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JORNAL EXPERIMENTAL DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL - UNISC - SANTA CRUZ DO SUL - JUNHO/2008


Um jornal diferente Dez entre dez universidades que têm em seu currículo cursos de Comunicação Social, e, neles, habilitação em jornalismo, sabem que produzir jornais-laboratório é fundamental para o aprendizado dos alunos. E é por isso que dez entre dez cursos de Comunicação Social, principalmente por meio de seus alunos de jornalismo, elaboram, semestre após semestre, jornais-laboratório. Mais que uma obviedade, se isso se dá desta forma é porque os jornais-laboratório, à revelia de seu formato; periodicidade ou conteúdo, são imprescindíveis quando o assunto é construção de conhecimento em jornalismo. Com o Unicom, cuja segunda edição do semestre chega às suas mãos neste momento, não é diferente. Ao longo deste 2008, como tem ocorrido desde que o novo projeto gráfico-editorial foi implantado, ainda no ano passado, nossos esforços, sejamos alunos ou professores, têm se direcionado no sentido de exercitar todas as habilidades possíveis e necessárias ao exercício do bom jornalismo. Por “bom jornalismo” subentenda-se não apenas a elaboração de matérias interessantes e bem resolvidas, mas também a compreensão que jornal, laboratório ou não, é muito mais que páginas contendo textos e imagens. Conscientes desta complexidade, e para além da perspectiva de trabalho interdisciplinar que implantamos quando do novo projeto, há seis edições, neste semestre demos um passo adiante em nosso propósito de ampliar horizontes: a multimidialidade. Equivale a dizer que o Unicom não é mais apenas um jornal em papel. Ele agora também é feito em dígitos; pode ser visto por meio de imagens em movimento e áudio, e pode ser acessado de qualquer lugar do planeta pela internet de forma convergente; um suporte dialogando com o outro em uma perspectiva complementar, portanto agregadora de conteúdo. Isso por meio do Blog do Unicom (http://blogdounicom.blogspot.com) e do site do Unicom (http://hipermidia.unisc.br/unicom/), para ficarmos em dois. Um desavisado diria: “Mas, afinal, o Unicom não é um jornal impresso?”. Ao que responderíamos: sim, é um jornal impresso. Mas também um jornal em áudio, vídeo, texto e fotos. Um jornal multimídia, convergente, em consonância com o período evolutivo em que se insere. Um jornal feito por alunos inteligentes e capazes, que vivem, a partir da sala de aula, seu próprio tempo.

Editor-chefe UNISC Universidade de Santa Cruz do Sul Av. Independência, 2293 Bairro Universitário Santa Cruz do Sul - RS CEP: 96815-900 Curso de Comunicação Social Jornalismo. Bloco 15 - sala 1506. Fone: 3717-7383 Coordenadora do curso: Ângela Felippi

Demétrio de Azeredo Soster

Editor

Letícia Mendes

Sub-edição

Cláudio Froemming Guilherme Mazui Marisa Lorenzoni

Produção

Daiane Balardin Luciana Mandler Roseane Bianca

As noites lisérgicas de Santa Cruz do Sul

Inveje Bill, inveje Guilherme Mazui

W

illiam Henry Gates, o Bill. Um dos homens mais ricos do mundo. Todos os bilhões de dólares no bolso. Rei da revolução digital. De hippie alucinado a magnata. De estudante a proprietário da Microsoft. Então responda rápido, valendo um pedaço da fortuna: quem formulou um dos produtos mais consumidos no planeta, que permanecerá firme nos próximos séculos? Ora, Bill Gates. Pééé... Errado! O dono da honraria, segundo o jornaleiro, que tudo sabe e tudo lê, é o inventor da pizza. Esse egípcio iluminado poderia ser o Pelé da economia. Poderia. Há mais de 6 mil anos não havia a patente, o direito autoral. Assim, nosso ídolo ficou para eternidade, porém “pelado”. Vamos batizá-lo de Peperonises. Sua obra-prima avançou fronteiras até a Grécia Antiga (onde tentou ser roubado), invadiu Roma, se espalhou pela Europa e depois o mundo. Peperonises seguiu a lógica da evolução: trigo-pãopizza. Foi o exemplo para Bill. Ábaco-calculadora-computador. Nenhum criou a fórmula propriamente dita do seu produto. Foram mesclando, copiando, aprimorando e... Eureca! Ficaram famosos (a imagem do egípcio só sumiu

após a queda do antigo Egito). As coincidências são gerais. Apesar da conta bancária, Bill Gates jamais baterá o pai da pizza. O alimento levou o nome de cidades adiante. Calabreza, Calábria; Napolitana, Nápoles; Bolonhesa, Bolonha. O PC não. A penetração da pizza é muito maior e saborosa. Enquanto o PC exige inteligiência mínima, a pizza só pede fome e dentes. A pizza até na religião apareceu. O disco de Órus nada mais é do que um exemplar sabor ervas do Nilo. E o santo do computador? Onde está? É Bill, chore. E não adianta doar dinheiro aos pobres. Qualquer um doa borda de pizza para um indigente. Peperonises inventou o reaproveitamento dos restos. O único trunfo do americano é a fortuna. Porém, se o egípcio tivesse patenteado a invenção, Gates passaria vergonha. Quantas casas especializadas já surgiram ao longo dos milênios? Qualquer bairro tem a sua pizzaria. Qualquer mercado as vende. Qualquer “anta” faz uma. Se a cada pizza vendida no mundo Peporonises ganhasse um dólar, sua fortuna seria incalculável. Adeus Forbes. Inveje Bill, inveje. O egípcio venceu. Na história ele está acima. Inveje Bill, inveje, enquanto eu invejo você.

O LSD, que fez sucesso nos anos 70, hoje anima as festas dos jovens de classe-média que buscam por meio do “doce” o bem-estar da era hippie Daiane Balardin música não pára. Horas de festa, horas de paz. Jovens de diferentes tribos, em um lugar onde todos são iguais. Isso é Woodstock. Mas, não estamos em Nova Iorque e o ano não é 1969 e sim 2008. Trinta e nove anos depois, o lendário festival de rock, continua vivo, mas com uma batida diferente. Do rock à música eletrônica. Assim como a música o nome também mudou. Agora é rave, o Woodstock do momento. Ritmo e cenário os diferenciam. Mas o caminho que leva à paz e ao bem-estar, tanto dos hippies quanto da nova geração, ainda é o mesmo. LSD. Na rave, é conhecido por “doce” e é usado para garantir horas de festa com muito pique e alegria. Modismo ou curiosidade é o que têm levado jovens de classe média a consumirem a droga. É o caso da estudante Raquel*, que começou a usar “doce” em uma festa na praia, uma experiência “não muito legal”, segundo ela. “O meu erro foi ter experimentado sem saber o que era; eu não tinha informação nenhuma. Antes de usar o ácido eu tinha ingerido vodka com energético e com a mistura fiquei muito mal, sentia muita sede e conseqüentemente tomava vodka sem parar, foi horrível.”

A

Gosto é gosto, e é indiscutível! Greice Guilhermano

A

s pessoas são diferentes uma das outras, com gostos e atitudes diferentes, completamente. Mas ainda há quem duvide dessa diferença, quem não acredite que exista gosto pra tudo. Mas é só pensar: o que seria da alface se todos gostassem do repolho? Tadinha da alface, ninguém a comeria? E, mais ainda, coitado do repolho, todos iriam comê-lo! Mas, graças às diferenças particulares de cada um, a realidade não é assim. Cada um tem seu gosto SIM, para tudo e para todos. Quando Deus criou o mundo, ele praticamente jogou Adão e Eva um nos braços do outro. Imagina, soltar nesse mundão verde e azul dois seres humanos, homem e mulher, feminino e masculino, uma seta e um caminho, sozinhos? É óbvio que eles comeriam a maçã. E mais óbvio ainda que a sociedade, dali pra frente, diria que a mulher nasceu para o homem assim como o homem nasceu para a mulher. Mas... será que hoje em dia está tudo tão bagunçado, tão desfocado que não conseguimos mais distinguir o feminino do masculino? Um exemplo: a sociedade brasileira nos ensinou que o brinco tinha como principal objetivo identificar os bebês femininos. Mas veio a modernidade e disse que homens também poderiam usar esse apetrecho que, até então, era exclusividade das moças. Tudo bem, cedemos o brinco, a saia, a meia de nylon, caso os rapazes gostem tanto dos nossos acessórios super,

Reportagem

Cláudio Froemming Daiane Balardin Daniel Rech Débora Nunes Guilherme Mazui Josiléri Cidade Josué Dalla Lasta Letícia Mendes Luciana Mandler Marisa Lorenzoni Rodrigo Nascimento Roseane Bianca Rozana Ellwanger Sancler Ebert Simone Cardoso

Revisão

Daniel Rech Fernanda Almeida Greice Guilhermano Josiléri Cidade

Diagramação Gelson Pereira

Direção de arte Gelson Pereira Lázaro Fanfa

Ilustrações

Giusepe Fontanari

ultra, mega femininos, não há problema, não somos egoístas. Agora, querer pegar o que é de uso exclusivo das mulheres, aí já é pedir demais. Ah! Não sabe do que estou falando? Estou falando de uma coisa que é minha, só minha - ou sua, só sua. Estou falando da MINHA “menina” e do SEU “menino”. Gente, parem de brigar pelo que é dos outros, cada um tem o seu, e ainda por cima podem usufruir um diferente. Chegamos ao ponto que eu queria chegar: diferenças. Há mulheres que prefiram homens. Há homens que prefiram mulheres. Mas também há mulheres que prefiram mulheres e homens que prefiram homens. Mas o Ronaldo, ahhhhh o Ronaldo, o fenôôôômeno nos campos de futebol do mundo inteiro. Esse prefere os dois ao mesmo tempo. Não, não fiquem pasmos, repito o que disse: existe gosto pra tudo. E o Ronaldo tem, digamos assim, um gosto um tanto quanto... exótico? Se o Ronaldo está certo ou não, ninguém pode julgar. O que nos parece é que ele cansou dessa vida de “pegador”. Só o que aparece pra ele são modelos, atrizes e apresentadoras de TV “horrorosas, mal-educadas e magérrimas”. Deixa o rapaz variar um pouco pra não cair na rotina. Deixe que ele mesmo perceba que brincar com o brinquedo dos outros é bem legal. Mas, brincar com o brinquedo dos outros, que é igual ao que temos em casa... Não tem muita graça não.

