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O Estrangeiro

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Cláudia Cristina Antonelli

Cláudia Cristina Antonelli

O ESTRANGEIRO: EU E VOCÊ

Um olhar psicanalítico contemporâneo

2ª edição

Com participação de

Luís Claudio Figueiredo

Cordelia Schmidt-Hellerau

Rui Aragão Oliveira

Daniel Delouya

O estrangeiro: eu e você: um olhar psicanalítico contemporâneo, 2. ed.

© 2025 Cláudia Cristina Antonelli

Editora Edgard Blücher Ltda.

Publisher Edgard Blücher

Editor Eduardo Blücher

Coordenação editorial Rafael Fulanetti

Coordenação de produção Ana Cristina Garcia

Preparação de texto Maurício Katayama

Diagramação Mônica Landi

Revisão de texto Equipe de produção

Capa Juliana Midori Horie

Imagem da capa iStockphoto

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil

Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Todos os direitos reservados pela

Editora Edgard Blücher Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Antonelli, Cláudia Cristina

O estrangeiro : eu e você : um olhar psicanalítico contemporâneo, 2. ed. / Cláudia Cristina Antonelli. – São Paulo : Blucher, 2025.

168 p.

Bibliografia

ISBN 978-85-212-2622-2 (Impresso)

1. Psicanálise. 2. Subjetividade. 3. Psicanálise contemporânea. 4. Clínica psicanalítica. I. Título.

CDU 159.964.2

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2

Cláudia Cristina Antonelli 1. Introdução

2. O Estrangeiro

3. Os exílios: o exílio na origem da Psicanálise

4. O método

5. Os estrangeiros deste livro: recortes das várias horas de diálogo

6. Síntese: fronteiras externas, fronteiras internas –

o lugar de cada um

Pertencimento e estrangereidade:

1. Introdução

Muitos encontram-se hoje na condição de cidadão estrangeiro: ou seja, na acepção do senso comum, habitando um país que não o de sua origem. Muitos transitam de uma nação a outra: migram e imigram, expatriam-se em busca de outras formas de viver, trabalhar, desenvolver-se ou refugiar-se, como em casos de exílio, abrigo ou refúgio político, econômico, social – ou ainda refúgio psíquico.

Vivemos já há algum tempo esta era de fluxos migratórios e imigratórios em diversas direções, de forma espontânea ou terrivelmente forçada. Assistimos e vivemos já há algum tempo ao tão citado fenômeno da globalização, que, entre outras vicissitudes, coloca culturas ora remotas praticamente ao alcance das mãos; mas também termina por anulá-las em alguma medida.

Faz-se importante lembrar, no entanto, que a chamada globalização diz respeito a um fenômeno que permeia não somente os aspectos culturais de forma geral (conhece-se hoje em dia características de algumas culturas quase em todas partes do mundo), mas também – se não majoritariamente – os aspectos econômicos e políticos, nas dimensões individual, institucional e social.

o estrangeiro: eu e você

Permeia ainda, consequentemente, o sujeito humano, uma vez que essas esferas citadas são esferas do fazer humano: atravessando também sua subjetividade.

Propomos este estudo em vista a uma maior ou, ao menos, melhor capacitação nossa, psicanalistas, para uma aproximação do que ocorre em termos psíquicos nessas subjetividades inseridas neste vai e vem geográfico e cultural (em sua amplitude intra e inter). Sobretudo quando a dor se faz presente.

Porém, nem sempre a dor se faz presente. Em algumas destas situações de pessoas em trânsito por entre nações, às vezes parece não existir para o sujeito o registro de um sofrimento psíquico, ao menos manifesto. Não há dor? Não há tempo para a dor? O modo sobrevivência/adaptação predomina em detrimento de um maior contato com os próprios afetos?

São muitas as perguntas, enquanto a dúvida e o desejo de saber melhor permanecem: o que se dá na esfera psíquica deste sujeito que se encontra fora de seu país? Quais os registros psíquicos dessa situação/condição?

