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A sexualidade masculina

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Jacques André A sexualidade masculina

A SEXUALIDADE MASCULINA

Jacques André

Tradução

Vanise Dresch

A sexualidade masculina

Título original em francês: La sexualité masculine

© 2025 André Jacques

Editora Edgard Blücher Ltda.

Publisher Edgard Blücher

Editor Eduardo Blücher

Coordenação editorial Rafael Fulanetti

Coordenação de produção Ana Cristina Garcia

Tradução Vanise Dresch

Diagramação SBNigri Artes e Textos Ltda.

Revisão de texto Equipe editorial

Capa Juliana Midori Horie

Imagem da capa iStockphotos

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil

Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

André, Jacques

A sexualidade masculina / Jacques André ; tradução de Vanise Dresch. – São Paulo: Blucher, 2025

168 p.

Bibliografia

ISBN 978-85-212-2780-9 (Impresso)

ISBN 978-85-212-2776-2 (Eletrônico – Epub)

ISBN 978-85-212-2777-9 (Eletrônico – PDF)

Título original em francês: La sexualité masculine

1. Psicanálise. 2. Orientação sexual. I. Título. II. Dresch, Vanise.

CDU 159.964.2

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2

Conteúdo

Instinto e pulsão

A diferença entre essas duas palavras dá a medida do que constitui a originalidade da sexualidade humana. O instinto é tradicionalmente definido como “uma faculdade inata de realizar com perfeição certos atos específicos sem aprendizado prévio”,1 entre os quais acasalar. A essência de qualquer instinto é estar a serviço da preservação do indivíduo e da espécie: o acasalamento é indissociável da reprodução. Entretanto, a imagem do animal que aplica ao pé da letra o que seu programa genético determina não resistiu às críticas de Konrad Lorenz e de toda a etologia. O benefício antropomórfico de tal imagem era óbvio demais, o contraste do homem com o animal, sendo o primeiro dotado de razão e o segundo, escravo das mensagens enviadas exclusivamente pelo corpo. Sem questionar a natureza fixa, inata e específica dos diversos instintos, os etólogos demonstraram o papel das múltiplas interações que ocorrem no sistema integrado formado pelo ser vivo e seu ambiente, as possíveis perturbações que afetam os comportamentos preestabelecidos e a capacidade de

1 P. P. Grassé; M. Aron, Précis de biologie animale, Paris, Masson, 8e éd., 1966, p. 596.

adaptação do animal às situações inéditas. Até mesmo a lula “pensa”, não se limitando apenas a cumprir “estupidamente” o objetivo estabelecido pelo instinto.

Todavia, há limites para o grau de redução da barreira entre o ser humano e o animal. Para nos atermos apenas à sexualidade, a vida animal, principalmente a dos mamíferos, é totalmente regida pelo ritmo do estro. É somente quando a fêmea se encontra nesse estado endócrino em que se torna fecundável que o coito pode ocorrer. Isso merece certamente ser relativizado, como acontece toda vez que a excitação chega ao campo e que uma vaca monta em outra. O mundo animal não está isento de comportamentos que ultrapassam o coito reprodutivo. E quanto mais nos aproximamos dos seres humanos e chegamos aos primatas, mais perturbadoras são as semelhanças. Nesse aspecto, os bonobos levam o prêmio. Suas fêmeas esfregam a vulva, sozinhas ou entre elas, e os machos fazem o mesmo com o pênis. A agressão sexual é, às vezes, posta a serviço das relações de poder dentro do clã, sem qualquer finalidade reprodutiva, principalmente quando praticada por um macho contra outro. E a expressão máxima da confusão entre o animal e o ser humano é o fato de que o bonobo, nas profundezas de sua África evangelizada, pratica às vezes a “posição do missionário”. Onde está a diferença? Ela estaria mais naquilo que não se observa: nunca se viu um bonobo brochar. Ele dedica, no máximo, dez segundos a sua atividade, mas não é por ser um ejaculador precoce, e sim por ignorar o prazer de demorar; e entre um macho jovem e sôfrego e uma fêmea no cio, sua escolha é inevitavelmente a mesma.

