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UNESP – Universidade Estadual Paulista Campus “Júlio de Mesquita Filho”

Alan Marcel Couto Nagatomo Mobilidade e Design de Relações: uma viagem sobre a teoria das Bolhas.

Bauru – SP 2012


Alan Marcel Couto Nagatomo Mobilidade e Design de Relações: uma viagem sobre a teoria das Bolhas.

Trabalho de conclusão de curso cujo objetivo é a aprovação no curso de bacharelado em Design Gráfico pela UNESP – Universidade Estadual Paulista na área de design de relações.

Orientador: Dorival Rossi Bauru – SP 2012


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mobilidade e Design de Relações: uma viagem sobre a teoria das Bolhas / Alan Nagatomo. – Bauru, 2012 54 folhas.; 29cm x 21cm.

Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Estadual Paulista, curso de Design Gráfico, 2012. Orientador: Prof. Dr. Dorival Rossi.

1. Design de relação. 2. Teoria das bolhas. 3. Virtual. I. Nagatomo, Alan. II. Universidade Estadual Paulista. III. Mobilidade e Design de Relações: uma viagem sobre a teoria das Bolhas


Resumo Esta monografia pretende apresentar uma nova cara ao Design de Relações através da teoria das bolhas de Peter Sloterdijk e do virtual de Pierre Lévy, abordando a mobilidade como método de entendimento e exemplo para as discussões. Questionar a solidão e a dependência é imprescindível para o entendimento da proposta. Palavras-chave: Mobilidade. Design. Bolhas. Peter Sloterdijk. Virtual. Pierre Lévy.

Abstract: This monograph aims to present a new face to the Design Relations through the Peter Sloterdijk’s bubbles theory and Pierre Lévy’s virtual, addressing the mobility as a method of understanding and example for own discussions. Questioning the loneliness and dependence is essential to understand the proposal. Key-words: Mobility. Design. Bubbles. Peter Sloterdijk. Virtual. Pierre Lévy.


Sumário

1 – Introdução ........................................................................................................................ 7

2 – Bolhas, Espacialização e Conexões. ................................................................................ 10 2.1 – A Microesferas. ................................................................................................ 12 2.2 – Conexões e transferências. .............................................................................. 15 2.3 – Das massas infantilizadas. ............................................................................... 18

3 – Globos, Solidão e Mobilidade. ........................................................................................ 21 3.1 – Dos macros úteros. ......................................................................................... 23 3.2 – Mobilidade e o cordão umbilical. ................................................................... 26 3.3 – O ‘Nihil’. ........................................................................................................... 29

4 – Espumas e o Design de Relações. ................................................................................... 32 4.1 – Teoria das espumas. ........................................................................................ 34 4.2 – A metáfora do corpo humano. ........................................................................ 36 4.3 – O Design de Úteros. ......................................................................................... 38

5 – O nascimento, virtualizações e acontecimentos. .......................................................... 40 5.1 – A inevitabilidade. ............................................................................................. 42 5.2 – A virtualização uterina. .................................................................................... 44 5.3 – Da criatividade e a atualização da inteligência. .............................................. 47 5.4 – O Design do virtual. .......................................................................................... 50

6 – Considerações finais. ...................................................................................................... 52


“E eu, que estou de bem com a vida, creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão e tudo o que entre os homens se lhes assemelhe.” Friedrich Nietzsche, “Assim falou Zaratustra”.

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1 – Introdução “Não existe um ser humano inteiro frente a um mundo inteiro, senão algo humano que se move em um líquido nutricional universal”. Robert Musil

Na antiga Grécia, Platão deixou claramente descrito na fachada de sua escola a seguinte frase: “mantenha-se distante quem não seja um geômetra” (SLOTERDIJK, 1998) sendo geômetra alguém que tenha mínimo conhecimento prévio e interesse sobre espacialização, “uma inteligência que vem do mundo dos mortos e traz à vida vagas lembranças de sua estadia em uma esfera perfeita” (SLOTERDIJK, 1998). Peter Sloterdijk (1998) propõe na introdução do primeiro livro de sua trilogia “esferas” o seguinte pensamento: “mantenha-se longe quem não esteja disposto de bom grado a elogiar a transferência e contestar a solidão” faço minhas as mesmas palavras do autor e até ousaria: mantenha-se distante quem não estiver disposto a virtualizar sua própria esfera! A intenção de Platão e Sloterdijk nestas citações não é elitizar o conhecimento e tais pensamentos, mas criar no indivíduo uma abertura para a busca do melhor entendimento de suas propostas. Este trabalho aborda o design de relações através dos olhares do virtual de Pierre Lévy e da trilogia “esferas” de Peter Sloterdijk, aqui também chamada por ‘teoria das bolhas’, que divide-se em 3 momentos: bolhas, globos e espumas, momentos estes que nomeiam os livros da trilogia. Microesfereologia, macroesferologia e esferologia no plural são as três vertentes abordadas na trilogia e que serão relacionadas com outras temáticas desenvolvidas neste trabalho. Através de uma viagem pela teoria das bolhas e inicialmente entendendo o surgimento da bolha inicial (caverna original, esfera mater ou paraíso uterino), Sloterdijk (1998) propõe que o ser humano em um estado infantilizado busca incessantemente recriar a mesma sensação de proteção, nutrição, sonorização, conexão e conforto vivido durante a existência uterina. Esta neurose existencial que os seres humanos vivem se torna uma neurose também coletiva, onde muitos seres humanos buscam, conjuntamente, criar macro úteros onde essa necessidade infantil é saciada coletivamente (o autor expõe a existência de grandes massas 7


infantilizadas e desespiritualizadas). Por fim, em seu terceiro momento Sloterdijk (1998) propõe uma metáfora da movimentação humana: espumas. Sendo a bolha inicial uma das esferas da movimentação humana, o autor explica que o conjunto das tentativas, parcial ou totalmente frustradas, de recriar a sensação do útero materno (relação feto-placenta) adquire o formato de uma espuma, cheia de bolhas (esferas resultantes da espacialização íntima). A teoria das bolhas, em sua essência, sugere que seres humanos infantilizados estejam numa ‘prisão voluntária’ na qual procuram incessantemente reproduzir, em todas as suas movimentações, as sensações da antiga vida uterina utilizando-se de uma ferramenta para mensurar espacialização, a mobilidade, que dá ao indivíduo a noção sobre a sensação de útero e não útero. Outras duas temáticas que também serão abordadas são: a mobilidade líquida (contemporânea, inspirada na cibercultura) estudada por André Lemos, Giselle Beiguelman e Lúcia Santaella, e o virtual (problematização ontológica através da investigação profunda de si ou algum objeto de virtualização) de Pierre Lévy. Ontologia (do grego ontos "ente" e logoi, "ciência do ser"), ou seja, o estudo do ser enquanto ser, suas características, princípios e essência. A mobilidade é abordada em seu estado líquido, penetrante, em seu significado mais simples e subjetivo, posto como ferramenta, síntese de condensações da inteligência humana (LÉVY, 1996), de medida de espacialização interior, e não apenas para mensurar metragem e tempo. A virtualização, em geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, o desgaste. Em busca da segurança e do controle, perseguimos o virtual porque nos leva para regiões ontológicas que os perigos ordinários não mais atingem (LÉVY, 1996). Pierre Lévy é enfático quanto à necessidade do ser humano virtualizar-se, de gerar novas problemáticas, de racionalizar-se o mundo causal de nossas ações, e esta problematização ontológica, juntamente com a teoria das bolhas, são o foco deste estudo, o qual é a síntese de uma busca incessante pelo conhecimento ontológico/causal humano desta pesquisa. 8


Mas e os humanos não infantilizados? Para abordar uma possível fuga dessa prisão voluntária optou-se por abordar a virtualização, a desterritorialização em essência (LÉVY, 1996). A problematização e o questionamento da caverna original e seus efeitos em nossas movimentações é o primeiro passo dessa fuga, e para isso contestar a espacialização e a solidão se faz necessário. A ‘crisis vital’ que Sloterdijk (1998) sugere quando alguma bolha (relacionamento) constituída se desfaz (virtualização) ou se rompe (morte ou alguma invisibilidade inevitável) produz o vazio de ser retirado do paraíso uterino, ou seja, um nascimento para o deserto da realidade de ter criado apenas ilusões uterinas (espumas), e nessa abordagem morte e nascimento teriam o mesmo significado, pois os dois arremessam os indivíduos à desterritorialidade de si mesmos. “Um portão para mil desertos frios e vazios. Viver em uma época moderna significa pagar o preço pela falta de conchas.” (SLOTERDIJK, 1998) Proponho também a atualização como o resultado do choque entre a virtualização e a criatividade. O indivíduo ao desterritorializar-se ou ser desterritorializado toca a realidade, o vazio do não útero, o ‘nihil’ e pode optar por buscar reproduzir neurótica e, porque não, esquizofrenicamente o paraíso uterino ou atualizar-se, onde a virtualização e a criatividade gerariam soluções inteligentes para que o indivíduo possa habitar e preencher seus espaços interiores. E é neste momento que o Design tem papel fundamental em estimular a capacidade criativa e de virtualização da inteligência e não somente seduzir o indivíduo ao consumo de seus derivados para a saciedade de reproduzir a bolha original. Entender e expor o Design de Relação como processo virtualizador e povoador dos espaços interiores, normalmente ignorados pelo ser humano, é o objetivo deste trabalho.

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2 – Bolhas, Espacialização e Conexões. “A experiência de espaço sempre é a experiência primária do existir.” (ROCCA, 2007).

Desde o século XVII Newton chamava a atenção para o fato de que o espaço abstrato, verdadeiramente matemático, não deveria ser confundido com o espaço de nossa experiência sensória (SANTAELLA, 2011), e desde então a busca do entendimento sobre os espaços invisíveis, intangíveis e subjetivos (que já existia desde a escola socrática) tem se intensificado através da ciência e da filosofia moderna, e multiplicado em sua contemporaneidade juntamente com o surgimento do ciberespaço, que seria o exemplo mais próximo de tal realidade. Deste modo temos duas espacializações iniciais: a sensória e uma abstrata. Não é difícil a compreensão do espaço sensorial já que nosso cérebro nunca se desliga durante a existência. Este estaria ligado às sinapses neuronais e suas respostas elétricas aos estímulos recebidos do espaço físico, visível, atômico. Já o espaço abstrato, invisível aos olhos, intangível às mãos se faz mais difícil ao entendimento já que costuma ser parcial ou totalmente ignorado perante a avassaladora enchente de estímulos sensórios que recebemos a todo instante. “Estamos em um exterior que sustenta mundos interiores. Com a tese da ‘prioridade do exterior ante aos olhos’ não faz falta prosseguir com as ingênuas indagações sobre o posicionamento do homem no cosmos” (SLOTERDIJK, 1998) e assim esses mundos interiores, espaços íntimos, individuais são povoados por criações subjetivas frutos da movimentação humana: as relações, que neste primeiro momento podemos ilustrar com os relacionamentos interpessoais. Assim como nossos lares são lugares, territórios ou espaços físicos onde habitam móveis e objetos e nos movimentamos fisicamente, corporalmente ou sensorialmente, o espaço interior é povoado pelos nossos relacionamentos interpessoais ou pessoal-objetual, que também

criam

espacialização,

territorialização,

cujas

causas

serão

dissecadas

posteriormente neste estudo.

