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23 DE OUTUBRO DE 2011 • ANO XXii • N.º 251 • QUiNZENAL GRATUiTO DiRETORA ANA DUARTE • EDiTOR-EXECUTiVA ANA mORAis

umA ideiA PArA o es Universidade com autonomia Pág.16

acabra

JORNAL UNiVERsiTáRiO DE COimBRA Stephanie Sayuri paixão

bolseiros de investigAção A situAção débil de quem AindA quer Produzir conhecimento Pág.2 e 3

Músico

Frankie Chavez “Opá, é juntar a esquerda à direita e rezar” Pág.5

biodiversidAde

relAções chinA e JAPão

O património natural da História

Disputa das ilhas Senkaku/Diaoyu

Quando se faz uma nova descoberta em termos de espécies no nosso planeta, a palavra regressa à discussão pública. A definição nunca é fácil bem como a tomada de decisões que visam proteger esse património natural. O Homem não aprende com a sua História e cometem-se agressões contra os ecossistemas que colocam em causa a própria vida no planeta. O próprio Direito é, muitas vezes, um mero espectador e em Portugal mantém-se a tradição da passividade em relação ao ambiente.

A República Popular da China e o Japão têm as suas relações enfraquecidas devido à disputa por cinco ilhas vulcânicas localizadas no Mar da China Oriental. O Governo chinês decidiu cancelar as comemorações dos 40 anos de normalidade nas relações diplomáticas. A contenda tem gerado vários ataques de manifestantes chineses a fabricas, armazéns e restaurantes nipónicos localizados em território chinês.

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Contestação social: cada vez mais uma preocupação de todos Pág.10 e 11

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Mais informação em

acabra.net Stephanie Sayuri paixão


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deStAque

A luta pela estabilidade na investigação A produção científica portuguesa encontra-se instável. Ser bolseiro de investigação já não significa uma rampa de lançamento para o prestígio na área. Muitos vivem de corda ao pescoço sem saber o que pode acontecer no ano a seguir e lutam por um vínculo que os faça ter um lugar na sociedade. Por Liliana Cunha e João Martins

“J

á vivemos assim há dez anos. A minha mulher também é bolseira e temos um filho”, conta o estudante de pós-doutoramento (pós-doc) e bolseiro de investigação científica, Tiago Natal da Luz. Ele sabe que é um “bocado doentio” viver na dependência da possibilidade de no ano seguinte não haver bolsa. Mas move-o a “magia” pela investigação. No Departamento das Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), contíguo à Sé Nova, Tiago está sentado numa mesa como qualquer outro estudante. O laboratório fica para trás, mas a situação em que está domina toda a conversa. “As pessoas acham que é um desprestígio ter bolsa, não é visto como um emprego sequer”, lamenta o doutorado em ecologia. Só se sentiu seguro ao inscrever o filho no infantário dos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra. Nos outros, quando disse que era bolseiro, as pessoas ficavam a examiná-lo. Achavam que era uma “irresponsabilidade” delegar uma mensalidade numa pessoa que pode ficar sem rendimentos ao fim de cada ano. “É um privilégio pagarem-me para fazer o que gosto”, ressalva Tiago Luz. O

“surge um decreto-lei (DL 202/2012) que, para além de vir dizer que não podemos dar aulas aos estudantes de 1º ciclo, diz também que só os estudantes de pósdoutoramento podem lecionar”, aclara Ana Rita. Por muito confuso que possa parecer à vista desarmada, tal significa que agora, e como Ana Rita é estudante de doutoramento, fica impedida de ser professora. No entanto, isso só acontecerá no próximo ano letivo. O Governo, num comunicado em Conselho de Ministros no mês seguinte ao decreto, “aprovou o diferimento para o início do próximo ano letivo”, ou seja, não aplica as novas alterações durante um ano porque procura o evitar os constrangimentos nas uniVera Dantas Moura versidades dado que já tinham o corpo docente disda Universidade de Coimbra. É tribuído. “Isto é uma saga, o proproessora assistente convidada na cesso da Fundação para a Ciência e aula de Direito Penal, e leciona ao Tecnologia (FCT) é como um curso primeiro ciclo de estudos da licen- intensivo de resistência. Tira muita ciatura de Direito. No entanto, em energia e disponiagosto surgiu uma alteração ao EBI b i que desconfigurou a sua vontade:

décimo ano de investigação do ecologista corresponde ao início do seu pós-doc. E os resultados da sua experiência com os “bichinhos do solo”, como afirma, são avaliados diariamente. Por outras palavras, analisa a reprodução desses mesmos bichos em função da maior ou menor quantidade de tóxicos aplicados na experiência no laboratório, exemplifica o investigador. Dar aulas fica fora do cenário. As alterações feitas ao Estatuto do Bolseiro de Investigação Científica (EBI) deram origem a uma controvérsia entre a classe. Porque muitos reivindicam que o projeto de investigação a par com a docência é uma mais-valia. Ao contrário de Tiago, que quer testar a ciência no laboratório, Ana Rita Alfaiate quer testála nas salas da Faculdade de Direito

“Não somos elegíveis nem para um crédito”

lidade mental para pensar no que devia ser pensado – a tese”, condena a bolseira de doutoramento

“Andámos a viver quase como sem saber como vai ser a nossa vida amanhã”, diz revoltada a professora. Não há um vínculo como um contrato laboral, exige-se à mesma uma exclusividade e há perda nos direitos sociais. As regras do jogo alteraram-se e de “forma completamente unilateral”, realça a mesma.

Catarina Silva ainda não está a par de nenhuma alteração Ana Rita Alfaiate. A FCT é a entidade que atribui anualmente bolsas do Estado para financiar projetos de investigação científica. Mas há uma grande precariedade nisso.

Proteção social deficiente Os direitos sócio-laborais dos bolseiros entram em disputa com os de um trabalhador normal. Na opinião do bolseiro de investigação em sociologia, Alfredo Campos, um “horário de trabalho, u m


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local de trabalho, e uma supervisão direta, fazem do bolseiro um trabalhador por conta de outrem como outro qualquer”. Entenda-se como outrem a FCT e o Estado. Contudo, as proteções sociais transversais à classe não se verificam: “não tem direito a subsídio de desemprego, de férias ou natal, e apenas tem condições de maternidade muito limitadas”, lembra Alfredo Campos. “Que haja saúde”, roga o investigador Tiago Natal Luz. O seu pedido explica-se, uma vez que, ainda dentro da proteção social relativa a motivos por doença, o bolseiro, se ficar de baixa médica, receberá o correspondente a um trabalhador que ganhe um salário mínimo. Isto porque o montante que lhe é atribuído é mais do dobro do que o ordenado mínimo. “Sou bolseiro há seis anos e estou a descontar para o serviço social voluntário a contar como se fosse o ordenado mínimo”, sustenta Alfredo Campos. Encontra-se a tentar pagar para uma reforma, “se ainda existirem e será uma miséria”. “Foi tudo centrado em coisas muito particulares que teriam interesse do Governo, mas não é para melhorar as questões dos bolseiros”, diz o vice-presidente da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), André Janeco. O regime de exclusividade previsto no EBI, obriga a que o bolseiro não possa obter mais nenhum rendimento à parte do projeto anulando “a capacidade de se inserir no emprego científico com condições”, alerta. Os bolseiros de investigação não podem ter dois projetos em simultâneo e ganhar dos dois lados. Só de um. “Acho discutível ver a ciência ou a produção de conhecimento científico como concorrencial”, comenta o investigador de Sociologia. “Não se aumenta o valor das bolsas, ainda se impõe uma exclusividade

e não se permite buscar recursos económicos a mais lado nenhum, torna-se insustentável a vida dos bolseiros”, suporta o sociólogo.

Uma fuga para o empreendedorismo

Ridicularização da “profissão”

Vera Dantas Moura saiu da estabilidade de um emprego fixo numa farmácia e decidiu concorrer a uma bolsa de doutoramento na FCT. E conseguiu-o por quatro anos, desde 2005 até 2009, numa investigação

Há uma história que Vera Moura não esquece: “lembro-me de ser contactada pelo [banco] Barclays várias vezes nas campanhas de lançamento de cartões de crédito”. Durante o questionário perguntaramlhe pelos seus rendimentos. Disse que era bolseira e responderam-lhe que não era elegível. “Nós nem somos elegíveis para um cartão de crédito. Não há confiança no bolseiro”, indigna-se a ex-farmacêutica. Recorda ainda uma situação, de quando um colega seu teve o desejo de comprar um carro. “Ele recebia uma bolsa a quatro anos e quis fazer um financiam e n t o para um carro. O

Para Tiago, há “magia” na investigação onde desenvolveu um fármaco que se destina a proteger com mais segurança os doentes oncológicos. A descoberta no primeiro ano de doutoramento de uma partícula “para transportar um fármaco até ao tumor de uma forma exclusiva”, trouxe a possibilidade de patentear a descoberta e depois transformála numa coisa rentável. Acrescentou um ano extra “porque a universidade apresentou-nos aos cursos de empreendedorismo e houve muita aceitação da ideia”, adianta Vera Moura. Até agora, a sua equipa ganhou o prémio da ideia de negócio, a alavanca que a lançou para o mundo empresarial. Conseguiu financiamento por parte de fundos europeus e, legalmente, a empresa existe há um mês. Vera deixou a bancada da farmácia para ser gerente de uma empresa: “é uma grande aventura, mas não teria chegado aqui se não tivesse sido bolseira da FCT, e digo hoje que foi a melhor decisão que tomei”.

pai teve de ir como fiador”. O facto de o filho ter uma ligação que dizia que durante quatro anos ganhava 980 euros por mês, renovados a cada ano, não bastou. “Como é que podem dizer que uma pessoa que recebe o ordenado mínimo nacional é um trabalhador e outra que recebe o dobro não o é?”, questiona Vera Moura. Assevera que “não há estímulo nenhum, não somos vistos como cidadãos”. Tiago Luz quer-se manter investigador mas tem medo de ser um “bolseiro crónico”. Alfredo Campos está em vias de se candidatar a mais uma bolsa, desta feita de doutoramento, para ter a garantia de rendimento nos próximos quatro anos. Ana Rita, no próximo ano letivo poderá deixar de

dar aulas: “vai ser um grande sacrifício se em vez do sonho de dar aulas tiver de ficar três anos fechada em casa ou numa biblioteca”. Apesar da polémica, ainda há gente que nada sabe. Catarina Silva, que já foi bolseira, é uma delas. Mas tem como objetivo avançar com um projeto de doutoramento, na área da Psicologia, mesmo assim. A revolta leva à luta. “Temos um ano para provar por a+b que não faz sentido. Há tanta coisa mal no estatuto que ninguém questiona”, deixa no ar a professora convidada da FDUC, Ana Rita Alfaiate. Até a questão da não remuneração de colegas seus “que dão aulas em catadupa. Isso não está a ser investigado”, refere revoltada.


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EnSino SuPErior

Uma academia “não se pode demitir” do protesto

cedido por aeflul

São estudantes que, em paralelo ao trabalho desenvolvido por associações ou academias, lutam em forma de política de proximidade por mais e melhores direitos no ES. Por Liliana Cunha e Ana Morais

N

o contexto da luta por mais direitos no Ensino Superior (ES) são vários os movimentos unitários que se têm feito ouvir em todo o país. Os polos de contestação centram-se nas duas principais metrópoles – Lisboa e Porto - , e ganham força porque a representatividade é mais próxima do estudante. Não se desligam do cordão nacional, mas não seguem a política de mobilizar as massas. Querem atentar aos nichos e resolver de forma consequente os problemas que se atravessam nas infraestruturas ou na acessibilidade – como é o exemplo da perda do desconto no passe escolar. Desta forma, a ajuda pretende ser direta. Contudo, a impossibilidade das associações chegarem perto do que preocupa o estudante motiva a criação deste tipo de movimentos espontâneos. “Infelizmente isto [as preocupações] não passa das quatro paredes da faculdade, e cabe-nos a nós organizámo-nos para mudar isso, porque ninguém vai fazer favores”, expõe o elemento da Brigada Universitária em Luta (BUL) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Sofia Lisboa. “Atiramo-nos ao problema e conseguimos resolvê-lo”. É desta forma que um dos membros do Núcleo de Intervenção Cívica da Escola Superior de Educação do Porto (NICE), Maria João Antunes, explica a linha de ação. A resolução de problemas que se prendem quer com os cortes nos descontos de transportes, quer

com a determinação de possibilitar melhores infraestruturas e mais equipamentos para os demais estudantes é uma constante. “A torre da nossa faculdade [Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto], sítio destinado à Associação, está em perigo de derrocada”, conta o elemento de Belas Artes Movimento Unitário (BAMU), Maria Silva. A reitoria ainda não avançou com as obras necessárias, contudo, Maria Silva considera esta como “uma questão de saúde pública”. Ao contrário do modelo associativo que vigora em Coimbra, a Federação Académica do Porto (FAP), tem uma estrutura que se divide por federações onde se incluem todas as instituições de estudantes de ES da cidade. “A FAP tem tido uma postura de não se envolver em nenhuma ação reivindicativa que seja”, frisa Maria João Antunes. Em termos de ações reivindicativa, Maria queixa-se que em tempos piores, todas as associações e organizações de estudantes sejam formais ou informais, “mostram pouca capacidade de resposta”.

O passe escolar é uma das bandeiras dos estudantes O “passe escolar não é para cortar” gritaram estudantes no metro da Trindade na semana passada contra retirada nos descontos a estudantes. Também na capital se combateu esta perda. O Movimento de Estudantes em Luta por Letras (MELL)

ganhou as eleições na Associação de Estudantes de Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (AE FLUL), e Paulo Antunes encabeça a direção. Ficaram em frente à faculdade para sensibilizarem para a luta do passe. “Chamámos a comunicação social e fizemos um caixão simbólico em que dissemos: aqui não entra o passe”. Travam lutas para exigir “a quem tem o dever de nos dar o passe”. O Movimento Técnico (MT) do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa (IST) quer demonstrar que, de uma maneira descentralizada, “os estudantes estão a afirmar que não querem o corte no passe escolar, na ação social escolar”, afirma o membro do MT, André Oliveira. E dá um exemplo: “o ministro Nuno Crato foi há duas semanas ao IST e o movimento atribuiu responsabilidades ao ministro do corte nas bolsas, do aumento das propinas, do corte no passe escolar”. Atesta que no IST os estudantes fazem-se ouvir. E “hão de continuar”, assegura André Oliveira.

