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A todos que acreditam no poder de, juntos, transformar o mundo. Aos lobos que caminham a passos largos em busca da sobrevivência. À dádiva da vida, em sua mais sutil forma de existência. À Vitória. To all who believe in the power that, together, we can change the world. To the maned wolves that take long strides in search for survival. To the gift of life, in its most subtle form of existence. To Vitória.

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Na entrada do Museu de História Natural da cidade de Washington, nos Estados Unidos, os visitantes se deparam com um lobo-guará embalsamado e uma placa informando: “espécie em vias de extinção”. A cena retrata friamente e de forma chocante a realidade deste animal nos campos do Brasil. O lobo-guará, como a maioria dos predadores do topo da cadeia alimentar, está no planeta há milhões de anos e carrega uma espetacular experiência genética de sobrevivência. Isto significa que já viveu em períodos de extremas mudanças climáticas, além de passar por epidemias. Logo, essa vivência poderá auxiliar a espécie humana a descobrir novos medicamentos e caminhos para a nossa própria sobrevivência, já que nossa jornada é muito curta em comparação com a evolução das espécies. Não só por isso, a preservação desta espécie é importante. Cada animal ou vegetal da Terra é peça essencial de uma grande máquina chamada biodiversidade, que funciona impecavelmente há milhões de anos. Essa máquina fantástica garante o perfeito equilíbrio dos ecossistemas e, por consequência, da vida em nosso planeta. Caso falte alguma parte, a máquina não funcionará em perfeita harmonia. Extinção é um tipo diferente de morte. É maior. Nós não percebemos isso até 1914, quando o último pombo-passageiro, uma fêmea de nome Martha, morreu no zoológico de Cincinnatti, em Ohio, nos Estados Unidos. Até então este era o pássaro mais abundante do mundo, que existiu nas Américas por seis milhões de anos. De repente, não estava mais aqui. Essa sensação de profunda tragédia aconteceu também quando outros mamíferos e pássaros entraram para a lista dos extintos. Um dos compromissos da Tetra Pak® é de proteger e usar de forma sustentável a diversidade biológica para benefício das gerações. Ao evitar extinções e ao proteger a diversidade biológica agora, daremos às gerações futuras a opção de valorizar e beneficiar-se dela também. Portanto, a iniciativa de apoiar o livro “Histórias de um Lobo” faz parte dos conceitos sustentáveis da Tetra Pak® de disseminar a importância da preservação. Ilustrada com fotografias grandiosas do renomado Adriano Gambarini, e textos de Rogério Cunha de Paula, a obra é uma referência na retratação deste tímido, gentil e ameaçado animal: o lobo-guará.

At the Natural History Museum of Washington, DC, visitors encounter a maned wolf embalmed with a message: “endangered species”. The scene describes coldly and so shocking the reality of this animal in the Brazilian Savanna. The maned wolf, as most of the top predators in the food chain, is on the planet for millions of years and carries a breathtaking experience of genetic survival. This means that ever lived in periods of extreme climate change and to pass by epidemic eras. Therefore, this experience can help us to discover new drugs and ways for our own survival, because our journey is very short compared to the evolution of species. Not only that, the preservation of this species is important. Each animal or plant on Earth is essential part of a large machine called biodiversity, which works flawlessly for millions of years. This fantastic machine ensures the perfect balance of ecosystems and, consequently, of life on our planet. If any part is missing, the machine will not operate in perfect harmony and will, eventually, collapse. Extinction is a different type of death. It is bigger. We did not realize this until 1914, when the last passenger pigeon, a female named Martha, died at the zoo of Cincinnati, Ohio, United States. This was so far the most abundant bird in the world, which existed in the Americas for six million years. Suddenly, he was no longer here. This sense of deep tragedy happened also when other mammals and birds joined the extinction list. The Tetra Pak® commitment is “to preserve and promote the sustainably use biological diversity for the benefit of present and future generations.” Helping avoid extinctions and conserving biodiversity now will give future generations the option to value and benefit from it too. Therefore, the initiative to support the book “Stories of a Wolf” is part of the concepts of sustainability of Tetra Pak® to spread the importance of preservation. Illustrated with pictures by the well known photographer Adriano Gambarini and texts from Rogério de Paula Cunha, the work is a reference of this shy, gentle and endangered animal: the maned wolf.


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Sum á rio Contents Nota dos Autores...................................................................................10 Prefácio...................................................................................................14 Introdução..............................................................................................16

Letter from Authors.............................................................................. 10 Preface................................................................................................... 14 Introduction.......................................................................................... 16

Capítulo 1 - O lobo que não é lobo............................19 Informações gerais...................................................................... 20 História...............................................................................................25 Distribuição e Habitat...................................................................... 29 Características do Corpo.................................................................. 40 Alimentação...................................................................................... 48 Comportamento................................................................................52 Território............................................................................................69 Reprodução e Genética.....................................................................75 Importância da espécie.................................................................85

Chapter 1 - The Wolf that is not a Wolf.................. 19 General Information...................................................................20 History...............................................................................................25 Distribution and Habitat..................................................................29 Body Characteristics.........................................................................40 Feeding..............................................................................................48 Behavior............................................................................................ 52 Territory.............................................................................................69 Reproduction and Genetics.............................................................75 The Importance of the Species................................................85

Capítulo 2 - Quem tem medo do lobo-guará? A relação com o ser humano.............................................. 92 Percepções sobre o lobo...........................................................102 Conflitos: os comedores de galinhas...............................112 Crendices: vivendo nos tempos antigos.......................... 122 As Partes do Lobo e o Olho do Poder............................................124 Misticismo e religiosidade.......................................................133

Chapter 2 - Who is Afraid of the Maned Wolf? The Relationship with Humans ........................................92 Perceptions about the Wolf ................................................ 102 Conflicts: the Chicken Eaters ............................................. 112 Cultural Beliefs: Living in Ancient Times . ......................122 Wolf Parts and the Power of an Eye .............................................124 Mysticism and Religiousness..................................................133

Capítulo 3 - Um lobo no mundo dos homens......... 152 Situação atual do lobo-guará...............................................155 Ameaças à sobrevivência...........................................................162 Alteração dos Habitats ...................................................................162 Atropelamentos...............................................................................170 Caça e Perseguição..........................................................................181 Doenças............................................................................................182 A Ciência do Lobo-Guará...........................................................186 Histórico de Pesquisas....................................................................186 As Patas e suas Pegadas...................................................................197 Armadilhas Fotográficas................................................................ 200 Marcações Visuais........................................................................... 203 Coleiras com Transmissores.......................................................... 204 Capturas...........................................................................................212 Estratégias de conservação ................................................. 220 Proteção das Áreas Naturais.......................................................... 220 Educação e Comunicação: a comunidade precisa saber e se envolver.................................... 230 A conservação em Cativeiro........................................................... 234 Plano de Ação.................................................................................. 248 Epílogo..............................................................................................255 Bibliografia....................................................................................256 Agradecimentos............................................................................258 biografia......................................................................................... 260

