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18 DE OUTUBRO DE 2011 • ANO XXI • N.º 235 • QUINZENAL GRATUITO DIRETOR cAmILO sOLDADO • EDITOREs-EXEcUTIVOs INês AmADO DA sILVA E JOãO GAspAR

acabra

Microconto por Luís Caminha “O Beijo”

JORNAL UNIVERsITáRIO DE cOImBRA

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AnA FilipA SilvA

FlA e FlAmA

No tempo das frentes de libertação No contexto revolucionário do pós25 de Abril surgem a Frente de Libertação dos Açores (FLA) e a Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira (FLAMA). Ainda que diferentes, ambos os grupos separatistas enfrentaram tanto laivos dissidentes como uma ligação patriótica. Agora a história é outra. As frentes dissolveram-se e economistas defendem que a atual situação administrativa das ilhas é favorável à manutenção do estatuto de regiões autónomas.

“We love 77”

Memórias pintadas para reavivar o punk O artista plástico e o músico Victor Torpedo e o suíço Jay Rechsteiner fizeram o favor de recordar o ano 0 do punk, 77, mas também de tudo o que andava à volta. Dos Ramones aos Joy Division, a contracultura do punk sai a ganhar do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, reavivandotambém memórias das cristas que por cá passaram, entre cafés no Moçambique e moches no Bairro de Celas. Um evento até 29 de Outubro que, para além da pintura do duo Sardine & Tobleroni, se desdobra em exibição de filmes e concertos punk.

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Arborismo

cAnção de coimbrA

Uma alternativa ao sedentarismo

Novos rumos precisam-se

Como forma de revitalização da Mata do Jardim Botânico, cerrada há alguns anos, a Sky Garden organizou um conjunto de atividades desportivas . Desta forma, pretende-se aliar o desporto à natureza, através de vários percursos pelo parque de arborismo e dezenas de ações desportivas. A responsável pelo Sky Garden, Helena Margolis, destaca os desportos radicais como forma de revivificar o físico, o inteleto – e até o foro emocional. No que toca à natureza, este projeto dá a conhecer a fauna e a flora ignorada da Mata do jardim.

Fado de Coimbra: património ou negócio? A questão de uma possível categorização deste género musical, qual marco da tradição da cidade de Coimbra, divide opiniões. De um lado, a associação cultural Fado ao Centro, que aposta numa divulgação turística do fado e acredita ajudar bastante na sua promoção. Do outro, a Secção de Fado da AAC, que defende a fidelidade dos estudantes da academia nas suas atuações. A resposta passará, talvez, pela inovação do fado, s e guindose a busca de n o v o s rumos.

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greve de zelo

UC nos limites das capacidades

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PlAno estrAtégico

CG satisfeito com linhas de orientação O plano estratégico e de acção a seguir pela UC até 2015 foi aprovado nos passados dias 14 e 15 pelo Conselho Geral (CG). Com os cortes orçamentais como pano de fundo, os conselheiros que representam os estudantes dos três ciclos mostraram-se, na sua maioria satisfeitos com o plano, apontando como o grande aspecto negativo a não utilização do dinheiro das propinas para a melhoria da qualidade pedagógica. Pág.2 e 3

Teatro

Sousa Bastos Possibilidade de obras 20 anos depois

Anos sem qualquer tipo de intervenção justificam-se com os sucessivos atrasos e arrastos dos projetos que deram entrada na Câmara Municipal de Coimbra Contudo, o proprietário revela que sempre foi de sua vontade a realização de obras. Pág. 15

Infraestruturas desadequadas, número insuficiente de docentes e problemas na avaliação contínua são alguns dos problemas que levam hoje os estudantes da Universidade de Coimbra a uma greve de zelo. O presidente da direção geral da AAC, Eduardo Melo, afirma que a divulgação foi feita junto dos estudantes através da distribuição de flyers, dos próprios núcleos e no domingo passado junto às estações de comboio, de maneira a que os estudantes compareçam massivamente às aulas. Contudo, os movimentos estudantis da oposição questionam a eficácia da mobilização e a própria adesão dos estudantes à greve. Pág. 5

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Mais informação em

acabra.net


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destaque

O

plano estratégico e de acção da UC foi elaborado tendo como principais áreas de preocupação o ensino, a investigação e a transferência do saber. Devido ao cenário geral de crise que o país atravessa, estas preocupações foram em grande parte condicionadas pelos recursos económicos e financeiros (e consequentemente humanos e infra-estruturais) de que a universidade dispõe. Na reunião, que não se pôde circunscrever a apenas um dia devido à extensão dos documentos analisados, tanto o plano estratégico de acção para o mandato assim como o plano orçamental para o próximo ano, reuniram grande consenso por parte dos conselheiros. O representante dos estudantes do terceiro ciclo no Conselho Geral, Pedro dos Reis Nunes considera que os estudantes estão satisfeitos com o plano estratégico pois este representa “um acréscimo e o desenvolvimento do programa reitoral”. No entanto, o estudante manifesta “algumas reservas” quanto a pontos das linhas orientadoras de financiamento, tais como a utilização do dinheiro das propinas para despesas correntes da universidade. O conselheiro do terceiro ciclo expõe ainda que deveria haver uma maior proximidade “entre a universidade e a tutela pois a UC não parece proactiva em tentar inverter politicamente a situação junto do ministério”.

