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Pauta01 Notas, estórias e apontamentos musicais

Evento

Cistermúsica 2010 Entrevistas

Alexandre Delgado London Brass Tentet Sofia Silva Eliana Mota Foto-reportagem

O Claustro do Silêncio Notícia

Concerto de professores Cursos de dança

Pauta é um jornal da Academia de Música de Alcobaça com distribuição gratuita e propriedade da Banda de Alcobaça

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Ficha Técnica

Índice

Propriedade Banda de Alcobaça Rua Frei António Brandão, n.º 50-52 2460-047 Alcobaça

Breves notas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4

Director Rui Morais

Cistermúsica Foto-reportagem

Edição David Mariano Design e Paginação Velcro Design Fotografia David Mariano . Josezinha Vasco A Pauta é uma publicação electrónica de consulta e distribuição gratuita, estando todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.

Actualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 ...........................................8

Alexandre Delgado Entrevista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 A Arca do Tesouro Reportagem

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Claustro do Silêncio Foto-reportagem

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London Brass Tentet Entrevista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 Sofia Silva Entrevista

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Concerto de Professores Notícia

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Telefone 262 597 611

Eliana Mota Entrevista

Fax 262 597 613

Academia de Dança de Alcobaça Notícia

Telemóvel 96 254 35 44 / 42 Site www.academiamalcobaca.com Para subscrever a Pauta ou deixar-nos uma recomendação, crítica ou dúvida, envienos um mail para: press@academiamalcobaca.com

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Letras e Sons . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52


Editorial por

Rui Morais

Presidente da Banda de Alcobaça Director da Academia de Música de Alcobaça

Pauta: uma revista com ritmo, melodia e harmonia Pauta é o sistema de 5 linhas e 4 espaços onde se escrevem as notas, ensinava o professor Álvaro Correia Guimarães na sede da Banda de Alcobaça (antiga central eléctrica) aos vários alunos da sua escola de música em 1985. Nesse mesmo ano, a 30 de Novembro, ressurgia esta instituição musical nas ruas de Alcobaça com uma mescla de jovens (da referida escola de música) e de gente mais velha de outras bandas do concelho, unindo-se em prol da arte dos sons sob a batuta do grande músico e maestro Vítor Santos.

Mas nem só de música se faz o dia-a-dia da nossa escola! Nos últimos anos, acrescentámos a Dança à oferta formativa da Academia que tem dezenas de alunos a frequentar as várias modalidades disponíveis, incluindo o curso vocacional à semelhança da Música. Todos estes projectos e actividades, toda esta dinâmica cultural tem de estar sustentada numa comunicação atenta e eficaz. Temos, para isso, apostado em vários meios, uns mais tradicionais, outros mais inovadores de que as redes sociais talvez sejam o paradigma.

Passados 25 anos sobre este feliz acontecimento e num ano em que comemoram também os 90 anos da sua fundação, a Banda de Alcobaça é, hoje, uma instituição de referência nacional! Desde 2000 em novas instalações, a Banda criou a Academia de Música de Alcobaça (AMA) que é responsável por vários cursos desde o pré-escolar até ao ensino sénior. Com mais de 4300 alunos - 500 destes frequentando cursos vocacionais (habitualmente designados por conservatório) – e 90 professores, a AMA é uma das maiores escolas de música do país. Mas é também responsável por um dos melhores festivais de música do país: o Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça, que em 2011 terá a sua 19ª edição, e do único Concurso Internacional de Música de Câmara que se realiza em Portugal (CIMCA).

É neste contexto que aparece a Pauta, não só já o sistema de 5 linhas e 4 espaços onde se escrevem as notas, mas agora também uma publicação disponível on-line. Com um design cuidado, pretende mostrar o ritmo das principais iniciativas da Banda de Alcobaça enquanto instituição, a melodia inerente às actividades desenvolvidas pelas Academias de Música e Dança, assim como a harmonia que as pequenas histórias do quotidiano acrescentam. Espero que o prazer de ler esta Pauta seja o mesmo que aquele que, ao longo destes 25 anos, senti tantas vezes ao ler uma pauta de música!

Isto tudo sem abandonar a Banda que foi sempre evoluindo no seu carácter musical, constituindo-se actualmente mais como uma orquestra de sopros, frequentada por alunos mais avançados da Academia mas mantendo ainda muitos músicos da geração do ressurgimento, do que uma banda filarmónica tradicional. Esta “fusão” tem dado frutos, dos quais destaco a classificação em 1º lugar na 2ª categoria obtido em Maio deste ano no III Concurso de Bandas do Ateneu Artístico Vilafranquense.


Breves notas

Marina Camponês conquistou Prémio de Jovens Músicos 2010 Professora de Flauta Transversal e natural de Leiria, Marina Camponês venceu na categoria de flauta (nível superior) “Quando ouvi o meu nome como vencedora do premio fiquei apática, sem reacção, julgo que estive assim durante um dia!” Foi desta forma que Marina Camponês, jovem música e docente na Academia de Música de Alcobaça (AMA), se sentiu no momento em que venceu o Prémio Jovens Músicos na categoria de Flauta (nível superior) no dia 4 de Setembro – isto depois de ter competido na final com nomes como Adriana Ferreira (presente na última edição do Cistermúsica) e Mafalda Barradas Carvalho. Marina Camponês confessou então: “Entrei no concurso com o propósito de fazer o melhor que podia, de colocar metas e atingi-las. Nunca pensei muito no que seria ganhar. Fui sempre com a ideia de me querer superar em cada prova; para mim era o que bastava, para sentir que a minha participação nao seria em vão.” E acrescenta: “Estou feliz e grata pelo reconhecimento do meu trabalho e por ter agora a oportunidade de o expor, espero estar à altura das espectativas”.

Philippe Trovão fica em 1.ºlugar numa das melhores escolas de música do país Aluno da Academia de Música de Alcobaça de Saxofone, e natural da Vestiaria, entra com a média de 17 valores A concorrência é forte e não é todos os dias que se consegue entrar numa das melhores escolas de música do país, mas Philippe Trovão, aluno da Academia de Música de Alcobaça (AMA), não só conseguiu o feito como o concretizou atingindo o primeiro lugar com a média de 17 valores. O dia de 8 Setembro ficará assim na memória do jovem estudante como uma das datas mais felizes da sua vida, um dia onde “o primeiro sentimento que surgiu foi de alegria e euforia”, isto apesar de ele garantir que “não tinha a certeza de que iria entrar, ainda mais em primeiro lugar.” No entanto, mesmo na hora da euforia, Philippe Trovão não deixa de ser modesto: “as expectativas que eu tinha antes da minha candidatura eram de simplesmente acabar o 12.º ano e chegar às universidades para as quais concorri e fazer o meu melhor, provar o meu valor.” Não há dúvidas de que o conseguiu e ele ainda acrescenta que o objectivo antes passava simplesmente por “acabar bem o ano lectivo na Academia de Música de Alcobaça, que apesar de ser curso livre não deixa de ser importante.” Mas a última mensagem que Philippe Trovão deixa tem destinatários claros: “Tenho de acrescentar uma coisa importante, quero agradecer todo o apoio que as pessoas me deram e tudo o que os meus professores e colegas de saxofone e não só me ensinaram, porque sem eles não estava no sitio onde estou.” Entre estes está o saxofonista alcobacense Mário Marques, um dos mais conceituados professores da AMA e reconhecido músico nacional. À imagem de nomes no passado que confirmam a excelência do ensino e formação musical na AMA, tais como Vera Santos, Nuno Mendes, Hugo Azenha ou Luís Miguel Espadana, entre outros (alguns deles hoje docentes na própria escola que os formou), Philipe Trovão é mais uma certeza no futuro da música nacional e um nome a reter com atenção.


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Músicos da Banda de Alcobaça vencem prémios em competição italiana Tomás Rosa e Eduardo Cardinho galardoados na “International Competition for Percussion Instruments & Drumset” na cidade italiana de Fermo A “International Competition for Percussion Instruments & Drumset” é uma das mais importantes provas de percussão europeias, cuja última edição, realizada entre os dias 3 e 12 de Setembro na cidade de Fermo (Itália), contou com a participação de cerca de 200 candidatos de 26 nacionalidades, dividida em 3 escalões e onde podiam concorrer vários instrumentistas de percussão (marimba, vibrafone, caixa, tímpanos, bateria e composição). Os candidatos tinham duas fases, uma eliminatória e uma final, podendo aí chegar ao pódio por pontuação atribuída pelos júris. Foi o que aconteceu com um par de jovens músicos da Banda de Alcobaça: Tomás Rosa, natural da Vestiaria (Alcobaça) e Eduardo Cardinho, de Marrazes (Leiria), que venceram prémios nas suas categorias. Só Tomás Rosa recebeu três prémios: 1.º lugar em Vibrafone (Categoria A), 2.º lugar em Marimba (Categoria A) e um 3.º lugar em Tímpanos. Já Eduardo Cardinho foi galardoado com o 2.º prémio de Vibrafone (Categoria B), o único instrumento a que concorreu e onde era o mais novo da sua categoria. Tomás Rosa, que ensaiou durante vários dias nas instalações da Academia de Música de Alcobaça (AMA) para esta competição, garante ter sentido com os prémios “uma grande recompensa pelo trabalho feito nas obras estudadas para o concurso e sobretudo muita felicidade”. Eduardo Cardinho, que também participou pela primeira vez num concurso estrangeiro, admite ter sentido “uma enorme felicidade, satisfação e orgulho”, depois de ter sido distinguido. E acrescenta: “Vencer um concurso deste tipo é muito importante para a vida e carreira de um músico”.

Academia de Música de Alcobaça promove II Curso de Percussão em Dezembro II Curso de Percussão realiza-se entre os dias 20 e 23 de Setembro com a contribuição especial do percussionista sueco Markus Leoson e um workshop de Joaquim Alves A Academia de Música de Alcobaça (AMA) tem abertas as inscrições para o II Curso de Percussão, a realizar-se entre os dias 20 e 23 de Dezembro, uma iniciativa que conta com a direcção artística do músico alcobacense Manuel Campos e tem entre os seus formadores o percussionista Markus Leoson e Joaquim Alves. A introdução a uma série de ritmos inovadores (hip-hop, kuduro, funk, samba reggae, entre outros) através do lixo e da reciclagem, segundo um workshop de Joaquim Alves, além da presença do conceituado percussionista sueco Markus Leonson, são os grandes destaques desta iniciativa. Este curso tem como objectivos promover, dinamizar e incentivar a troca de conhecimentos e experiências artísticas entre percussionistas destinando-se a alunos de qualquer escola de música, profissionais e simpatizantes do mundo da percussão, que queiram alargar o seu leque de conhecimentos através da partilha de experiências e novas formas de abordagem musical.