Olhar externo sobre a Académica de Coimbra “Há um retrocesso assustador no que toca ao exercício da política na universidade. Hoje, os estudantes têm vergonha de fazer política”, reprova um candidato à associação de estudantes da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Diogo Silva Pereira. Segundo o mesmo, não deve ser a política a

os movimentos agem conforme uma política de diálogo fazer a universidade, “mas sim a universidade, a academia a fazer a política”. O estudante relembra assim o papel de contestação histórico e lamenta que atualmente as academias se “têm negligenciado de fazer política, de consciencializar pessoas, de apresentar um pensamento construído”. Ideia corroborada e sublinhada por Maria Silva: “nenhuma academia e nenhuma AE se pode demitir do trabalho de reivindicação justo e determinado sobre as questões que preocupam os estudantes”. Sofia Lisboa, ao estabelecer uma comparação com a reivindicação seguida pela Associação Académica de Coimbra (AAC) conclui: “durante muito tempo, Lisboa andou na sombra de Coimbra. Acho que esses tempos passaram”. André Oliveira vai mais longe e deixa a questão: “é

importante que a AAC ponha um tapete pelas Escadas Monumentais, mas onde é que está a coisa concreta?”. Acrescenta que o trabalho desenvolvido pela académica de Coimbra “está muito aquém daquilo que os estudantes precisam”. Como forma de organizar um movimento mais alargado e de dimensão nacional, foram vários os grupos unitários que revelaram as conversações já existentes para a conclusão num mês generalizado de protesto o mês de novembro. Abaixo-assinados, manifestações, pintura de murais, ações por melhores condições nas faculdades ou mobilizações contra o corte do passe escolar – são exemplos concretos do trabalho que este género de movimentos leva a cabo, ao seguir sempre uma política de proximidade e de diálogo constante com o estudante. cedida por Maria silva


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CuLTurA stephanie sayuri paixão

“Não sei o que me vai dar na gana daqui a uns anos”

Daniel Alves da Silva Frankie Chavez iniciou a sua carreira apenas em 2009. A sua projeção deu-se muito por culpa do tema que compôs para a etapa portuguesa do Rip Curl Pro Search nesse ano. Contando com um EP homónimo e o disco “Family Tree” na bagagem, Joaquim Francisco Chaves regressou a Coimbra, trazendo ao palco do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) o seu blues folk, após já ter pisado o palco do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e de ter passado pela Alemanha, Holanda e França. A tua carreira explodiu com “The Search”… Esse tema surgiu numa altura em que se organizava o campeonato Pro Search em Portugal. Eu conheço pessoas da organização e um dia em conversa com o francês Arnaut Decarne, ele referiu que tinha uma ideia mais global e queria incorporar a parte da imagem e música ao evento e sugeriu-me fazer um tema que estivesse ligado ao Pro Search. Sentes-te ligado a essa corrente de artistas “colados” ao surf? Sinto-me ligado no sentido em que faço surf e acho que faz parte de mim. Faz com que a minha música se represente por aí porque é o reflexo do que uma pessoa é. Quais são as tuas principais influências? É um conjunto de várias coisas. No último álbum foi muito a minha família, acho que o que me rodeia, o que vai acontecendo. A nível musi-

cal tem muito a ver com os géneros que oiço há muitos anos como o folk, blues, rock. Passa por aí. Foi isso que te fez enveredar por esse caminho musical não muito português… Sim. As influências são o resultado do que uma pessoa ouve e eu sempre ouvi esse tipo de músicas. Um disco que ultimamente tenho ouvido bastante é o “Welcome To The Cruel World”, do Ben Harper. Tenho ouvido o “Olympia” [de Minta & The Brook Trout], sei lá... Muita coisa. É por fases, às vezes apetece-me ouvir mais “rockadas”, outras vezes coisas mais calmas. Abordas um território mais próximo do folk e do blues. Pensas explorar no futuro outros géneros de sonoridades? Estou sempre aberto e gosto de experimentar novas coisas, incluindo a nível sonoro. Não sei o que me vai dar na gana daqui a uns anos. Talvez mostrar coisas mais eletrónicas, sempre gostei muito desse som, misturá-lo com folk. Logo se vê. E criar em português? Tenho algumas canções em português. Antes deste projeto tinha uma banda e fizemos um álbum de originais em português. A banda nunca tinha um nome fixo, variava de França & Beringela Amarela ou só Beringela Amarela, andava ali num terreno estranho. Era do mesmo género só que éramos quatro e o som que fazíamos também era muito virado para o folk e para o rock, cantado em português. O facto de cantar em inglês é porque me sinto mais confortável, sempre ouvi muita música em inglês e hoje em dia as músicas saem-me mais facilmente em

inglês. Pensas em expandir a tua carreira internacionalmente? Tenho álbuns na Alemanha, Holanda e Bélgica, desde maio. Tem corrido bem, fiz tournées por esses países, pela França, e os concertos correram bem. Tenho agenciamento na Holanda… portanto, a ideia de tocar lá fora já aconteceu e é para se manter, a ideia é exportar este trabalho. O novo álbum já tem data de edição? Primeiro trimestre de 2013. Às vezes acontece tocar temas novos nos concertos. Já toquei três. O álbum é um seguimento do “Family Tree”. Há temas muito acústicos, só de guitarra e voz, e há temas “mais rockeiros” que têm mais a ver com o “Family Tree”. Que referiste ser inspirado pela família… Sentes-te à vontade em cantar o teu lado mais pessoal? Sinto. É uma coisa bonita de se dizer. Quando estás contente com o que se passa na tua vida acho que expressa-lo em termos de música é interessante. O que achas do estado da música portuguesa actualmente? Tenho visto muita coisa boa. Boas bandas a começarem, bons projetos. Neste momento pode parecer algo cliché e estou farto de ouvir pessoas a dizer isto, mas hoje em dia a música que se faz em Portugal está num patamar onde julgo que nunca esteve. No que toca ao que conheço, obviamente, não sei o que se fazia há 50 anos atrás, mas desde há 20 e 30 anos, é onde existem os melhores

músicos e bandas, que aparecem todos os dias. Talvez porque será hoje em dia mais fácil editar e gravar, e haver projetos como a Optimus Discos que distribuem a música portuguesa. Acho que estamos mesmo nos tempos áureos. Que projetos destacas? Minta, Julie & the Carjackers, Capitão Fausto, Xutos e Pontapés [risos] - por acaso gosto muito deles. O João Só, dentro da linha musical dele, é do melhor que se faz. Os tempos áureos, nascem do definhar das novas editoras? É fácil gravar e ser independente Não será da independência que as pessoas gostam? Sim, é fácil gravar. Agora vingar já não digo. Quando digo vingar, é teres trabalho, estares a tocar, conseguires fazer com que a tua música chegue às pessoas, já não é tão fácil. As editoras estão a definhar, como disseste, mas ainda têm a sua força. Nem que seja para fazerem a distribuição, ainda são necessárias... É mais fácil gravar e não tão fácil andar na estrada. Eu não tenho editora, não sei o que é ter editora mas sei o que é não ter. Teres que dizer “os meus discos acabaram, podes repor?”. É complicado mas acho que o futuro é por aí. Para haver um maior controlo do artista sobre o trabalho… Mais controlo e mais trabalho. Mas de alguma maneira pode ser-se mais criativo. Sim isso é, podes fazer o que quiseres. Eu tenho essa liberdade artística e criativa, não tenho ninguém para

me dizer: “olha, faz assim ou faz assado”. Por outro lado, depois quando é para distribuir, fazer chegar a música aos pontos de venda e à rádio com mais audiência é complicado. [alguém na sala acrescenta: “para pagar a conta”] Pagar a conta, sim, não são as editoras, sou eu que tenho de me chegar a frente. Mas as coisas fazem-se. Se eu faço acho que os outros também conseguem. Estamos num momento de cortes na cultura. De que forma é que os músicos podem dar a volta a isso e sobreviver a essa situação? Opá, juntar a esquerda à direita [une as duas mãos] e rezar [risos dos presentes]. Porque não há nada a fazer. Quem paga e quem durante 20 anos pagou os ordenados aos artistas eram as câmaras, agora não têm dinheiro. Das duas uma, ou vão tocar para a rua (que é o que eu às vezes faço), ou então é “rezar”. Isto não é ter uma atitude calamitosa, mas sinceramente não sei o que é que vai ser daqui para a frente. Haverá bandas que terão de acabar ou minimizar custos. Arranjar outros trabalhos. Como é tocar na rua? É ótimo, é o mais honesto que pode haver. Tu estás a tocar e só para quem quer. É sinal de que estão a gostar. Quando estás num auditório destes [sala principal do TAGV], quem pagou bilhete pode não estar a gostar, mas sabes como são os portugueses, “epá não me vou levantar senão é chato”. Podem não gostar mas ficam até ao fim. Na rua se as pessoas não pararem, não estão a gostar. Há um feedback imediato.

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Entrevistas na íntegra em

cabra net


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CUlTUrA

O poder da resistência coletiva cá

cultura por

Filipe FurtAdo

24 a 28 OUT

“senTI UM VAZIO” TeaTro CaSa da eSquina • 21h30 6€ C/deSConToS

25

“Um grito parado no ar”, estreou n’O Teatrão na última quinta feira, 18. Teve por base uma peça original de 1973, escrita no Brasil, em plena ditadura militar

OUT

jUlIán HernánDeZ: PAIsAGens DA InTIMIDADe

Mariana Morais

Cinema

25

CaSa daS CaldeiraS 18h30 e 21h30 enTrada liVre

OUT

“CenAs De GAjA” TeaTro arTe à ParTe • 21h00 Sem informação de Preço

25 a 4 OUT

NOV

“nUnCA esTIVe eM BAGDAD” TeaTro TCSBS • 21h30 10€ C/deSConToS

27 OUT AnTónIO PInHO VArGAs - "sOlO" - ABerTUrA DO FesMUC 2012 múSiCa TaGV • 21h30 12,50€ C/ deSConToS

30 OUT

“O BArãO”

30

Cinema amSC • 21h30 1€ C/ deSConToS

OUT

DAVID j

A resistência coletiva é a ideia-base da peça, tema tão atual hoje como há 39 anos atrás que é fácil de perceber já que a matéria-prima dos atores para a construção das suas personagens são as suas próprias experiências. A ideia-base de “Um grito parado no ar “ é a de resistência coletiva. Visa-se que o público transponha para a sua realidade social a atitude das personagens. Assim como na peça, em prol da concretização do projeto, as personagens lutam juntas contra todas as vicissitudes, e também na dimensão real do nosso quotidiano a luta deve ser conjunta. A favor da luta coletiva, a atriz acrescenta: “estamos num tempo em que as pessoas estão meio per-

didas e precisam de perceber que, se calhar, sozinhas não conseguirão fazer nada”. Outro dos conceitos que sobressai no decurso da peça é o de “humanidade”. Uma aproximação entre enredo-vida real. Universalizar a personagem, alargá-la ao cidadão. Permitir ao público identificar-se com as histórias das personagens. Para facilitar a ponte ator-espetador, são incorporadas na peça entrevistas feitas a transeuntes, já que são testemunhos reais e não mera ficção. “Trabalhar com o máximo de humanidade possível, para que a questão da verdade fosse uma

questão fundamental”, explica a atriz. A peça pretende ser uma representação alegórica da vida real, não uma mera narrativa. A conclusão da peça fica em aberto. Não se percebe muito bem qual o desfecho da companhia de teatro, e se efetivamente conseguem a estreia da peça ou não. O que é de notar, é a mudança de consciência que ocorre nas personagens desde o início até ao fim. A peça é acompanhada por um refrão que diz: “sei que há céu sobre esta chuva”. É esse céu que, em coletivo, devemos procurar alcançar, através do “grito, parado no ar”.

“Janela aberta para olhar a sociedade”

múSiCa STaTeS CluB • 21h30 15€

31 OUT

A jIGsAw múSiCa omT • 22h00 5€

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Durante a ditadura militar no Brasil as pessoas viviam oprimidas. Por isso existia uma grande necessidade de tentar falar com elas, de comunicar. Foi nesse sentido que surgiu o original “um grito parado no ar”. Também hoje há uma grande urgência em tentar chegar às pessoas, falar com elas, ouvi-las. A peça surge no contexto da situação difícil que se vive em Portugal. Contudo, esclarece Isabel Craveiro, uma das atrizes do elenco, não é “apenas sobre a situação da crise financeira”; a peça vai mais além. Pretende-se perceber o que as pessoas sentem face a esta realidade, e o que podem ou não fazer em prol da mudança. Em termos de enredo, a peça é sobre um grupo de atores que tem em mãos um projeto. A trama gira à volta do modo como as personagens, cada uma com os seus problemas e personalidade, vai lidando com o projeto. À medida que as pressões exteriores vão crescendo, dá-se uma série de alterações na maneira como os atores lidam com o projeto. Os atores são também atores na peça “a encenar”, e a propósito desta meta-teatralidade Isabel Craveiro explica: “esse teatro dentro do teatro, expõe muito as fragilidades dos próprios atores”, o

NOV AnTónIO ZAMBUjO

Daniel Alves da Silva

múSiCa ConSerVaTório de múSiCa 21h30 12€ C/ deSConToS

3 NOV

HOrA e MeIA COM MúsICA COM O MAesTrO VIrGílIO CAseIrO ConferênCia PorTuGal 17h00 enTrada liVre

PaVilhão CenTro

Decorre entre os dias 25 e 31 de outubro a XIII Festa do Cinema Francês, no TAGV, trazendo a Coimbra o melhor da produção cinematográfica francesa

de

Por Daniel Alves da Silva

O cinema francês será durante os próximos dias o principal motivo duma ida até ao Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV). A razão é a XIII Festa do Cinema Francês. A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Maria José Azevedo, define assim a Festa: “é uma valorização para a cidade”. A diretora da Alliance Française de Coimbra (AFC), Ma-

rion Mistichelli, explica que o evento, criado em 2000, “é único festival do género em Portugal”. Tem como objetivo mostrar o “cinema mais recente e inovador”, propondo assim “um rico panorama do melhor do ano”, havendo contudo também espaço para revisitar alguns clássicos. São 13 os filmes em exibição, alguns dos quais ainda não tiveram estreia comercial em França. Do drama à comédia, passando pelo documentário e animação, o festival apresenta uma seleção de filmes capaz de agradar a vários tipos de público. Haverá sessões destinadas ao público escolar, matinais (exceto no fim-de-semana, cuja sessão será no domingo às 15h30), tal como na última edição, que trouxe ao TAGV cerca de mil crianças. Número que representa apenas um quinto do público total que preencheu as sessões da úl-

tima edição da Festa do Cinema Francês, só em Coimbra. A cidade apresentou o segundo maior número de espetadores (cinco mil num total de 30 mil, a nível nacional), depois de Lisboa, como referiu Marion Mistichelli, na conferência de imprensa de apresentação da Festa. A madrinha escolhida para esta edição é Maria de Medeiros, que, como avança a diretora da AFC, é “personificação da relação Portugal-França”. O dia 29 acolherá, às 21 horas, a sessão onde será projetado o filme “Viagem a Portugal”, de Sérgio Tréfaut, onde a atriz é personagem principal. Mais do que “apresentação de filmes”, a Festa é também uma “janela aberta”, para podermos “olhar a sociedade”, acrescenta Marion Mistichelli. Um dos destaques desse retrato social patente na Festa é o docu-

mentário “Indignados”, do veterano realizador Tony Gatlif, que a partir do manifesto “Indignai-vos” (da autoria de Stéphane Hessel) capta as preocupações e os protestos daqueles que lutam contra a austeridade. Haverá ainda espaço para a revisitação da filmografia de JeanFrançois Laguionie, com a presença em ecrã de três das suas quatro longas-metragens de animação (“Gwen, le livre de sable”, “L'Île de Black Mór” e o mais recente “Le Tableau”). Os preços mantêm-se inalterados. O bilhete normal custa três euros e meio (havendo descontos para estudantes, maiores de 65 anos, portadores de bilhete de família CP e nas sessões escolares), existindo também a possibilidade de adquirir cartões de cinco ou dez entradas com o custo de 15 e 25 euros, respetivamente.