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Nessa abordagem perguntar a alguém: ‘Onde você está?’ ou ‘Com quem você está?’, apresentariam como respostas territorializações como: ‘Brasil’ para local físico ou ‘alguém’ para local interior. A primeira vivência humana (territorialização interna) a se considerar neste estudo é o desenvolvimento humano durante sua existência uterina, onde todos um dia habitamos, mas que não trazemos lembranças de tal experiência. Em tal momento vivido houve o desenvolvimento da sensoriedade neuronal e naturalmente surgiu a noção de espacialização, pois a experiência de espaço sempre é a experiência primária do existir (ROCCA, 2007). O mundo atômico na formação embrionária não surge sozinho, consequentemente, surge também o espaço interior, seus significados e relações começam a ser construídos durante a vivência uterina formando o primeiro relacionamento do ser humano: a relação feto-placenta. Durante essa vivência a noção de tempo é desconsiderada, pois dentro de útero materno, o bebê inconsciente não percebe dia ou noite, nem rotações terrestres e solares, e ainda não desenvolveu a capacidade cognitiva de contagem numérica para tal. O tempo, nos primórdios humanos, ajudou a prever estações do ano onde plantações se multiplicavam pelo planeta, assim como o próprio ser humano. A contagem do tempo em anos, dias, horas, minutos e segundos não passa de uma ferramenta para medir movimentação; assim como uma fita métrica mede metros de tecido, o tempo mede metros de deslocamento espacial da Terra em torno de si. Sendo assim, ambos (metragem e temporalidade) são tecnologias (condensações) da inteligência humana (LÉVY, 1993) criados para mensurar espacialização, ou seja, são ferramentas humanas, portanto não agem diretamente na composição dos espaços, apenas facilitam a mobilidade dos indivíduos em seus territórios interiores e exteriores. Então segundo este raciocínio somos indivíduos espaciais e atemporais, cuja primeira vivência espacial foi no útero materno durante a formação corporal. Peter Sloterdijk (1998) tem uma visão muito interessante sobre a importância de tal vivência e a compara metaforicamente a uma esfera ou bolha, na qual estivemos imersos durante o desenvolvimento fetal. 11


2.1 – A microesfera. “Esferas são criações espaciais, imunológico-sistêmicas efetivas, para seres estáticos que atuam no exterior”. (SLOTERDIJK, 1998) A esfera proposta por Peter Sloterdijk (1988) não é nada mais que a resultante da experiência uterina que tivemos quando gestados. O primeiro relacionamento, a primeira espacialização interna do ser humano foi a relação simbiôntica com a mãe e em meio a uma atmosfera de confortável segurança, proteção, nutrição e alento onde o ser humano se desenvolveu. E desde então este tenta recriar tal paraíso em sua existência, na busca por satisfazer as aspirações de completude, o chamado para nova territorialização íntima, e do êxtase pretérito momentâneo, o retorno sempre frustrado ao Éden. Então entendamos que microesferas sejam os espaços interiores gerados pelas réplicas frustradas da tentativa de recriar o paraíso uterino, também chamado de esfera mater. O homem emerge como uma utopia bio-ontológica que intenta por meio de construções científicas, ideológicas e religiosas, recriar sua caverna original (relação feto-placenta), confortável e protetora, que são as microesferas íntimas, de casais eróticos ontológicos, gêmeos, a relação feto-placenta, indivíduo e coletividade, alma e Deus. (ROCCA, 2007) E a partir dessa territorialização íntima e subjetiva geraram-se diversas crenças e modus operandi que retroalimentam a tal busca e reforçam a ideia de territorializar-se. Na teoria das bolhas, Sloterdijk (1998) propõe que viver é criar bolhas, replicar a bolha original em toda e qualquer relação interpessoal e pessoa-objectual. Ou seja, todo relacionamento é uma bolha estabelecida, espacializada, recriada, mal clonada da original.

A ‘Matrix’ individual Nessa temática ontológica são recorrentes algumas metáforas cinematográficas, mas a principal de todas é o filme Matrix (WARNER BROS., 1999) que em seu contexto onde seres 12


humanos são cultivados por máquinas inteligentes, vivem em úteros ciborgues, armazenados em torres gigantes e suas mentes aprisionadas em um programa que simula a realidade da humanidade contemporânea, sob a finalidade de gerar energia elétrica para o consumo de tais máquinas. Neste estudo abordarei diversas vezes este filme tão fértil de significados e possibilidades, e ainda outras obras cinematográficas e literárias de excelente qualidade conceitual e filosófica. Fazendo uma breve comparação com a teoria das bolhas, os indivíduos imersos em pequenos úteros, seriam o exemplo de uma microesfera ou egosfera (SLOTERDIJK, 1998) e suas mentes ligadas a um sistema que cria a ilusão de habitarem um mundo coletivo, seria o exemplo de um macro útero. Onde viver na realidade significa abrir mão de si mesmo e de tudo o que se conhece, tomar a pílula vermelha, desterritorializar-se. As microesferas, micro projeções uterinas, seriam as cápsulas onde os integrantes da matrix existem, se desenvolvem, se alimentam, onde são cultivados para continuarem presos, servindo a um sistema. A macroesfera, macro útero, seriam a matrix, que nas palavras de Morpheus é apenas uma forma de controle criada pelas máquinas para aprisionar as mentes humanas que servem de usina para a existência daquelas (WARNER BROS., 1999). E no mundo real, povoado por macro úteros, a quem estes servem?

Egosfera Ego cujo significado no latim é “eu” (WIKITIONARY, 2012). Em uma abordagem mais próxima da psicologia Sloterdijk (1998) em sua teoria chega a chamar a bolha inicial de egosfera. Esfera invisível, subjetiva e emocional onde o indivíduo se manifesta, cria e se move para posteriormente dar corpo aos seus desejos e objetivos. Segundo Sloterdijk (1998) a esfera é a circularidade com espaço interior, aberta e repartida, que habita os seres humanos. Como habitar significa sempre já formar esferas (territorializar), tanto nas pequenas como nas grandes esferas, os seres humanos são seres 13


que criam mundos redondos cujo olhar se move dentro de seus horizontes, tornando-se difícil de compreender situações e pontos de vistas externos estando inseridos em uma bolha. Para enxergar além das esferas (territórios) é preciso virtualizar-se (desterritorializar), caso contrário pode-se estar sendo criada mais uma esfera acreditando-se estar fora dela. O processo de virtualização será abordado no item 5. A espacialização física é concebida comumente em largura, altura e profundidade, cada uma tratada como dimensão espacial, compondo as três dimensões conhecidas por 3D. Mas nenhuma dessas dimensões pode mensurar a espacialização íntima; nem o tempo pode ser utilizado enquanto ferramenta para mensurar tal espaço. Não fará sentido dizer a alguém: “sinto tantas horas por você” ou “meus sentimentos têm o tamanho de ‘x’ metros”. O sentir agrega tanta subjetividade às medidas espaciais que as torna falíveis em seus propósitos.

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2.2 – Conexões e transferências.

“A transferência é uma fonte formal dos processos criadores que dão asas ao êxodo dos seres humanos de si mesmos.” (SLOTERDIJK, 1998) Tendo gozado do ‘primeiro amor’ (esfera mater) o indivíduo se desprende de sua origem para prosseguir sua marcha em outro lugar, recomeçando livremente suas transferências. O que se faz necessário entender é que “este é um caso de amor de transferência para com todos os quais criamos alguma conexão” (SLOTERDIJK, 1998), sendo que no discurso intelectual contemporâneo foi convencionado em caracterizar-se o amor de transferência como um mecanismo neurótico, culpável no qual paixões autênticas se sintam na maioria das vezes num lugar equivocado (SLOTERDIJK, 1998), como querer encontrar gelo no deserto do Saara. Exigir que alguém te proporcione a sensação da bolha inicial parece até impossível, pois como pode alguém que não seja quem te gestou proporcionar a mesma sensação, ainda mais fora de um útero? Mas o gozo no paraíso uterino é tão grande e, tão iludidamente, segura que o ser humano procura incessantemente recriá-lo, como já dissemos, e essas tentativas são as próprias transferências. Transferimos ou, porque não, projetamos no outro a esfera mater, mas para que esta transferência ocorra, é necessário que algum território perante o sujeito já tenha sido previamente constituído: a esfera mater. Para o homem, o desconhecido é suspeito e cheio de possibilidades assombrosas que lhe podem gerar a sensação do não útero, ou seja, gerar dor e desconforto, portanto o quão mais longe este puder se manter do desconhecido mais seguro ele estará. A sensação humana por ser baseada em sinapses neuronais obedece ao mesmo padrão matemático: presença de estímulo elétrico e ausência de estímulo elétrico. Binariedade pura e simples, sim e não, presente e ausente, um e zero, prazer e dor, útero e não útero. Útero, um, outro, presença, sim, sinapse conhecida, bolha constituída, paraíso reconstituído, dependência, territorialização, ignorância, cordão umbilical, conexão externa, cheio, começo, meio e fim, ciclo sem direção, repetição. 15


Não útero, zero, eu, ausência, não, sinapse desconhecida, virtualização, independência, desterritorialização, inteligência desperta, nascimento, conexão interna, não linear, vazio, vetor, sentido, novo. A transferência representa a embocadura do ouroboros, o exato momento da mordida, onde através da mordida do próprio rabo a serpente (ou dragão) inicia nova repetição idêntica do ciclo que acabara de se encerrar. Se indivíduos exercem movimentações íntimas cíclicas individualmente, por que não poderiam muitos indivíduos ter os mesmos movimentos íntimos cíclicos conjuntamente? A teoria das bolhas é uma ortogênese do espaço interior para reconstruir “o êxodo do ser humano da simbiose primitiva ao tráfego histórico universal em impérios e sistemas globais como uma história coerente de extraversões” que reconstrói “o fenômeno da grande cultura como a novela da grande transferência de esferas desde o mínimo íntimo, o da bolha dual, até o máximo imperial” (SANTAELLA, 2011). Transferências massificadas, muitos indivíduos procurando recriar úteros conjuntamente, como gêmeos em uma mesma placenta, univitelinos, compartilhando sonhos como no filme “A Origem” (“Inception”, Warner Bross, 2010), dividindo macro úteros. Outro filme de rico conteúdo ontológico. Será que eu estou na realidade ou criando outra bolha? O início do século 21 foi marcado por uma tendência cinematográfica ontológica, estimulada por diversas profecias apocalípticas, que compôs filmes que trazem como foco a virtualização da realidade. A ficção científica, cujo precursor Júlio Verne foi inspiração literária do século anterior, e a criatividade aliadas à ontologia tem tido papel essencial no cinema contemporâneo que tem estimulado a virtualização e o questionamento da realidade humana. A humanidade tem tomado gosto pela virtualização de sua realidade, sua egosfera. E não é por menos, pois inteligências humanas conformadas a manter-se em mera reprodução esférica uma hora se cansariam de tanta repetição e a virtualização voluntária começa a fazer parte do menu em algumas esferas sociais. Esferas sociais? Se as microesferas sãos interiores, as esferas exteriores, coletivas, os macro úteros não poderiam ser as esferas sociais? 16


“Os limites da minha capacidade de transferência são os limites do meu mundo.” (SLOTERDIJK, 1998)

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2.3 – Das massas infantilizadas.

