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acabra

19 DE MARÇO DE 2013 • ANO XXIII • N.º 258 • QUINZENAL GRATUITO DIRETORA ANA DUARTE • EDITORA-EXECUTIVA ANA MORAIS

LEILA CAMPOS COORDENADORA-GERAL DA ÁREA POLÍTICA DA DG/AAC

“O que fazemos face ao contexto atual é diário”

Dirigentes: falta de expectativas para dia 24

JORNAL UNIVERSITÁRIO DE COIMBRA

PÁG. 5 CAROLINE PINHEIRO

Os líderes representativos de algumas das maiores associações do país afirmam que a mobilização estudantil não se enquadra no espírito da comemoração do Dia do Estudante. POESIA: HÁ CRIADORES

AS FRAQUEZAS DA

NA CIDADE

POTÊNCIA ALEMÃ

PÁG.2 E 3

PÁG.13

TAÇA DE PORTUGAL DE

UMA IDEIA PARA O ES:

HALTEROFILISMO

ADRIANA BEBIANO

PÁG.7

PÁG.16

Feira dos Lázaros 2013

Jogos e produtos tradicionais entre o Largo Dom Dinis e o Largo de São João, em Celas PÁG. 10 E 11 DANIELA PROENÇA

“Projeto H”

TEUC

Uma peça que alia a representação ao movimento inicia as comemorações do 75º aniversário do Teatro de Estudantes

PÁG.6

@

Mais informação em

acabra.net


2 | a cabra | 19 de marรงo de 2013 | Terรงa-feira

DESTAQUE

POESIA VISUAL POR MANUEL PORTELA

Isenta de rรณtulos, a poesia anda por cรก MP, reuni ontem 1 (2013) e MP, reuni ontem 2 (2013)


19 de março de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 3

DESTAQUE

Mal Dito: a poesia toma a cidade

Que se deixe de lado a ideia de que a poesia é difícil e que em Coimbra não há quem a escreva. Ela está presente na rotina e chega-nos de várias formas. E os poetas, esses andam por cá, mas falta-lhes a visibilidade e o reconhecimento da cidade, que muitas vezes não os acolhe. Por Ana Duarte e Ana Morais

“A

parentemente Coimbra viu-se destituída de grandes nomes literários”. O professor de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), José Seabra Pereira, avalia desta forma o período pós-neorrealista que se viveu na cidade, quando se fala de criação literária e poética. Para o professor, depois de Miguel Torga, ou até mesmo após a passagem de nomes como Manuel Alegre por cá, a cidade adormeceu e deixou de acarinhar os seus criadores. “A cidade, e até mesmo os seus meios culturais, não prestam a devida atenção aos criadores poetas que tem”, lamenta.

Os criadores atuais

“Às vezes gostava de me apresentar: sou o Luís Quintais, tenho uma bicicleta e um blogue”. De forma simplista e irónica, Quintais mostra um pouco da essência da sua obra e do papel que ocupa. A lecionar várias cadeiras de Antropologia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, classifica a sua escrita como: “uma forma de responder” a algo. A publicar desde 1995, pela mão da Editora Cotovia, adianta que está um novo livro a ser publicado “para breve” por outra editora. Apesar de residir cá há alguns anos, não se cola à imagem de ser “um poeta de Coimbra”, tal como João Rasteiro. A razão é porque as suas poéticas não se embrenham na cidade.

Mas o que é a poesia afinal?

A resposta é difícil e pouco definitiva. Ainda assim, os poetas tentam responder. “Um dos objetivos da poesia é existir ‘per si’ sem servir para nada”, confere João Rasteiro acrescentado que “o essencial da poesia é criar um estranhamento nas pessoas”. Por

sua vez, Luís Quintais é mais dúbio, limitando-se a partilhar que é a “dimensão expressiva da linguagem” o que mais lhe agrada no género literário. Num registo sugestivo, o poeta Manuel Domingos diz mesmo: “a poesia é uma gaja muito potente”. Maria Sousa, editora e poetisa, vai mais longe e sugere se perca o medo associado à poesia, uma vez que “ela não morde”. Há, então, a necessidade de exponenciar a publicação de poesia. Hoje, os grandes grupos editoriais preferem o romance à criação poética, e esta já não chega às montras das livrarias. Seabra Pereira aponta as pequenas editoras que vão surgindo como uma solução que vai colmatando essa falha de fazer chegar cada vez mais poesia ao público, apesar da sua “vida efémera”. Editoras como a Palimage, Besouro e Medula, Do Lado Esquerdo, onde, frequentemente os seus editores são também poetas. Maria Sousa é um desses exemplos: é editora da Do Lado Esquerdo e poeta de “colheita tardia”. Engane-se quem pensa que a arte poética é de nichos ou um luxo, até. É algo que “dá trabalho. O momento estimulante vem depois, é preciso atitude, luta, combate”, justifica Luís Quintais. O conformismo das pessoas leva à renegação da poesia, por ser aparentemente difícil de compreender. Mas a verdade é que ela já é antiga e está presente em momentos tão simples como ditados populares ou outros rituais quotidianos. “Pode-se enviar um poema por SMS quase, uma pessoa pode ficar com três ou quatro versos por dia em vez de um naco de prosa”, brinca o poeta.

Levar a poesia às pessoas

Para fazer chegar as artes poéticas ao cidadão mais comum suce-

deram-se várias as tentativas. Um último exemplo desse esforço foram os Encontros Internacionais de Poetas, realizados em 2010 e que trouxeram até Prémios Nobel. Por várias contrariedades, este ano não se realizam. Segundo João Rasteiro, a justificação reside na “falta de visibilidade” que esta atividade tinha por todos, quer pelas entidades da própria cidade quer pela comunicação social de todo o país. Para o poeta, estes acontecimentos pretendem “chamar a atenção e dar alguma visibilidade a pessoas que estão a fazer coisas completamente diferentes”. Mas, é mais uma vez aqui que o subfinanciamento da cultura é evidente. Apesar de muitos considerarem que para criar não é necessária qualquer garantia financeira, João Rasteiro ressalva: “é impossível avançar sem a garantia mínima de algum financiamento ou de algum dinheiro”. Ainda assim, há quem rume contra estas adversidades e se guie pelo sonho da poesia. Como é o caso da primeira edição do Festival Mal Dito, organizado por amantes da poesia [ver texto ao lado]. Como escape à rotina e à agitação diária, o professor da faculdade de Letras aponta a poesia como forma de potenciar a imaginação. Reforça também a ideia desta arte ser só para alguns e admite que o dia 21 – quando se comemora o Dia Mundial da Poesia – deve ser celebrado com a poesia a tomar a cidade e a intervir artisticamente junto das pessoas “de várias camadas etárias e de vários estratos sociais”. Citando Natália Correia, Seabra Pereira diz: “a poesia é para comer”. Em jeito de conclusão, deixa a ideia de que o mundo da poética pode trazer não só uma “razão de alegria”, como também “uma maior força de vida”. Com Camila Correia

Ana Duarte Ana Morais

Há que exponenciar a publicação de poesia. Hoje, os grandes grupos editoriais, preferem o romance à criação poética, e esta já não chega às montras das livrarias.

A partir de dia 21, a poesia vai pulsar pela cidade. Pela primeira vez, realiza-se um festival para homenageá-la – Festival Mal Dito. Num ano em que não se prevê a realização dos Encontros Internacionais de Poetas, este festival vem a calhar. Organizado por um grupo de amigos que desde cedo se associa à poesia e a outras atividades culturais, começou a ser planeado no início de fevereiro. Em pouco mais de um mês, a facilidade com que surgiram atividades e parcerias para três dias de programação inédita foi notória. Sem a pretensão de ser um evento fechado, Sandra Cruz, um dos elementos da organização, ressalva que o objetivo “não era ser de poetas para poetas” mas sim com o intuito de “incluir toda a gente que quisesse estar”. Porquê “Mal Dito”? Atiraram-se vários nomes para cima da mesa, explica Sandra Cruz, passando por uma pequena brincadeira com as bemaventuranças, até que um dos elementos do grupo, para contrariar a ideia de “poesia bem dita”, exclamou: “é o festival Mal Dito”. Alargando o grupo de amigos, rapidamente surgiram entidades e outras pessoas para participar. Como foi o caso da Secção de Escrita e Leitura da Associação Académica de Coimbra (SESLA/AAC). “Tentamos fazer tudo de forma simples e o máximo que conseguirmos”, esclarece a presidente Sara Vitorino, para justificar a participação no Festival. De forma a inverter a ideia de que o que tem a ver com a escrita e leitura “é chato”, a atividade proposta pela secção para o Mal Dito, foi um ‘after hours’ no Aqui Base Tango, no dia 22, associado à poesia, bem como o Mural Cadáver Esquisito, como explica Leonor Nunes, onde todos podem completar uma história sem se saber as frases anteriores. Também a Casa da Escrita se associou “plenamente” ao festival, segundo Seabra Pereira, curador da entidade. Com o intuito de chegar às pessoas e aos lugares que elas mais frequentam, Sandra Cruz destaca atividades como o “Pregão de Poesia no Mercado” ou os “Poemas em pantufas”, ambos dinamizados por alunos de escolas e que envolvem a leitura de poemas quer no Mercado Municipal quer no autocarro, vulgarmente conhecido como “pantufinhas”. Desta forma, Sandra Cruz conclui: “a poesia é um dos nossos medicamentos, um dos remédios do dia-adia. E queremos levá-la às pessoas”. com Daniel Alves da Silva


4 | a cabra | 19 de março de 2013 | Terça-feira

ENSINO SUPERIOR

Reivindicação no Ensino Superior está fragmentada

As vontades do movimento associativo nacional estão em lados opostos. De um lado há uma manifestação no dia 21, do outro apresenta-se uma ação que “não necessita de divulgação antecipada”

Liliana Cunha

A comemoração de uma das mais importantes datas para o Ensino Superior (ES) em Portugal, o Dia do Estudante, no próximo domingo, dá no momento visibilidade a uma rutura no seio do movimento associativo nacional. “Cada associação tem autonomia, mas este tipo de iniciativas que depois acabam sempre por surgir como de todos, dão uma ideia de fragmentação e de que a nossa força não é a maior nesta parte”, declara o presidente da Federação Académica do Porto (FAP), Rúben Alves. As iniciativas distintas de que fala remetem para uma manifestação que veio no seguimento de um manifesto subscrito por várias associações do país: “10% Eles aguentam! Tu estudas!” e a ação reivindicativa, ainda sem moldes, aprovada em Encontro Nacional de Direções Associativas (ENDA) no último dia 10 de março. “Ficou marcada como uma ação reivindicativa, em ENDA, e a pouco menos de uma semana ainda não tem moldes definidos”, explica um dos membros subscritores do manifesto e estudante da Faculdade de

ARQUIVO - INÊS BALREIRA

Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), Paulo Antunes. “As associações são livres também de se associar a outras ou de mudar o dia, mas o que interessa é que haja qualquer tipo de ação reivindicativa”, lembra o membro da associação de estudantes da FLUL. Quanto à moção, aprovada pelas maiores associações do país, não tem como pretensão marcar impacto: “sabemos que o dia 24, em termos de mobilização de massas, é um dia muito difícil e portanto não temos grandes expectativas nem é essa a missão e espírito com que marcámos esta ação reivindicativa”, sublinha o presidente da Associação Académica do Minho, Carlos Videira. Membro presente na comissão que dará forma à ação, Carlos Videira refere entrelinhas já uma definição do que vai acontecer: marcar de “forma criativa e conseguir chamar a atenção da opinião pública para os problemas do ES - o comunicado que se pretende lançar sobre aquilo que se quer para o futuro”.

“Uma ação de protesto que tenha expressão dos estudantes”

Quanto ao facto de haver já uma manifestação anunciada em Lisboa para três dias antes, Carlos Videira acredita ser “uma ação claramente instrumentalizada” e que não serve as intenções de uma coerência. “Esta ação não servia o enquadramento e ‘timing’ nem acrescentaria de todo algo ao trabalho que tem sido feito pela grande maioria do movimento associativo”. Depois de uma possível manifestação negada desde o desígnio em

Em 2012 os estudantes silenciaram-se em protesto

são”, esclarece a senadora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Rita Mendes. A inexistência de um regimento que defina o que fazer nas situações em que nem os senadores nem os seus suplentes estejam para assegurar o cargo fez com que os estudantes senadores resolvessem levantar a questão e se comprometessem a elaborá-lo. No que toca a este ano, a tónica vai para a distribuição do orçamento de forma equilibrada pelas Unidades Orgânicas. “Estamos um pouco às cegas a tentar distirbuir o dinheiro de forma equitativa e justa”, justifica o senador representante da Faculdade de Farmácia da UC, Adriano Carvalho. O problema relaciona-se com o facto de haver uma clara necessidade de reajuste de cortes e uma verba que ainda não está ultimada. “É um tema muito complexo porque apesar das faculdades terem alguma autonomia não é fácil. Falta-me ter mais conhecimento de

causa de como gerir uma faculdade”, explica o senador da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Jonathan Torres. A ação concertada entre os estudantes no órgão tem ganhado força: “ os estudantes em Senado têm-se reunido mais do que uma vez por mês”, frisa Lídia Pereira. Por isso, uma das ações será calendarizar atividades no sentido de chegar a quem ainda não foi possível: “é no Senado que está a maior representação estudantil na Universidade. São oito estudantes contra cinco no Conselho Geral da UC”, explica a senadora. Os problemas relativos a cada faculdade têm sido, na voz dos senadores, unanimemente discutidos em sede de Assembleia Geral e Conselhos Pedagógicos. No entanto, há questões levantadas pelos senadores de Medicina e Direito. Em Direito procurou-se saber como “estava o Tribunal Universitário Judicial Europeu e também a biblio-

