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FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO FACULDADE DE ARTES PLÁSTICAS

OUTRAS

CARTOGRAFIAS

Thais Szabzon

São Paulo, junho 2009


FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO FACULDADE DE ARTES PLÁSTICAS CURSO DE BACHARELADO EM EDUCAÇÃO ARTÍSTICA HABILITAÇÃO EM ARTES PLÁSTICAS

OUTRAS

CARTOGRAFIAS

Trabalho de Graduação Interdisciplinar, vinculado à disciplina Desenvolvimento de Projeto Integrado II, apresentado como Exigência parcial para obtenção de certificado de conclusão de curso.

Nome do aluno: Thais Szabzon Orientador: Regina Johas

São Paulo, junho 2009


­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ SZABZON, Thais Outras Cartografias. Thais Szabzon-FAP/ FAAPSão Paulo, 2009

1- Outros lugares, mapa, taxonomia, linha, cor, espaço


SUMÁRIO

1. Apresentação...................................................... 1 2. Outras Cartografias............................................... 2

2.1 Lugar Nenhum............................................. 2

2.2 Outros Lugares............................................14

3. Trabalhos anteriores..............................................21 4. Bibliografia........................................................41


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1. APRESENTAÇÃO

“Não só lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversas formas: aborrecia-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quarto (visto de frente).” Borges

O que está contido num mapa? O que de fato delimita uma fronteira? Os símbolos que definem as fronteiras são, atualmente, cada vez mais voláteis e dissolvidos pela velocidade com que se renovam. Quais são as novas reais fronteiras? Uma fronteira política é imposta historicamente por uma organização estatal e delimita um território, dando a ele, supostamente, uma identidade formada pela língua, cultura, religião. Suas delimitações políticas são verossímeis? No conjunto de trabalhos aqui apresentados – Outras Cartografias – há referências a tais perguntas, sem que necessariamente haja respostas. Busco problematizar tais questões. Situados num contexto em que as pessoas são regidas pelo pensamento classificatório do espaço e dos objetos ao seu redor, onde todas as coisas ocupam um lugar, e são nomeadas em prol da organização e compreensão do mundo, os desenhos-mapa de Outras Cartografias traduzem minha necessidade de repensar as classificações e questionar o sentido da forma tradicional de organização cartográfica. Como estabelecer uma ordem entre os lugares e os relatos num mundo transitório e efêmero? As séries de trabalhos que compõem Outras Cartografias (“Lugar Nenhum“ e “Outros Lugares”), apresentadas aqui como meu Trabalho de Graduação Interdisciplinar, são resultantes do processo de maturação da produção desenvolvida ao longo desses anos de formação na FAAP. Estas cartografias imaginárias ocupam-se das questões acima enunciadas e traduzem meu olhar sobre o mundo, hoje.


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2. OUTRAS CARTOGRAFIAS 2.1. SÉRIE LUGAR NENHUM

Lugar Nenhum 1, 2008. Recorte sobre Atlas. 39,5 X 53,5cm


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Lugar Nenhum 2, 2008. Recorte sobre Atlas. 39,5 X 25,5cm


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Lugar Nenhum 3, 2008. Recorte sobre Atlas. 39,5 X 26,5cm


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Lugar Nenhum 4, 2008. Recorte sobre Atlas. 39,5 X 25,5cm


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Lugar Nenhum 5, 2008. Recorte sobre Atlas. 27 X 37cm


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Lugar Nenhum 6, 2008. Recorte sobre Atlas. 60 X 23,5cm


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Lugar Nenhum 7, 2008. Recorte sobre Atlas. 30 X 23 ,5cm


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Lugar Nenhum 8 , 2008. Recorte sobre Atlas. 30 X 23,5cm


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Lugar Nenhum 9, 2008. Recorte sobre Atlas. 34,5 X 28cm


