Issuu on Google+

17 DE DEZEMBRO DE 2013 • ANO XXIII • N.º 266 • MENSAL GRATUITO DIRETORA MARIA EDUARDA ELOY • DIRETORA ADJUNTA DIANA CRAVEIRO

acabra

CARINA GOMES Entrevista à nova vereadora da Ação Cultural PÁG. 7

JORNAL UNIVERSITÁRIO DE COIMBRA

DIANA CRAVEIRO

RAFAELA CARVALHO

LUÍS BENTO RODRIGUES A meio do terceiro mandato o estudante representante do primeiro e segundo ciclo sai do Conselho Geral por uma “renovação política”. Até março o órgão máximo da universidade perde ainda mais dois dos atuais representantes dos estudantes PÁG. 4 e 5

TERMINA AMANHÃ, 18, O PRAZO PARA PEDIR IMPUGNAÇÃO DO ATO ELEITORAL PÁG. 5 PUBLICIDADE

FCT

CONSELHO DESPORTIVO

Polémica em torno do financiamento

AAC vai ter gabinete de apoio desportivo

Concurso nacional de bolsas da Fundação para a Ciência e Tecnologia continua a dar que falar. Os investigadores bolseiros, na voz da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica, reclamam as irregularidades cometidas pela FCT na divulgação das candidaturas. A este aspeto juntam queixas ligadas aos cortes orçamentais, onde se prevê uma agravada redução das verbas disponibilizada. A FCT defende-se das acusações, garantindo que os resultados do concurso vão ser conhecidos até ao final do ano.

O Conselho Desportivo da AAC vai criar um gabinete de desporto para garantir um apoio contínuo às secções. Numa altura em que os apoios são cada vez menos, a iniciativa surge como uma das soluções para combater os problemas financeiros da casa. O órgão, que vai acompanhar as secções e guiá-las a nível de gestão, vai funcionar com jovens licenciados que vão ser contratados através de concursos públicos.

PÁG. 2 e 3

@ PÁG. 9

Mais informações em

acabra.net


2 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

DESTAQUE Editorial Pensamento e inércia

1

Desde 2001 que a Associação Académica de Coimbra (AAC) não assistia a um processo eleitoral tão polémico. Na altura, como pode ser lido na página 16 desta edição, a questão prendia-se com a localização das urnas em duas faculdades. Apesar dos protestos, a lista que tentou impugnar as eleições viu o seu pedido recusado depois de a Comissão Eleitoral ter recorrido a três juristas da faculdade de Direito. Hoje, ainda que as circunstâncias sejam diferentes, o que está em causa acaba por ser o mesmo. A falta de seriedade com que o processo eleitoral é encarado pelos próprios estudantes leva a que o desaparecimento de 141 boletins de votos seja visto com despreocupação. Os sucessivos problemas levantados pela lista de Samuel Vilela, relativamente a uma urna que pode ter sido adulterada, ou em relação a urnas que viajaram sem supervisão das duas listas, demonstram a leveza do processo. A existência deste tipo de erros devia ser imediatamente declarada à CE. Ainda que se pense que esta pode vir a ser uma

A constante inexistência de denúncias leva a que o ato eleitoral ganhe cada vez mais falhas e, simultaneamente, essas falhas sejam cada vez menos notadas pelos próprios envolvidos.

queixa inconsequente, a constante inexistência de denúncias leva a que o ato eleitoral ganhe cada vez mais falhas e, simultaneamente, essas falhas sejam cada vez menos notadas pelos próprios envolvidos. É normal que quem está numa Comissão Eleitoral não seja totalmente isento, porque quem se interessa em participar num processo eleitoral tem sempre uma opinião quanto aos projetos que se candidatam. No entanto, mais uma vez, o que está em causa é a seriedade do ato.

2

Meio ano após a classificação da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia como Património Mundial da Unesco, a cidade viu o sei roteiro turístico aumentar em 30 por cento. Apesar desse aumento, o turismo de Coimbra vai ficar estagnado. A nova vereadora do Turismo, Juventude e Ação Cultural, Carina Gomes, acredita que é preciso parar para refletir e delinear um plano estratégico. Numa altura em que se deviam aproveitar todas as oportunidades para promover a cidade, potenciada pelo interesse gerado pela classificação (e não só), o executivo não se pode dar ao luxo de estar parado durante meses. A Direção

Ficha Técnica Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo ICS nº116759 Propriedade Associação Académica de Coimbra Diretora Maria Eduarda Eloy Diretora-Adjunta Diana Craveiro Diretora de Arte Rafaela Carvalho Equipa Editorial Carla Sofia Maia, Daniela Gonçalves, Ian Ezerin, João Martins, Luís Grilo, Pedro Martins, Teresa Borges Ilustração Carin Carvalho, Ixabu de Oliveira Publicidade Diana Craveiro - 239828096 Impressão FIG - Indústrias Gráficas, S.A.; Telf. 239499922, Fax: 239499981, e-mail: fig@fig.pt

Colaborou nesta edição Bárbara Rodrigues, Carla Cardoso, Daniel Alves da Silva, Sofia Oliveira, Luís Saraiva Colaboradores permanentes Camila Fizarreta, Eduardo Carvalho, João Gaspar, José Carlos Neves, Pedro Martins, Pedro Treno, Rita Leonor Barqueiro, Rui Craveirinha, Samuel Ferreira, Vasco Batista Fotografia Ana Catarina Sardo, Catarina Carvalho, Daniela Gonçalves, Diana Craveiro, Maria Eduarda Eloy, Rafaela Carvalho Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Ana Duarte, João Gaspar Tiragem 4000 exemplares

FCT

Financiamento envolto em controvérsia As polémicas em torno do concurso nacional de bolsas “Investigador FCT 2013” da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) continuam a provocar reações negativas por parte dos investigadores bolseiros. Representados pela Associação dos Bolseiros de Investigação Cientifica (ABIC), lutam por melhores condições no trabalho e estabilidade em todo o processo. Apesar de todas as discussões em volta de questões de financiamento da FCT para o próximo ano, a direção da fundação, segundo a Coordenadora do Gabinete de Comunicação, Ana Godinho, garante que há verbas disponíveis para assegurar as bolsas de investigação, e que os resultados do concurso nacional vão ser conhecidos ainda até ao final deste ano. Por Teresa Borges e João Martins

“Apenas são abertos concursos para os quais está assegurado o financiamento, e conforme orçamento disponível”

Ana Godinho


17 dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 3

DESTAQUE

R

eduções no financiamento a centros de investigação, corte nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento e atrasos na publicação dos resultados do concurso nacional de bolsas, são algumas das queixas apontadas pela Associação dos Bolseiros de Investigação Cientifica (ABIC) aos dirigentes da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Uma direção que, segundo o vice-presidente da ABIC, João Pedro Ferreira, tem sido “particularmente ‘sui generis’ na criação de casos e irregularidades”, determinantes para “piorar as condições de vida para quem faz ciência e investigação científica em Portugal”. A maneira como o concurso nacional de bolsas “Investigador FCT 2013” decorreu foi alvo de duras críticas ao longo dos últimos meses. O representante da ABIC chega mesmo a considerar todo o processo como “uma enorme trapalhada”. A primeira queixa surgiu com o lançamento do concurso para bolsas individuais em julho, já com um mês de atraso, que obrigava os candidatos a terminarem os ciclos de estudo até dia 19 de setembro uma decisão que afastava muitos dos potenciais candidatos. A regra foi entretanto revista e a candidatura prolongada até ao final do ano. Em meados de dezembro, os resultados do concurso de 2013 ainda não são conhecidos, mas a FCT assegura que serão anunciados antes do final do ano, para que as bolsas se possam começar a distribuir no início de 2014. As queixas em relação à atribuição de bolsas não são feitas apenas

pela Associação dos Bolseiros. O Provedor do Bolseiro de Investigação, Arsélio Pato de Carvalho, assumiu o cargo em agosto do ano passado. Ao longo deste ano, ficou surpreendido por ter recebido cerca de “uma centena de reclamações”, número que considera reduzido, mas justificado pelo facto de o cargo ser recente e os bolseiros não estarem ainda informados acerca da sua existência. Arsélio Pato de Carvalho acrescenta que as queixas, deixadas no site da secretaria do provedor, “são muito diversificadas”, mas apresentam um problema transversal que é a alteração do regulamento dos bolseiros. Afirma ainda que as reclamações são tratadas “dentro do prazo de uma semana”, estando muitas vezes dependente da resposta por parte da FCT ou das universidades. Relativamente ao contacto com a ABIC, o provedor esclarece que tem havido “um entendimento muito bom e não há qualquer conflito”, até porque estão ”os dois do mesmo lado”.

Relação entre FCT e ABIC

A FCT procura atender aos problemas da ABIC, e as reuniões entre as duas entidades são recorrentes. A direção da FCT manifesta mesmo, segundo a Coordenadora do Gabinete de Comunicação, Ana Godinho, “abertura total para o diálogo, resolução de questões e dúvidas manifestadas pela associação”. João Pedro Ferreira confirma estes encontros, e reconhece que a FCT está “aberta ao diálogo”, mas não “recetiva à alteração de políticas” - aspeto no qual continuam a in-

sistir, visto a ABIC ter um papel de “interlocutor privilegiado pelo diálogo com os bolseiros de investigação científica”. Na visão do investigador, o problema não está na falta de dinheiro, mas na maneira como este é distribuído. A ABIC entende que “há uma opção política”, que faz com que o dinheiro seja canalizado por motivos “ideológicos e políticos”, esquecendo o “fornecimento do Estado em questões de saúde, educação e investimento público em geral”, e acrescenta que o facto de a FCT não ter dinheiro, “é algo que é discutível”. O vice-presidente acusa ainda a fundação de tomar opções que “podem ser questionáveis”, e que por vezes demonstram “que não existe assim tanta falta de dinheiro”. Fundamenta que esse aspeto é observado através da criação de um conjunto de protocolos internacionais que continuam a ser celebrados, e que contradizem a lógica da falta de financiamento. A representante da FCT defende-a de acusações afirmando que, relativamente às parcerias internacionais, “o orçamento anual estimado para as parcerias com universidades americanas corresponde a um terço do montante anteriormente gasto nestes programas”. Refuta ainda que “apenas são abertos concursos para os quais está assegurado o financiamento e conforme o orçamento disponível”. Ana Godinho refere que a dotação do Orçamento de Estado (OE) para a fundação em 2014 é de 287 milhões de euros, um aumento de 18 milhões de euros em relação a este ano. Este valor inclui uma parcela para a Fundação para a

Computação Cientifica Nacional, integrada na FCT em 2013. Acrescenta que a “FCT tem sido capaz de, independentemente dos valores do orçamento, executar uma maior verba, que se traduz por um efetivo aumento no investimento em ciência”.

A questão das ciências sociais e humanas

No que toca à distribuição de verbas pelas diferentes áreas da ciência, o representante da ABIC é da opinião que existe uma clara “inclinação coerente com o discurso do Governo” em “matar todo o pensamento e todo o conhecimento científico que não é virado para a produção de um produto e de uma tecnologia, e portanto não é vendável no futuro”. Esta decisão faz com que áreas ligadas às ciências sociais sejam “encostadas à parede nesta ótica que não geram riqueza”, salienta. A representante da FCT defende-a destas acusações, afirmando que “o financiamento é atribuído de modo a que a taxa de sucesso seja a mais equilibrada entre os quatro domínios científicos: Ciências da Vida e da Saúde; Ciências Exatas e Engenharias; Ciências Naturais e do Ambiente; Ciências Sociais e Humanas, e ainda de forma a cumprir as recomendações da Comissão Europeia que impõem um limite à percentagem de fundos estruturais a atribuir às Ciências Sociais“.

Condições de trabalho do bolseiro

As condições de trabalho do bolseiro de investigação em Portugal

são um assunto que preocupa a Associação dos Bolseiros de Investigação. Para João Pedro Ferreira, segundo o Estatuto do Investigador e a Carta Europeia do Investigador, a quem “realiza investigação no Ensino Superior, ou instituições de investigação científica, deve ser atribuído um contrato, devem ser dadas condições de vida para que ele possa prosseguir o seu trabalho a longo prazo.“ O investigador reitera que, na maior parte dos países europeus, todos os trabalhadores que desenvolvem este tipo de trabalho possuem contratos de trabalho. A associação exige a luta pela melhoria das condições de trabalho, até porque “não se faz ciência com trabalho precário”, segundo João Pedro Ferreira. O presidente do Conselho Científico das Ciências Naturais e do Ambiente da FCT, João Carlos Marques, partilha esta preocupação com os “cortes financeiros imensos que estão a afetar não só as universidades, mas a investigação científica”. Acrescenta que estas inquietações correspondem “a uma saída acentuada de pessoas muito bem treinadas, cientificamente, e de boa qualidade”, que vão saindo do país “pela ausência de oportunidades.” Ana Godinho sublinha esta ideia, afirmando que a “FCT manterá a abertura sempre demonstrada para dialogar com os bolseiros e seus representantes, no sentido de contribuir para a formação científica de qualidade dos que pretendem seguir uma carreira científica e contribuir para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do país.”

D.R.