Propinas continuam a não ser devidamente aplicadas Este é um dos pontos que os restantes representantes dos estudantes consideram negativos. O representante dos estudantes

de primeiro e segundo ciclo no CG da UC, Luís Rodrigues, entende que “é o documento possível com um corte de 8,5 por cento na dotação do OE para a universidade”. O estudante de direito considera que, mesmo a utilizar o dinheiro das propinas para as despesas correntes, a despesa da UC vai estar reduzida “ao mínimo essencial para manter as portas abertas com dignidade” e que o orçamento aprovado para o ano de 2012 é “um orçamento de sobrevivência”. Apesar de concordar que os estudantes fizeram algumas cedências para aprovar o documento, o também representante dos estudantes de primeiro e segundo ciclo no CG da UC, Pedro Tiago, considera que estas estão são importantes para

O plano estratégico e de acção reuniu grande consenso por parte dos conselheiros “manter as portas da universidade abertas”. Filipe Januário, igualmente conselheiro pelos estudantes de primeiro e segundo ciclo, esclarece que os estudantes tiveram que aceitar a utilização da receita da propina para um uso que não a melhoria da qualidade pedagógica. “Acabámos por ter de aceitar essa solução por um bem maior”, mas salvaguarda que “é uma medida temporária”. Para o representante dos estudantes é uma questão de aceitar uma medida transitória ou deixar fechar a universidade fechar. O representante dos estudantes do primeiro e segundo ciclo, Pedro Pacheco, compreende a impossibi-

lidade de a UC resistir sem a receita obtida com o dinheiro das propinas e a situação de “luta pela sobrevivência” como forma de justificar a cedência no programa eleitoral dos estudantes. Apesar disso, Pedro Tiago destaca a manutenção do fundo de apoio social como um ponto positivo contemplado no planeamento estratégico. Pedro dos Reis Nunes considera ainda que a “definição de metas e de indicadores que permitem avaliar a eficácia das medidas que estão a ser implementadas com o intuito de atingir os objectivos” é também uma medida positiva. No geral, as metas a que a equipa reitoral se propõe levar a UC não diferem muito do que constitui o programa eleitoral do reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva. Na investigação, o principal objectivo continua a ser a internacionalização através do reforço da afirmação da UC no espaço europeu. O grande objectivo ao nível da transferência de conhecimento é uma Universidade de Coimbra com capacidade de maior participação na sociedade e o desenvolvimento de uma maior componente económica, social e cultural. No campo do ensino, continua a haver uma preferência pela atracção dos melhores alunos. Apesar de o plano estratégico não ter contemplado algumas das reivindicações dos estudantes aquando da sua eleição, os representantes sentiram-se ouvidos no processo de elaboração do documento. O representante dos estudantes do terceiro ciclo dá o exemplo da acção “Um dia pela UC” como um dos momentos de participação da comunidade estudantil no processo. “Participámos nos painéis, onde também estiveram estu-

dantes senadores, representantes da direcção geral da Associação Académica de Coimbra, alguns elementos dos núcleos, e esses painéis produziram algumas conclusões”, explica o conselheiro. No entanto, ressalva que da auscultação à “tradução no programa da equipa reitoral, é uma questão de outra dimensão”. Filipe Januário considera que este é “um plano muito exaustivo, ambicioso” e refere ainda a questão do tempo que demorou a ser apresentado mas admite que, tal como Pedro Pacheco, já tinha referido essa preocupação anteriormente, “o tempo que demorou é justificável e mereceu a concordância”. Já o con-

selheiro Pedro Tiago reconhece que é “um plano equilibrado, apesar de não ser integralmente aquilo que os estudantes desejavam”.

Docentes satisfeitos com documento A representante dos docentes no Conselho Geral da UC, Ana Paula Relvas, considera que o plano estratégico “tem a dose de ambição necessária para o momento” e realça a forma como este foi “trabalhado e operacionalizado por vários sectores da comunidade universitária e académica”. João Sousa Andrade, também representante dos docentes, refere mesmo que uma “esmagadora maioria” dos elemen-

Plano Estratégico define linhas ARQUIVO - DANIELA CARDOSO

Nos passados dias 14 e 15 foi aprovado, pelo Conselho Geral (CG) da Universidade de Coimbra 2015. Num contexto de cortes orçamentais por parte do Orçamento de Estado (OE), foi também


