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DUAS VEZES FELIZ (Having His Babies)

Lindsay Armstrong

Tudo... e mais! Clare possuía independência, uma promissora firma de advocacia e um amante maravilhoso, Peter Hewitt. Não esperava alguém como ele em sua vida, e sabia que o amava profundamente. Mas não tinha idéia do que Peter sentia. Como ele era divorciado havia pouco tempo, com um filho para criar, Clare achou melhor não perguntar. Até descobrir que estava grávida! Foi um choque e uma surpresa maravilhosa, mas poderia equilibrar carreira e maternidade? E qual seria a reação de Peter? Digitalização: Vicky B. Doação: Ale Gouvêa Revisão: Ale Ramos


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Querida leitora, Ela é sexy, bem-sucedida... e está grávida! Esta é a história de uma mulher espirituosa e um homem fascinante cuja paixão resulta em uma gravidez... nem sempre esperada! E claro que o nascimento de um bebê é sempre um evento repleto de alegria, e podemos garantir que nossos personagens se tornarão pais devotados... mas o que acontece nos nove meses que antecedem o parto? Compartilhe das surpresas, emoções, dramas e suspense desses futuros pais e seus esforços para aceitarem a perspectiva de trazer uma nova vida ao mundo. Todos compreenderão que gerar um ser humano é uma tarefa que sempre desperta o mais especial de todos os tipos de amor. Janice Florido Editora Executiva

Romances Nova Cultural Copyright © 1999 by Lindsay Armstrong Originalmente publicado em 1999 pela Harlequin Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Mills & Boon Ltd. Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Mills & Boon Ltd. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: Having his babies Tradução: Débora da Silva Guimarães Editor: Janice Florido Chefe de Arte: Ana Suely Dobón Paginador: Nair Fernandes da Silva EDITORA NOVA CULTURAL LTD A. Rua Paes Leme, 524 - 10º andar CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 1999 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

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CAPÍTULO I

— O que foi que disse? — Podemos fazer um exame de sangue, mas não creio que seja necessário. Pelo que me contou e por esta amostra, não há nenhuma dúvida. Parabéns, Clare! Clare Montrose continuou olhando para a médica, uma mulher de quase quarenta anos cuja expressão sorridente e radiante perdeu parte do entusiasmo diante dos olhos atônitos da paciente. — Não... esperava por isso? — Valerie Martin arriscou. — Não. — Clare engoliu em seco. — Tem certeza do que disse? Uso anticoncepcional há algum tempo, como deve se lembrar, e nunca esqueci de tomar os comprimidos. — Sim, lembro-me de que receitei uma pílula com dose reduzida de hormônios, mas também expliquei as circunstâncias que podem interferir na eficiência do medicamento. — Mas... nada do que disse... Bem, não aconteceu nada que... — E parou. — Oh, não! Eu nem parei para pensar! — Sobre o quê? — Tive uma virose há algumas semanas. Náusea, perturbações gástricas, tonturas... Mas dois dias depois estava bem, e nunca mais pensei no assunto. Acha que isso pode ter diminuído a eficiência do anticoncepcional? — Não é uma ocorrência muito comum, mas é possível, especialmente se a carga viral foi elevada. Não teve nenhum outro sintoma? Está tão surpresa que é evidente que uma gravidez nem havia passado por sua cabeça. — Não senti nada. Vim procurá-la porque meu ciclo ficou desregulado, mas isso já aconteceu antes... antes da pílula, pelo menos — acrescentou, deixando cair os ombros como se sustentasse um enorme peso sobre eles. — Há quanto tempo? — Precisamos discutir algumas datas, mas estimo que esteja grávida há seis ou oito semanas. Clare retirou a agenda da bolsa e fez um cálculo rápido. — Sim — concluiu com tom rouco. — Imagino que seja isso mesmo. Oito semanas. Mas por que não tive enjôos, dores nos seios ou qualquer outro sintoma? — Nem todas as mulheres reagem da mesma maneira. Você pode estar entre as felizardas que nem percebem que estão grávidas, mas as primeiras mudanças surgirão em breve. Como perda de apetite ou uma fome voraz, sonolência constante, tonturas... — Desejo de comer picles com geléia, palmito com leite condensado... Céus! Como isso pode acontecer comigo? Valerie Martin encarou-a com um misto de compaixão e surpresa. Conhecia Clare Montrose há anos, desde que instalara seu consultório no mesmo edifício em que ela mantinha o escritório de advocacia na cidade litorânea de Lennox Head. Ao longo desses anos, a jovem quieta e segura expandira seu escritório e acompanhara o crescimento da cidade, PROJETO REVISORAS

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transformando a firma em um negócio lucrativo com uma excelente reputação que se espalhava por toda a região. E, no entanto, com relação à gravidez, Clare demonstrava uma ingenuidade surpreendente. — Clare, não quero ser indiscreta, mas... não foi Peter? Ela piscou os olhos azuis esverdeados e o rosto emoldurado por cabelos negros e ondulados ficou vermelho. Valerie sorriu. — É impossível guardar segredo neste vilarejo, meu bem, especialmente se esse segredo inclui Peter Hewitt. A família dele está na região há gerações, e além de atuarem na política, são os maiores proprietários de terras de que já se teve notícias em Alstonville, Ballina e Lennox Head. Além do mais, não tive a impressão de que queriam guardar segredo. — Tem razão, não estávamos tentando esconder nada de ninguém. Isto é, Peter é divorciado. Não devemos satisfações a ninguém. Mas também não pretendíamos fazer um anúncio público. — Entendo. Mas essas coisas nunca passam despercebidas. Peter é o tipo de homem que é sempre notado... e você é uma mulher que costuma chamar atenção. Mas com relação à gravidez... não foi planejada? — Não. — As circunstâncias podem mudar um caso, como costumam dizer os advogados... — A médica brincou. — Mas tenho certeza de que não preciso informá-la sobre a existência de outras... opções. Clare arregalou os olhos. — Oh, não! Interromper a gravidez está fora de questão. Eu não seria capaz de um ato tão... violento. — Bem, é um alívio saber disso. Afinal, você tem vinte e sete anos, e o tempo passa depressa. Talvez não tenha pensado em ter filhos neste momento, mas seu relógio biológico pode ter despertado em um nível inconsciente, desencadeando um processo que pode influir na produção de hormônios e, assim, interferir na eficiência do método anticoncepcional, muitas vezes com a participação da paciente, embora ela não perceba. Quando voltou ao escritório, Clare ainda pensava na possibilidade de ter sido manobrada por uma entidade invisível que a sociedade decidira chamar de relógio biológico. A idéia era inquietante. Olhou em volta e, vendo o diploma pendurado na parede da sala decorada com elegância, suspirou. Pedira à recepcionista para anotar todos os recados na próxima meia hora, e sabia que a pilha cresceria numa velocidade assustadora. Os negócios prosperavam, e apesar de contar com duas secretárias, uma para assuntos administrativos e recepção, e outra para problemas legais, começava a pensar na hipótese de contratar um estagiário, talvez um bacharel para delegar parte das responsabilidades. Agora mais que nunca. Suspirando, olhou para um quadro pendurado em uma parede da sala. Não era uma pintura, mas uma foto aérea de uma propriedade do outro lado da estrada que cortava Lennox Head. Ali tudo começara. A terra, originariamente uma fazenda de gado leiteiro, fazia parte dos bens da família Hewitt. Pouco antes de comprar o escritório de advocacia, a propriedade havia sido loteada, e ela fora escolhida para cuidar da escritura e PROJETO REVISORAS

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de toda a burocracia envolvida na transferência de posse para os empreendedores, novamente a família Hewitt. Ainda tentava acreditar na própria sorte quando o pai, com quem sempre mantivera um relacionamento turbulento, havia sugerido que contribuíra para sua escolha como representante legal da poderosa família. E como se não bastasse, ele se recusara a dar maiores explicações. Mas Clare nunca voltara ao assunto. Outras propriedades haviam sido compradas e vendidas através de seu escritório, os processos civis começaram a surgir, e logo descobrira-se com mais trabalho do que podia desenvolver sozinha. Como resultado direto do sucesso profissional, possuía um belo apartamento perto da praia, dirigia um carro esporte e viajava para lugares exóticos sempre que podia tirar férias. Mas só conhecera Peter Hewitt seis meses depois daquela primeira transação imobiliária. Sempre tratara de tudo com o gerente de projetos do empreendimento, mas acabara sabendo muito sobre o homem e sua família, sobre o avô que comprara terras para dedicar-se à agricultura acabara se tornando proprietário de metade da região. Sobre as plantações de abacate e certos tipos de castanhas que a família comercializava e sobre a maravilhosa casa em que viviam. Então um dia, quando ainda nem tivera tempo para examinar a agenda, Lucy, a recepcionista, anunciara que o Sr. Peter Hewitt chegara para a entrevista marcada. Assustada, olhara para a mesa desorganizada, imaginara o estado lamentável da própria aparência, e pedira um instante para recompor-se. Voltando ao presente, Clare sorriu ao lembrar o tom de desaprovação de Lucy, a pressa com que ajeitara os papéis sobre a mesa, penteara os cabelos e aplicara uma camada de batom. Havia acabado de ajeitar as sobrancelhas com os dedos quando ouvira as batidas na porta. Lembrava-se de tudo com nitidez, e só precisou fechar os olhos para rever as imagens daquele primeiro encontro. — Sra. Montrose, o Sr. Hewitt — Lucy anunciou ao abrir a porta do escritório. — Como vai, Sr. Hewitt? — Clare contornou a mesa e estendeu a mão. — Bem, obrigado. Como tem passado, Sra. Montrose? — Peter retribuiu, colocando uma certa ênfase no senhora enquanto a inspecionava da cabeça aos pés. Clare piscou algumas vezes. Tinha um metro e setenta e cinco centímetros de altura e não estava habituada a inclinar o pescoço para encarar alguém, mas Peter tinha pelo menos um metro e noventa. Os olhos cinzentos e penetrantes iluminavam um rosto bronzeado emoldurado por cabelos castanhos e lisos. O corpo era proporcional, formado por ombros largos, cintura estreita e músculos tão definidos que era possível vislumbrar o desenho sob a camisa de tecido fino. Mas o que mais a surpreendia era o fato de ser mais jovem do que esperava. Trinta e cinco anos, supunha. Outro fator surpreendente foi o silêncio prolongado que invadiu a sala enquanto se encaravam. A atmosfera tornou-se tão carregada que até mesmo Lucy parecia incapaz de mover-se. PROJETO REVISORAS

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Clare decidiu superar o momento de estranheza e a irritação que ameaçava dominá-la. Não gostava de ser inspecionada como um objeto, nem mesmo pelo chefe do clã Hewitt. — Sente-se, por favor — convidou com tom polido, embora frio. — Gostaria de tomar um café, ou um chá? — E foi acomodar-se em sua cadeira atrás da mesa. — Prefiro algo mais fresco. — É claro. Lucy, por favor, providencie algo refrescante para o Sr. Hewitt e um café para mim. — Esperou que a secretária saísse e, cruzando as mãos sobre a mesa, prosseguiu: — Presumo que tenha vindo discutir algum assunto relativo à transferência de escritura da propriedade. — Não. Na verdade, tenho boas referências sobre sua competência, Sra. Montrose. E seu pai me garantiu que é uma profissional muito séria e dedicada. Clare colocou-se em estado de alerta, como sempre acontecia quando alguém mencionava seu pai, mas tudo que fez foi sorrir. Lucy entrou com um copo de água gelada e aromatizada e uma xícara de café. Havia também um prato com biscoitos, e ela deixou a bandeja sobre a mesa e saiu em seguida, apesar da evidente curiosidade. Depois de beber um gole do café, Clare decidiu ser honesta. — Está causando uma certa comoção, Sr. Hewitt. Todos no escritório estão surpresos com sua presença. — Peço desculpas por estar perturbando sua rotina de trabalho, Sra. Montrose. — O senhora é apenas uma invenção da minha secretária — disse, irritada com o tom enfático que ele colocava no pronome de tratamento. — Lucy acredita que assim criamos uma imagem mais séria, mas pessoalmente prefiro ser conhecida como Clare Montrose, solteira. — Entendo. Para ser honesto, senhora é uma forma de tratamento que sempre me leva a pensar em uma mulher estagnada, parada no tempo. Prefiro chamá-la de Clare. A propósito, também gosto de ser conhecido por Peter, casado, embora por pouco tempo... e esta é a razão de minha visita. Já fez algum divórcio, Clare? — Sim. Alguns, mas... — Vejo que está surpresa. Por que vou me divorciar, ou por que vim procurá-la para isso? — Francamente... por ambos. — Conhece minha esposa, Clare? — Nunca fomos apresentadas, mas... Bem, vi algumas fotos no jornal local e li algumas notas. Imagens de Serena Hewitt invadiram sua mente. Ela era linda mesmo em preto e branco, e depois de tê-la visto no vilarejo, concluíra que as fotos não conseguiram retratar toda sua beleza. — E não consegue imaginar alguém querendo divorciar-se dela — Hewitt deduziu com tom seco. — Eu não disse isso, mas... sim, acho que estou surpresa. Desculpe, mas por que me escolheu? Imagino que tenha um profissional servindo a família, alguém que... pode ser mais apropriado para esse tipo de processo. — Realmente. Mas prefiro alguém que não esteja ligado aos Hewitt. PROJETO REVISORAS

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— Se aceitar o caso, agirei de forma a defender seus interesses, Sr. Hewitt, mas se está procurando alguém que não tenha conhecimento sobre todos os seus bens para assim enganar sua esposa, devo dizer que escolheu a pessoa errada. — Pelo contrário — ele afirmou com segurança. — Vim procurá-la porque parece ter um cérebro privilegiado e vastos conhecimentos legais, enquanto o advogado de minha família está ficando velho e ultrapassado, embora o tenhamos em grande estima. E ele também tem um imenso carinho por todos nós. Quando ao processo, estou disposto a abrir mão de tudo a que minha esposa tem direito, mas recuso-me a ser explorado, e é exatamente isso que ela pretende. — Entendo. — É feminista? — Não mais do que a maioria das mulheres. — Não é o que seu pai pensa e diz. Clare mordeu o lábio para conter uma resposta ríspida. — Conhece bem meu pai, Sr. Hewitt? — Bem o bastante para saber que ele tem idéias muito machistas, mas, mesmo assim, sente um grande orgulho da filha, uma jovem brilhante, porém, infelizmente para ele, feminista. É claro que seu pai jamais admitirá esses sentimentos, especialmente para você. Ele nunca revelará o orgulho que sente. — Receio que minha opinião sobre o feminismo seja muito diferente da de meu pai. Como o conheceu, Sr. Hewitt? — Ele e meu pai foram grandes amigos. Serviram no mesmo regimento no Vietnã, como deve saber. — Sim, eu sei, mas não imaginava que meu pai o conhecesse. Seu pai morreu há alguns meses, não? — Exatamente. E foi no funeral que seu pai falou a seu respeito. — Entendo. Bem, se acha que o feminismo não merece respeito, então não devia ter vindo... — Eu não disse isso. Na verdade, não dou a menor importância para o que chamam de guerra entre os sexos. Acredito no valor da inteligência, do caráter e da generosidade, e essas são características que independem do gênero. Além do mais, seu pai salvou a vida do meu em certa ocasião. Clare respirou fundo para conter a frustração. — E isso foi suficiente para levá-lo a decidir. Francamente, preferia ter sido escolhida para cuidar da transferência de escritura por razões mais justas, tais como minha competência e seriedade profissional. Sei que corro o risco de parecer petulante, mas, como você, também dou muito valor à honestidade. Peter encarou-a por alguns instantes. A mulher o intrigava. A primeira vista não parecia possuir uma beleza admirável, com exceção dos olhos. O rosto era estreito, pálido e delicado, e o corpo era esguio e elegante. Nada nela merecia atenção especial; ou melhor, tinha de reconhecer que os cabelos negros e sedosos eram muito bonitos, e as mãos, adoráveis, mas o que realmente o intrigava era sua compostura, a maneira como não comprometia a ética e a inteligência em favor das emoções. E era evidente que ela estava aborrecida. — Saiba que seu desempenho profissional foi mais do que suficiente para justificar nossa escolha, Clare. Mesmo que seu pai houvesse salvado a vida do PROJETO REVISORAS

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meu dezenas de vezes, não teríamos contratado seus serviços se não acreditássemos em sua capacidade. — Obrigada. — Sente-se confiante o bastante para aceitar este novo caso? Acredita que pode me representar no processo de divórcio? — Eu... — Depois de um instante de hesitação, decidiu: — Sim. Presumo que saiba que deve registrar uma separação física de pelo menos doze meses antes de entrar com o pedido de divórcio, embora o acordo financeiro possa ser feito... — Estamos separados há mais de um ano e já passamos pelo estágio do aconselhamento matrimonial, outro requisito exigido pela lei em casos de divórcio. — Tiveram filhos, Sr. Hewitt? — Sim, um menino, atualmente com seis anos. Quase sete. — Pretende disputar a custódia? — Não, a menos que minha esposa não seja razoável na questão do acesso. Clare mordeu o lábio. — Algum problema? — ele perguntou. — Bem, na verdade, eu... sinto-me no dever de preveni-lo quanto ao dano causado por uma batalha dessa espécie. A disputa pela custódia de uma criança acaba prejudicando sempre a pessoa que deveria ser protegida: a criança, que torna-se instrumento na guerra travada entre os pais. E, embora não seja da minha conta, tenho a obrigação moral de apontar que essa é uma área na qual as duas partes devem agir com o máximo de cuidado e, de preferência, sem a participação de um tribunal. — Essa é minha intenção. — Ótimo. Então, se tem certeza sobre o que quer, começaremos o trabalho exatamente por esse aspecto da questão. Clare encarou-o com atenção. Sabia que o divórcio havia adquirido o significado de um simples rompimento de contrato, mas também tinha consciência de que o processo de dissolução de um casamento podia ser doloroso e complicado, causando aos envolvidos muito ressentimento e culpa. — Não se preocupe, Clare. Estou decidido, e já tomei a iniciativa de relacionar todos os bens que farão parte da partilha. Meia hora mais tarde ela foi forçada a reconhecer que Peter Hewitt tinha a mente aguçada e um verdadeiro império em suas mãos. De acordo com o que acabara de ouvir, a mulher de quem ele pretendia divorciar-se não teria motivos para reclamar. — Bem, o que está propondo é um acordo financeiro bastante generoso, e duvido que haja algo a contestar. — Não tenha tanta certeza disso. Ela o encarou com ar intrigado. — Minha esposa vai contestar as avaliações e exigir sempre mais. Seu trabalho consistirá em refutar cada uma dessas exigências. — Entendo. — Clare fitou-o e sentiu um ligeiro tremor provocado pela frieza das palavras. Mas Peter encerrou o assunto e a entrevista chegou ao fim.

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Através da janela do escritório no primeiro andar, ela o viu afastar-se em um Range Rover marrom e, intrigada, tentou imaginar o que Serena Hewitt podia ter feito para provocar o rancor do belo e astuto marido. E claro que podia ser o oposto, pensou ao fechar a cortina, mas, por alguma razão, não acreditava nisso. E os eventos dos doze meses seguintes confirmaram as estimativas. Serena realmente contestou todas as avaliações, desde o valor da companhia da família até os objetos de decoração que adornavam a casa dos Hewitt. Ela contestou até o direito de propriedade sobre os dois cães de raça, Paddy e Flynn, que dizia ter comprado ainda filhotes. E Clare teve de lutar contra cada reivindicação ao longo do processo. Curiosamente, a única coisa que Serena aceitou com dignidade e bom senso foi o acesso ilimitado de Peter ao filho do casal, Sean. Finalmente tudo ficou acertado, o divórcio foi concluído, e no dia da assinatura dos papéis Peter disse: — Bom trabalho, Magrela. Quer jantar comigo? Clare o encarou surpresa porque, com exceção do apelido Magrela, que ele adotara desde o início, o relacionamento sempre havia sido estritamente profissional. Notando seu espanto, ele sorriu: — Agora sou um homem livre, Sra. Montrose. Não precisa se preocupar com o aspecto moral desse encontro. Além do mais, acho que merece o melhor jantar e o mais fino champanhe que eu puder comprar. Você lutou como uma leoa por meus interesses. Fez por merecer minha admiração. — Se quer mesmo saber, em alguns momentos desejei que você desistisse pelo menos dos cachorros. Ele riu. — Paddy e Flynn têm o tamanho de um pônei. Não sei como Serena pretendia mantê-los no apartamento em Sidnei. — Bem, nesse caso, aceito o convite, Sr. Hewitt — Clare decidiu depois de um momento de hesitação. Jantaram naquela noite, e um mês depois. Foi nessa ocasião que ele confessou: — Gostaria de vê-la novamente, Clare. Isto é, se também quiser, é claro. Embora tenha considerado impróprio tocar nesse assunto antes, você tem estado em meus pensamentos de uma forma ou de outra há meses. Clare admitia que também sentia uma forte atração por aquele homem. Em alguns momentos chegara a desejar que ele não fosse um cliente, ou um divorciado. — Eu... tenho enfrentado o mesmo problema — revelou. — Então soube escondê-lo muito bem. — Teria sido pouco profissional agir de outra maneira. E você também soube disfarçar seus sentimentos. Peter riu, mas não respondeu diretamente. — Sua carreira significa muito para você, não é? — Sim. — Por isso está com esse ar perturbado e distante? — E tocou a mão dela sobre a mesa.

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— Não. Estou surpresa, é claro. E... confesso que não sou muito experiente. — Não devia estar surpresa. Esse seu jeito quieto e misterioso é cativante, e já nos conhecemos relativamente bem depois desses meses de convivência. — Em alguns sentidos, sim. Depois do jantar caminharam pela praia e conversaram. Peter contou sobre como o bisavô chegara na Austrália com pouco dinheiro no bolso. Falou sobre Sean, o filho de sete anos, um garoto muito inteligente com uma propensão igual mente ampla para meter-se em encrencas, e mostrou-se satisfeito ao relatar os progressos alcançados na última safra de castanhas. Clare respondeu falando sobre a própria adolescência, quando o fascínio pelo direito começara a surgir, sobre os anos na universidade e parte da vida familiar. Crescera em Armidale, uma pequena cidade no planalto de New South Wales, cerca de trezentos e setenta quilômetros ao sul de Lenox Head. Armidale era o lar da Universidade da Nova Inglaterra e da próspera agência de tratores e máquinas agrícolas fundada por seu pai. Ela também contou que era filha única, falou sobre a mãe, uma mulher doce e pacata que se deixara dominar pelo marido, um homem autoritário que também havia tentado dominá-la. — O que serviu para alimentar sua ambição, suponho — ele comentou. — Provavelmente. — O fato de ser brilhante e determinada também contribuiu para o seu sucesso, certamente. — A inteligência privilegiada nem sempre é uma vantagem. Peter passou um braço sobre seus ombros. — Porque assustava todos os rapazes? Clare hesitou, porque de repente teve uma intensa consciência do homem a seu lado, da resposta provocada pelo contato físico. E chegou à conclusão de que se sentia confortável com ele. Na verdade, gostaria de estar ainda mais próxima do corpo másculo e musculoso. — Talvez... mas isso nunca me incomodou — respondeu eventualmente. — Eu não me deixei assustar. Pelo contrário. Sua inteligência a tornou ainda mais atraente aos meus olhos. — E beijou-a pela primeira vez. O desejo que ela conseguira sufocar durante doze meses ganhou vida própria, impelindo-a a corresponder com ardor surpreendente. Quando se afastaram, Clare estava ofegante e atônita. — Eu não esperava... — O quê? Que pudéssemos gerar esse tipo de calor? Pois eu tinha certeza disso. Duas semanas mais tarde tornaram-se amantes. De volta ao presente, Clare acomodou-se melhor na cadeira e pôs a mão sobre o ventre. Seis meses haviam se passado desde o início do relacionamento íntimo com Peter Hewitt. Seis meses durante os quais se sentira... muito feliz, admitiu. E depois de seis meses ainda se surpreendia com o poder da atração que sentiam um pelo outro.

