Portrait Fanzine nº 20

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CARTA ABERTA Essa Portrait Fanzine é mais do que especial e quase toda dedicada ao presidente brasileiro Jair Messias Bolsonaro. Calma!!! Não pense que mudei de lado. Um artigo e uma entrevista apresentam argumentos mais do que suficientes para a defesa incondicional de um impeachment desse indivíduo. Faço minhas as palavras do cineasta José Carlos Asbeg, que abrilhantou essa edição com uma conversa sensacional, “isso é um desabafo”. Sim, fazer a PF, por mais trabalhosa que seja, é um vomitar de sensações. Mais do que resistir, desabafar tem sido fundamental porque senão explodimos antes de um novo dia. Bolsonaro corrói esse país a cada dia que permanece no cargo. As quase 600 mil mortes por causa do Covid e o descaso de seu governo sobre isso provam que de fato “construir” nunca foi sua meta. E me desculpe. Ingênuo aquele que em algum momento acreditou que fosse ser diferente. Falar sobre Bolsonaro também é falar sobre o futuro. Mas, olhar para trás não faz mal pra ninguém. Nesse número, estou inaugurando uma nova seção que vai trazer sempre um portfólio de coberturas fotográficas que fiz ao longo da minha carreira. Nessa estreia, a Copa do Mundo de Ginástica de 2015 no Ginásio do Ibirapuera. Foi nela que talentos como Rebeca Andrade e Flávia Saraiva apareceram para os brasileiros pela primeira vez com destaque. Anos depois, elas brilhariam nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Antes de ir, muitas vezes nesses três anos de desgoverno me senti sozinho, desamparado. Depois de fechar esse número, fotografar manifestações, entrevistar pessoas, consigo ter um painel mais elaborado e concluo que estou do lado certo... e não estou sozinho... ... Poucos segundos depois dos 45 do 2º tempo, ganhei de presente uma charge do artista Marcos de Castro. Ela ilustra o depoimento do Asbeg e, de certa forma, sintetiza esse período hediondo e maluco que vivemos. E como ninguém lê carta aberta, vou fazer uma confidência de algo que me orgulha demais. Terminei a entrevista com Asbeg fazendo uma pergunta sobre sua carreira. Algo do tipo: “o que você sente quando acaba um trabalho?” A reação do diretor foi inusitada: “Nossa, que pergunta mais bonita... nunca de fato havia pensado nisso!!”... Bacana poder causar isso ainda... Resistir é preciso. Embarquemos...

SUMÁRIO

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PROJETO

Alexandre da Costa


Arquivo Pessoal

NÃO HÁ PERDÃO PARA BOLSONARO O cineasta José Carlos Asbeg desabafa sobre a produção audiovisual brasileira e aponta saídas para o fim desses tempos sombrios texto: ALE DA COSTA

O incêndio em um dos galpões da Cinemateca Brasileira em 29 de julho passado, na cidade de São Paulo, escancarou tudo aquilo que todos já sabiam há tempos: cultura nesse país é sinônimo de descaso. A sensação de impotência só cresce quando se pensa no que ex-funcionários alertaram um ano antes quando foram desligados da instituição. Eles diziam que havia sim risco de incêndio por falta de cuidados. Nove dias antes da tragédia anunciada, o próprio Ministério Público Federal de São Paulo emitiu um alerta sobre o risco de fogo. O que foi feito pelos órgãos responsáveis? Pois é... O incêndio destruiu, segundo manifesto de funcionários publicado dois dias depois, “grande parte dos arquivos de órgãos extintos do audiovisual, como, por exemplo, parte do Arquivo Embrafilme (1969-1990), parte do Arquivo do Instituto Nacional do Cinema (1966-1975) e do Conselho Nacional de Cinema/Concine (1976-1990), além de documentos de arquivo ainda em processo de incorporação”. 4