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SÉRIE LUGAR NENHUM

“Lugar Nenhum” foi concebido a partir de mapas retirados de Atlas Geográficos que entraram em desuso, principalmente em função das mudanças ocorridas na organização espacial dos territórios. Coleto este material em sebos e antigas livrarias. Um sebo de livros possui por si só uma organização diferenciada e uma lógica própria. Estes espaços constituem um “despejadouro” de objetos usados, ou que entraram em desuso pelos seus antigos proprietários. Interessou-me aqui a lógica desordenada desta maneira de agrupar estes livros, sem nenhuma classificação ou relação com uma cronologia determinada. O que existe nesta ordem classificatória, de fato, é o caos, ou uma ausência de ordem. Outra forma de pensar ordens e organizações de objetos no espaço é o pensamento da coleção. Na coleção, é a vontade do colecionador, seu jeito de ver e conceber uma ordenação, que se deixam ver. Podemos falar de uma lógica da coleção. Para explicar melhor isso, pego como exemplo o trabalho que Peter Greenway mostrou aqui em São Paulo, em 2007, onde foram expostas noventa e duas malas lotadas de objetos afastados de sua função utilitária ou tradicional, que, juntas, perderam aparentemente todo o sentido: um porco empalhado, rãs, brinquedos velhos, gelo seco, livros e cartões postais empoeirados, etc. Objetos pessoais que, ao serem juntados, adquirem uma lógica de organização única e particular de quem os reuniu. Neste caso, a classificação e a escolha de todos os objetos, que foram retirados de lugares e situações totalmente diferentes, só fazem um sentido para quem os organizou. Em “Memória das Coisas”, Maria Esther Maciel, citando Baudrillard, fala sobre a lógica da coleção: “Em ensaio sobre o ato de colecionar, Jean Baudrillard diz que todo objeto, ao ser colecionado, deixa de ser definido pela sua função para entrar na ordem da subjetividade do colecionador (Baudrillard, 2000, p.94). Abstraído de seu contexto, perde sua presentidade, desloca sua temporalidade para sua espacialidade de um repertorio fixo, no qual a historia é substituída pela classificação. Neste sentido, colecionar se converte em uma forma de enclausurar o objeto, des-his-


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toricizá-lo, de maneira que seu contexto seja abolido em favor da lógica sincrônica da coleção”. 1 O ato de adquirir estes mapas de diferentes épocas, editoras e nacionalidades, possibilitou-me, a partir destas questões que eu vinha pensando, recriar novas formas de uso e compreensão das informações ali impressas. Assim como um colecionador que, ao acumular objetos, retira deles a função que lhes é atribuída, conferindo ao conjunto a identidade de sua própria subjetividade, quis criar novas relações e configurações – improváveis umas, inexistentes, outras – na relação entre os lugares e seus nomes, ou ainda, entre os lugares e a permanência de sua história/identidade em relação a estes nomes. Para este trabalho, eu procurei manter a curiosidade plástica que nos causam os mapas. As novas configurações que crio brincam com cores, relevos, linhas e direções, mas também tratam dos conteúdos que estas formas simbolizam. Convencionalmente, o amarelo é lugar mais baixo; as montanhas e cordilheiras ganham cores mais escuras. Os mapas usados são o próprio suporte do desenho: eles são ao mesmo tempo conteúdo e forma. Ao retirar todas as palavras presentes no mapa, retirei junto com elas o poder classificativo e organizatório que elas carregam para cada lugar. O espaço se modifica a partir da ausência de uma nomenclatura, de uma linguagem comum, sem que seja alterada sua forma. O fato de estar insistindo no ato de retirar a ordem das coisas, partiu do pensamento de que a forma de organização que herdamos é hoje inadequada, não nos diz mais respeito. “Lugar Nenhum” traduz minha necessidade crítica de mostrar como os princípios legitimados de organização, sejam eles alfabéticos, numéricos, cartográficos, tendem a se tornar fins em si mesmos. Assim, a ausência da palavra carregada de significados propõe criar uma outra forma de compreensão desses espaços. Mesmo que não tenham um sentido que possa ser compreendido como linguagem, uma nova linguagem é estabelecida. As palavras são um modo de estabelecer relações entre indivíduos. Traduzindo qualquer tipo de interpretação sobre as classificações de tudo, 1

Maria Esther Maciel, A Memória das Coisas, Rio de Janeiro: Lamparina, 2004, p.19.


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podem significar tanto a maior das verdades quanto a maior das mentiras. O que quero dizer com isso é que são criadas, junto com as palavras, abstrações do que elas representam. É nesta fina linha entre a verdade e a representação que, de um certo modo, meu trabalho entra como possibilidade de explorar o que as próprias palavras oferecem. A ausência de seus significados faz com que não haja uma explicação. É um espaço vazio, uma possibilidade de invenção de categorias, de coleções e de interpretações. Pensando nestas questões, exploradas nestes mapas-desenho de “Lugar Nenhum”, comecei a produzir trabalhos que deram continuidade a estas idéias. Iniciei, assim, uma produção baseada ainda no recorte sobre mapas. Os oceanos que separam os continentes foram retirados, a fim de que também fossem retiradas as suas distâncias. Os continentes passaram a se fundir como uma coisa só, de modo a criar um novo espaço. Foi o início de “Outros Lugares”.


