Agir e Calar | Julho de 2020

Scroll for more

Page 1



Entrevista

Balduino Andreola 4

Cotidiano

EDITORIAL Estimado leitor, estimada leitora do Agir&Calar! Enquanto escrevo este breve editorial, lá fora chove e parece que a chuva chegou como uma bênção, um acalanto para os dias tensos e nebulosos que a humanidade vive. O número de vítimas do coronavírus nos assusta. Ao mesmo tempo, faltam políticas públicas para a educação, a saúde, a segurança e outras áreas; ironiza-se a democracia; coloca-se armas nas mãos dos cidadãos; mata-se por nada e o cinturão de pobreza só aumenta. A sociedade, o mercado e as estruturas sociais, no tom de uma pequena elite burguesa, definiram e impuseram que as pessoas não têm importância, que Deus não é necessário e que os bens da terra, úteis e essenciais para a vida, além da dignidade de todos, podem ser livremente consumidos. Neste contexto, a presente revista traz várias reflexões para o nosso cotidiano, a começar pela entrevista com o professor Balduino Andreola, grande sonhador que nos instiga: “não deixaremos de lutar por dias melhores”. O tema de capa aprofunda a resiliência. Resiliência não significa somente resistência ou adaptação, é também transformação. Vamos nos conformar em viver num mundo enfermo? Se considerarmos a gravidade de uma pandemia, com base no número de óbitos ao redor do mundo, quase todos os anos morrem mais de 400 mil pessoas por armas de fogo. Além disso, só em 2019, cerca de 50 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica (UNODC, 2019) e a fome atingiu 820 milhões de pessoas (FAO, 2019). Portanto, precisamos construir uma “nova terra”, pois sociedades resilientes emergem sobre três tipos de impulsos sociais: resistência, adaptação e transformação. Além disso, temos várias notícias e artigos sobre a nossa missão e o nosso cotidiano como Josefinos e Família de Murialdo. Destacamos o Ano Murialdino, os 25 Anos da Paróquia de Planaltina (DF) e os 60 Anos do Colégio Murialdo de Porto Alegre. Quanta vida, quanta história, quanto bem realizado... É tempo de profundas mudanças em todos os níveis. É certo que o mundo só será melhor se eu for uma pessoa melhor, mais humana e fraterna. É tempo de pedir perdão e reconciliar-se com o que ainda vive e respira. Jesus é nossa esperança. Então, podemos anunciar “um novo céu e uma nova terra”. Mesmo no distanciamento físico, o pensamento e o espírito podem ir longe com a criatividade do amor. Isso é necessário hoje - “a criatividade do amor” - como disse o Papa Francisco. Caro leitor(a)! Convido cada um a “saborear” nossa revista, pensada com tanto carinho a todos.

Pe. Marcelino Modelski - CSJ Provincial Revista da Província Brasileira Josefinos de Murialdo Ano XLIV - Edição 113 - Número 1 Julho 2020 | ISSN 2447-9004 Provincial Pe. Marcelino Modelski Equipe Técnica Pe. Geraldo Boniatti Júlio César Rodrigues Bernardete Chiesa Jornalista Responsável Bernardete Chiesa - MTb 10187 Projeto Gráfico Júlio César Rodrigues Editoração Eduardo Rodrigues | Júlio Rodrigues Jonas Fontana

Ano Murialdino e a Familia Carismática 10 Paróquias Josefinas construindo 12 uma identidade comum Murialdo vive nos leigos 14

Formação

Familia de Murialdo: Caminho de Santidade 15 Desafio de uma cultura vocacional 18 na Igreja e na Congregação

Capa

Resiliência: “uma trajetória 20 para percorrer”

Marcas do que se foi

Colégio Murialdo POA: 60 anos 22 Paróquia Santa Rita de Cássia: 25 anos 24

Ponto de Vista

Relação entre pais e filhos: um olhar sistêmico SARS-COV-2: que Pandora me perdoe Revista em quadrinhos: Pe. João Schiavo O Pinheiro

Flashes

Jovens ingressam no Postulado, em Londrina Noviciado 2020 “Amados e chamados por Deus” Celebração virtual marca encerramento do Ano Murialdino Campanha da Fraternidade 2021 já tem tema e lema Ex-seminaristas realizam encontro É tempo de cuidar

28 30 32 33

34 34 34 35 35 36 36

Dicas

Dica de Filme 37 Dica de Livro 37

Revisão Lisiane Betto Pré-impressão (CTP) e Impressão Gráfica Murialdo graficamurialdo@graficamurialdo.com.br Fone: (54) 3221.1422 Nosso Endereço Casa Provincial | Rua Hércules Galló, 515 Centro | 95020.330 | Caxias do Sul (RS) Fone: (54) 3221.4711 www.josefinosdemurialdo.com.br Atendimento ao Leitor atendimento@agirecalar.com.br Tiragem 2.500 exemplares O conteúdo dos artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

Curiosidades

Vírus X COVID-19 38 Gripe Espanhola Peste Bubônica

Reflexão

Amizade Uma lenda do oriente 39


Foto: Gustavo Diehl - UFRGS - Reprodução

Não deixaremos de lutar por dias melhores A presente edição da revista Agir&Calar tem a prazer de trazer a entrevista com o Balduino Andreola. Professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 2019) pós-doutor em Educação (UFRGS, 2015); doutor em Ciências da Educação pela Université Catholique de Louvain - Bélgica (1985); Mestrado em Educação (UFRGS, 1977); Mestrado em Psicopedagogia - Université Catholique de Louvain (1983); Bacharelado em Filosofia pelo Seminário Central de São Leopoldo (1952); Bacharelado em Teologia pelo Instituto San Pietro - Itália (1959) e Licenciatura em Filosofia pela Faculdade Nossa Senhora Medianeira - São Paulo (1968). Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação do Centro Universitário La Salle de Canoas – UNILASALLE; professor titular da UFRGS (1978 - 1996); Diretor da Faculdade de Educação da UFRGS (1988 - 1992); Professor visitante do PPG/EDU da UFPel - Pelotas (1997 - 2000); Professor do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação/ IEPG da Escola Superior de Teologia/EST - São Leopoldo (2001 - 2005); Professor do Ensino Fundamental e Médio no Estado e em Escolas Particulares do Rio Grande do Sul (1953 - 1975). Pesquisador em Educação, Balduino Andreola foi religioso Josefino e em toda sua trajetória dedicou-se à educação popular, à educação do campo, aos movimentos sociais e ao diálogo intercultural. Trajetória sempre marcada pela sensibilidade e pela esperança em defesa das pessoas mais vulneráveis.

4


ENTREVISTA com Balduino Andreola

A&C: Quem é Balduino Andreola? Conte-nos sobre a sua infância. Andreola: Foi com muita emoção que recebi, por meio da Sra. Bernardete Chiesa, o convite de uma entrevista para a Revista Agir&Calar. Eu nasci em 1932, em Fazenda Souza, que, então, pertencia ao município de São Francisco de Paula. Sou o primogênito dos onze filhos de João Angelo Andreola e Tereza Gubert Andreola. Meu aniversário oficial é 11 de junho. Mas um dia a mãe me disse: “Tu nasceste em maio, mas teu pai te registrou em junho”. Meu avô paterno, Gregório Andreola, morreu antes do casamento de meu pai, que era o primogênito. A avó, Santina Andreola Scopel, propôs que ao casar continuasse morando na casa paterna. Assim, moramos com a avó. Mudamos-nos para a casa nova, quando casou o tio Verino. Meu pai, como agricultor e viticultor, cultivava mais de 40 variedades de uvas de mesa. Lembro que, com oito ou nove anos, eu ia com a mãe, na carretinha de um cavalo, vender, em Ana Rech, no Hotel Bela Vista. Em 1937, o pai ganhou o prêmio de uvas finas na Festa da Uva de Caxias do Sul. Mas os problemas eram muitos. Em 1945, ele aceitou o convite de construir uma chácara para o Júlio Éberle. Assim, em 1946, a família transferiu-se para Caxias. Com o dinheiro ganho aos poucos, comprou uma terra num lugar melhor. Mas, com o crescimento dos filhos, o sonho de voltar para a

colônia terminou. Quando, em 1987, o enterramos, no Cemitério perto da capela de Nossa Senhora do Rosário, na Sétima Légua, onde a mãe nasceu. Neste momento, ela disse: “Eu o levei onde ele foi me buscar”. Só assim voltou “à terra” que sempre amou, onde a mãe também voltou, dois anos depois! A&C: Qual a sua ligação com os Josefinos de Murialdo?

Murialdo praticava a “Pedagogia do Coração” com os meninos pobres ou abandonados. Ele a praticava igualmente com os confrades Andreola: Em 1941, pude acompanhar a construção do seminário de Fazenda Souza, porque meu pai era um dos trabalhadores, e a mãe me mandava, às vezes, levar para ele frutas ou vinho. Os primeiros noviços e, depois, os primeiros seminaristas iam seguido lá em casa pescar no rio Cará, comer uva ou caçar com funda no mato, acompanhados pelo então frater José Miotto. Eu fui assim me familiarizando com os fráteres e seminaristas e a vocação foi nascendo no sonho de ser como eles. Entrei no seminário como seminterno em 1942. Ia de manhã e voltava para casa de tardezinha. Meu

professor, no terceiro ano primário, foi o frater Arno Tisot. No 4° ano, o frater José Lorencini. Ótimo professor, mas um baita gozador. Eu era bom em redação. Um dia ele deu como tema: “Uma viagem de trem”. Os colegas que vinham de Bento, Farroupilha ou Garibaldi conheciam o trem. Para mim, seria como uma viagem interplanetária. Ao devolver as redações, lia, geralmente, as melhores. Um dia disse, com voz solene: “Vamos ouvir a redação do Balduino”. Meu ego foi lá em cima. Ele então leu a primeira frase: “Um dia tive a honra de andar de trem”. Foi aquela gargalhada estrondosa. Eu não sabia onde me esconder. Como interno, entrei no seminário em 1944. A&C: Você passou um período de sua formação na Itália, visitou Turim, estudou e vivenciou Murialdo. O que mais lhe atrai nesse Santo? Andreola: Durante a Teologia, em Viterbo, tive a oportunidade de ouvir os dois maiores estudiosos da vida e da obra do Murildo, os Padres Armando Castellani e Aldo Marengo. O contato mais direto com seu pensamento eu tive quando me foi pedido um artigo para a revista comemorativa da ordenação sacerdotal de minha turma, em 1959. O título do artigo “Il Murialdo ai Sacerdoti Novelli” baseou-se na leitura, que me impressionou muito, das falas do Murialdo por ocasião das ordenações sacerdotais. Artigo que enviei, traduzido, para a revista Agir&Calar. Visita ao tú-

5


mulo do Murialdo, eu fiz junto aos Padres José e Aleixo Susin, quando participamos do Capítulo Geral, em Rivoli, em 1964. Eu gostaria de salientar que Murialdo praticava a “Pedagogia do Coração” com os meninos pobres ou abandonados. Ele a praticava igualmente com os confrades, enquanto Fundador e “Superior” Geral. Achei lindo que os Padres Mario Aldegani e Túlio Locatelli preferiram ser chamados de “Padre Geral”, em lugar de “Superior Geral”. É muito mais do que simples troca de adjetivo. Houve um período, felizmente breve, em que certos cargos foram exercidos de maneira altamente autoritária, nada conforme ao espírito do Murialdo. A Província Brasileira sofreu as consequências desastrosas. Várias vezes louvei de coração, que os novos “Padres Provinciais”, todos eles, a começar pelo Padre Orides Balardin, reconstruíssem a Província, como a vejo hoje, primando por um clima de fraternidade, espiritualidade e espírito missionário. A&C: Por que o senhor escolheu como tema do seu pós-doutorado na UFRGS “Emotividade versus Razão: Por uma Pedagogia do Coração”? Andreola: Na Conclusão de minha tese (p. 190-195), detive-me bastante sobre as origens remotas dessa escolha. Durante meu doutorado, eu participei, com minha esposa Tania, em Paris, na festa dos 50 anos de sacerdócio do Padre Michel Duclercq, fundador das

6

“Equipes Docentes”. Durante uma palestra do famoso Padre Chenu, estava sentado ao lado do Padre Michel e ele cochichou no meu ouvido: “C’est un homme que a fait la synthèse entre le cerveau et le coeur”. (Este é um homem que fez a síntese entre o cérebro e o coração). Aquela frase me impressionou tão profundamente que eu concluí minha tese de doutorado, em 1985, com estas palavras: “A meditação das obras desses dois autores (Mounier e Freire) nos engaja a estabelecer, a seu exemplo, a coerência entre a reflexão

A “Educação do Coração”, segundo Murialdo, foi para mim uma descoberta fantástica

e a ação, o pensamento e a vida, o cérebro e o coração”. A “Educação do Coração”, segundo Murialdo, foi para mim uma descoberta fantástica. Muito me serviu a leitura da “Antologia delle Fonti Carismastiche”, organizada por G. Dotta e G. Fossatti. Em minha tese, dediquei assim um capítulo (p. 42 a 55), intitulado “A Educação do Coração segundo Leonardo Murialdo”. Em nota de rodapé consta: “Este texto foi redigido em italiano para a revista Prospettiva/ Persona, em coautoria com Joacir Della Giustina, sacer-

dote da Congregação do Murialdo, um dos educadores que mais conhece e pratica, em suas atividades, a pedagogia do coração”. Preocupado com a fundamentação bíblica da “pedagogia do coração”, dediquei um capítulo (p. 61 a 83) ao tema “coração”, nos livros do Antigo e do Novo Testamento.. A&C: Segundo você, existe alguma aproximação pedagógica entre Paulo Freire e Murialdo? Andreola: Eu pensava há muito tempo em escrever sobre as afinidades entre a pedagogia do Murialdo e a de Paulo Freire, quando fui convidado um dia, pelo Padre Alejandro Bazán, a escrever um texto para Portal Murialdo.org., publicado depois, no vol. 3 da obra “Educare il Cuore”. Citarei alguns tópicos daquele texto. Paulo Freire conclui o livro “Pedagogia do Oprimido”, com estas palavras: “Se nada ficar destas páginas, algo, pelo menos, esperamos que permaneça: nossa confiança no povo. Nossa fé nos homens e na criação de um mundo em que seja menos difícil amar”. Quando ainda no exílio, numa entrevista publicada no jornal “O Pasquim” (1978), ele conclui com esta declaração: “Para mim é imprescindível a afetividade e o amor. Eu tenho aliás recebido muitas críticas, sobretudo da América Latina, porque eu falo muito de amor e amor segundo essas críticas


ENTREVISTA com Balduino Andreola

é um conceito burguês. Em primeiro lugar eu não admitiria que foram os burgueses que inventaram o amor. Eles podem ter a propriedade das fábricas, mas do amor não. O amor é uma dimensão do ser vivo e que ao nível do ser humano alcança uma transcendência espetacular. Nesse sentido, eu digo que a revolução é um ato de amor. O livro “Pedagogia da Autonomia” é todo ele permeado de afinidades com a pedagogia do Murialdo. Uma frase que eu destaco muito: “Ensinar exige saber escutar”. No meu texto, eu a aproximei de uma frase do Raimundo Pauletti, no livro “Atti Del Seminario della Famiglia Murialdo” (p. 112): “Na pedagogia de Murialdo, a atitude de escuta ocupa um lugar relevante”, e acrescenta: “Escutar, um profundo gesto de amor”. Na mesma entrevista do Pasquim, questionado sobre sua experiência de 15 anos de exílio, ele fala de amor numa dimensão de universalidade: “[...] parece muita falta de modéstia, um treco profundamente cabotino, falar de minha universalidade. [...] Não, eu quero dizer que sou, existencialmente, um bicho universal. Mas só sou porque sou profundamente recifense, profundamente brasileiro. E por isso comecei a ser profundamente latino-americano e depois mundial”. E conclui: “Eu sou capaz de querer bem, enormemente, a qualquer povo”. Universalidade que também a Congregação assumiu,

com espírito evangélico, num avanço imenso, embora pequena, com sua presença em quatro continentes. A&C: O Brasil carece verdadeiramente de ter a educação como prioridade. Quais as saídas para uma educação transformadora? Andreola: Promessas de prioridade, só em papos eleitoreiros... Nesta hora eu me pergunto qual será a resposta à convocação do Papa Francisco no “Pacto para a Educação”.

