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Contadores de causos Ter boas histórias para contar e contá-las bem é desejo de todo jornalista. Quando se trata de aspirantes a jornalistas, então, essa sede é muito contundente, quase insaciável. Nesse sentido, o Unicom, premiadíssimo e reconhecido com um dos melhores jornais laboratórios do país, abre uma infinidade de alternativas. A liberdade de procurar a melhor pauta, o melhor foco, os melhores cases, as melhores fotografias, a narrativa certa. Tudo o que um estudante dessa nobre profissão almeja. O segundo Unicom do semestre não é temático, o que abre um gigantesco leque de assuntos e angulações às reportagens. No entanto, esta liberdade pode ser elemento complicador. A busca pelo assunto a ser investigado toma ares tensos, angustiantes, perturbadores. Neste contexto, nada substitui a voz da experiência. Aí, o papel fundamental do professor Demétrio Soster, editor-chefe, que insistiu, desde a reunião de pauta, na humanização dos textos. Sensibilizar, emocionar, chocar, fazer sentir. Este devia ser o caminho. É válido, porém - e até para a melhor compreensão - abrir um “parêntese” e falar da edição anterior do Unicom, a primeira deste semestre. A mesma turma que agora voltou às ruas, em busca de histórias para contar, há pouco tempo passou por um enorme desafio, falar sobre narrativas pornográficas. E não pensem que foi um trabalho leve, simples. A pornografia com suas várias facetas é tema complicado, ingrato, chão desconhecido para muitos e que poderia trazer diversas armadilhas. Mas não. Toda a equipe (turma) literalmente assumiu a bronca e fez um belo trabalho. E mais. Teve a audiodescrição, iniciativa única, no que compreende jornais laboratório de cursos de comunicação social no país. Um trabalho de inclusão e acessibilidade, que pode ser visualizado nos meios online do Unicom. Agora, voltemos para esta edição. Perfis sociais. Apesar de não ser temático, isto pode definir o grande campo trabalhado neste Unicom. Pessoas que não são necessariamente célebres, nem mesmo precisam ter realizado grandes feitos. Desconhecidos, anônimos, mas que em suas vidas e nas dos que os cercam são protagonistas. Mas aí, especialmente está a beleza. Pois tratam-se de seres humanos reais, de carne e osso, e sangue. Indivíduos comuns, que estão todos os dias na rua, mas muitas vezes não são vistos. Porteiros, agricultores, cuidadoras, estudantes, viajantes, recicladores, papeleiros, funcionários públicos, mulheres em busca de direitos. Este Unicom fala de gente. Fala de terra, de asfalto, de dor, de persistência e de luta. As páginas deste jornal estão recheadas de sentimentos. São preenchidas por sorrisos e lágrimas, vitórias e derrotas. Este Unicom tem vida. Ou melhor, vidas. Contadas por jovens que anseiam tornarem-se bons contadores de causos. Mas causos reais, verdadeiros. Os responsáveis por estas páginas estão começando, e querem muito. Querem fazer de sua profissão algo que modifique o mundo. Pode parecer clichê, mas o que seria dos jovens se não fossem os clichês, o idealismo e a ânsia por um mundo melhor? Boa leitura.

Este Jornal foi produzido na disciplina de Produção em Mídia Impressa, sob a supervisão do professor Demétrio de Azeredo Soster. Impressão: Grafocem Tiragem: 500 exemplares


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Visão para além do sentido de ver Unicom utiliza a técnica de audiodescrição para contar suas narrativas aos cegos LUCAS DALFRANCIS REPORTAGEM FOTOGRAFIA

Mesmo sem visão, Cristian Sehnem vê. Enxerga a vida sem usar os olhos e a cegueira não faz da sua história um universo sombrio. Enquanto um dos cinco sentidos lhe foi roubado aos 20 anos, pela progressão da diabetes, os demais são incitados ao extremo a fim de espelhar em seu mundo a nitidez da superação. O técnico administrativo, hoje aos 37 anos, possui relação visceral com ritmos e composições. Dedilha o piano com maestria e arranha performances na bateria e no pandeiro. Para ele, os sons têm o dom de acalmar as inquietudes do coração. O talentoso musicista e intérprete vocal é apenas mais um, entre os 35.791.488 deficientes visuais brasileiros apontados pelo último Censo. Destes, 528.624

Áudio está no Blog Após Daiana Carpes apresentar o trabalho à disciplina de Produção em Jornalismo Impresso, e da relevância do assunto aos olhos do professor Demétrio de Azeredo Soster – a turma partiu para operacionalização da faixa narrativa aos cegos. Debruçados sobre as ilhas de edição, esmerados aos ajustes textuais e comprometidos em manter os roteiros palpáveis e latentes, a turma cumpriu o desígnio: apresentou a visão do Unicom para além do sentido de ver. Caso não viu nem ouviu, acessa o blog http://blogdounicom.blogspot.com.br e perceba que, aqui, para consumir conteúdo o olhar está mais para o interesse do que para degeneração do globo ocular.

não conseguem enxergar nada (assim como Cristian), 6.056.684 possuem grande dificuldade e outros 29.206.180 apresentam algum problema de ordem visual. Fascinado pela apropriação do saber e defensor ferrenho das políticas de acessibilidade, o santa-cruzense viu no jornal-laboratório do Curso de Comunicação da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) – chamado Unicom – algo inovador e capaz de acolher sua reivindicação: oferecer acesso aos cegos, bem como os ditos “normais” têm. Trata-se da técnica de audiodescrição está sendo desenvolvida pela formanda em Jornalismo Daiana Carpes. Ela exercitou o desafio de transferir as narrativas do impresso para produções em áudio. O projeto experimental desenvolvido pela moça observa que os textos devem ser enxugados sem comprometer o sentido, os narradores alternados para proporcionar mais dinamismo

e inseridas trilhas sonoras a fim de tornar as matérias mais leves, emotivas e vivas. “Tudo começou com um acadêmico de Contábeis. Cego, ele não podia ler o informativo do curso. Sem ter noção do tamanho do trabalho, transformei o boletim em áudio e lhe entreguei de presente”, recorda. No outro dia, o rapaz agradeceu pela oportunidade de ter acesso ao material, de poder descobrir fatos curiosos e, em especial, ter direito à informação assim como os indivíduos de córneas sadias. Na opinião de Daiana demais periódicos deveriam adotar a prática, tendo em vista a partilha do conhecimento num olhar inclusivo e mais humano. A partir da experiência, aplicada posteriormente ao Unicom em 2013, o jornal-laboratório promete manter a técnica nas próximas edições (assim como nesta), pois vê o quanto esse esforço muda, na vida, de quem não vê.

Proposta inédita Segundo o Ministério da Educação (MEC), o Brasil possui 470 cursos de Jornalismo no país. Cada um é responsável por desenvolver jornais-laboratório. De acordo com o Coordenador do curso de Comunicação da Unisc, Demétrio de Azeredo Soster, o Unicom é pioneiro ao reproduzir os conteúdos em audiodescrição.

