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22 de novembro de 2011 • Ano XXI • n.º 237 • QUInZenAL GrATUITo dIreTor cAmILo soLdAdo • edITores-eXecUTIvos Inês AmAdo dA sILvA e João GAspAr

Restless

acabra

Pobres meninos ricos Pág. 18

JornAL UnIversITárIo de coImbrA rAfAelA cArvAlho

A uma semana da escolha da nova DG/AAC Pág. 2 a 7

inês AmAdo dA silvA

hAbITAção A urgência de reabilitar os centros urbanos Pág. 12 e 13

Precariedade

Musculação

Recibos verdes lutam pela legalidade

Do que é feito o vigor que sai dos ginásios

Em Portugal, infringe-se a lei do trabalho com a criação dos falsos recibos verdes. Caracterizados por serem trabalhadores independentes na condição de contribuintes, mas dependentes face a uma “camuflagem do contrato” laboral, enfrentam um dos maiores obstáculos à continuidade da sua atividade – a ilegalidade. Está, portanto, em causa o cumprimento de um direito fundamental do homem consagrado na declaração universal dos direitos do homem: o direito ao trabalho e a uma proteção contra o desemprego. Aqueles que vivem nesta situação revelam em jeito de testemunho os obstáculos por que passam para ter uma vida condigna.

Os ginásios são cada vez mais frequentados por homens. Com efeito, é o poder da aparência, tutor desta sociedade, que neles é cultivado. Numa abordagem aos efeitos fisiológicos e sociológicos desta prática, debatem-se experiências e conselhos de quem sabe os limites do exercício físico, falando, por vezes, quem já os passou. E tenta-se perceber o fenómeno dos músculos pelas costuras sociais. Dos ginásios, saem esqueletos bem protegidos por armaduras. E voltam sempre, para as aumentar.

Pág. 16 AnA pAtríciA Abreu

Pág. 14

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Mais informação em

acabra.net

Vendedores da Praça do Comércio reclamam novas licensas de venda Pág.10


2 | a cabra | 22 de novembro de 2011 | terça-feira

destaque

rafaela carvalho

Os Cinco na corrida à DG/AAC No início da próxima semana, os estudantes da Universidade de Coimbra vão ser chamados às urnas para escolherem os seus representantes académicos para o ano de 2012. Cinco são as listas que concorrem à cadeira da direção-geral. O conselho fiscal conta com dez listas candidatas. Por Inês Balreira

N

os próximos dias 28 e 29, os estudantes da Universidade de Coimbra vão ter a oportunidade de escolher os corpos gerentes da Associação Académica de Coimbra (AAC) para o ano de 2012. Este ano são cinco as listas candidatas à direção-geral da AAC (DG/AAC) e à mesa da Assembleia Magna (AM), mais duas listas que no ano passado. Caso nenhuma das listas obtenha maioria na primeira volta, a segunda volta, entre as duas listas mais votadas, vai ter lugar a cinco e seis de dezembro. “Desperta a AAC” é o lema da lista C, liderada por André Costa, finalista de Direito. A lista I, “Indigna-te”, é representada por Renata Cambra, estudante de Português. Ricardo Morgado, aluno de mestrado de Engenharia Biomédica, é o rosto da lista L, “Liga-te à Academia”. Por sua vez, a lista M, com o mote “Mexe-te pela AAC”, é encabeçada pelo estudante de mestrado em Sociologia, Fabian Figueiredo. A lista T, “A Alternativa És Tu”, apresenta como candidato André Martelo, também estudante de Sociologia. O período de campanha eleitoral começou no passado sábado e estende-se até dia 27. Contrariamente a anos anteriores, este ano não há lugar a dia de reflexão, uma decisão que ficou vinculada

na última AM.

Dez listas para o fiscal Para o conselho fiscal (CF), órgão de fiscalização e jurisdição da academia, concorrem este ano dez listas. Cinco das listas que competem pela presidência da DG/AAC e mesa da AM concorrem também para o CF. A lista C apresenta como candidato Rui Carvalho, estudante de Ciências

Contrariamente a anos anteriores este ano ficou decidido em AM que não há dia de reflexão de reflexão Farmacêuticas. André Rodrigues, de História, é o candidato pela lista I. Pela lista L o escolhido foi Francisco Guerra, de Engenharia Civil. O candidato pela lista M é Diogo Barbosa, de História, e Catarina Ângelo, estudante de Direito, é a representante da lista T. As outras cinco apresentam candidatura exclusivamente a este órgão da AAC. A lista A, “Paraíso Fiscal”, apresenta como candidato o estudante de Gestão, Diogo Alves. Nuno Santos, de Engenharia Mecânica, é o rosto da lista D, “Até a dormir lá vamos”. Pela lista O, “Oligopólio”, concorre João

Abrantes, de Economia. Também de Economia compete Hugo Pais da lista P, “Pedrulha pra DG”. Joana Abreu, estudante de Medicina, apresenta-se pela lista Z, “Tudo em ordem”. Desde 2008 que o CF conta com sete lugares, em vez dos cinco comportados até então. Esta alteração teve como objetivo aumentar a representatividade dos estudantes no órgão. Tal como a eleição para o Conselho Geral da Universidade de Coimbra, também a eleição para o CF se faz pelo método de Hondt, sendo os sete lugares disponíveis atribuídos de forma proporcional aos primeiros números de cada lista, dependendo do número de votos conseguidos, sendo que para o CF não há lugar a uma segunda volta.

Trabalho da Comissão Eleitoral dificultado O presidente da Comissão Eleitoral (CE), Pedro Fialho revela que este ano o trabalho está a ser dificultado pelo elevado número de listas candidatas ao CF. “No início começou a especular-se que poderia haver mais listas, as chamadas listas fantasma, mas percebeu-se nas reuniões de comissão que esse problema não se constituía porque todos apareceram com delegados na CE” explica Pedro Fialho. O presidente da comissão

aponta como explicação para o número pouco habitual de listas o facto de existirem “grupos de colegas de determinadas faculdades que se tentam juntar, com aspirações a um lugar no CF”. Para a campanha eleitoral, as listas concorrentes aos órgãos vão ter disponível, na totalidade, um montante de 3500 euros, mais 500 que no ano passado. Pedro Fialho adianta que o plafond dis-

Este ano o plafon disponibilizado para a campanha eleitoral é de três mil e 500 euros ponível para a campanha das listas já foi atribuído. “São 500 euros em papelaria para as listas da DG/AAC e 100 euros para as candidatas ao CF”, releva. O presidente explica ainda que o baixo montante facultado às listas do CF foi debatido em comissão. “Penalizou-se um pouco as listas, que podem não ser fantasma, mas a decisão foi tomada com o intuito de penalizar as hipotéticas listas fantasma”, afirma Pedro Fialho.

“O cacique é uma coisa complicada” Nos atos eleitorais é habitual-

mente levantada a questão do caciquismo, que se refere ao ato de exercer influência política sobre os estudantes para votarem em determinada lista. O presidente da CE revela que esta equipa tem de ser “uma equipa grande para haver um bom controlo”, porque “uma coisa é certa: o cacique é uma coisa complicada”. Pedro Fialho adianta que a nível de recursos lhe é impossível “ter um delegado em cada ponto das faculdades”, mas “vai estar pelo menos um delegado nas redondezas de cada urna”. “De certeza que esse controlo vai ser feito”, garante. Pedro Fialho revela ainda que, ao contrário de anos anteriores, optou por uma “solução radical”, em relação às tentativas de defraude nas urnas: a partir do momento em que se fecha uma urna por algum motivo as 23 restantes fecham também, aclara. O presidente explica que tomou esta medida para explicar “às pessoas que estão encarregues que, se tentarem defraudar uma urna, a deles fecha também”.

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Entrevistas na íntegra em

cabra net Noite eleitoral em

cabra net


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cabra | 3

destaque LISTA C • “deSperTA A ACAdemIA” • André CoSTA rafaela carvalho

“Não adianta continuar a recusar Bolonha” Inês Balreira Camilo Soldado André Costa, natural do Porto e finalista de Direito, é o líder e rosto da lista C – “Desperta a Academia”. Com 23 anos e sem filiação partidária, tem como experiência no associativismo o cargo de coordenador-geral da política educativa, em 2008, e a presidência do núcleo de estudantes de Direito em 2009. Foi ainda membro da comissão de revisão dos estatutos da Associação Académica de Coimbra (AAC). Atualmente ocupa o cargo de senador de Direito. Como principal bandeira defende um planeamento da AAC a médio longo prazo. O que te levou a candidatar? Acima de tudo foi o sentimento de que nós enquanto AAC podíamos fazer mais e melhor, ou seja, não estávamos a corresponder àquilo que seria a necessidade do nosso papel. Tanto no âmbito local, na cidade e na universidade como no âmbito regional, e mesmo até no âmbito nacional. O cargo de presidente da direção geral da AAC (DG/AAC) é compatível com o cargo de senador? Incompatibilidade formal e jurídica não há nenhuma, porque é um órgão da universidade e é um órgão da AAC. A verdade é que eu ainda não dediquei muito tempo a pensar sobre isso. Quais são as principais bandeiras do vosso projeto? Há uma antes de todas as outras: ter uma AAC ao nível do que ela pode, precisa e deve ser, no plano da universidade, da cidade , da região cen-

tro e do país. Isto traduziu-se em várias outras metas mais específicas em cada um dos pelouros. Na administração queremos apostar na eficiência energética. Gostávamos também de fazer uma espécie de manual da AAC, com todas as suas condições logísticas. No desporto queremos apostar no desporto adaptado. Na intervenção cívica gostaríamos de fazer uma gala social mas também lançar um debate que nós apelidamos de “Pensar Coimbra”, em que nós pensássemos em conjunto os aspetos da reabilitação urbana. Na política educativa a meta é pensar o ensino superior (ES). Queremos lançar um grande congresso em Coimbra sobre o ES. Nas saídas profissionais temos uma iniciativa que passa por utilizar o nónio para colocá-lo ao serviço das empresas para terem acesso aos currículos e ao percurso dos estudantes.

“O que entendemos é que em 2012 não vale a pena reivindicar para que as propinas acabem“ Quanto à ação social temos duas ideias: uma é a constituição de um fundo de apoio social da AAC. De que forma é feito o financiamento da campanha? Não temos apoios partidários, nem de nenhum grande lobby económico. O nosso financiamento vem de nós. Das nossas contribuições e do que angariamos com as iniciativas que fizemos, mas também do que conseguimos mobilizar da comunidade que nos envolve. Uma das palavras mais utilizadas por ti é meritocracia. O que entendes por meritocracia?

Meritocracia são as pessoas que têm mais competência, mais qualidade e que tiveram maior trabalho desempenhem os cargos que a AAC tem. A nossa ideia de meritocracia foi que cada uma das pessoas que viesse para este projeto trabalhar, se demonstrasse competências, este trabalho lhe seria reconhecido de forma democrática. Consideras que os incidentes envolvendo extintores passados no Fórum AAC 2009 e consequente processo movido pelo Conselho Fiscal da AAC podem condicionar a tua eleição? Esse é um processo concluído, teve as suas consequências, mas é passado. Não acho que condicione em nenhum aspeto aquilo que é a nossa candidatura. É um episódio da minha vida pessoal e não vou sobre ele fazer qualquer tipo de comentários. Os anos de 2010 e 2011 ficaram marcados por grandes alterações na ação social escolar. Qual é a análise que fazes? Quando fomos confrontados com esta situação de crise internacional, que depois se refletiu em Portugal numa crise muito específica, houve uma tentativa de reduzir custos. Essa tentativa por parte do governo acabou por ser cega. Não se pode cortar só por cortar e daí a implosão das bolsas e da ação social no DL 70/2010 ter-se repercutido numa série de consequências que foram inadmissíveis. Estamos um pouco melhor este ano, ou seja, o que havia anteriormente era pior do que temos agora mas acho que estamos longe ainda do que seria necessário. A DG/AAC vai associar-se à greve geral no dia 24. Como vês esta tomada de posição? Não temos nada contra as manifestações de rua, mas achamos que são o

último recurso e devem ser ponderadas no sentido de acontecerem quando as restantes vias estão esgotadas. Achas que ultimamente se tem ido para a rua só para cumprir calendário? Acho que a importância da ação simbólica está diretamente relacionada com aquilo que é a sua preparação. Não posso entender que o façamos só porque queremos fazer uma ação simbólica. Bolonha e o Regime Jurídico das Instituições do ES (RJIES) foram lutas dos estudantes durante anos. Ambos os sistemas estão implementados. Ainda faz sentido lutar contra eles? O RJIES não tem concordância da minha parte. Até determinado ponto é bom que haja uma grande ligação da Universidade de Coimbra (UC) ao meio que a rodeia e que a participação do tecido empresarial tenha mais-valias. A questão é a que custo é que essas mais-valias foram conquistadas: à custa de uma grande diminuição da representação estudantil. O RJIES foi também olhado de lado durante muito tempo devido à privatização do ES que poderia trazer, nomeadamente pelo regime fundacional. Neste momento esse risco desapareceu. Quanto a Bolonha, o processo não está concretizado porque aquilo que se pretendia com Bolonha não se atingiu com a sua aplicação. Ter Bolonha mas não ter o regime que Bolonha pressupõe, ou seja, a participação dos estudantes, um regime tutorial, avaliação contínua e não ter as condições para isso ser realizado ao nível estrutural e do corpo docente implica ter uma Bolonha amputada. Contudo, não adianta continuar a recusá-lo, mas sim continuar a pugnar para que a sua aplicação seja mais completa.

Qual é a vossa posição face às propinas? Por princípio a AAC é contra as propinas. Uma posição deste género vincula todos os sócios da AAC. Não nos resta muito mais do que ser contra as propinas. O que entendemos neste específico contexto que envolve a nossa candidatura é que em 2012 não vale a pena estar a reivindicar para que as propinas acabem. Nem seria entendido sequer pela sociedade civil. E quanto à sua aplicação? A UC era a única universidade que reinvestia parte da sua propina na melhoria da qualidade do ensino através de um fundo de investimento que depois se desmultiplicava em várias iniciativas. A questão é que em 2012 a UC, mobilizando todas as receitas ao seu dispor, não consegue cobrir quase as despesas de funcionamento. Esperas fazer alguma reestruturação a nível dos pelouros? Acabámos com o pelouro do desporto universitário, que achamos que se encontra dentro do desporto. Não temos também o pelouro da ligação aos órgãos, temos uma assessoria de ligação aos órgãos. Para cessar, o contrato do bar da AAC tem que ser renunciado até 31 de agosto de 2012. Se fores eleito pensas fazê-lo? Se houver condições para o fazer. E se houver algum incumprimento contratual. O que é para ti um bom resultado eleitoral? Eu digo sempre que o nosso objetivo é sermos uma opção válida e sólida e, portanto, vencer as eleições, sem dúvida, é o que nós queremos. Se não vencermos as eleições, o facto de termos existido já foi bom.


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DESTAQUE LISTA I • “IndIgnA-Te!” • RenATA cAmbRA rafaela carvalho

“A luta de gabinete provou ser insuficiente” Inês Balreira Inês Amado da Silva Renata Cambra é o rosto da lista I, “Indigna-te”. Com 20 anos e natural de S. João da Madeira, a estudante de Português é militante do Bloco de Esquerda e integra a Frente de Ação Estudantil (FAE). Atualmente é membro do conselho pedagógico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC). Fez ainda parte do núcleo de estudantes de Letras e da assembleia de revisão dos estatutos da Associação Académica de Coimbra (AAC). O que te levou a candidatar? Existe uma indignação bastante forte dos estudantes em geral e essa indignação tem de ter voz. A nossa indignação é dupla. Por um lado, a atual situação do ensino superior (ES) e a conjuntura nacional, por outro, a indignação com as sucessivas DGs, que não cumprem o papel de defesa dos direitos dos estudantes. Quais é que são as principais bandeiras do vosso projeto? Uma das nossas principais bandeiras é a luta pelos direitos dos estudantes, por isso estamos desde já a fazer campanha para a greve geral. Não partilhamos a visão da direção-geral da AAC (DG/AAC), que adere à greve geral, mas não mobiliza para ela e que assim se vai escusar de fazer uma manifestação nacional de estudantes. Em termos de ação social, defendemos que o cálculo da bolsa seja mais justo: um cálculo linear, sem escalonamentos e que os bolseiros estejam isentos do valor da propina. De que forma é que o financiamento da vossa campanha está

a ser feito? Fazemos coletas nas reuniões e estamos a contar com o orçamento para as eleições da DG/AAC.

certação muito grande para que possa ser revertida esta situação. Sem vontade de nos mexermos não vamos a lado nenhum.

Têm apoios partidários? Não.

E por que formas passa essa concertação? Há a velha questão da luta de gabinete, que já provou ser insuficiente. Também há a questão das lutas fragmentadas, ou seja, direções-gerais que têm visto a luta como um calendário que têm de cumprir. A nossa visão é que haja um plano de luta que seja pensado a nível estratégico.

A vossa lista saiu de uma divisão da lista R do ano passado. Porque é que isso aconteceu? Essa divisão aconteceu sobretudo por intransigência de ambas as partes. Consideras que a divisão pode enfraquecer os movimentos? Claro. A divisão quer entre a FAE e a AAcção, quer entre a Alternativa ou entre os três enfraquece, como é óbvio. Fazemos a leitura de que realmente somos projetos que têm bastante semelhança nas suas ideias e naquilo que defendem, daí termos insistido bastante na questão da união. Já vieste a público dizer que tentaste chegar a acordo com os outros movimentos – AAcção e A Alternativa És Tu. Qual é que foi a resposta que tiveste? Por parte da Alternativa És Tu recebemos um não. Do coletivo AAcção, não recebemos qualquer resposta. 2010 e 2011 ficaram marcados por grandes alterações na ação social escolar. Que análise fazes? As alterações a nível da ação social são o reflexo de que o ensino superior (ES) está a ser estrangulado. Estamos a chegar a uma situação limite. Existem estudantes a abandonar o ES porque não têm possibilidades económicas, as bolsas são insuficientes e estão a ser cortadas. A previsão é que isso continue. É preciso uma luta muito forte para que os estudantes não tenham de abandonar as universidades, que possam concluir os seus estudos. Deve haver uma con-

A DG/AAC vai associar-se à greve geral do dia 24. Como é que vês esta tomada de posição? Foi muito bom que a DG/AAC quebrasse este tabu de aderir à greve. No entanto, não adianta de nada a retórica e irmos à Assembleia Magna (AM) apresentar propostas quando depois não as fazemos descer à prática e não as fazemos acontecer. Estamos a poucos dias da greve geral e ainda não se viu mobilização efetiva por parte da DG/AAC. O que é que faltou a esta DG/AAC? Vontade. Não me parece que seja uma questão de incompetência, é uma questão de falta de vontade e isso tem uma questão de fundo: como é que aqueles que estão ligados às juventudes dos partidos que estão a fazer cortes no ES vão ser contra esses mesmos cortes? E também é isso que nós criticamos nas listas de continuidade D e M, esse comprometimento com o centrão que, obviamente, ata mãos, pés e braços. Bolonha e o Regime Jurídico das Instituições do ES (RJIES) foram lutas dos estudantes durante anos. Ambos os sistemas estão implementados. Ainda faz sentido lutar contra eles?