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Ele ainda a chamava de Magrela, mas passara a reservar o apelido para os momentos de grande intimidade, quando experimentavam uma paixão que jamais imaginara ser possível. Havia amizade entre eles, momentos de humor, coisas que faziam juntos, como subir ao topo de Lennox Head para observar de perto os esportistas ousados que saltavam de asa-delta. Mas não havia um laço. Ela ainda trabalhava tanto quanto antes, e Peter nunca reclamava quando não podia contar com sua companhia. E vice-versa. Visitava Rosemont, o lar dos Hewitt, com freqüência, e conhecera Sean e May, a tia de Peter que administrava a rotina doméstica. Oh, e Paddy e Flynn, os cães que lembravam pôneis mas eram dóceis e encantadores. Peter costumava passar as noites em seu apartamento sempre que era possível, mas ela nunca havia dormido em Rosemont. E não se sentia excluída por causa disso, na verdade, sabia que essa era a solução correta. No entanto, tinha de admitir que em alguns momentos experimentava um certo desconforto. Era estranho que a gravidez pudesse cristalizar o sentimento, levando-a a formular algumas perguntas que devia ter respondido há meses. Por exemplo, aonde a relação os levaria? Seria esse inexplicável sentimento de desconforto provocado pela insatisfação, por querer mais do que considerava adequado ou conveniente à profissional de sucesso? Como se sentiria se ele rompesse o romance? Seria apenas uma substituta, uma fonte de apoio e conforto enquanto Peter se recuperava do golpe representado pelo divórcio? E, mais importante que tudo, o que acontecera com Serena para transformar o casamento em uma experiência tão amarga? Se algum dia alguém houvesse previsto que se encontraria na situação em que estava, teria rido. Clare Montrose nunca fora capaz de imaginar-se profundamente envolvida com alguém. Por outro lado, também não havia planejado um relacionamento como o que tinha com Peter. Estaria maluca? Porque, mesmo sem a agravante da gravidez, sabia que estava ligada a Peter Hewitt por fortes laços emocionais, embora odiasse admitir. O problema era que não tinha a menor idéia sobre o que ele sentia. Bem, dispunha de uma semana para refletir e colocar as idéias em ordem, enquanto ele cuidava de negócios importantes sem Sidnei, para onde viajara dias antes. O telefone tocou e ela respirou fundo, sabendo que o intervalo de meia hora chegara ao fim. A secretária anunciaria a chegada de um cliente, e só teria tempo para refletir sobre sua vida pessoal muito mais tarde, quando estaria cansada demais até mesmo para pensar. Mas era Peter. — Clare, posso ir jantar em sua casa amanhã à noite? Ainda estou em Sidnei, mas consegui resolver todos os problemas mais depressa do que imaginava. — É claro — ela respondeu. — Aconteceu alguma coisa? Era surpreendente que ele pudesse identificar a súbita tensão que a invadia através de uma mudança sutil em seu tom de voz. — Não, nada. Eu... estou cansada, como sempre. — Entendo. Às sete e meia está bem para você? PROJETO REVISORAS

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— Sim... estarei esperando ansiosa. Até logo. — Desligou o telefone e fechou os olhos. A semana com que contara para preparar suas defesas havia se transformado em uma noite. O telefone tocou novamente e continuaria tocando durante toda a tarde.

CAPÍTULO II

Às sete e quinze da noite seguinte, Clare estava pronta. Tanto quanto era possível. A mesa fora posta na varanda do apartamento do primeiro andar. A noite era linda e o sol se punha sobre o mar, banhando a paisagem em tons de vermelho e dourado. A grama que crescia na frente do edifício de dois andares se estendia até a areia da praia e, ao sul, Lennox Head erguia-se majestoso. O local era muito procurado pelos praticantes de asa-delta que, nos finais de semana, ofereciam um espetáculo colorido e emocionante. A baía formada por Lennox Head e Broken Head era um paraíso para os pescadores, tanto os que permaneciam sobre as rochas com suas varas quanto os golfinhos, que se aproximavam dos humanos em busca do alimento. Era comum vê-los ao amanhecer e no final da tarde, saltando sobre a superfície prateada com movimentos graciosos e alegres. O vilarejo ficava bem perto dali, pequeno, porém colorido com seus bares e cafés com mesas nas calçadas e uma cons tante atmosfera de férias. Mas Clare não pensava em nada disso enquanto estudava o próprio reflexo no espelho do quarto. Escolhera um vestido longo e fresco, calçara sandálias douradas de salto baixo e deixara os cabelos soltos. Escuros, eles contrastavam com os brincos de ouro e pérolas que adornavam suas orelhas. O vestido era solto, perfeito para uma noite quente de janeiro, mas decidira usá-lo por sua natureza discreta, pouco reveladora. Não que houvesse algo a ser revelado. Ainda não engordara um único grama, e as curvas permaneciam como antes, suaves e delicadas. A campainha soou. O abrir a porta, deparou-se com um homem de terno e gravata cujo ar formal não lembrava nem de longe o de Peter Hewitt. Ele brincou: — Esta é a casa da Sra. Montrose? — Sim, mas não creio que o conheça. — Posso entrar? Prometo que vai se lembrar de mim em alguns minutos. — Bem, nesse caso... — E afastou-se para que ele pudesse passar pela soleira. Assim que entrou, Peter tomou-a nos braços e beijou-a com ardor, despertando o conhecido desejo. — Tenho a impressão de que estava esperando por mim, Sra. Montrose. PROJETO REVISORAS

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— Oh, não. Esperava por outra pessoa. — Espero poder substituí-lo. — E levou-a para o quarto. Fizeram amor com a mesma paixão de sempre, encontrando um prazer intenso o bastante para fazê-los tremer. Depois, deitados na confortável cama de casal, permaneceram abraçados por alguns instantes, em silêncio. Clare foi a primeira a falar. — Nunca pensei que depois de seis meses ainda viveria mos momentos tão... intensos. — Está reclamando? — Peter perguntou sorrindo. — Não... — Sinto uma certa hesitação em seu tom de voz. — E sentou-se. Ela o imitou, puxando o lençol sobre o corpo nu. Depois de pensar por um momento, concluiu que o sentimento mais intenso era o de incredulidade. Lá estava ela, grávida, deixando-se envolver por jogos eróticos, desfrutando de um prazer físico tão potente que chegava a ser assustador. Seria correto? Não devia estar se sentindo menos sexy, mais responsável? — Clare? — Não estou reclamando. Na verdade, estou tão satisfeita que vou abrir mão do feminismo em favor da tradição. Deite-se e descanse enquanto vou buscar um drinque para você. Assim poderá relaxar enquanto tomo uma ducha e tento salvar o nosso jantar. Tentou levantar-se, mas ele segurou sua mão. — Podemos tomar banho juntos... como fizemos tantas vezes. E depois irei ajudá-la a salvar o jantar. Esse excesso de submissão pode ser prejudicial. — O que quer dizer? — Gosto da sua independência, Clare. Caso não tenha notado, é ela que torna tudo tão elétrico entre nós. — Ora, mas estou apenas exibindo minha independência de maneira diferente. Em outras palavras, faça o que eu disse. — E levantou-se rindo. Mas, enquanto tomava um banho rápido e vestia um roupão de algodão, notou que as emoções haviam mudado mais uma vez. Sentia-se culpada e falsa, porque só havia sugerido que ele relaxasse enquanto tomava um drinque para impedi-lo de entrar no banheiro, como era tão comum. Não queria que estudasse seu corpo sob uma luz mais intensa, caso houvesse algum sinal revelador. Por outro lado, mais cedo ou mais tarde ele teria de saber de tudo. Por que adiar o momento da verdade? Porque estava apavorada. Não sabia como Peter reagiria. Não sabia nem mesmo se ele a considerava mais que uma satisfatória parceira sexual. E talvez fosse justamente a distância que mantinham um do outro, sem mencionar sua famosa independência, que mantinha o romance tão interessante, vivo e eletrizante. Havia preparado frango ao curry e arroz, um dos pratos preferidos de Peter, e caprichara nos acompanhamentos. Depois de tomar uma ducha e trocar o terno por short e camiseta retirados da valise deixada no carro, ele sentou-se à mesa. A noite havia caído por completo, mas as estrelas e a luz do farol da baía de Byron iluminavam o céu. Uma garrafa de vinho repousava no balde de gelo, e ao ver que Peter servia a bebida em duas taças, Clare protestou: PROJETO REVISORAS

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— Não, obrigada. Acho que vou beber... água. Ele a estudou por um instante antes de encolher os ombros. Normalmente não bebia, mas costumava consumir uma ou duas taças de vinho branco quando jantavam juntos. Talvez ele estranhasse a recusa. Mas, em vez de questioná-la, Peter sorriu e comentou: — Aposto que vai ter um dia cheio amanhã. — Ultimamente, todos os meus dias são cheios. — Nunca pensou em trabalhar menos? — Não. — De repente tomou consciência de um súbito e estranho malestar. As mãos estavam suadas e o estômago ameaçava rebelar-se. — Mas... tenho pensado em contratar um estagiário, talvez até um advogado recémformado. — Se tivesse alguém para ajudá-la, poderia passar mais tempo comigo. Talvez até viajar... — Viajar? — Bem... uma das razões pelas quais antecipei meu retorno é que decidi ir aos Estados Unidos dentro de alguns dias. Vai acontecer uma conferência sobre as técnicas modernas do cultivo das castanhas, e acho que só terei a ganhar participando da reunião. Tenho algumas questões comerciais para resolver na América, e resolvi aproveitar a oportunidade. Seria ótimo se pudesse ir comigo. — No momento não posso me afastar do escritório. — Você nunca pode se afastar do trabalho. — O que está propondo não é exatamente uma viagem de férias — ela murmurou, tentando conter a repugnância provocada pelo aroma do curry. — Mesmo assim, tenho certeza de que encontraríamos algum tempo para a... diversão. Clare tentou imaginar o panorama. Ela sozinha em um quarto de hotel, sem nada para fazer, enquanto Peter participava da conferência e comparecia a reuniões de negócios. E depois ainda teria de se mostrar grata pelos raros momentos de diversão. Na verdade, concluiu com um toque de amargura, não sabia mais se estava interessada nesse tipo de diversão, por mais elétrica que fosse. — Infelizmente, mesmo com um funcionário ou associado, o máximo que conseguirei será manter um expediente normal. Duvido que possa tirar férias nos próximos... anos. Peter terminou de comer e cruzou as mãos atrás da nuca. — Bem, foi só uma idéia. — Quanto tempo vai ficar fora? — Três semanas. Clare arregalou os olhos. Jamais haviam passado tanto tempo afastados. — Vejo que os compromissos são muitos — apontou. — Tenho pensado em diversificar. O café é só uma promessa nesta parte do mundo, mas acredito em seu potencial. No entanto, gostaria de me informar sobre o cultivo dessa planta antes de investir nela. — As castanhas e os abacates não são suficientes? — Castanhas sofrem constantes flutuações de preço no mercado mundial, especialmente desde que o Havaí começou a produzi-las e conquistou parte do

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nosso mercado na América. E os abacates são imprevisíveis. A agricultura é imprevisível. Por isso é importante contar sempre com várias opções. — Bem, boa sorte! — Levantou-se para tirar os pratos, o dela quase intocado, e percebeu que ele a observava atentamente. — O que foi? — Nada. — A resposta foi precedida por uma pausa breve. — Falando em café... — Já vou providenciar, Sr. Hewitt. Fique aqui e espere. Felizmente ele acatou a sugestão, porque, enquanto esperava que a cafeteira elétrica terminasse a tarefa, o mal estar que começara durante o jantar tornou-se mais intenso, obrigando-a a correr para o banheiro. Incrédula, apoiou o rosto no espelho frio e esperou que o mundo parasse de rodar. Nunca tivera náuseas! Devia ser o que os médicos chamavam de enjôo matinal. Mas à noite? E justamente naquela noite? Era incrível! Depois de alguns minutos, lavou o rosto, respirou fundo e voltou à cozinha. Peter continuava sentado na varanda, apreciando a beleza do mar. — Blue Montain especial — ela disse ao colocar a bandeja sobre a mesa. — Quem sabe? Em breve poderei estar servindo Rosemont Premium Blend. — Talvez um dia, mas não em breve. A cultura levaria alguns anos para desenvolver-se. Ficaram em silêncio por alguns minutos, Clare bebendo o café devagar, testando a capacidade de aceitação do estômago. Como se não bastasse a náusea, que finalmente a deixara em paz, ainda tinha de lidar com a atmosfera tensa que se instalara entre eles. Sem parar para pensar, disse subitamente: — Costuma ver Serena quando vai a Sidnei? — Às vezes. Por quê? — Por nada. Como ela está se saindo? — Por que isso agora, Clare? — Por nada, já disse. Se prefere mudar de assunto... — Serena está desfrutando do estilo de vida movimentado e glamouroso do qual ela acredita que a privei. Clare piscou surpresa. — Quer dizer... que ela não gostava de Rosemont? — Não. E costumava dizer que se sentia enterrada em vida. — Então... Não. Esqueça. — Fale de uma vez, Clare. Ela respirou fundo, tentando conter a irritação provocada por seu tom de voz. Não tinha o direito de estar curiosa? — Ia dizer que deviam ter se informado melhor sobre gostos e preferências antes de se casarem. — Tem razão. Mas quem a conhece é capaz de entender que, à primeira vista, esse tipo de preocupação deixa de ser importante. Particularmente para um homem. — Entendo. Vi Serena no vilarejo e depois, durante o processo de divórcio. — Nesse caso, creio que não preciso explicar o que quero dizer. Não, ela pensou, lembrando os cabelos longos e louros, os olhos azuis e o corpo perfeito e bronzeado revelado pelo vestido curto e justo. Como se não bastasse a aparência física, Serena possuía um ar de altivez e sensualidade ao qual poucos homens poderiam resistir. PROJETO REVISORAS

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— É verdade — disse finalmente. — Um comentário típico da sua profissão. Não quer se comprometer? — Peter... — Parou antes de dizer que estava grávida, e por isso expressava a curiosidade que até então mantivera controlada. — Estou cansada. Como você mesmo disse, amanhã terei um dia cheio. — Está me mandando embora? — Não foi o que eu disse, mas se prefere interpretar dessa maneira... De qualquer forma, não estamos conseguindo nos entender muito bem esta noite. — Bobagem. Onde está seu espírito esportivo, afinal? — Não se atreva a falar comigo nesse tom! Não tenho sete anos de idade e não sou seu filho! E quanto ao meu espírito esportivo, você conseguiu arruiná-lo com essa conversa aborrecida e sem sentido. — Sean já tem oito anos, e você parecia satisfeita com a conversa. Se não estou enganado, foi você quem começou a fazer perguntas e... Ah, esqueça. — Levantou-se e beijou-a na testa. — Acho melhor ir embora antes que isto se torne uma daquelas sórdidas cenas domésticas. Boa noite, Sra. Montrose. Clare estava deitada no centro da cama. Os olhos permaneciam secos, mas sentia-se perturbada. Deixara os pratos sujos sobre a mesa pela primeira vez na vida, incapaz de suportar a idéia de lidar com restos de comida. Mas pensar no desfecho desastroso da noite era ainda pior. Uma sórdida cena doméstica... Como tudo começara? A atmosfera se tornara tensa antes mesmo de mencionar o nome de Serena. Talvez houvesse sido a proposta de Peter sobre viajarem juntos aos Estados Unidos. Ele jamais a convidara para acompanhá-lo em uma de suas viagens, mas devia saber que a perspectiva não a deixaria entusiasmada. Talvez houvesse decidido lutar por uma amante mais disponível. O pensamento provocou um tremor. Como ele reagiria se soubesse que, naquele momento, desejava mais que uma simples viagem ao outro lado do mundo? Gostaria de poder aninhar-se em seus braços, sentir-se segura e protegida, sem ter de pensar no trabalho, nas decisões a serem tomadas ou em qualquer outra coisa que não fosse o nome do bebê, porque ele teria tudo sob controle. Suspirando, deixou a mente vagar pela primeira vez desde a descoberta sobre a gravidez. Uma menina? Seria o ideal, tendo em vista que Peter já era pai de um garoto. Por outro lado, Sean poderia preferir um irmão. Mas, se tivesse de enfrentar a nova etapa sozinha, talvez uma menina fosse melhor. De qualquer maneira, a escolha não estava em suas mãos. O sexo do bebê já havia sido definido. E, menino ou menina, essa criança seria dela... Valerie Martin foi visitá-la alguns dias mais tarde, no sábado de manhã. Clare não tivera notícias de Peter desde a noite em que haviam discutido, e não sabia nem mesmo se ele já havia deixado o país. — Como vai indo? — Não sei — respondeu cautelosa. — Creio que tive meu primeiro enjôo matinal, mas foi à noite, e eu havia comido frango com curry e... Valerie riu. — Milhões de indianas comem curry todos os dias, e enjôos noturnos também são muito comuns. PROJETO REVISORAS

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— Foi estranho. Terrível, mas rápido, e desapareceu sem deixar rastros. Desde então não voltei a sentir náuseas. — Está descrevendo uma ocorrência normal. A propósito, esqueci de dizer que seu primeiro ultrassom será realizado por volta da décima oitava semana de gestação. Posso tomar todas as providências, mas também posso indicar um bom obstetra, caso prefira ser acompanhada por um especialista. Valerie Martin era mãe de quatro filhos e conhecia toda a história de sua gravidez. — Isso é mesmo necessário? Prefiro que você acompanhe a gestação. — Tenho uma idéia. Podemos procurar um bom obstetra e deixá-lo de prontidão para o caso de alguma complicação. Eu acompanharia toda a gravidez, e ele a examinaria duas ou três vezes e acompanharia os exames de ultrassom. E ficaria preparado para a hora do parto. Assim cobriremos qualquer eventualidade, embora não creia que possa haver algum contratempo. Clare relaxou. — Obrigada. Tudo isso é muito novo para mim, e... — Eu sei. Quero dizer, imagino. — Acho que estive muito envolvida com minha carreira, mas... não é só isso. Sou filha única, e não tenho tios ou primos. — Seus pais também são filhos únicos? — Não realmente. Minha mãe teve um irmão que morreu logo depois do parto, mas foi criada como filha única. Nunca convivi com bebês ou mulheres grávidas. Perdi o contato com a maioria das minhas amigas antes que elas se tornassem mães e... Bem, sempre fui uma pessoa solitária. — Já contou a ele? Desculpe-me se estou sendo indelicada, mas uma relação como a que vamos ter pressupõe um mínimo de confiança e... — Não precisa se justificar. Sei que só está interessada no meu bemestar. No entanto, ainda não contei a ninguém sobre a gravidez. Nem mesmo ao pai da criança. Só o vi uma vez, há duas noites, e não consegui tocar no assunto. — É melhor contar de uma vez, Clare. E quanto a seus pais? — Minha mãe sempre sonhou ter netos. Meu pai também, embora suas razões sejam diferentes. Mas ambos preferiam que eu me casasse antes de engravidar. — Todos os avós acabam apaixonados pelos netos, quaisquer que sejam as circunstâncias. — Valerie respirou fundo. — Bem, como sua médica, tenho o dever de lhe dar alguns conselhos, e o mais importante de todos é sobre esse ritmo frenético. Vai ter de descansar mais, Clare. Sou favorável a exercícios físicos moderados, mas o primeiro trimestre exige cuidados especiais. — Vou contratar um funcionário para o escritório. — Boa idéia. — A médica levantou-se e deixou um pacote sobre a mesa de Clare. — Aqui estão algumas apostilas com todas as informações de que precisa sobre os próximos sete meses. O que deve fazer, o que é melhor evitar, dados sobre os cursos existentes na área e outras coisas que toda gestante quer saber. — Obrigada. Vou tentar ler pelo menos parte deste material no final de semana.

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Havia planejado trabalhar no fim de semana, embora fechasse o escritório ao meio-dia de sábado, mas ao trancar a porta e sair do edifício para ir almoçar, quase foi atropelada por um Range Rover marrom. O motorista desviou dela, brecou com violência ao estacionar e desceu do automóvel. — Que diabo pensa estar fazendo? — perguntou, os olhos cinzentos furiosos e o rosto tenso. Respirando com dificuldade, Peter ainda tentava superar o susto que fizera disparar seu coração. — Eu... estava distraída — Clare gaguejou. — Podia ter morrido! Ou causado um acidente. — Sinto muito. Eu... lamento de verdade e... O que está fazendo? — Raptando você — ele respondeu com sarcasmo enquanto a empurrava para dentro do carro. Podia tentar fugir ou argumentar, mas sabia que seria inútil. Conhecia aquele brilho determinado que iluminava os olhos de Peter. Por isso entrou no Range Rover e esperou até que ele se acomodasse diante do volante para voltar a falar. — Pensei que já houvesse deixado o país. — Como pode ver, ainda estou aqui. Partirei amanhã, e por isso vim buscá-la para almoçar conosco em Rosemont. E se tiver a ousadia de dizer que pretendia trabalhar esta tarde, juro que não responderei por mim. Tenho sido paciente e compreensivo, tenho apoiado essa sua obsessão pela carreira, mas agora chega. Você ultrapassou todos os limites. Hoje é sábado, tarde de sábado, e meu último dia aqui antes de um longo período de ausência. Clare engoliu em seco. — Eu não sabia se... queria me ver novamente. Peter ficou em silêncio por um instante enquanto esperava para atravessar a movimentada estrada para a Baía Byron. Depois devolveu a pergunta: — Queria me ver outra vez, Clare? A voz parecia estar presa na garganta, mas finalmente conseguiu responder: — Tenho estado miserável desde que... desde aquela noite. E não consegui entender o que aconteceu. Portanto, não sabia como... abordá-lo. — Abordar-me? — Rindo, ele pousou uma das mãos sobre as dela, mantendo a outra no volante. — Clare, tudo que tinha a fazer era estalar os dedos, e eu teria respondido imediatamente. — Sabe muito bem que isso não é verdade! — Bem, talvez não. Mas eu teria ido até você de qualquer maneira. Também não sei o que aconteceu na última vez em que nos encontramos, mas é evidente que existe algo estranho entre nós, e gostaria de esclarecer tudo antes de viajar. Clare refletiu e concluiu que o problema não poderia ser resolvido em uma única tarde. Mesmo assim, disse: — Talvez tenhamos sido tolos por acreditarmos que poderíamos viver em uma espécie de casulo, em um mundo isolado no tempo e no espaço, um lugar protegido onde nada poderia nos atingir. — Você sempre pareceu satisfeita com a nossa situação. — Você também. E eu estava satisfeita. Era tudo muito conveniente, perfeitamente adequado ao meu estilo de vida. Mas nunca imaginei que PROJETO REVISORAS

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pudesse viver uma relação como a nossa, e por isso tenho enfrentado momentos de... desconforto. — Pode ser mais clara, por favor? Ela encolheu os ombros. — Tenho dúvidas, Peter. — Que tipo de dúvidas? — Por quanto tempo ainda estaremos juntos? Um relacionamento orientado basicamente para a satisfação física e tão distante em todos os outros aspectos pode durar? Ou sou apenas um degrau em sua vida, um porto seguro enquanto tenta superar o episódio com Serena? São essas as dúvidas. Atravessaram a Estrada Pacific e começaram a subir pela alameda arborizada e fresca que levava ao campo fértil onde estava localizada a propriedade Rosemont. — Era isso que a incomodava naquela noite? — Peter perguntou com a testa franzida. Clare respirou fundo. — Para ser bem franca, cheguei a imaginar se não estaria interessado em uma amante mais disponível. Alguém que pudesse amenizar o tédio de suas viagens de negócios, por exemplo. Um sorriso frio distendeu seus lábios. — O desconforto que diz sentir por conta do nosso relacionamento é intenso o bastante para transformá-la nesse tipo de amante? — Não. — A resposta foi firme, definitiva. — Então temos de reconhecer que por inúmeras razões, e apesar de uma certa insatisfação, é isso que nos convém. É claro que gostaria de tê-la comigo nessa viagem. Não nego que a solidão me incomoda, e que em alguns momentos me pergunto por que tem de trabalhar tanto, mas... — Continue. — Em seguida lembro-me de que você seria capaz de me odiar, se conhecesse meus pensamentos. Estou enganado, Clare? Há uma semana não teria estado. Mas de repente tudo mudara. — Por isso — ele prosseguiu depois de alguns instantes sem resposta — creio que não devemos alterar a ordem das coisas entre nós. — Eu... eu ia dizer... entendo — respondeu, socorrida repentinamente por algum recurso interno. Sentia vontade de chorar, porque as distorções e evasivas haviam estabelecido o que sempre temera: Peter jamais se casaria com ela. — Você deve estar certo. Ele a encarou com ar intrigado por alguns instantes enquanto esperava que o mecanismo eletrônico abrisse os portões da propriedade. Depois respirou fundo e pisou no acelerador, mas teve de brecar com violência quando um pequeno índio americano coberto por tintas de guerra surgiu no seu caminho, dançando e cantando, brandindo um arco sem flechas e um galho de árvore que lembrava um machado. — Sean! É a segunda vez em menos de uma hora que quase atropelo alguém! — gritou para o filho. Clare pousou a mão no braço de Peter e começou a rir, porque Paddy e Flynn também haviam aparecido, e ambos exibiam expressões de sofrimento... e cocares de penas amarrados sobre suas cabeças.

