e, sem dizer nada, a afastou do grupo. — Você precisa de ar — disse ele, quase de improviso. Tina lhe deu uma piscadela. No terraço, ele tirou o paletó para encobrir os ombros dela. Ava balançou a cabeça, recuando. — Precisamos conversar. Ela estava incrivelmente linda aquela noite. Mas não era como a beleza que ele havia visto em seus momentos de relaxamento. Acordando de manhã com os olhos sonolentos, murmurando coisas tolas para ele que o faziam querer mover montanhas para ela. Ou apenas beijá-la. Aquela noite era uma beleza que vinha com um custo. O tipo com o qual ele tinha crescido. Ele queria bagunçar seu cabelo, borrar seu batom, tirar aquelas joias pesadas e jogá-las no Tibre. — Precisamos conversar — disse ela, suavemente. Ele limpou a garganta. — Si, por isso que eu trouxe você aqui. — Eu quero dizer uma coisa antes. 91


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ela juntou as mãos. Por alguma razão, isso o irritava. Mas ele havia estado frustrado a noite toda. Ele não queria estar em uma multidão com Ava. Ele queria estar em algum lugar onde eles poderiam ficar sozinhos, só os dois, e então talvez esse aperto em seu coração parasse. — Você já viu A fonte dos desejos? — perguntou ela, inesperadamente. Ele deu de ombros. — Talvez. Talvez não. Ela lhe deu um pequeno sorriso hesitante. — Eu costumava assistir a esse filme quando menina e queria aquela vida. Outra vida, tão diferente da minha, que era irreconhecível. Você me deu essa fantasia, mas acho que é hora de ir — disse Ava. Ir? Ela não podia ir. — Antes que o feitiço desapareça. Antes de você acordar uma manhã e eu ser apenas Ava novamente. Que diabos? Ela era Ava. Ava que o fizera rir, o deixara furioso, o fizera amá-la. Ele afastou o pensamento. Amá-la não ia funcionar. Homens Benedetti não amavam suas mulheres. Procriavam com elas e depois iam embora. Ele há muito tempo havia decidido não continuar essa desagradável tradição, mas, se cometeria o erro de sua vida, poderia muito bem cometê-lo com Ava. Se ela pensava que iria sumir da vida dele, gostaria de vê-la tentar com um anel em seu dedo, com aquelas pesadas joias no pescoço. — Esta vida da qual você fala. — Sua voz era profunda, repleta de emoção. — Por que você não pode tê-la? Ela olhou por cima do ombro para ele com atenção, ansiosa. Deveria estar. O anel pesava no bolso de seu paletó. Ele o envolveu. — Tenha, então — disse ele, quase agressivamente. — Tenha esta vida. Ele agarrou sua mão, puxando-a para ele. Ava recuou, puxando sua mão. Ele não soltou. — Não sei do que você está falando. Você não está sendo coerente. Por que você está com raiva de mim? Ele tirou o anel, ergueu-o para a luz. — Isso faz sentido para você? Por um momento, ela parecia totalmente confusa, e depois ficou imóvel. — Este é o anel que meu avô deu para minha avó. Ela só o tirou no dia em que morreu, para passá-lo para minha irmã mais velha. — Ele pegou a mão dela, que estava fria e tensa. Ela tentou puxá-la de volta, mas ele era muito forte. — Ela optou por não usálo e está em um cofre com o restante das joias da família desde então. Eu ficaria honrado se. — Ele forçou o anel no dedo dela, apenas para perceber que sua mão estava tremendo, e não de uma boa maneira. — Aceitasse ser minha esposa. — É muito pequeno — disse ela, baixinho. — Pode ser alterado.

