

AS ORIGENS DA CRIATIVIDADE
E DA ESPERANÇA
Reflexões psicanalíticas a partir de Melanie Klein e Donald Winnicott
Maysa Bezerra
As origens da criatividade e da esperança: reflexões psicanalíticas a partir de Melanie Klein e Donald Winnicott
© 2025 Maysa Bezerra
Editora Edgard Blücher Ltda.
série academia de psicanálise
Coordenadora Marina F. R. Ribeiro
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenador editorial Rafael Fulanetti
Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia
Produção editorial Andressa Lira
Preparação de texto Regiane da Silva Miyashiro
Diagramação Thaís Pereira
Revisão de texto Ariana Corrêa
Capa Departamento de produção
Imagem da capa iStockphoto
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Bezerra, Maysa
As origens da criatividade e da esperança : reflexões psicanalíticas a partir deMelanie Klein e Donald Winnicott / Maysa Bezerra. – São Paulo : Blucher, 2025.
272 p. – (Série Academia de Psicanálise / coord. Marina F. R. Ribeiro)
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2658-1 (Impresso)
ISBN 978-85-212-2655-0 (Eletrônico – Epub)
ISBN 978-85-212-2656-7 (Eletrônico – PDF)
1. Psicanálise. 2. Clínica psicanalítica. 3. Klein, Melanie, 1882-1960. 4. Winnicott, D. W., 1886-1971. I. Título. II. Ribeiro, Marina F. R. CDU 159.964.2
Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
Prefácio
Marina F. R. Ribeiro
Introdução: mapa breve do sentido 23
Parte I – Primeira margem do rio
O fio que tece a criatividade e a esperança em Melanie Klein 31
1. Ferir, perder e amar: travessia da posição depressiva guiada pela ópera L’Enfant et les Sortilèges 37
2. Os abismos da entropia psíquica da posição esquizoparanoide no filme Sete minutos depois da meia-noite 75
3. Inveja e gratidão nas tramas do mundo interno à luz do conto “A legião estrangeira” 101
Parte II – Segunda margem do rio
Winnicott e a arte do viver criativo como anúncio da esperança 135
4. O ambiente como anteparo psíquico no filme A vida é bela 141
5. A esperança que habita e resiste no gesto vital 175
6. A criatividade e a esperança nas bases do vir a ser: um encontro possível?
Epílogo: no caminho entre pedras e roseiras, um poema
Posfácio: o que se pode ganhar com um bom encontro e uma boa conversa
Ana Elizabeth Cavalcanti
Referências
227
235
245
251
Prefácio
Marina F. R. Ribeiro1
Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele. Aos que a fama bafeja Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade É sol, virá a noite. Mas ao que nada espera Tudo que vem é grato. Fernando Pessoa, “Quero ignorado, e calmo”
Sinto-me privilegiada de fazer parte da eclosão de criatividade e esperança que este livro de Maysa representa. Ao longo dos últimos anos,
1 Psicanalista, Profa. livre-docente IPUSP; coordenadora do LiPSiC. Autora de vários livros, os mais recentes: Conversa sonhante: a função psicanalítica da personalidade (Blucher, 2025); Coautora em Chuva n’alma: a função vitalizadora do analista (Blucher, 2023) e Por que Klein? (Zagodoni, 2018); organizadora de Por que Ogden? (Zagodoni, 2023) e Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (Blucher, 2023). Coordenadora da série da Blucher: Academia de Psicanálise. Publicações em inglês: Reading Bion’s Transformation (Routledge, 2024) e Why Ogden? The importance of Thomas Ogden’s Work for Contemporary Psychoanalysis (Routledge, 2025).
16 as origens da criatividade e da esperança
venho, cada vez mais, a cada trabalho concluído, considerando que a questão que nos conduz na pesquisa psicanalítica é aquela que conseguimos alcançar e expressar do enigma que nos habita e nos move como seres únicos que somos. Quanto mais próximos e perturbados pelo enigma formos, mais autoral é o texto. A escrita de Maysa é extremamente implicada, transparece no seu texto a dor e a beleza de ser quem se é!
Uma pesquisadora jovem que se dedica com tanta perspicácia à apreensão e à transmissão do pensamento kleiniano me provoca um discreto sossego. É reconfortante saber que alguém competente levará adiante o legado de Melanie Klein. Maysa tem se debruçado sobre o pensamento kleiniano de forma criativa, e, por que não dizer, inovadora, anunciando uma nova geração de psicanalistas, com o frescor matinal que anuncia algo novo. Vejam que bela descrição da obra de Klein:
Capaz de circular entre arcos viscerais e sensíveis, Klein convida a um mergulho nos assombros e abismos humanos, explorando os mais profundos conflitos e insanidades que a mente pode alcançar. Ao mesmo tempo, destaca a potência da vida, que impele o indivíduo a escapar dos mais terríveis padecimentos ao contornar com letras e imagens aquilo que parece incognoscível: a brutalidade e a violência do inconsciente. (Epílogo)
Maysa tem uma capacidade surpreendente de metaforizar e transformar o árduo da teoria em uma narrativa poética e fluida, que o leitor acompanha com prazer. Ela apresenta tanto o arcabouço teórico kleiniano como o winnicottiano, construindo metáforas surpreendentes.