O cineasta José Carlos Asbeg, de 71 anos, já havia sido entrevistado para essa edição da Portrait Fanzine antes do incêndio na Cinemateca. O conheci em dezembro de 2020, por telefone, quando ele me procurou para falar de Arthur Friedenreich, o primeiro craque do futebol brasileiro – tema de meu primeiro livro e um dos projetos que Asbeg está desenvolvendo no momento. De verdade, foi uma bela primeira conversa, daquelas que você, ao desligar o telefone, pensa: “Poxa, que papo bacana!!!” Trazer a vida e obra e o pensamento de Asbeg para essa revista era um passo óbvio. Documentarista de mão cheia com mais de 20 obras lançadas e 40 anos de carreira, não demorou dois minutos para responder um pedido de complemento da entrevista logo após a tragédia da Cinemateca. Asbeg é contundente, não usa meias palavras e enfatizou o quanto “resistir é preciso”. Confira seu depoimento... “O incêndio da Cinemateca Brasileira é criminoso e os criminosos têm nome e CPF: são os senhores Mario Frias e Jair Messias Bolsonaro, todos os outros que compactuaram com esse governo, a mídia comercial, a justiça que só pune pretos e pobres e todos os eleitores de Bolsonaro. Não perdoo, não admito inocência em nenhum eleitor de Jair Bolsonaro. São criminosos e o presidente deixou isso muito claro no discurso de posse: ‘Eu não vim para construir, eu vim para destruir’. Ele está sendo profundamente eficaz. Agora chegou a vez de mais um pedaço da cultura e da memória do audiovisual brasileiro. Da mesma maneira que ele e o Temer fizeram com a educação, com as riquezas naturais do país, com o pré-sal, da mesma maneira que ele faz com essa corporação militar que está no poder, com o meio ambiente. Ele veio para destruir e ele escolhe a dedo. Primeiro, um ministro da cultura que era um nazista. O segundo é um nazista disfarçado embora Bolsonaro tenha se mostrado com todas as caras nazistas que tem ao receber a extrema-direita alemã. O incêndio foi criminoso, mas é claro que ninguém foi lá botar fogo naquele depósito. O incêndio é criminoso pela omissão das autoridades da cultura pelas quais eu não tenho o menor respeito, nem como humano, nem como instituição... nada, nada. Esses são os criminosos. É uma pena o que aconteceu. O que foi perdido de documento é a história institucional do cinema brasileira. A Ancine está sendo destruída também, está inoperante. Houve dois filmes censurados, um sobre Fernando Henrique do Belisario Franca e o outro sobre evangélicos da Helena Solberg. A Ancine está paralisada, o dinheiro não está sendo utilizado para a produção, distribuição, exibição. É um crime o que está acontecendo na área cinematográfica e a punição tem que vir. Eu não aceito nada menos do que uma punição séria para todos... tem que ter punição.” “Eu não sei se o Brasil não formulou uma política cultural porque eu não sei se chegamos a formular um projeto de país, um projeto de nação. A cultura vem com a consolidação de uma sociedade, a ocupação cultural de um território e não a ocupação predatória de um território que é o que nós vemos nesse pedaço de terra chamado Brasil. É uma terra de pilhagem. Se destrói. Se tira do solo, se tira do mar. É um roubo 5


de nossas riquezas. O Brasil até hoje é um território de pilhagem. Está aí o episódio das vacinas. Alguém que vai ao ministério da saúde oferecer vacina em nome de empresa que não tem vacina? É uma sociedade mal -articulada, mal-organizada, mal pensada que não se formou, não se consolidou. A cidadania aqui é praticamente inexistente. Sem cidadania como é que a gente vai ter cultura? A cultura é a resistência pra gente, quem sabe um dia, chegar na cidadania. É isso que os produtores culturais no Brasil fazem. Eu estava conversando com uma moça e a conversa enveredou para o cinema brasileiro. Ela disse que a gente não vê quase nada do Brasil na TV. Eu disse ‘imagina que essa sala é o nosso espaço, se o cinema brasileiro fosse essa sala teríamos que viver em 30% desse espaço. Os outros 70% seriam de estrangeiros’. Eles estão dentro da nossa sala”. “A resistência cultural aqui se dá em dois vetores: interno e externo. Um inimigo interno: nossos próprios governantes que são mesquinhos, medíocres, salafrários, não gostam de teatro, não vão ao cinema, não escutam música, não lêem poesia, são pessoas embrutecidas porque não formamos uma nação. Nós queremos acreditar que temos uma nação, mas eu acho que ainda vivemos num território a ser consolidado, temos 521 anos de ocupação desse território... é um território ocupado que reuniu as diversas culturas que vieram pra cá e que aqui já estavam e não houve uma síntese disso para formalizar um projeto de nação. Nós permanentemente enfrentamos o descaso dos organismos do estado (federal, estadual, municipal). A cultura é tratada como uma coisa periférica, antigamente dizia-se que era quase coisa de madame, elitista ... No vetor externo: 70% do tempo das nossas salas de cinema e TV são ocupados por mensagens e conteúdos de fora. Isso não ajuda nem um pouco a consolidar uma indústria cultural. A produção audiovisual emprega diretamente 300 mil pessoas no Brasil. Ela produz mais recursos que a indústria do turismo, é uma coisa espantosa. O turismo brasileiro vende a nossa cultura? Houve época que vendia a bunda, a mulher brasileira. O turismo hoje vende paisagem e continua vendendo bunda. É muito complicado, difícil. O cinema desde o governo do Temer, traidor, mesquinho, e seu ministro da cultura Sergio Sá Leitão, não tem edital do fundo setorial, que foi o instrumento mais democrático da produção audiovisual do Brasil de todos os tempos. O dinheiro vem do próprio setor e fica no setor. É uma taxa chamada Condecine (Contribuição do desenvolvimento do cinema). Quando vou registrar um trabalho, eu pago. Os streamings no Brasil não são taxados, não recebemos nada deles. A França acabou de taxar. Aqui é terra de ocupação. Você entra no Netflix, você acha um filme brasileiro, dois talvez... Você vê um filme nacional e o tal do algoritmo não te manda pra outro filme brasileiro. Você tem que ficar garimpando esse negócio...” “Tem graça ver jogo do futebol brasileiro? Um jogo com 40, 45 faltas, cercam o juiz, uma cafajestagem enorme, os dirigentes xingam. Aí, você pega um campeonato inglês, espanhol, o Barcelona passa 55 minutos sem fazer uma falta, tem futebol corrido, o futebol acontece lá e cá. As 6


