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ESTE FOLHETO É PARTE INTEGRANTE DO ACERVO DO BEHETÇOHO EM FORMATO DIGITAL, SUA UTILIZAÇÃO É LIMITADA. DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS.


INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO O Acervo Eletrônico de Cordéis do Behetçoho é uma iniciativa que pretende dar consequências ao conceito de (com)partilhamento dos artefatos artísticos do universo da oralidade, com o qual Behetçoho e Netlli estão profundamente comprometidos.

INFORMAÇÕES SOBRE A EQUIPE A equipe de trabalho que promoveu este primeiro momento de preparação e disponibilização do Acervo foi coordenada por Bilar Gregório e Ruan Kelvin Santos, sob supervisão de Edson Martins.

COMPOSIÇÃO DA EQUIPE Isabelle S. Parente, Fernanda Lima, Poliana Leandro, Joserlândio Costa, Luís André Araújo, Ayanny P. Costa, Manoel Sebastião Filho, Darlan Andrade e Felipe Xenofonte


JOÃO MARTINS DEDE ATHAYDE

O JECA NA PRAÇA


Um dia que eu regressava Do sertรฃo do Rio Branco Viajou tambem comigo Sentado no mesmo banco Certo casal de matutos Despachados, resolutos Com um olhar muito franco

Eram esses passageiros Do mesmo carro que eu vinha Um homem moรงo e um velho Junto com uma mocinha Era uma jovem donzela Os outros chamavam ela Pelo nome de Candinha O velho pai da mocinha Se chamava Borreomeu Filho do Zeca Rabicho Com dona Chica de Abreu O nome do rapaz moรงo Esse sim, era um colosso Chamava-se H. Romeu


Borreomeu tomou o trem Trazendo a filha de um lado Encarava os passageiros Como timbu espantado No banco de cara dura Com sua trouxa segura E no cacĂŞte agarrado

Candinha por sua vez Calada se conservava Mas no ouvido do velho De quando em vez cochichava Eu estava observando Juntos deles fui chegando Pra ver de que se tratava O velho puxa a quicÊ Procurando se ajeitar Depois agarra na trouxa Manda o filho segurar E depois tirou do bolso Um taco de fumo grosso E começou a cortar


O velho tira o cachimbo Bateu a cinza e limpou Depois remexeu o bolso Um fosforo não encontrou Eu lhe ofereci o meu Mas o velho estremeceu Por forma alguma aceitou

Depois de eu insistir muito Foi que ele veio aceitar Quando acendeu o cachimbo Se pois logo a conversar Depois disse p’ra Candinha: Solta a trouxa, filhinha Pros ovos não se quebrar Eu tive que sorrir muito De ver o velho falar, De fato naquela trouxa Havia o que se quebrar Quatro ovos de galinha Eu perguntei a mocinha Pra ninguem desconfiar


Pra onde vão os senhores? Eu perguntei a Candinha Disse ela: pro Rucife P’ra casa d sá Ritinha Qui mora em certo lugá Qui se chama Caxangá Junto a tia Fulozinha

− Você sabe aonde é? Ela respondeu: Inhor não Mai cumade H. Rumeu Tem cuidado n’astação Pra onde e gente decê Ali ninguem se perde No mei daquele povão Eu junto com Borreomeu Arranjei certa amizade, Foi quando ele me disse Com toda sinceridade: − Faz inté admirá Nunca vim na capitá Mai tinha muita vontade


− Rucife e uma cousa doida Tem muito o que a genteaver Andando a semana inteira Não dá p’ra se aborrecer Numa alegria sem fim − Espiando o Zepelim; Vendo o V8 correr − V8 é o Zepelim? Perguntou admirado Lá onde eu moro tem Essa bicho tão danado! − Eu então lhe expliquei No mesmo instante notei Que ele estava atrapalhado − V8 é um carro possante De grande velocidade É também lá em Recife Uma grande novidade Temos V8 sapato Não só p’ra gente do mato Como tambem na cidade


Candinha nada sabendo Me perguntou sorridente: Esse sapato V8 É p’ra homem ou é p’ra gente? Se acaso eu comprá uma dele Cuma é que eu uso ele? Pru detraz, ou pula frente Meu pai compre um p’ra mim P’ra eu ir com Fulozinha; Pergunta o velho sizudo A sua filha Candinha: Tú qué V8 decente Ou qué V8 de gente Dos V8 almofadinha? − Quero um sapato V8 O sinhô tem que comprá, Compre um V8 bonito Qui amanhã vou paciá A gente sai cum V8 Mermo gavião afoito Tem medo de me insurtá.


