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JORNAL EXPERIMENTAL DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL - UNISC - SANTA CRUZ DO SUL - VOLUME 15 - Nº 1 - JUNHO/2011


EDITORIAL

UNICOM 2011

A primeira edição de 2011 do Unicom, o jornal-laboratório do Curso de Comunicação da Unisc, que agora chega às suas mãos, é um jornal ao mesmo tempo igual e diferente dos que lhe antecederam. Ele é igual porque se mantém fiel à sua vocação de jornal-laboratório, qual seja, servir de instrumento de aprimoramento, em primeiro lugar, dos alunos da disciplina de Produção em Mídia Impressa, responsáveis diretos pela elaboração do Unicom, mas também para todos os que queiram exercitar suas potencialidades durante a graduação, à revelia da habilitação. Basta, para tanto, vontade realizadora. Por esse viés, ao longo dos sucessivos semestres, o Unicom acabou por consolidar como um jornal por meio do qual, para além do jornalismo, estudantes de publicidade e propaganda, produção em mídia audiovisual, relações públicas e fotografia não apenas exercitam suas competências comunicacionais como o fazem juntos, antecipando, dessa forma, muito do que será o mercado de trabalho que se avizinha. Nesse sentido, nos mantemos fiéis a nossas origens e propósitos. O jornal que agora chega às suas mãos, por outro lado, difere-se dos que lhe antecederam à medida que radicaliza o diálogo entre as turmas e alunos do curso de Comunicação. (Também aqui não temos, digamos assim, uma diferença fundamental, à medida que o intercâmbio com as demais turmas sempre existiu na rotina do Unicom. O que muda é a intensidade com que esse intercâmbio se estabelece).

A forma que encontramos para estreitar essa relação, para além do conteúdo editorial e gráfico, feito pelos colegas de outras disciplinas do curso – fotografia, relações públicas e publicidade e propaganda, mas também produção em mídia audiovisual – foi, uma vez mais, implodir as barreiras que nos separam das demais salas de aula e unir as mais diferentes vontades e propósitos por meio da capa e contracapa do Unicom. Ou seja, por um local que grande visibilidade. Equivale a dizer que, para dar conta das primeira e última páginas, realizamos um concurso aberto a todos os alunos da Comunicação incitando os colegas a dar conta da proposta. Para tanto, as janelas e murais foram tomados por cartazes provocativos; os banheiros, masculinos e femininos, receberem peças publicitárias, ações, por assim dizer, diferentes ocorreram no campus e dezenas de e-mails foram disparados por todos os lados e direções). Tudo isso com apenas uma restrição: as propostas de capa e contra deveriam dialogar com o temabase da edição, ou seja, com os sete pecados. O resto estava liberado. O resultado mais imediato é que cerca de 20 pessoas, personificadas em oito propostas de capas, mobilizaram-se em torno do tema “sete pecados”, criando um tão enorme quanto prazeroso problema à turma encarregada de editar o Unicom: escolher a capa que mais se adequava à proposta. Se todas tivessem ficado ruins, seria fácil; bastaria descartar e escolher o menos pior. Caso o resultado fosse mediano, talvez o trabalho de escolha fosse um pouco mais difícil, mas

gina onde explicamos todo o processo. Tudo certo? Não. Ainda restava o que fazer com as demais capas, porque, como dissemos, todas ficaram, boas, de forma que não seria justo simplesmente descartá-las. A saída que encontramos, e que, entendemos, reconhece o esforço dos demais colegas, você encontra ao longo das próximas páginas. Em tempo: é de pecados que falamos nessa edição, mais precisamente de setes deles. Trata-se de uma forma, digamos assim, de exercitar jornalismo em cima de algo que une a todos nós. À exceção, claro, daqueles que nunca pecaram. (: Uma boa leitura a todos.

QUEM FAZ O QUÊ Nome Demétrio Soster Função Editor-chefe Pecado Eu não tenho pecados. Sou um anjo, ora.

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igualmente possível. O problema é que todas estavam muito boas e a empresa foi deveras complicada. Mas não impossível: conseguimos adequar à proposta três das sugestões. A capa escolhida foi a criada por Fábio Goulart e Carine Immig. A contra por conta e obra dos alunos Ana Carolina Becker, Gustavo H. Alves, Gustavo Engelman, Frantiescole Machado, Ricardo Morais e Rafaela Cristina Richter Schneider, da turma de Oficina de Criatividade da professora Clarice Speranza. E o que fazer com a proposta feita pelos alunos Ana Carolina Lau, Roberta Prado, Jéssica Noble, Evelin Barbosa, Lucas Baumhardt, Djuliane Rodrigues, Cesar Lopes, Luiz Habekost e Jaíne Kunde? Ilustrar a pá-

Luis Habekost

bit.ly/uniedit

Um jornal igual e diferente

UNISC– Universidade de Santa Cruz do Sul Av. Independência, 2293 - Bairro Universitário Santa Cruz do Sul – RS CEP 96815-900 Curso de Comunicação Social - Jornalismo Bloco 15 – Sala 1506 Telefone: 51 3717-7383 Coordenadora do curso: Fabiana Piccinin

Impressão Graphoset Tiragem 500 exemplares Agradecimentos Luana Backes Volume 15 - nº 1 - Junho/2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Este Jornal foi produzido na disciplina de Produção em Mídia Impressa, ministrada pelo professor Demétrio Soster. Colaboração dos alunos da disciplina de Jornalismo Impresso II.


Pecado da Capa Sentindo a necessidade de envolver ainda mais as demais habilitações do Curso de Comunicação na produção desse jornal, decidimos, nessa primeira edição de 2011, promover um concurso para definir qual seria a capa do Unicom 7 Pecados. O objetivo inicial era escolher a melhor ideia e reproduzi-la. Porém,

depois de analisarmos as oito sugestões enviadas, optamos pelo uso de duas delas: uma na capa e outra na contracapa. Utilizamos, portanto, a ideia central de cada uma, e refizemos as capas com a ajuda da nossa equipe. Abaixo, o pessoal comenta como se deu essa experiência.

Um corpo sobre o asfalto Começavam os primeiros borburinhos a respeito do concurso “Um pecado de capa” quando ficamos sabendo dele. Acompanhávamos algumas produções fotográficas no laboratório de fotografia da Unisc, pensávamos em produzir alguma coisa, mas não encontrávamos uma ideia. Surgiu uma sugestão, que não foi produzida. Mas então, em uma noite de insônia, eu, Carine, tive uma ideia, pensei em como podia executá-la e no outro dia conversei com o Fábio para poder reproduzir essa ideia. Parecia simples, a não ser pelo fato de que 7 pecados não são, como um todo, assim tão fáceis de reproduzir e de se fazer entender. A ideia girava em torno de construir a cena de um crime, onde haveria o traçado de um corpo, e cada pecado representaria uma evidência, com

plaquinha e tudo. Só que pensávamos o seguinte: o que uma pessoa carregaria consigo na rua que poderia ser usado como pecado/evidência?! E assim seguimos com a ideia. Em um dia juntamos tudo o que conseguimos, construimos a cena do crime em um galpão nos fundos de casa, à noite, e fomos fotografar. Foi preciso usar uma lente grande angular pra poder pegar a cena inteira, já que, por ser em um galpão, a câmera só chegava até uma certa altura. Depois veio o trabalho de edição, onde tiramos nossos pés, e demais coisas que não deveriam aparecer em volta. Também trocamos o chão que era de concreto, por algo mais parecido com um asfalto e tornamos mais clara a cor das evidências. A ideia de construir a fotografia

Nossa proposta de capa para o jornal nasceu em uma aula de Oficina de Criatividade em que a professora nos incentivou a participar da promoção “Um pecado de capa”. Quando o tema “sete pecados” nos foi apresentado, tivemos a idéia de enfatizar a palavra pecado. Pensamos em mostrar o “pecado original” e para isso criamos uma imagem do braço estendido e a mão tentando alcançar a maçã na árvore. Inicialmente utilizaríamos uma cobra enrolada no braço, mas como vocês devem imaginar, não foi fácil encontrar esse animal por aí e desistimos da ideia. Pensamos nossa contracapa mais tarde. Nela colocamos o braço caído no chão com a mão estendida e a maçã mordida, dando a ideia de que o pecado já havia sido cometido. Então, para fazermos a capa e contracapa apenas precisamos de um galho de árvore, que foi facilmente conseguido nas redondezas do bloco da Comunicação, e uma maçã que adquirimos de um caminhão de fru-

tas que estava atendendo os restaurantes da universidade. Após isso, nos encaminhamos para o laboratório de fotografia e armamos o galho com a maçã pendurada através de um barbante e usamos a mão de um integrante do nosso grupo para “montar” a cena de que essa mão está prestes a pegar o fruto. Após posicionarmos tudo, tiramos várias fotos de vários ângulos diferentes, ao final olhamos como elas ficaram e partimos para a contracapa. Foi simples. Bastou apenas uma mordida na maçã, posicioná-la na mesa e deixar o braço estendido perto do fruto, fazendo que passasse a impressão que a pessoa a qual o braço estendido já está morta, enquanto a maçã está ao lado, mordida, mostrando que o pecado foi cometido. Enfim, foi um trabalho simples. O único efeito que usamos foi para avermelhar mais a maçã, sem nada complexo e sem muitas informações. Porém, achamos que conseguimos passar o recado que queríamos.

CONCURSO

Turma do 1º semestre de comunicação social responsável pela ideia da contracapa do Unicom

Carine Immig e Fábio Goulart, vencedores do concurso “Um pecado de capa”

bit.ly/unicapa

Fábio Goulart

Tem bixo na contracapa

para a capa em questão de um dia, e depois mais um dia para editar, foi muito interessante. E ter a capa escolhida então, mais ainda. A foto foi reconstruída e a que vocês veem na capa não é a original, mas a idéia sim. E não sabemos dizer se foi mais complicado fazer a foto original em um lugar pequeno e com poucas evidências ou se foi refazê-la de dia, com sol precisando ser tapado, na rua, com movimento de carros. Mas com certeza foi divertido produzir esta ideia de um pecado de capa.

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Na idade da loba Algemas, strip-tease e lingeries sensuais estão cada vez mais presentes na vida das mulheres mais experientes

AnA CLÁUDIA SCHUH REPORTAGEM

LUXÚRIA

bit.ly/uniblau

FÁBIO GOULART FOTOGRAFIA

QUEM FAZ O QUÊ Nome Ana Cláudia Schuh Funções Editora Repórter Pecado Luxúria

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“Tu escreveres uma matéria sobre luxúria é como a Sandy fazer propaganda pra Devassa”. Essa foi uma frase que ouvi durante a produção da minha matéria. Realmente, com essa minha cara de 15 anos e jeito de boa-moça, não é de se espantar que as pessoas pensem assim. E eu tentei fazer como a Sandy mesmo, mostrar que todos têm seu lado devassa, mas sem vulgarizar a imagem da fonte. Não foi fácil encontrar uma senhora que topasse falar sobre seus hábitos luxuriosos, mas achei que

seria pertinente conhecer o ambiente onde ela faz compras. Conheci várias sexshops na cidade. Foi uma experiência bem divertida ver as vendedoras explicando didaticamente como funciona cada produto e rendeu até um vídeo que foi postado no blog. No fim, aprendi algumas coisas com a matéria: que a fonte pode dar show na sessão de fotos, que a maioria dos vibradores não é vendida para mulheres e que vale conferir se o coelhinho em cima da cama tem cadeado.


efeitos. “Há algum tempo conheci o egg pela TV. Quando comprei, todas a gurias quiseram conhecer. Já que ainda não tinha usado, trouxe para elas verem. Fez sucesso”, contou Ana. O tal egg é um brinquedo erótico feito em silicone no formato de um ovo, porém oco e com um orifício na base. Por dentro tem texturas que prometem inúmeras sensações. Com a aprovação das surpresas por parte dos maridos, as amigas participaram há alguns meses de um curso sobre sensualidade. Se em uma reunião de mulheres sexo é um assunto quase garantido, quando o encontro é para falar disso, sem dúvidas a conversa rende muito. E foi

assim que aconteceu. Por cerca de quatro horas elas ouviram os conselhos e dicas da personal sex trainer Rita Rostirolla, que ensinou técnicas de massagem sensual, dança do colo e performances luxuriosas. Enquanto Rita apresentava as performances, as espectadoras, atentas, planejavam o que poriam em prática em casa, decidiam quais seriam os aromas dos géis, que personagem encorporariam em uma fantasia ou que dia fariam a massagem tão comentada. Quando o assunto foi strip-tease, Lúcia não teve dúvidas que, se houvesse prova, nesse conteúdo receberia nota máxima. Afinal, experiência não lhe falta.