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DesPOrTO

Apesar das contrariedades, os seniores vão competir Depois de se ter colocado a hipótese de os seniores masculinos deixarem de competir, a secção de Andebol da Associação Académica de Coimbra (AAC), conseguiu, com muito trabalho, inscrever a equipa no campeonato. Os jogadores foram os principais responsáveis, pagando do próprio bolso a inscrição. Por emanuel Pereira StephAnie SAyuri pAiXÃo

um adiantamento de verbas permitiu a inscrição no campeonato

O

andebol da Briosa viveu momentos de indefinição. Com problemas financeiros graves, pela primeira vez, em 75 anos de história, os seniores masculinos podiam não competir. A direção e os atletas encetaram esforços para evitar esse desfecho e conseguiram que o andebol se mantenha vivo em Coimbra, a competir na terceira divisão nacional. O presidente da Secção de Andebol da Associação Académica de Coimbra (AAC), António Sousa, confirma: “a equipa está inscrita e vai começar a disputar a prova dia três de novembro”. A participação no nacional deveu-se muito aos atletas, com muitos a pagarem a inscrição individual do próprio bolso. “Cada um avançou com o dinheiro para pagar as inscrições e os seguros”, afirma o dirigente. Por sua vez, há o compromisso por parte da Secção de “continuar à procura de apoios financeiros que permitam restituir esse dinheiro”. Se o dinheiro para as inscrições singulares de cada jogador veio dos próprios andebolistas, o valor monetário para a inscrição coletiva veio da Direção-geral da AAC: “tivemos um adiantamento de verbas, que fez a diferença, deu para inscrever a equipa no campeonato”, declara António Sousa. Para além destes problemas, outros subsistem. A falta de um patrocinador, a carência de material desportivo, resina e transportes são alguns dos

apontadas pela Secção. Com todas as adversidades, a preparação da equipa sofreu diversos entraves e alterações, como menciona o treinador dos seniores, Paulo Barreto: “tive que reformular várias vezes a preparação”. O pedido feito aos atletas foi que contribuíssem com a sua inscrição, todavia o técnico explica que “nem todos os jogadores estão com vontade de colaborar e têm disponibilidade financeira para isso”. Este ano a equipa conimbricense disputa o campeonato organizado pela Associação de Andebol de Leiria, a zona três, da terceira divisão. Em caso de passagem à segunda fase, a subida de divisão será discutida com equipas da zona norte. O treinador justifica que “como as equipas mudam muito e este ano, com o acabar de algumas, os jogadores foram para outros clubes”, o objetivo principal passa por “ir à fase final, pelo menos”.

Criar um projeto de formação base O técnico, Paulo Barreto, que trabalha sem vencimento, assegura que “o facto de estar na Académica sem receber, não impede uma atitude profissional”. Em relação ao plantel, Paulo Barreto explica que começaram agora a construir a equipa, recebendo alguns elementos de fora, o que permite que “neste momento a equipa esteja praticamente feita”.

A formação não é descurada, o projeto de formação vai demorar entre três e cinco anos. “A ideia é que os jogadores que começaram nos minis, infantis ou iniciados cheguem a seniores e exista uma base de atletas formados na Académica”, relata Paulo Barreto. O treinador considera que “ainda é cedo” para falar de uma equipa sénior assente na formação.

Existem “possibilidades de fazer uma grande época” A equipa é maioritariamente universitária mas a ambição de um bom ano está no pensamento do capitão dos seniores, Tiago Carmo. O atleta considera que tendo em conta os treinos, têm as “possibilidades de fazer uma grande época”. Questionado sobre as dificuldades atravessadas constata: “os atletas, juntamente com o esforço de todos, jogadores e dirigentes, conseguiram”. O andebolista deixa ainda o elogio: “temos uma boa equipa e gente séria ao nosso lado”. Com duas vitórias em dois jogos amigáveis disputados, um deles contra uma equipa da segunda divisão, o Ílhavo, a ambição de uma subida à segunda divisão está na mente dos atletas. Segundo António Sousa, com as condições que existem, numa equipa em que os competidores pagam para jogar, “conseguir subir de divisão seria a cereja no topo do bolo”. puBliCidAde


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CidAdE

“Encontros” para pensar Coimbra sTEphaniE sayury paixãO

O TEDx vai ser o ponto de encontro de paixões, sonhos, conhecimentos e realidades comuns

A primeira sessão dos “Encontros em Coimbra (na Baixa)” teve já lugar no dia 17, no Café Santa Cruz. Esta iniciativa pretende prolongar-se por alguns meses Andreia Gonçalves “A construção do futuro faz-se pelo encontro e não pelo confronto”: este é o mote dos “Encontros em Coimbra (na Baixa)”, promovidos pelo Café Santa Cruz e pela Orquestra Clássica

do Centro (OCC). Quem o diz é a sua presidente, Emília Martins. Sem um número ainda definido, haverão várias sessões. Todas elas contarão com oradores convidados, experientes na temática em debate, as quais se vão focar em três itens centrais: Património, Cultura e Turismo. A par com estas conversas acontecem também momentos musicais da responsabilidade da OCC. Estes “Encontros” surgiram com a vontade de (re)construir a cidade de Coimbra, fazendo parte dela, de modo a promover as riquezas culturais, históricas, artísticas e profissionais que a cidade agrega - ao mesmo tempo que visam discutir e apontar os caminhos para o sucesso. O Café Santa Cruz, erguido num edifício de século XVI, foi o espaço escolhido

porque é “um café onde se respira a história”, explica Emilia Martins e, ao mesmo tempo, porque a iniciativa funde-se “na mística do café”, acrescenta o gerente do espaço e membro da Associação de Promoção da Baixa de Coimbra, Vitor Marques. A organização prevê inovação, diferenciação nas propostas e no estar. Ambicionam que estas tertúlias sejam “individualidades e não apenas um espaço de debate onde nada se concretize”, esclarece o gerente. O mesmo afirma que estas iniciativas “dão dinâmica de afirmação e divulgação da própria Baixa”, enquanto espaço de convívio e lazer.

Primeira sessão da iniciativa Os oradores da primeira sessão dos

“Encontros em Coimbra (na Baixa)” são todos eles membros do conselho cultural da OCC: o juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça e ex-ministro da Justiça, Laborinho Lúcio; o presidente do conselho de administração da Coimbra Viva SRU, João Paulo Craveiro e o CEO da Critical Software, Gonçalo Quadros. Nesta primeira tertúlia, o tema central foi a Baixa. Os oradores integraram histórica e culturalmente esta zona da cidade, e falaram também da integração da cultura no turismo e nas formas de o conseguir. O engenheiro João Paulo Craveiro lembrou a importância nacional de Coimbra e falou da descentralização da zona em debate com o desenvolvimento de outros centros na cidade, como Eiras, Solum, entre outros. “O

futuro não passa por dizer que a Baixa vai voltar a ser o que era” vincou com veemência. Segundo o próprio, ela está “deprimida e desvalorizada”. Contudo, já começa a revitalizar-se por si. Foi unânime: “todos queremos tornar a nossa Baixa na melhor do mundo”, destaca a presidente da OCC. Enquanto que Vitor Marques confessa que, para ele, foi um “encontro mágico num espaço com espiritualidade”. A próxima sessão irá realizar-se no próximo dia 26 de outubro, às 17h. Contará com a presença de Filipe e Miguel Raposo, guitarristas portugueses, e será um “Encontro com a guitarra portuguesa”. O momento musical será da responsabilidade dos próprios.

Mais de 70 passadeiras para cegos até ao próximo ano O balanço das primeiras passadeiras podotáteis na cidade é positivo. O projeto lançado pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC) tem duração de um ano Andreia Gonçalves Um mês depois das quatro passadeiras da Avenida Emídio Navarro terem sido transformadas em passadeiras para invisuais, o ‘feedback’ é positivo. “Aos poucos vamos intervir em todas as passadeiras de Coimbra”, adianta o presidente da CMC, João Paulo Barbosa de Melo, ao acrescentar que está prevista a adaptação de mais 70 passadeiras

até ao final do próximo ano. O pavimento podótatel é um pavimento rugoso, com pítons, identificável com os pés. Quando estas passadeiras são acompanhadas por semáforos, o piso tem um rasto desse material no chão. Por vezes, os cegos “metem-se à frente dos carros porque pensam ainda estar no passeio”, conta o professor de orientação e mobilidade da Delegação da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal de Coimbra (ACAPO), José Carlos Regêncio. O mesmo acrescenta que estas passadeiras “vêm dar mais segurança aos utentes”. No fundo estas passadeiras vêm orientar quem não vê. Dão a informação do local exato da travessia aos peões e são a resolução de algumas das dificuldades que os cegos sentem no seu dia-a-dia. Os desníveis dos passeios que têm vindo a ser feitos para facilitar a lo-

comoção dos deficientes motores. No entanto, vieram dificultar a mobilidade dos invisuais, visto que estes deixaram de conseguir distinguir onde acaba o passeio e começa o alcatrão. O presidente da CMC contou com os conselhos da ACAPO e dos seus utentes na planificação destas passadeiras. Para esta adaptação, o diálogo existiu entre a CMC e a ACAPO: “eles procuraram-nos e penso que é assim que construímos uma cidade melhor”, declara o professor da associação José Carlos Regêncio. Ainda assim, ressalva que não estão completamente prontas: “falta um resguardo numa das passadeiras da avenida”. A satisfação dos utentes é unânime. Aquando da inauguração das primeiras passadeiras podotáteis de Coimbra, os invisuais estiveram presentes e, segundo o professor da ACAPO,

mostraram-se agradados com a nova facilidade: “deviam ser todas assim”, replica José Carlos Regêncio. No que toca ao testemunho da CMC, Barbosa de Melo garante que está a experiência do primeiro mês está a “ser muito positiva”. O resultado do concurso lançado pela Câmara Municipal de Coimbra para a construção das 70 passadeiras será apenas conhecido em dezembro. Todavia, o presidente da câmara admite que a “legislação de Portugal não ajuda” nestes processos, a agravar essa barreira está o facto de empresa escolhida dispor de 150 dias para concluir a empreitada. Para realizar a adaptação já foram escolhidas as passadeiras: todas as que se encontram junto à sede da ACAPO e as que existem nos centros mais movimentados da cidade. Segundo o professor José Carlos Regêncio, em paralelo de-

corre um outro concurso para que as principais escadas da cidade sejam revestidas com o mesmo pavimento podotátel. João Paulo Barbosa de Melo acredita que este é um “investimento relativamente pequeno”, mas capaz de transformar a vida dos que não veem. Nesse sentido, dá garantias: “estamos a tentar não perder mais tempo”, garante. José Carlos Regêncio acentua que “a câmara está mais recetiva do que estava há anos atrás”, mas apesar de considerar que a situação está a evoluir, “vai demorar algum tempo”. Confrontado com a possibilidade de realizar o sonho do professor da ACAPO Coimbra com todo o seu chão revestido do pavimento podotátel -, João Paulo Barbosa de Melo responde: “a missão de quem está na política é adequar os sonhos ao que depois é possível”, finaliza.


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CiÊNCiA & TECNOLOGiA D.r.

Biodiversidade, um termo cada vez mais falado Já ouviu falar em biodiversidade? Não? Em linhas gerais, é tudo o que se move mas também o que é imóvel, basta que seja um ser vivo. A cada nova espécie que se descobre ou se extingue, impõe-se a questão: o que fazer para preservar este legado? Por Mariana Morais, Joel Saraiva e Miguel Patrão Silva

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oi recentemente encontrada uma nova espécie de primata em África, a segunda em 28 anos. A descoberta do Cercopithecus lomamiensis torna-se relevante à luz da conservação da Natureza, na medida em que sendo uma espécie com maior visibilidade, permite aumentar os esforços de defesa do habitat em questão e, consequentemente, da biodiversidade em geral. Este achado coloca um novo enfoque neste tema e acontece numa altura em que decorre a Década das Nações Unidas sobre a Biodiversidade. Mas o que é a biodiversidade? O termo tem múltiplas interpretações: “não basta dizer que é a diversidade da vida, é muito mais do que isso”, conforme esclarece o investigador do Centro de Ecologia Funcional (CEF) da Universidade de Coimbra (UC), Ruben Heleno. O conceito remete, portanto, para a totalidade das espécies do planeta e as suas interações, entre espécies ou dentro da própria espécie. Estes conjuntos formam todos os ecossistemas do planeta e é de notar que “cada espécie desempenha um papel muito importante na máquina total que é o ecossistema”, como explica o ecologista.

