

Giuseppe Civitarese
Teoria do campo psicanalítico
Uma introdução contemporânea
TEORIA DO CAMPO
PSICANALÍTICO
Introdução contemporânea
Giuseppe Civitarese
Tradução
Tania Mara Zalcberg
2ª edição revista e ampliada
Teoria do campo psicanalítico: introdução contemporânea
© 2025 Christophe Dejours
Editora Edgard Blücher Ltda.
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenação editorial Rafael Fulanetti
Coordenação de produção Ana Cristina Garcia
Produção editorial Departamento de produção
Tradução Tania Mara Zalcberg
Preparação de texto Karoline Cussolim
Diagramação Estúdio dS
Revisão de texto Maurício Katayama
Capa Laércio Flenic
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Civitarese, Giuseppe
Teoria do campo psicanalítico : introdução contemporânea / Giuseppe Civitarese ; tradução Tania Mara Zalcberg. – São Paulo : Blucher, 2025.
176 p.
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2610-9 (Impresso)
Título original: Psychoanalytic field theory: a contemporary introduction
1. Psicanálise. 2. Identificação projetiva. 3. Psicanálise de pais e bebês. 4. Psicanálise contemporânea. 5. Clínica psicanalítica. 6. Teoria Bioniana de Campo (TCA). 7. Bion, Wilfred Ruprecht, 1897-1979. I. Título. II. Zalcberg, Tania Mara.
CDU 159.964.2
Índice para o catálogo sistemático: 1. Psicanálise
As origens da teoria de campo
Podemos já encontrar o termo “campo” em Bion. Por exemplo, em carta a Rickman datada de 7 de março de 1943, ele escreve: “Quanto mais observo, mais me parece que será necessário fazer um trabalho muito sério de acordo com linhas analíticas e de teoria de campo para elucidar... o sistema atual...” (Conci, 2011, p. 82). O que inequivocamente é uma teoria de campo pode então ser encontrada no artigo publicado no The Lancet naquele mesmo ano (Bion & Rickman, 1943), e escrito em parceria por ambos, intitulado Intra-group tensions in therapy: their study as the task of the group (Tensões intragrupos em terapia: seu estudo como tarefa do grupo), que Lacan (1947) descreveu sem hesitação como um “milagre”. Este se tornaria o primeiro capítulo de Experiências em Grupos (Bion, 1961). No entanto, Madeleine e Willy Baranger foram os primeiros a usar o conceito de campo como base de um modelo totalmente novo em psicanálise. No seu artigo The analytic situation as a dynamic field (A situação analítica como campo dinâmico), publicado originalmente em espanhol, em 1961-1962, eles enfocam as resistências inconscientes relacionadas ao par que impedem o processo analítico – os chamados baluartes (bastiões). Na
opinião deles, superar essas resistências é um dos principais objetivos da análise. Nesse modelo está implícita a noção de que o analista participa da relação com toda a sua subjetividade, em que ela inevitavelmente é apanhada em sequências interativas com o paciente, e só pode avaliar seu significado inconsciente num estágio posterior.
Normalmente, quando se fala de Teoria Bioniana de Campo (TCA), vêm à mente os nomes de Willy e Madeleine Baranger e de Antonino Ferro: especificamente, o ensaio de 1961-1962 dos Baranger, The analytic situation as a dynamic field, e o livro de Ferro, de 1992, The bi-personal field: experiences in child analysis. Entre esses dois textos, em 1990, foi publicado, na Itália, o livro La situazione psicoanalitica come campo bipersonale (A situação psicanalítica como campo bipessoal), de Baranger & Baranger, editado por Antonino Ferro e Stefania Manfredi, ambos analistas membros da Sociedade Psicanalítica Italiana (SPI) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Como podemos ver, o livro retoma o título do ensaio de trinta anos antes, mas também introduz outros ensaios. É interessante ter em mente que esse artigo foi traduzido para o francês pela primeira vez em 1985; para o inglês, apenas em 2008; e, para o alemão, em 2018. Precisamos esperar até 2009, porém, para encontrar um volume em inglês dos dois autores argentinos: editado por Leticia Glocer, The work of confluence: listening and interpreting in the psychoanalytic field (O trabalho de confluência: escuta e interpretação no campo psicanalítico), que contém dez de seus artigos. No livro, há apenas três referências a Bion. A única referência realmente significativa está na passagem em que os autores admitem (mas apenas no ensaio de 1993 que constitui o quinto capítulo) que o seu conceito de fantasia básica do par analítico tem a sua origem não apenas no conceito de fantasia inconsciente de Melanie Klein, mas também no conceito de pressupostos básicos de grupos, conforme descrito por Bion (1961) – em outras palavras, uma fantasia que não existe em nenhum dos participantes fora da situação de grupo.
