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09_ANO3_JUNHO_2016


EDITORIAL E

nfim, chegamos à metade do ano, junho de 2016, e parece que estamos vivendo um retrocesso. No Brasil, a presidenta Dilma Rousseff é afastada do cargo por até 180 dias em um declarado golpe de estado. No mesmo mês, maio, uma jovem de 16 anos sofre um estupro coletivo por mais de 30 homens. Nos EUA, ataque em boate gay faz 49 mortos. No momento em que escrevo esse editorial escuto a música “Povo”, da banda de reggae gaúcha Produto Nacional. “Porque nós precisamos é de/ Melhores escolas e salários dignos/ É é é/ Direito de igualdade, saúde e trabalho/ Liberdade pra pensar” Esfrego meus olhos, não só pelo cansaço da labuta diária, mas porque as .palavras não estão mais nítidas, as informações não me parecem ser verdadeiras. Esfrego novamente e infelizmente é real tudo o que está escrito nas linhas acima. Nesse turbilhão de acontecimentos chega a nossa nona edição abordando tudo isso, pois não podemos nos calar, ficar alheios a esses debates. Portanto, convidamos duas especialistas para fazerem uma analise do que ocorre na sociedade. Maria Conceição Fontoura comenta sobre a nossa política e Júlia Couto sobre a educação, o movimento dos secundaristas ocupando as escolas por uma educação digna. Contudo, em momentos mais alegres conseguimos produzir um ensaio fotográfico assinado por Fafá M. Araújo intitulado “A Escrita do Seu Corpo”, no qual três modelos distintas escolheram três poemas que lhe representassem. Não por coincidência, os temas abordados foram de gênero e questão racial. O grafiteiro Marcos Costa foi convidado para escrever essas poesias nesses corpos seminus, vestidos de tantas verdades. Seguindo pela linha da pintura, a nossa Conversa Fiada é com a artista plástica e dançarina Ayeola Moore. Ainda temos a discussão sobre o racismo na Internet e a criação de um aplicativo destinado ao universo da capoeira. A equipe da revista eletrônica Acho Digno, convida tod@s para dialogar sobre essas questões. Vamos abrir obate. Vamos nos pronunciar e reivindicar nossos direitos. Boa Leitura!

EXPEDIENTE CONSELHO EDITORIAL: Camila de Moraes e Elisia Santos REPORTAGENS: Camila de Moraes, Juliana Dias e Kauê Vieira FOTÓGRAFOS Antônio Terra, Fafá M. Araújo e Leo Ornelas COLUNISTAS: Cidinha da Silva, Elisia Santos, Fábio Mandin-

go, Júlia Couto, Júlia Morais e Maria Conceição Fontoura REVISÃO: Alexandre Santos, Pedro Caribé e Vera Lopes PROJETO GRÁFICO e DIAGRAMAÇÃO: Camila de Moraes


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Crédito: Antônio Terra

SUMÁRIO

Conversa Fiada

Com a artista plástica e dançarina de Guadalupe, Ayeola Moore

Editorial de Moda Crédito: Fafá M. Araújo

Fafá M. Araújo assina o ensaio fotográfico “A Escrita do Seu Corpo” que aborda por meio de poemas questões raciais e de gênero feminino

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Crédito: Leo Ornelas

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Crédito: Igor Igarashi

Comunicação

Alinne Prado é novo rosto negro do entretenimento na TV

Música da Terra

Lançamento do novo CD intitulado “Quintais” da cantora baiana Clécia Queiroz

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Arquivo Pessoal

REFLEXÃO POÉTICA

Violada Por Helena Ferreira

Hoje acordei desejando nunca mais acordar O sol brilha lá fora Mas aqui dentro faz tanto frio. Me tocaram Da pior forma que se pode tocar uma mulher. Era uma noite de festa Dança Paixão Juventude Mas tudo se perdeu num copo Num drink Num gole. Meu namorado me dopou Me drogou. Lembro das primeiras conversas Do primeiro beijo Do primeiro abraço. Eu pensava que naqueles braços Eu iria encontrar proteção. Eu estava enganada. O crime da noite passada não tem perdão. Na minha cabeça as luzes brilhavam Tudo girava Escutei vozes Risadas

DEBOCHE!

Quando acordei estava pelada Penetrada Violada 30 bichos em cima de mim 30 monstros 30 bichos papões 30 pesadelos 30 HOMENS. Eu me senti pequena Indefesa Chamava por minha mãe

Mas ninguém me escutava Ninguém prestava atenção em mim Eles devoravam meu corpo Me machucavam cada vez mais E quanto mais eu chorava Mais eles gostavam Meu pai não estava lá pra me defender Eu queria correr Fugir para embaixo da minha cama e me esconder.

APAGUEI.

Acordei jogada num canto Sem roupa Sem alma Sem vida Apenas

DOR.


aos 16 Uma dor tão forte Que eu não conseguia nem chorar. O bicho papão tinha ido embora O monstro não estava mais ali A legião de demônios havia desaparecido Os homens foram embora. Mas, eu ainda estava no inferno. Abraçar minha mãe ja não trás alívio A proteção do meu pai não pode me salvar mais. Eu posso me esconder debaixo da cama Eu posso me esconder em qualquer lugar

A DOR NÃO VAI PASSAR NÃO VAI PARAR NÃO VAI SUMIR. Minha alma foi estuprada naquela noite Meu coração foi penetrado Minha mente está cheia de gozo Minha boca está com um gosto amargo. Sei que a vida vai continuar Eu vou estudar Trabalhar Talvez eu volte a sorrir Meu corpo vai sarar A ferida vai cicatrizar Quem sabe eu volte a namorar. Mas, a minha alma e o meu espírito Foram levados Foram roubados Dilacerados Viraram cinza.

Quando um homem estupra uma mulher Ele está estuprando uma menina Uma moça Uma mãe Uma filha Uma irmã Uma avó. Eu clamei por Deus Clamei por meus pais Clamei por socorro Mas os monstros não tem ouvido Não tem alma Não tem coração. Eles estão por toda parte No ônibus No metrô No mercado Na escola No trabalho Dentro de nossa casa. Mas, quem vai nos salvar? Eu não sei. Prazer, meu nome é E eu morri aos 16.

MULHER

Em homenagem a todas as mulheres do mundo! A dor de vocês também é minha.


Golpeando a Estratégia do Pessoal do Beco

Arquivo Pessoal

O Brasil é um país dos índios, construído por negros em benefício de brancos. (Abdias do Nascimento)