Fotos

Cláudio Froemming Daniel Rech Débora Nunes Márcia Melz Marisa Lorenzoni Rozana Ellwanger

Logotipo

Samuel Heidemann

Impressão Graphoset

Tiragem

500 exemplares

De dezembro até agora, Raquel conta que já usou “doce” mais de dez vezes. Segundo ela as outras vezes foram muito boas. “Eu costumo usar só quando vou pra alguma rave, por ser muito caro e também porque gosto de dividir com alguma amiga, metade pra cada uma, assim não fica tão forte”. Já o estudante Lúcio curte o “doce” fora das festas de música eletrônica. “Gosto de tomar “doce” até quando estou de bobeira, em casa, na praia ou num churras com a galera.” Quem vai pela primeira vez a uma rave, chega até a acreditar que entrou por engano em uma festa de criança. Pois na festa todo mundo chupa pirulito e só quer “doce” e “bala” (nome dado ao ecstasy). Os fardos de água que ocupam a maior parte do bar dão a ilusão de uma festa comportada. Mesmo custando o valor de uma cerveja (cerca de R$ 3,00) a água é a bebida mais consumida. Isso porque os entorpecentes provocam desidratação. Lúcio confirma: “Cheguei a tomar cinco garrafinhas uma atrás da outra”. Além da água ele não abre mão dos óculos escuros e do pirulito. Mais do que uma moda, os óculos protegem os olhos que ficam mais sensíveis às luzes do dia e aos lasers da festa. Já o piruli-

to é para atenuar a contração da mandíbula que a “bala” e o “doce” podem provocar. bala que não é doce Em Santa Cruz, o consumo de LSD se restringe a um grupo pequeno de pessoas. Isso porque é uma droga cara: o preço varia de R$ 40 a R$ 50, e as festas eletrônicas acontecem esporadicamente. A maior parte do LSD vem da Europa e tem entrada no Paraná, de onde, então, é distribuído nas principais capitais do País como São Paulo e Porto Alegre. Coincidência ou não, são cidades onde se concentram as principais raves. Fernando comercializa drogas sintéticas há cinco anos e afirma que, nos últimos dois anos, a venda do LSD nas cidades do interior ficou mais intensa. “Na verdade, eu vendo para poucas pessoas, elas compram em grande quantidade e daí repassam para quem quiser”. O “doce” tem passagem livre nas festas. Mas não está a vista. Quem pensa em encontrar na rave uma “barraquinha de doce”, ou então, alguém gritando “doce, bala quem vai querer”, engana-se. Ainda assim, Lauro garante que em Santa Cruz é fácil conseguir. “Cidade pequena é tranqüilo; todo mundo se conhece e sabe quem tem.” Freqüentadores de rave defendem o Psy como cultura de

vida, onde o que importa é ouvir, sentir a música e ter contato com a natureza. Drogas? Existem, claro, assim como em outros tipos de festa. Usar? É opcional. A liberdade de expressão é fundamental. “Quem usa LSD, deve ter consciência de que é uma droga forte, capaz de ampliar todos os sentidos, inclusive os medos inconscientes. Seria hipocrisia eu dizer que faz mal, mas para sentir boas sensações é fundamental estar em paz de espírito”, explica Fernando. * Os nomes desta matéria foram trocados a pedido dos entrevistados.

pedalando

expediente

O químico suíço Albert Hofmann, que sintetizou a molécula de LSD, em abril de 1938, descobriu os efeitos da dietilamida do ácido lisérgico quando absorveu sem querer um pouco do líquido e ficou maravilhado com seus efeitos. Reza a lenda que Hofmann saiu do laboratório e foi dar uma volta de bicicleta quando o ácido “bateu”. Por isso, hoje é comum ouvir chavões como “pedala, colega”, ou “vamos pedalar” entre os jovens que usam o “doce”.

Este jornal foi produzido de forma interdisciplinar. O conteúdo editorial ficou a cargo da turma de Produção em Mídia Impressa (professor Demétrio de Azeredo Soster). Os anúncios da edição foram criados pelas turmas de Redação em Publicidade e Propaganda II (professor Fábio Hansen).

Márcial Melz

editorial

Pupilas dilatadas, aumento da temperatura do corpo, aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, suores, perda de apetite, falta de sono, boca seca e tremores, são alguns efeitos causados após uma dose ingerida. Já o uso contínuo, não chega a causar intoxicação, mas pode manifestar psicoses como esquizofrenia ou depressão profunda.


Separados por duas rodas

Quando criar cavalos é muito mais que um simples hobby

Passar alguns dias longe de casa, participando de treinos e competições, faz parte da vida do casal Jaime e Gisele; eles são apaixonados por motocicletas e velocidade

Márcial Melz

O

Muitas pessoas estabelecem uma relação com os cavalos que vai muito além do trabalho e da diversão, e que se transforma, com o passar do tempo, em laços firmes de amizade, confiança e parceria

mesmo quando participam de campeonatos juntos. Diferente da maioria dos casais, os motociclistas competem de igual para igual na categoria Super Moto e, o melhor de tudo, é que mesmo correndo lado a lado e disputando igualmente por uma boa posição, eles estão sempre unidos, um preocupado com o outro. Um casal, de certa forma, com hábitos não tão normais como os demais por seguirem uma rotina sempre em virtude de treinos e campeonatos, e, porque não dizer, que fazem papel de “mochileiros”. É que eles sempre “pingam” de cidade em cidade, atrás de melhores condicionamentos com treinos e buscando assim as primeiras posições nas competições. Cada um tem mais de uma moto e ainda recebem mais das fábricas para fazerem testes e escrever sobre elas. Quando não estão na correria do diaa-dia ou competindo, o casal faz viagens pelo Rio Grande do Sul. Algumas vezes, Gisele vai na garupa com Jaime, mas, em outras situações, o casal segue cada um na sua moto. Como a piloto diz, a vida sobre duas rodas é um circo de corridas. Estão sempre “armando a barraca”, e sempre é hora de pegar o carro, colocar as motos na caçamba, ajeitar os equipamentos e partir ou, simplesmente, montar nas suas máquinas e seguir em frente. Além da preocupação em fazer uma boa prova, Gisele e Jaime se preocupam com os equipamentos obrigatórios de segurança, desde macacão de competição, luvas, botas adequadas até colete de coluna e as ferramentas para as motos,

Cláudio Froemming egar o cavalo no campo, levá-lo até a estrebaria, encilhá-lo e depois passar horas em cima do lombo do animal. Esse é o maior divertimento na vida do vereador e pecuarista Ricardo Azeredo, que tem um cavalo chamado Tostado, de nome e pelagem. “Meu cavalo, é meu parceiro, meu amigo e o melhor passatempo que tenho. É por isso que eu já tive vários durante minha vida e ainda quero ter muitos outros, pois pretendo envelhecer ao lado deles”, confessa. Um cavalo bem domado e ensinado aprende muitas coisas e não esquece mais. Cada movimento, cada assovio, cada grito ou cutucada representa uma mensagem para eles, que respondem no mesmo instante, explica o vereador, morador do Cerro do Chileno, interior de Vale Verde. Ele já venceu várias provas de tiro de laço em rodeios, baseado na relação de sintonia com seus cavalos. “Posso te assegurar uma coisa, de todos os bichos que Deus colocou no planeta Terra, o mais útil, mais inteligente e mais completo é o cavalo, sem dúvida nenhuma”, afirma o apaixonado por estes animais. Duzentos e trinta cavalos crioulos são a felicidade na vida do cabanheiro Luis Fernando Ferraz, de 27 anos, que veio de São Lourenço do Sul há três anos para trabalhar na Fazenda Cabanha da Charqueada, pertencente ao empresário Jacó Edmundo Weind. A propriedade fica na localidade de Dourados, em Vale Verde. Luis Fernando convive, trabalha e cuida de uma verdadeira tropa formada por cavalos, éguas e potrilhos. A paixão deste jovem pelos animais é evidente e não tem limites, pois ele convive com eles durante 363 dias por ano. “Eu só saio da fazenda duas vezes em cada ano, para ocasiões muito especiais. Adoro estar aqui, perto