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2.2 SÉRIE OUTROS LUGARES

Outros Lugares 1, 2009. Recorte sobre Atlas. 63 X 28cm


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Outros Lugares 2, 2009. Recorte sobre Atlas. 30 X 44cm


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Outros Lugares 3, 2009. Recorte sobre Atlas. 47 X 30cm


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Outros Lugares 4, 2009. Recorte sobre Atlas. 30,5 X 46 cm


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Outros Lugares 5, 2009. Recorte sobre Atlas. 30 X 43,5cm


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A série “Outros Lugares” surgiu como uma continuidade aos trabalhos anteriores, e a partir das perguntas que eu vinha me colocando acerca da relação entre espaço, tempo e identidade. Neste grupo de colagens, as áreas construídas não existem como lugares passíveis de serem reconhecidos cartograficamente. Elas são um limite entre o real e o ficcional: as fronteiras recriadas são responsáveis pela formação de um aspecto irreal do espaço. Por sua vez, um conjunto de elementos como cor, forma e linhas, trazem o meu objetivo de que essa colagem ganhe um aspecto verossímil à realidade; ou seja, as cores, as formas e as linhas são importantes para manter uma continuidade visual entre um continente e outro. Outro recurso que utilizei em alguns destes trabalhos foi manter a legenda original dos mapas. Em oposição aos trabalhos da série “Lugar Nenhum”, onde qualquer forma de relação pré-conhecida foi retirada, a legenda neste trabalho convida a estabelecer novas interpretações para um espaço recriado. Como são retiradas as reais fronteiras, a legenda surge como um recurso responsável pela continuidade espacial da imagem e, portanto, pela criação de “Outros Lugares”, sendo este o titulo dado ao trabalho. Em ambas as series descritas, proponho criar lugares que não existem. Neste segundo trabalho, porém, a palavra tem um sentido muito diferente do que na série “Lugar Nenhum”, já que aqui ela é residual de uma realidade que foi transformada. Tendo as formas sido modificadas, o que resta são as próprias palavras sem sua função original. Elas sinalizam os antigos espaços nessa nova configuração. Os mapas surgiram de uma demanda humana de representação simbólica do espaço, o desenho físico dos continentes, as linhas que separam as terras das águas, a composição das estrelas no céu. A cultura, a língua, os costumes, as identidades são, muitas vezes, fronteiras mais reais do que as representações impostas pelos mapas. À medida que a tecnologia se desenvolve, no seu sentido mais geral, e passa a englobar diversas áreas, como os meios de comunicação e informática, surgem novas


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técnicas gráficas para elaboração cartográfica. Hoje podemos pensar que os recursos de mapeamento e visualização, ampliados e modificados, alteraram nossa possibilidade de aproximação de diferentes lugares. Assim, a concepção de distância tornou-se desproporcional àquela anterior. Há poucas décadas, era impossível imaginar como seriam as fachadas das casas da orla de Lisboa, a não ser através de um relato ou de uma fotografia enviada pelo correio. Hoje, é possível ver a faxineira limpando essas fachadas em tempo real. Meu trabalho plástico é uma proposição que parte de todos estes dados da realidade e de uma outra possível a ser criada. Penso que os espaços ou a idéia do que eles representam está sempre sujeita a transformações que se desenvolvem em conjunto com a sociedade que os habita. Quando falo em sociedade e espaço é apenas pela percepção e vivencia que tenho deles. Meu trabalho não se propõe a teorizar conceitos que considero complexos de serem afirmados, pois acredito que eles fazem parte de uma realidade em completa transformação e, mais do que isso, em processo de reorganização. A ordem atual me parece desorganizada. Quando trato de fronteiras é porque enxergo em suas classificações uma perda de sentido. Se as transformo plasticamente, eliminando-as, acredito que no mundo atual elas também estão sendo eliminadas, e as consequências deste processo geram a transformação de identidades, costumes, cultura, enfim, de dados que alteram meu conhecimento da realidade. Meu trabalho é uma investigação acerca dessas questões.