*Coordenadora Técnica de Maria Mulher Organização de Mulheres Negras

texto MARIA CONCEIÇÃO LOPES FONTOURA*

C

ada pessoa analisa fatos a partir de seu ponto de vista, de sua história de vida ou de compromissos assumidos. Viajo no tempo e recomponho feitos vividos em minha terra natal. Um deles relacionava-se ao fato de um bando de crianças e algumas adolescentes, moradores da mesma rua, ocuparem a praça central da cidade aos domingos. Havia balanços para crianças pequenas e para os maiorzinhos. Tinha gangorra, escorregador, gira-gira. Tudo cercado de muita areia, para evitar contusão, em caso de quedas. Quando chegávamos, os balanços, alvo maior de nosso interesse, estavam ocupados. Mudávamos o foco, procurávamos outros passatempos. De repente, vagava um balanço. Pegávamos e nos revezávamos no brinquedo. A seguir, sobrava outro, e nos apossávamos dele. Aos poucos, o pessoal do Beco do Conforto, como nossa rua era chamada, tomava conta dos mimos. Eram cerca de seis brinquedos que ficavam sob nossa posse. A união fazia a farra. Três de minha casa, quatro da família do Seu Jairo e Dona Dalcira, com mais seis vindos da casa da Dona Teresa e do Seu Adão. Alguns domingos, dois primos, filhos do tio Ari e da tia Dejanira, faziam parte do grupo. Imaginem, depois que os seis balanços ficavam na nossa mão, não tinha para ninguém! Quando uma criança cansava, chamava outra pessoa da panela. E assim íamos, até que, de olho na hora de voltar, abandonávamos os brinquedos. Na ida para casa, carregávamos no colo os pequenos, que dormiam cansados da folia. Ríamos dos nossos feitos e planejávamos a volta à praça no domingo seguinte. Contei essa história porque ela contém certa semelhança com a chegada do campo democrático e popular ao governo nacional. Lula estreia. Permitida a reeleição, o primeiro eleito fica duas vezes, passando o balançopresidencial para a primeira presidenta da República, Dilma Rousseff, que é reconduzida com 54.501.118 [cinquenta e quatro milhões, quinhentos e um mil e cento e dezoito] votos. A quarta vitória seguida desgostou grupos conservadores. Para interromper o possível quinto triunfo do governo identificado com mudanças que melhoram a vida de milhões de pessoas no país, tramam um golpe, com apoio do vice-presidente, de partidos políticos, de setores empresariais ligados a federações de indústria e de comércio, de sindicatos... Diferentemente da minha história de adolescência, a passagem de um para outro no cargo da presidente da República não se constituía em brincadeira infanto-juvenil. Tratava-se de colocar em prática políticas públicas para melhorar a vida de milhões


de pessoas que demandam por governantes responsáveis. Destaco entre os feitos: a adoção do programa de ações afirmativas no ensino público superior, com reserva de vagas para alunos de escolas públicas, com percentil para alunos negros e indígenas; a reserva de vagas para autodeclarados negros em concursos públicos federais; a criação e ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida; a titularidade de terras quilombolas; a instituição do plano Juventude Viva, visando enfrentar o catastrófico número de jovens negros mortos diariamente no país. Embora se deseje um aprofundamento de políticas públicas para melhorar a vida de mulheres negras e de homens negros, não se pode deixar de considerar, como altamente positivos, os avanços até aqui ocorridos. A mudança na vida de pessoas que estavam à margem da sociedade traz desconforto a grupos que não desejam perder privilégios. Essas forças consagram a primeira parte do golpe. A Câmara dos Deputados registra votação que aponta para o impedimento da primeira presidenta da República, julgada por ter feito as chamadas pedaladas fiscais, tais quais realizaram os seus antecessores. A comissão do Senado acolhe a decisão da Câmara e, com isso, a presidenta é afastada por 180 dias. Diariamente, em todas as partes do Brasil, milhares de pessoas fazem manifestações, denunciando o golpe, defendendo o Estado Democrático de Direito, bem como o retorno da presidenta eleita. O grupo golpista conta com apoio de veículos de mídia comandados por cinco famílias. Esses órgãos veiculam diuturnamente notícias depreciativas sobre a presidenta, omitem informações e valorizam feitos de integrantes do governo instituído pelo golpe. Nesse momento, as mídias alternativas assumem papel importante, pois noticiam aquilo que os grupos comprometidos deixam de veicular. Acho Digno, a propósito, tem realizado com com-

petência o papel de mostrar o outro lado da notícia. Lembro de frase impactante do destacado militante negro Abdias do Nascimento: “O Brasil é um país dos índios, construído por negros em benefício de brancos”. Para tornar o Brasil cada vez mais comprometido com o povo negro, seu construtor histórico, e com os indígenas, verdadeiros donos da terra, torna-se fundante denunciar o governo golpista, conduzido pelo capitão do mato Michel Temer. O Ministério do Golpe compõe-se de homens brancos, muitos com fichas desabonadoras, e todos sem compromisso com a melhoria de vida de quem mais precisa da boa política. Encontram-se mancomunados com interesses de grupos internacionais e com o aumento de suas contas particulares. Visitando a história de presidentes brasileiros, vê-se que coube a Dilma Rousseff ser a trigésima sexta pessoa a ocupar a cadeira de mandatária do país. É a primeira brasileira nessa função. Tem desempenhado com competência o mais importante cargo eletivo do país, da mesma forma como atuara na condução de secretarias nas esferas municipal e estadual no Rio Grande do Sul, além de ministérios nos dois governos do Brasil do campo democrático e popular. Finalizo, retornando à história inicial, lembrando que a nossa vitória na infância só foi possível porque estávamos unidos no mesmo propósito. Agir unificadamente, nesse momento, é fundamental para estancar tentativas de retrocessos e avançar na consolidação da jovem democracia brasileira.

REFERÊNCIAS

INFORMAFRICATIVO EMEF/EJA Oziel Alves Pereira. Maio de 2015. Até quando? https://issuu.com/informafricativos/docs/ informafricativo_21_quase_la_2. Acesso em 10.05.2016. Lista de Presidentes do Brasil. Lista de Presidentes. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_presidentes_do_Brasil. Acesso em 10.05.2015.


Ocupa, juventude!!! á mais ou menos três semanas fui convidada a escrever, do meu jeitinho, algo sobre a ocupação das escolas de São Paulo, para essa revista que super me representa. Do dia do convite pra cá aconteceu “de um tudo”... Desde pouco tempo pra me dedicar a este intento, passando por um defeito no computador até o que eu chamo de Síndrome do Bloqueio Inicial Criativo. Agora, me encontro aqui tentando dar voz para as ideias e sentimentos sobre o significado de ver estudantes de escola pública assumindo um posicionamento político diante de medidas governamentais que atingem seus direitos a uma educação de qualidade. Primeiramente, #foratemer! É importante deixar nítido em todas as oportunidades possíveis que não comungo, nem apoio, sequer reconheço este Ingoverno, golpista e usurpador. Seguindo, ou segundamente, lembrei de outra manifestação com protagonismo estudantil que muito me emociona, como educadora e artista. Quem não lembra da Revolta do Buzú, quando jovens e crianças causaram grande rebuliço na cidade por conta do aumento abusivo da tarifa

* Professora de português e inglês, atriz e poeta

Crédito: Catarine Brum

H

texto JÚLIA COUTO*

de ônibus? Em pontos diferentes da cidade, eles paravam o trânsito de Salvador e protestavam por cerca de uma hora. Em 2003, vivenciei cenas incríveis, nas quais os estudantes paravam os ônibus e entravam pela “porta da frente”, de bonde. Lindão! Na ocasião, o prefeito ficou de “cabelo em pé”, a sociedade se mostrava complacente com as ações das crianças, motoristas e cobradores cruzavam os braços em apoio aos adolescentes... Houve um dia em que eu caminhei da Avenida Bonocô até a Estação do Iguatemi, ora sorrindo, ora chorando pelas sensações que aquele movimento me causava! Foi realmente lindo de se ver! Assim como em 2003, a ocupação das escolas de São Paulo esse ano me causa igual emoção e orgulho de ser educadora. O movimento se deu pela não aceitação das propostas de governo que culminaram no fechamento de várias unidades de ensino. Como não foram discutidas com a comunidade escolar, daí a ocupação. Os ingovernos precisam entender que nós, povo de todas as idades, raças, credos, aprendemos a pensar e queremos nosso lugar enquanto protagonistas de nossas histórias. Se duvida, basta observar a beleza do movimento dessas crianças de São Paulo, ocupando mais de 200

unidades escolares desde novembro de 2015 até uma semana atrás, quando o governador do estado sentiu-se fortalecido pelo afastamento de Dilma da presidência e decidiu “descer o sarrafo” nos nossos meninos e meninas, dando início a uma desocupação violenta e arbitrária. O que vi pelas redes sociais, nesses dias de protesto jovem, foi um movimento seguro, organizado, com uma lista de reivindicações sólida, com sujeitos da escola se posicionando contra a reorganização de unidades de ensino, fechamento de mais de 90 delas, falta de merenda escolar, dentre outras. Pude me maravilhar com as performances artísticas dos jovens, os compromissos com o aprendizado, com seus interesses na produção do conhecimento. No fundo, sinto uma bela de uma inveja preta dos professores desses meninos e meninas! Queria estar lá pra ver de perto, pra sentar e debater com eles o próximo passo dessa revolução! Mas, estou aqui, feliz, escrevendo esse pequeno texto. Aliás, Acho Digno dizer que se não fosse pela contribuição de minha amora e Professora de História Naiara Natividade, essa página estaria em branco, até agora...