Sucintamente, este livro é uma consistente pesquisa teórico-clínica sobre os fenômenos da criatividade e esperança, bem como da desesperança e destrutividade. Maysa apresenta e articula conceitos da obra de Klein e Winnicott, por meio de vinhetas clínicas, contos e filmes,
Introdução: mapa breve do sentido
Deixe que tudo aconteça a você Beleza e terror Apenas prossiga Nenhum sentimento é definitivo. Rainer Maria Rilke, 20061
Deitada na cama, em meu quarto escuro, um barulho me desperta. Abro os olhos lentamente e percebo que é o despertador tocando mais uma vez, enquanto o dia amanhece. Começa um novo dia de trabalho, e eu preciso me levantar.
Essa vinheta apresenta um evento corriqueiro, mas capaz de provocar múltiplas reações nas pessoas. Algumas acordam agradecendo por mais um dia, vão até a janela para acompanhar o nascer do sol e sentem a vida pulsar em si após o primeiro gole de café. Outras já despertam pensando no dia árduo que terão pela frente, irritam-se pelo sono interrompido e ativam o modo “soneca” do despertador repetidamente, na tentativa de ganhar alguns instantes de gratificação. Há, ainda, aquelas que nem sequer conseguem se levantar da cama, acordam sem saber exatamente o horário ou o dia da semana e demonstram total indiferença pela própria vida.
1 Let everything happen to you: beauty and terror. Just keep going. No feeling is final.
É relevante analisar o que leva diferentes indivíduos a percorrer, ao longo da vida, cada uma dessas experiências. A depender do que os atravessa – o sublime ou o trágico, abertura ou fechamento, perseverança ou paralisação –, cada pessoa pode se aproximar de qualquer situação mencionada, oscilando entre estados de ordenação e de caos.
Como escreveu Rainer Maria Rilke (2006), citado na epígrafe desta introdução, viver é poder transbordar-se de beleza e terror. Certamente, isso ocorre quando alguém, mesmo imerso em tristezas e angústias, consegue pensar no futuro, ser benevolente e sentir gratidão. Por outro lado, há casos em que as contingências conspiram a favor de uma pessoa e, embora ela receba muito amor de seus pares, enxerga a vida com cores cinzas e nebulosas. Também é comum encontrar indivíduos que transformam grandes sofrimentos em histórias bem-humoradas para compartilhar, enquanto outros se mantêm acorrentados a um ressentimento sem fim.
Isto posto, a questão levantada é: em termos psicanalíticos, que motor, mais ou menos invisível, incita ou impede alguém de realizar determinados trabalhos psíquicos? O que motiva a viver e o que provoca o anseio de morrer?
Ao tentar responder a essas indagações, inúmeras associações podem ser feitas. Neste livro, escolho seguir um caminho que evidencia a ligação dessas questões com as manifestações emocionais de esperança e desesperança, assim como à criatividade, à destrutividade e à submissão. Esses termos evocam movimentos de vida e de morte que atravessam, em maior ou menor grau, todos os indivíduos.
Esses fenômenos circulam cotidianamente no mundo e, embora muitas vezes não sejam nomeados, continuam sendo vividos. Assim, todas as reflexões deste texto serão fundamentadas no entendimento de que, nos acontecimentos humanos, essas manifestações psíquicas estão quase sempre entrelaçadas, influenciando-se mutuamente e formando uma complexa estrutura de elos e oposições. Retomando-os em
O fio que tece a criatividade e a esperança em Melanie Klein
Decepar a cana Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel Se lambuzar de mel. Chico Buarque & Milton Nascimento, 1994
Apesar de ser conhecida como “açougueira inspirada”,1 Melanie Klein (1882-1960) construiu uma obra que reúne originalidade, astúcia, sensibilidade, delicadeza e intuição para lidar com o mundo infantil e o inconsciente. A psicanalista vienense foi pioneira em transformar o freudismo, trazendo uma inovação histórica, metapsicológica e clínica à abordagem psicanalítica. Segundo Cintra e Figueiredo (2010), Klein manifesta, em sua escrita, uma inegável fecundidade intelectual e imagética para caracterizar o intangível e o abstrato do funcionamento psíquico.