“Úteros fantásticos para massas infantilizadas” (ROCCA, 2007). Tomamos por infantil: ‘que age como uma criança’, e infantilizado: ‘algo que não seja infantil, mas que se comporte como tal ou replique a imagem do mesmo’. Durante a gestação o feto é tão dependente da mãe que sua relação com ela é semelhante à do parasitismo. Se a primeira falece, salvo raras exceções, o segundo também deixa a existência corpórea, tamanha a sua dependência. Um

recém-nascido

não

tem

consciência

corporal

desenvolvida

(embora

suas

territorialidades já estejam constituídas), muito menos consciência de si mesmo, pois tais atributos se desenvolvem durante a infância e por esse motivo a criança é dependente de seus genitores. Para quase todas as necessidades de um recém-nascido, um adulto se faz necessário

para

geri-las.

Inicialmente

necessidades

fisiológicas

e

conforme

o

desenvolvimento físico se dá, necessidades cognitivas se fazem necessárias para que o indivíduo se desenvolva e possa alcançar certo nível de autonomia que lhe permita agir por si mesmo. Observemos que até que a autonomia própria aconteça o indivíduo se encontra no estado de dependência de algo ou alguém. A principal característica do estado infantil é a dependência, pois sem um cuidador a criança se degradaria e morreria. Uma criança é infantil, e não infantilizada porque ela não se faz de, ela simplesmente é. E voltando à definição de infantilizado substituiremos ‘infantil’ pela sua principal característica, que é a dependência, ou seja, um ser infantilizado é ‘alguém que não é dependente, mas que se comporte como tal ou replique a imagem de dependência’. Somente pode estar ‘infantilizado’ um ser que não esteja mais na condição infantil, ou seja, adolescentes, adultos e idosos. O estado de dependência íntima, sob o olhar da teoria das bolhas, seria a dependência em saciar a necessidade de reproduzir a esfera mater. Adultos, a priori independentes, desenvolvidos, autônomos, se condicionam à dependência de tal necessidade, se

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condicionam a infantilizar-se, aprisionam-se e desesperam-se quando alguma esfera constituída se rompe, promovendo outra em seu lugar em vez de virtualizar-se. É falando sobre “úteros fantásticos para massas infantilizadas” (ROCCA, 2007) que começamos a lançar um olhar sobre a teoria das bolhas, olhando mais ao horizonte e trazendo tal teoria ao meio social. E talvez possamos chamá-la de ‘esfera social’. O que seria o ‘social’ (do latim: ‘societas’, que significa "associação amistosa com outros") senão uma pluralidade de egosferas preocupadas em saciar sua ânsia em reproduzir o paraíso uterino?

Sonho que se sonha só, É só um sonho que se sonha só! Mas sonho que se sonha junto É realidade. Prelúdio - Raul Seixas

Interpretando a letra da música Prelúdio de Raul Seixas e comparando com o pensamento que Peter Sloterdijk desenvolve na trilogia ‘esferas’ podemos fazer algumas relações muito interessantes, sendo a primeira dela o sonho, significado que é o foco do compositor nesta música. Sonho neste caso significa algo que desejamos muito, aspiração intensa a algo e como temos visto na teoria das bolhas: o que o ser humano infantilizado mais deseja é reconstruir o paraíso perdido, a Atlântida uterina. Então a releitura da estrofe seria: o desejo de reconstruir o útero materno sozinho é uma microesfera (micro útero), e o desejo de reconstruir o útero materno junto (a alguém) é uma macroesfera (macro útero). E assim entendemos que os macro úteros compõem a realidade das massas infantilizadas, o sonho compartilhado em que não se acorda. E assim o ser humano vai se confundindo entre microesferas, macroesferas, realidade e si mesmo. E um estado de confusão e dependência se alastra pela humanidade, onde indivíduos tem completa dificuldade de limitar-se, mensurar-se (intimamente), e estabelecer referências próprias. 19


O clipe de música “Chamas gêmeas” (KLAXONS, THE. ‘Twin flames’; Polydor Records.) da banda britânica The Klaxons onde os indivíduos representados estão todos fundidos, nus, copulando é uma metáfora das esferas sociais em que nos encontramos indelimitados e dependentes, nos exilando em esferas de sensações pré-natais. Colocamos nossa autonomia nas mãos de outros dependentes em troca da ilusão de nos sentirmos protegidos e seguros na microesfera. Quando isso cai na esfera social podemos chamar de massas infantilizadas, seres humanos fundidos e dependentes das sensações, dependentes do Éden e de um ideal de Deus, evitando a maçã da virtualização.

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3 – Globos, Mobilidade e Vazio.

Sempre vivemos em espaços, em esferas, em atmosferas. Viver é criar esferas. A díade “mãe-filho” é a primeira formação esférica, cheia de tons e espaços sonoros. Um lugar de abrigo onde começa a solidariedade entre os seres humanos, a mãe, o núcleo da família, os grupos próximos e finalmente a cultura em que se vive. (ROCCA, 2007) Na teoria das bolhas Peter Sloterdijk (1998) propõe que a mãe, apenas a mãe, seja o núcleo familiar, pois todos os seres humanos tiveram que se relacionar com uma por algum período (em geral a gestação humana dura no máximo nove meses) e este período se estabelece como referência para todas as outras relações do ser humano, enquanto este se mantiver em estado de dependência voluntária perante outrem. Em seu segundo livro da trilogia ‘esferas’ Peter Sloterdijk (1999) analisa a teoria das bolhas no nível social e o título do livro é “Globos” (SLOTERDIJK, PETER. ‘Sphären II – Globen, Makrosphärologie’; 1999). Onde Sloterdijk (1999) analisa as ‘esferas sociais’, seus produtos e aspirações. O que acaba sendo apenas uma projeção do indivíduo e suas características no seu meio, juntando-se aos grupos semelhantes que consigam se sentirem confortáveis e protegidos nas suas atividades ‘sociais’. Retornando à citação da música de Raul Seixas, a parte que diz: ‘um sonho que se sonha junto é realidade’ pode, como citado no item anterior, ser interpretado como, desejos desejados juntos é a realidade (macro esfera, ou macro úteros), consequentemente entendemos que todo grupo ou ‘esfera’ social tem algum objetivo em comum, mesmo que inconsciente ou ignorado. E se tal esfera for composta por indivíduos infantilizados, altamente dependentes, tende-se a recriar a bolha inicial. Os globos seriam as esferas sociais, ou macroesferas de seres humanos infantilizados que servem de alento para os indivíduos conseguirem simular o útero materno com os demais indivíduos que os cercam. Todo e qualquer círculo ou esfera social composta por seres 21


infantilizados possui o mesmo objetivo das egosferas, porém composta por outras microesferas e suas movimentações. O ser humano é social, pois em exílio este se animaliza. As vantagens de compor globos são imensas, pois em conjunto os seres podem se defender melhor de inimigos, animais perigosos, da fome e da sede, ou seja, todos tem maior probabilidade de sobreviver. Os ganhos para a territorialidade física são grandes se nos mantivermos perto de demais indivíduos da nossa espécie, pois assim afastamos de nós a possibilidade de morrermos, consequentemente mantemos o não útero distante de nós. O vazio da morte nos assombra, o vazio do desconhecido, o vazio de uma placenta rompida, a ausência de líquido amniótico. “Não existe um ser humano inteiro frente a um mundo inteiro, senão algo humano que se move em um líquido nutricional universal” (MUSIL, 2006).

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3.1 – Dos macros úteros.

“As grades esferas, os ‘úteros fantásticos para massas infantilizadas’ que são os impérios e os Estados-nação.” (SLOTERDIJK, 1998) Um dos fatores para a sobrevivência física dos indivíduos, no mundo contemporâneo, é a criação de alguns globos, macro úteros, macroesferas chamadas ‘Nações’, ‘Estados’ ou ‘Impérios’, divisão por afinidade de etnias, raças e recursos naturais, onde fronteiras hoje são respeitadas e leis são cumpridas, o que garante aos povos culturalmente infantilizados garantia de sobrevivência coletiva. Criando a crença de ‘soberania’ os indivíduos infantilizados componentes de tal esfera social, agem como se o ‘bem comum’ existisse de fato, embora este seja apenas mais uma gostosa ilusão uterina, ‘utopia amniótica’. O ‘bem comum’ é incompatível com a definição de infantilidade citada. O ‘bem comum’ é uma ‘ilusão uterina’ onde os indivíduos se sentem confortáveis com a ideia de que todos se importam com todos, enquanto em suma estão todos dentro de sua egosfera, olhando através do horizonte pífio de uma bolha, apenas se importando em reproduzir a sensação de segurança, conforto e alento do seio uterino. O pensamento da idade moderna, que se apresentou durante tanto tempo sob o ingênuo nome de Ilustração e sob, ainda, o ingênuo lema “Progresso”, se distingue por uma mobilidade essencial: sempre que segue seu típico “Adiante” põe em marcha uma irrupção do intelecto desde as cavernas da ilusão humana ao exterior não-humano. (SLOTERDIJK, 1998) Quanto maior a necessidade de um país exercer sua soberania sobre si ou sobre outro, maior é a necessidade dos indivíduos de tal em replicar a bolha original. Um bom exemplo da necessidade de tal ‘soberania nacional’ foi a corrida espacial promovida entre os Estados Unidos da América e a extinta União Soviética, cujos investimentos de muitos dígitos foram destinados a uma busca pelo conhecimento sobre o espaço, mas que em sua motivação não 23