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Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele estava furioso com ela. Por que estava encolhida dessa forma? Por que ela estava agindo como se tivesse feito alguma coisa imperdoável quando era ela quem estava falando sobre fantasias e ali estava ele realizando-as? Ela começou a puxá-lo. — Eu não quero. Pegue-o de volta. — Gianluca, o que você está fazendo aqui fora? Há pessoas que vieram do outro lado do mundo para vê-lo esta noite. Nós todos temos que fazer a nossa parte. Ah, vejo que interrompi alguma coisa. Gianluca virou-se para rosnar para sua anfitriã, apenas para ouvir Ava fazendo um som abafado de angústia. Ela passou por ele e voltou para o salão. — Preciso de ajuda — balbuciou Ava para Alessia. — Este vestido não vai caber na parte de trás de um táxi e eu não posso voltar com ele. Eu preciso de algum lugar para ficar. — Acalme-se. — Alessia acariciou o braço dela. — Você vai vir e ficar com a gente, é claro. Estamos em um hotel a apenas dois quarteirões de distância. Ava se perguntou por que não se sentiu melhor. — O que está acontecendo, Ava? Josh estava olhando para ela com preocupação. No passado, ela sempre o enganava. Era a protetora, a que afastava o lobo de sua porta, mas agora tudo o que podia pensar era no quão isolada estava. Estava de volta onde havia começado. Sozinha no mundo. — Você estava certo, Josh — disse ela. — Estou destinada a ficar sozinha. Duas quadras, havia dito Alessia. Ela poderia correr até lá. Gianluca não conseguiu encontrá-la. Ele havia cometido erros em sua vida. Este não era um deles. Isso era uma catástrofe. Havia realmente empurrado um anel no dedo dela? Quaisquer que fossem as razões dela para estar ali com ele, isso não mudava o fato de que ele estava apaixonado por ela e havia permitido que sua raiva e ressentimento com o passado interferissem na maneira como a havia tratado. A única pessoa que o fazia querer um futuro. Mas por que diabos ela dissera que queria terminar? Onde diabos ela estava? — Benedetti? Sotaque certo. Irmão Lord errado. — Você viu Ava? — perguntou ele. Josh fez um movimento com a mão direita que Gianluca instintivamente bloqueou. Ele empurrou o jovem para longe. — Dio, qual o seu problema? — Você é o meu problema, Benedetti. Você e a maneira como trata minha irmã. Gianluca ficou tenso. — Isso mesmo. A culpa é sua. Um perdedor termina com ela e você ataca. Ela pode ser inteligente, mas é como um cervo olhando para faróis quando se trata de homens. — Si, estamos de acordo em relação a isso. 93