Chapter 3 - A Wolf in the World of Man..................152 The Status of the Maned Wolf.............................................. 155 Threats to Survival.................................................................... 162 Habitat Alterations.......................................................................... 162 Road Kills........................................................................................ 170 Hunting and Persecution............................................................... 181 Diseases........................................................................................... 182 The Science of the Maned Wolf............................................186 Historical of the Research..............................................................186 Paws and Tracks.............................................................................. 197 Camera Traps .................................................................................200 Visual Tags.......................................................................................203 Radio Collars...................................................................................204 Captures.......................................................................................... 212 Conservation Strategies . .......................................................220 Protection of Natural Areas............................................................220 Education and Communication: the community needs to know and become involved ...............230 Conservation in Captivity...............................................................234 Action Plan......................................................................................248 Epilogue........................................................................................... 255 Bibliography..................................................................................256 Acknowledgments......................................................................258 biography.......................................................................................260


Lobo-guará. Para a ciência, Chrysocyon brachyurus. Para uns, objeto de estudo, para alguns, sinal de problema. Mas, para outros, simboliza a vida que persiste em um mundo em constantes mudanças. Para mim, é sinônimo de força, de resistência, de bravura. De beleza e simpatia. De mistério. O lobo dourado é belo, imponente. Sabe como ninguém ser desengonçado e elegante ao mesmo tempo. Não deixa de ter um charme próprio com suas longas patas negras, suas desproporcionais orelhas, sua crina e cauda peluda. Sua pelagem, que mescla o vermelho-dourado com partes enegrecidas e alvas, confere o toque final à magnitude desse bicho. Ainda assim, há pessoas que têm coragem de olhar no fundo de seus olhos e desejar seu desaparecimento. Por mais de uma década, dedico minha vida a esse simpático animal. Venho colhendo “causos” sobre o lobo-guará pelo Brasil afora. Alguns muito curiosos, outros repudiantes. E, entre tantas histórias, eu também tenho as minhas. São muitas. Em todas as minhas vivências com os lobos, tento reparar o seu olhar. É penetrante, parece sempre dizer alguma coisa. Então, entendo perfeitamente a percepção de ser um animal místico. Alguns veem essa magia como algo ruim, outros como uma coisa boa. Comigo, aconteceu o extraordinário. Fui encantado pelo seu olhar há 15 anos atrás, também pelo jeito de andar, de correr, de caçar. Fui envolvido pelo seu carisma. Fascinei-me com o brilho de seu pelo sob o sol. Surpreendi-me ao vê-lo resistir às mais duras adversidades. E tudo continua a acontecer, todos os dias. Não me canso de observálos, de sentir seu cheiro, de seguir suas pegadas. Não me canso de tentar melhorar o mundo para eles. Foi o lobo-guará o primeiro animal selvagem que vi livre. No Parque Nacional das Emas, em 1997. Caminhando mansamente pelos campos do Cerrado goiano. Meses depois, tive a melhor das experiências ao ser surpreendido por outro, ao sair de minha barraca, já na Serra da Canastra, exatamente no mesmo lugar onde o estudo com a espécie começou no final da década de 1970. Busquei me inspirar na ciência. Tentei encontrar metas de pesquisa científica. Mas essa nunca foi a prioridade para mim. Sempre quis melhorar a situação deles por meio da pesquisa, porém apenas como um primeiro passo. Precisava transformar os achados em ações práticas. Sobretudo, quis (e quero) melhorar a forma como as pessoas o enxergam. E, com o passar do tempo, investi nisso. Convenci muitos a seguirem comigo. Hoje, conquistamos um grande espaço e sentimos a melhoria. Ainda não é o suficiente, contudo já é um sol que brilha a favor dos lobos. “Histórias de um Lobo” não tem a pretensão de ser a referencia sobre a espécie. Esse projeto foi concebido para mostrar ao mundo quem, na verdade, é o lobo-guará, o que ele traz de bom para nós e qual a sua relação com os homens de ontem e a sociedade de hoje. E, assim, buscar mais aliados para seguir esse caminho. Para que todos tenham prazer em tê-lo por perto, para que se sintam honrados com sua presença. Que assim seja lobo dourado, que aqui esteja lobo-guará.

The maned wolf, to science, the Chrysocyon brachyurus. To some an object of study, to others a sign of problems. But still to others he symbolizes a persistent life in a world of constant changes. For me, it is a synonymous of strength, of resistance, of bravery. Of beauty and sympathy. Of mystery. The golden wolf is beautiful, stately. He knows like no other how to be ungainly and elegant at the same time. He has his own charm with his long, black legs, his disproportionate ears, his full mane and tail. His fur, which mixes the red-gold with black and white parts, confers the final touch to this animal’s magnificence. Yet there are still people with the gall to look deep into his eyes and desire his disappearance. I have been dedicating my life to this admirable animal for over a decade. I have gathered tales of the maned wolf throughout Brazil. Some very interesting, others revolting. And among so many stories, I have those of my own. Many of them. Every time I come in contact with the wolves I try to pay attention to their eyes. Their penetrating look, always trying to say something. And then I perfectly understand the perception of their being told as mystical. Some understand this magic as bad, others as something good. The extraordinary happened to me. I was enthralled by their look 15 years ago, as I was by their way of walking, running, hunting. I was enveloped in their charisma. I was fascinated by the shine of their coat in the sun. I was surprised on seeing how they withstand the harshest adversities. And I still feel this way, all the time. I never tire of watching them, smelling them, following their tracks. I never tire of trying to make the world better for them. The maned wolf was the first wild animal I saw in the wild, in the Emas National Park in 1997. Gently wandering through the fields of the Goiás’ Cerrado. Some months later, I had one of my best experiences on being surprised by another when coming out of my tent, this time in the Serra da Canastra on the exact site where the study of the species began in the 1970’s. I turned to science for inspiration. I went after the goals of scientific research. But this was never my priority. I always wanted to better their situation, through science, yes, but only as a first step. I needed to transform my findings into practical actions. More than anything I wanted (and still want) to improve the manner in which people see them. And over time I invested in this. I convinced many to come with me. Today we have acquired large recognition and can feel an improvement. It is still not enough, but there is now a sun shining in favor of the wolves. “Stories of a Golden Wolf” does not aspire to being a reference on the species, but was conceived to show the world who the maned wolf is in fact, the good he brings us and his relationship with yesterday’s man and today’s society. And in this way gain more allies to walk on this path. So that everyone may have the pleasure of having him nearby, feeling honored in his presence. May this be, golden wolf; may you stay around, maned wolf. Rogério Cunha de Paula