− Eu vou compra teu V8 Dizia o velho a Candinha Dispois não vá ficar doida Junto com a fulozinha Com os dedo escanchelado E o V8 estragado Dando trabaio a Ritinha Chega o trem na estação Aonde iam saltar O velho pegou na trouxa Tratou de se arrumar Mas eu que nessa viagem Fiz boa camaradagem Já não podia os deixar

Depois consultei comigo O que devia fazer Abandonar essa gente! Tambem não podia ser Causava-lhe uma desgraça Porque o jeca na praça Só faz penar e sofrer


Chegaram na estação O velho, a moça e o rapaz A garota desinquieta Olhava adiante e atrás Servindo de caçoada Para quem nunca viu nada Tudo era belo demais H. Rumeu disse a eles: É bom prestá atenção Pruque aqui no Rucife Num é Cuma no sertão O velho de cara dura Trazia a trouxa segura E o cacôte na mão

A moça pergunta ao velho Aqui faz noite de lua? O velho respondeu logo Olhando pra outra rua: A lua aqui pouco dura Minha trouxa tá segura Cada um segura a sua


Borreomeu por sua vez Se achava desaprumado Com vai e vem da cidade Não tinha se acostumado H. Rumeu lhe animava Mas ele se lastimava Sempre na trouxa agarrado A pobrezinha da moça Muito cansada de andar Sentiu uma cousa dentro E o coração lhe apertar H. Rumeu perguntou Porem ela desmaiou Que não podia falar

O que mais lhe atormentava Era o grande movimento No aperto em que se achava Quase dar-lhe um passamento Já quase desfalecida Exclama; ó cousa cumprida Se dura mais num aguento!


H. Rumeu pega a moça Dizendo muito espantado: Menina, não faça isso Qui já tou incabulado Tu só caminha chorando Todo mundo tá oiando Me deixando envergonhado

Depois a moça animou-se Dizendo: eu vou miorá Meu cumpade não simporte Qui a dô já quer passá Me doi no pé do imbigo Inté parece castigo Qui eu fico boa já Depois Candinha estava Melhor de tal passamento Tinha desaparecido Parte do seu sofrimento H. Rumeu quando olhou Depressa lhe perguntou: Saiu a coisa de dento?


− Já tou mió meu cumpade Foi uma apertura roxa Falou contente a mocinha Ajeitando a sua trouxa Eu escapei por um triz De um ferimento que fiz Do lado esquerdo da coxa

Sucedeu-me esta desgraça Outro dia no roçado Eu tava cortando lenha Quando sentei o machado Um pau de lenha sartou E na coxa se enfiou Deixou-me assim nesse estado Me deu um grande trabaio Eu tirá o pau de dento E meu pai vinha chegando Naquele mermo momento Mai nada disso ele viu Porem quando o pau saiu Deu-me até um passamento


Quando entraram na pracinha Ficou tudo admirado Disse o velho: meu cumpade Viu que baruiu danado, Ou vai avê muita guerra Ou o povo nessa terra Num gosta de tá calado Os tres aonde passavam Chamavam o povo atenção Um jeca escarava outro Cheio de admiração, Quando Borreomeu olhava Ainda mais provocava E riso da multidão O <<cumpade>> H. Rumeu Conhece bem essa raça Por isso disse a mocinha. O qui tão dizendo é graça A senhora aguente a mão Não quera fazer questão Cum os custume da praça


H. Rumeu nem repara O desdem da multidão Mas vendo um guarda civil Com o cacête na mão Foi dizendo: oia um sordado Cum pau dele pindurado Fazendo trapaiação O rapaz olhou Candinha E disse a ela: tai vendo A gente nesse Rucife Tem que morrê aprendendo Um sordado passiando Com o seu pau balançando Pra vê o que tão fazendo.