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis O jovem fez uma careta. — Eu quero me casar com sua irmã — disse Gianluca, impacientemente, consciente de que ele estava apenas perdendo tempo. — Estou apaixonado por ela. Isso esclarece algo? Houve um suspiro feminino. Valentina e Alessia estavam atrás deles. — Onde ela está? — perguntou Valentina. — Foi o que vim lhe dizer — anunciou Alessia, claramente apreciando o drama. — Ela saiu correndo. Possivelmente para o nosso hotel. Gianluca já estava a meio caminho da recepção, com a cabeça rugindo. Ele iria matá-la. Mas só depois de se certificar de que ela estava bem. — Benedetti! — Josh Lord estava respirando com dificuldade quando o alcançou nos degraus. — Você precisa ouvir isso, cara. Ela chegou a Roma esperando um pedido de casamento. — Si, ela me disse — rosnou ele, impacientemente. — Não, você não entende. Ava pagou as passagens, reservou o hotel, arranjou um tour idiota pela Toscana. E ela comprou o anel. Gianluca olhou para o outro homem como se estivesse falando uma língua até então desconhecida. E então ele sabia o que tinha feito. Eu costumava assistir a esse filme quando menina e queria aquela vida. Outra vida, tão diferente da minha, que era irreconhecível... E ele lhe deu um pedido de casamento fajuto em um baile de caridade. Forçou um anel em seu dedo. Zombou de seus sonhos românticos depois que ela os confessou. Se não a encontrasse nos próximos cinco minutos, iria partir a cidade ao meio. — Ela não estará no nosso hotel — disse Josh em voz baixa. — Quando éramos pequenos e minha mãe estava sem seus medicamentos e na pior, Ava me levava para um passeio. Caminhávamos até o final da rua e, em seguida, ela dizia: “Vamos apenas até o fim da próxima rua, e da próxima.”, como se estivesse procurando alguma coisa. Ela fez a mesma coisa na noite do meu casamento. De acordo com um dos amigos de Alessia, ela não voltou até o amanhecer. Com essas palavras, tudo se encaixou. — Grazie. Sei onde encontrá-la. Eu fiquei lá o dia todo, esperando que você ligasse. Ele começou a correr. Ela estava a pé. Ele estava a pé. Mas um deles estava correndo por sua vida. O bar do Excelsior estava escuro, iluminado aqui e ali por abajures, mas ele a viu no momento em que entrou. Gianluca tinha ótima forma, então não podia culpar a corrida pelo martelar de seu coração. Os céus se abriram na última quadra e seu cabelo estava colado à cabeça, sua camisa estava úmida, seu paletó perdido no caminho. Havia levado mais tempo do que deveria, pois tinha feito uma parada inesperada na porta de Luigi Favonne. Todos nesta parte de Roma conheciam Luigi. Ele poderia transformar um diamante em fogo vivo e para Principo Benedetti ele havia encontrado, de pijamas e chinelos, uma esmeralda verde tão verdadeira que seu calor lambia seus dedos quando ele a segurava firme na mão. 94


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis O barman estava olhando para ela enquanto polia os copos e as pessoas estavam lhe dando olhares curiosos, mas ninguém havia se aproximado dela. Ela parecia estar em um mundo próprio. Ele estava a um metro dela quando disse: — Ava mia. Sua cabeça se virou lentamente. Seu rosto pálido e devastado pelas lágrimas. — Eu não sou sua Ava — disse ela, em uma voz baixa e terrível. — Nunca fui. Ela jogou alguma coisa para ele, que bateu em seu peito e ele a pegou. O anel. Aquele anel feio e pesado em estilo barroco. Ele caminhou até ela e ficou ali, parado, sem ter certeza por onde começar. Ela olhou para ele com olhos furiosos. — Vá embora. Eu não quero você. — Então por que você está aqui, meu amor? Seu rosto inteiro tremeu. — Estou esperando por alguém. Se ele é o homem que deveria ser, ele virá, e se ele não for, estarei melhor sem ele. Ele sabia como havia sido para ela. Aquele longo dia quando ele havia estado no hospital com sua mãe e irmãs, com os advogados no palazzo e com as autoridades respondendo a perguntas, ela havia estado aqui, esperando por ele. Ficou extremamente frustrado. Ambos cometeram erros. Não havia nada que ele pudesse fazer sobre o passado. Nada. Mas ele não ia deixá-lo governar suas vidas. — Estou aqui agora. Ela olhou para ele, inquieta. — Quero que você me perdoe, Ava. Eu deveria ter movido montanhas para encontrá-la. Ele se preparou para o que viria, e então, como um milagre, o queixo dela tremeu, sua boca se suavizou e ela disse: — Eu não deveria ter corrido. — Suas mãos se espalharam suavemente sobre seu colo. — Você me encontrou hoje à noite. Alívio percorreu o corpo dele. Ela me ama, pensou. Eu sei que me ama. — E foi apenas uma noite — acrescentou ela, em voz baixa. — Foi a nossa noite — afirmou ele. — Nossa noite incrivelmente perfeita. Ela olhou para ele suavemente. — Foi perfeita. Ele guardou o anel velho e estendeu a mão para ela. — Venha comigo. Lentamente, Ava pegou sua mão. Ele não podia acreditar que havia empurrado o anel em seu dedo tão grosseiramente. Ele nunca fazia nada grosseiro. Tratava as mulheres corretamente, com gentileza e consideração. Mas Ava havia trazido à tona outras emoções. Sentimentos autênticos, estranhos, ásperos, selvagens. Ela o tinha visto no seu pior. Ela nunca se esquivara disso. Se o aceitasse, ele seria o homem mais feliz 95