P

que deve acompanhá-los, pois, se acontecer qualquer imprevisto, as primeiras manutenções podem ser feitas. contra o preconceito Não é fácil competir de igual para igual com alguém do sexo oposto; afinal, eles são muito competitivos independente de terem ao seu lado uma mulher, afirma Gisele. Mas, mesmo assim, as poucas representantes tentam fazer bonito, correndo nos mais diversos campeonatos e categorias. Mulheres que, nessas horas, não podem e nem querem ser lembradas como apenas um rostinho bonito, principalmente em dia de prova. Elas precisam mostrar que são tão capazes quanto os homens, acelerando forte. Vendo o machismo que existe nos campeonatos, Gisele diz que os homens intimidam as mulheres. Conta também que eles “vão para cima” como se ela fosse apenas um motociclista lutando por uma boa posição. Falando nisso, a piloto lembra do que outra competidora lhe disse uma vez a respeito da atitude grosseira dos competidores: “Gisele, nunca queira estar entre as cinco primeiras na colocação”. Curiosa, ela perguntou o por que e foi surpreendida com a resposta: “Porque os caras quebram tua moto”. Esse é o exemplo que Gisele usou para mostrar o quanto sofre preconceitos. Não fica mal pelas piadinhas de alguns e sim pela forma de como agem na pista. Pode-se dizer até que são animais famintos correndo atrás de sua presa, atacando de todos os jeitos para que consigam pegar.

da cabanha e passando meu tempo com o que mais gosto de fazer”, destaca. “Cavalgar é como terapia, pois o galope campo a fora, o vento no rosto e a sensação de liberdade são sentimentos únicos e indescritíveis”, relata Luis Fernando. “Descobri que sou louco por cavalos desde a minha infância, assim como meu filho também já é. Acordo cedo e passo meus dias com muita alegria, pois ganho minha vida trabalhando com meu hobby predileto, que é cuidar de animais que são muito especiais em minha vida”, conclui o cabanheiro. Gaúcha é o nome da égua crioula pertencente ao comerciante Fernando Toillier também de Vale Verde, que é outro louco e fascinado pelos eqüinos. Para ele o valor sentimental por sua égua está acima de qualquer quantia financeira. Sempre bem cuidada e tratada, a Gaúcha atende pelo nome, sendo que basta chamá-la uma vez para que ela saia atrás do seu dono por onde ele for. “Contando ninguém acredita, mas minha égua é mansa e obedece como se fosse um cachorro. A confiança que o animal aprende a ter pelo seu dono é algo comovente”, salienta o comerciante. terapêutico Além da paixão explícita pela égua, ela ainda está colaborando com o problema de saúde de sua filha Helena, de dois anos, que nasceu com meningomiclocele (lesão na coluna) e má formação dos membros inferiores. Com a utilização da Equitação Terapêutica, indicada e orientada por médicos, “os resultados positivos têm sido visíveis”, comemoram os pais, Fernando e Glória. A idolatria e a paixão por cavalos, tanto em Vale Verde

como no Rio Grande do Sul, pode ser resumida em um Projeto de Lei criado pelo ex-deputado estadual do PDT, Osmar Severo, o qual criou o “Dia do Cavalo”, que é comemorado em 14 de setembro. O projeto foi votado e aprovado por unanimidade na Assembléia Legislativa do Estado no ano de 2002, por reconhecer toda a importância que este animal tem para os gaúchos, pois serve para o trabalho, locomoção, entretenimento, entre outros. Assim como o Ricardo, o Luis e o Fernando existem vários outros apaixonados por cavalos, que seriam capazes de abrir mão de muitas coisas nesta vida, para poderem estar sempre perto dos seus animais. Para eles, os eqüinos são bem mais do que um simples bichos de quatro patas, são partes das suas vidas.

cláudio froemming

Luciana Mandler relógio desperta às 06h50. É hora de levantar para colocar em prática mais uma agenda cheia. Assim que “pulam” da cama, Gisele Flores e Jaime Nazário, ambos motociclistas, começam um longo dia. Enquanto tomam café, preparam-se para ir à academia, onde treinam aproximadamente duas horas. Depois de um pouco de esforço físico, e, porque não dizer, de relaxamento também, Gisele volta para casa, onde tem escritório próprio, no qual é assessora de imprensa e ainda trabalha na revista eletrônica que criaram, Sobre Motos, enquanto Jaime segue para a empresa onde atua como executivo. Mesmo cada um tendo sua rotina, há algo além da vida a dois que os une mais do que como uma simples família, e sim como uma equipe: a paixão por motos e velocidade. Há quem diga que andar de moto é coisa para homens, mas Gisele, graduada em escola de pilotagem em Santa Cruz do Sul, discorda da idéia. Há mais ou menos 15 anos compete nas categorias 250 cilindradas e Super Moto. Ela é uma das poucas mulheres a correr em motos de grandes potências e que divide preferências e boas colocações com os homens. Mas quem fez com que a motociclista passasse a gostar de competir e se apaixonar pelo esporte foi o próprio Jaime, que tem tudo isso como paixão há mais de 20 anos. O empresário também tem graduação em escola de pilotagem e compete nas categorias Fórmula Turismo e Super Moto. O piloto incentiva e apóia a mulher sempre,


A inenarrável aventura de um tomate, da lavoura ao prato

Quem disse que bailão é brega? Com uma mistura de ritmos animados e letras engraçadas, os bailes da periferia caem cada vez mais nas graças da galera e servem de palco para histórias muito divertidas

Entre a semente e o fruto, ser um representante da espécie não é nada fácil; encarar o clima e a sorte, desde a plantação até o consumo, pode se tornar um verdadeiro martírio para estas cobiçadas plantas

NA FEIRA RURAL É lá que dona Lucila Müller, 72 anos, busca as hortaliças consumidas em casa. E sempre passa na banca 3 para comprar tomates dos Waechter. Parte que também é chata para o pobre tomate: ser apalpado e continuar no tijolo frio do expositor amontoado aos demais e à espera de outro cliente. No carrinho para casa, os tomates que dona Lucila comprou só seriam usados no outro dia. Com a ajuda de Odete Pereira (à mesa, de azul), 42 anos, eles viraram salada e um ensopado que preparou para sua mãe Helma Müller, 94 anos. Ela também usa os tomates para fazer sanduíche natural. “O tomate dá um gostinho especial à comida”, comenta dona Lucila. Mas o que será pior para um tomate: ser triturado no liquidificador para virar ensopado ou esperar na gaveta de uma geladeira congelante? E se ao invés da geladeira ele for colocado na fruteira de casa? O frio pode ressecar e o calor aguça as moscas. Estragado, o único destino seria o lixo. Sorte, nesse caso, seria virar adubo e ir para o chão de uma horta, refazendo todo o ciclo, com as sementes que estão no seu interior. Mas isso, geralmente, quem determina é o destino!

dois é o principal atrativo dos bailões, tanto que elas organizaram recentemente o 2º Bailão do Direito no DCE da Unisc. A iniciativa teve o objetivo de arrecadar fundos para a formatura. Assim como elas, muitas outras turmas de formandos trocaram as festas de conclusão de curso, em clubes e boates tradicionais da cidade, pelo bailão universitário. “Quando organizamos o primeiro bailão, em 2007, observamos que o fato de ser uma festa diferente chamou a atenção já na divulgação. O sucesso da primeira edição nos inspirou a repetir a dose esse ano”, conta Pâmela. Para Tatiane, o bailão sempre esteve na moda. “Mas no inverno ele é mais convidativo. As pessoas podem dançar juntas.” Além do embalo gostoso para um “chega mais”, o ambiente mais iluminado do que as casas noturnas do Centro da cidade colaboram para o entrosamento das pessoas. É assim que funciona no Giganthe, famoso salão de baile de Santa Cruz. No palco, uma banda de oito integrantes faz coreografias e canta rimas engraçadas, como “Ele te trai, todo mundo sabe que ele te trai”, ou, então, “Mas quem é que não tem uma outra, pra equilibrar a vidinha? Arroz com feijão enjoa, sempre é bom uma misturinha”. No teto, cd’s pendurados decoram o ambiente e quatro grandes ventiladores têm a missão de amenizar o calor

provocado pela animação do público. São 23h30, ainda é cedo, mas alguns casais já ensaiam os primeiros passos na pista. Vale até mulher com mulher. Os solteiros se embalam perto das mesas ao redor do salão. No bailão, a moda é o conforto. Calças jeans, blusas leves, sapatilhas sem salto, botas plataforma. As mais ousadas investem nos shorts e nos decotes. O importante é estar à vontade para agüentar horas de dança. é problema meu Quem trabalha na copa do bailão assiste a festa de camarote. É o caso da promotora de eventos Michele Mattheis, 26 anos, que começou a trabalhar nos bailes do Giganthe recentemente a convite dos amigos que já trabalhavam. Ela garante que é possível se divertir mesmo enquanto atende o público, e afirma que o seu campo de visão é privilegiado. “Daqui a gente pega várias cenas engraçadas e dá pra identificar bem o público. Vem gente de todos os tipos e com diferentes intenções. Umas vêm só pra dançar, outras querem conhecer pessoas e dar beijo na boca.” Dar uns “tiros” diferentes também faz parte do bailão. O comunicador Giancarlo Schwember, 30 anos, preferiu ficar fora da pista observando a animação do público. “Para