Biodiversidade e serviços dos ecossistemas No planeta Terra, a diversidade de seres vivos não se encontra distribuída equitativamente. A densidade de espécies aumenta à medida que nos aproximamos da linha do Equador. “É nas zonas tropicais, principalmente nas florestas, onde há muita água”, refere o investigador do CEF, que se registam maiores valores de biodiversidade. Outros locais, onde também são descobertas novas espécies com alguma frequência, são os oceanos. Não por terem uma tão

elevada densidade de vida como as zonas tropicais, mas por serem locais de difícil acesso e daí pouco explorados, “a última fronteira do Homem”, declara o docente do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da UC, Jaime Ramos. Quando a biodiversidade se encontra bem preservada num ecossistema, este funciona na sua plenitude e fornece certas vantagens que incluem “bens preciosos como o oxigénio”, declara Ruben Heleno, bem como compostos químicos contidos nas plantas e utilizados na produção de medicamentos, entre outras. O diretor executivo da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), Luís Costa, é perentório: “os ecossistemas não são conservados apenas porque é bonito”. Para que a biodiversidade entre no radar das pessoas, tem que lhe ser atribuído um valor económico. A destruição dos ecossistemas põe em causa os serviços prestados, ou seja, os benefícios que as pessoas retiram dos ecossistemas: fornecimento de bens, regulação (de clima, cheias ou doenças), culturais e suporte (formação do solo e produção primária). “Não é só um exercício idealista de não querer destruir e querer manter o equilíbrio dos ecossistemas, mas também do valor económico para a sobrevivência do Homem”, esclarece Luís Costa.

Tudo começa na destruição dos habitats Todos os anos são descobertas novas espécies, contudo, existem muitas em risco de extinção, avaliadas em cerca de 17 mil. “Naturalmente houve sempre extinções de espécies. O que o homem fez foi aumentar a velocidade com que se extinguem”, demonstra Ruben Heleno. Estes seres vivos enfrentam muitas dificuldades, a principal das

Cercopithecus lomamiensis, a segunda espécie de primata, em 28 anos, descoberta em África. quais a destruição dos seus habitats. A própria História contém exemplos: “na Europa, desde os Romanos, são cortadas grandes áreas de floresta”, conta Jaime Ramos. O expansionismo romano começou a redução das florestas até aos dias de hoje. Estas perderam qualidade no sentido em que muitas espécies foram retiradas e “atualmente podemos ter zonas mais mono-específicas”, conclui. Para além da destruição, a fragmentação de habitats, introdução de espécies exóticas, poluição e alterações climáticas, contam-se entre os principais fatores que levam à perda de biodiversidade. Ruben Heleno sublinha que “a pressão humana e a antropogeni-

zação da biosfera são o que está a originar grande perda da biodiversidade”.

O panorama português e o direito ambiental O papel das Organizações Não Governamentais (ONG’s) é de conservação e proteção, através de projetos de investigação. Mas também cabe aos governos, “porque têm meios operacionais e capacidade de legislação que outras entidades não têm”, refere Luís Costa. A biodiversidade é um conceito que entrou, desde a década de 90, no Direito. Em termos legais é assegurada “a proteção das espécies, sejam carismáticas ou não”, explica a docente da Faculdade de Direito da UC (FDUC), Alexandra Aragão,

que acrescenta que “o direito ambiental evoluiu muito mas também se verificam retrocessos”. Os tempos não são favoráveis ao direito ambiental em Portugal. São poucas as decisões substanciais e, em regra, são de natureza processual. Alexandra Aragão assevera que “a falta de provas é, muitas vezes, o principal problema”. A crise económica acaba por secundarizar a temática ambiental. “Não estamos em maré de proteção ambiental e esta tem custos”, justifica a docente da FDUC, que usa as palavras de Gomes Canotilho para finalizar: “o ambiente é caro mas nunca é caro de mais”. Ao pesar as vantagens e os custos, no final tem que ser a biodiversidade a ganhar. Com Paulo Sérgio Santos D.r.


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Mobilização CíviCa Confluência de movimentos

A contestação social t poder nas mãos? A

té ao final do ano, são já várias as ações reivindicativas que preenchem a agenda dos portugueses por todo o país. Este fenómeno, que se vem a agudizar desde a grande manifestação do dia 15 de setembro, pode ser explicado pelo descontentamento geral face às contínuas políticas de austeridade que o executivo tem vindo a implantar. “O povo, no seu conjunto, está a resistir e a reagir contra estas medidas que o Governo, teimosamente, quer aplicar às cegas”, começa por explicar o sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais (CES), Elísio Estanque. À semelhança das inúmeras capitais de distrito, Coimbra mostrou a sua indignação perante a situação político-financeira atual. Mais uma vez, o 15 de setembro serve como exemplo para mostrar a importância do papel que Coimbra assume, que vai para além dos grandes centros – Lisboa e Porto. É exemplo porque nesse dia, 20 mil pessoas juntaram-se pelas mais importantes artérias da cidade, fazendo desta a terceira maior manifestação do país. É consensual que foi a maior desde o 25 de Abril. Nestas ações de mobilização cívica, verifica-se a formação de alguns grupos com linhas políticas mais vincadas, isto é, lutas setoriais. No entanto, estas atuações trazem consigo um novo paradigma, tornam-se mais amplas e “mobilizam um leque muito heterogéneo de pessoas e de segmentos sociais”, clarifica Elísio Estanque. Assim, o movimento estudantil não é exceção, uma vez que, apesar de ser apoiado em reivindicações concretas de âmbito académico, “se dilui neste tipo de ações [mobilização social] que são mais prementes”, segundo o sociólogo.

“Ações de gabinete” “Há alturas em que os estudantes olham mais para dentro e noutras alturas conseguem relacionar-se com as questões mais vastas da sociedade”, avança o também investigador CES, Miguel Cardina. Mas em que altura é que nos situamos agora? O presidente

da Direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo Morgado, responde: «pauta-se muito pelas chamadas “ações de gabinete”. Se calhar hoje somos mais ouvidos do que alguma vez fomos». Recuemos à década de 60 – ditadura, censura, guerra colonial. Neste contexto, o movimento estudantil tendia a unir-se e a reclamar autonomia face ao poder político, visto que este “tentava que ele não fosse livre”, elucida Cardina. Para o ex-presidente da DG/AAC de 1969/1970, Alberto Martins, este foi “um dos períodos mais sombrios e mais dramáticos da nossa história, sem esperança para a juventude portuguesa”. Ainda assim, perante estas adversidades, os estudantes “eram atores na contestação ao regime de ditadura”, assevera Miguel Cardina. Isto é, estavam consciencializados, não só para os problemas que afetavam diretamente a educação, mas também para os flagelos que atingiam a sociedade em geral. É, então, a partir desta altura que se dá uma politização do movimento estudantil mais clara. Mais r e -

“Os estudantes eram atores na contestação ao regime de ditadura”, diz Miguel Cardina. Isto é, estavam consciencializados para os seus problemas e para os flagelos da sociedade

centemente, outro dos grandes picos do movimento estudantil aconteceu na década de 90. Com Cavaco Silva a liderar o Governo, a propina aumenta de seis para 250 euros. Com este aumento, cresce também a contestação dos estudantes que assistiram a grandes alterações ao financiamento do ensino superior. Para o ex-presidente da DG/AAC de 1992/1993, António Vigário, o movimento estudantil nesta altura era “muito ativo e inseria-se num momento de grande agitação no meio universitário”. As assembleias magnas, as reuniões gerais de alunos e as várias manifestações organizadas por esta Direção-geral tinham “uma maior mobilização”, assegura António Vigário. Num panorama alargado, pode afirmar-se que o último grande pico de contestação foram os anos 90. Mas, e daí para a frente? Ricardo Morgado faz ainda a ressalva da “batalha do 70/2010”, que levou centenas de estudantes a Lisboa, a exigir a revogação do Decreto-lei que alterava as normas de

ilustração por joana Cunha


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Mobilização CíviCa

tem o

15 e 29 de setembro, 13 de outubro. Datas que marcam a atualidade pelo seu caráter de reivindicação. Durante os próximos meses, avizinham-se mais protestos de indignação para dizer “basta” à austeridade. Qual é o papel de Coimbra? Conhecida pelo seu legado histórico no movimento estudantil, a cidade começa agora a destacar-se nos novos movimentos sociais. Por Luís Azevedo, Ana Duarte e Ana Morais atribuição de bolsas. Diferentes formas de associativismo Como dita a história, toda e qualquer sociedade se caracteriza por momentos de fricção com o sistema político. Em Portugal, houve o 25 de Abril – principal marco da revolução cívica. A partir daí, o processo de contestação foi natural: o povo perde o medo e vai para rua reivindicar “direitos que estão protegidos pelas leis no Estado”, afirma Elísio Estanque. As formas para a mobilização das massas são diversificadas. Desde os antigos sindicatos aos novos grupos que começam a emergir, as pessoas têm a oportunidade de escolher o tipo de movimento a que se preferem associar. O coordenador da União dos Sindicatos de Coimbra (USC), António Moreia, explica que, apesar da USC estar profundamente enraizada na história da CGTP e ter uma direcionalidade política assumida, recentemente verifica-se que “novos setores se foram agrupando em torno da união, mesmo que não sejam representados por ela”. Facto que é comprovado pela cada vez maior adesão das populações às ati-

vidades sindicais. Uma forma mais alternativa para concretizar o manifesto são as assembleias populares. É um conceito recente, que pretende que as pessoas “tomem o poder nas suas mãos”, como explica o membro da Assembleia Popular (AP) de Coimbra, Francisco Norega. Após as manifestações do movimento Indignados, em Espanha e das Acampadas, este conceito difundiu-se pelas várias cidades do país, com especial destaque para Coimbra. “Neste momento, a AP de Coimbra é a única que existe de forma regular”, expõe Francisco. Este tipo de movimento pauta-se também pelo apartidarismo, mas não esquece a postura política. “A AP é um espaço onde as pessoas estão organizadas de forma horizontal e onde há liberdade para se debater qualquer assunto sem restrições”, vinca o também estudante. O principal mote que guia estes encontros é, no fundo, a solidariedade social – “tentamos abrir um espaço onde as pessoas se possam relacionar de forma diferente umas com as outras, de uma forma solidária”. A adesão a vários tipos de a ç õ e s marca a pos-

tura da AP. Norega explana o principal objetivo: “juntar as pessoas e trabalhar em conjunto sempre que possível, porque achamos que é por aí que se consegue chegar a algum lado”. O sociólogo corrobora esta evolução na mobilização civil, verificado nos últimos tempos: “já não é um mero movimento cívico, é um movimento de resistência da sociedade, de um povo inteiro que está a reagir e a resistir contra um conjunto de medidas que estão a conduzir o país à ruína”.

Economia social como resolução Com o atual clima social, as movimentações ativistas aumentam no âmbito do mundo civil. A eterna e branda portugalidade esvai-se, dando lugar a novos comportamentos fruto da indignação. O professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Rui Namorado, afirma assim que “a sociedade precisa dos movimentos cívicos, do associativismo e da economia social, para ser uma sociedade mais democrática, com algum horizonte de esperança”. Para essa democracia, Miguel Cardina afirma que “há motivos para os estudantes se unirem, reivindicarem direitos que estão a desaparecer e ligar essas reivindicações a outras mais gerais da sociedade”. Ideia seguida por Alberto Martins, ao constatar que “quando a juventude desce à rua é o futuro que se levanta”. As diversas formas de ativismo estudantil, que se encaixam cada vez mais no ativismo cívico, não escapam a esta realidade. Rui Namorado avança que faz parte do interesse dos estudantes “ter um movimento cívico, um movimento de intervenção política que ambicione uma sociedade melhor”. Como uma possível resolução ou tentativa de melhorar o clima em que o povo português sobrevive, o docente atesta: “uma sociedade que fique anémica de movimentos associativos e de movimentos cívicos é uma sociedade que não têm futuro e cujo futuro é negro”.


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País d.r.

Congresso demoCrátiCo das alternativas

Inevitabilidade não é palavra de ordem Numa altura em que o clima político se deteriora, a consciência política dos cidadãos ganha força. Reunidos em Lisboa, um conjunto de cidadãos propôs-se a derrubar o discurso da inevitabilidade. Por João Valadão

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nquanto Portugal se encaminha para um clima de austeridade mais severo, a consciência política dos cidadãos começa a ganhar contornos definidos com a discussão e apresentação de diferentes propostas às medidas aplicadas pelo Governo. Contornos esses que se refletiram no Congresso Democrático das Alternativas (CDA), realizado no passado dia cinco de outubro, na Aula Magna da Universidade de Lisboa. Planeado por uma Comissão Organizadora (CO), composta por cidadãos independentes, em que se destacam personalidades da política à esquerda, o evento teve por base a Declaração do Congresso (DC). Um documento previamente criado pela mesma e que consagra propostas alternativas ao rumo que o país deve tomar. O congresso contou com a participação de mais de mil e oitocentos inscritos, muitos de fora de Lisboa, que se deslocaram à capital para participar no debate. Com o mote “Resgatar Portugal para um Futuro Decente”, a CO propôs o debate e aprovação da declaração através do direito de voto. O jornalista e membro da CO, Daniel Oliveira, assegura que foram recebidos “mais de cem contributos antes do congresso e mais de duzentas propostas de alteração ao documento”. A afirmação é apoiada pelo político e também membro da comissão, José Manuel Pureza, que reconhece que “os debates ocorridos, quer os plenários, quer a sessão plenária foram de grande qualidade”. O político acrescenta também que “foram debates que mostraram uma grande prioridade dada à denúncia do memorando de entendimento com a ‘troika’ e à urgência de uma renegociação da dívida do país”. A abertura da sessão plenária contou a presença do militar de Abril, Vasco Lourenço, que exaltou que “os órgãos de soberania não representam os portugueses” e que é preciso “fortalecer uma lei eleitoral, que liberte eleitores e eleitos do poder financeiro”. Também presente, o sociólogo, José Soeiro, ressalvou o caráter inédito da iniciativa ao comentar que “em tempos de exceção temos de fazer algo de excecional”, explicando

que “este é um congresso contra os nossos próprios defeitos”. Sobre os empréstimos negociados por Portugal, o economista da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, João Rodrigues, salientou: “não é possível a um país em recessão permanente cumprir os deveres com os seus credores”. A valorização do trabalho, a valorização da escola pública e do seu papel enquanto transmissora de cultura, a prioridade do Serviço Nacional de Saúde e a nãoutilização das taxas moderadoras como força de financiamento foram também aspetos debatidos. Daniel Oliveira realça que “uma das principais funções do congresso foi satisfeita: derrubar o discurso da inevitabilidade”. O CDA, paralelamente à sessão plenária, contou com a realização de cinco sessões temáticas, cada uma composta por um grupo de trabalho que abordou especificamente diversos temas da declaração. Dos relatórios elaborados por

“Não é possível a um país em recessão permanente cumprir os deveres com os seus credores” estes grupos e das contribuições dos congressistas resultaram as propostas de alteração ao documento original. José Manuel Pureza realça a apresentação de duas propostas que, pelo carácter contraditório às orientações do congresso, foram amplamente recusadas pelos congressistas: “a partir do congresso resultar uma associação política, que teria como função pressionar os partidos de esquerda para se entenderem, e caso isso não acontecesse a mesma deveria passar a partido” e uma outra que “apontava no sentido, não de uma denúncia do memorando, mas da sua renegociação”. Ainda segundo José Manuel Pureza, “os congressistas convergem para a ideia de que é preciso rejeitar o tipo de políticas que são consagradas no memorando com a ‘troika’”. Daniel Oliveira reconhece que “não houve uma alteração do espí-

rito geral e das linhas gerais da declaração proposta”, mas que “houve muitos acrescentos de coisas que aos congressistas pareceram que estavam pouco tratadas”.