Em nossa pesquisa teórica inicial acerca dessas perguntas, encontramos vários autores nos falando desse assunto, desde León Grinberg e Rebeca Grinberg (1984) e outros de seu tempo e momento, pensando e publicando em relação aos exílios sobretudo políticos sul-americanos; passando por Caterina Koltai (2000) e sua reformulação do conceito de estrangeiro, vindo a propô-lo enquanto um conceito-limite entre o social e o psíquico; assim como Joyce Kacelnik (2010) e sua clínica em São Paulo; até a etnopsiquiatria e a etnopsicanálise de Tobie Nathan (2001), a partir dos primeiros estudos de Georges Devereux e François Laplantine; chegando aos franceses Lagarde (2004) e Segers (2009), entre muitos outros.

Voltamos então nosso olhar – não pela primeira vez na história da Psicanálise (conforme veremos no capítulo “O Estrangeiro”) – ao

2. O Estrangeiro

O estrangeiro – em princípio, aquele que se desloca para além das fronteiras de seu país, o que pode ser o imigrante, o exilado, o expatriado, o viajante, o refugiado – ou até mesmo o turista.

Por um lado, lembra-nos Koltai (2000), falar do estrangeiro pode nos remeter a aspectos relacionados a algo idealizado do exótico, do “livre” – ao menos de uma suposta liberdade. Aquele que se desprende de sua terra e suas origens, provido de certo mistério, de certo poder. Ainda, lembra-nos a autora, na mitologia grega, Hermes – o deus mensageiro – era um dos mais amados pelos homens. Viajante, “sempre entre o aqui e o lá distante: aquele sem fronteiras”, corresponderia em alguma medida a essa ideia. “A divindade responsável pela passagem do estado de vigília ao sono, pela passagem da vida à morte, do mundo dos deuses ao mundo dos homens” (p. 49). Aquele que atravessa as fronteiras, e os supostos opostos.

Complementa Kacelnik (2008):

Não podemos deixar de considerar que o estrangeiro gera, ao mesmo tempo, estranheza e provoca inquietação,

o estrangeiro: eu e você

curiosidade e fascínio; seu sotaque atrai por ser inusitado e faz com que notemos que sua língua materna permeia todo o seu discurso e se impõe de tal forma que sabemos estar diante de alguém que busca ser compreendido na sua singularidade. (p. 100)

A autora se servirá ainda de Fédida para relembrar que, na fantasia infantil, é sem dúvida o estrangeiro quem desempenha por excelência o papel de sedutor. “Uma vez que causa impressão e desaparece, levando consigo o desejo que capturou. A ambiguidade de sua aparência faz com que ele tome corpo no sonho e esvaneça ao despertar – alimentando, no entanto, uma expectativa de retorno” (Fédida, citado por Kacelnik, 2008, p. 100).

Contudo, falar do estrangeiro, ou ainda do estranho, em outras acepções, conforme veremos, não são falas novas. Nem na voz das ciências, tampouco na da literatura não científica.

Começamos a ter notícias dele – do estrangeiro viajante –, de forma mais organizada como primeiros registros de viagens, com as viagens marítimas entre os séculos XIV e XVIII, à época uma forma de literatura importante e bastante apreciada. Temos entre estes A descrição do mundo e As viagens, ambos do grande navegador Marco Polo (c. 1315); de Américo Vespucci, também navegador, seu Mundus Novus (1503); de Jean de Léry, História de uma viagem feita na terra do Brasil (1578); e, mais tarde, de Denis Diderot, O suplemento à viagem de Bougainville (1772), entre outros.