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3. TRABALHOS ANTERIORES

“Como se sente uma linha reta? Sente-se como eu suponho que ela seja vista- reta-, um pensamento monótono que se estende infinitamente. As linhas não retas ou o conjunto de muitas linhas retas e curvas é que são eloquentes ao toque. Elas aparecem e desaparecem, são ora profundas, ora rasas, quebradas, alongadas ou dilatadas. Elas nascem e submergem por entre os meus dedos, são cheias de repentinos recomeços e pausas, e a sua variedade é inexaurível e maravilhosa.” Helen Keller


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SÉRIE NOVOS LUGARES


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Novos Lugares, 2007. Intervenção sobre fotografia. 10 X 10cm


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Os primeiros trabalhos que considero importantes como parte do meu processo consistem em fotografias compradas em antiquários. Estas fotos continham imagens urbanas, de cidades. Com um estilete, retirei de algumas partes da fotografia, sua película, criando áreas em branco - o próprio papel que está por trás da imagem impressa. Formavam-se, assim, novos espaços, a partir de lugares escolhidos aleatoriamente, que já possuíam uma memória e um registro, materializados como foto. A construção de um espaço, sobretudo o urbano, se dá através da relação que as pessoas estabelecem entre si e com o próprio espaço. Portanto, ao desconstruir essas fotografias, retirando elementos da paisagem, é estabelecido um jogo de desconstrução da própria cidade. Fiz esses trabalhos na época em que me deparei com os trabalhos de Gordon Matta Clark (1943-1978), que despertaram em mim a vontade de recortar, abrir fendas e criar diferentes maneiras de se relacionar com um mesmo ambiente; de criar espaços, partindo da idéia do recorte como uma linha. Depois desse trabalho comecei, a partir de certo ponto, a me questionar de quais maneiras poderia configurar a linha. A linha como idéia de separação entre duas coisas, como um espaço inexistente, como algo que vemos e entendemos mesmo sem que ela exista. Ou seja, vemos a linha do horizonte e sabemos que há uma separação entre a terra e o céu, mas há aqui uma questão: essa linha pertence ao céu ou à terra? Nenhuma das duas alternativas é certa, pois se trata, apenas, de uma separação entre cores e matérias.


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SÉRIE GUIDES

Guides. 2007. Livro de artista. 21,5cm x 14 cm.


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A partir destes questionamentos surgiu, em meu trabalho, um elemento fundamental: o mapa de ruas. Estes mapas me interessavam, também, porque as ruas desenhadas nestes guias são as ruas vistas de outro ponto de vista, o aéreo. Trata-se de um outro modo de ver a cidade e, mais uma vez, a relação do observador com o espaço acaba transformando-o. Para explorar essa idéia no espaço expositivo, apresentei uma instalação a partir de recortes feitos dos guias das ruas de São Paulo: fiz plotagens ampliadas, em preto e branco, criando caminhos no chão de mármore da escada do prédio da FAAP. Eram pequenos fragmentos de ruas, que foram aumentadas e deslocadas de seu contexto habitual. Serviam como orientação de um caminho, que não tinha sentido naquele espaço e não levava a nada nem a nenhum lugar. Num trabalho realizado posteriormente, continuei explorando o mesmo material, mas com outro objetivo e outro modo de pensar a linha. Resolvi, neste caso, transformar um livro de arquitetura em um livro de artista. Recortei o nome de algumas ruas dos guias da cidade de São Paulo e cobri todas as palavras do livro de arquitetura, deixando apenas as ilustrações aparentes. Essas ilustrações eram de plantas baixas que, como os mapas, são vistas aéreas. A ausência de palavras explicativas cria um outro tipo de leitura do espaço da cidade. Ao mesmo tempo, a inserção de palavras de outro contexto (dos guias) nas plantas de arquitetura reforça esse deslocamento da leitura do espaço. O texto original da planta nos fazia compreender o significado de cada desenho: qual seria o tamanho real do ambiente onde ele se localizava. Nessa ocasião, conheci a produção da artista Anna Bella Geiger (1950). Chamou-me atenção o modo como ela relaciona a geografia, o tempo e o espaço como coisas transitórias. Percebi que o trabalho com os mapas podia ir mais alem.


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PAISAGEM IMAGINADA

legenda

Paisagem Imaginada 1, 2008. Costura sobre papel. 23 X 15,5cm


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Paisagem Imaginada 2, 2008. Costura sobre papel. 23 X 15,5cm


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Paisagem Imaginada 3, 2008. Costura sobre papel. 82,5 X 32,5cm


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Paisagem Imaginada 4, 2008. Costura sobre papel. 22,5 X 32,5cm


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Paisagem Imaginada 5, 2008. Costura sobre papel. 22,5 X 32,5cm


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Paisagem Imaginada 6, 2008. Costura sobre papel. 22,5 X 32,5cm


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Paisagem Imaginada 7, 2008. Costura sobre papel. 105 X 215cm


