
Celia Fix Korbivcher
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Celia Fix Korbivcher
Bion e a linguagem da mente primordial
Transformações não integradas: Bion e a linguagem da mente primordial
© 2026 Celia Fix Korbivcher
Editora Edgard Blücher Ltda.
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenação editorial Rafael Fulanetti
Coordenação de produção Ana Cristina Garcia
Preparação de textos Sueli Bossi
Diagramação Estúdio dS
Revisão de texto Equipe de produção
Capa Juliana Midori Horie
Imagem da capa iStock
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil
Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Korbivcher, Celia Fix
Transformações não integradas : Bion e a linguagem da mente primordial / Celia Fix Korbivcher. – São Paulo : Blucher, 2026.
148 p.
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2621-5 (Impresso)
ISBN 978-85-212-3140-0 (Eletrônico – Epub)
ISBN 978-85-212-3141-7 (Eletrônico – PDF)
1. Psicanálise. 2. Mente primordial. 3. Linguagem do analista. 4. Teoria das transformações. 5. Clínica psicanalítica. 6. Consciência da separação. 7. Bion, Wilfred Ruprecht, 1897-1979. I. Título.
CDD 159.964.2
Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise
CDU 159.964.2
Apresentação 9
Prefácio 13
1. Uma discussão a respeito de Bion e a clínica: sobre a técnica e o método 17
2. Bion e a teoria das transformações. A mente do analista: personalidade e teorias 33
3. Considerações sobre gradações da consciência da separação corporal entre self e objeto 46
4. Fazendo contato com fenômenos psicóticos e autísticos 60
5. Transformações não integradas. Bion e os fenômenos não integrados: diluição e queda 73
6. Bion e emoção: emoção, não emoção e a linguagem do analista 89
8 transformações não integradas
7. Mente Primordial e a Linguagem do Analista: uma Linguagem de emoção 103
8. A mente primordial e o corpo: o não corpo e o tornar-se um corpo 119
9. O paciente concreto: um desafio para a mente do analista 129
Referências 141
Bion atravessou agora o rubicão da respeitabilidade psicanalítica em Londres e iniciou uma revolução metapsicológica cujos ecos estão ainda repercutindo no panorama psicanalítico mundial... e introduziu a incerteza cósmica interior ou exterior, a infinitude, o relativismo e a numinosidade como seu sucessor.
(Grotstein, 2007, p. 114)
Como penetrar a cesura do nascimento? (...) Pode algum método de comunicação ser suficientemente “penetrante” para atravessar a cesura na direção do pensamento consciente pós-natal e de volta para o pré-natal, no qual pensamentos e ideias têm sua contraparte em “tempos” ou “níveis” de mente onde eles não são pensamentos ou ideias?
(Bion, 1977, p. 127)
Vera, 40 anos, em uma de suas sessões, posicionada de bruços no divã em meio a um clima de intenso envolvimento emocional com a analista e com um tom de voz meio amolecido, como se não estivesse
A teoria, independentemente da formulação feita, ou das características decorrentes da sua natureza como uma transformação, nunca é certa ou errada, ela é plena de significado. Há muita confusão entre os que acreditam que as teorias são certas ou erradas e que devem ser validadas por testes empíricos...
(Bion, 1997, p. 15)
Uma teoria será boa se satisfizer duas exigências. Ela deve descrever com exatidão uma grande classe de observações com base em um modelo que contenha somente poucos elementos arbitrários e deve fazer previsões bem definidas de observações futuras. Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de ser apenas uma hipótese; nunca há como prová-la...
(Silva, 2010, p. 23)
A psicanálise, como sabemos, é um ofício que suscita forte polêmica nos meios científicos em razão da imprecisão inerente à sua abordagem. Para exercer sua tarefa, o analista depende da própria mente,
Tenho me interessado em observar na prática clínica o modo como alguns pacientes vivenciam e se organizam frente à consciência da separação corporal entre self e objeto.
Entendo que cada paciente vai se organizar dentro de um sistema defensivo específico, conforme a sua maior ou menor capacidade de tolerar a dor mental ocasionada pelo desamparo provocado por essa consciência.
Determinados pacientes, por circunstâncias diversas, vivenciam a consciência da separação corporal entre self e objeto de uma maneira tão abrupta que necessitam desenvolver poderosos sistemas protetores como um meio de manter um estado interior coeso. O tipo de proteção vai variar de acordo com a situação dinâmica que se estabelecerá entre cada par específico. Penso que é nessa área que se delineia a singularidade da organização mental de cada personalidade.
A dor mental é, a meu ver, o eixo em torno do qual o indivíduo vai organizar o seu psiquismo. Essa organização vai depender da maior ou menor capacidade do indivíduo de tolerar a dor mental, se irá
Na guerra, o objetivo do nosso inimigo é nos aterrorizar para impedir-nos de pensar claramente. O nosso objetivo, entretanto, é continuar a pensar com clareza apesar da situação ser adversa ou amedrontadora . . . A ideia subjacente é que pensar com clareza é vantajoso e conduz a ficar atento ao que chamo de realidade . . . Mas tornar-se conhecedor da realidade pode envolver o conhecimento desprazer, porque a realidade não é necessariamente prazerosa ou bem-vinda.
(Bion, 1979, p. 46)
A perda da noção de existir é muito pior do que a morte. Na morte, pelo menos se sente que um corpo é deixado. Ao se perder o senso de existir, nada é deixado... A aniquilação é a maior ameaça de todas porque isto significa a extinção do senso de existir.