é nada mais do que alguém que, neste caso dois globos, têm se sentir infantilmente superior à outra, que remonta a sensação agradável do conforto uterino. O mesmo se dá nas instituições, que não são globos tão grandes quanto as nações, mas que têm o mesmo efeito amniótico. A maior de todas as instituições com certeza é a Igreja Católica do Vaticano, que exerce função de ‘Estado soberano’ em seu território, possui inúmeras posses e exerce atividades em diversas partes do mundo. Além dessas características a religião é o foco de tal instituição, cujo intuito não é diferente dos grandes impérios. As grandes esferas, os ‘úteros fantásticos para massas infantilizadas’ são os impérios e os Estados-Nação (SLOTERDIJK, 1998) e o mesmo se encaixa para as religiões, pelo menos às religiões que não promovam a virtualização dos indivíduos que a compõem, que se tornam prisões conceituais, aprisionando seus seguidores em seus macro úteros. No caso das religiões (as não virtualizantes) se tornam verdadeiros impérios conceituais territorializantes e a sua definição segundo a ótica da teoria das bolhas seria: impérios uterinos conceituais fantásticos para massas dependentes. Outro bom exemplo de impérios uterinos são as corporações empresariais, que sustentam a territorialidade fisiológica de seus empregados, aprisionando-os em suas dependências através das promessas de estabilidade e planos de carreiras, e conseguem atrair multidões de indivíduos, que dedicam tempo e esforço para o ‘desenvolvimento’ da missão da corporação em troca da ilusão de estabilidade e da ilusão de crescimento profissional e acabam por prostituir suas inteligências em troca de um território seguro para se acomodar. Muito parecido com a situação do indivíduo que optou por estar assalariado em uma corporação é o contexto do filme Matrix (WARNER BROS., 1999). Comparando as duas metáforas: em troca de sua subsistência física e da saciedade própria por uma acomodação mental o indivíduo se movimenta nas dependências do sistema e gera recursos para este continuar existindo e aprisionando-o. Com estas palavras é impossível de saber de qual, filme ou corporação, estamos citando de tão próximas que tais realidades são. Não se discursará sobre o que seja a política em sua essência, abordar-se-á apenas seus movimentos externos. A começar pelos movimentos eletivos em geral. Na Grécia antiga 24


onde as trocas de poderes frequentes nas cidades faziam com que terras ficassem sem proprietários, novas formas de governos se estabeleciam e com a tradição dos sofistas (discursadores que tinham grande habilidade com as palavras e muito convincentes em seus argumentos embora não necessariamente éticos ou morais) o poder sobre os bens materiais (territorialização física) começou a ser acumulado nas mãos dos bons discursadores, os quais conseguiam seduzir e convencer os demais indivíduos de que seu ponto de vista era correto ou coerente. Assim conquistado seu objetivo: mais territorialização física e íntima, adquirindo bens e se reafirmando como controlador da opinião alheia. Hoje em dia comumente políticos em épocas eletivas propõem supostas propostas de governos, mas em vez de focar em metodologias administrativas, estes preocupam-se em manter discursos fervorosos povoados de promessas (contos de carochinha) e críticas à inimigos políticos para parecer soberano perante a opinião do eleitorado promovendo a sensação de conforto e prazer (esperança de um mundo melhor, garantias de bens materiais) e futuramente dirigir o macro útero (massa) deliberando como desejar. Retornando à questão do bem comum, o socialismo é ainda uma política vigente em algumas nações, como Cuba, Coréia do Norte e China. Porém esse movimento político teve berço nos pensamentos democráticos gregos e romanos, e seu ápice no século 20 durante o surgimento dos livros de Karl Marx e da União Soviética de Lenin, Trotski e Stalin. A princípio os ideais marxistas idealizavam o poder político de um estado nas mãos do próprio povo e voltado para o bem comum, sem exceção. Porém todas as nações que adotaram tal regime político se transformaram em ditaduras, ignorando o bem comum e acumulando o poder na mão de um indivíduo, exatamente o contrário do idealizado. Como conceber o bem comum entre indivíduos que são dependentes da satisfação íntima de reproduzir o útero materno?

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3.2 – Mobilidade e o cordão umbilical.

“A comunicação é uma forma de “mover” informação de um lugar para outro, produzindo sentido, subjetividade e espacialização.” (LEMOS, 2009) Chamo de “Inteligência” o conjunto canônico das aptidões congnitivas, a saber, as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar e raciocinar (LÉVY, 1993) sendo que são valores individuais, ou seja, cada um em si mesmo utiliza tais atributos para desenvolver atividades (estabelecer movimentação) seja ela para reproduzir sua esfera mater ou para virtualizar-se. Essas aptidões que Pierre Lévy propõe são vistas como potências do indivíduo. Independente da crença sobre a criação do Homem, todos os seres humanos possuem essas características, nascem com ela, por isso chamamos de aptidões, que permitem ao ser humano virtualizar-se e por isso também serem chamadas de potências. ‘Ferramentas’, segundo Pierre Lévy (1993), são condensações da inteligência humana (potências) que facilitam a sua movimentação nos seus espaços físicos e íntimo. Creio que o maior exemplo de ferramenta inteligente que o homem tenha criado, que agregou importância gigantesca, é o ‘Tempo’. O tempo nos primórdios humanos ajudou a prever estações do ano onde plantações se multiplicavam pelo planeta, assim como o próprio ser humano. A contagem do tempo em anos, dias, horas, minutos e segundos não passa de uma ferramenta para medir movimentação; assim como uma fita métrica mede metros de tecido, o tempo mede metros de deslocamento espacial da Terra em torno de si. Sendo assim, ambos (metragem e temporalidade) são tecnologias (condensações) da inteligência humana (LÉVY, 1993) criados para mensurar espacialização, ou seja, são ferramentas humanas, portanto não agem diretamente na composição dos espaços, apenas

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facilitam a mobilidade dos indivíduos em seus territórios interiores e exteriores. (ítem 2.0) No período paleolítico o homo sapiens percebeu que poderia utilizar coisas à sua volta para facilitar a sua sobrevivência, e desde então não parou mais. Assim como o tempo é ferramenta para contagem de movimentação espacial do nosso planeta, este cai em uma grande subjetividade, pois ao estarmos parados não vemos o deslocamento acontecer, diferentemente da fita métrica que mede espaço físico visível; se não fosse pelo movimento do Sol não o perceberíamos, o que torna o tempo uma ferramenta, ao mesmo tempo que espacial, um tanto quanto subjetiva. Uma ferramenta humana que pode ter um campo de profunda subjetividade é a ‘Mobilidade’, entendida como a capacidade de movimentação dos indivíduos em suas territorialidades. Ver a mobilidade no território físico não é difícil de perceber, basta o indivíduo mover-se que se comprova a mobilidade física. Mas a mobilidade também acontece em nossas áreas íntimas, e como se poderia mensurar a mobilidade interior? Mobilidade quanto capacidade de mover-se intimamente, produz vivência interior, seja ela uma repetição (útero) ou algo novo, criativo, desterritorializado. Porém para mensurar a territorialidade ou desterritorialidade íntima devemos naturalmente separar os dois movimentos e considerá-los separadamente. Territorializar-se é criar bolhas, clonadas da bolha inicial, as quais produzem a sensação de conforto e consequentemente o indivíduo se acomoda nessas bolhas. Se a acomodação é a sua resultante, mensurando-a se pode criar alguma referência do tamanho do território gerado, já que metragem e tempo não servem para medi-la. No caso da desterritorialização produzida pelo uso da inteligência individual o mesmo acontece, afinal não se pode medir inteligência (testes de Q.I. não medem criatividade ou inteligência, apenas capacidades cognitivas, sinapses), mas podemos medir seus produtos, que é o que vamos analisar no ítem 5.2. Então o quantum de acomodação que o indivíduo produz para si é a referência do tanto de territorialidade produzida, em outras palavras, o tamanho da bolha. Outros produtos da territorialização são a inflexibilidade, dificuldade de mover conceitos, e a ignorância 27


voluntária, desejo de querer não saber ou se preocupar com algo relativo a si mesmo, que são imensuráveis e não abordaremos tais itens neste trabalho. “Quanto mais ferramentas o ser dispõe para se mover, física e virtualmente (territorial e desterritorial), maior a velocidade com que as conexões se estabelecem entre os indivíduos” (LEMOS, 2009). Criamos muitas ferramentas que servem para facilitar a movimentação humana e entre elas o mais móvel de todas: o Ciberespaço. Ferramenta de mobilidade instantânea, onde a rapidez de conexão determina a velocidade com que se navega. Onde Usain Bolt (atual recordista mundial na prova dos 100m livre do atletismo) pode ter a mesma mobilidade que um deficiente físico, ou até menos dependendo do nível de informação e vivência sobre o ciberespaço. Para a comunicação, a mobilidade é central já que comunicar é fazer mover signos, mensagens, informações, sendo toda mídia (dispositivos, ambientes e processos) estratégias para transportar mensagens afetando nossa relação com o espaço (LEMOS, 2009), a mobilidade é uma ferramenta, ou seja, apenas obedece ao seu usuário sem questionamento. Mas até onde já tem ido atualmente um ser infantilizado, dependente, acomodado pode ir com a mobilidade? A lugar algum. No útero materno ao mesmo tempo em que o feto pode mover-se, girar e chutar, este mesmo está ligado à placenta através do cordão umbilical e consequentemente à sua genitora, ou seja, este pode se mover (fazer uso da mobilidade) embora não vá muito longe, pois o cordão umbilical o limita. Esta mesma análise pode ser feita na teoria das bolhas onde o ser que se cultiva dentro de uma egosfera, se movimenta, mas está preso aos seus horizontes pela dependência (infantilidade) e pela acomodação gerada pela territorialização. A virtualização através do pensamento, a desterritorialização por excelência para Deleuze e Guattari (1980), que é uma das potências do indivíduo, permite com que este rompa o cordão umbilical com sua bolha, voluntariamente ou através da morte/nascimento, o que potencializaria a mobilidade do indivíduo. Então podemos dizer que a mobilidade elevada à virtualização é a capacidade de desterritorialização que o ser possui. 28


3.3 – O Nihil. "Nihilo nihil fit." - Lucretius, I d.c.