4 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

ENSINO SUPERIOR LUÍS BENTO RODRIGUES • CONSELHEIRO GERAL PELOS ESTUDANTES DO PRIMEIRO E SEGUNDO CICLO DEMISSIONÁRIO RAFAELA CARVALHO

Diana Craveiro Esteve cinco anos no órgão máximo da Universidade de Coimbra: o Conselho Geral (CG). Durante os dois primeiros mandatos, Luís Rodrigues teve oportunidade de descobrir o funcionamento de um novo órgão e eleger o reitor. O ponto final surgiu na passada reunião do órgão, a 25 de novembro, quando apresentou a demissão. Garante que o método de trabalho que deixa vai fazer com que a sua equipa não falhe e percebeu, com o tempo, que governar é estar no terreno com as pessoas que decidem, influenciando as suas decisões. Sais do CG ao fim de cinco anos. Qual é o balanço que fazes do teu trabalho? O balanço que faço é positivo. Dei tudo de mim em representação dos estudantes e da universidade. Foi um trajeto muito longo. Mas estou realizado e muito satisfeito. Consigo, neste momento, afirmar que a representação estudantil nos órgãos é consequente, que podemos ter medidas concretas aprovadas. Podemos influenciar muito os processos de decisão. Ao longo destes cinco anos não fui sempre a mesma pessoa, fui evoluindo e isso fez-me perceber que a representação estudantil pode ser muito benéfica para os estudantes e a universidade. Mesmo sendo só cinco estudantes em 35 elementos do CG. Continuo a achar que é um número diminuto, devíamos ter uma representação superior. Não desconsidero a presença de elementos externos, porque trouxeram mais-valias à UC. O facto de o órgão ser mais pequeno do que o Senado trouxe mais operacionalização no processo de decisão, e isso é importante. Apesar de serem poucos os estudantes na CG, dizes que a representatividade pode ser boa. Como? A maior dificuldade para um estudante quando entra para o CG é o excesso de informação que há. A universidade é muito complexa. Um estudante ver de repente um relatório de contas da universidade na mão e dar-se com milhões de euros e tentar fazer análise... tem que se esforçar muito. Tive que aprender contabilidade, gestão, coisas que não sabia e que não eram da minha área de formação [Direito e Ciências Farmacêuticas] para dar um contributo enquanto representante dos estudantes. O modelo que acho que consegui instituir desde o início foi que o nosso mandato não se pode esgotar em reuniões de plenários e comissões, temos que ir ao local. Tivemos inúmeras reuniões periódicas com os responsáveis, desde o reitor, vice-reitores, o administrador dos SASUC, etc... Defendi um modelo proativo de representatividade estudantil. Há uma competência genérica que é apreciar os atos do reitor e do Conselho de Gestão e propor iniciativas ao bom funcionamento da

“Já dei tudo o que podia ter dado à universidade”

UC. Isso só é possível se formos ao terreno e conversarmos diretamente com as pessoas. E há um conjunto de decisões que se materializam e acabamos por ser governo assim. Governar é estar no terreno com as pessoas que decidem, influenciando as decisões delas, propondo novas iniciativas, pedindo revisões de modelos de organização. [Este ano] tivemos um ano muito intensivo de trabalho, foi muito produtivo. Reunimos imensas vezes os cinco, tivemos várias reuniões com o reitor e com os SASUC e estivemos em todo o lado.

Isso acontece porque estão os cinco mais interessados ou há mais disponibilidade? Porque não há a eleição do reitor. O machado de guerra foi enterrado a seguir a estas eleições. Não houve uma grande questão que nos dividisse e estivemos bastante unidos e com estratégias concertadas. Chegamos agora ao fim do ano [civil] e vai haver uma renovação. Saio eu, sai a Beatriz Mendes [da mesma lista] e o Jorge Quaresma. O Nelson Coelho não sei. É possível que haja agora uma grande renovação.

Mas isso porquê? Por motivos pessoais e por renovação política. Para dar oportunidade aos membros da minha lista. Tenho pessoas de valor que vão dar um excelente contributo.

Se o ano está a ser tão produtivo porque vão sair? O Jorge Quaresma e a Beatriz Mendes acabam os cursos, logo o mandato cessa. A questão é que nós deixamos um modelo de colaboração e gestão universitária no que diz respeito aos estudantes que acho que vai perdurar. Faz sentido haver uma candidatura a um órgão cujo mandato dura dois anos quando sabes que daí a um já lá não estás? Com o Processo de Bolonha e a diminuição de duração dos cursos, para o estudante estar preparado para ir para um órgão como o CG normalmente é na fase final do seu percurso. Já foi dirigente num núcleo ou numa DG/AAC e depois candidatou-se ao CG. Mas acho que faz sentido, a partir do momento em que a candidatura não é pessoal, é de lista. Uma

lista é composta por vários elementos, e qualquer membro dessa lista deve estar preparado para assumir o cargo. É verdade que o mandato é independente e autónomo [mas] a pessoa não se pode esquecer que foi eleita por uma lista. Uma pessoa pode sair por inúmeros motivos. Não é frustrar as expectativas dos eleitores. No meu caso, ia sair antes porque vou acabar o curso em Junho/ Julho. Já sabia que não ia cumprir os dois anos, e as pessoas que me conheciam e que votaram sabiam disso. Numa lógica de lista, em que há varias pessoas para substituir, faz sentido haver esses mandatos de dois anos. Então porque te demites? Por razões pessoais e por renovação política. Entendo que devo dar oportunidade aos mais novos. Porque é que só te apercebeste dessa necessidade de renovação passado um ano da tua candidatura ao teu terceiro mandato? Não foi premeditado. Cheguei agora ao fim de um ano e acho que, em cin-

co anos em que estive no governo da universidade, fazia sentido retirar-me. Já dei tudo o que podia ter dado à universidade. Vou continuar ativo mas também acho que tenho que dar oportunidade aos membros da minha lista e que estiveram comigo. Porque as pessoas que votaram em mim também votaram neles. Não é contraditório dizeres que há necessidade de renovação mas garantires que este foi um dos teus anos mais produtivos? Não porque espero e tenho o dever de criar as condições para que essa produtividade se mantenha. Não quero que haja essa quebra. A justificação que te dou é: foram cinco anos muito bons. Faz sentido porque eu próprio acho que novas ideias nesta etapa também são boas. Não quero ser um político profissional. As pessoas que se metem na política devem ter períodos em que saem. Isto é importante. Faço-o de forma humilde. Podia ficar agarrado a isto ate ao final do meu curso e não largar por nada, mas é uma decisão consciente que não vai prejudicar os estudantes da UC.


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 5

ENSINO SUPERIOR

Samuel Vilela tem 48 horas para apresentar pedido de impugnação Cerca de 150 estudantes de Medicina já garantiram, por escrito, que votaram na lista A, quando a urna em causa apenas obteve 94 votos do projeto Diana Craveiro A Comissão Eleitoral (CE) das eleições para a Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) ainda não deu por terminado o ato eleitoral. O presidente do órgão, Rui Brandão, publicou ontem, 16, um “termo de apuramento de resultados” para que a lista A possa apresentar queixa quanto ao processo eleitoral nos próximos dois dias. O problema arrasta-se desde o dia seguinte às eleições, 4 de dezembro, quando a lista A pediu a recontagem dos votos na urna 17, onde votam o primeiro, segundo e terceiro anos de licenciatura e ainda os estudantes de mestrado, doutoramento e pós-graduações do curso de Medicina. Em causa está a diferença de votos que houve da primeira para a segunda volta, que a lista, em comunicado, considera ter uma “discrepância flagrante”. Enquanto que a variação de resultados nas restantes urnas se mantém em números abaixo dos dez por cento, a urna em causa apresentou um decréscimo de 21 por cento de votos para a lista A e um acréscimo de 26 por cento para a lista T na segunda volta. Ou seja, na primeira volta a lista A obteve 183 votos contra 226 da lista T, enquanto que, na segunda volta, o projeto de Samuel Vilela conseguiu apenas 94 votos contra 374 do pro-

MARIA EDUARDA ELOY

jeto de Bruno Matias. O documento que formaliza o pedido de impugnação, a que ACABRA teve acesso, sustenta ainda que a urna pode ter sido adulterada já que a pessoa que a abriu no segundo dia de eleições a encontrou lacrada de maneira diferente. No entanto, esta é uma situação que, segundo o comunicado, “não consta em ata” pelo que não pode ter um enquadramento legal. Outro problema levantado foi a ausência de supervisão de delegados das duas listas durante o transporte das urnas. Um comportamento que, segundo Samuel Vilela, “não é comum” já que a CE devia ter o “cuidado” de “não as deslocar sem serem acompanhadas por delegados das listas”. Apesar das questões apresentadas por Samuel Vilela, o presidente da CE garante que não sabe “quais os fundamentos” que vão ser apresentados no pedido de impugnação. Rui Brandão revela que, “tomou conhecimento de muitas coisas que aconteceram durante o ato eleitoral através do comunicado” da lista A, não tendo havido “nenhuma queixa formal nem informal”.

explicar o que aconteceu. As urnas ficaram na Sala de Estudo da AAC, o que “não é cem por cento seguro”, admite, acrescentando que “a partir do momento em que as coisas ficaram tranquilas a preocupação foi

menor” e “houve coisas que ficaram lacradas e outras que não”. Além da recontagem, Samuel Vilela conta que “havia muita gente indignada na Faculdade de Medicina da UC porque não percebiam como é que tinha acontecido [a mudança de sentido de voto] de uma volta para a outra”. Para tentar provar que havia mais do que 94 pessoas no eleitorado da urna 17 a querer votar, a lista A está a recolher declarações de voto junto dos estudantes, tendo somado, até agora, cerca de 150 intenções. Samuel Vilela admite que, mesmo que a urna não existisse, perderia por 28 votos. O estudante garante que “não está em causa a vitória” da lista T, mas sim “a conduta da CE” relativamente a essa urna. “Achamos que essa urna tem que ser repetida, quanto mais não seja para credibilizar, para o futuro, o ato eleitoral”, reforça. O vencedor da segunda volta, Bruno Matias, diz que ainda não tomou uma posição pública porque, até à data, “a ata de encerramento ainda não foi publicada”. Esta é uma questão “entre a CE e a lista A”, que a lista T está a acompanhar “com calma” enquanto “trabalha na sucessão para tomar posse em janeiro”, acrescenta. Para o estudante de Direito, “o nome da AAC não pode ser posto em causa sem fundamento”, principalmente numa situação onde, considera, “os fundamentos são débeis ou inexistentes”. Matias entende que, além da recontagem pedida por Samuel Vilela, “em que tudo estava correto”, “no momento em que as urnas foram encerradas e assinadas estava tudo conforme legalmente”. Por isso mesmo, o candidato da lista vencedora defende que a contagem posterior que deu conta da ausência dos 141 boletins “é uma questão exterior a eleições e não do período eleitoral”.

não está decidido porque vai ser uma decisão entre os três”. Já Jorge Quaresma vai ser substituído por Marcos Branco, da faculdade de Letras. Confrontado com a possibilidade de uma eventual saída do órgão, Nelson Coelho diz que “neste momento” não tem ainda “uma decisão formada”. “Irei debater com os colegas da lista”, diz, acrescentando que a decisão vai ser comunicada “nas próximas semanas”. A confirmar-se a sua saída, vão ser quatro os estudantes a não concluir o mandato. Para o estudante do terceiro ciclo, o importante, neste processo de transição, “é manter um acompanhamento dos trabalhos e uma proximidade à rei-

toria e ao órgão da universidade”. O único que garante cumprir o mandato é José Dias, da FCTUC. O dirigente acredita que os novos elementos “que virão vão estar por dentro dos assuntos”. Visto passar a ser o elemento com mais experiência, José Dias mostra disponibilidade para “ajudar no que for possível”. O Conselho Geral (CG) é o órgão máximo da Universidade de Coimbra (UC). Na sua constituição conta com cinco estudantes, quatro de licenciatura e mestrado e um de doutoramento, 18 professores, dois trabalhadores não docentes e dez personalidades externas. Duas das principais competências do CG são fixar as propinas e eleger o reitor.