Com um salto em direção a nossos tempos, encontramos alguns clássicos da literatura, como o tão conhecido L’Étranger (O Estrangeiro), que valeu a Albert Camus o Prêmio Nobel de Literatura (1942), no qual o protagonista seria “como um estrangeiro, não em

3. Os exílios: o exílio na origem da Psicanálise

Como mencionado anteriormente, o exílio e o migrar sempre estiveram presentes não somente enquanto objeto de interesse da Psicanálise, mas antes disso, em sua própria história – de suas pessoas. Que é, desde seu início, repleta de migrações. Muitos analistas migraram ou foram exilados. Mas antes mesmo, seu fundador, Freud, ele próprio foi sujeito do deslocamento e do exílio – mais de uma vez.

De família judia, chegou a Viena aos 4 anos de idade, vindo de Freiberg, pequeno vilarejo da então Tchecoslováquia. A segunda vez, em 1938, de Viena a Londres, graças aos esforços de uma de suas pacientes tornada amiga (Marie Bonaparte, conforme sabemos), que lhe garantiu a vida por mais um ano, quando os terrores da guerra e da perseguição aos judeus pairavam sobre a Europa e sobre seu consultório.

Reproduzimos aqui um trecho de sua primeira carta, depois de sua chegada a Londres, às vésperas do início da segunda Grande

o estrangeiro: eu e você

Guerra. Carta esta dirigida a Max Eitingon, um de seus primeiros discípulos, que fez, com outros, parte do Grupo das Quartas-Feiras:

6-6-1938 – Querido amigo, Não tenho sido pródigo em notícias durante estas últimas semanas. Para compensar te escrevo a primeira carta na casa nova... Tudo continua irreal, como em um sonho, e isto poderia ser a maravilhosa realização de um desejo onírico, não fosse . . . A atmosfera destes dias é difícil de captar, para não dizer indescritível. Ao sentimento de triunfo que experimentamos ao nos vermos em liberdade, se soma uma porcentagem excessiva de tristeza, pois, apesar, de tudo, eu amava imensamente a prisão da qual me libertaram. O deleite de tudo que nos rodeia, se mistura ao descontentamento originado das peculiaridades do ambiente estranho. (S. Freud em Grinberg & Grinberg, 1984, p. 254-256, TDA, grifo nosso)1

Na década de 1970, na Filadélfia, Estados Unidos, um trabalho intitulado Psicoanalistas pioneiros sobre sua experiencia migratoria2 registrava a presença de muitos psicanalistas exilados nos Estados Unidos nas décadas de 1930 e 1940, cuja presença fora crucial para o desenvolvimento da Psicanálise naquele país.

1 Querido Amigo: No he sido pródigo en noticias durante estas últimas semanas. Para compensar te escribo la primera carta desde la nueva casa... Todo sigue irreal, como en un sueño, y esto podría ser la realización maravillosa de un deseo onírico, si (...) La atmósfera de estos días es difícil de captar, por no decir indescriptible. Al sentimiento de triunfo que experimentamos al vernos en libertad, se suma un porcentaje excesivo de tristeza, pues, a pesar de todo, yo amaba grandement la prisión de la que me han liberado. Lo deleitoso de cuanto nos rodea... se mezcla con el descontento originado por las peculiaridades del ambiente extraño.

2 Psicanalistas Pioneiros sobre a Experiência Migratória.

4. O método1

Em busca dos sujeitos para esta pesquisa, delimitei entrevistar pessoas que tivessem vivido em outro(s) país(es), distinto(s) daquele(s) de sua origem, por pelo menos dois anos.

O país de origem assim como o de destino não foram predeterminados, partindo do pressuposto de que a experiência do sujeito enquanto estrangeiro não estaria a priori atrelada a nenhuma cultura específica nem de origem, nem de destino, mas ao trânsito entre elas.

Porém, apesar desta não determinação do país de origem nem de destino, circunscrevi o idioma: optei por restringir que o idioma de origem (ou de grande domínio por parte do sujeito entrevistado) fosse o português, inglês, francês ou espanhol – idiomas de meu domínio, com os quais poderia efetuar a entrevista e o posterior registro escrito sem necessitar de tradutores/intérpretes.