Conceitos básicos
O inconsciente como função
psicanalítica da personalidade
É impossível compreender Bion e a Teoria Bioniana de Campo (TCA) se não estivermos cientes de que o postulado básico do qual tudo brota é um conceito de inconsciente diferente daquele de Freud: o inconsciente como função psicanalítica da personalidade (expressão que parece ter sido modelada na faculdade kantiana de imaginação produtiva [produktive Einbildungskraft]). Em outras palavras, uma faculdade cognitiva da mente a priori ao pensamento, não inata, mas adquirida. A priori não deve ser confundido com inato. Se a identidade do sujeito é definida pela possibilidade de sentir o tempo, de reunir uma série infinita de “agoras”, precisa existir um sentimento subjacente de self. Esse sentimento deve ser absorvido e desenvolvido pelo outro, ou seja, pelo objeto que presta os cuidados primários à criança, pois, além do cuidado material, exige necessariamente a aquisição da linguagem.
A criança nasce com uma “consciência rudimentar” (Bion, 1967, p. 116). Sente estímulos, mas não tem consciência de si mesmo. Percebe sem compreender. Essa consciência, observa Bion, “não está associada a um inconsciente”. Isto é, todas as impressões sensoriais referentes ao Self caem na mesma categoria; todas são conscientes. O órgão receptor dessa massa de dados sensoriais sobre o Self reunidos pelo recém-nascido por meio de seu “consciente” é a capacidade de rêverie da mãe. É uma imagem maravilhosa: no alvorecer da vida, a criança tem a mãe (ou cuidador) como seu inconsciente e, portanto, como complemento de sua consciência primitiva! Por meio da sua rêverie, a capacidade de receber e transformar as identificações projetivas da criança, a mãe expressa o seu amor pela criança, contém as suas ansiedades e dá a ela os meios para formar a sua própria função alfa e faculdade de pensar. O conceito de inconsciente de Bion em grande parte é idêntico ao de função alfa da mente, expressão que ele adota para contornar nosso problema de definir de maneira mais clara seus contornos e, em vez disso, permite-nos enfocar o que sabemos mais ou menos, em outras palavras, no que ela faz. A função alfa, portanto, é uma atividade psíquica que une diferentes percepções. É a função de formatar/ordenar a experiência “sensível” que se situa entre a passividade/receptividade dos sentidos e a atividade/espontaneidade do intelecto. Então, graças ao “aparelho para pensar” os pensamentos, os conceitos são sintetizados. Essa atividade também está presente no sonho, em que são utilizados conceitos de coisas e, por meio de processos de condensação e deslocamento — correspondendo, como argumentou Lacan, às figuras de linguagem da metáfora e da metonímia, respectivamente — novas sínteses são criadas entre diferentes representações e pensamentos oníricos.