ENDA, outros há no movimento associativo nacional que quiseram ir em frente com “uma ação de protesto que tenha, de facto, expressão dos estudante”, atesta a representante da Associação da Faculdade de Belas Artes do Porto, Maria Silva. A grande proposta que se subscreve no manifesto envolvido na ação propõe a criação de uma sobretaxa aos acionistas das empresas que detenham mais de dez por cento das ações para criar um imposto sobre os rendimentos distribuídos aquando no saldo positivo das empresas: “hoje, os acionistas que têm menos de dez por cento das empresas têm uma taxa sobre isto tudo. Mas os que têm mais de dez por cento supostamente estão isentos e a proposta é taxar esses acionistas”, afirma a representante. Para já, cerca de oito Instituições de ES já subscreveram a tomada de posição e querem marcar presença em Lisboa, numa marcha que irá desde o Marquês de Pombal até à Assembleia da República. “Não estamos a dizer que vamos acabar com os problemas do mundo, é uma proposta que poderia aumentar o financiamento do ES e é uma realidade”, assevera Maria Silva. Embora as duas ações não tenham os mesmos propósitos, fazem com que os movimentos andem às avessas: “por opção do proponente não foram submetidos a aprovação em ENDA e, por isso, não têm a força de serem uma posição do movimento associativo nacional porque assim o quiseram”, sustenta o presidente da FAP. Rúben Alves não nega que a ação de dia 24 já devia ter nome. “Este ano, à partida, aquilo que queremos fazer é uma atividade com cariz simbólico que não necessita de uma divulgação antecipada para que haja uma mobilização dos estudantes”, comenta. Ficam assim dois objetivos e intenções de promover o ES opostas. com Daniela Gonçalves

Novo Senado da UC com dificuldade em decidir onde cortar O órgão que mais representação tem por parte dos estudantes na UC vive na situação de averiguar onde mais se pode cortar na estrutura. Senadores falam em estar “às cegas”

Liliana Cunha

O Senado da Universidade de Coimbra (UC) eleito há cerca de três meses continua a desmerecer o interesse da maioria dos estudantes. No entanto, há questões a ser discutidas que se catapultam para fora do órgão consultivo da universidade: “não existe um regimento interno para o Senado porque, como são dois anos de mandato, há alguns que já cá estão há algum tempo e há o problema da suces-

teca que está numa fase muito mais atrasada”, conta o senador Bruno Matias. Sabe-se que as obras vão começar no primeiro, contudo, a biblioteca não tem data de conclusão. Quanto a Medicina existe um problema relacionado com a segurança. Inês Madaleno refere que “é sabido que a Faculdade fez bastantes cortes no último ano, nomeadamente no que concerne à vigilância. Em vez de ter um segurança a tempo inteiro, vai ter um que vai abrir e outro que fecha a faculdade”. Antecipa-se assim a possibilidade de, no mesmo polo, Farmácia e Medicina partilharem a segurança. O facto de ser um órgão consultivo não diminui a relevância da opinião dos estudantes no seu seio. Todos são resolutos em afirmar que não sentem diferenças e que a sua voz é tida em conta: “o Reitor leva extremamente a sério a nossa opinião, temos sido consultados em todos os assuntos”, atesta o senador de Letras, Rúben Ferreira.

ANA MORAIS


19 de março de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 5

ENSINO SUPERIOR LEILA CAMPOS • COORDENADORA-GERAL DA ÁREA POLÍTICA DA DG/AAC

RAFAELA CARVALHO

“Queremos criar posições consensuais na academia”

Liliana Cunha Ana Morais

A cinco dias das comemorações do Dia do Estudante, Leila Campos não aprofunda o plano de ação. Nas restantes atividades que competem à sua área, o seu discurso é vago, tornando o Plano de Atividades (PA) para a Área Política da Direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) parco em atividades pré-definidas.

mensagem e que estão a ser tidas as conversas necessárias para chegar a um acordo entre todas as associações. O dia vai calhar num domingo de férias. Como encaraste as várias propostas dos movimentos na última Assembleia Magna (AM) para antecipar as comemorações? Relativamente ao dia 24 de março aceitámos as propostas do colega Igor Constantino e é isso que vamos defender no Dia do Estudante.

O Dia do Estudante está para breve. Qual é o plano de comemorações da DG/AAC? A DG/AAC vai comemorar o Dia do Estudante em conjunto com as outras associações do movimento associativo na comissão que foi criada no último Encontro Nacional de Direções Associativas (ENDA) e o que quer que seja decidido será entre estas. Vai haver reuniões esta semana para definir, mas sabemos que uma coisa é certa – temos de passar uma mensagem forte. Temos também de lembrar que há pessoas que ficaram de fora do sistema de ação social por motivos que consideramos injustos.

No PA para 2013, documento apresentado na última AM, pode ler-se na Área de Política que se “pretende identificar e procurar soluções para o que afeta os estudantes”. De que forma? O sucesso do nosso trabalho é determinado pela utilidade que temos para os estudantes e a capacidade de defender os seus interesses. Resolvemos problemas com os Serviços Académicos, com os Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra e tentamos construir propostas que no nosso entender melhorariam o regulamento de atribuição de bolsas.

Mas faltam menos de dez dias. Será o suficiente para ultimar essa ação e passar uma mensagem forte? Sim. Quando tiver informações mais concretas darei. Neste momento, sei que vamos passar uma

Qual a estratégia política delineada para a área? O passo que demos na última AM foi indicativo da política do que pretendemos e que também é o lema da nossa campanha - ligar a academia. Queremos cooperar com

os agentes em nosso redor. Queremos criar posições consensuais na academia. Queremos, com as nossas atividades, puxar os estudantes para a discussão, tomando estas causas como suas. Lia-se também que irá ser elaborado “um calendário reivindicativo consistente”. No Plano não está patente qualquer ação desse cariz. Porquê? A reivindicação é à partida resposta a algo. Sabemos atualmente os problemas que temos e como responder. Tivemos no dia 14 uma ação, mas estas surgem consoante o que for acontecendo. Avizinha-se o nosso espaço por excelência de concertação de posições políticas no seio da Académica que é o Fórum AAC e daí também vão sair certamente ações de reivindicação. No entanto, e na atual situação política, social e económica, não pensas que já devia haver propostas da vossa parte para responder a isso? Aquilo que fazemos face ao contexto atual é diário. Criámos propostas de melhorias, tentámos junto das várias entidades ajudar os nossos estudantes e isso é constante. Relativamente às atividades reivindicativas elas vão existir. Pretendem constituir o calendário reivindicativo “com abertura aos vários movimentos estudantis”, como se lê no PA. Consideras que a ação de

dia 14 já iniciou esse percurso? Com certeza. Outro elemento que consideramos fundamental para que as coisas resultem é a capacidade de cooperar com as pessoas em nosso redor. A união determina a força das nossas ações. A ação social é sempre das áreas prementes de atividades devido à redução de atribuição de bolsas e ao aumento de alunos a abandonar o Ensino Superior (ES). O que definiram nesse sentido? No último ENDA fomos co-proponentes de uma moção que visava algumas melhorias no regulamento de atribuição de bolsas. Achamos que neste momento o regulamento contem várias injustiças, como o facto de estudantes que tenham um agregrado familiar com situação tributária não regularizada. Para nós é gritante, iremos fazer de tudo para que essa realidade mude. Por muito que o Estado afirme que há mais verba disponível para a ação social escolar, se não mudar os critérios de atribuição de bolsas não adianta de nada. Queremos batalhar nesse aspeto. No PA são referidos o Congresso de ES (em dezembro) e o (In)Formação Superior (em outubro) como “espaços de formação política”. É necessária formação específica para assumir um cargo de dirigente associativo? Sem dúvida alguma. É precisa for-

mação técnica. Se quisermos propor alguma alteração a um regulamento ou a uma lei temos de a conhecer primeiro. Quando se diz formação política não será de todo formação ideológica. É dar às pessoas a conhecer aquilo que são as realidades, aquilo que são as políticas públicas. Dar-lhes o material suficiente para que formem massa crítica. Então por que não estas atividades no início dos mandatos? Acontece que a maioria dos núcleos começa a tomar posse nas próximas semanas e durante este semestre. E estas atividades incidem sobretudo nesse período temporal e por isso a justificação reside aí. O Fórum AAC foi das atividades mais conturbadas e referidas nas últimas AM devido à escolha do local e aos custos que acarreta. Já há local e ordem de trabalhos para o próximo? Neste momento continuamos à procura de um local que ofereça os menores custos. Quanto à ordem de trabalhos é precisamente dar a conhecer aos núcleos aquilo que temos feito de uma forma mais profunda. Acho que é no fórum que devemos dar formação sobre aquilo que fazemos, incentivá-los.

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Entrevista na íntegra em

cabra net


6 | a cabra | 19 de março de 2013 | Terça-feira

CULTURA

Solidão partilhada a sete cá

cultura por 20

O TEUC associa-se à coreografa Joana Providência em “Projecto H”. Com estreia marcada para 4 de abril, no Teatro da Cerca de São Bernardo, marca o início das comemorações dos 75 anos do grupo teatral. Por Daniela Proença

MAR

FOLK AO SALÃO

música salão Brazil • 22h00 s/ informação De Preço

21 MAR

"WILDE"

TeaTro TaGV • 21h30 7€ c/DesconTos

21 a 23 MAR

"MUSEU DA RUA”

insTalação caPc – eDifício seDe 14h00 - 20h00 enTraDa liVre

22 MAR

... A MIXTURE OF ORCHESTRAL, ELECTRONIC MUSIC AND VISUAL EFFECTS!

Performance TaGV 21h30 5€ c/DesconTos

22 MAR

BLIND TAPES QUARTET música salão Brazil 14h30 – 17h30 enTraDa liVre

23 MAR

NOITE DE MURMÜRIOS : COELHO RADIOACTIVO + BIRDS ARE INDIE DJSET

27

música aqui Base TanGo enTraDa liVre

MAR

"VISITA GUIADA À OMT"

VisiTa GuiaDa omT 18h00, 19h00 e 21h00 enTraDa liVre

27 MAR

"AS BARCAS" DIA MUNDIAL DO TEATRO TeaTro TaGV 21h30 1€

28 MAR

GIVE EM BLOOD + BORDERLANDS + FIGHT TODAY música sTaTes cluB 23h 5€

1

ABR

"LA DOLCE VITA"

cinema TaGV 21h30

4€ c/DesconTos

Por Daniel Alves da Silva

A

mais recente produção do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) alia a representação ao movimento. “projeto H” encontra inspiração nas telas de Edward Hopper e n’”O Caderno Vermelho” de Paul Auster, sendo uma co-criação TEUC e Joana Providência. Sobe ao palco do Teatro da Cerca de São Bernardo pelas 21h30 dos dias 4, 5, 6 e 7 de abril e irá também abrir o FATAL (Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa) 2013. Em palco, sete atores descobremse pelo movimento. O número ímpar faz com que nas cenas entre casais um deles não tenha par; mas na verdade não fica menos envolvido do que os restantes: quem está só, relembra um parceiro que partiu, já esteve mas não se encontra mais. O sentimento está igualmente visível e é minuciosamente traduzido pelos movimentos e parcas palavras dos atores. Essa sensação de solidão é transmitida mesmo pelos membros em casal que, estando acompanhados, estão sós dentro de si mesmos, irremediavelmente incompletos e refugiados nos seus próprios pensamentos, de uma forma honesta e não romanceada.

Os movimentos da casualidade

O contato inicial entre o TEUC e a coreógrafa contemporânea dá-se num ‘workshop’, organizado pela Escola da Noite, onde, segundo relata Joana Providência, se fez “uma retrospetiva” do seu trabalho com alguns espetáculos, adiantando que encenar também lhe dá muito prazer. Quando surgiu o convite, a coreógrafa conta que tinha em mente a obra de Edward Hopper, “sobretudo os quadros

DANIELA PROENÇA

projecto H, em cena de 4 a 6 de abril, no Teatro da Cerca de São Bernardo que têm a presença de pessoas” e a partir dos escolhidos foram construindo partituras de movimento. Sempre presente, tal como nas pinturas selecionadas, está a ideia de solidão e de reflexão pessoal, “como um momento de filme, quando aconteceu algo importante ou está para acontecer e ficamos sem saber muito bem o quê”, compara Joana Providência. Aos quadros associam escritos de Paul Auster onde domina a importância das coincidências que nos ultrapassam. Para a coreógrafa “é uma coincidência incrível conhecer alguém especial entre tanta gente” e confessa que também já vivenciou perfeitas casualidades. Rafaela Bidarra, formanda no

TEUC em 2007, considera que “a peça é inspiradora e desafiante por trabalhar uma linha diferente” daquela a que estão habituados. É um teatro de movimento onde não criam com base na palavra. A concentração, repetição e memorização dos mais subtis movimentos são fulcrais. Acrescenta que “é interessante transparecer para o público a ideia de estar com alguém e de repente passar para um universo interior”, apenas pela linguagem corporal. Alguns momentos de êxtase criam dinâmica e aliviam a audiência, que não deixa de sentir a melancolia reflexiva que transborda em palco. No ano em que o TEUC festeja 75 anos de existência e se impõe como o

grupo de teatro universitário mais antigo da Europa ainda em funcionamento, esta é apenas a primeiradas diversas atividades planeadas. Rafaela Bidarra, que também faz parte da direção do TEUC, esclarece que pretendem iniciar uma colaboração com a Escola da Noite e o encenador António Augusto Barros. Estão também pensadas possíveis performances na rua e trabalho em conjunto com o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, dado que este “nasceu do TEUC”. Para a atriz, a maior responsabilidade é “manter a aposta na formação e qualidade – estar 75 anos a produzir sem qualidade não valeria a pena”.

ritório, a moda ou o cinema, com perguntas que escondem uma pequena história. O ‘quiz show’ é um formato inglês que cresceu em Lisboa a partir de um ‘irish pub’, explica o organizador, João Moreira. Quando vivia em Lisboa, explica, “era um aficionado, costumava frequentar ‘quizzes’”, e decidiu trazer o formato para Coimbra. Daí, e sendo sócio da Associação Arte à Parte, surgiu a hipótese de propor a sua realização no espaço, tendo o primeiro ‘quiz show’ decorrido em setembro. O principal desafio do ‘quiz’, segundo o apresentador Vítor Silva, é “encontrar perguntas interessantes”. Sair do ‘quiz’ “com algum ganho”, esclarece ainda. “Fiz perguntas de qualquer coisa que as pessoas ficariam a saber um pouco mais, sobre determinadas histórias”. Pequenas

curiosidades, seja o local (e o porquê da existência) do Jardim das Pichas Murchas, assim batizado pelo calceteiro Carlos Vinagre, ou que o Festival de Woodstock original se realizou afinal em Bethel e que os The Doors recusaram atuar no mítico evento. Claro que há sempre o risco de haver batota. João Moreira aponta os ‘smartphones’ como algo que veio “desvirtuar” um pouco o ‘quiz’. Logo nos primeiros ‘quizzes’, houve quem fosse apanhado a cabular. “Cheguei a fazer perguntas armadilha”, conta João Moreira, que refere aqueles países “que só existem na internet” e cuja única forma de se saber a capital é recorrendo à consulta desse meio. A partir daí, as pessoas perceberam que é para “jogar limpo”, até porque o principal objetivo do ‘quiz’ é a diversão. O “desafio” em si é um dos moti-

vos apontados por Ana Neto, uma das participantes. Um desafio que demora a ser preparado, por voluntários como Vítor Silva, que reuniu e apresentou as 50 perguntas da noite, muitas delas duplas. “Em termos de conhecimentos, saí com muito mais do que aqueles que tinha anteriormente”, refere Eduardo Custódio, outro dos concorrentes. Entre os presentes, existe uma opinião que é unânime. “É um evento positivo”, sintetiza Vítor Silva, preferível a estar “num bar a ouvir música alta”, sendo também “uma forma de conhecer pessoas novas e interessantes”. “É diferente daquilo que estamos acostumados”, segundo Eduardo Custódio. Como João Moreira alude “há muita noite sem nada para fazer”, e o ‘quiz’ é uma “ocupação leve” para essas “noites mortas”.