crianças aqui vão para a rua com a camisa do Manchester, do Milan, do Barcelona... Globalização é engolir o que vem de fora e aceitamos isso? “Tem momentos que a gente acha que se reconhece como povo, mas, de uma forma geral, há um empenho muito grande das elites em nos descaracterizar. Eu moro num bairro nobre do Rio de Janeiro e as pessoas ricas daqui cruzam o sinal vermelho, param em cima da faixa de pedestre, não tem compostura, são mal-educadas. Tenho certeza absoluta que quando elas chegam em Miami, cumprem as regras de civilidade urbana à risca e se orgulham disso, mas aqui tem essa coisa de que o ‘Brasil é essa esculhambação’... não, esculhambados são eles.” “Aquela história de complexo de vira-lata do brasileiro em relação ao mundo, eu custei a entender também. Acho que o Nelson Rodrigues nunca quis falar aquilo do povo brasileiro e, sim, dos ricos, das elites que tem vergonha de ser brasileiros. O Brasil não tem uma noção do que nós somos de fato. O futebol é uma síntese disso também. Eu passei batido por esse negócio de Copa América, eu não sabia os dias, quem estava transmitindo... tem um filme, um livro, vê isso que é melhor...” “A origem do golpe na Dilma Rousseff foi dada para impedir que o Brasil levasse adiante um projeto pequeno, frágil, mas um projeto de Educação. Se todo o ensino brasileiro fosse de um único organismo, se a educação no Brasil fosse federal, um único mandante, talvez nós não vivêssemos esses disparates que vemos hoje. Fui numa escola quilombola no Pará em 2013. Ela tinha seu professor formado, ensino fundamental, a comunidade preparava a comida para as crianças. Veio a eleição e a candidata que foi eleita simplesmente cancelou a comida que a própria comunidade fazia para seus filhos. Uma comida baseada na sua cultura alimentar, nutritiva de fato. A nova prefeita substituiu a merenda por biscoitinhos, salgadinhos...” “Quando o governo Lula fez o projeto do pré-sal, fez um compromisso para a educação do Brasil, porém, isso é inaceitável para os ricos brasileiros que sempre foram para as melhores escolas particulares, melhores professores. Na hora de irem para as universidades, qual escolhiam? As públicas!! E havia algum retorno depois para o estado brasileiro? Nenhum! Em Israel, você estuda de graça e depois vai pagar com serviço militar, como médico não sei onde... O projeto Mais Médicos pagava muito bem e o médico brasileiro não quer sair do Leblon. O rapaz que se forma aqui vai querer ir para o interior do Rio de Janeiro três horas daqui? Não vai. O projeto do pré-sal apavorou esses ricos porque daqui a 20 anos, uma geração, essas universidades públicas formariam milhares e milhares de jovens vindos da periferia, que estudaram, que ralaram, que se empenharam, se prepararam de fato. Iam entrar em todos os concursos públicos e iam conquistar vagas em empresas de engenharia, arquitetura, advocacia... iam conquistar postos no serviço público. Isso é inadmissível para os ricos brasileiros, então vem o golpe da Dilma. A partir do momento 7