Bion rejeita, ou reinventa, a dicotomia processo primário/secundário de Freud (por isso, às vezes escrevo a palavra como in/ consciente, para dar uma ideia da continuidade entre consciente e inconsciente, como os dois lados da tira de Möbius) – como fazem as
O modelo da relação mãe-bebê
Na Teoria Bioniana de Campo (TCA), o modelo de cuidados é o processo pelo qual se cria uma nova mente na relação mãe-filho. Por isso, vale a pena dedicar algum espaço a esse modelo antes de passar a analisar algumas das ferramentas de trabalho. Diferentemente de Freud, e com Winnicott, mas, em comparação com este último, talvez de forma menos “clínica” e mais teórica, Bion coloca a relação mãe-criança no centro da psicanálise como o modelo de como se cria uma mente pela primeira vez e como ela se desenvolve. Essa é uma das principais inovações contidas no seu ensaio The Psycho-Analytic Study of Thinking (1962b), e acompanha a rejeição da oposição binária entre processos primários e secundários, e a introdução do conceito de função alfa. No entanto, em vez de um modelo mãe-filho, deveríamos falar de modelo mãe-bebê. De fato, o termo “bebê” designa uma criança que ainda não é capaz de compreender o significado abstrato das palavras. Se nos centrarmos nessa fase da relação, obtemos um modelo explicativo mais claro também da comunicação não verbal na psicanálise de adultos, um aspecto cuja centralidade fomos percebendo ao longo do tempo em qualquer análise e com qualquer tipo de paciente.
o modelo da relação mãe-bebê
A ideia que todos temos de como a mãe e o bebê se comunicam tem base no conceito de continente/contido. Essa é uma das metáforas mais conhecidas, simples, versáteis e eficazes de Bion. A criança transmite suas ansiedades à mãe. Se a mãe for suficientemente permeável e capaz de rêverie, ela permite que essas ansiedades permaneçam dentro de si por um tempo e as transforma. Depois de terem sido “mitigadas” ou digeridas, ela as devolve em uma forma que a criança possa manejar. Se, por outro lado, a mãe não for capaz de rêverie (não no sentido convencional de fantasiar, mas como forma de amar, de olhar o outro com um olhar pleno de afeto e imbuído de “pré-conceitos” sobre o que a criança se tornará), as mesmas ansiedades ricocheteiam de forma intensificada, tornando-se “terror sem nome”. A expressão é adequada pois sugere a inibição específica que pode afetar o desenvolvimento do pensamento simbólico na criança – não ter palavras para as coisas, ou ser sem nome.
Às vezes, esse modelo é entendido em sentido unidirecional demais e não contempla de maneira suficiente a reciprocidade que marca a relação, tanto quando as coisas vão bem como quando não vão. Em primeiro lugar, comecemos por um esclarecimento. Quando dizemos que a mãe “contém” as angústias da criança, não se trata de um processo meramente intencional, no sentido da consciência. Tudo viaja por canais de comunicação que não podem ser controlados diretamente. Esse fato permite desde logo afastar as interpretações simplistas de noções como a de unicidade (at-one-ment), de “continência” ou mesmo de “reconhecimento”. Em segundo lugar, perguntemo-nos: ficamos mais convencidos com a ideia de aceitação e restituição ou com a ideia de uma “dança” em que mãe e filho sincronizam, a certa altura, seus movimentos e expressões, de modo que, no final, o que temos é um sistema dinâmico capaz de transformar, em maior ou menor grau, a turbulência emocional que os permeia? A dança não se desenvolveria se apenas a criança ou apenas a mãe estivesse presente.
Como a Teoria Bioniana de Campo cura?
Neste capítulo discutirei com mais detalhes as principais ferramentas que os analistas utilizam em seu trabalho clínico no tratamento de pacientes. A ideia da caixa de ferramentas nos diz muito sobre a teoria analítica de campo. Bion deu uma contribuição superlativa à psicanálise, mas muitos autores que se inspiram em seu pensamento permanecem, em maior ou menor grau, confinados à estrutura kleiniana. Somente graças à união na Teoria Bioniana de Campo (TCA) das diversas tendências e autores examinados nos capítulos anteriores conseguimos construir uma verdadeira caixa de ferramentas. Por “ferramentas” entendo conceitos e teorias que não sejam muito ambíguos, sejam fáceis de transmitir aos outros e que sejam capazes de abrir uma nova forma de trabalhar, viva e de acordo com a epistemologia contemporânea.