Pode-se dizer que Klein encarava tanto sua história pessoal quanto seu ofício com total liberdade de espírito – um aspecto que marcou profundamente as mudanças em seu método. Esse traço peculiar
1 Termo cunhado por Lacan (1958/1966) para descrever uma forma de escrita frequentemente considerada crua, bruta ou grotesca, destinada a abordar as dinâmicas pulsionais do inconsciente ou as “vísceras da vida psíquica” (Cintra & Figueiredo, 2010, p. 24).
tornou-se evidente em seu estilo analítico, amplamente reconhecido após os trabalhos inaugurais realizados com crianças.
Os textos iniciais, especialmente os da década de 1920, revelam seu desejo em integrar a análise à educação infantil. Ainda que alguns considerassem essa ideia utópica, Klein acreditava ser possível evitar o adoecimento e restabelecer a saúde mental dos indivíduos, utilizando a psicanálise como meio para promover o progresso da humanidade e da cultura (Klein, 1921/1996a). Tal perspectiva fica evidente em sua proposta de formular uma psicanálise capaz de remover inibições, permitindo que as crianças retomassem o percurso do aprendizado pedagógico (Klein, 1923/1996b). Esse processo facilitaria o trabalho do educador, aumentaria o prazer do aluno em aprender e, como consequência, auxiliaria o desenvolvimento infantil.
Para Klein (1932/1997), a análise de crianças pequenas permitiu mapear, de forma global e complexa, o funcionamento psíquico, revelando muito mais aspectos do que a análise de adultos havia viabilizado até então. Por esse motivo, ela acreditava que seu método promoveria uma expansão acurada da teoria psicanalítica. Discípula de Klein, Hanna Segal (1987/1996) descreveu alguns aspectos do trabalho da mestra:
Sua abordagem se caracterizava por grande convicção na validade do método psicanalítico de Freud e pela fé de que, em toda criança, assim como em todo adulto, apesar de toda a resistência e das defesas, há o anseio e o prazer pela verdade. (p. 10)
A autobiografia de Klein (1959/2019) também reflete seu intento, em momentos próximos ao final da vida, de que outros clínicos e pesquisadores adotassem seus estudos e teorias: “Tenho, agora, um misto de resignação e alguma esperança de que meu trabalho talvez afinal sobreviva e seja de grande ajuda para a humanidade” (p. 126).
1. Ferir, perder e amar: travessia da posição depressiva guiada pela ópera
L’Enfant et les Sortilèges
Vencido, exausto, quase morto cortei um galho do teu horto e dele fiz o meu bordão. Guilherme de Almeida, 2019
Uma criança está às voltas com o seu dever de casa, mas encontra-se aborrecida com a tarefa designada. Caminha pelo quarto, observa os detalhes ao seu redor e se entretém movimentando o próprio corpo, enquanto o tempo teima em passar com lentidão, já que não está envolvida em atividades que lhe proporcionam verdadeiro prazer. Tudo isso ela expressa nos seguintes dizeres: “Eu não aguento tanto estudo! Eu queria mesmo era ir passear! Comer todos os doces que eu quiser, puxar ou cortar o rabo do gato e do esquilo. Poder dar muita bronca na mamãe e colocar o mundo inteiro de castigo!”. E não é exatamente isso que as crianças desejam quando estão dominadas pela onipotência e pela voracidade, como se, indiscriminadamente, pudessem conquistar e devorar tudo o que existe no mundo?
No entanto, o menino logo escuta um barulho que o assusta: é a mãe caminhando pelo corredor, indo ao seu encontro com chá e biscoitos, como uma forma de expressar amor e cuidado. Ela consegue se identificar com ele a ponto de saber que esse gesto de preocupação
38 as origens da criatividade e da esperança
pode lhe trazer algum alento ou satisfação, tornando o momento do dever menos penoso.1
Ainda assim, o menino não se gratifica e continua aborrecido. A mãe o questiona: “Você se comportou bem? Fez a lição?”. Insistindo para que ele conclua a tarefa, seus esforços acabam sendo em vão. O menino esperneia, intransigente, recusando-se a ceder. Em seguida, ela pergunta, já descontente: “Você não vai me pedir perdão?”.
Dominado pelo próprio ódio contra tudo e todos, a criança parece incapaz de encontrar uma saída para o impasse. Nesse momento, o garoto se rebela, entra em estado de fúria, começa a fazer caretas, corre, esconde-se e protagoniza uma série de birras e ataques. Até que, finalmente, a mãe perde a paciência.
Ela o tranca no quarto e declara que o filho está de castigo, podendo sair somente após concluir o dever de casa. Antes disso, exige: “Quero que você pense sobre o que me fez passar. Estou muito triste com essa situação”. Após fechar a porta, o menino berra: “Não estou nem aí, eu quero mesmo ficar só! Eu te detesto!”. Dominado pelo ódio, o menino ignora o quanto o amor da mãe é essencial para sua vida.