Nihil, do latim ‘nada’, significa vazio, oco, ausente. O significado da frase acima é: “O nada vem do nada” onde Lucrécio no século um estimulou em seu livro a reflexão sobre a dificuldade de definição sobre o nada. “A espuma é a saída uniforme do nihil, do nada que nada pode criar”. (SLOTERDIJK, 2004). A espuma não gera nada, nada resta dela (SLOTERDIJK, 2004), uma espuma, necessariamente é composta por bolhas, cuja camada externa distrai seu nihil interno, e uma espuma, esconde o nihil interno de cada bolha criando um aspecto coletivo. Novamente citando o filme Matrix (WARNER BROS. 1999) há uma passagem onde Morpheus explica a Neo a realidade da humanidade, no contexto do filme, e o contempla: “Bem vindo ao deserto da realidade!” (“Welcome to the desert of the real!”, 41:11. Matrix, The.; WARNER BROS. 1999). Eu contemplo o leitor: “seja bem vindo ao deserto da realidade”, pois num mundo onde a maioria dos indivíduos se encontram infantilizados, iludidos e dependentes, não existe realidade para o indivíduo, existem apenas úteros, de diversos tamanhos e cores. Realidade (não útero ou desterritorialidade) é até difícil de conceber por indivíduos que não sabem se movimentar na ausência das bolhas e macroesferas, no nihil. Há um vazio no lugar da realidade, e naturalmente vazio remete o ser humano ao desconhecido e ao medo, paralisando-o. A virtualização não é uma desrealização, mas uma mutação de identidade, uma mutação do centro de gravidade ontológico do indivíduo considerado (LÉVY, 1996). Para a teoria das bolhas a virtualização é a problematização ontológica, a investigação minuciosa de si mesmo: por que faço o que faço? Por que estou numa bolha? O que faço com meu comodismo? Estas são algumas perguntas que decorrem do processo de virtualização. Questionar-se sobre si mesmo naturalmente arremessa o olhar do indivíduo para fora do horizonte esférico fazendo-o sentir o frio do não útero.

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“Os seres humanos experimentam fascinados e tristes como entre o céu e a terra há mais coisas mortas e exteriores do que uma criança pode sonhar possuir” (ROCCA, 2007). O exemplo de frio extrauterino e transferência de bolha que Peter Sloterdijk cita em seu livro é o giro copernicano. No século XV a crença de que uma tenda divina cobria o céu, que estrelas estavam desenhadas nele, que o mundo era plano (finito) e este era cercado por confortáveis abóbadas divinas as quais seríamos conduzidos após a morte. Esta visão foi contestada por Copérnico que propôs, segundo seus cálculos matemáticos, que o a Europa era um pedaço de terra de um Globo, e que este globo estava envolto de um vácuo, negro e frio. A Igreja, depois de muito pressionada para acatar tal teoria, aceitou a ideia de que habitávamos um globo, porém esta não procurou entender o vazio que gerou esta nova concepção, e apenas substituiu uma bolha por outra. E para que a ausência de bolha, o frio cósmico, o vazio existencial não provocassem uma revolta ou o abandono dos indivíduos da época perante o macro útero chamado de Igreja, ela prontamente passou a pregar que existíamos em um planeta, mas que o sol girava em torno da terra, esta estando no centro do universo, continuando no centro das atenções de Deus. O vazio da possibilidade da crença de que Deus não se importaria, ou que não se preocupasse com os seres humanos geraria um pânico generalizado em tal instituição, pois esta (a Igreja Católica do Vaticano) não seria mais necessária para os indivíduos da época. E para continuar sendo necessária na crença dos indivíduos constituiu-se a segunda crença, do geocentrismo, que foi questionada pela teoria do heliocentrismo na época de Galileu, que foi obrigado a negá-la, sob pena de ser queimado vivo. E com outra bolha substituindo a anterior, que foi rompida pela matemática, os seres puderam continuar se iludindo e se comprazendo com a ideia de que o homem é único na criação divina, não havendo outros seres inteligentes no universo. A ausência de uma bolha que provocasse a sensação de proteção, calor, e conforto perante a ideia de Deus geraria uma maior preocupação com a sobrevivência humana, já que desprotegidos por Deus, a morte poderia rondar solta pela humanidade sem ter quem a 30


controle ou alguém que controle o todo (poder agregado à concepção de Deus). E de fato quem controla a morte? Uma referência lúdica que a ficção científica literária criou sobre a temática da investigação é o personagem “Sherlock Holmes” criado por Sir Arthur Conan Doyle, físico e escritor britânico. O personagem é um investigador autônomo que se envolve em tramas e as resolve com incrível capacidade cognitiva e racional, onde demonstra ter muita desenvoltura com sua inteligência notória, onde cada detalhe lhe permite novas conclusões e principalmente, a capacidade de observação clínica de objetos, situações e pessoas. E a principal característica do personagem é o gosto por desvendar o desconhecido, desejo por aventuras, o amor em se jogar no vazio. E como seria se Sherlock Holmes recebesse a missão de investigar o ser humano, entender seu funcionamento e descobrir sua causa existencial? Segundo Sloterdijk (1998) seria impossível percorrer o caminho de investigar a ontologia humana sem tocar, sentir, viver a solidão, ou seja, não dá pra considerar a ontologia humana sem considerar o nihil. “Mantenha-se longe quem não esteja disposto de bom grado a elogiar a transferência e contestar a solidão” (SLOTERDIJK, 1998). É com esta colocação que o autor abre a sua trilogia, dizendo inicialmente que quem não quiser contestar o que entendemos por solidão pode manter-se distante de seus livros. “’Um portão para mil desertos frios e vazios.’ Viver em uma época moderna significa pagar o preço pela falta de conchas” (SLOTERDIJK, 1998). Onde conchas seriam as bolhas sociais construídas outrora. Viver na época moderna é ter que, necessariamente, reconstruir bolhas se quisermos continuar iludidos, infantilizados e dependentes, ou, como trabalhamos neste estudo, virtualizar-se para nos voltarmos à realidade e com árdua investigação ontológica desenvolver autonomia íntima.

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4 – Espumas e o Design de Relações. “As histórias amorosas e as comunidades solidárias não são senão a criação de espaços interiores para as emoções escondidas” (SLOTERDIJK, 1998).

A díade ‘mãe-filho’ é a primeira formação esférica, cheia de tons e espaços sonoros. Um lugar de abrigo onde começa a solidariedade entre os seres humanos, a mãe, o núcleo da família, os grupos próximos e finalmente a cultura em que se vive (SLOTERDIJK, 1998). E o que seria a cultura, sob os caracteres da teoria das bolhas, senão a condensação informacional resultante do contato inter-esférico entre indivíduos? A sobrevivência de um indivíduo humano no planeta vivendo isoladamente dos demais é menos provável que a possibilidade de tal sobreviver se este estiver imerso em um coletivo. E a cultura é um dos produtos dessa complexidade. O esforço humano diante da necessidade de sobreviver gerou raciocínios, crenças, valores e informações, as quais hoje moldam indivíduos, padronizam bolhas. Em relação aos seres que estão ‘em vida’, no êxtase humano, a pergunta sobre a sua localização surge de modo radicalmente diferente, já que a produtividade primaria dos seres humanos consiste em trabalhar para conseguir alojar-se em relações espaciais próprias, surreais. (SLOTERDIJK, 1998). E tais aspectos compõem a cultura dos globos aos quais os indivíduos se movimentam, que é a soma do que os seres humanos vivenciaram e determinaram como relevante e irrelevante. Obviamente dentro de cada globo, aspectos culturais diferem de um para outro, pois os indivíduos e suas manifestações são diferentes e únicos, embora as características sociais, e porque não tratar como inconsciente coletivo humano, influenciem em seu modus operandi. Neste contexto cultural a semiótica tem importante atuação promovendo a troca, comparação e análise de valores. Os signos que tratamos são complexidades geradas por estímulos elétricos, sinapses que atravessam nossos corpos, e através delas interpretamos o mundo, sentimos o esfregar de nossas egosferas, e tocamos a realidade, ao mesmo tempo que executamos nossas transferências íntimas. 32


O êxodo do ser humano da simbiose primitiva ao tráfego histórico universal em impérios e sistemas globais como uma história coerente de extraversões que reconstrói o fenômeno da grande cultura como a novela da grande transferência de esferas desde o mínimo íntimo, o da bolha dual, até o máximo imperial. (SANTAELLA, 2011). Será que chegará um dia em que compraremos sinapses no supermercado? Imagine você indo ao supermercado, compra sinapses em uma pen drive, insere-a no computador, coloque eletrodos no seu cérebro e as use. Tal possibilidade seria o ápice do design de relações: o design de sinapses; comprar culturas e vivências num mercado. Entendemos que sinapses são as leituras que nosso corpo faz da realidade, porém complexidades advindas das sinapses se tornam interpretações, traduções, conceitos e signos. No filme Matrix (WARNER BROS., 1999), quando Morpheus questiona Neo sobre o que é realidade, se são meras sinapses cerebrais, e junto vem um sábio questionamento: as suas sinapses podem te dizer quem você é? No design de relações temos que separar sensoriedade de interpretação e tradução. Um físico, e os outros subjetivos, íntimos. É com interpretações que identificamos nossas necessidade e criações, e a tradução o processo com que o indivíduo conta para relacionar suas construções íntimas com a realidade, e assim criamos bolhas e consequentemente também os globos, e é com a ajuda dos mesmos que também nos virtualizaremos.

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4.1 – Teoria das espumas. “A imagem morfológica que melhor define o mundo poliesférico que vimos hoje não é a de um globo, mas a imagem de uma espuma.” (SLOTERDIJK, 1998)