1 Neste capítulo passarei a utilizar o pronome pessoal eu em lugar de nós, por se tratar agora não mais da interlocução com o grupo de pesquisadores, mas a metodologia que descreverá a mim somente enquanto pesquisadora a encontrar-me com os sujeitos da pesquisa.

78 o estrangeiro: eu e você

Assim, as entrevistas e o questionário desta pesquisa foram realizados no idioma de origem dos sujeitos (todos os quatro idiomas mencionados foram utilizados).

Tanto as entrevistas quanto o questionário se encontram integralmente transcritos e anexados à monografia da pesquisa (arquivados). Os trechos utilizados para a discussão no corpo do trabalho foram por mim vertidos para o português e revisados.2

Realizei primeiramente três entrevistas-piloto: duas no formato de entrevista pessoal e uma em forma de questionário escrito, enviado via e-mail. Essa separação entre entrevista e questionário se deu de acordo com o acesso ao sujeito: aqueles que residissem relativamente próximos ao local da pesquisa seriam entrevistados pessoalmente, aqueles que residissem longe – como em outro país – seriam “entrevistados” via e-mail.

Realizei dez entrevistas ao todo: cinco pessoalmente, cinco via e-mail. Dessas dez no total, cinco permaneceram neste trabalho – das quais somente uma foi feita via e-mail (as quatro outras entrevistas foram realizadas pessoalmente).

Estas seleções – cinco entre dez entrevistas realizadas, assim como, entre as cinco, uma via e-mail – se deram por critério de conteúdo: critério este subjetivo e qualitativo. Ou seja, a entrevista pessoal de modo geral, mostrou-se mais rica em conteúdo e contato intersubjetivo entre o sujeito e a pesquisadora, do que a entrevista escrita.3

2 No caso do questionário escrito, este foi realizado em inglês com o sujeito “Mauli”, suíça de origem, mas à vontade com o inglês atualmente.

3 Cabe mencionar que esta escolha não foi difícil. Curiosamente, os casos que permaneceram mostraram-se muito ricos, enquanto os que não permaneceram nitidamente não o poderiam – como no caso dos questionários nos quais, por alguma razão, muitas das respostas se limitavam a “sim” ou “não”, ou da entrevista que, por parte do sujeito, direcionou-a quase exclusivamente a questões de

5. Os estrangeiros deste livro: recortes das várias horas de diálogo1

Laura

“Bem, de início eu saí de minha cidade, para Paris. É curioso. Na verdade, agora que falo, eu vejo esta passagem como um verdadeiro desenraizamento – foi realmente um desprendimento: deixei os amigos, a família. Quando voltava alguns finais de semana, sentia que ‘não era mais de lá’. Por outro lado, em Paris, também não me sentia à vontade . . . E eu tinha dificuldade em fazer novos amigos, em ‘encontrar as coisas’... Sentia-me um pouco desenraizada em ambas as cidades . . . Eu tinha esta sensação de rejeição, de que lá não era meu lugar. Demorou para eu tomar a decisão de partir. Eu era bastante jovem, estudando a cultura latino-americana. Meu pai é argentino. Talvez um pouco para compreendê-lo, ele, sua família . . . Era bastante angustiante, em realidade. A gente ia de vez em quando visitar a família. Então tinha sempre essa espécie de ‘mundo à parte’, lá. Eu... meu pai não nos ensinou o espanhol, por exemplo. Eu tive que me virar para aprendê-lo . . .

1 Agradeço, in memoriam, a Roosevelt M. S. Cassorla, pelos diálogos e pensamentos compartilhados sobre esta parte: o encontro com os sujeitos desta pesquisa. Foram cinco encontros com Cassorla nessa ocasião, em seu consultório em Campinas, um para cada uma destas entrevistas, com o intuito de ajudar-me a pensá-los.

o estrangeiro: eu e você

Eu me sentia culpada. Mas, sabendo que eu não poderia mudar esta situação, decidi partir... deixando aquilo tudo para trás.