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Toda viagem segue o princípio da transformação, e não da busca. Quando vamos atrás de algo deixamos de encontrá-lo, e o coração é o melhor caminho para descobertas. Foi desta forma que sempre enxerguei a fotografia. Fotografar pelo simples prazer da comunhão com a vida. Onde as cores e texturas se fragmentam numa luz incondicional, onde o que realmente importa é admirar e viver um momento intenso, definindo um universo de sensações e memórias. Em minhas lembranças, quando fecho os olhos pensando na Serra da Canastra, entre tantos cenários vejo um lobo andarilho e solitário reluzindo seus passos em campos amarelados. Nos idos de 1998 segui viagem para uma pequena cidade mineira, conduzido por Rogério. A intenção era documentar lobos-guarás para um livro sobre carnívoros brasileiros. Talvez o destino já soubesse, em sua lúdica forma de conduzir nossas vidas, que dali sairia muito mais do que fotos de mais uma espécie da fauna brasileira. O que trouxemos daquele trabalho foi uma irmandade sem precedentes, uma interação com conceitos sobre conservação, integridade e ética. Fui contagiado pela ideologia de um naturalista, e só reforçou uma verdade que sempre norteou meus passos: qualquer profissão é um mero detalhe dentro de nossa condição humana; o alicerce desta grande obra - a vida, é construído pela dedicação ao próximo e o pensar coletivo, a entrega absoluta a princípios fundamentais e a um bem maior onde a natureza e todos seus frágeis seres devem ser respeitados. Num fantástico Cerrado fui apresentado a um de seus mais nobres moradores, o lobo brasileiro. Misterioso e elegante, surgia frente ao meu olhar atônito, que não sabia se admirava aquele caminhar compassado ou partia para documentação desenfreada. O que se passou desde então foi um misto destas duas formas de memória; aquela que carregamos dentro de nós mesmos como agradáveis lembranças, e nas centenas de fotos agora transcritas nestas páginas. Este livro é a franca harmonia entre um texto expressando a paixão de um biólogo pelo lobo-guará, com imagens que modestamente representem a perfeição da natureza e este tão admirável animal. Mais ainda, quis registrar nestas fotos meu maior princípio como profissional: a verdade sempre está impressa na imagem. Assim, com a curiosidade que a vida de andarilho me proporciona, fui buscar nos centros de pesquisa norte-americanos o registro de comportamentos dos lobos que de outra forma jamais conseguiria. Aprendi com os ‘causos’ das serras mineiras, perdi a vista no horizonte goiano. Ajoelhei-me ante o cenário gótico do Caraça. Tudo para compartilhar o privilégio de observar um lobo dourado. Como sobrevive às ações humanas, como interage com seus filhotes; quem é este místico personagem de tantas histórias que transpassam a barreira do tempo. Que estas páginas proporcionem uma viagem memorável e sejam um agradável diálogo entre a ciência e o sensorial, a escrita e a forma, estas duas grandiosas maneiras de homenagear a beleza da vida.

All journeys follow the principle of transformation, not the search. When we pursue something we do not always find it, and the heart leads us on best road to discovery. This is the way I’ve always looked at photography. Taking pictures for the simple pleasure of communing with life. Where the colors and textures fragment in an unconditional light, where what really matters is to admire and live an intense moment, defining a universe of sensations and memories. When I close my eyes and think on Serra da Canastra, in my mind’s eye I see, among so many scenes, the solitary wandering wolf, gleaming in the golden grasslands of the mountains. On times of 1998 I went on a trip to a small town in Minas Gerais, guided by Rogerio. The idea was to document maned wolves for a book about Brazilian carnivores. Perhaps fate was already aware, in its funny way of conducting our lives, that much more would come out of it than just photos of yet another species of the Brazilian fauna. What we brought back from this work was an unprecedented brotherhood, an interaction with the concepts of conservation, integrity and ethics. I was contaminated by a naturalist’s ideology, which only reinforced a truth that has always guided my path: any profession in the world is a mere detail of our human condition; the foundation of this great work - life - is built through dedication to our fellowman and the feeling of collectivity, the total surrender to fundamental principles and to a greater good, where nature and all her fragile beings must be respected. In the fantastic Canastra I was introduced to one of its most noble dwellers, the Brazilian wolf. He appeared before my stupefied eyes, mysterious and elegant, and I didn’t know weather to admire his measured gait or begin wildly documenting him. What happened from then on was a mixture of these two forms of recollection; those we carry within us as pleasant memories and the hundreds of pictures transcribed on these pages. This book presents an honest balance between a text expressing a biologist’s passion for the maned-wolf and images that modestly represent nature’s perfection, along with this so-admirable animal. Furthermore, I wanted to register my greatest principle as a professional in these photos: the truth is always imprinted on the image. And so, with the curiosity of a life as a wanderer, I researched records of the wolves’ behavior in North American research centers in a way I would never before have been able to. I learned through the tales told in the Minas Gerais mountains, I lost sight in the Goiás horizon. I knelt in front of the gothic scenery of the Caraça. All in order to share the privilege of observing a golden wolf. How it survives to human actions, how it interacts with its pups; who is this mystical character of so many stories that survive the barrier of time? May these pages offer you a memorable journey and a pleasurable dialogue between the science and the sensorial, the written word and the form, these two grandiose manners to honor the beauty of life. Adriano Gambarini 13


PR E FÁCIO Preface Enquanto eu explorava o Parque Nacional das Emas, no estado de Goiás em um dia de novembro de 1975, observei a distância uma criatura de cor vermelho-ferrugem. Primeiramente pensei ser um bezerro desajeitado. Mas quando o animal se moveu para trás de um cupinzeiro e me espiou, pude notar sua face de raposa, com orelhas com densa pelagem branca aparentando antenas parabólicas. Para meu delírio era a primeira vez que encontrava o que reconheci ser um lobo-guará. O primeiro que tive contato em minha vida. Logo depois, o lobo ergueu sua pata traseira e, como um cão, esguichou urina no cupinzeiro. Era um macho deixando seu cartão de visitas, proclamando “este território é definitivamente meu!”. Sem sequer olhar para mim, com suas longas patas negras e seu corpo esbelto, elegante como o de um dançarino, continuou seu caminho. Sua pelagem vermelhodourada reluzindo ao sol daquela manhã, desapareceu no cerrado, deixando-me com uma lembrança estimada, preciosa. Naqueles tempos muito pouco se conhecida sobre os hábitos dessa espécie em vida livre. Ninguém havia ainda estudado sua vida misteriosa, solitária. Nos anos que seguiram minha visita, diversos biólogos disponibilizaram valiosas informações sobre a espécie. Mas foi somente pela dedicação a esse animal de Rogério Cunha de Paula e seus colegas que nossos olhos foram abertos para sua intimidade, seus segredos. Somente aí pudemos conhecer seu sistema social, ritmo diário de atividades, padrões de deslocamento, entre outros novos entendimentos como o da complexa relação com outros animais, incluindo os humanos, e fisionomias vegetais que compõem seus habitats. Somos privilegiados de ter todo esse material não somente disponível nos periódicos científicos, mas apresentado aqui em “Histórias de um Lobo” em uma linguagem acessível a todos. Esse livro é de grande importância por gerar consciência e admiração por uma espécie que permanece desmerecidamente pouco reconhecida, mesmo sendo um ícone do Cerrado e um tesouro nacional do Brasil. E isso ocorre em um momento frágil para a espécie e seu hábitat.

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Wandering around Emas National Park in Goiás state on a November day in 1975, I saw in the distance a large, rust-colored creature. At first I thought it was a rather ungainly calf. But when it stepped behind a termite mound and peered back at me, I noted the white-furred ears like disc antennas and the fox face. To my delight, I recognized it as a maned wolf, Brazil’s lobo-guará, the first I had ever encountered. It then lifted a hind leg and dog-like, sprayed the termite mound with urine. The animal was a male leaving a calling card to proclaim that this territory is ‘mine, mine.’ Without a further glance at me, he moved on, his long, black legs and lean body as elegant as that of a dancer. His golden-red coat blazing in the early morning sun, he vanished into the Cerrado woodland, leaving me with a treasured memory. Little was known back then about the habits of the species in the wild; no one had studied its mysterious, solitary life. In the years following my visit, several biologists provided valuable information about the species. But it was not until Rogerio Cunha de Paula and his coworkers dedicated themselves to the animal and opened our eyes to its intimate life that we became aware of its social system, daily schedule of activity, travel patterns, and other such basic insights, such as its complex relationships with other animals, including humans, and with the vegetation that shares its realm. We are fortunate that all this new-found knowledge is not hidden in scientific journals, but presented here in “Stories of a Golden Wolf” in clear prose, accessible to everyone. This book is of great importance because it raises awareness and admiration for a species which remains undeservedly obscure, even though it is an icon of the Cerrado and a natural treasure of Brazil. This is happening at a fragile moment in time, both for the species and its habitat.