Interpretação ou conversa?
Por ser importante compreender se a atmosfera emocional do campo analítico é propícia ou não à formação de vínculos, ou seja, ao crescimento psíquico – crescimento que, segundo Bion, ocorre quando se gera a “verdade”, que é o alimento da mente –, torna-se importante utilizar todas as ferramentas que nos permitam entrar em contato com esse clima. Só então podemos tentar dizer se é L (“alta”) ou H (“baixa”). Abaixo descrevo que essa tarefa é intuir o “pensamento onírico de vigília” do campo analítico para se tornar, por assim dizer, o O da sessão.
Quando o campo analítico está em modo regressivo (ou baixo, em H), o analista se depara com o problema do que fazer para voltar a ser progressivo (ou alto, em L). Na maioria das vezes, isso envolve conversar com o paciente de um modo que o faça se sentir reconhecido. Esquematizei, para fins educativos e de exercício, algumas das possibilidades disponíveis ao analista usando um acrônimo: SCREAM.1
Essa abordagem implica, para mim, que o momento (a) de interpretação marca acima de tudo a receptividade do analista ao que está acontecendo no nível inconsciente do relacionamento, enquanto o momento (b) da conversa é o termo que uso para me referir às intervenções conscientes do analista destinadas a orientar o processo analítico na direção da cura.
Em suma, para efeitos de reconhecimento, a sintonia emocional (o desenvolvimento do continente psíquico) vem antes ou é mais importante do que o acordo intelectual (a identificação do conteúdo psíquico).
Essas são as principais ferramentas para tentar adivinhar qual é a qualidade do vínculo ou do campo analítico em um determinado
1 Ver adiante.
Exemplos clínicos
A Teoria Bioniana de Campo (TCA) segue radicalmente os princípios básicos de Bion, mas também os complementa com vários conceitos originais. Acima de tudo, acrescenta uma teoria da técnica versátil em sua aplicação clínica e de fácil transmissão. Em minha opinião, isso torna as ideias de Bion verdadeiramente úteis hoje em dia e pode proteger-nos, como escreve Ferro (2017), do uso nem sempre rigoroso –uma espécie de Bion à la carte – que algumas pessoas fazem dos seus postulados fundamentais.
Em particular, gostaria de enfatizar o preceito de considerar a sessão toda e, na sessão de supervisão, também o relato anamnéstico, como um sonho – o lugar, segundo Meltzer (1984), em que se gera o significado; em outras palavras, mais exatamente, o fato de estarmos atentos a todas as manifestações do espectro onírico; além de se deixar guiar pela interação dos personagens. Os dispositivos teórico-técnicos ilustrados nas vinhetas a seguir não se encontram em Bion como tais, mas devem ser considerados um desenvolvimento criativo de suas teorias. Contudo, o conceito muito valioso de capacidade negativa/fé, que traduz e atualiza aqueles conceitos freudianos de livre
associação do paciente e de atenção flutuante do analista, herdamos de Bion da forma como são.
Para ilustrar os vários exemplos, utilizarei algumas vinhetas curtas de análise ou supervisão por motivo de confidencialidade. Tal como acontece na análise, minha compreensão e prática de supervisão envolvem mais do que apenas dar orientação sobre questões de teoria e técnica. Ao contrário, é também uma forma de me envolver com o supervisionando num trabalho inconsciente partilhado para dar significado emocional-experiencial ao modo como a sessão de supervisão em si se desenvolve. O objetivo é chegar a “sonhar” o problema que está no cerne do “pesadelo” que analista e paciente vivem.