O Congresso e o cinco de outubro Ao mesmo tempo que quase dois mil cidadãos exerciam o seu direito de participação na vida política no CDA, Cavaco Silva vedava as comemorações do cinco de outubro ao público, permitindo a apenas meia centena de pessoas assistir à celebração do feriado no Pátio da Galé. Daniel Oliveira comenta que se assistiu, em Lisboa, “a um poder político acantonado e fechado num espaço, com medo da participação das pessoas”. O jornalista reforça que “o que vimos nas comemorações é o retrato de um poder político falido, que desistiu das pessoas e as pessoas desistiram dele”. Por seu lado, José Manuel Pureza justifica o acontecimento como “um sintoma de uma grande crise do ponto de vista dos órgãos do poder político em Portugal”. Contudo, salienta que “não é todos os dias que cerca de duas mil pessoas se dispõe a passar um feriado numa sala a debater o futuro do país”. Ainda sobre a afluência ao CDA, o político alerta que “há gente que está disponível para dar corpo a uma alternativa que tire o país deste ciclo abominável de austeridade e de perda de horizontes”. Ainda que as expetativas tenham sido superadas, Daniel Oliveira reconhece que “desde o princípio [o congresso] foi um começo, não o fim de um processo”. “Percebeu-se que [as pessoas] não só conseguem dialogar entre elas, como conseguem dialogar de forma construtiva e objetiva, em torno de propostas concretas e não apenas de frases genéricas”, comentou o jornalista. Também José Manuel Pureza afirma que o congresso foi estabelecido num “formato que provou ter algumas virtualidades, que permitiu áreas de debate e identificação de problemas”. Em ressalva, Daniel Oliveira acrescentou ainda que “o congresso deu um enorme contributo para vencer uma cultura de sectarismo, fundamental num momento de emergência nacional”.

Percebeu-se que [as pessoas] não só conseguem dialogar entre elas, como conseguem dialogar de forma construtiva e objetiva, em torno de propostas concretas e não apenas de frases genéricas” d.r.


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mUNDO

Gigantes asiáticos disputam ilhéus Disputa das ilhas senkaku/Diaoyu enfraquece relações entre a China e o Japão. Governo chinês cancela comemorações da diplomacia entre os dois países António Cardoso Pedro Martins Após 40 anos de normalidade nas relações diplomáticas entre a China e o Japão, a aquisição de cinco ilhas desabitadas pelo governo japonês à família nipónica Kurihara, proprietária dos terrenos das ilhas Senkaku/Diaoyu, por 2,05 mil milhões de ienes (mais de 20 milhões de euros), levou ao reacender das tensões entre os dois países.

“A sugestão para a compra das ilhas foi lançada pelo governador de Tóquio, Shintaro Ishihara, um político mais à direita”, reitera o conselheiro dos assuntos políticos da Embaixada do Japão em Portugal, Jiro Marushashi. O mesmo argumenta também que só dessa forma é que conseguiriam “protegê-las com maior facilidade do que um cidadão individual, e administrá-las.” O arquipélago é composto por cinco ilhas vulcânicas, localizadas no Mar da China Oriental, e a disputa da soberania do arquipélago entre os dois países originou-se no final da década de 60. Após a publicação de um relatório oficial da Organização das Nações Unidas “percebeu-se que as águas adjacentes eram ricas” em recursos naturais, nomeadamente, pesca, petróleo e gás. O que é um “fator importantíssimo para os dois países que dependem da importação desses recursos”, assevera a professora auxiliar de Relações Internacio-

nais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Carmen Mendes. Embora a existência de recursos energéticos seja essencial para os dois países, ambos negam que este seja o motivo principal. “Senkaku representa uma mais-valia”, mas tratase de “uma questão de soberania, não de interesses económicos”, reitera o conselheiro da Embaixada do Japão em Portugal. A mesma posição toma o primeiro-secretário da Embaixada da China em Portugal, Li Bin, ao afirmar que “o governo chinês faz questão de separar a soberania e os interesses económicos”. O agudizar das tensões poderá ter como motivo a sucessão política dentro do Partido Comunista Chinês, a ocorrer em novembro. “Estamos a semanas da definição da nova equipa de líderes chineses”, assevera a professora da FEUC, acrescentando que esse facto “faz crescer sentimentos nacionalistas de forma

ainda mais visível do que aquilo que já vinha a ser habitual”.

Comemorações entre os dois países canceladas “Era necessário uma atmosfera favorável”, afirmou o primeiro-secretário da Embaixada chinesa em Portugal, a propósito das comemorações dos 40 anos de diplomacia sino-japonesa, a realizar em setembro. Essas celebrações foram primeiramente adiadas por parte da China e acabaram canceladas segundo um comunicado de uma agência nipónica (citado pelo jornal Expresso). No entanto, Li Bin asseverou, após esta informação ser avançada, que “não se tratou de um cancelamento”. O governo chinês teve “o cuidado de usar a palavra adiamento”, reitera. No entanto, as relações entre os dois países não se resumem meramente a questões de diplomacia. Ao nível económico, a China é o princi-

pal parceiro comercial do Japão, representando 21 por cento das suas trocas comerciais e investimentos superiores a 83 mil milhões de dólares desde 1996. Já o Japão é, por sua vez, o quarto destino das exportações da China e as trocas entre os dois estados equivalem a 9 por cento do total da balança comercial de Pequim, segundo dados avançados peloJornal de Negócios. O conflito tem gerado vários ataques na China, “não só à representação diplomática do Japão, mas também a fábricas, armazéns e restaurantes nipónicos” em território chinês, lembra o representante da Embaixada do Japão. “Chegou a haver uma agressão a um cidadão por este conduzir um carro japonês”, acrescenta. Em defesa do governo chinês, o conselheiro da Embaixada chinesa garante que “nunca vão apoiar qualquer ato ilícito nesses protestos, essa tem sido sempre a posição firme do governo”. d.r.

O arquipélago Senkaku/diaoyu é composto por cinco ilhas vulcânicas, localizadas no Mar da China Oriental

Economia cipriota submerge com a dívida grega O Chipre é quarto país da UE a pedir o resgate internacional para o refinanciamento da dívida pública e para a recapitalização da banca António Cardoso Num país insular, localizado no Mar Mediterrâneo oriental, com pouco mais de 9250 quilómetros quadrados e com cerca de 790 000 habitantes, o “sector público é demasiado grande”, explica a jornalista da área financeira do jornal cipriota Cyprus Mail, Jacqueline Agathocleous. Este fator é apontando como um dos responsáveis pela situação cipriota atual. A jornalista encontra, também, na dependência em relação ao setor financeiro grego a causa do problema: “os bancos estão demasiado expostos à dívida grega e aos títulos gregos”.

O Chipre desde sempre teve relações muito intensas com a Grécia, tanto do ponto de vista social, como do ponto vista económico. No entanto, para o professor grego auxiliar agregado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Elias Souziakis, o problema relaciona-se com o facto de “os bancos do Chipre terem comprado títulos do tesouro da dívida pública grega”, e tendo sido essa mesma dívida “perdoada em 52 por cento, levando os bancos cipriotas a ficaram sem dinheiro” Neste momento o governo de Nicósia é liderado por Demitris Christofias, secretário-geral do Partido Progressista do Povo Trabalhador (AKEL), que tal como a Coligação Democrática Unitária (CDU) e o Bloco de Esquerda (BE) em Portugal, faz parte do HUE/NGL (Esquerda Unitária Europeia no Parlamento Europeu). Enquanto presidente da república, Demitris Christofias, recusou as con-

dições de resgate colocadas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional. “Ele tem sido muito criticado, por demorar a tomar medidas que pudessem evitar o resgate” afirma a jornalista cipriota, acrescentado que esta é “uma política económica pouco forte”. Já o professor Elias Souziakis acredita que “os cipriotas são muito diferentes dos gregos”. O Chipre, tal como Portugal, Grécia e Espanha (que pediu um resgate ao setor financeiro), parece ser influenciado pelos “males” dos países do sul da Europa. “É uma manifestação daquilo que estamos sempre a falar: o perigo de contágio”, assegura o professor de economia grego. Todavia, considera que o verdadeiro erro está nas políticas da ‘troika’, uma vez que “estão completamente erradas, são muito duras, e não resolvem o problema do contágio.” “O presidente avisou que rejeita custos sociais duros”, declarou a embaixadora do Chipre em Portugal,

Thalia Pretides. A embaixadora reitera que o presidente está “muito preocupado com o impacto das medidas de austeridade nos grupos sociais mais frágeis”.

Géneses do descontentamento Apesar das preocupações de Demitris Christofias, o povo cipriota não se encontra muito contente com atual situação do país e com a própria atuação do seu presidente. Na génese deste descontentamento social está, segundo a jornalista do Cyprus Mail, a grande explosão da base naval Evangelos Florakis em 2011 (grande responsável pela produção da eletricidade da ilha) - “a explosão destruiu a distribuição de energia e começou a haver cortes”, assevera a jornalista. Esta situação implicou o “aumento nas contas da eletricidade” e um grave problema económico em toda a ilha. Nicósia apesar de estar em negociações com a ‘troika’ também en-

trou em contacto com a Rússia e com o Japão para a obtenção de um possível empréstimo para o Estado. “A Rússia emprestou ao Chipre cerca de 2,5 mil milhões de euros”, confirma Elias Souziakis. “Muito por causa das boas relações, devido à religião ortodoxa e ao partido do AKEL, prósoviético”, esclarece o professor. Apesar de nas últimas eleições o partido de Demitris Christofias ter conseguido ganhar com maioria, a verdade é que “ninguém está contente com o estado a que chegou” o país, afirma a jornalista do Cyprus Mail. Nas palavras do professor grego da FEUC, o problema não reside na organização política dos países afetados pela crise. Porém, considera crucial a ‘troika’ “mudar de políticas”, já que “estas medidas neoliberais destroem a economia”. Como sugestão, Elias Souziakis, avança: “tem de haver uma política europeia com maior solidariedade”. com Rui Tomás


14 | a cabra | 23 de outubro de 2012 | terça-feira

Cinema

Artes

o Gebo e a sombra ”

M

De mANoel de oliVeirA Com michAel loNsdAle clAudiA cArdiNAle 2012

os Vampiros

ver

CrítiCa De João terênCio

S

em extras nem acessórios, a edição de “Procurem Abrigo” em DVD é um exercício prático do que nos é apresentado neste filme de quase duas horas: a simplicidade de apresentação de personagens e cenários, mas, sobretudo, uma boa história são a fórmula mais eficaz para espantar o aborrecimento. Embora possa sugerir a uma primeira vista descuidada, este não é mais um daqueles filmes que falam sobre o fim do mundo e de todas as derradeiras catástrofes que vão dizimar os homens e a Terra. Aqui estamos perante a visão que um só homem tem, trazida pelos seus pesadelos que se assemelham a presságios sobre o futuro, anunciadores de tempestades e da loucura generalizada da

anoel de Oliveira é uma seca. Para a maioria, constitui uma espécie de entidade de que se ouve falar e se desconhece, responsável involuntário pela ideia de que todo o cinema português é entediante. Tirando quando nos faz ser falados no estrangeiro. Aí é extraordinário, o mais antigo realizador em actividade. Homenageado de modo frequente em festivais, a um par de meses de completar 104 (!) anos, Oliveira traz-nos o seu filme anual. “O Gebo e a Sombra” é adaptado de uma peça de teatro de Raúl Brandão, datada de 1923. Matéria secular, portanto. Gebo (Michael Lonsdale) é um trabalhador árduo e honesto, para seu infortúnio, e vive rodeado de gente que vive do seu esforço: família, vizinhos, João, o filho que aparece quando lhe convém. Esconde também da mulher o segredo da vida

marginal deste último, que lhe leva tudo o que pode. Estes vampiros não são exactamente os mesmos da enorme canção de Zeca. Aparte o filho, não comem tudo (bebem sobretudo café, para combater o frio) mas também não fazem nada. Queixamse, falam no vazio e vão apanhando as migalhas que Gebo consegue juntar a muito custo. A mulher, Doroteia, uma insuportável Claudia Cardinale (aplauso), vive angustiada, querendo saber notícias do filho e reclamando das oportunidades que o marido não aproveitou para enriquecer. “Uns são honestos, os outros enriquecem” é a ideia terrível que dali ressoa. Sofia, a nora, é monumento de sofrimento e contenção. E há o filho imoral (Ricardo Trêpa), inconformado com a ideia de trabalhar de sol a sol por uns tostões, e de (sobre)viver uma vida medíocre e sempre igual. “O Gebo e a Sombra” fala de fome, de pobreza, ga-

nância, de ambição e conformismo. De egoísmo e humildade. É fácil entender a metáfora que subsiste por detrás do “Gebo e a Sombra” no contexto económico e geográfico que vivemos. A sombra é a dos vampiros que sugam quem luta para viver. Há contudo uma pergunta que nos surge: o que o distingue esta obra de uma encenação da peça de Raúl Brandão? No filme de Oliveira, os diálogos reafirmam até a exaustão a mesma ideia, sempre com um tom dramático. Por outro lado, no teatro o espectador tende a ter uma perspectiva estática. Neste filme, os planos são fixos e devem ser pouco mais que uma mão cheia. A fotografia é magnífica, sim. Os contrastes entre a iluminação e a penumbra impressionam, parecendo por vezes que estarmos perante um quadro da escola holandesa do sec. XIX. Mas não se lhe acrescenta muito mais. Vamos ao teatro?