Somente vinte por cento do Cerrado permanece intacto. O restante foi convertido para agricultura, especialmente campos de soja a ser exportada para a China e outros países. A conservação é a questão principal no confronto de todas as espécies com este habitat. A ciência sólida é a base para a conservação se sustentar. Entretanto a conservação por si só é uma questão moral de beleza, respeito e compaixão por outros seres vivos. Ela vem do coração. E ao observar um lobo-guará, somos capturados por sua beleza. “Histórias de um Lobo” é, na verdade, um guia, um plano de ação, que indica o que a espécie precisa para viver. Necessita de espaço para procurar por alimento, sejam frutos ou roedores para caçar; precisa estabelecer seu território ou encontrar um parceiro. O sucesso de uma população não pode estar limitado a uma reserva. Necessita de amplos horizontes, uma paisagem adequada para uma movimentação segura dos indivíduos. E são tantas ameaças para impedi-los. Rodovias têm veículos em alta movimentação, cães domésticos carregam doenças transmissíveis como a cinomose, caçadores ignorantes atiram impiedosamente, e fazendeiros podem também matá-los quando eles atacam suas galinhas desprotegidas. Para proteger e manejar o lobo-guará, devemos conhecer mais sobre ele, especialmente até onde pode se adaptar aos campos agricultáveis, às paisagens dominadas pelo homem. O Brasil deve assegurar um bom futuro ao seu lobo-guará, como parte de seu patrimônio cultural e natural. O país, sem dúvida, é privilegiado por ter o lobo-guará posando em sua paisagem como a principal residência na América do Sul. Ao examinar as fotos desse livro não somente admire sua beleza, mas pense nesse animal como um companheiro para compartilhar este nosso pequeno planeta em uma coexistência pacífica. A espécie necessita de sua ajuda para resistir. Precisa de ajuda de todos. Com paixão e perseverança devemos oferecer garantias para que os latidos do lobo-guará continuem a quebrar o silêncio das noites do Cerrado.

Only about twenty percent of the Cerrado remains, the rest converted to agriculture, mainly soybeans grown for export to China and other countries. Conservation is now the main issue confronting all species in this habitat. Solid science is the basis upon which conservation must be based. But conservation itself is a moral issue of beauty, respect and compassion for other living beings. It comes from the heart. To observe a maned wolf is to be captured by its beauty. This book is in effect a guide, an action plan, to what the species needs to survive. It requires space to roam in search of food, whether fruit or a rodent upon which to pounce, to establish a territory, or to find a mate. A thriving population cannot maintain itself in a small reserve but requires a wide horizon, a landscape across which it can safely travel. So many threats face it. Highways have speeding vehicles, domestic dogs have transmittable diseases such as canine distemper, mindless hunters shoot it, and farmers may kill it when it preys on unguarded chickens. To protect and manage the maned wolf, we need to know still more about it, especially to what extent it can adapt to agricultural areas, to a humandominated landscape. Brazil must assure its lobo-guará a secure future as part of its natural and cultural heritage. The country is indeed fortunate that the maned wolf graces it as its principal home in South America. As you peruse its photographs in this book do not just admire its beauty but think of the animal as a companion with which to share this small planet in peaceful coexistence. The species needs your help to endure. Everyone’s help. With passion and persistence we must offer assurance that the roaring bark of the lobo-guará will continue to shatter the silence of the Cerrado night.

George B. Schaller Panthera and Wildlife Conservation Society.

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I ntroduç ão Introduction Esta é a história de um lobo. Um lobo dourado, solitário. Um lobo que reluz e vive em terras que outrora eram dominadas pelos campos savânicos e que, atualmente, misturam amplas áreas cultivadas por várias culturas com pastagens de capim de toda sorte. O lobo persiste. Desloca-se como um andarilho incansável, procurando abrigo, comida, procurando seu futuro. Este é o lobo-guará, enigmático, misterioso. Intriga gerações e gerações com seu jeito curioso de ser, seu jeito elegante de andar, de caçar, de comer. Seu jeito intrigante de com o homem conviver. Sobretudo, impressiona por seu jeito desafiador de sobreviver a tantas mudanças que o homem traz. Um lobo que veio lá do norte do continente para se difundir nas terras sul-americanas. Um lobo que passou por maus bocados, e que um dia quase desapareceu, mas que perdurou por milhares de anos. Até os dias de hoje. É o lobo que não é lobo. Místico, lendário. Dizem por aí que ele hipnotiza para conseguir o que quer: comer, desaparecer. Dizem que tem poderes mágicos, que seu olho tudo vê. Olho que enxerga além da escuridão. Por isso, só os caboclos preparados conseguem tê-lo nas mãos. Quantas histórias são contadas sobre o “grande cachorro vermelho”. Gente que enaltece sua beleza, sua esperteza, sua sagacidade. São histórias que mantêm o lobo-guará tão vivo na imaginação do povo do campo quanto na realidade do Cerrado do século XXI. São essas histórias que nos mostram sua importância. São essas histórias de um lobo.

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This is a story about a wolf. A lonely golden wolf. A wolf that blazes in the sun and lives in lands once dominated by the savanna, today ranges in a mixture of large areas cultivated by many different cultures, contrasting with pasturelands of all kinds. The wolf perseveres. He moves like a tireless wanderer, seeking shelter, food, seeking his future. This is the Maned wolf, enigmatic, mysterious. Generations have been fascinated by his curious way of being, his elegant way of walking, hunting, eating. His wary coexistence with Man. His outstanding defiance in surviving the many changes humans have brought about. A wolf that came from the north of the continent to disseminate in South Americans lands. A wolf that faced hard times, and that one day almost disappeared, but that persisted for thousands of years. Right up to our present day. A wolf that isn’t really a wolf. Mystical, legendary. They say he possesses hypnotic powers that he employs to get what he wants: to eat, to disappear. They say he is magical, that his eye misses nothing. An eye that sees beyond the darkness. This is why only experienced countrymen are able to lay hands on him. So many stories are told about the “big red dog”. People that praise his beauty, his astuteness, his intelligence. Stories of the maned wolf are alive in the country people’s imagination, as alive as the reality of the savannas in the 21st century. Stories that tell us of his importance. Stories about a wolf.