Perguntas interessantes para noites mortas O “Quiz Show” começa a reunir adeptos em Coimbra. A atividade decorre na Sala Arte à Parte, todas as terças feiras, onde a cultura geral é posta à prova

Daniel Alves da Silva

Em cada mesa reúne-se um grupo, que discute entre si a resposta à questão que está a ser colocada. O tema deste ‘quiz’ é a geografia, implícita no “onde?” que dá título à atividade. Todas as sessões têm pontos de partida diferentes. Neste, sob pretexto do “onde?”, percorre-se a banda desenhada, as disputas de ter-


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DESPORTO

AAC: um peso forte no halterofilismo

O Pavilhão I do Estádio Universitário foi o local onde decorreu a Taça de Portugal de halterofilismo, onde competiram 28 atletas de cinco equipas nacionais

Daniel Alves da Silva

A prova, organizada pela Secção de Halterofilismo da Associação Académica de Coimbra (AAC), realizou-se no último sábado, numa competição em que a AAC se sagrou vencedora no setor feminino, tendo colecionado 242,667 pontos, enquanto que o Ginásio Sportivo de Carcavelos

(GSC) se ficou pelos 186,811. A classificação masculina, por equipas, foi a seguinte: em primeiro, o Ginásio Sportivo de Carcavelos, com 867.233 pontos, seguido pela Associação Académica de Coimbra, que conquistou o segundo lugar com 766.087. A completar o pódio encontra-se o Ginásio Atlético Clube, que atingiu assim o terceiro lugar com 730,583 pontos. As restantes equipas, Só Dores Dureza Team e Círculo de Ferro obtiveram 605,344 e 525,413 pontos, respetivamente. Para Alexandre Brás, atleta na categoria menos 56 quilos e treinador da Secção de Halterofilismo da AAC, a participação da equipa masculina “foi bastante positiva”. Encontrou-se dentro do esperado. “Ficámos em segundo, atrás de um dos clubes com maior

historial”, acrescentou ainda Alexandre Brás. Apesar do GSC ter menos atletas do que a AAC, Brás acrescenta que o clube possui “alguns atletas melhores do que os nossos”. Contudo, o treinador refere que teve em competição “alguns atletas bastante novos”, alguns que ainda são estudantes universitários, “com um largo futuro pela frente”, estando abertas “boas perspetivas” quanto ao seu futuro na modalidade. Quanto ao setor feminino, o resultado foi “bastante bom”, dado o atual panorama da presença feminina, estando o setor “desfalcado”, nas palavras de Alexandre Brás. O treinador refere ainda o árduo trabalho que a AAC tem tido para captar atletas femininas, embora ressalve que a equipa tem uma atleta feminina que veio “diretamente de Inglaterra para

competir”. A estudante Filipa Antunes encontra-se a tirar mestrado nesse país, mas regressa a Coimbra, “tal é o amor que ela tem aos pesos” que se “desloca de propósito”. A prestação feminina, acrescenta ainda o treinador, “foi o revalidar do título” que já tinha obtido em 2011. O atleta masculino mais destacado foi Alexandre Reis, do Ginásio Sportivo de Carcavelos, que obteve um total de 303.803 pontos. Já a atleta feminina mais destacada foi a russa Yulia Protsenko, também do Ginásio Sportivo de Carcavelos, que obteve 186.811 pontos. Para a atleta, vencer “é sempre um prazer”. Yulia, que pertence à categoria menos 58 quilos, obteve, no conjunto de arranque e arremesso, 131 quilos. Contudo, o seu objetivo é atingir a marca dos 150,

para obter o grau ‘Master’, na Rússia. Quanto à importância do halterofilismo em Portugal, a atleta do GSC refere que “este desporto não é tão importante como o futebol”, mas sente-se “feliz” por podê-lo praticar no país. A atleta espera que este desporto continue vivo, desejando que assim “na próxima vez se possam ver mais mulheres a competir”. Alexandre Brás reitera a importância desta prova se ter realizado em Coimbra. “Esta foi das maiores competições que tivemos nos últimos anos”, a juntar com o “Campeonato Nacional, que também organizámos no ano passado”. “Os clubes saíram de cá bastante satisfeitos com a organização”, finaliza o membro da Secção de Halterofilismo da Associação Académica. DANIEL ALVES DA SILVA

A Associação Académica de Coimbra obteve o primeiro e segundo lugares na competição feminina e masculina, respectivamente

Voleibol assegura manutenção para esta época desportiva O voleibol da AAC jogou este fim-de-semana, tendo obtido uma vitória para os seniores masculinos e uma derrota para as seniores femininas

Ana Duarte

3-2 foi o resultado obtido pela equipa sénior feminina da Secção de Voleibol da Associação Académica de Coimbra (AAC) frente à equipa Maristas, de Lisboa. Num jogo realizado neste domingo, 17, em Lisboa, as atletas da casa fizeram “o possível”, segundo o seu

treinador, Carlos Marques. O treinador adianta ainda que houve um desfalque na equipa, visto que algumas das jogadoras não puderam comparecer. Para o treinador, o desempenho da equipa tem sido bom, e a manutenção na divisão – que tinham como objetivo – está já assegurada, apesar de o objetivo de ficar na primeira fase ter sido gorado. Também a equipa de seniores masculinos da Secção de Voleibol jogou este fim-de-semana, no sábado, 16, pelas 17h00, em Gueifães. A partida bateu-se pelos 3-0 para a equipa da Académica, resultado homónimo ao anterior jogo com o mesmo adversário, realizado no dia 9 de fevereiro, em casa. O treinador, Nuno Zuzarte, admite que o resultado é sempre di-

fícil de atingir, visto que “o adversário também quer ganhar”. No entanto, congratula a equipa que, na opinião do seu treinador, jogou bem e esteve “com boa atitude em campo”. Também a equipa dos seniores tem conseguido garantir a manutenção na divisão e Nuno Zuzarte avança com o facto de que a época tem estado a ser positiva. “Obviamente que queremos sempre mais e somos ambiciosos nesse sentido”, não deixa de admitir o treinador da equipa sénior masculina.

Dificuldades na secção

Apesar de as equipas da Secção de Voleibol da Associação Académica de Coimbra mostrarem boa atitude em campo, as dificuldades e os constrangimentos financeiros

são sempre sentidos. “O contexto atual é muito difícil para modalidades amadoras, que é o nosso caso”, lamenta Nuno Zuzarte. O esforço dos atletas também já não pode ser premiado como antigamente, segundo o treinador da equipa sénior masculina, como, por exemplo, com refeições depois de jogos fora. Também nas deslocações se sentem grandes constrangimentos: “este fim-desemana, por exemplo, fomos a Gueifães e só puderam ir oito atletas e eu, como treinador, porque não havia transporte a partir da Associação Académica de Coimbra”. Em jeito de conclusão, Zuzarte admite: “se não fosse o gosto pela modalidade e pela competição em si, penso que a modalidade de voleibol na AAC já tinha os dias contados”.

ARQUIVO - ANA MARIA COELHO


8 | a cabra | 19 de março de 2013 | Terça-feira

CIDADE

Torre do Anto acolhe Canção de Coimbra

SARA SILVA.

A Torre do Anto vai acolher a nova Casa Museu da Guitarra do Fado de Coimbra

Com inauguração prevista para o final do verão, a Casa Museu Guitarra do Fado de Coimbra une laços com o património cultural e arquitetónico da cidade

Sara Silva João Valadão

Despercebidos por entre os estreitos edifícios da Alta de Coimbra, erguem-se alguns vestígios da antiga cidade amuralhada. Perto da Casa da Escrita, com vista para o Mondego, encontra-se aquela que foi, em tempos, a casa de um conhecido poeta. “Esta Torre do Anto foi assim chamada por António Nobre, o grande poeta do Só, que nela morou e a cantou nos seus versos”, assim ilustra uma placa sobre uma das fachadas do edifício medieval.

Abandonada e fora das atenções da autarquia por um longo período de tempo, a Torre do Anto está, desde 2010, a ser alvo de restauro, com o objetivo de acolher o novo núcleo do Museu Municipal de Coimbra. “Em boa hora foi decidido que [a Torre do Anto] viesse a ser um núcleo museológico evocativo da guitarra e do Fado de Coimbra”, explica a vereadora da Cultura da Câmara Municipal da Cultura (CMC), Maria José Azevedo. O novo espaço, com inauguração prevista para o mês de outubro e orçamentado em 600 mil euros, recebeu do Quadro de Referência Estratégico Nacional um patrocínio que cobre 85 por cento do valor da obra. Para Maria José Azevedo, esta comparticipação elevou a importância da fundação do polo museológico: “o município ficou consciente de que era um projeto com reconhecimento internacional”, exalta. O espólio do núcleo museológico vai contar com uma mostra dedicada a Carlos Paredes, onde estão incluí-

das três guitarras do famoso fadista. A vereadora da Cultura salienta a existente complexidade em selecionar os artistas a homenagear: ‘’vamos ter dificuldade em selecionar, mas o falecido Luiz Goes é uma figura obrigatória’’, exprime. Ainda assim, adianta a possível inclusão de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Fernando Rolim. Houve também uma preocupação em dar a conhecer o que está por trás dos acordes da conhecida guitarra de Coimbra. Neste contexto, Maria José Azevedo conta que vão ser reconhecidos alguns construtores de guitarras. ‘’Temos praticamente intacta a oficina do construtor Raul Simões’’, acrescenta. Isto porque, explica, ao fado compete não só a voz, mas também o som que advém dos instrumentos.

do Improve Coimbra contou com a sua terceira edição, durante o passado fim-de-semana. Realizado na Casa Costa Alemão, no Polo II da Universidade de Coimbra (UC), o evento contou com a presença de mais de uma quinzena de pessoas das mais diversas áreas. Um dos organizadores do evento, Sérgio Santos, explica que os encontros resultam da recolha das questões levantadas no ‘website’. “Surgiu a necessidade de resolvermos alguns problemas, daí reunimo-nos durante um fim-desemana para tentar atacar isso

assim vai ser’’.

Enquanto espaço dinamizador da Canção de Coimbra, a Torre do Anto vai receber a produção regular de es-

petáculos, colóquios, exposições e intervenções dramáticas. A denominação do espaço como Casa Museu da Guitarra do Fado de Coimbra suscitou alguma discordância segundo o fadista Jorge Cravo. ‘’Acho controverso o facto da CMC ter aprovado a candidatura da Canção de Coimbra e agora abrir um núcleo com o nome Fado de Coimbra’’, defende. Além disso, o fadista admite que existe uma falta de continuidade neste tipo de iniciativas: ‘’aparecem pontualmente, não há concertação entre a CMC e a reitoria para que as pessoas observem que a Canção de Coimbra está realmente a ser uma aposta na candidatura [a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO]’’. Ainda assim, Jorge Cravo está ciente de que o local escolhido para a Casa Museu vai ser alvo de grande atração turística: ‘’a Canção de Coimbra hoje em dia está cada vez mais virada para o turismo e, portanto, a sua localização leva-me a pensar que

mesmo”, ressalva. Os resultados da terceira edição do Improve Coimbra foram, ontem, divulgados no website da organização. O projeto com maior destaque, “No Meu Bairro”, utiliza uma plataforma online onde os utilizadores podem reportar problemas de nível urbanístico, tendo a possibilidade de os localizar através do ‘software’ do Google Maps. Sérgio Santos adianta que “este projeto permite aos cidadãos denunciarem certas falhas diretamente à Câmara Municipal de Coimbra e mapear outras já reportadas, mas não

resolvidas”. Entre outros projetos também divulgados ao público conta-se um projeto que tem por base a utilização do Instagram. Com o objetivo de promover a afluência ao Mercado Municipal, os utilizadores fotografam, através da rede social, as diversas placas de preços das bancadas e lojas e disponibilizam-nas numa página do programa. Sérgio Santos esclarece que desta forma “as pessoas podem criar concorrência aos centros comerciais, é como um folheto de compras”. O organizador lembra também que o

‘website’ Made In Coimbra continua a ser desenvolvido e espera que este seja, no futuro, “um diretório de tudo o que é feito na cidade”. Os encontros, de periodicidade mensal, têm a duração de um fimde-semana. O evento começa com a apresentação das diversas ideias sugeridas e, numa posterior, procede-se à escolha dos projetos que devem ser debatidos e divulgados ao público. Programado para os próximos dias 20 e 21 de abril, a quarta edição do Improve Coimbra está aberta a todos aqueles que quiserem participar.