Professor que não ama seus alunos não merece estar em sala de aula. Ele precisa valorizar os conhecimentos que os alunos trazem de outras fontes Eu recebi o documento assinado por um arcebispo, pela CNBB, por uma Irmã, pela CRB, e por um Reitor de Universidade pela AEC. Mandei uma carta ao nosso querido arcebispo Dom Jaime Spengler, dizendo que a convocação me parece para uma ação “intra muros”, contradizendo o convite do Papa Francisco, na encíclica “Evangelii Gaudium”, de uma “Igreja em saída”. O problema mais crucial é o da escola pública, como é

que fica? Todas as Congregações surgiram para atender problemas urgentes, em cada momento histórico, comprometidas com os mais pobres. Em 1942, quando, na França, uma Igreja conservadora proibia os professores católicos de atuarem em escola pública, o Padre Michel Duclercq, acreditando que os católicos deviam estar com os pobres, e sendo que os filhos dos pobres estavam nas escolas públicas, criou o movimento das Equipes Docentes. A maior parte talvez, das Congregações, tem escolas e universidades, disputando alunos na economia do mercado... E aí? A&C: Quais competências e habilidades o professor do século XXI deve ter para ministrar aulas melhores e mais interessantes? Andreola: Todo professor deve ser competente no conhecimento do que ensina e de como ensinar. Mas não pode faltar-lhe também uma “pedagogia do coração”. Professor que não ama seus alunos não merece estar em sala de aula. Não sendo só na escola que se aprende hoje, ele precisa valorizar os conhecimentos que os alunos trazem de outras fontes. Precisa também ajudá-los a elaborar criticamente a avalanche de informações com que são agredidos o tempo todo pela mídia. Uma das prioridades para os professores é a formação continuada. Não tanto através de palestras, que alimentam mais a vaidade dos palestrantes do que o provei-

7


to dos professores, mas sim de grupos, com os relatos das práticas de cada um e reflexão em torno das mesmas, no diálogo. As melhores experiências que pude conhecer foram a da FACED (Faculdade de Educação da UFRGS), da Universidade de Passo Fundo, cujo inspirador principal era o Padre Elli Benincá, recentemente falecido, e a do Centro de Educação da UFSM, através do Grupo “Dialogus”, cujo mentor principal é o professor Celso Ilgo Henz. A&C.: Quais as lições mais importantes que o senhor aprendeu sobre educação em sua carreira?

Foto: Gustavo Diehl - UFRGS - Reprodução

Andreola: A lição mais importante foi de que quanto mais se estuda e se aprende, mais aumenta a consciência da

8

imensidão do que não se sabe. Mas experiência mais formidável de aprender com os alunos, a tive, depois de aposentado, como professor visitante na FACED e da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Foi na disciplina “Fundamentos da Educação” num curso de especialização. Eu achava que as aulas estavam muito bem. Mas uma noite percebi um clima estranho. Ninguém dizia nada. Olhares enigmáticos. Interrompi minha fala e interpelei a turma, perguntado: “O que está acontecendo? ” Silêncio!... Ninguém tinha coragem de responder... Finalmente uma aluna perguntou: “Professor, o senhor conhece a estória da assembleia dos ratos?” Respondi prontamente: “Conheço muito bem!” E acrescentei: “Se o problema é de quem

teria coragem de pendurar o sininho no pescoço do gato, estejam à vontade”. Foi uma risada e a turma foi se soltando e desabafando. Todas (eram só alunas) disseram tudo o que sentiam. Que não entendiam nada do que eu falava. Aqueles autores... Nomes desconhecidos. Foi a melhor das aulas. E tudo mudou daí para a frente. Guardo até hoje os trabalhos de conclusão, vários deles analisando com vibração aquela experiência. Conquista delas e talvez a minha melhor experiência de como aprender com os alunos.

A&C.: Qual é o futuro da Escola? Ou qual é a Escola do Futuro? Andreola: Não sendo nem


ENTREVISTA com Balduino Andreola

futurólogo nem profeta, é difícil responder. Ivan Illich, grande amigo de Paulo Freire, defendia “o abandono definitivo da escola”. Houve diálogos interessantes entre eles. A escola deve permanecer, mas deve também mudar. Paulo Freire deu grandes contribuições. Nas páginas finais de “Educação como prática da liberdade”, ele apresenta sinteticamente qual seria o projeto posterior ao grande programa de alfabetização de adultos, violentamente interrompido pelo golpe de 64. Há numerosas experiências, no Brasil e no mundo, que buscam reinventar ou recriar a escola. No Brasil, há grupos muito dinâmicos. O “Fórum de Estudos: Leituras de Paulo Freire”, que, no ano passado, realizou, magnificamente, na Universidade de Caxias do Sul (UCS) sua XXII sessão anual, é um desses grupos. Nas políticas públicas, houve avanços consideráveis nas últimas décadas. Mas hoje temos que lastimar os retrocessos. O presidente, querendo acabar com Paulo Freire. Uma professora da FACED/ UFRGS, disse-me um dia: “Estão destruindo tudo o que construímos”. Contudo, não deixaremos de lutar por dias melhores.

A&C.: Na sua, opinião, qual a missão principal e qual o maior desafio atual da Família de Murialdo? Andreola: Seria pretensão minha achar que tenho uma resposta. Tenho, porém, a certeza de que a Congregação está

procurando com seriedade tal resposta, através dos “Seminários da Família Murialdo”, realizados, sucessivamente, em Fazenda Souza, em Buenos Aires e em Turim. Serei perenemente agradecido ao meu excelente ex-aluno, o Padre Geraldo Boniatti, que, como provincial, sugeriu meu nome para assessor pedagógico e ao Conselho Geral, por aceitar que eu assim participasse, naquele de 2005. Eu me senti como que voltando para a Congregação que sempre amei e da qual não saí. Eu naufraguei, no tsunami que sacudiu violentamente a Província. Hoje eu sinto, felizmente, na leitura de “Vita Giuseppina” e de “Agir&Calar” que a Congregação é igualmente fraterna e aberta ao diálogo das culturas, em todos os países onde está presente. Esta dinâmica da Família de Murialdo, constituída fraternamente da Congregação dos Josefinos, das Irmãs Murialdinas, do Instituto Secular Murialdo e de uma multidão de leigas e leigos, participando da mesma espiritualidade e da mesma missão, eu a veja como uma plenitude do Carisma.

A&C.: Na sua visão, a Igreja hoje está sendo profética? Em que ela precisa evoluir para ser fiel às orientações do Papa Francisco? Andreola: Eu amo minha Igreja santa e pecadora, embora me tenha proibido o exercício do sacerdócio, quando na ordenação ela me dissera que é “in eternum”. Não respon-

derei num tom de julgamento, porque um filho não julga sua mãe. A Igreja será sempre profética. Mas, historicamente, em certas estruturas suas, não foi ou não está sendo, talvez, muito profética. A Igreja do Vaticano II passou a viver melhor sua missão profética, creio, do que a do Concílio de Trento. Mesmo assim, está tendo, creio, uma fisionomia mais profética sob o pontificado do Papa Francisco do que o de João Paulo II e de Bento XVI. Hoje a Igreja é convidada pelo Papa Francisco a ser uma Igreja “em saída”, não voltada para dentro de si, “intra muros”.

A&C.: O que o senhor tem a dizer aos leitores do Agir&Calar? Andreola: Direi, primeiramente, que está sendo um prazer enorme conversar com vocês, leitoras e leitores de Agir&Calar, mesmo não sendo diretamente, mas através de uma entrevista. Tanto “Agir&Calar” quanto “Vita Giuseppina”, ao receber, eu folheio rapidamente, cheio de curiosidade, saboreando um encontro prazeroso com pessoas queridas, com relatos e com paisagens variadas. Faço, depois, aos poucos, uma leitura meditativa: as duas revistas trazem, ao meu olhar e ao meu coração, uma onda de vivências, de espiritualidade e de clima fraterno e missionário que sinto transpirar na Província e na Congregação, aquele clima que muitos de nós sonhávamos em

9


e a Família Carismática: os dons colocados a serviço

A

o longo do ano de 2019 e início de 2020, toda a Família de Murialdo celebrou um especial Ano Murialdino para comemorar os 120 anos da morte de Murialdo e os 50 anos de sua canonização como santo da Igreja católica. Foi um momento especial para definir melhor a Família de Murialdo, composta pelos Josefinos de Murialdo, pelas Irmãs Murialdinas de São José, pelo Instituto Secular Murialdo e pelos Leigos Amigos de Murialdo. As celebrações tornaram-se mais amplas e celebrativas também com as Mães Apostólicas, os profissionais, os alunos e ex-alunos das Obras Murialdinas, os fiés das Paróquias e tantas outras pessoas que se inspiram no carisma de Murialdo. Foi um ano abençoado por Deus, pois através da oração, das reflexões e, sobretudo, do diálogo entre tantas pessoas cresceu o empenho em viver a própria vocação. Religiosos, religiosas, leigos e leigas, que assumiram com maior empenho, em

10

seu estado de vida, um jeito de viver o próprio batismo, para o bem de todos. O jeito parecido com o de Murialdo, doando tempo, doando presença, doando espaços e até recursos para que crianças, adolescentes e jovens empobrecidos possam ter condições dignas de viver a própria vida. Durante o Ano Murialdino cresceu a partilha em relação à Família Carismática. Entendemos que o carisma é um dom de Deus, dado a cada pessoa, para o bem comum, e que os dons não são todos iguais. Um jardim fica bem mais bonito quando contemplamos flores de muitas espécies, de muitas cores, sobretudo, com perfumes diferentes e agradáveis. Murialdo recebeu de Deus o carisma, a graça de estar perto dos jovens mais pobres e abandonados pela sociedade e pelas famílias, para manifestar a eles o amor misericordioso de Deus. Ele mostrou este amor misericordioso de Deus na acolhida dos jovens, num internato, oferecendo a eles formação espiritual, social e


COTIDIANO Pe. Geraldo Boniatti

niente, não procurar os próprios interesses apenas, não guardar rancor, nunca se alegrar com a injustiça, mas sempre regozijar-se com a verdade, sempre desculpar possíveis erros, acreditar, suportar e esperar tudo com amor. Eis os carismas que o Senhor espera que sejam desenvolvidos entre seus filhos e filhas. A Família CarismátiNós, da Família de Murialdo, somos herdeica, através de seus membros torna-se assim uma ros do carisma que Murialdo nos deixou. Os hercentral apaixonada de amor, abrindo caminhos deiros procuram honrar e continuar a história de luz e de esperança em todos os ambientes, para de seus antepassados. Entendemos que fazendo tantas pessoas. O carisma é o mesmo. A manifesatividades e, sobretudo, estando junto às criantação do carisma tem particularidades específiças, adolescentes e jovens mais vulneráveis, escas em cada entidade. Eis algumas: os Josefinos tamos vivendo as práticas de procuram viver o amor miseriJesus, sendo uma boa notícia, cordioso, em comunidade, nas um evangelho vivo para muitos Um jardim fica bem escolas, paróquias e obras socorações. mais bonito quando ciais, sempre junto aos jovens A Família Carismática busca mais pobres. As Irmãs Murialcontemplamos flores dinas, vivendo em comunidade, a sua fonte e segurança na ação do Espirito Santo. É ele que dá de muitas espécies, também se dedicam à educação, os carismas mais necessários às obras sociais e ao apostolado de muitas cores, no tempo e no ambiente onde direto com as famílias. O Instisobretudo, com a pessoa se encontra, para ser tuto Secular Murialdo vive o cuidadora de situações que desperfumes diferentes carisma, a partir de suas famífiguram as pessoas. Todos são lias, sem vida comunitária, tese agradáveis filhos e filhas de Deus e o que é temunhando o amor de Deus de Deus deve ser sempre e em nos locais de trabalho, na sotoda a parte, cuidado com cariciedade. Os Leigos de Murialdo nho. Quem se dispõe com humildade a serviço vivem o carisma em suas famílias e no local de de Deus, normalmente se surpreende pelas mutrabalho e com presença nos setores organizados danças que vão acontecendo em sua vida. Assim da sociedade como na política, sempre, defendenaconteceu com Murialdo: ele era rico de bens mado e promovendo os mais vulneráveis. teriais e podia viver uma vida bem tranquila faA comunhão de vocações embeleza a vida, torzendo o bem, com seu trabalho e atividade na sona a Igreja um lugar bonito onde a criatividade de ciedade. Mas a Providência de Deus tinha como cada um se concretiza em atos que respondem o que um plano B para a vida dele. Gastar tudo o desafio: “o que posso fazer hoje para tornar mais que é material e viver ao lado dos mais pobres. feliz o meu próximo”? Ou ainda, em analogia ao Porque o que importa não é ter coisas, mas a relatexto que encontramos no livro do Êxodo 2,9, poção, a convivência, a partilha de vida com quem demos escutar a voz de Deus pedindo: “Toma esta não a tem habitualmente. Murialdo entendeu a criança, este jovem pobre, cuida dele e eu vou te conversa de Jesus com aquele jovem que queria dar a minha recompensa”. ser perfeito e não sabia o que fazer. Jesus disse: “Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e deFamília Carismática é isto: um entrelaçado de pois vem e segue-me”. (Mt 19,16-30). pensamentos, de sentimentos, de criatividades, de atitudes, que cuida da vida em abundância de As práticas da Família Carismática encontram cada jovem pobre e necessitado de afeto, de preseus aspectos práticos na carta de São Paulo aos sença, de escuta e de um companheiro de camiCoríntios, no capítulo 13: o hino da caridade. Nele está escrito que a caridade se manifesta na panhada. ciência, em ser prestativo, não ser invejoso, não PE. Geraldo Boniatti bancar o orgulhoso, não fazer nada de inconveReligioso Josefino e diretor do Colégio profissional. Concretizou o dom recebido de Deus em ser amigo, irmão e pai destes jovens, em criar uma bem unida família, em formar bons cristãos e honestos cidadãos e, sobretudo, educar os corações com sentimentos de bondade, de ternura e de misericórdia.