Boletins desaparecidos

Ainda antes do ato eleitoral, a CE contou os 12 mil boletins que foram encomendados, chegando à conclusão de que apenas existiam fisicamente 11.967. Apesar de, no dia 4, a recontagem dos votos não ter levantado qualquer problema, a lista A decidiu, cinco dias depois, a 9 de dezembro, pedir a contagem de todos os boletins de votos existentes, inclusive os que não tinham sido usados. Essa recontagem levou à conclusão de que 141 estão extraviados. Segundo Rui Brandão, este novo pedido “foi um aproveitamento” por parte da lista A, porque “se estava tudo correto [da primeira vez] a alteração foi

EM CAUSA ESTÁ o desaparecimento de 141 boletins de dia 4 para dia 9 e não durante o processo eleitoral”. Ou seja, o presidente entende que “o processo eleitoral nunca ficou comprometido”. Quanto ao desaparecimento dos votos, Brandão não consegue

Estudantes saem do Conselho Geral Três dos cinco estudantes do órgão máximo da UC vão sair do cargo. Razões apontadas passam pela necessidade de renovação e conclusão de ciclo de estudos Diana Craveiro Apenas um ano depois de serem escolhidos para o Conselho Geral (CG) da Universidade de Coimbra (UC), três dos cinco estudantes eleitos veem-se obrigados a abandonar este órgão de governo. O estudante

mais antigo, Luís Rodrigues, da faculdade de Direito, alega que sai “por razões pessoais e por renovação política”. Na altura da eleição, o estudante conseguiu eleger através do seu projeto, a lista C, Beatriz Mendes, da faculdade de Economia, que abandona também o CG por terminar o curso em fevereiro, um mês antes da próxima reunião do CG. A estudante garante que na lista “as pessoas estão todas preparadas” para os substituir e que há “reuniões constantes” para que a informação seja passada. Luís Rodrigues acredita que “novas ideias [de novas pessoas] também são boas”, pelo que há uma necessidade de renovação. O finalista entende que “deve criar as

condições para que a produtividade se mantenha”entre os estudantes do CG. Além destes dois estudantes, também Jorge Quaresma, da lista T, vai abandonar o seu cargo. À semelhança de Beatriz Mendes, o seu ciclo de estudos termina em março pelo que a continuidade no órgão é interrompida. O estudante encara a saída como uma “oportunidade para dar a outros colegas de listas” para “representarem os estudantes no CG”. Quanto às substituições, Beatriz Mendes avança que um dos elementos que vai subir é Diogo Martins, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC. Relativamente ao outro elemento, a dirigente diz que “ainda


6 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

CULTURA

Rússia dos anos 90 no Teatrão DANIELA GONÇALVES

Sete finalistas do curso de Teatro e Educação da ESEC levam a cena a peça “Casting”, de 30 de janeiro a 8 de fevereiro, na Oficina Municipal do Teatro

Daniela Gonçalves

Daniela Gonçalves O curso de Teatro e Educação da Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) apresenta a peça “Casting”, no início do próximo ano, procurando fazer um paralelismo entre a Rússia dos anos 90 e o Portugal contemporâneo. A peça é o resultado do trabalho desenvolvido, no âmbito do projeto “Vai haver um dia”, pelas sete estudantes do terceiro ano do curso. O grupo está a trabalhar com o encenador Ricardo Correia, em coprodução com o Teatrão. A peça conta também com alunos do primeiro e segundo anos que foram convidados a participar. OS ALUNOS DA ESEC levam a palco paralelismos entre a Rússia dos anos 90 e o Portugal contemporâneo

A peça

“Casting” é o nome da peça do russo Aleksandr Gálin. A história decorre no contexto da dissolução da ex-União Soviética e retrata a crise e as tensões entre as pessoas. Trata-se de um grupo de seis mulheres que participam num concurso de talentos, com a esperança de sair do país e conseguir uma vida melhor. O casting é feito por uma companhia japonesa que pretende levar as mulheres para um “night club”. O encenador Ricardo Correia explica que a turma está a trabalhar num paralelismo com os dias de hoje: “trabalhamos nessa ponte entre a Rússia dos anos 90 e o nosso Portugal de 2013, desta Europa que está a ruir, e das pessoas que não têm nenhum projeto de vida”. O encenador acrescenta ainda que “a história representa uma utopia que existia na

Machado de Castro é melhor museu

ex-União Soviética, tal como existe agora – sonhamos para além do que está aqui”. Rute Cabral, uma das finalistas da licenciatura de Teatro e Educação encarna a personagem de uma professora desempregada que não está satisfeita com as condições em que vive e participa no casting. “A Nina tem um distúrbio por causa de tudo o que está a acontecer no país: as transformações políticas, a entrada do capitalismo”, especifica. “Ela não consegue sobreviver na vida que está a levar: o sonho dela é ir para o Japão para ser reconhecida de alguma maneira”, acrescenta ainda.

Parceria entre a ESEC e o Teatrão

O curso de Teatro e Educação da ESEC completa 13 anos e já desen-

volveu parcerias com várias entidades culturais da cidade para o projeto final do último ano de licenciatura. A ligação ao Teatrão iniciou-se poucos anos depois da criação do curso e assumiu, desde então, vários formatos. A coordenadora da área de Teatro na ESEC, Margarida Torres, relembra que o ensino politécnico privilegia a relação com o mundo profissional: “a própria natureza da formação politécnica alia esta vertente com instituições fora do âmbito escolar”. Sublinha ainda a importância de manter estas parcerias para uma integração profissional dos alunos finalistas. “É importante haver ligação a estruturas culturais que possibilitem esta experiência profissional”, sublinha, acrescentando que “é

no Teatrão que os finalistas de Teatro e Educação fazem estágio”. A diretora artística do Teatrão, Isabel Craveiro, intitula a relação entre as duas entidades de “encontros” entre o universo académico e o universo profissional. “Esta experiência permite aos alunos aprender como é que se monta um espetáculo do ponto de vista da «carpintaria»: como se fazem os press releases para a imprensa, a produção cenográfica, o cronograma de produção, a divulgação”, esclarece. “Do nosso ponto de vista, é fundamental o contacto com as novas gerações e com esta aprendizagem”, sublinha a representante do Teatrão. A peça “Casting” está em exibição todos os dias às 21h30, exceto no domingo, 2 de fevereiro, em matiné, às 17h, na Oficina Municipal do Teatro.

O prémio Museu Português 2013 foi atribuído ao Museu Nacional Machado de Castro (MNMC), na passada sexta-feira, dia 13. A diretora do MNMC, Ana Alcoforado, frisa que a notícia da atribuição foi recebida com “muita surpresa, uma vez que o museu não se tinha candidatado ao prémio”. O Museu do Ar, em Sintra, foi também distinguido, ‘ex-aequo’, com o galardão, pela Associação Portuguesa de Museologia. A representante do Machado Castro admite uma possível parceria entre os dois museus premiados e adianta que na cerimónia de entrega dos prémios ficou “clara a vontade da equipa do Museu do Ar visitar o Museu Nacional Machado de Castro e vice-versa”. No espaço museológico decorreram obras de requalificação de 2007 a 2012. O Museu apresenta-se agora “com características inovadoras, preparado para receber públicos distintos”, resultado de um “esforço que é agora reconhecido com o título de Museu Português 2013”, frisa Ana Alcoforado. Em 2011, o Museu completou um século de existência e as comemorações terminam, em 2014, com o lançamento do livro “100 anos, 100 obras”. “É uma boa oportunidade para quem ainda não nos visitou, fazê-lo agora e descobrir as razões pelas quais é considerado o melhor museu português”, apela a diretora do MNMC.

CULTURA CEC – CENTRO DE ESTUDOS CINEMATOGRAFICOS

SECÇÃO DE FOTOGRAFIA

21 e 22 de dezembro

16 de fevereiro

13 de fevereiro

27 de fevereiro

21 Dezembro

Curso Cinemalogia - da ideia ao filme: Argumento 2 - Escrita

Introdução à Crítica de cinema

Ciclo ‘20 Anos de Cinema Português’- “Aquele querido mês de agosto”

Ciclo ‘20 Anos de Cinema Português’ - “A morte do Cinema e Ó Marquês vem cá baixo outra vez!”

Palestra Ainda os Sais de Prata com Rui Castela Cardoso

Departamento de Engenharia Informática, Universidade de Coimbra 09h00 às 18h00 60€ /Estudante

Departamento de Engenharia Informática, Universidade de Coimbra 09h00 às 18h00 45€ /Estudante

Mini-Auditório Salgado Zenha (AAC) 22h00 Entrada Livre

15 de fevereiro

6 de fevereiro

20 de fevereiro

Cinema documental Abordagens

Ciclo ‘20 Anos de Cinema Português’- “O Lugar do Morto”

Ciclo ‘20 Anos de Cinema Português’- Dot.com

Estúdios UCV, Casa das Caldeiras 09h00 às 18h00 45€ /Estudante

Mini-Auditório Salgado Zenha (AAC) 22h00 Entrada Livre

Mini-Auditório Salgado Zenha (AAC) 22h00 Entrada Livre

Mini-Auditório Salgado Zenha (AAC) 22h00 Entrada Livre

SECÇÃO DE DEFESA DIREITOS HUMANOS

Dezembro Exposição de Fotografia Documentação fotográfica do evento Black & Light Vários autores

Fevereiro

Edifício AAC

Tertúlia ‘Direito a liberdade religiosa’

Entrada Livre


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 7

CULTURA CARINA SOUSA GOMES • VEREADORA DO TURISMO, JUVENTUDE E AÇÃO CULTURAL DA CÂMARA MUNICIPAL DE COIMBRA

“Falta definir o que queremos ser”

Luís Grilo Carina Sousa Gomes, 31 anos, natural de Coimbra, é a nova vereadora do Turismo, Juventude e Ação Cultural da Câmara Municipal de Coimbra. Licenciou-se em Sociologia e fez o mestrado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Regressou à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra para se doutorar.Nunca esteve em juventudes partidárias e não é filiada. Foi convidada por Manuel Machado para o executivo, devido aos diversos trabalhos académicos que desenvolveu. Aceitou e considera uma “oportunidade rara, o facto de poder passar do teórico para o prático”. A sua passagem pela vereação autárquica fez com que as suas ambições políticas crescessem? Vou encarar este cargo tendo como grande objetivo o interesse público. Estou aqui para fazer o bem para a cidade, não para mim. E há muito a fazer, principalmente algumas arestas a limar. O que falta fazer para Coimbra se tornar um polo importante no Turismo? Em primeiro lugar, falta definir aquilo que nós queremos ser do ponto de vista turístico e cultural.

Aqui entra a vertente do conflito interno, entre investigadora da universidade e agora alguém que representa o município. Passei os últimos anos a avaliar o panorama turístico da cidade e, na maior parte dos casos, a criticá-lo. Penso que não estava a ser executado de forma eficiente. A Divisão de Turismo está numa pausa. Não vão ouvir falar dela durante meses. Estrategicamente, deixámos de fazer as coisas porque sim. Está na altura de definir uma estratégia. Neste momento está a ser elaborado um Plano Municipal de Turismo. Queremos definir os nossos produtos, as imagens que queremos promover e as estratégias que queremos seguir. Quando a empresa Turismo de Coimbra estava para fechar, falou-se dessas competências passarem para a câmara municipal. Tal vai acontecer? Para se passar à extinção duma empresa municipal é preciso aprovação em reunião do executivo, onde se nomeia uma comissão liquidatária e depois essa comissão é aprovada em Assembleia Municipal. A partir daí, em assembleia da própria empresa municipal, tem que se declarar que a extinção é o melhor caminho face às contas da empresa. Essa comissão liquidatária tem de ser registada na Conservatória do Registo Comercial. Foi este passo que falhou. O antigo executivo, desde abril, nunca registou a co-

missão liquidatária. A empresa continuava a sua vida plena e feliz nesta cidade e somos nós, neste momento, que estamos a tratar da sua dissolução, encontrando surpresas todos os dias. Como tornar as cidades pontos de relevo nas direções regionais? Temos uma participação, tal como todos os municípios, nestas entidades regionais. O que falta, do meu ponto de vista, é fazer corresponder ao município o peso institucional que consideramos que ele deve ter. Recentemente, fomos classificados Património Mundial da Humanidade. O volume de turistas a entrar na cidade já aumentou, mas provavelmente continuará a ser o mesmo tipo de turista que está cá três ou quatro horas, não consome, sai na universidade, desce a pé, apanha o autocarro e vai dormir à Figueira da Foz ou a Fátima. Queremos inverter a tendência de consumo turístico. Não queremos que o número aumente exponencialmente, mas sim que eles fiquem por cá. Essas tendências não se alteram em seis meses. É necessária uma estratégia. Sociologicamente, como descreveria o turismo que passa por Coimbra? É de curtíssima duração, em que muitas vezes Coimbra é apenas local de passagem, onde os turistas param porque fica a meio caminho entre Lisboa e Porto. Isto

acontece não só com o turismo individual mas também com os operadores turísticos. Que eu saiba, o anterior executivo não estabelecia pontos de contacto com os operadores. Enquanto investigadora, percebi que a universidade promove-se muito melhor que o próprio município, tendo contactos diretos com operadores de vários pontos do mundo, ao contrário do município. Ora, este trabalho tem de ser feito com o município. Em relação à Associação Académica de Coimbra, como pode a câmara apoiar as secções culturais e restantes organismos? A câmara tem vindo a apoiar as secções culturais. E não só. Nós temos um protocolo com o Teatro Académico de Gil Vicente. Isso é uma forma de apoiar as iniciativas da universidade e da associação. Mas, garanto-lhe: há protocolos e apoios que vão ser revistos. Porque há protocolos que foram assinados a poucos dias das eleições. Tire as conclusões que quiser. Os apoios que a câmara continuará a oferecer exigem que sejam patentes e bem demonstrados os interesses e as vantagens da iniciativa para o município. Há protocolos estabelecidos em que o interesse público não está comprovado. Ou pelo menos não o percebo. E como diz o meu presidente, se eu não os percebo, o povo também não os perceberá. Nós estamos aqui pelo bem de todos, pelo bem da cidade.

LUÍS GRILO

Há ideia de se realizarem novas iniciativas? Se tivermos condições, vamos recuperar um dos maiores eventos que esta cidade já teve: os Encontros de Fotografia! Vamos analisar financeiramente primeiro. É nosso desejo trazer uma atividade que contribua para desenvolver e engrandecer esta cidade. Há outras ideias, mas é preciso conversar com as pessoas e perceber até que ponto estão disponíveis para colaborar. Até ao momento, as conversas que tenho tido têm sido todas bem acolhidas. O que será feito, agora, na época natalícia? Desde já, temos música de Natal, na rua. Temos um pinheiro solidário, onde as pessoas podem deixar a sua prenda e dizer a que instituição querem que seja oferecida. Temos animação para os mais novos. Temos uns vouchers que dão direito a entrar numa das diversões infantis presentes na baixa, quando se compra algum produto no comércio da zona. Há agora a Feira de Artesanato Urbano na Praça do Comércio. Temos um presépio do escultor Cabral Antunes, que este ano instalámos no museu municipal do Chiado. E teremos a nossa festa de fim de ano, com pirotecnia e cujas entradas serão gratuitas. Depois da Passagem de Ano, já há atividades agendadas? O lixo vai ser apanhado no dia 1 (risos)...