Incoerências

Restaurar a memória

A Torre do Anto, parte do perímetro da antiga muralha, constitui-se como um dos principais pontos do património arquitetónico do centro histórico de Coimbra. Foi um dos únicos edifícios que sobreviveu à destruição da Alta durante a construção do polo universitário. Contudo, a sua existência secular viu-se ameaçada pela degradação própria de décadas de abandono. Maria José Azevedo alerta para a necessidade de restauro de muitos edifícios do centro histórico da cidade: “é uma recuperação que se precisa a muitos níveis”, sustenta. A vereadora da Cultura ressalva que a reconstrução e o fim a que se destina o edifício vai ser um ponto de atração para um público vasto, pelo que se dispensa a necessidade de publicidade. ‘’Aqui restauramos a memória e oferecemo-la à cidade e ao mundo’’, finaliza. com Bárbara Sousa

Improve Coimbra #3: fórum contínuo para o desenvolvimento

Desenvolver soluções para os problemas da cidade é o mote para o evento. Com três edições realizadas, a iniciativa conta já com vários projetos apresentados

João Valadão

Resultado prático do ‘website’ anteriormente criado, “O que falta em Coimbra?”, o encontro mensal


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CIÊNCIA & TECNOLOGIA INVESTIGAÇÃO SOBRE O ECOSSISTEMA COSTEIRO

INÊS VALADÃO

Falta peixe nas redes

O

O Instituto do Mar, Centro do Mar e Ambiente da Universidade de Coimbra, em parceria com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a Universidade de Kiel, na Alemanha, está a desenvolver uma investigação sobre a problemática da redução dos ‘stocks’ marinhos na costa portuguesa. Por Camila Correia, Joel Saraiva e Carolina Varela

principal objetivo da investigação levada a cabo desde 2005 passa por compreender melhor o funcionamento das camadas tróficas do ecossistema marinho. A cagarra – ave pelágica – é o meio utilizado pelos investigadores como bio-indicador, uma vez que, por ser um predador do topo da cadeia trófica, reflete a abundância e a disponibilidade dos recursos marinhos. O método utilizado para a recolha de dados visa a colocação de dispositivos de seguimento remoto – GPS – na ave, com o intuito de analisar a sua distribuição. O habitat natural da cagarra, em território nacional, estende-se de “Lisboa à Figueira da Foz”, observa o resposável do estudo, Vitor Paiva. Face aos invernos rigorosos sentidos em solo português nos anos de 2010 e 2011, a ave viu-se forçada a alargar a sua distribuição, chegando quase ao Canadá. O investigador aponta como causa de base desta alteração uma combinação de fatores: “por um lado, a parte climatérica, por outro, a pesca excessiva de al-

guns ‘stocks’”. Adverte para a necessidade de “haver uma visão mais a nível do ecossistema e não propriamente só do ‘stock’ que se quer capturar”. O cenário verificado recentemente contrapõe-se com o analisado entre 2005 e 2009, altura em que “as cagarras se distribuiam de forma proporcional pela costa portuguesa, as temperaturas do mar e a clorofila se mantinham regulares e constantes”, lembra o coordenador do estudo. A ligação à Universidade de Kiel surge da necessidade sentida pela equipa de investigação portuguesa de associar “alguém com experiência e conhecimento” na área, esclarece Vitor Paiva. Desta forma, Stefan Garthe, autor de um vasto leque de trabalhos desenvolvidos em locais como o Mar do Norte, o Mar Báltico e África, juntou-se ao grupo de pesquisadores. A investigação é feita “através de amostras de sangue e de conteúdos estomacais” da cagarra, que revelam os diferentes sítios

que percorreu e a dieta a que se submeteu. A par das substâncias recolhidas, também é feita uma recolha de dados do IPMA, instituto que preconiza transectos ao longo da costa, de forma anual. Num projeto em que os resultados exigem uma pesquisa de caráter prolongado, o responsável sugere a revisão do “que se passou em todos os meses até chegar um novo ano de apanha dessa espécie-alvo e ver realmente se os stocks não têm de ser ajustados”. Propõe, assim, uma forma de evitar uma má gestão do pescado apanhado, como tentativa de garantir a renovação das espécies.

Bancas com menos peixe

A escassez de peixe é um problema que começa a permear o setor comercial e a levantar algumas preocupações. Fátima Soares, peixeira no Mercado Municipal de Coimbra, lamenta a “falta de peixe miúdo, de faneca e de sardinha”. Também esta é uma situação alvo de inquietação entre a comunidade piscatória. Pescador em Peniche há 24 anos, Fer-

nando Pacheco, destaca a diminuição da sardinha, peixe que assegura ser “essencial no Verão”. Acrescenta que, em substituição da sardinha, “nestes últimos anos, a cavala e os carapaus tiveram um papel bastante importante nas vendas à lota”. Fernando Pacheco ressalva que pode ser “um pouco prematuro tirar conclusões sobre o decréscimo que se sente” e rechaça que “pode ser um problema cíclico”. A prerrogativa que delineia a costa portuguesa surge acompanhada de um futuro económico incerto. “Somos um país muito ligado ao mar e com uma forte cultura de comer peixe, se houver mesmo uma rutura na nossa plataforma continental é bastante drástico”, reconhece Vitor Paiva. Ainda assim, o investigador lembra que “não podemos ser taxativos”, uma vez que a “investigação ainda está em curso”.

Há esperança na legislação europeia

As políticas governamentais assumem um papel decisivo neste contexto. “Uma coisa é convencer

ou explicar à população em geral e outra é convencer políticos e gestores das pescas”, confessa o coordenador. Acrescenta que “aqueles pescadores de uma geração mais recente estão muito mais consciencializados e por isso há esperança para que as coisas não cheguem a um ponto mau”. Neste sentido, avistam-se, no panorama nacional, aquilo que o investigador considera serem “passos esperançosos”. Foi aprovado, a nível europeu, um plano de ações que visa a “redução da pesca acessória”, conta o investigador. O objetivo principal do plano passa por evitar a captura de peixes que não têm valor comercial, de cetáceos e de aves marinhas que, muitas vezes, acabam por ficar presas nas redes. O financiamento da investigação surge da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), do Instituto do Mar, Centro do Mar e Ambiente da Universidade de Coimbra (IMAR-CMA) e de fundos europeus coordenados pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. com Dalila He


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DOMINGO DE SÃO LÁZARO

Af “pass

Anualmente, o Largo Dom Dinis e o Largo São João recebem, quinze dias antes da Páscoa, no tradicional. Brinquedos, doces e petiscos famosos, bem como outros produtos de artesanato fa idosos que visitam as bancas. Por Rafaela Carvalho e Caroline Pinheiro. Fotografia por Caro

“B

“Antigamente as coisas eram de madeira e hoje é tudo plástico”, lamenta saudosista o vendedor José Batista

olinhos de amêndoa, pão-de-ló, bolo de leitecreme, manjar branco, pastéis de Santa Clara e depois a nossa tasca com sardinha de escabeche, grão-de-bico, feijão-frade e essas iguarias todas… e o arroz doce!”. Lurdes, vendedora, movimenta-se entre as bancas apontando para os mais variados doces e pratos tradicionais da feira de São Lázaro. Apesar da história da feira ter versões distintas, todas culminam num ritual semelhante: os doentes leprosos do antigo Hospital dos Lázaros recebiam uma vez ao ano, no dia de São Lázaro, duas semanas antes da Páscoa, a visita de parentes e amigos. “Onde há muitas visitas, há feira e juntavam-se feirantes e artesãos que vinham vender tudo o que era artesanato e doces na altura”, conta o presidente do Grupo Folclórico da Casa do Pessoal da Universidade de Coimbra (GFCPUC), David

Duarte. A feira começou por se realizar na Baixa da cidade junto ao Hospital inicialmente localizado na rua da Figueira da Foz. Mais tarde, deslocou-se com os enfermos para a Alta da cidade onde hoje se encontra atualmente o Largo Dom Dinis. Aquando do Estado Novo, com a demolição da zona residencial e a construção dos novos edifícios universitários, a feira foi retomada no Largo de São João, em Celas, mas acabou por extinguir-se. Hoje, o costume é recordado por dois grupos folclóricos da cidade. O grupo da Casa do Pessoal da UC ocupa, há 23 anos, a zona do Largo Dom Dinis e o Grupo Folclórico de Coimbra preenche todos os anos o Largo de São João em Celas com os mais variados produtos tradicionais.

O ambiente da feira

“Eh pessoal, sai sempre prémio. É a roleta mais divertida da cidade”.

Por apenas cinquenta cêntimos um jogo de sorte apregoado pelo responsável da roleta garante, com um punhado de rebuçados, a diversão aos meninos mais pequenos da feira. Isso e os brinquedos de madeira coloridos ou mesmo as pandeiretas e tambores nos quais pegam divertidos. “Queres um brinquedo?”, pergunta o vendedor com ar paternal desafiando-o: “vai lá chamar a tua mãe!”. “Dá a mão, dá a mão” pedia José Batista, apressado pelo rodar do brinquedo que apanhava ligeiro do chão e mantinha rodopiante sobre a palma. Com uma personalidade cativante, o vendedor atraía praticamente toda a atenção da feira para si, arremessando o pião de madeira incessantemente. Com orgulho e saudosismo, José Batista evoca que “antigamente as coisas eram de madeira e hoje é tudo de plástico”. Para quem prefere os doces, Belmiro Correia, vendedor da

GFCPUC, garante uma das guloseimas. Os manjares brancos que sua mulher confecionou fazem sucesso na manhã deste domingo, 17. “Esteve uma senhora aqui que levou 13 manjares brancos para ela, para o pai e para a mãe”, confessa. Parte do sucesso deve-se à mistura cu-


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DOMINGO DE SÃO LÁZARO

feira dos ssarocos”

“É muito engraçado ver a reação das pessoas mais velhas porque os faz recordar outros tempos”, relata Ana Urbano, vendedora do Grupo Folclórico de Coimbra linha para lhe arrancarmos as penas a frio”, explica David Duarte. O resultado é uma pequena galinha do tamanho da palma da mão – “passarocos” como lhes chama carinhosamente a vendedora Lurdes, ou Lázaros, como são formalmente conhecidos - feita com massa de pão e adornada com o colorido das penas. Apesar de não ser comestível, nem aparentemente útil, a confeção da galinha representa o principal espírito da feira – preservar uma cultura secular tal como existia na época. Além do símbolo, as vestimentas dos feirantes e o espírito das barracas ajudam o visitante a transportar-se para uma outra época. “Temos os clientes habituais faça chuva ou faça sol”, refere a diretora do Grupo Folclórico de Coimbra, Janete Pereira. Ainda que a feira já tenha alguma tradição, Ana Urbano, uma vendedora de bananins – pequenos chupa-chupas caseiros feitos de caramelo e corante – confessa que “é muito engraçado ver a reação das pessoas mais velhas porque os faz recordar outros tempos”.

“É preciso gostar”

no dia de São Lázaro, uma feira muito fazem as delícias de crianças, adultos e roline Pinheiro riosa do doce que resulta da soma de diferentes ingredientes como peito de galinha, leite e essência de flor de laranjeira.

“Passarocos” de penas coloridas

Nos seus primórdios, a feira era a

praça principal para a venda de galinhas. Com os anos, o animal tornou-se o símbolo deste encontro anual. Porém, começou a ser apresentado de uma maneira diferente. “É confecionado uma semana antes da feira, fez ontem oito dias que amassámos o pão e matámos a ga-

O presidente do grupo da Casa do Pessoal da UC explica que para vivenciar a Feira dos Lázaros “é preciso gostar, como tudo na vida”. Por essa razão, talvez, a maioria do público que se desloca ao Largo Dom Dinis e ao Largo de São João tenha para cima de sessenta anos. Ainda assim “há pessoas que viviam na Alta na altura e hoje vêm com os seus netos para mostrar”, refere David Duarte. A maneira apaixonada como os feirantes vestem a pele daqueles que os antecederam acaba por cativar quem visita a Feira do Lázaros pela primeira vez. Por isso “há pessoas de fora que acabaram por se habituar e que vêm cá todos os anos”, declara David Duarte.


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PAÍS

D.R.

Este país não é para novos partidos

Os trâmites legais da renovação partidária são questionados quanto à sua adequação. A recente recusa do Movimento Alternativa Socialista enquanto partido político recentra a polémica sobre o processo de formação de novos partidos políticos. Por António Cardoso e Pedro Martins

A

A recusa da inscrição do MAS pelo TC gerou controvérsia

oportunidades”, numa referência ao favorecimento dos partidos com assento parlamentar.

formação de partidos políticos em Portugal tem sido um tema cada vez mais na ordem do dia. A legislação relativa a partidos políticos é hoje questionada por muitos que a vêem desadequada à realidade atual. O professor catedrático em Ciências Jurídico-políticas da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), José Adelino Maltez, critica a rigidez do sistema partidário português e considera-o “o mais conservador da Europa Ocidental”. Nas suas linhas gerais, a legislação tem um conjunto de exigências e de requisitos legais que geram opiniões diversificadas e antagónicas. A exigência de 7500 cidadãos eleitores tem sido “um problema para a formação e manutenção dos partidos", afirma a professora de Direito Constitucional, da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), Maria Benedita Urbano, classificando esse número como “excessivo”. Outro dos entraves à formação de novos partidos e à atuação de partidos sem assento parlamentar reside na Lei do Financiamento dos Partidos Políticos e das Campanhas Eleitorais, que atribui o financiamento às instituições partidárias em função do número de votos obtidos, após a realização das eleições. “Os custos de entrada no sistema político português são demasiado altos”, assevera o politólogo, Adelino Maltez, acrescentando que “não há igualdade de

A mesma posição é tomada pelo professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa, admitindo que “a lei foi sempre protetora dos partidos com assento parlamentar”, sendo bastante limitativa da entrada de novos atores na cena partidária. Desta forma, o Tribunal Constitucional (TC) assume-se como entidade que garante as liberdades de cariz político de forma crucial na ordem jurídico-política portuguesa. Porém, o jurisconsulto, Rebelo de Sousa, não nega que “todos os juízos desta instância [TC] têm sempre alguma coisa de político, em sentido muito amplo”. A professora da FDUC, Benedita Urbano, acredita que o TC enquanto entidade fiscalizadora da democracia partidária funda as suas decisões “na observância de requisitos legais, associados a exigências constitucionais”. Todavia, o TC foi recentemente centro de atenções por parte dos media pela recusa da inscrição do Movimento Alternativa Socialista (MAS) enquanto partido político. A decisão gerou controvérsia e recentrou a temática na agenda nacional. O Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto,

declarou ao Jornal de Noticias, que o TC ao dificultar a inscrição de um novo partido com base em “fundamentos jurídicos que não convencem ninguém, está a ultrapassar as funções próprias de um verdadeiro tribunal”. Opinião partilhada pelo coordenador da direção do MAS, Gil Garcia, que crê existir “uma duplicidade de critérios no tratamento do movimento em relação a outros partidos políticos”. Segundo o coordenador do movimento, esta decisão foi apenas “um pretexto para se criar entraves à formação de um partido político”. Acreditando que em “90 por cento dos casos, o TC legalizou sucessivos partidos políticos” é uma evidência de que “o impedimento do pedido do MAS tem carácter político”. Contrariamente, Maria Benedita Urbano considera esta decisão “totalmente objetiva”, fundamentando-se no princípio da “democracia interna dos partido e no acesso à justiça e aos tribunais”. A situação do movimento levanta questões de ordem jurídico-política na adequação da legislação responsável pela renovação partidária. A convicção de Marcelo Rebelo de Sousa é de que “os principais partidos não querem discutir porque os divide, afeta as suas lideranças ou questiona a sua zona de conforto”. E desta forma relegam para segundo plano a conformidade legislativa destas matérias.