(O Brasil) Acho que chegar a um país estrangeiro, realmente, é isso. Chegar a um país estranho. Completamente diferente. E eu acho que eu não queria, na verdade... chegar a um lugar onde eu não conhecia nada... onde nem tivesse vontade de fazer um esforço para me aproximar de tudo isso... de fazer as coisas que geralmente se faz quando se chega a um país estrangeiro: descobrir a cidade, aprender a língua. Eu não tinha nada para fazer e não tinha energia, então, nem sabia muito bem como ir ‘buscar pedaços de vida’ . . . [Um lugar onde] sou sempre um pouco ‘esquisita’, desajeitada, ignorante, dependente. Eu não tinha feito esta escolha, na verdade. Enfim, não conscientemente. No começo fiquei bem mal, sem nada a fazer . . . e somente um ano mais tarde, que eu entendi o que eu tinha feito. Que eu tinha decidido me colocar assim: chegar aqui sem projeto, sem visto... sem falar a língua . . . Eu entendi que escolha havia feito!

. . . De repente, no Brasil, vivendo dentro de um condomínio. Eu via muros e muros [de condomínios] ao redor das ruas, sem calçadas, não via pessoas andarem, só carros. Na verdade, eu estava completamente deslocada. Não entendia nada. E eu não tinha entusiasmo, alegria, energia. E em cima disso, a culpa, de não tê-los – por estar num país que faz sonhar a tanta gente... Eu me sentia muito culpada.

Mas aí eu me casei e comecei a aprender o português, e minha mãe veio para meu casamento. Isto foi imprescindível: minha mãe veio para meu casamento . . . Porque se ela não tivesse vindo... esse casamento, esse país, essa família diferente... eu acho que tudo isso teria sido completamente irreal . . . Poderia estar em qualquer lugar: aqui ou ali, não importa. Eu entendi que estava só.”

Laura, em meu livre sonhar, parece ter saído em busca de um sentido, da possibilidade de uma coesão, em sua própria história. Seu

6. Síntese: fronteiras externas e internas – Ou: o lugar de cada um

Nesse instante – em que a imagem se esquiva e o espelho se despovoa –, domina a paixão narcísica prometida pelo reino do “eu-ideal”. Salvo se uma repentina interrupção da embriaguez provoque o despertar, percebendo-se assim com horror que a imagem de si mesmo, tão amada por sua infinita indiferenciação, tornou-se monstruosa . . . Jacques Hassoun

Ao escutar estes cinco sujeitos em trânsito pelo mundo com experiências fora de seu local de origem, deparei-me com a especificidade e particularidade dos movimentos de cada um, em seus trânsitos pelo mundo: cada história é própria e única.

Vislumbrei o quanto as dinâmicas subjetivas próprias – incluindo aspectos e processos inconscientes – se fazem presentes no percurso de cada um, inclusive em suas experiências enquanto “estrangeiros”: quando, como e por que migram, mudam de país, de cultura, de referenciais.

o estrangeiro: eu e você

Com o risco de um reducionismo (acreditando, porém, que sintetizar não seria o mesmo que simplificar), ousaria inferir alguns elementos na essência de seus deslocamentos, assim como de alguns aspectos aparentemente em comum entre eles.

Se quisermos começar por pensar em algo da ordem do comum, esse pensamento se assemelharia, talvez, e ao menos em alguns de nossos sujeitos (não todos), a algo que diria respeito a uma falta – e, por consequência, a uma busca que os movia.

Como em Laura, que parecia buscar o encontro com ou a reconstrução de uma parte de sua história, aparentemente fragilizada, apartada. Ao mesmo tempo que, na própria história de Laura, entre outras coisas, poderíamos talvez encontrar algo da ordem do tentar “deixar para trás”: “Saí, para deixar algo para trás...”, disse-nos Laura, Michel (onde “foi forjado e machucado”) e Raul, de forma distinta.