dançar preciso de mais querosene”, explicou, referindo-se à cerveja, bebida mais vendida nos bailões. Quando questionado sobre seu estado civil, Giancarlo dispara: “Estou enrolado. Hoje é véspera de feriado, mereço uma folga! Depois, tem todo o fim de semana para ficar com a patroa”! E se aparecer a oportunidade de conhecer alguém interessante? “Só vim pra me divertir, mas se pintar, pintou; não tenho compromisso.” Mas quem vai ao bailão sem compromisso pode sair do salão engatado. É o caso de Jhonata Rauber e Maria Simone Fiuza. O romance começou com algumas trocas de olhares e tentativas de aproximação por parte de Jhonata. Todas em vão. Na quinta tentativa, Maria Simone resolveu ceder e atualmente os dois estão juntos há 11 meses. Entretanto, depois do compromisso firmado, a presença do casal já não é mais tão freqüente no bailão. “Vir toda hora é briga na certa. O Jhonata se incomoda muito. Mas se ele estivesse solteiro ia estar em todas”, garante Maria Simone. E quando vão, nada de ficar dançando no meio da pista! Eles optaram em ficar numa mesa no andar de cima do salão, para não se expor muito e evitar cenas de ciúmes.

RECEITINHA RÁPIDA Quem diria que o senhor tomate pudesse ser usado no tratamento contra a acne. Sim! Para prevenir, coma um tomate bem maduro todos os dias trinta minutos antes das refeições ou acabe com ela aplicando uma máscara feita com um tomate bem maduro triturado e misturado a uma colher de sopa de iogurte natural.

fotos: Márcial Melz

V

produtor e tem mais aceitação no mercado, por isso a gente dá preferência para o tomate”, assegura o agricultor. As variedades cultivadas são bem conhecidas: gaúcho e cereja. E, embora estejam entre as mais consumidas, ainda é preciso disputar a preferência com alfaces, rúculas, repolhos, brócolis, couves-flores, cenouras e beterrabas, que também ocupam lugar nas duas propriedades de seu Gastão e na banca da família na feira. Fora de lá, é possível encontrar os tomates apenas em um restaurante da cidade.

O fotos: marisa lorenzoni

Josiléri Linke Cidade ocê não faz idéia de como é dura a vida de um tomate. Não dá para acreditar que uma minúscula semente se transforme num viçoso e encarnado fruto. Há 150 dias, 1.500 pés eram plantados nas três estufas dos Waechter, em Linha Pinheiral, interior de Santa Cruz do Sul. O trabalho se iniciou na segunda semana de janeiro e agora, que é época de colheita, fica ainda mais difícil ser tomate. Enquanto uns esbanjam beleza, por terem ocupado um lugar fértil, ou por serem frutos de uma semente produtiva, outros ficam à mercê do destino; verdes de esperança ou vermelhos de raiva por terem passado do prazo de colheita. Se não bastasse isso, ainda há o clima, que pode acabar com o sonho de felicidade de um tomate. Os primeiros deles foram comercializados no início de abril. Essa é mais uma peripécia complicada na história de um tomate: a viagem para a venda. Os que são colhidos primeiro podem se considerar felizes apenas por instantes. São limpos, mas logo encaixotados para o transporte de caminhão até a Feira Rural Centro, onde ocorre a comercialização todas as segundas e sextas-feiras à tarde. Melhor para os últimos tomates apanhados, que ficam por cima na caixa. Nessas atividades, quatro pessoas se revezam há 18 anos. Todos integrantes da família de seu Gastão Waechter, 67 anos, casado com dona Vitória, 59, e pai de Carlos Eduardo (de boné), 30, casado com Silvia, 28, e pai de Isadora, de um ano. Ser tomate é algo majestoso, seguido de perto apenas pelas batatas, as mais produzidas no mundo. Carlos calcula que cada um dos pés renda entre dois e três quilos de tomate, totalizando cinco toneladas por ano na plantação. “O tomate dá mais rentabilidade para o

Roseane Bianca estudante de Jornalismo Lucas Baumhardt (de braços cruzados), 23 anos, troca qualquer festa do Centro da cidade pelos bailões da periferia. Ele admite que sempre foi fã dos musicais de baile, caracterizados por um misto de tchê music, bandinhas alemãs, sertanejo e mais qualquer outra coisa que estiver na moda. Tempos atrás, no entanto, Lucas não ia aos bailões, pois a programação não era do agrado da galera jovem, e sim dos mais maduros. Essas festas eram associadas aos viúvos, separados, solteirões, bem casados (ou até mesmo mal casados), que, ao escalarem o muro, acabavam dando um pulo maior e caindo nos salões. Agora, o cenário é outro. Cada vez mais jovens universitários freqüentam esse tipo de festa, entre eles o Lucas. Para ele, o principal motivo da mudança de comportamento da juventude é a procura por um ritmo balançado de música, que facilite a dança e a aproximação das pessoas. “Nesse tipo de festa o contato é mais fácil, a música permite tirar alguém pra dançar.” As estudantes do 9º semestre de Direito Tatiane Schmitt, 24 anos, e Pâmela Baptista, 23 anos (de amarelo, a 2a e a 4a da esquerda para a direita respectivamente), concordam que a dança a


Esquinas movidas pelo dinheiro, pela sedução e pelo prazer Nem todos se dão conta, mas há muitos profissionais do sexo que fazem de algumas das ruas do Centro de Santa Cruz um lugar onde novos personagens ganham vida e fantasias se tornam reais, em especial a partir do momento que anoitece

E

Travestis De fora

Local: Rua 28 de Setembro. Nomes de guerra: bem femininos como Érika, Fernanda, ou extravagantes como Rayana. Idade: entre 20 e 30 anos. Estilo: para “elas” o look tem de ser sensual. Roupas curtas e muito justas, para valorizar as curvas. E no inverno? Pouca roupa também, o negócio é fazer folia nas esquinas para se esquentar. Vale até pole dance nas placas das ruas. Atendimento: principalmente em motéis. Clientes: homens, mulheres e casais. Preços: de R$50,00 a R$70,00 (a tática é começar pelo preço mais alto). Agenciadores: não. Drogas: algumas usam maconha, e há ainda aquelas que só vêem drogas quando compram para um cliente. Recordes: das “garotas” daquela esquina, Fernanda é a recordista com no programas num só dia, ou melhor, noite. Família: algumas confessam que a família sabe e aceita, outras dizem que nenhum parente sabe, apenas desconfia. Preconceito: dizem que não tem problemas com isso.

De Santa Cruz

Local: Rua Fernando Abott. Nomes de guerra: bem jovens como Larissa, Paty e famosos como Bebel. Idade: entre 16 e 24 anos. Estilo: em noites de calor, as roupas são mínimas; a regra é quanto menos, melhor. Saias menores que um palmo, tops e perucas compõe o visual. Nas noites frias, elas se agasalham, mas não perdem a sensualidade. As roupas justas são as principais armas. Atendimento: de acordo com o cliente, mas, principalmente em motéis. Clientes: homens, mulheres e casais. Preços: sexo oral: R$ 15, sexo passivo: de R$ 30 a R$ 50, sexo ativo e com casais: R$ 70. Agenciadores: não. Drogas: negam usar qualquer tipo de droga Recordes: não de vezes, mas de valores, Bebel diz que já recebeu pagamento em jóias. Família: algumas tem apoio, enquanto outras mentem que vão dormir na casa de amigas para fazer os programas Preconceito: dizem que não tem problemas com isso.

GASPAR

SILVEIRA

S

MARTIN

Universitária

Parque da Oktoberfest

VENÂNCIO AIRES ESRNESTO ALVES

ASSIS BRASIL CARLOS TREIN FILHO

UNISC

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SÃO JOSÉ

GAROTOS DE PROGRAMA Local: apartamentos no Centro. Nomes de guerra: másculos como Robert e Marcelo. Muitos usam apelidos como “gaúcho machão” e “gostosinho de Santa”. Idade: entre 20 e 30 anos Estilo: camisetas e jeans justos. Ousam na cueca: com estampa de oncinha, de couro e em cores como vermelho e branco. Atendimento: como são discretos, atendem normalmente na casa dos clientes. Alguns recebem os clientes em seus apartamentos. O contato é feito via telefone ou MSN, todos possuem perfil na página de relacionamentos, Orkut. Clientes: homens, mulheres e casais, grande parte de alto nível social. Preços: a partir de R$100. Agenciadores: não. Recordes: Marcelo já participou de uma suruba com dois casais numa única noite. Drogas: alguns confessam usar, mas não vêem relação com o seu trabalho. Família: todos escondem da família. Preconceito: escondem a profissão porque temem o preconceito.