Na ordem humana, todo instinto tem suas finalidades desqualificadas: o que a excitação de um gourmet tem a ver com a fome, o poço sem fundo de um alcoólatra, com a sede, ou o sadismo de um guerreiro, com a agressividade? Mostrar que as estranhas metamorfoses a que o ser humano submeteu a sexualidade não é alheia ao desvio dessas diversas finalidades, substituindo necessidade por desejo, nos

O infantilismo da sexualidade

Se a pulsão, diferentemente do instinto, não pertence à ordem da natureza, surge a questão de sua gênese, de sua psicogênese. Sem sua extrema capilarização e o afluxo sanguíneo que ela produz, nunca haveria ereção do pênis, mas essa disposição fisiológica nunca explicará por que o personagem Portnoy, de Philip Roth, tem tantas ereções em Newark e permanece obstinadamente impotente quando chega à Terra Prometida. O fato de uma determinada área da pele ou mucosa estar repleta de terminações nervosas, predispondo-a, portanto, à excitação, nunca explicará as peculiaridades da geografia erótica que faz com que o dedão do pé seja para um homem o concorrente oral do pênis.

O que não é inato é adquirido. A que experiência de vida podemos nos referir na tentativa de compreender como se constrói essa sexualidade proteiforme, a exemplo da centena de posições inventariadas pela ars erotica ou pela famosa coleção de estampas japonesas pertencentes ao ator Michel Simon? Se a sexualidade dos seres humanos tivesse como fundamento e pré-requisito a maturidade sexual biológica, sexualidade e genitalidade seriam sinônimos. Engana-se redondamente quem reduz o ato sexual à penetração de

uma vagina por um pênis. Entre um homem e uma mulher, e ainda mais entre dois homens, muitas outras coisas acontecem. Nas cartas enviadas à sua esposa Nora, James Joyce dá algumas ilustrações do que acontece: “Eu a ensinei a realizar em minha presença o ato corporal mais vergonhoso e repulsivo. Você se lembra do dia em que tirou a roupa e me deixou deitar embaixo de você e observá-la enquanto você fazia aquilo?”1 O exemplo é obsceno, mas, por remeter ao tempo do “xixi-cocô”, tem o mérito da evidência: aponta para as raízes infantis da sexualidade. A oralidade também diz muito, seja no caso de um simples beijo, de sugar o mamilo e lamber a vulva da parceira ou de pedir para chupar o pênis. A analidade e a oralidade da sexualidade contêm mais explicitamente as marcas da infância do que a genitalidade, mas não se deve esquecer que o valor desta não espera tantos anos. É verdade que, no que diz respeito à penetração, é preciso paciência e contentar-se, por algum tempo, em assaltar apenas os castelos fortificados, mas os prazeres táteis e visuais não deixam de ter livre curso. A criança seria um terrível “perverso polimorfo”? A expressão de Freud é ligeiramente diferente, mas a nuança é importante: “polimorficamente perversa”. Perverso empregado como adjetivo, e não como substantivo. Essa nuança é valiosa para distinguir a criança do perverso adulto, que nada tem de “polimórfico”, estando, ao contrário, preso pelos grilhões da realização de uma fantasia – de uma única fantasia.

“Perversa”, a criança, de certa maneira, não tem escolha, uma vez que não dispõe do coito para descarregar sua excitação, sendo, portanto, obrigada a tomar caminhos tortuosos. Mas essa apresentação pela falta mascara o essencial: o excesso, mais do que a falta. A criança é capaz de obter um bônus de prazer nas atividades mais triviais, naquelas às quais se dedica sozinha, como fazer bolhas de saliva com

1 J. Joyce, Lettres à Nora, Paris, Rivages, 2012, pp. 130-131.

Mãe e filho

Se o pequeno selvagem estivesse abandonado a si próprio, conservando toda a sua imbecilidade e reunindo o pouco de razão da criança de berço com a violência das paixões de um homem de trinta anos, torceria o pescoço de seu pai e dormiria com sua mãe. (Diderot, O sobrinho de Rameau)

Muito antes de Freud, pelo menos desde Sófocles e passando por Shakespeare, o artista expressou a violência dos primeiros amores e ódios. E, ao contrário do que sugere Diderot, as paixões da infância certamente não perdem em intensidade para aquelas da idade adulta. Por certo, não há crime passional nesse período inicial da vida, mas, como o inconsciente estabelece uma equação entre “desejar” e “fazer”, os primeiros crimes em pensamento, em fantasia, crimes de amor ou ódio, condenam muitas vidas a perpetuar – para não dizer à prisão perpétua – aquilo que a criança vivenciou, cometeu.