Crédito: Pierre Gentil

Cobras e lagartixas F

azia frio. Sem novidades na noite serrana.

Um padre se levantou para fumar na varanda. Outro para ir à cozinha, preparar pipocas. O terceiro padre, tido por todos como o mais sistemático do grupo, não permitiu que a vontade de ir ao banheiro interrompesse a apresentação de Beyoncé no Super Bowl.

texto CIDINHA DA SILVA*

Tratava-se da mais poderosa injeção de afirmação que sua negritude emergente já havia recebido. Findo o espetáculo, o padre sorria enquanto se espreguiçava na porta da sala de TV. Mas suas covinhas se desfizeram em um átimo. Ele pula para trás, e os olhos se apertam atrás dos óculos para identificar um objeto estranho no corredor. Prudente, o padre não se aproxima. Apenas movimenta os óculos naquela tentativa vã de acertar a visão. Foram poucos os segundos de incerteza. Logo, o padre gritava: “Meninos, cuidado! Tragam as vassouras. A cobra que matou a vizinha veio nos fazer uma visita”. Atendendo ao chamado do amigo, os padres, munidos de cabos de vassouras e rodos, socam a bicha até o estrebuchar final.

*Cidinha da Silva é escritora. Autora de Sobre-viventes! (Pallas, 2016) e Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), entre outros.

Em termos. A cobra ainda se mexia. Um dos padres sugeriu, então, que a colocassem no latão de lixo, jogassem creolina e a queimassem. Assim foi feito. Voltaram para dentro do mosteiro ressabiados com qualquer som, movimento ou cantinho da casa. Primeiro, foram os ladrões que pularam os muros e fizeram a festa com as doações recebidas dos ricos da região. Por isso os 17 cachorros que passaram a protegê-los. Agora, essa cobra. Pelo tamanho, era filhote. Deve haver uma ninhada quintal afora. E os padres que se cuidem, pois minha mãe ensinou que não devíamos cortar o rabo das lagartixas pequenas e menos ágeis do que as adultas, porque as mães estão sempre de olho nos filhos. E picada de lagartixa não tem cura.


Internet: terreno férti novas narrativas texto JULIANA DIAS*

A

apropriação das tecnologias pela população negra não é algo tão novo, mas ganha força nos últimos dez anos com o surgimento de novos sites, revistas eletrônicas, canais de vídeo, aplicativos e plataformas que comungam um ativismo afro nas redes digitais. Como por exemplo, canais de vídeos que ensinam como cuidar do cabelo crespo, uma plataforma online que reúne profissionais negros de diversas áreas e um aplicativo de negócios e serviços de afroempreendedorismo. Todas essas ferramentas são desenvolvidas e realizadas por gente preta para gente preta e juntas formam as contra-narrativas frente ao racismo na Internet. Mais do que comunicar e espalhar informações com recorte racial, as contra-narrativas são ações individuais e/ou coletivas que visam, sobretudo, a auto-estima, o empoderamento e a união entre grupos excluídos ou marginalizados. Se os racistas utilizam a Internet para destilar o racismo em comentários nas redes sociais e plataformas digitais, a população negra tem usado o meio virtual de forma qualificada tanto para denunciar quanto para criar canais de resistência e narrativas coletivas contra o discurso de ódio. Aumentaram os casos ou tem mais denúncias? Essa, talvez, seja a pergunta que muitas pessoas façam diante dos últimos casos de racismo virtual que vieram à tona na mídia tradicional. A SaferNet Brasil recebeu e processou mais de 86 mil denúncias anônimas de racismo em 2014. No ano seguinte, esse número foi reduzido para 55 mil.

Para Paulo Rogério Nunes, diretor-executivo do Instituto Mídia Étnica e pesquisador afiliado ao Berkman Center da Universidade Harvard, as reações são diversas frente ao racismo na Internet tanto no registro de denúncias quanto na criação de contra-narrativas, que nesse caso está relacionada à produção de conteúdo qualificado contra as argumentações racistas. “Umas das reflexões que estamos fazendo é que a Internet reflete aquilo que está na mídia tradicional. Se a primeira tela (a TV) é racista a segunda tela (a Internet) também será, só que nela a possibilidade de interação e contra-discurso é maior”, explica o comunicador. As tecnologias de comunicação digital estão cada


il para construção de contra o racismo

vez mais atreladas às práticas cotidianas a ponto da divisão entre “mundo virtual” e “mundo real” não estarem tão distantes. A reflexão de Tarcizio Silva, diretor de Pesquisa em Comunicação do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) dialoga com essa perspectiva: “Tudo isto faz com que as plataformas digitais sejam campos de discurso tão relevante quanto outros e, na medida em que mais e mais fatias da população sejam representadas, a sociedade tende a pressionar de forma mais intensa por este combate”. Mexeu com ela, mexeu comigo Maju, Taís Araújo, Sheron Menezes, Ludmilla e Tia Má. Além de terem em comum a pele preta, todas elas foram alvo do racismo virtual e não se calaram

diante da covardia dos racistas de plantão. As mulheres negras que são as principais vítimas das expressões racistas no meio virtual vêm se munindo de ferramentas digitais para combater essa narrativa. “O racismo é patriarcal, é machista não é à toa que ele dá mais privilégios aos homens do que às mulheres. Eu não conheço casos de racismo virtual que tenha atingido diretamente os homens negros”, destaca Jurema Werneck , fundadora da ONG Crioula. A organização da sociedade civil promoveu em 2015 a campanha “Racismo virtual, consequências reais”, que consistiu em transformar comentários racistas no Facebook em peças de mídia exterior nas regiões onde vivem os ofensores.


Foi vítima de racismo virtual? Veja como proceder: 1. Faça print do comentário racista 2. Dirija-se à delegacia mais próxima para dar uma queixa ou procure a delegacia especializada em crimes virtuais da sua cidade 3. Vá a um cartório fazer uma Ata Notorial* para garantir autenticidade sobre a denúncia e o crime praticado 4. Aguarde o inquérito e posterior denúncia do Ministério Público

*Instrumento público pelo qual o tabelião, ou preposto autorizado, a pedido de pessoa interessada, constata fielmente os fatos, as coisas, pessoas ou situações para

*Jornalista e mestranda em Comunicação e Direitos Humanos pela Universidade Nacional de La Plata

comprovar a sua existência ou o seu estado.

EMPREENDEDORISMO Afroempreendedores: Negócios e construção de rede para ampliar empreendimentos S

egundo o estudo “Os donos de negócio no Brasil”, organizado pelo SEBRAE com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2013, a maioria dos empresários, cerca de 52%, é composto pela população negra, são 11,8 milhões de microempreendedores negros. Sendo assim, 99% dos empreendimentos brasileiros são de micro e pequeno porte responsável por 27% do Produto Interno Bruto (PIB), incluindo tanto os empreendedores por conta própria, 85%, como os empregadores, que é o restante de 15%.