todo o lado”. Num mercado totalmente livre e concorrencial, a diversificação da oferta tende tornar-se vantajosa para o consumidor final, à semelhança do que acontece noutros países europeus, nomeadamente o Reino Unido, que iniciou este processo há mais tempo. “Há todo um novo conjunto de serviços adicionais que podem e devem ser estimulados” por estes novos prestadores de serviço, afiança o jurista da DECO. A eficiência energética como a telecontagem e a telemetragem podem dar a “ganhar muito na poupança da fatura da eletricidade e tornar mais confortável a vida do consumidor”, acrescenta Salvador Pisco. Em termos teóricos, o mercado

liberalizado poderá ter um evolução semelhante ao mercado dos combustíveis em Portugal dando oportunidade a que aconteçam situações de oligopólio. Esta hipótese é afastada pelo advogado da DECO que relembra que o mercado dos combustíveis não é regulado. O jurista acrescenta: “a ERSE deixa de fixar o preço final de venda, mas continua a regular as operações técnicas e comerciais de todos os operadores.” Apesar da liberalização, a EDP continua a liderar mesmo no mercado livre, segundo dados da ERSE. Luís Pisco não acredita que de alguma maneira a EDP, enquanto empresa de comercialização e distribuição de energia, possa tomar parte vantajosa em relação às outras empresas. “A en-

tidade reguladora tem poderes para evitar que isso aconteça, aplicando coimas pesadas aos operadores que venham a violar as regras”, assevera. No entanto, o desconhecimento dos utilizadores é ainda uma realidade, apesar das ações de sensibilização por parte da DECO. “A tendência é eles nos enganarem. As maiores empresas do setor energético querem é ganhar cada vez mais dinheiro” assevera o taxista de 40 anos, Carlos Martins. Igual opinião partilhada por Rosa Cravo, aposentada de 68 anos, que vê na liberalização do mercado “uma maneira de aumentar os preços, não acreditando nas suas vantagens. O preço da luz está sempre aumentar.” com Pedro Martins

“Lei protetora dos partidos com assento parlamentar”

Mercado liberalizado de energia elétrica gera confusão As tarifas reguladas do mercado da energia elétrica foram extintas a todos os consumidores. A informação parece ser pouca, no entanto foi concedido um período de transição de três anos

António Cardoso

Desde 4 de setembro de 2006 que o mercado de energia elétrica foi liberalizado, dando a possibilidade ao consumidor final de escolher o seu comercializador de energia. Contudo, só no princípio do presente ano a extinção de ta-

rifas reguladas foi alargada a clientes de eletricidade contratada inferior a 10,35 quilovolts-amperes. Desta forma são extintas as tarifas reguladas a qualquer consumidor do território nacional. A Entidade Reguladora da Energia Elétrica (ERSE) concedeu um período de tarifas transitório, até 2015, para que todos os clientes possam sair do mercado regulado. Este período foi criado para que os atuais clientes das tarifas reguladas possam “de forma tranquila e informada transitar para o mercado livre”, afirma o jurista do departamento jurídico da Defesa do Consumidor - DECO PROTEST, Luís Salvador Pisco. No entanto, o mesmo acredita que esse fator também “propicia que a informação não tenha chegado a


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MUNDO OPINIÃO FORTE POR FORA, FRACA POR DENTRO

P ÃO AÇ STR ILU

A mancha no milagre alemão

OR OP JO Ã F RO ED ON A SEC

O sucesso do modelo alemão tem falhas ocultas. Setor empresarial afetado por problemas legais, setor público com problemas financeiros. As desigualdades sociais persistem e os miniempregos generalizam-se. Por Pedro Martins

A

o longo das duas últimas décadas, a Alemanha tem sobressaído no panorama internacional. Ocupa o quinto lugar do Índice de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU) e é a quarta maior economia mundial. O estado alemão tem-se apresentado como um exemplo a seguir. Em 2009, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Guido Westerwelle, declarou, no seu discurso inaugural ao Bundestag, à câmara baixa do parlamento alemão, que “a Alemanha tem todo o interesse em assumir um papel ativo no redesenhar do nosso sistema de governação internacional”. Porém, o milagre alemão esconde algumas falhas que mancham a realidade interna do país. Falhas essas que começam no setor privado. O Deutsche Bank, simultaneamente o maior banco alemão e o maior a nível mundial, viu a sua reputação manchada pela condenação do seu antigo administrador, Rolf Breuer, por gestão danosa, em 2011. Esta sentença não tardou a ser seguida pelas acusações de fraude

fiscal sobre o atual presidente, Jürgen Fitschen. Em 2011, a Thyssen, a gigante da indústria siderúrgica, revelou que a violação de normas regulatórias, assim como os casos de suborno ou de corrupção se tratavam de algo generalizado no interior da empresa. Esta mancha estende-se ao setor público. Recentemente, o novo aeroporto de Berlim e a plataforma Intermodal Stuttgarg 21, em Estugarda, apresentaram uma derrapagem financeira considerável em relação ao custo que havia sido estimado no seu projecto inicial. Nas palavras do investigador do Instituto para a Investigação Económica de Colónia, Holger Schäffer “é sempre a mesma coisa: se existe um projeto de alguma grande obra pública, os custos são sempre superiores aos previstos no início”, acrescentando que “os políticos querem concretizar os projetos e sabem que se mostrarem os verdadeiros custos ao público, provavelmente ele será contra”. A própria realidade social apresenta imperfeições. O fosso entre ricos e pobres mantem-se. O também

especialista em economia do trabalho, Holger Schäffer, afirma que “a pobreza na Alemanha não é muito maior do que nos outros países, mas continua lá e não diminuiu muito durante a recuperação do mercado de trabalho”. Este fosso torna-se mais visível quando se olha para os estados da antiga República Democrática Alemã (RDA). Na opinião de Schäffer, este problema deve-se “à média salarial ser muito inferior à da Alemanha Ocidental”.

Mini-empregos generalizam-se

Os problemas sociais generalizam-se quando se fala de mini-empregos. Inicialmente, estes tinham como objetivo ajudar à reinserção de desempregados no mercado de trabalho. No entanto, a sua generalização representa um sério risco para os trabalhadores, afirma a investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade de Nova de Lisboa (IPRI –UNL), Patricia Daehnhardt . Acrescenta que “não há dúvida que não é um situação ideal”. Porém, os malefícios deste

género laboral são negados pelo especialista em economia laboral, que diz não acreditar que “existam verdadeiras provas que o fracionamento dos postos de trabalho tenha realmente acontecido”. Estes problemas encontram um contraponto na recente proposta de um salário mínimo estabelecido a nível federal, e não setorial. Contudo, os seus motivos são políticos, como afirma a também professora de Relações Internacionais: “com certeza que foi motivado pela proximidade das eleições”. Esta posição é partilhada pelo investigador alemão, que acrescenta que ”não é uma boa ideia, podendo levar à destruição de postos de trabalho”. Embora a realidade interna alemã esteja desadequada da postura que apresenta perante os restantes estados-membro europeus, a investigadora do IPRI- UNL afirma que “aquilo que os alemães advogam no plano europeu não é nada que não apliquem no plano interno. Basta olhar para a forma como funciona a distribuição do orçamento entre os estados federados”.

Angela Merkel, defensora da austeridade como receita para evitar a crise financeira dos países do Sul, coloca mesmo a hipótese de afastar alguns deles da Zona Euro. Contudo, certamente não tem presente na memória a situação de “abébia” que a Europa concedeu quando a poderosa República Alemã, em 1990, deixou a sua divida externa caducar e quando, em 2005, infringiu os limites do défice, sendo assim perdoada qualquer sanção. No entanto, a Alemanha assume-se no presente como uma locomotiva económica da Europa, parecendo ignorar os seus próprios problemas. Recuando às memórias da queda do Muro de Berlim sabe-se que a Alemanha sofreu profundas mudanças com o final da Guerra Fria. Não só a Alemanha, mas também a Europa se alterou com a reunificação alemã. Desta feita, o país de Merkel sofreu um conjunto de alterações de uma forma particularmente abrupta. A República de Bona, traduzia uma Alemanha equilibrada socialmente na sua riqueza e com grande coesão social. Porém, a República de Berlim não se apresenta tão forte como se possa pensar. Merkel, a petulante chanceler que parece dirigir os desígnios desta Europa pouco europeizada, tem no seu país mais fragilidades do que aquilo que se possa pensar. A Alemanha berlinense é hoje um país mais pobre do que nos tempos de Bona, mais envelhecido e que atravessa diversos problemas sociais, como os miniempregos, o desemprego e maxipobreza. O mercado de trabalho dos miniempregos e da subcontratação engloba mais de 7 milhões de pessoas encurraladas, em situações de precariedade laboral e de consequente desemprego. O que demonstra de forma evidente que a afamada economia dinâmica de Merkel esconde as desigualdades sociais do país. A chanceler parece de certa maneira ignorar ou transpor para segundo plano as reformas sociais do seu país. A potência, que tende a vender ao mundo inteiro as vicissitudes do modelo alemão, multiplica sinais de que também sofre da má gestão e corrupção nos grandes grupos económicos. Faturas falsas, pagamentos de comissões duvidosas, violações da legislação, abuso de confiança, fraude fiscal, branqueamento de capitais, etc. Isto apesar de à primeira vista parecer tratar-se dos problemas económicos de algum país do Sul. Relacionandose então com os grandes grupos económicos alemães que estão a ser alvo de numerosas investigações e processos, como por exemplo a DeutscheBank, a Thyssen e a DeutscheBahn. A Alemanha na corrida a tornar-se a principal potência mundial deveria tomar uma posição firme e combativa em relação às dificuldades sociais internas, em vez, de assumir o papel de exemplo da Europa. Isto porque afinal de contas existem “pedras no sapato”. Por António Cardoso


14 | a cabra | 19 de março de 2013 | Terça-feira

CINEMA

ARTES

“ Efeitos Secundários” DE STEVEN SODERBERGH COM ROONEY MARA JUDE LAW CATHERINE ZETA-JONES 2013

O xadrez chegou às salas de cinema

VER

CRÍTICA DE JOÃO RIBEIRO

H

ouve um tempo em que o nome Walt Disney não significava, somente, um negócio de milhões, como hoje acontece. É esse que vale a pena relembrar, tudo porque “Pinóquio” se encontra novamente nas prateleiras das superfícies comerciais, alvo de uma inexplicável reedição, vinda do nada, mas que serve de pretexto para o recordar enquanto marco histórico que é. “Pinóquio” veio, em 1940, no seguimento de “Branca de Neve e os Sete Anões” – Walt Disney, o homem, mostrou que estava certo e que era perfeitamente capaz de criar uma longa-metragem animada – e tornou-se, à semelhança do antecessor, um clássico instantâneo. Além de

O

s planos maquiavélicos sempre foram um terreno fértil de inspiração para a indústria cinematográfica. Títulos como “Shutter Island”, “O Maquinista” ou “Chinatown” são disso exemplo, seguindo uma fórmula que explora, com maior ou menor mestria, o papel do bom homem que foi envolvido numa trama de interesses tão intrincada que o faz perder a certeza da sua própria inocência. Com algumas cambiantes, o argumento de “Efeitos Secundários” segue a mesma lógica. De início, o mais recente filme de Steven Soderbergh (“Erin Brockovich”, a trilogia “Ocean’s” e “Che”) assume os contornos de um ‘thriller’ psicológico, envolvendo a sempre dúbia indústria farmacêutica e os efeitos secundários de um anti-depressivo que levam uma doente a matar o marido durante um episódio de sonambulismo. Emily (Rooney Mara) é ilibada e fica internada num

hospital psiquiátrico. Enquanto isso, o Dr. Jonathan Banks (Jude Law), o médico que lhe receitou o medicamento, cai em desgraça, vítima da óbvia má publicidade que a tragédia lhe trouxe. É a partir deste momento que uma aparente história sobre os vícios e perigos da perniciosa relação entre a prática médica e a prescrição de medicamentos sofre uma reviravolta e passamos a calcorrear os terrenos de uma perfídia apuradíssima. Sem emprego, perseguido por uma imprensa implacável e sugestionada e com a reputação no fosso, Banks começa a analisar a sucessão de acontecimentos que o conduziram até ali. A narrativa densifica-se, torna-se irrespirável, à medida que Soderbergh reconstrói de forma quase matemática os passos de um plano perturbador na sua perfeição. Se Soderbergh se revela um xadrezista implacável, a sua prestação deve-se em muito às “peças” que escolheu jogar. Rooney Mara aparece

como a autêntica personificação da dualidade que caracteriza “Efeitos Secundários”. A forma como articula loucura, desespero, calculismo, frieza, docilidade, lascívia e astúcia faz da sua Emily uma das melhores personagens de Soderbergh e abre perspectivas promissoras para uma actriz ainda nos seus vintes. Jude Law vem mostrar que decidiu crescer definitivamente e não ser apenas mais uma cara bonita de Hollywood. A sua interpretação é tudo menos superficial, colocando este pretenso herói numa zona desconfortavelmente cinzenta. “Efeitos Secundários” insere-se no típico filme marcado pelo ‘twist’ na acção, é um facto. A própria utilização da nefasta indústria farmacêutica está longe de ser novidade (Meirelles fê-lo em “O Fiel Jardineiro”). Mas há aqui uma riqueza de géneros e de interpretações tão grande que não podem deixar de fazer de “Efeitos Secundários” um grande filme.