LUXÚRIA

trário da maioria das mulheres de sua idade, Lúcia é adepta das calcinhas pequenas, rendadas, daquelas bem sensuais. Aliás, não entende por que depois de uma certa idade, as mulheres trocam suas calcinhas por calçolas e vive implicando com as amigas que preferem as peças mais confortáveis. Se estiver inspirada e com vontade de surpreender o marido, se dirige até o fundo da loja, onde uma porta dá para um corredor que leva até uma outra sala. Com as paredes pintadas de vermelho, espelhos distribuídos por todos os lados, um poste de pole dance e um ar de motel, nesta sala funciona a sex shop. Se, para Lúcia, entrar num ambiente assim pode ser normal, as clientes da loja, em sua maioria formada por mulheres casadas entre 20 e 60 anos, não se sentiriam confortáveis nessa situação, não fosse num ambiente reservado e discreto como este. “As mulheres que frequentam a loja são aquelas que tem vontade de apimentar a relação mas jamais teriam coragem de entrar em uma sex shop com um luminoso na fachada”, conta a responsável pelo local. E nesta sala se encontra de tudo. De fantasias a vibradores, passando por jogos, vendas, algemas, chicotes, géis de massagem e espécies de pomadas com os mais diferentes efeitos. Lúcia conta já ter usado um dos produtos mais vendidos: um gel de massagem que dá a sensação de esfriar ao entrar em contato com a pele. Para ela, são essas pequenas novidades que não permitem que o relacionamento caia na rotina. Assim como Lúcia, algumas de suas colegas de trabalho também gostam de inovar entre quatro paredes. A troca de experiências e apetrechos é prática quase comum entre as amigas. “Só não trocamos de marido ainda porque não ia ficar bem”, comenta Cátia, rindo. Curiosas, estão sempre em busca das últimas novidades. Quando uma delas compra um produto que causa curiosidade nas outras, ele é prontamente apresentado, assim como seus

bit.ly/unilux

Quase meia noite. Em um pensionato de freiras, todas as internas já estão recolhidas em seus quartos. É um período de muito respeito, de muitas regras, de repressão. Época de ditadura militar. Mas, aparentemente, a disciplina imposta pelas freiras é ainda mais rígida do que a militar. Os dois ponteiros do relógio se encontram no 12. As portas dos quartos do pensionato começam a se abrir e todas as meninas se reúnem. Espalham-se pelo prédio arrancando as imagens dos santos e atiram todas no lixo. Enquanto isso, Lúcia tira a roupa, peça por peça ,ao ritmo de Aquarius do musical Hair. Sensual, faz desta dança o símbolo da sua revolta. Seu show de striptease termina em grande estilo: nua, sobre um dos altares do pensionato, em frente a todas as internas e com uma promessa de expulsão da madre superiora. Lúcia nunca foi das adolescentes mais comportadas, mas tinha a lábia de poucos. Graças ao episódio do strip-tease, quase foi expulsa, mas uma conversa com a madre superiora a manteve por mais algum tempo no pensionato em Santa Maria. Cerca de três décadas depois, aos 49 anos (ou quase 50, como ela mesma prefere dizer), ela ainda mantém o gosto por uma boa conversa. Apesar de o rosto sério e a postura profissional quase disfarçarem, os lábios pintados num vermelho intenso e o colo, ornado com um lenço amarelo vivo, deixam transparecer seu lado mais sensual. Se na sua juventude sexo era tabu, para Lúcia nunca foi. Casada há dois anos, diz estar sempre em busca de novidades que possam apimentar a relação. Segundo ela, uma simples luz inusitada, vermelha, já fez muita diferença. Não satisfeita só com isso, foi atrás de outras coisas. A começar pelas calcinhas. Quando resolve renovar a gaveta de lingerie, vai até uma das lojas no centro da cidade e passa direto pela arara onde estão expostas as calcinhas de algodão e cintas firmadoras. Ao con-

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Dieta animal: de frutas a ração especial Entre um prato e outro de ração, os animais de estimação também seguem uma dieta para manter o peso ideal

bit.ly/unicaka

CAROLINA BISCAGLIA REPORTAGEM E FOTOGRAFIA

Ao ver pela primeira vez Leona, notei que a beleza não era sua principal característica. Já a Fanny tem uma silhueta digna de modelo e um charme irresistível. A Brenda, no auge dos seus dois anos, esbanja uma alegria de dar inveja. O que todas elas têm em comum? O problema com a comida! Se você é mulher, sabe que o peso é sempre uma preocupação. Além da estética, a saúde também é um motivo de apreensão. Leona tem problemas de respiração por causa da gordura e desgaste nos ossos. Brenda já não con-

Leona sofre desgaste precoce nos ossos por causa da gordura

segue subir as escadas. Por outro lado, Fanny faz uma dieta hipercalórica para conseguir manter a boa saúde. Na casa delas o cardápio é muito bem controlado, o que inclui frutas, nenhum tipo de doces e frituras. Na porta da geladeira da Leona existe um cardápio com as horas em que as refeições devem ser feitas. Sem contar os exercícios que, acompanhados de uma dieta balanceada, ajudam na perda de peso. Foi assim que Brenda perdeu três quilos em um mês. Bruna Badach, que cuida da dieta

hipercalórica de Fanny, diz que ela tem receio de comer certos alimentos, pois morou na rua algum tempo e isso faz parte do instinto: “A Fanny criou uma autodefesa”, explica a médica. Por causa da gula, a Bulldog Leona teve um precoce desgaste de ossos na região do quadril. A raça geralmente apresenta esse tipo de problema, mas o dela foi antecipado pela gordura excessiva. Agora sua alimentação é controlada com ração especial e muitas frutas, o que antes não existia, pois a ela comia fora de hora. Sem contar as guloseimas

Brenda emagreceu três quilos depois da mudança de casa

GULA

QUEM FAZ O QUÊ Nome Carolina Biscaglia Funções Sub-Editora Repórter Pecado Gula

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Quando descobri que a minha pauta seria sobre a gula, logo pensei que não queria uma coisa óbvia, tipo pessoas gordas. Então a nossa editora Blau deu a ideia de fazer sobre animais de estimação gordinhos. Logo me lembrei de duas cadelas que sofriam com o peso extra. No meio do caminho surgiu a Fanny, uma gata que não comia. Logo pensei em colocá-la na matéria também, para mostrar

que o problema da alimentação afeta os bichinhos. O mais difícil foram as fotos. Porque animal de estimação é igual criança, não para nunca! A Bulldog eu não podia pegar no colo, porque ela tem alergia e problema nos ossos. E a Labrador simplesmente não parava. Então eu ficava chamando elas, um esforço em vão. Adorei fazer essa matéria, ainda mais porque sou apaixonada por animais.


Ginástica mandibular e outros disfarces MARILIA GEHRKE

Fanny tem dificuldades para comer

GULA EMOÇÃO

apenas a atual médica, Bruna Badach, conseguiu fazê-la engordar. Com uma dieta hipercalórica, Fanny ganha um quilo a cada mês. “Até lagartixa ela tem caçado agora”, diz Flávia, rindo. Para a veterinária, a gata sofreu um trauma e tem medo de comer. Sua dieta é feita com uma ração especial e seu prato deve sempre conter alimento. Tudo pensado para que ela sinta vontade de comer toda vez que passar por ele. Bruna conta que muitos animais são obesos por causa dos seus criadores: “Muitos donos bem-intencionados mimam seus animais com guloseimas e oferecem mais comida do que o necessário, não percebendo que isso pode levá-los à morte”. Ela alerta que, dentre os principais problemas estão a doença músculo-esquelética, diabetes, doença cardiovascular, comprometimento da competência imunológica e morte prematura. Também lembra que os alimentos que nós comemos não devem ser os mesmos dos animais. Para isso existem diversos tipos de rações no mercado específicas para cada idade e raça do bichinho de estimação. Depois da seção de fotos e das brincadeiras, Leona é chamada para jantar sua ração especial. Brenda pula, corre e lambe seus filhotes e fica impossível não sentir que agora ela está feliz. Fanny acostuma-se com a minha presença e começa a ronronar na minha perna. Tão diferentes e tão iguais. Elas parecem entender que o problema com o peso preocupa seus donos. Cooperam para que voltem a ter o peso ideal das suas raças e fiquem ainda mais lindas.

bit.ly/unicao bit.ly/uniset

que faziam parte da sua vida, inclusive chocolates e bolachas recheadas. Agora no café da manhã ela come mamão e banana. No almoço, uma xícara de ração especial vinda de Porto Alegre. Durante a tarde ela toma os remédios e come mais algumas frutas. E na janta, meia xícara de ração. Além de caminhar todos os dias na praça perto da sua casa. O pelo cor de creme e os olhos azuis de Brenda são típicos de um Labrador. Mãe recentemente, pergunto ao dono, Fabrícius Paz, se a gordura dela é decorrente disso. Ele afirma que ela sempre foi assim, pois comia demais, sua tigela era sempre recheada, inclusive de comida humana, como polenta e arroz com feijão. Sem contar que ela não tinha muito espaço para correr e praticar exercício. Depois da mudança de casa, Brenda ganhou um quintal maior no qual pode ficar mais à vontade. Logo que cheguei no portão ela correu e pulou em minha direção. Esbanjava felicidade como se quisesse mostrar sua nova casa, mais espaçosa, ideal para um cão do seu porte. No meio de toda essa gula surge a Fanny, misteriosa, magrela e desconfiada. O pelo cinzento e os olhos verdes fazem a gata ter um charme irresistível, mas seu temperamento não é nada atrativo. Ela foi encontrada na rua muito novinha e a sua dona, Flávia Tischler, não sabe se ela foi abandonada pela mãe ou por outra pessoa. Desde então ela tem dificuldade em dar comida para a gatinha. Já levou a bichana a diversos veterinários, mas

Redes sociais denunciam: milhares de internautas são gulosos confessos e se unem a outros na mesma perdição. As comunidades virtuais, inclusas nessas redes, funcionam como uma espécie de grupo de apoio; seus tópicos, lotados de depoimentos sobre degustação e enquetes do tipo “o que você comeu hoje?” acabam com a culpa de qualquer gordinho (a) e cidadão sem namorada (o). Por meio de fotos, alguns pecadores exibem, orgulhosos, o prato saboreado na última refeição. Como qualquer pessoa que não vive à base de luz, penso que a privação alimentar é coisa para vegetariano ou intolerante a alguma substância. O exagero na comida, entretanto, possui consequências. E razões para se manifestar. O princípio da gula não é a fome, mas a vontade. O faminto come qualquer coisa; o guloso seleciona os alimentos – quanto mais glúten e açúcar na composição, melhor. As justificativas para o constante exercício da gula são as mais diversas: TPM, ginástica mandibular, estado civil, desgraça alheia, catástrofes naturais, trauma de infância e assim por diante. Você até pode cair em tentação. Contudo, não seja cínico a ponto de inventar que a balança estragou ou que a simpatia indicada pela Mãe Dináh não deu certo. “Vício capital é capaz de originar outros vícios”, dizia Tomás de Aquino, uma mistura de santo e filósofo; os pecados que seguem essa linha, então, além de terem o poder de se multiplicar, remetem à felicidade, valor que o ser humano busca cultivar. Pode admitir o quanto você fica feliz ao devorar aquele croissant de chocolate. Culpe a serotonina, neurotransmissor do bem-estar. A gula é sacana e não tem cura, mas tratamento: autocontrole. Dieta do abracadabra, da Bela Adormecida e da tênia amiga só funcionam no mundinho do faz-de-conta. A vida real exige controle e equilíbrio, não só com relação à comida, mas em outros aspectos.

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Uma coleção de pecados MARLUCI DRUM

RESENHA

bit.ly/unimarl

A série Plenos Pecados é um dos mais bem-sucedidos projetos editoriais brasileiros, com a venda de 260 mil exemplares e frequência assídua na lista dos mais vendidos

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Lançada em 1998, a série Plenos Pecados, da editora Objetiva, surpreendeu o mercado brasileiro ao vislumbrar um formato editorial pouco desenvolvido até então, o de coleção temática. O assunto foi tentador: os sete pecados capitais. Um convite à reflexão e também ao prazer. Temas que fascinam e aprisionam os homens ao longo dos séculos, os pecados são analisados, nesta coleção, sob um olhar contemporâneo e libertador: o que deles permanece, como noção de ofensa e erro, em nosso imaginário? Que limites traçam? Até onde nos desafiam?

Um por um, os pecados foram retratados pelos mais conceituados pecadores, digo, autores. Vale a pena ver o que cada um conta nesta coleção que é um convite a se aprofundar ou apenas entender um pouquinho mais sobre aqueles deslizes do dia a dia que insistem em não nos abandonar. Ficou curioso? Então deixe a preguiça de lado e cometa algum pecado, digamos assim, mais interessante, como´descobrir as peculiaridades de cada livro dessa série “tentadora”. Aliás, aposto que, assim como eu você vai descobrir que tem um pecado favorito.