A FAE, que é o coletivo que dinamiza esta lista, surgiu sobretudo contra Bolonha. Numa altura em que há questões cada vez mais fraturantes, torna-se evidente que há sistemas que não funcionam, como Bolonha, que supostamente iria tornar o ensino muito melhor. O RJIES retirou muita representatividade aos estudantes. Também há uma questão perigosa que não é falada em termos claros. Uma situação em que o que está a ser posto em cima da mesa é mais autonomia da UC através de empresas, que atualmente já estão no conselho geral. Se existem empresas na UC é porque existe algum interesse: o sucesso das suas próprias empresas. Qual é a vossa posição face às propinas? Defendemos a redução imediata da propina porque os estudantes têm cada vez menos possibilidades económicas para se manterem no ES. Defendemos também a isenção de

“Estamos a poucos dias da greve geral e ainda não se viu mobilização efectiva por parte da DG” propina para os bolseiros como uma medida imediata de urgência para estancar a saída dos estudantes do ES. Qual é a tua opinião sobre o regulamento de atribuição de bolsas em vigor este ano? Não é que o regulamento seja mau de todo, mas não adianta de nada ter o melhor regulamento quando não há dinheiro para as bolsas. Uma das bandeiras de todas as direções gerais é a aproxima-

ção dos estudantes à academia. Isso não se tem vindo a verificar. A que se deve? Há uma falta de presença nas faculdades, nos departamentos e também há muita falta de tentativa de aproximação. É importante tentar ao máximo o contacto e isso passa por ir onde os estudantes estão. Muitas vezes a própria postura da DG/AAC na AM é de quem não está a ouvir os estudantes. Esperas fazer alguma reestruturação a nível dos pelouros? Temos um pelouro que é da informação, adequado ao de comunicação e imagem. Basicamente, asseguramos os pelouros que achamos essenciais e apostamos no de informação, que é um pelouro novo no que é realmente a nossa tradição para que possamos trabalhar a questão da proximidade com os estudantes. Qual a vossa posição face à concessão do bar da AAC? O bar não deve ser gerido por empresas da noite. Não temos uma proposta fechada, isso deve ser discutido em AM. O bar deve ser assegurado pelos estudantes e consideramos a proposta dos SASUC ficarem com a concessão do bar, num misto dos dois verem uma forma de assegurar o bar. Se formos eleitos não vamos renovar o contrato com o InTocha, nem vamos fazer um contrato com o NB, que é outra das empresas que atualmente está interessada. Vamos defender que os estudantes devem decidir o que fazer com o bar. O que será para ti um bom resultado eleitoral? É aquele que mostre que realmente há uma quantidade considerável de estudantes que concorda com as nossas ideias e que percebe que as coisas não estão bem e que é preciso inverter a situação atual.


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DESTAQUE LISTA L • “LIgA-Te à AAc” • RIcARdo moRgAdo rafaela carvalho

“Não faz sentido acabar com as propinas” Inês Balreira Camilo Soldado Estudante do segundo ano de mestrado de Engenharia Biomédica, Ricardo Morgado é natural de Gouveia. O candidato pela lista L, “Liga-te à Academia”, com 22 anos, foi já coordenador-geral do pelouro da Pedagogia em 2010. É filiado na Juventude Social-Democrata, mas assume a sua candidatura como independente. O que te levou a candidatar? A académica não chega de forma efetiva aos estudantes e o principal objetivo deste projeto pelo qual me candidato é efetivar essa união. Vai ser o ano mais difícil que a nossa geração alguma vez enfrentou e para isso precisamos de uma académica forte, experiente, que consiga mais uma vez pautar-se pela defesa dos seus estudantes. Estavas a dizer que querias uma académica mais unida, achas que ela não tem estado unida o suficiente? Acho que não. Tem de se perceber que uma casa como Associação Académica de Coimbra (AAC), com cerca de 80 organismos, está acima de qualquer individualidade e qualquer organismo. E a que é que achas que se deve essa desunião? Tem havido falta de vontade, sobretudo para criar laços de estreitamento que criem a aproximação entre a direção-geral da AAC (DG/AAC) e os restantes organismos. Depois acontecem coisas que não favorecem a AAC. Estás a referir-te às demis-

sões? A questão das demissões e os restantes casos foram um extravasar do que acontece cá dentro, e temos que perceber que se queremos mostrar uma académica forte para fora, temos que ter uma académica forte por dentro. Isso não aconteceu nem este ano nem ao longo dos anos. Quais é que são as principais bandeiras do vosso projeto? A ação social e o financiamento do ensino superior. Tivemos uma grande vitória relativamente ao DL

“Se estes cortes continuarem a única solução é que as propinas aumentem” 70/2010 mas temos um novo regulamento de atribuição de bolsas do qual já sabemos alguns resultados, e a verdade é que vai haver alguns estudantes que vão ficar sem bolsa. Entendemos que todos os preços subiram, os salários foram cortados e os impostos subiram. Estes cortes vão fazer muita gente sair do ensino superior (ES), e para quem já estudou o novo regulamento de atribuição de bolsas, é possível melhorá-lo e colmatar algumas injustiças. Que injustiças? Um artigo prevê que consoante o património que o estudante tenha no banco ou dinheiro que tenha a prazo para poupar, leva uma diminuição na sua bolsa. Esse é um caso de injustiça que pode ser facilmente colmatada. Tem de haver um limite para que um estudante que tenha pouco dinheiro no banco não leve logo um corte de cinco por cento.

Que outras bandeiras são apresentadas pelo vosso projeto? Este vai ser um ano em que se vai discutir mais o financiamento do ES. A Universidade de Coimbra (UC) levou um corte de 7,6 milhões de euros, recebendo agora 80 milhões para 2012, quando está previsto pagar apenas em salários 90 milhões de euros. Se estes cortes continuarem a única solução é que as propinas aumentem. Percebemos a difícil situação do país mas percebemos a difícil situação dos estudantes, e é do lado dos estudantes que temos de estar. Já ocupaste um cargo na DG/AAC de 2010 que deu continuidade à DG/AAC ainda em funções. Há elementos da atual direção-geral que fazem parte da tua lista. Pode afirmar-se que este é um projeto de continuidade? Não é um projeto de continuidade. É verdade que tenho pessoas desta DG/AAC que vão integrar a minha equipa, mas todo o conceito do projeto é diferente do que o que se tem levado até agora. Consideras que é um projeto de rutura? Não é de rutura. Obviamente que conta muito o que foi feito neste ano e o que foi feito no anterior. De que forma é feito o financiamento da campanha? Digo já que não temos financiamentos partidários. O financiamento da campanha tem sido feito sobretudo pelos elementos que pertencem à lista. Mas para quem passa a ponte de Santa Clara, há um outdoor do projeto “Liga-te” numa plataforma que costumava ser ocupada pela JSD…

Mas lá está, costumava ser usada pela JSD, eu nem sequer sabia disso mas aquilo é um espaço onde é possível colocar um outdoor. A DG/AAC vai associar-se à greve geral no dia 24. Como é que vês esta tomada de posição? Esta tomada de posição talvez faça sentido neste momento, apesar de não ser uma coisa virada para o ES diretamente. A verdade é que temos que pensar que os nossos pais estão a levar um grande corte nos seus salários. Isso vai-nos afetar indiretamente. Bolonha e o regime jurídico das instituições do ES (RJIES) foram a luta dos estudantes durante anos e ambos os sistemas estão implementados. Ainda faz sentido lutar contra eles? A autonomia das universidades foi algo que, em certa parte, foi retirado, sobretudo aos estudantes e também à própria universidade e, infelizmente, foi daquelas lutas em que não tivemos resultados. Depois do RJIES, temos uma menor representação nos órgãos da universidade. Acho que não é das lutas mais prioritárias neste momento. E quanto a Bolonha, qual é a tua consideração? Eu acho que os objetivos de Bolonha eram e continuam a ser grandes. Ainda não está tudo conseguido. Bolonha é uma realidade e é com essa realidade que devemos trabalhar, é essa realidade que devemos colocar. Acho que já não faz sentido lutar contra Bolonha. Bolonha é uma realidade com a qual nós temos que, neste momento, trabalhar e fazer de tudo para que as coisas corram bem. Já não é uma luta, para mim, que faz sentido.

E qual é a vossa posição face às propinas? A AAC, nos seus estatutos, defende um ensino gratuito. Eu, pessoalmente, também defendo o ensino gratuito. Quando deixarmos de defender o não às propinas a académica está a abrir um pouco o flanco da luta. Mas a verdade é uma: na realidade socioeconómica em que estamos não faz sentido acabar com as propinas. Quando não, aí é que as universidades fechavam mesmo. Quanto ao provedor do estudante qual é a vossa posição? O provedor do estudante faz todo o sentido que exista na universidade e muitas vezes não tem o devido reconhecimento. Falta alguma divulgação relativamente à existência do provedor do estudante. Ele é alguém que está disposto a resolver os problemas dos estudantes. Qual a vossa posição face à concessão do bar da AAC? Se ganharmos as eleições e a anterior DG/AAC ainda não tiver renunciado ao contrato, comprometo-me a renunciar ao contrato com o InTocha e levar a concessão do bar a concurso público. Gostava muito de, quando se escrevesse o caderno de encargos, estivesse, para além da concessão, a passagem da sala de estudo para o bar de baixo e o bar debaixo para a sala de estudo. O que é para ti um bom resultado eleitoral? Ganhar as eleições. E ir a uma segunda volta? Sejamos francos, obviamente que haverá uma segunda volta. A segunda volta será um bom resultado, mas se ganhássemos à primeira, isso sim, seria um extremamente bom resultado.


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DESTAQUE

LISTA M • “Mexe-Te peLA AAc” • fAbIAn fIgueIredo rafaela carvalho

“A ação social é a continuidade do desastre” Inês Balreira João Gaspar Natural da Suíça, mas criado desde pequeno em Coimbra, Fabian Figueiredo assumese como o candidato pela lista M – “Mexe-te pela AAC”. Com 22 anos, o estudante de mestrado em Sociologia já fez parte de dois projetos do núcleo de estudantes de Sociologia, no pelouro da cultura e pedagogia. Conta ainda com dois anos de mandato na assembleia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e ainda no conselho pedagógico da mesma faculdade. Militante do Bloco de Esquerda, assume a sua candidatura independente do partido. O vosso slogan é “e se este ano não mudássemos só as moscas”. O que querem dizer com isto? É um slogan provocatório, humorístico, é direto e acho que as pessoas percebem o que quer dizer. Mas o nosso slogan mesmo é “Mexe-te pela AAC”. As discussões que têm havido este ano são completamente claras quando há duas listas recheadas de interesse. Uma vai pelo mérito, outra pelo compromisso, e diz que não é de continuidade mas que também não é de rutura, e a diferença do ponto de vista de ideias não existe. Não queremos que mudem só as moscas, queremos que o conteúdo e as práticas mudem. Quais são as principais bandeiras do vosso projeto? Uma das coisas que nós já propusemos e deu algum alvoroço é algo muito simples: o bar da AAC. O contrato vai ser renegociado. Nesse sen-

tido, e indo de acordo com o que é a vontade do administrador dos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (SASUC), propomos algo simples: na próxima concessão os SASUC ficam com a exploração do bar e da esplanada. Isto resolveria uma data de problemas. De onde é que vem o dinheiro quando os SASUC levam um corte de 800 mil euros? O bar da AAC dá muito dinheiro. Porque é que esse dinheiro não há de ser aplicado no fundo de apoio social? Estamos em novembro e o Estado ainda não pagou as bolsas de estudo nem analisou grande parte dos processos. Isto é surreal. Internamente, não se percebe, como é que os SASUC, numa conjuntura destas, feche as cantinas aos fins de semana. É urgente que a associação académica se posicione também sobre o corte do passe social dos estudantes em transportes públicos. Outra proposta: como é que não há uma sala de estudo sem ser a da AAC e como é que a biblioteca geral fecha às 10 da noite e como é que as bibliotecas das faculdades fecham Às 10 da noite? Mais, nós somos contra as propinas. As propinas servem essencialmente para pagar custos de funcionamento corrente. Não é essa a nossa visão do ensino superior. De que forma é feito o financiamento da vossa campanha? Podia dizer que alugava sedes de campanha e que tinha uma pré-campanha fortíssima. Não é isso que vou dizer, porque não corresponde à nossa realidade. O grosso do financiamento será aquele fixado pela comissão eleitoral. Por outro lado temo-nos financiado pelas pessoas da lista. Vamos também fazer um convívio e esperamos que abata as dívidas. Têm apoios partidários? Não temos apoios partidários nenhuns.

Houve uma proposta de coligação de outros movimentos? Houve uma conferência de imprensa em que se falou nisso. Quando se quer acima de tudo aglomerar tem que se apostar muito na forma como se faz. A vontade da maioria fosse que nós apresentássemos o nosso projeto autonomamente e com as muitas pessoas que o compõem. Na apresentação da campanha falaste em segunda volta. É essa a meta a atingir? É uma meta a atingir. A meta mínima era entregar a lista e entregámos. Chegarmos à segunda volta é um desejo que o projeto tem, mas acima de tudo é uma necessidade democrática que a AAC precisa. A AAC enfraquece sempre que os afilhados dos anteriores ocupam os órgãos gerentes. Este clima reprodutivo, de casta, de apadrinhamento, enfraquece a AAC. Os anos de 2010 e 2011 ficaram marcados por grandes alterações na ação social escolar. Qual é a análise que fazes? É a continuidade de um desastre. No ano passado cerca de 20 mil estudantes perderam a bolsa de estudo.

“A AAC enfraquece sempre que os afilhados anteriores ocupam os órgãos gerentes” Dos dados que são públicos cerca de 600 estudantes do ES abandonaram Coimbra. Este governo disse que iria alterar de fundo o regulamento de bolsas de estudo. Nós hoje sabemos que isso não é verdade. Se o ano passado 20 mil bolseiros deixaram de o ser, este ano serão 10 mil, sendo que estes 10 mil representam 30 por

cento. Se este ano estamos assim, e se no ano passado já era mau, para o próximo ainda será pior. Se começaram a cortar pelas bolsas de estudo e do que se pode ler no programa do governo avizinha-se uma motivação para aumentar propinas. Outra vertente da acção social que não pode ser descurada é a caução que os estudantes das residências pagam aumentou, assim como o preço do prato social.

interesse de um banco, de uma empresa de telecomunicações ou até de uma petrolífera estar num conselho geral de uma universidade? Não é pelo prestígio, porque há uma lógica de que quando for para partir o bolo eles querem fazer parte dele.

A direção-geral da AAC (DG/AAC) vai associar-se dia 24 à greve geral. Como vês essa tomada de posição? Vemos com bons olhos, apesar de ter havido uma tendência de alguns dirigentes académicos de querer fazer ilhas em torno dos estudantes e da AAC. Como nós sabemos os estudantes não são ilhas nem as suas famílias. O plano que está em cima da mesa é demasiado malévolo para ficarmos parados.

Qual é a vossa política para com as secções culturais, desportivas e organismos autónomos? Quando se fala de secções desportivas é inevitável falar do Estádio Universitário. É inaceitável ter que se pagar uma taxa para se utilizar o estádio. A nossa política para com as secções culturais é a de boa convivência entre elas, de trabalho conjunto com as suas necessidades e respeito da sua autonomia. Por outro lado, propusemos criar o dia das secções. Um dia em que haja um compromisso entre a AAC e as secções onde elas tomem o espaço público na cidade e das faculdades.

Bolonha e o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) foram lutas dos estudantes ao longo dos últimos anos, mas são sistemas já implementados. Ainda faz sentido lutar contra eles? Apesar de ser um dueto, a coisa vai ser um trio. Vem aí a passagem a fundação e sabemos que este reitor é um grande adepto disso. Passagem a fundação significa carregar cada vez mais na lógica empresarial do ES. Bolonha e o RJIES não são uma inevitabilidade. Não deixa de ser curioso que a própria Universidade de Bolonha discute a sua continuidade em Bolonha. O propósito de Bolonha foi, acima de tudo, reduzir as valências académicas dos cursos. Por outro lado o RJIES foi um golpe de estado no ES, principalmente na democracia. Atualmente há banqueiros e grandes empresários a mandar mais no ES do que os estudantes. Qual é o

Uma das bandeiras de todas as direções gerais é a aproximação dos estudantes à academia. Isso não se tem vindo a verificar. A que se deve? Existe uma descrença por parte de muitos estudantes que não se reveem nas direções-gerais, nas suas tricas e têm desconfiança. Não falo só deste mandato, mas de um avolumar de mandatos. Em relação às AM’s, acabar tarde é uma razão de afastamento. Também a sua divulgação é muito deficitária. Porque é que não se fazem mais vezes ciclos de plenários de faculdade? Os núcleos são também setores privilegiados para essa aproximação. A culpa não é só da AAC. Muitas vezes é dos seus sócios que fazem das AM’s guerras de pavões, de galos e lutas de egos. É uma estratégia política, mas que exclui as pessoas da discussão e que não procura qualquer tipo de discussão para melhorar os nossos problemas.