As variações culturais e históricas que dizem respeito à vida amorosa e à sexualidade são consideráveis e afetam o modo como uma sociedade representa o homem, a mulher, a criança e as relações entre

eles. Mas o que não muda é essa “situação antropológica” já mencionada, que, do ponto de vista da criança, confere inevitavelmente uma importância desmedida aos primeiros objetos, às primeiras pessoas às quais o “mundo” se reduz inicialmente. O que também não muda é o caráter determinante, fundador, dessas primeiras paixões para a vida futura. Em termos de indivíduo, a equação entre o inconsciente e esse presente contínuo que caracteriza o infantil é sempre perfeita. A orientação sexual abre-se, libera-se socialmente, mas sua determinação inconsciente, inseparável dos primeiros amores, não envelhece, mesmo quando a bissexualidade e sua aparente indeterminação prevalecem. As infâncias de hoje não são mais as infâncias de ontem, mas a maneira como imprimem sua marca nas vidas afetivas e sexuais permanece inalterada.

Ao subir para me deitar, meu consolo único era que mamãe fosse me beijar quando eu já estivesse na cama. Mas isso durava tão pouco, e ela descia tão depressa, que o momento em que a ouvia subir, e depois quando ela passava pelo corredor de porta dupla o ruído ligeiro de seu vestido de jardim, de musselina azul, com pequenos tirantes de palha trançada, era um momento doloroso. Anunciava o que ia ocorrer a seguir, quando ela me teria deixado, quando voltasse a descer. De modo que esses boas-noites que eu amava tanto, eu chegava a desejar que viessem o mais tarde possível, para que se prolongasse o tempo de espera em que mamãe ainda não chegara.

É o mesmo homem, narrador de Em busca do tempo perdido, que muito mais tarde, quando morre sua mãe, lega ao seu bordel favorito os sofás, as poltronas e os tapetes da mulher que acabara de morrer: “Eu não teria sofrido tanto se tivesse mandado estuprar uma

A dominação masculina

A respeito das figuras sexuais da dominação, veremos mais adiante. A noção é, acima de tudo, social e cultural. Não conhecemos nenhuma sociedade, passada ou presente, em que os símbolos do poder não sejam atribuídos aos homens. A ideia da existência de um antigo matriarcado no início dos tempos é mais um mito do que uma hipótese.

A lógica atual da paridade, longe de desmentir a referida dominação, confirma que somente uma decisão e uma vontade políticas podem limitar seus efeitos, com um sucesso que tem grandes chances de ser apenas relativo e geograficamente circunscrito. Como explicar esse Universal? Os antropólogos, como Françoise Héritier, têm sua própria ideia: uma dominação em reação ao poder exclusivo das mulheres de garantir a reprodução dos filhos dos dois sexos. “A dominação masculina se baseia nessa constatação e na necessidade subsequente do homem de se apropriar do corpo feminino.”1

O sociólogo (Pierre Bourdieu) afia seus próprios argumentos. A tese de Bourdieu é ainda mais conhecida pelo fato de ser repetida

1 In J. André (dir.), Incestes, Paris, Puf, Petite Bibliothèque de Psychanalyse, 2001, p. 132.

independentemente do assunto tratado, mais antecedendo a argumentação do que decorrendo dela. Ele escreve:

Embora o ambiente doméstico seja um dos lugares onde a dominação masculina se manifesta da maneira mais indiscutível e visível, o princípio da perpetuação das relações de força materiais e simbólicas que ali se estabelecem situa-se essencialmente fora desse ambiente, em instâncias como a Igreja, a Escola ou o Estado e em suas próprias ações políticas.2

Essa tese também é uma esperança: o que uma ação política impõe outra ação política pode desfazer. Aproveitando-se das contradições inerentes às instituições em questão, a luta política visa ao “declínio progressivo da dominação masculina” e, se possível, da dominação em geral. Se existe um inconsciente, ele é histórico, podendo, portanto, ser modificado pela “transformação de suas condições históricas de produção”. A crença que esse ponto de vista contém obviamente não anula sua parte de pertinência; não é difícil mostrar como as instituições em questão ratificam e reproduzem a referida dominação.