INVEJA - Mal secreto Autor: Zuenir Ventura Editora: Objetiva Lançamento: 11/08/1998 Capa: Luiz Zerbini Gênero: Romance Número de páginas: 268 Valor: R$ 43,90

IRA- Xadrez, Truco e Outras Guerras Autor: José Roberto Torero Editora: Objetiva Lançamento: 20/10/1998 Capa: Daniel Senise Gênero: Romance Número de páginas: 184 Valor: R$ 38,90

GULA – O clube dos anjos Autor: Luís Fernando Veríssimo Editora: Objetiva Lançamento: 10/11/1998 Capa: Beatriz Milhazes Gênero: Ficção Número de páginas: 132 Valor: R$ 36,90

Qual o pecado que ninguém admite ter, mas todos juram conhecer? Acertou quem respondeu Inveja. Atire a primeira pedra aquele que nunca disse, pensou ou sentiu um pouquinho de inveja de algo ou alguém! É sobre esse mal secreto que o autor, numa mistura de aventura e revelações, apresenta uma espécie de jogo, tecido pela própria inveja onde o mais importante não é o que se ganha, mas o que o outro perde. Zuenir esbarra em histórias e relatos fascinantes de amor, medo e morte. Fluminense. Seguindo a trilha de Kátia, protagonista de uma instigante trama de inveja com consequências trágicas, percorremos caminhos insuspeitos e acompanhamos os seus passos, sem sabermos exatamente onde vão dar. No final, cabe ao jornalista abandonar sua posição de simples narrador e assumir o papel de investigador, esclarecendo o mistério. Realidade ou ficção? Essa dúvida fica no ar, assim como a inveja, sem que possamos vê-la nitidamente, mas com a certeza de que existe e onde menos se espera. Ficou com invejinha, foi? Ah, uma inveja “boa”! Ok, essa não é tão grave assim!

Um dos pecados mais cometidos ao longo da história da humanidade: a ira. Torero nos absolve, no entanto, de parte deste mal. Inspirando-se livremente na Guerra do Paraguai, ele mostra que grandes e pequenas iras nem sempre constituem pecados – algumas vezes, são até virtudes. Torero leva o leitor a conhecer cada instante da guerra - das artimanhas dos bastidores à violência do campo de batalha; dos atos heróicos às paixões clandestinas. Uma guerra não se constrói apenas com atos corajosos. Há paixões mesquinhas. Gestos infames. Feitos inglórios. Há covardia, medo, mortes. Há até mesmo amor. Com um texto simples, detalhista e espirituoso, o também autor do best-seller O Chalaça (prêmio Jabuti em 1995), nos apresenta a dura realidade da guerra dando a ela uma profundidade humana e, sobretudo, social, sem tornar-se uma leitura pesada. Curto. Ideal para um fim de semana. Mas cuidado!Não é porque estou recomendando a leitura da obra que serei a culpada de qualquer sentimento de ira que venha a ser despertado por aí.

Usar o ditado de que o peixe morre pela boca não é nenhum exagero quando se trata da obra de Luis Fernando Veríssimo. Essa obra gastronômico-literária faz uma saborosa mistura entre suspense, comédia e aventura, ao contar a história de um grupo de dez amigos que se reúne mensalmente há muitos anos para celebrar a arte de bem comer. Porém, no dia seguinte ao do primeiro jantar feito pelo misterioso Cheff Lucídio, Abel morre em circunstâncias misteriosas, justamente ele que, por ter gostado tanto do prato, quis comer a última porção. A dúvida paira entre os nove amigos: teria Abel sido envenenado? Apesar da morte do amigo o encontro no mês seguinte ocorre normalmente. De novo o jantar é promovido por Lucídio e outra morte acontece. Mas com essa repetição de tragédias, não era de se esperar que os amigos encerrassem os encontros? Será que eles sentem ainda mais prazer em deliciar um prato sabendo que poderá ser o último? As linhas carregadas dessa apetitosa mistura prendem os leitores pelo estômago. E aí, que tal essa provinha?


PREGUIÇA – Canoas e Marolas Autor: João Gilberto Noll Editora: Objetiva Lançamento: 22/09/1999 Capa: Leda Catunda Gênero: Ficção Número de páginas: 108 Valor: R$ 31,90

AVAREZA – Terapia Autor: Ariel Dorfman Editora: Objetiva Lançamento: 27/09/1999 Capa: Waltercio Caldas Gênero: Ficção Número de páginas: 172 Valor: R$ 34,90

SOBERBA - O voo da Rainha Autor: Tomás Eloy Martínez Editora: Objetiva Lançamento: 24/04/2002 Capa: Nelson Felix Gênero: Ficção Número de páginas: 280 Valor: R$ 43,90

Logo no início João Ubaldo Ribeiro esclarece ao leitor que ele exerce a função de “editor” de uma narrativa gravada em fitas pela qual o mesmo foi surpreendido. Confuso? Segundo Ribeiro, as fitas que recebera com as gravações pertencem a C.L.B, uma mulher , de 68 anos que, ao saber que ele fora escolhido para escrever para a Coleção, resolveu narrar e enviar a ele a sua história de aventuras sexuais, descobertas e prazeres. Se os relatos dessa senhora devassa e libertina são realmente verídicos ou se tudo não passa de uma brincadeira do autor, não há como saber. Mas certamente a intenção, seja de Ribeiro ou de C.L.B, em despertar a curiosidade, aflorar os desejos e reprimir os tabus será possivelmente alcançada. Dúvida? Então que tal esse trechinho do livro: “Eu quero excitar essas, quero provocar muitas trepadas, quero que maridos, namorados e pais assustados as proíbam de ler, quero que haja gente com vergonha de ler em público ou mesmo pedir na livraria, ah, como seria bom acompanhar tudo isso.” Numa linguagem direta, clara e um tanto quanto “caliente”, o enredo dessa obra seduz o leitor da primeira à última linha.

Um dos pecados mais comuns do ser humano: a Preguiça. Canoas e Marolas é um livro que dá preguiça até para virar as suas páginas e seguir adiante na leitura. Mas enfim, somos brasileiros e não desistimos nunca, não é mesmo? Seja por capricho ou birra, é sempre bom terminar o que começamos... Mas, enfim. O cansativo enredo se passa numa ilha e conta a história de um homem que caminha em busca de sua suposta filha que se chama Marta, a filha que é dele com outra Marta. O pouco que ele sabe da moça é seu nome e que ela estuda Medicina. A busca é lenta, sem altos e baixos, sem sofrimento. O homem não carrega agonia a cada passo dessa procura. Pode ser que aí esteja o segredo, a força do livro que tenta expressar a preguiça, não pela linguagem poética literária muito bem aplicada, mas pela história em si que se arrasta e cansa o leitor que pode abandonar a leitura com a desculpa de estar com preguiça e o mesmo até será compreendido. Talvez essa fosse a intenção do autor: fazer o leitor sentir o pecado, nesse caso especificamente sentir a preguiça que deu base à produção da narração. Não é que deu até sono?!

O escritor chileno Ariel Dorfman nos convida a uma viagem tempestuosa e divertida pelos desejos, manias e neuroses de Graham Blake: um rico empresário que tem tudo pra que sua vida seja considerada perfeita: sucesso, filhos maravilhosos, uma belíssima amante, situação financeira invejável, além de uma carreira promissora. Porém, a realidade é outra. Para Blake, sua vida está longe de ser essa perfeição: vive infeliz e considera estar vivendo num verdadeiro inferno. Bem, você deve estar se perguntando: o que lhe falta então? A sanidade mental e a cura para as dores de cabeça terríveis que o acompanham constantemente. Levado pelo desespero ele aceita o tratamento nada rigoroso do Instituto de Terapia Vital. A cada virada inesperada da narrativa, o talento de Dorfman revela o duelo insano do homem com seus pecados mais íntimos. Você se encontrou nessa história? Aos olhos dos outros sua vida é perfeita, mas só mesmo quem está de fora é quem consegue perceber isso? Esse livro pode ser a “terapia” que você está precisando no momento?! Faça como o Blake e arrisque-se você também pela sua cura.

O personagem principal da história chama-se Camargo e leva uma vida repleta de soberba. Dono do jornal argentino El diário, é um homem sem escrúpulos e que acha que todos à sua volta devem bajulá-lo. Este, por sinal, é um dos personagens mais bem construídos pela imaginação do autor, que consegue mostrar um homem capaz de amar e sofrer ao mesmo tempo, o que nos prende do início ao fim da trama, e nos faz perguntar se estamos diante do vilão ou do mocinho. A sutileza com que Tomás desenvolve sua trama é tamanha que em alguns momentos também culpamos os outros personagens pelos erros que Camargo comete. É inevitável que questionemos alguns valores no final do livro. Que nos vejamos tão cheios de soberba e insatisfação pessoal. Mas por outro lado somos convidados a nos encontrar de novo com nossos próprios defeitos, pois assim como acontece com o personagem principal, às vezes nos valemos de falsas mentiras para não assumirmos nossos erros. Depois dessa coleção, certamente você irá ou pecar menos, ou se esbanjar no pecado favorito (mesmo que discreta e secretamente).

Nome Marluci Drum Função Opinião Tipo de Texto Resenha

Entrei na turma do Unicom um pouco atrasada em relação ao início das aulas e tive que correr atrás do tempo perdido. As pautas já estavam definidas e o que me restou foi a resenha de uma coleção de pecados. No início fiquei com um certo receio, mas, com o passar do tempo, vê-la tomando forma me deixava mais empolgada! Na medida que apresentava os textos para o professor, as sugestões

de correções, alterações e por sequência as aprovações me deixavam satisfeita e confiante. Agora, podendo vê-la com a cara que tentava imaginar lá no princípio, fica a certeza do dever cumprido e a esperança de que a resenha agrade outros olhos, para além de mim, de meus colegas e do professor: Os olhos daqueles que são as peças fundamentais para este trabalho: os dos nossos leitores.

RESENHA

QUEM FAZ O QUÊ

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Luxúria – A Casa dos Budas Ditosos Autor: João Ubaldo Ribeiro Editora: Objetiva Lançamento: 14/04/1999 Capa: Adriana Varejão Gênero: Ficção Número de páginas: 164 Valor: R$ 36,90

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Avarentos: pecadores na vida real e na ficção Condenada pelos sete pecados capitais, a avareza existe tanto na vida real como na ficção. Vários personagens do meio artístico são avarentos, imitando, muitas vezes, os pecadores de verdade AUGUSTO HOFFMANN REPORTAGEM

AVAREZA

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PEPE FONTANARI ILUSTRAÇÃO

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Arte Sobre Imagem

situação financeira destes professores não é das melhores, mas Luciana nem de longe esperava o que estaria por vir. Ela recorda com muito bom humor do episódio: o tempo ia passando, o chimarrão e a conversa andando quando começa a cair o dia. Lá pelas tantas já estava bem escuro dentro da residência, e a convidada, um pouco incomodada e temerosa, pergunta qual o motivo de não ascenderem as luzes de dentro de casa. Eis que a resposta das duas foi a seguinte: “Estamos tentando economizar energia, no mês passado a conta chegou a trinta reais.” O personagem avarento, talvez mais famoso de todos, vem das revistas em quadrinhos e alcançou até uma série de desenhos animados. Trata-se do Tio Patinhas. A primeira aparição no quadrinhos foi em 1947, como personagem coadjuvante dos quadrinhos do Pato Donald. Em 1950 ele passa a ser protagonista de seus próprios quadrinhos, juntamente com seus 4 sobrinhos. Trabalhando de engraxate recebeu sua primeira moeda, a moedinha número um, que deu origem a uma imensa fortuna, guardada em um cofre, em que o dono costuma nadar. Sempre em busca de novos tesouros, ele é um homem de negócios, não gasta um níquel onde não ache con-

veniente. Apesar das posses, o personagem é muito avarento, assim como uma conhecida de Maria de Fátima Werlang, coordenadora de setor, 57 anos, que recorda com carinho da amiga que poupava onde podia. Pois foi em uma festa de final de ano que a avareza da senhora ficou evidente. Era década de 60, Tramandaí, uma cidade praiana distante 118 km de Porto Alegre. Na época a cidade era muito simples, poucas casas e quase nenhum calçamento. Maria de Fátima tinha em torno de 10 anos de idade na época e lembra da família e amigos reunidos, todos confraternizando. A senhora era mesmo uma pecadora.. Como relata Maria de Fátima, ela tinha uma situação econômica invejável, não tinha do que se queixar. Porem, durante todo o jantar, enquanto todos compartilhavam de tudo, ela ficou abraçada em sua garrafa de refrigerante. Com o guaraná em baixo do braço, esquentando, ninguém se atreveu a pedir um copo que fosse. Talvez ela pudesse dividir com seu marido, mas ele não procedeu na tentativa pois já estava acostumado com a avareza da esposa. Nem mesmo os demais convidados se surpreenderam, apesar da sabida avareza, ela era aceita por todos desta forma.