Acredito termos podido observar como o movimento de partir de cada um deles parece ter sido de fato galgado fruto de outros momentos e vivências. Às vezes, em questões até mesmo iniciadas em gerações anteriores, como nas questões transgeracionais: como parece termos visto um pouco em Laura (com a história de seu pai), em Raul (com as gerações que o precediam), em Mauli (em suas raízes gregas aparentemente distanciadas, logo no início de sua história) e também em Michel, tendo na mãe uma primeira migração que o remete a alguns registros de preconceito, segundo conta.

Escutei todos eles – com exceção de Raul talvez – falar de uma boa “dose” de idealização (certamente necessária) quando da chegada ao país estrangeiro: Lino, ao partir em direção à França (o país “de sua infância”); Laura, vindo ao Brasil (“o país que faz sonhar”); Mauli, que se apaixona por este país “quente o ano inteiro”; e Michel, que também se apaixona pelo Brasil, ao ver aqui “todo um outro lado”.

Parece-me interessante também perceber como o colorido de certa forma “glamoroso” que se pinta em torno daqueles que “viajam

7. Um lugar de destinos cruzados

Derrida (citado em Oliveira, 2002) descreve: “Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo” (p. 26).

Ora, a fala de qualquer sujeito revela isto afinal: que o texto, inconsciente, ao primeiro olhar ou à primeira escuta, permanece oculto. Em suas entrelinhas, em seu subtexto, ou seja, em seu texto latente. Com nossos sujeitos, não é diferente.

Em cada um, o trânsito por entre países deve ocultar, em realidade, as regras de seu jogo. Como se os bastidores de seus percursos encobrissem, por trás das cortinas, algo mais que os seres errantes que vemos sobre o palco.

No livro O castelo dos destinos cruzados (de Ítalo Calvino, Itália, 1969), num castelo-hospedaria em algum lugar no mundo, estrangeiros de diferentes origens, vindos de diversos lugares, se hospedam e se encontram, então, “juntos por acaso”.

Sobre uma grande mesa na sala principal, um jogo de tarot com as cartas espalhadas conta-lhes suas sortes. Eles as colhem, e as decifram.

o estrangeiro: eu e você

Oliveira (2002) assim o define: “Representa a vida humana como uma obra aberta”.

Em O Castelo dos destinos cruzados os caminhos se bifurcam, oferecendo uma multiplicidade de escolhas. A narrativa de “Rolando louco de amor” termina acentuando a importância da mobilidade, como já dissemos, o mote das paixões humanas” (p. 65, grifos nossos).

A carta que encerra a narrativa do livro é O Pendurado: a figura de um homem pendurado pelo pé esquerdo, de cabeça para baixo, com a qual Rolando (um dos personagens da narrativa de Calvino) concluirá, de forma enigmática: “Deixai-me assim. Dei a volta completa e compreendi. O mundo lê-se ao contrário. Tudo é claro”.

Apesar de sua condição – de ponta-cabeça e amarrado por um único pé –, a figura não demonstra, curiosamente, nenhuma dor ou desconforto. Ao contrário, a feição de seu rosto parece fazer prova de algum contentamento – ou de alguma paz, enfim, encontrada. A paz que Rolando, protagonista de Calvino, parece também experimentar, após “ter dado a volta ao mundo” e encontrado então, supomos, um lugar em si.

Assim como quem parte, talvez, sem imposição externa: buscando um lugar. Mas, antes de tudo, um lugar em si, mais confortável. Em realidade, mais de encontro, talvez consigo mesmo. Não importa onde.