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CAPÍTULO III

— Clare! — Sean exclamou excitado, saltando para dentro do veículo. — Adivinhe quem sou eu? Peter desceu e abriu a porta de trás para permitir a entrada dos cachorros. — Um índio? — Clare arriscou com expressão séria. — É claro! Mas que tipo de índio? — Um Sioux? Cheyenne? Apache? Não — deduziu ao vê-lo balançar a cabeça pela terceira vez. — Desisto. — Sou um Nez Percé — Sean revelou orgulhoso. Clare e Peter trocaram um olhar intrigado antes de ele pôr o carro em movimento. — Nunca ouvi falar deles — confessou Clare. — Foram os maiores. Grandes caçadores, navegadores e guerreiros, perderam seu território para o governo em 1877. Nez Percé significa nariz furado. — Fico feliz por ver que não furou o seu, Sean. — Cheguei a pensar em furá-lo, mas tia May disse que eu poderia morrer de hemorragia e jurou que seria a primeira a dançar sobre minha sepultura. — Sean, se esteve dando trabalho a tia May... — Eu?! — Sean olhou para o pai com ar ofendido. Em seguida mudou de assunto. — Veja o que Serena mandou para mim. Ela não é um modelo de mãe, mas sabe como conquistar o coração de um garoto. — E mostrou o arco que segurava em uma das mãos. Mais uma vez Clare e Peter trocaram um olhar surpreso, não só pela inteligência e pela eloqüência do menino, mas por sua ingenuidade e pela maneira como insistia em chamar a mãe pelo nome, tratando-a como uma irmã mais velha por quem sentia piedade e compreensão. May Hewitt esperava por eles na varanda. Rosemont era uma antiga casa de fazenda construída sobre uma pequena elevação de onde era possível ver acre após acre de castanhas e abacates. Erguida na mesma época em que os Nez Percé foram privados de seu território, era térrea e ampla, com paredes brancas e varandas que a contornavam. Cercada por gramados exuberantes, ela recebera seu nome por causa das roseiras que formavam encanta dores jardins e perfumavam o ar. May Hewitt era a tia solteira de Peter, uma irmã de seu pai que sempre havia morado em Rosemont, com exceção do período que passara no colégio interno onde lecionara e do qual, mais tarde, fora diretora. Aposentada, ainda era uma educadora dedicada e a melhor orientadora que o elevado QI de Sean poderia ter recebido, embora vivessem em um estado constante de trégua armada. Peter jamais discutira o assunto, mas Clare tinha certeza de que a principal razão por trás da facilidade com que Serena aceitara o arranjo relativo à custódia do filho fora sua incapacidade de lidar com Sean. Assim, em vez de ir morar com a mãe e passar as férias e alguns finais de semana com o pai, como era comum, Sean Hewitt vivia justamente o oposto, e PROJETO REVISORAS

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a situação parecia contentar a todos, apesar de todas as vezes em que May se dizia disposta a dançar sobre o túmulo do garoto. — Clare, querida, que bom vê-la! — May abraçou-a. Era uma mulher alta, dona de um rosto muito parecido com o de Peter, apesar das marcas deixadas pelo tempo, e de cabelos castanhos com mechas grisalhas. Apesar de estar sempre elegante e bem vestida, sua afinidade com a terra era evidente. Discreta, nunca fizera comentários sobre o relacionamento entre Peter e Clare, mas não escondia o prazer que sentia na companhia da jovem. — Que calor! — May continuou. — Devíamos estar em Lennox nadando. O almoço está pronto. Sean, você não pode sentar-se à mesa nesse estado. Quer fazer o favor de acabar com o sofrimento de Paddy e Flynn? Sean parecia pronto para uma boa discussão, mas Peter pousou a mão sobre o ombro do filho e disse: — A vida é cheia de coincidências. Não sabia nada sobre os Nez Percé até a semana passada, quando vi o nome da tribo em um livro cujo cenário é o território de Montana. Tem razão, eles eram o máximo! — Uau! — Sean exclamou entusiasmado. — Pode me emprestar esse livro? — Não. É velho demais para alguém da sua idade. Mas a história menciona a afinidade dessa tribo com os lobos. Se quiser saber mais sobre o assunto, posso lhe contar alguns trechos enquanto nos lavamos. Pai e filho afastaram-se satisfeitos. May sorriu e convidou Clare para um aperitivo antes do almoço. — Seria ótimo. Isto é, se tiver uma bebida gelada e sem álcool. — É claro que tenho, querida. — E foi buscar um suco natural. A mesa havia sido arrumada na varanda e a refeição incluía carne fria, salada de batatas, salada de folhas e torta de vegetais. Enquanto saboreava o suco, Clare perguntou: — Tem cuidado de Sean durante todo o tempo? — Oh, não! Amanhã mesmo o levarei ao encontro de Serena. Ele vai passar duas semanas com a mãe. Assim ela terá uma boa oportunidade de testar sua paciência, e Sean voltará dócil e manso para a última semana de ausência de Peter. — Por que não vão passar alguns dias comigo? A praia costuma deixar as crianças cansadas. Peter voltou à varanda a tempo de ouvir o restante da conversa. — O único problema — May apontou — é que teríamos de levar o computador. Sean se recusa a ficar longe dele. Foi lá que ele soube sobre os tais índios americanos que usavam brincos no nariz. — Tenho um laptop que ele pode usar, se quiser. E dois quartos vazios. As palavras caíram em um poço de silêncio. Durante esse período, Peter estudou Clare e foi estudado por May. Clare também percebeu que, sem querer, havia ultrapassado um limite invisível, a linha que separava seu romance com Peter do resto do mundo, especialmente da família dele. Por que tomara uma atitude tão inesperada e estranha? Por gostar de Sean? Por ele ser o irmão do filho que estava esperando? Peter foi o primeiro a falar. — É muita bondade sua, Clare. May, deixo a decisão em suas mãos. PROJETO REVISORAS

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— Bem, alguns dias na praia são sempre bem-vindos. — Quem vai passar alguns dias na praia? — Sean perguntou ao juntar-se ao grupo, ainda exibindo os traços apagados de sua pintura de guerra. — Clare convidou você e tia May para irem passar alguns dias com ela enquanto eu estiver viajando. — Uau! Vou poder pescar, surfar e observar aqueles malucos que pulam de asa-delta! Talvez até fale com um deles! Espere só até Serena saber disso. — Desculpe-me. Não devia ter agido daquela maneira. Clare e Peter estavam passeando pela plantação de castanhas depois do almoço. May recusara o convite para acompanhá-los e Sean fora aperfeiçoar sua dança de guerra. Estavam em uma clareira perto do riacho, e havia meia dúzia de bancos de pedra sob as árvores que marcavam os limites do espaço circular. Peter sentou-se em um deles e convidou-a a fazer o mesmo. Clare ajeitou o chapéu que havia tomado emprestado de May. Ali em Rosemont, era impossível não perceber as raízes da família Hewitt, o orgulho que sentiam pela terra e a alegria que encontravam em cultivá-la. Peter era um homem educado e culto, um empresário astuto, mas só precisava caminhar ao lado dele por entre as árvores de castanhas e abacates para saber que o amor pela terra fluía como um rio dentro dele. De sua parte, considerava as fazendas lugares quietos demais, sombrios, e nunca plantara uma única semente em toda sua vida. — Do que estava falando, Clare? — O quê? Oh, sim... Disse que não devia tê-los convidado para ficarem em minha casa. — Por que não? Está arrependida? — E claro que não! Gosto da companhia de May, e Sean é uma criança adorável. — Então... O sol criava reflexos brilhantes em seus cabelos e havia manchas escuras de suor na camisa de algodão azul. Olhou para si mesma, para a blusa de seda e a saia de linho bege que vestira para ir trabalhar naquela manhã. Usava meia-calça, mas felizmente optara por sapatos baixos, ou estaria morta de cansaço. Era estranho, mas tinha a sensação de ter saído do escritório há séculos! Suspirando, tentou não dar importância às manchas escuras que começavam a surgir em sua blusa e ajeitou o chapéu sobre a cabeça. — E óbvio que os surpreendi com o convite — prosseguiu. — Senti-me como se houvesse atravessado a Grande Fronteira. Depois, quando Sean mencionou Serena, compreendi por quê. — Acha que Serena pode fazer alguma objeção? — Não sei. Não sei nem se ela tem conhecimento da minha existência... mas tive a sensação de estar revelando o nosso segredo. Para May, pelo menos... Quero dizer, ela sabe sobre nós? — Deve saber, mas nunca fez perguntas. May é muito discreta. — A menos que o assunto tenha alguma relação com Sean. — Vejo que é uma excelente observadora. Tem razão, May é capaz de tudo por meu filho, apesar de estarem sempre discutindo. Ela foi uma bênção quando... quando a vida com Serena provou ser bem diferente do paraíso que PROJETO REVISORAS

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eu imaginava. De qualquer forma, não creio que possa haver algum mal em levá-los para sua casa por uns dias. Desde que ele não estivesse por perto, porque assim Sean não seria exposto à presença da amante do pai. Era isso que Peter tentava dizer? — Espero que saiba que não será um período muito tranqüilo — ele avisou. — Bem, vou esperar pela decisão de May. — De repente se deu conta de que a situação era ainda mais delicada do que parecia. Se os enjôos voltassem a perturbá-la, não teria como escondê-los dos visitantes. O que estava acontecendo, afinal? Nunca se havia comportado de maneira inconseqüente. Jamais tomara decisões sem pensar. Seria uma conseqüência da gravidez? E como poderia continuar escondendo seu estado de todos? Os funcionários, os clientes, o próprio Peter... Logo todos começariam a perceber certas mudanças. Clare respirou fundo. Mas ele falou primeiro. — Sabe o que seria delicioso? — O quê? — Tirar a roupa e nadar no riacho. — Aqui? — Passei minha vida toda nadando neste rio. A água é limpa e fresca, o leito não oferece grandes perigos, e as árvores oferecem muita privacidade. — Se tivesse um maio, não perderia a oportunidade. Ele riu. — Pode nadar com suas roupas íntimas, se quiser. Aposto que está com calor. — Sim, estou... mas me recuso a correr o risco de ser surpreendida por um Nez Percé. Peter deu uma gargalhada e tirou um lenço do bolso. — Nesse caso, vamos ter de nos contentar com menos. — E mergulhou o lenço na água do rio antes de colocá-lo na mão dela. — Obrigada. — Clare refrescou o rosto e o pescoço. As gotas que escorriam por sua pele eram frias, e ela repetiu o procedimento três vezes. — Delicioso! — Como você. Ao encará-lo, notou que ele mantinha os olhos fixos em sua blusa. Abaixou a cabeça e viu que o tecido molhado havia aderido à pele, revelando o desenho do sutiã de renda. — Eu... — Vermelha, tentou levantar-se, mas ele a impediu. — Por favor, fique onde está. Quero levar este momento comigo. Assim poderei pensar em você quando estiver sozinho. E sempre tão elegante e sofisticada... e assim mesmo consegue revelar uma inocência espantosa, mesmo depois de seis meses de completa intimidade. Quero poder ao menos imaginá-la na água comigo, nua, encantadora como uma ninfa com os cabelos molhados e negros, os olhos verdes e a pele pálida. Clare respirou fundo, tentando resistir às sensações familiares que sempre experimentava ao lado dele, ao calor que começava a inundar seu corpo. — Peter, eu... Mas não pode prosseguir, porque ele a silenciou com um beijo ardente. — Pense em mim enquanto eu estiver longe, Clare — murmurou, beijando-a novamente. PROJETO REVISORAS

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Como se fosse possível não pensar! Momentos depois foram interrompidos pelos latidos de Paddy e Flynn. Felizmente os cães anunciaram a aproximação da perigosa tribo Nez Percé, porque em seguida Sean surgiu na clareira correndo e gritando, brandindo suas ar mas e exibindo a pintura de guerra. E os teria surpreendido em uma situação embaraçosa, não fosse o aviso dos dois cachorros que, infelizes, ostentavam novamente seus cocares coloridos. O resto da tarde transcorreu na mais completa tranqüilidade, até Sean surpreendê-la mais uma vez. Clare e o garoto estavam diante do computador instalado no quarto dele, enquanto Peter acertava os últimos detalhes com o capataz da propriedade antes da viagem. Admirado, o menino revelou que ela era a única pessoa que sabia tanto quanto ele sobre computadores. — Ora, obrigada pelo elogio! Sean a encarou com ar sério. — Posso mesmo passar alguns dias com você, Clare? — Se seu pai e sua tia concordarem... — Acho que nós nos entendemos muito bem, não é? Os olhos azuis como os da mãe iluminavam o rosto vivo emoldurado por cabelos louros. — Tem razão — ela concordou. — O que pode ser importante se meu pai se casar com você. Ainda não discuti o assunto com ele, mas... — Sean! — Não se preocupe, não vou dizer nada a meu pai, mas seria ótimo. Mamãe tem um novo namorado, e a relação parece ser séria. O sujeito é estranho — opinou com uma careta. — Ele fala comigo como se eu tivesse dois anos de idade, mas tem uma casa enorme e um jardim, e na última vez em que nos encontramos mamãe perguntou se eu gostaria de ir morar com eles. Ela disse que posso levar Paddy e Flynn. — E o que você respondeu? — Prometi pensar no assunto, apesar de estar muito satisfeito com a situação atual. Afinal, passei toda minha vida aqui — disse, como se sua vida compreendesse décadas. — E o que ela disse diante disso? — Serena acredita que será muito melhor se eu puder conviver com um pai e uma mãe, mesmo que o pai seja apenas um padrasto. Então pensei que seria mais fácil aceitar alguém de quem eu goste de verdade, alguém que possa ser útil, como neste caso. — E apontou para o computador. — Sean... — Clare parou, dividida entre a vontade de rir e um terrível sentimento de compaixão pela criança envolvida em tão terrível dilema. — Além do mais — ele continuou —, não seria capaz de deixar meu pai sozinho e triste. Portanto, se ele a pedir em casamento, ficarei muito feliz por ser seu enteado. E Serena não terá mais de se preocupar comigo. — Sean, seu pai e eu nunca falamos sobre... — Sim, eu sei, mas se algum dia ele tocar no assunto, já sabe o que penso. — O que pensa... sobre o quê? — Peter perguntou ao entrar no quarto. — Sapatos, navios, cera, repolhos e reis — Sean respondeu com ar sério. Intrigado, sentiu a tensão súbita na atmosfera e achou melhor não insistir. — Pronta para ir embora? — perguntou a Clare.

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— Sim. — E levantou-se aliviada. Depois virou-se e estendeu a mão para Sean. — Hoje recebi um grande elogio, e agora quero retribuí-lo. Você é o menino mais inteligente que conheço. E um dos mais gentis, também. Sean balançou a cabeça e voltou ao teclado. — O que significa tudo isso? — Peter quis saber assim que se afastaram do quarto. — Nada especial. Digamos que Sean e eu estávamos apenas manifestando uma... admiração mútua. Ele aprecia minha habilidade com o computador. Estavam atravessando o vilarejo quando ele perguntou: — Quer que a deixe no escritório? — Não, obrigada. Irei buscar o carro amanhã. Será bom caminhar um pouco. — Lamento não poder passar esta noite com você. Prometi a Sean... Ela pousou a mão em seu braço. — Tudo bem. — Espero que tenha me perdoado por tê-la raptado. Estavam parados diante do edifício em que Clare morava. — Tive um dia adorável. — Quer dizer que estou perdoado? — E claro que sim. — Clare sorriu e beijou-o nos lábios. — Cuide-se. Eu... estarei aqui quando você voltar. Peter a viu desaparecer além da porta do prédio. Segurando o volante com força, respirou fundo para aliviar a súbita tensão e, depois de uma breve hesitação, partiu. O que seria necessário para prendê-la? Talvez fosse impossível. Seria a necessidade de independência um legado do pai dominador? Ela dava a impressão de não se importar com nada que não fosse a carreira, mas não sabia se a aparência correspondia à realidade. Se a pedisse em casamento... Peter deteve o fluxo de pensamentos e balançou a cabeça. Já haviam discutido certas contradições entre preferências e estilos e vida. Em alguns momentos tentava imaginá-la em Rosemont e a expressão "enterrada em vida" surgia em sua mente como uma luz ofuscante. Mas... seria possível comparar Clare e Serena? Sentada na varanda, Clare desfrutava da brisa fresca que soprava do mar. As condições climáticas que haviam levado dezenas de esportistas ao topo de Lennox Head, colorindo o céu com os aparatos coloridos, também provocara a elevação das ondas, atraindo os surfistas. Era surpreendente como a notícia se espalhava. Fosse um dia ensolarado ou chuvoso, quente ou frio, eles sempre apareciam quando a maré subia. Com seus cabelos longos e claros, suas roupas despojadas e coloridas, chegavam em carros antigos ou velhas bicicletas, as pranchas sob um braço e o entusiasmo estampado nos rostos bronzeados. Era uma cultura estranha, quase mística, mas com um único objetivo: seguir as ondas. Suspirando, desejou poder dedicar-se a um único propósito: acalentar tranqüilamente o bebê que crescia em seu útero. Não que isso fosse impossível. Dispunha de segurança financeira, não precisava trabalhar para sobreviver e podia fazer o que bem entendesse. Mas toda criança merecia um pai. Era o que pregava a cultura acidental. E Peter era um bom pai. Só não sabia se ele desejava ser pai novamente. PROJETO REVISORAS

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Em Rosemont, à beira do riacho, estivera prestes a revelar a gravidez, mas ele a interrompera. Falara sobre coisas adoráveis e lisonjeiras, mas que a impediram de tocar no assunto que se tornara o centro de sua existência. Porque, se a atração de Peter por ela fosse apenas física, o que poderia acontecer quando estivesse gorda e pesada? Além do mais, ele já vivera a experiência. Tinha um filho inteligente e crescido. Por que complicar sua vida? Não fora exatamente sua independência que a tornara a parceira per feita? Ou quase perfeita. Uma profissional dedicada e competente, sim, uma mulher que jamais o sufocaria ou importunaria com reivindicações ou cobranças, sim, mas alguém cuja disponibilidade não correspondia às expectativas do homem ativo que se sentia solitário em suas viagens de negócios. E havia Sean. Ele era inteligente demais para não saber que havia mais que uma simples amizade entre ela e Peter, e estava preocupado com a possibilidade de Serena se casar novamente, o que causaria a infelicidade do pai. Qual seria o verdadeiro significado desse temor? Peter ficaria triste e solitário sem ele, ou com a perda definitiva de Serena? Era horrível ter de admitir que a mulher a perturbava tanto. Naquela noite, quando foi para a cama, Clare tinha uma única certeza: precisava encontrar alguém com quem pudesse dividir suas preocupações e dúvidas. O destino colocou essa pessoa na porta do escritório na manhã de segunda-feira. — Sue... é você? — Clare perguntou incrédula ao entrar no edifício com as chaves na mão. — Sou eu! — Sue Simpson, a única amiga verdadeira que fizera na faculdade de direito, abraçou-a sorrindo. Alegre e simples, ela possuía duas grandes ambições: ser uma boa advogada e uma campeã do surf. Naquele momento ela era a personificação da surfista com os longos cabelos castanhos trançados, a pele bronzeada, as roupas coloridas e as sandálias de borracha em seus pés. — Como... — Parei em Lennox a caminho de Brisbane. Meus pais têm um chalé no vilarejo, e não resisti ao apelo dessas ondas maravilhosas. Estava passando pela rua para ir comprar o jornal quando vi a placa com seu nome na porta deste edifício e decidi esperá-la. Clare, você se saiu muito bem! Um escritório só seu! Enquanto isso, estou desempregada e sem nenhuma perspectiva. — Porque quer! Conheço sua competência. Sei que pode encontrar um emprego em qualquer lugar do mundo. — E verdade — ela riu. — Tirei um ano de férias para perseguir as maiores ondas do mundo, mas agora o período de sonhos se aproxima do fim, e preciso voltar a trabalhar. Tem um emprego para mim? — Bem... — Estou brincando. Tenho algumas entrevistas marcadas em firmas de Brisbane. — Por que não entramos e conversamos um pouco? Você pode ser a solução para todos os meus problemas. Ou quase todos. Meia hora mais tarde o acordo estava fechado.

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A competência e a seriedade com que Sue encarava a profissão eram evidentes, apesar de seu amor pelo surf, e foi com essa atitude responsável que ela discutiu todos os detalhes. — Acho que podemos estabelecer um período de três meses de experiência — Clare sugeriu. — Afinal, não pode saber se vai se adaptar aqui. A prática em Lennox Head é muito diferente daquela encontrada nas grandes firmas de Brisbane, mas se decidir ficar, dentro de três meses poderá tornar-se sócia do escritório. — Clare, tenho certeza de que serei muito feliz aqui. Posso ir morar no chalé de meus pais, com o mar à minha porta, e levaria anos para conquistar uma sociedade em qualquer outro lugar. Além do mais, nasci e cresci em Lismore, onde conheço muita gente. Posso atrair clientes importantes para nós. — Ótimo. Mas quero que saiba que pretendo reduzir minha carga de trabalho. — E uma boa idéia, depois de ter passado todo esse tempo atuando sozinha. O processo dos Hewitt deve ter sido exaustivo. Como conseguiu conquistá-los? — Você os conhece? — A tia de Peter foi minha professora, e depois tornou-se meu maior pesadelo ao assumir a direção do colégio onde estudei. — Sue deu uma gargalhada. — Não, não é verdade. Mas nossas famílias se conhecem há muito tempo, desde que posso me lembrar. — Oh. — E impressão minha, ou tornou-se um pouco mais reservada depois que mencionei o nome dos Hewitt? Reconheço que Serena é insuportável, mas quanto aos outros membros da família... — Serena e Peter divorciaram-se. Eu o representei no processo. Sue assobiou admirada. — Estou impressionada com seu sucesso. — Espere só até ouvir o resto da história. — E contou sobre o envolvimento com Peter e a gravidez. — Clare! — Sei que sou a última pessoa que poderia imaginar envolvida nesse tipo de confusão. — Não... Por isso está tão radiante! — E contornou a mesa para abraçar a amiga. O abraço provocou uma onda de emoção incontrolável e, aba lada, Clare começou a chorar, embora estivesse também rindo. — Você é a primeira pessoa a saber sobre o bebê. Isto é, além da médica, é claro. — Quando vai contar a Peter? — Quando encontrar o momento e o local adequados. Eu... não sei como ele vai reagir. — Bem, de agora em diante tem uma amiga com quem pode contar. Na manhã seguinte, a sala vizinha à de Clare havia sido preparada para receber a nova ocupante, que já entrevistava candidatas ao cargo de secretária.

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Três semanas passaram depressa, graças ao apoio constante da amiga e colega de profissão, cuja companhia constante aliviava a solidão e a pressão do momento que vivia. Peter não telefonou, o que já era esperado, e Clare agradeceu à sorte por não ter de enfrentar conversas evasivas e perguntas perigosas. May telefonou uma semana antes da data marcada para o retorno de Peter a fim de informá-la sobre uma repentina mudança nos planos. Sean contraíra catapora e ficaria com a mãe até recuperar-se. Depois da revelação do menino, apesar de uma ponta de preocupação, Clare respirou aliviada, e passou cerca de uma hora procurando por um CDROM interessante para enviar com um pacote que May mandaria pelo correio. O alívio por não ter de encontrar o filho e a tia de Peter devia-se principalmente ao fato de estar grávida de quase três meses e já exibir alguns sinais. Deixara de ser a magrela de antes, embora roupas adequadas ainda servissem como um bom disfarce. Essas mesmas roupas, no entanto, significavam que havia adotado um estilo mais solto que por si só poderia ser uma pista. Até então, Sue era a única a saber sobre o filho que estava esperando, e tinha consciência de que devia informar os funcionários antes que os rumores começassem a circular pelos corredores do escritório, mas... o que poderia dizer? Que seria mãe de um filho cujo pai ainda nem sabia sobre sua existência? A maior mudança consistia no tamanho e na sensibilidade dos seios. As auréolas haviam escurecido e em alguns dias até mesmo o sutiã representava uma tortura. No mais, sentia-se bem. Os enjôos haviam diminuído, embora pudessem ser reativados por certos alimentos, mas Valerie afirmara que ela seria uma das felizardas, a julgar pelo progresso da gravidez. E agora que contava com o apoio de Sue e retirara parte da carga do trabalho de sobre seus ombros, habituara-se a dar longas caminhadas pela praia e alimentar-se de maneira saudável, o que aliviara parte da preocupação com o bem-estar do bebê. Era impossível negar, estava excitada. A natureza conseguira fazê-la ouvir seu chamado, embora nem o tivesse reconhecido, porque reconhecia uma nova dimensão em sua vida e nela mesma, apesar de todos os problemas que a situação poderia acarretar. Então o grande dia chegou. E um dia antes do esperado. Era sábado e havia tirado o dia inteiro de folga. O final de fevereiro era marcado por dias quentes e ensolarados. Estava voltando da praia, onde passara a manhã nadando e tomando banho de sol, quando viu um homem parado no gramado da frente do prédio onde morava. Peter. Com o coração aos saltos, tomada por um pânico súbito e irracional ocasionado principalmente pela surpresa, continuou caminhando até estarem frente a frente. Peter examinou-a com ar intrigado por alguns instantes, silencioso. Teria identificado algum sinal? Ele parecia registrar cada detalhe de sua aparência, do chapéu branco de aba larga aos pés descalços, passando pela camiseta larga que usava sobre o biquíni. PROJETO REVISORAS

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— É surpreendente! — ele disse sorrindo. — Mas você está maravilhosa. — Obrigada. — Sabia que o rosto estava corado, não só por conta do sol, mas por um rubor de culpa e constrangimento. — Não esperava vê-lo hoje. — E eu não esperava encontrá-la aqui. Telefonei para o escritório, mas sua secretária disse que você só voltaria na segunda-feira. Estava mesmo tomando banho de sol? — Sim. — Posso saber o que provocou uma atitude tão inusitada? — Entre e eu explicarei tudo. O apartamento era um casulo fresco e confortável, e assim que fechou a porta, Clare foi envolvida pelos braços de Peter. — Morna e macia como um pêssego maduro. E salgada — ele brincou, beijando-a nos lábios. — O que quer que tenha causado essa metamorfose, sou totalmente a favor dela. Sabe há quanto tempo estou pensando em fazer amor com você? Vinte e três dias, quatro horas e seis minutos. Foi impossível conter o sorriso provocado pelo comentário. — Aposto que acabou de inventar esses números! — Apenas as horas e os minutos. Aliás, o tempo continua passando e tornando minha vida mais difícil — acrescentou com tom malicioso. Que tal irmos para o quarto? Clare hesitou e mordeu o lábio. Sentindo sua relutância, ele a encarou com expressão intrigada. Depois soltou-a devagar. — Bem, vejo que as coisas realmente mudaram. É melhor contar-me tudo de uma vez, Clare. Conheceu alguém? Outro homem? Alguém a conquistou enquanto eu estava fora? A mistura de choque e ultraje provocou uma reação imediata. — E claro que não! O que pensa que sou? — Alguém diferente da mulher que deixei ao partir. Sempre foi linda, é verdade, mas agora parece uma rosa que desabrochou em toda sua glória. E estava na praia numa manhã de sábado... Aconteceu alguma coisa, Clare. O verdadeiro amor, talvez? Deve ter sido algo muito importante, porque nada do que fiz foi suficiente para produzir esse efeito devastador. — De certa forma, você colaborou bastante para toda essa transformação. Eu... bem... estou grávida.