em que você tem um ensino padrão e forma gerações de brasileiros nesse ensino, você forma cidadania. Com a cidadania, você entende o que é direito e dever. Com a cidadania, você vai defender seus direitos, seu território, vai fazer dessa país uma nação. Isso ficou muito claro nesse golpe.” “Estou triste... me sinto muito entristecido... A única coisa que a gente tem que fazer é sobreviver à pandemia e, como sempre foi na minha vida, resistir. No Brasil, a gente passa a vida, do momento que nasce ao momento que morre, resistindo. É uma coisa inacreditável. Um sujeito que se elege com a seguinte proposta: ‘eu não vim para construir, eu vim para destruir’... ele deixou isso claro... foi eleito... eu fico pensando no que essas 50 milhões de pessoas que votaram no genocida entenderam desse lema. Estão destruindo a vida da classe média também agora com essa reforma tributária... é muita tristeza. De cada cinco mortes por causa do Covid, quatro poderiam ter sido evitadas... quatro morreram inutilmente por causa de um genocida e ainda tem gente que apoia esse cidadão... é um país que não se encontrou... onde nós erramos?” “A redemocratização do Brasil nos anos de 1980 não puniu os torturadores. A lei da anistia anistiou quem matou, quem torturou. Erramos feio. A impunidade resulta nisso. Esses caras que estão no poder, esses generais de agora, eram os tenentes, os majores, coronéis de lá.. eram os caras do porão. O Bolsonaro nunca escondeu que é a favor da tortura. Ele já matou mais de 500 mil com a pandemia. Eu não sei que país é esse...” “Eu só consigo entender o Brasil indo no passado. Meus projetos de agora estão no século XIX, totalmente absorvido nisso, tentando entender o que foi o século XIX, o processo abolicionista e, depois, a campanha abolicionista. Até a metade do século XIX, a luta não era necessariamente antiescravidão era antitráfico. Em 1850, você consegue por fim ao tráfico, e o estado fechando o olho para o contrabando de escravos... aí começa de fato uma campanha abolicionista. José de Alencar, um escravocrata medonho, dizia que ‘o país não pode se dar ao luxo de abolir a escravidão. A economia do país vai afundar. Essas pessoas não são civilizadas, o que eles vão fazer livres?’ Um homem que pensa dessa forma... é claro que isso está projetado no Brasil de hoje.” “Essa coisa da rede social desnudou o preconceito, o ódio, a ignorância, a violência, a barbárie. O Brasil é um país bárbaro... 50 mil pessoas foram assassinadas ano passado em plena pandemia. O exército brasileiro é uma força de ocupação para impedir o crescimento do povo brasileiro...” “É difícil comparar esses períodos (nota da redação: os governos de Fernando Collor, no início dos anos 1990, e de Jair Bolsonaro). O Collor colocou o Ipojuca Pontes, um homem de cinema, para acabar com o cinema. Um biltre. Eu não saberia dizer. Eu sobrevivi àqueles períodos porque eu fiz muita TV, comercial, consegui sobreviver de uma certa maneira. Eu 8