Pinóquio” uma obra incontornável da animação, serviu também como marco de consolidação. Disney conseguiu não só provar as potencialidades da técnica, então postas em causa, como também consolidar a fórmula de fazer cinema que a companhia frequentemente adotou e que, apesar disso, sempre deu bom resultado (afinal os maiores fracassos são aqueles em que a tentativa de inovar não foi mais do que um tiro no pé, salvo raras exceções). Disney era um perfecionista de talento (“Bambi” não esteve nove anos em produção só porque sim) e “Pinóquio” é prova disso, entre tantas quantas forem necessárias. Este narra a história do menino de madeira que queria ser humano, cuja

consciência lhe é apresentada em forma de grilo falante, e tudo o que tem a fazer é provar que o merece – não sem antes se ver envolvido em situações menos próprias e acabar transformado em burro. Não é surpresa, todos conhecemos a história, porém, nem por isso todos compreendemos de que se trata, na verdade, de uma parábola bastante adulta que não tem pudor em fazer o espetador sentir-se culpado quando se apercebe de que podíamos ser nós, ali, naquela situação. Esqueça-se o preconceito sem fundamento de que os filmes de animação são coisa de miúdos, “Pinóquio” merece um visionamento com um olhar cuidado. TIAGO MOTA

FILME

DE HAMILTON LUSKE BEN SHARPSTEEB EDITORA

DISNEY 1940

Animação em reedição merece reação

Artigo disponível na:


19 de março de 2013 | Terça-feira | a

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FEITAS

OUVIR

LER

J

The 20/20 Experience”

ustin Timberlake está de regresso aos discos, quase Brilhantina sete anos depois do aclamado “FutureSex/LoveSounds”. contemporânea Após uma pausa para se dedicar ao cinema, o músico regressa agora na companhia de Timbaland e de J-Roc às edições discográficas com “The 20/20 Experience”. “Suit & Tie”, primeiro ‘single’, conta com a participação de Jay-Z (cuja presença se poderia facilmente descartar), apesar de ser a segunda canção mais curta do álbum (que apresenta dez canções cuja média se situa nos sete minutos), não engana com o seu ‘groove’. Estão lá presentes os ingredientes deste DE novo disco. Enquanto em “FutuJUSTIN TIMBERLAKE reSex/LoveSounds” Timberlake apontava os caminhos da música EDITORA de dança do futuro, em “The RCA 20/20 Experience” resgata-se o espírito ‘soul’ sob o olhar do séc 2013 XXI. O arranjo de cordas que abre o álbum em “Pusher Love Girl” remete-nos para uma época que já não existe, começando pouco depois a batida precisa de Timbaland a tomar conta da canção, embalada pelo ‘falsetto’ de Timberlake e pelos coros que surgem volta e meia ao longo das faixas. É um conjunto de canções coeso, talhado para ser apreciado na escuta integral do álbum, não existindo aqui uma “Sexyback” feita para explodir nas pistas de dança. A lascividade doutros tempos está escondida dentro do fato, que ainda assim se revela em “Don’t Hold the Wall” ou “Mirrors”. Mas é “Let the groove get in” que surpreende, com o ‘sample’ de um tema oriundo do Burkina Faso. “Blue Ocean Floor” encerra lenta e melancolicamente, com elementos instrumentais que não soariam estranhos ao universo de Frank Ocean ou How to Dress Well. Timbaland confirma assim a recusa do R’n’B ao maximalismo electrónico que noutros tempos poluía (e por vezes ainda polui) o género. Justin Timberlake, ao assumir em primeiro plano a sua carreira como ator, libertou-se da obrigatoriedade de editar “um sucessor” de “FutureSex/LoveSounds”; talvez por isso, sem compromissos ou expectativas, conseguiu dessa forma superar esse álbum após um longo hiato. DANIEL ALVES DA SILVA

Laços de pessoas sozinhas

DE CLARICE LISPECTOR EDITORA RELÓGIO D’ÁGUA 2013

atravessam clichés, e que em cada frase há uma oportunidade de nos vermos no abismo de nós próprios e da realidade. O que “Laços de Família” faz é explorá-lo em contextos mais ou menos familiares. Ou diria que até mais no contexto individual, de cada um, no conjunto que é a família, e quantas vezes não é a família a que melhor desconhece a dimensão individual dos seus membros. É, portanto, óptimo pretexto para falar de pessoas sozinhas. “Amor”, um dos seus mais conhecidos textos, inscreve-se nesta colectânea, assim como “Uma Galinha”, “Feliz Aniversário”, “O Jantar”, o homónimo “Laços de Família” e “Devaneio e Embriaguez de uma Rapariga”. Contos que contam como se descobre, às vezes no meio do restaurante, como há alguém que come para empurrar a angústia para baixo; ou uma galinha que sinaliza a banalidade da passagem do tempo sobre uma família. De notar que uma das palavras mais lidas nesta obra é a palavra “náusea”. “Laços de Família” prova que o conto não é um género subalterno, como muitas vezes é conotado. Clarice faz dele um poderoso meio de reflexão. Mas, de alguma forma, não se consegue esquecer que a magnitude de “A Paixão Segundo G.H.” parece impossível de igualar. INÊS AMADO DA SILVA

JOGAR

Sem Memória

GUERRA DAS CABRAS A evitar

Fraco

Podia ser pior

Vale a pena

A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro

Artigos disponíveis na:

Q

uando se pega num livro de Clarice Lispector para ler, há algo que se deve saber de antemão: não se sai o mesmo dessa leitura. “Uma daquelas raras escritas da qual se sai diferente quando uma vez lá se entrou”, prefacia Lídia Jorge. Não é o maior motivo para se ler? E não deve menosprezar-se “Laços de Família” por ser um conjunto de contos – 13, no total – pois o efeito não se desvanece. Ucraniana de origem, passa praticamente toda a vida como cidadã brasileira, e escreve como os maiores compatriotas (ou melhor – a sua singularidade é gritante). Porque é tão pouco divulgada, e, pode dizer-se, tão pouco efectivamente conhecida? Finalmente, a Relógio D’Água reedita toda a sua obra até 2018. “Laços de Família” é daqueles livros que não sabemos se preferimos imediatamente dentro do espectro da obra de Clarice, visto que o gosto nem sempre se inclina para uma direcção só e que estamos perante um “camaleão”, diferente em cada obra, mas mantendo sempre uma coerência que não deixa não identificá-la. Ninguém deve deixar-se enganar por aparentes sentimentalidades do título. É um livro, de facto, sobre sentimentos, mas longe de serem melosos ou banalidades - quem conhece esta escrita sabe que não a

Laços de Família”

PLATAFORMA DISPONÍVEIS PS3, XBOX 360, PC EDITORA SQUARE ENIX 2013

D

esde que saiu a primeira sequela, Lara Croft tem vindo a procurar algo a que se agarrar para recuperar a sua glória original. De título em título, perdeu relevância no meio a tal ponto que parece ter levado a Crystal Dynamics a decidir que era altura de repensar a obra de raiz. Surge assim este “Tomb Raider” (TR), um homónimo cuja missão é o apagar do passado e o estabelecer de uma nova identidade estética para a série. O núcleo da obra original desapareceu: a exploração de complexos espaços tridimensionais foi simplificada até à medula e os desafiantes ‘puzzles’ ambientais foram despojados das suas alusões mitológicas e transformados em joguinhos de física que até um macaco conseguiria resolver. A produção deste novo título preocupou-se acima de tudo no aplicar das modas comerciais, e porque nos dias de hoje só se dá valor a títulos com confrontação militar, TR é agora um jogo cuja essência redunda em tiroteios repletos de morte e carnificina. Para agradar os departamentos de marketing, até esquemas de “gamificação” e um modo ‘multiplayer’ de valor duvidoso foram introduzidos. A referência máxima para o dese-

Tomb Raider” nho de jogo foi “Uncharted 2”, mas nem a copiar a Naughty Dog a Crystal Dynamics foi feliz, limitando-se a trazer a acção e olvidando a estética e narrativa feéricas que a adornavam. Ao invés, foi beber inspiração à torture ‘porn’ e ao terror de sobrevivência de “Descent”, resultando numa Lara que não é mais uma heroína carismática, mas um corpo frágil e sexual que se vê constantemente torturado, empalado e (quase) violado, sempre de forma grotesca e grosseira… tudo para justificar o carácter hiper-violento e vingativo desta Lara pintada de vermelho-sangue à “Gears of War”. Assim, enquanto em 1996 a EIDOS recriou um género e produziu uma obra-prima de entretenimento adulta e sofisticada, em 2013 o nome TR acaba na lama, associado a um objecto derivativo e sem alma, produto de uma lógica mercantil que apenas visa divertimento popularucho e de mau gosto. Não se pode dizer que não haja aqui méritos, os níveis de produção elevadíssimos garantem um espectáculo de competência técnica inatacável, só que TR tem história, e essa história tem muito mais do que simples pornografia videolúdica. RUI CRAVEIRINHA


16 | a cabra | 19 de março de 2013 | Terça-feira

SOLTAS

UMA DECLARAÇÃO

CRITIC’ARTE

UMA IDEIA PARA O ENSINO SUPERIOR ADRIANA BEBIANO • DIRETORA DOS MESTRADOS E DOUTORAMENTOS EM ESTUDOS FEMINISTAS DA FLUC

INFORMAL E CONTEMPLATIVA

O pianista Tiago Sousa veio a Coimbra no dia 15 apresentar o seu projeto mais recente, “Samsara”, segundo o mesmo, inspirado no oriente. Nesse contexto, não poderia o concerto ter ocorrido em melhor lugar. A sala forrada de arte da Casa Museu Bissaya Barreto abrigou o público e possibilitou a melhor acústica possível para o espetáculo intimista. Neste que foi o quarto concerto da digressão “Samsara”, o músico tocou temas não só do novo trabalho como do seu projeto anterior, inspirado na obra mais conhecida de Henry David Thoreau, “Walden ou a Vida nos Bosques”. Segundo Tiago Sousa, a literatura é uma das artes a que mais recorre para encontrar um tema que sirva de ponto de partida para uma nova composição. O pianista toca paulatinamente. Demora as notas sustendo-as no ar, grávidas de sensibilidade, e sabemos que entramos no universo de Walden. Lá fora chove. A melodia pertence já a um outro lugar, mais reservado. Tiago demora-nos nele, para que o compreendamos. Como artista, admite sentir maior necessidade de conceber uma ligação com o seu público. Ele é o que cria. E quem ouve corresponde sempre ao seu embalo. O pianista barreirense tem vindo a firmar-se desde cedo no panorama da música nacional, não só pelo seu trabalho na editora Merzbau, que criou, como pelos projetos que desenvolveu individualmente. O seu som tem uma certa sonoridade particular, com alguma inclinação ‘indie’, mas é sobretudo instintiva. Tomando as palavras de um dos seus ídolos deseja tão-somente “dizer uma palavra pela Natureza, pela liberdade e estado selvagem absoluto, em contraste com a liberdade e cultura meramente civil”. As palavras são de Thoreau. Fosse ele músico e talvez não traduzisse para melodia melhor interpretação da sua obra..

Por Catarina Gomes

MIGUEL ALMEIDA

AAC

PARA UM CONHECIMENTO VERDADEIRAMENTE ÚTIL

A construção do futuro faz-se num movimento duplo: no desenvolvimento do património valioso da comunidade e no corte do que é nefasto ao crescimento desse futuro que se quer. No caso do Ensino Superior, a escolha entre o que merece ser desenvolvido e o que deve ser cortado parte da definição do que se entende por “conhecimento”. Ora, presentemente, aborda-se o conhecimento segundo uma lógica de “utilidade”, entendida no sentido restrito da “utilidade para o mercado”. É o corte com essa lógica que se impõe fazer. “Qualidade” é uma palavra central em todos os discursos para o Ensino Superior. Mas de que é que falamos quando falamos de qualidade? Na enunciação dos documentos de constituição e de avaliação dos cursos “qualidade” traduz-se por “competências”. Estas são pensadas na sua “utilidade”: uma vez completado o curso, a/ o aluna /o terá de estar apto/a a contribuir para a criação de riqueza e, supostamente, merecedor/a do “sucesso” – outra palavra venenosa – traduzido em posições de poder e em acesso ao consumo. A “qualidade”, assim definida, obriga à avaliação das diferentes vertentes do ensino, o que só por si é uma boa prática. No entanto, no terreno, esta híper-avaliação – de projetos, de cursos, de disciplinas – traduz-se em algo de profundamente nefasto: uma pesada carga burocrática, com o preenchimento frequente de inquéritos, relatórios e spreadsheets que reduzem a números – alcandorados a uma posição de fétiche nos sistemas de

avaliação vigentes – um conjunto de práticas que não podem ser avaliadas, nem sequer compreendidas, dessa forma. O tempo passado a produzir estes “indicadores”, quase sempre inúteis, é perdido para a investigação e para a prática pedagógica; isto é, são horas perdidas para a produção de um conhecimento verdadeiramente útil. O que é uma educação de qualidade autêntica, socialmente relevante, e que contribua para a realização de quem dela beneficia? Terá de ser, com certeza, interdisciplinar. (Outra palavra fétiche, omnipresente nos discursos e literalmente boicotada no terreno, inclusive nos processos de avaliação.) Só o diálogo entre os diferentes saberes permite educar para o exercício da questionação. Terá de ser ainda uma educação para a cidadania, feita

na escuta e da compreensão do outro e na criação do sentido da responsabilidade do indivíduo para com a comunidade e o bem comum. Impõe-se a pergunta: como operacionalizar isto no terreno? Sucintamente – pediram-me que o fizesse curto, o meu artigo – podia-se, por exemplo, implementar uma prática de creditação da participação do/as aluno/as em eventos para além das suas disciplinas curriculares, particularmente tudo o que envolvesse debate. Impõe-se ma lógica alternativa à agora dominante. Porque o plenamente humano não se faz apenas da satisfação das necessidades mais básicas. Porque uma educação dirigida pelos objetivos estratégicos da utilidade está a conduzir ao sufoco de uma competição feroz por um bocadinho de poder e de riqueza, e que caminha tragicamente no sentido da competição por um pedaço de pão.

D.R.

