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expansão e precarização do trabalho na universidade

e a vida pessoal é condensado em um só. O docente se aliena de si mesmo porque perde, cada vez mais, o controle sobre o seu próprio processo de trabalho e sobre o produto do seu trabalho (pesquisa, ensino, artigos etc.), que se converte, na maioria das vezes, em um objeto estranho ao seu produtor. O processo de ensino-aprendizagem, que deveria ser um manancial crítico-reflexivo, entre mestres e alunos, propulsor da emancipação humana, está se convertendo celeremente em um fazer burocrático, no qual uma espécie de dissimulação mútua (“eu finjo que ensino e você finge que aprende”) possui como objetivo utilitário executar o compromisso socialmente (des)valorizado de “estar na universidade”. Esta última, por sua vez, passa a ter como horizonte principal a provisão de mão de obra altamente qualificada e produtora de conhecimentos orientados para satisfazer as necessidades de expansão do grande capital – nacional e alienígena. A ideologia neoliberal conseguiu introjetar nos professores a quimera de que se trabalharem de acordo com os parâmetros e critérios que o capitalismo estabelece, irão ganhar mais e projetar-se profissionalmente. Incorporando esta lógica, despojam-se da sua humanidade, da criação coletiva do conhecimento, e da responsabilidade pela sua disseminação para o conjunto da sociedade. O comprometimento físico e mental são as principais consequências. Torna-se imperativo que as patologias advindas das transformações do trabalho docente sejam mais bem elucidadas e discutidas entre os docentes, sob a pena de perderem-se profissionais valiosos. Outrossim, o reconhecimento do docente como um trabalhador e, portanto, como um indivíduo submetido à grande máquina da exploração mundial capitalista, permitirá a reação a esta lógica político-econômica que se espraia na academia e que pode ser pensada como: instrumento para eliminar o caráter da luta política, convertendo os conflitos e tensões sociais em expressões vazias de sentido transformador, com a intencionalidade de convertê-las em expressões neutras (LEITE, 2008). Para tanto, antes de mais, é necessário recuperar a universidade como locus público, onde se constroem as mais ricas relações sociais, justamente porque possui como matéria-prima todas as expressões da ciência, da arte e da cultura. Por isso, não pode UNIVERSIDADE E SOCIEDADE

continuar submetida (assim como seus docentes) à lógica dominante do capital, e sim ser propulsora da reflexão crítica e da emancipação humana. Notas 1. Documento do Banco Mundial ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. julho, 2003. 2. Foge ao escopo deste texto uma análise mais acurada sobre todos os aspectos que envolvem a Reforma da Educação brasileira (em especial a Universitária). Entretanto, é mister citar a criação do ProUni (transferência de recursos públicos para o setor privado); da Universidade Aberta do Brasil (UAB – instituição não gratuita, de direito privado); a transformação dos Centros Tecnológicos (CEFET) em Institutos Federais de Educação Tecnológica (IFET); e a expansão da formação de novos universitários (a promessa é dobrar o número de alunos em cinco anos, com a elevação da taxa de conclusão média dos cursos de graduação presenciais para 90% e da relação professor/aluno de graduação, também em cursos presenciais, para 1/18), levada a cabo seja pela utilização massiva da Educação a Distância (EAD), seja pela e criação de novos campi (inclusive com a interiorização das universidades). O conjunto de docentes e servidores técnico-administrativos certamente não teve expansão significativa até o final do governo Lula da Silva. A este respeito, ver Leite; Falcão & Washington (2006). 3. A este respeito, ver ANDES (2007), em especial a Parte 3 – REUNI, Universidade Nova e Professor Equivalente: faces da Reforma Universitária. 4. Segundo este cientista, a exaustão emocional que caracteriza esta síndrome está relacionada aos aspectos individuais. Assim, o estresse individual configura-se como componente básico na compreensão do burnout.

Referências ANDES-SN – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior. As Novas Faces da Reforma Universitária do Governo Lula e os Impactos do PDE sobre a Educação Superior. Cadernos ANDES. nº 25. Brasília, ago., 2007. CARLOTTO, M.S. A Síndrome de Burnout e o trabalho docente. In: Psicologia em Estudo. vol. 7, nº 1, Maringá (PR), jan/jun. 2002. pp. 21-29. FALCÃO, F.J. & LEITE, J.L. Derrotar o pensamento/ pesadelo único que despreza a vida e adora as coisas. Libertar a ação coletiva criadora do novo que explode em nossos sonhos In: Caderno de Textos. 26º Congresso do ANDES-Sindicato Nacional, Campina Grande - PB, 27 fev. a 4 mar. 2007. FIOCRUZ. Cadernos de Saúde Pública. Editorial – Efeitos Colaterais do Produtivismo Acadêmico na Pós-Graduação. Rio de Janeiro, Fiocruz. V. 25, nº 10, out. 2009. FREIRE, P.A. Assédio moral e saúde mental do trabalhador.

DF, ano XXI, nº 48, julho de 2011 - 95

Revista Universidade e Sociedade - N°48  
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Revista do Sindicato Nacional ANDES-SN

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