8. Considerações finais: temporárias

A questão é, agora, ao final e a título de problematização: qual o lugar que o estrangeiro seguirá tendo no mundo? Conseguirá seguir existindo – ou seja, mantendo seu lugar e sua expressão, sem ser atacado, eliminado, escravizado, dissipado, ignorado ou ainda invadido? Ou ainda seguirá mesclando-se, mas sem se confundir? “Sem identificação, ignoramos o outro; sem o brilho da diferença, perde-se a si mesmo”, afirma Tzvetan Todorov. Mas, afinal, qual a medida?

O suposto diferente/estrangeiro dentro e o diferente fora, o diferente simplesmente encontrará sempre um lugar ao sol, em nossa Cultura? Novamente, até onde essas fronteiras se encontram e/ou se distanciam. Neste movimento de tentativa de “equalização” do mundo (via globalização), às vezes o que vemos é a polarização, os extremos.

Nos processos de subjetivação do sujeito humano, marcados pelas vicissitudes próprias de cada tempo, como será o processo hoje, marcado pelas vicissitudes de nosso tempo? Entre estas, as inúmeras migrações, que, conforme vimos em nossos autores, deixam marcas?

o estrangeiro: eu e você

Mas quais serão essas marcas, afinal, nas subjetividades dos novos séculos, atravessadas por multiculturas? As diferenças, poderão elas ser preservadas? A quem importará, e a quem não importará? Pois sempre a alguns importa, e a outros não.

Vemos, atualmente, em microssistemas tais quais escolas internacionais, crianças sendo educadas e vivendo processos de indiscriminação: tolerância e cooperação indiferentemente à origem cultural de seu pequeno colega estrangeiro, desde muito pequenas. Sendo educadas em vários idiomas – e, portanto, de acordo com culturas diferentes – de forma também, tentativamente, indiscriminada.

Ou seja, milhares crianças crescendo bilíngues ou poliglotas com a naturalidade de falantes nativos, em suas escolas ou famílias pluriculturais – atravessadas, portanto, não somente por esses vários idiomas, mas também por circuitos cultural-linguísticos múltiplos.

Assim, a criança que originalmente aceita pouco as diferenças –se não nenhuma –, discriminativa e preconceituosa em sua origem, agora crescendo em meios mais multiculturais que antes (falamos certamente de uma parcela circunscrita da população, a título de reflexão), pode vir a ocupar o lugar de um adulto diferente? Mais acostumado ele próprio às diferenças? Ou o mundo globalizado, irá ele próprio se encarregar de minimizá-las? Tal qual também vemos: a eliminação do “outro” em sua diferença e especificidade.

Vemos que se trata de vias diferentes. A primeira, de um suposto processo de educação em relação à aceitação do diferente e do estrangeiro – e não ao apagamento deste –, enquanto a segunda seria justamente esta outra faceta da moeda.

Em outras palavras: será sempre o estrangeiro uma questão? Seu rosto, seu sotaque, sua origem: nos deixará ainda intrigados com sua presença? Lançamos essa pergunta para a abertura de uma reflexão para aqueles que seguirem escutando, pensando e estudando o tema.

Uma pesquisa sobre o sujeito estrangeiro, motivada por uma década vivendo no exterior, marcou, há dez anos, a estreia de Cláudia como autora na psicanálise. Nesse campo, o estrangeiro é um conceito crucial: de um lado, representa a sedução infindável do inconsciente, do sexual, que nos constitui e se projeta em objetos e ambientes; de outro, ameaça nossa aconchegada familiaridade, evocando o terror da perda de limites de si e provocando expulsão, rechaço e abjeção. Assim, surgem os “refugiados” e “emigrantes” de nossas almas, cujas manifestações encontram eco no social e político. Como ilustração, nessa década, entre a primeira e a segunda edições deste livro, a Europa ficou ameaçada pelos refugiados sírios e, recentemente, os incentivou a retornarem ao país de origem, agora livre de seu ditador criminoso. Neste livro, a escuta de migrantes ou exilados, fora de processos psicanalíticos, revela tramas transgeracionais que iluminam os encontros entre o inconsciente do sujeito, suas buscas migratórias e as reações que enfrentam.

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