CAPÍTULO IV

Clare viu o choque estampado em seu rosto e fechou os olhos. Teria dado as costas a Peter, se ele não a houvesse segurado pelos ombros. — Não faça isso. Há... quanto tempo? — Três meses — ela sussurrou.

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— E esperava que eu não ficasse surpreso? Você guardou a notícia por três meses... por quê? — Eu... também não sabia. Quero dizer, só descobri há pouco mais de um mês. — Não sabia? Como? — Caso tenha esquecido, eu estava tomando pílulas... — Lembro-me muito bem de termos discutido métodos anticoncepcionais, e você insistiu em assumir toda a res ponsabilidade sozinha. — Deixe-me explicar. Sei que tudo isso é um desagradável choque para você, mas... — Não foi o que eu disse. — Não precisava dizer. E não me interrompa! — pediu irritada. Peter encarou-a com ar sarcástico e tirou as mãos de seus ombros. Clare respirou fundo e contou tudo que havia acontecido. — Sei que a culpa foi minha. Fui prevenida pela médica, mas... estava tão atribulada na época, que nem parei para pensar. Foi uma espécie de virose rápida, nada muito sério, mas... Bem, depois percebi que meu ciclo havia se tornado irregular, porém sem outros sintomas e... — Estava trabalhando por dez pessoas nessa época e, mais uma vez, não teve tempo para parar e pensar. — Peter, assumo toda a responsabilidade por tudo. Não precisa se preocupar com nada. — Está esquecendo um detalhe importante, Clare. Esse filho também é meu. — Eu sei, mas... — Agora tudo faz sentido. Por isso estava tão estranha. Mas por que não me contou tudo assim que descobriu? Pelo que acabou de dizer, já sabia sobre a gravidez antes da minha viagem. — Queria refletir um pouco mais. Estava... atônita. E sabia que tudo mudaria entre nós. — Tem razão, tudo vai mudar. — Um brilho diferente iluminou seus olhos. — Vamos nos casar imediatamente. Essa criança já está três meses na nossa frente. Ela levou as mãos ao rosto e foi sentar-se no sofá. — Peter, não podemos nos casar dessa maneira. Há três semanas você mesmo disse que existem muitas razões para preservarmos as circunstâncias do nosso relacionamento. Ele sentou-se a sua frente, e havia algo de poderoso e ameaçador em sua postura. — Não acha que é uma grande injustiça tentar usar o que eu disse quando ainda não sabia o que estava acontecendo? — Certas verdades são inalteráveis. Nunca pensamos em casamento ou filhos... — Porque sua carreira esteve sempre acima de tudo. — E você? Por acaso tinha planos para se casar novamente? — Não. Francamente, nunca considerei essa possibilidade. Mas, como dizem seus colegas de profissão, as circunstâncias alteram os casos. E não sou o tipo de homem que abandona uma semente depois de plantá-la.

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— Respirando fundo, esperou alguns instantes para acalmar-se e continuou. — E você? O que sente com relação a essa gravidez? Choque? Horror? Desgosto por ver sua vida perturbada? Mordendo o lábio, tomou consciência de como devia ter parecido egoísta aos olhos de Peter. — Para ser bem honesta, sinto-me mais excitada a cada dia. Mal posso esperar para ver o rosto da criança que cresce em meu ventre. Ele a encarou em silêncio por um momento, surpreso com a ternura que invadia seus olhos. — Já tentou descobrir por quê? — perguntou. — Porque... meu relógio biológico deve ter despertado sem que eu percebesse. — Não acha que seu entusiasmo pode ter alguma relação com o fato de esse bebê ser nosso? — Sim, mas... — Então já temos uma boa base para dar a esta criança a segurança de um lar de verdade, com um pai e uma mãe. Não concorda comigo? Ela o encarou infeliz. — Uma gravidez inesperada nunca foi uma boa base para um casamento. Na maioria dos casos, o que acontece é exatamente o oposto. Estou farta de ver casais que se suportam pelo bem de um filho, quando na verdade não há nada em comum entre marido e mulher. — Temos muito em comum — ele apontou com um sorriso malicioso, dando a entender que o sexo era suficiente para mantê-los juntos e felizes. Clare decidiu que não se deixaria afetar pela sensualidade daquele olhar, pela lembrança do que sentia quando era tocada por aquelas mãos. — Talvez, mas... — Talvez? — Havia ironia em seu tom de voz. — Sei que estamos afastados há três semanas, mas não pode ter esquecido a última vez em que fizemos amor. — É claro que não esqueci. No entanto, um casamento vai muito além do sexo. Estou certa de que aprendeu essa lição com Serena. Algo cintilou em seus olhos, mas, quando falou, Peter aparentava calma e indiferença. — Se está com ciúme de Serena, não perca seu tempo com sentimentos inúteis. Acabou. Clare o encarou e compreendeu dois pontos importantes: que havia sido magoada pelo que ele dissera no início da conversa, e que esperava por uma explicação mais convincente. Mas Peter encerrou o assunto e o silêncio alimentou sua apreensão, porque' nele residia a essência do dilema que vivia. Desconhecia as causas do fracasso de seu primeiro casamento, os verdadeiros motivos que certamente o impe diriam de encontrar a felicidade em uma nova união, e desconhecia também o homem com quem concebera uma vida. Por isso sentia que nunca pudera ter acesso a mais que uma faceta de sua personalidade, e por isso tinha certeza de que jamais seria admitida em seu coração. Sabia que o trauma do primeiro casamento podia ser a origem de todos esses males, mas o resultado final, e a constatação era chocante, era que o PROJETO REVISORAS

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fato de estar apaixonada por esse homem não significava que um dia estariam realmente envolvidos. Não tinha mais dúvidas. Se não houvesse engravidado, te riam mantido o mesmo tipo de relacionamento por muitos anos, ou até que ele perdesse o interesse e o desejo deixasse de existir. Clare levantou-se. — Peter, creio que um dos problemas é que sou uma dessas mulheres mais inclinadas a aceitar a maternidade fora do casamento. — Sabia que a obsessão pela carreira acabaria aparecendo mais cedo ou mais tarde. Como espera ter um bebê e continuar dedicando todo seu tempo ao trabalho? Não podia se deixar abater pelo tom ofensivo ou pela insolência com que estava sendo desafiada. Calma, contou tudo sobre a chegada de Sue Simpson. — Vejo que esteve muito ocupada nessas três semanas. — Não. Foi o destino que a colocou na porta do meu escritório. Fomos amigas durante os anos de universidade. — Essa mulher é casada? — Não. Por quê? — Estou tentando imaginar duas profissionais independentes unidas por um objetivo em comum. O sucesso! O sarcasmo de Peter a deixou tão furiosa, que ela chegou a levantar a mão para esbofeteá-lo, mas conteve-se no último instante. Ele a fitou com ar calmo e levantou-se devagar, os lábios distendidos por um sorriso. — Bem, parece que chegamos a um impasse. E uma pena, porque o segundo trimestre da gravidez será o período mais fácil de todo o processo. Por exemplo, já deve ter superado o estágio dos enjôos... Aliás, conseguiu disfarçá-los muito bem. A chance de um aborto espontâneo é maior no primeiro trimestre, e também já foi superada. — Sim, eu sei. — O que não sabe é que os últimos três meses serão muito difíceis. Vai se sentir pesada e desconfortável, será atormentada pelo desejo constante de ir ao banheiro, e é possível que comece a encontrar algumas estrias pelo corpo e manchas escuras em seu rosto. A azia também costuma aparecer nesse estágio, como os tornozelos inchados e a dificuldade para encontrar uma posição confortável para sentar-se ou dormir. De qualquer maneira, os movimentos do bebê em seu ventre não vão permitir que durma muito bem, ou por muitas horas seguidas. Clare estava boquiaberta e tinha os olhos arregalados. Ele continuou sem compaixão. — Então será a vez do trabalho de parto, e logo vai descobrir que, ao contrário do que dizem, amamentar não é nada fácil, embora seja um ato natural. Mais noites em claro, momentos em que estará tão cansada que não saberá o que fazer com o próprio corpo... Tudo isso passará a fazer parte do seu futuro, Clare. — Está falando como se conhecesse tudo sobre o assunto. — Era eu quem passava horas dirigindo pela propriedade enquanto Sean chorava no cesto no banco de trás. Essa era a única maneira de fazê-lo dormir. Clare sentou-se, levou as mãos ao rosto e, surpresa, começou a rir. PROJETO REVISORAS

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— Oh, Peter, você faz com que eu me sinta completamente ignorante, mas... — E ficou séria antes de encará-lo — mesmo assim, não posso me casar com você. Ele hesitou, mas sentou-se a seu lado e segurou suas mãos. — Clare... — Você me conhece! Não sei se estou certa ou errada, mas é assim que eu sou. E conheço suas necessidades. Se algum dia quiser outra esposa, vai ter de encontrar alguém que possa realmente compartilhar de sua vida. De certa forma, sinto-me tão intimidada pela plantação de castanhas quanto Serena pode ter ficado. Entende o que quero dizer? Não tenho essa afinidade quase mística que você experimenta com a terra. — May sempre viveu muito próxima da terra, e isso não a impediu de ter uma profissão, uma carreira bem-sucedida. — May nasceu em uma fazenda e nunca teve um marido! Houve um silêncio breve, porém tenso. Depois Peter perguntou: — O que sugere, afinal? — Espera que eu ofereça sugestões? — É claro que sim. Acha que devemos continuar como antes e explicar a todos que não vamos nos casar, porque não consideramos necessário? Ou prefere redigir um contrato legal assegurando meus direitos de paternidade? Lembro-me de tê-la ouvido exaltar a necessidade de um compromisso honrado entre dois adultos que geram uma nova vida. Ou prefere ter minar nosso relacionamento de uma vez por todas? Clare engoliu em seco, lutando contra as lágrimas. Peter sorriu, notando que atingira o objetivo, e continuou: — Fico imaginando os comentários. As pessoas dirão que a abandonei à própria sorte, que dei as costas à mulher que espera um filho meu... — Se decidiu me pedir em casamento por medo dos rumores, então... — Por outro lado, você pode ser a vítima dos maledicentes. — O que está tentando dizer? — Clare, todos saberão de quem é o filho que está esperando. E todos já sabem que é uma profissional dedicada. Mas até mesmo as mulheres que se dedicam à carreira têm seus momentos de fraqueza. Quando o relógio biológico desperta, como disse há pouco... — Está dizendo que posso ser acusada de tê-lo usado? — Hoje em dia, quando tantas mulheres preferem ter seus filhos sem a presença constante de um homem, por que não? — É isso que você pensa, Peter? — Admito que me sinto inclinado a considerar a possibilidade. — Pois está enganado! — Convença-me. Por um instante sentiu-se tentada a dizer que apaixonara-se pelo homem errado, e por isso vivia uma situação tão complexa. Mas resistiu ao impulso, porque, assim que re velasse seus sentimentos, teria de confessar também que não esperava nada em troca. Oh, tinha certeza de que Peter estaria sempre pronto a ampará-la e ao filho que conceberam juntos, mas nunca poderia amá-la como ela o amava. Por que não percebera a verdade antes? PROJETO REVISORAS

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— Não sei o que fazer — confessou com honestidade. — Mas sabe que não quer se casar. — Peter, estamos falando sobre três vidas, quatro, se considerarmos Sean. Não podemos nos precipitar! — Duvido que Sean seja um problema. Ele gosta de você. E odeia o futuro padrasto — acrescentou com tom significativo. — Então ela... — E parou. Peter franziu a testa. — Sabe sobre os planos de Serena para um segundo casamento? — Eu... — Clare suspirou. — Sim. — Como? Devia ter contado tudo antes. — Sean esteve conversando comigo. Naquela última vez que estive em Rosemont. — Por que ele falaria sobre assuntos tão pessoais? Tentou decifrar a expressão que via no rosto de Peter uma hipótese assustadora invadiu sua mente. — Não acha... Não pode estar pensando que eu o interroguei! — E não o interrogou? — É claro que não! Ele começou a falar porque... — Continue. — Oh, não. Sean confiou em mim. Tivemos uma conversa confidencial que... — Clare, está falando de um menino de oito anos de idade que, por acaso, também é meu filho! Tenho o direito de saber sobre o que conversaram. — Sean me contou que Serena tem um novo namorado, alguém com uma casa muito grande e um jardim para onde ele poderia levar Paddy e Flynn, desde que aceitasse morar com eles. Peter praguejou em voz baixa. — Continue. — Bem, ele também revelou que não simpatiza com o namorado da mãe, mas Serena tentou convencê-lo de que seria melhor se ele fosse viver com ela, porque assim teria pai e mãe... mesmo que esse pai seja um padrasto. Sean acabou revelando que, se tiver de viver com um dos pais e seu novo cônjuge, ele prefere que essa pessoa seja... eu. Houve um silêncio profundo enquanto Peter olhava para um ponto distante com ar furioso. — Não sabia disso? — Clare perguntou preocupada. — Não havia notado que ela o queria de volta? E por que ela quer o filho depois de tanto tempo? Pensei que todos estivessem satisfeitos com a situação atual. — Sabia sobre os planos de Serena para um novo casamento. E sabia que ela estava tentando se aproximar de Sean. O que não sabia é que ela estava tentando seu equilíbrio emocional dessa maneira covarde e baixa. — Não consigo entender a razão de tudo... — Não entende? Pois vou lhe explicar. Serena jurou que nunca mais teria filhos. Um era suficiente, ela dizia. Mas seu futuro marido não deve ter sido informado sobre essa resolução, e ela pode estar tentando aplacar qualquer tendência à paternidade aproximando-o de um filho já crescido. — Ela... seria capaz disso? — Serena é capaz de qualquer coisa para preservar a silhueta. PROJETO REVISORAS

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— Mas... — E não esqueça que o sujeito é muito rico. — Você também é. — Mas nunca ostentei minha riqueza. — Pobre Sean! — Não se preocupe com isso. Sei como lutar contra Serena. — Depois de um momento de reflexão, Peter sorriu. — Então Sean percebeu o que existe entre nós? — Parece que sim. — Bem, então podemos excluí-lo da nossa lista de problemas. Clare abriu a boca para protestar, mas pensou melhor e disse: — Só se pudermos garantir o sucesso de um eventual casamento entre nós. — E como isso pode ser feito? — Para começar, não devemos misturar óleo e água. — Clare, a diferença entre você e Serena, ou uma delas, é que minha exmulher costuma agir basicamente sobre o instinto. E em nove de cada dez tentativas ela consegue o que quer. Serena possui certas características genéticas que, aliadas à sensualidade, podem torná-la irresistível. Até que ela comece a exibir outras características... como o egoísmo, por exemplo. — O que está querendo dizer? — E simples. Serena jamais assume a responsabilidade por ações que estejam em conflito com seu ego, enquanto você sempre se responsabiliza por tudo que faz. Estou dizendo que sabemos quais são nossas obrigações morais, e podemos nos esforçar para fazer com que tudo dê certo. Clare refletiu, reconheceu a chantagem contida no comentário, mas teve de admitir que o argumento era poderoso. E inesperado, também. Mas por que ele iria tão longe? Por que era um homem moralmente responsável? Mas, se julgava-se tão forte, por que não havia perseverado com Serena? Talvez houvesse tentado. Era possível que ela tivesse decidido pelo rompimento. Pensando bem, tudo podia estar relacionado ao poder de manter Sean afastado das garras da mãe... — Não consigo pensar direito — murmurou distraída. — Estou cheia de areia, salgada e suada. Posso tomar uma ducha rápida? Peter acomodou-se melhor, cruzou as pernas e encolheu os ombros. Quando voltou à sala, Clare constatou que ele havia preparado chá e aberto um pacote de biscoitos. Estava sentado à mesa da sala de jantar, falando no celular. Depois de um instante de hesitação, acomodou-se diante dele e serviu o chá em uma xícara. Estava bebendo o primeiro gole quando ele desligou o telefone. — Algum problema? — Apenas um imprevisto. Irei buscar Sean esta tarde. Ele já superou o estágio contagioso da doença. — Mas... você vai ficar exausto! — Sean está ansioso para voltar para casa. A propósito, ele ficou muito feliz quando soube sobre o bebê. — Você... contou a ele?

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— Por que não? Ele tem o direito de saber que vai ter um irmão. Será que não percebe que não é a única a ser afetada por esse bebê? O fato de estar gerando a criança não significa que... — Pare com isso! — ela o interrompeu com voz rouca. — Eu devia saber. — O quê? — Além de me tratar como uma tola, ainda me priva do direito de decidir uma questão íntima e pessoal com um mínimo de privacidade. Não acha que devíamos ter mantido essa história entre nós até chegarmos a algum tipo de acordo? — Quer dizer que não contou a ninguém? — Além de Valerie, minha médica, a única pessoa que sabe sobre o bebê é Sue Simpson, a garota que trabalha comigo. — Sue Simpson... refere-se à mesma jovem que chegou de Lismore? Ela sabe que eu sou o pai? — Sim, Sue veio de Lismore e sabe que você é o pai da criança. — E ainda assim esperava manter segredo? Vivemos em uma cidade pequena, Clare. — Sue jamais trairia minha confiança. E é diferente de contar a Sean! Até... até sabermos o que vamos fazer... — Horrorizada, sentiu que não podia mais conter as lágrimas. Peter deixou que ela desabafasse por alguns minutos antes de levantar-se para ir abraçá-la. — Ei, isso não é bom para o bebê. — A culpa é sua! — Soluçou e, respirando fundo, conseguiu controlar-se. — Não me refiro ao bebê, mas... — Entendo o que quer dizer. Neste momento você me odeia. — Não seja tolo! Não odeio você. Só não sei o que fazer. Não consigo decidir o que é melhor para todos nós. Ou melhor, sei o que é melhor, mas você se nega a aceitar... — O que acha de adiarmos a decisão? Vamos mudar de assunto. — Sobre o que mais podemos falar? — Já fez o primeiro ultrassom? Ou ainda é muito cedo? — Farei o primeiro exame na décima oitava semana de gestação. — E quanto ao obstetra? Já escolheu alguém? Clare explicou o que ela e Valerie haviam acertado. — Acho que ficarei mais tranqüila se puder contar com ela — disse. — Nunca estive em um hospital em toda minha vida, pelo menos como paciente, e a perspectiva de enfrentar mais essa novidade me deixa um pouco nervosa. Peter sorriu e afagou seu rosto. — Hoje em dia é tudo muito mais simples, especialmente nas maternidades. O ambiente é criado de forma a fazer a mulher esquecer que está em um hospital. — Também estou assustada com minha ignorância sobre o assunto. Sei menos que você! E como se houvesse passado vinte e sete anos ignorando uma porção básica de mim mesma. Nunca me senti especialmente atraída por bebês, e de repente estou eufórica com a perspectiva de ser mãe. — Espere mais um mês. Quando puder sentir os movimentos do bebê, essa euforia será ainda maior.

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— Há alguma coisa que não saiba sobre o período de gestação? — perguntou sorrindo. Peter acariciava seu ventre, e a sensação era maravilhosa. — Jamais poderei saber o que sente uma mulher grávida, mas sei que não vai ter de enfrentar tudo sozinha. — Peter — ela sussurrou com voz rouca, fitando-o nos olhos. De repente tomou consciência de uma profunda sensação de segurança e proteção. E a agonia estampou-se novamente em seu rosto. — Mesmo assim, ainda não tenho certeza. — Tudo bem, não vamos discutir. Mas há alguma razão que nos impeça de fazer... isto? Clare piscou. O beijo foi mais terno que todos os anteriores. As mãos dele afagavam seus cabelos e, aos poucos, as carícias se tornaram mais íntimas. Quando se afastaram, ela tremia de desejo e podia ver o mesmo sentimento refletido na maneira como ele a fitava: Mas estava perturbada. — Não creio que... — Soltou-o e, erguendo os ombros, abanou o rosto com uma das mãos. — Nunca pensei que pudesse sentir tais coisas, que devesse senti-las. — Por que não? — Peter sorria. — Sei que vai parecer tolo, mas não tenho certeza de que é apropriado... — Por que não somos casados? — Porque estou grávida! — Clare! — Ele a tocou e riu, mas havia algo novo em seus olhos, uma espécie de fascínio, talvez. — As vezes sua ingenuidade me surpreende. E claro que é apropriado. Mas não vou insistir, se não se sente segura. Mesmo que para isso tenha de fazer um enorme esforço. — Esperou que ela relaxasse para continuar. — O que sente neste momento está relacionado ao que dizia antes sobre o segundo trimestre. — Oh... — Normalmente esse é um período inesquecível para os casais. — Entendo. Se houvesse parado para pensar, certamente teria compreendido antes. Não que o primeiro trimestre tenha impedido que eu... — Parou ao sentir o rosto quente. Ele riu e beijou-a nos lábios. — Você esteve sensacional! — Nem me lembre. Aquela noite foi a primeira vez que tive um enjôo. — Seu eu soubesse... —O rosto tornou-se subitamente sério. — Vamos voltar... vamos discutir novamente... o que fazer? — Infelizmente, tenho de ir embora. Meu avião partirá em uma hora. Mas estarei de volta amanhã. No entanto, tenho a sensação de que não mudarei de idéia até lá. — Peter... — Se não sabe identificar o que existe entre nós, então deve ser cega. — E levantou-se. Clare pensou em perguntar se ele havia sentido algo parecido com Serena, mas o que isso teria provado? O instinto a fez desistir da questão.