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Quem não se lembra do enorme Senhor Barriga, da Turma do Chaves? Toda vez que ia até a vila onde moravam os personagens do seriado, era para cobrar os aluguéis, que, afinal de contas, faziam parte de seu sustento. O seriado da Turma do Chaves começou a ser exibido em 1971, no México. No Brasil a série entrou na programação do SBT em 1984 e fez um enorme e inesperado sucesso. Assim como o senhor Barriga, que vivia dos aluguéis cobrados na Vila do Chaves, também se sustentava certa senhora muito avarenta, que residia em Lajeado, como lembra Luciana Guilardi, 42 anos, corretora de seguros. A senhora era dona de vários imóveis na cidade do Vale do Taquari, distante 64 km de Santa Cruz do Sul. Luciana morava de aluguel em uma das casas e conta que a dona guardava todo o dinheiro dos alugueis no banco. Se tivesse que ser feito algum reparo na casa ela mesmo os fazia, nunca chamava um profissional. Assim como o Seu Madruga, que fugia do senhor Barriga na hora de pagar o aluguel, alguns inquilinos faziam o mesmo devido a cobrança incessante da idosa senhora. Nem mesmo com sua saúde a velha gastava. Ela sofria de bronquite asmática e as constantes crises

eram presenciadas pelos moradores da redondeza que tentavam ajudar. O pedido de socorro era recorrente, mas ela relutava em gastar o dinheiro guardado com sua saúde, e já nem todos os vizinhos ainda a ajudavam. Após várias idas ao pronto socorro, Luciana conta que o problema persistia. Além de não seguir as orientações médicas, ela não comprava os remédios indicados. A avareza da senhora teve um fim trágico: em um certo dia de inverno uma crise muito forte tomou conta de seu corpo. Naquele dia não foi possível socorrê-la, já era tarde. A morte havia chegado e os Reais guardados, que a senhora relutava em gastar enquanto viva, já não lhe serviam mais para nada. A avareza se manifesta de diversas formas, algumas tristes como vimos no relato acima e outras nem tanto. O avarento se entrega devido a suas atitudes, o pecado fica evidente. Assim como no meio artístico, onde a avareza muitas vezes é abordada de forma engraçada, na vida real algumas situações causam boas risadas, como no relato a seguir. Este fato, um pouco mais engraçado, diz respeito a duas amigas de Luciana, que certa feita a convidaram para tomar um chimarrão na casa delas. As duas eram professoras do ensino fundamental. Sabe-se que a

Nome Augusto Hoffmann Funções Repórter Revisor Pecado Avareza

Fazer uma reportagem sempre envolve muita correria, pesquisa e conversas com muita gente para tentar pescar algo diferente sobre aquilo que se quer contar. Mas quando se trata de pecados, a tarefa fica ainda mais complicada. Nem todas as pessoas gostam de expor sua vida pessoal, pior ainda é admitir que seja avarento, por exemplo. Por isso foi preciso o uso de algumas táticas na hora das entrevistas. Como, por exemplo, ao invés de perguntar se a pessoa era avarenta, perguntar o que ele

achava do pecado, se conhecia alguém que fosse avarento ou que já foi. Só deixando o entrevistado bem a vontade é que consegui alguns relatos. Algo que chamou a atenção foi o fato de que a maioria dos entrevistados relatava casos de outras pessoas, mas nunca de si próprio. Houve até relutância em alguns momentos para admitir que certas atitudes fossem avarentas. Foi assim, em meio a conversas, que pude perceber o quanto sou pecador. Porém, nunca tinha parado para pensar mais a fundo.

AVAREZA PING PONG

QUEM FAZ O QUÊ

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Pecadinho e pecadão DIANA DE AZEREDO

Sabe aquele pecado de estimação? Eu era do tipo que tinha, até mesmo, pecadinho e pecadão. Não admitia comer torrada com presunto na sexta-feira que antecedia a Páscoa. Mas gastava poucas horas do domingo devorando chocolates. Que Deus me perdoasse. Eu tinha uma vaga ideia de que Ele seria capaz disso. Até que descobri o significado da palavra “hamartia” que, em grego, se refere a pecado. Para minha surpresa e certamente a sua, se foi educado por católicos

e, como eu, sempre teve preguiça de ler aquele baita livrão aberto na sala, descobri que essa história de pecados capitais foi inventada pelo papa Gregório Magno e formalizada pelo teólogo Tomás de Aquino. O sentido do termo pecar, segundo os gregos, nada tem a ver com se irar ou sentir inveja. Cometer pecado, no idioma da Grécia, é o mesmo que “errar o alvo”. E vem daí outro termo bastante citado na Bíblia: arrepender. Ou seja, quem está “fora do alvo” deve voltar

ao estado original, retomar o rumo. Não é à toa que Jesus afirma, também naquele baita livrão, que Ele é “o caminho”, além de ser a verdade e a vida. “Arrepender-se” não é o mesmo que sentir remorso ou aquela dor de barriga horrível depois de comer todos os chocolates. Por preguiça ou orgulho, eu passei quase 20 anos pensando que não precisaria ler o que estava escrito naquele livro que ganhei de presente da avó. Talvez tenha sido burrice. O certo é que cansei de me deixar in-

fluenciar pelo “capital” alheio. Decidi formar meu pensamento a partir de uma busca própria, na fonte original. E descobri maravilhas nada luxuriosas. Uma delícia. Hoje, um pecadão? Analfabetismo opcional, se me perguntarem. Quem sabe ler e tem uma Bíblia à disposição (vale lembrar que, antigamente, ela era “para poucos”), deve buscar a verdade. Para a ignorância consentida pode não haver perdão. Nesse caso, quantos estariam condenados à falta de sabedoria eterna?

Da preguiça à roda

OPINIÃO

bit.ly/bloguni

JULIANA BENCKE

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Confesso. Hesitei antes de sentar em frente ao computador e digitar essas palavras que seguem. Por isso, também não desanimo caso alguém prefira tirar uma soneca antes de encarar essa crônica. Afinal, é mesmo a preguiça que organiza nosso dia. E não que isso seja de todo ruim. Pelo contrário: preguiçosos até mesmo impulsionam a economia. O vendedor de sofá não teria carreira profissional caso não existisse o prazer de esticar as pernas e relaxar a mente

enquanto a louça permanece na pia. Muito mais do que quem desperdiça suor na rotina de trabalho, preguiçosos de plantão estimulam estudos, desenvolvimento tecnológico e fomentam o setor de produção exclusivo ao quinto pecado capital. O que impressiona é que, ao adentrarem as prateleiras do comércio, produtos do ramo preguiça passam a ser disputados também por aqueles que em nenhum momento inspiraram pesquisas de mercado.

Superativos, perseguidores dos “avessos ao trabalho” e alérgicos à rede brigam com unhas e dentes para levar para casa espreguiçadeira, controle remoto e escova de dentes elétrica. Minha tia avó sempre defendeu que “a preguiça não lava a cabeça e, se a lava, não se penteia”. Entretanto, quando foi lançado o garfo que enrola o macarrão sozinho, levou uma dúzia para casa. Jamais por preguiça. Sempre para acompanhar a tecnologia. Claro!

Enquanto se perde tempo em discutir o que é, de fato, preguiça, melhor nem queimar neurônios para pensar em um pecado tão humano, natural e gostoso de conviver. Melhor mesmo é se debruçar sobre a cama e voltar no tempo (mentalmente, é claro), para rever o quão importante foram os preguiçosos para a humanidade. Já disse o Mario Quintana: “Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não havia inventado a roda”.

QUEM FAZ O QUÊ Nome Marília Gehrke

Nome Diana de Azeredo

Nome Juliana Bencke

Função Opinião

Função Opinião

Função Opinião

Tipo de Texto Crônica

Tipo de Texto Crônica

Tipo de Texto Crônica


Concurso pecaminoso Das mentes dos mais diversos pecadores do curso de Comunicação Social surgiram oito propostas para a capa. Apesar de o Unicom só ter espaço

para uma delas (e para uma contracapa), decidimos dar a vocês o gostinho de conhecer o trabalho dos outros participantes do concurso.

Proposta de capa e contracapa enviada por Carine Immig e Fábio Goulart

Proposta de capa e contracapa enviada por Ana Carolina Becker, Gustavo H. Alves, Gustavo Engelman, Frantiescole Machado, Ricardo Morais e Rafaela Cristina Richter Schneider

Proposta de capa enviada por Vânia Soares Linhares

Proposta de capa enviada por Elizandra Ferreira e Patricia Dhiel

bit.ly/unibast CONCURSO

Proposta de capa enviada por Ana Carolina Lau, Roberta Prado, Jéssica Noble, Evelin Barbosa, Lucas Baumhardt, Djuliane Rodrigues, Cesar Lopes, Luiz Habekost e Jaíne Kunde

Proposta de capa enviada por Amanda Mendonça

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Preguiça: da antiguidade à modernidade O pecado que teve seu sentido mais alterado, ganhou novo significado depois da invenção de algumas tecnologias

PREGUIÇA

bit.ly/unicaca

CAROLINA LOPES REPORTAGEM E FOTOGRAFIA

ça era causada pela retenção de fluidos sexuais, e só poderia ser curada se esses fluidos fossem liberados. No ano 400, quando o Cristianismo estava em maior evidência, a preguiça deixa de ser considerada doença para ser vista como estado demoníaco. O padre jesuíta Peter Binsfeld associou cada pecado a um demônio específico. O demônio da preguiça seria Belphegor. Ele atraia os pecadores para o sentimento de isolamento, desespero e insignificância. Caso a pessoa se rendesses às tentações do demônio, ele passava a residir no corpo do pecador. Foi então que a prática de exorcismos se tornou comum para livrar as pessoas do demônio da preguiça. Hoje podemos refletir sobre a preguiça com a seguinte frase: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.” É possível perceber que a máxima de Mário Quintana é muito pertinente quanto à vida e história dos seres humanos. A roda apenas foi o início de tudo. Para depois dar espaço a máquinas

que realizavam tarefas simples do dia a dia, até as que conhecemos hoje que desempenham funções muito complexas que superam o trabalho humano em força e eficiência. Com as tecnologias de hoje tudo pode ser feito com menor esforço, desde nos comunicar com pessoas distantes, a ligar a televisão. E embora os preguiçosos sejam mal vistos pela sociedade em geral, acreditem: a preguiça é uma característica biológica, mesmo que uns a manifestem mais que outros. Herdamos de nossos antepassados das cavernas essa tendência de não querer fazer nada. Isso nada mais é que um mecanismo de defesa para economizar energia no caso da necessidade de ir caçar ou lutar. Hoje não precisamos ir tão longe assim à busca de comida, depende apenas da distância que estamos da geladeira. E, ainda sim, é difícil combater os sintomas da preguiça quando ela bate a nossa porta. Talvez o problema seja tudo estar ao nosso alcance. Com o passar do tempo e a evolução das tecnologias, temos recompensas automáticas aos nossos

QUEM FAZ O QUÊ Nome Carolina Junqueira Lopes Funções Repórter Revisora Pecado Preguiça

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Dificuldade para levantar da cama, falta de vontade de fazer trabalhos ou estudar para uma prova. Não querer fazer nenhum esforço seja ele físico, seja mental. Nos dias de hoje é isso que consideram ser a preguiça. Mas, na sua origem, este pecado é mais difícil de compreender. De todos os outros, a preguiça foi o pecado com a história mais contraditória. Evagrius Ponticus foi o criador da lista das oito tentações que levariam ao “inexorável abismo do inferno”, e inicialmente a preguiça não estava listada. Ela estava dividida entre dois pecados que Evagrius nomeou como acídia (apatia) e trisiticia (tristeza). Mais tarde no ano de 590, o papa Gregório reexaminou a lista e a diminiu para sete pecados, combinando a acidia e a tristicia no único pecado da preguiça. É difícil de acreditar, mas para a antiga Igreja Católica a preguiça seria o mais mortal de todos os pecados. Ela seria a culpada pela pobreza e pelas injustiças do mundo, e também pela falta de protestos em situações como essas. Entretanto, é compreensível que eles pensassem dessa forma porque em pequenas sociedades agrícolas de 1500 anos atrás, uma recusa ao trabalho poderia levar a fome. Em cada sociedade a preguiça foi vista de maneira diferente, e muitas vezes de formas bastante controversas. Os gregos viam a preguiça como uma doença que podia ser curada, porém a base de tratamentos pouco convencionais como sangrias e vômitos provocados. Nessa época a preguiça foi muito confundida com o conceito de depressão que conhecemos hoje. Para os romanos a pregui-

Fazer a matéria foi bem interessante. Mas não foi fácil. No início tinha a empolgação para pesquisar mais sobre a preguiça, sobre a história, como era vista e encontrar uma maneira de relacionar isso com algum case. Esse foi o maior problema. Encontrar pessoas com histórias “pouco convencionais” relacionadas à preguiça e dispostas a falar. Como está na matéria, todas as pessoas são preguiçosas, mas são poucas as

que têm coragem de dizer isso realmente. Perdi histórias muito boas, porque as pessoas tinham vergonha de falar ou aparecer. Até mesmo sem ter o nome citado. É compreensível, mas foi um entrave no rumo da minha matéria. E depois de toda a pesquisa com os cases que deram certo, foi a hora de pôr a mão na massa e ver o que sairia dali. Demorou um bocado, ajustes aqui e ali, mas deu gosto de ver o resultado final.


hoje. Porém, um dos fatores mais importantes em relação à preguiça são os transportes. Depois da invenção dos veículos é difícil não se render a tentação da preguiça, como no caso de Guilherme Tornquist, 21 anos. Desde que comprou a sua moto há um ano, pouco caminha. Mas a questão não é somente o fato de ele usar muito a moto, e sim para qual distância ele a tem usado. Ele percorre distâncias mínimas com a moto, que seriam facilmente percorridas caminhando. Como por exemplo, a casa de um amigo que fica aproximadamente a 100 me-

tros da sua. Ele justifica dizendo, “se eu tenho a moto por que não usar?”. E não é só isso. Guilherme mora em Rio Pardo e trabalha em Santa Cruz do Sul. Quando a preguiça bate no horário de acordar e pegar o ônibus, ele nem se abala, pois sabe que pode ir mais tarde com a moto. Embora possa ser prático em alguns momentos acaba não sendo para o bolso. Por usar a moto com tanta frequência, até mesmo quando não seria necessário, Guilherme diz gastar em média 150 reais com gasolina por mês. Quando percebe que já gastou mais que o previsto, nem a preguiça faz

Nota da redação: Até pensei em terminar a matéria com uma frase de efeito, bem criativa. Mas deu uma preguiça...