acho que hoje, você tem uma situação que é curiosa. Você tem muito mais gente fazendo cinema, tem uma garotada fazendo cinema, hoje se faz filme com celular e faz bem... eu acho que hoje é mais fácil... os meios para produzir são mais fáceis no computador com um programinha de edição, filma com o celular e bota na rede. O que todo mundo consome é uma outra rede. Se tivesse uma plataforma de streaming com essa força da Netflix, da Amazon, estaria bombando, dando dinheiro para os realizadores... mas isso não tem... nós estamos nas mãos das distribuidoras estrangeiras, cinemas fechados, é um período de sobreviver, não tem outra forma...” “Só vamos ter cinema de novo no 2º semestre de 2023 caso um governo diferente assuma. Claro que a produção audiovisual caiu muito e agora você tem a briga pela lei Paulo Gustavo, que é uma tentativa de usar os recursos que estão lá, que continuam sendo recolhidos.. essa lei quer fazer funcionar o fundo setorial e o secretário de cultura é contra. Hoje, a cultura é uma secretaria do Ministério do Turismo e aí se vê o valor que se dá para a cultura, que é a nossa identidade. A cultura forma nossa identidade...O secretário de cultura é contra uma lei cultural. No período do Collor havia muito menos gente fazendo cinema, o processo de produção era no suporte celulóide, era filme, película, grandes laboratórios. Isso foi substituído numa velocidade espantosa pelo vídeo e agora digital... Hoje, você produz caseiramente. A lei Aldir Blanc deu uma sobrevida à muita gente.” “Quando o genocida entrou... essa submissão dele aos Estados Unidos. Esse alinhamento totalmente subserviente aos Estados Unidos. É uma volta a um processo de colonização. Quando nós vamos taxar essas plataformas de streaming? Nós vamos ter coragem pra isso? Nós vamos ter coragem para que o STF reveja a lei de anistia e puna o torturador que ainda está vivo por aí?” “Há flashes de civilidade da juventude, das novas gerações, querendo fazer desse lugar um país. Vivemos ainda muito presos ao século XIX, a uma mentalidade colonizada. Esse tem sido um período muito solitário.” “... a importância cultural que eu vejo no futebol é que ele é um reflexo de uma sociedade, que se expressa a partir desse jogo. Arthur Friedenreich (nota da redação: um dos maiores talentos do futebol brasileiro antes de Pelé e um dos projetos atuais de Asbeg) inaugurou um estilo driblador, de toque de bola, era um fominha, jogava todo dia, físico privilegiado, resistente. Ele é uma continuação desses grandes artistas do futebol brasileiro e, como toda cultura, essa memória do Friedenreich merece ser preservada e é até irônico falar em preservação nesse momento depois do que aconteceu na Cinemateca Brasileira.” “Eu trabalhei com ficção no primeiro curta metragem que fiz, ainda na escola de cinema na Inglaterra. Era uma ficção simples baseada em fatos da vida real, nos tempos de chumbo em 1976/77. Eu e três 9


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amigos costumávamos nos encontrar no mesmo bar toda noite, numa esquina aqui de Ipanema. Naquela época, caminhávamos de madrugada na rua, não havia o menor receio, hoje, eu já ficaria muito preocupado. Um dia, um desses amigos não apareceu mais e, depois, soubemos que ele tinha entrado pra clandestinidade, virou um militante da esquerda que combateu com armas a ditadura. Essa foi minha única incursão na ficção. Mas eu uso ficção nos meus trabalhos documentais porque eu lido com memórias que não tem registro audiovisuais ou estão incompletos. No caso do 1958, por exemplo, eu complementei alguns lances e dramatizei alguns outros. Ali, a ficção foi um suporte para contar a história. Eu não tenho vontade de trabalhar com atores, com ficção, eu não sou um ficcionista, mas em Palmares, nós usamos um elenco de 80 atores, atrizes e figurantes para suprir uma informação audiovisual do século 17. Eu agora estou fazendo um projeto sobre campanha abolicionista e vou usar ficção em alguns momentos porque enfatiza a história que está sendo contada. A ficção, pra mim, é pontual e muito específica de determinados momentos para a ênfase dramática do documentário.” “A gente vive num processo de urgência, sempre acho que estou em falta comigo, que poderia ter feito mais. Eu estou fazendo um trabalho, mas já pensando/fazendo outro. Eu tenho seis outros projetos nos quais estou trabalhando agora. Quando a gente termina um trabalho são várias sensações: de alívio, de satisfação porque aquilo surgiu de uma coisa mínima da cabeça, uma coisa que você viu na rua.. que te desperta, um livro... meus projetos hoje são mais sedimentados no Brasil... Eu estou olhando para o Brasil com uma lupa enorme, para nossa história. Meus projetos nascem daí hoje, mas também eu nunca me preocupo muito se o trabalho vai agradar ou não, se vai ser aceito, bem recebido ou não. Fico feliz quando termino. Quando boto ponto final é porque cheguei no limite do que eu queria dizer e, também, da emoção que queria passar.” “Não consigo separar o discurso do meu trabalho, da emoção que coloco neles. Eu acho que o audiovisual tem essa potência, essa carga dramática, eu nunca abro mão disso, eu tento explorar isso. Quando chego ao final de um trabalho é porque fui até onde consegui ir e também aquilo que me satisfez...Foi o possível.. Aprendi com meu amigo Rosemberg, que morreu em 2019, meu irmão mais velho que a vida me deu: ‘Vamos fazer o filme possível. É isso que as condições permitem?’ Assim que eu trabalho...” “Tenho uma outra perspectiva com meu trabalho... aí sim pode ser a minha megalomania (risos) de achar que esses trabalhos tem uma permanência muito além da minha imaginação... alguém, um dia, em algum lugar, vai encontrar esses meus filmes e vai fazer alguma coisa deles, vai motivar, não importa em que área a pessoa esteja... eu espero que esse trabalho que criei seja algum dia descoberto por outros jovens, que outras pessoas se motivem a partir deles. Isso já me enche o coração de alegria.” 11