Assim tem início a obra musical e teatral de Ravel, L’Enfant et les Sortilèges, inspirada no libreto da escritora francesa Sidonie-Gabrielle Colette. Traduzida para o português como A criança e seus feitiços, a ópera foi definida pelo compositor como uma “fantasia lírica”. Criada após a morte de sua mãe, a composição começou a ser elaborada em Paris, em 1917, e estreou em 1925. Quando Colette o convidou para transformar o texto em música, Ravel teria inicialmente dito: “Eu gostaria de compor isso, mas não tenho filhos”.2
1 Descrição da ópera retirada do link: https://www.youtube.com/watch?v=JbqySviU4YQ
2 As informações sobre a ópera foram retiradas da seguinte página da internet: https://en.wikipedia.org/wiki/L%27enfant_et_les_sortil%C3%A8ges
2. Os abismos da entropia psíquica da posição esquizoparanoide no filme
Sete minutos depois da meia-noite
Eu tenho a esperança que nada se perde, tudo alguma coisa gera…
O que parece morto, aduba…
O que parece estático, espera. Adélia Prado, 1991
Adormecer e sonhar nos transporta para um universo sobre o qual não temos controle. Imagens, formas, sons e sensações podem tanto assombrar quanto inebriar. Quando provocam terror, o alívio surge no instante em que os olhos se abrem e se percebe: “Ainda bem que foi só um sonho”. No entanto, há momentos na vida que se assemelham a um pesadelo do qual não se pode despertar.
É o que acontece com Conor O’Malley, um garoto pré-adolescente que enfrenta inúmeros desafios. Sua mãe está gravemente doente, com um câncer terminal. Ele sofre agressões físicas e psicológicas na escola e convive com familiares que lhe parecem estranhos desconhecidos. Seu pai é ausente e distante, e sua avó, autoritária e fria. O garoto, esgarçado pelas circunstâncias externas, vê-se privado da irresponsabilidade da infância.
Entre o pesadelo real e onírico, a cena se repete no filme Sete minutos depois da meia-noite. No sonho do menino, um terremoto ocorre e
as origens da criatividade e da esperança
tudo ao seu redor começa a desmoronar. Um tornado se aproxima, o chão se abre e ele segura firmemente a mão da mãe para impedi-la de cair no abismo, mas seus esforços são em vão. Ele não consegue trazê-la de volta à terra firme e grita, em um tom ensurdecedor, o nome “Mãe!”, carregado de agonia e desespero ao vê-la despencar no vazio sombrio do penhasco.
Assim tem início o percurso do trabalho de luto que Conor enfrenta: desprender-se da mãe, aceitar e tolerar que ela ocupe outro espaço em seu psiquismo e permaneça viva dentro de si. No entanto, para que isso aconteça, é necessário permitir que sua imagem desvaneça, consentir que ela se vá e morra. Deixá-la partir significa cair em um vazio interior sem representações, sem lugar, uma escuridão interminável, habitada apenas por angústia, medo e horror.
Todas os dias, sete minutos após a meia-noite, no silêncio e na solidão da madrugada, um monstro surge para chamar Conor. Ele toma a forma de uma árvore gigantesca, cujas raízes, tronco e galhos se desprendem e emergem do solo com uma força descomunal. A pequenez do menino, em contraste com a imensidão da árvore, salta aos olhos do espectador, especialmente quando ele aparece aprisionado e atado às garras do monstro.
Esse amálgama entre o menino e o monstro dá os primeiros sinais na cena em que Conor e a mãe compartilham um momento de ternura, deitados e abraçados, enquanto assistem ao filme King Kong. No longa, homens tentam incessantemente matar a criatura enfurecida, que se refugia no topo de uma torre para se proteger dos ataques. Confuso com o conflito, Conor recebe da mãe uma explicação sobre o medo que as pessoas têm daquilo que não conhecem ou não compreendem.