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Actualidade

II Concurso Internacional de Música de Câmara “Cidade de Alcobaça” decorrerá de 10 a 15 de Abril de 2011 e tem as inscrições abertas Já foram dadas a conhecer as linhas gerais do evento dedicado à divulgação da Música de Câmara em Portugal que foram apresentadas na manhã de 22 de Novembro em Conferência de Imprensa no CineTeatro de Alcobaça 10 a 15 de Abril de 2011: são estas as datas do II Concurso Internacional de Música de Câmara “Cidade de Alcobaça” (CIMCA) que foram anunciadas através duma conferência de imprensa realizada na manhã do dia 22 de Novembro no Pequeno Auditório do Cine-Teatro de Alcobaça – João d’Oliva Monteiro, local que voltará a receber a próxima edição do evento. No encontro com os jornalistas, que contou com a presença de Paulo Inácio, Presidente da Câmara Municipal de Alcobaça (CMA), António Rosa, director artístico do concurso, e Rui Morais, director da Academia de Música de Alcobaça (AMA), foi ainda anunciado a abertura oficial das inscrições para a competição que tem como um dos seus principais objectivos a divulgação da Música de Câmara.

Outra das novidades prendeu-se com a revelação dos nomes que irão compor o júri do concurso: António Rosa (Director Artístico) e Pedro Burmester repetem a presença, aos quais se juntam Alexandre Delgado, Hugo Assunção, António Oliveira, Luiz Fernando Pérez Herrero (Escuela Superior Reina Sofia, Madrid) e Gunter Pfitzenmaier (Staatliche Hochschule für Musik – Karlsruhe), figuras que expressam mais uma vez a qualidade e distinção colocada na escolha dos jurados. A credibilidade do Concurso assenta num conjunto de virtudes que começam pela tradição histórica que a Música tem no Concelho de Alcobaça, mas, essencialmente, pela qualidade e distinção do júri que terá a árdua missão de avaliar as prestações de todos os grupos.


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Revista on-line NewWebPick destaca design e criatividade do site do Cistermúsica 2010 Site oficial da última edição do Cistermúsica foi considerado um dos melhores do mundo por uma das maiores revistas on-line na área do design e da indústria criativa que chega a mais de 4 milhões de leitores O site da edição 2010 do Cistermúsica - Festival de Música de Alcobaça foi destacado como um dos melhores do mundo dentro do seu género (Flash) pela revista on-line NewWebPick (www.newwebpick.com), uma das mais conceituadas plataformas da comunidade global na área do design e da indústria criativa. Desenvolvido pelo gabinete Velcro Design, colectivo multidisciplinar alcobacense que opera nas áreas do design gráfico, webdesign, produção áudio e vídeo, e desenho 3D, o site pode ser visitado através do seguinte endereço: www.cistermusica.com. Reconhecida como uma das comunidades mais profissionais no universo a indústria criativa, a NewWebPick, busca, mostra e promove aqueles que considera serem os melhores e mais criativos designers do mundo, funcionando ainda uma como plataforma para

profissionais criativos dispostos a mostrar as suas ideias originais e criações, sempre com o intuito de partilhar a inspiração e originalidade que os move, e ao mesmo tempo recolher todo o tipo de comentários construtivos a partir dos vários profissionais espalhados pelo globo. A revista é hoje a mais distribuída em todo o mundo no seio da indústria criativa. Cada edição chega a mais de 4 milhões de leitores de cerca 160 países, particularmente na América do Norte, Europa, América do Sul, China, Sudeste Asiático, Japão, Coreia do Sul, Médio-Oriente e África. 95% dos seus leitores são habitantes urbanos: Nova Iorque, Londres, Madrid, Milão, Paris, Tóquio, Seul, Pequim, Xangai, Hong Kong, Banguecoque e Singapura, entre outras cidades.


Evento

A todos os músicos, artistas e intervenientes, parceiros e colaboradores, instituições e entidades envolvidas, sem esquecer a adesão fantástica do público e a presença de cada um dos espectadores que passaram por mais uma edição do Festival de Música de Alcobaça – fortalecendo e afirmando o evento mais uma vez como uma iniciativa imprescindível na região e cada vez mais de acordo com os desafios do futuro que nos aguardam enquanto comunidade – deixamos os nossos sentidos agradecimentos,

Cistermú restando-nos renovar a promessa de nos próximos anos manter, e quem sabe elevar, o nível de ambição e a fasquia de qualidade que, perdoem-nos a imodéstia, julgamos ter conseguido atingir nos dias de hoje.


úsica


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Cistermúsica ultrapassou os 4500 espectadores Festival de Música de Alcobaça bate todos os recordes de público O Cistermúsica não é apenas um dos mais relevantes acontecimentos artísticos onde o crescimento e a afirmação têm sido uma constante, constituindo hoje, ao fim de 18 edições, uma verdadeira instituição cultural em toda a região. É um espaço de concertos e espectáculos, tanto como um lugar de descoberta de novos e velhos talentos (regionais, nacionais e internacionais) no universo da música universal, conjugando na perfeição, e como poucas iniciativas do seu género, as qualidades criativas, culturais, arquitectónicas e turísticas de uma região inteira e de tudo aquilo que esta tem para oferecer. Se no Cistermúsica cabe todo um passado de grandes realizações musicais e artísticas, a verdade é que aí cabe ainda muito do nosso futuro. A última edição provou-o com um dos programas mais ambiciosos, internacionais e ecléticos de sempre, prolongando-se de forma inédita durante dois meses, descentralizando cada vez mais os espectáculos em diversos pontos do concelho, revelando jovens talentos, tudo isto sem nunca esquecer a regular aposta na formação musical e na educação de públicos. Só assim foi possível ao XVIII Festival de Música de Alcobaça – Cistermúsica ultrapassar a barreira dos 4500 espectadores, integrando-se nestes números não apenas a programação principal de concertos, mas todas as outras secções (Júnior, Off, Formação, Cinema), prova da sua abrangência e complementaridade.

“Um festival fantástico! Espero que venha a dar sempre um grande espaço à música portuguesa na programação.” Concerto Campestre

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Foto-reportagem CistermĂşsica 2010


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“O Cistermúsica tem uma programação muito eclética mas ao mesmo tempo coerente. É sem dúvida um dos melhores festivais de música em Portugal.” Lusio Voce

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Foto-reportagem CistermĂşsica 2010


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“Um festival bom e cheio de sucesso. Trata os artistas muito bem, como se estivessem em casa.” Jue Wang

“Uma programação muito interessante. Muito bem organizado, tendo todos os detalhes sido pensados ao mais ínfimo pormenor.” Quarteto Arabesco


Foto-reportagem Cistermúsica 2010

“Um festival excelente que tem uma boa organização.” London Brass Tentet


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Alexandre

O GRANDE Alexandre Delgado Entrevista


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Alexandre Delgado faz-nos um balanço da última edição do Cistermúsica, dos caminhos que este pode tomar no futuro e do lugar que ocupa na sua vida Além de ser considerado um dos melhores compositores e instrumentistas portugueses da sua geração, Alexandre Delgado é director artístico do Cistermúsica desde 2002, momento que redefiniu o festival como uma das grandes apostas musicais da região e o tornou num dos eventos culturais mais importantes do seu género no país. Ao fim de 8 anos, o Festival de Música de Alcobaça não só cresceu em termos de número de espectadores e concertos, como é já um dos acontecimentos mais aguardados todos os anos graças à qualidade da sua programação e à harmonia criada em torno da oferta de artistas de renome, tanto nacionais como internacionais, sejam estes jovens ou consagrados. Conhecido pelas suas apresentações entusiastas no início de cada concerto, Alexandre Delgado quer mais: quer um festival genuinamente popular, tornado festa do município, um festival para os “de dentro” – e combater a ideia feita de que este é um festival para “quem vem de fora”. Com mais de 4500 espectadores, em todas as vertentes do festival, e a edição mais longa de sempre, a qual durou cerca de dois meses, a 18.ª edição do Cistermúsica atingiu os objectivos a que se tinha proposto inicialmente? Acho que até ultrapassou: chegámos a ter receio de prolongar tanto no tempo e de aumentar tanto o número de espetáculos, mas está visto que quanto maior, melhor. Apontada como a edição mais ambiciosa da história do festival, quais foram as grandes diferenças deste ano em relação aos outros? A diversificação da oferta foi talvez a maior novidade. Com concertos tão diferentes uns dos outros, mais ainda do que era hábito, atraímos públicos novos e diferentes. Já não é só o grupo dos fiéis do Cistermúsica, que vai a tudo: conforme os tipos de programas, viram-se caras diferentes e isso é bom. Outro aspeto reforçado foi o número de concertos nas freguesias. No Mosteiro, que continua a ser sempre uma “casa mãe”, houve a novidade dos concertos ao ar livre, no Claustro de D. Dinis, que contribui bastante para a dimensão turística do festival. Nos últimos anos o Cistermúsica foi sempre crescendo, tanto no número de presenças nacionais e internacionais, como no capítulo das audiências, elevando a fasquia cada vez mais alto, mas a questão pode colocar-se: ainda há espaço para o festival crescer mais? Crescer em número de concertos talvez já não seja aconselhável. Mas crescer em qualidade é sempre possível e é isso que tentamos fazer.

O festival vai entrar nos próximos dois anos numa fase em que, por um lado caminha em 2011 para celebrar o Ano da Trasladação do Corpo de Inês de Castro para o Mosteiro de Alcobaça, e por outro celebra em 2012 duas décadas de existência. Que tipo de comemorações podemos esperar em ambos os contextos? Em 2011 o tema inesiano volta de facto ao festival: vamos ter uma das muitas óperas inspiradas nele, uma obra orquestral encomendada pelo Cistermúsica e música do tempo de Pedro e Inês. Em 2012 tentaremos fazer um ano de súmula: uma montra daquilo que o Cistermúsica tem representado para Alcobaça e para o país. Dos vários concertos que o Cistermúsica apresentou este ano, qual destacaria como um dos mais especiais? Muitos foram especiais, por diferentes razões. Destaco alguns picos de emoção: logo a abrir, o [Béla] Bartók e o [Bedrich] Smetana tocado pelo Quarteto Casals; o arrepio ao ouvir os Lusio Voce cantar canções portuguesas com uma pureza indescritível; a qualidade prodigiosa da flautista Adriana Ferreira; o magnetismo da soprano islandesa que cantou [Federico García] Lorca com o Sonor Ensemble. Quais os nomes e artistas que ainda gostaria de ver marcar presença nas próximas edições do Cistermúsica? São muitos, mas para já refiro dois: o acordeonista finlandês Mika Väyrynen, nunca pensei que o acordeão pudesse ser um instrumento tão extraordinário, e o jovem contratenor Philip Jarowski, um assombro.


Entrevista Alexandre Delgado

“Com concertos tão diferentes uns dos outros, […] atraímos públicos novos e diferentes. Já não é só o grupo dos fiéis do Cistermúsica, […] viram-se caras diferentes e isso é bom.” E há algum local na região que gostasse de ver integrado como sala de concerto do festival? Descobri uma igreja que me deslumbrou, em Porto Linhares: a igreja de Nossa Senhora da Luz, que fica no cimo dum morro, no meio do nada, lindíssima. Tem um altar de pedra que não sei se será amovível, mas se for, é um sítio mágico para concertos. Ao nível dos apoios e das parcerias, quais são ainda as grandes necessidades e exigências do Cistermúsica para conseguir garantir uma programação ambiciosa e de qualidade? Nem peço muito: gostaria apenas que o festival fosse encarado como uma grande festa do município, sem contra-programações; como um evento não elitista e sim genuinamente popular. Além dos concertos principais, as várias secções do festival têm crescido e afirmado-se como valores importantes no capítulo da formação e da sensibilização de públicos infantis e juvenis, além de outros. Essa aposta é para continuar? O Cistermúsica Júnior já se tornou um evento por si só e é imparável. Cativar crianças e jovens, ajudar a descobrir vocações, é uma das missões mais nobres do festival. O Cistermúsica Off também resulta bem na aproximação ao público de rua e a círculos alternativos. A relação do Cistermúsica com o público do concelho de Alcobaça está mais viva do que nunca ou ainda precisa de ser afinada? Gostaríamos de atrair aquelas pessoas que nunca foram a nenhum concerto do festival, pois não sabem o que perdem. A ideia de que o Cistermúsica é um evento mais “para quem vem de fora” não podia ser mais errada.