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis em Roma. O Excelsior possuía uma torre, construída no século XVI, com escadas em caracol bem desgastadas pelos milhares de turistas que haviam subido nela desde que fora restaurada há 70 anos. Estava fechado a esta hora, mas uma gorjeta alta permitiu-lhe acesso e Gianluca a levou pelos degraus. — Isso é loucura — disse ela, em meio ao farfalhar de seu vestido. A vista era de tirar o fôlego. Mesmo naquela noite nublada. — Ava mio. A leste daqui está a residência de verão Benedetti. Está velha e os canos não estão bons, mas, todo verão era levado para lá. Eu odiava. Eu odiava o que ela representava. Centenas de anos de opressão. Jurei quando era jovem que não me casaria, que não teria filhos, que não iria continuar o legado. Ele acariciou sua bochecha. — Então eu conheci você. Você vê aquela colina a oeste? As primeiras tribos que habitaram Roma viviam lá. Eu quero construir uma casa para nós lá. Algo que pertença somente a nós e nossos filhos. — Mas você não quer ter filhos. — Quero tê-los com você. Ele caiu de joelhos diante dela. — Meu amor, você passaria o resto da sua vida comigo? Ela caiu de joelhos na frente dele e se agarrou a seus ombros. — Ah, sim Ele emoldurou seu precioso rosto, beijou suas têmporas, suas pálpebras, seu doce nariz, suas magníficas maçãs do rosto, os contornos exuberantes de seus lábios. O rosto que ele tanto amava. — Eu amo você — sussurrou ele. — Amei desde o momento em que a vi pela primeira vez na catedral, usando aquele vestido azul com as flores em seu cabelo. E quando eu vi você no antigo salão de baile do palazzo, olhando para mim, pensei, é ela. — Mesmo? — Ela estava sorrindo. — Então, eu segui você. Ela balançou a cabeça. — Você me fez dançar com você e eu não sabia dançar. — Eu não me lembro disso. Lembro- me de puxá-la para perto e você continuamente tentar se afastar. — Eu não conhecia você. — Conhecia o suficiente. Ele riu e a beijou — realmente beijou — profunda e lentamente. — Eu sabia que era você aquele dia na rua — murmurou ele contra sua boca macia. — Só não sabia que sabia. — Eu vim para Roma para encontrá-lo. — Confessou ela. — Embora eu não soubesse disso na época. Passaram-se alguns minutos antes de ele se lembrar do que estava em seu bolso. 96


Jéssica 218.1 - Mar de Espinhos – Lucy Ellis Ele estendeu a mão e pegou a pedra, gentilmente colocando-a na palma da mão dela. Fogo verde. — Vou mandar fazer um anel com ela para você, Ava mio. Vai ser seu. Nosso. Quando desceram para a rua, a chuva havia parado, mas as estradas estavam molhadas e havia um cheiro forte no ar. Ele não tinha um casaco para dar a ela e não estava quente, mas a estava levando para um lugar no qual não importaria. — Para onde estamos indo, Benedetti? — Pensei em darmos uma caminhada, Ava mia, encontrar uma pequena igreja e nos casarmos. — Podemos fazer isso? — Bem, teremos que ler alguns votos, tem também a questão de sua cidadania e eu suspeito que o padre esteja dormindo a esta hora. — Gianluca a puxou para ele. — Mas, innamorata, estamos em Roma. — Sim — suspirou Ava, descansando a cabeça sobre o coração dele. — Tudo é possível.

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Lucy ellis [noites de paixão] mar de espinhos (jessica 218 1)  

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