Recapitulando todo o caminho do pensamento da teoria das bolhas trabalhado por Peter Sloterdijk (1998), começamos com a concepção do conceito de microesfera, egosfera e bolha inicial, cujo objetivo foi definir uma área invisível dos indivíduos, um território abandonado, uma terra do nunca invisível onde o Peter Pan nem é criança (este, ainda preso à vivência uterina, estaria num mundo não infantil, mas ainda intimamente fetal). Num segundo momento trouxemos a ideia de globos constituindo os meios sociais nos quais os seres estariam inseridos, uma aglomeração de microesferas produzindo esferas maiores, utilizando a referência do nosso planeta e de suas nações. E agora num terceiro momento proporemos uma nova metáfora que englobe todos os aspectos citados e proporcione a capacidade de ampliar as possibilidades de entendimento sobre a teoria das bolhas. Partindo do pressuposto de que trazemos conosco um território íntimo preenchido por bolhas, relações circulares resultantes das transferências do desejo pelo útero materno, este se demonstra ser poliesférico devido à quantidade de bolhas que possuímos dentro de nós, e uma das formas físicas poliesféricas que cercam nossa realidade são as espumas, conglomerados de bolhas que tocam e deformam umas às outras, escorrem por superfícies, estouram furta-cor, e se dividem. Sendo as espumas uma representação da somatória do território íntimo humano, e a soma de todos os territórios de diversos indivíduos, múltiplas espumas, seria uma nuvem? Cheia de suas complexidades e partículas que invadem o horizonte, sempre expandindo embora se precipitando. E neste momento o conceito de computação em nuvem é uma ótima metáfora para o entendimento das movimentações do ciberespaço, e também no plano das expressões íntimas e corpóreas humanas. Podemos propor muitas metáforas para simular a estrutura 34


do ser humano e suas movimentações invisíveis. Outra metáfora seria como se o ser humano fosse um pedaço de metal e sua nuvem de elétrons, o corpo físico como aglomeração dos átomos, tornando-o visível, massa, corpo e em volta deste corpo a existência de uma nuvem de elétrons circundando-o e interagindo entre si e com o meio também, cujos elétrons seriam as relações. Mais uma característica do ser humano é que ao mesmo tempo podem-se criar bolhas, outras se rompem, e assim seu crescimento ou retração acontece. E podemos considerar que nas fases existenciais humanas o quantum de bolhas que se cria durante a infância é diferente do quantum de bolhas que se cria durante a velhice. E o mesmo se dá com o rompimento das bolhas, que na infância são menos constantes que na velhice, onde o indivíduo se aproxima do rompimento da sua própria esfera física (morte), e assim viver a desterritorializacao do corpo físico. Mais uma cena, do incrível filme Matrix (WARNER BROS., 2003) em seu segundo filme onde o personagem Neo está na ‘fonte’ da matrix, conversando com o arquiteto, e nas supostas paredes do local aparecem diversas formas de expressão do personagem, sendo cada uma única expressão do personagem expressa nas várias televisões do ambiente. Esta cena representa muito bem como nossas espumas são e se comportam. Somos como um aglomerado de televisões cada uma com seu comportamento próprio, porém criados por um único propósito: recriar o útero materno. A metáfora desta cena do filme é magistralmente profunda e sensata para com as nossas interpretações e propósitos. Esta visão dos fragmentos da relação humana com a díade feto-placenta somente acontece para quem olha de fora das bolhas, sem estar dentro de uma. Só consegue perceber a espuma quem conseguir manter-se observador externo à bolha inicial, sem seduzir-se pela acomodação uterina. “A espuma existe somente em autorreferências vazias, não produz mais que episódios, não faz mais que crescer e colapsar-se.” (SLOTERDIJK, 2004).

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4.2 – A metáfora do corpo humano. “Esferas implodem, no entanto, espumas vivem” (SLOTERDIJK, 2004).

Paralelamente com a ideia de espumas, outras estruturas humanas também ganham configuração semelhante. A principal delas é a do próprio corpo humano, e sua divisão celular. Uma bolha constituída, território íntimo estabelecido, útero clonado, seria como as células corporais, pequenos espaços que compõem tecidos, pequenos tecidos que formam órgãos e órgãos que formam corpos. Cada célula com sua membrana plasmática, como um globo e seu horizonte esférico. E dentro deste espaço há diversas organelas habitantes, que juntas formam um todo, cada uma com sua particularidade, cada uma com sua função. A palavra "célula" vem do latim cella, pequena cavidade (WIKIPEDIA, 2012) referente ao quarto pequeno que os monges habitavam. Inicialmente foi utilizado esse termo para fazer referência à uma cavidade oca, pois foi analisada um pedaço de madeira seca. Posteriormente analisando células vivas percebeu-se que outros componentes habitavam seu interior. Prender-nos-emos à concepção original de espaço delimitado, porém vazio (nihil), que se assemelha à ideia de bolha sugerida aqui. Moléculas constituem os habitantes celulares, as organelas, o RNA e o DNA. Para a ideia de espuma a formatação do RNA e do DNA seriam interessantes a não ser porque estes são devidamente organizados, diferente do caos com que as bolhas acontecem. As transferências individuais acontecem, não aleatoriamente, mas caoticamente. A teoria das bolhas é muito parecida com a teoria de movimentação das moléculas: átomos ligados pelo compartilhamento de elétrons para formar um todo. Assim como os átomos se ligam, bolhas se tocam, se espremem no espaço interior, buscam posição mais confortável dentro da espuma. Seu rompimento, como veremos adiante, provoca uma explosão dentro do indivíduo, um movimento avassalador que causa a crisis vitalis e uma supernova emocional toma conta do indivíduo. Comparamos assim com a explosão atômica que 36


arremessa suas partículas no espaço, desfazendo-se, e junto com as partículas grande energia é liberada, a qual pode ser destrutiva para outras moléculas ou transformada em energia nuclear se bem manipulada. A crisis vitalis se bem manipulada pode permitir ao indivíduo um olhar mais profundo de si mesmo, reconhecendo seu estado espumante. Células se juntam para formar um todo, assim como bolhas para uma espuma. Células nascem a todo o instante, assim como outras são descartadas, e o mesmo se dá com as espumas. No corpo humano é possível identificar diversas metáforas semelhantes à teoria das bolhas. Coincidência ou não e independente da crença sobre a criação, isso ocorre. O apartamento moderno materializa a tendência da formação de células, em que se pode reconhecer o análogo arquitetônico e topológico do individualismo da sociedade moderna. (SLOTERDIJK, 2004). E assim como o corpo humano e as espumas são aglomerados de unidades menores, os apartamentos também. Um prédio repartido em andares, que estão repartidos em apartamentos, que estão repartidos em cômodos, os quais são paredes construídas para cercar espaços vazios, cheios de solidão e individualismo.

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4.3 – O Design de Úteros. Quem estuda a história da arquitetura recente em sua conexão com as formas de vida da sociedade mediada reconhece imediatamente que das inovações arquitetônicas com maior êxito no século XX, o apartamento e o estádio esportivo, estão em relação direta com as duas tendências sociopsicológicas mais amplas da nossa época: a liberação de indivíduos que vivem a sós, mediante técnicas habitacionais (os apartamentos) individualizantes, e a aglomeração de massas mediante acontecimentos organizados em grandes construções fascinógenas (SLOTERDIJK, 2004).

Qual a porcentagem da humanidade que considera seus espaços invisíveis em suas movimentações e os investiga intensamente? A julgar pelas políticas macroesféricas que dirigem as grandes massas em nosso planeta, uma minoria pífia, quase inexistente, invisível ao todo. Segundo Sloterdijk (1998) essa minoria são rebeldes ontológicos marginalizados. Entendendo que a maioria dos seres humanos terrestres se encaixe na realidade de habitarem esferas, e possuam um território íntimo ignorado, cujo formato se assemelha às espumas, todo o design voltado ao abastecimento das necessidades de tais seres humanos tenham o objetivo de suprir a necessidade infantil desses indivíduos de reproduzir o útero materno. Em outras palavras, um design de úteros. Na citação que abre este item Sloterdijk (1998) cita a arquitetura e suas tendências do século XX, e o que seria a arquitetura senão o design de cavernas contemporâneas que simulam o útero materno? E o design de interiores como design uterino, onde quanto mais o indivíduo se sentir confortável em seu ambiente, mais eficaz esta ramificação do design demonstra-se eficiente. Chamarei de desejo o impulso instintivo que o ser humano tem de buscar a caverna original, pois tal impulso sempre direciona o indivíduo a territorializar-se. Portanto desejar é naturalmente se por em estado de dependência (infantilidade) do objeto desejado. E alguns segmentos sociais (globos), se provêm (alimentam-se) da manipulação do desejo das massas 38


como, por exemplo, os diversos segmentos da mídia. Vendem-se ilusões amnióticas na tv, cujos jargões são cada vez mais apelativos, caracterizando-se como um grande mercado de úteros. Um grande macro útero se forma no intuito de vender-se. E em meio à massa de indivíduos infantilizados encontram-se também muitos designers, os quais infantilizados como a massa, produzem produtos que reforçam tal desejo humano. E nesse sistema o apelo sexual é moeda de troca, pois as massas infantilizadas loucas por copular, reforçar a sensação das bolhas, aceitam de bom grado tal apelo, cedendo-o. “Os namorados envenenados abandonam as etiquetas sociais interfaciais para devorar-se mutuamente frente a frente, para fundir-se um no outro de modo magicamente simbiótico” (SLOTERDIJK, 1998). E em suas relações sexuais, indivíduos infantilizados buscam pelo prazer causado pelo orgasmo sexual que o propiciará o entorpecimento corporal e um profundo relaxamento muscular, sensações essas que se assemelham à sensação de estar inserido na esfera mater, no líquido amniótico, novamente. A comunhão antropofágica, o místico intercâmbio de corações, a transfusão telepática na erótica circulação sanguínea a dois são modelos de ponto de fusão interpessoais (fusivodiádicos) onde indivíduos, se pudessem, intercambiariam até as suas entranhas (SLOTERDIJK, 1998) esta é a visão do autor sobre desejo humano para com o sexo oposto e suas manifestações sexuais: antropofagia sexual, seres se devorando, tão perto um do outro que se tornam quase um só. “Quanto mais perto, ou seja, menos distância, mais submergido num mundo cavernoso para dois se está, onde, de olhos fechados, tateiam o outro, com apertos de mão e conversações” (SLOTERDIJK, 1998). A busca pela ilusão uterina na relação a dois, em que o macho fica o mais próximo que consegue de um útero, e a fêmea tendo seu órgão reprodutor estimulado, e ambos debruçando-se sobre os sabores da serotonina.

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5 – O nascimento, virtualizações e acontecimentos.

“A Invenção suprema é a de um problema, a abertura de um vazio no meio do real”. (LÉVY, 1996)

A metáfora do nascimento Partindo da relatividade do sentir humano, sendo cada indivíduo único e seu modo de sentir também, toda relação é platônica, pois corpos físicos se tocam, mas a busca é íntima, procedente das microesferas íntimas que estabelecem transferências. A bolha existe dentro, nunca fora, nunca no fisiológico, embora as duas territorialidades, íntima e física, sejam sistemas sobrepostos, no caso a física sendo base para a existência da íntima, elas se tocam em apenas um único momento que possui dois nomes: morte e nascimento. Na biologia humana a gestação se inicia com a fecundação do óvulo por um espermatozoide formando o zigoto. Esta célula que possui DNA de ambos, se multiplica, desenvolve tecidos, órgãos e por fim o processo gestacional termina formando o feto, mas para que este novo habitante da realidade física possa adquirir campo de expressão para os demais seres humanos, com exceção da mãe, este precisa escorregar pelo canal da vida, fazer-se visível, nascer, e se desfazer de seu habitat inicial. O desenvolvimento uterino é um processo no qual o indivíduo gestado está em franco desenvolvimento corporal instintivo, que produz no indivíduo um estado de cuidados. A mãe é imprescindível para o desenvolvimento do ser gestado, e caso esta faleça muito provavelmente o mesmo também ocorra com o feto, salvo algumas exceções. E o estado de cuidados se resume basicamente em: manter o feto nutrido, aquecido e protegido sem que o indivíduo gestado precise fazer esforço algum, somente desenvolverse. Tal situação é muito parecida com o ideal de ‘Paraíso’, de onde Adão e Eva foram expulsos por terem cometido uma violação: comer o fruto proibido da árvore da ciência.