Ouviram um grande barulho Ao atravessar a pracinha. A moça olhou para cima Era o Zepelim que vinha A moça desconsertada Disse ao velho admirada: Papai, oia que coisinha!


Quando viram o Zepelim Causou admiração, O <<cumpade>> Borreomeu Ficou até sem ação − Oia que bicho danado!... Disse o velho assombrado Olhando p’ra multidão − Eita que bicho danado Isso até faz medo a gente! Vou sair daqui de baxo Quem quisé que ti aguente! Um bicho cumprido assim Caindo em cima de mim Vem me matá de repente

− Mai cumpade H. Rumeu Nunca vi um passo assim Parece que ele queria Cair pru cima de mim?! − Cumpade esse bicho bruto Qui se parece um charuto; É o tá do Zepelim!


Candinha chama o rapaz E tremendo diz a ele: Lá em cima não se vê Outo bicho Cuma aquele E pergunta inconsciente: Ele anda dento da gente Ou a gente dento dele?

H. Rumeu vendo o povo Nessa triste mangação Ainda mais se apertava Diante da multidão Lhe causava acanhamento Aquele acompanhamento Como n’uma procissão

De repente H. Rumeu P’ra seu cumpade olhou Se mostrando encabulado Logo a ele observou: Meu cumpade ajeite a trouxa Você deu laçada frouxa E a bicha se derrengou


Borreomeu p’ra ver a trouxa Com força no chão soltou Nisso a moça com espanto A Borreomeu reclamou: Deu cá trouxa no cimento Os ovo qui tava dento Todos eles quebrou O velho ajeitou a trouxa Dizendo para Candinha: Eu truxe esses meus ovo Para cumade Ritinha Mai p’ro causa dos açoito Qui levei dos tà V8 Ficou ele sem nadinha!

Entrando eles na loja Parea o V8 comprar A moça muito sagaz Pega tudo observar Enquanto que um caixeiro Muito alegre e prazenteiro Foi para lhe despachar


− Que deseja senhorita? Perguntou ele a Candinha O velho aí respondeu: − Ela não quer é nadinha Quero comprá um sapato De V8 carrapato Qui dê pra essa mocinha Qui V8 carrapato! Diz a moça a Borromeu É um V8 sapato! Qui dê certinho p’ra eu Traga um V8 bonito O preço está esquisito Porem o dinheiro é meu

Traz o caixeiro o V8 Para a mocinha comprar Ela agradou-se de um Quis logo experimentar Mas o seu pé bem criado E o sapato apertado Quase não podia entrar


Aí a moça foi vendo Que o caixeiro suou Disse: a cousa tá apertada Mas oi bicho já entrou O V8 está me ardendo Parece que vai rompendo!... E depressa se sentou O caixeiro trouxe outro Para ela experimentar Disse: esse dar certinho Não precisa nem calçar, Ai exclama o velhote: Com o V8 folote Oia, tu não pode andar

Calçou a moça o V8 E logo achou regular, Mas o velho fatigado Começou logo a falar: Tu com o V8 frouxo Quando chegar num acocho Vai logo te atrapaiar


− Deixe meu V8 frouxo O senhor não é quem carça Peço que ur meu negoço O senhô nunca disfaça − Esse teu V8 usado Depois de tá estragado Eu só penso na desgraça Depois encontrou o V8 Com grande dificuldade Meteu logo ele nos pés Pra passear na cidade Mas a saia era comprida E a moça aborrecida Reclama a sua vaidade Se retirando da loja A moça muito contente O velho olhando pra ela Exclamava incontinenti: Vigia que tu não caia Menina, levanta a saia Mostra teu V8 a gente


Borromeu quande se viu No seu amado sertão Gritou para vizinhança: Agora sou cidadão Passiei na capitá Fui ricibido pru lá Mió do que barão FIM


O jeca na praça  
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