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Comecei a costurar nas máquinas do ateliê de moda da FAAP. No primeiro dia que entrei nessa sala, tive vontade de aprender a mexer naquela maquina rápida, mas não tinha nenhum pedaço de tecido para experimentar. Peguei, como teste, os moldes de papel kraft, das alunas de moda. Nunca tinha costurado nada e a primeira linha construída me agradou muito. A partir desse dia, comecei a levar diferentes tipos de papel para perfurar; quebrei algumas agulhas, mas descobri coisas interessantes. Quando comecei a fazer os trabalhos abstratos com as linhas, tive um dia uma visão diferente sobre o desenho. A agulha é vertical e vai perfurando a superfície do papel, que é horizontal. Para costurar, no meu caso, tem que ser de pé. Assim, o desenho é construído visto de cima, diferente de quando desenhamos a caneta, sentados. Parece insignificante, mas costurar de pé era ter como uma vista aérea de um avião. Essa visão me fez retomar a idéia do desenho como representação de um espaço. Resolvi, com isso, construir paisagens. Comecei a usar como suporte o papel milimetrado, que era como um gráfico, e me permitia organizar esse espaço geograficamente. O uso da máquina de costurar torna essa atividade, a partir de certo ponto, incontrolável. Ao inserir a costura neste tipo de papel, que serve, originalmente, para uma representação de algo controlável, calculável e racional, passei a considerar a relação entre a ordem (matemática) e o universo caótico (a natureza). Para realizar esses desenhos, partia de fotografias de vistas aéreas como referência de cores e direções da linha. Mesmo tendo em mente essas fotografias, as paisagens que desenhava eram imaginadas, eram lugares que não existiam, mas aos quais comecei a dar certas características físicas: planos mais altos, mais baixos, mais iluminados... Neste momento cheguei a um ponto crucial do meu trabalho: tratava-se aí de uma idéia de paisagem. A partir daí, passei a usar os mapas.


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PRIMEIROS MAPAS

Aqui é, 2008. Interferência sobre Atlas. 12cm de diâmetro. Aqui é, 2008. Intereferência sobre Atlas. 12cm de diâmetro


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Ali é, 2008. Interferência sobre mapa. 25,6 X 33 cm


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Maria minha vizinha, 2008. InterferĂŞncia sobre Atlas. 23,5 X 30 cm.


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Em “Primeiros Mapas” queria mudar a noção de verdade da cartografia. Fiz isso intervindo com outro tipo de máquina, a máquina de escrever, onde inseria novos caracteres, palavras desconexas frente à realidade. É como se mudasse o sentido de leitura e compreensão daquele espaço e se criasse uma classificação inventada, ficcional. Foi nesse momento que me questionei sobre o sentido de uma classificação. Será a mesma classificação válida para todas as coisas, até hoje? Meu trabalho passou a se articular com essa questão: a importância de um nome específico para cada coisa, e como esses nomes podem criar uma identidade para cada lugar. Nesta fase, comecei a ler Borges. O que me interessou muito foi como esse escritor pensa as questões de classificação, da memória e da relação das pessoas com os lugares, partindo da fabulação de um ambiente ficcional. Os meus mapas não são feitos para orientar, assim como a paisagem costurada não segue uma só direção. Ambos são lugares ficcionais, impossíveis de serem colocados, verificados na prática. É como se a ordem aqui não fizesse sentido, é como se a verdade fosse transformada. A natureza não segue uma ordem; somos nós, homens, que classificamos e organizamos todo esse sistema infinito. Pensando em algumas dessas questões, nos trabalhos seguintes, continuei usando o mesmo suporte, os mapas, porém com um outro modo de organização, ou talvez, desorganização.


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4.BIBLIOGRAFIA

AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropofagia da supermodernidade, Campinas/SP: Papirus, 1994. BORGES, Jorge Luis. Ficções, São Paulo: Ed. Globo, 1988. CAUQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. São Paulo. Martins Fontes, 2007. DERDYK, Edith. Linha de costura. São Paulo: Iluminuras, 1997. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo. Martins Fontes, 2007. GEIGER, Anna Bella. Territórios, Passagens, Situações. Rio de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2007. MACIEL, Maria Ester. A memória das coisas: ensaios de literatura, cinema e artes plásticas. Rio de Janeiro: Ed. Lamparina, 2004. MANGUEL, Alberto. Dicionário de lugares imaginários. São Paulo: Ed. Compania das Letras, 2003. MANGUEL, Alberto. A biblioteca à noite. São Paulo: Ed. Compania das Letras, 2006. SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Edusp, 2002.


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CRテ吋ITOS

FOTOGRAFIA ALEX SZABZON REVISテグ DE TEXTO DORIVAL TEIXEIRA GRテ:ICA PAPER EXPRESS PROJETO GRテ:ICO FERNANDA DE BARROS GOMES E THAIS SZABZON ANO JUNHO DE 2009

Thais Szabzon aquario 2009 1  

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