Procurem abrigo - take Shelter” sua família e amigos mais próximos. Tais premunições ficam comprometidas pelos seus antecedentes familiares de esquizofrenia, que confundem o espectador entre o que será real e o que será imaginação sua. Na cruzada da sua realidade, Curtis (Michael Shannon) começa a reconstruir e melhorar um abrigo contra tempestades que tem no seu quintal para proteger a sua mulher Sam (Jessica Chastain) e a filha Hannah (Tova Stewart) dos cataclismos anunciados nos seus sonhos. Assistimos a uma dinâmica intensa entre a visão que este homem tem das coisas e a explicação que a psiquiatria apresenta para os seus comportamentos, de forma a confundir-nos durante todo o tempo do que é certo ou errado. Paralelamente, somos apre-

sentados a personagens e a espaços bem reais durante todo o filme, sem grandes artimanhas ou adereços dispensáveis, onde os efeitos especiais se resumem ao estritamente necessário para complementar a história. Uma fórmula crua e eficaz embalada pelos desempenhos assombrosos dos dois actores principais que não se mostram aquém dos elogios a eles anunciados na capa do DVD. Fica como moral da história o amor gigante que um homem pode ter à sua família. Mostra-se como o receio da perda da sua família pode moldar o comportamento de um homem obstinado que, mesmo carregado de dúvidas interiores, não se satisfaz senão na procura de uma salvação que só parece estar à vista dos seus olhos. Camila Fizarreta

filme

De Jeff Nichols eDitora

Ad VitAm 2012

dormir com tempestades e desejar a bonança

Artigo disponível na:


23 de outubro de 2012 | terça-feira | a

cabra | 15

feitAs OUvir

ler

moon Fish”

A

s músicas improvisadas próximas do jazz combustão costumam privilegiar as gravações ao vivo, por raespontânea zões que parecem óbvias. A concentração e a energia necessários para criar música em tempo real tendem a ser difíceis de obter em situações de “ensaio”. Isto é sobretudo verdade quando falamos de free jazz, em que os concertos tendem a ser verdadeiras emanações de energia, mais abstracta ou mais espiritual, consoante a proveniência dos músicos. “Moon Fish”, de Benjamin Duboc (contrabaixo), JeanLuc Guionnet (sax alto) e EdDe ward Perraux (bateria), é o the fish exemplo perfeito de um disco que, muito provavelmente, só eDitora poderia ter sido gravado ao cleAN feed vivo. A energia abunda e parece não vir apenas dos músi2012 cos, mas fluir duma espécie de comunhão entre o público e os músicos. Em “Moon Fish” figuram três temas gravados em Fevereiro de 2010, n'A Moagem (Fundão). Os dois primeiros temas são explorações longas, onde nenhum dos três intervenientes dá tréguas. Não se trata de uma sessão de blow-out, mas de 34 minutos de uma entrega física e espiritual, onde não se vislumbra qualquer hierarquia no grupo, contribuindo todos os músicos com motivos e estruturas que vão sendo moduladas e modificadas até ao limite. Se é certo que a revolução do free jazz conta já com 50 anos, a sua força inicial não se exauriu e é possível ver a razão para tal em “Moon Fish”. Edição altamente recomendável da editora lisboeta Clean Feed, que continua a documentar o que melhor se faz no jazz a um nível global.

Ferdydurke”

E tudo é forrado de criança

De Witold GomBroWicz eDitora 7 Nós 2011

m 1937, o escritor polaco Witold Gombrowicz publica no seu país natal um livro único, “Ferdydurke”. Dois anos mais tarde parte para a Argentina e a eclosão da Segunda Guerra Mundial prolongará aí a sua estadia por 24 anos. A viver na pobreza, este aristocrata exilado decide empreender a tradução do seu romance para castelhano. É graças à generosa colaboração de um grupo de escritores sul-americanos, amigos do autor, que “Ferdydurke” vê a luz do dia nesta mítica primeira tradução. Entre nós, surgiu no ano passado a tradução portuguesa, pela exemplar 7 Nós (editora sedeada no Porto e com uma estrita e arriscada política editorial de invejar). São dois os autores da tradução, Maja Marek, polaca, e Júlio do Carmo Gomes, português, pois parece não ser possível fazê-la de outro modo: a exigência verbal é tal que se torna obrigatório o conhecimento profundo de ambos os idiomas. Mas de que trata então “Ferdydurke”? Vamos lá ver: do processo de tutumização, de duelos de caretas em que se saca das fuças mais inomináveis, do perpétuo estado de imaturidade do humano, de um duelo entre um mestre analista em mestre sinteta, do povo, da aristocracia e da revolução, etc., etc., etc. Tudo isto através de uma prosa que jorra num

fluxo variável de intensidade, enumerações por vezes caóticas mas sempre certeiras, reflexões que quase roçam o transe e a violência, onde a filosofia desempenha o papel da personagem convidada para um requintado banquete que é ao mesmo tempo o seu julgamento. E nós, enquanto leitores, somos colocados no centro dos disparos desse atirador furtivo que é Gombrowicz, não deixando vivalma por onde vai passando. Em suma, muita palmada no tutu vai apanhar quem se atrever a tanto.

bruno Cabral

JOGar

Dragon’s Dogma”

JoSé miguel Pereira

“der Wille zur macht”

GUerra DaS CaBraS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro PlataForma Ps3, XBoX Artigos disponíveis na: eDitora cAPcom 2012

E

ntre a cultura excêntrica do seu país e a hegemonia do fast-food norte-americano, o Japão tem vindo a adoptar o último para dominar os públicos mundiais, investindo desesperadamente na reprodução da imagem propagandeada do sucesso dos videojogos americanos. “Dragon’s Dogma” é um símbolo gritante desse dilema que assola terras orientais, um travesti japonês que se vende a todo o custo em vestes anglo-saxónicas, idealizado como manda o marketing: colando retalhos de obras da moda. Tem o mundo aberto cheio de quests insípidas de “Skyrim”, a estética da fantasia negra europeízada de “Demon’s Souls”, o confronto com titãs em deferência do imortal “Shadow of the Colossus” e um sistema de combate com a fisicalidade de “Devil May Cry” e a táctica de “Monster Hunter”. No meio deste novelo caleidoscópico dificilmente se poderia vislumbrar coerência, mas debaixo da superfície genérica existe uma visão que dá sentido a toda a experiência. Por muito bizarro que possa parecer, o seu mundo ficcional assenta em elementos basilares da filosofia de Nietzsche, da Eterna Recorrência à

Morte de Deus, revelados numa surpreendente e heterodoxa sequência final. Esta reviravolta opera numa base simbólica que vai além do domínio narrativo, dando nova interpretação a várias dimensões do jogo – como o ritmo extenuante e repetitivo do combate e exploração – que estão posicionadas para forçar o jogador a encarnar a Vontade de Poder de Nietzsche. Não que este astuto artificio para densificar a semântica do jogo possa ser totalmente justificado; é claro que Hideaki Itsuno (“Devil May Cry 2”) buscou um equilíbrio perigoso, tentando agradar as massas e a ‘crítica’ com entretenimento banalíssimo, enquanto imbuia um sub-texto digno para aqueles que ainda vêem os videojogos como meio cultural válido (a ver pela internet, não passam de meia-dúzia, visto nenhuma revista ter entendido o seu significado). Apesar destas suas contradições, será facilmente o melhor RPG a sair desde o incontornável “Dark Souls”, e embora se destaque da estética ludomaníaca dos “Borderlands” e “Elder Scrolls” que fedem por aí, esse facto redunda antes dos não-méritos artísticos desses pares, do que de sua própria volição. rui Craveirinha


16 | a cabra | 23 de outubro de 2012 | terça-feira

soltas

cRitic’aRte

obseRvaR, iMagiNaR, seNtiR e coMPReeNdeR

uMa ideia PaRa o eNsiNo suPeRioR José Reis • PRofessoR catedRático da faculdade de ecoNoMia da uNiveRsidade de coiMbRa

A “Coleção Telo de Morais” encontra-se no Edifício Chiado - Museu Municipal de Coimbra. Artigos de pintura, desenho, escultura e arte sacra numa exposição que se estende ao longo dos três pisos do edifício. O percurso inicia-se no piso um, com obras de pintura portuguesa do século XIX e primeira metade do século XX. O visitante tem a oportunidade de se inteirar acerca de toda a evolução da pintura em Portugal. Desde a tradição académica ao romantismo, passando pelo naturalismo e modernismo. Poderá não só aperceber-se das características próprias de cada período, como também das suas transições. No seguimento da visita, a pintura vai sendo substituída por peças de imobiliário referentes ao século XVII e XVIII. Móveis portugueses e indo-portugueses, pensados durante as relações entre Portugal e Índia, permitem fazer comparações entre a cultura europeia e indiana. Também não são esquecidas as esculturas religiosas e o predomínio da iconografia cristã. Posteriormente, surgem as cerâmicas, as pratas e o desenho. Ao nível da cerâmica, o visitante encontra desde peças europeias a criações de influência chinesa. As pratas, do séc. XVIII a XIX encontramse reunidas num núcleo, que embora pequeno é bastante diversificado. Se em matéria de cerâmica e prata, o pormenor era palavra-chave, no desenho o mesmo não acontece. Os desenhos expostos são, maioritariamente, de tendência modernista. O traço simples confere às obras elasticidade e movimento. A simplicidade não põe em risco a expressividade da figura e ainda permite veicular a mensagem. O percurso termina com o desenho humorista, que fazendo uso da gargalha tem como intenção a crítica e denúncia. No final da visita, o resultado é um indivíduo mais consciente acerca da evolução da arte em Portugal, bem como da génese de muitas das suas influências.

Por Mariana Morais

Uma Universidade Livre O ensino superior é, frequentemente, objeto de múltiplas ideias. As últimas décadas ilustram-no bem. Ideias sobre as formas de governação, com participação de entidades externas (os chamados ‘stakeholders’, no linguajar de modas efémeras, com grande carga ideológica, embora travestidas de ciência indiscutível). Ideias importadas de um mundo que julga que tudo na sociedade tem que ser decalque de modelos empresariais, sugerindo-se a “competitividade” ou a empresarialização das universidades. Ideias sobre o chamado sentido prático das aprendizagens, pressupondo-se que “saber muito atrapalha” e que, por isso, se deve saber apenas aquilo que é ditado por necessidades “reais”. Muitas destas ideias são tributárias de outra, segundo a qual o mundo se deve organizar na base da prevalência e defesa intransigente de interesses próprios e da valorização de recursos específicos, sendo nossa obrigação chegar primeiro que os outros e agir até contra os outros, para assim alcançarmos os (nossos) melhores objetivos. É também frequente que se entenda que as instituições são, afinal, tecnologias que devem ser “afinadas” como máquinas ou instrumentos para que funcionem de acordo com as regras da “economia”. Eu sou economista e acho que a “economia” não é o que essas visões supõem e que, pelo contrário, uma boa cultura económica nos mostra que o mundo é bastante mais complexo e que as relações entre os diversos aspetos da organização

coletiva não podem ser vistos por lentes estreitas. Por isso, a ideia que apresento não dá grande atenção a questões de gestão ou governação universitária (de há mais de 30 anos para cá, esse nunca foi problema relevante), não propõe nenhuma solução milagrosa de “competitividade” e não assume que existe um mundo real indiscutível ao qual nos devemos submeter. Ao invés, acho que o desígnio da universidade é o de ser uma instituição com autonomia filosófica face ao mundo que a rodeia. Isso deve levar, em tempos como os de hoje, a que assuma a crise civilizacional que vivemos e desempenhe um papel refundador da sociedade e das suas capacidades, reforçando o seu papel crítico; a que refaça a sua condição de comunidade de saberes e competências ativa, pluralista e emancipadora; a que recuse as visões meramente instrumentais do saber e da instituição universitária, reduzindo-se a uma organização que apenas assegure a sobrevivência; a que s e j a uma comunidade de trabalho inclus i v a , que fomente a

participação e a democracia, rejeite os autoritarismos burocráticos e as visões centralistas; a que se abra à sociedade de forma plural e culta a serviço das qualificações, da dignidade e da criação de bemestar coletivo. Estes pontos resumem-se numa ideia: a de que a universidade seja uma universidade livre, se necessário o último reduto da liberdade, aquele que nos capacite para construir um futuro quando todos os outros meios o possam ter posto em causa. Que seja, afinal, a condição da nossa sobrevivência com dignidade, com capacidades e com saberes. Eu presumo que não há futuro possível sem isto. Se não for a universidade a assegurá-lo outra instituição o há de ser, em vez dela...

versas de café - tudo serviu para discutir, consciencializar e alertar a malta. A mítica lista E venceu as eleições para a Direcção-geral da Associação Académica de Coimbra ao assumir como principal bandeira a defesa de um direito expresso na Constituição da República: o ensino superior público gratuito. As listas da alternância mantinham a velha estratégia de tentar comprar votos distribuindo canetas e calendários. Enquanto isso, estudantes praticamente devoravam comunicados da E, porque informavam e apelavam à defesa dos seus direitos. Foram muitas as iniciativas de luta marcantes nessa altura. Uma

fez precisamente 20 anos no passado dia 29 de Setembro, alertoume um grupo recentemente criado no facebook. A Academia de Coimbra, que tinha atravessado a última década praticamente adormecida, realiza em 1992 uma enorme Assembleia Magna, com o Teatro Académico de Gil Vicente a transbordar de estudantes ávidos de participação. Na altura, eu ainda estava no secundário e, por isso, não estive presente. Mas os reflexos dessa assembleia perduraram na Academia, e de que maneira... Não só porque era vulgar colegas mais velhos contarem histó-

rias sobre episódios lá ocorridos, mas também porque, durante anos, diariamente - aliás, de hora a hora - excertos de intervenções galvanizantes dessa assembleia ecoaram pela Academia. Por exemplo, frases simbólicas como “(...) iremos ao Ministério partir aquela porcaria toda!” e “se o governo se permite limpar o cu à Constituição, nós também podemos limpar o cu ao governo” eram repetidas até à exaustão no indicativo da informação académica dos 107.9 da RUC.

d.r.