8 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

DESPORTO

Dez meses de vitórias internacionais da Secção de Cultura Física

RAFAELA CARVALHO

A mudança de enfoque da atividade comercial para as competições resultou em dezenas de medalhas e recordes dos atletas de powerlifting da secção Ian Ezerin O balanço da atividade da Secção de Cultura Física (SCF), ao longo do último ano, está marcado por várias vitórias nos campeonatos nacionais, da Europa e do Mundo. Depois de mais de cinco anos sob o controlo da comissão administrativa do Conselho Desportivo (CD), a secção voltou a ter uma direção, a partir de fevereiro de 2013. Agora, “há campeões do mundo e recordistas do mundo” treinados na secção, declara o presidente da SCF, Fernando Reis, antigo enfermeiro, campeão europeu e um dos culturistas mais velhos da Europa. Todas as conquistas, salienta, foram resultado do trabalho feito durante os dez primeiros meses da nova direção. Os atletas da secção conseguiram chegar ao pódio por 14 vezes no campeonato da Europa, que se realizou em Vila do Conde, e por quatro vezes no campeonato mundial, em Praga, na República Checa. Para além disso, foram várias as competições ganhas a nível nacional e batidos alguns recordes mundiais. “Tenho uma grande elite de atletas. São fantásticos. Chegámos ao ponto mais alto”, sublinha o presidente da SCF.

O ÚLTIMO INVESTIMENTO da secção de cultura física foi de cerca de 20 mil euros O ginásio da SCF, situado na antiga piscina do Estádio Universitário, tem no seu espaço cerca de seis toneladas em pesos e dezenas de máquinas de vários tipos, algumas das quais adquiridas há dois ou três meses. A adicionar ao espaço comum, está também uma sala, que custou 20 mil euros, só para os atletas de competição. Um dos atletas que marcou presença pela SCF em competições foi Paulo Santos, estudante na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da UC, e ao mesmo tempo diretor do des-

porto da SCF. O praticante de powerlifting, há mais de sete anos, conseguiu ser campeão europeu na categoria até 100 quilos open e ficou em quinto lugar no campeonato do mundo. O coordenador do CD, Miguel Franco, elogia a reorganização que a nova direção tem feito na SCF, especialmente no que diz respeito à competição. “Tínhamos um espaço que funcionava muito para a vertente comercial e não para a vertente competitiva”, explica o coordenador do CD, constatando que os resultados positivos ao nível nacional

e internacional são “fruto desta direção”.

Os campeões sem reconhecimento

Uma das questões que o presidente da SCF e Paulo Santos levantam é a necessidade de uma maior divulgação do powerlifting e a falta da atenção por parte da Direção Geral da Associação Académica de Coimbra (AAC) e da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) às vitórias dos atletas da secção.”Temos recordistas de campeonatos, mas sem reconhecimento”, critica Fernando Reis.

Em resposta a essa questão, o coordenador do CD, explica que com o propósito de dar atenção às conquistas dos atletas, o CD e a AAC organizam, todos os anos, “os Prémios Salgado Zenha, onde têm a oportunidade de reconhecer e premiar os atletas que distinguiram a AAC dentro e fora de Portugal”. Por sua vez, o novo vereador do Desporto da Câmara Municipal de Coimbra, Carlos Cidade, diz que a direção da CMC está sempre disponível para “valorizar todos os atletas e equipas que elevam o nome de Coimbra, dentro e fora de Portugal”.

DESPORTO AAC

SECÇÃO DE DESPORTOS NAÚTICOS

SECÇÃO DE BASEBALL

18 de janeiro

23 de fevereiro

Miranda VS Académica

Académica VS Universidade de Aveiro

Softbol Masculino

jogo de preparação de

10h00 e 12h00 Agrupamento de Escolas de Miranda do Corvo

basebol sénior masculino para a

“Liga Atlântica de Basebol” Campo Santa Cruz de Coimbra

SECÇÃO DE BADMINTON

10 de Janeiro a 7 de Fevereiro

7 de Fevereiro a 7 de Março

Curso de Iniciação

Curso de Iniciação

Às 4ª e 6ª feiras às 18h30 e aos Sábados às 15h00

Às 4ª e 6ª feiras às 18h30 e aos Sábados às 15h00

Coimbra

Coimbra

21 de fevereiro Campeonato Nacional Universitário DIRETO PARES Covilhã

SECÇÃO DE XADREZ

12 de fevereiro

26 de fevereiro

10 de janeiro

8 de Fevereiro

segundas-feiras

Académica VS Mira

Académica VS Miranda

4ª Prova Torneio Escolas e Complementares

Rapidinha à 2ª

Liga Sport Zone de Futsal

14h30 - Softbol Masculino 16h30 - Softbol Feminino

3ª Prova Torneio Escolas e Complementares 09h00 à 13h00

09h00 à 13h00

Figueira da Foz

Coimbra

14h30 - Softbol Masculino 16h30 - Softbol Feminino

Campo Santa Cruz de Coimbra

21h00 Sala da Secção de Xadrez


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 9

DESPORTO

Associação Académica quer criar gabinete de apoio a secções desportivas Conselho Desportivo está a desenvolver um projeto que pretende melhorar a gestão das secções desportivas que enfrentam dificuldades financeiras, motivadas pela crise ou por dívidas Ian Ezerin Conselho Desportivo (CD) da Associação Académica de Coimbra (AAC) pretende criar “um gabinete do desporto”, que estará dentro da estrutura do CD, informa o coordenador do órgão, Miguel Franco. Esta solução pretende dar uma resposta aos problemas de gerência nas secções da casa. O gabinete tem como objetivos proporcionar “o atendimento contínuo às secções desportivas” e “analisar e supervisionar a questão dos orçamentos e da viabilidade das secções”. O coordenador do CD explica que o projeto pressupõe “o acompanhamento das secções” através de funcionários “jovens recém-licenciados”, contratados “ao abrigo de programas públicos”. Os casos de dívidas e de penhoras em que algumas das secções desportivas foram prejudicadas por decisões dos seus dirigentes criaram o pressuposto para a questão do controlo da gestão ter sido levantada. Apesar de o estatuto da AAC incluir o artigo que prevê a responsabilidade dos presidentes das direções desportivas, as dívidas continuam a surgir.

O ex-vereador do Desporto na Câmara Municipal de Coimbra, Luís Providência, argumenta que a AAC, como responsável pela “promoção de cerca de um terço de toda a atividade desportiva que se realiza em Coimbra, deve acautelar a forma de gestão das secções desportivas”, através da garantia de “um suporte profissional nessa área da gestão”. Segundo Providência, para se garantir a estabilidade financeira das secções, “devem ser estabelecidos objetivos desportivos em função dos meios disponíveis” e “os orçamentos e ‘planfonds’ anuais de cada secção devem ser acompanhados” e controlados, salienta. A situação financeira das secções desportivas enquadra-se no panorama difícil do país e, de acordo com o responsável do CD, “os apoios às secções têm morrido”, em consequência, “grande parte das secções, hoje, tem metade do orçamento que tinha há dois ou três anos atrás”. Apesar disso, Miguel Franco admite que o CD está a “supervisionar todas as contas e todas as faturas” das secções desportivas, não tendo conhecimento “de nenhuma secção que esteja numa situação calamitosa”. O novo vereador do Desporto da Câmara Municipal de Coimbra, Carlos Cidade, concorda com esta estratégia de supervisão, e defende que este trabalho “deve ser contínuo, ao longo da época, e não apenas no início da mesma”. No entanto, Carlos Cidade reconhece que “é natural que, com a crise, tenham diminuído os apoios ao desporto em geral e que esse factor afeta a sustentabilidade de algumas mo-

TERESA BORGES

últimos três anos se têm situado nos 450 mil euros, são distribuídos por todas as secções através do CD, afirmou Miguel Franco. A outra metade do dinheiro, que algumas das secções conseguem angariar, vem de patrocinadores diretos. Nesse sentido, “há uma grande discrepância”, diz o coordenador do CD e explica que, dentro da AAC, há “secções cujo orçamento por uma época” atinge cerca de “150 mil euros”, e, por outro lado, há outras que “gastam numa época 2 mil euros”.

Possível criação de Organismos Autónomos

A SITUAÇÃO DIFÍCIL do país reflete-se na secções desportivas dalidades”.

Desequilíbrio orçamental

O volume anual nas despesas

das secções desportivas da Associação Académica de Coimbra (AAC) ascende a um milhão de euros, segundo Miguel Franco. Os apoios financeiros, que nos

Outro modo de alterar as formas de gestão pode ser a transformação de secções desportivas em Organismos Autónomos, que implicaria a retirada automática da secção do único número de contribuinte da AAC. Esta ideia, na perspectiva de Luís Providência, é “o caminho mais óbvio para as modalidades que pretendem ser mais competitivas e que queriam assumir projetos profissionais ou semi-profissionais”. No entanto, a passagem de uma secção para um Organismo Autónomo não garante a solução dos problemas financeiros. Miguel Franco explica que, para uma secção com dívidas, essa possibilidade de alteração não implica que “as dívidas passam para o Organismo Autónomo”. Ao contrário, é a AAC “que fica com as dívidas”. “Não podemos permitir que as secções ou os dirigentes se sintam irresponsáveis e usem isto como uma ferramenta para fugir às dívidas”, diz o responsável do CD.

Desportos de Inverno com pouca expressão em Coimbra A Universidade de Coimbra contou apenas com uma representação no campeonato nacional universitário de ski e de snowboard em 2013 Ian Ezerin Valério Reis, estudante do 3º ano da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, é praticante de snowboard há mais de quatro anos, e já conta com participações em competições nacionais e internacionais. O atleta compete na vertente slopstyle e foi o único representante da Associação Académica de Coimbra (AAC) no torneio

nacional universitário de ski e de snowboard, organizado pela Federação de Desportos de Inverno de Portugal (FDIP) e pela Federação Académica do Desporto Universitário (FADU), em 2013. Valério Reis admite que participou “em nome da AAC” apesar de a instituição, por dificuldades financeiras, não ter apoiado com uma contribuição significativa para compensar as despesas do atleta – apenas foram pagos os exames médicos. Valério Reis explica que compreendeu a situação, visto que “tinha possibilidade” de ir por conta própria. O estudante pretende agora reunir apoio da AAC para, em 2014, voltar a representar a academia de Coimbra no referido torneio. Relativamente à comunidade estudantil em Portugal, Jaime Rendei-

ro, membro da direção da FDIP, diz que a participação é bastante elevada e que “as modalidades de inverno estão bastante intrínsecas na comunidade estudantil”, especialmente o snowboard - “a modalidade rainha do desporto universitário de neve”. Devido às condições climatéricas e geográficas limitadas, o ski, a patinagem no gelo e outros desportos de neve têm pouca representatividade em Portugal. No entanto, o interesse por essas modalidades é comprovado pela existência da FDIP e pelo facto de Portugal ser representado por dois atletas na 22ª edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, que se realizarão na cidade de Sochi, na Rússia, em 2014. De acordo com Jaime Rendeiro, as vertentes que têm crescido são principalmente o ski alpino, ski nórdico e snowboard.

“De resto”, diz o responsável, não há conhecimento de outras modalidades que “se pratiquem de forma mais séria, em Portugal”.

Criar uma Secção de Desportos de Inverno

Um dos marcos da popularidade de um desporto em Coimbra é a existência da respectiva secção dentro da AAC. A procura das modalidades de desportos de inverno ainda não atingiu o nível necessário para a criação de uma secção desportiva. O coordenador do Conselho Desportivo (CD) da AAC, Miguel Franco, explica que existe uma série de procedimentos obrigatórios, dos quais o essencial é que “a ideia de uma nova secção tenha que surgir de um grupo de pessoas interessadas”, e que têm que fazer a proposta ao CD.

Na opinião de Valério Reis “não há necessidade” de criá-la, devido aos reduzidos números de praticantes dentro da academia. “Estamos um pouco limitados, tanto a nível orçamental, como a nível de pessoas”, diz o estudante. No entanto, acha que a direção-geral da AAC devia começar a interessar-se pelas modalidades e “começar a organizar viagens” para a prática de desportos de inverno. De acordo com Jaime Rendeiro, a AAC não tem tido contacto direto com a FDIP e o “trabalho de proximidade” entre as duas organizações, neste momento, não existe. Contudo, o responsável da FDIP admitiu que a federação está interessada em “todas as iniciativas que sejam tomadas com o objetivo de promover e divulgar” as suas modalidades.