Murialdo de Ana Rech

11


Padres, leigos e fráteres participantes do Encontro das Paróquias Josefinas em Arniqueiras (DF) - 06 a 08/03/2020

Paróquias Josefinas construindo uma identidade comum

A

Província brasileira dos Josefinos de Murialdo atua hoje em 13 paróquias no nosso território brasileiro, onde se depara com os mais diversos desafios - sociais, financeiros, pastorais, administrativos, humanos, dentre outros. Se, por um lado, parece desafiador manter a unidade entre elas, por outro, é instigante pensar que, transpassando todos esses elementos, há o carisma que nos é próprio, ou seja, o cuidado das crianças, adolescentes e jovens, sobretudo os mais vulneráveis, que deve marcar nossa identidade, onde quer que estejamos. Há paróquias, em grandes centros, cujos recursos físicos e financeiros não são o maior obstáculo, mas sim as destoantes luzes que dispersam o olhar do povo de Deus, sobretudo dos jovens, da centralidade de Cristo, da vida e da Igreja. Há paróquias onde comunidades se encontram distantes, em meios rurais, com os desafios do tempo, do espaço, dos limites financeiros, da escassez de vocações. Há outras em que padres assumiram a missão de pároco com pouco tempo de experiência após terem se ordenado, outras ainda onde os párocos estão envelhecendo ou adoecendo... Questões diversas que exigem respostas pontuais, adequadas, mas sempre na perspectiva de preservar sua identidade carismática. Uma paróquia Josefina presta os mesmos serviços religiosos que uma paróquia diocesana, mas deve ir além. Ela se estabelece para algo mais, para revelar e exercer o diferencial específico da Congregação. As-

12

sim, “a educação cristã dos jovens, especialmente pobres, coração da nossa missão, indica o primado, isto é, o critério de referência e de discernimento de todos os demais aspectos de nossa vida espiritual, de consagração, de comunidade e de escolhas organizativas e pastorais” (XXIII CG nº 5). Poderíamos nos perguntar sobre que paróquias somos se nos faltar a ação social e evangelizadora em prol deles. Faltar-nos-á o coração pulsante. Seremos uma paróquia diocesana, destituída da riqueza do carisma. Neste sentido, já alguns anos se tem trabalhado na formação de uma Equipe das Paróquias que, coordenada por um confrade Josefino, tenha ao lado de si leigos representativos de algumas de nossas paróquias. Juntos procuram refletir os caminhos, as perspectivas e as iniciativas que possam colaborar com uma maior visibilidade de Murialdo nas comunidades - uma inquietação recorrente nos Encontros das Paróquias bem como ajudem a assumir uma ação social concreta e significativa junto às crianças, adolescentes e jovens, em cada paróquia sob o cuidado Josefino. Em julho de 2019, durante a Assembleia Anual das Paróquias, foram aprovadas as Diretrizes de Pastoral das Paróquias com Carisma Josefino de Murialdo para o período de 2019-2023. Estas Diretrizes são fruto do trabalho desta equipe em comunhão com as paróquias, consultadas sobre elementos fundamentais da sua organização, identidade, desafios, riquezas, limites e oportunidades. Procuram refletir estas contribuições,


Foto: Divulgação Agir&Calar

COTIDIANO Foto: Divulgação Agir&Calar

oferecendo fundamentação teórica dos documentos da Igreja, bem como indicações de operacionalização, de forma que possamos ir buscando unidade nas linhas comuns estabelecidas. As Diretrizes contemplam novos paradigmas pastorais de uma Igreja em retorno fontal no encontro/reencontro com Jesus Cristo. Uma Igreja que hoje, mais do que nunca, é chamada a ser acolhedora, querigmática, mistagógica, processual, ‘em saída’, organizada em pequenas comunidades missionárias, que acolha os pobres, e tenha opção efetiva pelos destinatários do carisma de Murialdo. Além disso, que tenha protagonismo laical, que já se verifica com a própria oportunidade de existência da Equipe, que caminha construindo sua identidade e planejando sua atuação.

Foto: Divulgação Agir&Calar

Em paralelo, foram trabalhados os pilares indicados nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023: Palavra, Pão, Caridade e Ação

Equipe das Paróquias (da esq. para a dir.): Luzia Nádia (Rio de Janeiro), Maria Lúcia (Guará), Marcia (São Paulo), Pe. Lídio (Planaltina), Hosenilda (Fortaleza), Vera Lucia (Londrina) e Valdmar (Planaltina)

Marcia M. Bertolino

Missionária, portanto, em profunda sintonia com a realidade da Igreja no Brasil. No caráter mais próprio dos Josefinos, as Diretrizes oferecem orientações pastorais, que clamam pela continuidade nas linhas comuns, em processos bem construídos, e uma visão evangélica das finanças, incentivando a comunhão entre as paróquias, através de uma ação solidária anual de todas em prol daquela que esteja passando por condições menos favorecidas naquele ano. Favorece também que as paróquias do Norte e Nordeste possam ser subsidiadas pelas demais em viagens, oportunizando sua participação nos encontros anuais. Preocupação de que todos possam ter as mesmas oportunidades, bonita manifestação de fraternidade. Importante deste trabalho em rede nas paróquias Josefinas é evitar dispêndio de tempo, de energia, de expectativas e de esforços, quando, nas transições de párocos, por exemplo, não se respeitam os processos iniciados pela comunidade e se aborta o que estava em crescimento, para implantação de projetos não discernidos pelo conjunto da comunidade. Evita que, como um “cabo de guerra”, cada um puxe para um lado, que as forças sejam divididas e que a comunidade não tenha uma visão conjunta. A unidade faz crescer nosso testemunho cristão, valoriza os agentes, gera mais serenidade nas transferências, restabelece a esperança, permite a manifestação da força e beleza carismática. A visão de todos alinha-se para uma missão assumida em comum. A cada Encontro das Paróquias realizado, vemos que a sensibilização dos participantes vai se aguçando e novos envolvimentos com a unidade vão se somando. A esperança de que é possível reanimar a força do carisma traz alegria. Beber da fonte que saciou nosso fundador, também nos revigora e sacia. Leigos se associam nesta tarefa com o dinamismo de quem assume seu protagonismo, e, como foi relatado no Encontro deste ano, esta é uma Congregação que respeita e apoia a presença dos leigos. Uma Graça de Deus, e só com essa Graça, pode-se caminhar adiante nesta tarefa que não é fácil, mas é enriquecedora para a Igreja e para cada um de nós. Ao pensar em Família de Murialdo, o que se sonha é criar esse comprometimento e responsabilidade de família, em que a competição seja deixada de lado em vista do serviço de um ao outro, na alegria da pertença, no bem estar de uma bem unida família, para seu crescimento saudável. Murialdo, pai, irmão e amigo dos jovens, ensine-nos a sermos pais, irmãos e amigos uns dos outros, confrades, leigos, comunidade de fé. Deus assim nos abençoe e oriente! Marcia M. Bertolino Membro da Equipe das Paróquias Josefinas e participante da Paróquia São Benedito – Jacanã (SP)

13


COTIDIANO

Foto: Divulgação Agir&Calar

Murialdo vive nos Leigos

O

s Leigos Amigos de Murialdo no Brasil são uma realidade viva e consolidada. Têm estrutura, organização e formação para sua existência e manutenção. Para comprovarmos isso, reportamo-nos a 1992 quando foi fundada a Associação Nacional dos Leigos Amigos de Murialdo (ANALAM), em Londrina (PR). Este ato foi a solidificação de um movimento que iniciou em Londrina e em Caxias do Sul (RS) e que era fruto da relação de leigos com as obras dos religiosos Josefinos de Murialdo. Participantes de Associação de Pais e Mestres nas Escolas, movimentos pastorais nas Paróquias Josefinas e pessoas que se aproximavam pela sua ligação com a Igreja Católica e com os membros que já estavam exercendo suas atividades junto às Obras Sociais dos Josefinos, voltadas ao atendimento de crianças, adolescentes e jovens vulneráveis, formaram os primeiros grupos. Para que uma organização e uma opção de vida sejam sólidas, devem ser alicerçadas em um tripé composto por Mística, Espiritualidade e Ação. Podemos afirmar que os Leigos de Murialdo constroem sua existência neste tripé. Sua existência, organização e ação têm como pano de fundo a mística de São Leonardo Murialdo que nos dá a certeza de que o amor

14

de Deus nos acompanha diariamente e está sempre disposto a nos resgatar de nossos desvios humanos. A espiritualidade do Leigo é alimentada pela oração individual diária, em grupos que estudam a Palavra de Deus, nos materiais produzidos para a formação e pelo acompanhamento dos religiosos Josefinos e das religiosas Murialdinas. Toda a caminhada seria cambaleante se não transformasse em ação os dons que recebemos de Deus. Os núcleos de leigos se organizam para exercerem sua missão junto às obras dos Josefinos e das Murialdinas em que se busca dar uma vida mais digna para crianças, adolescentes e jovens empobrecidos e vulneráveis da nossa sociedade. Os Leigos Amigos de Murialdo que iniciaram como pessoas de bom coração e que estavam preocupados em ajudar as crianças mais pobres, hoje evoluíram para membros de uma família carismática, na qual todos os que seguem São Leonardo Murialdo vivem as preocupações, as lutas e as alegrias como propriedades suas e de seus corações. Leonel Wasem dos Reis Coordenador do Conselho Formativo da ANALAM e membro do núcleo dos Leigos – AAMur – Caxias do Sul (RS)


FORMAÇÃO Pe. Túlio Locatelli

P

FAMÍLIA DE MURIALDO: Caminho de Santidade

or ocasião da celebração de encerramento do Ano Murialdino (03 de maio), o Superior Geral dos Josefinos de Murialdo, Pe. Tulio Locatelli escreveu a circular nº 10 à Família de Murialdo, intitulada “Família de Murialdo – caminho de santidade”. Como instrumento de formação, transcreveremos abaixo parte da mesma e desejamos que todos possam tirar um tempo para a reflexão e estudo da mesma:

1. Caminhando no Ano Murialdino As cartas circulares do Ano Murialdino tiveram um caminho lógico que se completa com esta circular. Antes de tudo somos parte do povo de Deus e caminhamos a serviço do Reino, mas também queremos expressar o nosso específico modo de ser, dialogando com os demais componentes da Igreja. Estamos no tempo de propor uma reflexão que nos ajude a ler a Família de Murialdo como uma realidade que vem do passado, aprofundada no presente, em vista do futuro em relação à vocação comum à santidade, sempre à luz do carisma de Murialdo. 2. Algumas convicções No centro de nossa reflexão, coloco o termo “dom”. O carisma de Murialdo é um “dom” do Espírito Santo dado à Igreja. O carisma é um “dom” para todos aqueles que em estados de vida diversos o acolheram como “luz e sal”, para a própria existência humana e cristã. A Família de Murialdo, nesta perspectiva, é um “dom” que acolhe o “dom do carisma” e o partilha entre todos os seus membros. É este “dom” comum que faz nascer o vínculo espiritual que constitui a Família de Murialdo: religiosos, religiosas, leigos e leigas. No centro, existe “o dom” que deve ser vivido, partilhado, participado, para que a comunhão de vocações possa ser fecunda à luz da eclesiologia de comunhão. Na verdade, é justamente nesta pers-

pectiva que nasce a convicção que cada um reforça a própria identidade vocacional na medida em que é vivida em comunhão e diálogo com os demais componentes da mesma família. Permanece firme a referência comum: o carisma do fundador, este é o ponto central da Família de Murialdo. Parece-me que podemos acrescentar um outro aspecto, hoje, proposto pelo Papa Francisco a tal ponto que será o tema do próximo sínodo em 2022: a sinodalidade. A sinodalidade é antes de tudo uma atitude mental, uma visão de Igreja, de povo de Deus atenta a tudo, tendo o cuidado de não excluir ninguém; a sinodalidade foi definida como o DNA da Igreja. A Família de Murialdo pode ser compreendida como “sinodalidade”, porque ela quer viver e expressar um jeito de ser família, uma comunhão capaz de conjugar numa unidade as diversas identidades que a compõe. É um apelo para sair de um sistema dual (particular e geral, específico e comum) e direcionar-se a um sistema capaz de fazer uma síntese entre indivíduo e povo, entre Igreja universal e Igreja particular, entre religiosos e religiosas, leigos e leigas. Gosto de sonhar que o viver juntos e ser Família de Murialdo é participar e dar nossa contribuição à sinodalidade eclesial. Finalmente, em vista da convicção que cada um destaca em pertencer à Família de Murialdo em seu modo de sentir e viver o carisma, solicitei alguns depoimentos que transcrevo em parte. Vamos acolhê-los, porque são vozes que se unem ao coro, da grande família de Murialdo.

15


Murialdo: modelo de fé e de amor

Reconhecer a santidade no cotidiano

Santidade: um caminho feito junto com Deus

A santidade não se conquista e nem se alcança, mas é acolhida na manifestação da atitude enquanto dinâmica do amor: esvaziar-se para dar espaço ao Outro é o único pressuposto de fecundidade e de vida nova. Para nós, chamadas a viver a espiritualidade de São Leonardo Murialdo, é importante descobrir o rosto de Deus no rosto de cada irmã e de cada irmão; é deixar-se “tocar” pelo amor infinito, pessoal, misericordioso de Deus. Este amor é capaz de transformar a nossa vida e tornando-nos atentas à Presença de Deus no cotidiano, para transformar a obscuridade de nossos dias com a luminosidade do amor. Ser extraordinárias no ordinário significa viver a espiritualidade do cotidiano que é a experiência de um Deus próximo e misericordioso. É no concreto de nossa existência que podemos descobrir o Deus próximo, o Emanuel, o Deus conosco. Um Deus que nos ama tanto a tal ponto de tornar-se um como nós. Na espiritualidade de São Leonardo, encontramos um outro elemento importante; a doçura e ternura. Somente quem tem experimentado a ternura de Deus pode expressar a mesma ternura aos irmãos com a mesma intensidade.

Parece-me que o Papa Francisco com a Exortação Apostólica “Alegraivos e Exultai” queria estimular e educar o povo dos que acreditam a colocar maior atenção em saber reconhecer e valorizar quantas mulheres e homens na humildade, com espontaneidade, no cotidiano da vida, cumprem gestos de atenção, de caridade, respondendo aos desafios e às necessidades de cada dia na Igreja, na sociedade e no mundo.