#FORABO

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OLSONARO

Uma reflexão sobre a manutenção de Jair Bolsonaro na presidência do Brasil texto e fotos: ALE DA COSTA

Com frequência, de madrugada, nos últimos 18 meses, acordo com falta de ar. Demoram alguns segundos para eu entender o que está acontecendo. Estou suado. Provavelmente, alguém diria que é uma crise de ansiedade. Pode ser. A sensação de morte passa, viro de lado na cama e volto a dormir. Antes de fechar os olhos, porém, me confundo no “quando” estou. Será que 2020 ainda continua? Nesses momentos de escuridão do meu quarto percebo que as marcas deixadas pelo Coronavírus são grandes. Antes da manifestação contra Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, em 03 de julho, essa cena rotineira do meu sono inconstante se repetiu. Dessa vez, no entanto, não dormi. Fiquei acordado até o sol aparecer, se é que ia aparecer afinal o inverno já tinha dado sua cara, divagando sobre os caminhos pelos quais o país em que vivo escolheu nos últimos anos. Passei longe de qualquer conclusão e quando respirei fundo ao levantar da cama meu coração “doeu”... Sou professor de história há 17 anos. Com Marc Bloch aprendi que minha disciplina é uma ciência que não se importa com datas e nomes e sim com os processos, as trajetórias, suas rupturas e permanências. Em sala de aula, procuro apresentar conceitos teóricos num primeiro momento para depois trabalhá-los na prática. Um desses conteúdos que sempre me satisfez ensinar é a República. Uma invenção que não podemos negar que é sensacional afinal traz a ideia “de um governo de todos para todos”. Um governo que abraça e ouve a todos. É preciso dizer ainda que esse sistema de governo também promove um rodízio no poder a partir de eleições a cada quatro, cinco, seis anos... dependendo do lugar. Se a República estiver alinhada com a Democracia, outra ideia genial, 13


temos o paraíso na terra. Certo? Certo, mas eu disse que a teoria é só o início do nosso trabalho. Quando pegamos esse conceito e introduzimos o Brasil como estudo de caso percebemos que muitas vezes, ou na maior parte do tempo, a teoria fica esquecida nos livros. Isso porque na prática o Brasil Republicano, raras vezes, ou nenhuma, foi “de todos para todos”. Antes de me aprofundar no tema, cabe mais uma explicação sobre o trabalho do historiador na sala de aula. Nossos tempos de trabalho são o presente e o passado. Como brinco com meus alunos “o futuro não nos pertence”. Isso, no entanto, é uma meia verdade. Veja o Brasil para ser anali-

ela mais ou menos assim numa manhã de sábado. Não sei se concordo com tudo que ela disse. Agora, um fato que não se pode negar é que minha sentença sobre o próximo ano não é leviana. Sinais sobre o que poderá acontecer estão por todos os lados. São evidentes. Por exemplo: o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016. Alguém ainda acredita nas justificativas que tiraram ela da presidência? Sério, você ainda acredita que aquele processo foi justo? Por que ela caiu? Pedaladas fiscais, diriam. Mas que raios é isso? Por que ela não foi presa? Ela roubou? Ela era malvada? Hum... cada vez que revisito esse momento concluo que Dilma caiu porque era mulher num

sado. Um loop desgraçado interminável que, invariavelmente, favorece a minoria da sociedade. Sempre foi assim. E graças a esse tipo de percepção de que o país parece um hamster na sua rodinha de corrida digo que podemos prever o futuro, às vezes, palpitar com boa possibilidade de acertar quais serão os próximos passos. Essa proposta de análise futura, criação de mundos possíveis, deixou minha ex-terapeuta doida da vida comigo quando eu disse, numa das últimas sessões, que o ano de 2022 vai ser um inferno no Brasil graças à eleição que viveremos (bom, espero que vivamos!). “Você não tem como saber isso. Você não pode sofrer por antecipação. O futuro não aconteceu ainda”, afirmou

país conservador e misógino... e ponto final. Digo isso porque não tem como entender a razão pela qual Jair Bolsonaro, depois de três anos de desgoverno, se mantém forte no cargo. Por que ele não caiu ainda? Pergunta retórica que me atormenta desde abril de 2020... antes, porém, esse questionamento era impensável na minha cabecinha. ... A eleição de Bolsonaro em 2018 para presidente foi a prova cabal de que existe, há muito tempo, um país rachado. Gosto sempre de debater sobre os vários brasis perpetuados ao longo de nossa história. Sua porção mais conservadora, misógina, violenta, homofóbica, fascista ganhou as ruas no vácuo deixado por uma esquerda que