10 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

CIÊNCIA & TECNOLOGIA

E

m 2012, Portugal tinha 10.514.800 habitantes, dos quais 15,7 por cento estavam desempregados. No universo da educação, havia 390.273 alunos matriculados no Ensino Superior. Toda esta informação provém de estatísticas, definidas como a ciência da interpretação de dados. As pessoas são bombardeadas com regularidade nos media por dados estatísticos. Quer seja o número de divórcios por cada cem casamentos, os resultados de sondagens para eleições legislativas, ou a despesa pública com saúde, por exemplo, é difícil escapar no quotidiano a conteúdos que não estejam, de alguma forma, associados a estatística. Para assinalar a importância desta ciência, em 2013 está a decorrer o Ano Internacional da Estatística. Agora a chegar ao fim, foi um período marcado pela organização de diversos eventos à escala mundial, com o intuito de reflexão sobre esta área de conhecimento. Em algumas das palestras, conferências e colóquios foram discutidos desafios da estatística e a sua relação com diversos contextos, como por exemplo, o mediático. Grande parte da informação estatística que é veiculada para a sociedade é transmitida através dos meios de comunicação. Nesse sentido, o docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) e antigo diretor das Contas Nacionais no Instituto Nacional de Estatística (INE), Pedro Ramos, defende que “a comunicação social deve ser mais conhecedora dos dados que apresenta”, e “ter especialistas dentro dos seus corpos redatoriais”, para “não se limitar a reproduzir números, que às vezes parecem ser uma coisa e são outra”. Esta posição é justificada pela preocupação do docente em manter uma leitura fidedigna dos dados estatísticos. Da mesma opinião é o antropólogo, Fernando Florêncio. O também docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC), afirma que, caso a interpretação dos dados estatísticos seja incorreta, há um “grande risco para a população” que “é a desinformação”.

FOTOMONTAGEM POR MARIA EDUARDA ELOY

A arte da manipulação estatística

A ciência do erro calculado

Falsas estatísticas e manipulação da realidade

Fernando Florêncio adianta que, quando há manipulação de estatísticas, que chegam à sociedade sem filtro, “a consequência mais grave é o deformar da realidade e as pessoas acabarem por ter uma perceção que não corresponde exatamente ao que se está a passar”. Podem mesmo “formar opiniões e tomar até decisões de caráter individual ou, mesmo, coletivo baseadas em supostas visões e representações da realidade que estão altamente manipuladas”, acrescenta. De forma acidental ou proposita da, a manipulação estatística pode assumir várias formas. Por exemplo, a utilização de uma amostra

pouco representativa da população em estudo ou falhas de cálculo da margem de erro impedem que haja fiabilidade no estudo. Também, ocultar dados desfavoráveis ou interpretar de forma errada os resultados são exemplos de manipulação estatística. Pedro Ramos exemplifica, através da analogia do governo e da oposição, que por vezes “uma escolha judiciosa de estatísticas leva a transmitir um excesso de otimismo ou um excesso de pessimismo”. O economista não se refere ao governo e oposição atuais, em particular, e explica que “em geral os governos tendem a sobrevalorizar as mensagens otimistas e as oposições tendem a sobrevalorizar mensagens pessimistas”. “Ambas até podem ter algum fundamento estatístico” mas “são uma leitura parcial da realidade”, complementa. Fernando Florêncio destaca algumas sondagens, como um exemplo de ambiguidade de resultados. “Toda e qualquer ciência baseada em números é passível de ser manipulada: depende do modo como se define o universo a analisar e depois, dependendo do tipo de teste utilizado, a inferência sai diferente”, salienta.

Em 2013 assinala-se o Ano Internacional da Estatística. Apesar de pouco comum em Portugal, a manipulação de dados estatísticos pode levar a uma deturpação da realidade é a principal consequência. De forma a garantir a sua proteção a sociedade deve procurar informar-se sobre a origem dos estudos. Por Maria Eduarda Eloy e João Martins

Pedro Ramos define a estatística como “a arte de lidar com o erro”, uma vez que todos os estudos têm uma margem de erro definida através de fórmulas matemáticas específicas, que permite aos investigadores “controlar o erro”, quantificá-lo sempre que possível, e ter a certeza que é “pequeno”. A existência do erro, não implica, portanto, que a estatística esteja mal construída ou seja manipulada. O professor da FEUC vinca que, em Portugal, a manipulação estatística é rara, principalmente nos dados oficiais, dado que são “geralmente conferidos por organizações internacionais”. Ressalva, contudo, que nas estatísticas privadas, a fiabilidade não é garantida. Fernando Florêncio alerta, a propósito da manipulação deliberada de estudos, que “ainda existe em Portugal muito a noção de que usando a “ciência”, está-se a dizer verdade; o leitor comum se lê uma estatística no jornal, ou se a ouve na televisão, toma-a como verdadeira”. O economista salienta que nas situações em que há desinformação, “o que é importante é as pessoas estarem bem informadas”, sobre a origem e contexto dos estudos, porque assim “conseguem detetar o que são e o que não são estatísticas, e onde é que há tentativa de manipular a interpretação dos dados”. Até à data de fecho da edição não foi possível obter declarações do INE, da Sociedade Portuguesa de Estatística e do sociólogo, investigador e diretor do Centro de Estudos Sociais da UC, Boaventura de Sousa Santos.


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 11

CIDADE

Comerciantes locais temem Ikea

D.R.

Empresa sueca quer construir loja junto ao Fórum de Coimbra. Apesar dos mais de 200 postos de trabalhos previstos, comerciantes locais rejeitam o projeto, que não tem data de abertura. Quercus e vereador Ferreira da Silva defendem nova localização, que permita o aproveitamento de zonas abandonadas. Por Carla Sofia Maia

C

oimbra vai receber a empresa de móveis e decoração sueca Ikea, que quer expandir a sua rede de lojas além das grandes áreas urbanas. As deslocações que os clientes são obrigados a fazer são um dos motivos apontados para o projeto, que se vai localizar no planalto de Santa Clara, junto ao Fórum Coimbra. Estima-se a criação de 220 postos de trabalho e cerca de cem empregos indiretos.

Baixa poderá ser afetada

O sócio da empresa Jorge Mendes Decorações, Manuel Mendes, tem uma opinião “completamente negativa” em relação ao empreendimento na cidade. Segundo ele, “o Ikea é o que falta para completar o desastre total” a nível económico, na cidade, já que “vai acabar com imensos empregos no comércio tradicional”. Manuel Mendes acusa “as pessoas que governam” de “deixarem a parte histórica cair imenso”, devido ao “desinteresse”. “A baixa está envelhecida, suja, feia e triste”, acrescenta. Nesse sentido, Manuel Mendes confessa estar “revoltado com as facilidades que dão às grandes superfícies”. Apesar de acreditar que não vai ser dos “mais afetados”, Manuel Mendes, classifica este empreendimento como um “crime total” por

parte dos governantes. No mesmo sentido, a dona da loja “Casa da Luisa Antiguidades”, Maria Luisa Rodrigues, acredita que a vinda do Ikea para Coimbra “pode afetar tudo”. Segundo ela, “é mais um espaço onde as pessoas vão comprar o que não precisam”. Além disso, Maria Luisa Rodrigues acredita que “o país é tão pequeno que não precisa de mais lojas”, correndo o risco de “saturar o mercado”. Opinião contrária tem o presidente da junta da União de Freguesias de Santa Clara e de Castelo Viegas, José Simão. O autarca tem “a certeza” que esta é “uma boa aquisição para a cidade”, uma vez que “vai trazer investimento, criar empregos e infraestruturas”. José Simão admite que “a concorrência comercial pode não ser boa para um ou dois comerciantes do mesmo ramo”, mas acredita que “em geral é vantajoso”. “Aquilo que me custa”, prossegue, “é Coimbra não fazer nada para que os descontos dessas grandes empresas que estão aqui, não sejam feitos em Coimbra”. O autarca diz que o argumento da desigualdade em relação ao comércio tradicional “é uma parvoíce” e que “as empresas na Baixa estão quase todas a falir porque não evoluem”, considerando que “têm de se adaptar à concorrência”.

O vereador da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) pelo Movimento Cidadãos Por Coimbra, José Ferreira da Silva, defende que o empreendimento “é uma agressão à Baixa”, mas lembra que “também pode haver um impacto positivo com a atração de visitantes à cidade”. “É preciso saber também conjugar as duas coisas no sentido de que a cidade ganhe no todo com uma superfície desta natureza”, conclui. Relativamente às vantagens das lojas de comércio local em relação às grandes superfícies, os comerciantes são unânimes: atendimento personalizado.

Localização levanta dúvidas

José Ferreira da Silva diz que o estudo de impacto ambiental que foi levado à última sessão camarária “não merece reserva a não ser num aspeto: o local escolhido”. “A localização assumida foi imposta pelo Ikea em que os poderes públicos não tiveram qualquer papel relevante e isso preocupa”, explica o vereador. Ferreira da Silva defende que “havia alternativas bem melhores” como “o velho parque industrial da Pedrulha”. Também o engenheiro da Quercus Domingos Patacho defende outra localização “muito antes do Ikea comprar os terrenos em cau-

sa”, uma vez que se trata de uma área “onde há espécies protegidas, como o sobreiro”. De facto, prevê-se que sejam abatidos 23 sobreiros (seis na área a construir e 17 nas áreas de circulação externa). Ainda assim, o estudo diz que o projeto foi concebido de modo a salvaguardar o maior número de sobreiros possível e que está prevista a plantação de novos exemplares. Domingos Patacho diz que “o problema é o cumprimento da legislação” que prevê que os sobreiros só possam ser abatidos “por um motivo de imprescindível utilidade pública”, como a construção de “um hospital”, que constitui um “regime de exceção”. Confrontado com esta questão, o autarca José Simão afirma que “Santa Clara é o melhor sítio para um investimento”, já que “passam por ali milhares de pessoas, tem infraestruturas, tem o IC2 e não está fechado de casas como está a margem direita.” “Quem é que vai querer construir num sítio desocupado que não tem passagem para o grande público?”, questiona. Em relação aos sobreiros, José Simão considera que se trata de “uma falsa questão”. “Os sobreiros que estão em Santa Clara são de nascimento espontâneo, nunca produziram uma rolha”, prossegue o autarca que considera que

“já foram feitas destruições antes e ninguém se preocupou”. “As pessoas estão a por conflito em tudo, Coimbra às vezes nem merece sair da cepa torta”, conclui. Domingos Patacho desmente que os sobreiros não tenham valor comercial. “Eles produzem cortiça, como todos os sobreiros, que era explorada”, afirma. Porém, “uma loja dá mais lucro do que a produção de cortiça”, conclui o engenheiro da Quercus. Estão também previstas alterações nas vias de circulação através da construção de um novo nó de ligação com o Itinerário Complementar 2, no limite sul da área de implantação do projeto, designado nó de S. Martinho e a construção de uma rotunda. Para obter licenciamento por parte da câmara municipal, o projeto terá de cumprir os requisitos do Plano Diretor Municipal, que controla a ocupação do solo, sendo a categoria de uso do solo afeta a zonas residenciais e áreas verdes de proteção. Ainda não é conhecida a data relativa à abertura da loja. Contactados pelo Jornal Universitário de Coimbra A CABRA, o vereador responsável pelo pelouro da Gestão Urbanística, Carlos Cidade, e o presidente da CMC, Manuel Machado, recusaram prestar declarações.


12 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

PAÍS & MUNDO

PIIGS

INFOGRAFIA POR CATARINA CARVALHO E RAFAELA CARVALHO

PORTUGAL, IRLANDA, ITÁLIA, GÉRCIA, ESPANHA

PIIGS é a denominação atribuída pela imprensa económica ao conjunto que agrupa o nome [em inglês] dos países com um défice acima dos 6,4 por cento nas suas contas públicas e que têm sido alvo de políticas de austeridade.

Défice Público 2012 DADOS EUROSTAT

Projeto Ulisses: a expectativa de um travão à austeridade Um ano após o lançamento do Projeto Ulisses, pelo eurodeputado Rui Tavares, a projeção de um documentário sobre a iniciativa deu-lhe um novo mediatismo. O projeto tem como objetivo revitalizar as economias dos países do Sul da Europa, através de um modelo semelhante ao do New Deal norte-americano dos anos 30. No entanto, as insuficiências da atividade são postas em perspetiva. Por Pedro Martins

O

s países do Sul da Europa Portugal, Espanha, Itália e Grécia, em conjunto com a Irlanda - continuam a manter um défice acima dos 6,4 por cento, nas suas contas públicas, de acordo com os dados do Eurostat. Este grupo, denominado pela imprensa económica como PIIGS , sigla que agrupa os nomes desses países em inglês e que se aproxima da palavra inglesa para “porcos”, tem sido alvo de políticas de austeridade por parte da União Europeia (UE). A procura de alternativas a este modelo foi o mote para a criação do Projeto Ulisses, uma iniciativa do eurodeputado português Rui Tavares, que teve origem em finais de 2012. De acordo com o eurodeputado, este é “um plano de desenvolvimento para os designados PIIGS, baseado na sua valorização e não na sua desvalorização”. O nome para o projeto baseia-se no mito da Odisseia, cujo protagonista se chama Ulisses. Tavares explica que nesse mito “os marinheiros de Ulisses são transformados em porcos pela feiticeira Circe”. O eurodeputado acrescenta que “os países do sul da Europa

também foram transformados em porcos, mas por algo chamado “crise”. “Pretendemos fazer o mesmo que Ulisses, isto é, reumanizar esses países, e isso só é possível se eles tiverem um papel a desempenhar e uma palavra a dizer”, assevera. Num cenário onde a Alemanha é o único país europeu com receitas superiores a despesas, ou seja, sem défice, o professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Stuart Holland, considera que os países do Sul da Europa “não conseguem competir “ com este país. Para o economista, que é também uma das personalidades envolvidas no projeto,“o modelo alemão de integração económica é impossível”, porque “a Alemanha tem uma capacidade industrial bastante forte”.