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DESTAQUE LISTA T • “A ALTernATIvA éS Tu” • André MArTeLo rafaela carvalho

“A ação social escolar não é uma caridade” Inês Balreira Ana Morais André Martelo, 20 anos, é o candidato à presidência da DG/AAC pela lista T, “A Alternativa És Tu”. Nasceu em Coimbra, mas foi na Margem Sul que cresceu. Com filiação no Partido Comunista Português, o estudante de Sociologia assume não ter experiência no associativismo ao nível do ensino superior. Contudo, integrou a associação de estudantes da sua escola secundária. O que te levou a candidatar? Eu não decidi candidatar-me sozinho. Faço parte de um movimento que surgiu na Universidade de Coimbra há alguns anos e, no seio desse movimento, houve uma decisão de concorrer a estas eleições para aos órgãos gerentes da Associação Académica de Coimbra (AAC). De que forma é feito o financiamento da campanha? A nossa campanha, além de se basear fortemente naquilo que é o plafond disponibilizado pela AAC, tem também um contributo generoso dos membros do movimento. Têm apoios partidários? Não. É uma lista que tem gente de várias correntes partidárias, com várias ideologias e com várias perspetivas do mundo. Houve uma proposta de coligação de outros movimentos que constituem agora listas para as eleições da AAC? Houve um convite para conversarmos e construirmos um projeto eleitoral para os orgãos da AAC. Recebemos o contacto e ouvimos o que tinham a dizer. No seio do mo-

vimento, com as perspetivas que já tínhamos avançadas, discutimos o que tínhamos a fazer e a decisão foi de continuar com o nosso trabalho. Quais são as principais bandeiras do vosso projeto? O nosso projeto assenta naquilo que é o nosso lema, sobre uma ligação muito próxima às principais aspirações dos estudantes e às suas preocupações. A luta intransigente na defesa dos estudantes não tem estado à altura daquilo que deveria ser seguido pela AAC. Este eixo fundamental de luta na forma como o ensino superior (ES) está a ser atacado é um ponto de partida daquilo que deve ser a AAC, tendo também a noção da vastidão e diversidade de frentes de trabalho e questões que se colocam a uma AAC com esta dimensão. Os anos de 2010 e 2011 ficaram marcados por grandes alterações na ação social escolar (ASE). Qual é a análise que fazes? As alterações da ASE, tanto no plano direto como indireto, tiveram o ano passado uma implicação brutal. Nos números avançados pelo ministério foram 10 mil bolsas retiradas e 11 mil bolsas diminuídas. Na altura, os partidos que estavam na oposição contestaram a situação. Curiosamente, são esses partidos que estão hoje no governo e fizeram a mesma coisa ou pior. Os números que se avançam por vários serviços da ASE do país é uma retirada de mais 10 mil bolsas, ou seja, num quadro de dois anos, 20 mil bolsas foram retiradas e 11 mil diminuídas. A ASE não é uma caridade ou uma ajuda que o governo dá aos estudantes mais carenciados. A ASE é o apoio social que, no caso dos estudantes, garante que eles tenham condições económicas para estudar.

Qual é a tua opinião sobre o regulamento de atribuição de bolsas em vigor este ano? A opção política que o governo faz é a mesma que o ano passado: a pretexto de uma crise, que não foram os estudantes que criaram, a solução é cortar. Estas regras não servem e queremos outras. Queremos bolsas que vejam a ASE como um apoio social para a frequência no ES, numa perspetiva de um maior alargamento do número de estudantes abrangidos e no valor das bolsas.

processo de Bolonha aplicados é simples, desaplicam-se. As coisas não são impossíveis de mudar. O RJIES trouxe a antidemocracia para dentro das nossas instituições e escancarou as portas do ES à entrada das entidades privadas. O processo de Bolonha é maior que o RJIES, mas também não é impossível de retirar. As compartimentações pedagógicas que foram colocadas por Bolonha são erradas e a divisão em três ciclos é um argumento basilar daquilo que é a etilização do ensino.

A DG/AAC vai associar-se à greve geral no dia 24. Como vês esta tomada de posição? Na assembleia magna (AM) tivemos uma posição simples: a greve geral foi convocada pelas centrais sindicais para os trabalhadores. Os estudantes não fazem greve. A própria CGTP teve a iniciativa de, numa linha inovadora, ter por todo o país concentrações, ações e manifestações de rua para dar espaço aos reformados, desempregados, trabalhadores por conta própria para exprimirem o seu descontentamento face à situação política. Na nossa opinião, a haver uma demonstração de solidariedade por parte dos estudantes é em Coimbra, nunca aquilo que foi feito, que é aderir a uma manifestação nacional que não existe. Mas acresce outra coisa que tem gravidade e as pessoas que apoiaram esta decisão não perceberam: os trabalhadores que vão conduzir os autocarros para Lisboa vão picar o ponto e furar a greve.

Com o termo do processo de Bolonha, qual seria a estrutura dos cursos? O modelo de antigamente ou o de Bolonha adequado? O sistema antigo. Um sistema nacional de ES sem Bolonha. Mas, obviamente, vai ter de haver um processo transitório e discussões profundas.

Bolonha e o regime jurídico das instituições do ES (RJIES) foram lutas dos estudantes durante anos. Ambos os sistemas estão implementados. Ainda faz sentido lutar contra eles? A história da AAC prova que nada é impossível mudar. Com o RJIES e o

Qual é a vossa posição em relação às propinas? É a posição da AAC, o fim das propinas. O ensino gratuito é um princípio constitucionalmente garantido. Em 20 anos houve um aumento de 15 mil por cento. E não deixa de ser curioso que as maiores movimentações de massas aconteceram quando elas eram de seis euros e meio e não de quando eram de mil. Qual é a vossa posição face às prescrições? O sistema de prescrições é injusto porque, em vez de criar condições no sistema do ES para que não haja um arrastar de matrículas sem fazer cadeiras, acaba por criar um entrave económico. Quem tem condições financeiras pode comprar as cadeiras. Quem não pode, acaba por abandonar o ensino. Pensas fazer alguma reestru-

turação ao nível dos pelouros? O pelouro da política educativa na nossa opinião não deve existir. Este pelouro não discute mais política educativa do que discute o pelouro da cultura, ou pelouro do desporto, ou da intervenção científica. Discutir a construção da faculdade de desporto é discutir política educativa. Na nossa opinião o pelouro de polí-

“A divisão do ensino em três ciclos é um argumento basilar daquilo que é a etilização do ensino” tica educativa é um pelouro que fica transversal aos restantes. Qual é a vossa opinião quanto à concessão do bar? O bar é de estudantes e deve ser gerido por estudantes. Se forem eleitos pretendem renunciar o contrato em vigor? Vamos acabar com o contrato o mais rapidamente possível e tentar encontrar uma forma de gestão estudantil. Não vamos acabar com os finos e com os cafés, mas pôr o bar ao serviço dos estudantes, com muito maior envolvimento das secções culturais, dos organismos autónomos e das secções desportivas. O que seria para ti um bom resultado eleitoral? O melhor possível seria ganhar com o máximo de votos possível, se fosse cem por cento era o ideal. Realisticamente isso não acontecerá. E quanto ao conselho fiscal? Eleger é o melhor resultado, sem dúvida.


8 | a cabra | 22 de novembro de 2011 | Terça-feira

EnsinO suPEriOr

Portugal longe das metas da Europa 2020 Inês BaLrEIra

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, participou no último dia da conferência que trouxe especialistas do ensino superior a nível europeu a Lisboa

Os objetivos delineados pela estratégia parecem não estar ao alcance de Portugal até ao fim da década mas Durão Barroso acredita que metas são realistas Camilo Soldado Europa 2020 é o nome dado à estratégia de crescimento adotada pela União Europeia (UE) na próxima década. Como tal, o plano define metas e números a atingir até 2020 em cinco áreas: emprego, inovação e investigação, política ambiental e energia, educação e combate à exclusão social. Quanto à educação, há metas específicas para cada país, estipuladas pela UE, ao nível do ensino superior (ES). Na conferência “Ensino Superior no quadro da estratégia Europa 2020”, que decorreu na Faculdade de Direito da Uni-

versidade de Lisboa (UL) nos passados dias 10 e 11 de novembro, a coordenadora do setor para a política do Ensino Superior na Direção Geral para a Educação e Cultura da Comissão Europeia, Sophia Eriksson salientou a necessidade de a Europa sair da crise através do investimento no ES. Segundo as metas estabelecidas na estratégia Europa 2020, está previsto que, até esse ano, Portugal passe de uma percentagem de 23,5 por cento da população de diplomados entre os 30 e os 34 anos de idade, para 40 por cento. Para a pró reitora da Universidade de Lisboa (UL), Luísa Cerdeira, esse número “dificilmente” será alcançado, “dados os condicionalismos orçamentais que o país está a viver e os cortes que foram feitos no orçamento das instituições do ensino superior público”. Apesar disso, na conferência na Faculdade de Direito da UL, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, considera que as metas da estratégia da UE 2020

“são ambiciosas mas realistas” e que a sua implementação com sucesso “depende dos estados membros”. Durão Barroso anunciou mais financiamento para o ES a nível europeu. “Haverá um investimento de 15,2 mil milhões na educação e formação profissional, o que constitui um aumento de 68 por cento neste tipo de despesa”, afirmou. O presidente da comissão europeia considera que o investimento em capital intelectual é o melhor que a Europa pode fazer para o seu futuro e, por isso, "não é inteligente cortar na educação e na ciência". Não obstante, está previsto, para o Orçamento do Estado de 2012, um corte de 100 milhões na verba destinada às instituições de ensino superior (IES), o que faz com que o compromisso assumido por estas instituições, aquando da assinatura do contrato de confiança em 2010, se torne mais difícil cumprir, pondo ainda mais em risco os objetivos europeus. Luísa Cerdeira lembra que, para além de

faltarem poucos anos para as metas estipuladas pela UE, o financiamento, ao invés do desejável, decresceu. “Não só não se deu esse reforço como, mais grave, vai haver um corte”, lamenta a pró reitora da UL mas garante que, apesar disso, a instituição tem estado a aumentar o número de alunos conforme o acordado no contrato de confiança. “Desde 2010 temos estado a aumentar cerca de 600 alunos ao ano e gostaríamos de continuar a poder fazer esse esforço”, afirma Luísa Cerdeira. Menor taxa de diplomados em relação à média da UE Segundo dados do Eurostat relativos ao ano de 2010, Portugal, com 23,5 por cento da população dos 30 aos 34 anos diplomados, está ainda longe da taxa de diplomados relativamente à média da União Europeia, com esta a situar-se atualmente nos 33,6 por cento. Ainda assim, Portugal não tem das piores percentagens da EU quando comparado com Itália (19,8 por cento), Malta (18,6 por

cento) ou República Checa (20,4 por cento), estando, no entanto, ainda longe dos países no topo da tabela como Bélgica (44,4 por cento), Dinamarca (47 por cento) ou Irlanda (49,9 por cento). O ciclo de estudos que demora menos tempo a ser concluído é o segundo ciclo, pois tem dois anos de duração e seria por aí que a pró reitora da UL veria com maior facilidade um incremento de diplomados. “Se houvesse um grande número de estudantes a procurar os cursos de mestrado” haveria esse aumento, sendo que este ciclo de estudos pode ser frequentado por “ex-alunos que queiram complementar a sua formação”, admite Luísa Cerdeira. Todavia, a mesma antevê que, “nesta conjuntura, muitas pessoas que estariam interessadas em aumentar a sua formação não têm as condições para poder pagar as propinas dessa formação”. Outro dos objetivos prioritários relativos à educação é baixar a taxa de abandono escolar para um nível inferior a 10 por cento.

Mobilização para a greve sem certeza no transporte Já começou a sensibilização para a manifestação da greve geral. Contudo, uma boa resposta à greve por parte dos transportes pode dificultar ida a Lisboa João Gaspar As ações de sensibilização à mobilização para a greve geral por parte da

direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) já começaram. Após conselho internúcleos, realizado a 16, ficou decidido que seriam os núcleos de estudantes a realizar grande parte da divulgação e sensibilização à participação da AAC na greve geral de dia 24. Flyers, cartazes e postais foram distribuídos por todos os núcleos, sendo que nesta semana vão ser realizadas, pelos mesmos e pela DG/AAC, sessões de esclarecimento em aulas. Segundo o coordenador-geral do pelouro da Política Educativa da DG/AAC, Samuel Vilela, a inscrição

para a manifestação deve decorrer também junto dos núcleos. Samuel Vilela não espera a mesma intensidade nem mobilização nesta participação como aconteceu nas últimas manifestações de estudantes no 17 de novembro: “esperamos entre 300 a 500 pessoas”. A DG/AAC ainda não confirmou transporte para Lisboa para o dia 24, sendo que o presidente da DG/AAC, Eduardo Melo, admite que “felizmente há muitos trabalhadores do setor que estão a aderir à greve”, estando de momento à procura de alternativas como o comboio. Contudo,

certezas ainda não há, e a DG/AAC vai esperar até ter uma noção mais concreta das alternativas que se poderão apresentar para o transporte. “Pretendemos que os transportes não funcionem “, afirma o membro da CGTP de Coimbra, António Moreia, comentando que “qualquer deslocação para o Porto ou para Lisboa não faz sentido”. O dirigente sindical, apesar de congratular a decisão aprovada em Magna, apela ainda à DG/AAC e aos estudantes para que “se juntem às centrais sindicais em Coimbra, que possam participar aqui e que se juntem neste grito de alerta

e protesto”, assevera. O membro da comissão executiva da CGTP, Arménio Carlos, vinca a descentralização da manifestação e da greve geral, considerando que “a concentração em Coimbra é um espaço onde os estudantes podem participar de forma mais significativa”. Eduardo Melo defende a presença da AAC em Lisboa por considerar que “numa ação local não haveria uma mensagem política clara e assim faz mais sentido a deslocação a Lisboa, que é onde está o poder de decisão político”. com Daniel Silva


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cultura

Da matemática para o palco “o que é que a ciência pode fazer pelo teatro e vice-versa?” – esta é a questão que o químico e escritor, carl djerassi coloca. a resposta surge-nos com “cálculo”, peça dramatizada pela marionet. por ana duarte e mariana Santos mendes

C

foto cedida PoR MaRionet - fRanciSca MoReiRa

iência no teatro. No início, parece um daqueles casos de amor impossível, que nada têm em comum. Mas alguém disse que “o teatro é algo que humaniza e, desse modo, podemos usá-lo para qualquer assunto”. Carl Djerassi foi esse alguém. Químico, romancista e dramaturgo, Djerassi conta com uma vasta carreira: no seu currículo, encontram-se vários romances, peças de teatro e inúmeros contributos no campo da química, nomeadamente na área da conceção -“Pai da pílula” não será uma nomenclatura que vem ao acaso. Mas como pôr Isaac Newton e Gottfried Leibniz, importantes vultos da ciência, num palco? Primeiro, é preciso fazer uma retrospetiva histórica: os dois cientistas que afirmam ser os inventores do cálculo entraram em conflito, pois ambos defendiam ser os verdadeiros criadores da fórmula e reclamavam a descoberta para o seu país. A discussão requereu uma reunião dos elementos da Royal Society de Londres – da qual Newton era presidente. Leibniz nada podia fazer contra isso e muito menos contra o seu caráter manipulador e vil. Djerassi escolheu escrever sobre esta controvérsia, não por ser sobre factos científicos reais, mas sim porque, para além de abordar uma famosa invenção que revolucionou o mundo da ciência, “queria mesmo escrever sobre Newton” e sobre “as pessoas que se deixaram manipular por ele”. É aqui que entra a humanização da ciência pelo teatro, retratada na peça “Cálculo”. Tudo começa em Londres, no ano de 1795. Dois amigos e aficio-

Joana Cabral Inês Filipe Partindo das ambições, das preocupações, das ansiedades e das pulsões do grupo de atores, o projeto vencedor visa “criar textos originais”, conta Rodrigo Santos, natural de Palmilha Dentada, Porto, e vencedor do Concurso de Encena-

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cinema alemão ciclO de cineMa fluc enTrada livre

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“o roSto”, de inGmar berGman cineMa fnac • 21h30 enTrada livre

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a belle Époque braSileira colóquio internacional cOlóquiO fluc das 18h às 20h • enTrada

livre

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horror TeaTrO TaGv • 21h30 de 5 a 7,5€

Parte da ação da peça decorre num ambiente que retrata a Royal Society de Londres nados do teatro, Vanbrugh (Filipe Eusébio) e Cibber (Gil MAC), discutem uma nova dramatização a apresentar em Inglaterra. Vanbrugh coloca as cartas na mesa e propõe uma peça sobre uma situação real, que envolvia dois grandes nomes da ciência daquela altura. Cibber, qual ator atrevido e ambicioso, entusiasma-se com o texto. Os dois começam a representar, em jeito de experimentação. E chegamos ao conceito principal da peça de Carl Djerassi: “uma peça dentro de uma peça”. À medida que Vanbrugh e Cibber vão representando e dialogando sobre o texto, outras personagens surgem – as verdadeiras personagens de “Cálculo”: Isaac Newton (Filipe Eusébio), Gottfried Leibniz

(Gil MAC), Lady Brasenose (Andreia Damas), Dr. Arbuthot (Rui Guerreiro) e sua esposa, Sra. Arbuthnot (Helena Freitas). A história central gira à volta da reunião do comité da Royal Society, onde um simples matemático, Moivre (Filipe Eusébio) e um diplomata (Gil MAC) se juntam, para decidir o veredito: mas afinal, quem foi o inventor? Na sala Carlos Ribeiro, vive-se um verdadeiro ambiente aristocrático, digno de um ido século XVIII. A música é uma constante ao longo da dramatização, marcando até vários momentos de tensão entre os protagonistas. José Valente, o músico, foi o responsável por toda a criação musical, autêntico revivalismo da música clássica.

“Cálculo” e a marionet Pelas mãos da companhia de Coimbra, marionet, chega-nos “Cálculo”, estreada a 17 de novembro, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. A orientar esta intriga encontra-se o encenador Mário Montenegro, que é simultaneamente o tradutor da peça para português. O elo entre a ciência e o teatro é visto como algo a explorar e Mário afirma que “é algo [a ciência] importante para as pessoas, por isso deve estar no teatro”. Filipe Eusébio, um dos atores, confirma: “num mundo no qual, onde cada vez existem mais aspetos de multidisciplinaridade, mal será se as artes e as ciências não se conseguirem cruzar”. E em “Cálculo”, esse cruzamento traduz-se num sucesso.

“Apontar ao intérprete enquanto criador” das treze propostas apresentadas, foi a de rodrigo Santos que venceu o concurso de encenação do citac, que decorreu de 21 de setembro a 30 de outubro

cultura por

ção do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC). A proposta de encenação foi sobretudo “apontar ao intérprete enquanto criador”. O conceito passa, assim, pela construção por parte do próprio corpo de atores do CITAC, sendo esta uma “proposta mais sensitiva que propriamente de história ou de teatro convencional”. Segundo Margarida Cabral, membro integrante do CITAC, Rodrigo foi escolhido visto que o seu projeto procurava criar uma personagem do nada para depois a explorar. Margarida refere ainda que o CITAC tem preferência por encenadores que tenham alguma experiência, “porque queremos arriscar, mas também não podemos arriscar tudo”. Seduzidos por outras propostas também bastante arrojadas e aliciantes, conseguiram realizar a

difícil tarefa de escolher um projeto com o qual trabalhar. No entanto, não deixaram completamente de parte algumas das restantes ideias que poderão vir a ser abordadas pelas direções vindouras. Tendo já sido realizado nos anos setenta, oitenta e, mais recentemente, em 2008, o lançamento deste concurso tem surgido quando o grupo sente necessidade de realizar novas experiências no âmbito da expressão corporal e criativa. A hipótese de participar nesta iniciativa foi aberta a “toda a gente que tenha ligação ao teatro e que seja encenador”, inclusive estrangeiros. Desta vez, a adesão surpreendeu pela positiva, pois já tinha acontecido noutros anos não existirem mais que duas candidaturas. Após realizar um ‘workshop’ de interpretação com esta equipa tea-

tral académica, Rodrigo Santos teve conhecimento deste concurso através de um colega pertencente ao círculo. Premiado com 1500 euros, estada e alimentação, o encenador começou no dia 7 deste mês a trabalhar com o CITAC, mais especificamente com o grupo que foi selecionado no ano passado, aquando do curso bienal de iniciação ao teatro. Em termos de expetativas, esperava apenas “vir trabalhar com gente que quisesse trabalhar, que me desse liberdade para executar as minhas propostas”. Consciente de que não encontraria uma estrutura profissional e com intenção de dotar os atores de ferramentas criativas, está “contente com a experiência”. A apresentação deste projeto fora do comum está prevista para fevereiro do próximo ano.