Naquele teMPo... Por Ricardo Matos* A internet era só para uns cromos que passavam horas fechados nas caves das Matemáticas diante de uns terminais de texto monocromáticos. O ensino superior era mais acessível a todos os estudantes, mesmo os de parcos recursos económicos, porque as propinas tinham o valor simbólico de 1200 escudos por ano, ou seja, seis euros. Cavaco Silva, então primeiroministro, dizia que nunca se enganava e que raramente tinha dúvidas. E, de facto, não tinha. Para ele, o ensino superior era só para quem o podia pagar e a acção social uma esmola para dar a pobrezinhos. Por isso, no início dos

anos 90, depois de asfixiar financeiramente as Universidades, engendrou uma lei de propinas que obrigava os estudantes a pagar o 25 por cento do custo real do ensino. Mas, dessa vez, Cavaco enganou-se. A Academia de Coimbra levantou-se e levou a cabo uma destemida e duradoura luta, tornando-se num dos principais pesadelos do timoneiro de Boliqueime. Ao ponto de lhe derrubar dois ministros e duas leis de propinas. A perspectiva do brutal aumento dos custos do ensino mobilizou os estudantes. Reunião Gerais de Alunos, plenários, con-

Bruno costa - arquivo


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cabra | 17

soltas heMisféRio solaR

MicRo-coNto

Por gonçalo cadilhe

A

pedalar eu chegava lá, sem a sua ajuda. Só uma vez me fui abaixo. Com o meu amigo Tozinho decidimos ir de bicicleta até à praia de Quiaios, do lado de lá da serra. Surfámos com tanta força e felicidade como se estivéssemos a inventar o surf nesse momento. No final ficámos tão exaustos que não tínhamos energia para regressar. Se ligasse para o meu pai a pedir boleia que “estávamos muito cansados”, a sua resposta severa seria “a próxima vez ficas menos tempo no

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mar e poupas energia para o regresso”. Criámos uma falsa emergência: o Tozinho esvaziou o pneu da sua bicicleta. Liguei de uma cabine: “Pai, tivemos um furo, vamos ter que ficar a dormir aqui nas dunas.” Claro que ele veio nos buscar. Até hoje nunca lhe contei a verdade desse dia. A razão porque eu sempre pedinchava para ele me levar à praia do fundo da rua não era, pois, pela distância mas porque eu tinha a secreta esperança que o meu pai concedesse

O meu pai nunca me veio ver surfar. Apenas me dava boleia para a praia, mas isso só quando chovia e se eu pedisse muito e as notas escolares não vacilassem. Feitas as contas, levou-me à praia não mais que alguns domingos ao longo da minha adolescência. Na realidade, tal como qualquer figueirense, eu vivia demasiado perto da praia para precisar de boleia. A

um dia: “hoje vou ficar aqui à espera para te ver a descer umas ondas”. Nunca aconteceu.

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O modo de vida australiano, virado para o sol e para o mar, deixou totalmente indiferente Luciano, um intelectual severo e contemplativo. Preferia caprichar nas suas receitas italianas, escutar a sua música italiana, discutir vinhos com os seus amigos italianos imigrados na Austrália como ele. Por isso, nunca acompanhou o seu filho Mark à praia, nunca se interessou pela sua carreira e nunca o viu surfar até ao dia em que o campeonato do mundo

Por bacharel Jorge gabriel

D

remédio. Como tudo, também o emprego é incerto e derradeiro. Diversas áreas e graus académicos trazem várias capacidades de sedução do mercado de trabalho. Tomemos o meu singelo caso: bacharel, com b pequeno, perdido num mundo bolonhês, com tão pequena protuberância académica que nem com tremenda intumescência penetrarei uma entidade patronal. E tu, caro mestrando em fim de linha, não sorrias com desdém ao ler bacharel, repensa a comicidade de tão obsoleta palavra e a validade práctica dessa tua arrogância curricular e orgulho em juntar dois ciclos num canudo. Para piorar tudo, existe actualmente uma coisa que, entre outros entraves, nos impede de fecundar o mundo laboral. De libertar esta pujança intelectual acumulada em centenas de ECTS's. Alguns chamam a essa coisa Governo democrático, outros, cambada de descendentes de profissionais isentas de impostos. Independentemente da designação da

Ando a ler a biografia do campeão do mundo de surf Mark Occhilupo — apenas com um braço. Porque no outro braço dorme o meu filhinho que em breve vai completar dois meses de idade. E nesta fase inquieta de cólicas e apetites descontrolados, a única coisa que ele gosta desta nova vida neste novo mundo é o colo dos pais. Assim, agora é minha vez de o ter contente e apaziguado. Os seus avós estão a participar activamente na criação deste novo ser. Quando o bebé António desespera com uma cólica nocturna e mantém os pais acordados pela noite fora, no dia seguinte fica em casa dos avôs para que eu e a mãe descansemos. Os meus pais nunca protestam, nunca se esquivam, nunca se cansam do seu turno. Algo de inédito e imenso brotou neles quando pegaram pela primeira vez no seu neto e fico a pensar na mudança que aconteceu a esse homem que era apenas o meu pai e agora é sobretudo o avô do meu filho. Pelo jeito que as coisas estão a tomar, o futuro surfista António vai ter muita dificuldade em apanhar boleia do seu pai quando quiser ir para a praia no fundo da rua. Não será porque o seu pai não o quer levar, pelo contrário. O que estou já a prever é que quando eu for procurar o meu filho para irmos surfar juntos, o seu avô já lhe terá dado boleia para a praia do fundo da rua, e estará à espera do neto para o ver a descer umas ondas.

Gonçalo CaDIlHE 44 anos o facto de ser um viajante profissional e de já ter percorrido o mundo de mochila às costas não leva a que Gonçalo Cadilhe troque a Figueira da Foz, local onde nasceu, por outro lugar aleatório. É ali que se sente bem praia, mar, sol. não fosse ele também um amante do ‘surf’. licenciou-se em Gestão de Empresas pela universidade Católica do Porto, mas não era isso que procurava. aliás, a passagem nessa carreira foi breve. a vida dele são as viagens, o próprio o afirma. Pelo meio ainda experimentou a música, tendo frequentado a Escola de Jazz, no Porto. Foi em abril de 1993 que começou a viajar. E a partir daí nunca parou. Começou a escrever sobre as viagens, até que profissionalizou a coisa, a partir de 1996. Crónicas que depois foram reunidas em livros. atualmente, já conta com dez obras publicadas. Colabora, também, em vários jornais e revistas, entre eles a Blitz, surf Portugal, Única e Visão Viagens. É o nome que surge em mais prateleiras de literatura de viagem. Ele é o “Eterno viajante”.

Ana Duarte

se alguéM houveR que Não queiRa, tRaga uMa MiNi taMbéM

eNtRe a aRRegaça e o calhabé as muitas e coloridas preocupações que normalmente cruzam o pensamento de um estudante universitário, há uma que raramente se digna a aparecer: o emprego. Para os mais desatentos, o emprego é uma coisa que existia antigamente mas agora parece que nem tanto. É também uma coisa importante, parecendo que não, porque toda a gente precisa de um. Contudo, nós, estudantes de capa e batina, quando não corpo e alma, ciclicamente perdidos entre copos, exames, recursos e orais, protelamos o problema. A palavra em si começa a aparecer lá para o último ano. Até lá, atiramos o vocábulo sem pensar duas vezes. O diz-que-essa-área-temmuita-emprego ou o depois-docurso-era-mesma-bacano-sacar-u m-emprego-fixolas, são formulações usuais. É quando começamos a dobrar o cabo académico e se acende a luz da reserva do combustível estudantil que tudo muda. Lá temos de começar a pensar no emprego, que

de surf decorreu na sua cidade. Em 1985, Luciano foi ver o seu filho surfar pela primeira vez… e sagrar-se campeão.

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Luciano Occhilupo aceitou uma oferta de emprego na Austrália depois da Segunda Guerra e, como todos os emigrantes, pensou que estaria fora por poucos anos. Mas apaixonou-se por uma australiana, comprou uma casa, teve três filhos e nunca mais regressou.

Ilustração Por CarolIna CamPos

minha geração cresceu debaixo da rivalidade perfeita entre os surfistas Tom Curren e Mark Occhilupo. Dois estilos antagónicos (Curren fluido, Occhilupo angular), duas personalidades contrastantes (Curren reservado, Occhilupo histriónico), e mesmo duas nações ávidas de heróis (Curren americano, Occhilupo australiano) personificaram as suas diferenças nessa dupla de surfistas. A perfeição desta rivalidade tinha uma origem psicossomática. Curren descendia de emigrantes irlandeses, vinha dessa Europa fria e escura que deu ao mundo a cerveja morna, os fritos de ovos com bacon ao pequeno-almoço e inventou a revolução industrial e a moral do trabalho; Occhilupo era filho dum imigrante italiano, desse território solar e colorido que deu ao mundo o vinho branco, o azeite e o pão e inventou a arte e o pecado. A Humanidade divide-se secretamente em dois hemisférios: os que pertencem às regiões do frio e da bruma como Tom Curren; e os que provêm das latitudes da luz e do calor como Mark Occhilupo. O meu ídolo era Curren mas o meu hemisfério era Occhilupo.

d.r.

coisa em si ou das ditas, e decerto inocentes, progenitoras, o país reprova as acções deste governo por ele eleito, manifestando-se. Como disse alguém, que ao menos a famigerada crise aumente a consciência cívica e democrática. Por exemplo, que o meio estudantil rompa com o vicioso

e alienante ciclo referido supra. A politização do mundo estudantil viu-se recentemente na Latada, de malas de rodinhas a slogans. Nada contra. Contudo, levemos em conta que existem dois mundos raramente compatíveis: o da reivindicação e o da alcoologia. Dizer que milhares de

estudantes se preocupam e discordam do rumo do país enquanto esses mesmos estudantes apanham um valente pifo, pode reduzir a força do primeiro argumento. Nada contra caçar o esbelto pifo que, ressalvo, é um dos meus mais prezados hobbies. Somente me parece que manifestações evocando consciência cívica perdem força quando regadas a álcool. O importante, parece-me, é que um estudante tenha também tomadas de posição sem estar rodeado de dezenas de tractores carregados do etílico suco. Isto sob pena da imagem passada ser perversa. Algo como: "passo-me com a subida da TSU ao fim da terceira imperial" ou "discordo violentamente desta política fiscal depois de malhar um bagaço no Troica" e até "concluí que este não é o rumo para o país entre o kalash e o limão". Provemos que não é este o caso.


18 | a cabra | 23 de outubro de 2012 | Terça-feira

opinião um orçamento Desastroso ou um orçamento De Desastre? João sousa anDraDe*

o atual governo revela que não tem estratégica para reduzir o défice e ao mesmo tempo elege o equilíbrio orçamental como um objetivo de política”

A economista Christina Romer defendeu contra a opinião de colegas seus que as políticas orçamentais poderiam não ser suficientes para reduzir o impacto da atual crise. Não porque não funcionassem, mas sim porque eram envergonhadas, não tinham a dimensão suficiente para inverter este ciclo negativo de atividade. Defendia também que os efeitos de políticas orçamentais expansionistas eram mais elevados por cada dólar gasto do que o valor de referência de organizações internacionais. Quem a veio a acompanhar nos últimos dias? Olivier Blanchard (do FMI). Afinal as políticas de redução da procura executadas pelo orçamento levam a uma queda superior à redução que deles consta. Mas nós, em Portugal, não tínhamos percebido isso com os erros crassos do Ministério das Finanças (MF) quanto às receitas fiscais deste

ano (2012)? Aquilo a que se chamou "erros de previsão" do MF? O brutal crescimento das receitas orçamentais vai reduzir a atividade económica por um valor superior a esse ganho do Governo e por isso as receitas vão necessariamente ser inferiores ao previsto. E as reformas para a redução da despesa? Onde estão? No ano passado reduziram-se as despesas com salários. Mas esta redução é uma falsa redução da despesa. Até porque é considerada transitória. Essa redução deve ser considerada como um aumento da receita. E este ano? O orçamento limita-se a reduzir os trabalhadores com contratos temporários. Na maioria dos casos, trabalhadores com formação muito superior à média e com funções muito polivalentes. Simplificando: trabalhadores dos mais produtivos. E são estas medidas que permitem dizer que se

reduz a despesa! É demasiado triste e preocupante para poder ser verdade. O atual Governo revela que não tem uma estratégia para reduzir o défice e ao mesmo tempo elege o equilíbrio orçamental como um objetivo de política. A minha previsão é simples: daqui a seis meses estaremos a ouvir o senhor ministro a dizer que o défice derrapou, as receitas são menores que o previsto porque a economia decresceu mais do que ele tinha previsto e que são necessárias mais medidas restritivas para alcançar as metas acordadas. As despesas sociais irão aumentar em consequência da queda do produto. A única maneira de evitar este rumo reside em fatores externos e não expectáveis: um crescimento mais rápido da economia internacional! Até lá este orçamento estará a alimentar a justa contestação de todos os que

o outro, anda perdido, que não há tempo para demais feitos. Deixam-se foder pela boca, muda, que a cabeça já está trancada a sete chaves por uma tradição de fados que de tanto se repetir já tem o seu significado nos tóitóis da festa. E lá abrem os lábios, não para gritarem, mas para enfiarem mais um copo, para a boca continuar calada e os olhos cegos. Os lábios abertos, o gole, o nosso punho. A nossa batalha. A mim, a ti, a eles, a elas. A nós. Doutores de coisa nenhuma. A nós. Bêbados, burros e cegos. A nós. Ovelhas. A eles. Pastores. Dançamos, fornicamos, comemos, bebemos, de pança cheia de festa, quando um país inteiro chora e se destrói. Somos festivaleiros em tempo de matança, somos acéfalos mas com canudo, somos cegos mesmo que a realidade passe à nossa frente, ali, aqui, acolá. Olha! Olha, porra! Olha para aquele que ali passa feliz na têvê, que nunca teve falta de trabalho mesmo que nunca tenha trabalhado na vida. Olha para aquele velho ali ao pé do café que funga penas de outros tem-

pos. Olha para aquela mulher a deambular na rua que não sabe se há-de pedir ou se se há-de matar. Olha para o senhor que vai para o quiosque derreter os últimos na sorte das lotarias e que repete para si mesmo: “é desta”. Olha. Olha para aquele puto que passa ali cabisbaixo, não esteve lá contigo, na tua pândega, que tem que dizer adeus esta semana a um sonho que já não é de todos. Olha! Olha para a tua direita, para a tua esquerda, em frente, para trás, olha e diz-me se não vês o que te digo. Não vês? Não cheiras este bafio de silêncio, de lágrimas que se consumam por detrás dos estores das casas vendidas de gente que só não fez crédito à alma porque não pode. Olha ali adiante. Olha. Olha para aquela mulher que passa e que pensa para si mesmo como dizer aos filhos que não há comida. Olha para trás, para aquele homem que tenta esquecer as costas doridas de 30 anos de trabalho tramado e ver que agora não sabe se pode cumprir as promessas que fez aos seus. Olha e diz-me que não vês o que vejo. Se

sentem o desespero apoderar-se deles. Devo considerar que não poderei escrever melhor que o Professor Jacinto Nunes, Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra, em "A Caminho do Ultraliberalismo", n’ O Público, on line, a quatro deste mês. O anterior governo teve de reconhecer os seus erros após a pressão do sistema financeiro, este governo já o fez após a pressão das organizações empresariais. Governar não é com certeza nada disto! E quanto mais avançamos na redução da procura e do produto menos opções nos restam para estabilizar e fazer crescer a economia.