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— Não vou poder chamá-la de Magrela por algum tempo — ele murmurou antes de beijá-la e pegar o paletó que havia tirado ao entrar. — Até amanhã. — E partiu. No meio da noite, Clare ainda refletia sobre a situação. Se tivesse de analisar as mesmas circunstâncias, porém como observadora imparcial, o que faria? Analisaria as vantagens e desvantagens e apontaria o ponto de equilíbrio entre ela. Portanto... vantagens: Peter era um bom pai. Uma criança nascida entre os Hewitt só teria a lucrar, não só no sentido material, mas também no moral, pois herdaria o sentimento de família, história e coragem transmitido de geração a geração. Sem mencionar o amor pela terra. E tudo isso era muito melhor do que ser filho de mãe solteira. Mas e se descobrisse que viver em Rosemont estava além de sua capacidade, que não era o tipo de esposa de que ele precisava, ou que Peter fora impelido a aceitar um segundo casamento por causa das artimanhas de Serena? Levar para Rosemont uma esposa que Sean aprovava... preencher o lar que o menino amava com uma figura materna... tudo isso o tornaria mais forte na disputa com a ex-esposa. Sabia que a gravidez não havia sido planejada, que não podia ser apenas um instrumento para a realização dos planos de Peter, mas essa certeza não diminuía o desconforto provocada pelas dúvidas. O telefone tocou sobre o criado-mudo e ela o atendeu as sustada. Era a mãe informando que seu pai havia sofrido um ataque cardíaco e solicitando sua presença imediatamente. Armidale ficava a quatro horas de carro de Lennox Head, e Clare chegou à cidade quando o sol despontava no horizonte. Jogara algumas peças de roupa em uma valise e, em vez de acordar Sue ou Lucy no meio da madrugada, optara por deixar um recado na secretária eletrônica do escritório dizendo que fora chamada com urgência, mas entraria em contato assim que fosse possível. Caso houvesse alguma emergência, elas poderiam encontrá-la através do telefone celular. Estava estacionando na porta do hospital quando lembrou-se do aparelho sobre o móvel da cozinha, ligado ao carregador de bateria. — Droga! — murmurou. — Bem, não há nada que eu possa fazer agora. E todas as preocupações com o trabalho desapareceram durante as vinte e quatro horas seguintes, enquanto seu pai lutava pela vida e a mãe buscava refúgio em um mundo próprio. Mas, na manhã seguinte, embora ainda em estado crítico e internado na UTI depois da cirurgia para instalação de um marca-passo, o estado de Tom Montrose foi considerado estável e o prognóstico dos médicos era esperançoso. Clare levou a mãe para casa confortável onde crescera e colocou-a na cama. Pensou em ligar para o escritório, mas estava tão cansada que se deitou ao lado do aparelho e adormeceu imediatamente. Naquela tarde, quando voltaram ao hospital, souberam que Tom havia melhorado ainda mais, e a Sra. Montrose começou a reagir ao choque inicial. Passaram algumas horas com ele e depois percorreram as ruas de Armidale, parando no caminho de casa para comprar uma pizza. — Ele ficaria horrorizado! — Jane Montrose comentou quando se sentaram à mesa da cozinha. PROJETO REVISORAS

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— Eu sei. — Clare sorriu. O pai jamais aceitara comer comida industrializada, mais uma faceta da postura rígida e exaustiva que ele assumia diante do mundo. — Mamãe, por que permitiu que ele a dominasse? Ela suspirou. — Porque ele é um homem dominador, e eu sou uma mulher conformada. Acho que já nasci dócil e domesticada. Por outro lado, sempre compreendi que a insegurança básica de Tom o transformou naquela pessoa dura e autoritária. Sendo assim, apesar dos momentos mais difíceis, quando ele se torna inflexível e irritante, temos um relacionamento muito próximo e satisfatório. E agora será minha vez de ser forte. — Oh, mamãe... Perdoe-me por não ter compreendido. — O casamento é uma coisa muito estranha. — Jane sorriu. — O que funciona para uns é um verdadeiro desastre para outros, mas todos têm de se esforçar em busca da felicidade. E preciso aceitar os defeitos que acompanham as qualidades, alimentar o que há de bom e agradecer à sorte porque o ruim não foi ainda pior. Por exemplo, seu pai jamais olhou para outra mulher, e sei que ficaria completamente perdido sem mim, como eu também não viveria sem ele. De repente Clare percebeu que a mãe falava sobre realidade e responsabilidade. Era diferente daquela versão de amor e casamento que pressupunha a possibilidade de desistência diante do primeiro contratempo. Silenciosa, levantou-se para ir servir o café que acabara de ficar pronto na cafeteira elétrica. Ainda estava de costas quando ouviu a voz suave da mãe. — Clare, você está grávida, querida? Depois de quase derrubar a jarra térmica, ela conseguiu recuperar a voz. — Como... como percebeu? — gaguejou. — Meu bem, eu a conheço. Você é minha única filha. E como não foi capaz de me contar, sei que deve haver algum problema. O telefone da sala tocou e Jane correu a atendê-lo. Mas voltou quase que imediatamente. — E alguém chamado Peter Hewitt. Quer atendê-lo? — Eu... sim. — E engoliu em seco, dirigindo-se à sala. — Peter... Desculpe, mas meu pai sofreu um ataque cardíaco e... — E você nem pensou em me avisar. — O tom seco tornou-se mais ameno. — Sinto muito. Espero que ele esteja se recuperando. Mas tem idéia de como nos deixou preocupados? E por que não atendeu ao celular? — Porque saí tão apressada que esqueci de trazê-lo. Escute, lamento muito se causei toda essa preocupação, mas meu pai quase morreu. Felizmente superou a fase crítica e está se recuperando, mas enfrentamos momentos terríveis por aqui. — E eu fazendo cobranças estúpidas. Desculpe-me, Clare. Você está bem? — Sim, mas... como conseguiu encontrar-me? — A casa de seus pais foi o primeiro lugar em que Sue e eu pensamos. Felizmente não existem muitos Montrose na lista telefônica. E agora, o que pretende fazer? — Decidi passar algumas semanas com minha mãe. Pelo menos até meu pai sair do hospital. Tenho certeza de que Sue poderá cuidar de tudo, e agora que o pior já passou, manterei contato constante com o escritório. PROJETO REVISORAS

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Houve um silêncio breve, depois ele disse: — E quanto a mim? Gostaria de ir até aí. — Não sei se é uma boa idéia. Papai não sabe sobre nós e o bebê, e este não é o melhor momento para anunciarmos a novidade. — Clare... essa é a única razão? Ela hesitou e suspirou. — Não. Aqui terei algum tempo para pensar em tudo. — E para decidir se prefere fugir? — Não costumo fugir das minhas responsabilidades, Peter. — Talvez não, mas tem demonstrado uma certa tendência a fugir de mim nos últimos dias. Vamos fazer um acordo. Não insistirei em ir até aí enquanto seu pai estiver em recuperação, desde que me prometa voltar dentro de quinze dias. Caso contrário, irei buscá-la. A outra parte do acordo é que mantenha contato. — Isso é ridículo! — E pegar ou largar. — Não sou sua prisioneira! — Não, mas é a mãe do meu filho. — Saiba que estou muito aborrecida com sua atitude, Peter! Ele riu. — Prometo recompensá-la quando nos encontrarmos. Oh, e mais uma coisa... cuide-se. — E desligou. Jane Montrose segurou as mãos da filha ao vê-la sentar-se à mesa da cozinha com expressão perturbada. — Bem, acho melhor me contar tudo sobre Peter Hewitt. Tenho o pressentimento de que ele é o pai do meu primeiro neto. Durante as duas semanas seguintes, Clare e a mãe conviveram de maneira pacífica. Depois de dizer que a filha devia aceitar o pedido de casamento de Peter, Jane acrescentou que estaria a seu lado a cada passo do caminho e não tocou mais no assunto. Saíram juntas para fazer compras e voltaram com sacolas cheias de lã e agulhas para tricô, e Clare dedicou-se a uma atividade que havia abandonado anos antes, quando começara o curso de direito. O trabalho manual serviu como uma excelente terapia, mantendo-a ocupada durante o período em que Tom Montrose permaneceu no hospital, dias que também serviram para aproximar mãe e filha e estabelecer um padrão mais adulto para a relação. Clare telefonava para Peter a cada dois ou três dias, e quando as duas semanas chegaram ao fim, ela comunicou que pretendia ficar por mais algum tempo, pelo menos durante os primeiros dias do pai em casa. E, cedendo aos apelos persistentes da mãe, três dias depois de Tom ter voltado para casa, elas contaram juntas sobre a gravidez. A reação dele foi surpreendente. Com lágrimas nos olhos, Tom perguntou se poderia ter seu nome incluído, caso o bebê fosse um menino. Quanto ao fato de ainda ser solteira, Clare não foi interpelada ou censurada. Ao tomar conhecimento do nome do pai da criança, o Sr. Montrose surpreendeu a filha mais uma vez. — Ora, ora — ele murmurou. — Salgueiros ainda podem brotar no meio do milharal! — E recusou-se a dar maiores explicações. A única coisa que não foi resolvida durante sua estadia na casa dos pais foi o que faria ao voltar.

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Mas quando abraçou a mãe para despedir-se, Jane Montrose tocou seu ventre. — Já sei — Clare riu. — Estou engordando a cada dia. — Clare... — De repente ela parecia séria. — Há algo que deve saber. Na próxima consulta com sua médica, não esqueça de mencionar que... — E disse o que tinha a dizer.

CAPÍTULO V

— Não pode ser! — Clare disse a Valerie Martin. — Veja com seus próprios olhos. — O obstetra conduziu o leitor do ultrassom. — Está vendo? Não há dúvida. Haviam antecipado o exame porque, ao chegar a Lennox Head, antes mesmo de ir para casa ou procurar Peter, Clare fora ao consultório da médica. Valerie telefonara imediatamente para o obstetra solicitando uma consulta e insistira em levar a paciente. Clare olhava para o monitor e temia desmaiar. — Teremos de acompanhá-la mais atentamente de agora em diante, Sra... Montrose. Especialmente à luz da história de sua mãe. — Pode se vestir agora — Valerie avisou com tom gentil. — Felizmente não tenho outros pacientes. O que acha de almoçarmos juntas e conversarmos um pouco? Mas, apesar de toda a confiança da médica em um desfecho favorável para a situação, Clare ainda estava apavorada quando entrou em seu apartamento. Peter chegou cinco minutos mais tarde. Ela abriu a porta e fitou-o em silêncio por alguns instantes. — Senti sua falta, Magrela. — Não sou magrela, e talvez nunca mais deixe de ser gorda — ela disparou irritada. — Bobagem. É claro que vai recuperar as formas depois do parto. E até lá, seu apelido será uma espécie de piada particular entre nós. — Diz isso porque não sabe o que está acontecendo. Entre. — Como vai seu pai? — Peter perguntou depois de fechar a porta. — Bem. — Ele já sabe que será avô pela primeira vez? — Sim, conversei com papai. E ele reagiu muito bem. Os dois estão muito felizes. — Então... qual é o problema? — Peter, minha mãe tinha um irmão. Gêmeo! — Um... — Ele parou e balançou a cabeça. — Acho que vou me sentar. — E conduziu-a até o sofá. Sentada ao lado dele, Clare continuou:

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— Bem, acho que já sabia alguma coisa, mas devo ter esquecido. Quero dizer, sabia que minha mãe teve um irmão que morreu logo depois do parto, mas nunca... nunca parei para pensar no significado do que ela dizia. Esse irmão era gêmeo de minha mãe. Embora qualquer mulher possa ter mais de um filho em uma mesma gestação, as chances são muito maiores para aquelas que... — Que já têm uma história idêntica na família. — Não necessariamente. Se o evento houvesse ocorrido na família de meu pai não teria tanta importância. Trata-se de uma herança transmitida pela linha materna. — Clare, esse suspense está me matando. Por acaso quer me dizer que... vamos ter gêmeos? — Sim. — E suspirou com ar trágico. Para sua surpresa, ele começou a rir. — Peter, acho que não entendeu. Eu disse que... — Oh, sim, eu entendi. Ser mãe solteira de um único filho é simples, Sra. Montrose. Mas de gêmeos... Ela o encarou tomada por uma estranha mistura de sentimentos. Peter fora direto ao centro da questão, embora não fosse esse o único problema. — Não tem graça nenhuma. E não é só isso. Já estava começando a amar este bebê, fazia milhões de planos para ele, e agora... Agora sei que são dois bebês! E tudo que você sabe fazer é rir! Ele parou de rir ao ver o temor e o choque estampados em seu rosto. — Clare Montrose, o fato de estar esperando gêmeos não altera em nada minha postura. Mas as dificuldades serão maiores para você, e por essa razão, embora existam muitas outras, não sairei de perto de você. E melhor ir se acostumando com a idéia. — Peter... — A pergunta não é mais se vamos nos casar, mas... quando? Casaram-se dez dias mais tarde. Foi uma cerimônia simples na igreja em Armidale onde fora batizada. Tudo transcorreu muito bem, com a presença de poucos convidados, apenas os pais de Clare, os funcionários do escritório, Sean e May, mas na primeira noite da lua-de-mel, quando pararam no meio do quarto do hotel em uma adorável ilha tropical na costa de Queensland, ela se sentiu insegura e tensa. Situado em Palm Islands, o hotel na ilha de Orpheus era muito procurado pela beleza natural do ambiente paradisíaco. Pequeno e exclusivo, construído à beira de uma praia de águas cristalinas e areia muito branca, o lugar lembrava um cenário de sonhos. Jantaram logo depois de aterrissarem, e apesar da atmosfera relaxante, Clare sentia aumentar a tensão. Tantas coisas haviam ocorrido nos últimos dez dias, que era difícil não se sentir chocada. E Peter orquestrara tudo de maneira brilhante e com uma sutileza espantosa. Ele anulara todo o constrangimento que poderia ter causado pela revelação da gravidez tomando a dianteira, dando a notícia pessoalmente a todas as funcionárias do escritório. Depois de anunciar que se casariam em breve, contara entusiasmado que os gêmeos nasceriam no final de agosto. Todos haviam ficado encantados. Depois Peter enviara uma nota aos jornais com o mesmo objetivo, e logo ela passara a receber telefonemas de felicitações dos clientes. Aliado a Sue, PROJETO REVISORAS

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garantira que sua carga diária de trabalho fosse aliviada, e até indicara uma excelente secretária que acabara de mudar-se para Lennox Head e estava em busca de um emprego. Ele a levara a Rosemont diversas vezes e dissera que poderia mudar o que quisesse na propriedade. Decidiram manter o apartamento como uma espécie de retiro à beira-mar. Mas ao andar pelos aposentos de seu novo lar, encontrara uma certa dificuldade para sentir-se em casa, apesar das doces palavras de boas-vindas de May. Peter só não fizera amor com ela. Não haviam passado muito tempo sozinhos, especialmente porque a estação de colheita das castanhas havia começado. Os frutos amadureciam por volta do final de março, e ele tivera de tomar diversas providências a fim de poder passar uma semana longe da propriedade durante a lua-de-mel. Outra coisa que a incomodava enquanto se encaravam era a lembrança do brilho que detectara nos olhos dele em certa altura da cerimônia de casamento. Havia sido um brilho de... triunfo? — Clare? Havia trocado o vestido simples e discreto com que se casara por um conjunto de calça e túnica amarelas, roupas que adquirira recentemente depois de, mais uma vez, ter sido forçada a mudar de guarda-roupa. — O dia foi muito cansativo? — ele murmurou enquanto massageava sua nuca. — Sim, mas... não sei definir o que sinto — respondeu, fechando os olhos para melhor desfrutar da massagem re laxante. — Houve um momento em que julguei ter visto um brilho de triunfo em seus olhos. — Oh, mas eu me sentia mesmo triunfante. — Peter! — Pensou que eu fosse negar? — Essa afirmação não parece muito... civilizada. — Não quero ser civilizado. Para ser bem honesto, quando a vi entrando na igreja linda e radiante, experimentei um forte sentimento de vitória por ter conseguido vencê-la, afinal. Agora é minha. — Ora, seu... — E ainda há mais — ele disse, sorrindo diante de sua expressão chocada. — Há quase dois meses venho praticando um certo tipo de abstinência. Sou com um homem faminto e sedento porque, com uma única exceção, não demonstrou o menor interesse por mim. — Você também não tentou se aproximar. — Porque não sabia se me queria, ou se ainda estava preocupada com aquela idéia absurda de impropriedade, ou se havia decidido abster-se até o casamento. Durante todo esse tempo fui excluído das coisas que aconteciam com você. — Eu... não foi bem assim. — O que foi então, Clare? — Eu tinha medo. Perdi as contas de quantas vezes elogiou meu corpo, minha elegância, e agora estou diferente. Talvez nunca mais volte a ser como antes. — Está falando sério? PROJETO REVISORAS

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— Não tem idéia do que é encontrar um corpo diferente no espelho todas as manhãs. — Não pode estar com vergonha dessas transformações! — Não. Mas os homens... — Talvez não saiba tanto sobre os homens quanto imagina, Clare. — Sei mais do que você imagina — ela devolveu com tom de desafio. — Refere-se aos tipos descritos em seus livros de direito? Talvez. Mas a verdade é que estou ansioso para ver e tocar esse seu novo corpo. Por isso a trouxe para cá, tão longe de casa. Para que pudéssemos ter toda a privacidade de que precisamos e recuperarmos o que existe de mais importante em tudo isso: nós dois. — Não posso discutir diante de um argumento tão poderoso. — Sorrindo, pousou a cabeça em seu ombro. — De pois não diga que não o preveni. — E então? Como foi? Estavam deitados na enorme cama de casal, um nos braços do outro. — Adorável. Terno, calmo, sem o ardor de antes, mas com um entusiasmo diferente e igualmente satisfatório. Agora sei do que senti falta durante os últimos dois meses. — Você sempre me surpreende. — É mesmo? — Quando a conheci, fiquei intrigado com sua frieza e inteligência, mas quanto mais a observava, quanto mais pensava em você, mais desejava saber como seria na cama. — Que comentário machista! — A sensação cresceu até que compreendi que teria de descobrir se a competente advogada também era fria e de terminada na cama. Mas você me. surpreendeu. Foi envolvente, fascinante, e então comecei a ter certas fantasias... Sob a aparência elegante e gelada havia uma amante maravilhosa que só minhas mãos podiam despertar. — Tem razão. O que acontece comigo quando estamos juntos é algo novo, e nunca imaginei que pudesse experimentar um prazer tão intenso. — Mas depois... — ele continuou sério — ainda existiam momentos em que se afastava de mim, mergulhando em mundo próprio onde só existia o trabalho, e nesses períodos você me olhava como se eu fosse um estranho. Lembro-me de algumas visitas que fiz ao seu escritório, de como a encontrei reservada e inacessível. Cheguei a pensar em trancar a porta e seduzi-la ali mesmo, no chão. — Eu não sabia — ela respondeu sorrindo. — Essa é outra coisa que me surpreende em você, Clare. Normalmente não tem idéia do que causa em mim. — Você... não se importa? — Quando a tenho em meus braços, como agora, esqueço todas as coisas que me incomodam. E quanto a ter sido delicado e terno há alguns minutos... Bem, temos de considerar Tweedledum e Tweedledee. — Quem? — Os gêmeos. Não conhece a história de Alice no País dos Maravilhas? — Os gêmeos... Ainda estou tonta com essa notícia. — Vai acabar se acostumando. E até lá... que tal aproveitarmos um pouco, enquanto as crianças ainda não estão entre nós? PROJETO REVISORAS

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— O que tem em mente? — Nada parecido com sapatos, navios, cera, repolhos ou reis. — Era o que eu imaginava. — E beijou-o. Na manhã seguinte, depois do café, decidiram nadar. Clare experimentou o maio de gestante e fez uma careta para o espelho. — Recuso-me a aparecer em público usando esta coisa! — Sabia que teria uma reação desse tipo. Tentei preveni-la quando quis comprar esse maio, mas você me ouviu? — Não me venha com sermões, Peter! O que esperava? Que eu fosse à praia de tanga e exibisse minha nova silhueta de cubo? — Para sua sorte, casou-se com um homem prevenido e muito esperto. — Ele abriu o guarda-roupa e extraiu dele uma sacola que colocou nas mãos dela. — Ai está a solução para o seu dilema. Curiosa, Clare começou a retirar da sacola alguns pequenos pacotes. Dois conjuntos formados por biquínis e enormes camisetas da mesma cor, um par de sapatilhas de borracha, um boné e um chapéu de aba larga. — Peter! Você é um gênio! — Eu sei. Agora pode ir à praia usando biquíni e camiseta, o que é uma ótima idéia, já que o sol é muito intenso nesta parte do mundo e mulheres grávidas devem tomar um cuidado ainda maior com a pele. E quando estivermos sozinhos poderá usar apenas o biquíni. Ou ainda menos... Clare vestiu um dos conjuntos, calçou as sapatilhas, ajeitou o chapéu sobre a cabeça e colocou alguns objetos necessários em uma bolsa de palha. O efeito era glamouroso, e sentia-se milhões de vezes melhor do que antes. — Você está linda! Radiante! — Oh, sim, desabrochando. Logo me tornarei uma espécie de sobrecarga visual. — Rindo, aproximou-se para abraçá-lo. — Obrigada. Por recuperar minha auto-estima e ainda gastar uma pequena fortuna comigo. Podemos ir, Sr. Hewitt? — Quando quiser, Sra. Hewitt. — Ei, é a primeira vez que alguém me chama por meu novo nome! — Como se sente? — Muito... grande — respondeu com um sorriso. — Há algo de sólido e imponente no som. Hewitt... — Muito melhor que Sra. Montrose, não? — Já expliquei porque Lucy decidiu... — Sim, eu sei. Foi a primeira vez que conversamos, não? — Sim. Talvez. Não me lembro. Para ser franca, a única coisa que ficou gravada em minha lembrança daquele primeiro encontro foi a maneira insolente como olhava para mim. Como se estivesse diante de um animal no zoológico, ou de um quadro em um museu. Peter riu. — Fiquei surpreso. — Por quê? — Sabia que era uma profissional competente, mas esperava encontrar... Não sei se devo dizer. — Uma bruxa? — Não era essa palavra que eu pretendia usar, mas o sentido é o mesmo. — Mais um de seus típicos comentários machistas. PROJETO REVISORAS

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— E a segunda vez que me acusa de machismo nos últimos dois dias. Ela o encarou com os lábios comprimidos, mas não conseguiu conter um sorriso. — Admito que também fiquei surpresa. Impressionada, apesar do aborrecimento causado por sua atitude que... — Lá vem você novamente. Que tal irmos nadar, Sra. Hewitt? — Talvez seja melhor — ela decidiu com bom humor. Passaram os dias nadando, caminhando na praia, pescando e velejando. Peter a obrigava a cochilar todas as tardes, quando aproveitava para ir mergulhar, esquiar ou praticar outros esportes impróprios para uma grávida. E quando acordava, Clare sempre o encontrava deitado a seu lado, beijando seus cabelos ou acariciando seu rosto. Na quarta noite algo muito importante aconteceu. Ela estava diante do espelho, escovando os cabelos depois de um banho refrescante, quando sentiu um movimento muito suave e parou. — O que foi? — Peter perguntou apreensivo. — Eu... não sei. — Pousou as mãos sobre o ventre. — Acho que um dos bebês se mexeu. Ou os dois. É incrível! Entusiasmado, aproximou-se para tocá-la, mas depois de alguns instantes beijou-a nos lábios e disse que não podia sentir nada. — Bem, foi só um tremor muito suave, mas... Oh, aconteceu novamente! — Devem ser eles. — Sim, são os bebês. Acalmem-se, queridinhos! Mamãe está aqui. Peter riu e despiu a camisa. — Precisamos pensar nos nomes. Tem alguma preferência? — E entrou no chuveiro. — Qualquer coisa, menos Tweedledum e Tweedledee. E ainda não sabemos o sexo dos bebês, o que torna a escolha mais difícil. Podia saber, se quisesse, mas decidi seguir a tradição. Não... — corrigiu-se. — Não é verdade. Fiquei tão perplexa que não consegui pensar em mais nada. Peter saiu do banho envolto em uma toalha. — Nesse caso, é melhor pensarmos em dois nomes masculinos e dois femininos. Pessoalmente, sempre gostei de Tom. — E começou a vestir-se. Clare sentou-se na cama para observá-lo. Ainda não superara o fascínio causado pelo corpo musculoso e forte, pela decisão com que o marido executava cada movimento, até mesmo os mais simples. A maneira como vestia a camisa, como escolhia calça e as meias... O que aconteceria se ele não encontrasse as roupas sempre limpas e passadas, prontas para serem usadas? Essa seria uma de suas responsabilidades quando voltassem para casa. — Clare? Por que ficou tão quieta? Não gosta de Tom? E o nome de seu pai. — Eu sei, e ele já havia pedido para ser homenageado através do neto. Papai sempre foi adepto da franqueza ab soluta. Estava pensando em outra coisa. Peter sentou-se ao lado dela. — Em quê? — Em como você reagiria se eu não fosse uma excelente dona-de-casa.