Essa conversa, aparentemente simples, semeia os primeiros indícios do que será revelado ao longo da narrativa: a existência de um monstro adormecido, e ainda desconhecido, dentro do próprio Conor, uma força primitiva e colérica, alimentada pela dor. Forjada pela força
3. Inveja e gratidão nas tramas do mundo interno à luz do conto
“A legião estrangeira”
O ovo ameaça disparar com a vida A reserva que um ovo inspira é de espécie bastante rara: é a que se sente ante um revólver e não se sente ante uma bala. É a que se sente ante essas coisas que conservando outras guardadas ameaçam mais com disparar do que com a coisa que disparam. João Cabral de Melo Neto, 1961
No conto “A legião estrangeira”,1 de Clarice Lispector (1999), o eu lírico narra sua convivência com a vizinha Ofélia, uma menina de 8 anos, 1 Mezan (1987) utiliza esse conto para discutir sobre a inveja a partir de vários autores, incluindo Melanie Klein. Os pontos principais abordados no texto, com base na leitura de Frayze-Pereira (2018), são: “1) associação da inveja com o olhar; 2) a alegria do invejoso corresponde à dor do outro; 3) a realização de seus propósitos não deixa o invejoso feliz e realizado (ao atacar os felizes, ataca a si próprio); 4) a inveja contém desejo, mas nele não se esgota; 5) o desejo de privar o outro da felicidade é essencial, muito mais importante do que obter a posse da coisa invejada” (p. 8). Neste tópico, fazemos leituras similares, mas também distintas. É importante ressaltar que bebemos da fonte do autor, principalmente no que se refere ao uso do conto para pensar a fenomenologia da inveja.
as origens da criatividade e da esperança
“altivos e bem vividos”,2 que se apresentava de forma pausada e firme como Ofélia Maria dos Santos Aguiar. Apesar da pouca idade, ou talvez justamente por isso, a criança cotidianamente impunha críticas severas a respeito de tudo ao seu redor – mesmo sem ter sido incumbida de tal encargo. Julgava os gestos da narradora, corrigia hábitos e regras de conduta com um rigor quase atroz: “Na sua opinião, eu não criava bem os meninos”; “Banana não se mistura com leite. Mata”; “Não era mais hora de estar de robe”.
Essas eram algumas das censuras cortantes, sentenças implacáveis que não davam margem à réplica. Apesar de sair da boca de uma criança, soavam como se viessem de um adulto rabugento e amargo, descontente com a vida.
Mesmo tentando encontrar argumentos para justificar suas aparentes falhas, a mulher nunca tinha vez; a última palavra era sempre de Ofélia – que, na maioria das vezes, realmente tinha razão. Inquieta, a narradora se perguntava: “Por que eu nunca, nunca sabia? Por que sabia ela de tudo, por que era a terra tão familiar a ela, e eu sem cobertura?”.
A menina ocupava um lugar quase sagrado de verdade inquebrantável, impermeável às falhas, plenamente consumido pela soberba e arrogância. Era incapaz de perceber o tamanho das baboseiras que saíam da sua boca. Do pedestal erguido pela sua altivez, nada enxergava senão a si mesma. Sua onipotência orgulhosa a cegava.
Ofélia ia embora, mas sempre voltava. Os defeitos da narradora funcionavam como um campo magnético que atraía sua crueldade, que ora saía pela boca, por meio de ácidas palavras, ora pelo olhar denso e intransigente, que maldizia em quietude. A inveja era o veneno que escorria por seus “lábios finos” e corroía as suas “gengivas roxas”.
Certo dia, ao passar pela feira, o eu lírico decidiu levar um pinto para casa, dia esse que coincidia com a visita rotineira de Ofélia.
2 Os trechos retirados diretamente do conto foram aspeados.
4. O ambiente como anteparo psíquico no filme A
vida é bela
Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Carlos Drummond de Andrade, 2012
Guido Orefice, protagonista do filme A vida é bela (Benigni, 1997),1 é um judeu italiano que vive na cidade de Arezzo, na região da Toscana, onde trabalha como garçom no hotel de um tio e, em paralelo, administra uma pequena livraria. Interpretado pelo diretor do longa-metragem, Roberto Benigni, o personagem, embora enfrente diversas dificuldades financeiras, apresenta uma notável capacidade de transformar a realidade, em virtude de sua postura perspicaz, criativa e bem-humorada. É um homem simples, de espírito sereno e vida pacata. Logo nas primeiras cenas, o seu modo de ser é retratado pelo forte interesse que demonstra numa brincadeira corriqueira do amigo,
1 O filme pode ser considerado controverso por abranger variados prismas de análise, suscitando tanto grandes elogios quanto críticas ferrenhas. As divergentes opiniões que a obra provoca, no entanto, não serão abordadas neste livro, visto que a afastam de seu objetivo. Pretende-se selecionar apenas os conteúdos que se articulam à noção de criatividade primária e de esperança na perspectiva winnicottiana.
Ferruccio. Denominada a “Teoria de Schopenhauer”, a dinâmica tenta provar que, com a força do pensamento, tudo é possível, inclusive ser o que se deseja. Ferruccio esclarece que não se trata de mágica, mas de um processo que envolve a profundidade da mente e requer tempo para ser alcançado.