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No nascimento de um ser humano, no término de sua gestação, que geralmente dura no máximo nove meses, este é constrangido a fazer-se visível ao mundo, muito parecido com o mito de Adão e Eva que viveram o mesmo constrangimento: ter que deixar o paraíso, o Éden, o conforto amniótico. Embora condenados a viver suas existências na territorialidade física, Adão e Eva criaram as civilizações, e o mesmo se dá no nascimento de seres humanos. Esta metáfora é ontologicamente clara e direta, e de fácil entendimento: saímos de um paraíso para viver em um mundo de constrangimentos físicos (necessidades). E o que a teoria das bolhas propõe, como já explicamos anteriormente, é que mesmo tendo sido constrangido a nascer os seres humanos buscam, a todo instante, reviver tal vivência uterina transferindo-a à coisas e pessoas, o que chamamos de bolhas. E a consequência de tal necessidade é a formação de espumas, os espaços interiores onde as transferências acontecem e se acumulam. Ao estabelecer uma relação com alguém estamos transferindo a busca incessante da sensação de conforto amniótico, e por consequência, ao nos relacionarmos com multidões ou instituições, as mesmas transferências acontecem, ou seja, os globos. O desejo, citado no item anterior, é a busca incessante e frustrada pelo Éden violado, a Atlântida perdida, o útero fantástico, a caverna original, a primeira relação.

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5.1 – A inevitabilidade.

“Quem com seus próprios olhos vê a beleza na realidade já se entregou nos braços da morte.” (SLOTERDIJK, 1998) Se a gestação de um ser humano dependesse da vontade do mesmo, quanto tempo ela duraria? É com essa pergunta que refletiremos sobre a inevitabilidade. Assim como “para morrer, basta estar vivo” (provérbio português), para nascer basta estar em gestação. A morte é a única certeza de quem vive. Este pensamento é resultante da observação empírica sobre a morte, ninguém escapa de tal realidade. E para um feto gestado a realidade não é menos terrível, o nascimento é inevitável; uma bifurcação existencial acontece onde o feto é obrigado a optar ou pelo nascimento ou a morte, mas podemos pensar em duas mortes: a morte do feto para o nascimento do ser humano ou a morte do feto para a invisibilidade. A inevitabilidade do existir assombra o ser humano desde o seu nascimento até a sua morte. Tal condição humana é lembrada na trilogia Matrix (WARNER BROS., 1999), em dois momentos importantes: no primeiro filme quando o agente Smith segura Neo no trilho do trem e cita a inevitabilidade da morte perante o ser humano, e a segunda é o confronto final entre Neo e Smith no terceiro filme onde Neo aceita a inevitabilidade da morte e se deixa abater perante o agente. Assim como Neo, a morte nos abraçou quando nascemos e bate à porta a todo instante, embora ignorada. Porém em alguns momentos lembramo-nos de que a constituição humana está à mercê de seu meio, vulnerável e desprotegida, embora nunca desguarnecida e sempre vigiada de perto pelo instinto de sobrevivência. A inevitabilidade da própria morte é real, e a dos demais seres humanos também. Como fica a relação com um indivíduo se este for tomado pela morte? Se constituirmos um território íntimo, uma transferência, uma bolha em um relacionamento com uma pessoa e essa tomba 42


perante a inevitabilidade da morte o que acontece com esta bolha? Obviamente esta deixa de existir em sua territorialidade assim como o indivíduo para a realidade física. A bolha se rompe assim como o brilho no olhar se esvai com a morte, e o vazio gerado pelo rompimento nos remete diretamente à morte que conhecemos: o vazio traumático do nascimento. Assim como a existência humana é finita, as bolhas também. Elas se rompem, o nihil nos possui, e logo transferimos para outro indivíduo ou objeto o foco do desejo e criamos novas bolhas, novas transferências e assim a espuma íntima que se retraiu por algum tempo, se multiplica novamente, mantendo-se espuma. “... esferas onde os seres humanos tentam sem êxito morar e se refere à uma conexão entre crisis vital (como a separação narcisista) e as crisis que se geram quando uma esfera se rompe.” (ROCCA, 2007). O nihil, vazio existencial, precede à crisis vital que é uma nova bifurcação para o indivíduo onde podemos identificar dois caminhos: à esquerda o caminho cotidiano de satisfação do desejo, onde novas transferências acontecem, e à direita o caminho da desterritorialização, da análise do nihil, de permitir-se sentir o vazio da solidão existencial, que é um caminho estreito quase invisível na atmosfera íntima humana, cheio de obstáculos. Este segundo representa a saída do sistema, o olhar para dentro, permitir-se nascer para um mundo desterritorializado, um território ainda não povoado. A a virtualização através do pensamento, a desterritorialização em essência (LÉVY, 1996) é a via da direita, a que permite a livre manifestação do nihil, da realidade humana, o passo para o amadurecimento individual, deixando a infantilização para trás. E como seria se Sherlock Holmes recebesse a missão de investigar o ser humano, entender seu funcionamento e descobrir sua causa existencial? (Item 3.3) É o que abordaremos logo a seguir. “Mantenha-se longe quem não esteja disposto de bom grado a elogiar a transferência e contestar a solidão” (SLOTERDIJK, 1998).

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5.2 – A virtualização uterina.

A função da mídia é inventar, não necessariamente criar algo novo, porém suas criações tocam apenas o campo do desejo, criando necessidades a serem saciadas pelos indivíduos que a acessam. A tradução das mensagens criadas pela mídia, sob o olhar da teoria das bolhas seria: “Quer sentir-se no útero da sua amada mãe? Compre nosso produto!”. Não é uma invenção suprema, como citou Pierre Lévy, é a mera invenção de uma necessidade para homens insatisfeitos, desejosos, incompletos e dependentes da crença de que o Elísio violado é seu lar. A virtualização é a própria problematização, a invenção de um problema, virtualizar é utilizar o que chamamos de potências da inteligência (“conjunto canônico das aptidões cognitivas, a saber, as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar e raciocinar”; LÉVY, 1996) para investigar algo ou alguém, a si mesmo, neste caso. “A virtualização, em geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, o desgaste” (LÉVY, 1996) Como criar algo novo, ou pensar algo novo sem questionar nada? Se a necessidade é a mãe das invenções, a virtualização é a avó! Mas, mais que uma necessidade, a virtualização cria vazios. Não exatamente cria, mas os identifica, e para seres infantilizados que desconsideram a realidade interior, quando as identificam, são invadidos pelo nihil, pois espaços desconsiderados ao serem tateados se encontram tão vazios quanto desertos insalubres. Seria como a frustração de alguém que acha um cofre de moedas antigo intocado em seu quarto: se ele esteve intocado, obviamente estará vazio. O mesmo é nossa realidade interior, como esteve intocada pela inteligência, obviamente estará vazia de conteúdo, mas cheia de espumas, repleta de espaços vazios, que ao estourarem mostram toda a territorializalção vazia do ser. O vazio da realidade interior, até então desconhecido e temido, passa a ser tateado, mas não menos temido, pois a sensação de tatear um vazio é a mesma de estar em queda livre, a sensação de morte, e porque não, também a de nascimento, afinal o nascimento é uma queda livre no desconhecido que posteriormente chamamos de realidade. 44


“Quem com seus próprios olhos vê a beleza na realidade já se entregou nos braços da morte” (SLOTERDIJK, 1998). A virtualização uterina é basicamente problematizar o que chamo de ‘desejo’. “Porque faço o que faço?” É o que bastaria se perguntar para chegar à conclusão de que não há sentido em quase nada que nos pomos a executar. Muitos alegam ‘prazer’, mas virtualizando o ‘prazer’ chegamos ao centro da nossa discussão. Porque precisamos do prazer? Ele é objeto ou consequência de existir? O que Peter Sloterdijk (1998) propõe é que toda busca infantil, dependente, de prazer está correlacionada à busca pelo útero materno. Se separam de sua condição infantil no momento em que param de viver completamente na sombra do outro identificado e começam a ser habitantes de uma psicosfera social ampliada. E neste momento nasce para eles o exterior: ao sair ao aberto os seres humanos descobrem muitas coisas que em princípio não parecem poder converter-se

jamais

em

algo

próprio,

interior,

co-animado.

(SLOTERDIJK, 1998) A virtualização é um fator acelerante dos processos móveis. Quanto maior a intensidade com que a virtualização acontece e reacontece, os processos se tornam mais móveis (acessíveis) e, consequentemente, mais nômades (LÉVY, 1996) e quanto mais nômades, menos territorializado e preso às memórias uterinas o indivíduo estará. A virtualização através do pensamento, a desterritorialização por excelência para Deleuze e Guattari (1980), que é uma das potências do indivíduo, permite com que este rompa o cordão umbilical com sua bolha, voluntariamente ou através da morte/nascimento, o que potencializaria a mobilidade do indivíduo. Então podemos dizer que a mobilidade elevada à virtualização é a capacidade de desterritorializar-se que o ser possui (item 3.2). “A força e a velocidade da virtualização contemporânea são tão grandes que exilam as pessoas de seus próprios saberes, expulsam-nas de sua identidade, de sua profissão, de seu país.” (LÉVY, 1996) 45


Virtualizar-se é abrir brecha para a atualização. É criar espaços vazios onde antes havia espumas, é identificar que estamos vazios de realidade, é dar o primeiro passo para outras possibilidades, é flexibilizar-se perante a si mesmo, uma caminhada ao desconhecido, ao inseguro, ao nihil íntimo de quem se manteve preso à dependência ilusória do externo. “Criadora por excelência, a virtualização inventa questões, problemas, dispositivos geradores de atos, linhagens de processos, máquinas de devir.” (LÉVY, 1996) Virtualizar é permitir-se ao novo!

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5.3 – Da criatividade e a atualização da inteligência.

“A atualização inventa uma solução ao problema colocado pelo virtual.” (LÉVY, 1996) Viver na época moderna é ter que, necessariamente, reconstruir bolhas se quisermos continuar iludidos, infantilizados e dependentes, ou, como trabalhamos neste estudo, virtualizar-se para nos voltarmos à realidade e com árdua investigação ontológica desenvolver autonomia íntima.