Na sessão analítica, a experiência emocional inconsciente do par é inferida a partir do diálogo analítico durante a sessão; na supervisão, o texto a ser considerado já está escrito, mas lê-lo em conjunto em um novo contexto também significa reescrevê-lo. Em ambos os casos, trata-se de ativar um modo de escuta “integrado”, que seja ao mesmo tempo lógico e afetivo. Envolve, por assim dizer, deixar que a função inconsciente intersubjetiva (conjunta) dos personagens do paciente e do analista (ou do campo) faça seu trabalho. Espero que essas vinhetas possam dar uma ideia aproximada das novas possibilidades interpretativas proporcionadas pela TCA, apoiando-se no conceito de transformação em contraposição à distorção.
Como bem sabemos, pode-se facilmente passar horas em duas linhas de texto, o que explica grande parte do encanto da psicanálise e do jogo de interpretação. Portanto, limito-me aqui a dar exemplos muito curtos de como o analista pode ouvir o texto da sessão ou da supervisão utilizando um enquadramento de campo. Em todo caso, deve-se evidenciar a transição do trabalho baseado no conceito de distorção para o trabalho baseado no conceito de transformação. O primeiro centra-se na reconstrução do passado e na ligação do trauma à transferência e, portanto, nos mal-entendidos do paciente. Este último, embora também explore de alguma forma e inevitavelmente o
Controvérsias atuais
O que acontece com o sujeito?
Não existe mau final para isso. O lado subjetivo do que chamamos de “sujeito”, como já dissemos, é fortalecido a cada vez que tecemos os fios (elos, ligações) da intersubjetividade, se é verdade que são duas faces da mesma moeda ou como a urdidura e a trama de um tecido. Por isso é importante construir um modelo ontológico e metapsicológico convincente do sujeito: evitar a falsa dicotomia entre a subjetividade e a intersubjetividade. O fato é que quanto mais uma pessoa é “infinita”, ou seja, quanto mais fizer parte de uma comunidade humana em crescimento, mais perspectivas terá sobre as coisas e mais madura ou livre se tornará. Por outro lado, quanto mais uma pessoa fizer parte de uma comunidade limitada, obedecendo talvez em cegueira a um pequeno número de princípios rígidos, mais pobre será, carecendo da condição de ter verdadeira ação. A diferença é semelhante à que existe entre um regime democrático da mente governado por princípios éticos e um regime tirânico governado por princípios moralistas. Sob condições favoráveis, tanto o indivíduo como o grupo encontram-se numa situação benéfica para todos.
O que acontece com a realidade externa?
No entanto, a realidade externa e a história passada são objetos de intermináveis conversas com o paciente e são examinadas em todos os seus diferentes aspectos (o que mais deveríamos falar em terapias que duram anos e com frequência de várias sessões por semana?). Não obstante, nada impede a analista, em sua cabeça, de acrescentar um plano de compreensão mais sofisticado e adicional, sem necessitar explicitar nada disso ao paciente. A psicanálise tem essa qualidade específica, ou seja, o fato de se basear no conceito do inconsciente. A psicoterapia, em sua definição estrita, permanece mais no nível concreto do discurso e depende mais da compreensão racional.
Com frequência critica-se que Bion1 e a TCA desconsideram a realidade histórica e o trauma. Além do fato de essa crítica me parecer equivocada, não deixa de ser interessante se a considerarmos em termos do seu valor sintomático de identificar uma clara diferença entre teorias distantes e relacionadas. Para mim, é prova de que a TCA, quer se queira ou não, é mais radicalmente intersubjetiva do que outras, de acordo com ambos os significados que tenhamos dado a esse termo, fenomenológico e metapsicológico. O que isso significa? No que diz respeito ao plano inconsciente simétrico do campo analítico, ele é mais inclusivo. Assume mais coisas e nos oferece mais informações do que conseguiríamos de outra forma. Caso contrário, seria difícil compreender por que motivo se critica especificamente essa qualidade de inclusão radical.
Obviamente, não se trata de negar a relevância da história passada, da biografia e muito menos a importância da realidade material. O
1 Ver Bion (1967, p. 116): “alguns... objetam que a ênfase é colocada em excesso na transferência em detrimento de um trabalho apropriado de esclarecimento das memórias antigas”. Bordi (1970, p. 159, em nota), o primeiro tradutor para o italiano de Second Thoughts, comenta que esta é “uma das acusações mais recorrentes que os psicanalistas ‘ortodoxos’ formulam contra a escola kleiniana de psicanálise”.