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— Nem queira saber. Sou capaz dos atos mais violentos quando não encontro a comida na mesa e minhas camisas passadas da maneira correta. Talvez tenha de surrá-la, ou cortar seus privilégios, ou... — Estou falando sério. — Bem, talvez me mude para um hotel — respondeu com tom sério. — Oh... — Clare, não dou a menor importância para esse tipo de coisa. Por que pensou nisso agora? — Estava observando como se veste. — Não precisava fazer todo esse rodeio para dizer que prefere me ver despido. — Não... — Não? Já sei. Está com fome. — Para ser franca, estou — respondeu rindo. — Mas não esqueça que agora como por três. Sei que é errado pensar dessa forma, porque uma gestante não deve engordar mais do que... Espere um minuto. Como chegamos este assunto? — Você disse não. E foi muito firme. — Apesar do sorriso, tentava parecer ofendido. — Não estava falando sobre o que está pensando. Eu... — Esta conversa está ficando cada vez mais confusa. Quer dizer que ficou aí sentada enquanto eu me vestia, e estava pensando em outra coisa? Já se cansou de mim, Clare? — Peter, quer fazer o favor de calar a boca? — Como quiser. — Estava vendo você se vestir e notei que tem a confiança de um homem acostumado a encontrar todas as coisas em seus devidos lugares, como se nunca houvesse sido obrigado a procurar por um par de meias ou camisas limpas. — Está falando sério? — E claro que sim. Não consigo deixar de pensar na possibilidade de não ser eficiente nessa área de atividade. — Bem, agora que mencionou... Nunca havia pensado nesse aspecto do casamento. — Como eu suspeitava. — Isso vai causar alguma interferência mais séria em nossa vida amorosa? — Não. — Preciso de um pouco mais de segurança. Ou viverei atormentado pela idéia de que, cada vez que me vir sem roupas, ficará pensando na lavanderia, no ferro de passar, na arrumação do guarda-roupa... — Deixe de ser tolo — ela o censurou, rindo enquanto apoiava a cabeça em seu ombro. — A resposta ainda é não? — Sim! Pelo menos até depois do jantar. — Assim é melhor. Clare virou-se e beijou-o com paixão. — Uau! Se tiver de contratar um exército de criados para manter vivo esse seu entusiasmo, prometo que não pensarei em economia. PROJETO REVISORAS

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O resto da semana passou depressa. Na última noite sentaram-se na varanda de mãos dadas para apreciar o céu estrelado. Clare suspirou contente. — Obrigada por esta maravilhosa lua-de-mel. Vai ser difícil deixar um lugar tão maravilhoso. — E bom ouvi-la falar desse jeito. — Por quê? — Pensei que estivesse ansiosa para voltar ao trabalho. — O que fiz para dar essa impressão? — Nada. Mas nem sempre sei o que está pensando. Ela sorriu. — É estranho. Na maioria das vezes tenho a sensação de que pode ler meus pensamentos. — Então não está preocupada com o escritório? — Não. Pela primeira vez em toda minha vida, não estou nem pensando no meu trabalho. — Acha que isso vai mudar quando voltarmos para casa? — Bem, eu... — Ou não parou para pensar em como será nossa vida de agora em diante? Clare percebeu que o marido estava certo. Havia banido da mente toda e qualquer idéia relativa ao mundo além daquela ilha. A missão não havia sido difícil, tendo em vista a perfeição do cenário e os deliciosos momentos que haviam passado juntos, mas mesmo assim... — Acho que não — confessou. — Não fui capaz de pensar em nada que não fosse nossa lua-de-mel. E nem quis pensar em outras coisas. Mas tenho certeza de que tudo vai dar certo. Por favor, não vamos estragar nossa última noite aqui. Foi tudo tão perfeito... — Concordo com você. Nossa lua-de-mel foi inesquecível e não devemos arruinar os últimos momentos que passaremos nesta ilha, mas acho melhor conversarmos sobre isso agora. Caso contrário, acabaremos criando uma zona separada com uma qualidade quase irreal nela. Além do mais, não existe a menor possibilidade de estragarmos alguma coisa enquanto discutimos o resto de nossas vidas. Ela mordeu o lábio e teve de reconhecer a verdade naquelas palavras. — Não foi o que eu quis dizer — suspirou. — Mas a verdade é que, depois que resolvemos nos casar, estive em Rosemont várias vezes e não consegui... bem, não consegui me imaginar naquela casa. — Acho que entendo o sentimento. Muitos casais esperam começar a vida em um lugar que seja só deles, ou em uma casa que não tenha sido o domínio de uma esposa anterior. Clare o encarou surpresa. Peter continuou: — Teremos de falar sobre Serena em muitos momentos de nossas vidas, e não quero que isso a magoe ou aborreça. — Creio que compreendo o que está tentando fazer, Peter. Quer construir uma ponte entre a magia do que vivemos aqui e o mundo real. Ele passou um braço sobre seus ombros. — Sempre soube que era inteligente. E não é uma má idéia levar conosco parte do que encontramos aqui, é? — Para os momentos mais difíceis?

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— Pensa que não notei quando andou por Rosemont como se estivesse em um planeta alienígena? Acha que não percebi que caminha por entre as árvores de castanhas e abacates sempre olhando para trás, como se esperasse ser atacada por um fantasma? Sei que alguns momentos serão difíceis para você, Clare, mas isso não nos impede de levar conosco parte da magia que encontramos aqui. — Não... — Não parece muito segura. — Importa-se se eu voltar ao trabalho? — Não, desde que não seja em tempo integral. Vai ser bom para você. A resposta de Peter era sensata e refletia a decisão que ela mesma teria tomado, mas sentia-se perturbada. Por que ele havia decidido? Não podia mergulhar em pensamentos negativos. Não era uma boa maneira de começar um casamento de... O quê? Conveniência? Não de sua parte, porque se antes acre ditava estar apaixonada por Peter, agora sabia que o amava profundamente. Mas, apesar de terem feito amor várias vezes e parecerem muito apaixonados, as palavras que esperava ouvir jamais haviam sido pronunciadas. Talvez tivesse de provar seu valor como esposa para merecê-las. Seria esse o propósito da ponte que ele tentara construir? Ainda estava tentando chegar a uma conclusão quando sentiu, não só um tremor suave, mas um solavanco seguido por movimentos rítmicos e repetitivos. Colocou as mãos sobre o ventre e conseguiu experimentar o movimento através do toque. E foi como se todo seu ser se voltasse repentina mente para o interior, para as duas criaturinhas que cresciam dentro dela, para o momento quase místico que reduzia todo o resto a nada. Virou-se para encarar Peter e, serena, afirmou: — Vou ficar bem.

CAPÍTULO VI

Voltaram para casa na manhã seguinte. Peter deixara o Range Rover no estaciona mento do aeroporto. A viagem de Brisbane a Rosemont levava cerca de três horas, mas pararam para almoçar na baía de Byron e, seguindo uma sugestão de Peter, fizeram uma segunda parada no escritório de Clare. Sue estava trabalhando, embora fosse uma tarde de sábado, e a recebeu com um abraço e muitos elogios a sua aparência. — Ela parece ter tudo sob controle — Clare comentou quando entraram no carro. — Sentindo-se relegada? — Um pouco — confessou. PROJETO REVISORAS

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— Devia interpretar o bom funcionamento do escritório como um elogio a sua competência. Afinal, foi você quem deixou tudo muito bem preparado antes de partir. — Você é ótimo. Falando em trabalho, não está curioso para saber como vai indo a colheita das castanhas? — Muito. E um pouco apreensivo, também. Nunca abandonei a propriedade nessa etapa da cultura. — Pois assim que chegarmos em casa, você poderá ir ver com seus próprios olhos como tudo tem transcorrido. Tenho mesmo de desarrumar as malas e... Bem, tenho muito o que fazer. — Não precisa invadir a lavanderia — ele brincou. — Quem sabe? — Haviam entrado na propriedade, e Paddy e Flynn corriam ao lado do carro. — Nenhum Nez Percé. — Não. — Com expressão intrigada e séria, parou o carro no pátio diante da casa. Havia outro veículo no local, um cintilante Mercedes prateado que nenhum dos dois reconhecia. A ruga que marcava sua testa tornou-se mais profunda, até que duas pessoas surgiram na varanda e ele praguejou. — Aquela não é... — Exatamente. Serena. E parece que ela trouxe o namorado. — Você sabia? Ontem à noite, quando disse que... — Eu não sabia — cortou com determinação antes de descer do carro. May também havia aparecido na varanda, e seu rosto sugeria uma certa perturbação. Peter ajudou Clare a descer e, de mãos dadas, os dois foram ao encontro do grupo. — A que devo a honra desta visita? Serena não parecia ter pressa. Sorrindo, examinou a substituta da cabeça aos pés, e nessa pausa breve e tensa, Clare foi capaz de formar suas próprias impressões, entre elas a de que Serena estava ainda mais linda que antes. Ela cravou os olhos azuis no rosto de Peter e sua voz soou rouca, sedutora. — Não perdeu muito tempo, não é, meu querido? Espero que tenha prevenido sua nova esposa, porque de agora em diante ela será apenas uma fábrica de bebês. — Serena, vá direto ao ponto, por favor. — Por que estamos aqui? Viemos passar alguns dias no vilarejo, e então tive a idéia de vir buscar Sean para um período em nossa casa. Mas parece que temos um problema. Como acha que a Corte da Família lidaria com a situação? Talvez sua esposa possa nos esclarecer. — Que problema? — A voz de Peter era dura e fria como o aço. — Você afastou Sean da própria mãe. — O tom de Serena também endureceu. — Chegou ao extremo de engravidar sua advogada para se casar com ela e mantê-lo aqui. Acredito que os juízes tomam medidas duras contra esse tipo de artimanha envolvendo menores. — Nunca fiz nada para afastá-lo de você. Sean sempre quis ficar aqui, e você nunca se mostrou muito aliviada por não ter de cuidar dele. — Conte a ele, May — Serena pediu. May suspirou. — Sean está trancado no quarto e começou uma greve de fome... para não ser obrigado a ir embora com a mãe.

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Sean desistiu da greve de fome uma hora depois de tê-la iniciado, e abriu a porta do quarto assim que ouviu a voz do pai. Seu rosto era a imagem da seriedade quando, ao ver a mãe, ele disse: — Serena, não interprete minha atitude como uma ofensa pessoal, mas prefiro morar aqui. Irei vê-la sempre que for possível, passarei parte das férias em sua casa e... Ei, serei sempre seu filho, e você nunca deixará de ser minha mãe! Clare assustou-se com o brilho de fúria que viu nos olhos de Serena, mas ela disfarçou o sentimento com um sorriso e abraçou o filho. Durante todo o episódio, o namorado de Serena foi apenas um espectador atento e silencioso. Depois estendeu a mão para Peter e apresentou-se como Bruce Davidson. Careca e corpulento, com uma barriguinha saliente e um sorriso fácil, ele exibia as evidências de sua riqueza no próprio corpo. Uma corrente de ouro no pescoço, um relógio que devia ter custado milhares de dólares, sapatos Gucci, calça e camisa de linho que deviam ser criações Armani ou Versace, e um anel de ouro e diamantes que ele girava no dedo enquanto falava ou acompanhava o desenrolar dos fatos. Apesar do contraste entre ele e Peter, Clare simpatizou com Bruce. Especialmente porque esse mesmo contraste, a diferença entre a sobriedade clássica de Peter e o esplendor colorido de Bruce, causou um forte sentimento de triunfo sobre Serena. Diplomática, May serviu o chá e sugeriu que todos se sentassem à mesa. A princípio Serena se manteve silenciosa e séria. Mas Bruce conduzia a conversa de maneira agradável e relaxada e, sentindo-se vencida, ela acabou por participar, embora houvesse algo gelado nos olhares que lançava para Clare de vez em quando. De sua parte, Clare sentia-se como Alice no chá do Chapeleiro Maluco, mas respondeu à tentativa de paz oferecida por Bruce e descobriu que ele era realmente agradável. Perspicaz, prático, dono de um contagiante senso de humor, devia ter alguns anos mais que Peter. Também ficou evidente que Serena nem sempre seria capaz de impor sua vontade, apesar da devoção que Bruce demonstrava por ela. Sem rodeios ou cerimônias, ele comentou que aquele seria seu primeiro casamento e mal podia esperar pelo dia em que teriam filhos. — Vejo que terei irmãos surgindo de todos os lados — Sean comentou entusiasmado, calando-se ao receber um olhar frio do pai. — Acho que subestimei o garoto — Bruce revelou a Clare. — Serena sempre diz que ele é brilhante, mas nunca imaginei que uma criança de oito anos pudesse ter uma inteligência tão desenvolvida. — Ainda não viu nada — ela respondeu sorrindo. — Talvez o tenha assustado ao tratá-lo como uma criança comum. — Provavelmente. — Vou pensar um pouco mais no assunto. Soube que está esperando gêmeos? — Sim. E já começo a exibir os sinais de uma dupla gravidez. Na verdade, também posso sentir o peso dela. — Bobagem! Você está maravilhosa.

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Infelizmente, as palavras encontraram uma breve pausa na conversa em torno da mesa, e Serena lançou um olhar mortal na direção de Clare antes de abaixar a cabeça, deixando claro que a odiava mesmo sem conhecê-la. Como se não fosse o bastante, quando estavam partindo Bruce olhou em volta, examinando a propriedade cercada por roseiras. — Este lugar tem classe. Acho que posso levar algumas idéias daqui. — Se não fosse tão sério teria sido engraçado — Clare comentou naquela noite. — Sean possui recursos surpreendentes. — E verdade. Tivemos momentos divertidos, apesar de tudo — Peter respondeu. Estavam sentados na sala. Sean havia ido para a cama e May se recolhera ao quarto que ocupava em outra ala da casa. — Bruce não é exatamente um exemplo de tato — ele acrescentou rindo. — Gostei dele. Por outro lado, Serena nunca sentirá simpatia por mim, por mais que eu me esforce. — Eu não me preocuparia com isso. É comum a primeira esposa não gostar de sua substituta. Especialmente se essa substituição é motivo de ressentimento, ou se ela ainda estiver apaixonada pelo ex-marido, Clare pensou em silêncio. — A propósito, não espero que se transforme em uma fábrica de bebês. — Pois saiba que é como tenho me sentido nos últimos tempos. — A resposta foi marcada por um toque de humor. — Foi por isso que decidiu pelo divórcio? Por que ela não queria mais filhos? — Essa foi uma das razões. Achava que seria bom para Sean, e que outro bebê reduziria a preocupação de Serena com ela mesma. E eu sempre sofri com a síndrome do filho único. Nunca lamentou o fato de não ter tido irmãos? A pergunta a pegou de surpresa, e só mais tarde ela percebeu que Peter usara um truque eficiente para mudar de assunto. — Na verdade, sonhava com muitos irmãos e irmãs quando ainda era criança. Percebia nos colegas de escola uma certa vantagem, como se o fato de terem irmãos os ensinasse a interagir melhor, a se defender e formar relacionamentos. Agora compreendo que as grandes famílias são marcadas por disputas de todas as espécies, por rivalidades, ciúme e negligência com as crianças menores. — Não sei se negligência é a palavra mais adequada. Reconheço que os filhos menores recebem sempre menos atenção que os irmãos mais velhos, mas creio que isso só ocorre porque os pais estão sempre exaustos, sem energia. Sabe de uma coisa? Acho que tivemos mais sorte do que imaginávamos — riu. — Falando nisso, você parece cansada. — E estou. — Então é melhor ir para a casa, Sra. Hewitt. — E levantou-se para ajudála. Estavam indo para o quarto de mãos dadas quando ele disse: — A propósito, você lidou de maneira brilhante com a incômoda passagem de Serena por esta casa. Clare hesitou e acabou oferecendo uma resposta simples. — Obrigada. As malas, ainda fechadas, haviam sido deixadas em um canto do quarto. O centro do aposento era ocupado pela enorme cama de casal, e duas poltronas diante da lareira sugeriam aconchego. PROJETO REVISORAS

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Peter fechou as cortinas. — Este costumava ser o quarto de hóspedes, mas como é o mais amplo e o que oferece a melhor vista, decidi que ele devia ser nosso. Clare pensou um pouco e decidiu que o comentário era uma forma sutil de dizer que Serena nunca havia usado aquela suíte. Há pouco mais de vinte e quatro horas, Peter se mostrara preocupado com a possibilidade de magoá-la cada vez que mencionasse o nome de Serena, mas agora era ele quem ficava tenso diante de qualquer menção direta à ex-esposa. Sentada na beirada da cama, descobriu que não tinha energia ou vontade para discutir as implicações de sua descoberta. Na verdade, levantar-se para ir buscar a camisola e a bolsa com objetos de higiene pessoal dentro de uma das malas foi um esforço quase impossível. Minutos mais tarde, ao ver que Peter ajeitava as cobertas sobre seu corpo, perguntou: — Não vem se deitar? — Daqui a pouco. Ainda não estou com sono, e tenho uma pilha de documentos para examinar. Mas estarei no escritório, se precisar de mim. — Depois de um rápido beijo nos lábios, ele saiu e fechou a porta sem fazer barulho. Clare virou-se, encaixou a mão sob um lado do rosto e tentou descobrir por que estava tão composta. Não tinha dúvidas de que havia algo sombrio e intenso entre Peter e Serena, como um capítulo que não foi concluído. No entanto, essa certeza não a atingia diretamente. Não sentia o mesmo ódio que Serena demonstrava por ela. Não havia temor, nem mesmo quando pensava que Peter corria o risco de passar o resto da vida atormentado pela perigosa atração por uma mulher que ele também desprezava, ou dizia desprezar. Não havia revolta quando pensava que Sean havia sido o principal motivo para o casamento. Pousando uma das mãos sobre o ventre, sentiu uma série de movimentos rápidos. Era isso. Estava isolada de tudo que a cercava, vivendo em um casulo de proteção e segurança proporcionado pelas duas vidas que cresciam dentro dela. Clare adormeceu logo depois de chegar a essa conclusão e não acordou quando Peter deitou-se a seu lado. Só abriu os olhos muitas horas depois, quando a luz do sol já penetrava pelo tecido delicado das cortinas. — Não quero precipitar nada — May disse na manhã seguinte, um domingo —, mas agora que é a dona da casa, talvez tenhamos de discutir algumas coisas. Tomavam café na mesa da cozinha. Peter e Sean haviam saído para inspecionar a propriedade. — May, não sei que tipo de arranjo tinha com Serena, mas aprecio sua colaboração. Não só porque gosto de você, mas porque esta casa é mais sua do que minha. — Não é verdade. Possuo ações da companhia da família, o que me confere também o direito a parte da propriedade, mas Peter é o maior acionista, e foi ele quem herdou a casa e a plantação. Portanto... — Parou como se não soubesse que palavras usar. — Embora Serena tenha julgado mais conveniente deixar o comando da casa e os cuidados com Sean em PROJETO REVISORAS

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minhas mãos, lamento profundamente ter caído nessa armadilha. Fico imaginando se não teria sido melhor tê-los deixado sozinhos. Eu... eu... — May, não precisa tomar tanto cuidado com o que diz. Não sou sensível como pode estar imaginando. Mas se está tentando dizer que Peter e eu podemos preferir um pouco mais de privacidade, ainda não tenho uma resposta a oferecer. — Jamais me perdoaria se a história se repetisse e eu tivesse alguma participação nela. Por outro lado, com os gêmeos a caminho... — Parou e suspirou. — Vai se sentir mais aliviada e se eu disser que talvez esteja certa? E possível que essa privacidade nos faça bem no início do casamento. May deixou escapar um suspiro de alívio. — Tem certeza de que entende, Clare? Estarei sempre pronta para voltar, caso precise da minha ajuda, e certa mente estarei aqui quando os bebês nascerem. — May, você será sempre parte de Rosemont. E por ser uma pessoa tão doce e querida, as portas estarão abertas para recebê-la quando quiser voltar. — Obrigada. Sei que já tenho sessenta e cinco anos, mas ainda posso viajar e me dedicar a arqueologia, minha grande paixão. — Faça isso. Só preciso de uma semana para descobrir todos os segredos da casa, e depois estará livre para usar seu tempo como quiser. Afinal, administrar um lar é bem diferente de cuidar de um escritório de advocacia, não? — Você é adorável! E não deixe Serena perturbá-la. Ela pode ser a mulher mais sexy depois de Cleópatra, mas estaria mentindo se dissesse que não fiquei feliz quando Peter a deixou. May revelou a novidade na hora do almoço, e a surpresa de Peter foi evidente. — Não precisa ir embora — ele disse com ar aborrecido. — Clare já aprovou meus planos — ela explicou. — Exatamente. Ontem mesmo você estava elogiando minha eficiência, e agora... Tem dúvidas quanto a minha competência para administrar a casa? — E claro que não. Mas ontem falávamos sobre o escritório... — Oh, tenho certeza de que uma semana com May será suficiente. Depois disso serei capaz de transferir minhas habilidades profissionais para os... deveres domésticos. Não é assim que chamam as atividades de uma esposa dedicada? Peter abriu a boca para dizer alguma coisa, mas, notando o interesse de Sean, mudou de idéia. Em vez disso, perguntou sobre os planos de May. Só mais tarde, naquela noite, ele teve chance de pedir explicações à esposa. Ela estava sentada diante do espelho, escovando os cabelos antes de ir se deitar, mas virou-se e ficou em pé para dizer por que May preferia partir. — Entendo — Peter respondeu depois de ouvi-la. — Mesmo assim, não sei como vai conseguir cuidar de tudo sozinha, e não tenho certeza de que ela realmente deseja deixar esta casa. Ele ainda não havia trocado de roupa, embora Clare usasse a camisola de algodão sob o robe. Por isso sabia que iria para a cama sozinha mais uma vez.

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Também sabia que o marido não estava de bom humor, e que ela era a principal razão disso. — Acho que devia confiar mais em mim, Peter. — E você devia lembrar que está no quinto mês de uma gestação dupla. Quer continuar trabalhando, não é? E temos de considerar que Sean também exige cuidados e atenção, apesar de já estar crescido. — Muito bem, vamos por partes. O fator mais importante na vida de Sean é você. Compreendo que ele vai sentir falta de May, mas também sei que ele aprova minha presença nesta casa. — Clare... — Deixe-me terminar, por favor. Se puder, e sei que posso, tratá-lo com afeição genuína e respeito, sem interferir no relacionamento que ele mantém com você, em pouco tempo Sean estará habituado à nova rotina. — Isso tudo é muito bonito na teoria, Clare. Na verdade, tenho a impressão de que está recitando um trecho de algum tratado psicológico sobre como lidar com um enteado. Mas a prática nem sempre corresponde ao que os livros pregam. — Está insinuando que pode haver algum tipo de ressentimento entre Sean e eu? — As vezes não temos consciência dos nossos sentimentos. — Pelo amor de Deus, pare de procurar problemas onde eles não existem! Sean e eu nos damos muito bem. E quanto a estar grávida de gêmeos, a gestação não vai prejudicar meu processo mental, nem reduzir-me à invalidez. E claro que em breve estarei mais pesada e lenta, mas posso providenciar ajuda com a casa, não? — E o trabalho? Há poucas semanas estava tentando me convencer de que seria melhor permanecer solteira, por que assim poderia viver a experiência da maternidade sem abrir mão da carreira. — Está fazendo acusações injustas, Peter! — protestou furiosa. — Quer saber qual é minha opinião sobre tudo o que estamos discutindo? Fiz minha cama e agora vou me deitar nela! E farei tudo da melhor maneira possível. Não vou obrigar uma mulher de sessenta e cinco anos a desistir de seus planos para me sentir segura, porque não preciso disso. — Mas... — Por favor, sinta-se a vontade para ir trabalhar, ouvir música ou assistir à tevê. Quero ir para a cama. Peter encarou-a por alguns segundos, mas depois virou-se e saiu sem dizer nada. Dessa vez Clare ainda estava acordada quando ele voltou, pouco tempo depois, Peter tomou-a nos braços e, apesar de sua resistência, beijou-a nos lábios com ternura. — Desculpe-me. Reconheço que reagi de maneira exagerada à notícia sobre a partida de May, mas fico preocupado com você. Está tentando assumir uma carga imensa... Não. Estou realmente preocupado com seu bem-estar, mas a verdade é que a visita de Serena me perturbou. Teria feito qualquer coisa para poupá-la da crueldade e do veneno de minha ex-esposa. — Serena já me incomodou muito, mas atualmente ela não tem mais nenhum efeito sobre mim. — E bom saber disso. Ainda está zangada comigo? PROJETO REVISORAS

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— Não. Fiquei furiosa com sua atitude, mas agora... Bem, agora tenho uma idéia excelente sobre como podemos recuperar os preciosos minutos que perdemos discutindo. — E virou-se em seus braços para tocá-lo de maneira sugestiva. — Sou todo ouvidos — ele respondeu sorrindo. Na manhã seguinte, Clare e Peter ainda estavam deita dos, trocando carícias íntimas, quando ouviram as batidas na porta. Do outro lado, Sean anunciava que não podia chegar atrasado à escola, porque aquele seria o primeiro dia de treino do novo time de futebol do qual ele fazia parte. — Já estou indo — Peter respondeu resignado. Depois abraçou-a. — Estou fadado a passar um dia de frustração e desconforto, e tudo que sabe fazer é dar risada? — Desculpe-me. Trate de ir atender ao chamado de seu filho, ou ele acabará invadindo o quarto. Não gosto de fazer promessas, mas se o desconforto foi maior do que puder suportar, estarei bem aqui depois do almoço. Sabe que costumo cochilar no início da tarde, antes de Sean voltar da escola. — Vou me lembrar disso — ele riu. — Continue deitada. Trarei uma bandeja com chá e torradas, e depois você poderá se arrumar sem pressa. Clare comeu as torradas com geléia e bebeu o chá enquanto tentava descobrir o que havia provocado uma mu dança tão intensa na disposição do marido. Na noite anterior ele se mostrara frio e aborrecido, mas naquela manhã voltara a exibir a ternura com que a tratara durante o período de luade-mel. Teria sido algo que ela havia feito? Ou que não fizera? Os argumentos que oferecera na noite anterior não haviam surtido efeito, e no entanto... Incapaz de chegar a uma conclusão, levantou-se e vestiu-se para enfrentar o primeiro dia de sua nova vida em Rosemont. Clare só foi ao escritório duas vezes na semana seguinte. Com a ajuda de May, tomou conhecimento de toda a rotina doméstica e aprendeu alguns segredos, inclusive como lidar com os tanques de água. Como não havia encanamento ligando a propriedade à estação de tratamento na cidade, tinham de contar com a água das chuvas para o uso doméstico e com o riacho para o jardim. — Não há nada pior do que ficar sem água e ter de pedir ajuda externa para encher os tanques — May comentou enquanto explicava o sistema. — Isso acontece com freqüência? — Oh, não. Os reservatórios ocupam quase todo o espaço sobre a casa, e a quantidade de chuva durante o ano é mais do que suficiente para mantê-los cheios. Mas é sempre bom saber. E também é necessário manter os filtros limpos, embora esta seja uma tarefa desagradável que logo estará delegando a alguém. Especialmente por causa das cobras e aranhas. Clare engoliu em seco. — Não quero nem pensar nisso... — Não se preocupe. As cobras não aparecem todos os dias, e Paddy e Flynn costumam atacá-las antes que possamos vê-las. — Graças a Deus! May riu.