Nome Regina Colombelli Funções Fotografia Edição

Acompanhar o Unicom ao longo dos semestres, ser uma mera leitora das páginas do jornal foi o meu papel por algum tempo. Muitas vezes pensamos que por ser uma cadeira específica do Jornalismo, as outras habilitações não tem vez. Então, temos um grande engano. Justamente por esse motivo e por pensar errado descobri com alguns colegas que o Unicom sempre está de portas, digo, pági-

nas abertas para os demais alunos. Por isso, esse semestre resolvi fazer diferente. Participar de parte da produção, das fotografias e pensar sobre a temática do Unicom me fez perceber, mais uma vez, a importância do conjunto e que trabalhar em grupo, dividir tarefas, e mesclar as habilitações da Comunicação dá sim um ótimo resultado. As oportunidades estão sempre por aí.

PEGUIÇA ENSAIO

QUEM FAZ O QUÊ

bit.ly/unisono bit.ly/uniesp

desejos. Se você quer trocar de canal, não é necessário nem levantar do sofá. Quer algo para comer, mas não tem vontade de cozinhar? Existem variados produtos no mercado que podem ser feitos sem nenhum esforço, como os famosos macarrões instantâneos, e diversos pratos congelados, como pizza e lasanhas. O próprio aparelho micro-ondas já é um grande aliado no momento da preguiça de cozinhar algo mais elaborado. Ou ainda, é só ir até o telefone e solicitar qualquer uma das variadas opções de alimentos que se oferece por tele-entrega nos dias de

a moto sair da garagem, só assim é possível vê-lo mais vezes caminhando pelas ruas de Rio Pardo. Embora ela influencie, há vezes em que a tecnologia não está associada à preguiça. É quando bate aquela vontade de não fazer coisa nenhuma tão difícil de resistir em algumas vezes. No caso de uma aluna da Unisc que não quis se identificar, isso está bem claro. Ela conta que já faltou o estágio algumas vezes, e sim, foi só por preguiça. Ficou em casa entregue aos braços de Morpheu. Além disso, a preguiça já fez com que ela passasse por algumas situações constrangedoras. Quando está com preguiça, ela disse que gosta de passar o dia em casa de pijama. E em um desses dias de preguiça, resolveu ir até o mercado próximo de onde mora. Qual não foi a sua surpresa quando, no meio do caminho, percebeu que ainda estava de pijama. A sorte dela é que não tinha ninguém na rua naquele momento. Apenas voltou para casa, trocou de roupa e foi ao mercado. Afinal, como ela mesmo disse “dessa vez a gula foi maior que a preguiça”. Mas quem nunca deixou de fazer algo apenas por preguiça que atire a primeira pedra. Em algum momento todos fizemos ou deixamos de fazer o que deveríamos por preguiça. Todos nós somos preguiçosos, ou seja, pecadores...

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Quando se perde a cabeça Algumas pessoas irritam-se por motivos incomuns. Mas são as banalidades que costumam levá-las ao extremo

RENAN SILVA REPORTAGEM

- Fico irritada quando os colegas não cumprem suas tarefas, prejudicando o andamento de um todo da empresa. Mas há um período no mês em que tudo se intensifica. Shana pertence a um grupo bastante específico, que abrange cerca de 75% das mulheres brasileiras. Ela sofre com a fatídica Tensão Pré-Menstrual. - Sempre fico mais chata, sem paciência, qualquer coisa me faz explodir. Enquanto divide a atenção entre as janelas abertas em seu computador e a entrevista, Shana questiona se realmente quero entrevistála naquele dia. Ela diz que não está numa “vibe legal”. Tudo culpa do stress de sua rotina. Shana é riopardense, tem 31 anos, e assim como o carteiro José, a falta de respeito no trânsito também a tira do sério. Mas é no convívio em família que libera sua ira com maior frequência. - Sempre me irrito quando peço para alguém executar algo que precisa ser feito naquele momento e isso não ocorre. Aliás, não é apenas a riopardense que se irrita por questões familiares. Em Sinimbu, a técnica de enfermagem Lilian Kist, 26 anos, também perde a paciência quando o assunto é família. - Os meus pais me “sugam demais”. Porque, por exemplo, eu não posso nem entrar na internet e já me chamam para fazer alguma coisa. Eu não consigo ter minha autonomia, minha própria vida. E se com os pais o clima é de tensão, imagine, caro leitor, como é a relação de Lilian com sua irmã, Luciane. Ela

Shana Prestes

bit.ly/uniira

VIVIANE MOURA FOTOGRAFIA

Enquanto revira as correspondências dentro de sua sacola, o carteiro José Miguel Forster, 41 anos, procura uma resposta para o questionamento feito segundos antes. - O que te deixa irritado? - O trânsito. - Responde ele, evasivo. Insisto. - Mas o quê no trânsito? - Tudo! É pedestre que se atravessa na frente dos carros, motorista barbeiro que faz que vai mas não vai, congestionamento, tudo. Algumas horas se passam até que essa pergunta seja feita novamente. - Odeio que mexam nas minhas coisas. - Revela Jéssica Tostes, 18 anos, estudante do ensino médio. José e Jéssica não se conhecem. Talvez já tenham se visto por aí, mas, ainda assim, nunca conversaram. O que eles têm em comum? Ambos têm sua ira despertada por motivos simples e cotidianos. O trânsito que tanto irrita José faz parte de nossa rotina. Aquilo que tira Jéssica do sério, por mais banal que pareça, é algo que irrita muitas pessoas diariamente. Essas foram apenas algumas dentre as mais de 50 respostas obtidas ao longo dos dias por meio de uma simples pesquisa. Os entrevistados só tiveram que responder à pergunta “O que te deixa irritado?”. Descobriu-se, então, que são muitas as situações do cotidiano que nos levam ao extremo. Situações corriqueiras que passam despercebidas pela maioria mas que sempre tiram alguém do sério. A auxiliar administrativa Shana Prestes, por exemplo, se irrita com a falta de companheirismo no seu local de trabalho.

IRA

QUEM FAZ O QUÊ Nome Renan Silva Funções Editor Multimídia Diagramador Repórter Pecado Ira

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O Unicom 7 Pecados fez parte dos meus sonhos, literalmente. Sonhava que o prazo chegara ao fim e meu trabalho não havia terminado. Acordava ofegante porque, em meus mais terríveis pesadelos, o Unicom havia sido enviado para a gráfica sem uma última revisão, sem os ajustes que estavam sob minha responsabilidade. Fobias de um diagramador. Mas as preocupações começaram bem antes. Enquanto repórter, fui designado a falar sobre a Ira. Mas, como? Não tinha ideia sbre o que escre-

ver, quem entrevistar ou qual ângulo abordar. Foi apenas em uma noite de quarta-feira, no laboratório de fotografia, conversando com a amiga Luana Backes, que pude compreender onde estava minha pauta. O diálogo me levou a pensar no pecado em suas manifestações mais simples. A verdade é que não precisamos de ideias absurdas e complexas. Basta abrir os olhos e sujar os sapatos para encontrar, em cada canto, uma história interessante.


Lilian Kist

bit.ly/uniira

fere não entrar em detalhes quanto à briga. Já a segunda situação foi um confronto com uma antiga colega. Na época, morava em outro bairro. Uma colega de escola a odiava tanto que chegaram a trocar tapas. - Não porque eu quis, mas sim para me defender. Não sou de briga, nem apoio esse tipo de atitude. Certo dia, sua família resolveu mudar-se de bairro e trocá-la de escola. Mas ao anunciar para a turma que estava de mudança, descobriu que a tal colega também iria embora. E, pior, para a mesma rua, numa casa em frente à sua. - Como ficamos vizinhas e iríamos frequentar a mesma escola, a mesma turma, nos aproximamos, mas superficialmente. Algum tempo se passou até que a colega resolvesse mudar novamente de escola. - Foi então que descobri que ela falava muito mal de mim e da minha família sem motivo algum. Na época, a mãe de Eliana teve de intervir e conversar com os responsáveis pela outra menina. - Hoje, quando passo por ela na rua, faço de conta que não a conheço. Não quero pessoas desse tipo perto de mim. Por mais simples que essas histórias pareçam, refletem atitudes com as quais nos defrontamos diariamente. Falar sobre Ira é mais do que pensar em um pecado bíblico ou buscar justificativas complexas para histórias complexas. Basta simplesmente abrirmos os poros para buscarmos histórias comuns, e ainda assim, fascinantes em sua simplicidade.

Eliana Werlang

mora em Brasília há cinco anos, mas nem mesmo os 2 mil quilômetros de distância bastam para atenuar a ira entre elas. A briga mais recente foi causada pela compra do carro novo da técnica de enfermagem. - Ela ficou falando “Pô, por que tu fez isso?”, como se eu fosse uma criança. Só que eu já tenho 26 anos e sou bem grandinha. Eu tenho autonomia pra isso porque eu trabalho desde os 16 anos. Sentada à mesa, ainda encabulada devido à presença da câmera que registra a conversa, a sinimbuense revela ter outro ponto em comum com a riopardense: a relação com o trabalho. - Tem muita gente que se escora no trabalho. Eu acho que se todo mundo é colega, tem que trabalhar em equipe. Mas não são apenas as relações familiares e o trabalho que despertam a ira das pessoas. No caso da estudante de 19 anos Eliana Werlang, o motivo da frustração é algo bem menos palpável e controverso: a falta de tempo. - Faltam horas no meu dia. Tenho muitas coisas para fazer e pouco tempo. Isso me chateia e irrita. Eliana considera-se uma pessoa calma. Ela enfatiza que dificilmente perde o controle, mas quando acontece, fica realmente furiosa. Mas em duas situações, chegou ao ponto da agressão física. - A primeira foi uma vez que briguei com meu ex-namorado. Fiquei tão, mas tão furiosa que ele não conseguiu me segurar. Tal era a fúria da moça que chegou a machucar o rapaz enquanto este tentava segurá-la. Mas ela pre-

QUEM FAZ O QUÊ Nome Giusepe (Pepe) Fontanari

Funções Relações Públicas Eventos Lançamento

Função Ilustração

IRA

Nomes Francine Weis e Vanessa Britto

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Marina Frantz Saldanha

Regina Colombelli

AAAAAAAH! Que soco!

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Foto-pecados

Quero aquele!

Regina Colombelli

Vem!



Regina Colombelli

FOTOPECADO

bit.ly/unibast

Regina Colombelli

Não são seus olhos, querida!

Regina Colombelli

Marina Frantz Saldanha

O que é meu, é meu!

Hum, qual é o maior? Ah, cansei.