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“A ideia de que o Cistermúsica é um evento mais ‘para quem vem de fora’ não podia ser mais errada.” Por outro lado, vemos que o festival provavelmente nunca esteve tão bem enquadrado no contexto turístico, cultural e histórico em que se move, isto sem esquecer o quadro arquitectónico e patrimonial, e até atraindo vastos públicos estrangeiros e turistas. Sente que há contrastes entre o público local e os restantes? Melómanos não faltam no concelho e algo une todos os melómanos, sejam eles donde forem. Os artistas que vêm ao festival ficam sempre encantados com o público. A nível nacional que lugar ocupa o Cistermúsica no âmbito dos vários festivais de música clássica que existem? Creio que definiu o seu lugar próprio, que é uma mistura de ecletismo, de valorização simultânea do património musical português e internacional, de artistas portugueses e estrangeiros, jovens ou consagrados. A nível pessoal e como director artístico do festival, quais têm sido as grandes virtudes de dirigir um evento deste tipo? O melhor de tudo é sentir que damos felicidade às pessoas; esse eco de gratidão é a maior recompensa, é seguramente o que me tem dado mais ânimo para continuar, porque a música eleva o ser humano. É sabido que o Alexandre Delgado acumula um série de outras actividades artísticas, como a composição, com a programação musical, como é que consegue conjugar tudo isto? Confesso que não é fácil e ultimamente tenho estado no limiar do esgotamento. Mas adoro fazer tudo o que faço e isso ajuda.

“Gostaria que o festival fosse encarado como uma grande festa do município, sem contra-programações; como um evento não elitista e sim genuinamente popular.”


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A Arca do

Tesouro

Inspirado num texto de Alice Veira, com música original de Eurico Carrapatoso, narração de Luís Miguel Cintra, ilustrações de João Fazenda, esta obra encomendada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa foi o ponto alto do concerto de encerramento do Cistermúsica 2010. Uma obra para crianças, mas que ensina os adultos a olhar para a vida como um lugar de prazer, descoberta e inocência. É uma daquelas circunstâncias em que um vasto grupo de talentos tem a oportunidade feliz de se encontrar (e onde o resultado não só corresponde, como ainda ultrapassa as expectativas): Alice Vieira (escritora), Eurico Carrapatoso (compositor), Luís Miguel Cintra (actor e encenador), João Fazenda (ilustrador), Cesário Costa (maestro) e, claro, a Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML), juntaramse na temporada em que a OML comemorava os 18 anos – intitulada “Idade Maior” – para criar uma obra inédita. A ideia começou por reunir Alice Vieira e Eurico Carrapatoso (que até esse momento nunca se haviam conhecido) num desafio que era o de simplesmente deixar a imaginação fluir, à volta da ponte entre as palavras e os sons. E o resultado foi este: A Arca do Tesouro - Um Pequeno Conto Musical de Eurico Carrapatoso, inspirado nas palavras de Alice Veira, com narração de Luís Miguel Cintra e ilustrações de João Fazenda. A obra acabaria por ser apresentada pela primeira vez pela Orquestra Metropolitana de Lisboa com direcção musical de Cesário Costa e narração de Alice Vieira em Julho de 2010 – mas a “verdadeira” estreia decorreu no concerto de encerramento da mais recente edição do Cistermúsica no Cine-Teatro de Alcobaça com a presença neste espaço da “tríade” Vieira, Carrapatoso e Cintra (o que não acontecera na capital portuguesa). O livro, resultante de uma parceria com a Editorial Caminho Grupo Leya, e que inclui CD, pode ser considerado o registo de um momento especial da cultura portuguesa (poucas vezes vemos tantos artistas nacionais reunidos numa só obra deste tipo) onde se relata a história de Maria, uma menina com uma relação particular com os adultos e que um dia recebe de presente da avó uma “arca do tesouro”. Talvez nunca o título de uma obra tenha sido tão especialmente adequada como neste caso.


Fotoreportagem

O Claustro

do Silênc Conheça toda a história e viaje connosco através do espaço recentemente remodelado do Claustro D. Dinis no Mosteiro de Alcobaça (que pela primeira vez recebeu os seus visitantes no decorrer do Cistermúsica 2010). No Claustro do Silêncio, título pelo qual ficou também conhecido ao longo dos anos, as imagens valem mais do que mil palavras e o silêncio deu lugar à música.


cio


Foi uma das grandes novidades na última edição do Cistermúsica: a reabertura do Claustro D. Dinis no Mosteiro de Alcobaça – facto que devolveu aquele espaço ao público precisamente durante dois dos concertos mais mágicos do festival. Foi o que aconteceu na noite de 9 de Julho com os London Brass Tentet e no penúltimo concerto de encerramento do festival com um dos maiores fenómeno do piano: o jovem chinês Jue Wang (cujas fotos das montagens na tarde do dia 30 de Julho nos permitem aqui ter um olhar privilegiado sobre um dos locais mais carismáticos e atractivos do Mosteiro de Alcobaça). Após um conjunto de obras de recuperação que decorreram quase durante um ano, a intervenção visou melhorar as condições de visita, através de uma mediação “minimalista” e pouco intervencionista que não impusesse nada em relação às estruturas arquitectónicas existentes no Mosteiro de Alcobaça e permitindo, inclusivamente, uma beneficiada leitura do espaço do jardim e das fachadas do Claustro.


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Segundo registos históricos, o primeiro claustro e a igreja foram possivelmente completados em 1240, sendo no entanto provável que o claustro se tenha desmoronado poucos anos depois na sequência de um abalo de terra. Entre 1308 e 1311, este foi substituído pelo ainda hoje existente Claustro D. Dinis ou Claustro do Silêncio (nome que se devia à proibição de conversação naquele tempo nesse local) segundo ordem do rei D. Dinis. Também por ordem do rei D. Manuel I (1469-1521), no início do século XVI, foi adicionado um segundo andar ao claustro, cujo acesso ao piso superior do claustro se efectua por um púlpito, uma escada em caracol na parede, que interliga igualmente a cozinha ao dormitório.

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Tudo bons

amigos London Brass Tentet Entrevista


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Já tocaram para a Rainha de Inglaterra e para o antigo Primeiro-Ministro, Tony Blair, mas também actuaram debaixo de uma árvore despida numa montanha inóspita do norte de Itália. Notas à margem numa breve entrevista cheia de sorrisos com Andy Crowley e Oren Marshall dos London Brass, um Decateto de Metais Graves, que à passagem pelo Cistermúsica deixaram vestígios de uma noite mágica. Pela primeira vez em Portugal e pela primeira vez no Claustro D. Dinis no Mosteiro de Alcobaça, os London Brass Tentet actuaram na última edição do Cistermúsica naquela que seria uma das suas noites mais recordadas. Sob as estrelas e à luz de velas, este espaço revelou ser o cenário ideal para um dos concertos mais ecléticos e mais íntimos do Festival de Música de Alcobaça, ficando na memória como um momento especial onde a música e a arquitectura, músicos e audiência, se encontraram em perfeita harmonia. Mas antes disso, e a poucas horas da entrada em cena, tivemos ainda tempo para uma conversa animada com Andrew Crowley (trompete) e Oren Marshall (tuba) a respeito dos cerca de 25 anos de carreira da banda (à beira de serem completados no próximo ano), do tempo que foi preciso para o grupo se encontrar como uma família, do passado e do futuro, mais algumas histórias caricatas pelo meio. Uma coisa eles garantem: o som da banda hoje não passa só pela música, mas também pelos risos.A entrevista confirmou-o. Estão perto de celebrar 25 anos de carreira... Andy Crowley: Sim, é verdade! …o que sentem em relação a isso? AC: Velhos! [risos]

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ele para algo mais aberto, se lhe quisermos chamar assim, foi muito difícil. E levou muitos anos a conseguir uma boa combinação e uma boa química entre as diferentes personalidades que nos permitisse trabalhar. E posso dizer, no tempo em que estou no grupo, que foi nestes últimos três ou quatro anos que as coisas começaram a funcionar de uma forma muito positiva. Ainda ontem eu reparava, e digo isto porque é difícil ser objectivo quando se está dentro do grupo, tendo em conta a pergunta que parte precisamente do lado exterior e que acaba por me soar um pouco estranha, mas ontem eu reparava que o som do grupo agora são risos. Nós passamos espontaneamente tempo juntos como um verdadeiro grupo e este não se divide em pequenos grupinhos. Passamos muito tempo juntos e a maior parte desse tempo é passado a rirmo-nos. AC: É verdade! [risos] Todos são bons amigos, então? AC: Sim, somos todos bons amigos! Como é que a banda vai celebrar a data? Têm algo programado? AC: Não, vamos apenas continuar a tocar, não temos nada previsto; tipo uma grande festa ou outra coisa qualquer. E nunca pensaram talvez na gravação especial de um disco ou num concerto? AC: O que aconteceu foi que a Warner, a nossa antiga editora, re-editou todos os nossos discos e isso veio numa boa altura. Mas também é possível que haja um concerto no dia do nosso 25.º aniversário, talvez em Londres e talvez com uma editora envolvida que queira celebrar dessa forma. Mas a verdade é que nós não estamos preocupados em contar anos, apenas em tocar, não pensamos em marcas, fazemos apenas o que gostamos de fazer.

Mas conseguem fazer uma retrospectiva dos 25 anos de carreira da banda? AC: Tem sido uma verdadeira viagem, tivemos três agentes na banda, sempre músicos, e nunca nada foi gerido por um agente externo, logo toda a gente tem estado bastante envolvida e toda a gente no grupo são amigos que se conhecem há anos. Por isso, somos como uma velha família que acabou por crescer...