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Por Nicole Inácio


10 | a cabra | 22 de novembro de 2011 | Terça-feira

CidAdE

Comerciantes da Praça do Comércio querem expansão da sua atividade ana patrícia abreu

Comerciantes de rua da Praça do Comércio vivem conjuntura difícil. Pedidos para venda noutros locais da cidade sem resposta podem ser a causa do número reduzido de vendas Maria Rita Loio Flávia Cid Nunes O comércio que há anos servia para animar as ruas da Baixa de Coimbra vê-se agora perdido nas entrelinhas das burocracias do poder local. Os raros transeuntes que cruzam a praça notam-se alheios ao colorido das barracas destes artesãos. Não se vê ninguém a parar, curioso para comprar. Nos dias em que não chove, o artesão Jorge Medina marca presença na praça com a sua banca de artigos artesanais. Na posse da licença de venda, que faz questão de mostrar, sente-se no direito de protestar “devia poder trabalhar em completa liberdade nos roteiros turísticos”. O artesão defende que este tipo de comércio devia ser feito também nos “locais históricos”. Jorge reivindica que faz “parte dessa história”, e o artesão queixa-se ainda dos parcos apoios dados pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC), acusando os dirigentes locais de não “dignificar e promover o artesanato”.

Comerciantes preferem a Ferreira Borges Também a vendedora de bijutaria e artesanato, Maria Farag se queixa da ana patrícia abreu.

falta de apoio dado pela CMC. Maria conta que há nove anos vendia as suas peças na Rua Ferreira Borges, e é quando recorda estes momentos que é visível a sua indignação - “lá ainda se vendia, aqui na Praça quase não passa ninguém”. A artesã revela que já se tentou, por diversas vezes, pedir à CMC para voltar à Ferreira Borges, mas o pedido foi recusado. O pintor de retratos e aguarelas, Anildo Santana, revela que o objetivo dos comerciantes “é voltar para a Ferreira Borges, mas a CMC não nos dá autorização”. Quando questionado sobre a existência de diálogo com a câmara, Anildo confessa que “com a CMC não há conversação possível”. Pelo contrário, a responsável pelo Gabinete de Relação do Munícipe da câmara municipal, Ana Malho, declara que “não tem conhecimento de nenhum pedido para venda noutros locais”. Ainda assim, revela que este tipo de comércio deve ser regulamentado e faz referência ao Regulamento de Venda Ambulante do Município de Coimbra, que define os locais em que a realização do comércio de rua é, ou não, permitida. Contudo, a responsável do gabinete concorda com a expansão dos vendedores para outras partes da cidade, o que permite “a dinamização de zonas não tão movimentadas”. Ana Malho adianta a informação de que novos regulamentos serão estipulados para o próximo ano, “por imposição da diretiva da comunidade europeia”. De acordo com a postura da câmara está o presidente da Agência para Promoção da Baixa de Coimbra (APBC), Armindo Gaspar, que sublinha a necessidade de “haver critérios e regras” na venda ambulante em Coimbra.

“Agora os chineses são donos de Coimbra” A forte concorrência por parte do comércio chinês também é uma questão que preocupa os artífices - “agora os chineses é que são donos de Coimbra”, protesta Maria Farag. Jorge Medina revela também que não tem condições “para competir com o material chinês” e faz questão de frisar que a qualidade dos materiais é diferente. “Preferia quantas vezes estar na (rua) Ferreira Borges. Aqui o negócio é muito fraco, tenho dias em que não vendo”, expõe Maria Farag, que apela à CMC que reveja a situação dos artesãos da Baixa. Jorge Medina atenta também para outro problema - “a câmara municipal mistura a venda ambulante com o artesanato”, o que segundo o artesão são coisas “completamente diferentes e com estatutos diferentes”. Recorda que deve “haver uma maior preocupação do poder local em promover o trabalho dos artesãos”. Luís Fernandes, proprietário de uma loja de antiguidades na Baixa de Coimbra, manifesta a sua solidariedade com os artesãos e refere que é “urgente” resolver este problema. Luís afirma que a situação atual de “esconder os comerciantes num só local, não dignifica o espaço da cidade, nem as pessoas.” Com reivindicações sem eco, é então que ao anoitecer se arrumam as bancas repletas de artigos que mais uma vez sobreviveram o dia, mirados por apenas um ou dois visitantes apressados, que na sua rotina diária atravessam a vazia Praça do Comércio, deixando os comerciantes a contas com as parcas moedas que lhes aconchegam os bolsos. com Ana Morais

ana patrícia abreu

Os comerciantes querem voltar à rua Ferreira borges, onde vendiam mais

Demolição em embargo nos Jardins do Mondego O Empreendimento Jardins do Mondego está há 13 anos por concluir. Ainda sem a legislação completa, uma proposta de demolição de um lote da urbanização foi aprovada Joana Guimarães Margarida Pais Com metade dos lotes completos e a outra metade ainda em tijolo, a Urbanização Jardins do Mondego apresenta-se como “o pior cartãode-visita para a cidade”, expressão usada pelo arquiteto Rui Lobo, docente da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Coimbra. Entre o sossego do Parque Verde e agitação da entrada da cidade, sobressai a estagnação daquele que poderia

ser um empreendimento de luxo e de maior atratividade para Coimbra. A proposta da demolição total do lote um foi feita pelo atual promotor da urbanização – a Fundimo Promovest, sociedade anónima gestora de fundos de investimento imobiliário. A alteração proposta sugere também a cedência da cave do lote 18 à CMC para a criação de um estacionamento público. O engenheiro da divisão do Urbanismo da CMC, Rui Ernesto Figueiredo, assegura que este é “destinado a apoio ao Parque Verde do Mondego”. Contra esta demolição está Rui Lobo, que fez chegar à CMC uma tomada de posição a contestar esta demolição, que apelida como “um disparate” e que corre o risco de “alterar o equilíbrio do conjunto”. Para o docente, é possível “contornar-se” a situação, ao criar “um corredor de ligação entre o Botânico e o Parque Verde por outras vias”.

Rui Lobo acredita que o edifício “tem uma presença urbana muito forte” e diz não entender como é que a questão da construção de lotes em zona verde “não foi vista logo à partida”. O início da urbanização remonta a 1998, quando é aprovado na Câmara Municipal de Coimbra (CMC) o projeto para a construção de um empreendimento com vista privilegiada para o Rio Mondego. Mas, já depois de começadas as obras é detetado um problema que impede o avanço do projecto inicial. O Plano Diretor Municipal (PDM) não foi cumprido, isto é, a construção foi feita parcialmente em zona verde. Segundo Rui Ernesto Figueiredo, foi considerado em sede judicial que “parte do primeiro e do décimo oitavo lotes da urbanização colidem com um corredor de zona verde previsto no PDM”. Neste momento, o representante do Urbanismo da CMC adianta que “está em curso um pedido de alteração ao lotea-

mento, cujo desenho já foi aprovado pela Câmara, e que prevê a demolição do edifício do lote um.” Ainda assim, o técnico refere que “falta ainda a aprovação da comunicação prévia das obras”. Com uma estagnação que dura há treze anos, quando se questiona o seguimento na construção dos lotes, a CMC justifica o facto de tal ainda não ter acontecido devido ao processo judicial subjacente. Segundo Rui Ernesto Figueiredo, o processo judicial em curso “é neste momento o único impedimento para se retomarem as obras”. Assim, como há um processo em instâncias superiores, não é possível a “concessão de autorizações de utilização dos imóveis ou das suas fracções”, como assevera o responsável do Urbanismo. Até ao final da edição, a redação do Jornal A Cabra tentou contactar o proprietário da urbanização, a Fundimo Promovest, mas não obteve qualquer resposta.


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CidAdE Luta ao tráfico de droga

No Planalto há quem lute pelo seu bairro Sem fazerem questão de apresentarem o Planalto como uma zona de risco e de insegurança, os moradores falam dos seus bairros como um local de vivências partilhadas. Para essa partilha contribuiu a Planalto Seguro, um conjunto de instituições que promovem “mais segurança e menos tráfico”. Por Ana Morais

O

peso da noite sente-se no Bairro António Sérgio. É domingo, dia de família, de descanso. Mas por estes lados isso não se sente. Para quem chega, a paz é enganadora, a hospitalidade de um conjunto de moradores do bairro contrasta com a realidade de quem já não suporta a vida sem estar sob o efeito de estupefacientes. Vítor Oliveira, Joaquim Coelho e António Rodrigues servem de anfitriães desta crua visita: são moradores do Bairro e não têm vontade de esconder a dura realidade. Pelo contrário, pretendem denunciá-la para tornar o seu mundo, o seu bairro, num local melhor. Não querem mostrá-lo como um bairro de miséria, como um bairro de droga. Querem apenas mostrá-lo como a sua casa, onde vivem o seu dia-a-dia. A postura de naturalidade contrasta com o vício de dois indivíduos que se escondem, mas que deixam notar aquilo que fazem. Enquanto um coletivo assiste, alheio, a uma partida do Sporting na sede da associação de moradores, outros, ao lado, drogamse. Para mudar o estigma de zona perigosa a esta região de Coimbra (Ingote, Rosa, António Sérgio e Monteformoso), juntaram-se associações de moradores e outras instituições preocupadas em tornar esta realidade um pouco mais suave numa parceria denominada Planalto Seguro. Planalto, nome pelo qual é conhecida aquela área e Seguro, porque pretende promover a segurança e a melhoria de qualidade de vida de um conjunto de pessoas que por lá vivem. Segundo o vereador Francisco Queirós, responsável pela Promoção da Habitação do da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), esta parceria, criada em 2008, tem como principal missão “agir sobre problemas de ordem pública, o tráfico e o consumo de estupefacientes”.

A equipa de rua do IDT tem um papel “fundamental” Vítor Oliveira, presidente da Associação de Moradores do Bairro António Sérgio (AMBAS), local em que também se localiza a sede da Planalto Seguro, faz questão de sublinhar, mais que uma vez, a importância que assume a equipa de terreno do Instituto de Droga e To-

jOaquim cOelhO

xicodependência (IDT) neste combate por “mais segurança e mais higiene”. Contudo, com o novo orçamento do estado para 2012, o IDT pode vir a ser extinto. Joaquim Coelho, morador do Bairro António Sérgio vê esta extinção como uma hipótese certa, mas faz questão de lamentar. Também Vítor Oliveira encara o papel da equipa do IDT como “fundamental” e não imagina o bairro sem o trabalho que tem vindo a ser realizado pelos técnicos do instituto. O vereador Francisco Queirós vai mais longe e confessa o receio de se poder dar “um retrocesso enorme” no seio desta comunidade. Ainda assim, o responsável pela delegação do Centro do IDT, Joaquim Borges, conta que este organismo está a passar apenas por “uma reestruturação ainda por concluir”. Mas adianta que, “até março de 2013, está garantido todo o trabalho da Planalto Seguro”.

A Planalto Seguro pretende agir sobre problemas de tráfico e consumo de estupefacientes Polícia de proximidade ajuda a “mais segurança” Na equipa constituída para acompanhar diariamente a vida das cerca de 800 famílias que vivem no Planalto, podem contar-se psicólogos, técnicos de serviço social e sociólogos. No entanto, é no trabalho da polícia de proximidade que os moradores reconhecem maior mérito. “Os polícias conhecem o bairro de uma ponta à outra e trabalham muito com os outros parceiros”, conta o morador António Rodrigues. Vítor Pereira faz questão de, quando se fala nesta polícia que pretende a aproximação das entidades de segurança aos habitantes da zona, homenagear o inspetor Sineiro, o agente Lopes e o subcomissário Pratas. O presidente da AMBAS considera que estes têm desenvolvido “um trabalho extraordinário”. No entanto, quando se fala em segurança, os moradores não se inibem

– “a ação da polícia municipal é praticamente nula”, protesta António Rodrigues. A troca de seringas é também uma das iniciativas implementadas pela Planalto Seguro e que, segundo Joaquim Coelho, se tem feito notar. O morador reconhece que “há quatro, cinco anos, se viam mais vestígios” destas práticas. A zona verde, por trás da AMBAS, era “uma sala de chuto”, contam os moradores. Porém, agora, com o trabalho do IDT, já não são visíveis os sinais de um espaço que antes era repleto de vícios. As reuniões da Planalto Seguro realizam-se periodicamente, com representantes de todas as instituições. O papel da Cáritas Diocesana também se revela de “forte importância”, apesar de o seu trabalho se pautar por uma vertente mais social, com a distribuição regular de alimentos entre as famílias. A escolha do local da sede da Planalto também não é ao acaso, pois um certo secretismo e cautela são tidos em conta. Vítor Pereira conta que os traficantes não têm acesso a este local, o que permite às forças de segurança manterem o anonimato e “dar continuidade ao seu trabalho”.

Balanço “muito positivo” Quanto ao balanço feito dos três anos da parceria Planalto, todos concordam que é “muito positivo”. O vereador Francisco Queirós afirma que se notou “consideravelmente a melhoria da segurança dos bairros”. Esta ideia é apoiada por José Braga, da Associação de Moradores do Bairro da Rosa, quando afirma que “é um trabalho que tem sido muito bem feito” e acrescenta que “houve grande recetividade por parte dos moradores”. O peso da noite ainda continua. Mas a regularidade destas lides e destas práticas não é importante para quem habita estas ruas. Os moradores não se queixam de insegurança, nem de tráfico. Contam essas histórias, porque querem denunciar e combater estas práticas, mas não gostam que a zona onde cresceram e vivem seja associada apenas a droga ou insegurança. “Esta zona é calma”, suspira Vítor. Ainda assim, queixa-se da falta de apoio da CMC, que “não tem investido aqui um cêntimo”.

a troca de seringas é uma das iniciativas implementadas pela planalto publiciDaDe


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CASAS DEgrADADAS

C a Em dE

Casas sem pessoas, pessoas sem casa; casas p assola a(s) cidade(s) e leva muitos dos seus int problema moderno das cidades paira sobre Co lejo que, alojado na cuidada fachada, exibe uma inscrição que a distingue: “Nesta casa, onde morou José Régio, nasceu em 10 de março de 1927 a Revista Presença” - uma homenagem da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), no mesmo dia em que eram passados 70 anos. Benilde não sabe o que aquilo significa: “na altura, fizeram obras [na fachada] e ninguém me disse nada, até tive que andar a comer fora”. Enquanto isto, algures na rua paralela, umas mãos negras, com aliança, abanam numa janela. Pode dizer-se que está ali um problema entre mãos. É uma tira de persiana, solta, que alguém está a tentar desesperadamente reencaixar. E nem mesmo sobre todas as casas velhas, degradadas e que se mantêm erguidas apenas por suportes de ferro, casas que moram bem perto da sua, Benilde consegue formular uma opinião. “Se as pessoas têm as casas fechadas, elas é que mandam”. Até porque para tratar da sua casa, onde, por dentro, “estava tudo muito velho”, Benilde teve que pôr do seu dinheiro. Ao fundo da rua, cai, por fim, de uma altura de dois andares, o pedaço de persiana que parece não encaixar em lado algum, afinal. E com ela cai também o caixilho que a albergava. Só na Baixa da cidade, são perto de oito mil os fogos vazios e cerca de 180 os prédios muito degradados

B

enilde Santos não diz a idade, mas diz que mora na casa em que se encontra há mais de 50 anos e que os seus filhos já contam mais anos que a estadia na casa. Benilde tem até idade para já ter morado no Arco da Traição, si-

tuado naquela memória a que agora se chama Velha Alta, onde, como diz, tanto gostava de ver os estudantes. Sobre a demolição que sobre ela se abateu, iniciada em 1940 para dar lugar à cidade universitária, Benilde não consegue formar uma opinião.

Se, por um lado, gostava do sítio, aceita que tenha sido para benefício dos estudantes. Ainda mora na Alta da cidade agora, na Rua das Flores. A sua casa seria mais uma das muitas que por lá se amontoam, não fosse um azu-

Um plano urbano incongruente Com a demolição de parte da Velha Alta, veio também um novo paradigma urbano para Coimbra. “Nessa altura davam casa em Celas”, lembra Benilde Santos, que, ainda assim, preferiu ficar pela mesma zona. O Bairro de Celas é só

uma das construções feitas, à época, para albergar aqueles habitantes, onde ainda permanece o “bairrismo” que se levou da Alta. Afirma o arquiteto José António Bandeirinha que “identificamos o património como aquilo que é a memória coletiva” - e talvez se justifique, assim, que aquele património seja já só uma memória. Hoje, os problemas da Alta continuam a ser patrimoniais, mas de um outro tipo. A sobrevivência vai-se fazendo pela proximidade à universidade e a Alta vai bebendo da cultura dos estudantes, mas as ruas contam a história do abandono que as casas vão vendo perpetuar-se. Já a Baixa da cidade vive uma situação dramática, quase inversa. Desabitada e debilitada, ela é motivo de preocupação por parte de muitos e é o exemplo da problematização moderna da urbe: o abandono dos centros históricos e a fuga da população para as periferias, com todas as consequências que tal fenómeno acarreta. Explica José António Bandeirinha que esta tendência, “fortemente acentuada nos últimos anos”, para além de levar a que as populações se fixem em zonas periféricas, “mal servidas pelas redes urbanas de mobilidade, esgotos, eletricidade ou energia”, quebra com o “protocolo urbano que é a urbanidade” e promove “o esvaziamento total dos centros”. “A verdadeira sustentabilidade está na forma como ocupamos os centros, na forma como nos aglomeramos, como gastamos menos dinheiro com densidade [populacional] ”, garante. E mais afirma não acreditar


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CASAS DEgrADADAS

asa

E ninguém

as por requalificar e deixadas ao abandono de quem, um dia, já precisou delas. Toda uma lógica de abandono que intervenientes consigo, numa espiral contrária ao desenvolvimento que urge ser invertida. O fantasma do Coimbra. E mora nestas casas. Texto por Inês Amado da Silva. Fotografia por David Barata e Ana Filipa Silva em quem hoje diz que a inversão deste processo será “natural”. Mais que para a Baixa ou para a Alta, os números do abandono são alarmantes para Coimbra. Apesar de os dados definitivos disponíveis serem ainda os do Censos 2001, o vereador da habitação diz que no concelho de Coimbra existiam, então, cerca de sete mil 668 fogos devolutos – “creio que hoje serão muitos mais. Além disso, é muito provável que um número considerável de fogos esteja em risco de ruir”, assegura. “Há esta grande incongruência de um país com muitas casas vazias: os proprietários não cuidam dos seus bens”, lamenta Francisco Queirós. Situação mais grave verifica-se quando “algumas destas casas até nem estão vazias, estão em péssimo estado e vive lá gente”.