FERNANDO ABOTT

S SCAR JO CEL. O

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TEN. CEL. BRITO

JÚLIO DE CASTILHOS

MARECHAL FLORIANO

RAMIRO BARCELOS

MARECHAL DEODORO

28 DE SETEMBRO

Letícia Mendes / Sancler Ebert rika, olhos amendoa- sam todos, ou quase todos, lidos, cabelos longos e mites. Mas, o que poucos sabem castanhos, sobre uma pele bronzeada. Apesar dos 20 é que nesse mundo cada um anos, “a top, mais bela da qua- tem o seu lugar. Muitas difedra”, como é chamada pelas renças e, é claro, semelhanças, amigas, é dona de uma grande marcam quem convive nesses bagagem de viagens e experi- lugares. As categorias são as ências. A “garota” desfila pela mais diversas: travestis, santapassarela, onde o produto à cruzenses ou vindos de outras venda não são as roupas, e cidades, como Erika; garotas sim o corpo que se expõe atrás de programa, que trabalham da calça justa, da sandália de nas esquinas ou em apartasalto altíssimo e da blusa de- mentos, e se dizem universitácotada. Este é apenas um dos rias; e, claro, garotos de propersonagens que compõem a grama, entre outros. E foi para noite santa-cruzense. Pessoas, entender um pouco de cada histórias, mitos, dores, sorri- um e quebrar barreiras que a sos e olhares que convivem em reportagem do Unicom foi às um mundo onde o dinheiro e ruas e encontrou os perfis que a busca pelo prazer, ultrapas- estão nesta reportagem.

GAROTAS DE PROGRAMA Local: apartamentos no Centro. Nomes de guerra: jovens , como Samanta e Camila. Idade: cerca de 20 anos. Estilo: de acordo com o pedido do cliente. Normalmente, calça jeans e blusa. Às vezes, alguns pedem algo como um vestido, ou uma minissaia. Atendimento: no apartamento. Clientes: maioria homens, mas também alguns casais. Alto nível social. Entram em contato por telefone, por meio de anúncios em jornal. Preços: R$ 100 para sexo oral e até R$ 170 reais para “serviço completo”. Agenciadores: não. Drogas: não admitem usar. Família: a maioria mora longe da família. Preconceito: temem, por isso tentam preservar a identidade ao máximo.

De esquina Local: Rua Ramiro Barcellos. Nomes de guerra: discretos como Cris, Lú e Juliana. Idade: entre 25 e 40 anos. Estilo: usam roupas justas e sensuais, como fossem ir a uma festa, nada exagerado ou muito vulgar. Atendimento: os programas podem acontecer nos carros dos clientes, matagais, mas normalmente são em motéis. Clientes: homens de todas as idades e muitos casais que as procuram por curiosidade e acabam, mais tarde, repetindo a dose. Preços: R$ 30 sexo oral, R$ 50 “serviço completo” e R$ 100 para casais. Agenciadores: não. Drogas: dizem que não usam, apenas compram para os clientes quando eles pedem. Recordes: a vencedora é Juliana com quatro programas numa noite; a mesma já recebeu 300 dólares de um cliente internacional. Família: a maioria diz que família sabe e apóia, muitas trabalham para sustentar os filhos. Preconceito: dizem que as pessoas as ignoram.


Prostituição com garantia e certificado de qualidade Durante muitos anos, dona Geanete, a “Bolinha” foi, digamos assim, uma empresária da noite; período em que viveu muitos dramas, alegrias e situações inusitadas nas várias boates de que foi proprietária por mais de três décadas, em Venâncio Aires

Rozana Ellwanger omo se prevenia doenças sexualmente transmissíveis até a popularização da camisinha? Simples: limão e álcool. Sim, esses eram apenas dois dos artifícios usados pelas garotas de programa da época. Fora, é claro, as lavagens feitas depois de atender a cada cliente. Mas como isso não era garantia, os freqüentadores das boates tinham outra mordomia. As meninas vinham com “certificado de qualidade”. Na verdade, o documento era chamado de Carteirinha da Saúde, em referência à Secretaria Municipal de Saúde, mas a função era a mesma: garantir que a moça estava 100%, ou seja, livre de qualquer doença infecciosa. Quem estivesse doente, ficava de quarentena. Na boate de dona Geanete dos Santos, para não dar prejuízo, as meninas incapacitadas

C

para o trabalho ajudavam nos afazeres da casa. Dona Geanete, mais conhecida como Bolinha, é uma das mais antigas proprietárias de boate em Venâncio. Hoje, com 54 anos de idade, ela conheceu bem a vida na noite. Ainda adolescente começou a fazer programas, depois que seus pais adotivos morreram. Mas os ventos sopravam a favor de Bolinha e depois de pouco tempo conheceu e se apaixonou por um homem mais velho, dono de uma boate. No currículo da empresária, como ela mesma define, constam mais de 30 anos de exploração do ramo. Mas, há aproximadamente dez anos, largou os negócios e passou a alugar a sua boate na zona do meretrício do município, chamada de Zonão. Além do aluguel, Bolinha ganha a vida vendendo lingeries e perfumes. Quem chega em sua casa logo é convidado a se acomodar na sala, onde figuram, além de dez quadros com fotos da filha e do neto, um tapete emoldurado, ladeado por um grande relógio. Nele está a imagem da Santa Ceia, coroada pela palavra “love”. O relógio não marca mais as horas. Está parado, assim como a vida de Bolinha na noite. Mas ela relembra alguns fatos marcantes em entrevista exclusiva ao Unicom.

A senhora foi uma das primeiras donas de boate da cidade, não é?

Quando eu me separei do meu marido eu fui para Grão Pará (localidade de Venâncio Aires). Lá, fui uma das primeiras a colocar. O pessoal de Linha Travessa, todos iam... Tratavam a boate de Pinheirinho ou Bolinha, que é o meu apelido. A mulherada queria me matar. (risos) Os maridos deixavam elas em casa, em dias de chuva, fugiam, faziam a volta pelos fundos e iam todos para a boate. Onze horas da manhã estavam lá, fazendo festa. (risos) Agora a senhora está procurando alguém pra vender a boate que tem lá no conhecido Zonão, que hoje está alugada. Mas como é que vende a boate? Aluga as meninas junto ou é só o ponto? (risos)

Não, a gente nem ponto pode vender. Acontece que a gente vende. Isso é uma questão de dinheiro, de acerto. Mas as meninas é uma questão pessoal delas, se querem continuar ou não. Porque jamais a gente vai poder vender um ser humano. Eu até indico, como quando eu vendi aquela lá de cima, do Grão Pará, tinha 11 meninas. Então eu indiquei para o proprietário: “Ó, fulana é assim e assim, te recomendo. A outra já é mais assim, de repente não vai te servir”. Entende? Eu recomendava até para as meninas: “Ó, vocês ficam, vocês experimentam, quem sabe vai dar certo, mas são livres para suas escolhas”.

rozana ellwanger

As meninas moravam com a senhora?

As meninas que eu tive, sempre houve um convívio de amizade, sabe? Eu dava casa, comida, elas tinham o relacionamento delas, nunca obriguei a nada, nunca busquei menina em casa pra trazer para dentro da boate. Quem estava lá foi por vontade própria. Foi uma escolha delas. Cada uma tem uma história, uma mais triste, outra mais picante, mas na verdade, nenhuma tem

história bonita. Elas tinham problemas, chegavam à minha casa, engravidavam, tinham os filhos, eu pagava pensão ou era madrinha. Sempre foi gente de confiança, como uma família?

Eu sempre tratei elas como uma família. Nunca permiti vagabundo dentro da minha casa nem gigolô dando em mulher. Nunca! Bateu numa mulher dentro da minha casa, eu ia pra cima dele, e se ela aceitasse ela ia pra rua. Quando entrava na minha casa eu já dizia: cada uma tem o direito de ter seu namorado, é uma coisa que a gente não pode privar. Nós também não somos bichos pra viver só do, digamos, só do dinheiro, só do comércio, né? Tem o direito de ter um amor, de gostar de alguém. Agora, não de apanhar. A senhora já chegou a tocar alguém de cabo de vassoura?

(risos) Já, já. Já dei de facão, já toquei o revólver na cara. Andava armada então?

Ah, a gente pra se defender, tinha né? (risos) Cada menina tem sua história e nenhuma é bonita. Pode contar um exemplo?

Umas as mães ganham, acham que não podem criar e largam no mundo. Faz parte daquela época o pessoal dizer assim: “Minha filha se perdeu”. Muitos pais escurraçavam de casa. Então elas não sabiam para onde ir. Uma má companhia levava para a boate. Chegava lá, tinha casa, cama, um prato de comida, achava tudo mais fácil. Muitas vezes chegavam sem uma roupa, sem nem uma calcinha para botar, a gente dava. E aí ficavam. Outra porque a mãe arrumava um companheiro e botava para dentro de casa. Aí ficava com medo do cara abusar da filha e tocava a filha de casa. Outras porque o amante da mãe abusava delas também. Com

tudo isso eu lidei. Só que eu nunca fui buscar menina em casa, como tem donos de boates que fazem. Colocam o cafetão à buscar para trabalhar em casa de família. Quando chegam, a “casa de família” é uma boate. Eu conheci também donas de casas que faziam leilão da virgindade das meninas. Isso aí eu acho cafetinagem. As mulheres que fazem programa, todos dizem que têm a “vida fácil”. A vida é fácil mesmo?

