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Consciência de classe, organização de classe

seus interesses? Por que ao invés de se mobilizar por suas próprias demandas, aceita ser dirigida no caminho da passividade e do acomodamento. Por quê? Comecemos por uma notícia publicada ainda no contexto da campanha eleitoral de 2010. O então candidato a vice-presidente da República, Michel Temer, ao falar para uma plateia de investidores estrangeiros dizia o seguinte:

alternativas revolucionárias e suas estratégias e o papel da educação dentro disso. Por muito tempo compreendemos ideologia simplesmente como um conjunto de ideias. Os trabalhadores se amoldam a essas ideias porque sofrem uma imposição por parte da classe dominante de maneira que acabam por constituir sua visão de mundo a partir de ideias, valores, formas de pensar a si mesmo e Falo de um Brasil internamente pacificado. Se os movi- ao mundo, que lhes são impostas coercitivamente por mentos sociais não estivesses pacificados, se os setores seus adversários. políticos não estivessem pacificados [...] se aqueles mais Marx e Engels (2007), em sua obra A ideologia alepobres não estivessem pacificados [...] isto geraria uma mã, chegam a formular o seguinte argumento: é nainsegurança. (Folha de São Paulo, 27 de agosto de 2010, tural que os membros da classe dominante, que por caderno A, p. 8) serem dominantes detêm os meios de produção, controlem também os meios de produção e disseminação Diante dessa “pacificação social”, ainda segundo o do conhecimento, fazendo com que suas ideias sejam vice-presidente de Dilma, o país se torna seguro para apresentadas como universais. os investimentos. Estamos pacificados. O que temos De fato isso se dá. Todos nós conhecemos a imque responder é qual a base dessa pacificação. Afinal portância de controlar os centros de produção e disde contas, o que aconteceu? seminação do conhecimento, por exemplo, as univerResistimos contra a Ditadura empresarial-militar sidades, o mercado editorial, os centros de formação, que se implantou em 1964. A classe trabalhadora entra de pesquisas e de desenvolvimento de tecnologias, ou, em cena no final dos anos 70 fazendo greves gloriosas, ainda, demarcar o campo de possibilidades e a forma que unificam os seus interesses apresentando-se com da divulgação e disseminação do conhecimento acuautonomia e independência frente aos patrões e ao mulado nos aparelhos escolares. Estado, tornando-se o principal ator da derrubada da Estou longe de questionar esse fato, mas acrediDitadura e do processo de democratização. to que isso explica em parte o processo. Explica eviChegamos na Constituição de 1988 em uma cor- dentemente o poder de uma classe em apresentar sua relação de forças que permitiu expressar no texto le- visão de mundo como sendo universal e reproduzir gal uma série de demandas que naquele momento se isso no conjunto da sociedade, mas, entretanto, não apresentavam como acúmulo da luta por explica por que os trabalhadores exploDiante dessa educação, saúde, direitos previdenciários rados nessa ordem aceitam como suas as “pacificação social”, e outros. ideias de seus adversários. Hoje estamos falando aqui de uma Reich (1974), pesquisando sobre a ainda segundo o vicepacificação, de uma apatia, de elogios ao força do fascismo, dizia: O que é difícil presidente de Dilma, crescimento econômico capitalista como explicar não é porque alguém rouba, o o país se torna seguro a maneira consensual entre as classes difícil é explicar porque a maioria nas para os investimentos. para desenvolver o país e resolver seus condições em que se encontra não o faz. velhos problemas sociais. Algo deu erraParafraseando Reich, o que devemos Estamos pacificados. do. O quê? hoje explicar não é porque que as pessoO que temos que Parece-me que a categoria essencial as se rebelam contra a ordem do capital, responder é qual a base para compreender o movimento da conso que é, de certa forma, simples; mas dessa pacificação. ciência da classe trabalhadora e seu atupor que a maioria não o faz e se submeal momento de impasse é a categoria de te passivamente à ordem que a mantém Afinal de contas, ideologia. Nós vamos ter que voltar a ela na exploração. o que aconteceu? antes de pensar o tema da consciência, das A ordem do capital nunca deixou de UNIVERSIDADE E SOCIEDADE

DF, ano XXI, nº 48, julho de 2011 - 123

Revista Universidade e Sociedade - N°48  

Revista do Sindicato Nacional ANDES-SN

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