New Deal como modelo a seguir

O principal objetivo do projeto Ulisses é relançar a economia europeia a partir dos países do Sul. De acordo com o professor da FEUC, “a Europa tem que reafirmar a sua coesão económica ou irá desintegrar-se”.

Holland acrescenta que “o modelo a seguir é o do New Deal norte-americano dos anos 30. Parte do seu sucesso resultou do investimento ao nível social e ambiental”. Essa componente ambiental concretiza-se, sobretudo, “no investimento em energias renováveis , nas quais os países do sul são ricos, e na sua exportação para o norte da Europa”, afirma o eurodeputado. No caso irlandês, o apoio a estas medidas é notório. Nas palavras do secretário-adjunto e chefe da secção de assuntos europeus do Ministério das Finanças da Irlanda, Michael McGrath, “qualquer medida que reduzir a dependência da União Europeia de recursos externos será louvável”. Esta iniciativa conta com o envolvimento do grupo parlamentar europeu dos Verdes, do qual Rui Tavares faz parte. Contudo, o eurodeputado afirma que “o objetivo do projeto é superar as fronteiras do grupo”. “Temos colegas irlandeses socialistas a colaborar connosco”, adianta. Tavares declara mesmo que o grupo quer “a longo prazo, que o centro e a direita se possam

juntar” a eles, uma vez que querem “que as reformas se façam e para isso é necessário extravasar a própria maioria política” de cada país. Além disso, o projeto conta com a participação de “pessoas de diversas ONG’s, como a Amnistia Internacional”, acrescenta. O diretor da Associação de Estudos Europeus de Coimbra (AEEC), Manuel Lopes Porto, apresenta uma perspetiva otimista quanto à evolução desta solução. “Os restantes estados-membros deverão apoiar o projeto caso avance”, afirma o diretor da AEEC. Lopes Porto acrescenta que ”um maior equilíbrio na UE é também do interesse dos mais ricos, pois evita tensões sociais e aumenta as suas oportunidades de mercado”. A possibilidade do projeto ser ampliado para outras regiões da Europa no futuro não é descartada pelo seu autor. “O projeto Ulisses, após dez anos nos países do Sul, pode partir para novas aventuras que tanto poderão ser no Leste como em determinadas áreas de o vizinhança da UE, como a Ucrânia”, afirma o eurodeputado.

Projeto apresenta insuficiências

Contudo, apesar de Rui Tavares afirmar que “o projeto ainda não foi alvo de críticas por estar numa fase inicial”, são apontadas insuficiências nas suas propostas. De acordo com a professora de economia internacional da facauldade de Economia, Margarida Antunes, “a situação global do comércio mundial é negligenciada”. A economista acrescenta que “a União Europeia está numa fase de indefinição macroeconómica e de estagnação”. “É essencial uma mudança a nível institucional para que este tipo de medidas funcione, ou os estados-membros estarão limitados na sua atuação”, assevera. Margarida Antunes estende a sua crítica para a própria ideia de base do projeto, ao afirmar que “este tipo de propostas poderá acentuar a divisão entre o norte e o sul”, embora reconheça que “qualquer proposta que venha no sentido de ser uma alternativa ao funcionamento atual da União Europeia ou da zona euro é sempre bem-vinda”. com Luís Saraiva


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 13

OPINIÃO Cartas à Diretora O que falha na Educação em Portugal CARLOS RODRIGUES CARVALHINHO*

Chamada opinião: assim, os docentes nacionais conseguem melhores avaliações do que os colegas da Suíça ou da Alemanha, cujos sistemas de ensino costumam aparecer bem cotados nos relatórios PISA, da OCDE, bem como do Japão e da Itália.

Portugal foi o único país da União Europeia que nos testes PISA de 2009 apresentou em simultâneo uma “despesa elevada” em Educação e “maus resultados” naquela provas, que visam aferir a literacia dos jovens de 15 anos em leitura, matemática e ciências, segundo um artigo que acompanha o Boletim de Inverno do Banco de Portugal Nos testes PISA de 2009, Portugal aparece no 30 lugar no ranking na disciplina de matemática, 25 lugar no parâmetro de leitura e 33 lugar em Ciência, Em relação ao estatuto social dos professores em Portugal é o 14.º do mundo, numa lista com 21 países, conseguindo um resultado mais baixo do que a maioria dos seus parceiros europeus como Espanha, França ou Finlândia. Ainda assim, os docentes nacionais conseguem melhores avaliações do que os colegas da Suíça ou da Alemanha, cujos sistemas de ensino costumam aparecer bem cotados nos relatórios PISA, da OCDE, bem como do Japão e da Itália. Em comparação com isto na

Finlândia e Suécias as escolas são financiadas por completo pelo governo. As agências governamentais passaram a autoridade nacional para as autoridades locais. São os próprios educadores em vez de gestores, técnicos contabilistas, que constroem e aplicam os processos de ensino aprendizagem. Em cada escola existem os mesmos objetivos nacionais elaborados em conjunto pelos diferentes elementos educativos. O resultado disto é visível na forma como as crianças são educadas. Todos os alunos na Finlândia têm as mesmas condições, obtendo uma educação de qualidade, não importa se vivem numa aldeia rural ou uma cidade. Não há rankings, comparações ou competições entre os alunos, escolas ou regiões. As diferenças entre os alunos em termos de capacidade são os menores do mundo, de acordo com a mais recente pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE). Os professores na Finlândia e Suécia gastam menos horas na

escola por dia e gastam menos tempo em sala de aula comparativamente com os professores portugueses. Os professores usam este tempo extra para construir currículos e preparar aulas de forma a conseguir garantir uma correta educação para todos atendendo as necessidades individuais de cada aluno. Os alunos não têm trabalhos de casa, garantindo que passem mais tempo brincando, descobrindo novas coisas, sendo atribuída uma enorme autonomia. A escolaridade obrigatória não começa antes dos 7 anos de idade. Jane Louhivuori, professor na Finlândia refere: “Nós não temos pressa. As crianças aprendem melhor quando sentem que estão prontas para o fazer. Não existe a necessidade de reforçar isto”. Como é isto possível? Na Finlândia e Suécia existe um forte apoio da sociedade para a educação. Além disso, com uma população altamente educada desfrutando de um alto padrão de vida, há esforços constantes no sentido de melhoria na área da educação.

A igualdade de tratamento é mais do que apenas uma característica do sistema de ensino: é também uma atitude básica e uma habilidade entre toda a sociedade. Enquanto a realidade das escolas portuguesas não conseguir pegar nestes exemplos e verificar que as escolas devem deixar de ser monopólios económicos e passarem a ser verdadeiros ambientes de descoberta dos alunos a educação portuguesa continua a não obter os melhores resultados. Os alunos devem ser vistos como responsáveis por conseguir com os seus conhecimentos e capacidades incutidas pela escola participar e revolucionar de forma ativa, autónoma e consciente a nossa sociedade.

*Mestre em Ensino da Educação Física dos Ensino Básicos e Secundários, Licenciado em Ciências do Desporto, Universidade de Coimbra

D.R.

Cartas à diretora podem ser enviadas para

acabra@gmail.com


14 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

ARTES

Sugestões para este Natal

A história do cinema – Uma Odisseia” De Mark Cousins ANO 2013

Tudo o que queria saber sobre cinema CRÍTICA DE ANA DUARTE

Do Céu Caiu Uma Estrela” De Frank Capra ANO 1946

Crónica dos tempos que passam CRÍTICA DE BÁRBARA RODRIGUES

Os Jogos da Fome Em chamas” De Francis Lawrence Ano 2013

Terapia para a ira natalícia CRÍTICA DE SOFIA OLIVEIRA

Sim, tem 15 horas. Não, não são corridas. São 15 horas divididas em cinco partes. “The Story of Film – An Odissey” torna-se, assim, o mais completo documento sobre cinema. Baseado no livro homónimo de 2004, o historiador e crítico de cinema Mark Cousins excede-se a si próprio e presenteia-nos com este documentário. Dos Lumière a Douglas Sirk, de Méliès a Hitchcock, de Ingmar Bergman a Lars von Trier – do mudo ao digital, resumidamente - Mark Cousins faz-nos viajar por França, Estados Unidos da América, países nórdicos, Japão, Índia, entre outros. Ao todo, são referenciados neste documentário mais de mil filmes de todo o mundo, percorridos 120 anos de história e seis continentes. É uma viagem prazerosa, onde cada estilo, cada vaga, cada realizador, cada fotograma é desconstruído de maneira acessível ao

mais leigo dos espectadores e sem pretensiosimos. Cousins faz isso através de excertos de filmes, entrevistas a personalidades (como por exemplo Bernardo Bertolucci, Stanley Donen ou Claudia Cardinale) e imagens ilustrativas. É um curso intensivo de cinema, de onde podemos sair graduados com a mais alta das notas, se tivermos predisposição para isso. Os agradecimentos vão para o professor – Mark Cousins. Em “The Story of Film” o cinema não nos é apenas mostrado e explicado – é repensado, pois o realizador abre espaço para a reflexão sobre o caminho que se foi abrindo para a 7ª arte: como é que chegamos aqui? Porquê? Com que meios? Em época de Natal, eis uma sugestão: se não sabe o que oferecer a alguém, opte por algo lúdico e, ao mesmo tempo, informativo. É que vale a pena.

Esta podia ser uma história passada nos dias de hoje: um homem (George Bailey, brilhantemente intepretado por James Stewart) perde tudo o que tinha e vê-se perante uma situação de desespero e agonia. Resolve por fim à sua vida em pleno Natal, atirando-se de uma ponte. Será esta a única saída? A George Bailey foi-lhe retirado o seu grande sonho: o de viajar pela Europa. No entanto, é recompensado, ao conhecer o amor da sua vida, a bonita Mary (Donna Reed), com quem mais tarde se casa e tem quatro filhos. Passa depois a assumir a empresa da família, para que esta não encerre ou vá parar às mãos do banco (onde é que já ouvimos isto?). Bailey vê na empresa uma forma de conseguir ajudar os trabalhores da localidade de Bedford Falls, providenciando-lhes ajuda na construção de casas. O génio de Capra expõe assim na grande tela os temas da

bondade, o altruísmo e a filantropia, temas que nos apelam (sempre) à época natalícia. Quando tudo corria bem, a empresa vai a falência e a miséria instaura-se. O desespero crescente invade Bailey e o suicídio apresenta-se, então, como a única solução para os seus problemas. Por esta altura surge Clarence (Harry Travers), um anjo da guarda que, para conseguir ganhar umas asas, tem de salvar George – um espécie de altruísmo kantiano que acaba em bem. Clarence nada mais faz do que mostrar a Bailey o que seria a vida em Bedford Falls sem a sua intervenção social – a miséria, a violência e a perdição. “It’s a Wonderful Life” é tragicamente belo. Frank Capra dá-nos uma história intemporal, que tanto pode ser de um pós-guerra como de agora, tempos de profunda crise financeira e de valores.

Na sequência do primeiro Hunger Games (criado pela escritora e argumentista Suzanne Collins enquanto fazia channel surfing entre um reality show e a guerra no Iraque), “Em Chamas” leva o espectador de volta para o universo distópico dos 12 distritos de Panem e para o épico 75º aniversário dos jogos da fome. Katniss (Jennifer Lawrence) tornou-se o símbolo acidental de uma revolução. Depois do “jogo” em que tentou manipular as simpatias do público ao fingir um romance com o seu aliado Peeta (Josh Hutcherson), para tentar sobreviver, a protagonista vê-se forçada a manter as aparências (reality show levado ao extremo) fora da arena. Quando nem assim ilude o antagonista, o presidente (!) da nação fictícia, Katniss e Peeta são novamente colocados na arena, desta vez, para competir até à morte, não com 24

adolescentes (à la “Battle Royale”), mas com tributos vencedores de edições anteriores dos jogos. O resto é acção, com chacina, jogos de sobrevivência e alianças potencialmente duvidosas. No exterior da arena, a sociedade subjugada, especialmente em dez dos 12 distritos, é forçada a assistir, para relembrar que ninguém se deve tentar sobrepor ao Capitólio. Mas, de forma previsível, acontece o oposto. Como filme do meio de uma trilogia blockbuster, não é mau. Ainda assim fica um pouco aquém das expectativas. Baseia-se demasiado no impacto visual e desperdiça personagens que podiam ser menos unidimensionais no ecrã. Recomendado para quem quer fugir à raiva e selva das compras de Natal (ou da passagem de ano) e precisa de assistir a um massacre para colocar os valores da quadra em perspectiva.