Não, é a pior vida que tem. Até alguns anos atrás elas casavam. Eu tenho umas dez que saíram da minha boate casadas. Só que mudou de uns oito anos pra cá. As meninas já são mais novas. Os donos de boate infiltraram as drogas e aí, só vem vagabundo. Então elas estão perdida, já não se interessam mais. Eu não permitia drogas e nem vagabundo entrava na minha casa. Mas não tem só histórias tristes... Lembra de alguma engraçada?

Uma engraçada? Tá, então deixa eu ir desligar meu feijão que está fervendo na panela (e deixa a sala). Uma vez deu um temporal de granizo e terminou com o fumo. Os instrutores começaram a passar nas propriedades para ver os prejuízos e acertar o seguro. Na Travessa São José, o instrutor chegou às 11 horas da manhã e perguntou para a senhora se o marido estava. Ela falou que não. Aí ele foi ver outras lavouras. Perto do meio-dia voltou de novo. Ele ainda não tinha chegado. Aí o instrutor saiu, foi almoçar, ali pela uma e meia, 15 pras duas ele voltou. Ela disse “não, meu marido ainda não chegou. Mas afinal, o que o senhor quer com o meu marido?”, bem alemoa. Ele explicou que tinha ido ver os prejuízos da lavoura e tal, para ressarcir pelo seguro. Aí o que ela respondeu? “Ah, mas vou dizer uma coisa para o senhor. O senhor não se preocupe porque aqui o que pedra não come o Bolinha come” (risos).

As meninas são obrigadas a fazer o que o cliente quer?

Não, não, de maneira nenhuma são obrigadas. Elas fazem o que elas quiserem. Já saiu alguma gritando de dentro do quarto, fugindo?

Já, já. Elas correm por três motivos. O primeiro, é que o homem começa e não pára mais. O segundo, tem aqueles que são grossos, que acham que a menina tem que fazer o que eles quiserem. E o terceiro, que quando ela vê a barraca armada é muito grande (risos). A senhora começou a trabalhar em boate quando era menor de idade. Não tinha problema com isso na época?

Tinha. Era escondido. Mas foi por pouco tempo, quando eu conheci meu marido, já entrei como dona. Nas minhas boates não entrava menor de jeito nenhum. Quantos programas as meninas chegavam a fazer por dia e quanto dava pra ganhar?

Ah minha filha, na época era dinheiro! As meninas faziam dois, três, outras faziam um programa. Dava para viver, pagava pensão dos filhos. Eu lembro uma ocasião que chegou um cliente e a menina não tinha estudo. O cliente dizia “eu vou te dar dez”, não lembro do dinheiro, acho que era cruzeiro. Ele dizia que ia dar dez e ela dizia “não, mas por dez eu não vou, eu quero sete”. (risos) E ele dizia “não guria, mas eu faço

questão de te dar dez”, ela dizia que não, que queria sete. Aí eu levei ela para a cozinha e disse para ela que o que ele estava oferecendo era mais do que ela queria. Aí ela aceitou. Depois ela aprendeu. Lá na década de 1970, 80, não se falava muito em DST. As meninas eram orientadas a usar camisinha?

Nem existia. Só que na época era assim, as meninas tinham que fazer uma carteira na Delegacia e levar no Posto de Saúde para fazer exames e depois levar na Delegacia para assinar que tinham feito. A prevenção era essa: a cada 30 dias fazer o exame. A gente tinha que estar com as carteirinhas na copa, quando a fiscalização chegava tinha que apresentar uma por uma. Era só na sorte então?

Era, e pela cara do cliente. É que na época também não existia tanta droga. Na época tu não ouvia falar de maconha, era muito raro, maconha era o fim do mundo. Os caras para fumar uma maconhazinha se escondiam da gente, Deus o livre! Hoje, além de não se esconder jogam na cara da gente! O que que é isso? Ninguém falava em pó, crack. E o que acontecia se uma menina pegava alguma doença? Ficava de quarentena?

(Risos) Sim, não podia trabalhar. Só quando fizesse o exame de novo e fosse liberada. Até quando estava menstruada era tirada do salão. Se algum cliente pedisse, não digo que não fossem, mas a orientação era não ir.

Como era quando engravidavam? Porque já existia anticoncepcional, mas mesmo assim acontecia.

Engravidaram várias na minha casa. Todas ganharam neném. Ficavam morando lá e enquanto não podia trabalhar, me ajudavam na copa e a limpar a casa. As crianças ficavam até uns dois meses, e depois iam para uma pensão. Pagava para outra pessoa cuidar, porque jamais ia poder se criar lá dentro. É verdade que antigamente, para evitar DSTs, as meninas esfregavam limão?

É verdade. Depois de manter relação colocavam um pouquinho de álcool na água e se lavavam. Faziam lavagem com aquelas buchas de lavagem, para evitar doença e gravidez. E como era o famoso concurso da Rainha da Primavera, que todo mundo fala até hoje?

Cada casa fazia a sua festa. A gente enfeitava o salão todo com palhas de coqueiro. As meninas eram bem vestidas e a gente colocava alguns clientes (de jurados), às vezes fazia por votação, às vezes por palmas. Tinha uma mesa só para Rainha e para as duas Princesas com os acompanhantes delas, que elas escolhiam. Elas entravam, desfilavam. Geralmente cada uma já tinha escolhido seu acompanhante, entrava com uma rosa e entregava para ele. Se aquela fosse a escolhida, a Rainha e as Princesas sentavam naquela mesa exclusiva com os acompanhantes. Aí era só champanhe, não tomavam outra coisa a noite toda. (risos) Que chique! Por conta da casa?

Não, por conta da casa não. Por conta do cliente! (risos)

“Cada uma tem o direito de ter seu namorado. Nós não somos bichos pra viver só do comércio” “Bateu numa mulher dentro da minha casa, eu ia pra cima dele, e se ela aceitasse ela ia pra rua” “Depois de manter relação colocavam um pouquinho de álcool na água e se lavavam”


Um craque movido a cerveja, mulheres e gols

Uma tribo muito bacana Desafiando as leis da gravidade por meio de uma modalidade diferente, o “Le Parkour”, eles descobrem seus próprios limites pulando o que poucos arriscariam pular

Derli Nopes é do tempo em que o bigode era respeitado dentro e fora de campo. Foi um ponteiro veloz, forte, goleador e boêmio. Aos 61 anos, representa uma linhagem em extinção no futebol

D

marisa lorenzoni

erli Esídio Nopes, 61 anos, é um raro sobrevivente de duas escolas póstumas no futebol – a dos ponteiros extremamente habilidosos e a dos jogadores, que, mesmo entre farras homéricas, decidem os jogos. De 1968 a 1987, por Avenida, Guarani/ VA, Bagé, Grêmio, Aimoré e Criciúma, este Macunaíma da bola misturou boemia com gols. O mesmo torcedor que o incentivava no estádio, temia sua presença fora dele. Só em Bagé, ele jura ter desquitado seis casamentos. Por lá, marcou 67 vezes em nove temporadas, fumou duas carteiras de cigarro por dia, fez o gol do título de campeão da Copa Governador

do Estado de 1974, bebeu religiosamente após cada vitória, decidiu os encrespados clássicos Ba-Guas e bateu o cartão com as torcedoras mais fanáticas. Derli foi anjo e demônio ao mesmo tempo. Nos dois campos ele burlou as regras. Por isso, não casou. “Que eu saiba, tive três filhos com mães diferentes e nunca paguei pensão”, ri. Nas vezes em que as restrições frearam sua velocidade e força, fugiu. Foi assim no Criciúma e no Grêmio. Derli trocou o Avenida pelo Bagé em 1971. Comparado a ponteiros do quilate do colorado Lula e do santista Edu, chamou a atenção tricolor. Em 1972 fez testes no Olímpico.