Porém, a discriminação racial ainda é obstáculo para afroempreendedores. De acordo com pesquisa realizada pelo Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE), o racismo se da sociedade brasileira se estende ao mundo dos negócios. Mesmo assim, tais adversidades relatadas por consultores do projeto não impedem que cada vez mais iniciativas sejam lideradas por empresários negros e negras no país. Por conta desses dados, no final do ano de 2015, foi criada a Rede Brasil Afroempreende-


Consultores da Rede Brasil Afroempreendedor em São Paulo, em dezembro de 2015.

dor (Reafro) com o intuito de estabelecer entre empresários negros redes de cooperações e empoderamento mutuo. A Rede é composta por consultores do PBAE com representação em 12 estados brasileiros. A área mais comum de trabalho desses empreendedores são os de serviço, moda, confecção, produção cultural, comércio, artesanato e alimentação. Na página da rede social do Reafro é possível encontrar todas as informações desse novo elo formado entre os empreendedores negros brasileiros. Link: www.facebook.com/www.reafro.org *Com informações da revista Afroempreendedor Brasil / 2016. Foto: Reprodução da Internet


com Aeyola Moore

C O N V E R S A

F I A D A


texto CAMILA DE MORAES fotos das obras ANTÔNIO TERRA foto da artista LEO ORNELAS


pinto, e assim por diante. Nós temos que nos juntar. Mesmo cada uma no seu canto. Começa assim e depois segue para a união para fazer algo para o coletivo. É muito importante tratar sobre a situação das mulheres negras no mundo inteiro. A crise, por exemplo, atinge logo as mulheres negras. A criminalização vai aumentar. É uma coisa ulher, a força que move o sem fim. Para parar tem que modificar essa maneira de ver, essa mamundo”, dá título à exposição da artis- neira de pensar. É preciso prevenir,” ressalva. ta plástica e dançarina Ayeola Moore. Esse foi o tema de algumas tardes de conversas, ensinamentos, fotos e risa- O ELO ENTRE AS ARTES Ayeola brinca que já nasceu das entre a artista e Acho Digno. dançarina. Lembra que desde pequena dançava muito e Oriunda de Guadalupe (Caribe era chamada pela família de Francês) e residente no Brasil desde “dançarina”. Não tem palavras o ano 2000, na cidade de Salvador (Bahia), Ayeola nos guiou, como uma para expressar o que sente legitima griôt, passando por diversos ao dançar. Acredita estar em outro universo. “Eu gosto de caminhos, para abordar a trajetória de vida, especialmente, das mulheres dizer que a minha pintura é a negras. Acredita ser necessário dar vi- prolongação de minha dança. sibilidade para as mulheres. “A mulher Para pintar faço uma seleção negra foi o centro da construção desse musical para acompanhar o processo da pintura. É todo mundo. Por tanto, as mulheres tem um papel fundamental. Na sociedade um ritual.” que vivemos fizeram de tudo para apagar a nossa história. Por isso preci- A artista plástica revela seu so falar de visibilidade, me solidarizar processo de criação. Diz que um quadro pode demorar e me comprometer com a causa. É o meses para ficar pronto, pois meu jeito. Cada uma/um tem o seu. Eu aprendi por necessidade que cada primeiro o elabora mentaluma/um tem que fazer algo. Eu come- mente, e após faz diversos esboços em um caderno até cei a pintar e a refletir essas questões chegar à tela branca, a qual nos meus quadros,” pontua. fica enxergando por dias até sentir que pode começar a Após uma exitosa “temporada”de pintar. O mais interessante exposição no Museu Afro-Brasileiro dessas revelações é que nem da Universidade Federal da Bahia sempre o que foi pensando e (Mafro), a artista está com o projeesboçando é o que irá apato de tornar a exposição itinerante e recer na tela. “Passo a passo, percorrer outros estados brasileiros vou colocando elementos até para contribuir com a ampliação de um debate coletivo que tem se torna- chegar a ver uma forma, mas do inadiável. Por isso, os quadros da nem sempre essa forma se confirma àquilo que esbocei. exposição não estarão à venda É que a pintura vai tomando vida própria e vai me conduO ato de cada individuo é importanzindo para o seu resultado final”. te para um todo, sublinhou a artista. “Uma faz filme, a outra é médica, eu Ayeola faz as suas próprias cores para combinar com as cores que gosta. Usa cores fortes, não cores primas. “Não gosto de coisa rígida, gosto de caos, porque para mim tudo que é vida nasce do caos. É de um caos que nós, todos, surgimos.”

“M


TERCEIRA IDADE

A

os 67 anos, faz questão de abordar esse assunto, para além da sua arte. Falar de discriminação e sexo na terceira idade é quebrar um tabu. Segundo Ayeola, a sociedade discrimina as pessoas que estão acima dos 60 anos. E essa discriminação é ainda mais cruel com as pessoas pauperizadas.“Uma coisa que me dói muito é ver pessoas de certa idade vivendo na rua, pedindo esmola, e perceber que, na maioria das vezes, são pessoas da nossa cor,” desabafa. Em sua analise, a mulher quando começa a envelhecer fica fora do mercado de trabalho, fora do mercado afetivo, e por muitas vezes sozinha, pois os filhos já estão crescidos e o marido frequentemente não está mais ao seu lado. Acaba perdendo esse laço familiar, porque durante a vida toda só trabalhou e ao se “aposentar”, acaba por ficar só. Ayeola ressalta a necessidade de manter uma vida sexual ativa como se fosse “cultivar uma planta”. Ela ainda questiona o tabu de falar sobre ou fazer sexo na terceira idade. “Sexo é muito bom para o equilíbrio psíquico, para a paz emocional. É indispensável para a felicidade humana, não só para o homem, mas para a mulher também, a qualquer idade. A mulher tem o direito de fazer sexo com quem preferir e quando quiser, a qualquer idade”, frisou. Ressaltou ainda que o policiamento do sexo é uma grave aberração e atentado contra os direitos inerentes ao ser humano. “A ninguém deve interessar se mulher vá para a cama com mulher ou homem com homem. Não há aberração nenhuma nas orientações sexuais diferenciadas. O que deve importar é a felicidade das pessoas.”


BASTA

No Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é violen-

tada, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para a artista plástica, é necessário denunciar e punir severamente essas agressões para que haja uma mudança na sociedade. Ainda fica chocada pelo caso da estudante carioca de 16 anos que no mês de maio de 2016 foi estuprada por mais de 30 homens. “Uma barbaridade o que aconteceu com essa jovem mulher. Foi uma coisa absurda. Muito mais que absurda, foi uma coisa sórdida, monstruosa. Ela irá ficar traumatizada pelo resto da vida

e por muito tempo lhe será difícil ter uma relação saudável com um homem. Ouvi falar que existe uma cultura de estupro aqui no Brasil. Mas, é uma cultura que está bem enraizada na sociedade como um todo.” A artista também já representou essa sua indignação na arte, no quadro intitulado “Basta” que fala sobre a agressão sofrida pelas mulheres. “Nós estamos vivendo em uma sociedade do machismo, do sexismo, da falocracia. As mulheres estão vivendo essa opressão o dia todo, no seu cotidiano. E isso precisa ter um fim.”