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Catadores não: recicladores Como funciona a rotina de quem trabalha nas ruas recolhendo material reciclável

AUGUSTO DALPIAZ REPORTAGEM FOTOGRAFIA

Casados há cerca de 20 anos, todos os dias Odete Oliveira dos Santos e João Pedro Escobar, de 40 e 46 anos respectivamente, saem para trabalhar como catadores de materiais recicláveis em Santa Cruz do Sul. João entrou nesse ramo há seis meses, influenciado pela mulher, que já trabalha na área há três anos. Antes desse período, eles atuavam nas safras das fumageiras e, no período da entressafra, recolhiam materiais nas ruas. Odete faz parte da Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis (Coomcat) e da Coleta Seletiva Solidária desde a sua implantação

na cidade, em 12 de dezembro de 2012. Até entrar para o time da Coomcat, a renda dela beirava os R$ 300 mensais quando trabalhava somente catando. Hoje, ganha, em média, quatro vezes mais, somando o resultado da coleta e o salário pago pela Prefeitura. Também trabalha com muito mais estrutura e respeito. Em pouco tempo caminhando com eles, podemos perceber o engajamento da sociedade, que faz questão de separar o papelão, das latinhas e de todos os outros materiais. O que entra em contraste com aquilo que costumamos pensar: os catadores da Coomcat tem condições muito boas de trabalho. Suas rotinas começam às

7h30. João empurra o carrinho da cooperativa e como um grande cavalheiro (apesar dos pedidos de sua mulher para auxiliá-lo) ele não a deixa fazer força desnecessária durante todo o percurso. Assim, Odete o auxilia na coleta de materiais. Com isso, eles se ajudam para que o trabalho do outro não fique sobrecarregado, mantendo o clima de harmonia. Todos os catadores têm seu trajeto já estipulado. O percurso do casal engloba as ruas do centro da cidade, que são Venâncio Aires, Professor Ivo Raedtke, Carlos Trein Filho, Júlio de Castilhos, Thomaz Flores, 28 de Setembro e Ernesto Alves. Juares Ferreira da Silva, de 43 anos, trabalha no ramo há cerca de 30 anos. Seu trabalho é recolher os resíduos pelas ruas do bairro

Num só dia, Juares já carregou quatro geladeiras em seu carrinho


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Casados há 20 anos, Odete e João trabalham juntos na coleta do lixo

Goiás. Satisfeito com sua função, enquanto coleta materiais, ele conta, orgulhoso, que mobiliou toda a sua casa com aquilo que encontrou entre os detritos dos outros. Só para citar alguns exemplos, por suas andanças, Juares conseguiu reaproveitar televisão, cama e geladeira. Certo dia, o catador chegou a carregar quatro geladeiras dentro do seu carrinho, que costuma pesar cerca de 120 quilos em suas viagens cotidianas. As ruas que ficam a cargo dele são Professor Ivo Raedtke, Ernesto Alves, Assis Brasil, Ramiro Barcelos, dentre outras. Apesar do forte calor, ele considera o verão o melhor período para se trabalhar. Não à toa, é nessa época que a população descarta os materiais “mais valiosos” no lixo, já que, com as festas de fim de ano, as pessoas costumam aumentar o consumo de líquidos, e assim, muitas latinhas e garrafas PET são jogadas fora. Por conta disso, em uma dessas datas, já conseguiu aumentar sua renda mensal para

R$ 2.500,00. Assim, Juarez não se importa de trabalhar em dias quentes como a quarta-feira dia 13 de novembro, por estar realizado com o que faz, ele vai para todos os lados procurando o que coletar com muita satisfação e com seu olho “afiado” para ver bons rejeitos. Durante suas tarefas, Juares prefere andar pelas ruas mais calmas, pois nesses lugares quase não passam carros e motos. Todo o carrinho da cooperativa deve cumprir as regras de trânsito que valem para os automóveis. Eles têm a obrigação, por exemplo, de parar nos sinais vermelhos, respeitar a faixa de segurança e o sentido do fluxo das ruas. Fato que podemos presenciar em um dia seu de trabalho, ele tem muito cuidado em não causar trabalho tanto para os demais motoristas, quanto para os pedestres. Assim como, todas as vezes que falou sobre os motoristas durante a tarde, sempre demonstrou que os carros nunca lhe causaram problemas.

As garrafas PET, as latinhas e papelão são as meninas dos olhos dos catadores. Não por acaso, o motivo são seus preços elevados. O isopor quase não é requisitado, uma vez que seu quilo vale apenas um centavo. Para efeito de comparação, a mesma quantidade de jornal custa dezoito vezes mais, o papelão sai a R$ 0,44, o plástico-bolha é cotado a R$ 1,10 e, no rol dos mais nobres, entram a garrafa de Coca-Cola (R$ 1,95 o quilo) e o alumínio de lata, vendido a R$ 2,40. Para Juares, outra melhora notável dentro do trabalho foi não precisar ter que depender mais dos atravessadores. Vendendo “direto”, o preço é quase o dobro daquilo pago pelas pessoas que intermediavam esse processo, fato que dá grande satisfação para ele. Após suas viagens diárias, os catadores levam tudo o que recolheram para o entreposto instalado na Rua Venâncio Aires, onde o material é pesado e prensado para ser comercializado com empresas.

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O longe é mais perto do que se pensa Jovens partem do certo para o duvidoso na busca de uma nova história para suas vidas

LIESE SCHER BERWANGER REPORTAGEM FOTOGRAFIA

O dia era cinza, fazia frio. As nuvens derramavam lágrimas, iguais as que escorriam em seu rosto. Nas três malas estavam as roupas, os acessórios e as lembranças. O cenário estava completo para fazer com que a jovem Laura Caye Sebastiany, 20 anos, desistisse de lutar pelo seu sonho: o de estudar Zootecnia em uma universidade federal. Longe, bem longe de casa. Mas por qual motivo ela deixaria de lado seu maior objetivo de vida? Laura teria que trocar o conhecido pelo desconhecido; o certo pelo duvidoso. Durante 6570 dias, ou 18 anos, a sonhadora morou com seus pais, na pequena cidade de 7 mil habitantes, Roque Gonzales, localizada na região das Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul. Lá, há muitos limites para se planejar um futuro. As opções de estudo são poucas; as de trabalho também. Por conta disso, a maioria dos jovens daquela região, distante de tudo e de todos, deixa o aconchego diário dos pais para estudar ou trabalhar em outras cidades. Então chega o dia 2 de agosto de 2011, planejado e esperado por muito tempo. Laura, então com 18 anos, acorda às 6h, um pouco mais cedo do que estava acostumada. O porta-malas do carro é aberto pelo seu pai. As bagagens estão pron-

Passado e presente se confundem na hora da despedida tas no canto da porta do quarto; o mesmo quarto onde ela tantas vezes buscou abrigo e consolo. Sua mãe acompanha todos os seus movimentos até que chega a hora da despedida. O pai a levaria até a sua nova cidade, no coração do estado, Santa Maria. Mas as lágrimas foram inevitáveis ao abraçar a grande companheira: sua mãe. Às 8h30, o pai, na direção, dei-

Estudar distante de casa é comum no interior Laura não é a única a destinar um novo percurso a sua trajetória. Segundo o Censo Demográfico 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no nível superior, por exemplo, 29,2% dos alunos estudam em uma cidade diferente daquela em que moraram até certo tempo. O deslocamento para outros municípios cresce conforme a escolaridade e está relacionado à distribuição desigual das unidades de ensino no país. Nesse sentido, 32,6% dos alunos de cursos de especialização de nível superior, mestrado ou doutorado se deslocam para outro município para estudar o curso desejado.