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 15

FEITAS OUVIR

LER

D

Cupid Deluxe”

evonté Hynes já fez um pouco de tudo. Das batidas freSaudosismo néticas do trio Test Icicles, revivalista dos à aventura a solo pelo folk como Lightspeed Champion, o artista anos 80 britânico passou os últimos anos a navegar entre géneros, absorvendo diferentes influências, até alcançar um sucesso improvável na vertente da produção. No ano passado foi o principal responsável pela explosão de duas revelações da música pop, ao produzir os aplaudidos trabalhos de Solange e Sky Ferreira. Pelo meio, teve tempo para criar um novo alter-ego, sob o nome Blood Orange. Blood Orange editou o seu disco de estreia, “Coastal Groove”, em 2011. Desde então, todas as etapas De percorridas pelo artista parecem Blood Orange ter contribuído para a evolução da sua música, que aparenta ter ganho Editora muita maturidade. “Cupid Deluxe” Domino Records surge como um caleidoscópio de texturas, onde diferentes décadas e 2013 influências se dissolvem, expandindo-se em novas sonoridades. Como resultado surge um cocktail recheado, que mistura conceitos clássicos do R&B, hip hop, jazz e soul. A primeira amostra do novo disco surgiu em Setembro, com o lançamento do single de avanço “Chamakay”, onde Dev Hynes é acompanhado pelos delicados falsetes de Caroline Polachek, metade dos nova-iorquinos Chairlift. “Chamakay” é uma fiel introdução ao álbum, onde as duas vozes se misturam sem qualquer esforço, resultando numa melodia orgânica e suave. As vozes femininas voltam a estar em destaque em “You’re Not Good Enough”, um dos pontos altos do disco. Samantha Urbani, vocalista dos Friends, apresenta-se num dueto em que contrasta com os falsetes sussurrados de Hynes, a canalizar um Prince pré The Revolution. Ao longo dos 50 minutos de “Cupid Deluxe”, Blood Orange raramente se apresenta sozinho. Da multiplicidade de convidados contam-se ainda David Longstreth, dos Dirty Projectors e os rappers Despot e Skepta, em pequenas participações. Em “Cupid Deluxe”, Blood Orange apresenta-se num projecto mais coeso, em que Hynes se revela como um camaleão musical, tratando da própria sonorização, gravação e produção das músicas. Editado pela Domino Records, resulta no melhor trabalho do produtor de 27 anos até à data. É um álbum intimista, que não olha apenas o passado, mas que nos transporta para um novo local, resultante de uma sublime reinterpretação do soul, funk e R&B dos anos 80.

Sobre o pesado fardo que é viver

De Sándor Márai Editora Dom Quixote 2013

JOGAR

“Street racing não é para meninos!”

GUERRA DAS CABRAS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha

Artigos disponíveis na:

cimentos, numa fórmula “onde a melodia é mais importante que o texto”. O que realmente fica são as reflexões ali contidas sobre o Homem e a própria vida, que a escrita de Márai integra de forma sublime entre pensamentos e divagações internas ou nos (pontuais) diálogos que extravasam a troca de impressões entre personagens e se assumem como autênticas lições filosóficas sobre o quotidiano. Para além de que a dor trazida a este homem pela doença é também uma dor universal, a mesma que abarca todos aqueles despojados da vontade de viver e de lutar pela superação de um obstáculo (seja ele físico ou espiritual). Escrevia Sándor nos seus diários, no final da década de 40, que o mundo não precisava de literatura húngara; falácia que agora comprovamos pelo desvendamento gradual da sua obra, exemplo de como precisamos dele como grande construtor de narrativas, mas também do que ele escreveu para lidar melhor com o que andamos aqui a fazer. Porque essa coisa que é “viver é uma grande responsabilidade” e todas as idóneas orientações são bem-vindas. CAMILA FIZARRETA

Need For Speed: Rivals - PC”

CARLA CARDOSO

A Cabra d’Ouro

A

pesar de ter sido escrito em 1946, só agora nos chega a tradução de “A Irmã” do húngaro Sándor Márai (19001989), habitualmente referenciado pelo seu campeão de vendas “As Velas Ardem Até Ao Fim”. Este “A Irmã” assume-se como um tesouro literário, que nos leva a um cenário de segunda guerra mundial, onde estão dispensadas as armas e os campos da batalha; mas persiste a dor e a desolação. A história centra-se no manuscrito deixado por Z. - um exímio pianista que premedita o iminente declínio da sua carreira - onde relata de forma intensa a sua relação com uma doença que o consome e a consequente degeneração que esta lhe traz. Temos também um narrador – pouco revela de si, de quem sabemos apenas ser escritor de profissão - que nos contextualiza todo um cenário natalício de 1941, passado na estalagem onde se encontra com o músico, e nos descreve, numa primeira parte do livro, um ambiente longe do esperado para esta quadra festiva. Ao ler todo o livro temos a sensação que o menos importante destas páginas é a história e os aconte-

A Irmã”

Plataforma Disponíveis PC, PS3, PS4, Xbox 360, Xbox One Editora Electronic Arts 2013

P

é no acelerador, é tempo de colocar o ponteiro no redline! A Criterion Games está de volta, aliada à Ghost Games, com um novo título do aclamado franchise intitulado “Need For Speed: Rivals”. O melhor de dois anteriores títulos, “Need For Speed: Hot Pursuit” e “Need For Speed: Most Wanted” é junto num só, proporcionando uma experiência muito agradável aos fãs do género. Quem já jogou os títulos previamente mencionados não deixará de sentir um certo déja vù com “Need For Speed: Rivals”. Neste título, o jogador escolhe, à semelhança de “Hot Pursuit”, o papel de piloto de corridas ilegais ao volante de super-carros de sonho ou de polícia interceptor, qual brigada de trânsito no Dubai, e cada uma das faces da lei vem com o seu conjunto de desafios. Já a mecânica e a emoção das perseguições são herdadas de “Most Wanted” com ambos os elementos dos dois lados a mostrarem-se agressivos à medida que progredimos no jogo. Por outro lado, a dimensão do mapa deste jogo é semelhante à do mapa onde toda a acção de “Rivals” se realiza. Um conjunto de gadgets está também à disposição do jogador. Irão servir de ferramentas de auxílio nas perseguições e poderão ser melhorados ao longo do jogo.

Os apaixonados por efeitos visuais podem ver as suas expectativas satisfeitas com o profundo detalhe gráfico, assim como com os efeitos climáticos e sistemas de colisão muito realistas. A introdução de um novo conceito de ‘multiplayer’, ao estilo MMOG – Massively Multiplayer Online Game, permite aos jogadores transitar do modo single-player para o modo multiplayer a qualquer momento e partilhar o mundo de “Rivals” com jogadores dos quatro cantos do planeta. Podem, por exemplo, desafiar um ou vários jogadores para uma corrida em que a classificação na tabela é determinada pelo número de “speed points” acumulados através de condução a alta velocidade e manobras perigosas e arrojadas. Um ponto que poderá prejudicar a qualidade do jogo é a falta de variedade de veículos disponíveis. Como agente da lei, o jogador tem à sua disposição apenas nove carros, e enquanto racer tem à sua disposição 13 super-carros – o que deixa o jogador com a sensação de que “sabe a pouco”. Apesar disso, “Rivals” não deixará desiludidos os veteranos da saga, com a sua beleza e mecânica de condução. Com certeza atrairá também novos fãs que procurem um simulador de corridas que obrigue a uma certa ginástica aos dedos e aos reflexos. JOSÉ CARLOS NEVES


16 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

SOLTAS NÚCLEOS AAC

NEEEC/AAC

NEMD/AAC

17 de dezembro

18 de dezembro

J ogo NEEEC

J antar

vs

P rofs

de

N atal

NEE/AAC

19 de dezembro IV Gala de Natal / Mega Convívio de Economia

Pavilhão 3 estádio Universitário

Restaurante Capas Negras (Terreiro da Erva)

Inscrições: 1 peça de roupa/comida

21h00

20h30

10€ Inscrições: nemd.academica@gmail.com

Valor: 9/10 euros

NEI/AAC

18 de dezembro Corrida Solidária Inscrições: 1 peça de roupa/comida

Twitt

mais informações e reservas de mesas:

912 394 596.

NEBIOQ/AAC

NEFLUC/AAC

NEPCESS/AAC

19 de dezembro

19 de Dezembro

Jantar de Natal

I G ala

Restaurante be fado Coimbra 20h30

P iscinas do M ondego ( atrás do E xploratório , à B eira -R io )

9 euros

21 h 00

Inscrições até dia 15 na sala do núcleo

M ais informações na sala do N úcleo , na F aculdade de L etras

NEM/AAC

de

L etras

NECDEF/AAC

18 de dezembro

19 de dezembro

19 de dezembro

20 de dezembro

Workshop Latex II

O Pai Natal Secreto Troca de prendas

Convívio de Medicina “Maomet”

Convívio de Natal

Cantinas Verdes

BAR RUGBY CLUBE DE COIMBRA

14h00 inscrições em http://goo.gl/

UZ8Vww

Ex-Departamento de bioquímica 12h00

23h59 2 euros com pulseira 2,5 euros norma

23h00

Pulseira à venda no atendimento do NEM/AAC

30 ANOS DE SECÇÃO DE JORNALISMO REVISITADOS Por João Martins e Luís Saraiva

O

último ato eleitoral para a escolha dos corpos gerentes da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) está a ser marcado pela polémica. A Lista A, encabeçada por Samuel Vilela, suspeita da ocorrência de fraude nas eleições, depois do aparente desaparecimento de 141 boletins de voto. Contudo, as primeiras dúvidas surgiram logo após o resultado da segunda volta onde, na urna 17, o candidato da Lista A perdeu por 280 votos, enquanto na primeira volta, uma semana antes, foi derrotado na mesma urna por 43 votos, quando apenas aí votaram mais 38 estudantes. Apesar do sucedido, esta não é a primeira vez que se gera controvérsia em volta das eleições para a DG/AAC. A edição número 43 do Jornal A Cabra, publicada em dezembro de 1998, noticiava que o processo eleitoral desse ano foi considerado um dos mais polémicos. O problema era fundamentado por uma “má condução de todo o processo, pois houve falta de delegados da Comissão Eleitoral (CE) junto das urnas e os cadernos eleitorais não estavam organizados”. Alegavam que “a abertura das urnas não foi simultânea, não cumprindo dessa forma um dos pontos do regulamento eleitoral”, e que “não tinha havido definição atempada da constituição das mesas, impossibilitando assim às listas o envio de delegados”. Lembravam ainda que ficou decidido, numa reunião da CE, que “as urnas deveriam ser instaladas em locais dignos e de fácil acesso”. Face a estas irregularidades, dois dos can-

REGRESSO AO PASSADO: A CABRA Nº 43, Nº 63 E Nº 64 RAFAELA CARVALHO

didatos derrotados, “ainda antes do fecho das urnas, entregaram à CE pedidos de impugnação das eleições”. A decisão do CE teve um parecer desfavorável que deixou os estudantes descontentes, levando a que recorressem ao Conselho Fiscal (CF) da AAC. Foi apresentado ainda um pedido de providência cautelar no tribunal de Coimbra, que acabou por ser indeferida. Passados dois anos, a edição número 63, publicada em dezembro 2000, considerava novamente que o ato eleitoral desse ano teria sido “um dos mais polémicos e agitados processos eleitorais de que [havia] memória na academia”. Em

disputa pela presidência estava Humberto Martins, a encabeçar a Lista V, Nuno Lobo, candidato pela Lista T, e Marco Santos da Lista B. A complexidade em volta destas eleições foi marcada por várias peripécias, que tiveram a sua génese numa decisão saída de uma reunião da CE. O parecer ditava que as eleições não se poderiam realizar nos átrios dos departamentos e/ou das faculdades, e, na eventualidade de não serem disponibilizadas salas para o ato, as urnas deveriam ser transferidas para o edifício da AAC. O argumento que sustentava esta decisão era o de “evitar situações de confusão, agitação e falta

de democraticidade no ato eleitoral”. Inconformados com a decisão, membros da Lista T, opuseram-se às restantes listas, afirmando que a proposta aprovada visava apenas pressionar os órgãos de gestão das faculdades. Desde então, iniciou-se um “esgrimir de argumentos e um extremar de posições” entre as listas, que culminou logo no primeiro dia de eleições. Em causa estava a transferência das urnas da Faculdade de Letras para a sala de estudo da AAC. A lista T recusou transferir as urnas, tendo mesmo os seus delegados abandonado as mesas de voto, o que

provocou atrasos na abertura das mesmas. As urnas acabaram por ser transferidas para a sala de estudo da AAC. Enquanto um grupo de estudantes pretendia votar, foi interrompido por manifestantes a exigir suspensão das eleições, alegando o incumprimento do princípio da igualdade. Esta ocorrência levou à suspensão temporária do ato eleitoral no local, situação que acabou por ser normalizada mais tarde. A partir daí as eleições decorreram sem interferências até ao escrutínio dos votos, em que os membros da Lista T recusaram estar presentes na cantina dos grelhados. Humberto Martins acabou por vencer à primeira e foi reeleito, mas isso não impediu Nuno Lobo de pedir a impugnação das eleições. Os motivos alegados foram o impedimento dos alunos de Letras votarem na sua faculdade, “o desrespeito pelo horário da votação” e o facto de “não terem estado presentes elementos da Lista T no local e no ato do escrutínio”. O seguimento deste caso foi primeira página na edição seguinte, editada em janeiro de 2001, que comemorava os 10 anos do Jornal A Cabra. O artigo revela que o pedido de impugnação “foi julgado improcedente pela CE”, numa decisão baseada num parecer de três juristas, que apontava a falta de legitimidade no pedido de impugnação das eleições. Não aceitando o juízo, Nuno Lobo ponderava recurso para o CF/AAC e para os tribunais administrativos. Apesar do início manchado pela polémica, Humberto Martins cumpriu o segundo mandato na totalidade.