Todavia, a esperança esbarra em uma tese, se não contrária, pelo menos contrariante, que o livro desenvolve principalmente: como conciliar esse relativismo histórico, a diversidade de Estados, igrejas e escolas, com a bela constância exibida pela dominação masculina para além das culturas e das épocas? As “estruturas sexuais” dispõem de uma “autonomia extraordinária” em relação às estruturas econômicas e políticas, e não é só o camponês cabila que “empunha sua lança” enquanto a mulher colhe azeitonas. Em um breve momento em que a argumentação afrouxa, Bourdieu deixa escapar uma explicação bem pouco “histórica” para a dominação masculina, mas

2 La domination masculine (1998), Paris, Seuil, Points Essais, n. 483, p. 157.

O pênis, o falo e a transmissão da virilidade

“Quando não tem pênis, sobre o que se fala em análise?”

O humor de Hector disfarça mal sua irritação de ver todas as suas empreitadas, amorosas, profissionais ou outras, sempre resumidas a uma competição para saber “quem tem o maior”. De que adianta ter se tornado um homem apreciado e um cientista ilustre se é para continuar “brincando no pátio dos pequenos” ou fazendo comparações de centímetros como os adolescentes? Quando criança, ele sempre teve a certeza de que o pai e o irmão tinham vantagens das quais ele era desprovido. O pênis é uma grandeza constante, dividida de forma desigual. Na adolescência, uma porta deixada entreaberta por acaso o permitiu constatar que “o” do pai estava longe do esperado. Essa descoberta, essa queda, mais o desestabilizou do que alegrou, como um atentado à ordem do mundo.

É praticamente nula a chance de que uma mulher em análise, pelo movimento centrípeto de suas associações, se reduza sistematicamente à sua própria genitália do modo como Hector retorna infalivelmente ao mesmo ponto de fixação: “As mulheres fazem sem pênis... nós não poderíamos”.

A etimologia dos dois sexos reflete essa assimetria. Pênis designava inicialmente o rabo dos mamíferos, sendo, na verdade, uma palavra quase autorreferencial, até mesmo tautológica (“o pênis é o rabo”).

Já vagina – bainha, invólucro – é relativa. Pênis e vagina são termos complementares, só que um é mais complementar que o outro: uma espada sem bainha não deixa de ser uma arma, assim como um sabre desembainhado, mas uma bainha sem espada é uma forma vazia. O culto ao pênis faz dele falo ou Fascinus.1 Não há culto à vagina. Ao útero, sim, mas, nesse caso, quem é divinizada é a mãe, e não a mulher; o ventre, e não o órgão sexual.

Entre o pênis e o falo existe uma diferença essencial. É o primeiro que brocha ou ejacula precocemente, é também ele que, na infância, “faz pipi na cama”, por não poder fazer melhor. O Falo, por sua vez, é um ser maiúsculo, a ereção é seu único estado, a detumescência lhe é desconhecida. Para se erigir, na maioria das vezes ele exagera, a exemplo dos atributos divinos de Osíris e Hermes... ou de um dildo. O pênis é um órgão sexual, é um relativo, tendo a mão, a boca, o ânus, a vagina como seus correlatos, os outros órgãos mais solicitados. O falo, ao contrário, vive sozinho em sua torre de marfim sem nada além de sua própria ausência, Narciso diante do espelho. O falo é menos um órgão sexual – os testículos são desnecessários na sua representação, o falo “não tem culhões”, nenhum ponto de fragilidade – do que um emblema. O igualitarismo dos sexos reinante parece relegá-lo ao status de antiguidades, mas o discurso dos pacientes no divã (não apenas dos homens) demonstra, ao contrário, sua perpetuidade.

O primado do falo é uma teoria sexual infantil, mais prezado pelo menino do que pela menina, mas esta última também não fica imune aos seus efeitos. Trata-se menos de uma teoria da diferença dos sexos do que da teorização de Um sexo que faz a diferença: ter ou não ter.