xou a cidade e enfrentou os 283 quilômetros, três horas e meia de dúvidas e incertezas. A partir daí, ela teve que encarar as lembranças, aquelas citadas acima, que insistiam em aparecer nos primeiros meses de adaptação na cidade universitária. “No início foi muito difícil, passei praticamente quatro meses chorando e querendo voltar para casa”, conta. Nesse momento, aquelas situações que eram pacatas tornam-se atraentes; a monotonia do pequeno lugar é motivo para ter saudade. Mas o que Laura não sabia é que um novo mundo estava a sua espera. Não foi um motivo especial, mas uma série de fatores que levaram a jovem a tomar paixão pela nova cidade que a acolheu: novos amigos; novos prazeres; novas descobertas; nova rotina. E como tudo na vida depende do tempo para se encaixar, hoje ela é enfática em dizer que “não me vejo mais morando na minha terra natal. Me sinto realizada”. Atualmente, ela divide um apê com amigos, trabalha em um hospital como secretária e estuda.


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Sob o olhar de um porteiro Por vezes passam despercebidos, mas eles estão sempre em alerta para ajudar no que for preciso

WILIAM REIS REPORTAGEM FOTOGRAFIA

Quando se pensa na profissão de porteiro, primeiramente, não há uma boa impressão. Porteiro lembra alguém velho, com barriga saliente, desocupado, uma pessoa que nunca teve determinação por vencer na vida, que possui um trabalho que qualquer um seria capaz de realizar. Esse estereótipo não reflete a realidade desses dois profissionais. Ambos vestem as mesmas roupas: camisa, gravata e calça social. Possuem um aperto de mão firme, solidariedade em cada saudação, percepção aguçada e humildade para recepcionar todos da mesma forma. Adriano Ladimir de Carvalho e Valdomiro da Silva trabalham há 13 e oito anos, respectivamente, como porteiros. Adriano, 45 anos, não tem mais que um metro e setenta, cabelo escuro com manchas grisalhas e demonstra uma grande disposição mesmo que o ofício exija que fique acordado enquanto todos estão dormindo no edifício residencial onde trabalha. Valdomiro, 38 anos, também não é muito alto, mas já possui marcas de calvice e olheiras profundas. Afinal, são 16 horas e meia diretas de trabalho para poder “ganhar um pouco a mais”. Com aparência discreta, eles estão sempre de olho. “Tudo passa pela portaria” diz Adriano, ao explicar

Adriano: “A cada dia é uma nova lição” que a sua função está relacionada a de zelar por tudo que envolve o condomínio e o morador. Valdomiro, quando trabalha durante a manhã, não para. Envia correspondências, atende o telefone, ajuda deficientes. E perde as contas de quantas vezes fala “bom dia”. Tenha a certeza de que ao encontrar um deles você estará sendo constantemente observado. Eles explicam que, com o tempo

Valdomiro está sempre disposto a dar um bom dia e recepcionar bem os visitantes

de trabalho e a prática, fica fácil reconhecer o nível de humor das pessoas pela fala, algum gesto e até mesmo pelo andar. Com rápida observação, é possível descrever características do morador/visitante, se é da cidade ou não (por meio do sotaque), se é educado, se possui caráter diferenciado e por qual situação está passando. É nesse dia a dia de percepção que os dois porteiros também exercem diferentes funções. Segundo Adriano, “tem vezes em que o porteiro é psicólogo, é conselheiro familiar, é ouvinte”. E para descontrair, Valdomiro também faz o papel de comentarista esportivo: “Tem aquele comentário sobre futebol e, às vezes, até uma ‘corneta’ com os conhecidos”. Assim se estabelecem as relações de amizade graças ao ofício. E assim, os profissionais passam a fazer, indiretamente, parte das famílias. “As pessoas estão cansadas de ouvir mentira, de inveja, cansadas do mau humor dos outros”, diz Adriano, e que, por esse motivo, muitos moradores confiam mais nos porteiros para fazer uma reflexão, pedir um conselho e até mesmo fazer uma piada. Nessas situações, eles afirmam que os casos ouvidos durante o serviço servem de lição para a própria vida.


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É a vez do leite no Vale do Rio Pardo Preço mais competitivo atrai novos investimentos para o setor leiteiro

DIOGO PAZ REPORTAGEM FOTOGRAFIA

Alimento consumido direta ou indiretamente por praticamente todas as pessoas de variadas classes em todos os lugares do mundo. Rico em proteínas, o leite de vaca e seus derivados é um dos produtos mais importantes na dieta alimentar ocidental. Porém, todo esse consumo e importância não refletiam em valores para um dos setores fundamentais nessa cadeia de consumo: o produtor de leite. Durante anos, os preços baixos da matériaprima afastaram os grandes investimentos da cadeia leiteira. O negócio basicamente familiar sofreu com o êxodo rural presente no país nas últimas décadas. Essa realidade começou a mudar e afetar diretamente o produtor de leite, reflexo que pode ser visto no Vale do Rio Pardo. O preço baixo é coisa do passado. Há apenas alguns anos as empresas de recolhimento pagavam R$ 0,65 por cada litro. Hoje o valor já chega a R$ 1,00. No caso de um pequeno produtor que tire em média 200 litros/dia,

a diferença pode ser de até R$ 70,00 diário. Ou seja, em um mês podem ser acrescidos R$ 2 mil na renda, o suficiente para comprar ração por quatro meses para as mesmas dez vacas de produção média de 20 litros/dia. O bom momento do setor levou novas pessoas a investirem no gado leiteiro, como é o caso de Themer Azambuja, 45 anos, gerente aposentado de um banco privado e que teve durante toda a vida o gado de corte como uma renda alternativa para sua família. Azambuja viu nas vacas de leite uma nova possibilidade de investimento, retorno rápido e principalmente mensal: “Todo dia 15 recebo o valor produzido durante o mês. Com onze vacas em lactação, consigo gerar mais lucro em menos espaço de campo, vou aumentar o número de vacas em mais alguns dias”, explica. Para ele, mesmo tendo que trabalhar de domingo a domingo com suas vacas, a qualidade de vida é muito superior ao tempo de gerência de banco.