“Não estamos preocupados em contar anos, apenas em tocar, não pensamos em marcas, fazemos apenas o que gostamos de fazer”

Mais como uma democracia ou como uma monarquia? AC: [risos] Às vezes... Oren Marshall (interrompe): Quando eu integrei o grupo, em 1987, o mesmo ano do Andy, estava-se a sair dos dias de Philip Jones (o fundador da banda) e o Philip Jones tinha-se afirmado muito então; estávamos definitivamente numa monarquia nesses tempos. Ele era um homem muito carismático, muito ambicioso e muito político. Por isso, ir de um ponto em que o grupo era liderado por alguém como

De certa forma, e sob uma perspectiva de grupo, o Oren já respondeu um pouco a esta pergunta anteriormente, mas qual é a diferença entre os dias de início da banda e os dias de hoje? AC: Há muitas diferenças, na verdade. Tocamos muito mais jazz agora, também porque temos dois músicos de jazz no grupo. Somos dez pessoas, temos quatro trompetes, uma trompa, uma tuba e quatro trombones e quando os London Brass começaram eram todos músicos clássicos, mas agora temos um trombone jazz e um

Mas vocês não são velhos! AC: Não, não somos velhos! Nós entrámos muito jovens. Aos 10 anos, não foi? (olha para Oren Marshall e riem-se ambos)


Entrevista London Brass Tentet

trompete jazz, e o Oren é um músico multifacetado, sabe tocar jazz e música clássica, está habituado a improvisar. Logo toda a música mudou por causa disso. E eu diria que a grande diferença está no espectáculo que pomos em cena, temos um concerto que cobre todos os géneros de música e eu acho que isso para nós, músicos, é muito mais interessante. É essa grande diferença.

não havia nada, apenas um trilho onde tivemos de transportar os nossos instrumentos durante uma caminhada de dez minutos ao sol; e estava mesmo muito calor. Chegámos então perto de uma árvore, uma árvore enorme, e perguntámos: “Onde vamos tocar?” Responderam-nos: “Ali, debaixo da árvore!” Por isso, demos um concerto debaixo de uma árvore.

Como é que escolhem o vosso reportório? Porque razão optam por este compositor ou aquela peça? OM: É uma combinação que parte do facto de termos repertório original escrito para o grupo, já que ao longo dos anos tivemos muitas encomendas e arranjos, e como também os arranjos são geralmente feitos por pessoas que tocam no grupo pode acontecer que um deles apareça com arranjos, que nós tocamos. E como esse arranjo é a escolha dessa determinada pessoa, ao fim de 25 anos reunimos imenso repertório. Por isso, no que toca a definir programas de forma conjunta, passa tudo pela comunicação que temos como os promotores e os espaços, por aquilo que estes andam à procura, pelo repertório que temos disponível ou o que gostamos mais de tocar, tal como há repertórios aos quais já dissemos “adeus” e não tocamos mais, ou coisas diferentes que estejam a sair. É uma combinação de coisas. AC: Nós também gostamos de tocar música que apreciamos. Não tocamos só para os “hooligans” como tocamos um pouco para nós, da mesma maneira que existe música que é óptima para ser tocada por instrumentos de metais, como por exemplo na área da música clássica. Gostamos de começar os concertos com música mais antiga, primeiro, e aí podemos ter o Barroco ou o Renascentista, e há alguns compositores que são melhor transcritos para os metais: Bach é um deles. O compositor é importante, Bach e Purcell dão normalmente boas transcrições para os metais e também há muito repertório Romântico que já gravamos, muita música para dança, como o Flamenco, assim como música moderna e contemporânea, mas no que respeita a programar concertos tentamos fazer uma representação de cada estilo para que quem venha a um concerto dos London Brass possa dispôr de uma ampla paleta musical, o que eu penso torna tudo mais interessante para o público. E para nós.

E havia muito público? AC: Não! Apenas havia pessoas a passear a pé, e pareciam muito confusas. [risos]

Fizeram muitas gravações de discos e deram muitos concertos: há algum momento especial que recordem particularmente no percurso dos London Brass Tentet? OM: Há alguns, sim. AC: Já tocamos em alguns espaços verdadeiramente estranhos, como se sabe, tocámos em diversas grandes salas à volta do mundo, no Japão e na América, em Hamburgo também demos óptimos concertos, com boas audiências, essencialmente lembramo-nos das audiências, mas estivemos ainda em sítios invulgares: lembrome de termos ido à Noruega e tocar num forno onde... OM: ...era uma fábrica de vidro. AC: Estávamos a tocar e havia várias fornalhas a arder. Estava muito quente e era um sítio muito estranho. E noutra altura, fizemos uma tourné por Itália, onde fomos às Dolomites e demos um concerto que decorreu nas montanhas. Quando aparecemos para o ensaio, estávamos à espera de um palco e de um local onde tocar, com sombras, já que estava imenso calor, mas quando chegámos

E o calor mantinha-se? AC: Estava muito calor! E sem qualquer sombra: a árvore não tinha muitas folhas.

“A três metros do sítio onde eu estava a tocar tinha a Rainha sentada num trono enorme a olhar directamente para nós e mesmo atrás dela estava o Primeiro-Ministro da altura, Tony Blair” Mas recentemente tocaram para a Rainha de Inglaterra: não foi uma experiência especial? AC: Sim! Foi nas Celebrações da Passagem do Milénio e no Jubileu de Ouro da Rainha de Inglaterra, na Catedral de São Paulo, transmitido ao vivo para todo o mundo, por isso sim, foi muito especial, e muito enervante também. [risos] Porquê? AC: Porque a três metros do sítio onde eu estava a tocar tinha a Rainha sentada num trono enorme a olhar directamente para nós e mesmo atrás dela estava o Primeiro-Ministro da altura, Tony Blair, e uma enorme audiência de VIP’s, além de câmaras de televisão a toda à nossa volta, por isso a pressão estava bem em cima. O Andy já trabalhou em bandas sonoras de mais de 400 filmes: como é que consegue conciliar esse trabalho com os London Brass Tentet? AC: São duas formas diferentes de fazer música. Os London Brass são algo de incrivelmente criativo e muito divertido. Trabalhar em filmes é participar num processo onde a música é a última coisa a


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entrar, por isso quando o filme é feito e o compositor tem cerca de quatro semanas para escrever a música, acabamos por ser contratados muito tardiamente, talvez uma semana antes, e entramos em estúdio. Por exemplo, não só eu, como também alguns dos meus companheiros no grupo, interpretámos a música dos três últimos James Bond, o que soa a algo de muito glamouroso, mas a realidade é que entra-se e fazemos apenas duas gravações, dois “takes”, temos os auscultadores e as imagens do filme num ecrã enorme, tocamos a banda sonora e é como construir um puzzle onde a música tem de encaixar no filme. Éuma disciplina diferente: temos de ser muito precisos enquanto intérpretes, não há espaço para erros porque o compositor está a pagar muito dinheiro para ter as coisas feitas e tem muito pouco tempo. Mas acabam por ter a oportunidade de ver os filmes em primeira mão. AC: Oh,sim, conseguimos ver os filmes! Mas é muito diferente dos London Brass. O Oren é bastante conhecido pelas suas capacidades de improviso: pode isso ser por vezes um problema no seio da banda ou pelo contrário uma vantagem? OM: Para mim, o improviso definiu tudo aquilo que eu fiz enquanto músico porque mantém-nos acordados e quando estou a falar de estar acordado não me refiro à hipótese de adormecermos em palco no momento de improvisar, mas porque nos mantém alertas e com os sentidos aguçados. Vou dar um exemplo, lembro-me de uma vez um dos trombonistas me ter dito: “Quando eu entrei no grupo e tu tocavas de forma diferente todas as noites, achava isso muito irritante, já que eu não conseguia responder a isso. Mas agora, adoro precisamente por ser diferente todas as noites.” É claro que eu disselhe que estava a tentar tocar a mesma coisa todas as noites, e é por essa razão que a capacidade de improviso acaba por ser muito útil na altura de lidar com diferentes situações. Dão-te uma capacidade de sobrevivência muito forte e que nunca interfere. Quando estava nos meus primeiros dias a tentar aprender a tocar jazz era confuso, porque era como aprender linguagens diferentes que acabamos por misturar; não as conseguia separar. E só ao fim de algum tempo, à medida que praticas e comunicas mais, é que se torna mais fácil ir de uma linguagem para outra, até conseguires ser apenas tu próprio, onde já não interessa o tipo de linguagem que usas. O que podemos esperar no futuro do London Brass Tentet? AC: Essa é uma pergunta difícil. Mais daquilo que já fazemos, não tentamos pensar no que vamos fazer, é diferente, adoramos apenas tocar juntos, aparecemos sempre com nova música e há muita música, eventualmente um novo álbum, talvez durante o próximo ano. Apenas espero que possam saber mais de nós, especialmente em Portugal, isso seria o melhor para nós. OM: Eu penso que o grupo está a ficar cada vez mais forte, o que é compreensível, porque isso leva tempo, seja em que grupo for. Não é uma questão de ter os melhores músicos juntos... AC: Uma equipa de futebol! [risos] OM: ...ou um “dream team” e ficar à espera que joguem magnificamente, não, leva tempo e a qualidade tem vindo a ser aperfeiçoada

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Andrew Crowley

O homem das bandas sonoras Andrew Crowley não é apenas um dos mais carismáticos elementos dos London Brass Tentet, comentando e entretendo o público com as suas divertidas introduções (foi assim que o vimos no Cistermúsica em palco: dando a cara pelo grupo todo), sendo ainda um dos trompetistas mais solicitados para bandas sonoras na indústria cinematográfica. Além dos três últimos episódios da saga James Bond (renovada com êxito através da presença do actor Daniel Craig), Andy participou igualmente em produções como “A Máscara de Zorro” ou “A Lenda de Bagger Vance”. Considerado por muitos compositores cinematográficos como um dos valores mais vibrantes e versáteis nesta área, o trompetista é conhecido também por partilhar o palco de artistas célebres como Peter Gabriel, Tina Turner, Paul McCartney, Robbie Williams, Sting ou Tom Jones.

Oren Marshall

Um mestre do improviso A história que marca a entrada de Oren Marshall nos London Brass tinha tudo para resultar em pura tragédia, no entanto, acabou por ser o início de uma história feliz com mais de duas décadas de memórias: em Março de 1987 o tubista substituía um dos seus mentores musicais na banda, John Fletcher, num concerto na Alemanha (um dos países que mais aclama a formação e onde ainda hoje são mais solicitados) onde deu por si a tocar um repertório que nunca havia visto na vida e ao qual faltavam diversas pautas. Solução? Improvisar. Foi desde aí que Oren Marshall ficou conhecido como um dos mais virtuosos improvisadores no mundo dos metais. Actualmente, ocupa um lugar fundamental na banda, não só graças ao seu evidente talento para o improviso, mas igualmente pela sua contribuição no capítulo das novas composições.


Entrevista London Brass Tentet

ao longo desse tempo. No fundo, o que eu espero ver é um conceito mais forte na base dos álbuns e dos programas de concerto, que nos permita divertirmo-nos juntamente uns com os outros. Alguma vez tinham estado em Portugal? OM: O grupo não. Eu e o Andy estamos no grupo desde 1987 e viajámos pelo mundo inteiro, estivemos na América e na Ásia, no Norte da Europa, na Escandinávia, mas nunca tínhamos estado em Portugal como banda. E pessoalmente? OM: Sim, pessoalmente sim. Eu sou casado com uma portuguesa, por isso venho cá habitualmente e o meu filho nasceu cá. Eesta é a primeira vez em Alcobaça? OM: Não é a minha primeira vez em Alcobaça, já estive cá a tocar e também dei alguns work-shops e penso que o Andy também já tinha passado por Portugal... AC: Foram só duas vezes. No Porto e em Lisboa.