Um dos momentos em que a brincadeira dá certo é durante a apresentação de uma ópera, quando Guido olha fixamente para a mulher pela qual está apaixonado e diz repetidas vezes: “Olhe para mim, princesa! Olhe para mim! Vire para cá”. Algum tempo depois, ela de fato se vira e o encara por alguns segundos. O seu nome é Dora, uma jovem de família abastada que, mais tarde, casa-se com ele e dá à luz o filho do casal, Giosué.
O enredo da obra se dá no decorrer da Segunda Guerra Mundial –desde o período que a antecede, na década de 1930, até o fim do conflito, em 1945 – e tem como pano de fundo o Holocausto, tragédia que dizimou a vida de milhões de judeus, corroborada pelo governo fascista de Benito Mussolini, na Itália. Nesse contexto, revela-se a forte relação de amor de uma família, principalmente a de um pai com o filho, ao tentar protegê-lo a qualquer custo dos horrores de um campo de concentração nazista.
No filme, os ataques antissemitas aparecem aos poucos: primeiro, quando soldados invadem e reviram toda a casa de Guido, seguido pelo momento em que pintam o cavalo de seu tio com os escritos: “Atenção, cavalo judeu”. As práticas do nazismo, com o apoio do regime fascista italiano, vão se escancarando, como na cena em que diversas pessoas são retratadas espremidas dentro de um carro, entre elas, o protagonista e o filho, já com 5 anos.
Sem saber que estão a caminho de um campo de concentração em Berlim, na Alemanha, Giosué questiona ao pai para onde estão viajando. Guido responde que é uma surpresa planejada por meses em comemoração ao aniversário do filho e, caso revele o destino, a mãe do garoto ficará muito zangada.
5. A esperança que habita e resiste no gesto vital
Ouve o barulho do rio, meu filho
Deixa esse som te embalar
As folhas que caem no rio, meu filho
Terminam nas águas do mar
Quando amanhã por acaso faltar
Uma alegria no seu coração Lembra do som dessas águas de lá Faz desse rio a sua oração Lembra, meu filho, passou, passará Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Seu Jorge & Marisa Monte, 2006
Como já mencionado, a esperança não é um conceito formulado explicitamente por Winnicott. No entanto, a partir da leitura atenta de seus textos e das contribuições de comentadores, é possível inferir que ela se encontra profundamente vinculada à criatividade primária – uma expressão do self em direção ao mundo. É com base nessa aproximação que daremos continuidade à reflexão, situando a esperança como um fenômeno que desponta e se enraíza nos primeiros movimentos criativos do bebê em relação ao ambiente.
Para explorar como esse entrelaçamento entre esperança e criatividade se constitui, retornaremos a uma imagem central no pensamento winnicottiano: a amamentação – metáfora inaugural que ilumina a articulação entre necessidade, criação e o encontro com o mundo externo.
176 as origens da criatividade e da esperança
Logo após o nascimento, o bebê sente fome, mas ainda não compreende essa necessidade, percebendo-a apenas como um intenso desconforto. Ainda que não tenha referências de uma experiência anterior, ele está pronto para criar algo a partir da preconcepção inata do seio, uma matriz de satisfação que, mesmo desconhecida, é esperada, como aponta Minerbo (2023). Essa necessidade fisiológica possibilita que o bebê tenha um ponto de partida para a criação do objeto que atenderá à sua demanda. Winnicott (1979) reflete que, nesse momento de expectativa, em que o bebê não sabe exatamente o que espera, mas ainda assim aguarda, a mãe oferece o seio. Ao fazê-lo, ela adapta-se à necessidade do bebê, possibilitando que ele “crie” aquilo que está preparado para encontrar. Esse encontro torna a satisfação da fome uma experiência inaugural de ilusão de onipotência1 – o sentimento de que o mundo responde ao seu desejo criativo.
O bebê sacia o apetite pelo leite que, ao entrar em sua boca e percorrer seu corpo, apazigua as excitações desconfortáveis que sentira antes. O que era representado pela placenta, como um invólucro que lhe proporcionava segurança e plenitude, agora se desloca para o alimento gerado pelo seio. O leite, ao preencher o vazio do corpo, atua como um manto quente e acolhedor que o bebê internaliza.
Essa explosão de estímulos vivenciada durante a amamentação – o cheiro da mãe, as batidas de seu coração, a textura da pele, a temperatura do leite, sua voz e o embalar – assemelha-se aos instrumentos de uma orquestra. Cada elemento pode ser executado separadamente, mas, quando combinados, formam uma sinfonia harmoniosa. O arrebatamento sentido por um maestro durante a apresentação musical pode ser comparado à ilusão de onipotência experimentada pelo bebê.