Prioridade: reabilitar os centros urbanos Apesar de reconhecer que o problema se espalha “um pouco por todo o lado”, José António Bandeirinha é da opinião de que, em Coimbra, “com especial cuidado, o problema da habitação não está isolado do problema da cidade”. Os números falam por si: são quase três mil os edifícios construídos até 1919 e quase quatro mil entre esse ano e 1945. Só na Baixa da cidade, são perto de oito mil os fogos vazios e cerca de 180 os prédios muito degradados. “Quando estão em risco de ruir, a Câmara vai intervindo”, explica Francisco Queirós, uma vez que no domínio do parque habitacional privado as competências da CMC ficam reduzidas, e “só quando

os inquilinos vêm queixar-se de condições de vida que não existem, e aí podemos obrigar a fazer obras coercivas”. Ironicamente, um dos mercados diretamente relacionados com esta decadência é o da construção, que “agora abrandou, porque está em crise”, constata Francisco Queirós. Para o vereador, basta dar uma volta pela cidade para saber que, neste momento, “há muita casa nova vazia - sendo que nos loteamentos mais caros, nem tanto”. “É um pouco estranho este mercado imobiliário”, analisa, porque “a verdade é que se continua a construir, sendo que também não se veem grandes alterações a nível dos preços”. O mesmo se verifica nas situações de arrendamento: numa cidade em que 12 776 fogos se encontram arrendados ou subarrendados, grande parte deles por população estudantil, continuam a verificar-se “as rendas mais caras, pelo menos no centro do país”, assevera o vereador” – “não é por acaso que a população de Coimbra, nestes Censos, poderá baixar ligeiramente”, garante. “A cidade está com problemas gravíssimos neste momento, porque apesar de se falar muito em sustentabilidade física dos edifícios, a verdadeira sustentabilidade vê-se na maneira como reabilitamos espaços e num plano territorial”, garante Bandeirinha. Assim, medidas políticas acentuadas de negociação das condições do mercado habitacional e de incentivo fiscal para quem queira habitar os centros revelamse, aos olhos do arquiteto, essenciais para evitar um cenário de transfor-

Reabilitação como potencialidade

mação, que parece aproximar-se: “será difícil que a cidade possa aguentar e manter-se como estrutura urbana que é e que sempre foi, há mais de dois mil anos”.

Soluções modernas para a Baixa Na génese de uma possível solução está a Coimbra Viva – Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU), criada em 2007 com o intuito de intervir prioritariamente na Baixa. O presidente do conselho de administração da SRU, João Paulo Craveiro, declara que a prioridade é, neste momento, a recolha de financiamento para o Fundo de Investimento Imobiliário e a adesão de novos proprietários dos edifícios. O engenheiro explica que as alterações na lei da reabilitação urbana obrigaram a “refazer todo um trabalho”, e que os projetos em curso para as áreas de reabilitação que vão agora ser definidas – “desde a Rua da Sofia até ao rio e desde a Portagem até ao Arnado, grosso modo” – deverão estar prontos nos meses de fevereiro ou março. “Estamos a fazer o tipo de reabilitação que vá chamar moradores novos para a Baixa”, afirma João Paulo Craveiro. Além disso, como a reabilitação da Baixa de Coimbra não pode dissociar-se de uma renovação do comércio, o engenheiro afirma “estar-se a falar com cadeias internacionais para que venham e estabeleçam os seus próprios pontos de venda, lojas novas nessa área”, aplicando o conceito de “lojas âncora, que só por si garantam um afluxo de clientes muito grande para as lojas à volta”.

“O património é a cidade em si, que tem pessoas em prédios e em casas, e que tem cultura. É preciso cuidar de tudo isso”, salvaguarda Francisco Queirós

“Vivemos num país onde há muitas casas vazias e muita gente sem casa”, observa Francisco Queirós. O também responsável pela habitação social vê, na reabilitação da cidade, uma solução para o problema da falta de habitações da CMC, salientando ainda que a reabilitação, “numa cidade que se está a candidatar a património da humanidade, só faz sentido”, porque “a conseguir sê-lo, vai atrair muito mais turistas”. E ressalva ainda que “o património não é apenas os edifícios classificados, ou os monumentos: é a cidade em si que tem pessoas em prédios e em casas e tem cultura, e é preciso cuidar de tudo isso”. Entretanto, os inúmeros gatos vadios, os ratos, os lixos, os vidros partidos, os escombros acumulados e a arte de rua continuam a ser rastos visíveis de uma cidade cuja memória e o que dela resta pedem mais cuidado. Benilde Santos, que é originalmente do Lorvão, confessa sempre ter gostado da cidade e de ter querido vir morar nela desde nova. Em frente da sua casa está agora alojado um hostel, bom exemplo dinamizador da zona. “Antes, moravam aqui estudantes, e juntavam-se muitos num quarto porque a renda era de 20 escudos”. Benilde conhece os estudantes, tem estima por muitos dos que são seus vizinhos. Conta que, quando a casa em frente sofreu obras para se transformar num hostel, um deles voltou à sua velha residência e pediu para entrar. Quem estava nas obras terá questionado a sua intenção. “Porque eu devo o que sou a esta casa”.


14 | a cabra | 22 de novembro de 2010 | Terça-feira

DESPOrTO Prolongamento HÓQUEI EM PATINS

Segue a difícil caminhada da equipa da secção de hóquei da AAC na segunda divisão sul do Campeonato Nacional. À segunda jornada, os estudantes saíram do seu reduto, no sábado passado, com um ponto a mais, após o empate por 2-2, frente ao CA Campo Ourique. A briosa ocupa o antepenúltimo lugar, imediatamente acima dos dois lugares de despromoção, com dois pontos que, para já, vão sendo preciosos.

Cultura do CorPo

No espelho do ginásio, reflexos de músculos e egos Entre as pessoas que vão ao ginásio, cresce o número daqueles que querem crescer. E crescem-lhes músculos, braços, peito e pernas. Nestas coisas, há sempre quem não se importe de dar a cara, não fosse esta uma questão de estética. O ferro a levantar auto-estimas. Por Fernando Sá Pessoa e Fábio Santos

“P

O efeito chicotada psicológica faz-se sentir. Nova vitória, a segunda consecutiva, após péssimo início de campeonato. Em jogo para a sexta jornada do campeonato, a equipa da secção de basquetebol da AAC venceu o Vitória de Guimarães por 8365. Um bom resultado, naquele que foi o último teste antes do desafio com o Benfica. Os estudantes seguem, ainda que provisoriamente, no 5º posto.

õe mais cinco”, ouve-se junto à estrutura metálica que serve para exercitar os ombros. O rapaz, que o diz ao colega, alterna o “puxa e relaxa” das manetas com suspiros de esforço. Recusa, por enquanto, falar. O objetivo primeiro é o conforto do espelho, quando este inflama reflexos de músculos e egos. Nos tempos que correm, como diz Tiago Gonçalves, instrutor no Nelson Gym, em Coimbra, “a imagem é uma mais-valia para tudo”. E, confessando-se praticante deste tipo de exercício, admite que, com o passar do tempo, se “torna num vício”. Rui Faria, um dos fundadores da secção de halterofilismo da Associação Académica de Coimbra, autointitula-se, sem pejo, como “maluquinho dos pesos”. “Hei de vir de bengala”, diz, risonho, sobre o prazer que afirma ter quando faz musculação.

fU T E B O L

Olhar sociológico

A equipa da secção de futebol da AAC precisava, após a comprometedora derrota em Febres, de uma vitória caseira, frente ao Penelense. Porém, a Académica-SF sofreu mais um desaire, vendo o adversário colocar-se quatro pontos à frente. Os estudantes, à procura de retomar os bons resultados, têm na deslocação à Vinha da Rainha, na próxima semana, a oportunidade. Apenas seis pontos os separam do seu sétimo lugar ao primeiro.

A atração pelas barras de ferro, árvores carregadas de metal, também é estudada pela perspetiva sociológica. O professor catedrático na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEF), Rui Adelino Gomes, tem particular interesse, não fosse esta área objeto das suas investigações.

BA S QU E TE B O L

São “noções contraditórias”, observa. A atividade física, que se supõe ser típica das formas tradicionais de lazer, acaba por se transformar, não raras vezes, em excessivas cargas de peso para o corpo, próximas do desporto de alta competição. “Afastamonos, pois, de uma noção de bem-estar e saúde”, explica o professor, “aproximando o sujeito de uma ascese, ao invés de o aproximar do prazer”.

“O excesso de exercício físico e a apatia perante o mesmo são filhos da mesma cultura” Praticante assíduo de musculação, Rui Faria diz ser “impensável” ir ao ginásio apenas duas vezes por semana. Refletindo sobre o assunto, admite que deveria, a certa altura, enveredar por um “regime de manutenção”. Porém, não é essa a realidade espelhada nas suas palavras: “gosto de ir todos os dias e de carregar um pouco mais”. As razões são compreensíveis para o mais incauto observador. Os valores das sociedades contemporâneas legitimam, com normalidade, esta

conduta de atividade física. Vivemos num tempo de “narcisismo social”, pelo que algum exagero “não pode ser considerado como comportamento desviante”, afirma Rui Adelino Gomes. “O excesso de exercício físico – vigorexia – e a apatia perante o mesmo são filhos da mesma cultura”, sintetiza o mesmo.

Falta de informação Vem de há muito, dos tempos da Grécia Antiga, o culto do corpo. E, com o avançar do tempo, avançam os métodos. “Nós não descansamos antes de virmos treinar e, muitas vezes, nem temos a possibilidade de comer corretamente”, argumenta Joaquim Carvalho, trabalhador na indústria farmacêutica e praticante de musculação. Sobre as doses diárias de suplementos alimentares que faz, esclarece que as “drogas ergogénicas que, ao contrário dos esteroides, não fazem mal, tomam-se antes e depois do treino”. O problema, muitas vezes, é a desinformação. Por ser muita, o senso comum pode dar origem a sentenças de olhos vendados. Entre as proteínas e os esteroides anabolizantes, o caminho pode parecer curto. Todavia, diz quem sabe, são coisas diferentes, e as consequências distintas. Porque não apressar o alcance ao

corpo perfeito, se nisso não houver perigos?

Os riscos dos esteroides A dependência do ginásio é assumida por Joaquim, para quem o amor pelo ferro tem uma vintena de anos. Rodado nestas andanças, o quadragenário não deixa de alertar para os perigos de esteroides anabolizantes, que admite já ter ingerido: “podemos adquirir problemas ao nível hepático, renal, testicular, calvície, etc”. Contudo, recorda: “tornou-se viciante porque o meu ego obrigou a isso”. No fundo, há uma espécie de troca de estabilidade emocional, que reconhece ficar melindrada, por uma melhor aparência ou maior desempenho muscular. É fácil cair na tentação do aumento do corpo. No entanto, é necessário saber destrinçar as coisas. Nem tudo o que parece é, e vermos um indivíduo robusto e definido, na rua, não é significa passar por alguém sem cérebro, por maiores que sejam os braços. As proteínas, garante Rui Faria, “não fazem mal”, desde que bem ingeridas. Quanto à toma de esteroides, prefere lembrar que “a última decisão é sempre da pessoa em causa”. Joaquim é mais taxativo: “não os aconselho”. AnA filipA silvA

RU G BY

A secção de rugby da AAC venceu, no passado sábado, o Benfica, naquele que foi o início de segunda volta da fase de apuramento do campeonato Super Bock. Após a vitória frente ao Técnico, os “Pretos” voltaram a dar conta do recado, desta feita, frente à equipa da luz. À oitava jornada, seguem num prometedor segundo lugar. As perspetivas são boas e a fase final está perto.

Fernando Sá Pessoa

Utente do ginásio da AAC executa exercícios lombares


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CIêNCIA & TECNOLOgIA

Victor Lobo: da cave ao Laboratório AnA filipA silvA

Ao final de 51 anos de carreira na química, o investigador recebe um prémio da Academia de Ciências russa. “Tenho feito o melhor possível”, garante Filipe Furtado Nos 51 anos como professor e investigador de química, Victor Lobo construiu um nome de relevo na área das ciências, na Universidade de Coimbra. Como mais recente premiar do seu percurso, o investigador recebeu o prémio Nicolai M. Emanuel atribuído pela Academia de Ciência Russa, pelo seu trabalho na solução de um problema de difusão em polímeros. O professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) viu despertar a vocação científica numa cave, quando ainda andava no primeiro ou segundo ano de liceu (atuais quinto e sexto anos), não tem a certeza. Aos poucos, construía um pequeno laboratório improvisado com o material que o tio trazia da unidade de apoio médico-cirúrgico onde trabalhava. Aos 16, vive a que acha ser a melhor experiência da sua vida: um ano a estudar nos Estados Unidos da América, em 1956, integrado no American Field Servive. Partiu em viagem da Bélgica, ainda de barco, rumo à primeira “vivência numa sociedade democrática” e “altamente eficiente”, lembra Victor Lobo.

Prémios e publicações Nas largas décadas que dedica à química é possível enumerar outros tantos momentos marcantes, como o doutoramento pela Universidade de Cambridge, em 1971; quando passa a professor catedrático em 1981; ou a medalha de ouro na 15ª Exibição de Invenções e Novas Técnicas de Genebra, com uma célula desenvolvida

O Handbook of Electrolyte Solutions, dividido em dois volumes, começou a ser compilado em 1975 para medir a difusão de coeficientes; e ainda, a mais recente, a distinção pela Academia Russa de Ciências, com a qual se “sente muito satisfeito”. Contudo, a Rússia não lhe é estranha, e o prémio vem de uma colaboração protagonizada desde 1980, quando o mesmo começou por resolver um problema de difusão de polímeros, em conjunto com Arthur Valente. Este trabalho “resultou num processo de determinar Dodecil Sulfato de Sódio em águas”, aplicável em estações de tratamento de águas residuais, para o controlo de poluição, explica o professor jubilado. No trabalho para a sala de aula, o investigador recorda a tradução, em 1977, de uma obra sobre termodinâmica química, algo que, “hoje em dia, não seria preciso”, aponta. Tal aconteceu “para facilitar a vida aos alunos”, algo que se explica pelas muitas dificuldades dos estudantes

com a língua estrangeira à época. Além da obra traduzida, o químico publicou um trabalho dividido em dois volumes e de 2366 páginas: “Handbook of Electrolyte Solutions”. Começou, em 1975, a elencar o acumular de 20 anos de informação, numa altura de grande agitação política e social no pós-25 de abril que não deixou de fora as universidades portuguesas. O professor catedrático foi impedido de prosseguir a investigação experimental: “até a água destilada me tiraram!”, confidencia. Como não é homem de estar parado, trabalhou “intensivamente”, durante três anos, a compilar todo o material para o seu livro. Os artigos científicos com o cunho de Victor Lobo ascendem a quatro centenas e é também nos jornais que lança o seu pensamento crítico em relação ao estado do sistema de ensino em Portugal – “o gravíssimo

problema dos estudantes não saberem estudar”, sublinha.

Congressos de roulotte O investigador confessa “a sorte nos filhos e esposa”, uma família muito unida que viajava “pelo mundo fora”. Levavam uma roulotte atrelada ao carro para acompanhar o pai pelos congressos na Europa. “Quando era miúdo vivia numa aldeia onde não havia eletricidade, ao anoitecer tínhamos de estar todos à lareira: a minha mãe a cozinhar, o meu pai a tratar de coisas e a conversar”, recorda o investigador da FCTUC que costuma dizer que “as viagens de roulotte foram o substituto da lareira da aldeia do meu tempo”. Fora da ciência, Victor Lobo é também um amante da música, amante esse que conduzia 300 quilómetros de Camberra, na Austrália, até Sidnei, apenas para ouvir ópera

com a mulher e regressar a casa ao amanhecer. O interesse pela fotografia mantém-se, tanto nas recordações da coleção de diapositivos antigos ou com os novos formatos digitais meticulosamente organizados. Aos domingos, entretém-se em pequenas propriedades florestais, entre pinheiros e eucaliptos plantados. Victor Lobo dispensa ser “juiz em causa própria” e sublinha que tem “feito o melhor possível” no seu trabalho científico - “por justiça própria, tenho que dizer que em Portugal há pessoas com muitíssimo melhor serviço prestado à ciência”. Para melhor definir o seu contributo à investigação, utiliza uma expressão do mundo do ciclismo: “considero que vou no meio, nem serei dos que vão na cauda mas muito menos um fugitivo que deixou o pelotão”. com Daniel Silva

Tecnologia inovadora para autistas em desenvolvimento Aplicação virtual desenvolvida pelo DEI e IBILI pode permitir melhoria da interaçãosocial em crianças com autismo Paulo Sérgio Santos “Foram encontrados estudos, numa pesquisa bibliográfica efetuada, que mostram que aplicações computorizadas para ensino de conceitos a crianças com autismo, funcionam melhor que sessões terapêuticas”, refere um dos investigadores do Departamento de Enge-

nharia Informática (DEI) da Universidade de Coimbra, Marco Simões. Tal perceção resultou no desenvolvimento de uma tecnologia virtual que pode permitir uma avaliação clínica e monitorização da reabilitação em crianças autistas, a partir de casa e sem a presença de um terapeuta. Tudo começou com um “protótipo que estuda um conceito muito específico de atenção conjunta - duas pessoas partilharem a atenção por um objeto”, afirma Marco Simões, acrescentando que “o objetivo é simular esse conceito num ambiente virtual”. A aplicação recorre à monitorização, por eletroencefalograma (EEG), e “quando um objeto é ativado, conseguimos identificar um padrão, um sinal neurológico, que é suposto

acontecer se a criança prestar atenção ao objeto correto”, explica ainda Marco Simões. “O algoritmo que está a ser desenvolvido deteta o padrão e contabiliza o número de vezes que ocorre nas circunstâncias certas, permitindo que a criança aceda a novos conteúdos, atingido o ‘score’ estabelecido”, esclarece Paulo Carvalho, outro dos responsáveis do projeto e investigador e docente no DEI. Atualmente, o desenvolvimento da tecnologia passa por uma remodelação do material utilizado, “que engloba um capacete de realidade virtual, uma touca de EEG com fios, tudo demasiado intrusivo num estudo em crianças com autismo”, comenta Mauro Simões, adiantando que a equipa de investigação está “a

tentar adquirir material telemétrico, menos intrusivo”. Segue-se, então, a validação clínica “onde se verá se isto generaliza ou não. Contudo, o que está para trás já é um grande avanço em termos científicos e tecnológicos, d.r.

uma descoberta per si”, conclui Paulo Carvalho. Um dos problemas que se pode levantar é o potencial custo do ‘hardware’ pelos pacientes, que Paulo Carvalho considera “pertinente em todos os sistemas de telemedicina, pelo que não há uma resposta para essa questão, isto é, ainda não se encontrou, hoje em dia, um modelo de negócio adequado a este tipo de sistemas”. Em Portugal, “o facto do Sistema Nacional de Saúde apostar mais numa medicina curativa, ao invés de uma medicina preventiva, pode ser um óbice”, continua o docente do DEI. Todavia, esta aplicação tem, na opinião de Marco Simões, “potencialidades globais, com o mundo como mercado possível.”