(Tustin, 1990, p. 39)
Muitos pacientes que nos procuram chegam sem que possamos identificar com clareza quem é aquela pessoa com quem estamos
Eu posso imaginar que existem ideias que não têm força de expressão por estarem enterradas num futuro que ainda não aconteceu, ou no passado remoto que dificilmente podemos dizer que pertencem ao que chamamos pensamento.
(Bion, 1977, p. 125)
A teoria, independentemente da formulação feita, ou das características decorrentes da sua natureza como uma transformação, nunca é certa ou errada, ela é plena de significado. Há muita confusão entre os cientistas ao acreditarem que as teorias são certas ou erradas e que devem, consequentemente, ser validadas por teste empírico.
(Bion, 1997, p. 15)
É frequente em nossa prática clínica compartilharmos com alguns de nossos pacientes vivências de estados mentais primordiais – estados não integrados que não adquirem representação na mente.
Teria Bion sido bem-sucedido em construir uma teoria da mente que a levaria a um conceito substancial das emoções que irá distinguir a psicanálise moderna de outras psicologias, incluindo a de Freud, na qual as emoções são tratadas, seja como inserções primitivas, seja como ruidosa máquina ou manifestações corporais de estados mentais percebidos como emoções. (Meltzer, 1998, p. 77)
Escrever sobre emoção é um desafio. Isso pode parecer paradoxal, por necessitarmos expressar em palavras experiências para as quais não encontramos meios precisos de traduzi-las. Nós não temos acesso às emoções em si, apenas às suas aproximações. Emoções são vivências do indivíduo distantes do campo do conhecimento racional.
A palavra emoção significa “e-moção”, em movimento, ato de mover. Quando duas mentes se encontram, cria-se movimento, uma tormenta, como diz Bion. Será a emoção que vai unir aquelas duas mentes. . . Quando a tormenta surge, “não se pode saber logo o que
Do mesmo modo que o arqueólogo precisa ser muito cuidadoso quando pensa ter achado um objeto potencialmente revelador e precisa recorrer a um pincel de pelo de camelo no lugar de uma enxada ou pá, o analista também precisa saber quando descartar estes métodos grosseiros e violentos e escolher algo mais suave, revelador e menos destrutivo que uma pá. . . A psicanálise precisa ser exercida com cuidado, já que a situação é tão precária e difícil de conseguir as condições mínimas para cultivar a sabedoria, seja em nós mesmos ou em . . . nosso paciente. (Bion, 1997, p. 26)
A proposta de analisar pacientes nos quais predominam manifestações da mente primordial pode parecer paradoxal. Refiro-me especialmente aos pacientes neuróticos que apresentam núcleos não integrados e núcleos autísticos (Tustin, 1986). Tais indivíduos evitam a proximidade, a intimidade, aterrorizam-se com o contato com o
Mente –Olá! De onde você surgiu?
Corpo – O quê? Você de novo? Eu sou o corpo. Você pode me chamar de soma se preferir.
Mente – Me chama de Psiquê – Psique Soma
Corpo – Soma – Psiquê
Mente – Devemos ser parentes...
Corpo – É o significado da dor que estou enviando a você; as palavras que eu não enviei passam e o significado se perde...
Mente – Não seja ridículo. Eu adoro ansiedade, tanto quanto você sofre de dor. Na verdade eu tenho dor na qual você não sabe nada. Eu sofri intensamente quando você foi rejeitado.
(Bion, 1979, CWB XIV, pp. 8-9)
É possível para nós, como psicanalistas, pensar que ainda pode haver vestígios no ser humano que sugerem uma sobrevivência na mente humana, análoga à do corpo humano, de evidências no campo da ótica que antigamente existiam as fossas ópticas, ou no campo da audição que antigamente existiam as fossas auditivas?
Existe alguma parte da mente humana que ainda apresenta sinais de uma intuição “embriológica”, seja visual ou auditiva?
(Bion, 1977, p. 44)
I. Introdução
Max, 25 anos, em uma de suas sessões, após longo período em silêncio, ao ser indagado no que estaria pensando, em um clima de apreensão, diz: Estou pensando no corpo. Está dolorido, tudo dolorido. Os ligamentos estão estressados. Se continuar assim, alguma coisa vai quebrar, vai romper... Já comecei a fazer alongamentos. Vou precisar mudar alguma coisa na academia... estão forçando muito e está piorando. Não sei se é isso, porque quando estive parado a dor tinha passado. Agora, dói só quando faço exercício, principalmente a canela, o cotovelo, o calcanhar... Não posso parar neste momento porque estou em época de campeonato.
Max fala de uma dor. De qual dor estaria falando? A quais ligamentos está se referindo? Seria essa uma fala concreta a respeito da canela, do cotovelo, do calcanhar, ou expressaria o terror pela antecipação de um colapso? O que significa para Max “ruptura de ligamentos”? Poderia estar falando de vivências intoleráveis não integradas, de esparramamento, da perda de sustentação?

Neste livro, Celia Korbivcher, de forma clara e consistente, oferece aos leitores um panorama teórico clínico de seu estudo da mente primordial. Como o título do livro reúne e nos adianta, há duas vertentes conjugando-se e sendo nele examinadas, tendo como marco referencial maior a teoria das transformações: as transformações não integradas e a linguagem da mente primordial. Seus temas são esses estados mentais de não integração no funcionamento psíquico de um self que, em contrapartida, atingiu bom desenvolvimento em dimensões mentais necessárias para seu ajustamento à existência das realidades psíquica e material. Gravitando no entorno desse núcleo, a autora nos oferece uma acurada visão de suas investigações de mais de vinte anos, focadas prioritariamente em seus desenvolvimentos dos últimos 12 anos, trabalho que representa uma expansão significativamente importante para a nossa clínica psicanalítica.
J. C. Braga (Prefacio)