A nova crítica psicanalítica
Uma das muitas faces da psicanálise é a sua teoria da experiência estética. Pensemos nos ensaios de Freud sobre Dostoiévski, Jensen, Leonardo, Hoffman etc. Ainda hoje a psicanálise, em especial a variante que se inspira em Lacan, está muito presente nos departamentos de humanidades das universidades. Vários autores fazem uso criativo dela. A nova crítica psicanalítica já não é a variante bastante desacreditada que colocava autores e personagens no divã e encontrava invariavelmente os mesmos complexos psíquicos, fazendo-o sem prestar a menor atenção ao aspecto essencial do produto artístico, ou seja, sua forma. A crítica freudiana mais tradicional não é, portanto, convincente, em específico quando trabalha a partir dos mesmos pressupostos positivistas que se tornaram obsoletos na teoria e na técnica de tratamento.1 Não poderíamos avaliar o significado dessa crise se não a relacionássemos com um contexto mais amplo de crise filosófica e
1 Isso não quer dizer que Freud não tenha feito contribuições clássicas imperecíveis à estética, por exemplo, com seus conceitos de estranho, transitoriedade e sublimação; e com sua análise de piadas (Witz), além do jogo Fort-da.
cultural. O assim chamado fim das “grand narratives” tornou igualmente obsoletas outras abordagens críticas fora da esfera freudiana. No entanto, devemos lembrar que a psicanálise em si deu um impulso decisivo ao estabelecimento desse clima, ao minar os fundamentos da concepção de sujeito da filosofia clássica e da psicologia.
É natural, então, que tenham havido tentativas de utilizar as novas teorias de Bion e a Teoria Bioniana de Campo (TCA) para dialogar uma vez mais com a arte. Aqui eu gostaria apenas de mencionar algumas de minhas contribuições sobre esse tema e dar uma breve descrição deles. Foi isso que tentei fazer em Losing your Head. Abjection, aesthetic conflict and psychoanalytic criticism (Civitarese, 2018): nomeadamente, inaugurar um estilo de envolvimento com a arte que não seja mais unidirecional, por assim dizer, mas inspirado por um princípio de reciprocidade. A psicanálise nos ajuda a compreender a essência da experiência artística, e a arte ilumina os processos pelos quais a experiência estética vivida na sessão analítica promove o crescimento da mente. Não apenas isso; o exercício da interpretação não visa reduzir o trabalho a algumas constantes psicológicas inconscientes invariáveis que a psicanálise é capaz de revelar. Ao contrário, procura realçar a sua ambiguidade criativa, para expandir, em certo sentido, o sonho do artista. Em essência, a obra de arte promete ajudar as pessoas que são expostos a ela a desenvolver funções em vez de encontrar verdades definitivas.
A inspiração para escrever esse texto me veio das muitas imagens de “representações sagradas” nos museus italianos, sobretudo na pintura renascentista. A chamada cena de representação sagrada ou Madona com filho me pareceu uma alegoria perfeita de uma boa relação primária com o objeto. Por outro lado, considerei a figura da Decapitação, igualmente e surpreendentemente difundida, como uma alegoria do fracasso da mesma relação. A decapitação serviu então como leitmotiv, que examinei em diversas produções artísticas, desde a literatura (Boccaccio, Thomas Mann, Corrado Govoni), ao cinema
Desenvolvimentos futuros
Intersubjetividade
Se eu tivesse que dizer quais são as linhas de pesquisa mais relevantes e interessantes atualmente para a Teoria Bioniana de Campo (TCA), indicaria o desenvolvimento de uma teoria de intersubjetividade que nos ajude a superar a visão solipsista do sujeito inaugurada por Descartes. Repito, em minha opinião, em psicanálise há pouco sentido em falar de intersubjetividade para significar apenas a interação entre sujeitos separados. O conceito de intersubjetividade tem uma história exata na filosofia, principalmente em Hegel, que não usa esse termo, mas fala de reconhecimento, e em Husserl, que é seu inventor.