16 | a cabra | 22 de novembro de 2011 | Terça-feira

país

Todos têm direito ao trabalho, mas nem todos o têm de forma condigna D.r.

Na realidade laboral portuguesa o desemprego sobe, há falta de condições de trabalho e os recibos verdes lutam pela legalidade do seu trabalho Liliana Cunha “Toda a pessoa tem direito ao trabalho, a livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias e a proteção contra o desemprego”. Preconizado no artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, o direito ao trabalho é condição premente do ser humano para conseguir sustentar a sua vida. Mas, a labuta tem ganhado contornos cada vez menos condignos e dá lugar a um paradigma laboral cada vez mais reconhecido como precário – os recibos verdes e os falsos recibos verdes. “São trabalhadores dependentes, aos quais não foi feito um contrato de trabalho pela entidade patronal”, define Rui Maia do movimento contra a precariedade Fartos destes Recibos Verdes (FERVE). No entanto, o acordo laboral não constitui o maior obstáculo aos trabalhadores. A instabilidade impulsionada pela falta de contrato leva ao exercer de “uma chantagem e isolamento pela falta de capacidades e direitos do trabalhador”, esclarece o mesmo. Ter um vínculo de trabalho contra a lei. Os que são ilegais ganham o epíteto de falsos, e são-no “porque o código de trabalho prevê vários pressupostos para a utilização do contrato de trabalho e não do recibo verde”, aclara Marco Marques do mo-

Os recibos verdes são o novo paradigma da realidade laboral portuguesa vimento Precários Inflexíveis. Este lamenta que, na verdade, o que se dá é uma “camuflagem do contrato” de forma a “deitar os descontos para cima do trabalhador”, que para o Estado se encontra como independente, contudo, na realidade, “não o é”. Tal obriga o trabalhador dado como independente a arcar com os descontos na totalidade para a Segurança Social que correspondem nos dias de hoje a 30% do total do seu salário. Ser-se um falso recibo verde transfere de igual modo constrangimentos para a vida pessoal de quem labora: “a precariedade laboral não tem apenas consequências nesse âmbito, tem-nas sobre todos os aspetos da vida”, esclarece o sociólogo José Soeiro. Para o sociólogo e também defensor dos

direitos dos precários, a “incapacidade em fazer planos a médio e longo prazo” está em causa “porque nunca se sabe como vão estar amanhã”.

Denúncia do direito retirado Restringindo-se à ilegalidade dos falsos recibos em Portugal, Soeiro acrescenta que “estes são uma espécie de offshore laboral” e “à luz da lei assim permanecem”. O mesmo assegura que a causa da perpetuação destes se deve “à inexistência de mecanismos de fiscalização eficazes”, e dá como exemplo o próprio Estado central que “se serve deles nos seus serviços”. Segundo os últimos dados relativos ao desemprego, os jovens represen-

tam cerca de 30% da população inativa, a associação Interjovem, inserida na intersindical nacional da CGTP, defende “a participação na luta, a sindicalização e a denúncia” dos problemas dentro das empresas, refere a responsável Anabela Laranjeiro. Alega até que “mais de noventa por cento da precariedade e dos contratos das empresas são ilegais”, e reforça o apelo a “uma resistência dentro destas, junto dos agentes de trabalho” e a dar conhecimento do abuso deste tipo de vínculos “por via da ação sindical, onde já conseguimos resolver determinadas situações”.

Medidas de intervenção Para passar à ação, os movimentos

de precariedade vão levar uma proposta de lei à Assembleia da República. A iniciativa “Lei contra a precariedade” pretende, segundo o membro do FERVE, Rui Maia, incidir sobre três vetores “da precariedade e exploração laboral legal em Portugal”. São eles os falsos recibos verdes, o trabalho temporário para funções efetivas e o trabalho a termo também “utilizado para funções efetivas”. A constituição do recibo verde como crime; a mudança de política económica deficitária na criação de emprego; e a segurança de que a lei se reporta ao lado do “mais fraco – o trabalhador”, segundo José Soeiro são as medidas ideais para dar fim a este problema do panorama laboral português. D.r.

TEsTEmuNhOs DE quEm É PrECáriO rafaEl rOsTOm 25 aNOs • lisBOa

myriam Zaluar 45 aNOs • lisBOa

marGariDa BaraTa 33 aNOs • lisBOa

JuliETa GuimarãEs 29 aNOs • POrTO

“sou trabalhador estudante, já passei por vários trabalhos com vínculos precários, já trabalhei em vários ‘call center’ e sempre através de empresas de trabalho temporário. O que acontece é que em vínculos precários a chantagem que é exercida sobre os trabalhadores é maior e, portanto, o poder reivindicativo e social de um trabalhador precário é muito reduzido devido ao facto dos vínculos serem instáveis. De qualquer forma, acho que os trabalhadores precários terão que superar essa situação. Devem participar na greve geral para conseguirem mais direitos e quem sabe um contrato de trabalho mais estável. Neste momento, estou desempregado mas considero que o desemprego é só uma face da precariedade”.

“Eu não tenho contrato de trabalho normal desde 1998. Vivo na instabilidade há mais de dez anos, e não entendo como é que essa situação dos recibos verdes ainda não chegou ao ponto de ser colocada a nível europeu, às mais altas instâncias. É uma situação única no mundo, onde as pessoas são tratadas como empresários, quando de empresários não têm nada. Esta questão deveria ser colocada ao tribunal europeu dos direitos humanos. Já começaram a fazer ameaça coerciva, de prisão - uma coisa absolutamente escabrosa. a minha geração foi totalmente induzida a comprar apartamentos e a endividar-se. E, neste momento, somos ameaçados de prisão porque tivemos de escolher entre pagar a segurança social ou a casa e dar de comer aos filhos. É óbvio que vamos escolher comer”.

“se o estado das coisas não dá uma estabilidade ao professor para se manter com os seus alunos, é óbvio que a nossa vida continua, e o senhor que está na caixa do supermercado não quer saber se eu sou paga a recibos verdes e se é natal e eu recebo metade, ou se eu fiquei doente e faltei uma semana. as pessoas continuam à procura de um emprego, de uma coisa melhor do que as atividades extracurriculares podem dar. Não posso pagar metade das contas, não estamos a brincar. Conheço pessoas, e é o meu caso também, que estão nesta faixa etária dos 30 e que continuam a ter de recorrer aos pais para poderem em alguns meses pagar contas, ou a amigos, ou a quem isto dos recibos verdes não tenha afetado. Estar a trabalhar parece que não vale de nada”.

“Tenho uma companhia teatro circo que se chama Erva Daninha, trabalho para a operação Nariz Vermelho e para o festival internacional de teatro de expressão ibérica. Vivo em realidades muito diferentes, onde há muito dinheiro, onde não há quase nenhum, e tenho muita dificuldade em viver estas diferenças de choque que existem, quase de estatuto. Pensar que a arte em 99 por cento é patrocinada pelos contribuintes, custa depois saber que este dinheiro é tão mal gerido. Os modelos de gestão na secretaria da cultura são absurdos. Os jovens saem da universidade e não têm trabalho, não têm possibilidade porque o mercado está esgotado. O que está a acontecer às artes performativas é que as jovens companhias não conseguem ter financiamento e apoio. Tens de andar a ser pago por um lado e depois trabalhar por gosto noutro”.


22 de novembro de 2011 | Terça-feira | a

cabra | 17

MuNdo O dOmíniO dO mundO Ocidental sObre as minOrias indígenas IvOne bezerra

IvOne bezerra

D.r.

IvOne bezerra

“A imposição de uma cultura, modo de vida, religião, é sempre uma violação dos direitos humanos”, confirma Donizete Rodrigues

“O outro é outro, é diferente de mim” ao longo da história, as minorias indígenas foram sendo dominadas pelo ocidente, sob o pretexto de uma vida melhor. porém, o capitalismo esconde-se por detrás desta máscara. por Carolina Caetano, Maria Garrido e Cláudia Carvalho silva

“A

questão 'indígena' possui um lugar central nos debates políticos que estruturaram (e continuam a estruturar) as lutas pela emancipação, pelo direito a ter direitos, combinando a diversidade com a igualdade”: é assim que a coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Democracia, Cidadania e Direito (DECIDe) do Centro de Estudos Sociais de Coimbra (CES), Maria Paula Meneses, contextualiza a situação atual destes povos. A ação do mundo ocidental sobre as minorias indígenas parece ter o seu legado na questão colonialista, “uma história de séculos, que passou por atitudes muito distintas”, afirma um dos coordenadores do Núcleo de Estudos para a Paz (NHUMEP) de Coimbra, José Manuel Pureza. Como uma das problemáticas que vem sendo problematizada pelo DECIDe, Maria Paula Meneses fala da “persistência da relação colonial nos tempos atuais”, vendo-a como “parte do sistema capitalista que identificamos metaforica-

mente como o norte global” e que resulta nas pretensões dos governos face aos territórios ocupados por estas minorias. Uma ação para “mais facilmente exercer o domínio colonial”, acabou, no entanto, por “comportar também atitudes de solidariedade e de defesa”, salvaguarda Pureza. Questionada sobre a legitimidade do argumento utilizado pelos ideais colonialistas de educação, saúde e religião, Paula Meneses anula qualquer tipo de legitimidade: “é a imposição colonial, deixemo-nos de eufemismos”. Para a investigadora, a saúde e a educação têm sido “mecanismos usados para promover a ação interventiva do saber do norte global sobre o resto do mundo”. O professor associado de Antropologia da Universidade da Beira Interior e também professor-colaborador na Universidade de Columbia (EUA), Donizete Rodrigues, assegura que “é possível e necessário desenvolver um sistema de ensino oficial, respeitando a cultura, a religião e a língua dos povos nativos. É obrigação dos estados promover cui-

dados de saúde para garantir a sobrevivência física”, defende. O também coordenador do NHUMEP, António Sousa Ribeiro, compreende uma “ecologia dos saberes,” que “percebe que a ciência ocidental não é a única forma de conhecimento no Mundo”. O coordenador aclama que tal passa por “perceber que o outro é outro, que é diferente de mim, que tem um saber diferente, uma cultura diferente, e respeitá-lo nessa diferença, não querendo ocidentalizá-lo”. Como confirma Donizete Rodrigues, “a imposição de uma cultura, modo de vida, religião, é sempre uma violação dos direitos humanos”.

Uma questão de “lógica capitalista” O mundo ocidental “está, na sua generalidade, dominado pela lógica capitalista, assente na busca desenfreada de fontes energéticas não renováveis, minérios e matérias-primas para a produção industrial”, afirma ainda o professor de Antropologia. Neste contexto, alerta que “não é difícil perceber

quem fica a perder nesta disputa de interesses”. Também a indústria médica e farmacêutica tem destaque na exploração destes territórios, aproveitando-se dos saberes indígenas. “Na área das medicinas, técnicas de cura, estas comunidades conhecem substâncias que estão, hoje em dia, cada vez mais a ser exploradas pela indústria farmacêutica”, confirma António Sousa Ribeiro. “São depositadas patentes sobre os saberes indígenas” e esta é uma “forma de esbulho colonial, de expropriação”, assevera. Face à imposição do mundo ocidental, Sousa Ribeiro compreende que as minorias têm “meios para assegurar a sua resistência no seu modo de vida originário”. Maria Paula Meneses ratifica: “a luta não é contra o mundo ocidental, mas contra a opressão e exploração” a este associado. Por sua vez, Donizete Rodrigues acredita na “boa preparação e consciencialização política na defesa dos interesses” dos povos indígenas para a sua autodeterminação. Ainda assim, não descura que estes “são o elo político-económico mais fraco nesta luta”.

A intervenção internacional No que diz respeito à intervenção das organizações internacionais na defesa das comunidades indígenas, Donizete Rodrigues considera “necessária” a ajuda destas estruturas desde que “defendam os interesses dos povos”, o que, na sua opinião, “nem sempre acontece”. Segundo José Manuel Pureza, distinguem-se duas formas de intervenção: “as que têm como objetivo evitar apenas

comportamentos extremos, mantendo, no entanto, uma relação de dependência” e “outras mais corajosas, que põem em causa a própria relação desigual e a imposição de soluções que são sempre desfavoráveis aos grupos indígenas”. Pureza lembra que a atuação destes grupos também difere no sentido de se exercer individualmente ou sobre comunidades.

Comissão Pró-Índio de São Paulo Nascida em 1978, a Comissão PróÍndio de São Paulo pretendia “defender os direitos dos povos indígenas frente às crescentes ameaças do regime ditatorial vigente naquela ��poca”, conta um dos membros da organização, Rafael Carvalho da Cunha. Ainda no ativo, abrangendo comunidades indígenas como por exemplo as Guarani e as Quilombolas, a organização propõe-se agir no sentido de “garantir os direitos territoriais dos povos, fortalecimento de índios e o combate à discriminação racial e étnica”. Rafael Carvalho da Cunha entende como “principal reivindicação das comunidades indígenas a regularização das terras que ocupam”. O facto de “não as terem ainda identificadas e demarcadas” faz com que a manutenção “física e cultural dessas comunidades seja diretamente afetada, violando os seus direitos básicos”. Em “muitos casos, os indígenas acabam por abandonar as suas terras, migrando para algum centro urbano do Brasil, onde os seus direitos também não são reconhecidos de maneira adequada, sendo a sua presença estigmatizada e vendo perpetuada a discriminação e o preconceito”.


18 | a cabra | 22 de novembro de 2011 | terça-feira

Cinema

ARtes

Inquietos (“Restless”) ”

h

De Gus vAn sAnt Com 2011

90 dias no Outono

ver

CRítiCa De joão teRênCio

J

oão Botelho não tinha missão fácil. Pegar no “livro do desassossego” de Bernardo soares, heterónimo de Fernando Pessoa, e transpô-lo para a película é, seguramente, mais que um desafio, uma empresa de contornos homéricos. Perscrutar numa alma inquieta e, ao mesmo tempo, tão segura de si, uma consciência da frágil natureza humana como a de Bernardo soares, adivinhava-se como um caminho cheio de percalços e armadilhas. Botelho já havia penetrado nos meandros da adaptação e reescrita literária com “A Corte do Norte” (2008), baseada no romance homónimo de Agustina Bessa luís, com resultados aceitáveis. o “Filme do desassossego”, diferentemente, “não pretende ser

avia curiosidade em perceber qual o ângulo que a câmara de Gus van sant escolheria depois do passado recente, com a adolescência romanceada de “Paranoid Park”, e tendo na memória o desvio ao percurso autoral em “milk”. este último título que, como era esperado, o avalizou perante as massas, ao normalizar a sua identidade através do género inevitável, o filme biográfico (e de convulsão social e política). eis-nos, então, “inquietos” perante uma nova estreia. enoch (henry hopper, filho do dennis de quem o cinema não recuperará tão cedo) é um rapaz traumatizado com a recente morte dos pais, memória que faz por combater na companhia de hiroshi - o fantasma de um kamikaze japonês da 2ª Guerra mundial - e frequentando funerais de desconhecidos. É neste contexto que conhece Annabel (mia Wasikowska, a Alice de Burton e filha de duas mães em “os

miúdos estão bem”) e os dois se apaixonam. Pouco tempo depois vem a saber que a ela restam três meses de vida. o amor é fodido, já dizia alguém. A partir daqui assiste-se a um trânsito de corações em sentidos opostos: ela procura viver o momento, ele sofre por antecipação. o amor, em especial o trágico, é tema para o qual haverá sempre lugar no mundo - durante e após o enterro anunciado da economia global. Pena é que aqui tudo seja demasiado poético e intencional para ser triste, e haja utopia em excesso para um realizador com mais de uma dezena de longas-metragens nas costas. É, assim, impossível dissociar a sensibilidade evidenciada neste de Van sant da que sustenta “o bom rebelde”. os dois filmes partilham também a sua Portland de adopção e a paleta cromática em tons pastel, retida na estação que 2011 nos roubou. Não há, contudo, a genui-

nidade que encontramos na crónica da vida de Will hunting, nem os planos respiram como na atmosfera de “elephant”. existe ainda uma atenção ao guardaroupa e penteados ao nível duma colecção outono-inverno de uma marca de cachecóis em xadrez-inglês. longe de ser secundária, a banda-sonora preenche qualquer recanto por onde pudesse espreitar o silêncio, de acordo com a cartilha sentimental de sufjan stevens (que, com a contribuição para “Uma família à beira de um ataque de nervos”, e mais ainda agora, está convidado para todos os casamentos, baptizados - e funerais indie). o mundo ocidental, caucasiano e de classe média continuam vivos no amor de Annabel e enoch. “Não podes fazer isso (suicidar-te)! Assim ofuscas a minha morte!” exclama ela, depois de uma simulação cúmplice do epílogo de romeu e Julieta. Pobres meninos ricos.