“EXPULSAR OS VENDEDORES DO TEMPLO”

Testemunhos e outras curiosas histórias de Francisco Linhares

Em 2008 a minha situação estava um bocado atribulada porque tinha chegado o InTocha e eles para mim sempre foram ‘personas non gratas’. Não respeitavam a Associação Académica [de Coimbra], estendiam os horários como queriam, metiam as mãos nos bolsos dos estudantes em vez de praticar preços justos. Quando eles chegaram, decidiram meter os seguranças deles a controlar a porta para entrar toda a gente. Mas aí não entra não! Eu peço cartões de estudante até o meu presidente me dizer o contrário. O presidente nunca teve coragem para fazer isso porque lhe ficava mal. Então punham o gorila do InTocha atrás de mim e ele chegou mesmo a agredir-me. Eu dizia: tu mandas daquelas portas para dentro, aqui o porteiro sou eu. Um gigante a bater num deficiente? Humilhar-me daquela forma foi das piores coisas que me fizeram. Como eles eram muito amigos da Direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), estavam sempre a dizer “despede o Francisco”, mas não tinham nenhum argumento válido para me mandar embora e dei-lhes um sem querer. Eu já adiava há muito a minha ida a Santiago, mas quando conheci a Geraldine (uma rapariga que apareceu na portaria com uma mochila às costas com quem criei uma grande sintonia), decidi pedir férias, a pensar que uma semana me ia bastar. Mas as coisas não foram bem assim. Isto porque encontrámos um cãozinho (o “Santiago”) no caminho e de quem não nos conseguimos livrar. Pensei que estava a fazer uma boa ação e que iam compreender quando chegasse. Pedi para usar os meus dias de férias e fazer um acerto. O André Oliveira (presidente na altura) chamou-me à DG/AAC. Os amigos aqui do InTocha encontraram o que procuravam. Tinham a faca e o queijo na mão, era despedimento com justa causa. Queriam mandar-me embora a mim, que sou deficiente? – “Oh André, quais são os teus valores pá? Eu vou-te envergonhar em todo o lado”. Era o meu ganha-pão e isso não podia perder. Cheguei a falar com o reitor e com o doutor Luzio Vaz e eles pressionaram-no. Levei um mês de suspensão sem vencimento. Esse mês fez-me muita diferença, mas os meus amigos ajudaram-me e eu fiquei feliz por ter voltado. A Académica é a minha vida e eu preciso dela. Se perder o meu emprego estou tramado porque a minha deficiência é muito grave e dolorosa. Acho que me suicidava a seguir. O André para mim foi uma pessoa sem valores. Foi eleito para defender os direitos dos estudantes e defendeu os interesses do concessionário. Isso para mim é imperdoável. Sou o primeiro a fazer qualquer coisa pela academia, mas pelo meu patrão só faço se ele o merecer. Por um estudante faço tudo, desde que não me peça o braço. Estou aqui há 16 anos. Sabem porque é que eu continuo a ter prazer de trabalhar na AAC? Porque descubro que, apesar de tudo, ainda há muita gente nova com valores, que sabem respeitar o trabalho dos outros e que não procuram apenas o protagonismo. Aos outros fazia como Jesus fez aos vendedores do templo e expulsava-os todos daqui! Entrevista por Ana Marques Francisco


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SOLTAS

O MISTERIOSO CANTEIRO DE FLORES

MICRO-CONTO

Por João Rasteiro

ILUSTRAÇÃO POR TIAGI DINIS

O

s lírios e os jacintos continuavam ano após ano a florescer sobre a terra avermelhada daquele baldio, como se o sangue ali florescesse sob a sobranceria dos salgueiros. O grande salgueiro mantinha a imponência primordial, acolhendo sob os seus braços o lacerante grito de dor que o silêncio alimentava. De repente, mais ou menos há cerca de quinze dias, os lírios e os jacintos começaram a definhar. E o seu odor acre e doce, levemente erótico, que fazia benzer as mulheres que ali passavam, foi-se desvanecendo lentamente, como se o fim do mundo e do encantamento se predispusesse às trovoadas do desespero. No nº 13 da Rua da Traição, Helena também secava por dentro e por fora. A carne e o coração mirravam

“galopantemente”, pois aquele por quem tinha matado o “seu homem” e que a ilusão de uma outra vida impusera, enterrando-o vivo debaixo dos salgueiros, aqueles sentinelas que na entrada da aldeia davam as boas vindas aos visitantes, abandonara-a sem avisar, partira da frescura do mundo em madrugadas de bem-querer. Uma trombose terminara com aquele amor maldito que a alimentava. A ela e aos lírios e jacintos que todos os anos, sem explicação, floresciam altivos e brilhantes naquele baldio à entrada da aldeia, onde os salgueiros eram reis. Agora, João já convivia com todos os bichos e seres que emergem do barro, procurando a seiva do mundo. Estranhamente, de repente, na-

quele baldio, que muitos já apelidavam de canteiro do diabo, começaram a nascer camélias e margaridas que tornavam aquele chão algo mágico, mas simultaneamente temeroso, pois com coisas do demo não se brinca. Agora, porém, o perfume inebriava, e simultaneamente sentia-se uma paz retemperadora, e os pássaros que não frequentavam aquele lugar, começaram pouco a pouco a vadiar de forma descontraída por ali, atraídos pelo odor dos que por fim descansam em paz. Helena caíra, há algum tempo, num estado de absoluta letargia, que a medicina não conseguia explicar, num estado que era agora apelidado pela aldeia de “morta-viva”. Que vida desafortunada tinha tido ela, coitada, já não bastava o marido tê-la abandonado anos antes e nunca mais ter dado sinal de vida e agora esta doença, que nem médicos, nem padres, aliás, nem sequer a Elvira do Alho, que deveria ter mais de cem anos, pois já seria velha há muitos, mas muitos anos e, conforme se dizia, tinha umas certas familiaridades com coisas e com coisos que deste mundo não seriam de certeza, descobriam. Helena era mesmo uma desafortunada, uma pobre mulher incapaz de fazer mal a uma simples libelinha, coitada, com um destino destes. Era uma alma penada para toda a aldeia. Dolorosamente fui grafando esta narração de que absurdamente e inexplicavelmente tenho memória e, quando esta se me consumiu, e o sangue secou no fundo do baldio sob os salgueiros, socorri-me do que julgava ao meu alcance, as palavras, aquelas juras que mergulho no coração alagado de lágrimas de amor de José por Helena, de Helena por João e, essen-

JOÃO RASTEIRO 47 ANOS Natural de Ameal, Coimbra, ensaísta e poeta começou cedo a sua trajetória nas letras. Dos seis aos doze anos de idade, João só se interessava por livros de ficção. Somente após os vinte começa a interessar-se por poesia, quando no ano de 1997 começa um curso de poesia na Faculdade de Letras, que na altura deu-lhe muitas ideias, pois eram muitos nomes que ele nunca ouvira falar antes. A partir daí, João não parou mais de escrever e a sua primeira obra foi “Respiração das vértebras”, em 2001. A maioria dos seus trabalhos aborda principalmente o metaliterário da escrita poética. Licencia-se em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra, era estudante e ao mesmo tempo trabalhador no serviço público. Hoje, com dez livros publicadaos e inúmeras participações em antologias, publicações avulsas e algumas traduções, João Rasteiro para além de escritor trabalha também na Casa da Escrita de Coimbra. O autor recebeu alguns prémios pelas suas obras, entre eles, o que mais lhe trouxe visibilidade, o Prémio Literário Manuel António Pina, em 2010 pelo livro “A divina pestilência”. Ana Charlotte Reis

ESTE PAÍS NÃO É PARA A ALICE

ENTRE A ARREGAÇA E O CALHABÉ

E

cialmente, do amor que gostaria de ter tido por José e Helena, mas que esta, ou na verdade, o amor, não permitiu que o desígnio dos deuses se concretizasse. Eu sou apenas aquele que seria o filho de José e Helena, se esta por desatinado exaspero de amor a João, não tivesse colocado o marido sob os salgueiros a produzir flores durante anos, enquanto como uma leoa no cio se arrojava pela terra húmida, refrescando-se e, sem demoras, recolhendo o alimento de seu desejo, como se fosse o sentimento mais natural e completo dos residentes do Mundo que, num certo dia, um certo deus criou, fosse apenas o mais tangível cio da terra. Nunca beberei o calor de Helena ou o primitivo leite dos seus seios. Helena nunca receberá um beijo meu. Eu sou apenas aquilo que não é. E, no entanto, pairo sobre o sangue de José, sob o deífico sangue que alimenta aquele baldio, aquele misterioso canteiro de flores, aquele sepulcro do desamor, o amor do demo, o lugar em que a exaltação da vida e da morte repousa. Eu não cheguei a nascer. Talvez por mim venha a nascer um belo canteiro de anémonas e camélias. Talvez o amor seja mesmo assim. Amor e dor. Compaixão e bem-querer. Simplesmente amor. Talvez eu seja apenas a infinita constelação de amor, de vida, de uma trágica, mas bela utopia de amor, na boca acesa de um misterioso canteiro de flores. Talvez o amor não deva temer a ilusão da sede dos corpos. Talvez ali desponte sob os salgueiros a “ferida de Naaman”, talvez ali brote uma simples e maravilhosa anémona. O sangue originário da flor.

Por Bacharel Jorge Gabriel

ra uma vez um país, de costa azul e verdes campos, clima ameno e saborosa comida, assim era descrito pelos que o visitavam, assim era descrito pelos que nele viviam, gente acolhedora, dizia-se, sempre pronta a lançar mais um piropo ao cozido e à humildade nacional. No entanto, cultivavam os ditos habitantes singelo orgulho – tão pequeno país era (com efeito, não era grande sua extensão) e tinham as suas gentes semeado a cultura e os costumes pelos quatro cantos do globo, riscado mares e tempestades, na ânsia de desbravar o que se escondia para lá do horizonte. Assim era o país, grande e pequeno ao mesmo tempo, paradoxo recortado numa península, contradição semeada num continente, velho como só as pessoas são, mas assim lhe chamavam, o velho continente, mesmo que tal pedaço de terra não tivesse mais idade que os outros, singelos são os nomes que os Homens dão às coisas, sem que

nunca as coisas o peçam. Assim era o continente, de velhice imaginada, ao mesmo tempo, de juventude febril, em constante ebulição: fronteiras esticam e encolhem, muros sobem e descem, pelo meio, Homens por muros e fronteiras vão passando. Mudamse tempos e vontades, vontades e tempos, o continente semeia novas ideias. Fala-se de união, de crescimento, de prosperidade. De solidariedade entre os povos que compõem a tal terra velha, e belas são as sementes a ela atiradas, na certeza, diz-se, que ali florescerá um novo futuro, brilhante e justo para todos, assim todos lutem pelo ideal comum. O pequeno país lá foi crescendo, mudando por dentro e por fora, renovando-se na procura da flor do progresso, aproveitando a oportunidade para matar uma fome que anos negros do seu passado haviam criado. Os tempos eram leves, feitos da leveza dos anos que não pesam, dos meses e dias que

D.R.

não pesam, apenas avançam regularmente no sentido que queremos, isto porque sabemos para onde vamos, vamos por aqui, com certeza, diríamos se lá estivéssemos, deste caminho ninguém nos tira. Como este país, outros seguiam

o mesmo trilho, por verem nas ideias novas da terra velha forma de chegar ao planalto onde outros estavam, esquecendo, contudo, que dos terrenos elevados se diz que são de menor superfície, neles não cabem assim tanta gente. Do país, como de outros, foi-se di-

zendo que crescia, e isso fazia com que outros crescessem, tudo corria pelo melhor, também para os tais outros, reforçadas que eram as suas posições nos planaltos do poder. Até que um dia se constou no país que nem tudo era assim tão simples, dizia-se, não se cresceu coisa nenhuma, diz que há “praí” uns activos tóxicos, países de quarentena, depois, dívidas a pagar, sacrifícios a fazer. Precisamos da ajuda de outros, nem que por ela imploremos, nem que por ela entreguemos os nossos destinos, destruamos em meses o que se construiu em décadas, temos é de nos portar bem, não há outra solução realista, dizia-se. Mas realismo é outra coisa: é um país asfixiado por um governo de fachada e sem rumo; é um país inteiro pagando os erros que uns quantos cometeram. *Por escolha do autor este texto não segue as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.


18 | a cabra | 19 de março de 2013 | Terça-feira

OPINIÃO

A PRESERVAÇÃO FLORESTAL EM COIMBRA PAULO A.G.B. DE ANDRADE*

A Floresta, de modo geral, pode também fornecer ótimas madeiras para construção e mobiliário como as madeiras bonitas e duráveis de espécies como os carvalhos, as azinheiras, os freixos, os castanheiros, entre outras"

São variadas as áreas verdes de Coimbra. Destaque-se desde já a Mata Nacional do Choupal (1), autêntico pulmão da cidade, pois fornece oxigénio à zona da Baixa da cidade tão afetada pela grande poluição das viaturas a motor, utilizando combustíveis fósseis. O Choupal continua a ser uma das mais importantes zonas verdes urbanas, talvez até a mais relevante a nível europeu na medida em que alberga a maior população de milhafres em zona verde urbana. Este grupo de milhafres, muito útil por ter na base da sua alimentação grande quantidade de roedores, faz ninhos nas mais altas árvores do Choupal que, geralmente, são eucaliptos por serem as árvores que atingem maior altura… O Choupal é, aliás, uma zona verde onde existe grande variedade de espécies botânicas, incluindo muitas espécies de árvores autóctones, além de outras não autóctones: ulmeiros, loureiros, nogões, choupos, eucaliptos, etc… No Choupal, os eucaliptos têm exemplares dispersos na Mata o que poderia ser, de certa forma, um exemplo para a floresta nacional, em termos, não

de monocultura, mas sim de variedade em espécies e, portanto, grande biodiversidade. Note-se que 2012 trouxe até a má notícia que a maior mancha florestal portuguesa é, atualmente, a do eucalipto… No Choupal os eucaliptos convivem com muitas outras espécies com algum equilíbrio. Por outro lado, a Mata de Vale de Canas é um espaço que sofreu com o incêndio de 2005, mas que tende a recuperar, encontrandose atualmente em fase de reflorestação que tem privilegiado as espécies autóctones como o castanheiro. É uma mata importante por ser uma zona verde numa área da cidade oposta à do Choupal. Será interessante, de futuro, ver estas e outras áreas de gestão pública e até de gestão privada como zonas verdes de alguma continuidade dando sentido à noção de Cinturas Verdes de Coimbra. Note-se, que uma das áreas privadas que merece ser mantida como área verde, é a do Planalto de Santa Clara onde existem vários povoamentos de sobreiros (esse Símbolo Nacional), aliás protegidos por lei, e que poderá dar abrigo a um Parque Verde Ur-

bano com percursos pedonais e cicláveis, com um Centro de Interpretação Ecológica do Sobreiro, etc… Outra área verde que merece respeito e visitas é o Jardim Botânico de Coimbra, nomeadamente por albergar aos sábados de manhã o Mercadinho de Agricultura Biológica. As vias públicas viam, noutros tempos, as suas árvores sofrerem podas brutais de que se desistiu, felizmente, seguindo o sábio conselho do Professor Jorge Paiva. Hoje em dia muitas das árvores das vias da cidade proporcionam uma refrescante sombra no Verão e abrigo a pequenas aves que encantam a cidade com o seu chilrear. As árvores são importantes em meio urbano por várias razões e importa também acabar com alguns preconceitos instalados em mentes menos esclarecidas: refira-se, por exemplo, que o «algodão» largado por choupos na Primavera não tem capacidade alérgica de relevo mas, por ser bem visível, dá a ideia a algumas pessoas que provoca alergias; estas sim são provocadas por pequenas plantas como a alfavaca-

pegarmos no exemplo de o facto de conseguirmos conduzir, ao mesmo tempo que falamos ao telemóvel e tentamos que o nosso filho pare quieto no banco de trás com os brinquedos, conseguimos aqui envolver imediatamente várias áreas do cérebro (visual, auditiva e cinestésica). Todas elas se comunicam umas com as outras, garantindo uma eficácia máxima na concretização das tarefas. Por muito complicado que isto parece a realidade é que vivemos num mundo em mudança, em que durante as 24 horas do dia, 365 dias por ano somos bombardeados com estímulos aos quais o cérebro tem de integrar e reagir aos mesmos para garantir a nossa sobrevivência e desenvolvimento. Somos o único ser humano à face da terra com consciência, ou seja, à excitabilidade do sistema nervoso

central aos estímulos externos e internos sob o ponto de vista quantitativo e, também, à capacidade de integração harmoniosa destes estímulos internos-externos, passados e presentes, sob o ponto de vista qualitativo. A capacidade de perceber o porquê de agir, pensar e sentir fruto das diferentes interações que temos com o mundo envolvente. Assim será correto afirmar que a consciência é a janela para a nossa alma? Ou a realidade será apenas que somos aquilo que pensamos fruto das experiencias e aprendizagens que já vivenciamos e adquirimos moldando estas a nossa forma de viver.