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O lobo que nĂŁo ĂŠ lobo The Wolf that is not a Wolf


I n formações gerais General Information O lobo-guará é a maior espécie de canídeo silvestre sulamericano. Uma das espécies de grande porte que estão mais bem preparadas para as exigências desenvolvimentistas do homem do século XXI. E, por isso, assim como os coiotes, o lobo-guará espalhou-se por todo o continente. Ambos são onívoros, ou seja, comem de tudo um pouco, e a ampla dieta confere uma das características principais para o estabelecimento de novas áreas de ocorrência. Em algumas localidades, a dieta do lobo-guará baseia-se mais de 50% em frutos. É sua aparência, somada à dieta, ao oportunismo e à sagacidade, que vem dando ao lobo todo tipo de apelido, sendo um deles, a “raposa de pernas-de-pau”. O nome científico, Chrysocyon brachyurus, é a descrição da espécie em grego. Chrysos significa dourado, cyon, cachorro, brachy, curta, e urus vem do grego oura, que é cauda. Na composição geral, significaria “cachorro dourado de cauda curta“. A nomenclatura vernacular, comum, varia nos diversos países em que ocorre. Para os norte-americanos, o Maned Wolf é o “lobo de crina”, mesmo significado do francês Loup à crinière ou do alemão Mähnenwolf. Para os povos latinos, Aguará guazú, termo importado do Guarani, que significa “cachorro grande vermelho”. E o nome que demos nas terras brasileiras? Lobo-guará ou simplesmente guará, que para nós é o “lobo vermelho”.

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The maned wolf is the largest of the South American wild canids. One of the large animals most well-prepared for the developmental demands of man in the 21st century. This forced the maned wolf, as it did the coyotes, to spread throughout the continent. They are both omnivores, in other words, they eat a little bit of everything, and their varied diet contributes to one of the main characteristics for the establishment of new areas of occurrence. In some places, over 50% of the maned wolf’s diet is made up of fruit. His appearance, diet, opportunism and intelligence have given rise to all sorts of nicknames, among them, the “fox on stilts”. The wolf’s scientific name, Chrysocyon brachyurus, is a description of the species in Greek. Chrysos means golden and cyon menas dog; brachy is short, and urus, coming from the Greek oura, means tail. In a literal sense it would mean “golden dog with a short tail”. The vernacular, common name varies according to the many different countries in which it occurs. Americans call the Maned Wolf “wolf with a mane”, the same meaning as the French Loup à crinière, or German Mähnenwolf. The Latin peoples call it Aguará guazú, a word borrowed from the indigenous Guarani language, meaning “big red dog”. And what did we name it in Brazilian lands? Lobo-guará, or merely guará, which to us means “red wolf”.


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O lobo-guará foi descrito cientificamente pela primeira vez pelo zoólogo alemão Johann Karl Illiger, em sua publicação que apresentava ao mundo as diversas espécies que estudou no Museu Zoológico de Berlim. Chrysocyon brachyurus foi descrito em 1811, mas veio ao conhecimento geral dos cientistas em uma publicação de 1815, dois anos depois da morte de Illiger. Logo em seguida (de 1816 a 1826), outros taxonomistas apresentaram novas publicações para a mesma espécie, porém com outros nomes científicos. A que mais se difundiu foi a de Anselm Desmarest, um zoólogo francês que, em 1820, publicou seu compêndio descrevendo várias espécies, entre elas estava o lobo-guará como Canis jubatus.

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The maned wolf was scientifically described for the first time by German zoologist Johann Karl Illiger. His book presented the world with the various species he had studied at the Zoological Museum of Berlin. The Chrysocyon brachyurus was described in 1811, but only came to the scientific communities’ general attention in 1815, two years after Illiger’s death. Soon thereafter (from 1816 to 1826), other taxonomists presented new publications on the same species, however, using different scientific names. The most widespread name was given by French zoologist Anselm Desmarest, who in 1820 published a compendium describing various species, among them the maned wolf, the Canis jubatus.


H i stór i a His tor y Não é simples definir que tipo de animal o lobo-guará é exatamente. Muitos dizem que são parentes das raposas, que nada têm de lobo. De fato, estudos genéticos e evolutivos mostram que nosso lobo, ou melhor, o Chrysocyon brachyurus, como é conhecido entre os cientistas atualmente, não tem parentesco próximo com nenhuma espécie de lobo. Tampouco tem alguma relação com as raposas, coiotes ou outro grande canídeo conhecido. Na evolução dos canídeos selvagens, ele seguiu um caminho único, distanciando-se de qualquer outra espécie “lupina”. Seu parente mais próximo, por incrível que pareça, é o cachorro-vinagre (Speothos venaticus), um canídeo sulamericano, também sem parentes próximos no mundo e sem possuir nenhuma característica semelhante aos lobos-guarás. Para esclarecermos melhor essa história, recorreremos à pré-história. A origem dos canídeos selvagens se deu na América do Norte há mais ou menos 36 milhões de anos. Os primeiros ancestrais de todos os canídeos conhecidos apareceram principalmente na região centro-oeste dos Estados Unidos. A partir dessas espécies, os animais se espalharam, em um primeiro momento, por regiões da Ásia, depois para a Europa e África e, finalmente, para a América do Sul. Alguns, depois de evoluírem em outros continentes, retornaram ao continente norte-americano, outros se desenvolveram na própria região que migraram. Este é o caso dos lobos-guarás. Apesar de sua espécie ancestral ter habitado a América do Norte há 6-7 milhões de anos atrás, fósseis dos primeiros lobos-guarás aparecem com datação de 5 milhões de anos somente nas regiões sul dos Estados Unidos e norte do México. Ainda assim, poucas informações fósseis existem sobre o Chrysocyon nearcticus, espécie precursora do lobo-guará. Mas acredita-se que o C. brachyurus, o guará que conhecemos, evoluíra em torno de 2 milhões de anos e que a migração do sul da América do Norte para a América do Sul pelo Estreito do Panamá (formado há 3 milhões de anos) tenha

It is not easy to give an exact description of the maned wolf. Many say it is related to the fox, which is nothing like a wolf. In fact, genetic and evolutionary studies show that our wolf, or the Chrysocyon brachyurus, as it is known among scientists today, is not closely related to any species of wolf. Neither does it have any relation to the fox, coyote or any other large canid known. It followed a unique path during the evolution of the wild canidae, distancing itself from any other “lupine” species. Surprisingly, its closest relation is the bush dog (Speothos venaticus), a South American canid that likewise has no close relations in the world, and which presents no characteristics similar to the maned wolf. To better understand this story we must to go back to prehistory. The wild canidae originated in North America about 36 million years ago. The earliest ancestors of all known canidae appeared mainly in the mid-west region of the United States. This species gave birth to the animals that initially spread to Asia, then to Europe and Africa, and finally to South America. Some of them, after having evolved in other lands, returned to the North American continent, others developed in the regions to which they had migrated. This is the case of the maned wolf. In spite of its ancestral species having inhabited North America six or seven million years ago, the first maned wolf fossils, dated five million years ago, only appear in the southern regions of the United States and northern México. However, there is little fossil information regarding the Chrysocyon nearcticus, the maned wolf’s predecessor. We believe that the C. brachyurus, the maned wolf we know today, evolved around two million years ago and that its migration from southern North America to South America by means of the Isthmus of Panama (formed three million years ago) occurred much earlier than the appearance of the first