No primeiro amistoso em Livramento, marcou o gol do jogo. Na volta, brigou com o chefe da delegação. Queria ficar em Pantano Grande. Xingado, teve que voltar para Porto Alegre. Era um sábado. Sozinho na concentração, ele ouviu na rádio. “Clássico Ba-Gua na Copa Governador do Estado.” Foi a senha da fuga. “Liguei pra rodoviária, peguei minhas coisas e me mandei. Cheguei às 6 da manhã e falei que ia jogar. Ganhamos 1 a 0, gol meu. No final, disse para o dirigente que ia ficar por lá”, conta. Derli já tinha assinado contrato com o Grêmio. Na segunda-feira, a Folha da Manhã estampou: “Derli deserta do Olímpico”. Ninguém controlava o rapaz que tinha no desempenho a barganha. A desobediência começava na tática. Um ponteiro que se preze deveria ocupar os flancos do campo para servir o camisa 9. Derli dava o corte ao invés de cruzar. Trazia para o meio e desferia seu balaço, certeiro. “Não tinha como repreender. Dava sempre em gol”, debocha. Para fazer o furacão soprar a favor, o jeito era ceder. Os estancieiros de Bagé, dirigentes do clube, penaram. Cansados de serem driblados feitos late-

rais, prometeram premiação em dinheiro a cada gol. “Toda segunda eu ia ao banco pegar o troco”, jura. Quem tentou passar-lhe a perna ao dizer que gol de pênalti não rendia bicho, voltou atrás. “Bato pra fora”, respondeu Derli, antes de converter a penalidade. O SEGREDO DA FERA No Bagé, o treinador Paulo de Souza Lobo, o Galego, consentia outros caprichos ao seu craque. Cortar a cerveja, os jogos de azar, o cigarro, as mulheres, seria castrar o talento. Nas manhãs antes das partidas, Derli era o único com aval para deixar a concentração. “Eu ia até em casa, pegava a nega velha, fazia o que tinha que fazer e voltava. Não tinha essa de cansaço, eu ficava leviano”, recorda. E dava certo. De pernas soltas, este Renato Gaúcho da Fronteira comia grama nos Ba-Guas, o Gre-Nal de Bagé. Ele decidiu o de 1974 aos 46 minutos do segundo tempo, na cobrança de falta. Com a leveza

da sua malandragem, colocou a bola no ângulo do goleiro do rival Guarany. Com sua explosão impetuosa, pulou o alambrado, foi expulso, vibrou, deu entrevista, bebeu em 18 bares diferentes e, horas depois, relaxou. Bêbado. Estas peripécias ilustram o passado do senhor que, mesmo sessentão, ainda mora com a mãe, Maria. Ele resume um período romântico do futebol. O jogador fez arte. Toda expressão tem fases boêmias, desregradas. A do futebol passou. O ponteiro assiste triste aos últimos da sua espécie. Seus colegas de posição viraram laterais. Os bad boys perderam espaço. Romário se aposentou, Edmundo está prestes. Poucos conciliam farra e gols no padrão atual de exigência. O abandono à malandragem revolta Derli. “Os boleiros de hoje em dia só querem dinheiro. Não fumam, não bebem, não comem ninguém... E não jogam p... nenhuma”, reclama este eterno Macunaíma da bola.

Marisa Lorenzoni

É

sábado. O dia amanhece e promete uma manhã ensolarada. Por volta das nove horas um grupo de dez rapazes, com idades que variam entre nove e 26 anos, encontra-se no Parque da Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul, para fazer aquilo que eles descobriram há pouco mais de um ano e no que já são feras: praticar o Le Parkour, uma modalidade que, aos poucos, ganha espaço na região. E os meninos iniciam o treino. Primeiro um bom alongamento, para, em seguida, começar aquilo que eles chamam de aquecimento. Saltos de um banco a outro com mais de dois metros de distância entre eles. É um momento em que precisam estar absolutamente concentrados no movimento. Com o corpo bem aquecido e com a mente bem concentrada, os atletas, que podem ser chamados de traceurs

fotos: marisa lorenzoni

Guilherme Mazui

(do francês, significa “traçar” ou também “ir rápido”), fazem uma incursão por todo o parque da Oktoberfest buscando os melhores lugares para executarem seus saltos. Como já estamos no outono, os gramados se encontram úmidos e isso cria dificuldades para os meninos. Um escorregão pode por tudo a perder. O estudante de Educação Física Leonardo Rodrigues, 26 anos, foi quem introduziu o Le Parkour, ou Parkour, em Santa Cruz do Sul em 2006. O início foi bastante tímido, mas pouco a pouco vem surgindo interessados na sua prática. O grupo da cidade já tem dez praticantes fixos, ou seja, são os que vêm todos os sábados aos treinos. Mas a turma, em alguns momentos, aumenta com a companhia dos que o praticam esporadicamente. Durante os treinamentos é comum ocorrerem pequenos acidentes. Mas também fatos inusitados, como as três vezes em que foram abordados por policiais que ficaram desconfiados ao ver os garotos pulando por aí. Isso acontecia na época em que eles

treinavam pelas ruas da cidade e não nas dependências do parque. Inicialmente, Leonardo fazia como os traceurs paulistas e brasilienses, procurava aprender os movimentos por meio de vídeos pela Internet. Isso é recorrente, mas, hoje, a troca de experiência se dá muito mais pelo viés dos vários encontros que vêm ocorrendo em todo o Brasil entre os apaixonados dessa arte. Aqui no estado já ocorreram dois encontros e, no último deles, que ocorreu na cidade de Ijuí em maio deste ano, a delegação daqui foi destaque. E é desejo do grupo santa-cruzense sediar o encontro gaúcho de 2009. E, como no Parkour não há competições, conforme afirma Leonardo, “tu competes apenas contigo mesmo, superando teus limites. Nestes encontros tu conhece pessoas amistosas, muito amigas. Uma tribo muito legal.” rápidos e fluentes Segundo Leonardo, o Parkour é uma disciplina onde os traceurs, usam seu corpo para passar obstáculos de uma forma rápida e fluente. No Parkour se aprende técnicas desde como subir um muro, até como pular de um lugar alto. Muitos imaginam que é um esporte de pular prédios, mas isso não é verdade. O Parkour consiste em um homem correndo de alguém ou de algo e nenhum obstáculo pode pará-lo. Para passar esses obstáculos, os movimentos devem ser executados da forma mais natural possível, usando o próprio obstáculo como se fosse parte de seu corpo.

O Parkour surgiu na França na década de 80. No Brasil somente no começo de 2004 por meio de jovens de São Paulo e Brasília, que se aventuram na sua prática e também em estudar a sua filosofia. Para aprender os movimentos os traceurs brasileiros assistiam a vídeos na Internet. Desde então, lentamente sua prática vem ganhando novos adeptos. Aqui em Santa Cruz tudo se iniciou pela boa vontade e curiosidade do Leonardo. O Parkour é uma disciplina que independe de professores ou instrutores, mas quem quer começar a praticá-lo deve procurar aprender seus movimentos com alguém que já o pratique. É é isso que o experiente Leonardo faz. Durante todo o treinamento é possível ver como os outros meninos

contam com a sua colaboração e trocam idéias com ele. Bruno Zen, 16 anos, é outro traceur de Santa Cruz. Ele conta que o legal de praticar Parkour é que não há limites de espaço e que ele é acessível a todos; basta ter um bom par de tênis, uma calça e uma camiseta bem leves. Ele ressalta também o quanto sua prática possibilita o auto-conhecimento e do quanto se desenvolve a concentração e a coragem.


Um esporte que preserva a natureza

Daniel Rech uando falamos em emancipação feminina, o mais evidente é a crescente dedicação das mulheres ao trabalho. Prova disso é a dedicação de Lorena da Silva, uma pessoa de muita fé e amor ao próximo. Natural de São Sepé, Lorena chegou a Cachoeira do Sul muito jovem e passou toda sua infância e adolescência ajudando os pais na roça. Casouse em 1971 e teve três filhos. Ela e o marido eram donos de uma loja muito famosa no Centro da

Q

cidade, onde comercializavam artigos em couro, tinta, prego, cola, borracha, tudo que era preciso para o conserto de sapatos, bolsas, jaquetas. Vendiam para os sapateiros do município. O trabalho no comércio ia muito bem quando Fernando Collor assumiu a presidência do País. Logo em seguida veio o congelamento dos preços e da poupança. Como se não bastasse, o marido de Lorena teve o seu primeiro AVC (Acidente Vascular Cerebral), quase si-

multaneamente com os planos do governo. Foram 19 anos de enfermidade até a morte e, por estes motivos, Lorena tornou-se sapateira. Sem condições de trabalhar fora, teve que ralar muito em casa, onde montou a sapataria, para poder cuidar do marido doente e dos seus três filhos. Embora as dificuldades batessem à porta desta mulher, ela nunca desistiu da vida. Juntou sua experiência na venda dos materiais de sapataria com alguns restos de couro e peças

que comercializavam na época e, então, resolveu montar o negócio. Hoje, Lorena da Silva é a única sapateira de Cachoeira do Sul que faz o chamado solado a ponto, um tipo de solado que é totalmente costurado a mão. E que mais ninguém faz na cidade. A necessidade fez com que esta mulher de 56 anos tomasse um caminho completamente diferente do que havia sonhado para ela, o marido e os seus três filhos, mas nem por isso desistiu de ser feliz.

Hoje, Lorena, além de ser uma profissional requisitada até nos finais de semana, acha tempo para fazer trabalhos comunitários pelos bairros da cidade. Ela ajuda pessoas que, como seu falecido marido, precisam de auxílio para um banho, aplicação de soro, de uma injeção e, até mesmo para um simples bate-papo ou apenas pela companhia aos seus amigos que ela faz questão de ajudar com tanto gosto e dedicação.