“[Alcobaça] é uma cidade muito bonita, com uma zona de campo muito agradável e este Mosteiro é incrível.” E qual é a vossa opinião? AC: É muito bonito. Mas está mais quente em Inglaterra neste momento. [a entrevista decorreu na tarde do dia 9 de Julho] Está mais quente em Inglaterra? AC: Sim! É estranho.[risos] Com certeza já deram uma vista de olhos por Alcobaça? O que vos pareceu da cidade? OM: É uma cidade muito bonita, com uma zona de campo muito agradável e este Mosteiro é incrível. AC: Há pouco estive a ver onde íamos tocar e é mesmo um espaço fantástico. Passearam por acaso pela cidade? AC: Sim, demos um passeio pela cidade e é encantadora, muito pacífica comparada com Londres e o local onde vamos tocar hoje é um espaço fabuloso. Acho que vamos ter velas e será um concerto muito agradável e íntimo.


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todos ...e MĂşsica para

Sofia Silva Entrevista


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É uma mulher dos sete ofícios: Sofia Silva pode ser Directora Pedagógica da Academia de Música de Alcobaça (AMA), mas isto não significa que deixe de ser tudo aquilo que a levou até aí. Pelo contrário, o facto de ser uma talentosa instrumentista de flauta e ainda ter uma vasta experiência como professora, actividades que acumula na AMA, também ajudam a explicar as razões que a levaram ao cargo. Da Sociedade Filarmónica Maceirense à Guildhall School of Music & Drama em Londres, passando ainda pela Escola Superior de Música de Lisboa, Sofia Silva fala-nos sobre o seu percurso, os desafios do novo ano que se inicia, do valor da formação musical, no fundo, da importância da música na vida de cada um. Excertos de uma entrevista onde ela achava que tudo poderia correr mal, mas onde tudo saiu na perfeição. Excepto, talvez, a afinação da harpa. Além de Directora Pedagógica da Academia de Música de Alcobaça, também tens um percurso musical, neste caso como instrumentista de flauta; podes contar-nos um pouco sobre esse caminho artístico? O meu percurso musical começou aos 9 anos na Sociedade Filarmónica Maceirense, à qual ainda hoje estou ligada, o meu pai já era músico e eu desde sempre me lembro de fazer birras para começar a ir com ele e a aprender música. Comecei aos 9 anos a ter aulas e desde sempre escolhi flauta transversal, não sei muito bem porquê, mas sempre quis tocar flauta. Assim foi, fui para a Filarmónica, andei por lá alguns anos até que a coisa começou a tornar-se um pouco mais séria e fui para o Orfeão de Leiria, isto em 1996. Fiz o Conservatório todo lá e entretanto começou a formar-se a ideia: “porque não seguir mesmo esta profissão?” Essa ideia tomou uma forma cada vez séria, e foi isso mesmo que aconteceu; fui para a Escola Superior de Música de Lisboa e entretanto, quando acabei o curso, decidi fazer um Mestrado em Performance Orquestral em Londres e foi basicamente isso, começando na Filarmónica Maceirense e terminando na Guildhall School of Music & Drama. E como é que surgiu a hipótese de assumir o cargo de Directora Pedagógica da AMA? Eu comecei a dar aulas de flauta transversal na AMA em 2002, precisamente quando fui para a Escola Superior de Música em Lisboa, e sinceramente nunca tinha pensado assumir um cargo desta responsabilidade. Conheço a casa há muitos anos, estou aqui desde que há paralelismo pedagógico, quando arrancou como Conservatório, conheço o Rui Morais há muitos anos e foi precisamente ele quem me fez o convite para assumir este cargo. Sendo ele uma pessoa que conhece esta casa e que se dá bem com todo o corpo docente, que na altura era bastante menor do que agora, acabei, no início com algum receio, por decidir aceitar, porque contava e continuo a contar obviamente com o apoio do Rui para tudo aquilo que ainda me é um

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pouco estranho. Sendo eu instrumentista, e porque ainda me vejo principalmente como instrumentista e não tanto como um cargo tão administrativo, acho que é importante também para gerir uma escola, e com a dimensão que tem a AMA hoje em dia, perceberem-se ambos os lados. Ter a parte artística a lidar com alunos, professores, perceber as necessidades desse lado, mas depois também o outro lado, um pouco mais administrativo, que eu de início desconhecia e onde vou descobrindo todos os dias coisas novas. Quais foram as grandes dificuldades que encontraste e as situações a que tiveste de te adaptar? Primeiro, adaptar-me a uma organização de escola diferente, porque um professor de instrumento continua a ter por vezes uma postura muito egocêntrica: “são os meus alunos, as minhas aulas”! E desse ponto de vista, o primeiro grande desafio foi ver a escola como um todo, tentar ver de fora, sem ficar fechado num pequeno grupo; esse foi o primeiro grande desafio. Depois, tentar chegar a todos, porque a AMA tem muitos bracinhos, muitos ramos, está muito espalhada, é precisa muita gestão de recursos humanos. Esse é o outro grande desafio. E quando me foi proposto este cargo, penso que essa foi uma das qualidades que notaram em mim; conseguir dar-me bem e gerir minimamente os recursos humanos, mas não é assim tão fácil quanto parece porque trabalhar neste cargo no seio de amigos e colegas de trabalho nem sempre é fácil.

“O meu pai já era músico e eu desde sempre me lembro de fazer birras para começar a ir com ele e a aprender música” E como é conjugar tantos professores, tantos alunos e tantos horários? Não sei bem muito bem como é possível, mas vai ser. [risos] São muitas horas de sono a menos, são muitas preocupações, não é fácil, mas realmente com um sorriso na cara todas as manhãs e energia renovada é bastante mais fácil. Há sempre pequenos fogos para apagar no dia-a-dia, o que faz com que este primeiro ano tenha sido um bocado o resolver do que vai aparecendo no dia-a-dia. Mas isso permite-me agora estruturar e já saber com o que conto; agora já sei minimamente organizar e planear melhor. Esse é o segredo óbvio, mas que não deixa de ser um segredo; planear com tempo, tendo conhecimento do contexto; “ok, já sei com o que é que posso contar nesta altura e naquela, os desafios e os problemas que vão existir, o que é que aquele pai vai dizer, o que é que aluno vai ter dificuldade em”, e ao fim de um ano, atirada assim quase para a piscina, já se sabe com o que conta.


Entrevista Sofia Silva

Por outro lado, também dás aulas. Sim, não abdico de dar aulas, é uma das coisas que me completa, para além de continuar a insistir e a lutar pela minha carreira enquanto instrumentista e flautista, essa é uma das coisas que acho que faz parte; e uma pessoa que está à frente de uma escola também não pode deixar de ter contacto diário e pedagógico com a realidade de dar aulas. Continuo a ter muito prazer em ensinar, se bem que agora vou ter de dar menos horas de aula, mas não quero abdicar dessa parte.

“Este ano tinha tudo para ser um ano de estabilidade [...]. No entanto, é um ano em que o Ministério da Educação nos põe imensos desafios e imensas dificuldades.” Quais são as grandes diferenças entre uma actividade e outra? E há alguma, das duas, que te agrade mais fazer? Bom, essa pergunta é “tricky”. Entre ser instrumentista e ser professora, e acho que há aqui ainda outra; que é ser directora; sendo a minha formação direccionada para instrumentista, aliás, o nosso corpo docente é composto por instrumentistas, grande parte deles, e os cursos de que dispomos em Portugal são para instrumentista ou solista, performer ou instrumentista de orquestra. Logo, mesmo as pessoas que dão aulas não se vêem como professores porque são poucos os cursos em Portugal, via ensino. Portanto, um professor de instrumentos vê-se como instrumentista. Depois ainda temos instrumentistas a assumir cargos de direcção pedagógica. Eu continuo a ver-me como instrumentista e flautista, se me perguntarem o que é que eu faço: sou flautista. Não posso dizer o que prefiro sem ser injusta com uma das partes, obviamente que aquilo que me completa é ser flautista. Neste momento assumi, e com bastante gosto, a direcção pedagógica da escola e as pessoas vêem-me principalmente como directora da AMA, e muitas até desconhecem que tenho este lado musical. Neste momento, se eu deixasse de estar no cargo em que estou já me faltaria qualquer coisa. Não quer dizer que seja um cargo para fazer durante mais 10, 15 ou 20 anos, mas pelo menos a médio-prazo quero continuar, porque quero continuar a fazê-lo bem e eu acho que um cargo destes não está completo num ano ou dois, portanto, é um projecto para médio-prazo. Mas também nunca me veria apenas como directora de uma instituição.

E quais são as expectativas à entrada de mais um ano de cursos de música? E que entrada e em que ano! Este ano tinha tudo para ser um ano de estabilidade, já que vamos para o terceiro ano de financiamento [pelo Ministério da Educação] e já com alguma experiência na implementação do ensino articulado; tinha tudo para ser um ano tranquilo e para estabilizar a escola, tanto ao nível do número de alunos, de corpo docente e de projectos que começam a crescer e têm de ser solidificados agora. No entanto, é um ano em que o Ministério da Educação (ME) nos põe imensos desafios e imensas dificuldades. Planos: vamos tentar aceitar todos os nossos alunos e não vamos frustrar expectativas de pais, escolas e crianças, e mesmo no seio de tantas dificuldades primar pelas boas práticas e pela qualidade do ensino, que eu acho que continuam a ser possíveis as boas práticas fazerem face às más leis, se me permitem. Vamos tentar com esse ânimo e com a arte do nosso corpo docente pôr em prática a qualidade do nosso ensino, dar dinamismo à escola, porque somos uma escola com um corpo docente bastante jovem, algo que pode, por um lado, ser arriscado, mas por outro lado, é um dos segredos. São pessoas jovens, dinâmicas e responsáveis.