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ocorrido muito antes do aparecimento dos primeiros lobos cinzentos na Ásia (há mais ou menos 1 milhão de anos). Tais dados permitem concluir que os lobos-guarás acabaram se extinguindo no seu local de origem e por onde passou, permanecendo apenas nas terras sul-americanas. Por meio de registros fósseis, acredita-se que, desde o primeiro exemplar de C. nearcticus (aquele ancestral de 5 milhões de anos), as características principais dos guarás já se assemelhavam com as dos lobos de hoje. A evolução permitiu que sua anatomia se adaptasse aos ambientes savânicos, pois esta era a vegetação dominante da América do Sul no período Pleistocênico, quando C. brachyurus chegou por aqui. Suas patas longas e negras, a coloração pardo-avermelhada, o longo focinho e grandes orelhas eretas, são resultados de uma alta adaptação a esses ambientes. E, com as modificações da vegetação na região norte da América do Sul, a espécie foi se instalando nos lugares em que sua evolução adaptativa mais lhe permitia. Existe ainda outra linha de investigação que sugere que o ancestral do lobo-guará de hoje, que migrou para

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grey wolves in Asia (more or less one million years ago). This data allows us to conclude that the maned wolves gradually became extinct in their original habitat, as well as in the lands they had passed through, prevailing only in South America. Fossil records indicate that the guará’s main characteristics were already similar to those he presents today, going back to the first specimen of C. nearcticus (the ancestor of five million years ago). Evolution allowed his anatomy to adapt itself to the savanna environments, the prominent form of vegetation in South America during the Pleistocene epoch when the C. brachyurus arrived in these parts. His long black legs, dusty golden-red coloring, long muzzle and big erect ears are the result of his extraordinary adaptation to these environments. With the modification of the vegetation in northern South America the species settled in places that most suited its highly adaptable evolution. There is another line of thought suggesting that the ancestor of today’s guará, which migrated rapidly to South


a América do Sul rapidamente (há alguns milhares de anos), evoluiu em duas espécies, o C. brachyurus e o S. venaticus (o cachorro-vinagre), representando, assim, espécies irmãs. A principal diferença entre as duas hipóteses é que a primeira indica que lobo e cachorro-vinagre evoluíram em terras da América do Norte e Central e só depois atravessaram o Istmo do Panamá. A segunda sugere que um ancestral comum às duas espécies atravessou o istmo e, tempos depois, gerou ambas as espécies em terras sul-americanas. As grandes diferenças entre os habitats que ocuparam, fizeram com que as duas espécies se diferenciassem tanto. O C. brachyurus se instalou finalmente na região central da América do Sul, onde o Cerrado Brasileiro, o Chaco Boliviano, Paraguaio e Argentino, os campos do sul do Brasil, norte da Argentina e Uruguai se tornaram os habitats perfeitos para a colonização e permanência da espécie. Já o S. venaticus ocupou principalmente as áreas florestais da Amazônia e Mata Atlântica, além de áreas de vegetação mais densa, como as áreas do Cerrado e do Pantanal, entre outros biomas sul-americanos.

America (some thousands of years ago), evolved into two species, the C. brachyurus and the S. venaticus (bush dog), therefore representing sister species. The main difference between the two lines of thought is that the first indicates the wolf and the bush dog having evolved in northern and Central American lands, and only later crossed Panama’s narrow strip, while a second suggests that a common ancestor crossed through Panama, later generating both species in South America. The many differences between the habitats they occupied were responsible for the great disparity between the two species. The C. brachyurus finally settled in the central region of South America, where the Brazilian Cerrado, the Bolivian, Paraguayan and Argentine Chaco and the plains in southern Brazil, northern Argentina and Uruguay became perfect habitats for the species. Apart from other American biomes, the S. venaticus occupied mainly the forest areas of the Amazon and Atlantic Rainforests, as well as more densely vegetated areas, such as the Cerrado and Pantanal.

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Di st r ibuiç ão e h abit at D is tr ibution an d Habitat A espécie ocorre nos dias atuais praticamente em todo Bioma Cerrado e áreas do sul do Brasil. Esporadicamente, pode aparecer também em algumas áreas do Pantanal. Além das áreas brasileiras, onde é mais extensivamente encontrado, ainda habita áreas de cinco outros países: Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai. Durante muito tempo foi assim. Porém, o desenvolvimento humano tem conferido algumas mudanças à ordem natural das coisas. As áreas savânicas, antigamente ambientes que guardavam riquezas de biodiversidade, tornaram-se palco para a expansão agropecuária, o celeiro do mundo. E, com isso, o Cerrado e os campos sulinos, passaram por uma grande descaracterização ambiental sendo substituídos por amplas áreas de plantio e pastagens. The species today occurs practically all through the Cerrado biome and southern Brazil. It can also appear sporadically in the Pantanal. Aside from the Brazilian areas, where it is more widespread, the maned wolf also inhabits five other countries: Argentina, Bolivia, Paraguay, Peru and Uruguay. And so they did for a long time. Human development, however, has conferred some changes to the actual order of things. The savanna areas, formerly environments rich in biodiversity, became the stage for cattle farming expansion, as well as the world’s granary. As a result, the Cerrado and southern plains were subject to great environmental de-characterizations, substituted by large areas of farmland and pastures.

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Devido às alterações em seus habitats naturais tanto no Brasil como nos outros países, acredita-se que a distribuição atual sofreu grandes reduções, em especial na porção sul de seu limite. Paralelamente, vieram as altas taxas de desmatamento da Amazônia e da Mata Atlântica, conferindo um ambiente aberto, não florestal. Assim, por um lado, os lobos, espécie adaptada às áreas de campos, de cerrado, expulsos de seus ambientes naturais, passaram a encontrar nas áreas desmatadas a alternativa para uma recolonização, uma expansão de seus limites de ocupação após uma severa diminuição. É o que vemos acontecer desde a segunda metade do século XX. Muitos se espantam ao ver lobos em áreas de transição entre o bioma Cerrado e a Amazônia (Estados de Rondônia e Tocantins), ou totalmente imersos na Mata Atlântica (nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia). E cada vez mais presentes no Pantanal. Então, esse poderia ser mais um passo da espécie rumo à sua evolução ou um último suspiro na tentativa de evitar um declínio e extinção, já que seus ambientes naturais estão se dissipando.

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At the same time, high rates of deforestation occurred in the Amazon and Atlantic Rainforests, turning the forests in to open spaces. So after a severe drop in population, the wolves, a species adapted to the open fields of the Cerrado and driven away from their natural environments, found the alternative for re-colonization in these deforested areas, an extension of their limits of occupation. These alterations to their natural habitats in Brazil, as well as in other countries, lead us to believe that the wolves’ distribution today has suffered great reductions, especially in the southern-most portion of their occurrence. We have been seeing this since the second half of the 20th century. Many people are surprised to find wolves in the transition areas between the Cerrado biome and the Amazon (States of Rondônia and Tocantins), or totally immersed in the Atlantic Rainforest (São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro and Bahia). And ever more present in the Pantanal. So this could be one more step in the species’ evolution, or a final effort to avoid decline and extinction in as much as their natural environments are disappearing.