1 Cf. Pascal Quignard, Le sexe et l’effroi, Gallimard, 1994.

Brochada, ejaculação precoce e outras impotências

Com os animais isso não acontece. Essa observação levou Jean Laplanche a sustentar com um humor negro o seguinte paradoxo: “o brochar [le fiasco] é a honra do homem”. A falha é humana, demasiadamente humana. Devemos a Stendhal, o italiano, o fato de ter introduzido a palavra fiasco na língua francesa. Montaigne já havia comentado a palavra, se não a coisa, com uma perspicácia à frente da psicanálise: “Esse infortúnio só deve ser temido em empreitadas em que nossa alma está excessivamente tensa entre desejo e respeito”.1 Em outras palavras, quando desejo e interdito se conjugam em excesso; fazer amor e respeitar não combinam bem suas exigências; o primeiro quer penetrar enquanto o segundo quer parar diante do espaço sagrado. Por outro lado, é notável observar a ausência de qualquer fiasco entre os homens cujo desejo é inteiramente comandado pela depreciação da mulher. Baudelaire escreveu: “Só o bruto fode bem, e a fornicação é o lirismo do povo”.2 O gosto das mulheres pelos “malandros”, aqueles a quem o respeito não embaraça, não é alheio a isso.

1 Citado por Stendhal, De l’amour, Paris, Gallimard, Folio, 1980, p. 348.

2 Mon cœur mis à nu, Journaux Intimes, 1887.

Stendhal complementa as observações de Montaigne: “Se um grão de paixão entrar no coração, um grão de fiasco também pode entrar. Quanto mais apaixonado estiver um homem, maior é a violência que ele é obrigado a cometer para ousar tocar tão intimamente um ser que lhe é semelhante à Divindade”. Isso é ainda mais verdadeiro, segundo ele, na “primeira vez”, quando o objeto tão desejado é finalmente conquistado.

À psicanálise resta dar um pequeno passo para trás, em direção ao infantil, ao mais desejado, ao mais respeitado, ao mais sagrado de todos os objetos. Essa união do desejo e de seu impedimento em Uma-só marca a excessiva proximidade com o amor incestuoso; o preço a pagar é a debandada.

Stendhal, mais uma vez, evoca outra circunstância, quando a mulher cobiçada diz fortuitamente: “Venha amanhã ao meio-dia, não receberei ninguém”. Messalina e toda a linhagem histórica das Heteras não estão longe, e com elas vem a angústia, “no momento de se deitar em sua cama e pensar diante de que terrível juiz o homem vai se mostrar”. Dessa vez, o brochar é menos o resultado do interdito do que da porta escancarada, escancarada demais para “a criança”. O objeto mudou de lado, e o homem, feito o “brinquedo” da (primeira) sedutora, exibe dolorosamente a pouca chance que tem de “estar à altura”.

Como Marie Dorval, a amante de “grandes homens” que zomba da “pequena elevação” da qual Alfred de Vigny se mostra capaz “de vez em quando”. Do brochar à impotência mais duradoura, passando pela ejaculação precoce, o sintoma marca a presença do conflito psíquico e do infantilismo da sexualidade. O motivo incestuoso nunca está ausente, mas muitas vezes envereda por caminhos tortuosos, até mesmo distantes. Yves é dominado por uma fantasia que alimenta tanto sua excitação quanto sua angústia: em cena, três personagens, sua companheira, um amigo “bom de lábia” e ele mesmo. O trio faz amor, Yves se contenta com a felação enquanto o outro dispõe do essencial. Essa fantasia, que ele teme surgir no momento do ato, sempre se impõe em sua mente, levando inevitavelmente a uma ejaculação precipitada. A cena se aproxima ao máximo da “cena primitiva”, fantasia na maioria

As mulheres não são mais as mesmas, e o tempo em que a descoberta da virilidade aguardava a noite de núpcias tornou-se pré-histórico. No entanto, a liberdade conquistada por elas não criou, simetricamente, homens mais livres. Se antes elas diziam “não”, hoje dizem “sim”, e aí reside um novo problema. O que a sexualidade masculina perdeu em triunfo e dominação, ganhou em incerteza e questionamentos.

Nesta obra, Jacques André destaca a mudança que essa perda de tranquilidade viril provocou. A partir da escuta clínica no divã, de diários íntimos e correspondências, explora sem falsos pudores a vida sexual dos homens em sua faceta mais secreta.

Entre o machismo em baixa e a emergência da própria feminilidade, o autor sonda o núcleo vibrante do desejo masculino contemporâneo – aquele ponto exato que os faz gozar ou falhar.

PSICANÁLISE

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A sexualidade masculina by Editora Blucher - Issuu