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De facto, este é um início de ano marcado pela polémica dos cortes nos apoios aos novos alunos do ensino especializado de música. De que forma isso afecta o regular funcionamento da escola e a abertura do ano lectivo? Condiciona bastante a abertura do ano lectivo porque temos de reestruturar uma série de coisas que já estavam previamente delineadas. Nada fazia prever um desfecho destes, porque aquando da entrega das candidaturas, das turmas, do número de alunos, inscrições, etc., nada faria esperar uma coisa destas. Foi um ano onde todo o processo foi refinado: tínhamos de fazer provas de selecção, entrevistas aos encarregados de educação, nada fazendo esperar um volte-face deste género. Portanto, agora vamos ter de ter, em alguns casos, turmas um bocado maiores, vamos reestruturar as aulas de instrumento, que é uma das próprias sugestões que o ME avança para controlar os custos, porque neste curso, obviamente, o que sai mais caro é a aula de instrumento onde as aulas são individuais. Ora, o ME vem dizer num segundo ano da reforma, depois de em Junho do ano passado ter feito sair uma nova portaria que legislava o funcionamentos dos cursos de ensino especializado de música em regime articulado, onde as crianças tinham por exemplo 45 minutos de aula individual mais 45 minutos de aula em conjunto; e uma da sugestões que o ME vem fazer é precisamente reajustar esse 90 minutos para serem em conjunto. Isto não é fácil de assimilar e de pôr em prática, porque essa especificidade de uma aula de instrumento é muito necessária para continuar a haver esse contacto professor-aluno a nível individual. Mas continuo a dizer: com boas práticas e boas ideias, a criatividade dos nossos músicos e professores vamos conseguir dar a volta a estas más leis, no fundo, e continuar a ter qualidade de ensino. Qual é a importância de uma formação na área musical para um jovem ou uma criança? É importantíssimo uma criança desde cedo ter contacto com o ensino artístico. Aos 10 anos, nenhuma criança sabe o que vai ser, e também não podemos aos 10 anos fazer com que uma criança escolha todo um percurso, mas serão certamente crianças mais ricas, com um raciocínio mais desenvolvido, e está inclusivamente provado que o estímulo musical desenvolve também um raciocínio abstracto e estimula muito as crianças. Obviamente que estes 500 alunos que temos não vão ser músicos profissionais, mas para conseguirmos ter alguns alunos de qualidade a acabar os cursos, não podemos fazer essa selecção à entrada e daí acharmos bastante bem esta portaria que saiu no ano passado que vinha no fundo alargar a base; entra bastante mais gente e quem somos nós para dizer que este aluno não pode entrar. Depois haverá naturalmente uma triagem no percurso das crianças e chegará ao fim quem realmente quer e quem realmente consegue. Mas todos aqueles que estudaram música, um ano ou dois, são certamente crianças mais ricas, mais desenvolvidas e não vejo mal nenhum em termos esta variedade de crianças, porque vêem-se crianças bastante diferentes daquilo que as escolas de música estavam habituadas e as próprias escolas não estavam habituadas a lidar com esta diferença e com esta quantidade de crianças, mas consigo ver muitos benefícios aí.

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E o que gostarias dizer a todos aqueles que ainda estejam reticentes em relação às vantagens de uma formação na área musical? Quero deixar, não um aviso nem nada que se pareça, mas uma pequena reflexão. Lidando nós com muitas escolas e começando a ser aceites no corpo docente de cada uma dessas escolas, notamos muitas vezes uma resistência por parte de muitos professores do ensino regular, por exemplo, que nem sempre vêem com os melhores olhos este ensino especializado e artístico de modo a estar tão presente na vida das crianças e a condicionar de alguma forma o percurso delas. Como dizia há pouco, é muito benéfico para a vida de qualquer pessoa e desafiava também essas pessoas, e quem possa ainda ter dúvidas sobre a validade do ensino artístico, mesmo os mais crescidos, a terem contacto com esse tipo de ensino e com esta realidade diferente. O que não se prende só com ir às aulas de música dentro de uma sala com mais 10 ou 15 crianças ou com um professor a ensinar um instrumento. Essa formação prende-se também com ir aos concertos, ir às próprias audições que são muitas que a AMA promove, ouvir boa música e ter contacto com esta realidade que muitos ainda acham que é de elite, sendo esses que acham que é de elite quem normalmente oferece reservas à generalização do ensino especializado. Eu acho que tal como o sol quando nasce é para todos, a música também deveria chegar a todos de forma mais directa e aberta porque enriquece a vida de qualquer um.

“Todos aqueles que estudaram música, um ano ou dois, são certamente crianças mais ricas, mais desenvolvidas e não vejo mal nenhum em termos esta variedade de crianças”


Notícia Concerto de Professores AMA

Mosteiro de Alcobaça recebeu Concerto de Professores da AMA no Dia Mundial da Música Evento serviu para assinalar a Abertura Solene do Ano Lectivo 2010/2011 e celebrar o Dia Mundial da Música Foi uma noite onde os professores mostraram aquilo que têm para dar (e ensinar) e onde muitos espectadores fizeram questão de esgotar mais de uma centena de lugares disponíveis (foram mais de 160 espectadores naquele que se tornou num dos Concertos de Professores mais participados de sempre). Uma noite de festa e o início de mais um ciclo de vida da Academia de Música de Alcobaça (AMA), dos seus alunos, professores, encarregados de educação, funcionários e colaboradores, onde os docentes mostraram não só os seus dotes artísticos, mas também toda a sua capacidade enquanto docentes. Pelo palco da Sala do Capítulo no Mosteiro de Alcobaça, na noite de 1 de Outubro, passaram nomes como Sérgio Fernandes (guitarra), Nuno Mendes (saxofone), Vera Santos (clarinete), Susana Ezequiel (clarinete), Ana Carina Sousa (flauta transversal), Hugo Trindade (guitarra eléctrica), Inna Vaschilina (piano), Kátia Monova (violino), Oxana Khurdenko (voz), Mayya Rud (piano), Vira Stetsenko (violino) e Svitlana Portyana (piano), culminando este conjunto de actuações com um Coro formado pelos Professores da AMA ao som do emblemático tema “Dancing Queen” dos ABBA. Já no discurso final, Rui Morais, director da AMA, assegurou que “a Academia de Música de Alcobaça, sem falsas modéstias, é hoje uma das mais importantes escolas do país”, sublinhando ainda o facto da escola conter cerca de 4 mil alunos, praticamente desde que nascem até ao Ensino Sénior, e onde se administra música a todas as idades, desde os 3 anos até aos 60 ou 70 anos.” Abordando igualmente a

questão dos cortes nos apoios ao ensino artístico especializado de música levados a cabo pelo Ministério da Educação (ME) durante o Verão passado, Rui Morais assinalou que este “foi um corte de meio milhão de euros e que a AMA, entendendo que não se faz um cortes destes em férias escolares, decidiu suportar os custos, pelo menos este ano, desses 200 novos alunos.” “É um esforço quase sem paralelo a nível nacional porque muitas das outras escolas de música pura e simplesmente disseram às famílias que não havia condições para os seus filhos estudarem no regime articulado de forma gratuita, logo as crianças, contrariamente às suas expectativas, não puderam estudar música, ou então tiveram de pedir algum dinheiro às famílias”, acrescentou. Pelo contrário, o director da AMA descreveu esta medida como “um pouco radical, um pouco louca se quiserem, a qual se por um lado acaba por incorporar estes novos 200 alunos, por outro tenta lutar com todos os meios junto do Ministério da Educação para que esta injustiça não perdure além de um ano lectivo.” Com um corpo docente de 80 professores, na sua maioria com as habilitações necessárias à docência, a AMA provou mais uma vez neste dia ser um estabelecimento de ensino actualizado, dinâmico e com padrões pedagógicos e artísticos elevados, confirmando o Concerto de Professores como uma das suas actividades anuais mais importantes e exemplo do que de melhor esta instituição promove e tem a oferecer no domínio da formação musical.


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NotĂ­cia Concerto de Professores AMA


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paixão Para ela a dança é

Eliana Mota Entrevista


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No momento em que se inicia mais um ano lectivo e quando já se encontram abertas as inscrições para as Iniciações (1.º Ciclo de Ensino Básico) e os Cursos Livres (a partir dos 3 anos) de dança, Eliana Mota, Directora Pedagógica da Academia de Dança de Alcobaça (ADA), responde a várias perguntas sobre o seu percurso como aluna e professora, os desafios que descobriu na ADA, as expectativas para o ano que se avizinha, a importância da formação na área da dança, deixando ainda uma mensagem final para todos que possam olhar para a dança como uma forma de expressão e de vida. Sempre entre sorrisos. E sem nunca lhe faltarem as palavras. Conta-nos um pouco do teu percurso: como é que chegas à dança e o que foi que te atraiu nesta arte? Eu comecei a dançar aos 7 anos porque tinha uma dismetria, ou seja, uma perna maior do que a outra, portanto, inicialmente não era se calhar o que eu tinha pensado fazer; a partir do momento em que comecei e a partir da primeira aula foi sem dúvida aí que eu percebi que era a minha paixão. Desde sempre que danço, comecei com várias modalidades, ou seja, não só com o ballet, mas também desde sempre com o jazz americano, com o hip-hop, o sapateado; e a minha experiência é muito vasta no sentido de ser diversificada. Se calhar a área com que eu mais em identifico é o jazz, a dança jazz, que actualmente já se conhece mais. Tive até aos 18 anos numa escola que se chama actualmente Studio K, onde eu também lecciono, e sempre me identifiquei com o estilo que davam e paralelamente a isso fui fazendo workshops, várias formações, quer em Lisboa, quer no Porto, e em vários pontos a nível nacional. Antes de ingressar no Superior, e depois de eu já ter estado um ano noutro curso superior, fui à Pineapple Dance Studios em Londres e aí despertou completamente o meu interesse em ir só para esta área. Até então eu queria sempre dançar, mas também ter outra área, como a saúde ou a gestão e a comunicação. A partir do momento em que fui para Londres foi sem dúvida o despertar de tudo. Fui para o curso superior e fui também para a Holanda em Erasmus que me mostrou uma realidade completamente diferente da dança, quer em termos de apoios, quer a nível cultural, principalmente. As pessoas vêem a dança não como um movimentozinho ou algo simples, não reconhecido. Lá eles reconhecem a dança de tal forma que nos dá esperança para tentarmos aqui implementar algo mais a nível cultural. Entretanto, conheci o Luís Sousa no Studio K em Leiria, também professor aqui na Academia de Dança de Alcobaça, e foi ele que me falou que queriam implementar aqui a área vocacional de dança. E sendo eu licenciada, perguntou-me se não estaria interessada, até porque também tenho muito interesse nas áreas de gestão e comunicação. Eu vim a uma entrevista, adorei, é um projecto no qual também estou muito interessada em continuar e portanto acabei por ficar aqui.

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Porque razão tens essa ligação mais especial com a dança jazz? Porque me identifico. Eu geralmente digo que a dança é paixão e nós temos de nos apaixonar por tudo que nós fazemos. A sensação que eu tenho depois de sair de cada aula, por exemplo da dança jazz, é única, ou seja, eu sei que se identifica comigo como estilo de movimento e com aquilo que eu quero passar, eu acho que um bom professor também tem de gostar daquilo que está a fazer e portanto é aquilo com que eu mais me identifico. Se eu sair de uma aula de hip-hop, eu também adoro, porque a sensação que eu tenho depois dessa aula é fantástica. Acho que cada modalidade dá-me sensações diferentes, mas se me perguntarem com qual eu mais me identifico, é sem dúvida a dança jazz e a dança contemporânea. Falaste que Londres funcionou como uma espécie de despertar. Qual é a diferença entre a realidade da dança em Londres e Portugal? Em Londres há uma oferta muito grande em termos de espectáculos, existem imensos teatros com espectáculos a toda a hora, as pessoas têm sempre a oportunidade de ir ver. Eu fui ver o “Fame”, por exemplo, e falei inclusive com vários bailarinos e actores que me mostraram que as pessoas têm é de tentar sempre e nunca desistir da área artística porque o importante mesmo é gostar e amar o que se faz, e isso deu-me forças para pensar: “ok, se eu gosto tanto de dançar e se essa é a minha paixão, então eu devo prosseguir por esta área porque senão eu não vou conseguir ser feliz a trabalhar noutro ramo”. Portanto, foi o que me deu o impulso para a Escola Superior de Dança, querer mesmo seguir isto e depois a Holanda foi mesmo o culminar, o final do curso, e acho que sedimentou tudo aquilo que eu pensava durante aqueles três anos de curso. Foi sem dúvida importante todo este percurso.