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Devido à grande diversidade de ambientes que ocupa e de alimentos que compõem sua dieta, o lobo-guará é encontrado em áreas de intenso uso humano. Entretanto, essas áreas são utilizadas em menor proporção do que ambientes naturais e, muitas vezes, são simplesmente passagens para locais melhores ou, em alguns casos, piores. Afinal, na evolução, tudo tem um preço. Há hora de ganhar, hora de perder. O lobo-guará vive hoje um novo capítulo de sua história. Uma história que reflete seu arcabouço populacional, ou seja, sua maior concentração em áreas protegidas. Atualmente, as áreas principais de ocorrência, nas quais a espécie alcança as maiores densidades conhecidas, ou seja, o maior número de

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Due to the diversity of the environments they occupy and the food that makes up their diet, the maned wolf is found in areas of intense human occupation. These areas, however, are not as attractive as natural environments and are frequently merely transit areas to better places, or, in some cases, worse. After all, in evolution everything has a price. A time to win and a time to lose. The maned wolf today lives a new chapter of its history, reflecting its population framework, in other words, its biggest concentration in protected areas. Today the main areas of occurrence are in the Serra da Canastra region (southwestern Minas Gerais) and the Emas National Park (southwestern Goiás),


animais por área, é na região da Serra da Canastra (sudoeste mineiro) e no Parque Nacional das Emas (sudoeste goiano). Algumas outras áreas são consideradas importantes para a espécie devido à qualidade e continuidade de ambientes saudáveis. Elas se estendem do contínuo e denso cerrado do sul do Piauí ao sudoeste baiano e às veredas e campos do norte de Minas Gerais, região celebrada por Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas. No entanto, perto do que existia para a espécie há milhões de anos atrás, o total de área disponível para sua sobrevivência é irrisório. Contemos, então, com seu poder de resiliência e a persistência de sua evolução.

where as far as we know, the species occurs in the greatest densities, or the largest number of animals per area. Other areas are considered to be important for the wolves due to the quality and continuity of healthy environments. These extend from the continuous, dense Cerrado in southern Piauí to Bahia’s southwest, the region celebrated by Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas (The Devil to Pay in the Backlands). However, compared to what existed millions of years ago, the area available for its survival is insignificant. So let us count on its resilience and persistence to evolve.

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Ca r acter í st ic a s do cor po Body Characte r is tic s Dos canídeos sul-americanos que evoluíram até o presente, o lobo vermelho é o maior. Mede entre 95 e 125 cm de comprimento de corpo, com mais de 32 até 51 cm de cauda, podendo chegar a um total de 1,76 cm da ponta do focinho à ponta do rabo. Tem em média 80 cm de altura de cernelha, podendo chegar a 90 cm, mais ou menos a mesma altura de um dogue alemão. Um lobo adulto, na natureza, pesa entre 20 e 33 kg. O tamanho varia de acordo com o lugar e, em uma mesma localidade, pode haver também diferenças de tamanho principalmente com relação ao comprimento da cauda. O corpo é laranja-avermelhado, com uma crina negra que varia de tamanho e cor, desde mais rala e mais clara a bem peluda e muito escura. As patas são também avermelhadas, com pelagem escura, às vezes menos, às vezes mais extensa. É como se estivessem com meias que, eventualmente, se estendem até metade das patas. As patas traseiras possuem quase sempre meias escuras mais curtas. O focinho, na maioria dos casos, também é negro. A ponta do rabo, a garganta e o interior das orelhas são brancos. Os filhotes possuem coloração diferente até atingirem aproximadamente 6 meses. Nascem pretinhos, com a ponta da cauda branca, e vão adquirindo coloração parda já no primeiro mês de vida. À medida que o corpo fica mais claro, focinho, patas e dorso se mantêm escuros. Aos 7 meses, já começam a apresentar a coloração de um lobo adulto. Entre os 9 e 10 meses, atingem o porte de adulto, apesar de ainda serem jovens. Essas características da pelagem, principalmente nos adultos, servem de diferenciador individual. Cada animal tem marcas próprias, por isso, com atenção, pode ser identificado por estes detalhes, como crina, patas, meias e extensão do branco do rabo.

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Of all South American canidae that have evolved to the present day, the golden wolf is the biggest. It is 95 to 125 cm (3 to 4 ft) long, with an additional 32 to 51 cm (1 to 2 ft) for its tail, and can reach 1,76m (5 ft 9 in) when measured from the tip of its nose to the tip of its tail. Its average height at the withers is 80 cm (2 ft 7 in) and can go up to 90 cm (3 ft), roughly the same height as a Great Dane. In nature an adult wolf weighs between 20 and 33 kg (44 to 72 lbs). Size depends on where they live, although differences, mainly in the length of the tail, may occur within the same area. The body is reddish-orange, with a black mane varying in size and color, from the shortest and lightest to the thickest and darkest. The legs are also reddish, with dark fur running up them in different degrees, looking like stockings going up their legs. The hind limbs almost always present darker, shorter stockings. In most cases the nose is also black. The tip of the tail, neck and inside of the ears is white. The pups have a different color until they are approximately six months old. They are born black, with a white tip on their tails and begin turning dusty during their first year. As the body becomes lighter, the nose, legs and back remain dark. They begin to take on the color of an adult wolf at seven months, and are fully grown at between nine to ten months, in spite of still being young. These characteristics in coat, especially in the adults, work as an individual differentiator. Each animal has its own markings. If we pay careful attention we can identify the wolves by these details, such as his mane, legs, socks and the extension of white on the tail.


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Os guarás têm diferenças específicas nessas marcas (negras e brancas). Essa composição de cores ajuda na comunicação entre indivíduos. Também são importantes na camuflagem, para se proteger contra predadores e se tornar invisível durante as caçadas. O lobo-guará possui as patas longas para auxiliar nos grandes deslocamentos pelos ambientes abertos e pelo capim alto das savanas. As patas auxiliam também no momento da caça, pois possibilitam altos saltos. As orelhas funcionam como amplificadores e movem-se constantemente para captar melhor os sons, ainda que pequenos ruídos (de ratinhos, aves terrestres, sapos). Dessa forma, para a busca de comida e presas, o lobo-guará confia na perfeita audição e no excelente olfato.

The maned wolves present specific differences in these black and white markings. This color composition is helpful in the communication between individuals, as well as being an important camouflage to protect themselves from predators and for becoming invisible when hunting. The maned wolf has long legs to aid its movement through open environments and the tall grasses of the savanna. Their legs also are important when hunting, allowing for high leaps in the air. The ears function like amplifiers and are in constant motion to better capture sounds, even very tiny ones (coming from mice, birds, frogs), showing us that the maned wolf counts on its perfect audition and excellent scent to find food and prey.

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A l i ment aç ão Feeding O lobo-guará é uma espécie onívora, isto é, se alimenta de diversos tipos de comida. Consome uma grande diversidade de frutos e pequenos animais, como ratos, gambás, tatus, aves (principalmente as rasteiras, como perdizes e codornas), lagartos, cobras (mesmo as venenosas) e muitos insetos. Às vezes, pode caçar também animais maiores como uma raposa-do-campo, um cachorro-do-mato, e, em casos raros, animais ainda maiores, como veados.

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The maned wolf is an omnivore species, meaning it feeds off various types of food. It consumes a great diversity of fruits and small animals, such as rats, opossums, armadillos, birds (especially the terrestrial, such as pheasants and quails), lizards, snakes (even the poisonous ones) and lots of insects. It may also sometimes hunt larger animals, such as the hoary fox or the crab eating fox and, on rare occasions, even bigger animals, like deer.