1 É importante destacar que, embora a fome seja uma necessidade fisiológica, o bebê possui uma gama de necessidades emocionais e egoicas que vão muito além dela. Essas necessidades estão relacionadas à vivência da ilusão de onipotência, uma experiência complexa e multifacetada que envolve não apenas o corpo, mas também o self e a relação com o meio ambiente.
6. A criatividade e a esperança nas bases do vir a ser: um encontro possível?
Ao longo do capítulo sobre a teoria winnicottiana, vimos que a esperança e a criatividade germinam no espaço potencial da ilusão, uma zona intermediária entre o mundo interno e a realidade compartilhada, na qual o ser se constitui em sua forma mais genuína. Essa é uma área fundante, que confere espessura ao sentir-se real. Nela, esperança e criatividade não são elementos apartados, mas entrelaçam-se como forças coemergentes, nascidas da sintonia entre o bebê e um ambiente suficientemente bom, capaz de acolher sua espontaneidade sem invasão. Quando não há sintonia nesse elo, o que se instaura é a submissão e a desesperança – marcas psíquicas de um cuidado interrompido, que fraturam a continuidade do ser e bloqueiam o despertar de uma vida autêntica e criativa. Neste capítulo, seguimos em busca desse ponto de interseção: seria possível vislumbrar, nas bases do vir a ser, um reencontro entre esperança e criatividade?
Podemos visualizar essas dinâmicas psíquicas como círculos que se tocam e se atravessam, como nos conjuntos matemáticos representados na Figura 6.1. O campo de interseção – levemente sombreado – representa a experiência de ilusão de onipotência, forjada no encontro harmônico entre o bebê e seu ambiente cuidador. É nesse entrelaçamento que esperança e criatividade brotam como frutos da mesma raiz: uma vivência de cuidado que permite ser, sentir e criar.
Já as regiões brancas que restam em cada conjunto – o círculo do bebê (A) e o do ambiente (B) – revelam os desencontros, o que falhou
228 as origens da criatividade e da esperança
em tocar, o que ficou de fora da experiência compartilhada. Nesses espaços vazios, a esperança e a criatividade se dissipam, dando lugar à submissão e à desesperança. A ausência de um ambiente responsivo interrompe o fluxo vital entre o dentro e o fora, fazendo com que o sujeito se afaste de si mesmo, refugiando-se em padrões defensivos que amortecem a dor, mas também ofuscam a potência do viver. Por vezes, é como se a criatividade e a esperança orbitassem ao redor do ser, inalcançáveis, enquanto o centro da experiência psíquica vai sendo ocupado por uma espécie de anestesia existencial em preto e branco. A tarefa analítica, nesse contexto, é tentar fazer com que esses círculos voltem a se tocar, ainda que levemente, reconstituindo, o impulso para a vida:

6.1 Intersecção dos conjuntos A e B.
A superfície que une os dois círculos pode ser compreendida como o campo simbólico em que esperança e criatividade se tornam mutuamente fecundas. A imagem se alinha à formulação de Cesar e Ribeiro (2021) para quem esses fenômenos são “dois pilares constituintes da subjetividade e são indissociáveis, tendo sua origem no encontro com o objeto primário: a mãe que vai ao encontro da necessidade de seu filho de modo a tornar real o que ele está pronto para criar” (p. 133). Nessa zona de encontro, o gesto criativo e a capacidade de esperar surgem como desdobramentos de uma mesma vibração vital.
Figura
Epílogo: no caminho entre pedras e roseiras,
um poema
Não te deixes destruir… Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir. Cora Coralina, 2013
A vida parece ser um incessante trabalho de remover e ajuntar pedras, plantar e colher roseiras, ferir-se com espinhos e transformá-los em poemas; um contínuo movimento de não se deixar destruir completamente. As pedras podem, ao mesmo tempo, ser empecilhos à caminhada ou rastros deixados para que não nos percamos da própria trilha. Esse caminho que pode levar tanto a terras fecundas quanto a solos áridos e inférteis, abriga o risco e a promessa: nem sempre flores e frutos doces poderão brotar, mas seguimos plantando.
Recriar e recomeçar a própria vida, sempre e sempre, como nos lembra a poetisa goiana Cora Coralina, assemelha-se a um ofício de artista que escreve versos sobre a dor e a delícia de ser quem é,
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compondo, assim, o dom de existir. Na vida e na clínica, a arte de ser criativo, destrutivo, submisso, esperançoso ou desesperançado pode ser compreendida com a ajuda de Melanie Klein e Donald Winnicott, autores que, cada qual à sua maneira, revelam matizes singulares da experiência humana.
Capaz de circular entre arcos viscerais e sensíveis, Klein convida a um mergulho nos assombros e abismos humanos, explorando os mais profundos conflitos e insanidades que a mente pode alcançar. Ao mesmo tempo, destaca a potência da vida, que impele o indivíduo a escapar dos mais terríveis padecimentos ao contornar com letras e imagens aquilo que parece incognoscível: a brutalidade e a violência do inconsciente.