O Batismo, sacramento que marca a cada um de nós, independentemente da próprio chamado vocacional, tornanos parte da Igreja. É sacramento que nos identifica como povo de Deus. Cada um foi chamado a vida por amor, recebeu o dom do Batismo, que, muitas vezes, é esquecido no cotidiano.

Irmã Orsola Bertolotto

Gianna e Roberto Frison

Nunzia Boccia

Superiora Geral das Irmãs Muriadinas de São José

Comunidade de Leigos de Murialdo da Itália

Leiga da Família de Murialdo da Itália

16

Podemos reconhecer que muitos leigos e leigas transformam o tempo livre em tempos cheio de empenhos como educadores na catequese, nos grupos das associações esportivas, em outros encontros e nas atividades extraclasses das escolas. Como não reconhecer em sacerdotes, religiosos e religiosas como disponíveis e discretos guias espirituais, com os quais se tecem profundas amizades, partilhando com eles momentos familiares de tristeza e de alegrias, com os quais se partilha projetos e desejos de vida. Difícil? Vem espontâneo o dito de “não tenhais medo” de São João Paulo II e o dizer de Murialdo “Façamos o bem e façamo-lo bem porque Deus quer”. A santidade no concreto não tem nada de abstrato e de algo longínquo; santidade terrestre que tem odor de casa, de pão, de encontros. Capaz de assumir como próprio a encarnação de Deus para viver e transmitir sentimentos e comportamentos ricos de misericórdia.

Ser chamados à santidade não quer dizer, no meu pensar, tornar-se perfeitos, mas unificar a própria vida ao projeto do amor que Deus tem para cada um de nós. Viver do amor e para o amor de Deus. Este modo de ser plasma toda a nossa existência, segundo sua forma própria, voltada sempre e somente para uma vida realizada à luz de sua Palavra. Muitas vezes nos sentimos envoltos pela compaixão enquanto escolhidos por Deus. Devemos nos revestir de sentimentos de ternura, de bondade, de humildade, de mansidão e de magnanimidade ( 1 Cor 3, 12). Este é o apelo para santidade. Um caminho feito em comunhão é o caminho da Igreja. Caminhar com Deus quer dizer acreditar nele e confiar nele. Deus fez-se nosso companheiro de viagem na pessoa de Jesus. Ele pede-nos para confiar Nele, certos de que Ele vigia sempre sobre os nossos passos. Ser santos significa confiar nele de modo pleno sem limites, certos de que não existe coisa melhor do que colocar a nossa vida em suas mãos.


FORMAÇÃO Pe. Túlio Locatelli

Um caminho, fruto de uma descoberta Posso dizer que minha experiência como Leigo Amigo de Murialdo iniciou através da amizade e do trabalho com a comunidade religiosa dos Josefinos de Murialdo. Mas minha permanência nesta caminhada é fruto da descoberta do carisma de São Leonardo Murialdo e da forma como podemos buscar a santidade nas atividades rotineiras, desde que sejamos fiéis ao amor de Deus. Ser Leigo Amigo de Murialdo para mim é uma escolha de vida que orienta as ações no meu dia a dia. É ter sempre o olhar voltado para as crianças, jovens e adolescentes empobrecidos e em situação de risco. É participar de uma grande e unida família na qual somos complemento e sustento para cada membro, transformando nossos problemas em problemas comuns e principalmente transformar nossas alegrias em alegrias divididas e comemoradas. Ser Leigo Amigo de Murialdo é ser um sinal da misericórdia de Deus dentro da sociedade e da nossa família sanguínea. A cada dia que passa tenho mais certeza de que Murialdo estava com razão quando afirma que: “Se estamos nas mãos de Deus, estamos em boas mãos.”

Um presente maravilhoso Fazer parte da Família de Murialdo foi um grande presente de Deus para a minha vida, espiritual. Atraída e apaixonada pelo carisma de Murialdo, desde os 17 anos, escolhi de doar-me totalmente em colaborar no trabalho educativo junto aos jovens menos favorecidos na vida. O nosso principal objetivo é aquele de educar, sobretudo, o coração de todos os jovens e de fazer do Centro Educativo um espaço no qual os mesmos jovens sintam-se, acolhidos, formando com eles uma bem unida família. Sinto-me muito comprometida com o carisma que herdamos e é nossa responsabilidade trabalhar com todo o cuidado possível para que todos os jovens possam sentir-se enriquecidos graças a este trabalho. Como batizada, sinto-me chamada a procurar a santidade e estou certa que esta pode ser alcançada seguindo os passos de São Leonardo Murialdo,

Deixo a cada um de vocês continuar a reflexão. Sei que tantas outras belas experiências poderiam ser contadas para o bem da Família de Murialdo. Meu desejo é que isto aconteça nos encontros de vocês em nível comunitário ou até provincial. Com vocês renovo o agradecimento por ter recebido este “dom” e a responsabilidade de vivê-lo a serviço dos jovens pobres em comunhão com tantos irmãos e irmãs. Murialdo, nos abençoe e nos acompanhe!

Leonel Wasen dos Reis Leigo da Família de Murialdo Caxias do Sul, RS - Brasil

Maria Jesus Peralta Ramirez Leiga da Família de Murialdo, Hermosilio - México

Pe. Túlio Locatelli Padre Geral da Congregação de São José – Roma (Itália)

17


Desafio de uma cultura vocacional na Igreja e na Congregação

A

o debatermos um tema tão importante para cia o Senhor” (cf 1Sm 3,7). Realizando esse processo, a nossa Igreja, faz-se necessário aprofundarele pôde responder: “Fala Senhor que o teu servo mos o significado da vocação para cada um escuta” (cf. 1Sm 3,10). Podemos observar também a de nós. A nossa sociedade é construída diariamenpassagem dos discípulos de Emaús: nela encontrate por todos. Vocação, antes de tudo, em sua base -se uma percepção mais clara de como ocorre um conceitual, significa chamado, primeiramente à processo vocacional, a proximidade, o diálogo com vida, à existência. Somos chamados desde o “ventre o Senhor, o partilhar em comunidade, o mergulhar materno” (cf.: Gl 1,15), isto é, o primeiro convite de profundo no encontro pessoal com Cristo e o partir Deus, a cada um de nós, é à vida, à existência. Esse em missão. Essa experiência profunda de encontro é o maior convite e, ao longo dos anos, vamos procom o senhor nos faz caminhantes e nos motiva a gressivamente interpretando sensibilizar outros a também os sinais de Deus e junto a eles realizarem seu encontro com o nosso chamado à vocação esCristo. Pastoral Vocacional pecífica. Esse caminho requer Iluminar o próprio chamaMurialdo: diálogo, paciência, oração, vida do, que o Senhor nos faz, exige, Um estilo de viver o comunitária e proximidade não somente uma experiência com Deus. amor de Deus com a pessoal, mas uma dinâmica coPor isso, para falarmos de munitária. Por isso, as nossas Família de Murialdo cultura vocacional, antes de comunidades precisam ser insna evangelização tudo, devemos entender que a piradoras e carismáticas, que das juventudeS vocação se dá na medida em contribuem para que a pessoa que assumimos e vivenciamos possa realizar seu processo foro nosso próprio chamado. Conmativo e de amadurecimento tudo, para que isso aconteça, em sua escolha vocacional por devemos ter ciência que assumir a própria vocação meio do diálogo, da oração e do testemunho. Assim demanda discernimento e acontece num processo sendo, as comunidades tornam-se celeiros vocaciode diálogo constante com o Mestre, uma aproximanais que aproximam as pessoas do Senhor, especialção com Ele, criando uma intimidade com o Senhor mente os jovens, e os motivam para a serem felizes da messe. em sua escolha vocacional.

Ao olharmos para personagens bíblicos, podemos observar que os mesmos iam à busca do seu chamado mergulhados na experiência pessoal e comunitária com Deus. Maria teve um encontro pessoal com Deus, assim pôde responder ao chamado com o seu “faça-se” (cf Lc 1,38). Temos outros exemplos na Sagrada Escritura, basta olharmos Samuel que necessitou de um processo para perceber quem realmente o estava chamado “Samuel, Samuel”, (cf.: 1Sm 3,4) visto que ele ainda “não conhe-

18

Entretanto, essa compreensão não é tão simples: motivar uma comunidade à dinâmica vocacional demanda um longo e, muitas vezes, árduo processo, pois ela precisa se abrir, quebrar seus paradigmas e tornar-se acolhedora e carismática. Assim, para melhor compreensão do desenvolvimento de cultura vocacional, recorremos ao documento conclusivo do II Congresso Latino-Americano de Vocações, realizado 2011, pelo Conselho Episcopal Latino-Americano. O mesmo afirma que a cultura vocacio-


FORMAÇÃO Fr. Elves Bessa

nal é “o modo de vida de uma comunidade que deriva de seu modo de interpretar a vida e as experiências vitais e envolve seus membros de maneira pessoal e interpessoal, em algo em que se crê, de que todos estão convencidos, gerador de opções e compromissos e, assim, convertendo-se em patrimônio comum” (Cf.: CNBB, 2012, nº 52). Ou seja, a cultura vocacional não deve ser entendida como algo para ser conquistado, um objetivo ou meta, mas como um processo que exige contínua dinamicidade. Neste sentido, a Congregação de São José (Josefinos de Murialdo), ao longo dos anos, tem percebido e alinhado junto à Igreja esse processo vocacional. Basta olharmos seus documentos e incentivos, dentre outras inúmeras motivações. Ela compreende que para trabalhar a questão vocacional faz-se necessário que seus membros tenham claro a sua escolha de vida e sejam felizes na mesma. O XIX Capítulo Geral da Congregação reitera a importância vocacional e assegura que, “para nós Josefinos, trabalhar para o Reino, significa trabalhar com paixão e generosidade para que cada jovem possa discernir o desígnio de Deus sobre ele e que possa também realizá-lo” (XIX Capítulo Geral, 1994, nº 2.3). Isso é tarefa de cada um de nós, contribuir para que o jovem possa discernir sua própria vocação, diante daquilo que Cristo pede: “Vinde e vede” (Jo 1,39). Imbuídos nesse carisma, Congregação tem claro que se faz necessário um amplo trabalho de motivação das mais variadas vocações na Igreja. Ela tem buscado despertar os inúmeros chamados dentro do seio do carisma deixado por São Leonardo Murialdo à Família de Murialdo (FdM). Seus membros - a Congregação de São José, as Irmãs Murialdinas de São José, o Instituto Secular Murialdo, os Leigos e as Leigas Amigos de Murialdo e as Mães Apostólicas – buscam, diariamente, viver a sua vocação e, pelo seu testemunho de vida, sensibilizam para que mais vocações surjam na Igreja.

vocacional, que é a juventude. Isto é, somos desafiados a alcançarmos esses jovens, não só os chamando a virem até nós, como se tivéssemos respostas para tudo, mas indo ao seu encontro, onde podemos fazer uma experiência conjunta com o próprio Senhor. Podemos concretizar essa ação vocacional nos mais variados meios juvenis, estando com eles e indo ao encontro deles. Neste sentido, o Irmão Márcio Costa, em seu livro: “Discernimento Vocacional”, assegura-nos que a dinâmica vocacional de acompanhamento junto aos jovens requer de nós: Disposição pessoal para vivenciar uma experiência de acompanhamento e, assim como fez Jesus com os discípulos de Emaús, pensar se estamos dispostos a nos aproximar deles, caminhar com eles e compartilhar valores da vida. São questionamentos como esses que nos ajudam a vivenciar um profundo caminho de descoberta vocacional com os jovens dos tempos atuais. Eis que esse processo não é fácil de ser realizado, porque nos desestabiliza, nos desafia (COSTA, 2019, p. 74).

Portanto, falar em cultura vocacional é falar em vocacionalizar os espaços, as comunidades, cada um de nós, assumindo o nosso chamado diante de Deus e da Igreja, promovendo as mais variadas vocações em nossa comunidade, sendo testemunhas da alegria e da vivência concreta da nossa vocação. Que a Maria, a mãe das vocações, São José, São Leonardo Murialdo e o beato João Schiavo nos ajudem cada dia mais a vivenciar o nosso chamado.

Fr. Elves Bessa Religioso Josefino. Formador do Postulado – Londrina (PR)

Mergulhados na ação carismática e apostólica, vamos ao encontro de um público-alvo, nessa dinâmica

19


“Em seguida papai caminhou até um bosque de bambus. ‘Este é o terceiro amigo do inverno. O bambu é flexível: dobra com o vento, mas nunca quebra, pois é capaz de se adaptar a qualquer circunstância. É um sinal de resiliência. Significa que somos capazes de nos recuperar dos momentos mais difíceis’.”

E

ste escrito acima é um relato de Ping Fu em seu livro: A Teoria do Bambu, publicado pela Portfolio-Penguim. Ping Fu viveu no período da Revolução Cultural Chinesa de Mao que procurou eliminar as pessoas que tinham instrução. Aos 8 anos de idade, é separada de sua família. Conta ter sido espancada, estuprada, deportada para outro continente, sem dinheiro, sem amigos, sem família. Vai parar nos Estados Unidos. E, assim mesmo, Ping Fu torna-se CEO de uma grande empresa de tecnologia e, em 2005, é eleita a empresária do ano. Existe uma pergunta que fica constantemente nos incomodando: O que faz com que certas pessoas, apesar de todos os percalços que a vida lhes reserva, acabam superando suas dificuldades e se dando bem na vida, isto é, sendo felizes e realizadas como seres humanos? No céu que parece sempre azul da vida de muitas pessoas surgem tempestades repentinas. E, muitas vezes, para sobreviver algumas delas conseguem se esconder numa caverna. A sensação é de que nunca conseguirão sair desse abismo escuro. Porém, conseguem escapar sempre se alimentando de uma corajosa esperança. As épocas de maré alta sempre trazem bons fluidos. Mas nem sempre o farol aponta para as boas correntes marítimas. Hoje, somos seres humanos acuados por uma pandemia. O mar está bem agitado, tempos de ressaca. Ruim para navegar, para pescar, para surfar... São tempos totalmente novos. Inusitados. Reveladores de outras verdades. Como navegar nesse mar? E navegar é preciso para fugir do risco da tragédia maior.