Filme do Desassossego”” o ‘livro do desassossego’”, nas palavras do realizador. É legítimo. mas esta nota de intenções não é suficiente para a pobreza do filme de João Botelho. Ao longo de duas maçadoras horas, o espectador é acossado por diversas personagens que habitam uma lisboa do século XXi que se limitam a recitar a obra. Umas vezes num puro entoar poético, outras acompanhadas de guitarra, havendo até mesmo uma versão hip-hop de um dos trechos. É manifestamente pouco para o que se esperaria. salvam-se as belas paisagens da lisboa pessoana, que nunca fartam, e a excelente filmagem, que é dos poucos elementos (tirando o texto, obviamente) que prendem o espectador, com closeups na altura certa e movimentos

de câmara que depreendem uma intenção simbólica que não deve passar despercebida. os cenários constituem, de igual modo, um magnífico acrescento ao texto, caindo por vezes, no entanto, num rebuscado ornamento artístico que poderia ser evitado. Com um dos textos mais geniais e profundos da língua portuguesa em mãos e um leque invejável de bons actores, o que faltou então ao “Filme do desassossego”? Não querendo fazer desmerecer o trabalho de João Botelho, cuja coragem é louvável e, acima de tudo, por trazer, quase um século depois, uma obra ímpar da literatura à ribalta, a resposta julgo ser simples: há palavras que funcionam no papel, e no papel deverão ficar. joão RibeiRo

filme

De João Botelho eDitora Ar de Filmes 2010

Artigo disponível na:

A fria objectiva substituiu a caneta


22 de novembro de 2011 | terça-feira | a

cabra | 19

FeItAs oUvir

ler

as extraordinárias aventuras de Dog mendonça e Pizzaboy ii – apocalipse”

Parallax ”

É

através de Atlas sound que Bradford Cox, vocalista dos imprescindíveis Quarto escuro deerhunter, canaliza toda a sua necessidade de se expor ao mundo, de exorcizar o seu vício de fazer música, de escrever canções, de nos escrever canções. desde a estreia a solo em 2008, que Bradford se expõe, e se esconde ao mesmo tempo, enquanto Atlas sound. As suas letras sempre foram bem claras e sempre demonstraram o seu estado de espírito. No entanto, sempre procurou esconder-se debaixo de ‘delays’ e reverberações, quer na voz, quer na música, que acabavam sempre por soar como se os sons viessem de De um quarto escuro, fechado e frio, AtlAs sOund sem móveis, e por isso com um eco e uma dimensão fantasmagóeDitoRa ricas. em Parallax, o terceiro 4Ad disco como Atlas sound, a história é outra. 2011 As influências de música ambiental continuam lá, como em Flagstaff, onde se resumem todas as referências sonoras do projecto, ou na fantástica te Amo. No entanto, é logo no primeiro tema que percebemos o que mudou. the shakes soa a banda sem soar à sua banda. Nela Bradford conta a história de alguém que apesar de ter vencido na vida não se sente realizado, alguém que dedicou tempo demais à coisa errada e que se sente arrependido. the shakes lança a temática de todo o álbum - é Bradford Cox no meio dos seus pesadelos, é Bradford escondido atrás do seu alter ego, a ser o mais ele que consegue, e é Bradford a marcar pontos como um dos melhores escritores de canções da década em que vivemos. Parallax é escuro e no entanto tem mona lisa, que cita os rem e trilha caminho até à New Jersey dos real estate. É um disco cru não deixando de ser complexo, há menos efeitos na voz e um arriscar assumido em tentar fazer algo diferente do que fez no passado. os fantasmas estão lá e o quarto continua vazio, mas Bradford nunca foi tão claro a contar o que sente.

lUís FiliPe lUzio

Que não se metam com os portugueses

De FIlIPe MelO e JuAn CAvIA eDitoRa tIntA dA ChInA 2011

d

uas páginas, sete quadros apenas, é tudo o que é preciso para surgir a primeira analepse – nada de espantar, tendo em conta os múltiplos saltos temporais que vão rompendo em catadupa ao longo de toda a narração. Não fosse o enredo de “As extraordinárias Aventuras de dog mendonça e Pizzaboy ii – Apocalipse” declarada e promiscuamente de inspiração cinematográfica (daquele cinema de série B, em que corante vermelho q.b. e uns tantos vampiros mal amanhados saltam para dentro de uma película que, de tão granulada, quase se torna imperceptível). As honras do prefácio, a cargo de George romero (o mesmo do “Night of the living dead” e “dawn of the dead), deixam adivinhar que só algo aparatoso se pode passar nas páginas seguintes. e o que se passa nas páginas seguintes é muito mais do que uma simples sequela. Não é novidade em Filipe melo esta ideia de esgaivar qualquer resquício de bom cliché cinematográfico – já nos demonstrou isso em “mundo Catita” e “i’ll see You in my dreams”. esta mesma falta de finura que preencheu todas as pranchas de “As incríveis Aventuras de dog mendonça e Pizzaboy”, onde um detetive obscuro, um jovem entregador de pizzas, uma cândida rapariguinha possuída por um demónio com mais de seis mil anos e uma cabeça de gárgula lutaram nos subterrâneos de lisboa con-

tra um exército de zombies nazis (e mais diversas criaturas da mitologia do horror). Cinco anos volvidos da primeira aventura, um terceiro segredo de Fátima mal contado resulta numa aparatosa inauguração do Armagedão, que (pasmemse spielberg e michael Bay) tem como cenário, não Nova iorque ou tóquio, mas... lisboa. A partir de aqui, borra-se o céu de todos os tons de encarnado possíveis, para a típica cena de terror, onde nem a águia Vitória é poupada, e onde os mais distintos demónios de uma bíblia infantil vão dando o seu ar de graça ao drama da capital - até um príncipe das trevas que mais faz lembrar o Akira de Katsuiro otomo. Um desenrolar de cenas em que lisboa é espantosamente construída (e desmontada) pela mão de Juan Cavia e do colorista santiago r. Villa, onde o cuidado com os detalhes é mais que manifesto. há mesmo pormenores que assumem uma precisão quase fílmica. se argumentos faltam para ler “As extraordinárias Aventuras de dog mendonça e Pizzaboy ii – Apocalipse”, saiba-se que a primeira personagem a perecer ás mãos das bestas do juízo final é um tuno. e se tal ultraje poderá ofender a alma do academista mais confesso, então o mesmo está trajado de calças de ganga e sapatos sem atacas... joão miRanDa

JoGar

Rage”

“dias de Raiva”

GUerra DaS CaBraS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’ouro PlataFoRma PC /Ps3/XbOX360 Artigos disponíveis na: eDitoRa bethesdA 2011

P

ara aliviar a espera dos fãs pelo tão aguardado doom 4, a id software juntou-se à Bethesda para produzir um novo e supostamente revolucionário ‘shooter’. e eis que chega rage, o fruto dessa relação. em rage tomamos o lugar de um protagonista anónimo (e mudo, como dita a moda), que, depois de ser seleccionado para um programa especial e ser induzido num sono criogénico, acorda num deserto pósapocalíptico e é deixado à mercê do que resta da sociedade. e é basicamente isto. Aliás, a história de rage é quase não existente, aproveitando os clichés da indústria para justificar a sucessão de missões. o que, considerando o mundo vibrante e colorido em que o mundo nos põe, dá pena. embora existam alguns aspectos da história que são aprofundados noutros modos de jogo, a campanha em si deixa a sensação irritante de que o mundo de rage merecia melhor testemunho. Ainda assim, é um dos shooters mais refinados e divertidos do mercado, afinal de contas estamos a falar da id software, produtora de lendas como Quake e doom. A jogabilidade tem tudo a seu favor, desde mecâni-

cas exclusivas e altamente divertidas como os “wingsticks” (pequenos bumerangues ideais para decapitar mutantes), até ao combate de veículos, que é a estrela do modo online. A inteligência artificial dos inimigos é soberba, sendo impossível de prever o seu comportamento enquanto criam estratégias elaboradas para acabar com a existência da nossa personagem. Com uma componente gráfica maravilhosa e um universo inspirado nos filmes “mad max”, rage peca só mesmo pela falta de história, nos habituais problemas de carregamento de texturas e no facto de não haver um modo competitivo online que não envolva corridas de buggies, existindo apenas um modo cooperativo chamado “legends of the Wastes” que é composto por, mais ou menos, uma dezena de missões que complementam certos aspectos da história, e que, no fundo, são bastante divertidas. tudo isto faz de rage um shooter sólido e uma mais que boa alternativa para quem esteja cansado dos shooters mais comerciais que por aí andam. RUi CRaVeiRinHa


20 | a cabra | 22 de novembro de 2011 | terça-feira

soltAs

Inês BalReIRa

uMA idEiA PArA o ENsiNo suPErior GoNçAlo XuFrE silvA • ProFEssor CoordENAdor do iNstituto suPErior dE ENGENhAriA dE lisboA

toMAi E CoMEi

Um desafio para o ensino sUperior: o ensino profissional

outoNo: ÉPoCA ProPíCiA às rEFEiçõEs FriAs!

Já dizia Sócrates: "não vivemos para comer, mas comemos para viver".De facto, em pleno outono (que diga-se de passagem, tão rigoroso como o próprio inverno), espera-se que uma refeição servida a centenas de alunos e funcionários esteja nos meandros da razoabilidade. Será difícil para todos aqueles - que no meio de panelas e tachos, salpicos de gordura e mistura de variáveis cheiros - produzirem uma sopa cálida, um conjunto de batatas quentes e uma costeleta de porco que não cause efeitos, por sorte, reversíveis aos talheres? Pois bem, estimulado pelo cheiro agradável que pairava na cantina dos grelhados, a minha entrada não podia ser mais satisfatória. Sorriso na cara e começava a maratona de completar o tabuleiro que acabara de pegar. Cinco passos à frente e havia chegado à zona das sopas. Seguiu-se o prato: tenaz na mão, um ligeiro gesto e a caça à costeleta havia terminado. Batatas, batatas, algumas em fase de transformação para puré, uma bola de arroz que deixava qualquer um com água na boca e umas folhas de alface. Finalizei a maratona com um copo de água cristalina e parti para a refeição propriamente dita. Como caraterizá-la? Breve. Uma colherada da sopa, uma ida ao ginásio era descartável porque dominar uma costeleta de porco exigira muito. Satisfeito com as batatas e o macio dos grãos de arroz, um golo de água revitalizara o estômago que, descontente, rosnava por mais e melhor.

Por Nelson Barbosa

O Ensino Superior atravessa um período extremamente complicado. Tendo sido um dos sectores que mais foi sacrificado nos últimos anos em termos de cortes financeiros viu progressivamente as verbas do Orçamento de Estado ficarem insuficientes para cobrir as despesas de funcionamento, nomeadamento o pagamento de vencimentos a funcionários e docentes. Sendo que estes constragimentos poderiam levar a que as Instituições procurassem criar dinâmicas de obtenção de receitas próprias para ultrapassar as dificuldade que lhes estavam a ser colocadas, também é verdade que essa mudança passa muito por uma mudança cultural em termos dos dirigentes das Instituições e mais importante de uma profunda mudança na mentalidade dos docentes. Estes processos de mudança não são processos nada fáceis e a conjuntura económica aumenta de forma exponencial as dificuldades. Algumas Instituições viram nos Cursos de Especialização Tecnológica (CET) uma oferta alternativa com o objectivo de obterem fontes de financiamento. Principalmente Institutos Politécnicos do interior aderiram a esta oferta formativa mas a grande maioria das instituições encararam este ensino como não prestigiante para o Ensino Superior e a sua classificação

M-PEX • FNAC CoiMbrA • 18 dE NovEMbro

Uma nova “gUitarra portUgUesa com gente dentro”

S

ente-se o frio, a chuva, o incómodo das gotículas de água que circundam pelas rédeas de uma viagem que tem como destino um café intimista. É o local onde, por excelência, os enamorados pelas letras, música e equipamentos eletrónicos se juntam. A guitarra portuguesa está na FNAC. E não vem sozinha, qual Carlos Paredes nos seus “verdes anos”, é tempo de vestir a guitarra e o fado doutra forma. Desta feita, uma mais hipnotizante, acercada de pigmentos contemporâneos com o sintetizador e o toque das cordas de um contrabaixo. Sem voz, Marco Miranda ou M-PEX dirige o trio. Uma casa de fado moderna. Sem candelabros, nem fadista, mas com uma tela refletora de imagens em pontinhos que deixam adivinhar as figuras parcas que por lá passavam. Ora jardins, ora vegetação. A música e o transe é que interessavam. Sala bem composta por certo, olhava-se em redor e tinham-se todos os olhos fixados num dedilhar salteador de

como ensino pós-secundário tem levado a que sejam essencialmente escolas profissionais privadas ou centros de formação a desenvolver estes cursos.. O Ministro Nuno Crato já afirmou por diversas vezes que o Ensino Profissional tem de ser uma aposta coerente, de qualidade e valorizada no nosso País. A formação para o exercício de uma profissão é um dos caminhos possíveis para sairmos do ciclo vicioso em que estamos colocados pela actual crise. Descobrir as profissões em que o País deve apostar de modo a dar resposta às necessidades produtivas é um desafio de todos: governo, indústrias, instituições de ensino e for-

d.r.

mação e empresas. Contribuir para uma formação profissional de qualidade é um desafio que estou convencido cabe em grande parte às Instituições de Ensino Superior. Os CET centram-se na característica tecnológica do conteúdo da formação sendo que muitas áreas ficam ainda por cobrir em termos de formação profissionalizante de nível superior. A criação de Cursos de Especialização Superior (onde os CET seriam uma parte) com o enquadramento claro de nível superior na qalificação escolar associada, abriria um campo de oferta que estou convencido levaria as Instituições de Ensino Superior a crescerem em termos de alunos e o País a melhorar em termos da sua capacidade de preparação dos seus recursos humanos para dar uma resposta forte aos desafios colocados pela actual crise. Falta ao País uma aposta clara no Ensino Profissional que poderá começar a seguir ao 9º ano de escolaridade, com uma formação de qualidade e exigente, num caminho valorizado e de possibilidades de saída profissional em vários pontos, mas que permita chegar a uma formação profissionalizante de nível superior. Sem deixar de investir na investigação e no ensino de cariz mais académico as Instituições de Ensino Superior teriam aqui a oportunidade de mais uma vez contribuirem para o desenvolvimento de Portugal.

ArtE.PoNto D.R.

um cistre embalado pelas suas seis cravelhas. Faltou algum sentimento naquele semblante de quem oferece acordes de destino. No entanto, o contrabaixo prontificou-se a reverter a falta de expressão facial. Pontos intersetados num soletrar de acordes, o homem “pizzicava” as cordas com uma leve sacudidela de vibrações graves. Ele sim contrabalançava-se e vibrava com o seu parceiro do sintetizador. De efeitos sonoros que funcionavam numa taquicardia de batidas, o sintetizador aprimorava o dueto a seu lado. Por altura da terceira música do seu novo álbum chamado Iphado (o prefixo deve-se por ter sido totalmente gravado apenas com o gadget Ipod), já alguns direcionavam o seu foco para o nada. Sim, para o nada. Um pequeno nada que transparecia algo mais. Recordações. A palavra correta a utilizar. Lacrimae, deste EP, foi por conseguinte a mais calma e tensa de todas, nela se descobriu o porquê da guitarra. Nela foi rainha, e fez evocar memórias lon-

gínquas, numa “guitarra com gente dentro”- nome de um dos álbuns de Paredes. Lá se assimilou. Não se soube bem o que se pedia. Apenas não se pensou. E essa falta de pensamento fez em “Fusões” reportar de novo ao nada, porque em jeito de embalar esta música melancólica e ténue conheceu pelo sintetizador um efeito de quase chill-out. Para proceder a uma terapia de sons onde o resultado era uma espécie de imobilidade do sentir e do cogitar. Provavelmente Alberto Caeiro sentir-se-ia em pleno aqui. Breve, esta apresentação terminou na música sexta e última do seu mais recente álbum. “Neurointerface”, onde se efetivavam dois sistemas: o fado, propriamente dito entreviu-se e agora sim a saudade pôde por fim emergir. E o tango. Provindo de Buenos Aires veio colocar a paixão, a agressividade e interpor-se na tristeza característica do “correr do fado”. Por Liliana Cunha


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soltas lote 19

MiCro-Conto

por sandro William Junqueira

(Cave) Uma mesa. Um bar. Um homem. Uma mulher. Um espelho com empregado ao fundo. A mulher é louca ao espelho: prepara-se para a caçada: arranha cabelos, mascara cicatrizes, borrifa de perfume os lóbulos; descruza as pernas de renda; os lábios mudam de cor e idade. A gordura é vício; a fealdade indecisão. São duas e meia da manhã. O gelo derrete nos copos. O homem suspende. Avalia o redor. A linguagem é imprecisa. O vazio enche-se de copos. As almas de vodka. O homem cansado domestica o bigode; sossega as sobrancelhas com saliva. Esquadrinha um novo ângulo numa das patilhas e diz: -Tenho sono. A mulher responde: -Ainda é cedo. Nenhum amor se deita para dormir. Dentro do espelho, as bocas mordem-se sem sinal de sangue. O homem levanta-se, sai. A mulher louca cruza novamente as pernas. O empregado assiste a tudo, impávido e transparente, enquanto limpa com um pano o bolor dos copos.

(1.º B) (Rés do Chão) Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também. Ele gosta de livros. Ela gosta dele. Oferece-lhe livros. Ele lê os livros que ela lhe oferece deitado no lado esquerdo da cama. Ela não lê, antes medita: Para que lado se deita o amor? Por qual narina respira melhor? Ela levanta-se do lado direito da cama e veste o robe de seda púrpura. Prepara-se para o afecto. Ele continua a ler: prefere a carne e o odor forte de certas frases. Adormece com o livro aberto a fazer o cume do coração. Com a página 63. Ela destapa-lhe o coração, lê uma frase aleatória. Rasga, amarfanha, mastiga, engole. Despe o robe de seda púrpura e veste o pijama com o cheiro a vésperas. Algodão impregnado de monotonia. Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também.

MonuMentais panados soCiais

Não há como alterar a vida. À janela, o velho acende o cigarro. Puxa a morte para dentro dos pulmões. O hábito manso. Bate o indicador na boca acesa e a cinza cai sobre o canteiro de rosas. Diz: O meu cinzeiro é o mundo.

(2.º A) A noite cresce na cama zangada. De costas voltadas. Ela, ele. Respiram a fingir: dormir é aquilo. Olhos adúlteros interditos por pálpebras. Corpos quietos que doem nos lençóis. A noite como competição. Quem vence a maratona da insónia? Ela finge melhor o sono. Engoliu a borboleta. Ele respira grilos nos pulmões. Ela move a tíbia esquerda. A omoplata. Ele hesita no embate da pele. Corpo a perdoar? Ele roda a cabeça, tronco. Procura o hálito das abelhas. A sua mão tenaz descobre as costelas dela. Ela não tem dúvidas. Os dedos dele: flores de penugem que vão mutilá-la.

(5.º C) Vejam isto: A mulher magra, que habita no quinto andar, um apartamento com escassa mobília, inicia um choro. O espadarte ficou salgado? As unhas pintadas de azul não combinam com os sapatos? Esqueceu-se de comprar o amaciador para a roupa? O cão da vizinha perturbou-lhe o sono? A mulher magra desconhece a razão concreta. Sabe do que precisa. Era o que mais faltava. Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento. A mulher magra chora. Corridos cinco minutos o nível do pranto já chega aos rodapés. 10 centímetros. Se a mulher magra não encontrar a razão concreta, dentro de meia hora a enchente alcançará as gavetas. 76 centímetros. Depois os armários. Dentro de uma hora a sirene do carro dos bombeiros ecoará por todo o bairro. Uma inundação, alguém gritará, num rés-do-chão. Mesmo aí, a mulher magra, não cessará. Arregaçará a saia, subirá ao tampo da mesa. Insistirá no choro. Era o que mais faltava. Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento.