Bem estar do animais é fundamental na hora da produção

O reflexo das novas oportunidades no setor também é visto nas agropecuárias: com o aumento do preço, o produtor passa a buscar alternativas para incrementar a produção, como rações de maior qualidade, sementes de pastagens que melhoram os campos e remédios veterinários que possam curar e prevenir doenças. “Aqui na agropecuária e venda de rações específicas para gado de leite cresceu praticamente 300% nos últimos três anos. A demanda aumentou tanto que um vendedor foi destinado principalmente para atender esses clientes”, conta André Visoto, responsável pela venda de rações da Cotribá. Cultura amplamente difundida pela comunidade germânica no Vale do Rio Pardo, a fumicultura também começa a sofrer a concorrência do leite. Com mão de obra menor, menos funcionários e maior poder de barganha, o agora ex-fumicultor enxerga na produção leiteira uma nova possibilidade de renda. Deixar de depender das grandes multinacionais e passar a lidar com algo menos nocivo à saúde são vantagens que atraem os produtores. “Com nove vacas, eu produzo o equivalente a 40 mil pés de fumo. A diferença é que as minhas vacas não morrem na primeira chuva de pedra e eu não tenho que ficar secando fumo naqueles fornos. Hoje até posso sair para pescar depois da ordenha”, comemora Fladmir Helfer, 35 anos. Segundo ele, que “se criou vivendo do fumo”, hoje o tambo de leite com 14 vacas é uma renda certa e voltar a plantar tabaco não vai acontecer tão cedo. Helfer conta que a família ainda trabalha no fumo e que demorou muito a entender a sua mudança de cultura. Só agora, os mais próximos começam a respeitar a sua decisão de produzir leite. Não foi só o preço do leite que


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fomentou o negócio: os espaços cada vez mais reduzidos para a pecuária de extensão é um fator importante e a crescente demanda do plantio de soja também é considerado. Para o agrônomo Augusto Tonello, 25 anos, a divisão das áreas e a diversificação das culturas vêm acontecendo na região. “Quando se planta a soja em uma grande extensão de terra, uma fazenda, por exemplo, sempre fica um espaço de campo onde não é possível plantar. Este espaço pode ser ocupado por vacas de leite desde que exista oferta de pasto. É uma associação bastante frequente nas propriedades, pois é uma forma de não deixar aquela área parada”. Tonelo salienta que só em sua área de atuação essa realidade já acontece com quatro clientes e já existem projetos de mais alguns em andamento.

Não existe feriado nem domingo para as vacas de leite, todo dia é dia de ordenha

Crônica

Verdadeira mudança Rodrigo Bartz

Parece tudo surreal. Ainda lembro-me de quando dizia que tinha inveja do “panelaço” argentino, ou talvez daquela sede por revolução do povo “hispanolatino”. Tinha vontade de sair às ruas e gritar bem alto: chega! Mas, então, voltava, porque no Brasil não adiantava. O brasileiro levava com a barriga, enquanto tinha feijão e arroz para comer, ia tocando. “Nois vivia”. Ao mesmo tempo em que, me arrepio, sinto os olhos encherem de lágrimas, a voz titubear, totalmente emocionado, e levemente sentir meu rosto moldar-se para um sorriso, (sensação essa sem explicação) sinto o medo. Esse medo, com certeza é em decorrência de faltar algo. Faltar o quê? Vocês podem se perguntar. Afirmo que é conteúdo. Peço encarecidamente que essas manifestações não venham sem recheio, de cultura, de leituras. Que esse que manifesta saiba o porquê da manifestação. Que esse que manifesta pense bem, pense nas eleições e vote consciente nas próximas. Que esse que manifesta não trate o político como uma verdadeira celebridade, quando este vem de “visita” a sua cidade. Que esse que manifesta pare na faixa de segurança, pois esse é um direito do pedestre e, contudo educação. Que esse que manifesta não jogue lixo no chão. Que esse que manifesta não evolua,

intelectualmente, somente nos dedos, ou na rapidez de um post. Que esse que manifesta não seja bode expiatório, tampouco eleja alguém para ser “bode expiatório político”. Que esse que manifesta seja, não somente agora, mas sempre um cidadão crítico (não confundindo crítico com violento). Que esse que manifesta exija mais saúde e que não a use sem dela realmente precisar. Que esse que manifesta não se indigne somente por vinte centavos, mas sim pelos mais de vinte anos de atraso que estamos em relação aos outros países, inclusive nossos parceiros do BRIC. Que esse que manifesta suplique a redução dos impostos, ou pelo menos a correta aplicação dos mesmos. Que esse que manifesta continue, ontem, hoje e sempre. Que esse que manifesta seja realmente o futuro do nosso país que aí dormirei tranquilo, pois meus netos viverão em um país melhor e muito, mas muito mais justo do que eu vivo. Que esse que manifesta continue e coloque a mão na consciência, faça uma verdadeira mudança e que em primeiro lugar seja nele mesmo.

Professor. Mestrando em Letras pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Bolsista FAPERGS.


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Minha vida do outro Eles têm vida própria. Mas, muitas vezes, abrem mão dela para ajudar o outro a viver a sua

DIANA AZEREDO REPORTAGEM FOTOGRAFIA

Além da primeira letra do nome, Renati e Rejane têm mais um ponto em comum: as duas emprestam a sua vida para os outros. Pelas ruas, podem até se confundir com mulheres apressadas, disfarçando o cansaço com um delineador nos olhos e um sorriso nos lábios. Mas elas integram um grande grupo dos que assumem os cargos de “cuidadoras e enfermeiras do lar”. Da ajuda na hora do banho à companhia para tomar um sorvete, elas colaboram para desenvolver a cidadania de quem está bem perto: seus familiares demandam cuidados que duram horas, dias e anos. “Nossa vida parou.” Assim Renati Bartholdy, de 63 anos, resume as mudanças que ocorreram depois que o seu marido, Ercido, sofreu um derrame. Há mais de dez anos, o ex-borracheiro e funcionário público foi aposentado por invalidez devido à alergia causada pelo contato da pele com o pneu. Em casa, a obesidade e a hipertensão somaram para pro-

vocar um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Até então, Renati trabalhava na fumageira e, como diarista, na limpeza de cinco ou seis apartamentos. O casal, com seis filhos, tinha um carro grande – lembram apenas da cor, branca - e uma câmera fotográfica semi-profissional. Para quê? Para viajar aos fins de semana. Era essa a principal atividade de lazer da família. Hoje, o carro foi vendido e, para realizar a maioria dos “passeios”, basta o táxi que cumpre o trajeto até o consultório médico. Desativada, a máquina fotográfica, uma Zenite – boa o suficiente para garantir os registros fotográficos, vira brinquedo nas mãos curiosas da neta Bruna. Além de sofrer o derrame, Ercido quebrou duas vezes a perna, em tentativas frustradas de caminhar e sustentar os mais de 120 quilos. Agora, só consegue andar lentamente e com a ajuda do andador. Durante a entrevista, interrompe as respostas de Renati para contar piadas e mostrar o funcionamento

da câmera. A dor parece ser driblada com o bom-humor e a disposição para conversar. “Tinha uma vida muito corrida. Hoje, acordo às cinco... cinco para as nove”, brinca. A rotina de Renati também é outra: levantar, fazer o café, preparar a medicação, fazer o almoço, tomar chimarrão, fazer o lanche, preparar a medicação, monitorar o banho, fazer a janta e preparar a medicação novamente. São oito tipos diferentes de remédios. Às vezes, a agenda inclui idas ao banco, ao consultório médico e à farmácia. Além dos cuidados com o marido, Renati é responsável por atender às necessidades da enteada Rosmeri, de 44 anos. Cega desde que nasceu, ela ficou órfã de mãe e é criada pela madrasta há 39 anos. Já passou por duas cirurgias: no ovário e na vesícula. A atenção maior, atualmente, é quanto aos índices de glicose e colesterol. Rosmeri toma banho e vai ao banheiro sem precisar de ajuda, faz tapetes com

Renati (à direita) dedica as horas do seu dia para cuidar do marido Ercido e da enteada Rosmeri