20

Somos uma humanidade vivendo um momento de tempestade no céu ou de ressaca no mar. As estrelas desapareceram, escondidas atrás das densas e escuras nuvens. As dunas e a areia sumiram, submersas pelas ondas agitadas. Mas tanto as estrelas quanto a areia estão lá. Essa pandemia nos assusta. A COVID-19 nos forçou ao distanciamento físico e estamos com medo. Inseguros de tudo. O termo “resiliência” tem sua origem no latim: silie=saltar mais o prefixo re (novamente), assim, seu significado mais original: “saltar de novo” ou “saltar de volta”. E, no português, o termo acaba ganhando uma definição bem objetiva: “voltar ao estado normal”. Identificamos a resiliência de algo ou alguém com a sua capacidade de voltar ao estado original após passar por algo fora do comum, uma situação crítica ou um trauma. A Física foi o campo das ciências que deu origem ao termo. Ele era, então, compreendido como a capacidade que alguns materiais têm de, em sofrendo algum tipo de pressão, voltarem ao seu estado normal sem se deixar deformar. Depois, nas duas últimas décadas, o termo “resiliência” passou a ser usado também pela psicologia e outras áreas do conhecimento, como o meio ambiente, a administração, etc. A resiliência tem servido para identificar pessoas ou grupos de pessoas que, quando submetidas a fortes pressões, conseguem superar as dificuldades e desafios sem se deixarem “deformar”, e se fortalecem a partir de tais adversidades. Esse conceito tem ligação direta com a capacidade de flexibilidade das pessoas, conceito oriundo da Física. Assim sendo, a resiliência


CAPA Pe.Joacir Della Giustina

define um aspecto psicológico, identificando-o com essa capacidade que certos indivíduos possuem para lidar com conflitos ou problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. Tais indivíduos são capazes de enfrentar esses momentos de crises, de estresses sem entrar em surto psicológico. A resiliência também pode ser expressão de algo mais simples, mas que é, ao mesmo tempo, primordial para a tomada de decisões de quem quer superar determinada situação que lhe é desafiadora ou adversa. Ou seja, por trás do problema que se apresenta, existe a vontade deliberada de superação através de mudanças. Aparece ainda a certeza de que essa pode ser uma grande oportunidade. Para além do campo da Física, a resiliência é parceira da espiritualidade. A resiliência sem a espiritualidade parece correr risco de fracasso, de decepção ou de desistência. A espiritualidade atua na dimensão da transposição; do ir além, do buscar mais e acreditar no “além do horizonte”. Está carregada da esperança. A transcendência é da espiritualidade. Como dimensão de fé, faz acreditar que a superação é condição de nossas conquistas. A fé sempre faz perceber que existe uma saída; que não estamos sós no abandono daquilo que parece serem nossos condicionamentos. Então, esse momento histórico, ímpar, em que a humanidade toda está mergulhada, pode inspirar atitudes resilientes: a) Por que não entender e vivenciar esse momento com a intensidade de quem acredita numa nova oportunidade para toda a humanidade? Que essas adversidades que enfrentamos nos oferecem uma nova chance de vivermos e convivermos como humanos que somos? b) Que tal, tornarmo-nos pessoas mais flexíveis? Os flexíveis dificilmente se deixam levar pelos ataques de ira. Reações desproporcionais demostram uma falta de resiliência. O controle emocional facilita tomar decisões no foco. Quem tem autocontrole consegue expressar adequadamente suas emoções o

que permite enfrentar melhor situações difíceis. c) E na hora de tomar decisões? Os resilientes são pessoas autodeterminadas. Não dependem dos outros ou de outras opiniões para realizar suas tarefas com eficácia... Sabem o que lhes compete e sabem também quando precisa parar, ou até onde ir. d) Precisa reflexão. É analisar e refletir quando parece que tudo está desabando ao seu redor. Tal comportamento é um dos pilares que apoia uma pessoa de atitude resiliente. Geralmente, pessoas assim conseguem encontrar as melhores soluções para os problemas. e) E como ficam os outros? Trata-se da habilidade do bom relacionamento interpessoal. Pessoas com tal característica conseguem criar vínculos com as outras, vivem na empatia. Momentos de crise refletem ou geram, mais facilmente, crises de relacionamento. A evidência está em sentir-se bem ao fazer o bem. De sentir-se bem ao sentir-se socorrido. f) E os espaços da fé? Aqueles que têm princípios e valores cristãos bem definidos e os seguem são pessoas que acabam sendo mais resilientes, superam mais facilmente problemas de saúde, de relações, de estresse ou depressão. Então, esse tempo não nos oportuniza espaços para cuidarmos mais das coisas do alto? A pandemia está a nos dizer que quem conquista os outros é forte; mas aquele que conquista a si mesmo é poderoso. Essa é uma hora de reafirmarmos o sentimento amoroso em relação aos outros e fugirmos do ressentimento ou do medo. O resiliente sabe que isso vai passar. Está convencido de que a superação dessa crise oportuniza novas possibilidades. Ela oferece novas chances aos humanos. O coração teima em não se entregar. A alma está convencida da força da ressurreição. E a gente vai...

Pe. Joacir Della Giustina Presidente do Instituto Leonardo Murialdo e diretor do Colégio Murialdo de Porto Alegre (RS).

21


COLÉGIO MURIALDO-POA: 60 anos de protagonismo e educação

N

este ano de 2020, o Colégio Murialdo de Porto Alegre comemora 60 anos de sua existência. E para contar a sua história é preciso voltar um pouco no tempo. Precisamos conhecer a história dos Josefinos de Murialdo no Brasil. Nossa Congregação (Josefinos de Murialdo) foi fundada em 19 de março de 1873, por São Leonardo Murialdo com o auxílio do Pe. Reffo e do Pe. Constatantino, ambos trabalhavam com Murialdo no Colégio dos Artigianelli de Turim (Itália) – Casa mãe da Congregação. Pe. Reffo foi o terceiro superior geral (1912 –1925) e foi ele quem autorizou a vinda dos Josefinos ao Brasil.

Os primeiros Josefinos chegaram em 1915, no povoado de Quinta, em Rio Grande. Os percussores desta caminhada foram Pe. Oreste Trombem e Pe. Giusseppe Longo. Algumas semanas depois, chegaram mais dois bravos missioneiros, Pe. Umberto Pagliani e Ir. Hermenegildo Guerrini. Neste mesmo ano, também, assumiram uma paróquia em Jaguarão (RS). E, em 1934, os Josefinos deixam Jaguarão e se mudaram para a Diocese de Pelotas. Havia um desejo acalentado pela Província dos Josefinos de Murialdo de fundar uma obra Josefina em Porto Alegre, capital do estado. Em 1953, D. Vicente Scherer escreve uma carta ao Pe João Schiavo, Superior Provincial: “Chega-me o pedido precisamente, talvez por disposição da Providência, num momento em que estou tratando da fundação de uma paróquia, com duas obras anexas, numa zona muito desenvolvida e de grande importância para a cidade”. Pe João Schiavo responde manifestando “a mais santa alegria” pela oferta recebida. O terreno onde hoje está edificada a igreja – Santuário de São José de Murialdo, a casa paroquial, o salão paroquial, o colégio e todas as obras da Instituição - pertenceu à Fazenda do Morro São José. E, nesta fazenda, existia o Oratório de São José (1875), nas propriedades do senhor Francisco Chaves, primeiro devoto. A capela São José foi concebida nos terrenos pertencentes ao Sr. José Pedro Alves e Dona Firmina de Souza Alves. A Vila São José, criada pelo então prefeito, Ildo Meneghetti, foi uma das primeiras vilas populares construídas pela prefeitura, aproximadamente em 1951.

22

A antiga capela (1954) estava ficando pequena demais para abrigar seus fieis. Então, foi designado o Pe. Cornélio Todesco para ser o primeiro pároco e assumir a direção e a construção da obra da nova igreja de São José. Esse criou a Associação Protetora da Infância (API), com a finalidade de garantir personalidade jurídica e assim manter contratos e convênios com entidades públicas. Trabalhou com muito zelo e habilidade para que a obra fosse concluída. Neste mesmo período, a comunidade Josefina já demonstrava grande preocupação em adquirir um terreno para construir o futuro Colégio Murialdo. Esta aquisição só foi concretizada, mais tarde, pelo Pe. Nebrídio Bocatto. Em 1960, cerca de 3.500 pessoas subiram vagarosamente o Morro em Procissão para levar uma grande cruz de eucalipto, de 14 metros de altura, para ser plantada no alto. Ao poucos, o então denominado Morro do Guampa adquiriu um novo nome e identidade: Morro da Cruz. Depois daquele ano, a procissão da Sexta-feira Santa nunca mais cessou. NASCE O COLÉGIO MURIALDO: Em 25 de junho de 1960, nasceu o Colégio Murialdo Porto Alegre, com a instalação do primeiro setor da Campanha Nacional de Ensino Gratuito na capital gaúcha. Conhecido na época como Ginásio São José, era mantido com a ajuda da Associação Protetora da Infância (API) e, gradativamente, foi-se implantando atividades sociais e cursos profissionalizantes. No ano de 1961, começamos uma longa caminhada com muitas dificuldades. Em caráter precário, foram abertas as três primeiras turmas, na rua 1º de Março, onde atualmente se encontra o Centro de Formação Profissional, com 190 alunos na primeira série ginasial, sob a direção da professora Athualpa da Silva Paz. Em 1962, foi construído um novo pavilhão entre as ruas Vidal de Negreiros e Martins de Lima. Em 23 de novembro de 1965, por meio da inspetoria Seccional de Porto Alegre, a Associação Protetora da Infância (API) foi reconhecida como nova Mantenedora. Em 1964, Pe Ezio Julli assumiu a direção do Ginásio São José. Mais tarde, o Ginásio São José passou a se


MARCAS DO QUE SE FOI Karine Gonçalves Cabreira Birnfeld

chamar Colégio São José de Murialdo. E, em 1970, foi criado o segundo ciclo com o curso de Contabilidade. As reformas de ensino foram sendo aplicadas gradualmente para o 1º grau. Em 1973, iniciaram-se as reformas do 2º grau, com as terminalidades plenas de Técnico em Contabilidade, Secretariado e Administração. No decorrer dos anos, ocorreram grandes dificuldades e mudanças na Instituição. No ano de 1992, foi desativado o 2º grau, pois não havia número suficiente de alunos. Este cenário permaneceu até o ano de 1995. Em 1996, o colégio reergueu-se novamente e iniciou suas atividades com o 2º grau, atual Ensino Médio. Com o passar dos anos, o Colégio Murialdo Porto Alegre foi melhorando suas dependências físicas, sobretudo investiu na qualidade da sua equipe de profissionais. Nas últimas duas décadas, o colégio passou a atender sem interrupções, nos turnos manhã e tarde, em média 700 alunos, do 1º ano do Ensino fundamental a 3ª série do Ensino Médio. Na última década, passamos por uma grande e arrojada reforma. Durante este período, a biblioteca precisou ser provisoriamente instalada em uma sala de aula desativada. Algumas atividades festivas foram adaptadas e os espaços de convivência foram isolados por determinado período. Todos os ambientes físicos do Colégio passaram por mudanças: salas de aula, setores administrativos e pedagógicos. O corpo docente, altamente qualificado, está em permanente processo de formação.

Em 2018, o antigo campo de futebol cedeu lugar ao atual estacionamento sustentável dos IPÊS. A tão sonhada biblioteca foi inaugurada em agosto deste mesmo ano, e conta com um exímio acervo. Nossas salas de aulas estão equipadas com ar condicionado, projetores e equipamento multimídia, além de wi-fi em todas as dependências. Neste mesmo ano, fomos abençoados com a instalação da Capela que foi cuidadosamente elaborada pelo marceneiro Sadi, ex-aluno do Colégio Murialdo Porto Alegre, sob o olhar atento do atual diretor, Pe Joacir Della Giustina. No dia 23 de março de 2019, foi realizado o primeiro batizado nesta aconchegante Capela. Todas as mudanças que passamos ao longo dos últimos 60 anos foram necessárias para que pudéssemos manter vivo e vivenciar o carisma de nosso fundador, São Leonardo Murialdo. “É preciso Educar o Coração”. E, neste ano em que comemoramos a fundação do Colégio Murialdo Porto Alegre, todos nós fomos surpreendidos por uma pandemia mundial (Covid 19). Ela nos obrigou a viver um distanciamento físico, todavia fez com que refletíssemos sobre o significado de nossa existência, do quanto somos importantes para quem amamos e como essas pessoas são importantes para nós. Descobrimos que os ensinamentos de Murialdo, deixados há mais 120 anos, ainda são tão atuais como suas propostas educativas inegáveis. “A nossa alegria nasce de poder dar continuidade à herança recebida...” (100 anos dos Josefinos no Brasil - 1915-2015.)

Karine Gonçalves Cabreira Birnfeld

Foto: Arquivo Murialdo

Pedagoga, Orientadora Educacional e Coordenadora Pedagógica do Colégio Murialdo de POA

23


Paróquia Santa Rita de Cássia 1995/2020 - Jubileu de 25 Anos

P

RIMÓDIOS Na correria de três anos e dez meses que durou a construção de uma estrutura urbana básica para a inauguração da nova capital do Brasil no Planalto Central, em 21 de abril de 1960, milhares de trabalhadores acorreram para os canteiros de obras que se erguiam no coração do Planalto Central. Os “candangos” que construíram Brasília vinham, em sua maioria, de regiões rurais de vários estados do Brasil. Os prédios podiam ser modernos, mas as mãos que construíam aquela modernidade estavam enraizadas na cultura e religiosidade tradicionais do interior brasileiro. Um dos espaços onde se reuniram várias construtoras foi a Vila Planalto, próxima da atual Praça dos Três Poderes, em Brasília. Essa vasta aglomeração de moradias para operários, escritórios, áreas de lazer, mercados, entre outros serviços, contava também com um templo católico dedicado a Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. É exatamente nas proximidades da Vila Planalto que surgiu um conjunto de barracos que estará para sempre ligado à história da paróquia Santa Rita de Cássia: a “invasão” do Iate Clube. “Invasão” era a designação dos assentamentos irregulares naquele período. Entre julho e setembro de 1967, algumas famílias da invasão do Iate Clube, carregadas de uma riquíssima tradição católica, pediram ao Pe. Geraldo Ávila, responsável pela igreja Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, para celebrar missas nas residências das famílias. Numa dessas missas, o pároco sugeriu a construção de um espaço para as celebrações e para a catequese. Na construção da capela, sobressaiu-se um grupo de famílias provenientes de Santa Rita que, naquela época, era um pequeno distrito do município de Caratinga, Minas Gerais. A partir do pequeno templo, as famílias de Santa Rita de Caratinga tomaram à frente das atividades religiosas, fazendo com que, progressivamente, fosse estabelecida uma dinâmica na qual a invasão do Iate Clube passou a funcionar com as prerrogativas