Sandro William junqueira Sandro William junqueira nasceu na rodésia, mas foi por entre as Caldas da rainha, Setúbal e Portimão que cresceu. Começa a escrever numa primeira fase como resposta a problemas da adolescência e mais tarde, a partir dos 24,25 anos, como algo mais sério. Trabalhou como designer até 2006, mas é como profissional de teatro que vive atualmente. Para ele, “o teatro é o espaço onde se chega mais fundo à alma humana” assim como uma influência óbvia na sua escrita. o facto de não ter conhecido o local onde nasceu e as constantes mudanças de residência, tornaram impossível para o escritor o contacto continuado com amigos de infância: “nunca me agarrei a um sítio devido a várias circunstâncias, e isso influencia muito a minha escrita.” Considera os escritores peças fundamentais na sua vida e, quando questionado sobre o desejo de viver futuramente da escrita, responde “sim e não”. “Sim, porque gostava de ter tempo só para a escrita. não, porque acho que depois isso também tem um lado perverso.” em fevereiro de 2012 lança o seu novo livro, “um piano para Cavalos altos”, editado pela Caminho.

Raquel Mariz

Cadernos eleitorais – lição n.º1: o período pré-eleitoral

por doutorando paulo Fernando • facebook.com/paulofernandophd

S

e és herdeiro político de um projecto para a DG, apesar de nunca teres feito grande coisa pela academia, se és tacheiro dos núcleos e consegues alargar as tuas influências com intervenções eloquentes e inofensivas nos órgãos, se és um jovem militante com elevado grau de consciência ideológica, ou um ex-academista aborrecido com a tua reforma e dificuldade em desligar emocionalmente de Coimbra, reúnes as condições necessárias para ser candidato aos corpos gerentes da AAC. Para isso deves seguir os ensinamentos expressos nesta cartilha, com fascículos quinzenais aqui n’ A Cabra. Para formar a tua lista vencedora, deves rodear-te de pessoas que descreverei com o recurso a uma metáfora lafonteniana: a colmeia. A rainha, sem conotações homofóbicas, serás tu. A tua função é basicamente beber e dormir, e ser levado ao colo de um lado para o outro, até à vitória final. As obreiras são os recém-chegados que crêem piamente na sua capaci-

dade de influenciar o curso da história, que por inépcia ninguém leva muito a sério, mas que estarão contigo até ao fim. Capacidades especiais: resistência, fidelidade, pôr faixas, colar cartazes, distribuir coisas, financiar, passar noites na sede a trabalhar, passar dias nas bancas, inalar vapor de tinta, permanecer em mesas de voto isoladas. Valem “à cabeça” o seu voto, e constituem o elemento mais numeroso. Caso a candidatura não se concretize, é de extrema importância moderar as expectativas das obreiras. Alguns, confrontados com a face pérfida do desaire, nunca mais voltarão a desempenhar funções cívicas, votando PAN nas próximas legislativas, do alto da sua superioridade moral. Os que sobreviverem serão os soldados mais leais, e poderão evoluir para se transformarem em “guerreiros” e “ideólogos”. As guerreiras serão os caciques que te levarão à vitória. Combaterão nas praias, nos campos, nas colinas, nos átrios, nos bares e nas salas de aula.

d.r.

Conhecerão todas as manhas, necessárias para influenciar o colega menos consciente para votar no sentido que lhe convier, e neutralizar outros caciques. Possuem exaustivas listas de contactos, com números telefónicos de centenas de colegas, e pontuam os caloiros de acordo com o seu potencial de futuro arregimentador eleitoral. No entanto, são os mais traiçoeiros, que poderão virar-te Costas e rumar à colmeia seguinte sem escrú-

pulo. Quanto maior a sua experiência, mais difícil será satisfazê-los, e impedir que queiram tomar o teu lugar. O que lhes prometes para conseguir a sua lealdade será proporcional ao número de votos que amealham. Valem de trinta votos para cima, e apenas existem dez a vinte exemplares por faculdade. Por fim, os ideólogos. O cérebro da colmeia, para que tu não tenhas preocupações mundanas. Irão encontrar

o esquema para que, criando a ilusão de auto-financiamento, terceiros façam chegar o seu dinheiro, e os seus interesses, à sua candidatura. São estes que ostentam o cartão de militante, e não têm pejo em brandilo e exigir a disciplina de voto a algumas obreiras tresmalhadas. Identificam os melhores guerreiros, e é o seu ascendente intelectual que numa primeira fase define para que lado caem. A seu cargo estará o programa, que deverá cumprir moderadamente os estatutos da AAC e as suas linhas políticas, que em breve ficará em suspensão na gaveta. Decidem os mecanismos para influenciar a Comissão Eleitoral, desde a sua estrutura ao número de listas candidatas. No seu reportório, estão o recurso às votações nos átrios e as urnas com um ou duas pessoas, nos cantos recônditos do pólo I, Desporto ou Dentária. Valem poucos, e em alguns casos, até fazem perder votos. São bicho raro. Continua no próximo fascículo.


22 | a cabra | 22 de novembro de 2011 | Terça-feira

opinião Cena Lusófona: paradoxos e irraCionaLidades Cena Lusófona*

Vários meses depois da sua tomada de posse, o novo governo continua sem dar resposta ao nosso apelo e a situação de asfixia financeira da associação degrada-se rapidamente

A Cena Lusófona tem em curso um projecto de promoção da leitura em parceria com a Escola Secundária D. Dinis, em Coimbra. A acção inclui visitas guiadas ao seu Centro de Documentação e Informação (CDI), a disponibilização de parte do seu acervo na biblioteca da escola e leituras de peças de teatro por alunos e actores profissionais. No passado dia 17 de Novembro tiveram lugar as duas primeiras visitas ao CDI, com quase uma centena de alunos. Durante a visita e em declarações aos jornais, vários deles destacaram a riqueza do Centro (aberto ao público, com atendimento especializado) e a sua importância para o conhecimento da realidade social e cultural dos países de língua portuguesa. Este projecto acontece numa altura em que está a decorrer, por iniciativa da Câmara Municipal de Coimbra, o concurso para a requalificação da Ala Central do Colégio das Artes, no Pátio da Inquisição, onde se prevê a instalação da Cena Lusófona e do seu CDI a partir de 2013. Sediada em Coimbra desde 1996, a associação

passará assim a dispor de melhores condições para desenvolver o seu trabalho, contribuindo para a consolidação de um importante polo cultural no centro da cidade, junto ao Teatro da Cerca de São Bernardo e ao Centro de Artes Visuais. O CDI é apenas uma das áreas de intervenção da Cena Lusófona. Dedicada ao intercâmbio teatral entre os países de língua portuguesa, a associação trabalha nas áreas da criação artística (promovendo ou apoiando co-produções internacionais), da formação (com destaque para os três estágios internacionais de actores realizados), dos festivais (a “Estação” é o primeiro festival rotativo na CPLP, com edições realizadas em Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Brasil e Portugal) e das edições (uma colecção de dramaturgia, uma revista, um jornal, documentários), entre outras. No final de 2010, a Cena Lusófona deixou de ter financiamento do governo português. Apesar dos esforços para encontrar soluções alternativas – candidaturas a projectos internacionais; o pedido à autarquia para que comparticipe o

custo com as actuais instalações até à conclusão das obras; apoios pontuais como o da Fundação Calouste Gulbenkian ao projecto com a Escola D. Dinis –, este recuo do governo português pode destruir o trabalho feito ao longo de 15 anos. Reconhecendo este risco, mais de cem criadores, produtores, investigadores e representantes de estruturas de criação de todos os países lusófonos dirigiram em Maio um apelo ao governo português. Afirmando-se como “testemunhas directas da importância da acção levada a cabo pela Cena Lusófona” e sentindo-se “directamente lesados com esta situação”, alertaram para as consequências de um eventual desaparecimento da Associação: “significaria o desbaratar do investimento feito e do capital de confiança gerado desde 1995, bem como o desaproveitamento da vasta rede de contactos e de cumplicidades artísticas e institucionais que o projecto permitiu desenvolver ao longo dos anos e que tem sido base sólida de importantes realizações e de múltiplas iniciativas de colaboração entre os oitos países de língua por-

tuguesa”. Vários meses depois da sua tomada de posse, o novo governo continua sem dar resposta a este apelo e a situação de asfixia financeira da associação degrada-se rapidamente. O paradoxo é evidente. Ao fim de 15 anos, o trabalho realizado é reconhecido local e internacionalmente, foram reunidos meios para construir novas instalações, há projectos e candidaturas em curso. E tudo isto pode acabar, em resultado de uma decisão cega de quem não quis sequer dar-se ao trabalho de conhecer o que está feito. Em altura de crise, parece-nos, mais necessário é aproveitar os recursos de que se dispõe. Partindo do princípio de que Portugal quer continuar a fomentar as relações culturais com os países lusófonos, desperdiçar a experiência adquirida e o investimento público realizado nesta área é, no mínimo, uma enorme irracionalidade.

*Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral

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Cartas ao diretor podem ser enviadas para

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22 de novembro de 2011 | Terça-feira | a

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opinião GreVe GeraL: da indiGnação à poLitização

eLísio estanque*

A história parece repetir-se. Há um ano atrás eram os PEC, um governo PS esgotado e um PM sem credibilidade. Para trás ficavam os eternos problemas na educação, os protestos dos professores, o aumento das desigualdades, as carreiras congeladas, o crescimento do desemprego, a precariedade, o endividamento crescente das famílias, etc., etc. Motivos bastantes para justificar uma greve que foi considerada a maior de sempre. Se há um ano estávamos à beira do abismo, hoje já estamos em queda vertiginosa. Para além das medidas violentas de austeridade que estão longe de se pautar pela equidade (como o próprio PR já denunciou), põem em risco o Estado social e atingem em cheio a classe média, empurrada para uma rápida proletarização. Com o país intervencionado pela Toika, uma soberania mitigada e um governo de direita a querer repetir o estatuto de “bom aluno” – agora já não da Europa mas da Sra. Angela Merkel –, incapaz de admitir outro cenário que não a austeridade pura e dura, uma política duríssima e que recai exclusivamente sobre a força de trabalho e o funcionalismo público em especial, mas poupa as grandes fortunas, os lucros fabulosos e os interesses da banca e do capital, oferece-nos um cenário onde há todas as condições para uma greve de amplitude e impacto nacional, apesar dos custos económicos para os trabalhadores. Ao amplo leque de sectores profissionais, sindicatos e profissões

que representam o conjunto dos trabalhadores (das diversas correntes sindicais) juntam-se os vários movimentos de precários e grupos de jovens indignados, da geração à rasca, associações de estudantes, entre as quais a AAC que foi a primeira a manifestar a adesão ao protesto nacional de dia 24. Um aspeto que poderá fazer a diferença entre esta greve e as anteriores é o facto de as diversas formas de contestação programadas – a convocação simultânea de uma greve geral e de um conjunto de manifestações é algo inédito ou pouco comum – possam assumir-se como um imenso caudal de insatisfação

Com o país intervencionado pela troika, há todas as condições para uma greve de amplitude e impacto nacional, apesar dos custos económicos para os trabalhadores.

capaz de reunir os grupos inorgânicos (os precários, os indignados e em geral os movimentos ligados ao ativismo virtual das redes sociais) e os sectores mais organizados como é o movimento sindical. Essa aliança pode não só afirmar uma revolta geral contra tantas medidas cegas, mas uma orientação política em defesa de conquistas sociais e valores progressistas de que os cidadãos não abdicam.

*Investigador do CES

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 e-mail: acabra@gmail.com

editoriaL a reCapituLação do ato eLeitoraL Chegados a novembro, o cenário é semelhante todos os anos. Dá-se pela presença de cartazes, flyers, outdoors e dos mais variados tipos de material de propaganda, sinal que começou a corrida para os corpos gerentes da Associação Académica de Coimbra (AAC). Este ano, a disputa para a direção-geral da AAC (DG/AAC) conta com mais dois candidatos que no anterior, perfazendo assim cinco listas. Duas já se fizeram notar devido à clara aposta na pré-campanha e à

CF/AAC poderá ter. Apesar de tudo, as bandeiras apregoadas pelas diversas listas não são novas. Infelizmente. O que só pode querer dizer que há algo que tem falhado sucessivamente no trabalho das equipas que passaram pela DG/AAC até aqui. Por entre as principais lacunas pode contar-se a aproximação dos estudantes à academia. Uma bandeira tão propalada em tempos de campanha quanto falhada quando muda a direção. O interesse dos estudantes pela academia e pela

a aproximação dos estudantes à academia é uma bandeira tão propalada quanto falhada quando muda a direção envergadura da estrutura criada por cada uma. O que não se percebe é porque é que há três listas com ideias bastante semelhantes em vez de uma lista que as congregasse, já que – defendendo os mesmo princípios – estão a disputar o mesmo eleitorado. Assim sendo, perdem expressão eleitoral ao invés de constituírem uma alternativa de peso. Para o Conselho Fiscal da AAC (CF/AAC) há um incremento ainda maior no número de listas: dez no total. No entanto, será ainda cedo para tecer quaisquer considerações ou tirar conclusões sobre o verdadeiro efeito eleitoral que tal quantidade de listas a concorrer para o

participação ativa no seu dia a dia deveria ser algo espontâneo em vez de uma luta que as candidaturas se propõe a travar todos os anos. Por acréscimo, podemos contar com a oposição declarada ao atual sistema de ação social escolar, tal como ao modelo de financiamento do ensino superior, indício que também nestes campos os estudantes têm feito importantes concessões à tutela. Constância tem sido a palavra que poderia caracterizar este ciclo: na semana que anima a academia tudo muda, para daqui a um ano voltar ao mesmo.

Camilo Soldado

NOTA EDITORIAL Ao contrário do que tem vindo a acontecer em anos anteriores, o Jornal Universitário de Coimbra – A Cabra, tal como a TV AAC, não vai participar na organização e moderação do debate com os candidatos à DG/AAC. Esta situação deve-se unicamente ao facto de a Rádio Universidade de Coimbra (RUC), sem qualquer aviso e justificação prévia, ter avançado unilateralmente para a realização do debate. De salientar que o Jornal Universitário – A Cabra sempre esteve disponível para iniciativas conjuntas com os diferentes órgãos de comunicação da casa, vindo por este meio expressar a reprovação que esta atitude nos merece. Apesar do sucedido, o Jornal A Cabra entende que a cobertura do debate é do superior interesse dos estudantes e, como tal, acompanhará essa atividade, tal como todas as restantes relativas às eleições para os corpos gerentes da AAC.

Diretor Camilo Soldado Editores-Executivos Inês Amado da Silva, João Gaspar Editoras-Executivas Multimédia Ana Francisco, Catarina Gomes Editores Inês Balreira (Ensino Superior), Ana Duarte (Cultura), Fernando Sá Pessoa (Desporto), Ana Morais (Cidade), Filipe Furtado (Ciência & Tecnologia), Liliana Cunha (País), Maria Garrido (Mundo) Secretária de Redação Nicole Inácio Paginação Inês Amado da Silva, João Miranda, Rafaela Carvalho Redação Daniel Silva, Diana Lima, Diana Teixeira, Fábio Santos, Félix Ribeiro, Joana de Castro, Paulo Sérgio Santos Fotografia Ana Patrícia Abreu, David Barata, Inês Amado da Silva, Inês Balreira, Ivone Bezerra, Joaquim Coelho, Rafaela Carvalho Ilustração Ana Granado, Ana Beatriz Marques, Tiago Dinis Colaborou nesta edição Carolina Caetano, Cláudia Carvalho Silva, David Barata, Flávia Cid Nunes, Inês Filipe, Joana Cabral, Joana Guimarães, Mariana Santos Mendes, Margarida Pais, Maria Rita Loio, Nelson Barbosa, Raquel Mariz Colaboradores Permanentes Carlos Braz, João Miranda, João Ribeiro, João Terêncio, João Valadão, José Afonso Biscaia, José Miguel Pereira, José Santiago, Lígia Anjos, Luís Luzio, Pedro Madureira, Pedro Nunes, Rafael Pinto, Rui Craveirinha Publicidade João Gaspar 239821554; 917011120 Impressão FIG – Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Gonçalo Xufre Silva, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, Sandro William Junqueira


Mais informação disponível em

Redação: Secção de Jornalismo Associação Académica de Coimbra Rua Padre António Vieira 3000 Coimbra Telf: 239 82 15 54

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Marionet

MSSS

Numa época de crise cultural, ainda há instituições que mostram a qualidade do que se produz em Portugal. Exemplo disso é a companhia marionet, que desde a sua criação, tem vindo a apresentar projetos inovadores na área da dramatização, com a aposta em raros conceitos como a ciência no teatro. “Cálculo” é a sua mais recente estreia, que se fez acompanhar de um grande sucesso e do total apoio do seu escritor, o químico Carl Djerassi. Num mundo cada vez mais polivalente, a mistura de conceitos tão distintos como ciência e a representação é necessária. E a marionet está de parabéns pela sua concretização. A.D.

PersPetiva

Os falsos recibos verdes são uma afronta à legalidade da atividade laboral portuguesa. Independentes no papel, mas limitados no que toca ao cumprimento dos seus direitos, vêm enfrentando nas últimas semanas uma ameaça coerciva de prisão por parte da segurança social. Prender quem não tem pago os seus descontos parece mais fácil do que tomar uma atitude ágil e intimar as empresas que devem mais de 5 mil milhões de euros à instituição. É tempo de repensar a ética do ministério da solidariedade e da segurança social. Estaremos perante uma sobrevalorização do pagamento da dívida? L.C.

por DaviD Barata

Vítor Lobo

Numa altura em que a Universidade de Coimbra (UC) vai sofrer um corte de 20 milhões de euros, torna-se importante o exemplo de Victor Lobo, recentemente premiado pela Academia de Ciências Russa. A longa colaboração com a academia russa valeu ao investigador químico da Faculdade de Ciências e Tecnologia o prémio Nicolai M. Emanuel. A aplicação prática do seu trabalho permite desenvolver baterias para automóveis elétricos, estudar a corrosão ou o tratamento de águas residuais. As cinco décadas de contributo à ciência de Victor Lobo mostram a qualidade intelectual da UC. F.F

200 x 100 Um simples olhar faz despertar um furacão de sensações em cada um de nós. E aí, baseada em sentidos, a nossa mente desenvolve algo que nos vai marcar até um certo ponto. Mas perante a vida, na minha opinião, vão existir aqueles simples momentos em que um olhar é algo que irá prevalecer, perante o tempo, na nossa mente. É algo próprio, é algo difícil de descrever. Porque cada um de nós, naquilo que vê pode imaginar tudo. O tempo passa, os momentos ficam….


Edição 237