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retalhos de tecido e vai à escola nas segundas, quartas e quintas à tarde. Chega a ficar pronta uma hora antes de a topique passar. “Ela é bastante independente”, elogia Renati. O único incidente ocorreu quando tentou esquentar água para o chimarrão: encostou o pano no fogo e quase provocou um incêndio na casa. Além da madrasta, Rosmeri conta com a companhia e a amizade da irmã Marisa, que passou a morar com os pais para ajudar em casa. Mal termina a entrevista e as duas já se posicionam perto do portão: vão tomar sorvete. Peço, por favor, mais um instante para tirar a foto. A resposta vem na forma de um sorriso, que aumenta, logo após o

registro: finalmente, vão passear. Para descontrair e buscar forças, frequenta a igreja, as festas da sociedade de damas e trabalha à noite, durante cinco meses, no período da safra, na fumageira. “Eu vou mais para me distrair. Essa rotina é braba: só em casa”, comenta. As unhas pintadas de esmalte rosa, os olhos delineados e o cabelo pintado de preto evidenciam a mesma beleza feminina dos retratos emoldurados na sala. Só reclama da falta de tempo para frequentar as sessões matinais de terapia para hipertensos: “Eu sempre deixo a minha saúde de lado”. E por que não internam o pai em um lar para idosos? A filha Luciana responde aos sussurros: “Ele não quer. Já disse.”

Renati: “Eu sempre deixo a minha saúde de lado”

Fé em Deus e família unida Enquanto espero a entrevistada retornar de uma atividade na igreja, no monitor da sala, o filme “E se você tivesse uma segunda chance?” está quase terminando: a tela exibe um hospital e um diálogo sobre a vida eterna. Termina o vídeo e a trilha sonora ganha o ritmo soul music gospel de Thalles Roberto. “A gente tem Deus, a gente consegue tudo”, resume Rejane Claudete da Silva Pereira de Lima, de 43 anos. A vida da funcionária pública mudou quando, em abril de 2010, a mãe faleceu devido a um aneurisma. Responsável pelos cuidados da avó, da tia e da irmã, deixou um compromisso triplo para a filha. Rejane não sabia cuidar dos familiares doentes. Teve que aprender. A avó faleceu. A tia sofre de hipotireoidismo, toma medicamentos, realiza exames e faz consultas médicas duas vezes por ano. A irmã, com deficiência intelectual, também trata, há quatro anos, a anemia com um hematologista em Lajeado. Além dos dez remédios diários, necessita de transporte, a cada dois meses, para fazer tratamento na cidade vizinha, a cerca de 30 quilômetros de Venâncio Aires, onde reside. Mas os desafios somados não se comparam às dificuldades que enfrentou para cuidar do pai. Diag-

nosticado de câncer de próstata e de esôfago, ele foi internado em Santa Cruz do Sul. A primeira internação durou dois meses. A segunda, três dias. Rejane permanecia no hospital durante o dia e o genro, Alex Sandro Lima, à noite. Mas o paciente acabou falecendo no início do ano, antes de completar o quarto dia na casa de saúde. “Aquela do pai me detonou”, recorda. A casa que pertencia a ele passou a abrigar o casal Tatiane e Alex. Aos 26 anos, filha mais velha de Rejane decidiu morar ao lado da mãe para ajudá-la com a tia e a irmã. O genro mantinha um forte vínculo com o sogro e não se importou com a mudança: “Eu tinha o ‘vô’ como pai”. Suspirando, conclui: “É preciso ter paciência, é preciso ter paciência”. O salário de Rejane, somado ao do marido, da filha mais velha e do genro, complementa o valor recebido da pensão e da aposentadoria paterna. Se hoje a situação financeira é tranquila, nem sempre foi assim. “Cheguei a ficar no vermelho”, recorda Alex. Casada há 20 anos, Rejane é mãe de outros dois filhos, de 14 e 15 anos. Toda família se envolve nos cuidados com os familiares doentes. E todos frequentam a igreja Mundial do Reino de Deus há 14 anos. Além dos

cultos às segundas, terças, quartas e sextas, participam de atividades aos sábados e domingos. Rejane se envolve em quatro projetos da congregação. “Tem que ter estrutura. Se não fosse Deus, eu não sei”, reflete. Com um sorriso, disfarça o cansaço, e conta que também canta no coral da escola infantil, onde trabalha por meio turno. Essas ativi-

dades são bem-vindas na agenda, pois ajudam a prevenir um mal que mantém Rejane atenta: “A tal de depressão, que eu não sei direito o que é, acho que ela chega se eu parar”. A irmã e a tia podem ficar até quatro horas sozinhas. Mas no trabalho e na igreja, todos já compreendem: “Se tem alguém doente, eu tenho que sair e deixar tudo”.

Rejane (em pé, de preto): “Se tem alguém doente, eu tenho que sair e deixar tudo”


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Por que é tão bom ir, mas tão difícil voltar? Experiência contada por quatro jovens que conheceram a realidade de outros lugares e, de tanto que gostaram, sentem vontade de voltar

DANIELA LEMES REPORTAGEM LARISSA ASSIS ARTE SOBRE FOTO

Em conversas informais de corredores e bares onde o papo flui com os amigos, sempre ouvi das pessoas que fizeram intercâmbio e que passaram um tempo fora do País sobre a dificuldade de ter que voltar para a realidade. Todos com os quais conversei sempre me responderam a mesma coisa: “A melhor parte é ir, mas a hora de voltar chega a dar um desespero”. Mas por que é tão ruim voltar? Foi essa a pergunta que me levou a questionar, mais a fundo, algumas pessoas que foram, mas não tiveram vontade nenhuma de retornar às suas rotinas. Uns falam do choque da realidade, outros pela experiência que o intercâmbio traz que nenhuma escola pode dar... Assim foi o bate-papo com Daniela Friederich, de 21 anos, que ficou seis meses na Suécia, Leonardo Moraes, também de 21 anos, que por nove meses viveu na Espanha, Thamires Waechter, de 22 anos, que passou dois meses no Canadá e Estados Unidos, e Larissa Assis, de 21 anos, que realizou o sonho de infância: ficar por um mês em Toronto. A maior dificuldade dos inter-

cambistas é a de ter vontade de voltar a viver no Brasil, e eles não escondem isso em momento algum. “Foi muito fácil eu me adaptar com as novidades e muito difícil voltar pra realidade com a qual eu já estava acostumada. Eu não via lixo no chão. Pessoas pedindo esmola na rua é algo raríssimo de se ver e não há animais abandonados na Suécia. Aliás, os bichinhos podem acompanhar o dono no trem, no ônibus e entrar junto em todas as lojas. Ao contrário do Brasil, o trânsito não é um caos e por toda a cidade há espaços delimitados para pedestres e ciclistas”, explica Daniela. Ela viu que o “País do Carnaval” tem seus problemas, tanto sociais, ambientais, como econômicos. Isso ajuda a explicar o choque de realidade dos estudantes que vão para fora do Brasil. Problemas todo País tem, mas basta sair para ver com outros olhos, e é por isso que as pessoas, que vão e relatam suas viagens, não querem voltar, conforme Larissa Assis. “Em Toronto, se usa o transporte público para tudo, para ir a qualquer lugar da cidade a qualquer hora. Era algo muito estranho sair para a noite de metrô e voltar de ônibus no meio

da madrugada. E o melhor de tudo: sem correr risco nenhum. Pois lá, isso é normal”, recorda. A maior preocupação dos que viajam é o transtorno psicológico na volta. Como relata Leonardo Moraes “perdi peso lá, porém de forma intencional, cuidando mais da alimentação. Mas no retorno, depois de passados os choques de boas-vindas e aquele clima de ‘tudo é festa’, dois meses exatamente, eu passei por uma crise psicológica de umas três semanas. Uma total sensação de impotência, desânimo, falta dos amigos de lá, falta das viagens, falta da cultura... parecia que lá era a minha ‘vida real’”. Claro, não é só a volta que dá o impacto, mas sim a ida também. A chegada em um país “novo”, com uma cultura totalmente diferente da que se vive, requer muita força de vontade. Como explica Daniela, “o mais difícil para mim na Suécia foi o inverno. Não porque é muito frio, já que tem calefação em todos os lugares, mas porque os dias são muito curtos. Como cheguei lá em janeiro, e era bem no meio do