Ao longo do livro, infere-se que a indagação inspirada no poema citado na epígrafe deste Epílogo – “como fazer das pedras e roseiras encontradas no meio do caminho um poema?” – pode ser aproximada, no pensamento kleiniano, à intensidade das forças que nos atravessam, denominadas pulsão de vida e pulsão de morte.
A pulsão de vida nos convida a trilhar estradas vitalizadas, com acostamentos de esperança e pontes de criação. Estar se locomovendo nesse trajeto é habitar a posição depressiva. As ansiedades próprias desse estado, como a culpa por ferir quem se ama e o medo de perder esse amor, podem acentuar tendências destrutivas e a desesperança. Em contrapartida, a capacidade de cuidar do outro, sustentada pela lembrança de ter sido cuidado um dia, permite a reparação do mal, favorecendo a esperança e a criatividade, mesmo em meio ao caos.
Se guiados prioritariamente pela pulsão de morte, atravessamos paisagens em ruínas, com esquinas de desesperança e valas de destruição, horizontes pertencentes à posição esquizoparanoide. Nela, a desesperança eclode diante do terror de um possível aniquilamento de si, enquanto a esperança relaciona-se com a possibilidade de alcançar e preservar algo bom, mesmo que seja uma parte idealizada de si ou do outro.
Posfácio: o que se pode ganhar com um bom encontro e uma boa conversa
Ana Elizabeth Cavalcanti
Há modos diferentes de abordar um mesmo tema à luz de diferentes teorias. Colocá-las em oposição, confrontando-as e promovendo rupturas entre elas; apresentando-as como paradigmas diferentes e incomunicáveis ou promovendo uma solução eclética que resulta em reducionismos e empobrecimento mútuos.
Neste livro, a solução é diferente. A proposta é alimentar uma conversa viva entre as teorias de Melanie Klein e Donald Winnicott, alinhavadas pelos fios da criatividade e da esperança, acompanhadas e iluminadas por escritores, poetas e diretores com seus filmes. Dessa forma, vamos nos apropriando das visões dos dois autores sobre esses temas, percebendo suas convergências e divergências e as bases teóricas e epistemológicas que os unem e separam. Como em toda boa conversa, acompanhamos os efeitos de enriquecimento para as duas teorias que dela resultam. Aliás, essa é uma proposta explícita da autora: fazer as teorias trabalharem por meio desse encontro.
Com esse intuito, Maysa parte de uma questão de base complexa e desafiadora: como a psicanálise pode nos ajudar a compreender qual o motor que nos incita a viver ou morrer? A ideia de que a esperança e a desesperança, junto a criatividade, destrutividade e submissão, estão
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na base da experiência do gosto pela vida ou pelo anseio da morte torna compreensível a escolha dos autores. Sabemos que, para Klein e Winnicott, criatividade e destrutividade são conceitos centrais que os unem e os separam ao mesmo tempo.
As diferenças entre os dois autores, que a princípio poderiam ser tratadas como embates teóricos, são aqui tomadas como ferramentas para fazer as duas teorias trabalharem e se enriquecerem mutuamente. E aí revela-se a leitura criativa de Maysa. Sua opção, como diz na Introdução deste livro, foi apresentar separadamente o entendimento dos dois autores sobre os temas abordados. No entanto, o que observamos ao longo da leitura é que Maysa os junta e separa ao mesmo tempo. Mantendo as bases teóricas e epistemológicas que os diferenciam, sua leitura os aproxima em alguns pontos cruciais.
Assim acontece quando os dois autores são aproximados a partir da compreensão comum de que a esperança resulta da relação e da manutenção de bons objetos no estágio inicial da vida. Nesse ponto, a conversa entre as teorias é crucial para perceber suas especificidades. Se os dois autores estão em acordo na essência, discordam com relação aos processos constitutivos desses bons objetos. Para Klein, a esperança se baseia na preservação de bons objetos internos, construídos na dinâmica intrapsíquica de forças pulsionais inatas; para Winnicott, esses bons objetos se constituem nas relações satisfatórias com um meio ambiente ativamente adaptado às necessidades do bebê. A introdução das noções de meio ambiente e dependência foram pontos de atrito entre Klein e Winnicott. Uma carta de 1966 endereçada a Donald Meltzer, Winnicott explicita essa divergência:
Incidentalmente anseio pelo dia em que um kleiniano seja capaz de dizer que a confiança na mãe interna tem uma história na dependência efetiva da fase inicial, só que Melanie não permitiria isso. Ela diria apenas: “É claro que eu sempre disse que o ambiente é importante.” – dando a entender com