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 17

SOLTAS DE PERFIL Entrevista a Cícero

por Daniel Alves da Silva

“Queria ter sido o Tom Jobim” 27 anos • Música Sou um compositor. O meu pai tocava violão, recreativamente. Nunca estudei música. Era sempre o meu pai, tocando em casa músicas populares brasileiras. E então, eu comecei a tocar violão. Quando eu vi, tinha muitos acordes errados, com choques harmónicos errados, mas que me agradavam de uma certa forma. E nessa fase da minha adolescência, eu descobri o rock alternativo que basicamente era feito dessas tensões e a bossa nova. Me formei em Direito. Já estava com uma vida resolvida dentro do meio jurídico, meu pai também é advogado. E eu tinha a música sempre como uma coisa recreativa, terapêutica. Mas teve um ponto de ruptura. Saí de casa e fui morar para Nova Iorque. Foi uma rutura total. A fuga de uma realidade, não a busca de uma outra. Tanto que nem fui para lá primeiro, fui para o Alabama trabalhar para o McDonalds, fiquei uns meses e achei uma merda… Depois fui para Nova Iorque e fiquei um tempo, trabalhando em qualquer coisa, pensando na vida: “Cara, o que vou fazer?”. E aí, quando voltei para o Rio, voltei para fazer festas. Arrumava uma casa, com som, e fazia umas fitas bem legais e discotecava tematicamente na noite. Tinha várias festas. Uma só tocava Jorge Ben, Tim Maia, Fela Kuti; ou só Beatles, Rolling Stones, The Doors; a outra Pixies, Sonic Youth… Com essa grana, pagava as minhas contas. Larguei tudo. Larguei na-

morada, larguei o Direito. E aí, como fazia essas festas nos finais de semana, ficava com a semana inteira em casa, ocioso. Longe de casa, meio brigado com o meu pai e o violão ali ao lado, comecei a gravar. A música é inerente ao lugar onde nasce; se relaciona com o resto mas tem um código genético do lugar onde nasceu. Por isso, a cidade do Rio de Janeiro interfere na minha forma de fazer música, porque ela é o ambiente donde a música saiu. Vejo que, se me deslocar geograficamente, a minha música vai-se deslocar harmonicamente, melodicamente. “Canções de Apartamento” tem a cara daquele apartamento do Rio. É um som ambiente que começa a te remeter para a sensação de chão, de casa, de lar. Quando você vai fazer música, você começa por ali. Noto muito isso na discografia dos artistas que admiro, eles começam por ali. E os mais interessantes vão abrindo o espectro, e aí tem um momento da carreira que se começa vendo ele como indivíduo. Queria ter sido Tom Jobim. Nasceu, viveu, morreu, assim, numa ‘nice’. O normal, pelo menos no Rio de Janeiro, no Brasil, é a combatividade. Sou o oposto, não acho que seja isso o fluxo natural das coisas. O fluxo não é para esse lugar animal, mas para um entendimento de onde você está. O Tom Jobim fez isso a vida inteira.

LUÍS GRILO PUBLICIDADE


18 | a cabra | 17 de dezembro de 2013 | Terça-feira

SOLTAS O CANTEIRO SEM FLORES

TOMÉ TINHA UM SONHO

Por António Meio-Esquisito

Era uma vez um rapaz de 20 anos chamado Tomé. Bebia o leite morno, via o BBC Vida Selvagem, ouvia música ambiente, usava meio pacote de açúcar no café, lia Dan Brown e a sua comida favorita era massa à bolonhesa. As suas perspetivas de futuro eram como os seus hábitos: mornos, banais, sem sabor. Queria ser aquilo que já era: normal. Sempre o quis ser e sempre foi o seu desejo. Quando ainda era miúdo castiço, com os dentes de leite a cair, e lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia “qualquer coisa”. Mas um dia, a olhar para os flyers e cartazes de campanhas para a Associação Académica de Coimbra, qualquer coisa o tomou, e, sem Tomé saber, construiu um sonho na sua cabeça tão afeta à normalidade. Tomé pensou: “porque não?”, enquanto via aqueles slogans de tu és e tu tens e tu podes e

tu sonhas e tu tudo. “Eu sou, eu tenho, eu posso, eu sonho, eu… tudo!”. Naquela vontade estonteante de mudar o mundo, movido pela ingenuidade e inocência (que a normalidade tem sempre os seus efeitos secundários), o pobre Tomé pegou num dos flyers: “Tu tens o que é preciso! Descobre Coimbra! Liga-te a nós. 91qualquercoisa”. Empurrado por aquele seu desejo momentâneo de querer fazer parte do movimento associativo, de sonhar, de lutar, Tomé digitou o número no seu telemóvel perfeitamente normal. Tomé ouviu uma voz feminina do outro lado: “Lista C, boa tarde. Em que lhe posso ser útil?”. Tomé encheu o peito e atirou-se às feras. “Boa tarde. O meu nome é Tomé Belarmino Silva e quero entrar para a lista C”. E Tomé sorriu, sorriu muito, assim numa grandeza de espírito, como se acabasse de praticar um ato de coragem.

-Muito bem. Como deve saber, todos os nossos colaboradores têm de contribuir para a campanha. -Sim, sim! Com certeza. Eu tenho poucas ideias e sei muito pouco sobre estudantes e manifestações, mas trabalho bem e aprendo depressa. -Bom, sabe, é preciso contribuir financeiramente para a campanha. Em que cargo é que estaria interessado? -Ai não sei, talvez assim num dos cargos superiores, sei lá… -Pois. É assim, querido, se for coordenador de um pelouro paga 50 euros. Mas se quer sonhar alto, por exemplo, os lugares de vice-presidente estão neste momento entre 150 a 250 euros. -O vice-presidente mais barato é como? -O senhor é de que curso? -Matemática. -Ui! Olhe, Matemática é complicado porque aí não nos ar-

ranja muitos votos. -Arranjar votos? -Sim, querido! Votos. Pegar nuns colegas para ir votar na sua lista. Pois… olhe então, estou aqui a ver, e, nesse caso, o cargo ficaria a 350 euros. Idem aspas aspas para coordenador. O que lhe aconselho é este ano ficar só a colaborador mas tratar já de mudar de curso talvez, para Direito ou uma engenharia assim com muita gente, porque se não, fica um pouco complicado, sabe? -Pois, estou a ver. E para colaborador também se paga? -Neste momento, o colaborador regular paga 20 euros, com direito a duas cervejas ou uma vodca laranja no Twiit. -E não há assim nada um pouquinho mais alto e que não passasse dos 50 euros? -Talvez… Deixe ver… Consigo por 45 euros o lugar de colaborador, mas com um cargo de colaborador também na Quei-

ma das Fitas, por exemplo nos Transportes… E aí teria 20% de promoção para o próximo ano. Olhe, aqui entre nós, que eu já faço isto há muitos anos, é dos melhores preços que lhe posso arranjar. Fica? -Pois, tenho que perguntar aos meus pais. -Pode ser em quatro prestações mensais de 15 euros. -Mas assim fica a 60 euros… -Se cortar um braço fica a metade. -Não dá para cortar os dois? -Se cortar a cabeça é de graça. -Fica essa então. Tomé nunca mais teve que sonhar. António Meio-Esquisito antoniomeioesquisito@gmail.com*

*Caso queiram enviar elogios. Se forem críticas, não estou para aí virado. PUBLICIDADE


17 de dezembro de 2013 | Terça-feira | a

cabra | 19

SOLTAS D. ERMELINDA Por Sara Vitorino

H

oje é o dia do mês em que vou entregar o almoço a uma senhora que o não tem senão por caridade, e que vive na Alta de Coimbra. Apesar de não ser ainda Inverno segundo mandam as regras, não se pode já negar ao tempo uma certa rigidez, como a de um pai ríspido que castiga o filho gritando e fazendo com que este se arraste por aí abatido e fungoso, sem razão aparente. Sendo eu nova, não se pode esperar de mim que não sinta senão o calor próprio de quem anda Alta acima e Alta abaixo, carregada de comida. Contudo, garanto que senti essa frieza, como sempre sinto quando entro na casa da D. Ermelinda, uma senhora idosa, de 96 ou 97 anos, quem sabe? Não sabe ela, muito menos sei eu. Não falta muito para fazer anos - é lá para Janeiro, « acho que é 19 de Janeiro. Às vezes esquece-me… ». Esta senhora vive na Travessa dos Cabidos, por baixo da República Bota-Abaixo onde «todos são bons rapazes». Chega lá quem depois de passar o Colégio dos Órfãos, sobe pelo arco da Casa da Escrita e corta à esquerda. Subindo, sempre subindo, (pois que outra coisa se não faz nesta cidade), dá-se então com uma porta de madeira que abre para a escuridão de um inóspito corredor estreito. Mais ao fundo ouve-se normalmente o zumbido de uma televisão e vêem-se reflexos vagos de luz numa janela interior que nos diz que, provavelmente, aquele buraco não é aleatório, é o buraco de alguém. Com efeito, é dos proprietários da República, mas é também onde a D. Ermelinda vive há várias dezenas de anos, com a sua renda de cerca de dois euros, nunca aumentada, e que ela faz questão de pagar presencialmente nos Correios. Sabendo ela que sábado é dia de receber visitas por hora do almoço, deixa sempre a porta encostada. E assim se entra e se chama «D. Ermelinda!», «D. Ermelinda!», som que, abafado pela televisão, acaba com o culminar de um grande «D. Ermelinda!», entrando já porta adentro, sem qualquer pudor. Não sei exactamente como descrever-vos as sensações que tive das várias vezes que entrei por aquela porta e para aquele lugar. Emana um concentrado de mofo húmido, gélido. Frequentemente quando entrava ia encontrá-la confortavelmente sentada no sofá, debaixo de mantas retalhadas, a ver televisão – o seu entretém. Também não raro era encontrá-la de óculos escuros e touca na cabeça. «É que a cal está sempre a cair, cai-me no cabelo e cai-me nos

facebook.com/aac.sesla olhos.» Bizarro por certo, mas faz você muito bem! E não tem frio D. Ermelinda? Não, nunca tem e quando tem visitas pouco lhe importa que tenha. Nem mesmo a hora do almoço, que a mim muito me afectava os sentidos, a afectava a ela, esfomeada sim, mas de conversa. Discorria então por um sem-número de histórias, de anos passados, e saltava por eles com a agilidade de uma criança. Ir a casa da D. Ermelinda era um momento único porque sabia que da sua boca saíam, inevitavelmente, verdadeiras pérolas de genuinidade humana, imperdíveis. Contou-me um pouco de tudo. Soube dos tempos em que era nova e passava o tempo a correr «lá na aldeia», em Trás-os-Montes. E quando ainda nova veio para Coimbra, servir. «Servi toda a vida, e sei fazer de tudo menina! Só não sei ler, mas sei cozinhar, sei coser e ninguém me ensinou». Pois olhe, muito bem que eu coser não sei não, e cozinhar desaconselho. «Servi toda a minha vida». E o que é que fazia D. Ermelinda? «Trabalhava em casa de uns senhores muito bons» - olhou para cima de mãos para o alto - «que deus os tenha e que de lá não caiam!» Pelo que percebi, era cozinheira numa casa de família que não a tratava mal, até porque segundo me disse, descobriu que o patrão andava metido com outra mas «eu não disse nada a ninguém, então ela dava-me roupas. Se eu contasse ficava sem as roupas». Mas hoje em dia estava sozinha no cubículo, onde passava meses sem sair «por via das pernas, que não me deixam». Às vezes, estendia a mão pela janela partida, e apanhava umas laranjas fresquinhas - «daquelas que caem da árvore e vêm até à minha janela, senão não consigo». Só muito raramente se aventurava até à baixa para ir à merce-

aria onde encontrava conhecidas suas, empiriquitadas para o seu traço, «é donas isto, donas aquilo. Donas caralhas, dons tenho-os eu!». Não, normalmente traziam-lhe as mercearias a casa e do que ela tinha saudade, «ai menina sabe do que é que eu tenho saudade?» - diga lá então D. Ermelinda! – «de uma sandes de leitão e de um tinto ali do Pintos. Ele já sabe do que é que eu gosto». D. Ermelinda, é hora de almoçar e já sabe que tenho de ir. «Oh menina não vá! Fique!». Você já sabe que ainda tenho de passar por casa de outra senhora a seguir! «Então para a próxima vai lá primeiro. E depois fica aqui!». E qual avó, puxava da carteira para me dar «qualquer coisinha». Mas a D. Ermelinda já sabe que eu venho aqui por solidariedade. Não posso aceitar! «Vá, aceite, não contamos a ninguém!». Pois é, aquela senhora que não tinha dinheiro nem para comer acha que podia ainda dar, neste tempo em que ninguém dá nada a ninguém. A insistência era tal que

tinha de converter a nota noutra coisa qualquer. «Se não leva nada, ao menos bebe um porto». O dinheiro não levo não. Venha o porto!

ILUSTRAÇÃO POR CÁRIN CARVALHO E IXABU DE OLIVEIRA


Mais informação disponível em

acabra.net PUBLICIDADE

JORNAL UNIVERSITÁRIO DE COIMBRA

PUBLICIDADE

QUANDO CAI A NOITE NA CIDADE Por Catarina Carvalho e Ana Catarina Sardo

@

Fotorreportagem em

acabra.net


Edição266