“Cada modalidade dá-me sensações diferentes, mas se me perguntarem com qual eu mais me identifico, é sem dúvida a dança jazz e a dança contemporânea” Como é que te surgiu o desafio da Academia de Dança de Alcobaça? Inicialmente foi mas a nível de coordenação, como eu disse anteriormente, foi o Luís Sousa, que me disse que estavam à procura de uma pessoa licenciada em dança para fazer as funções de coordenação e professora. Eu fui a uma entrevista e o projecto agradou-me muito, porque finalmente eu poderia aplicar a minha licenciatura, e se dar aulas todos nós poderemos ter mais ou menos competência, depen-


Entrevista Eliana Mota

dendo da experiência, já a licenciatura dá-nos outras competências e eu finalmente poderia aplicar tudo aquilo que tinha aprendido. Portanto, o facto de ter vindo para cá e de me terem oferecido este tipo de emprego, foi sem dúvida uma mais valia para mim; e na altura nem sequer coloquei em questão porque era mesmo uma área onde eu gostava de trabalhar. As coisas foram evoluindo no bom sentido, claro que é sempre difícil porque é uma experiência pedagógica, portanto, nós temos sempre uma margem de erro muito menor, mas acho que é isso que nos faz evoluir e na área das artes, e neste caso em especial da dança, para evoluirmos temos de nos esforçar e esta foi a oportunidade para isso. O que é que te motiva mais em dar aulas de dança? O que eu quero neste momento é desmistificar aquela mensagem de que a dança é só um hobby ou que a dança é só mexermo-nos; quero mostrar que a dança é algo mais do que isso. A música acho que já conseguiu um pouco esse estatuto, a dança ainda não, pelo menos em Portugal. Acho também que o programa “Achas que sabes dançar?” veio ajudar nesse sentido, mas também pode ter passado por vezes a mensagem errada, e ao ensinar eu posso passar a mensagem certa e dizer que tem a ver com sentimento e a parte artística e não só com um simples movimento. Esse é o meu objectivo neste momento.

“A melhor frase que já me disseram até agora sobre isso [a formação] foi uma aluna minha que disse: ‘eu no estúdio posso ser eu, ser eu mesma.’” Que expectativas tens para mais um ano de cursos de dança, isto sabendo que estão abertas as inscrições para as iniciações e os cursos livres? Eu penso que em termos do regime oficial, ou seja, no articulado e nas iniciações, vai ser um ano muito mais calmo e mais de reestruturação do que propriamente de criar algo de novo. Vai ser mais calmo e vamos conseguir atingir um nível diferente. A nível dos cursos livres, é uma oportunidade de mostrarmos que a dança não é só o ballet, por exemplo, ou não é só o hip-hop que é o que se vê mais na televisão, mas sim as várias possibilidades que damos às pessoas. Nós temos ao fim ao cabo duas formas diferentes de dançar; uma mais ao nível oficial, ao género do Conservatório, com carga horária superior, onde o objectivo também tem de ser diferente da parte do aluno, e depois temos o outro lado da dança, onde damos todas as possibilidades para as pessoas dançarem. Nesse sentido, as expectativas são maiores do que o ano passado, uma vez que já temos algum público que vem do ano anterior.

Qual é a importância de uma formação na área da dança na vida de uma pessoa? A melhor frase que já me disseram até agora sobre isso foi de uma aluna minha que disse: “eu no estúdio posso ser eu, ser eu mesma.” E nós apesar de termos regras de dança que têm de ser implementadas, desde a forma de estar no estúdio e a postura, aqui nós damos a possibilidade de construir outro tipo de trabalho, a nível de movimento, mas onde as pessoas podem ser elas mesmas e isso muitas vezes faz com que se separem do mundo real, aquele mundo que muitas vezes não se identificam e encontrar algo com que se possam identificar. Eu acho que isso é muito importante e a frase dessa minha aluna marcou-me sem dúvida. Para além de dares aulas, há outro tipo de objectivos profissionais ou artísticos que tenhas para o futuro nesta área? Para se ser um bom professor também é preciso que consigamos realizar os nossos sonhos e como toda a gente eu continuo a ter os meus sonhos. Neste momento, sou também fundadora de uma associação de artes que se chama Ascension Project, em colaboração com o Luís Sousa, e o objectivo desta associação é mostrar ao público várias artes, ou seja, algo multifacetado, quer em termos de música, multimédia, dança. Isto dá-me a possibilidade de poder dançar, de ser intérprete, também coreografar, de até ser assistente de produção, áreas com as quais também me identifico; e logo aí para eu conseguir ensinar melhor é sem dúvida uma mais valia. Também cheguei a ponderar a parte da saúde, ao nível da terapia, cada vez mais a dançoterapia é algo que tem sido falado a nível nacional e no entanto não há ferramentas para que nós consigamos tirar essa formação, para que sejamos bem sucedidos. Os melhores sítios são mesmo Barcelona, Londres e Nova Iorque, mas quem sabe daqui a uns anos possa tirar isso, ou seja, é um livro aberto, portanto, tudo o que seja formação eu estou interessada. Candidateime há pouco tempo a um Mestrado de Performance Artística, porque penso que dançar é sem dúvida o mais importante, para além das outras funções que tenho. O curso profissional de dança acabou por não abrir devido à falta de inscrições suficientes, contudo, podemos esperar no futuro da parte da Academia de Dança de Alcobaça uma nova aposta neste tipo de oferta formativa? Eu acho que sim e pelo que se vê na comunicação social os cursos profissionais são cada vez mais importantes porque preparam logo para o mercado de trabalho aquele grupo de alunos, e da maneira como as coisas estão a nível nacio-


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nal, penso que sim. Para além de que é um curso bastante estruturado, com pés e cabeça, portanto, é uma oferta muito boa para os alunos, e o facto de também termos uma parceria com a escola pioneira dos cursos profissionais de dança a nível nacional, o Balleteatro; acho que vamos poder criar algo com bastante qualidade e eu penso que esse é o objectivo. Para além de ser algo que não existe na zona Centro, logo criávamos algo novo com oportunidades para outros alunos e outras pessoas que quisessem ir para a dança e que não tiveram a possibilidade de ir mais cedo para um regime de articulado ou uma escola de dança normal.

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Há algum tipo de mensagem que gostasses de deixar a todos aqueles que ainda estejam hesitantes ou na dúvida em arriscar entrar na dança? Eu acho que as pessoas têm de fazer essencialmente aquilo que gostam. No caso da dança devem sempre experimentar fazer aulas e tentar ver com o que é que se identificam, mas eu acho que o importante mesmo é perceberem do que realmente gostam porque a partir daí tudo é possível e essa é a melhor mensagem que posso dar, porque não serve só para a dança, mas para tudo. É o melhor que posso dizer.

Eliana Mota

Uma mulher para vários projectos Eliana Mota iniciou os seus estudos em 1993 na Escola de Dança Kelly Lisboa, onde actualmente é professora de Dança Jazz. É licenciada em Dança pela Escola Superior de Dança, destacando José Grave, Graça Barroso, Amélia Bentes, Vitor Garcia, Teresa Ranieri, entre outros, como seus professores. Integrou o programa Sócrates/Erasmus, na Fontys Dansacademie (Holanda). Frequentou diversos workshops em Portugal, Holanda, Bélgica e Inglaterra, e recebeu o prémio revelação no “Madonna Grimes Championship”. Participou em alguns espectáculos televisivos, como o “Seven Wonders Of The World”. Actualmente é co-fundadora do “Ascension Project”, e Directora Pedagógica e Professora na Academia de Dança de Alcobaça.

“Para se ser um bom professor também é preciso que consigamos realizar os nossos sonhos e como toda a gente eu continuo a ter os meus sonhos”


Notícia Academia de Dança de Alcobaça

Academia de Dança de Alcobaça oferece várias modalidades

Abertas as inscrições para Cursos de Dança Cursos Livres (1.º Ciclo de Ensino Básico) e Iniciações (a partir dos 3 anos) são os destaques de mais um ano lectivo que se inicia na Academia de Dança de Alcobaça A Academia de Dança de Alcobaça (ADA), projecto integrado no seio da Academia de Música de Alcobaça (AMA) e reconhecida pelo Ministério da Educação como escola oficial de dança, mantém abertas as inscrições para as Iniciações (1.º Ciclo de Ensino Básico) e os Cursos Livres (a partir dos 3 anos) de Dança, previstos para o ano lectivo de 2010/2011. Integrando as modalidades de Ballet, Dança Contemporânea, Dança Jazz, Hip-Hop, Ritmos Urbanos, Postura e Alongamento, e Sapateado, os Cursos Livres destinam-se a todos aqueles que pretendam ter contacto com diversas áreas da dança, e/ou uma formação complementar. Nestas aulas, o aluno é colocado em contacto com o seu corpo, trabalhando com ritmos variados, estimulando a criatividade, a espontaneidade e explorando de forma consciente o espaço envolvente, constituindo também uma forma de fomentar o interesse para a prática da dança em geral. Quanto às aulas da Iniciação, onde se prevêm modalidades de Técnica de Dança Clássica e Dança Criativa, têm implícito um conteúdo vocacional, já que visam a aprendizagem de uma técnica específica no contexto artístico da Dança. Tem por objectivos proporcionar aos alunos uma formação inicial e básica nos domínios das técnicas de dança e experimentação criativa, bem como desenvolver a percepção artística. É ministrado aos alunos que frequentam o 1º Ciclo do Ensino Básico, tendo uma frequência obrigatória de 4 horas semanais. Além da Directora Pedagógica da ADA, cargo com o qual acumula as funções de professora, a equipa de professores da ADA inclui ainda os seguintes nomes: Luís Sousa, Catarina Rodrigues, Camila Moreira e Rita Abreu (ver biografias →).


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Eliana Mota Eliana Mota iniciou os seus estudos em 1993 na Escola de Dança Kelly Lisboa, onde actualmente é professora de Dança Jazz. É licenciada em Dança pela Escola Superior de Dança, destacando José Grave, Graça Barroso, Amélia Bentes, Vitor Garcia, Teresa Ranieri, entre outros, como seus professores. Integrou o programa Sócrates/Erasmus, na Fontys Dansacademie (Holanda). Frequentou diversos workshops em Portugal, Holanda, Bélgica e Inglaterra, e recebeu o prémio revelação no “Madonna Grimes Championship”. Participou em alguns espectáculos televisivos, como o “Seven Wonders Of The World”. Actualmente é co-fundadora do “Ascension Project”, e Directora Pedagógica e Professora na Academia de Dança de Alcobaça.

Camila Moreira Camila Moreira iniciou os seus estudos em 1992 na Escola de Danças Clássicas do Teatro Guaíra em Curitiba (Brasil), onde destaca como professores: Carla Reineck, Patricia Otto e Jair Moraes. Em 2002 ingressa na Dançarte dançando coreografias de Sofia Belchior, Rui Pinto, Rita Abreu e Savio de Luna. Em 2004 integra a companhia CeDeCe, onde destaca entre vários os coreógrafos: Johen Heckman, António Rodrigues, Walter Gore, Gagik Ismaillian, Luís Sousa, Clara Andermatt, Mark Haim, Hofesh Scherter, Iolanda Rodrigues e Stasa Zurovac. Em 2008 ingressa como bailarina solista o HNK- Rijeka (Croácia) dançando coreografias de Milko Sparemblek e Dinko Bogdanic. Fez varias Óperas e leccionou vários workshops direccionados para crianças no Brasil, Portugal e Croácia. Actualmente é professora da Academia de Dança de Alcobaça.