A Autonomia

“Quem é maduro? Quem se nega a buscar apoio no inconsistente.” (SLOTERDIJK, 2004). De radicais gregos: auto = sozinho, por si próprio; nomia = lei. Faculdade de se governar por suas próprias leis, dirigir-se por sua própria vontade. Neste trabalho relacionamos infantilidade com dependência, e agora chegou a hora de refletirmos sobre independência e consequentemente autonomia, item citado acima. Uma criança não tem a capacidade de ser independente, não tem condições de entender a realidade, há a falta de referências e também o quantum de dependência perante a um adulto que o provenha, porém um adolescente já pode caminhar em direção à independência e a autonomia, neste caso independência e autonomia íntimas. A autonomia é a cisão com a dependência, é morrer e nascer, morrer para a espuma e nascer para o deserto da realidade interior. Somente um indivíduo autônomo tem condições de deliberar sobre si sem dependência de algo ou alguém. E na complexidade deste pensamento a binariedade se faz presente pois entendemos que dependência e autonomia sejam antônimos. Virtualizar-se é caminhar para a autonomia, pois somente assim o indivíduo pode ter livre acesso a si mesmo e às suas vontades e porquês. 47


A Inteligência “Chamo ‘Inteligência’ o conjunto canônico das aptidões congnitivas, a saber, as capacidades de perceberm de lembrar, de aprender, de imaginar e raciocinar.” (LÉVY, 1993)

‘Inteligência’ do latim intelligere: inteligir, entender, compreender. Composto de íntus: dentro e lègere = recolher, escolher, ler (WIKIPEDIA, 2012). Ou seja, podemos entender como inteligir ‘ler dentro’, e o substantivo ‘Inteligência’ o indivíduo que lê o que se está dentro, neste caso dentro de si, lê a si mesmo. Neste caso as aptidões que Pierre Lévy cita, chamamos anteriormente de potências, que se podem resumir pelo termo descrito: ‘inteligência’. Então, tomamos a inteligência como o indivíduo dessa pesquisa. É a inteligência que executa as transferências, que cria sua espacialização e ela mesma que virtualiza-se e utiliza seus atributos e é responsável pelo estado íntimo próprio. E porque não a inteligência ser tratado como sinônimo de alma ou espírito? Em tal representação ser inteligente seria ser o que se é, seria ser a si mesmo e utilizar os atributos para a virtualização do próprio indivíduo seria espiritualizar-se, “almar-se”, talvez amar-se. O significado, complexidades e subjetividade da palavra ‘amor’ não convém abordar neste trabalho, mas fica a reflexão e a possibilidade da virtualização de tais significados e significantes.

A Atualização “A atualização não é uma destruição, mas ao contrário, uma produção inventiva, um ato de criação.” (LÉVY, 1996)

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A atualização é um acontecimento, no sentido forte da palavra. Efetua-se um ato que não estava predefinido em parte alguma e que modifica por sua vez a configuração dinâmica na qual ele adquire uma significação. A articulação do virtual e do atual anima a própria dialética do acontecimento, do processo, do ser como criação (LÉVY, 1996). Enquanto virtualizar é abrir caminho (inteligir) pela selva de bolhas no nihil interior, atualização é a movimentação do indivíduo, que deixa a infantilidade ou se encontra em tal processo, consciente, autônomo, virtualizado que povoa seu território íntimo, sua realidade interior, a si mesmo com inteligência. Atualizar é ser! É abrir a realidade interior, que geralmente é vazia para indivíduos que se mantiveram no cárcere da dependência uterina, para os atributos da inteligência, para a criação. A atualização não é dependente, não é territorializada nem geométrica, ela é líquida, penetrante, amórfica e livre. Liberdade é uma palavra pouco utilizada para quem opta pela ilusão uterina, pois a infantilização, dependência, aprisiona a inteligência e a mobilidade do ser fica restrita ao horizonte esférico, sendo que esta, em si mesma, é livre e completamente móvel. A virtualização liberta o indivíduo da dependência, desprendendo-o da bolha inicial, desterritorializando-o, tornando-o mais móvel, o que aumenta o acontecimento da atualização e seus reacontecimentos. Onde indivíduos (inteligências) somados à mobilidade, que elevada à virtualização resulta na atualização do indivíduo, na capacidade do indivíduo de ler a si mesmo, criar e recriar, acontecer e reacontecer em sua realidade íntima. Inteligência + Mobilidade (virtualização) = Atualização

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5.4 – O Design do virtual. “Só com apenas uma ruptura com a velha natureza dos seres humanos, estes se tornam um grupo marginal ontológico que não se estressa ao estimular a si mesmo.” (SLOTERDIJK, 1999)

A função da virtualização não é destruir as relações que os seres humanos estabeleceram durante o seu estado infantil ou infantilizado, mas suspendê-los de seu territótio, libertá-los da existência esférica, da prisão uterina e lhes permitir a livre manifestação e compreensão de seu mundo causal, objetivo. O Design de Relações tem a função de atualizar signos, mas para isso outros processos são necessários. Sem a virtualização as atualizações não acontecem. E assim que esta se atualiza, pode se virtualizar novamente e se reatualizar, reinventar, reler-se. Mas para que o Design (referente ao processo de designar função, criar, inovar) possa atuar na realidade individual e coletiva, um processo de autonomia se torna necessário. Então o Design quanto seu objetivo precisa ser encarado como estímulo virtualizador para que o indivíduo possa se fazer visível e abrir espaço entre a espuma vazia das relações dos seres humanos. E quando o Design torna-se processo virtualizador e atualizador da realidade das inteligências humanas, ele se funde com a Arte (“Arte, a virtualização da virtualização”; LÉVY, 1996). E assim a nossa realidade se atualiza, se cria e recria, se torna inteligente, independente, livre, se espiritualiza. O que proponho é uma nova visão do Design de Relações. O Design de Relações quanto ferramenta virtualizadora ontológica, atualizadora de acontecimentos móveis. O que, em uma escala maior, resultaria numa revolução no olhar humano sobre si mesmo, sobre seus espaços, suas crenças; uma revolução também espiritual.

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6 – Considerações finais.

“Notas de um observador: Existem milhões de insetos almáticos. Alguns rastejam, outros poucos correm. A maioria prefere não se mexer. Grandes e pequenos. Redondos e triangulares, de qualquer forma são todos quadrados. Ovários, oriundos de variadas raízes radicais. Ramificações da célula rainha. Desprovidos de asas, não voam nem nadam. Possuem vida, mas não sabem. Duvidam do corpo, queimam seus filmes e suas floras. Para eles, tudo é capaz de ser impossível. Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência. Regurgitam assuntos e sintomas. Avoam e bebericam sobre as fezes. Descansam sobre a carniça, repousam-se no lodo, lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são. Assim são os insetos interiores.

A futilidade encarrega se de "mais tralos'. São inóspitos, nocivos, poluentes. Abusam da própria miséria intelectual, das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia. O veneno se refugia no espelho do armário. 51


Antes do sono, o beijo de boa noite. Antes da insônia, a benção.

Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa. A família. São soníferos, chagas sem curas. Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados". Arrancam as cabeças de suas fêmeas, Cortam os troncos, Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos. Esquecem-se de si. Pontuam-se

A cria que se crie, a dona que se dane. Os insetos interiores proliferam-se assim: Na morte e na merda.

Seus sintomas? Um calor gélido e ansiado na boca do estômago. Uma sensação de: o que é mesmo que se passa? Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto. É mais fácil aturar a tristeza generalizada Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer. Silenciam-se no holocausto da subserviência O organismo não se anima mais. E assim, animais ou menos assim, Descompromissados com o próprio rumo. Desprovidos de caráter e coragem, Desatentos ao próprio tesouro...caem. 52


Desacordam todos os dias, não mensuram suas perdas e imposturas. Não almejam, não alma, já não mais amor. Assim são os insetos interiores.”

“Os insetos interiores” – O Teatro Mágico

Entender e expor o Design de Relação como processo virtualizador e povoador dos espaços interiores, normalmente ignorados pelo ser humano, é o objetivo deste trabalho. A função do Design é tatear o vazio da realidade e propor atualizações criativas para solucionar, potencializar e dar utilidade ao espaço reconhecido, e não criar vazios para produtos já existentes, e supérfluos. Designar algo não é tarefa simples, criar e atualizar também não. Pensar e considerar autonomia e suas complexidades é naturalmente virtualizar-se, explodir bolhas e tatear o vazio. Para criar algo autônomo e livre, que exista na realidade física e íntima das pessoas entende-se que seu criador tenha tais características citadas para que possa agrega-las ao seu produto/objeto. E assim, tornar-se Designer é viver a realidade, tatear e desvendar o nihil, e abandonar o conforto do conhecido, para caminhar sobre terras intocadas.

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Bibliografia BEIGUELMAN, Giselle; LA FERLA, Jorge. Nomadismos Tecnológicos. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2011. LEMOS, André. A cultura da Mobilidade. Revista FAMECOS. Porto Alegre: nº 40. 2009. LÉVY, Pierre. O que é o virtual. 2. São Paulo: Ed. 34, 1996. LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. 2. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. MÁGICO, O Teatro; “Os insetos Interiores”. 2008. Disponível em: http://letras.mus.br/oteatro-magico/1587904/ - Acessado em 08 de novembro de 12 às 23h26. MUSIL, Robert. “O homem sem qualidades”. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2006. NIETZSCHE, Friederich. Assim falou Zaratustra. Fonte digital: eBooksBrasil, 2002. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/zara.pdf Acessado em: 20 de outibro de 2012. ROCCA, Adolfo Vásquez. Peter Sloterdijk: Microesferas íntimas y úteros fantásticos para massas infantilizadas. 15. Revista Critica de Ciencias Sociales y Jurídicas, 2007 . ROCCA, Adolfo Vásquez. Peter Sloterdijk: Esferas, helada cósmica y políticas de climatización. 15. Revista Critica de Ciencias Sociales y Jurídicas, 2007. Disponível em: http://www.ucm.es/info/nomadas/15/avrocca_microesferas.pdf Acessado em: 6 de Agosto de 2012. SANTAELLA, Lúcia. Linguagens Líquidas na era da Mobilidade. 2. São Paulo: Paulus, 2007. SLOTERDIJK, Peter. Esferas I – Burbujas, microesferología. Madrid: Siruella, 1998. SLOTERDIJK, Peter. Esferas II – Globos, macroesferología. Madrid: Siruella, 1999. SLOTERDIJK, Peter. Esferas III – Espumas, esferoligía plural. Madrid: Siruella, 2004. KLAXONS, The. “Twin Flames”. 2010. Disponível em: http://vimeo.com/17077059. Acesso em: 26 de outubro de 12 às 19h33.

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Mobilidade e Design de Relações: uma viagem sobre a teoria das Bolhas.  

Esta monografia pretende apresentar uma nova cara ao Design de Relações através da teoria das bolhas de Peter Sloterdijk e do virtual de Pie...

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