Em todo caso, ambos chegam a teorizar a natureza essencialmente dialética e paradoxal da nossa humanidade; isto é, o fato de que o Ego é Ego, mas também Outro, e que somente sendo Outro pode ser ele mesmo. À medida que os interpreto, encontramos esses conceitos-chave resumidos no conceito de Bion de at-one-ment como o instante em que a “verdade” (singularmente emocional ou “semiótica”), que promove o desenvolvimento da mente, surge da interação entre a identidade e a diferença que ocorre em momentos de uníssono emocional.
A ideia central é a de que os indivíduos não são entidades isoladas que então constituem um campo comum, ou vice-versa, fazem parte de um todo homogêneo que só depois se diferencia localmente; mas são, desde o início, termos em uma relação dialética. Quando em psicanálise deixamos de pensar em termos de dialética e, ao contrário, aspiramos a uma clareza impossível, baseada em modelos dicotômicos, ficamos sempre atolados em controvérsias estéreis. Um desses modelos, baseado num par binário cujos termos estão separados por uma cesura intransitável, é aquele que se esforça para ver a inevitável e, na verdade, necessária abertura do sujeito ao outro e ao mundo.
Há uma ferida narcísica dupla que precisamos curar. Não apenas a consciência de que o Ego não é o senhor em sua própria casa, mas nem o inconsciente é. A casa do inconsciente é maior que a casa em que o indivíduo mora; é transindividual ou intersubjetiva. Esse tipo de área transcendental comum, como Husserl a chama, pode ajudar-nos a intuir como os seres humanos podem comunicar-se uns com os outros e ter empatia – e não o oposto. Ou melhor, o que é compartilhado (instintos e linguagem) e o que é distinto (corpo e consciência próprios) sempre foi pressuposto. A dificuldade de pensar nesse vínculo de coimplicação ou coexistência é que o polo do indistinto é muito menos visível do que o polo do distinto.
Assim, é possível considerar que os conceitos de subjetividade e intersubjetividade coincidem de maneira consciente e inconsciente, ou de maneira finita e infinita; no plano linguístico, com a palavra como a personificação individual de um signo e a langue como parte social da linguagem. Poderíamos separar um do outro? Infelizmente, nos nossos modelos de psicanálise fazemos isso todo o tempo, sem nem perceber. Uma disciplina que afirma confiar em sua capacidade especial de, de algum modo, dar forma e tornar visível o invisível do inconsciente muitas vezes não consegue evitar ficar cega pela poluição luminosa do cogito de Descartes. Parece pensar que a solução reside simplesmente no reforço do cogito. Mas isso não funcionará

Escrito por um dos mais renomados estudiosos da Teoria do Campo Bioniana no mundo, este volume fundamental oferece uma introdução abrangente a todos os aspectos da teoria psicanalítica do campo – uma das correntes mais dinâmicas e originais do pensamento psicanalítico contemporâneo –, propondo novas respostas para questões antigas sobre como ocorre a mudança psíquica.
Com exemplos clínicos que iluminam temas-chave da eficácia terapêutica, controvérsias atuais e possíveis desdobramentos futuros, o livro apresenta uma visão radicalmente intersubjetiva do processo analítico. Essa abordagem se concentra no plano da comunicação inconsciente comum ao analista e ao paciente, ultrapassando a divisão entre “eu” e “você” para acessar a substância compartilhada da psique. O inconsciente é tratado não como uma região infernal da mente, mas como uma função essencial da personalidade, capaz de atribuir sentido à experiência emocional.
Com exposições claras de conceitos complexos e referências a fontes mais aprofundadas, esta obra é leitura indispensável para todos os clínicos, estudantes e profissionais em formação interessados na psicanálise contemporânea.
PSICANÁLISE