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A quantidade diferenciada de frutos que compõem sua dieta faz com que possa aproveitar diversas espécies ao longo de todo ano. No entanto, é a fruta-do-lobo que elege como fruta preferencial em muitas localidades. Inclusive, foi a relação entre o lobo e a lobeira que resultou em tal nome à planta. Por crescer mesmo em áreas desmatadas e estar disponível o ano inteiro, sementes dessa fruta podem ser encontradas com frequência nas fezes dos lobos. Por isso, esse animal é o principal agente de disseminação da planta. E não somente da lobeira, mas de várias outras plantas do cerrado. Entre outras frutas de preferência do lobo estão o araçá, o murici, a fruta-de-ema, o ariri e o cajuzinho do cerrado. Mesmo com frutos disponíveis o ano inteiro, na maioria dos lugares onde vive, o lobo varia sua dieta de acordo com a estação do ano. Durante a época chuvosa (normalmente de novembro a abril), aproveita-se da abundância de frutos no seu ambiente e baseia sua dieta nos itens vegetais. Já na seca (de maio a outubro), quando os frutos diminuem, precisa sair bastante para caçar suas presas, que também estão mais ativas em busca do alimento escasso. Em ambientes muito degradados, essa sazonalidade na alimentação pode não existir. Assim, a alimentação depende dos itens disponíveis de modo que o ritmo de vida do lobo-guará está muito ligado a este fator.

The amount of different fruits it eats allows it to take advantage of different varieties all year long. However, in many places, the wolf apple is its favorite fruit. This relation between the wolf and the lobeira (wolf plant) resulted in the plant’s name. As it grows even in deforested areas and is available all year round, seeds from this fruit can be frequently found in the wolves’ feces, rendering the animal as the main agent for the dissemination of the plant. Not only for the wolf apple, but for other plants in the Cerrado as well. The savanna guava, nance, fruta de ema, ariri and the monkey nut are among other fruits the wolf favors. Even though fruit is available all year long in most of the wolf’s habitat, he varies his diet according to the season. During the rainy period (normally from November to April), he takes advantage of the fruit available in his environment and bases his diet on vegetable items. Now, in the dry season (from May to October), when there is less fruit, he needs to go out hunting in search of scarce food. In greatly degraded areas this seasonal food may not exist. Food therefore depends on what is available, linking this factor closely to the maned wolf’s existence.

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Compor t a mento Behavior O lobo-guará apresenta os picos de atividade ao entardecer, noite e amanhecer. No entanto, estudos mostram que a relação das taxas de umidade do ar com a temperatura é o que define quando o animal estará mais ativo ao longo do dia. De fato, em dias de clima frio, céu nublado ou após uma chuva, é possível observar lobos procurando comida e patrulhando seu território a qualquer hora. Apesar dos guarás se alimentarem de muitos frutos, esses animais caçam bastante. E o comportamento de caça é algo interessante nessa espécie. Eles passam horas com o ouvido e nariz apurados procurando suas pequenas presas na vegetação alta.

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The maned wolf’s peak in activity begins at sundown and runs all through the night till dawn. Studies show that humidity and temperature are what define the animal’s activity during the day. And in fact, when it is cold and cloudy, or after it rains, the wolves may be observed looking for food and patrolling their territory at any time of the day. Although the maned wolf feeds off many different fruits, these animals are also great hunters. And their hunting behavior is very interesting. They spend hours, their ears and noses finely tuned, looking for small prey in the high vegetation.


Quando percebem a presa, ficam imóveis, esperando um movimento para refinar a sua localização. As orelhas parecem radares que captam os mínimos ruídos. Ao encontrá-la, lançam-se no ar e mergulham dando um bote certeiro. E quando erram, a presa se esconde. É nesta hora que o lobo bate as patas no chão freneticamente para fazer com que as presas se movimentem, corram. Na fuga, desfere outro bote. Pula no ar e mergulha, até acertar. Quando caçam cobras, os lobos usam o artifício de bater as patas no chão diversas vezes, ora para desnortearem a presa ora para acertá-las diretamente. Quando já estão tontas, desferem uma mordida certeira no pescoço da serpente. E, com a presa morta, vão mastigando-a da cabeça para o rabo.

When they sense the prey is nearby, they stand motionless, attentive to the slightest movement that will pinpoint its location. Their ears are like radars that capture the minutest sounds. When they do, they spring into the air, to then dive down in a well-aimed pounce. The prey goes into hiding when they miss. This is when the wolf frantically beats his paws on the ground to make the prey move, run. As it flees, he once again lunges at it. He jumps in the air and dives down as many times as it takes to catch it. When hunting snakes, the wolves cunningly beat their feet repeatedly on the ground, sometimes just to confuse the prey, sometimes to immediately pounce on it. Once the snake is disoriented, the wolf lunges at it with a quick bite on the neck. The prey now dead, he chomps on it from head to tail.

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Curiosa mesmo é a associação de caça do lobo-guará com o falcão-de-coleira (Falco femoralis), observada com certa frequência nos parques nacionais da Serra da Canastra e das Emas. Quando o lobo e esse falcãozinho de 45 cm de tamanho se juntam, ocorre o inusitado. Cada encontro é uma novidade aos olhos do observador. Durante muito tempo, acreditou-se que as caçadas conjuntas eram cooperativas. Alguns relatam que o alimento é “dividido” sem querer, por descuido de um ou do outro e, por isso, a cooperação nas caçadas poderia resultar em mais comida disponibilizada pelo lobo ou pelo falcão (deixar a comida cair ou dispensar certas partes da presa são situações sempre aproveitadas pelo outro animal). No entanto, quando observamos mais detalhadamente, percebemos que se trata de um aproveitamento das qualidades de caça um do outro. Em alguns casos, quem tira proveito é o lobo, em outros, o falcão. Acontece de um falcão (às vezes mais de um) acompanhar o lobo na procura por comida. Um predador segue o outro, até o mamífero detectar sua presa. E inicia-se então o ritual de caça do lobo. Ao desferir um salto sob a presa, como mencionado, às vezes ela foge. E é nesta hora que entra em cena o falcão, que rapidamente mergulha na direção do bichinho que agora é caçado por dois. 56

The most curious is the maned wolf and the Aplomado falcon’s (Falco femoralis) mutual collaboration when hunting, frequently observed at Serra da Canastra and Emas National Parks. Unusual events occur when our wolf and this small, 45 cm (17 in) falcon get together. For those who watch them, every encounter is a novelty. During a long time it was believed these joint efforts at hunting were cooperative. Some say the food is unwittingly “divided”. One animal or the other may unintentionally drop its prey or discard pieces of it. This cooperation results in more food for either the wolf or the falcon, as in these situations one of them will come out on top. However, on observing it more closely, we see that it is about one taking advantage of the other’s qualities as a hunter. Sometimes the wolf gets the best of it; sometimes it is the falcon’s turn. The falcon (at times more than one) has been known to accompany the wolf on his search for food. One predator follows the other until the mammal detects his prey. And the wolf’s hunting ritual begins. As mentioned before, when the wolf lunges the prey sometimes escapes. This is when the falcon appears on the scene, rapidly diving in the direction of the animal, now hunted by two predators.


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Histórias de um Lobo  

Histórias de um Lobo é um livro que alinha cultura, ciência e conservação de um dos animais símbolos da fauna brasileira, o Lobo-Guará. Nas...

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