*Professor de Economia e Finanças na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Cartas à Diretora “olha, para não te Comerem a voz” João gaspar*

Dançamos, fornicamos, comemos, bebemos, de pança cheia de festa, quando um país inteiro chora e se destrói”

Não tínhamos um nome. Ganhámos. À rasca. E que fazemos? Bebemos um copo. A mim, a ti, a a eles, a elas. A nós, mudos, burros, cegos, de lábios abertos, de copo em punho, numa batalha de bêbados, sem qualquer vislumbre de luto. Os copos colam-se nos nossos lábios numa consagração repetida, felizes não sei de quê, ali, com a nossa bendita hóstia – sem deus nem salvador nem coisa alguma. E repetimos aqueles sorrisos cegos. Somos fortes. Somos fortes. A levantar Coimbra pelos ombros, a lembrar feitos e saudades de postais da treta que engolimos como a telenovela das nove. Fingimos que lutamos. Brincamos a manifestações de abstenção violenta. O trabalho está feito com aquela salganhada que já nem é de preto, roubaram-lhe a cor. E lá voltamos a repetir a nossa bendita cruzada de cegos. Somos fortes. Somos fortes. Os gloriosos doutores, a cantarem a mesma merda que engolem, com cães pela trela que lhes valem votos, levantam ainda mais Coimbra, para tempos idos, num qualquer verso de cordel. Falam de 69, das lutas de sexo oral,

não vês, então deixa-te ficar cego e burro, que um dia, quando abrires os olhos é para veres que não há merda nenhuma na mesa. Nem na tua nem na dos outros. E então de olhos abertos, morres como um velho cego, a definhar-se numa cirrose de acéfalos. E nessa altura vais tentar falar, vais pedir desculpa, vais querer contar os teus remorsos. Mas os outros não te vão ouvir, que a música está alta, a pança cheia, e morres sozinho, de ventre mirrado, sem que ninguém te oiça, porque outros estão a beber, a dançar, a fornicar, a comer, e tu morres, já não como cego mas como mudo, sem voz no meio de tanta festa de coisa nenhuma. Olha, porra! Olha, porque se te podem comer o dinheiro que não te comam a voz! *Estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Cartas à diretora podem ser enviadas para

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23 de outubro de 2012 | Terça-feira | a

cabra | 19

opinião Cartas à Diretora enContro aberto “universiDaDe Contra a

austeriDaDe” vários *

O desinvestimento na educação pública tornou-se desde há muito um mal aceitável, assim como também é evidente que as bolsas e apoios à disposição são cada vez mais insuficientes para colmatar as necessidades da maioria dos estudantes. Desde que começaram a ser implementados os planos de austeridade em Portugal para ”resgatar” o país, a educação foi dos sectores que mais cortes sofreu. Só em 2012 foram retirados mais de 1,5 milhões de euros e o Orçamento do Estado para 2013 prevê um corte igualmente significativo. Ao mesmo tempo que as nossas famílias enfrentam um aumento brutal de impostos, cortes salariais e níveis de desemprego recordistas, absolutamente “catastroikos” - 16% em geral, 37% no desemprego jovem - o governo insiste nas mesmas políticas, reduzindo o ensino superior a um luxo. Mas, não sejamos injustos, pois apresentam-nos também alguns desfechos: se quisermos usufruir de um ensino de qualidade, que peçamos empréstimos à banca ou então que emigremos, caso o nosso país não nos dê quaisquer perspectivas de futuro. Existe hoje, mais do que nunca, a necessidade de juntar todos aqueles que, na Universidade de Coimbra, não aceitam que lhes seja abafada a voz, que desejam mais bolsas, melhores cantinas e menos propinas. A história da Associação Académica de Coimbra mostra-nos que nós, enquanto estudantes, apenas conseguimos obter resultados quando não nos resignamos às “inevitabilidades” impostas. Consideramos que a resposta que está ser gerada pela população – lem-

eDitorial

bremo-nos da convocatória que levou cerca de um milhão de manifestantes a mais de 30 cidades do país no dia 15 de Setembro - também deve ser seguida e construída dentro da Universidade de Coimbra. Assim, convidamos as várias secções culturais e desportivas da AAC, os estudantes das residências universitárias e os repúblicos; os estudantes trabalhadores e todos aqueles que rumam na incerteza de continuar a frequentar o ensino superior; todos os colectivos e grupos existentes na UC e os demais interessados NA DEFESA DO ENSINO PÚBLICO, a vir, na próxima quinta-feira – dia 25 de Outubro – às 21h30, ao ENCONTRO ABERTO “UNIVERSIDADE CONTRA A AUSTERIDADE”, a ter lugar nas Cantinas Amarelas.

ao mesmo tempo que as nossas familias enfrentam um aumento brutal de impostos (...), o governo insiste nas mesmas políticas, reduzindo o es a um luxo * Alguns dos subscritores: Abel Tenera (FCTUC), Alexandra Correia (membro da FAE - FEUC), André Rodrigues (membro da FAE FLUC), Bárbara Góis (membro da AACção - FLUC), Bruno Monterroso (FLUC), Catarina Mesquita (membro do AACção - FPCEUC), David Machado (FDUC), Diana Lula (FEUC), Diogo Silva (membro da FAE - FLUC), Igor Constantino (membro da FAE - FLUC), Maria Dias (FCTUC) Pedro Silva (membro do AACção -FEUC), Renata Cambra (membro da FAE - FLUC), Robert Martins (membro do AACção – FDUC), Rui Magalhães (GEFAC), Yannick Batista (FMUC), Sílvia Franklin (GEFAC – FCTUC).

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239410437 e-mail: acabra@gmail.com

“Deliberar ou não Deliberar, eis a questão”: uma peça De um ato A passada quinta-feira, 18, foi marcada pela realização de mais uma Assembleia Magna (AM), desta feita, um tanto peculiar. Primeiro, não foi convocada pela Direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), como é costume, mas sim pelo movimento estudantil A Alternativa És Tu!, através da recolha de assinaturas. Isto traduziu-se numas Cantinas Azuis quase vazias – cerca de 60 pessoas, talvez 70. Para além da fraca assistência, a DG/AAC permaneceu calada. O presidente, Ricardo Morgado, afirmou mesmo que esta AM “não visava ouvir a vontade dos estudantes”, e durante a pouco mais de hora e meia, os membros da DG/AAC mantiveram-se calados – não em silêncio, porque os gracejos nas primeiras duas filas eram uma constante. Sinopses à parte, como explicar o enredo do teatro de quinta à noite? É complicado. O encenador (entenda-se Rui Santos, presidente da mesa da AM), parecia um pouco entediado, um pouco aborrecido pela fraca representação ali apresentada. Já para não dizer que houve “erro de casting”, no sentido de a divulgação da AM praticamente não ter existido. Pessoas houve que comentaram em microfone aberto: “soube que ia haver Magna há duas horas atrás”. E já não é a primeira vez. Porque é que isto continua a acontecer?

não faltou a atitude de prima donna por parte da primeira fila que, enquanto comia big macs e bebia Coca-colas, ouvia (?) o que os estudantes (...) diziam. Depois da degustação, o silêncio Em relação ao elenco… não faltou a atitude de ‘prima donna’ por parte da primeira fila que, enquanto comia Big Macs e bebia Coca-colas, ouvia (?) o que alguns estudantes interessados em tomar algum tipo de atitude diziam ao microfone. Depois da degustação, o silêncio. O ato, que era único, passou (proposta de moções, a sua votação, defesas de honra até) e o silêncio permaneceu. Deixando a dramaturgia de lado, não podemos questionar a legitimidade de uma AM que não foi marcada pela DG/AAC – mas sim por um coletivo de estudantes, apoiados por cerca de 1300 assinaturas (= estudantes). A data não era conveniente para muitos (logo após a última noite de Latada), por isso, o interesse em divulgar não urgia. Tudo bem. Agora, quando uma DG adota uma postura como adotou, de desrespeito para com estudantes, o que fazer? O que pensar? Não há necessidade de arrastar o debate. Os dias são efémeros, são consumidos por aquilo que, hoje em dia, os preenche: austeridade – ataques disparados de todos e para todos os lados. Porque é que o movimento estudantil há-de deixar para depois o que a sociedade civil tem andado todos os dias a contestar? Não terão de ser os nossos pais nem os nossos avós a ir para a rua e lutar por mais Ação Social Escolar, por mais financiamento para o Ensino Superior. Eles têm o “peixe grande”, passemos a expressão. Nós, juventude, é que temos de nos organizar, juntarmo-nos aos movimentos cívicos para reivindicar direitos que são nossos, mas também posicionarmo-nos contra os flagelos que pautam cada vez mais os nossos dias.

Ana Duarte

Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo ICS nº116759 Diretora Ana Duarte Editora-Executiva Ana Morais Editores: Stephanie Sayuri Paixão (Fotografia), Liliana Cunha (Ensino Superior), Daniel Alves da Silva (Cultura), Andreia Gonçalves (Cidade), Paulo Sérgio Santos (Ciência & Tecnologia), João Valadão (País), António Cardoso (Mundo) Secretária de Redação Mariana Morais Paginação Catarina Gomes, Rafaela Carvalho Redação Emanuel Pereira, João Martins Colaborou nesta edição Pedro Martins, Joel Saraiva, Luís Azevedo, Rui Tomás, Mariana Morais, Miguel Patrão Silva, Filipe Furtado Fotografia Daniel Alves da Silva, Mariana Morais Ilustração Carolina Campos, Joana Cunha Colaboradores permanentes Bruno Cabral, Camila Borges, Camilo Soldado, Carlos Braz, Fábio Rodrigues, João Gaspar, João Miranda, João Ribeiro, João Terêncio, José Miguel Pereira, José Miguel Silva, Luís Luzio, Manuel Robim, Rafaela Carvalho, Rui Craveirinha, Tiago Mota Publicidade António Cardoso - 914647047 Impressão FIG - Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos José Reis, Gonçalo Cadilhe, Ricardo Matos


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OOC

A Orquestra Clássica do Centro lançou-se, na semana passada, na organização dos “Encontros em Coimbra (na Baixa)”. A primeira sessão destes “Encontros” já se realizou e o balanço dessa noite foi muito positivo. Esta é uma iniciativa que foca três temas que se revelam vitais à sobrevivência da cidade – Património, Cultura e Turismo. Os “Encontros” visam a promoção das riquezas citadinas, bem como a discussão e a reflexão dos caminhos para o seu sucesso. O espaço escolhido é o Café Santa Cruz. Dadas as suas características místicas e históricas, esta escolha revela-se assertiva, e pode ainda dinamizar este café emblemático, muitas vezes frequentado apenas por turistas. Em tempos de crise cultural, a parceria OCC-Santa Cruz está de parabéns por acreditar na Baixa da sua cidade. A.G.

MEC

Culpar indiretamente a pasta de Nuno Crato é necessário. As contradições no Estatuto criado para regular a atividade das bolsas atribuídas pelo Estado aos bolseiros de investigação, são alarmantes. Um estatuto que está sem rever o valor das bolsas desde a sua implementação em 2004 e que agora vem limitar todo o tipo de atividade extra-bolsa com que o estudante se possa enriquecer. Só porque existe um regime de exclusividade incrédulo que não permite o exercício de outras funções em ofícios remuneratórios. Um bolseiro não pode produzir artigos para uma publicação a ganhar, ganhar reconhecimento exterior e obter mais garantias na forma de se desenvencilhar. Produzindo, investigando, observando, intervindo, ganhando experiência para o que se pretende que seja o património científico do nosso país. L.C.

Movimentos Unitários

Contrariamente ao que estamos habituados a assistir na movimentação estudantil em Coimbra - sobretudo no que concerne à liderança desta academia - eclodem nas duas principais metrópoles nacionais vários movimentos unitários de estudantes. Ligados a associações de estudantes ou à margem delas e das respetivas federações académicas, os estudantes que compõem estes grupos de protesto apostam numa linha de proximidade e de contacto consequente. Ações concretas, de luta, de reivindicação, enfim, de protesto. Algo que transborda as brandas ações mediáticas e as típicas ações de gabinete a que vimos sendo habituados por Coimbra. Corta-se o passe, grita-se. A torre da universidade está a cair, age-se. O ministro vai ao Técnico, apupa-se. Por cá, aposta-se na politização da Festa das Latas e anestesiam-se as mentes. A.M. PUBLICIDADE

Edição nº 251  

Edição nº 251 do Jornal Universitário de Coimbra - Cabra

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