Vejo, logo invejo CRISTIANE LAUTERT SOARES

Confissão de pecados: “Invejo o estilo machadiano de escrever e a capacidade intelectual de algumas pessoas. Invejo os sortudos que não precisam andar de ônibus todo o santo dia para ir à universidade. Quando “forever alone”, invejei casais apaixonados trocando carícias na frente dos encalhados. Acrescento à lista de invejados os moradores de regiões quentes, que postam em suas redes sociais fotos de um belo dia de sol na praia,

enquanto tremo mais do que vara verde com o frio do Sul”. Invejas confessadas e, creio, nada prejudiciais. Entendo-as como um modo particular de admitir que não posso ter tudo quanto quero. Inveja-se o que os outros são ou têm - ou o que se pensa que são ou têm. É claro que nem todo elemento motivador desse pecado capital se enquadra no padrão da “inveja branca”. Nem todo. Inveja-se, também, por incompetência. Inveja-se

por acomodação. O escritor espanhol Francisco de Quevedo, do século XVII, disse que “a inveja é assim tão magra e pálida porque morde e não come”. O conceito, proferido há séculos, ainda é válido. O invejoso incompetente e acomodado contenta-se em “observar” e nada fazer. É mais cômodo lançar olhares enviesados sobre o que pertence a outro do que buscar alcançar o mesmo, ou, na melhor das hipóteses, alcançar mais.

Adeptos da magra e pálida prática deveriam usá-la como impulso para a mudança. Ainda que a inveja seja uma motivação pouco saudável, pode fazer com que o cidadão saia do lugar em vez de perder tempo com a vida e a felicidade alheia. Aos invejados – quer pelos praticantes da “inveja branca”, quer pelos incompetentes de plantão -, nada de estresse; deixo a sábia frase de Quevedo: “Virtude invejada é duas vezes virtude”.

O pecado na torta de amêndoas ANA FLÁVIA HANTT

a ninguém, não é mesmo? O problema dessa farra gastronômica só aparece quando a pessoa sobe na balança. Ao sinal do primeiro pé equilibrado sobre ela, os ponteiros, enlouquecidos, avançam por mais dezenas do que o esperado. De repente, o segundo milk shake ingerido em questão de uma hora (moça, capricha na cobertura, por favor!) se transforma em centímetros a mais no abdômen. A saideira na pizzaria (aí garçom, traz de novo todos os sabores doces!) viram altos números de colesterol e triglicerídeos. O resultado? Uma moça histérica no provador de uma loja porque

nenhuma calça tamanho 42 passa da altura dos seus joelhos. Ou então, um rapaz que foge do jogo de futebol com os amigos por só ter sido escalado como goleiro. Enfim, é chegada a hora da escolha. Para alguns, a constatação das ‘dobrinhas’ a mais vem com comodismo. O guarda-roupa é remodelado e os bombons de morango ganham um lugar de destaque na casa. Outros, contudo, resolvem tomar uma atitude: afinal, a Colci só faz calças para pessoas com o biótipo da Gisele Bündchen. Aí é que começa o suplício. A nutricionista passa a ser confidente, conselheira e melhor amiga.

A academia é parada obrigatória (se o indivíduo não tiver tempo, deve acordar às quatro da manhã), as barrinhas de cereal não saem da bolsa e os chocolates ganhos na Páscoa são todos doados para a irmã caçula. Depois dos quilos perdidos, os novos magros são, na verdade, novas pessoas. Nesse contexto, muda-se o tamanho das calças, a refeição no prato e, em alguns casos, até o namorado. E por onde anda o pecado? O pecado está logo ali, aguardando, sorrateiro, em uma torta de chocolate com pedaços de amêndoas.

Nome Cristiane Lautert Soares

Nome Ana Flávia Hantt

Função Opinião

Função Opinião

Tipo de Texto Crônica

Tipo de Texto Crônica

OPINIÃO

QUEM FAZ O QUÊ

bit.ly/bloguni

Faça o teste: acesse a página do Google e digite a expressão ‘pecado da gula’. Os dois primeiros resultados que aparecem referem-se a sites de receitas. São macarrões gratinados, bolos mousses, pães de limão siciliano, tortas de banana repaginada, brownies na marmitinha e fraldinhas ao molho de cerveja preta. Pecado? Isso mais parece um banquete. A gula, aliás, é o mais inocente da listinha negra bíblica. Ninguém confessa sua própria avareza, orgulho, ira, preguiça ou luxúria. Agora, comer uma costelinha de porco com farofa e um prato a mais de sobremesa não fazem mal

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Um fenômeno chamado sexo VIVIANE MOURA

Quem pensa que sexo é algo entre quatro paredes, não se dá conta de que ele está por toda a parte

bit.ly/univivi

VIVIANE HERRMANN ILUSTRAÇÃO

Corpos entrelaçados, mãos deslizantes, palavras ao pé do ouvido, pele suada, beijos molhados, corpos vorazes. Mordidas de leve, corpos ofegantes, pés que se encontram. Desejo, tesão, orgasmo, êxtase. De frente, de costas, de lado, de quatro, em pé. Delicado, romântico ou selvagem. No olhar, na cama, no elevador, virtual e até por telefone. Mas, sobretudo, na imaginação. Sexo é algo que mexe com você. E não é de hoje que o tema gera polêmicas e atiça as mentes de diversas idades. Na verdade, se pararmos para pensar, tudo a nossa volta é ocasionado por ele. Da existência à felicidade. Dos grandes descobrimentos ao desenvolvimento social e financeiro. Estamos rodeados por outdoors, bares e baladas que propagam atos luxuriosos. De forma mais discreta, temos as relações interpessoais, afinal, quem nunca teve um colega de trabalho “mal-comido”? Sexo afeta o comportamento, muda o físico e movimenta milhões em dinheiro todos os anos. Vejamos o caso dos grandes lideres da história. Napoleão Bonaparte, o grande líder Francês, tinha várias amantes e, segundo as “más línguas”, parte de seu legado girava em torno do tamanho de seu pênis. Inclusive surgiram rumores de que suas ações na Revolução Francesa tinham, em grande parte, motivação em mostrar-se “mais homem” apesar do (pequeno) tamanho do seu órgão. Com pouco mais de 40 anos ele teve uma disfunção das glândulas endócrinas, o que reduziu seu pênis a pouco mais de 2 cm. Em compensa-

ção, Rasputin, o camponês místico e analfabeto que mandava na Rússia do czar Nicolau II entre 1905 e 1916, tem suas façanhas atribuídas por historiadores ao avantajado tamanho de seu órgão – 28,5 cm. Com livre circulação pela corte, ele passou a seduzir atrizes, mulheres de soldados e damas da sociedade - os nobres ofereciam suas mulheres em troca de favores. Suspeita-se até que, enquanto Nicolau II liderava batalhas da Primeira Guerra, a própria czarina Alexandra, neta da rainha Vi-

tória, da Inglaterra, tenha caído em suas mãos. Já Cleópatra (69-30 a.C.), a famosa rainha do Egito, conhecida como a Deusa do amor, teve sua história contada como especialista no sexo. Conta a lenda que ela aprendeu vários segredos eróticos com cortesãs de um bordel que frequentava em Alexandria e chegou a erguer um templo para receber seus amantes – diziam que chegou a fazer sexo com 100 homens numa única noite. Porém, segundo a inglesa Lucy Hu-

ENSAIO

QUEM FAZ O QUÊ Nome Viviane Moura Funções Editora de Fotografia Diagramadora Opinião Tipo de Texto Ensaio

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Escrever para o Unicom já é um desafio. Escrever, diagramar e ser editora de fotografia triplica a missão. Confesso que tudo isso me empolga, pois o jornalismo é meu maior vício. Fotografia e diagramação já são paixões mais antigas e na hora de escolher um pecado, luxúria se sobressaiu. É instigante escrever sobre sexo, é curioso, tentador. Este assunto é geralmente banalizado e, apesar de anos de polêmica, acredito que ain-

da seja tabu. Não nos damos conta da importância que o sexo tem na sociedade, não apenas como procriador, mas como influenciador e ditador de mudanças. O tema é altamente viciante e li inúmeros textos a respeito – inclusive, não descarto a possibilidade de algumas pessoas pensarem que sou pervertida (hahah). Mas quem não pensa em sexo e ficou curioso quando viu esse ensaio, que atire a primeira pedra.


de bolso e na década seguinte o formato passou a ser utilizado para notícias e imagens “mais comportadas”, sendo vendidas em grandes quantidades. O ciclo continuaria anos mais tarde com a criação do tele-sexo, canais pay-per-view, CD-ROMs, webcams, compartilhamento de vídeos online e de outros avanços trazidos pela pornografia, que ainda hoje influencia a mídia de massa. Mesmo sendo negada como tal, a “indústria do sexo” se tornou o maior laboratório de testes das novas tecnologias e continua revolucionando o modo como nos comunicamos. “Empresas da mídia e analistas raramente admitem a influência da pornografia. Mas eles deveriam reconhecer o fenômeno. O pornô é uma boa solução para ganhar mercado e iniciar inovações”, relata Partchen Barss, autor do livro Motor Erótico – como a pornografia potencializou a comunicação de massa, de Gutenberg ao Google.

Referências: BURGIERMAN, Denis Russo e SOALHEIRO, Bárbara. A ciência do sexo. Edição online da Superinteressante. Edição 189, junho de 2003. Disponível em super.abril.com.br/ciencia/cienciasexo-443922.shtml. Acessado em 17 de abril de 2011. HUGHES-HALLETT, Lucy. Cleópatra: História, Sonhos e Distorções. Rio de Janeiro: Record, 2005 O CLAMOR DO SEXO. Revista Galileu, edição 235. Rio de Janeiro, fevereiro de 2011. Pág. 62 a 67 STEPHANIDES, Menelaos. Ilíada: a guerra de Tróia. São Paulo: Odysseus, 2000. 272p

ENSAIO

mais polêmicas da história. Apesar de não se compararem as proporções das consequências dos atos históricos das três figuras célebres citadas, tanto o quesito virilidade quanto a sedução por interesses – sejam eles quais forem – são temas que se repetiram ao longo da história e se mantêm. Sexo, portanto, foi motivo de guerra entre nossos antepassados e foi a guerra quem determinou dimensões estruturais, organizacionais, proporções de terra e distribuição de renda. Falando em guerra, teria sido durante a Guerra Civil Americana que um novo conceito de comunicação começou a ser pensado através de, sim, o sexo. Até 1861, as únicas publicações impressas eram livros de capa dura, extensos e nada práticos ou estéticos. Foi a partir do desejo dos soldados por imagens eróticas que os primeiros folhetos com fotografias foram publicados. Essas publicações evoluíram para livros

bit.ly/unisexo

ghes- Hallet, no seu livro “Cleópatra, histórias, sonhos e distorções”, pela influência que ela exercia na época, muitos de seus defeitos eram inventados pelos inimigos romanos. Apesar de a história relatar que Cleópatra teve vários amantes, para Lucy, é possível que ela tivesse apenas dois parceiros sexuais, escolhidos com interesse político. Seduziu César para que ele a ajudasse a reconquistar o trono e, posteriormente, Marco Antônio, grande líder militar e político que, com a morte de Júlio César, ganhara a porção oriental do império romano, tornando-o seu amante e aliado. E a beleza incontestável deHelena, filha de Zeus, e considerada a mulher mais linda da mitologia grega? Despertou os hormônios de Páris (filho do rei de Tróia), que se apaixonou e fugiu com ela para seu país. Isso fez com que Menelau, o marido da jovem e rei de Esparta, preparasse um forte exército e atacasse Tróia. Foram 10 anos de uma das guerras

Porém, muito antes das pessoas começarem a ver pornografia no seu próprio aparelho celular, o homem das cavernas já fazia representações de pintura - arte rupestre – com atos sexuais nas paredes. O homem sempre foi intrigado pelas coisas da natureza sexual e ela está presente hoje, mais do que nunca, simplesmente porque é mais fácil com os avanços da tecnologia. E, com essa facilidade de acesso, já são 43% dos internautas que veem material pornográfico, sendo que 1 de cada 3 é mulher. Em todo o mundo, a pornografia gera um ganho de 97 milhões de dólares ao ano (28% China, 27% na Coréia do Sul, 21% no Japão e 14% EUA). Ah, e claro, além disso, o sexo é bom e relaxa. Descarrega tensões, energiza o corpo e, desde que com segurança e de forma saudável, te deixa menos propenso a problemas físicos e psicológicos. É citado, recomendado e indicado – já há muitos anos - por médicos e especialistas. Ainda que visto como tabu, ninguém consegue negar que uma vida sexual agradável melhore seu desempenho em todas as demais atividades. E com isso, seu trabalho melhora, sua empresa cresce e gera mais lucros e com mais dinheiro e mais avanços surgem novos investimentos para o sexo – seja baladas, Iphones ou novos métodos contraceptivos. No fim das contas, tudo é sexo.