24

de uma capela de paróquia. Alguns meses depois, Pe. Geraldo Ávila manifestou a vontade de que a comunidade escolhesse um padroeiro. Foi nessa ocasião que, mais uma vez, a influência comunitária das famílias provenientes de Santa Rita de Caratinga manifestou-se. No momento da escolha, como a maioria provinha daquela localidade do interior de Minas Gerais, a opção recaiu sobre Santa Rita de Cássia. Nascia o primeiro templo dedicado a Santa Rita de Cássia no Distrito Federal, num assentamento irregular de trabalhadores. A partir de meados de 1968, no contexto das remoções de barracos em áreas próximas a Brasília promovidas pelo Governo do Distrito Federal, as famílias da comunidade do Iate Clube foram informadas de que não poderiam permanecer naquele local. Em janeiro de 1969, foram enviados caminhões para a invasão do Iate Clube, nos quais as famílias transportariam seus poucos bens. Não havia opção! A mudança era compulsória. Os barracos seriam demolidos. Naquele momento, subiram no caminhão com as famílias, as madeiras dos barracos, os poucos pertences e o sagrado. Não se deixa para trás o que é vital. Toda a organização religiosa daquele assentamento irregular teria se perdido se não fossem as famílias terem sido transferidas em conjunto para um novo loteamento, construído ao lado da cidade histórica de Planaltina, cujas origens reFoto: Arquivo Paróquia Santa Rita de Cássia


MARCAS DO QUE SE FOI montam ao início do século XIX. Como a localização ficava próxima ao Córrego do Atoleiro, o qual, na época, ostentava em suas margens bosques de buritis, o nome, “Vila Buritis”, logo se popularizou. Da parte da tradicional paróquia São Sebastião de Planaltina, criada no final do século XIX, quem recebia as famílias era o Pe. Jurandir Ribeiro, jovem sacerdote diocesano de apenas 27 anos. De uma hora para outra viu sua paróquia acrescida de milhares de novos fiéis. Nos primeiros finais de semana, as famílias participavam da missa na velha igreja matriz São Sebastião ou na Vila Vicentina. A atual matriz da paróquia São Sebastião só foi inaugurada em 1980. Nas primeiras semanas, Pe. Jurandir Ribeiro conseguiu um caminhão. Apinhado sobre a carroceria, cujas laterais eram abertas, celebrava missas para os novos paroquianos da Vila Buritis. Estabelecida uma estrutura mínima de moradia, em meados de fevereiro de 1969, aproximadamente dois meses após a chegada na Vila Buritis, as famílias católicas provenientes da invasão do Iate Clube decidiram conversar com o Pe. Jurandir Ribeiro: queriam construir imediatamente uma capela dedicada a Santa Rita de Cássia no novo loteamento, com as madeiras que tinham guardado da capela construída na invasão do Iate Clube. Terminada a capela, as famílias comunicaram ao Pe. Geraldo Ávila que a pequena imagem de Santa Rita de Cássia, que ficara provisoriamente sob seus cuidados, poderia ser entronizada no templo de madeira, na nova comunidade. Poucas semanais depois, no dia 7 de março de 1969, correu a notícia da morte do pároco de São Sebastião, Pe. Jurandir Ribeiro.

Foto: Arquivo Paróquia Santa Rita de Cássia

Elias Manoel da Silva

A CONSOLIDAÇÃO DA CAPELA SANTA RITA DE CÁSSIA No contexto da morte do Pe. Jurandir Ribeiro, dom José Newton, primeiro arcebispo de Brasília, convidou Pe. Aleixo Susin para atender a paróquia São Sebastião de Planaltina. Chegou no dia 6 de março de 1969, após deixar a humilde residência que havia construído com suas próprias mãos, por meio do projeto “Mutirão”, no Guará I. Na ocasião, encontrou uma singela capelinha de madeira construída na Vila Buritis. Contudo, desde as primeiras missas ali celebradas, Pe. Aleixo percebeu que, apesar de importante por representar a posse do terreno para as atividades religiosas da igreja católica no loteamento nascente, a igrejinha não tinha espaço suficiente para as celebrações litúrgicas e atividades religiosas. A preocupação com o terreno também não era desprezível. Prudentemente, Pe. Aleixo pediu uma garantia de que o terreno fora, de fato, reservado para a igreja católica. A autorização foi formalizada por meio de um bilhete. Segundo o depoimento do Pe. Augustinho Adriano Vidor para o Programa de História Oral da Paróquia Santa Rita, no bilhete consta: “‘Pe. Aleixo, autorizo o Sr. a usar o espaço entre a quadra 3 e 4 para templo religioso’. Tinha ainda um carimbo e a assinatura do administrador da época. Esse documento tem um valor histórico muito importante para a paróquia Santa Rita”. Com a garantia de que o trabalho não seria em vão, Pe. Aleixo tomou a iniciativa de enviar um projeto solicitando ajuda financeira à uma instituição episcopal da Igreja Católica da Alemanha dedicada à cooperação e ao desenvolvimento. Por meio de mu-

25


Foto: Arquivo Paróquia Santa Rita de Cássia

tirão dos fiéis, a capela foi construída. Nas paredes do interior, Pe. Aleixo legou aos fiéis da capela Santa Rita de Cássia importante representação artística carregada de um profundo valor catequético-pedagógico. Em nenhum outro lugar, nos primeiros anos do Distrito Federal, podia ser encontrado um conjunto tão expressivo de pinturas muralistas. Na história da iconografia brasiliense, Pe. Aleixo Susin é o primeiro pintor muralista e as paredes da segunda capela Santa Rita de Cássia, a sua tela. Construído um templo que comportasse a comunidade, a dinâmica de organização interna da capela começou a se estruturar. Formada por famílias católicas onde as associações leigas tinham forte presença na vida litúrgica e pastoral, nos primeiros anos, a organização e consolidação da vida religiosa na capela Santa Rita realizou-se por meio de associações: Congregação Mariana, Apostolado da Oração, Vicentinos, Filhas de Maria... nas quais jovens e adultos participavam. No final da década de 1970, na capela Santa Rita de Cássia, ocorre uma verdadeira explosão no protagonismo juvenil, por meio da pastoral da juventude. A partir de 1984, aproveitando o protagonismo juvenil, Pe. Severino Caldonazzo, que naquele ano havia assumido a paróquia São Sebastião em substituição ao Pe. Aleixo Susin, deu um novo vigor ao trabalho de evangelização da imensa área rural, por meio das “Missões Rurais”. A atividade foi levada adiante pelo grupo JUDAV, Jovens Unidos Descobrindo a Vocação, cujos membros pertenciam à capela Santa Rita de Cássia. Desse período, ressalte-se o trabalho abrangente do Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria no Brasil. Além de manterem a

26

Casa Missionária e Educacional Maria Assunta, envolviam-se diretamente nas atividades da capela Santa Rita e, mais tarde, na coordenação da catequese da paróquia Santa Rita de Cássia. A dinâmica religiosa da capela Santa Rita de Cássia era tão intensa que, na tradição oral, encontramos tantas vezes a opinião de que a capela parecia já ter nascido como paróquia. A CRIAÇÃO DA PARÓQUIA SANTA RITA DE CÁSSIA No mês de fevereiro de 1993, Pe. Augustinho Adriano Vidor chegava à paróquia São Sebastião de Planaltina para colaborar com o pároco, Pe. Severino Caldonazzo. Em 1994, por ocasião da posse do Pe. Augustinho como pároco, o provincial Pe. Geraldo Boniatti comentou com o então arcebispo de Brasília, dom José Freire Falcão que, devido à enorme extensão, equivalente a quase um terço do território do Distrito Federal, a paróquia São Sebastião poderia ser dividida a fim de um melhor atendimento pastoral. Acatada a sugestão, o arcebispo solicitou ao Pe. Augustinho iniciar o processo de desmembramento. Na noite do dia 19 de fevereiro de 1995, durante a missa de domingo das 20h, a pequena igrejinha construída no ano de 1969 deixava de ser capela e tornava-se a igreja matriz da paróquia Santa Rita de Cássia e era nomeado como primeiro pároco o Pe. Augustinho Adriano Vidor. Tinha havido uma ruptura territorial, contudo, não houve uma ruptura afetiva. Eram os padres josefinos de Murialdo que continuariam a coordenar a comunidade católica, como o haviam feito nos últimos vinte e seis anos. Do ponto de vista da territorialidade, a nova paróquia ficou com aproximadamente dois terços da área da paróquia São Sebastião. Uma das primeiras prioridades foi a catequese. Levando em conta a área urbana e a rural, eram aproximadamente duzentos e cinquenta catequistas, cujas atividades exigiam uma enorme logística paroquial no acompanhamento e formação. Como resposta, foi criada a Escola Catequética. Além disso, uma das demandas dos fiéis era a respeito da urgência em se construir uma igreja matriz adequada ao número de fiéis e com a dignidade arquitetônica que lhe convinha. Terminados os


MARCAS DO QUE SE FOI Elias Manoel da Silva

projetos, no ano 2000, optou-se por iniciar a fase de construções com o centro comunitário para atender à catequese, a fim de que a paróquia não dependesse das escolas públicas que cediam, por meio de contrato de contrapartida, suas salas de aula. Paralelamente aos projetos de construção, a paróquia, com seu processo vivo e dinâmico, ia desenvolvendo-se em diferentes direções: catequese, pastoral da juventude, movimentos leigos, grupo de casais, pastoral familiar e tantas outras pastorais. Tudo acontecendo nas condições de uma casa em que se está morando e, ao mesmo tempo, se construindo. Desde o início da paróquia, percebeu-se também a urgência em estudar a história de Santa Rita de Cássia e criar todos os elementos simbólicos e celebrativos que envolvem a festa da santa padroeira. Papel fundamental exerceu nesse processo as pesquisas e viagens implementadas pelo primeiro pároco, Pe. Augustinho Adriano Vidor, juntamente com casais da paróquia que o assessoraram. Em março de 2007, foi nomeado o novo pároco, Pe. Dirceu Rigo. Naquele mesmo ano, os fiéis despediram-se da capela construída pelo Pe. Aleixo e a comunidade. Num profundo e criativo rito de passagem, toda a comunidade, de mãos dadas, abraçou a antiga capela construída em 1969. A partir desse evento, as missas começaram a ser celebradas no salão do moderno centro comunitário. Em junho de 2011, a segunda capela de Santa Rita de Cássia foi finalmente derrubada e, no mês seguinte, iniciou-se a construção da igreja matriz. A fim de preservar a riqueza artística e religiosa das pinturas do Pe. Aleixo Susin, profissionais do Arquivo Público do Distrito Federal, sob a supervisão do Pe. Dirceu Rigo e coordenados pelo historiador Elias Manoel da Silva, fotografaram e restauraram digitalmente as imagens muralistas. Um grupo de fiéis e de antigos moradores da paróquia Santa Rita prontificou-se para realizar a impressão e o enquadramento das imagens que estão em exposição permanente no corredor que conecta a igreja matriz ao centro comunitário. No dia 28 de abril de 2012 foi solenemente celebrada a inauguração da igreja matriz. O pároco Pe. Dirceu Rigo ressaltou que aquele momento, acalentado durante tantos anos, foi concretizado com o esforço e a cooperação de todos os fiéis. Com espaço para aproximadamente 1.350 pessoas sen-

tadas, é a terceira maior igreja do Distrito Federal. Um ano após a inauguração, no dia 17 de maio de 2013, numa sexta-feira, às vésperas da Festa de Pentecostes, a igreja matriz sofreu um incêndio. Em resposta a essa situação, Pe. Dirceu Rigo convocou a comunidade para unir-se em prol da restauração. Num gesto de profundo sentido eclesial, dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, conclamou todas as comunidades paroquiais para estenderem as mãos à paróquia irmã que necessitava de ajuda. Em fevereiro de 2014, Pe. Márcio Benevides assumiu a coordenação da paróquia Santa Rita e acompanhou zelosamente os trabalhos finais da restauração. Após um ano de trabalho, a igreja matriz foi reinaugurada no dia 14 de março de 2014. Pelos idos de abril de 2016, Pe. Márcio Benevides solicitou a transferência para a Diocese da Barra, estado da Bahia. Para substituí-lo, a Congregação dos Josefinos de Murialdo designou o Pe. Lídio Roman que, há 10 anos, servia como missionário em Guiné-Bissau, na África. Enquanto o novo pároco preparava-se para deixar sua paróquia no continente africano, Pe. Geraldo Canever foi nomeado administrador paroquial. Em julho de 2016, Pe. Lídio Roman toma posse como pároco e junta-se à longa tradição histórica de tantos outros Padres Josefinos de Murialdo que desde 1969 atuaram em Planaltina. Em fevereiro de 2020 a paróquia comemorou solenemente 25 anos: “Estimados fiéis: que, neste jubileu de 25 anos da paróquia Santa Rita de Cássia, todas as capelas sintam-se partes vivas desta comunidade paroquial como uma única família em festa! Que possamos olhar a história já percorrida com um sentimento de compreensão, de aprendizado, de perdão e, acima de tudo, de gratidão a Deus e a todos aqueles que construíram esta comunidade de fé... e olhar para o futuro com esperança e ânimo. A paróquia é cada um de nós, irmanados pela fé que nos une à nossa Igreja diocesana e nos impulsiona a evangelizar. Este é o meu convite: continuemos a vivenciar e a escrever novas histórias de fé, de ajuda mútua, de participação eclesial, a fim de que no futuro, em outros jubileus, sejamos dignos de ser lembrados pelas boas sementes que hoje plantamos. Que eu, Pe. Lídio Roman, como pároco desta comunidade, possa sempre contar com o apoio e o discernimento de todos e, acima de tudo, ser digno Elias Manoel Silvade Cásda missão que Deus me confiou. SantadaRita Público sia... Rogai por nós!” Historiadordo- Arquivo Distrito Federal