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A Campanha Fora Bolsonaro informou ao jornal Folha de S.Paulo que houve 352 atos em 312 cidades em todos os estados do Brasil, no dia 03 de julho passado, além de outras 35 manifestações realizadas por brasileiros em diferentes países do exterior. Todos esses protestos reuniram cerca de 800 mil pessoas.

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não aprende a conversar entre si. Lembro bem da minha primeira aula depois desse fato consumado, Bolsonaro no poder. A menina falou: “Professor, vamos pra rua, precisamos tirar ele...”. Ouvi a garota e coloquei minha opinião. Perguntei: “Qual lei Bolsonaro infringiu?” ... continuei.. “ele não foi eleito democraticamente?” ... “então, aceitemos a realidade, ele é presidente do Brasil...” Claro que doeu o peito dizer isso... e completei meu comentário a partir de uma ideia que o PT já lançava nos bastidores. “Se começarem com esse negócio de Fora Bolsonaro, vocês não verão seu professor levantar essa bandeira... nós, esquerda, não agiremos como aqueles que estão no poder... nós cumprimos a lei... o cara foi eleito para quatro anos e assim será... se o governo for ruim, ele não será reeleito...”. portanto, qualquer coisa fora a eleição, seria GOLPE, mesmo que perpetrado pela esquerda. 16

Mais dor no peito e a convicção crescente de que sou um iludido. Você não pode dizer que eu estava errado nos meus argumentos. Faziam sentido. Estávamos no final de 2018. O mundo era outro... A turminha de Bolsonaro não passou incólume em 2019. A cada semana, uma nova bobagem, uma nova cena de preconceito ou perseguição ou retrocesso. De fato, esse primeiro ano foi terrível. Mas na minha cabeça teríamos que pagar esse preço. Votaram nele, não votaram? Então, durmamos com esse barulho. Damaris, Guedes, Carvalho, aqueles ministros da educação... Meu deus. Parecia um episódio de Black Mirror ou Além da Imaginação. Um universo paralelo brasileiro. Mas lembre-se ainda era 2019. No final daquele ano, um vírus surgiu na China... era questão de tempo para uma pandemia se estabelecer no mundo. Não era achismo... era


análise de cenários... e nós, professores de história como tantos outros profissionais, fomos/ somos capazes de prever esse futuro. Fui chamado (outros também) de fatalista, pessimista... Então... Março de 2020. Era inevitável a chegada do Coronavírus no Brasil. Semanas antes, houvera Carnaval, milhões pelas ruas, turistas do mundo todo. Era óbvio o que aconteceria a seguir. E o que fez Jair Bolsonaro? “É uma gripezinha!!!!”, disse o comandante brasileiro. Como outros governantes também disseram, basta lembrar de Donald Trump nos Estados Unidos. A diferença

pensava mais na legalidade de que o presidente eleito democraticamente teria que cumprir seu mandato, custe o que custar. Mudei de discurso porque um ano atrás já era evidente que apenas contaríamos cadáveres e que o governo federal esperaria que o vírus se cansasse do Brasil e fosse embora... Cemitérios lotados, enterros 24 horas por dia, e o presidente dizendo que “todos vão morrer um dia”, se isentando dessas mortes que já contávamos aos milhares. E tudo podia piorar afinal os bolsominions invadiram as ruas para apoiar o genocídio. Tomaram conta de todos os cantos com suas camisas amarelas da seleção brasileira. Não

desses líderes para o nosso é que esses se arrependeram rápido da bobagem que falaram, o que não diminuiu o tamanho da tragédia. Em abril, Trump já tinha outro discurso. Bolsonaro e sua turma, no entanto, seguiram na mesma balada. E nada de um projeto nacional contra o Covid-19, nenhuma campanha para usar máscaras, nada, nada, nada além de um negacionismo doentio. As mortes começaram... cresceram, ficamos presos em casa, trabalhando remotamente, enlouquecendo com a paranoia de poder perder qualquer pessoa que amamos... E Bolsonaro? Comprando cloroquina (tratamento ineficaz para a Covid-19)... Quando junho chegou, minha cabeça não