EDITORIAL DE MODA

A E S C R I T A D O

D

S E U C O R P O

epois de alguns anos planejando este ensaio fotográfico sobre a escrita de poemas em corpos nus com o fotógrafo Fafá M. Araújo, eis que tivemos a oportunidade de ampliar o projeto e ao invés de fazer um ensaio com apenas uma modelo, convidamos mais duas para participar do processo. Ainda achando pouco, fomos além, e fizemos um documentário, de 14 minutos, falando o quanto esses poemas tocam cada uma, qual a sua contribuição e como podemos fazer uma análise da nossa sociedade brasileira por meio dessa escrita. Abordamos a questão racial e de gênero feminino a partir da poesia. Três modelos distintas escolhem três poemas de autores diferentes que trabalham com essa temática. Na poesia de Mirapotira, rapper baiana, eclode o feminismo e o poder da mulher. A poeta Lívia Natália dialoga com a questão da aceitação do cabelo crespo pela mulher negra. Já o escritor e poeta gaúcho, Paulo Ricardo de Moraes, argumenta sobre o poder da união entre o povo negro. Dessa forma, lançamos mais um olhar para essa questão social, ao renovar e criar outras possibilidades de debate. Há valorização da identidade negra nesse ensaio fotográfico demonstra o quanto acreditamos que representatividade importa sim e que devemos abordar e discutir essa temática em todos os espaços. Para obter esse resultado final expandimos a equipe e convidamos o grafiteiro baiano Marcos Costa, que já desenvolve a arte de desenhar em corpos. Para o documentário, a fotógrafa e artista Shai Andrade, assume a direção de arte. A escolha dessa profissional não foi por acaso, pois, também tem um trabalho fotográfico com corpos nus. Essa parceria vem de algumas edições passadas. Na Acho Digno de janeiro de 2015, Shai Andrade assina o ensaio fotográfico “Nu Honesto”. A trilha sonora foi elaborada por uma das modelos, Mil Simas, que compôs a música instrumental chamada “Minha Alma”, houve um casamento perfeito entre a proposta do trabalho e a trilha, como se ela tivesse criado especialmente para o filme. Elisia Santos é responsável pela maquiagem das modelos e Garlei Souza pela edição/finalização do documentário. Ainda contamos com a participação da atriz Vera Lopes na locução dos poemas no filme e na produção do dia do ensaio fotográfico e gravação. Como deu para perceber, a nossa equipe foi múltipla, ainda temos um agradecimento especial ao assistente, Fabiano de Souza, que caiu de pára-quedas na nossa produção e a Namíbia (cadela vira lata, mascote da Acho Digno) que alegrou o dia em alguns momentos no set de filmagem.


FICHA TÉCNICA

Fotógrafo: Fafá M. Araújo I Modelos: Camila de Moraes / Julia Elisia Santos I Roteiro / Direção / Montagem: Camila de Mora Trilha Sonora: Mil Simas I Edição: Garlei Souza I Produção: Ca


a Morais / Mil Simas I Pintura Corporal: Marcos Costa I Maquiadora: aes I Direção de Fotografia: Shai Andrade I Locução: Vera Lopes I amila de Moraes e Vera Lopes


para minhas irmãs negras Esta cabelo que lhe vai liso sobre a carapinha, é o simulacro infeliz do que não és. (Ao vestir-se com a pele do inimigo o que de ti silencia e se perde? Quantos animais conheces que assim o fazem senão para reagir?) Este cabelo pesa desfeito sobre sua carapinha. Veste-a como um manto impuro abafando o preto caracolado sobre-si dobrado: filosófico. Os fios se endurecem como cavalos açoitados, e bradam da morbidez desta couraça que te mascara branca. Este cabelo requeimado e grotesco sepulta o que em ti há de mais belo. A dobra também é uma forma de Ser.


Atrito entre perdão e auto-estima Conflito mente e coração, ela lastima Por que tanta complicação? Se o amor é simples, é natural? E os que praticam violência como se fosse normal ... Chamam de crime passional. Quem mata em nome de uma paixão canibal Devoram-nos como carnes ... À venda, à mostra, à revelia Ignoram nossos atos, idéias, força e sabedoria. Subestimam nossa inteligência. Nos maltratam sem consciência.

Reproduzem as opressões e nos cobram obediência. Somos mulheres, mas, assim como a fênix: Renascemos a cada decepção E não tememos mais a solidão Estar só consigo é bem melhor, Que só mal acompanhada. A solidão se torna bela e traz à tona a fera Que não quer ser domada. Amélia era mulher de verdade, E isso não a livrou de ser maltratada É ‘niumá’! Nenhuma mulher gosta de ser mal amada!


Não adianta me darem a liberdade, se me tratam como escravo. Não adianta me livrarem da chibata, se me batem com palavras. Não adianta pregarem a igualdade, se me predem o cérebro. Não adianta dizerem que não existe racismo. se me discriminam por ser negro. O que adianta, é que eu e meus irmãos estamos tomando força, bebendo ideias e nos conscientizando, Pois a liberdade é como um salto, o impulso são nossos punhos.


QUEM FAZ A COMUNICAÇÃO

#AlinnePrado texto CAMILA DE MORAES fotos IGOR IGARASHI

A pauta do momento são as jornalistas ne-

gras nas emissoras de televisão. A nossa fonte é a jornalista Alinne Prado, com mais de dez anos de carreira, e que no momento trilha pelo mundo do entretenimento. São imagens contadas há um Brasil que não se vê na TV. “É impressionante, porque eu sou a primeira negra agora na bancada do programa Vídeo Show da Rede Globo. Eu nunca imaginei, nunca esperei em ir para área do entretenimento. Foi algo muito surpreendente para mim, porque depois da TV Brasil eu fui para Globo News e quando sai da Globo News, a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes me chamou para ir trabalhar no Programa Encontro,

também da Rede Globo. Mas quando eu olho para o lado eu vejo tão poucos negros. Cansei de passar por lugares onde havia somente eu e as faxineiras de pessoas negras. Então, eu vejo uma representatividade muito coletiva. As pessoas olham para mim e elas se espelham. Eu recebo muitas mensagens falando sobre essa questão da representatividade e eu fico muito satisfeita,” pontua. Para a comunicadora, o talento é independente de cor e de credo. Acredita que a principal munição que cada ser humano tem é o seu talento. “Eu costumo dizer que a raiva é um veneno que a gente toma e espera o outro morrer. Então, o racista é um raivoso e eu não vou me contaminar com a raiva dele. Eu vou sempre procurar vencer. A minha resposta para os racistas é a minha vitória, é o meu

talento,” afirma com convicção. Porém, segundo a jornalista, a área da comunicação, principalmente por conta da crise, está cada vez mais enxuta em relação ao mercado de trabalho. É uma profissão com muita indicação. “Eu fui vencendo pelo meu talento, pela minha história, pela minha imposição. Eu digo que é uma profissão aonde os fracos não têm vez. Uma profissão que não pode ter estômago fraco e nem ter medo da rejeição, porque se você tiver medo da rejeição você sofre muito,” revela. INSPIRAÇÃO Desde criança, Alinne Prado queira ser jornalista. O exemplo do pai dentro de casa lendo jornais impresso ou assistindo telejornais, fascinava a jovem. Mas, lembra que foi


preciso persistir para poder fazer o curso de comunicação social, pois o seu pai queria que fosse para a área da engenharia, alegava que era preciso ser de família rica ou ter indicações para seguir a profissão desejada, e naquele momento não tinha nenhum dos dois itens julgados necessários. Logo no segundo período da graduação começou a estagiar na TV Educativa, atual TV Brasil. Exerceu as funções de produtora, apuradora, editora e repórter. Esse local foi fundamental para o seu crescimento e desenvolvimento profissional. Hoje em dia está de corpo e alma no mundo do

entretenimento. “Eu falo que fiz um degrade nesse universo. Comecei com as news, fui para o infotenimento, o programa Encontro, até chegar ao funentenimento que é o Vídeo Show,” analisa. Alinne Prado é o nosso nome e sobrenome – para

não esquecermos os ensinamentos de Lélia Gonzales, que o individuo negro precisa ter nome e sobrenome para não deixar o racismo colocar o que desejar – na bancada de um programa de rede nacional, ela é o nosso rosto negro empoderado.