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inverno, o sol saía pelas 9h e pelas 16h já estava escuro”. Leonardo também achou difícil para se acostumar, mas não foi só o clima e a estação em si, o inverno, mas a frieza dos europeus. “Primeiro que lá eles são como o inverno no hemisfério norte: frios! Eles são muito recatados (quando sóbrios, é claro) e contidos. Os europeus em geral são assim”, aponta. Outro fator que chamou a atenção de Moraes foi o costume deles de não ter alguém específico para servir nos locais como em lojas e lanchonetes: “Lá não existe a guria do Mc’Donalds juntando a tua bandeja, não existe a moça da loja que te enfia roupas ‘goela a baixo’, lá é na base da lei do ‘você quer, você que se vire’! Se sujou, limpe. Se comeu, recolha. Se quer vestir? Pega, experimenta e paga. Tudo simples e sem essa ‘ostentação made in Brazil’”. Hora de arrumar as roupas nas malas e fechar. É o momento de voltar para casa com a bagagem cheia. Roupas novas, perfumes e muitas variedades para uso pessoal, mas o item mais importante vem junto: experiência de vida. É uma oportunidade que todos querem, mas poucos buscam com esforço: estar lá e curtir cada momento. Moraes conquistou essa chance pela dedicação nos estudos, foi selecionado pelo Ciências Sem Fronteiras para ficar o período que uma mãe gera

um filho, nove meses, longe de casa, na Europa. Larissa Assis planejava a viagem desde os dez anos de idade, deixou de fazer muita coisa para guardar dinheiro e realizar o sonho. Daniela Friederich entrou com um propósito para o curso de Relações Internacionais: estudar muito para ser selecionada e participar do intercâmbio da universidade. Thamires Waechter tinha a vontade única de conhecer outra realidade. Estudou inglês e quando surgiu a oportunidade de a Unisc mandar alunos para o exterior, ela sabia que estava preparada. Na hora de voltar a pisar em solo brasileiro, um misto de emoções habitava a cabeça desses quatros jovens de 20 e poucos anos: deixaram a família aqui no Brasil, mas cultivaram outra lá fora, que tiveram que abandonar por conta da data e da hora marcada para embarcar. Era um sonho, mas precisavam retornar para a realidade. Eles falaram sorridentes, mas o olhar estava longe, lembrando cada detalhe. Eu tinha uma pergunta que não me calou, até que perguntei: o que valeu dessa experiência de conhecer outra realidade? As respostas foram surpreendentes, não só pelos perfumes e roupas novas que trouxeram, mas a bagagem de vida. Friedrich se diz outra pessoa. “Fui para o meu intercâmbio achando que eu era uma pessoa livre de

preconceitos, mas diversas vezes me peguei olhando torto para alguma coisa por achar estranho ou incomum. Mas aprendi com isso. Aprendi a ser mais tolerante e paciente com as pessoas. E me dei conta de que apesar de que existiam algumas diferenças culturais entre mim e meus amigos, isso era apenas um detalhe. Cada um de nós também possuía similaridades nos medos, sonhos e esperanças, o que no final do dia nos unia muito mais do que as diferenças nos separavam”, comenta. Larissa brinca com a situação: “Desde se perder no aeroporto até o frio na barriga de responder às perguntas na imigração, ou pedir uma informação, não entender direito e ir parar no lugar errado, até os momentos de desespero ao estar perdido é um aprendizado. Acredito que esse tempo fora me fez crescer e amadurecer muito, mudar muito algumas ideias e objetivos e, até mesmo, perder alguns preconceitos bobos que a nossa sociedade tem”, revive. Ela cita uma frase de um autor desconhecido: “Quem diz que a infância é a melhor fase da vida é porque ainda não fez intercâmbio.” Para Leonardo, que foi o mais corajoso, ficando nove meses fora de casa “depois de um intercâmbio de longa duração, se começa a ver o mundo com outros olhos, passa a ver que ele é gigante, recheado de

gente, cheiros, lugares, vidas, e ao mesmo tempo, sujo, pequeno, vazio. Foi a melhor coisa feita até hoje por mim, a escolha que eu fiz para minha vida. Além disso, lá tu tens a chance de saber quem tu és e não imagina 10% do que é capaz.”. Por fim, Thamires não se esqueceu de ninguém: “você começa a valorizar só o fato de sentir o ar de outro país, entrar em outra rotina, pisar em um chão diferente, conhecer gente de todo o mundo. Nunca me esqueço dos colegas de todas as partes do mundo. Nunca esqueço das famílias que me hospedaram, dos grupos da Unisc que me acompanharam, das amizades que fiz, das coisas que aprendi. A gente aprende muita coisa, a ser mais independente, a se virar sozinho, a ser responsável. E eu nunca quero esquecer disso”. O mundo é enorme, são quase duzentos países para serem explorados, mas tudo é muito pequeno para os sonhos. Quatro provas vivas de que nada é fácil, que tudo é questão de foco, planejamento e muito esforço. Eles foram a fundo, tiveram receios, medos, vontade de voltar para casa no início, mas quando se depararam com eles mesmos, o reflexo da escolha, foi muito mais complicado estar de volta à rotina. Nessa realidade, fazem o mesmo processo de antes, se esforçam e buscam uma nova experiência.


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Alternativas de diversificação florescem no campo A história de uma propriedade rural onde garimpar possibilidades e persistir é a regra LEANDRO JUNHKHER PORTO REPORTAGEM FOTOGRAFIA

Flores, folhagens, artesanato, tabaco energético, soja, arroz, trigo, milho e canola. Além de frutíferas e hortaliças para subsistência familiar. O que tudo isto tem em comum? Um casal de agricultores corajosos que tem sua propriedade localizada no interior do município de Rio Pardo, Distrito de Rincão Del Rei. E o que, especialmente, isto representa? Diversificação da produção agrícola e dos meios de vida no meio rural. Há aproximadamente 30 anos, Norma Tatsch, além de auxiliar seu marido nas atividades da granja, trabalhava vendendo doces, quitutes

e salgados. Além disso, dava aulas de artesanato e pintura em casa. Certo dia as alunas, encantadas pela beleza das violetas que enfeitavam o lugar, perguntaram se Norma vendia. Ela prontamente topou. A partir daí, iniciou uma série de experimentos com as plantas. Primeiro na garagem de casa, passando posteriormente para uma pequena estufa. Começou pelas violetas, com cerca de 2 mil pés da espécie. Mas os invernos rigorosos e tardios dizimaram a plantação. Adversidades, quedas, decepções, intempéries climáticas e pragas seguiram acontecendo. Mas a insistência de mulher resignada, que

ama o que faz, não deixou Norma desistir. Para profissionalizar sua atividade, a produtora rural realizou pesquisas, buscou informações com pessoas e empresas que trabalham nesse segmento. Também frequentou cursos promovidos por entidades como SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Ao lado do marido, Nelson, orgulhosa da proporção de seu negócio, Norma fala sobre toda luta e sacrifício no trabalho da terra. “A gente perdeu tudo umas quantas vezes, mas tentamos de novo, com outra coisa, até que nos achamos!”.