A sociedade discreta dos maçons A maçonaria cobra integridade de seus membros e pune “irmãos” que contradizem os valores pregados pela ordem Josué Dalla Lasta o longo do tempo, a maçonaria transformou-se. De sociedade secreta, passou a constituirse numa sociedade discreta. Hoje, as associações maçônicas possuem registro em cartório, como qualquer outra entidade. Seus membros são conhecidos, mas a aura mística permanece. Ninguém, além dos “irmãos maçons”, sabe o que se passa no interior do templo maçônico. Apenas que há um compromisso entre os membros de ajuda mútua, de fazer caridade, e preservar a ética, a moral, e a retidão de caráter, entre outros valores. O Soberano Grande Comendador da maçonaria brasileira Luis Fernando Rodrigues Torres, no site do Supremo Conselho do

A

Grau 33 (www.sc33.org.br), diz que “conta com o apoio e a colaboração resoluta de todos os Irmãos, a fim de atingir os altos propósitos empenhados.” Talvez um deles seja chegar à presidência da República, onde o último presidente maçom foi Jânio Quadros. Para o advogado Dorly Giongo, 52 anos, 12 deles pertencentes à ordem, não é a maçonaria que faz a história, são os maçons que a fazem. “Quando um homem segue os preceitos maçônicos, fica mais fácil atingir seus objetivos. Chegar ao poder é, muitas vezes, uma conseqüência do modo de vida do maçom”, reiterou ele. O “irmão” que chega ao poder tem o compromisso de zelar pelos valores pregados pela

ordem. Que o diga o ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia. Após ter sua conduta política desabonada pela instituição, foi proibido de freqüentar suas reuniões. “Ele não foi expulso, porque nenhum homem deixa de ser maçom. Uma vez iniciado, é maçom para toda vida. Ele agora é considerado um maçom adormecido”, disse Cleto Kummer, aposentado, e iniciado na Ordem há 15 anos. “Temos uma justiça paralela à dos profanos. Aquele que demonstrar não ser um homem de caráter reto, é convidado a adormecer”, afirmou Cleto. Leia-se profano todo homem não iniciado na ordem. Os maçons Kummer e Giongo são enfáticos num ponto: “O homem deve servir à Maçona-

ria, e não servir-se dela”. O certo é que ao punir exemplarmente seus membros, a ordem dá um tapa de luvas na Justiça Brasileira, e por tabela, desmancha em parte a imagem de “lobista” que a instituição adquiriu ao longo dos séculos.

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palhar o trajeto? Segundo os atletas é para preservar a natureza mesmo. Quem confirma é o atleta João Gabriel Vicentini. “Além de estarmos reforçando o condicionamento físico, estamos ajudando na preservação do meio ambiente”, explica ele. Evandro Sarzenski, militar e atleta, pratica orientação há nove anos, mas não faz isso sozinho. Leva junto a esposa e o filho de cinco anos. Isso porque a atividade pode ser realizada por qualquer idade. Henrique, filho de Evandro, por exemplo, já exibe várias medalhas que ganhou nas competições. O único cuidado é que as crianças devem realizar o percurso acompanhadas de um adulto. A orientação como um esporte ecológico vem ganhando cada vez mais espaço educativo. Segundo Sarzenski já foram plantadas mudas de árvores no parque de eventos. “Limpamos o Parque da Gruta antes de praticar o esporte, dentre outras atividades. Além da limpeza,

cuidamos para não sujar mais o local e recolher tudo o que foi jogado fora”, explica ele. Segundo Sarzenski, “não é um esporte repetitivo”. O atleta percorre os mais variados tipos de terrenos, como campos, matas, rios e trilhas.

Regras O mapa de orientação é um mapa topográfico detalhado, onde é traçado o percurso que o atleta tem que percorrer. São colocados precisamente todos os detalhes da vegetação, relevo, hidrografia, rochas e construções feitas pelo homem etc. São três a regras básicas: passar por todos os pontos de controle; marcar corretamente o cartão de controle e preservar a natureza.

Mulheres saradas e saudáveis Na busca por um corpo perfeito, elas aos poucos deixam de ser a minoria nas academias de musculação e puxam ferro de igual para igual com os homens Simone Cardoso ma paisagem que antes era composta apenas por homens, hoje mudou drasticamente. As academias, cada vez mais estão lotadas de mulheres, e não é só para fazer aeróbica. A musculação tem sido a de maior procura entre mulheres jovens. A hipertrofia muscular, ou seja, o aumento de massa muscular, já não é mais um desejo apenas masculino. As mulheres estão levantando peso, malhando forte e conseguindo bons resultados, modelando o corpo e ficando cada dia mais saradas. Ricardo Araújo, o Matozão, é dono e personal de academia

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há dez anos. Ele afirma que a pessoa que pratica musculação ganha melhorias na postura e no condicionamento geral do organismo. Nessas vantagens estão incluídos mais fôlego e mais força. Malhar também melhora a circulação, afirma o cardiologista Rafael Rech. Oitenta por cento da procura das mulheres pelas academias é pelo emagrecimento, mas, com o tempo, acabam querendo mais, definir o corpo, ganhar mais força, resistência e viciam na musculação. Esse é o caso de Daiane da Rosa. Ela tem 25 anos, e é praticante de musculação há seis. Daia, como

prefere ser chamada, começou a fazer musculação com interesse em hipertrofia muscular, pois com 1m65 de altura, pesava 52 kg. Hoje, pesa 64 kg com 10 cm menos de cintura e 12 cm mais de quadril e coxa, eliminou gordura e adquiriu massa muscular. Ressalta ainda, que teve uma considerável melhora no condicionamento físico, dores nas costas, postura, auto estima, humor e resistência. Daiane pode ser considerada por muitos como “bombada”, pois destaca-se das demais por um corpo atlético e bem definido. Sua força e resistên-

cia são muito superiores a da média e mesmo assim, não perdeu as características femininas. Ela afirma que, apesar de tomar suplementação alimentar rica em carboidratos e hipercalórica, não toma esteróides anabolizantes, muito usados por quem quer resultado rápido e sem esforço, e quem compete em concursos

de fisioculturismo. O problema é que os anabolizantes trazem resultados rápidos, mas causam efeitos colaterais muito sérios, como impotência sexual, hepatite e pré- disposição ao desenvolvimento de câncer.

dimas russo

A morte do marido e dificuldades na família não foram suficientes para impedir o trabalho da única sapateira de Cachoeira do Sul

Débora Nunes anto se fala em preservação do meio ambiente, que hoje existe um esporte que, além de praticar atividades físicas, tem o objetivo de cuidar da natureza. É a orientação, que reúne agilidade, raciocínio e condicionamento físico. O atleta que pratica orientação recebe um mapa com o desenho do terreno a ser percorrido e uma bússola. Com estes dois elementos ele tem que percorrer o trajeto caminhando ou correndo. Durante o percurso o atleta vai encontrar pontos de localização chamados de prismas para serem marcados no mapa, sinalizando que o atleta fez o trajeto certo. Quem fizer o percurso em menos tempo ganha a prova. Mas, antes de tudo isso, o local onde vai ser feito o trajeto é limpo pelos competidores. São recolhidos todos os objetos que venham a prejudicar o meio ambiente. O plantio de árvores também faz parte do esporte. Mas por que será que os atletas limpam o local? Para não atra-

débora nunes

As habilidosas mãos de Lorena

daniel rech

Quem fizer o percurso em menos tempo ganha a prova. E, melhor ainda, colabora com a preservação do meio ambiente


Memórias de vidro Responsável pela documentação histórica do início do século XX, o acervo fotográfico dos Kuhn preserva uma Santa Cruz que pouca gente conhece

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lação. O que pode ter dado certo, prova disso foram os vários negócios que o empreendedor Willian começou na cidade. Um deles, o de maior sucesso, foi o extinto Bazar Kuhn, fechado em 1993, quase 90 anos depois de ser começado. Hoje a vida de pai e filho é um amontoado de lembranças, papéis amarelados e vidros com fotos de pessoas e paisagens mortas, guardados em caixas de madeira. Para o neto, resta a difícil tarefa de cuidar das mais de 5 mil chapas de vidro e incontáveis fotografias que remontam a mais de 100 anos de história. Zelozo, Ivo não dá as fotos, nem vende. Sonha com o dia que todo esse acervo vai estar preservado. Para as futuras gerações, aqueles que virão depois de nós. Sem o trabalho de Ivo, o que poucos conhecem poderá ser ainda mais desconhecido.

fotos: arquivo pessoal

Rodrigo Nascimento ma época distante, costumes e trajes fora de moda. Arquitetura e urbanização da cidade tiradas das páginas de livros de história. Relações amorosas e de amizade permeadas pelo respeito e a parcimônia característicos do século passado. Essas são algumas das imagens que Ivo, neto de Willian e filho de Hugo Kuhn, guarda como seu tesouro pessoal. Juntas, representam uma verdadeira viagem no tempo, percorrendo as ruas estreitas e empoeiradas da Santa Cruz de 1895, época que o imigrante alemão Willian Kuhn veio para o Brasil trazendo na mala uma moderna invenção européia, a fotografia. Aqui, onde a língua falada já era o português, Willian passa a ser Guilherme, tradução do nome estrangeiro. Talvez uma estratégia de se tornar mais popular, mais acessível à popu-


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