CINEMA

LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA: LEMONADE


Lançado em abril, Lemonade é o segundo álbum visu-

al da cantora Beyoncé Knowles. Rico em simbologias, é dividido em onze atos interligados pelas poesias de Warsan Shire, adaptadas e declamadas em linguagem off, construindo uma narrativa sobre sua jornada enquanto mulher negra. As representações imagéticas encontradas no filme recontam histórias complexas comuns entre mulheres negras, revisitam a ancestralidade africana na Diáspora por meio de pinturas, vestimentas e penteados, e resgatam a matrilinearidade familiar, típica de África. Lemonade é um filme reflexivo e introspectivo, sobre reconstrução espiritual e emocional, que costura elementos das culturas negras americanas e africanas. Num diálogo com a cosmologia do continente Mãe, é uma obra artística e um marco para a produção artística da população negra. Todo o vídeo é composto de noções de dualidade: bem e mal, forte e fraco, branco e preto, amor e ódio, feminino e masculino. A primeira vértebra aparece durante o ato Intuição, e nos conduz a um universo de frustrações, inseguranças e problemas familiares. Um poema de Shire, declamado enquanto em tela alternam-se espaços vazios em preto e branco e mulheres negras vestidas com roupas coloniais, fala sobre a infidelidade do marido, do pai e sobre a consequente solidão. As vestimentas remetem ao tempo colonial escravocrata, quando apenas as mulheres brancas vestiam-se daquela maneira. É uma espécie de afronta ao racismo que estruturou a América e que ainda a sustenta. Ainda no início do filme, a presença quase unânime de mulheres negras indica quem são as reais protagonistas das histórias e a quem a produção se direciona, além de resgatar a matrilinearidade, que permeia todos os momentos. Num gesto que simboliza o sacrifício da morte e do confinamento, a cantora se joga de um prédio e afunda num quarto alagado. A voz off fala sobre sacrifícios feitos por ela - e facilmente identificado por outras mulheres - durante o casamento, as relações familiares e a descoberta da traição. Ressurgindo por entre as águas num vestido amarelo, uma possível referência a Oshun, Orixá das águas e do amor: Beyoncé surpreende por retratar a importância das religiões de matriz africana. É só o começo das referências que buscam resgatar ligações com África. Vestida de amarelo, ela sai pela cidade com um bastão de baseball

texto JÚLIA MORAIS* fotos reprodução da Internet foto do perfil Fafá M. Araújo

* Estudante do Bacharel Interdisciplinar de Artes da Universidade Federal da Bahia


(o Hot Sauce que está em sua bolsa, nas letras de Formation). Ela quebra a cidade, afrontando o arquétipo de mulher negra raivosa, enquanto canta sobre ser traída e sentir raiva. Dançarinas negras se entrelaçam com tecidos brancos, enquanto ouve-se um poema que conversa com praticamente todas as mulheres negras: o desejo de ser outra, de ser supostamente melhor para “o” ou “a” companheira. Neste caso, sobre ser branca. Os movimentos de câmera e a pouca iluminação constroem o suspense para o que será a música/clipe mais violenta/o da obra. Ouve-se a voz de Malcom X, falam que a pessoa mais desrespeitada, desprotegida e negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra. Uma viagem de ônibus simboliza uma jornada espiritual de redenção. As dançarinas têm o corpo pintado com Ôrí, arte ritual do povo Yorùbá, feita pelo artista nigeriano Laolu Senbanjo. Em outro momento, ela representa um ritual Voo-

doo, vestida de vermelho e rodeada por fogo. A presença do vermelho se torna constante, conversa com o trecho recitado do poema - que mais uma vez ressalta a relevância feminina na resistência das famílias, uma simbologia da paixão. Quando ouve-se na voz off uma ode ao útero feminino, ao sangue que dele flui e que corre nas veias das mulheres, ressalta-se o papel de centralidade ocupado pelas matriarcas das famílias - mais uma vez, uma ideologia africana, a da matrilinearidade. Lemonade toca neste ponto quando questiona a valorização das ancestrais e quando Beyoncé canta sobre ser independente. Os processos de reforma interior, perdão e ressurreição introduzem-se na narrativa através da valorização das religiões para o povo negro como formas de continuar vivos e resistindo a escravização, ao racismo, a violência policial. As mães de jovens negros americanos mortos pela polícia nos últimos anos aparecem com fotos de seus filhos. Sentadas, elas gritam em silêncio que existem e resistem, mesmo depois de uma parte de si ter sido arrancada pelas mãos perversas do racismo estrutural. Caminhando para o final, Freedom é literal: pede liberdade. Em preto e branco, mulheres negras vestidas novamente com roupas coloniais são filmadas em cima de árvores, em contra-plongée, contrapondo a época escravocrata em que brancos enforcavam pessoas negras e deixavam expostos seus corpos em árvores. Após nos colocar em suas mãos e nos fazer sentir tudo o que queria e quando queria, ela nos põe no colo e nos acalenta. Depois dos créditos, o clipe de Formation, lançado antes do álbum, resume e ao mesmo tempo anuncia o que está por vir. Um mundo de Beyoncé onde pessoas brancas apenas não existem.


MÚSICA DA TERRA O mais puro ar dos quintais de nossas casas estão reunidos no novo CD de samba de Clécia Queiroz texto CAMILA DE MORAES fotos LEO ORNELAS

Em uma entrevista descontraída para a revista eletrônica Acho Digno, na verdade parecia mais uma conversa de comadres, a legítima baiana de Ilhéus, de risada espontânea, nos fez sentir os diversos aromas que é possível ter em um samba produzido naquele cantinho especial de nossas casas.

Com lançamento previsto para o dia 24 de

harmonicamente nesse álbum: “Esse CD é uma construção coletiva, feita com os músijulho, no Teatro Castro Alves, em Salvador/ cos, durante alguns meses em um dos nossos Bahia, o CD Quintais é resultado de variantes quintais. Misturamos samba com coisas em possibilidades por quais o samba perpassa yorùbá, com coisas que estão no candomblé nos diversos sotaques. Ao escutar o disco é ou não. É muito forte. Tem muito da pegapossível identificar quintais familiares, local da rítmica do samba chula. Temos diversos onde é feito festas, porém pode ser aquele climas também, se de um lado tem alegria local de meditação, um lugar particular das enorme, do outro lado, também aparecem residências. Ritmos como ijexá, semba, jongo, dores de amor e outros sentimentos,” pontua além de ritmos africanos, serão encontramos a artista.