Norma cuida com carinho de suas flores, que além de lucro, lhe proporcionam companhia e sossego


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Com o passar dos anos, formação e experiência, Norma, que sempre contou com apoio e contribuição do marido, montou uma estrutura de aproximadamente 1000 m² de estufas, o que ocupa apenas 10% de um hectare, onde são cultivadas as mais variadas flores e folhagens. Para Nelson, a palavra chave para o sucesso é “persistência”. “Não é por si só que tudo isto está aqui. Nós passamos por muitas dificuldades. Você não imagina o quanto. Mas somos bastante insistentes e o desafio não nos assusta”. As experimentações e estudos qualificaram o trabalho nas estufas. Hoje, a irrigação das plantas é feita por meio da água recolhida das chuvas, armazenada em cisternas e caixas de água em elevação. “Sobra água”, considera Nelson Tatsch.

Sustentabilidade, que poupa recursos naturais e também financeiros para a propriedade. “É uma atividade economicamente muito interessante, que traz uma boa rentabilidade e tem negócio, tem procura”. Público fiel As flores, folhagens e artesanatos produzidos por Norma atraem muita gente à Granja. Segundo ela, um processo “boca a boca” que foi aos poucos multiplicando o conhecimento acerca de seu trabalho. São estudantes de Escolas Agrícolas, excursões, grupos de mulheres agricultoras, compradores, vizinhos e curiosos. A propriedade fica aberta ao público inclusive nos finais de semana. A comercialização das mudas e folhagens é feita através de venda

direta para amigos e comunidade e, principalmente, pelo fornecimento para floriculturas e de municípios vizinhos como Candelária, Lajeado, Rio Pardo, Vale do Sol, Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires. Mesmo com a venda de flores, folhagens e artesanato, a produção de grãos segue como o “carro-chefe” da Granja Tatsch. A propriedade dispõe de 150 hectares, utilizados para a plantação rotativa de soja, arroz, canola, milho e trigo. Para isso, ainda são arrendados mais 450 hectares. Nelson Tatsch considera importante o negócio da esposa. “Eu também tenho a minha atividade. Então se estou tocando o meu negócio e sei que a minha esposa está se sentindo bem, não está sendo pressionada, eu me sinto bem”.

Os dois filhos do casal, Ricardo e Felipe, saíram para estudar e se formaram, respectivamente, Engenheiro Agrícola e Engenheiro Elétrico. Apesar de estarem empregados e fora de casa, continuam contribuindo com o desenvolvimento da Granja Tatsch. Ricardo, inclusive, é o responsável técnico pela propriedade. Norma Tatsch, vai para o trabalho, sempre com um sorriso no rosto. Contente pela família e também pela vida junto às suas samambaias, bromélias, palmeiras, gerânios, brinco de princesa, orquídeas, cactos e diversas outras espécies para jardim. “Aqui estaria realizada, mesmo que não desse um centavo de dinheiro. Sou feliz no meio destas flores. É muito gostoso de trabalhar, eu nem precisava sair de casa”, diz.

Tabaco que gera energia No processo de diversificação da Granja Tatsch, uma nova alternativa de diversificação vem sendo testada: o tabaco energético. Esta planta é utilizada para a produção de biodiesel, ração animal e biomassa. O cultivo é semelhante ao do tabaco tradicional (do tipo Virgínia, comum no sul do Brasil e utilizado na produção de cigarros, charutos e cigarrilhas). A diferença básica é o fato de que não as folhas, mas sim as sementes é que são aproveitadas. O próprio cheiro da planta, muito característico no tabaco destinado à produção de cigarros, não é tão forte. O tabaco energético não possui nicotina em sua composição, e é 100% aproveitável. A propriedade de Nelson e Norma Tatsch foi a primeira da América Latina a realizar uma colheita da variedade. Foram 700 mil pés plantados em 2012, para uma primeira experiência de produtividade e 60 mil em 2013, para uma amostra mais qualitativa da planta. Segundo Nelson, o tabaco energético tem se mostrado um cultivo viável e com bom potencial de lucro, podendo render até três vezes mais que a soja.


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O Unicom e a interdisciplinaridade A capacidade de unir os comunicadores é a ferramenta essencial do jornal-laboratório

GUILHERME BICA THIAGO BURGER REPORTAGEM FOTOGRAFIA

O final de semestre é sempre um momento de expectativa para qualquer acadêmico e para os comunicadores não é diferente. Realização das provas finais, entrega das notas e a tão esperada abertura da grade curricular para o semestre seguinte. Dentre o período da disciplina, uma oferta especial surge, talvez a mais esperada pelos futuros jornalistas do curso. Uma das mais desafiadoras e a grande responsável pelo conhecido dom de lapidar talentos e ganhar prêmios: Produção em Mídia Impressa, disciplina responsável pela produção do jornal Unicom. Jornal Unicom? Não seria essa disciplina direcionada somente aos acadêmicos de jornalismo, exclusivamente aos que escolheram fazer parte da “missão unicom”? Não! E é aí que esta a diferença do jornal, a produção em equipe, a interação multimídia, a interdisciplinaridade, essa sim a palavra chave, um tanto quanto complexa é bem verdade, mas

que foi fundamental para dar vida à ultima edição, a publicação “Pornô” do jornal experimental do curso de comunicação social da Unisc, que tratou de narrativas pornográficas, anormais para um folhetim acadêmico. Quando à ideia de interdisciplinaridade nos foi proposta logo veio a tona: Como explicar para outros alunos, das demais habilitações que não participaram do processo de escolha do tema aquilo que queríamos? E o mais importante de tudo, como mostrá-los a seriedade com a qual o tema deve ser tratado? Mas eles entenderam e muito bem por sinal. O trabalho que exigiu muita responsabilidade dos jovens comunicadores uniu todas as habilitações do curso de Comunicação Social da Unisc. O coleguismo entre alunos e professores foi fundamental, afinal, mesmo com as suas demais disciplinas a fazer, com trabalhos e provas dedicaram este tempo para desbravar o mundo da pornografia.

E houve quem arrumasse tempo para acompanhar todo o processo de produção do jornal, essa árdua tarefa foi realizada por acadêmicos da turma de jornalismo online que realizaram um webdocumentário com os jovens repórteres da publicação pornô. As páginas do folhetim também tiveram um toque de ousadia e sensualidade como o tema sugeria, por meio dos contos e crônicas escritas com muito esmero por nosso acadêmicos. Mas uma das tarefas mais complicadas e desafiadoras foi proposta pelo professor de Fotografia em jornalismo Rafael Hoff. Um ensaio pornô que deveria mostrar o lado sensual dentro da pornografia. O desafio foi encarado e cumprido pelos alunos; as fotos: aprovadas. Não poderíamos deixar de ressaltar também o trabalho dos bolsistas e voluntários da agência a4 e de nosso amigo Marcio Meyer que ilustrou o jornal com suas criativas histórias em quadrinhos. O Unicom Pornô é nosso!