27


Relação entre pais e filhos: Um olhar sistêmico

H

á muito que a relação entre pais e filhos está Cada um tem seu lugar. Pais são aqueles que dão a em pauta. Informações científicas apontam vida, os responsáveis; e filhos, aqueles que a recebem, meios para que a convivência familiar seja companheiros de caminhada de seus progenitores. Pai harmônica. Entre esses aportes científicos, e mãe se escolheram para dar a vida aos filhos juntos, estão os estudos Sistêmicos Fenomenológicos apresenpartilhando aprendizados, dividindo incumbências, tados por Bert Hellinger, professor, teólogo, filósofo assumindo compromissos. Quando o casal decide pela e psicoterapeuta alemão, falecido em 2019. A família separação, mesmo que existam conflitos, os vínculos sistêmica é composta por todos os ancestrais, do grupo familiares devem ser mantidos. Sabemos que os filhos no qual nascemos. É anterior a nós. Quantas histórias, amam incondicionalmente seus pais e a decisão sobre sonhos, conquistas, trajetórias fáceis. Muitas mortes, a permanência no casamento é somente dos adultos. dores, lutas, perdas, destinos difíceis. Todos e tudo Existem percalços em todas as famílias e eles tornampertencem! É uma longa e interessante investigação. -se leves e suportáveis quando há ordem no sistema, Contudo, nesse texto, o objetivo é abordar a relação faonde cada um - pai, mãe e filhos – ocupa seu lugar com miliar atual - pai, mãe e filhos, segundo respeito e amor. as três Leis, Ordens ou Princípios do O terceiro princípio é o equilíbrio. Amor ou da Vida. São preceitos implíHá compensação entre dar e receber Há uma citos que atuam nas relações humanas em medidas próximas ao que ganhamudança de – lealdades – dimensões espirituais, demos. Atua em quase todos os relanominadas por Hellinger como fundaolhar, um sentir cionamentos – amizade, casamento, mentais para que a vida possa fluir. e assentir, uma trabalho – entre outros, e mostra-se O primeiro princípio é o pertenciimprescindível para que estes sejam reverência ao mento. Todos fazem parte de um sistebem maior que duradouros e saudáveis. Entretanto, ma familiar. Temos uma ancestralidade Hellinger observa que há duas relações e carregamos a consciência transgera- todos recebemos em desequilíbrio no Universo e entre – a vida cional que nos movimenta indepenpais e filhos, alunos e professores. Os dente da nossa vontade. É uma força filhos jamais poderão dar a vida a seus sistêmica que atua em nós. Hellinger pais para recompensá-los pela vida que denominou-a de “lealdades invisíveis”, porque operam receberam. Há um débito nessa relação, que pode se no sistema familiar, sem que possam ser quantificatornar imensurável quando os pais decidem dar tudo das. São sentimentos e emoções manifestos mediante ao filho, esquecendo que o tudo é pesado demais. Esse a necessidade de reconhecimento, de vínculo, de um filho perde forças, objetivos, autonomia. Gera preoclã, de um grupo para sobreviver. Mesmo crianças e cupação aos pais. Aparecem cobranças, discussões e adolescentes que, por razões diversas, foram privadas conflitos – desordens familiares. Ajudas externas são da convivência familiar, possuem a filiação em suas bem vindas. Auxiliam e trazem lucidez para mediar identidades. Hellinger diz que todos os filhos amam à situação. Porém, sistemicamente, a possibilidade de profundamente seus pais e têm as famílias certas nem restaurar o equilíbrio vai ocorrer quando houver a tomelhores ou piores: todas as famílias são acertadas. mada de consciência pelos pais, de que a maior heranA lealdade, o amor profundo que sentimos, transpõe ça que receberam e deixarão aos filhos é a vida. Viver qualquer juízo ou julgamento. A certeza de que temos da melhor maneira possível e deixar a vida fluir é paé que o vínculo com quem nos deu e nos mantém na gar pequenas parcelas do financiamento involuntário vida é perene. Um direito que deve ser preservado. que tenho com meus pais. Esse é o equilíbrio. Respeitado. Todos pertencem! Aos professores gratidão! Pela dedicação e pela O segundo princípio é a hierarquia. Organizada oportunidade de adquirir conhecimento intelectual pela cronologia. Todos que chegaram ao mundo prie níveis de consciência para pensar no coletivo. Edumeiro, os mais velhos, têm prioridade - os pais são os cadores de instituições públicas e privadas de ensino, grandes e os filhos, os pequenos, em todas as gerações. dos diferentes níveis de formação, fazem a diferença

28


PONTO DE VISTA Maria Bernadete M. Kroeff

na sociedade. Retribuímos a eles, aos mestres, o muito que recebemos através do exercício da nossa profissão, quando exigimos nossos direitos e cumprimos deveres de cidadãos. Esse é o maior pagamento aos nossos professores. O legado que Bert Hellinger deixou, através da metodologia sistêmica, foi o despertar para preceitos implícitos que atuam nas relações humanas enquanto indivíduo e coletividade – lealdades invisíveis – dimensões espirituais de amor que nada julga e incluiu tudo e todos da ancestralidade familiar. Os princípios fundamentais – pertencimento, hierarquia e equilíbrio – são movimentos que estão sempre a assegurar a permanência da vida. Eles atuam no sistema e restauram a ordem para que o bem estar e a harmonia possam ser desfrutados nas relações familiares. Os filhos só podem crescer se tiverem créditos com os seus pais – confiança, segurança, garantias físicas e emocionais. Assim como, só serão criativos, produtivos, expressi-

vos no momento em que se reconhecem como extensões do pai e da mãe juntos - como família. Há uma mudança de olhar, um sentir e assentir, uma reverência ao bem maior que todos recebemos – a vida!

FAMÍLIA Possui duas classificações dentro da metodologia sistêmica: 1) de origem: heptavós, tetravós, bisavós, avós, pais, tios, filhos, primos, irmãos ... 2) atual: pai, mãe e filhos.

Maria Bernadete M. Kroeff Professora, Doutora em Educação PUCRS, Pedagoga Sistêmica, aluna do Pós-Graduação em Pedagogia Sistêmica na Innovare SP Hellinger Shuller

29


SARS-COV-2: que Pandora me perdoe. Uma reflexão sobre o novo surto pandêmico do coronavírus

U

m dos mais famosos mitos gregos de todos os tempos é o interessante “Mito da Caixa de Pandora”. No mito mediterrânico, Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, teria aberto uma “caixa”, que, em verdade, seria um jarro, libertando todos os males do mundo que nela estariam contidos. Os males grassaram o mundo, esvaziando quase que completamente o recipiente. Como sabemos, apenas uma coisa se manteve no interior do artefato cerâmico: a esperança.

que teremos que superar. Nos seus quase 7 milhões de anos de existência, a humanidade (e aqui me refiro a espécies de hominídeos anteriores ao Homo sapiens) teve de enfrentar inúmeros surtos, tendo alguns deles ainda inscritos em nosso código genético: de tifo à tuberculose, de hepatite à varíola, de peste bubônica à gripe, de sarampo ao ebola. Tivemos de enfrentar um a um para garantirmos nossa existência.

Indo em sentido parecido ao que aqui escrevo, o Papa Francisco diz que Com essa breve introdução, devo “a esperança é a mais humilde das três É fundamental dizer que escrever o presente texto, invirtudes teologais, porque fica esconreconhecermos dida”, e, indo além, que ela “não é um serido no maior contexto pandêmico o papel da do país em mais de um século, talvez, passivo otimismo, mas é combativa, seja um dos maiores desafios. Pensar com a tenacidade de quem caminha pesquisa e no que aprenderíamos com tal fato, ao rumo a uma meta segura”. É genial e da ciência no mesmo tempo em que penso e me solibastante humana a atuação do Ponenfrentamento darizo com as centenas de milhares de tífice junto ao momento em que vidas adversidades vemos: no último dia 27 de março, ele mortes confirmadas pelo novo coronavírus (SARS-COV-2) no país, é, obviaconcedeu a benção Urbi et Orbi, junto atuais mente, desafiador, ainda que recorra a um dos crucifixos mais significativos a algumas ferramentas para que não para os católicos - o crucifixo da Igreja seja, simultaneamente, um ato desanimador. Recorro, de San Marcello al Corso -, contemporâneo de granaqui, a um dos maiores recursos que nos impossibilides surtos epidêmicos, em especial, da Peste Bubônica ta de desanimarmos neste contexto de crise generali(doença infectocontagiosa que, em certos momentos zada: olharmos para o passado. Digo isso, pois, como históricos, chegou a dizimar quase a metade de toda bem ilustra o médico infectologista brasileiro Stefan a população europeia). O Papa Francisco é generoso, Cunha Ujvari, em seu livro A História da Humanina medida em que demonstra a sua dade contada pelos Vírus (2012), uma das coisas que compaixão e solidariedade em um a humanidade mais fez foi conviver (e enfrentar) com mundo que parece se esvair. vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos. Levando tais aspectos Como bem sabemos, o SARS-COV-2 não é o priem consideração, é intemeiro e, infelizmente, nem o último surto epidêmico ressante pensarmos

30


PONTO DE VISTA Bernardete Chiesa

em como a cristandade olhara para um grande surto epidêmico como o da Peste Bubônica. Teologicamente falando, as perdas humanas da época geraram duas grandes visões: a primeira colocava a peste como um castigo divino, enquanto a segunda estabelecia a proximidade do fim dos tempos junto a volta de Jesus ao mundo terreno, para que formasse um reino que duraria mil anos. Olhares curiosos, eu diria. No presente contexto, jamais creio que a Covid-19 tenha sido um castigo divino, nem que tenhamos nos aproximado do fim dos tempos junto a uma provável volta do Deus Filho à Terra (depois de quase dois milênios). Creio eu que não seja a, não tão simples, volta DE Jesus, mas sim, uma volta nossa PARA Jesus. Jesus, em um de seus ensinamentos mais belos, do meu ponto de vista, reflete acerca das bem-aventuranças, em que é dito literalmente: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados” (Lc 6, 20-21). Relendo e refletindo sobre tal ensinamento de Jesus (e é aqui que me refiro à nossa volta PARA Ele), coloco em evidência um comentário realizado pelo historiador Sidney Chalhoub, junto ao historiador João José Reis, em uma conversa promovida pela Universidade de Harvard na segunda semana do mês de maio, acerca das pandemias durante o Império do Brasil e em como as percepções da época dialogariam com o presente. Por mais óbvia que possa soar a afirmação de ambos, é indubitável que o novo coronavírus foi trazido ao Brasil pelos mais ricos, embora, atualmente, por motivos óbvios, tenha grassado mais fortemente a população pobre. Nesse sentido, nós, como cristãos, devemos nos posicionar, não apenas junto à caridade, que há muito tempo nos acompanha (ou deveria nos acompanhar), mas junto à justiça social, na medida em que “não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça

na desigualdade”, nas palavras do nosso querido Papa Francisco, durante a Cúpula Pan-Americana de Juízes, em junho do ano passado. Por fim, parece-me que, além das mudanças internas pessoais, devemos reconhecer as mudanças externas coletivas. É fundamental reconhecermos o papel da pesquisa e da ciência no enfrentamento das adversidades atuais, por mais que, como leigos neste campo, não tenhamos familiaridade com conceitos científicos simples, como RNA ou DNA. Ademais, afora o campo científico, devemos espalhar e libertar os bens, e não os males, pelo mundo, diferentemente do que Pandora fez (e aqui peço desculpas à personagem, atacada por séculos). Aqui busco inspiração no sociólogo polonês Zigmund Bauman, quando diz: “Precisamos nos abraçar por um longo período de tempo em que enfrentaremos mais perguntas que respostas, mais problemas que soluções. O veredito final é de que não existe alternativa e seremos obrigados a enfrentar essa situação unidos, de mãos dadas, ou então ganharemos sepulturas comuns”. Assim, suplico que a esperança permaneça, onde quer que a tenhamos guardado (no interior da nossa própria humanidade). Além disso, é importante que espalhemos a empatia, a solidariedade, o amor, a compaixão para com profissionais da saúde, da educação e da ciência, bem como para com a população periférica, tão afetada pelo vírus, como pobres e indígenas, e todos que, neste mundo, precisem, demonstrando, finalmente, não uma volta de Jesus, mas uma volta PARA Jesus, colocando em prática seus ensinamentos.

Bernardete Chiesa Jornalista, mestre em Gestão Educacional, coordenadora de Marketing da Rede Murialdo

31


PONTO DE VISTA

Revista em quadrinhos

A

pós um belo sonho e um longo período de pesquisa, de trabalho e de dedicação, bem como investimento financeiro, saiu a edição da revista em quadrinhos alusiva ao Beato Pe. João Schiavo. A revista, com 64 páginas, foi criada pelo Estúdio Nes, da cidade de Farroupilha (RS), e apresenta a história de João Schiavo a partir da família de Luís e Rosa Schiavo, em Sant’Urbano de Montecchio Maggiore (VI): nascimento, idade escolar, escolha vocacional, ingresso no seminário, ordenação sacerdotal, viagem ao Brasil como missionário, fundação de várias Obras em prol da educação e de formação de crianças, adolescentes e jovens, especialmente os mais vulneráveis, incentivo à vida religiosa feminina-Murialdina, dedicação à formação dos religiosos Josefinos, escuta e bênção às famílias, visita aos doentes, sua morte e peregrinação do povo buscando graças e cura até a sua beatificação, em 28 de outubro de 2017. A todos que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que este sonho se tornasse realidade, nosso MUITO OBRIGADO! Interessados na revista em quadrinhos devem entrar em contato pelo e-mail: imprensa.cxs@murialdo.com.br

Pe. João Schiavo: Sacerdote, da Congregação dos Josefinos de Murialdo, nasceu na Itália, em Sant’Urbano de Montecchio Maggiore (VI), no dia 8 de julho de 1903 e desde criança desejava ser padre. Entrou na Congregação dos Josefinos de Murialdo e, em 1919, fez sua primeira Profissão Religiosa. No dia 10 de julho de 1927, com 24 anos, foi ordenado sacerdote. Quatro anos depois partiu para o Brasil, chegando em Jaguarão (RS), no dia 05 de setembro de 1931. Poucas semanas depois veio para Caxias do Sul (RS) para dedicar-se à animação e à formação dos candidatos para a Congregação dos Josefinos de Murialdo. Desde que chegou em solo brasileiro, Padre João desenvolveu uma intensa atividade vocacional e foi o primeiro mestre de noviços da missão Josefina no Brasil. Foi animador dos seminaristas e noviços, professor, iniciador e diretor da Escola Normal Rural Murialdo. Em Galópolis, foi diretor da Escola e pároco, e, em 1941, fundou o Seminário Josefino de Fazenda Souza, interior de Caxias do Sul. Fundou diversas obras como o Abrigo de Menores São José, em Caxias do Sul; a Associação Protetora da

32

Infância em Porto Alegre (RS); o Abrigo de Menores em Pelotas e Rio Grande (RS); o Colégio Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Araranguá (SC), entre outros. Foi o primeiro Superior dos Josefinos da então Vice-Província, no Brasil, de 1937 a 1946 e Provincial de 1947 a 1956. Após um período de discernimento, em consonância com o fundador das Irmãs Murialdinas de São José, Padre Luigi Casaril, no dia 09 de maio de 1954, Pe. João Schiavo iniciou, em Fazenda Souza, Caxias do Sul, o primeiro grupo das Irmãs Murialdinas, no Brasil. Em fevereiro de 1956, deixou o cargo de Superior Provincial, mas continuou prestando serviço à sua Congregação e dedicando-se às Irmãs Murialdinas. Padre João Schiavo adoeceu gravemente no final de novembro de 1966, vindo a falecer, no dia 27 de janeiro de 1967, com fama de santo. Desde então, sua sepultura, em Fazenda Souza, é local de orações e de peregrinações. Ali, todo o dia 27, às 16 horas, é celebrada missa em sua memória. Por sua intercessão, são atribuídas muitas graças, e a fama de santidade estende-se até mesmo para fora do Brasil, com relatos de graças alcançadas na Argentina (Mendoza) e outras nações onde atuam os religiosos Josefinos e as irmãs Murialdinas.