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— Vamos entrar. Logo estará habituada aos pequenos problemas da vida no campo. Sapos na cozinha, rãs no banheiro, mosquitos, coelhos, raposas... Mas as aves são maravilhosas. Clare gostou mais de ouvir sobre a rotina doméstica. E nos dias seguintes aprendeu muito. Quem devia chamar se a chaminé entupisse, onde obter a melhor madeira para a lareira, que eletricista e encanador costumavam contratar em caso de necessidade. Aprendeu como manter as traças longe dos lençóis e como folhas secas de eucalipto funcionavam como repelente natural para esses insetos. Mas foi o inventário da mobília, da porcelana e dos objetos de arte que a deixou fascinada. — Este aparelho de jantar Coalport foi de minha avó. Ela o ganhou de presente do marido no dia em que completaram cinco anos morando nesta casa. Não é incrível? Também foram dela as panelas de cobre, as telas das lareiras e o relógio da sala de estar. O tapete persa foi comprado por eles durante uma viagem ao Oriente Médio. Mas meu pai foi o maior responsável pela aparência que a casa tem hoje. Ele era um grande colecionador de antiguidades. — Então... Serena não contribuiu em nada para a decoração? May sorriu. — Ela sempre disse que gostaria de reformar o interior e torná-lo mais moderno. Peter não permitiu. — Afinal, o que foi que ele viu nela? — Também me perguntei a mesma coisa várias vezes, mas a verdade é que cheguei a gostar muito dela a princípio. Serena é capaz de ser doce e gentil, divertida e calorosa. Apesar da beleza exuberante e da evidente vaidade exacerbada, ela não parecia ser uma má escolha. — Depois de quanto tempo a situação começou a se deteriorar? May suspirou. — Ela detestou a gravidez. Não que tenha sido um período de grandes dificuldades ou transtornos, mas seu estilo ficou completamente arruinado. Tenho certeza de que Serena ama Sean, mas ela não sabia como cuidar do bebê. Peter lidava com ele de maneira muito tranqüila e eficiente. — Ele é uma verdadeira enciclopédia sobre as alegrias e dificuldades da gravidez. Especialmente as dificuldades. — Não estou surpresa. Ela fazia questão de anunciar até mesmo o menor desconforto. Sabe o que considero mais desagradável em Serena? Ela faz dos homens uma carreira. Clare piscou com ar confuso. — Bem, ela nunca teve outro meio de sustento. E quando perdeu seu maior poder de atração, o corpo perfeito, ficou desconsolada e incapaz de se interessar por qualquer outra coisa. Sua aparência e o efeito que exerce sobre o sexo oposto é a essência de sua identidade. — Entendo. — E mesmo assim, duvido que Bruce Davidson esteja disposto a se curvar diante de toda aquela beleza. Ele não se deixará dominar. — Tive a mesma sensação quando ele esteve aqui. Também acho... Há alguém batendo na porta?

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Atravessaram o corredor juntas e encontraram um mensageiro na varanda. Ao lado dele havia uma caixa muito grande. — Esta é a casa do Sr. Sean Hewitt? — Bem, há um Sean Hewitt morando aqui. O que é isso? — May perguntou intrigada. — Uma encomenda especial de Sidnei. Preciso da assinatura dele no recibo. — Sean só tem oito anos de idade e está na escola. Quem enviou a encomenda? — Humm... — Ele consultou a documentação que mantinha presa em uma prancheta. — O nome é B. Davidson. E creio que pode assinar pelo destinatário, já que ele é menor de idade. — E um telescópio! — Clare exclamou depois de estudar um diagrama desenhado na caixa. — Exatamente. — O mensageiro coçou a cabeça. — E um dos melhores. Não imaginam qual foi o valor exigido pelo seguro para o transporte da mercadoria até aqui. Tem certeza de Sean Hewitt só tem oito anos? — Não sei se Peter vai permitir que Sean aceite o presente — comentou May depois de fechar a porta. — Depende de quem o encontrar primeiro — Clare opinou rindo. — Duvido que Sean desista do telescópio sem uma boa briga. Devo reconhecer que a manobra foi muito astuta. — E contou o que Bruce havia dito sobre o menino. — Na minha opinião, isso é suborno... — Do que estão falando? — Peter perguntou ao entrar na sala. — Mas... o que é isso? — E apontou para a caixa no chão. Enquanto explicava tudo que havia ocorrido, Clare notou que o marido se esforçava para conter uma explosão furiosa. Não gostaria de ter de enfrentar situações como aquela em sua vida diária. Mas, compondo-se rapidamente, concluiu: — Sei que é um presente exuberante e muito caro, mas acho que Bruce só está tentando mostrar que tem se esforçado para entender Sean um pouco melhor, e isso não pode ser tão ruim. — E repetiu o que contara a May minutos antes. Houve um silêncio prolongado. Depois Peter a surpreendeu. — Vou confiar em seu julgamento, Magrela. Mas vai ser difícil convencerme se esse tipo de ocorrência se repetir. — Duvido que aconteça. Bruce não pode ser tão tolo. — Uma das coisas que mais aprecio em você é sua sanidade, Sra. Hewitt. — E abraçou-a. May saiu discretamente. — Tem idéia do que vamos fazer agora? — Peter perguntou com voz rouca. — Posso imaginar. Vamos nos tornar astrônomos só para contentá-lo. — Também. Mas estava falando sobre algo mais imediato. — E beijou-a com ardor. Quando ergueu a cabeça e fitou-a, havia um brilho divertido em seus olhos. — Não sei se é minha imaginação, mas sinto que nos afastamos mais e mais a cada dia. Ela apoiou as mãos em seus ombros e olhou para o próprio ventre. PROJETO REVISORAS

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— Não vai acreditar, mas as roupas que comprei há algumas semanas já estão apertadas. — Gêmeos costumam provocar esse tipo de incômodo. Já marcou a próxima consulta? — Por quê? — perguntou preocupada. — Acha que pode haver algo de errado? — É claro que não. E se você se sente bem... — Sinto-me muito bem. — Bem, então não tem por que se preocupar. Só perguntei porque me interesso por tudo que está vivendo. E gostaria de ir com você. — Levou-a para perto do sofá, onde se sentaram lado a lado. — Devo começar o curso pré-natal em breve, mas você não precisa participar. — Por que não? — Porque já passou por isso antes e... bem, para ser honesta, não consigo pensar em nada pior. — Não posso dizer que seja divertido. Um punhado de mulheres grávidas e seus constrangidos maridos podem formar um grupo bem desgastante. Por isso vai precisar de mim. — Tenho mesmo de freqüentar o curso? Posso ler sobre o assunto nos livros. — Clare, eu nunca fiz um curso pré-natal. Serena recusou-se a participar dele. Mas sempre tive a impressão de que as aulas teriam tornado tudo mais fácil para ela. — Como assim? — A sensação de solidão pode desaparecer quando se deparar com a evidência do mesmo processo em outras mulheres. Não sei... Talvez exista um certo clima de camaradagem em uma sala cheia de pessoas vivendo a mesma situação. E tenho certeza de que o objetivo do curso é acabar com o mistério que torna esse período tão assustador. — E se todas forem... muito mais jovens que eu? — Então seremos os dois velhotes da turma. — Está rindo de mim! — Acusação negada. — É claro que está! Peter suspirou. — Por que não discute o assunto com Valerie? Se a idéia de participar de um curso pré-natal a incomoda tanto... — Sei exatamente o que ela vai dizer, mas prometo conversar com Valerie na próxima consulta. A propósito, irei ao consultório na semana que vem. — E revelou o dia e o horário. — Ótimo. Iremos juntos. Oh, sim, e estive pensando em outra coisa. Gostaria de convidar seus pais para passarem alguns dias conosco? — Peter, eu adoraria! — respondeu entusiasmada. — Minha mãe está muito excitada com a chegada dos netos. E meu pai também. Sei que vai considerar estranho, mas a gravidez me aproximou muito deles. Especialmente de minha mãe. Sinto que agora somos muito mais íntimas do que jamais fomos, como sé pudesse entendê-la melhor. — Nesse caso, telefone para eles e diga que podem vir quando quiserem.

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Ficaram sentados por alguns minutos, abraçados, desfrutando de um companheirismo silencioso. De repente Paddy e Flynn, que até então haviam estado deitados sobre o tapete, levantaram-se e saíram correndo. — Temos visitas? — perguntou Clare. — Não. O ônibus escolar está chegando. — Mas... não consigo ouvir nada! — Nem eu, mas tenho certeza de que é o ônibus. Paddy e Flynn vão encontrar Sean no portão todas as tardes. Clare sabia que todas as manhãs o menino percorria de bicicleta a longa distância entre a casa e a entrada da propriedade, e que a deixava perto do portão para que pudesse usá-la novamente à tarde. Mas nunca tivera a oportunidade de testemunhar como os cães corriam para ir encontrá-lo. Alguns minutos depois os três apareceram, Sean pedalando com força e disposição, tentando acompanhar os animais. — O que é isso? — ele perguntou ao entrar pela porta da frente. Peter explicou sobre o telescópio. Pela primeira vez na vida, Sean Hewitt ficou sem ação, mas a perplexidade durou apenas alguns momentos. Depois ele indagou cauteloso: — O que devo fazer? — Escrever para Bruce agradecendo pelo presente — o pai instruiu com tom calmo. — Não tenho de ir... morar com eles, não é? — Creio que Bruce já compreendeu que você prefere ficar aqui. Por que não abre a caixa? Talvez haja um bilhete dentro dela. Havia realmente uma mensagem acompanhando o presente, e ela dizia: Desculpe se o tratei como se fosse um bebê; a verdade é que não sei muito sobre crianças. Mas agora descobri que é um menino capaz de entenderé usar um destes... divirta-se! Não espero nenhum tipo de retribuição. — Talvez ele não seja tão ruim, afinal — Sean comentou depois de ler o bilhete. — E verdade — Peter concordou. Só então a alegria do menino explodiu com força total. — Papai, tem idéia de como sempre desejei poder observar as estrelas e a lua? — Bem, primeiro vamos ter de montar o telescópio. Quer ajuda? Enquanto pai e filho se dedicavam à montagem do novo e complexo brinquedo de Sean, Clare foi sentar-se na varanda invadida por um profundo contentamento.

CAPÍTULO VII

Um mês passou depressa. May partiu prometendo voltar quando os bebês nascessem. Sean estava tão envolvido com o novo telescópio, que nem notou sua ausência. PROJETO REVISORAS

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Sem a ajuda de May, Clare empregou, além da faxineira que comparecia a Rosemont três vezes por semana, mais uma mulher para lavar e passar a roupa da família, o que a deixou livre para dedicar-se apenas à cozinha, uma tarefa que sempre apreciara. Ia ao escritório três vezes por semana, mas sempre retornava a tempo de receber o ônibus escolar. Sean tinha tantas atividades esportivas e acadêmicas que não precisava de entretenimento, embora pedisse ajuda para fazer o dever de casa e apreciasse sua companhia quando estava diante do computador. Ele também parecia gostar muito da atmosfera familiar que crescia com a convivência, dos passeios e finais de semana que passavam na praia, no apartamento de Clare. Sean adquirira o hábito do pai de chamá-la de Magrela e não se incomodava quando ela respondia chamando-o de "moleque". Interessado no processo que traria ao mundo seus irmãos, ele estava sempre fazendo perguntas e acrescentando novos itens à lista de nomes que elaborava no computador. No geral, a nova ordem das coisas funcionava bem. Peter estava trabalhando duro na colheita das castanhas, mas parecia feliz, como o filho e a esposa. Clare sentia-se tão satisfeita que já começava a sentir um certo interesse pela cultura de castanhas. A vida no campo se tornava mais fácil a cada dia. Os pais passaram uma semana em Rosemont e ela e a mãe tiveram momentos encantadores planejando o quarto dos bebês. Peter se esforçou para tornar a estadia dos sogros agradável, mas quem mais apreciou a presença de Tom Montrose foi Sean. O pai de Clare sempre havia sido um astrônomo amador muito interessado. E Serena e Bruce se casaram no final do mês. Levado pelos avós maternos para a cerimônia e alguns dias de convivência com a outra parte da família, Sean voltou impressionado. — Devia ter visto Serena! — ele disse a Clare. — Ela estava um estouro. E Bruce não conseguia parar de sorrir. A comida estava deliciosa e todos se divertiram muito. Como vai meu pai? Clare parou, porque o menino já havia estado com o pai, o que tornava a natureza da pergunta mais profunda. — Ele está bem, Sean — respondeu com honestidade. — Que bom. Clare e Sean possuíam um bom nível de compreensão. Ambos haviam imaginado como o casamento de Serena afetaria Peter, mas até então não houvera uma única evidência de que ele sentia alguma coisa. Clare decidira freqüentar o curso pré-natal. O fato de ser tratada como uma pequena celebridade por estar esperando gêmeos diminuiu seu constrangimento, e o horror demonstrado por alguns pais diante do vídeo de um parto despertou seu senso de humor. No caminho de volta para casa, Peter segurou a mão dela enquanto dirigia com a outra mão. — Ficou impressionada? — Não. Esperava algo mais demorado, mas o que vimos foi um parto rápido e muito simples. — Hoje em dia, duvido que os médicos permitam que o processo se torne complicado a ponto de escapar ao controle. PROJETO REVISORAS

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— Espero que esteja certo. Minha mãe sempre diz que eu nasci dez horas depois da primeira contração, e que ela não precisou de anestesia ou pontos. Queira Deus que seja genético, como os gêmeos. — Tenho de admitir que sua coragem é surpreendente. Está lidando muito bem com a gravidez. — No entanto, de acordo com todos os dados e informações que reuni, de agora em diante a situação tende a se tornar mais complexa. Estou entrando no temido terceiro trimestre. — Não sabe como estou arrependido por ter feito esse comentário tolo. Não queria assustá-la. — Oh, não me assustou. Apenas abriu meus olhos para a realidade. — Você é muito compreensiva, Clare. — Vi coisas interessantes naquele curso, além do filme de um parto. — E mesmo? Do que está falando? — Bem, havia duas mães solteiras com ar muito triste e solitário, e uma mulher que estava tendo o quarto filho em seis anos. Ela só havia planejado dois, o marido estava desempregado e os pais moram no exterior. Tudo isso me fez perceber que sou uma felizarda. — Por que... pode contar comigo? — Por isso, porque não tenho problemas financeiros, por que meus pais moram em uma cidade próxima daqui, e eu quero estes bebês e... enfim, por tudo. O inverno se aproximava rapidamente, e por isso naquela noite acenderam a lareira do quarto. Depois de massagear o corpo da esposa com óleo de amêndoas, Peter esperou que ela vestisse uma camisola de flanela e convidou-a a sentar-se com ele diante do fogo para tostarem marshmallows. Mais tarde fizeram amor com ternura e delicadeza, e depois dormiram abraçados. Na manhã seguinte, Clare acordou inundada por uma felicidade tão intensa que temia explodir. Ficaram um pouco mais no aconchego da cama, conversando sobre diversos assuntos do dia-a-dia. — Como vai indo o escritório? — Peter quis saber. — Muito bem. Ofereci sociedade a Sue. Ela atraiu alguns novos clientes, gente importante e influente, e estamos pensando em contratar mais um advogado. Se levarmos em conta os conhecimentos técnicos de Lucy, que já se dedica à profissão com muita seriedade, embora ainda seja uma estudante, seremos quatro pessoas no escritório. — Ela mordeu o lábio. — Não sei se estamos nos precipitando. Lennox Head ainda é uma cidade muito pequena, um vilarejo. — Já pensou em abrir outro escritório? Em Ballina ou Alstonville? Clare sentiu o coração bater mais depressa. — Você não se incomodaria? — Bem, não creio que deva pensar nisso antes do nascimento dos bebês, mas depois... — Com certeza, Peter. Vou pensar na sugestão. Os detalhes que Peter mencionara no dia em que soubera sobre a gravidez provaram ser ainda piores na vida real. Azia, constantes visitas ao banheiro, dificuldade para encontrar uma posição confortável na cama e a

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sensação de estar engordando um pouco a cada dia... As costas doíam, e era difícil entrar e sair do carro esporte que antes havia adorado dirigir. Submeteu-se a outro exame de ultra-sonografia e, apesar dos bebês estarem bem, notou uma certa preocupação nos olhares trocados por Valerie e o obstetra. — Há algo que não tenha me contado? — perguntou a Valerie certo dia, quando ainda tinha pela frente cerca de seis semanas de gestação. A médica fora visitá-la em seu escritório. — Não, mas... Bem, na minha opinião, devia estar em casa com os pés para cima. — Oh, eu estaria, se houvesse alguma chance de me sentir confortável. Clare não sabia, mas Valerie decidira ir vê-la depois de receber um telefonema de Peter. E ela retornou a ligação assim que voltou ao consultório. O resultado da negociação secreta foi a chegada da mãe de Clare na manhã seguinte. Jane Montrose chegou em Rosemont anunciando que não sairia mais dali até o nascimento dos netos. — Mas... e papai? Quero dizer, é lógico que estou muito feliz com sua presença, mas como ele poderá ficar sozinho? — Seu pai acabou de passar por exames completos, e o médico afirmou que o marca-passo está cumprindo seu papel. Algumas amigas prometeram preparar as refeições de Tom, e deixei o freezer repleto de pratos prontos. Mas ele virá nos finais de semana, e aposto que está muito feliz com esse período de liberdade. Afinal, ele poderá ir ao clube de boliche quando quiser. Enquanto isso, nós duas terminaremos o quarto das crianças e as colchas que começamos a tricotar em casa. Mas Jane Montrose fez muito mais. Insistiu em ajudar na cozinha e participar da rotina doméstica, e com uma companhia tão agradável para conversar, tricotar e costurar, Clare passou a ficar mais tempo em casa. No final do oitavo mês, durante uma consulta com o obstetra, a preocupação que pressentira finalmente foi expressada em termos claros. — Clare — ele disse — existe uma chance da gravidez não chegar ao fim. Ela o encarou assustada. — Em primeiro lugar — o médico continuou —, cerca de sessenta por cento dos gêmeos nascem com algumas semanas de antecedência, o que significa que deve concluir todos os preparativos. Em segundo lugar, quadros de pré-eclâmpsia são mais comuns em mulheres que esperam gêmeos. Se notar algum sinal de retenção de líquidos, tontura, visão turva ou dores de cabeça, trate de nos informar imediatamente. E vamos manter vigilância constante sobre sua pressão sangüínea. — Não notei nada parecido com o que acabou de descrever. — Ótimo. Mas, à luz da história que nos contou sobre sua mãe ter sido a única sobrevivente de um casal de gêmeos, também vamos monitorar a condição dos bebês com maior constância. Se houver o menor sinal de sofrimento fetal, faremos uma cesariana. — Prefiro preservar o caráter natural do processo. — Eu também. Não sou favorável a cirurgias rotineiras, mas uma cesariana pode salvar vidas e garantir a saúde de mães e bebês. E temos de levar em consideração a sobrecarga que está sofrendo, pressões que se intensificarão até a hora do parto. Há uma certa preocupação com suas PROJETO REVISORAS

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medidas pélvicas. Conheço mulheres que deram à luz bebês de três quilos ou mais sem nenhuma dificuldade, mas você é muito delgada, e não pretendo pôr em risco sua vida ou a dos bebês, caso as coisas se tornem difíceis. — Entendo... — E quanto ao acompanhamento constante dos três — ele concluiu com um toque de humor —, Valerie se propõe a passar por sua casa todos os dias a caminho do trabalho. Ela não terá de se desviar do caminho, e assim poderá verificar os batimentos cardíacos dos bebês, sua pressão sangüínea e estado geral. A alternativa seria levá-la para um hospital, mas... — Oh, não! — Sabia que teria essa reação. Mas, se for mesmo necessário interná-la, creio que será um preço pequeno a pagar pela saúde da mãe e dos bebês. Assim que chegou em casa, Clare contou todas as novidades a Peter, que a esperava na varanda, apesar do trabalho de colheita das castanhas estar em andamento. Era uma manhã fria e clara, e a paisagem diante deles lembrava um cartão postal. — Então o médico decidiu informá-la — ele comentou. — Decidiu? Quer dizer que já sabia de tudo? — Bem, decidi discutir algumas preocupações com Valerie, que também havia estado pensando nas mesmas coisas, e nós dois nos reunimos com o obstetra. Achamos melhor não preocupá-la, já que nada era definitivo ou confirmado, e o médico sugeriu que só revelássemos os motivos de nossa preocupação caso fosse necessário, para que estivesse preparada para eventuais emergências. — Não acredito. Fui tratada como uma criança de seis anos de idade! Peter riu e beijou-a na testa. — Não, embora às vezes pareça ainda mais nova. O fato é que está grávida, Clare, e precisa de tranqüilidade para superar esse período de maneira satisfatória e segura. — Suponho que também tenha planejado a visita de minha mãe. — Admito que telefonei pedindo a colaboração da Sra. Montrose, mas ela disse que só não havia vindo antes por receio de interferir. Mais alguma objeção? — Não — Clare respondeu culpada. — Obrigada por tudo, Peter. — Não gosta de ser excluída das decisões, não é? — Sei que parece mesquinho, mas... sim, creio que é isso mesmo. — Lembre-se de uma coisa, Magrela: O que quer que aconteça, estaremos todos com você. Não se preocupe com nada. Ela apoiou a cabeça em seu ombro e sentiu vontade de dizer que o amava, mas teve de conter-se. Mergulhando no mundo que havia sido eu refúgio nos últimos meses, pousou uma das mãos sobre o ventre e concentrou-se nos movimentos dos bebês. O truque deu certo, como sempre, e ela nem notou que Peter fitava o topo de sua cabeça com uma ruga profunda entre as sobrancelhas. Clare descansou depois do almoço, mas não conseguiu dormir com a mente povoada por todo o tipo de pensamentos.

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Sabia que a sensibilidade exacerbada era comum no final da gravidez, mas o conhecimento não diminuía o impacto provocado por qualquer evento triste ou violento, principal mente se fosse relacionado a uma criança. Sonhos estranhos perturbavam seu sono, mas naquela tarde eram as preocupações com o parto que a inquietavam. Sabia que uma cesariana livrava a mãe de todo o esforço necessário ao processo, mas a recuperação era mais lenta, difícil e dolorosa por tratar-se de uma cirurgia. Por outro lado, sabia que um parto normal não podia acontecer em certas circunstâncias, como no caso do bebê estar sentado no útero materno, ou da mãe não ter a dilatação necessária para a passagem da criança. Lera sobre bebês com bacias deslocadas e clavículas quebradas por conta desse tipo de contratempo na hora do parto, e tremia ao imaginar um de seus filhos sofrendo as conseqüências de sua persistência. Pensando no parto normal, lembrou os exercícios de respiração e relaxamento que aprendera no curso pré-natal, e como eles não eram suficientes para preparar a mulher para enfrentar a dor envolvida no processo. Tentando livrar-se dos pensamentos inquietantes, concentrou-se em Peter e em sua dedicação, em como havia sido um marido perfeito nas últimas semanas de dificuldades crescentes. Ele a cercava de cuidados e atenção, mas nunca dissera amá-la. Talvez por não julgar as palavras necessárias... Mas uma estranha compulsão crescia dentro dela, uma forte necessidade de expressar seus sentimentos. Talvez fosse um impulso provocado pelas preocupações com o parto, mas a verdade era que precisava desabafar. Decidida, levantou-se, pegou papel e caneta em uma gaveta da cômoda, sentou-se diante da lareira e começou a escrever. Querido Peter, Como dizer que o amo? Talvez deva voltar ao começo. Creio que meu amor por você sempre existiu. Por isso sofria aqueles estranhos ataques de desconforto, episódios que não conseguia nomear. Tudo parecia muito adequado em nosso romance, não fazíamos exigências e éramos sempre tão adultos e modernos. Então, quando tive consciência do meu amor por você? Quando me permiti enxergar o que o inconsciente já conhecia? Desconfio que tenha sido no dia em que lhe contei sobre a gravidez, porque aquela foi uma tarefa muito difícil. Por quê? Não sabia qual era minha posição em sua vida, e temia ser apenas um instrumento para tornar mais fácil aquele período em que você buscava superar Serena. Sabia apenas que um período de sua existência era como um livro fechado para mim. E quando disse que estava grávida, embora tenha se oferecido para fazer de mim sua esposa, ainda não consegui ler sua mente completamente... e foi então que percebi que o amava. Para ser honesta, só me mostrei obstinada em permanecer solteira por não suportar a dor de saber que não me amava tanto quanto eu o amava. Engraçado, não? Quero dizer, apesar de ter sido sempre tão obcecada pela carreira, duvido que pudesse mesmo criar um filho sozinha. E quanto a ser feminista... bem, nada disso importa. Por que me pediu em casamento? Repeti essa pergunta a mim mesma centenas de vezes. Por causa de Sean? Por sentir-se no dever de assumir minha gravidez? Talvez pelos dois... Ainda não sei, mas sinto que existe algo sombrio entre você e Serena, como águas turvas correndo PROJETO REVISORAS

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silenciosas, e que há um território no qual jamais me deixará entrar. Por isso nunca disse nada e talvez nem diga. Por que o amo? Você sempre tirou meu fôlego, libertou uma parte de mim cuja existência eu desconhecia, e que agora é como um oceano sob minha janela. Uma vasta fonte de prazer existe em ser sua amante, em rir com você, em viver com você, em saber que minha vida seria vazia e sem graça sem sua presença. Também me dá prazer desejar estes dois bebês por uma razão muito simples: eles são seus. Clare guardou a caneta e esfregou os olhos. Mas as lágrimas continuavam caindo. Então respirou fundo e descobriu que se sentia melhor. Como se finalmente houvesse resolvido os próprios sentimentos e seguisse em frente com a mente clara e livre. Encontrou um envelope, guardou a carta dentro dele e escreveu o nome de Peter na frente antes de colocá-lo no fundo de uma gaveta, sob suas roupas íntimas. Então saiu para ir receber o enteado que chegava da escola. Alguns dias mais tarde, Peter comentou que Bruce e Serena pretendiam passar as férias escolares no distrito, e que gostariam de desfrutar da companhia de Sean por um determinado período. Como o casal mantinha um apartamento e um barco na Costa Dourada e planejavam um rápido cruzeiro pela baía Moreton, Sean estava entusiasmado. — Eles virão buscá-lo depois de amanhã — concluiu. Clare ficou em silêncio. — Se achar melhor, posso levá-lo... — Não, não — ela o interrompeu. — Temos de facilitar a vida de Sean, e isso implica em alguns sacrifícios. Por que não os convida para almoçar conosco? — Clare, não precisa ir tão longe para agradar meu filho. Especialmente agora. — Ainda posso organizar um almoço íntimo. E se nunca viu minha mãe em ação, prepare-se para uma grande surpresa. Ela é uma espécie de fada das tarefas domésticas, e receber convidados é seu ponto forte. — Se tem certeza de que não se importa... — Não me importo. — E terminou de escovar os cabelos antes de ir para a cama. — Boa noite, Peter. — Está me expulsando do nosso quarto? — ele riu. — E claro que não. Mas estou cansada, e sei que não costuma dormir cedo. Por isso pensei que... — As coisas mudaram. Quero que você durma, e uma massagem nas costas sempre ajuda a relaxar. — Tem sido tão maravilhoso, que não sei como agradecer. Peter fitou-a e foi tomado de assalto pela apreensão. Valerie havia comentado sobre sua aparência cansada e frágil, sobre as olheiras que cercavam seus olhos e a respiração ofegante, e agora que prestava mais atenção, tinha de admitir que a médica estava certa. Como Clare fora capaz de suportar o peso de uma gravidez dupla em meio a tudo que acontecera entre eles? Como, além de tudo isso, ainda operara uma mudança completa em seu estilo de vida sem nunca fazer cobranças ou acusações?