de-cobra ou espécies de gramíneas (2) como a grama, a relva, etc… Enfim, cumpre destacar que a floresta urbana é fonte de oxigénio, sombra refrescante, biodiversidade, podendo ser até fonte de alimentação ao considerar-se a plantação de árvores que forneçam frutas comestíveis (pinhões do pinheiro-manso, castanhas, avelãs, ameixas, cerejas…). Tal plantação poderá, aliás, estar associada à implementação de hortas urbanas. A Floresta, de modo geral, pode também fornecer ótimas madeiras para construção e mobiliário como as madeiras bonitas e duráveis de espécies como os carvalhos, as azinheiras, os freixos, os castanheiros, entre outras. 1 - Vide http://www.icnf.pt/portal/ florestas/gf/pgf/publicitacoes/drf-centro/2011/pgf-mata-n acional-do-choupal 2 - Vide http://www.uc.pt/herbario_digital/Flora_PT/Familias/gramineas/ *Mestre em Direito e Membro da Direção do Núcleo Regional de Coimbra da QUERCUS – ANCN

CARTAS À DIRETORA O CONHECIMENTO NÃO OCUPA LUGAR! CARLOS CARVALHINHO*

O mito referente ao facto de apenas utilizarmos dez por cento de todo o nosso cérebro apresenta-se incorreto perante a argumentação de que conseguimos manter diferentes áreas do cérebro em funcionamento ao mesmo tempo"

O cérebro é o elemento mais complexo e fascinante que existe em todo o Universo. Nele existem cerca de cem biliões de neurónios, mais do que as estrelas que existem na via láctea. Em cada neurónio ocorrem cerca de mil a dez mil sinapses, o que equivale a cerca de um quatrilião de sinapses. Desde que nascemos que toda a informação é recolhida pelo cérebro e alterada em função das experiências que vivemos. O mito referente ao facto de apenas utilizarmos dez por cento de todo o nosso cérebro apresenta-se incorreto perante a argumentação de que conseguimos manter diferentes áreas do cérebro em funcionamento ao mesmo tempo, criando uma ligação entre elas. Sempre que fazemos uma tarefa, por muito simples que esta seja, activa sempre neurónios numa parte do nosso cérebro. Se

*Estudante de Mestrado de Educação Física nos Ensinos Básicos e Secundário na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física

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19 de março de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 19

OPINIÃO CARTAS À DIRETORA DESPERTAR POR UM

FUTURO JOÃO AZEVEDO * Sensibilização e consciencialização. Falha assim o papel mais importante a que esta Direção-geral se propôs aquando da sua primeira tomada de posse, indispensável para que se contrarie esta política de desinvestimento na educação e cultura apoiada por todas as grandes instituições desta cidade, que deveriam ter um papel fulcral em contrariar estas medidas, entenda-se Universidade de Coimbra e Câmara Municipal de Coimbra. A realidade é das mais duras alguma vez vividas em democracia. O desespero compara-se com os tempos em que a busca pela liberdade era o entusiasmo para o grito de revolta que emergiu nesta universidade e o abandono do Ensino Superior é a consequência nefasta com que nos deparamos diariamente. Hoje, já não há entusiasmo algum que sirva de factor transcendente para os estudantes irem para a rua. Neste sentido, é extremamente crucial uma intervenção por parte dos representantes estudantis, em conjunto com as diferentes plataformas junto de toda a comunidade académica desta universidade, de forma a que os estudantes compreendam aquilo a que estão a ser submetidos e se insurjam perante todas estas medidas que vêm mais que hipotecar, destruir por completo o nosso futuro neste país, e pior ainda, em qualquer outro lugar do mundo caso o desinvestimento e, por consequente, a perda de qualidade do ensino, continue a aumentar. Deixaremos rapidamente de ser a “geração mais qualificada de sempre”, a emigração deixará de ser uma alternativa e de-

EDITORIAL

pressa nos colocaremos novamente na cauda da Europa ao nível da formação humana e cultural enquanto cidadãos. Bolonha obriga hoje a uma passagem repentina dos estudantes pelas Universidades que frequentam. São três anos, na maioria dos casos com horários completamente atestados, vividos sobre uma pressão extrema devido ao actual momento financeiro que as famílias atravessam, o que leva a que estes estudantes não tenham tempo nem sequer motivação para a formação extracurricular e intervenção social e cultural tão importantes como qualquer secretária de qualquer departamento. Nós somos jovens, vivemos num Estado dito democrático, somos até então dos mais felizes do mundo, temos direitos consagrados na constituição, temos direito a bolsas que

O desespero compara-se com os tempos em que a busca pela liberdade era o entusiasmo para o grito de revolta que emergiu nesta universidade" deveriam ser em número e montante suficientes, temos direito a um ensino superior universal e tendencionalmente gratuito, temos direito a sonhar com um país diferente, temos direito a um futuro num país actualmente sem futuro e temos direito a ambicionar ser os melhores entre os melhores. Este não é o caminho. É urgente mudar a política educativa deste país com um também urgente grito de alerta, para que todos os estudantes lutem por um futuro e que seja este futuro a “liberdade” como o factor transcendente dos dias de hoje. *estudante de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra

1

EM MARÉ DE DIVERGÊNCIAS Avizinha-se o dia 24 de março, Dia do Estudante. Para muitos, jovens estudantes desta Academia, esta pode ser uma data sem muito significado. Apenas mais um domingo. Mas outros há que lhe reconhecem valor e lhe atribuem o respeito devido. Respeito por aqueles estudantes que, em 1962, se uniram e combateram – ou, pelo menos, tentaram – os flagelos de uma época de repressão, que assolava não só a sociedade em geral, mas o mundo universitário. No ano passado, 50 anos volvidos dessa crise académica, Luísa Sobral atuou na Via Latina. É verdade que há que reconhecer os jovens talentos promissores de Portugal, mas há momentos mais oportunos para isso. Mas adiante, que isso já lá vai. Este ano, o movimento estudantil mostra-se como tecido frágil, a romper face a indecisões: como o celebrar? Quando? A questão de calhar, este ano, num domingo, é, de facto, incomodativa. Ainda assim, é um dia que deve ser sempre assinalado – e quanto mais reivindicativo melhor, para mostrar que o esforço de 1962 não foi em vão. As tricas entre o movimento estudantil são para por de parte quando valores mais altos se impõem. E se certas ações não têm selo de aprovação das “maiores academias do país”, alguma coisa tem de mudar nos dirigentes associativos. Essas certas ações devem pautar-se por tomadas de posição fortes e não meramente simbólicas. Os tempos já deram mostras de serem adversos o suficiente e já não basta dizer “não queremos aumento de propinas” ou “queremos mais Ação Social”. É preciso mostrá-lo vincadamente.

O Tribunal Constitucional, enquanto entidade reguladora da formação de novos partidos, deveria garantir que várias normas sejam respeitadas

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O Movimento Alternativa Socialista (MAS) nasce da cisão do Bloco de Esquerda. Enquanto movimento de cidadãos apresenta-se como uma alternativa dentro da esquerda, fazendo uso da contestação à austeridade a sua principal bandeira. A sua tentativa de formação enquanto partido relaciona-se impreterivelmente com o Tribunal Constitucional (TC), entidade que deveria ser defensora do respeito pela democracia e do pluralismo político. No entanto, no caso deste movimento, parece existir uma duplicidade de critérios na sua formação em relação a outros partidos políticos. O exemplo mais recente acaba por ser o Movimento Pró Vida, que tem inúmeras irregularidades nos seus estatutos, e que foi concedido algum tempo para as corrigir, algo que não aconteceu com o MAS. A recusa do TC parece apenas um pretexto para criar entraves à criação de um partido político que inflama pluralidade partidária num país semeado de partidos descredibilizados. O Tribunal Constitucional, enquanto entidade reguladora da formação de novos partidos, deveria garantir que várias normas fossem respeitadas. Todavia, na prática, existe uma fiscalização apenas na formação dos partidos, não controlando suas atividades. Exemplo mais notório é o Partido Nacional Renovador, que demonstra xenofobia e racismo nas suas hediondas atividades propagandísticas. Por António Cardoso e Ana Duarte Cartas à diretora podem ser enviadas para

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Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo ICS nº116759 Diretora Ana Duarte Editora-Executiva Ana Morais Editores Rafaela Carvalho (Fotografia), Liliana Cunha (Ensino Superior), Daniel Alves da Silva (Cultura), João Valadão (Cidade), Carolina Varela (Ciência & Tecnologia), António Cardoso (País & Mundo) Paginação António Cardoso, Rafaela Carvalho Redação Ana Francisco, Bárbara Sousa, Beatriz Barroca, Daniela Proença, Ian Ezerin, João Martins, Joel Saraiva, Pedro Martins, Tiago Rodrigues Colaborou nesta edição Ana Charlotte Reis, Daniela Gonçalves, Camila Correia, Caroline Pinheiro, Dalila He, Sara Silva Fotografia Ana Maria Coelho, Ana Morais, Caroline Pinheiro, Daniela Proença, Daniel Alves da Silva, Inês Balreira, Inês Valadão, Rafaela Carvalho, Sara Silva Ilustração Carolina Campos, Joana Cunha, João Pedro Fonseca, Tiago Dinis Colaboradores permanentes António Matos Silva, Bruno Cabral, Camila Borges, Camilo Soldado, Carlos Braz, Catarina Gomes, Fábio Rodrigues, Filipe Furtado, Inês Amado da Silva, Inês Balreira, João Gaspar, João Miranda, João Ribeiro, João Terêncio, José Miguel Pereira, José Miguel Silva, Luís Luzio, Lourenço Carvalho, Manuel Robim, Rui Craveirinha, Tiago Mota Publicidade António Cardoso - 914647047 Impressão FIG - Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Adriana Bebiano, João Rasteiro, Francisco Linhares


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IMAR-CMA

O estudo levado a cabo pelo Instituto do Mar, Centro do Mar e Ambiente da Universidade de Coimbra (IMAR-CMA), em conjunto com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera e uma universidade alemã, alerta para a redução dos ‘stocks’ marinhos, que começa a afetar a costa portuguesa. O coordenador do estudo, Vítor Paiva, aponta as alterações climáticas e a pesca acessória como principais potenciadores da diminuição de peixe, em especial a sardinha. As políticas europeias da pesca e a consciência que as gerações mais recentes de pescadores demonstram, são consideradas, pelo coordenador do estudo, “passos esperançosos”. PÁG. 9 C.V.

DG/AAC

O planeamento de atividades no que diz respeito à área política é movível como já se sabe. Mas o que é gritante é estarmos a cinco dias de um dia que muito apela à memória reivindicativa e a responsável pela área política nada saber. Estarmos a um mês do momento em que os estudantes pediram a palavra e ser preciso um estudante fora da DG/AAC a propor uma ação de protesto há muito urgente que os dirigentes não tiveram ideia de pedir. A ideia para 2013 é ter uma formação de como ser um dirigente associativo que saiba do que fala, mas nada disso serve quando se está vazio de ideias numa conjuntura como esta. L.C. PÁG. 5

JORNAL UNIVERSITÁRIO DE COIMBRA

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Movimento Associativo Nacional

Semelhante a uma crise política na Assembleia da República. É assim que se encontra o movimento associativo nacional do Ensino Superior por via de uma divergência cada vez mais galopante entre os grandes e aqueles que não se importam com o tamanho. Por isso a tal “ação reivindicativa” para comemorar o Dia do Estudante não ser mais nada do que pó transformado num possível comunicado simbólico. A cortina descose-se já que não se têm “grandes expectativas, nem é essa a missão e espírito”. Espera-se portanto por uma manifestação no dia 21 que tem pretensão de mobilizar e uma ação que tem intenção de quase nada. PÁG.4 L.C.

UMA TURISTA BRASILEIRA NA IGREJA DE SANTA CLARA POR CAROLINE PINHEIRO

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O cheiro é estranho: uma mistura de humidade, pó e muita história. Os primeiros pensamentos são de indagação: quantas narrativas já se passaram por aqui? E então é só olhar para a parede e pensar: de onde veio todo esse ouro? A Igreja de Santa Clara, no Porto, pode despertar muitos outros sentimentos. E, principalmente dúvidas. Os guias turísticos afirmam que foi construída pelo rei que queria homenagear a sua amada construindo uma igreja com o nome da sua santa de devoção. Para os sites de busca, o motivo da edificação foi resultado do pedido de freiras franciscanas para a mudança de um mosteiro maior e mais moderno. Atualmente, a igreja existe basicamente pelo turismo e a técnica da talha dourada é o seu principal atrativo. Na visita guiada, o turista brasileiro é previamente avisado: “por mais que o ouro seja vosso, por favor não tente pegá-lo de volta”.


Edição nº 258