PONTO DE VISTA

O Pinheiro Da janela do meu quarto, contemplo um pinheiro. É ainda jovem. Um ofertório que não cessa de subir ao céu. Sonha com as estrelas. Fala com a lua e o silêncio. Joga ciranda com as nuvens. Toma seu banho de sol. E carrega nos ombros A canção dos passarinhos. E o pinheiro sobe. Bate a chuva em seus braços. Açoita-lhe o corpo, o vento. O frio o faz tremer. Temporais, granizos o castigam. E o pinheiro sobe. Está escrito em suas asas O sonho das alturas. Em sua alma, o sonho das estrelas. E tu, por que não sobes? (YUNG, Pe. Harry. “Vozes do Silêncio”, 2011)

33


FLASHES

Jovens ingressam no Postulado, em Londrina (PR) Foto: Elvis Bessa

No dia 09 de maio, aconteceu a Celebração Eucarística de admissão ao Postulado dos jovens José Wilson Júnior, natural de Planaltina (DF) e Rennan Eduardo, da cidade do Rio de Janeiro (RJ). A celebração foi presidida pelo Pe. Esvildo Peluchi, na capela da comunidade do Postulado, e contou com a presença da comunidade do Teologado. O formador dos postulantes é o teólogo e frater Elvis Bessa.

POSTULADO: É a fase de preparação ao noviciado em que o jovem passa a conhecer e a experimentar a vida religiosa Josefina. Etapa em que o candidato que deseja ser religioso passa a fazer seu discernimento vocacional orientado pelo formador e acompanhado por uma comunidade religiosa. Consiste, sobretudo, na formação humana, cristã e Josefina.

Foto: Sebastião Souza da Silva

Noviciado 2020: dois brasileiros e um argentino Em solene celebração presidida pelo formador, Pe. Antônio Lauri de Souza, no dia 18 de janeiro, na comunidade do Noviciado, no Bairro Santa Fé (Caxias do Sul – RS), aconteceu o ingresso de três jovens ao Noviciado: Ricardo Silva de Carvalho Júnior, de Horizonte (CE); Gean de Jesus Santiago Barbosa, de Érico Cardoso (BA) e Damian Emmanuel Gusman (Argentina). O noviciado Josefino tem como mestreformador o Pe. Antônio Lauri de Souza. NOVICIADO: Livre de estudos acadêmicos, de acordo com as normas da Igreja, é feito após completar o Ensino Médio e o Postulado. “Com o noviciado, os candidatos iniciam sua vida na Congregação e são introduzidos num mais aprofundado conhecimento e experiência do Evangelho, das exigências da consagração religiosa e do carisma da Congregação, até chegar ao dom total de si mesmos na profissão religiosa”. (C. 61, CIC 646, PI 45). Para isto são indispensáveis a oração, a reflexão, o estudo, a vida comunitária e o acompanhamento permanente do formador.

“Amados e chamados por Deus” Para reflexão e inspiração, seguem o tema e o lema do Mês Vocacional 2020: Tema: Amados e chamados por Deus e Lema: “És precioso a meus olhos… Eu te amo” (cf Is 43,4). A arte do cartaz foi desenvolvida pelo Pe. Reinaldo Leitão, sacerdote rogacionista. Nos próximos anos, em cada Mês Vocacional (Agosto), a Igreja seguirá os passos do Kerigma Vocacional proposto pelo Papa Francisco na Christus Vivit.

Fonte: crbnacional.org.br

34


Foto: Marcelino Pauletti

FLASHES

Celebração virtual marca encerramento do Ano Murialdino No Brasil, obedecendo as orientações e protocolos, em função da pandemia do coronavírus, o encerramento oficial das comemorações dos 120 anos da morte de São Leonardo Murialdo e dos 50 anos de sua Canonização aconteceu no dia 18 de maio, por meio de uma celebração solene presidida pelo provincial Pe. Marcelino Modelski e concelebrada por diversos sacerdotes. A missa rezada na Igreja Matriz de São Leonardo Murialdo (Caxias do Sul – RS) foi transmitida pelo Facebook das Obras Murialdo e obteve mais 4.700 acessos de todo o Brasil e de diversos países como Argentina, Chile, Equador, México, Itália, entre outros. Foram mais de 400 expectadores que acompanharam simultaneamente e superou os 900 comentários, com mais de 3 mil reações. Durante a homilia, Pe. Marcelino assim pregou: “A festa

de Murialdo será um louvor agradável a Deus se emprestarmos nossas vidas como garantia de que nenhuma delas hoje se perca. Olhando para o nosso tempo, nos vem a intuição de Murialdo quando diz: ‘sede sempre atentos aos sinais dos tempos’. Ver os sinais e saber ler o que eles dizem é decisivo para a escolha do caminho. Qual é a leitura que precisamos fazer neste tempo difícil de pandemia? Quantas mudanças! Quantas lições! O tempo é de reconciliação com tudo o que vive e respira. Se não nos tornamos mais humanos e fraternos, não aprendermos a sermos e fazermos mais juntos, se a nossa relação com as coisas, com as pessoas e com a natureza não passar do consumo para a comunhão e não fizermos por convicção, teremos que fazer por sobrevivência”, alertou.

Campanha da Fraternidade 2021 já tem tema e lema No próximo ano, a Campanha da Fraternidade será ecumênica e terá como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. E como lema o trecho da carta de Paulo aos Efésios: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2, 14ª). A Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) de 2021 já tem cartaz escolhido. A equipe que prepara a CFE do ano que vem, composta por representantes da CNBB e de outras igrejas-membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), realizou concurso para a escolha da arte. Em relação ao texto base, a previsão é de que no mês de julho ele esteja concluído. O hino também deve ser divulgado em breve.

35


FLASHES

Foto: Marcelino Pauletti

Ex-seminaristas de Fazenda Souza realizam encontro

Nos dias 12 e 13 de outubro, no Centro de Eventos e Hospedagem Murialdo, em Fazenda Souza (Caxias do Sul – RS), ocorreu o encontro dos Ex-Seminaristas do Seminário Josefino de Fazenda Souza. O encontro, que contou com a presença de muitos familiares e de vários padres, foi marcado por muita alegria e convivência. Aconteceu a reza de um terço, cami-

nhando ao redor do seminário, como nos velhos tempos. Após, um jantar com costelão assado por mais de 6 horas e o momento cultural animado, principalmente, por Rogerio Marcon. No domingo, aconteceu uma belíssima missa presidida pelo padre provincial, Marcelino Modelski, que facilitou a reflexão sobre a mensagem de Jesus Cristo nos dias atuais. Durante o encontro,

foi escolhida a presidência da Associação para o biênio (2020 – 2021), que ficou composta por Lauro Cesar Pedot, Marcelino Pauletti, Itacir Bittencourt dos Santos, Gelson Rech e Tomé Pieta. Há previsão de realização de novo encontro em 11 e 12 de outubro de 2020, no mesmo local. Contatos com Itacir: (51) 99349.2592

Para uma ação de resposta aos impactos e consequências da pandemia de Coronavírus, há três fatores abrangentes que devem ser levados em consideração: Primeiro, as pessoas devem ser vistas como seres humanos, não apenas como casos. Portanto, é fundamental a garantia da dignidade humana. Em segundo lugar, o envolvimento da comunidade é crucial, mas esse envolvimento deve ocorrer de maneira cuidadosa para não expor as pessoas que querem ajudar nem as pessoas que estão precisando de ajuda. E, em terceiro lugar, o enfoque na prevenção da propagação do Coronavírus não deve fazer-nos esquecer as outras necessidades das pessoas afetadas, nem as necessidades médicas de longo prazo da população em geral. Mais informações em www.cnbb.org.br/tempodecuidar.

36


DICAS

Dica de Filme O VENDEDOR DE SONHOS Júlio César, um renomado psicólogo que está desiludido com a vida, está prestes a cometer suicídio saltando de um prédio quando é resgatado pelas palavras e pela atitude do mais improvável dos seres: um mendigo, conhecido como “Mestre”. Apresentando-se como um vendedor de sonhos, o Mestre oferece a Júlio um dos seus mais preciosos bens: o sonho de recomeçar. Abalado e perdido, o suicida, relutantemente, desiste de suas intenções e aceita o convite daquele homem intrigante para segui-lo em sua surpreendente e amorosa jornada pela cidade para levar ajuda, esclarecimento e esperança a quem precisa. É uma linda história sobre autoestima, a valorização do ser humano e aposta na capacidade que temos de nos superar.

Dica de Livro SE VOCÊ PARA, VOCÊ CAI ((J.J. Camargo - Editora: L± Edição 2019)

Viver para celebrar o encanto de viver é um privilégio reservado, com exclusividade, aos bem-amados. A delicada morte dos sentidos, sim, é o anúncio mais sutil do fim de todas as coisas. A alma que envelhece só fica oca. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”, como na música de Gonzaguinha, é o que de J.J. Camargo nos diz neste conjunto de mais de setenta crônicas. O autor, cronista consagrado e uma referência internacional na área de cirurgia torácica, depara-se diariamente com casos muito graves. Na obra, você encontrará relatos de gratidão, de amizade, de solidariedade e, acima de tudo, de valorização da vida, com o olhar de um médico que está sempre disposto a acolher seus pacientes, nem que o único tratamento possível seja ouvi-los.

37


CURIOSIDADES

VÍRUS

COVID-19

mundoeducacao.uol.com.br

Foto: gettyimages

GRIPE ESPANHOLA A gripe espanhola foi o nome que recebeu uma pandemia de vírus influenza que se espalhou pelo mundo entre 1918 e 1919. Os historiadores e especialistas da área da saúde até hoje não sabem o local exato onde esse novo tipo de gripe surgiu. O surto aproveitou-se da Primeira Guerra Mundial e espalhou-se rapidamente pelo mundo, causando a morte de cerca de 50 milhões de pessoas, embora algumas estatísticas falem em até 100 milhões de mortos. A doença chegou ao Brasil por volta de setembro de 1918 e espalhou-se por grandes centros, sobretudo por Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. brasilescola.uol.com.br

38

A COVID-19 é uma doença respiratória causada pelo vírus SARS-CoV-2, pertencente à família dos coronavírus. Os principais sintomas da doença são febre, tosse seca, perda do olfato e paladar, podendo também ocasionar dificuldade respiratória. Além disso, alguns pacientes podem apresentar também dores no corpo, coriza, fadiga, dor de garganta e diarreia. No entanto, pode se agravar e levar a óbito. Os primeiros casos registrados de COVID-19 apareceram na cidade de Wuhan, na China, em dezembro de 2019. Como a doença apresenta uma grande transmissibilidade, logo começaram a surgir casos em outros países e já são centenas de milhares de mortes em consequência do novo coronavírus. No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou estado de pandemia. biologianet.com

PESTE BUBÔNICA O primeiro surto de Peste Bubônica que afetou a Europa durante a Idade Média chegou ao continente em 1347. A doença surgiu antes na região da China, em 1333. A peste bubônica é uma doença causada pelo bacilo Yersinia pestis, que desencadeou uma pandemia, isto é, uma proliferação generalizada, que ocorreu na segunda metade do século XIV, na Europa, matando um terço da população desse continente. Contribuíam com a propagação da doença as precárias condições de higiene e habitação que as cidades e vilas medievais possuíam. historiadomundo.com.br

Imagem: História do Mundo

Vírus são agentes infecciosos bastante diminutos, constituídos por ácido nucleico e proteína. Os vírus podem parasitar bactérias, plantas e animais. Na nossa espécie, por exemplo, tumores e uma gama de doenças, como catapora, herpes, rubéola, sarampo, varíola, poliomielite, raiva, dengue, febre amarela, mononucleose, gripe, caxumba, hepatites e AIDS, podem ser provocados por eles. A transmissão pode se dar por meio de vetores, em outros casos, de pessoa para pessoa; ou por meio de alimentos, objetos, instrumentais contaminados ou animais. O tratamento dependerá do agente causador e das regiões acometidas. Muitas vezes, a única coisa que pode ser feita é se utilizar de medidas paliativas até que o vírus seja eliminado naturalmente; ou prevenir complicações e garantir melhor qualidade de vida ao paciente, em casos em que o vírus permanece, para sempre, no organismo. Diante disso, o ideal é se atentar à prevenção e, em muitos casos, a vacinação é a forma mais viável, barata e segura para tal.


AMIZADE Em certo momento, quando encontraram um oásis e pararam para beber água e descansar, dois amigos disputaram o mesmo espaço na sombra das palmeiras, onde o ar estava fresco e a areia macia. Era o espaço ideal para um cansado viajante abrigar-se nas árvores e se recuperar, dormindo um pouco, da longa jornada de nove dias de viagem. - Vou instalar-me aqui! – disse o Samir. - Eu já tinha visto este lugar e fui buscar meu camelo para repousar aqui! – replicou, grosseiramente, Mufasa! - E não poderíamos ficar os dois nesse canto seguro e aprazível? – perguntou Samir, já amarrando seu camelo na palmeira mais fina enquanto o frio da noite já dava suas primeiras vistas. - E por que eu dividiria um espaço especial, que vi antes de todos da caravana? Procure um canto para você e deixe-me dormir, pois estou moído! Mufasa esticou sua manta de pele de cabras, deitou-se, cobriu-se bem e não olhou mais para Samir, que saiu com seu camelo a procura de um lugar para se abrigar. Antes, porém, muito triste e ofendido, escreveu na areia com uma pequena vara.

“Hoje, um bom amigo magoou-me profundamente!” A viagem prosseguiu e os dias e as noites passaram-se com dificuldade, mas sem maiores perigos. Ao passarem por uma pequena aldeia, havia um rio aparentemente tranquilo, onde todos pararam para banhar-se e dar de beber aos camelos. Num momento de descuido, Samir nadou para onde as águas do rio tinham uma forte correnteza e começou a se afogar. Nadava vigorosamente, mas suas vestes o atrapalharam e ele começou a afundar.

enquanto gritava: - Acorda, Samir! Reaja, amigo! Abra os olhos, por favor! Num gesto brusco, Samir começou a tossir ... Mufasa, rápido como um raio, virou-o de bruços e fez com que ele pusesse para fora toda a água que havia engolido. - Obrigado, Mufasa! – Disse-lhe Samir. Antes de irem embora, Samir procurou seu canivete e, com ele, escreveu em uma pedra:

“Hoje, um bom amigo salvou-me a vida!” Muito surpreso, Mufasa perguntou um pouco envergonhado: - Explique-me, Samir, por que, quando eu lhe expulsei do lugar para dormir, lá no oásis, você escreveu sobre aquilo na areia. Agora, eu evitei que morresse afogado e você escreve isso na pedra? Sorrindo, Samir respondeu: - Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia para que o vento do perdão e do esquecimento apague rapidamente isso de nossas vidas. Todavia, quando o mesmo amigo nos faz algo como você fez, é preciso gravar na pedra da memória e no coração para sempre!

(Sandra Bozza)

Foi quando Mufasa o avistou! Demorou para entender o que se passava e, de repente, não mais viu as mãos nem a cabeça de Samir. - Samir! Samir! – gritou duas vezes. Na terceira vez, ao mesmo tempo em que gritava, atirou-se de turbante e tudo nas águas profundas e, depois de muito esforço, tirou Samir da água, sem sentidos. Colocou o corpo do amigo na areia, e bateu-lhe fortemente sobre o peito. Fez uma, duas, três vezes,

39