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A questão começava a torturá-lo. Por quê? Seria ela uma dessas mulheres que nasceram para a maternidade, apesar de todas as evidências em contrário? Seria esse instinto maternal que a sustentava? Ou Clare descobrira a essência de seu dilema, todas as coisas que o impediam de viver livremente um novo romance... as lembranças que ainda o assombravam depois do fracasso do primeiro casamento? Finalmente disse: — Não me agradeça. Você tem sido corajosa, firme, e falta apenas um mês para a chegada dos bebês. Tudo vai dar certo. Clare e a mãe terminaram de arrumar a mesa na sala de jantar. — Devo dizer que tudo isso é muito estranho, mas creio que estão fazendo o melhor por Sean — Jane opinou. — Como ela é? — Linda. E duvido que goste de mim. No entanto, foi deles a idéia de vir buscar Sean... ou talvez a idéia tenha sido de Bruce. E ele é muito equilibrado. Como estou? — Encantadora. Esteve pálida e abatida demais durante alguns dias, mas de repente recuperou o viço. E essa roupa combina com você. A roupa em questão era um conjunto de calça e túnica de lã preta. A maquiagem suave e um rápido jeito nos cabelos haviam operado um verdadeiro milagre por sua aparência, e os sapatos também eram muito elegantes, apesar de baixos. — Bem, temos de usar as armas mais eficientes para enfrentar um combate — suspirou. — E estas são as únicas que tenho. Acho que ouvi um carro se aproximando. Espantada, Clare constatou que aquela mulher era muito diferente da Serena com quem conversara naquela mesma casa em seu primeiro encontro. Lembrou-se do que May dissera sobre seus momentos afetuosos e ternos, sobre a simpatia com que cativava as pessoas. Serena não poupou esforços para conquistar Jane Montrose, foi divertida e carinhosa com Sean, exibiu um comportamento impecável com o marido, e trocou experiências sobre sua gravidez com Clare como se fosse uma boa amiga. Como se não bastassem todas essas qualidades, Serena era tão linda que ninguém conseguia tirar os olhos dela Bruce se mostrava fascinado, embora a expressão se tornasse mais dura em algumas ocasiões, e Peter não escondia a curiosidade com que observava a ex-esposa. Então chegou o momento da partida, e de repente tudo se tornou muito claro. Serena pousou a mão no estômago de Clare e disse: — Pobrezinha... sei o que é sentir-se um saco de batatas e não ter certeza de que um dia voltará ao normal. Boa sorte! Virou-se para Peter e ficou quieta por um instante, convidando-o a apreciar suas formas perfeitas. Quando os olhos se encontraram ela sorriu, um sorriso breve e cheio de segredos que precedeu um aceno breve e palavras de despedida pronunciadas com voz rouca. De braço dado com Bruce, Serena deixou Rosemont com o ar imponente de uma rainha vitoriosa. Ao lado de Peter, Clare pensava que devia ir rasgar aquela carta. Mas Sean a abraçou e todas as preocupações desapareceram de sua mente. PROJETO REVISORAS

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— Não tenha os bebês antes da minha volta, por favor! Quero estar por perto quando eles chegarem. — Vou tentar — ela riu. — Divirta-se, moleque. Estavam se preparando para entrar depois do último aceno, quando o capataz de Peter brecou a caminhonete na frente da casa e desceu muito assustado. Um incêndio ameaçava destruir o galpão onde os frutos eram selecionados. — E melhor ir com ele — Clare aconselhou com tom firme. — O assunto parece ser sério. Uma sirene cortou o ar e, sem dizer nada, Peter correu para a caminhonete. Quando voltou naquela mesma noite, depois de telefonar várias vezes para informá-la sobre o andamento da situação e garantir que não corria nenhum risco, Jane o recebeu com a notícia de que Clare já havia ido para a cama. — A pobrezinha estava exausta. Sabe como o repouso é importante neste estágio da gestação. Talvez seja melhor não importuná-la. Peter olhou para as roupas sujas de fuligem e decidiu ir dormir no quarto de hóspedes. Na manhã seguinte, ao acordar na cama vazia, Clare pensou um pouco em tudo que havia acontecido. Sabia que o mais provável era que Peter houvesse se mantido fora do quarto para não importuná-la, mas a hipótese de estar per turbado com a imagem de Serena dividia espaço com os argumentos oferecidos pelo bom senso. E não havia nada que pudesse fazer a esse respeito. Alguns minutos depois levantou-se, vestiu um robe e foi procurá-lo. Peter dormia no quarto de hóspedes, e despertou sobressaltado com o som da porta. — Clare! Chegou a hora? — perguntou apavorado enquanto se levantava. — Não! Acalme-se, por favor — ela respondeu rindo. — Os bebês ainda estão bem confortáveis aqui dentro. Eu... pensei que o tivesse perdido, só isso. Peter suspirou aliviado. — Tem certeza de que está bem? — Quer uma prova? Volte para a cama, Sr. Hewitt, e verá que ainda sou capaz de algumas façanhas. Poucos minutos mais tarde, ele estremecia num misto de alívio e satisfação, e Clare o beijava delicadamente nos lábios, afagando seus cabelos. — Por que fez isso? Não estou reclamando, porque foi maravilhoso, mas... Por que agira daquela maneira? Para afastar o espectro de Serena? Não. Havia sido tudo tão natural, que Serena nem passara por seus pensamentos. — Não pude me conter — respondeu. — E você merecia uma compensação por todas as vezes em que... não me senti disposta. — Você é muito doce. — E beijou-a nos lábios. — Quanto a ontem... — Peter, já disse que não me importo com a presença de Serena. — Mas... — Por favor, vamos mudar de assunto, está bem? O incêndio causou muitos prejuízos? Ele a encarou em silêncio por alguns instantes antes de responder: — Metade do galpão terá de ser reconstruído, mas conseguimos salvar as castanhas. — Como o fogo começou? PROJETO REVISORAS

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— Ainda não sabemos. Pode ter sido uma sobrecarga elétrica. Felizmente não havia ninguém no galpão na hora do incêndio, mas o acidente vai nos atrasar um pouco. — Não tem seguro? — Oh, sim, mas sei que aquelas letras miúdas no final do contrato sempre causam surpresas. — Está esquecendo algo importante, Sr. Hewitt. — O quê? — Tem uma advogada bem aqui, em sua casa. Em sua cama. — É verdade. Além de ser minha esposa, também é minha advogada constituída! — O que não quer dizer que posso obter mais do que o prêmio a que tem direito... — Eu jamais pensaria nisso. — Por outro lado, posso interpretar as letras miúdas que sempre assustam um simples leigo. — Simples? — Você sabe o que quero dizer. — O que sei é que está muito confiante esta manhã, Sra. Hewitt. — Consciente e cheia de mim. Na verdade, estou cheia em todos os sentidos. As crianças ocuparam todos os espaços — riu. — E parece estar havendo um bocado de atividade aí dentro — Peter respondeu com tom divertido, pousando a mão no ventre da esposa. — Eles tiveram uma noite tão tranqüila que devem estar cheios de energia. A propósito, quando vamos comer? — Agora mesmo. Que tal um café da manhã completo? — Excelente idéia. A sensação de bem-estar perdurou por todo aquele dia. Na manhã seguinte, quando passou por Rosemont para a visita diária, Valerie comentou com Clare e Peter: — Tem estado tão bem, que começo a supor que sua gravidez poderá ir realmente até o final. Tanto melhor para os bebês. Mas não se exponha a riscos desnecessários, ouviu bem? Faltam apenas três semanas. Clare gemeu. — Descanse! — Peter e a médica disseram em uníssono. — Eu sei, eu sei. É tudo que tenho feito. A propósito, traga-me aquela sua apólice do seguro, Peter. Já que terei de passar as próximas semanas sentada ou deitada, talvez deva encontrar uma maneira de tirar algo de útil desse período.

CAPÍTULO VIII

Na manhã seguinte, Peter aproximou-se da varanda correndo, mas parou e respirou fundo ao vê-la sentada em uma espreguiçadeira, lendo. De pois de PROJETO REVISORAS

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alguns instantes voltou a caminhar com naturalidade, mas o rosto ainda estava pálido. — O que aconteceu? — ela perguntou apreensiva. — Clare... — Não me diga que há outro incêndio! — Não. É que... bem, Bruce telefonou para o meu celular. Eles ancoraram em Jumpinpin ontem à noite, e hoje de manhã um maluco sem habilitação os atingiu num desses botes de alumínio. O barco virou e... — Fale de uma vez! O que aconteceu com Sean? — Ele bateu a cabeça e desmaiou, mas Serena conse guiu tirá-lo da água a tempo de evitar qualquer conseqüência mais grave. Ela fraturou a perna, mas Sean está bem e foi levado de helicóptero a um hospital da Costa para ser examinado. — O que está esperando? Vá acompanhar seu filho! — Mas... como poderei deixá-la? Meu Deus, que situação! — Peter, você ouviu o que Valerie disse ontem, quando esteve aqui. Além do mais, a viagem ao hospital da Costa Dourada não pode levar mais do que duas horas. Vou ficar muito bem e não estarei sozinha. Além do mais, não vai acontecer nada por aqui. Não hoje. Por favor, não gosto da idéia de deixar Sean sozinho em um momento tão difícil. — Ele não está sozinho. E não pode saber se algo vai acontecer hoje ou amanhã. — Não, mas minha intuição insiste em dizer que tudo correrá muito bem. — Você é um anjo — e beijou-a na testa. — Mas, se houver alguma coisa, telefone para mim imediatamente. Voltarei hoje mesmo, no final da noite. Clare e a mãe almoçaram juntas. Peter ainda não dera notícias, e ela havia deixado a mesa para recolher os pratos quando franziu a testa. — O que foi, querida? Clare olhou para o relógio. — Acho que tive uma contração. — Tem certeza de que não é uma daquelas que se repetem durante toda a gravidez? — Senti algo diferente. — Engoliu em seco, sentou-se e levantou-se em seguida. — Se foi mesmo uma concentração, ficar em pé é melhor para a dilatação, ou algo parecido. Mas como posso saber qual é a diferença? Sim, as contrações verdadeiras são regulares, mas... Eu estava me sentindo tão bem! — Eu sabia! — Jane comentou enquanto procurava pelo telefone sem fio. — Lavei todas as cortinas de casa um dia antes de você nascer, mas mesmo assim continuei supondo que isso era apenas um mito, um desses contos que se espalham entre as grávidas. — Para quem está telefonando? — Para Peter, é claro. — Mamãe, espere um pouco, por favor. Pode ter sido um alarme falso. — Ele me fez prometer... — Só mais um pouco. Por favor... — Então deixe-me ligar para Valerie. — Está bem, pode falar com a médica. Clare teve outra contração no instante em que Valerie atendeu o telefone, quinze minutos depois da primeira, mas mesmo assim tentou argumentar.

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— Talvez seja um alarme falso. Li que isso é muito comum, especialmente com a primeira gestação, mas é tão diferente das outras dores que senti que... — Vá para o hospital imediatamente. Irei encontrá-la lá — Valerie decidiu autoritária. E desligou sem esperar por uma resposta. — Vou telefonar para ele — Jane avisou determinada antes de saírem. Mas, para seu desânimo, o celular de Peter estava desligado ou fora da área de alcance. — Droga! Ele deve estar no hospital. Normalmente os celulares são proibidos em locais públicos. Lembro-me de que fui obrigada a desligar o meu quando seu pai esteve internado. Tudo bem, tentarei novamente quando estiver mos lá. Tudo pronto? — Olhou em volta e torceu o nariz para o caos reinante no quarto de Clare. Haviam começado a arrumar os armários antes do almoço. — Isto pode esperar. Vamos embora, querida! E seja corajosa. Logo tudo estará resolvido. — Clare, você está em trabalho de parto. Houve dilatação do colo, mas não podemos saber quanto tempo terá de esperar até o nascimento dos bebês. Por serem gêmeos, vamos levá-la para o centro cirúrgico, onde o monitoramento é mais rápido e completo. Como se sente? — Bem. Se continuar assim, creio que poderei suportar. Valerie olhou para o obstetra por cima da cabeça do paciente antes de responder. — Tente relaxar. Oh, e sua mãe está tentando falar com Peter. O celular continua desligado, mas ela conseguiu o número do telefone do hospital na Costa Dourada. Clare não conseguia acreditar que o grande dia final mente chegara, e sentia-se incapaz de determinar se estava chocada ou eufórica. Usando uma camisola do hospital com abertura nas costas e um par de meias de lã, permanecia deitada e coberta. Alguém colocara uma etiqueta de identificação em seu pulso e prendera seus cabelos em um rabo-de-cavalo, e havia dois berços térmicos em um canto da sala. Por algum tempo ficou repousando com uma considerável medida de conforto, controlando o ritmo das contrações e pensando em Sean e Peter. As enfermeiras verificavam constantemente os batimentos cardíacos dos bebês e a interrogavam sobre seu estado geral. Uma delas perguntou se gostaria de tomar uma ducha morna, mas Clare preferiu continuar deitada. A certa altura sua mãe entrou no centro e avisou que ainda não conseguira falar com Peter, mas deixara recados em todos os locais por onde ele poderia passar. — Conversei com Bruce, e Sean sofreu apenas uma leve concussão. Serena tem uma fratura leve na perna, mas já foi imobilizada e passa bem. — Bruce não sabe onde Peter está? — Estavam juntos há algumas horas. Talvez Peter tenha tentado ligar para casa e, quando ninguém atendeu, decidiu voltar imediatamente. De qualquer maneira, logo ele estará aqui, querida. Mas não chegaria tão depressa quanto ela gostaria. Mi nutos depois de ter ouvido as novidades relatadas por Jane, Clare foi tomada de surpresa por uma violenta contração e temeu perder os sentidos. — Mãe... — Já sei. Vou buscar os médicos. — Oh, oh! — O obstetra balançou a cabeça ao examiná-la. — Vejo que os gêmeos Hewitt não brincam em serviço. A dilatação está completa, meu bem, PROJETO REVISORAS

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e de agora em diante sentirá um impulso irresistível de fazer força. Estaremos com você a cada passo do caminho. Logo o centro cirúrgico entrou em atividade. Uma enfermeira permanecia a seu lado, limpando o suor de sua testa, enquanto outra mantinha preparada uma máscara de anestésico. Uma terceira preparava os berços, e Valerie segurava a mão da paciente tentando tranqüilizá-la. Mas Clare só conseguia pensar que estivera certa: nada poderia tê-la preparado para a dor que estava sentindo. Em um determinado momento anunciou que começaria a fazer força, e toda a equipe a incentivou a entrar em ação e respirar conforme havia aprendido no curso. O tempo parecia ter parado. Alternando momentos de força com outros de relaxamento e respiração profunda, tinha a sensação de que uma onda poderosa a rasgaria ao meio. — Muito bem, aí vem o primeiro! — O obstetra finalmente anunciou. — É um menino. O que foi que eu disse sobre as felizardas que conseguem ter seus filhos em um curto espaço de tempo? — Oh... Oh! — Foi tudo que Clare conseguiu dizer, erguendo a cabeça ao sentir o início de uma nova contração. — Meu bem, você está sendo maravilhosa — uma enfermeira elogiou enquanto cuidava do recém-nascido. — Oh, e aí vem o papai! — Peter — Clare gemeu ao vê-lo no traje verde do centro cirúrgico. — Graças a Deus! Mas já consegui uma vez, e posso conseguir a segunda. E conseguiu. Dez minutos depois, amparada pelos braços do marido e ouvindo coisas que jamais havia escutado dele, Clare deu à luz uma linda menina. — Os bebês estão bem? Oh, olhe só para eles! — Estava chorando, mas eram lágrimas de felicidade e alívio. — Aparentemente, as crianças estão ótimas. Não são grandes, mas parecem perfeitas e saudáveis. — Valerie também estava emocionada. — Parabéns, minha amiga. Três horas e meia de trabalho de parto. Acho que acaba de quebrar um recorde! Os bebês permaneceram nas incubadoras e Clare foi levada para o quarto. Várias horas mais tarde, sozinha com o marido, ainda se sentia excitada e incapaz de dormir. — É incrível! Eu consegui, Peter! — Eu sabia que conseguiria. Ele explicou por que tivera de desligar o celular no hospital e como, depois de ligar para casa várias vezes, decidira voltar. — Esquecemos de ligar a secretária eletrônica. Foi tudo tão rápido que mamãe e eu nem... — Não esperava que pudessem pensar em algo tão corriqueiro — ele riu. Sean sairia do hospital no dia seguinte e Peter iria buscá-lo. — Agora só temos de escolher os nomes — ela disse sorrindo. — Fico feliz por ter tido uma menina. Não sei o que teria feito no meio de tantos homens! — Amo você. Clare o encarou em silêncio por alguns instantes, os olhos iluminados pela surpresa. — Você disse a mesma coisa... quando eu... — Sim, eu sei. E nunca vou me perdoar por não ter dito antes. PROJETO REVISORAS

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— Foi... o parto? — Não. A verdade é que nunca imaginei o que você sentia, até encontrar isto. — Tirou algo do bolso interno do paletó. Clare sentiu o rosto vermelho ao reconhecer a carta que deixara na gaveta de lingerie. — Eu... pretendia rasgá-la. — Graças a Deus não teve tempo para isso. — Como a encontrou? Assim que cheguei em casa e encontrei o quarto revirado, fui tomado por um pânico. Vi todas aquelas roupas espalhadas e pensei que houvesse me deixado. A gaveta estava aberta e algo chamou minha atenção. Clare suspirou. — Mamãe estava me ajudando a arrumar os armários, a separar algumas coisas que não poderei usar por algum tempo. — Quer que eu responda a todas as perguntas contidas nesta carta? Ela assentiu. — Não há nada de sombrio entre Serena e eu, mas acertou ao deduzir que tive de nadar em águas turvas depois da separação. É difícil admitir que me deixei levar por um rosto bonito e um corpo perfeito, mas foi o que aconteceu. Encantado, ignorei todos os sinais de aviso, indícios de que eu não seria capaz de transformar aquela criatura glamourosa em uma esposa caseira e feliz. Depois de casado descobri que esse não foi meu único erro. Já disse que Serena é egoísta, mas não revelei que ela sempre usou o próprio corpo para conseguir aquilo que queria. Usou minha paixão e, ao perceber que ela começava a morrer, tentou envolver-me com truques de sedução que acabaram por deixar-me enojado. E há alguns dias ela fez uma nova tentativa. — Sim, eu vi com meus próprios olhos, mas pensei que... — Pensou que eu houvesse me deixado seduzir? — Você ficou tão quieto, tão perturbado... — Eu sei. Mas a tensão foi gerada pelo esforço que tive de fazer para não dizer a Serena que a considerava uma prostituta vulgar, que nunca a amei, e que aprendi a reconhecer a diferença entre uma boa mulher e tipos como ela. — Era a isso que se referia quando falou em águas turvas? — Exatamente. Fui manipulado por uma mulher atraente e me tornei desconfiado. Mas você me fez ver que nem todas as mulheres são iguais. Senti-me atraído por você desde o nosso primeiro encontro, e depois, quando tive oportunidade de conhecê-la melhor, percebi que não poderia compará-la a Serena, exceto em um aspecto. Ainda me questionava sobre ter feito uma boa escolha, porque temia ter repetido o erro de me unir a uma mulher que jamais poderia se adaptar ao meu estilo de vida. — Reconheço que colaborei para criar essa impressão. Sempre coloquei minha carreira acima de tudo. — E parecia satisfeita com o relacionamento sem compromissos que levávamos antes da gravidez. — Mas não estava. Com o passar do tempo me dei conta de uma crescente insatisfação, mas não quis confrontá-lo, porque temia ouvi-lo dizer que não estava interessado em compromissos mais sérios e duradouros. — É estranho. Eu queria me unir a você, mas me recusava a tomar consciência disso. Será que pode me perdoar? PROJETO REVISORAS

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— Perdoar... por quê? — Porque não hesitei em agarrar a oportunidade de prendê-la a meu lado. Quando disse que estava grávida, soube que tinha de me casar com você o mais depressa possível, e só mais tarde compreendi o que motivou essa ânsia. Não conseguia mais imaginar a vida sem você, embora tivesse medo do futuro a seu lado. Temia por Sean, é claro, mas não foi por ele que tomei a decisão. Não sei se devo chamar de coincidência ou destino, mas a verdade é que tudo aconteceu no momento mais propício. Devia ter revelado meu amor desde o início, mas me deixei dominar pelo medo. Amei-a ainda mais quando a vi cansada e pesada, enfrentando todas as dificuldades com coragem e firmeza, e há poucas horas, quando presenciei o nascimento da nossa ga rotinha, temi explodir de orgulho e amor. Sei que teria confessado seu amor antes, se não estivesse insegura. A culpa foi toda minha. Espero que não seja tarde demais. — Peter, eu amo você. Nunca será tarde demais para nós dois, porque temos a vida toda pela frente. Uma vida repleta de amor e felicidade. No dia seguinte, quando a enfermeira levou os bebês para a primeira mamada, Peter e Clare já haviam escolhido os nomes. Thomas Paul, em homenagem ao avô paterno e ao materno, e Anne-Jane, para que as avós também fossem homenageadas. — Feliz, Sra. Hewitt? — Peter perguntou sorrindo ao vê-la com os bebês nos braços. — Mais do que jamais sonhei ser possível. — Sabia que seria a melhor mãe que já conheci. Você nasceu para isso! — Ao contrário do que esperávamos — ela riu. — Para ser franca, surpreendi até a mim mesma. — Muito bem, muito bem, mas agora é hora de trabalhar, Sra. Hewitt — a enfermeira anunciou. — Vou ajudá-la a tomar uma ducha, e então a diversão começará de verdade! A primeira mamada. Eles podem ser pequenos, mas são famintos como tigres. Sei que ainda não tem todo o leite necessário, mas... Enquanto ela explicava os mistérios da amamentação, Clare e Peter trocaram um sorriso cúmplice e, de mãos dadas, olharam para os filhos. O futuro havia começado. Chegara o momento de ser feliz. LINDSAY ARMSTRONG nasceu na África do Sul, mas vive na Austrália com o marido neozelandês e cinco filhos. Moraram em quase todos os Estados da Austrália e fizeram de tudo, desde a agricultura até o treinamento de cavalos, o que é uma grande vantagem para uma escritora. Lindsay começou a escrever quando o filho mais novo foi para o colégio e ela se sentiu perdida. Escreve até hoje e adora o que faz.

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Lindsay armstrong duas vezes feliz (sabrina 1098)  

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