Luís Sousa Luís Sousa nasceu em Alcácer do Sal em 1976, tendo iniciado em 1991 o curso de formação de bailarinos na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, sob a direcção de Maria Bessa e António Rodrigues. Entre 1995 e 1997 foi bailarino na Reflex Company (Holanda), dançando peças de Patrizia van Roessel, Norio Mamyia e Hans Turlings. Entre 1997 e 1999, foi bailarino no Ballet Gulbenkian, onde dançou coreografias de Itzik Galili, Ohad Naharim, Rui Horta, Nacho Duato, William Forsythe e Jiri Kylian. Em 2000, ingressa na CeDeCe, onde destaca: António Rodrigues, Mark Haim, Jochen Heckman e Gagik Ismaillian. Em 2005, foi bailarino convidado e assistente do coreógrafo Gagik Ismaillian na Companhia Nacional da Eslovénia e em 2006, assistente e sonoplasta em HNK- Rijeka (Croácia) e na CNB. Actualmente é co-fundador do Ascension Project e professor na Academia de Dança de Alcobaça.

Catarina Rodrigues Catarina Rodrigues é formada pelo curso profissional de dança Balleteatro do Porto e é licenciada em Dança pela Escola Superior de Dança, onde destaca os professores José Grave, Graça Barroso, Amélia Bentes, Vitor Garcia, Teresa Ranieri, entre outros. Integrou o programa Sócrates/Erasmus, no Hoger Instituut Voor Dans em Lier (Bélgica). Trabalhou com os coreógrafos: Gil Verièpe, Cynthia Phung-Nogc, Tiago Guedes, Lígia Roque, Daniela Leite e Isabel Barros.

Rita Abreu Iniciou aos 10 anos os seus estudos na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal. Em 1993 integrou o elenco da Pequena Companhia e enquanto aluna do 8º Ano do Curso Complementar de Dança (96-97) participou em espectáculos da CeDeCe. Em 1997 ingressou na Companhia Dançarte onde teve oportunidade de trabalhar com diversos professores e coreógrafos. Em 2004, foi convidada a integrar o elenco da companhia do Theater der Stadt Heidelberg – Alemanha. Desde 2005 trabalha como freelancer, tendo participado em diversos trabalhos em Portugal e no estrangeiro. Enquanto aluna do Grau Avançado da ADC, leccionou disciplinas de Iniciação ao movimento e Iniciação à dança. Entre 97 e 2004 orientou diversos workshops de dança a crianças de vários níveis de ensino (Palmela). Na Alemanha, leccionou Técnica de Dança Clássica e Técnica de Dança Moderna na escola Aki Kato, e professora convidada em Bensheim, Ludwigshafen e em Schwetzingen. Leccionou também Dança Contemporânea no Büggerhouse em Mannheim. De 2006 a 2010, trabalhou como professora no Lugar Presente em Viseu, onde leccionou Dança Criativa, Iniciação à Dança, Técnica de Dança Clássica e Técnica de Dança Moderna e orientou workshops de dança em escolas do concelho de Viseu.


Letras e Sons

Santo Asinha e Outros Poemas, Frederico Lourenço Caminho Primeiro livro de poemas do escritor, tradutor e ensaísta Frederico Lourenço, “Santo Asinha e Outros Poemas” assinala a estreia feliz do autor no domínio da poesia, obra cujo poema que dá título ao livro integrou um projecto com música de Alexandre Delgado (assim se explica o subtítulo; “Lenda para Barítono e Orquestra”), inspirado num conto de Iva Delgado e que conheceu a sua estreia na última edição do Festival de Música de Alcobaça – Cistermúsica, num espectáculo realizado no Cine-Teatro de Alcobaça que valeu ainda uma homenagem ao compositor e director artístico do evento. Conhecido por ter feito trabalhos de tradução de poesia grega, nomeadamente através de clássicos como a “Odisseia” ou a “Ilíada”, este curto livro do autor português (são apenas pouco mais de 60 páginas) não só representa uma incursão profunda numa narrativa poética semi-autobiográfica cheia de rigor como evoca o tal episódio lendário de um assassino santificado pelo povo minhoto na Serra d’Argua após ter recebido a graça divina de um monge.

Morte em Veneza, Thomas Mann Relógio d’Água “Morte em Veneza” é uma das obras mais célebres do grande escritor alemão Thomas Mann, Prémio Nobel da Literatura em 1929, talvez a par de “A Montanha Mágica” e “Doutor Fausto” uma das mais citadas no universo da carreira do escritor, sendo mesmo considerada uma das maiores novelas de sempre no universo do cânone literário. Concebida em 1911, após uma visita do autor ao Lido de Veneza (onde a acção decorre), foi editado no ano seguinte, 1912, tendo mesmo havido quem afirmasse tratar-se da “obra mais confessional de Thomas Mann”. A acção decorre na famosa cidade italiana, durante o início do século XX, onde um escritor de meia-idade, Gustav von Aschenbach, se deixa fascinar pela beleza transcendente e pueril de um rapaz de 14 anos, sacrificando a esta paixão toda a sua lucidez e dignidade. O livro foi ainda adaptado com grande sucesso ao cinema pelo cineasta italiano Luchino Visconti (tendo integrado o ciclo de cinema da última edição do Cistermúsica), numa produção que ajudou também a celebrizar o Adagietto de Gustav Mahler, peça musical que atravessa todo o filme.

Orlando Furioso, Ludovico Ariosto Cavalo de Ferro Escrito ao longo de mais de 30 anos por Ludovico Ariosto e publicado na sua versão final em 1532 (com 46 cantos e cerca de 40 mil versos rimados), “Orlando Furioso” é uma das obras monumentais da literatura mundial, apenas comparável em termos de relevância cultural a outras obras-primas da literatura como “A Divina Comédia” de Dante Alighieri ou os “Lusíadas” de Camões. Misto de romance de cavalaria onde se enquadra o imaginário popular e mitológico, “Orlando Furioso” é um longo poema épico que pode facilmente ser lido como um grande romance de aventuras, retratando o modo como o valoroso cavaleiro Orlando, de paladino de Carlos Magno e apaixonado da bela Angélica, por ciúme, se torna em louco furioso. A edição que a Cavalo de Ferro apresenta ao leitor português é a primeira tradução integral do livro de Ludovico Ariosto, suprindo uma lacuna editorial no nosso país com mais de 500 anos e tornando finalmente acessível em português uma das mais importantes obras literárias de sempre, enriquecendo o nosso panorama cultural.


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Haydn – Piano Sonatas, Vol. 1, Jean-Efflam Bavouzet Chandos Conhecido por ser um pianista versátil e dotado de uma enorme inteligência musical, Jean-Efflam Bavouzet destacou-se durante os últimos anos graças a um repertório que vai desde Bach até à música contemporânea, passando por nomes como Beethoven, Bartók, Prokofiev ou Debussy. Não sendo um nome totalmente estranho no nosso país, Bavouzet marcou presença ainda em Portugal na Festa da Música, no Centro Cultural de Belém, sem esquecer a edição que dedicou a Haydn e Mozart em 2002. Desde essa altura, aliás, que as suas interpretações da música de Haydn têm despertado alguma atenção, culminando agora, finalmente, naquele que um ambicioso projecto de gravação integral. O 1º volume desta aposta inclui as Sonatas nºs 31, 39, 47 e 49 do compositor austríaco, um dos mais importantes do período clássico, ao lado de Mozart e Beethoven (com os quais formou a chamada “Trindade Vienense”), compostas entre os anos 50 do século XVIII e 1794 - 95.

Bitches Brew, Miles Davis Columbia, dist. Sony Music Gravado em 1969 por essa verdadeira lenda da música universal, Miles Davis (um nome que praticamente dispensa apresentações), e lançado pela Columbia Records em 1970, “Bitches Brew” é uma obra única, ainda hoje considerada por muitos como um dos trabalhos mais revolucionários da história do jazz. Celebrado a par de “In a Silent Way” como o ponto de partida da fase eléctrica de Miles Davis, “Bitches Brew” foi gravado com uma formação de músicos composta por Wayne Shorter (saxofone), Bennie Maupin (clarinete baixo), Joe Zawinul (piano eléctrico), Chick Corea (piano eléctrico), John McLaughlin (guitarra), Dave Holland (contrabaixo), Harvey Brooks (baixo eléctrico), Lenny White (bateria), Jack DeJohnette (bateria), Don Alias (congas) e Jim Riley (shaker), nomes aos quais se juntaria outro elemento (e segundo algumas vozes da crítica o “músico” mais importante da banda): o produtor Teo Macero. Comparado por vezes ao som de gente como Sly Stone, James Brown, Jimi Hendrix ou Marvin Gaye, esta reedição (que inclui uma faixa extra e um DVD inédito com um concerto gravado ao vivo) mantém ainda mais vivo um clássico intemporal.

Mystic Maze, Chris Dahlgren & Lexicon Jazzwerkstadt, dist. Multidisc “Mystic Maze” é um disco baseado num conjunto de críticas escritas contra a música do compositor húngaro Bela Bartok (1881 - 1945), considerado um dos maiores compositores do séc. XX e um dos fundadores da etnomusicologia e do estudo da antropologia e etnografia da música. Chris Dahlgren, que estudou voz e composição com o visionário minimalista La Monte Young, gravou então em estúdio, corria o ano de 2008, este disco (apenas agora editado) que regista o trabalho de um grupo formado, além do próprio Dahlgren (contrabaixo e na narração), por Antonis Anissegos (piano, wurlitzer, sampler e voz), Gebhard Ullmann (saxofone tenor e soprano e clarinete baixo), Christian Weidner (saxofone alto), e Eric Schaefer (bateria, percussão e voz). Objectivo (segundo as palavras de Dahlgren): “vilificar alguns dos mesmo críticos que julgaram a música incrível de Bartok virando conta estes as suas próprias palavras – ou por outro lado, transformar as suas palavras em música.”


II CONCURSO INTERNACIONAL

MÚSICA DE CÂMARA

CIDADE DE ALCOBAÇA 2nd INTERNATIONAL CHAMBER MUSIC COMPETITION “CIDADE DE ALCOBAÇA”

10/15 Abril 2011 C I N E - T E AT R O D E A L C O B A Ç A João d’Oliva Monteiro

Inscrições abertas Data limite: 15 de Fevereiro de 2011 Categoria Sénior · Média de idades igual ou inferior a 30 anos [em 15 de Abril de 2011] Categoria Júnior — Prémio Fundação Inatel · Média de idades igual ou inferior a 30 anos [em 15 de Abril de 2011]

www.velcrodesign.com

www.cimca.eu

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PAUTA 01  

PAUTA traz-nos entrevistas, foto-reportagens, artigos de fundo, críticas e notícias sobre as mais diversas actividades da Academia de Música...

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