usavam máscara, desdenhavam da doença, ignoravam as mortes... as famílias sofrendo... o fim sem ao menos poder dizer adeus... Esse bando foi para as ruas contra o pedido de distanciamento social. Cara, não estava nada fácil... e quando eu me via sem esperança alguma, a torcida corintiana fez algo lindo durante o mês de maio de 2020. Apesar do Coronavírus e todo o perigo que ele traz, torcedores de preto e branco foram para a Avenida Paulista na cidade de São Paulo e brecaram o avanço fascista dos seguidores de Bolsonaro. Havia resistência contra o mal. Pela primeira vez, em muito tempo, não me senti sozinho. Aquela imagem linda reforçou a sensação cada 17


vez mais presente dentro de mim de que aquele homem que nos governava não tinha o direito de nos matar. Lembra da resposta para a minha aluna logo depois da eleição? Pois é... o #ForaBolsonaro agora é uma questão de vida ou morte. Um dia me peguei fazendo uma matemática macabra. Coloquei no papel todos aqueles próximos a mim e conhecidos que tinham morrido por causa do Covid-19. O número me assustou. Eram 13 pessoas que tinham morri18

do nos últimos 18 meses. Hoje, agosto de 2021, quando escrevo esse artigo, já sabemos que boa parte dessas mortes poderiam não ter acontecido. O Brasil já há algum tempo passou das 500 mil mortes e faz meses que o número diário de óbitos não abaixa dos mil. Uma tragédia sem precedentes na história desse país. Mas como vinha dizendo, tudo poderia ter sido diferente. Em agosto e setembro passado, como já mostraram vários depoimentos da CPI da Covid, o


governo brasileiro teve contato com laboratórios que produziam as benditas vacinas. De fato, poderíamos ter começado um grande plano de vacinação nacional em dezembro passado. Sim. Não foi o que aconteceu. A conta gotas, o processo se iniciou na cidade de São Paulo em 17 de janeiro apenas. E seu presidente? Passeando de moto por aí, sem máscara e promovendo aglomerações, achando que tudo está uma maravilha. Cem anos no futuro, um historia-

dor olhará para esse nosso momento e se perguntará perplexo: por que eles deixaram isso acontecer? Não sei... O que eu sei é que o Brasil de Jair Messias Bolsonaro faz mal para a vida de qualquer um que se veja como um ser humano. Não precisamos do futuro para sabermos que a tragédia nos dominou. O que nos resta agora é apontar o dedo para o grande culpado e não estou falando do vírus. No final das contas, que a justiça se faça... 19


WORLD CHALLENGE

CUP

O Brasil receberia os Jogos Olímpicos em 2016. Um ano antes, mais precisamente no início de maio, uma etapa da Copa do Mundo de Ginástica desembarcou por essas terras na cidade de São Paulo, no templo sagrado do ginásio do Ibirapuera. A seleção brasileira trazia grandes nomes como Arthur Zanetti e Dyego Hypolito e talentos promissores como Rebeca Andrade e Flávia Saraiva. Boa parte dos fotógrafos, como eu, teve que trabalhar das arquibancadas. Foi difícil, mas o espetáculo valeu cada sacrifício. No final de três dias, os atletas do Brasil saíram com nove medalhas: ouro de Arthur Zanetti (argolas), Flávia Saraiva (solo) e Ângelo Assumpção (salto); prata para Henrique Medina Flores (argolas), Rebeca Andrade (salto), Diego Hypolito (solo) e Flávia Saraiva (trave); além de bronze com Diego Hypolito (salto) e Francisco Barreto (barra paralelas).

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O Brasil fechou os Jogos Olímpicos de Tóquio, em agosto passado, com a melhor campanha de sua história: foram sete medalhas de ouro, seis de prata e oito de bronze. Uau, o país virou uma potência olímpica, certo? É preciso agora muita análise sobre o que de fato aconteceu. Terá sido reflexo ainda dos altos investimos para a Rio-2016? De verdade, não vejo tanto entusiasmo assim na rotina diária dos atletas brasileiros que muitas vezes se prepraram nas piores condições possíveis. O que de fato aconteceu no Japão? E agora uma certeza: não, não viramos uma potência olímpica.

Satiro Sodre/SSPress/CBDA

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