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Quando o amor deixa marcas Poder Público, mídia e sociedade ainda deixam a desejar no combate à violência contra a mulher

ANI CAMILA JANTSCH REPORTAGEM FOTOGRAFIA

O namoro de adolescência virou casamento, mas a história não foi só de amor. Durante três anos a enfermeira Gláucia viveu uma relação baseada no “eu amo, eu perdoo”. Como casou aos 17 anos, conta que a imaturidade a fez relevar muitas coisas, até que das agressões verbais e psicológicas, partiu para a física. “Ele sentia que eu era propriedade dele, só a sua opinião valia”, relata. Antes de acabar com aquele ciclo de horror, questões rondavam sua cabeça. “Conseguiria cuidar da filha pequena sem o marido?”. Mas ao mesmo tempo, Gláucia sabia que a menina não poderia mais viver em um ambiente de violência e pensar que isso era normal. Cansada, ela resolveu largar do marido. Mas o caso de Gláucia é incomum. Apesar da Lei Maria da Penha ser criada para proteger as vítimas, muitas mulheres que convivem com a violência doméstica ainda relutam em pedir o divórcio. A Lei funciona há sete anos, mas tem se mostrado incapaz sozinha, sendo contestada por especialistas, principalmente pelo crescimento da violência nos grandes centros e cidades do interior. Em 2012, a Delegacia da Mulher de Santa Cruz investigou dois homicídios, enquanto que em 2013 já são quatro casos. Em todo o Vale do Rio Pardo, pelo menos sete mulheres foram assassinadas em 2013. Santa Cruz do Sul é uma cidade colonizada por alemães, conhecida teoricamente por

ser culta e reservada. Mas de janeiro à novembro deste ano, foram registadas 1.479 denúncias por agressão na Delegacia Especializada da Mulher, o que coloca a cidade, segundo o Escritório da Mulher, como 8º em violência doméstica e o 3º em comunicações de violência contra a mulher do Rio Grande do Sul. Os dados parecem muito reveladores, mas só para quem vai atrás da informação. Os meios de comunicação da cidade ainda insistem em retalhar os fatos, veiculando apenas casos isolados, aqueles que geralmente envolvem mortes. O que não colabora com a redução da violência, já que o problema é tratado de forma superficial pela mídia. Entre os meses de agosto, setembro e outubro, a Delegacia Especializada da Mulher registrou 434 denúncias, enquanto que apenas 13 casos foram apresentados pela Gazeta do Sul, maior jornal do município. Todos envolvendo homicídios. Pode ser constatado também, que nesse período, nenhuma matéria faz referência à campanhas educativas. Não foram mostradas quais as leis protegem a vítima, como ela deve agir e quais órgãos procurar. Mas a mídia não é a única a enxergar o problema de forma omissa. A Justiça também não enfrenta o problema com devida atenção. Há anos o Escritório e o Conselho da Mulher de Santa Cruz do Sul lutam por uma Vara

de Família junto ao Fórum, com um juiz específico para cuidar da área. Na opinião da Secretária do Escritório da Mulher, Iara Bonfante, a própria concessão de pensão alimentícia seria mais rápida com a vara específica na cidade. “A maior parte dos casos que eu acompanhei demoram um ano para a mulher receber a pensão”, relata Iara. Hoje, os magistrados atendem questões cíveis, como direito de família, trânsito, contratos e outros, o que acaba ocasionando a lentidão. Mas ainda há uma luz no fim do túnel, que pode fazer com que o caso de Gláucia não seja mais uma exceção. Como alternativas para aperfeiçoar a aplicação da Lei Maria da Penha, neste mês, duas leis foram sancionadas no Rio Grande do Sul. Uma diz respeito a criação de um sistema integrado que reúne informações de órgãos públicos para facilitar o acesso aos procedimentos necessários para atendimentos. A segunda é destinada as vítimas de violência sexual. Áreas de perícia e saúde de órgãos públicos deverão dar apoio psicossocial, anticoncepção de emergência, profilaxia das doenças sexualmente transmissíveis, orientações e procedimentos de interrupção de gravidez decorrente, além da realização de exames clínicos, periciais e laboratoriais. Mas para surgir resultados, é necessário que essas leis saiam do papel, para que não acabem como a Lei Maria da Penha.

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Sofia e as formigas DILSO JOSÉ DOS SANTOS CONTO MÁRCIO MEYER ILUSTRAÇÃO

Ao entrar em casa, fugindo às tensões do mundo e do trabalho, vislumbrou o que ainda não havia presenciado em todos aqueles anos (pelo menos não ali dentro!): uma trilha de insetos - formigas negras - andando nervosamente em fileiras. Acompanhando com os olhos a enegrecida trajetória, repetindo nuances e, praticamente, junto com elas equilibrando enormes pedaços de migalhas, a senhora, aproximando mais o olhar, contemplou a grandeza de uma pequena e perfeita organização. Debruçou-se... O chão estava magnificamente limpo, o reflexo, traduzindo o teto, captava um corpo maior em cima de outro, o córrego de pequenas pernas pareciam transitar sobre elas próprias. A transfiguração parecia óbvia quando as pinturas metamorfosearam-se sobre si, parecia a criação de algo, parecia a percepção de outra parte que ela ainda não conhecia. Minutos se passaram em relação ao entendimento do outro mundo, seu corpo estava diferente, seus cabelos resumiam-se em duas antenas, seu universo mudara, seus membros mudaram, seus pensamentos mudaram... O desejo era de apenas seguir com sua bagagem e suas, agora, irmãs que já lhe saudavam com a lembrança de que tinha trabalho a fazer. Caminhou incessantemente seguindo o que ainda não sabia. Um impulso maior lhe

acometia a tradução de que algo superior estava por de trás daquele ato, algo maior, algo misterioso. Passou por debaixo da porta dos fundos, pelo gramado, pelas imperfeições da terra... Parou. Descansou. Seguiu. Tudo era imenso! A fileira de insetos levou-a a um enorme monte. Lá dentro, quase como se as paredes se movessem, saltoulhe os olhos a vida que se pintava em todas as partes, a colônia de formigas era magnífica. - Pela primeira vez me sinto parte de um todo - pensou -, pela primeira vez... Largou o que havia no dorso e aliviou-se enquanto retornava. O que trazia no instinto era o que

manteria a todos, o que havia portado, em peso desmedido, era o que conservaria as outras que também carregavam o mesmo peso do velho mundo sobre as costas. O cosmo é feito de tantas aspirações grandiosas que é impossível olhar para baixo. Ao retornar, aturdida com seu novo batente, nem percebeu quando... - Sofia, você está aí? E, entrando compulsivamente, pisou-a com tanta força que nem deu tempo de gritar. Os resquícios do velho mundo que sustentavam o novo haviam lhe cobrado com uma pegada certeira. - O que está fazendo aí deitada? - Acho que adormeci...


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Novo unicom divulgação  
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