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As diferentes formas da inveja nas redes sociais YAUNDÉ NARCISO REPORTAGEM

INVEJA

bit.ly/uniyaun

VIVIANE HERRMANN ILUSTRAÇÃO

possuem milhares de adeptos como as outras. A primeira comunidade mencionada possui exatamente 162 membros e a segunda, 133. E é na última comunidade citada, que Tiago Gonçalves, 30 anos, pode ser encontrado como membro. Tiago faz questão de salientar que inveja para ele, pelo menos a que ele pode admitir, não se refere àquele sentimento mórbido que leva a pensamentos como: “que ódio, tomara que morra, tomara que estrague, tomara que dê errado...” Segundo ele, trata-se apenas de uma, nas palavras dele, “admiração mordendo a bochecha, entende?”. Certa vez Tiago morreu de inveja da calculadora HP branca de sua colega. “Ela me apareceu com uma calculadora HP branca p-e-r-f-e-i-t-a”, relembra ele. Aí, na mesma hora, ele já perguntou a ela onde tinha comprado, quanto havia pago e etc. Na outra semana, adivinhe o que ele fez? Passou na loja e pediu para ver. No entanto, devido às circunstâncias, não teve cara de pau suficiente para comprar. Nessa novela, ele ficou um bom tempo somente ‘namorando’ a calculadora. Aí, quando não teve mais jeito e ele percebeu que não podia mais existir sem a calculadora HP branca, foi direto à loja. E? E haviam vendido a última no dia anterior! Foi em outra loja e achou a calculadora. Mas, como a vida é doce, mas não é mole, na outra loja custava os absurdos R$ 95, 00, contra os ótimos R$

49,90 da loja anterior. Mas no final das contas, isso não teve importância, porque Tiago comprou, pagou e saiu feliz da vida. E o que é melhor, com a inveja amortecida. Mas ele faz parte de uma minoria que admite sentir inveja na internet, onde as pessoas falam até das coisas mais absurdas. Então, como é possível que haja tantos invejados no mundo virtual e tão poucos invejosos? A resposta pode coincidir com a forma como este pecado é conhecido: o mal secreto. Inveja via passarinho azul Vamos falar agora do twitter, uma rede social mais recente que o Orkut e que a cada dia possui mais seguidores pelo mundo todo. Nessa rede social, o fenômeno da inveja é totalmente surpreendente, pois comporta-se de forma contrária ao Orkut. No twitter encontramos o dobro de perfis ativos e que, com todas as letras, falam da existência do sentimento da inveja (no sentido de senti-lo e não de ser alvo dela). São eles: @InvejaBranca, @TenhoInveja, @morrodeinveja e @PTempoDaInveja. E, somente um, isso mesmo, um perfil que tem o intuito de combater a inveja alheia. O perfil @InvejaBranca, cuja descrição é a seguinte: “Para todos que tem uma pontinha de inveja dos outros... mas é BRANCA. ENTÃO SIGA-ME PORQUE AFINAL,TODOS TEMOS IN-

QUEM FAZ O QUÊ Nome Yaundé Narciso Funções Repórter Pecado Inveja

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As redes sociais são espaços utilizados de forma cada vez mais espontânea pelas pessoas: por meio delas, expõem suas opiniões, realizam discussões e até mesmo possibilitam que sejam conhecidas suas características e preferências mais íntimas. Podemos perceber esse fenômeno com clareza, principalmente no Orkut e no Twitter. Sim, com os mecanismos dessas redes sociais, as pessoas falam inclusive de seus defeitos. Mas e os seus pecados? Será que admitem abertamente na internet que pecam? No Orkut existem mais de mil comunidades falando de inveja. Mas, não comunidades em que se admite sentir inveja. A lógica corre pelo lado inverso. As comunidades falam sobre as pessoas sentirem-se alvo de inveja. São mais de mil comunidades do tipo: “Sua inveja só aumenta o meu ibope”, “Fala mal porque sente inveja”, “Inveja: arma dos incompetentes”. E cada comunidade dessas tem milhares de adeptos. A comunidade “Inveja de mim? Entra na fila!” tem nada mais nada menos do que 1.446.899 membros! Procurando-se pelas palavras “Sou invejoso”, adivinhe quantas comunidades são encontradas? Mais de cem comunidades na linha: “Sou vítima dos invejosos”, “Sou emo e você que é invejoso”, “Sou lindo e você é invejoso”, entre outras do mesmo gênero. Apenas duas comunidades no Orkut falam com todas as letras: “Eu sou invejoso” e “Sou invejoso”. E elas não

Participar do Unicom sem dúvidas é o momento que todos os acadêmicos de jornalismo aguardam ansiosamente. Desde o 1º semestre, quando ouvimos falar e de fato vemos o produto, a sementinha de querer fazer o mesmo um dia, já é plantada. Muitas discussões são realizadas em aula, e também através de e-mails para que tomemos as melhores decisões possíveis, visando confeccionar um jornal da melhor qualidade. Gostei muito da liberdade de escolha e de discussão de ideias que esse jornal laboratório proporciona

aos seus alunos. Desde a definição das pautas, até a maneira como se escolhe a angulação do mesmo, o aluno pode raciocinar de forma livre fazendo suas próprias escolhas sem interferências! A não ser é claro, quando necessário, pode-se contar com a experiência e ajuda do professor. Trabalhar o pecado da inveja não foi nada fácil, principalmente por tratar-se de um mal secreto. Mas me esforcei e fiz o melhor que pude. Espero que vocês gostem!


ja de quem saiu ontem à noite!”. Já o @morrodeinveja tem uma descrição mais amena, e da mesma forma divertida: “O @morrodeinveja é destinado àquelas pessoas que, em algum momento, sentem ou já sentiram aquela invejinha de algo ou alguém. Vamos dá RT galera \o/”. Esse perfil proporciona aos seus seguidores retwitarem frases do tipo: “#morrodeinveja quando vejo que todos os meus amigos e amigas estão namorando e só eu estou solteiro(a)”. Talvez devido ao conteúdo (que para muitos é familiar, admitamos), ele possua 454 followers. O @PTempoDaInveja, que se dedica a twitar os passatempos da inveja, como: “#PassatempoDaInveja é pegar o menino que sua amiga tá afim antes dela pra dizer que você é melhor”, possui apenas 103 seguidores, contrariando as lógicas anteriores. Mas, indo ao encontro do pensamento lógico fruto da avaliação do número de membros das comunidades do Orkut que tratam do assunto. Ou seja, reafirmando a inveja como um mal tratado secretamente nas redes sociais, onde pese que pouquíssimos usuários dos milhares existentes admitem esse pecado. Ao contrário do Orkut, que possui uma overdose de usuários invejados, no twitter há um único perfil que se destina a “reclamar”do pessoal invejoso: o @_InvejaNao, seguido por somente 65 internautas. A descrição desse perfil é clara e direta: Sai de mim inveja! Porém, o perfil encontra-se desativado desde 6 de novembro de 2010.

Se numa rede social milhares de pessoas sentem-se invejadas e pouquíssimas mostram-se invejosas, na outra algumas centenas mostram-se muito invejosas enquanto outras dezenas sentem-se alvo de inveja. São diferentes formas de invejar e sentir-se invejado, em diferentes redes sociais, mas num mesmo espaço: a web. No mundo real, nas vivências cotidianas, é muito difícil ver as pessoas admitindo sentir inveja, mesmo sendo fato que de uma forma ou de outra, todos a sentem. No mundo virtual, onde

as relações não se dão cara-a-cara, mas sim por intermédio do computador, torna-se mais fácil ser sincero consigo mesmo e com os outros. Torna-se menos complicado enfrentar a fragilidade humana e as imperfeições que ela nos atribui. Por isso, ainda que de forma deveras tímida, na internet pode-se dizer, de uma forma mais leve e mais divertida: “eu cometo o pecado da inveja.” E o que é melhor, ver que não se está sozinho.

bit.ly/unin20

VEJA...”, tem 411 seguidores! Quase o triplo de seguidores que as comunidades dos invejosos do Orkut possuem. Esse perfil tem como atividade twitar frases como: “Você está afim de uma pessoa e depois descobre que ela está namorando sua inimiga mortal? #invejabranca”. Pode-se então concluir que o fato do perfil no twitter possuir mais seguidores que as comunidades do Orkut têm de membros, se deve por não tratar-se da inveja no seu sentido cru, mas sim da chamada inveja branca? Em relação a isso, a Doutora em filosofia e escritora gaúcha Márcia Tiburi escreveu certa vez: “Fala-se de inveja branca como contrária da inveja má. Quem faz tal diferenciação pode até estar correto se for capaz de perceber o real modo de ser da inveja. Mas o termo é, sem dúvida, inadequado. Toda palavra, deve-se desconfiar, guarda sua história, seu sentido e, a cada vez que é pronunciada ou escrita, aciona sua função. É preciso fazer uma correção inicial e urgente: uma inveja boa, a rigor, já não seria inveja.” O segundo perfil encontrado no twitter encara a situação de frente, sem encontrar meandros para justificar o sentimento que cobiça. E faz melhor, ainda se diverte com o assunto: “Não digo que a inveja é coisa boa! Mas todos nós temos. Se você se identifica com alguma dê RT e se divirta :D”, é a descrição do perfil @TenhoInveja, que possui 435 seguidores. Os tweets desse perfil seguem a linha: “#TenhoInve-

QUEM FAZ O QUÊ

Funções Diretora de Arte Edição

Foi muito gratificante participar do Unicom. Achei que nunca fosse participar desta produção, mas devido ao grande reconhecimento que tive, descobri que o nunca é apenas uma palavra que usamos quando desistimos do que queremos. O Jornal Unicom é uma prova de que os alunos são capazes e acreditam que tem competência para fazerem. Foi uma ótima experiência, principalmente pela oportunidade de aprimorar e por em prática, técnicas que aprendi em sala de aula. Ilustrações, tratamento de fotos, alterações de co-

res e tamanhos, disponibilidade de horário, stress etc, tudo isso e muito mais esteve comigo nestes meses de produção. Mas posso afirmar que todos tivemos um grande entusiamo no momento da elaboração das atividades e o fato de vermos tudo que foi feito, publicado, valoriza demais o nosso trabalho e faz valer todo o nosso cansaço. O Unicom me aproximou do curso, dos meus colegas e me ajudou a pensar de maneira diferente sobre os assuntos abordados e ver de outros ângulos, os 7 Pecados Capitais.

INVEJA

Nome Viviane Herrmann

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É de beber ou de passar no cabelo? Em um universo infinito de belezas, nem todos os produtos utilizados nos salões sempre foram de grandes marcas. Até mesmo a cerveja já fez a cabeça, literalmente, de muitas mulheres nos anos 60

ANA LUIZA RABUSKE REPORTAGEM E FOTOGRAFIA

Considerada um dos pecados mais cometidos, a vaidade atinge a todos, tanto homens quanto mulheres. Uma roupa nova, um creme para mãos ressecadas, um sapato bem lustrado ou até mesmo algumas poucas gotas de perfume antes de sair de casa. Tudo isso faz parte do universo das vaidades: que atire a primeira pedra quem nunca se importou com a aparência. Ela está e esteve sempre presente, em todas as partes. Um exemplo disso são os antigos salões e barbearias, hoje remodelados e modernos, mas que nunca perderam sua verdadeira essência: cuidar da beleza. Um desses locais permanece ativo até hoje. Localizado em Santa Cruz do Sul na

rua Tabelião Rudi Neumann, desde a década de 50, Egon e Laura já tiveram em suas mãos a difícil e fascinante tarefa de moldar a vaidade de centenas de pessoas. Foi por isso que dona Irene acordou feliz naquele dia frio de 60 e poucos. Era sábado, dia de ir ao instituto. A moda da vez eram os cabelos enrolados, muito enrolados. Ela estava com uma novidade e não via a hora de explicar a nova técnica que seria usada com ela pela primeira vez. Chegou empolgada, já foi logo ocupando o assento da cadeira lavatória, pedindo água não muito fria. Depois dos cabelos molhados, vem a surpresa. Uma garrafa de cerveja foi

aberta. Iriam as duas brindar a nova fórmula que deixaria seus cachos muito mais definidos? Nada disso. A cerveja, para o espanto da cabeleireira e de outras clientes que ainda viriam, fazia parte do processo e era a responsável pelas ondas dos cabelos femininos na década de 60. Essa história é contada por Laura Melchiors Rabuske, 77 anos e cabeleireira desde os 20. Ela e o marido Egon Rabuske, de 82 anos, lidam com a vaidade alheia até os dias de hoje. Ela atende na ante sala de sua casa, onde fica seu salão. Ele, na garagem da mesma residência, onde apenas um biombo separa a barbearia do restante da moradia. Para eles, cui-

Ar te S

VAIDADE

bit.ly/uniana

obre F oto

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Moldan e profissão do a vaidade desde até os dias o de hoje. s 20 anos, Egon une paixã o


Ana Luiza Rabuske

Dedicados à beleza

cheiro não muito agradável, mas que também definia os cachos - era outro produto bastante utilizado. Na primeira vez que Laura utilizou o permanente em uma cliente, o processo foi longo, durou cerca de 10 horas. “Começamos a fazer de manhã, e paramos quase oito horas da noite”, diz Inge Baumhardt, hoje com 73 anos. Inge foi a ‘cobaia’ nessa aventura, que segundo Laura “era uma engenharia e era preciso saber mexer. Não era para qualquer um”. As etapas foram muitas, desde a técnica a vapor até água quente por entre os rolos. Laura diz que as mexas de cabelo eram enroladas com uma agulha, uma a uma, e logo após colocados em uma espécie de canudo de inox, com vários furos. Ali, eram ligados fios por todo o cabelo, que caíam dentro de um cone de metal, para dar saída à água. De um lado, os fios eram conectados ao aparelho que injetava água. De outro, ligados a um fogareiro (mais tarde substituído por um aparelho elétrico), para aquecer a água. Para Inge, aquela engenharia toda, que fazia a água quente passar de uma caldeira até os rolos da cabeça “era uma função, mas era bom. Se fazia de tudo por uma boa aparência”. O único porém

era o cheiro do permanente: “Era terrível, o produto era forte, e ficava semanas impregnado no cabelo”, afirma a cabeleireira.