Formada em dança, Clécia Queiroz ainda enverga pelo caminho das artes cênicas. No palco concentra esse elo de paixão, pela música, teatro e dança. Revela que o show atual tem uma carga teatral grande: “O mesmo corpo serve a tudo. Qualquer manifestação popular que a gente tenha baseado em uma matriz africana é assim. Você vê o samba de roda ele é literatura, ele é dança. Mesmo dentro da religião africana elas são assim, dança, música, elas falam a mesma linguagem. Eu sou disso. Eu sou negra. Eu tenho isso já dentro de mim e não tenho porque separar,” afirma. Um CD independente que, mesmo antes de seu lançamento, já teve duas canções premiadas, sendo elas: Flor D’Água, no XII Festival da Educadora FM, e Quintais, música que dá nome ao disco, na Mostra Sesc de Música – Ano 2. Segundo a cantora, revela o fato de ser uma produção independente traz a possibilidade de expressar o seu desejo e repercutir no público, pois o que irá para a cena é a sua verdade. TRAJETÓRIA - Havia muita teatralidade em sua dança e por indicação de alguns professores resolveu tentar a arte de interpretar. Por um determinado momento acreditou que seria somente atriz. Tudo levava para esse caminho. Com reconhecimento e diversas indicações a prêmios, Clécia Queiroz começou a fazer musicais: “Resolvi fazer um show e esse meu primeiro show teve quatro indicações ao Prêmio Caymmin de Música. Mais uma vez, quando eu me vi, já estava mais na música do que no próprio teatro.” No início da carreira de cantora cantava muito blues, porém adora misturar com ritmos africanos. Em 2003 criou um projeto chamado “Casa de Samba”, um espaço totalmente dedicado a esse gênero musical. Com um ano em cartaz findou a iniciativa, pois havia

recebido uma bolsa de estudos para realizar mestrado nos Estados Unidos da América e lá virou assistente da sua professora em um projeto de bossa nova. Ao retornar para o Brasil montou o espetáculo “Amada Bossa” sempre brincando muito com o ritmo e performances em cena. Em 2009 retorna para o samba com o CD Samba de Roque somente com canções do cancioneiro autoral e compositor baiano Roque Ferreira. Quando questionada como aprendeu o samba, Clécia Queiroz é assertiva na resposta: “Você aprende na vivência, na prática. Aprende olhando e depois sabe como faz. Tem muita particularidade. É parecido, mas é diferente. Isso é genial. Na dança, você tem algo que é seu e que coloca ali, não é simplesmente imitar ou reproduzir uma técnica. É uma prática que é de herança africana e a gente tem muito disso. Um sambador ou

sambadeira vão fazer de formas diferentes e isso é maravilhoso,” finaliza. NOTA DA EDITORA - O nosso desejo é que todas as pessoas possam ter a oportunidade de habitar os quintais cantados por Clécia Queiroz. Sentir as confissões, alegrias e dores de amores compartilhadas nesse local tão íntimo e rico de um acervo musical cheio de mazelas a serem apreciadas.


A capoeira na rede: aplicativo para celular reúne tudo sobre patrimônio cultural texto KAUÊ VIEIRA* fotos de arquivo pessoal

Eleita em 2014 Patrimônio Cultural

Imaterial da Humanidade pela Unesco, a capoeira é um exemplo genuíno da herança da cultura africana e da presença ativa do negro na formação da história brasileira. Trazida pelos africanos escravizados para o lado de cá do Atlântico, a manifestação cultural era usada no período da escravidão, especialmente pelos angolanos, como forma de defesa dos abusos e do domínio dos colonizadores portugueses. Séculos depois, a capoeira resiste, se transformando em uma das maiores manifestações culturais. “A capoeira foi trazida por africanos escravizados ao Brasil e é a junção de golpes ritualísticos. Ao contrário do que se pensa, ela não foi criada na África, como disse, ela veio com os negros para o Brasil e se consolidou no estado da Bahia, especialmente no Recôncavo baiano. No início, a capoeira era proibida, fazia parte do Código Penal. Mas, a partir dos anos 1960, se desenvolveu e atualmente é praticada em mais de 150 países,” explica, em entrevista à Revista Acho Digno, Everaldo Figueiredo dos Anjos Filhos, mais conhecido como professor baiano Veru. Nascido na cidade de Camacan e capoeirista desde 1992, foi iniciado na Associação Arte Baiana Capoeira pelo reconhecido Mestre Malícia. Considerado um dos responsáveis por uma revolução na relação entre a capoeira, seus admiradores, mestres e praticantes. O baiano de 34 anos se estabeleceu em Salvador em 1998 e se tornou discípulo de Mestre Alabama. Veru é autor de uma iniciativa pioneira

no universo mobile: há dois anos, lançou o aplicativo Iê Capoeira, plataforma que reúne, de forma colaborativa, artigos, salas de bate-papo, debates, uma agenda e tudo que envolve uma das expressões populares mais importantes do Brasil. “O Iê Capoeira foi pensado em função de uma demanda. Eu sou capoeirista e sentia a necessidade de encontrar grupos de capoeira, de colocar horário de eventos, das aulas, workshops, palestras, enfim, precisava de uma ferramenta que reunisse tudo que se relaciona com a capoeira em uma plataforma digital,” conta Veru, que também é professor de Educação Física. Disponível para os usuários do sistema Android, o Iê Capoeira tem como público-alvo capoeiristas, embora também disponibilize informações para admiradores e interessados em conhecer mais sobre a prática. De acordo com Veru, que representou a capoeira em


países como França e Japão, a ideia é criar um espaço de pesquisa e fortalecimento da rede de praticantes, contribuindo assim para a preservação e difusão da cultura afro-brasileira. “O Iê Capoeira teve uma aceitação muito boa. As pessoas gostaram e perceberam que se trata de algo inovador. É mais uma ferramenta para divulgar a nossa cultura. Os mestres, os professores e as pessoas que têm o acesso estão aderindo ao aplicativo. Elas baixam, divulgam gratuitamente suas aulas, os vídeos. Somos um link de cultura para as pessoas saberem onde encontrar uma roda de capoeira em qualquer canto do Brasil ou do mundo. Além disso, estamos fechando parcerias com instituições ligadas à cultura e ao turismo e vamos focar agora na divulgação na mídia. A aceitação está sendo boa,” pontua.

com felicidade.

NOTA DO EDITOR - Com o Iê Capoeira, Veru não só atua como um embaixador e defensor da capoeira, mas demonstra ser possível empreender por meio da cultura. Por meio do aplicativo, o baiano reafirma a importância da preservação dos laços históricos entre Brasil e África, reconhecendo a inestimável EMPREENDORISMO SOCIAL - Atuando online e contribuição dos negros para a formação da offline, envolvido e preocupado com o desen- sociedade brasileira. O aplicativo Iê Capoeivolvimento social nas periferias de Salvador, ra, atualmente selecionado no edital Arte em Veru iniciou este ano um trabalho com a Toda Parte, da Fundação Gregório de Matos, Associação Cultural Arte Baiana Capoeira, da Prefeitura de Salvador, pode ser baixado que tem como objetivo fomentar o empreen- pelas plataformas IOS, Android e Windows. dedorismo social na capoeira, aumentando o Vida longa ao Iê! reconhecimento da manifestação cultural na sociedade e potencializando a geração de re- Para saber mais: http://iecapoeira.com.br/ cursos para grupos de capoeira, recursos importantes para o desenvolvimento social por Para baixar o aplicativo: https://play.google. meio da cultura. Sobre o assunto, o professor com/store/apps/details?id=br.com.iecapoeiexplica que a capoeira é um instrumento ra&hl=pt_BR fundamental no combate ao racismo e pela afirmação da cultura negra. “Eu acho muito importante a capoeira unir todos os povos. A capoeira une todas as raças, não há distinção de cor, idade ou sexo. Ela é muito importante * Jornalista para acabar com os preconceitos. A capoeira do Afreaka é vista como cultura e educação. Como diria Mestre Pastinha, baluarte da capoeira angola: 'A capoeira é tudo que a boca come’”, conta


DICA DE LIVRO

Sobre-Viventes, o novo livro de Cidinha da Silva texto FÁBIO MANDINGO* foto ADELMIR BORGES

“Vinha ainda tocado devido à leitura tardia dos Nove Pentes d'África, instigado pelos cheiros, sabores e sentidos despertados na história do pequeno quilombo que há naquele livro. Ainda o cheiro da madeira queimada nas serras e lixas do sábio Francisco Ayrá. Ainda ansioso com as ansiedades de Bárbara, com suas asas empurrando pra cima, com suas raízes brotando dos pés e segurando fundamentos. Sentia ainda cheiro de milho e frango com quiabo, do café no bule, e, no cheiro, rompi as fronteiras literárias até a casa da Bará lá do mundo de dona Miriam Alves; e vi a menina e a menina-mulher em conversas debaixo das árvores-pessoas no seu quintal. Logicamente, achei que as duas partiriam de embaixada em busca de Ponciá...”

Sobre-Viventes é um livro que bate.

da amplitude e do espaço aberto, tomando o lugar de Cronos, Deus da hora marcada e do tempo contado. Assim nos recorda Diop, quando afirma que o Deus Terminus, regente grego do tabu que proibia que uma casa tivesse muros ou paredes coladas à outra – seria incompatível com os mundos de vista africanos, onde a percepção do holístico extrapola coisas e definições.

Diferente do paradoxo bobmarleyano da música que quando bate não causa dor, Sobre-Viventes, o novo livro de Cidinha da Silva, dói, sim. E o que nele causa dor é o mesmo elemento que em tantas das suas crônicas encanta e desperta: sua lucidez. A lucidez de Cidinha é presença angustiante em cada página do livro. Não deixa passar nada, não deixa Já publicados e compartilhados por muitos nada barato, não deixa nada impune. É como no mundo virtual, os escritos presentes no uma capoeira exata. livro tiveram sua publicação prevista e aguardada, semana após semana, por aqueles que Prosa-poética do cotidiano. Os textos são têm na lucidez de Cidinha da Silva um porto crônicas extrapoladas. de confluência. Alguns revistos, outros provados pela primeira vez. Cada crônica extrapoO que a poeta e prefaciadora Lívia Natália lada para ser experimentada, mastigada, saconfirma quando pressente Tempo, Deus boreada, deglutida. Por muitos que esperam


a visão de Cidinha como um vasilhame preservado, cheio de sua própria lucidez. Não sei o preço que se paga por essa lucidez. Mas Sobre-Viventes é o livro mais gritado. Para além das crônicas brilhantes que marcam a produção da autora, como O Vizinho do 102, Setoró, Sujeito Oculto e a afrodeliciosa Marigô, tudo o mais corta - e ai daquele que entrar desprevenido na porta em que o letreiro diz: “É só alegria!“- , Sobre-Viventes grita aos quatro cantos a respeito do “lugar do negro”. Não se engane quem quiser entender que essas linhas reputam ao livro algum lugar-comum panfletário. São páginas de prosa poética de crônicas extrapoladas. O lugar definido para negras e negros na mídia brasileira, nas artes, o lugar sexual, o lugar econômico, o lugar semi-humano das definições estereotipadas que conduzem vidas de encontro a grades eletrificadas de preconceitos e expectativas deformadas. Grita o racismo, grita o machismo. Grita a homofobia, grita os relacionamentos abusivos. Grita a naturalização das mazelas. Grita a exclusão, as apropriações cultural e intelectual. Grita a rotina infernal dos ônibus lotados, a fantasma-

goria adoentada da telespectadora da Globo News. Nada passa batido. Nada escapa. Há um diálogo constante entre percepção de contemporaneidade e história. A história afro-brasileira perpassa as críticas de cotidiano e, mesmo os textos que tratam mais proximamente de relações humanas e sentimentos, encontram sua subjetividade constituída a partir da contextualização do ser negro brasileiro. Nada se aliena disso. Por esse viés, os vazios de humanidade e a misoginia encontrados na biografia de Tim Maia, escrita por Nelson Motta, são desvelados. Por essa lente, acompanhamos O Caso de amor entre a vela e a pólvora, e Cidinha, como leitora atenta e intérprete do mundo imediatamente ao redor. Por essa lente, queimamos a casa-grande com Os Velhos se vão, o velho grita e, respeitando Nhá Chica, referendamos Assata, Anastácia e Luiz Gama. Por esse viés, uma crônica curta a respeito da guinada à direita, presenciada na atualidade da sociedade brasileira, pode causar vertigens assim: “Negras mulheres que mais uma vez tingem as ruas e a noite com cores de alegria e força da transformação, com espadas banhadas em mel.” (Será a Volta do Monstro?) E... ...paralisar o leitor por alguns minutos, antes que possa retornar a mente a qualquer coisa. Há melancolia nessa lucidez, sim! Há tristeza nessa lucidez que o leitor pode sentir na pele. Mas não há apatia na voz que interpela o neocolonialismo em Mais do Mesmo, na Antologia do quartinho de empregada no Brasil, no desafio de A heteronormatividade Pira! Nem poderia! Cidinha é moça de família mineira! É empreendedora familiar das oficinas do tio! Sabe que, se cair no Horto...tá morto! “Embora por vezes pareça meta inatingível, é só questão de tempo para que o Brasil negro encare o Brasil branco e racista e diga: “Perdeu, playboy, perdeu!” (125 anos de Abolição e eles gritam mais uma vez que o poder é branco!)


Somente no Tango primorosamente dançado entre o posfácio do filósofo e poeta Eduardo Oliveira, e o prefácio da poeta e literata Lívia Natália que, com o favor de Tempo e Oyá, conseguimos um vislumbre do livro Sobre-Viventes, antes de relê-lo:

*Fábio Mandingo é escritor. Autor de Muito como um rei (Ciclo Contínuo, 2015), entre outros

É a “fúria banta” de Cidinha da Silva!

DICA

A maquiagem para o corpo! texto ELISIA SANTOS* fotos reprodução da Internet

Imagine aquele casamento da sua amiga na

semana que vem e... você fere a perna. Como usar um vestido mais curto? Todas as amigas vão à praia, mas seu colo está com dois tons mais claro que sua cor natural. O que fazer? Decidi fazer umas fotos para um ensaio, mas, por causa da gravidez, seu corpo está todo

manchado. Qual a solução? O que fazer com as alterações de tons de seu corpo? Existem diversas formas de se pensar maquiagem para o corpo. Estas podem ser: artística, modeladora e para cobertura. A mais comum do dia a dia é para cobertura, muito trivial para tornear as pernas e bumbum das divas no carnaval brasileiro. As maquiagens de cobertura e modeladora são para evidenciar os contornos das pernas, cochas, barriga, bíceps e bumbum. Devem, contudo, ser bem feitas e duradouras o suficiente para que a mulher arrase uma noite inteira. Eis algumas dicas muito importantes: escolha um produto com boa durabilidade, esfolie a pele para remover as


células mortas e depois aplicar a base e, quando for retirá-la, usar removedor de maquiagem. A perfeição do colo, barriga, pernas, bumbum, costas acontecerá com a unificação da cor. Deve-se ainda aplicar a base na horizontal ou vertical, nunca de maneira disforme – o maior segredo. Existem no mercado de cosméticos vários produtos maquiar, mas é preciso ter atenção quanto ao teste em sua pele, sobretudo em relação ao que a deixa mais homogênea, bronzeadinha e iluminada – especialmente braços e pernas, que costumam ficar de fora em roupas de festa e eventos. A maquiagem artística, por sua vez, tem outra função e, comumente, é usada para atividades culturais. Esse tipo de maquiagem é uma prática ancestral, uma vez que as pinturas do corpo e do rosto atravessaram civilizações, como as egípciase incas, além de ter aberto espaço para o culto da beleza entre homens e mulheres. Hoje, a maquiagem artística é utilizada para produções fashion ou para festas de famílias, mas sempre considerado um evento. Vamos abusar das cores no nosso corpo, este também precisa ser escrito!

*Socióloga e professora de estética e moda.


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Acho Digno 09  

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