Tudo pela vaidade Kunibert Kurt Thurm tem 69 anos, é natural de Santa Cruz do Sul, mas morou quase 40 anos em São Paulo. Enquanto corta o cabelo, ele conta sobre a vida, suas vaidades e seus anseios. Dentre as muitas histórias, uma se destaca. Ele fala com carinho de um amigo que teve, um Iugoslavo muito vaidoso, e que frequentava o cabeleireiro toda a semana, onde fazia barba e arrumava o cabelo, que estava sempre impecável. “Ele era muito vaidoso com o cabelo dele, sempre bem bonito, bem cuidado. Quando ele ficou doente, com câncer, e lhe disseram que era preciso fazer quimioterapia e que o processo faria ele perder todo o cabelo, não pensou duas vezes em se negar. Acabou morrendo sem fazer a quimio, de tão vaidoso que era com o seu cabelo”, conta Thurm, dizendo que o amigo não se imaginava sem os seus fios bonitos e bem cuidados. As histórias são muitas, as técnicas também. Ao longo do caminho,

muitas vidas se cruzam. A vaidade está presente em todos nós, independente da intensidade. Uns mais, como no caso do Iugoslavo, outros menos. “Todos nós precisamos de um pouquinho de vaidade. Não podemos nos atirar e nos acomodar, ainda mais depois de velhos. É isso que levanta o nosso astral!”, dispara dona Elvira Machado, 81 anos, e uma das clientes mais antigas de Laura. Com as mãos calejadas de tantos anos de trabalho e com rugas de felicidade, Egon diz que seus clientes hoje em dia são poucos, mas fiéis. “São nossos amigos de infância, alguns dos meus colegas de 1941 do Colégio Marista São Luís, os que ainda estão vivos claro, que cortam o cabelo e fazem a barba com a gente. Hoje, temos poucos clientes por semana, é só para ter um dinheirinho no bolso mesmo. De vez em quando algum cliente morre, e os jovens já não vêm mais”. Apesar dos anos e das dificuldades, o amor pelo trabalho fala mais alto, e ele diz com os olhos marejados de alegria: “Se fosse para voltar atrás, eu faria tudo novamente”. Essa é a vaidade, construindo vidas e fazendo história. É uma paixão, que independente de ser ou não pecado, transcende o tempo.

Nome Ana Luiza Rabuske Pecado Vaidade Funções Produtora Repórter

Não existe momento mais esperado pelos alunos do Curso de Comunicação Social da Unisc do que a produção do Unicom, o tão sonhado jornallaboratório. O ápice da nossa vida acadêmica, me atreveria a dizer. Fazer parte desse sonho e com essa turma, não poderia ser melhor. O tema é desafiador: os Sete Pecados. A pauta que me foi proposta, mais ainda: a vaidade. Decidi então contar a história de um casal com mais de 50

anos de profissão, todos eles dedicados à vaidade. Posso dizer que foi incrível. Ouvir histórias que talvez estivessem perdidas no tempo e poder trazê-las para o nosso dia-a-dia, foi enriquecedor. Nada melhor do que esse exemplo para nos mostrar que vaidade não é só aquilo que diz respeito ao que é novo e atual. É um pecado que perdura no tempo e que pode ser traduzido em profissionalismo e história de vida.

VAIDADE

QUEM FAZ O QUÊ

bit.ly/uniblza

dar da beleza do próximo faz parte de suas vidas, e é uma paixão. Aberto pela primeira vez no dia 4 de julho de 1953 e atendendo até os dias de hoje no mesmo local, o casal se orgulha do que faz. São mais de 50 anos de profissão, trabalhando de terça a sábado, sem arrependimentos. “Mexer com a vaidade é o que a gente fez a vida toda, sempre trabalhando nisso. Foi o nosso ganha pão”, diz Egon. E o conto da cerveja, descrito acima, é verídico. Segundo Laura, muitas de suas clientes, assim como ela, estranharam no início. Mas quando perceberam que a técnica funcionava mesmo, aceitaram numa boa, “a cerveja realmente deixava os cabelos bem definidos. E o melhor de tudo é que não deixava cheiro nenhum. Sempre usei, e os resultados foram bons. Na verdade, até hoje ainda existem pessoas que usam. São poucas, mas existem”, complementa. A ideia de usar a cerveja como produto para os cabelos foi trazida até Laura por sua cliente Irene Sohle (já falecida), que copiou de salões em Porto Alegre. Bem mais tarde, vieram os fixadores, que tinham o mesmo efeito, mas eram mais caros. Além da bebida, ela conta que o permanente - um líquido de um

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Minha vida sem pecados O pecado está em quase todos os momentos da nossa vida. Mas será que dá pra viver sem ele? Para essa missão, fui designada pela equipe a ficar um final de semana tentando sobreviver sem pecar. Foi ainda mais difícil do que se imaginava CAROLINA BISCAGLIA REPORTAGEM

VIRTUDES

bit.ly/unicaka

REGINA COLOMBELLI ILUSTRAÇÃO

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PRIMEIRO DIA (QUINTA-FEIRA) Sete da manhã. O despertador toca, eu acordo e me levanto da cama. Fecho as malas e parto para a Rodoviária, onde pego o ônibus para ir a Cachoeira do Sul passar o feriado com a família. Na noite anterior fiz uma lista dos pecados e das virtudes para saber o que poderia e não fazer. Como estava indo para a casa dos pais, a minha maior preocupação era o pecado da gula, porque geralmente minha mãe me espera com comidas maravilhosas. Não consigo sair de casa sem maquiagem, e esse costume costume tive que abandonar durante esse período, já que a vaidade segundo São Tomás de Aquino é classificada como o primeiro pecado. Então nem levei elas na mala. Muito menos a chapinha. Meus cabelos ficaram todo esse tempo como eles são naturalmente, ou seja, ondulados. Levei apenas minhas roupas mais simples e nada de acessórios. Não deveria também invejar, nem me irritar – o que facilmente acontece em uma viagem de ônibus “pingapinga” – praticar a preguiça, a avareza e muito menos a luxúria. Aproveitei o feriado de Páscoa, uma data cristã, na qual eu estaria junto com a minha família, para não cometer os pecados e somente as virtudes. Como era previsto, o ônibus chegou em Cachoeira do Sul às 10h e minha mãe me esperava com um café da manhã digno de novela. Suco de laranja, bolo, omelete, frutas e uma xícara

de café. Daí já fui avisando ela sobre minha difícil tarefa que eu deveria cumprir durante esses três dias. Tomei o suco de laranja e comi apenas as frutas. Mas eu ainda sentia fome. Levantei logo da mesa para não acabar caindo em tentação. O almoço também foi um momento tenso. Eu estava com saudade da comida da mãe, mas me contive. Comi apenas para saciar minha fome, e pulei a sobremesa. Logo depois do almoço começa a dar aquela vontade de dormir, mas não queria que a preguiça tomasse conta de mim, então resolvi dar banho nas minhas cadelas e depois passear com elas, tudo para dispensar a falta do que fazer. Para terminar o dia, fui no jogo de futsal junto com meu pai, e tentei manter a calma na maioria do tempo. O que é quase impossível ao assistir um jogo. Mas não deixei a ira chegar perto, quando eu sentia que ia começar a me irritar, respirava fundo. A ira é um pecado que sem querer cometemos, porque quando menos esperamos já estamos nos estressando por algum motivo. O primeiro dia foi divertido e curioso. Todas as ações que eu cometia, pensava antes de fazê-las e depois ficava revendo para ter certeza que eu já não havia pecado. Fui dormir às 23h para ter oito horas de sono, o que é recomendado e não praticar a preguiça.


SEGUNDO DIA (Sexta-feira): ameaçando que iria filmar caso eu xingasse ele. Aproveitei o fim de tarde para caminhar com uma amiga. Para terminar o dia, arrumei o meu antigo guarda-roupas e separei algumas roupas e sapatos para serem doados. Havia muitas peças que eu não usava mais, e praticar a avareza não era meu propósito. Então, separei as sacolas de roupas para doar. Aproveitei e arrumei minhas malas para voltar a Santa Cruz do Sul. Fui dormir perto da meia-noite para poder acordar um pouquinho mais tarde no sábado.

TERCEIRO DIA (Sábado):

VIRTUDES

Acordei meio cansada, porque não estou acostumada a acordar cedo. Logo que levantei, peguei a lista que havia feito e retomei os dias anteriores para ver se havia cometido algum pecado, e quais virtudes ainda deveria executar. Logo em seguida peguei as sacolas de roupas que havia separado e fui doá-las. As pessoas para as quais doei as minhas roupas e sapatos são realmente humildes e estavam precisando. Nesse momento, senti uma alegria imensa e pude ver que o sentimento era recíproco. Meu sábado então estava começando bem. Pelo período da manhã ainda, dei uma caminhada com a minha mãe, voltamos para casa, terminamos de arruma-lá e fomos fazer o almoço. O pior momento desses três dias é a hora de comer. A gula sempre tomou conta de mim, mas como avisei

minha família que não poderia comer demais, eles me vigiaram todo tempo. Minha mãe fazia questão de servir meu prato com o suficiente que eu devia comer. E logo que terminava saía da mesa para não acabar “beliscando” mais alguma coisa. Como meu ônibus era às 19h, terminei de arrumar minhas malas e fui dar um tchau para minha avó. Lá sim o pecado da gula corre solto. Então apenas dei um abraço e um beijo nela e fui embora. Durante esses três dias, em nenhum momento o pecado da luxúria esteve presente na minha vida, ainda mais porque estava na casa dos pais, daí me comportei. Passei a maior parte de tempo em casa e junto com a minha família. Logo depois que voltei para casa, olhei um filme com meu irmão e assim que terminou parti rumo a Rodoviária. Às 19h05min o ônibus sai da garagem e meu coração já apertava de saudade. Chegando a Santa Cruz do Sul, fui ver como ficaram meus vídeos e terminar de escrever meu diário. Depois desses três dias refleti e pensei um pouco sobre tudo. Acabamos pecando, meio involuntariamente, já que a todo o momento eu ficava me regulando para não cometer nenhum, nem mesmo em pensamento. É uma tarefa difícil, mas não impossível. Em todos os dias me senti mais feliz e relaxada, sem aquele stress e pressão que me perseguem durante a semana. Tente você também. Se eu consegui, você também consegue.

bit.ly/univirt

Sexta-feira Santa. Dia perfeito para não cometer nenhum pecado. Acordo às 7h, e sou a única na casa que não está dormindo. Procuro alguma coisa para fazer, a não ser comer e voltar para a cama. Então resolvo gravar um dos vídeos para postar no canal do YouTube que fiz, provando que não pequei. O rosto inchado e sem maquiagem mostram que realmente não cometi o pecado da preguiça e da vaidade. Depois de gravar o vídeo, a segunda pessoa acorda na casa. Minha mãe me convida para ir na missa, e já que aceitei o desafio, topo na hora. Geralmente vou à igreja uma vez ao ano: no Natal, mesmo sendo católica. Queria levar a câmera, mas ela me proibiu, dizendo que não era um lugar apropriado. Respirei fundo novamente (lá vem a Ira) e fui sem câmera mesmo. Após uma hora de sermões do padre, voltei para a casa me sentindo menos pecadora. Quase perto do meio-dia, meu pai começou a cozinhar o peixe que almoçaríamos. Só o cheiro maravilhoso que vinha da cozinha fazia minha gula aumentar ainda mais. Adotei uma técnica durante esses dias para não comer muito durante as refeições: tomava bastante água antes de me alimentar e durante o dia também, para não sentir fome. Depois do almoço, ao invés de dormir, ajudei a mãe a lavar a louça e logo em seguida fui visitar meus avós. Já estava me sentindo a pessoa mais correta do mundo. Evitava falar palavrões e sentir raiva de alguma coisa, mesmo meu irmão me provocando o tempo inteiro e me

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