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destaque fOnte: RelAtóRIOs de cOntAs dA UnIVeRsIdAde de cOImbRA

fOnte: RelAtóRIOs de cOntAs dA UnIVeRsIdAde de cOImbRA

A AsfixiA finAnCEirA dA UnivErsidAdE dE CoimbrA A evolução da verba atribuída à UC pelo orçamento de Estado tem sido irregular ao longo da última década, tendo-se verificado algum crescimento na primeira metade da década para começar a decrescer - até cair drasticamente - a partir de 2005. Apesar de parecer haver uma recuperação em 2010, o aumento no financiamento às instituições de ensino superior deveu-se à celebração do contrato de confiança, que se traduziu em mais sete milhões de euros para a Universidade de Coimbra e não à transferência da verba por parte do oE. É no presente ano que se verifica o maior corte orçamental (de 7,6 milhões de euros), quando a universidade apresenta o seu pico de número de estudantes. isto faz com que a razão de financiamento vindo do Estado por aluno da UC seja de 3480 euros, ou seja, menos 1200 euros que o máximo registado na última década.

Camilo Soldado tos do CG se manifestou satisfeita com o documento. João Carlos Marques, também representante dos docentes no CG, faz uma apreciação positiva do plano estratégico mas vê também nas metas a atingir o cerne do documento. Agora, a questão que se coloca é “de que forma os objectivos estratégicos que foram definidos vão sendo gradualmente atingidos, ou, se não estiverem, porquê e o que é que se pode fazer”. No entanto, João Sousa Andrade explica que foi deixado de fora da equação um estudo sobre aquilo que os futuros alunos poderão querer num curso na UC. “Não temos em conta, do ponto de vista da pro-

cura, em que cursos é que se pode inovar para que os estudantes sejam beneficiados”, afirma o docente.

Utilização das propinas para despesas da universidade é um dos pontos negativos Na questão da participação do processo de elaboração do documento, os três docentes são unânimes em declarar que quem não foi

ouvido foi porque não quis pois consideram que houve bastantes oportunidades para os professores exporem os seus pontos. Um problema que já existe há alguns anos na UC é a falta de renovação geracional ao nível do corpo docente, por imposição do congelamento na contratação da função pública. Ana Paula Relvas afirma que “é um problema de difícil resolução”, enquanto João Carlos Marques entende que “basta que haja cortes da violência dos que vêm aí para que seja quase inconsciente dizer que não afectará a qualidade pedagógica”. João Sousa Andrade teme que esta condicionante possa vir a afec-

tar principalmente as aulas práticas. “Temos cada vez mais estudantes nas turmas práticas e temos turnos teóricos com cada vez mais

Estudantes fizeram algumas cedências para que as portas da UC continuassem abertas estudantes, obviamente que isso significa uma perda em termos pedagógicos”, comenta o docente. O representante dos funcionários

não docentes no Conselho Geral da UC, Sérgio Vicente, considera que as linhas gerais servem o interesse dos funcionários e esclarece que os funcionários foram tidos em conta na sua elaboração. Sérgio Vicente encara alguns dos pontos incluídos no plano como “uma clara orientação para o desenvolvimento das pessoas e dos funcionários numa altura em que o contexto económico e financeiro não é muito favorável”. Até ao fecho desta edição o Jornal Universitário de Coimbra – ACABRA tentou entrar em contacto com o reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, mas sem sucesso.

as de “sobrevivência” para a UC ARQUIVO

bra (UC), o plano estratégico e de acção que define as linhas de orientação da instituição até bém aprovado o plano orçamental para o ano de 2012. Por Camilo Soldado

ARQUIVO


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EnSino SUPERioR Inês BalreIra

Ricardo Morgado candidato à DG/AAC João Pereira, atual vice-presidente da DG, é membro do projeto que tem como cabeça de lista Ricardo Morgado. Movimentos estudantis ainda sem candidatos definidos Inês Balreira

ricardo Morgado apresenta oficialmente a sua candidatura amanhã, 19

A pouco mais de um mês para a eleição dos novos corpos gerentes da Associação Académica de Coimbra os projetos candidatos começam a surgir. Depois da apresentação oficial de candidatura do estudante de Direito, André Costa, no passado dia 10, Ricardo Morgado confirma oficialmente a sua candidatura à presidência da direção-geral da AAC (DG/AAC). O estudante de Engenharia Biomédica e ex-coordenador geral do pelouro da Pedagogia da DG/AAC presidida por Miguel Portugal vai apresentar a sua candidatura amanhã, 19, em local ainda a definir, conforme informa o próprio. João Pereira era outro dos nomes inicialmente falados como possível candidato aos corpos gerentes. Contudo, o mesmo “prefere não comentar”, acrescentando, apenas, que faz parte do projeto de Ricardo Morgado. “Decidimos que o Ricardo Morgado era a melhor pessoa [a candidato] por diversas razões”, afirma o vice-presidente da

DG/AAC, sem adiantar mais sobre o assunto, acrescentando apenas que é “o projeto é de ambos”. Questionado sobre as bandeiras do projeto, João Pereira afirma que “existem muitas, que vão ser reveladas a seu tempo”. Ricardo Morgado acrescenta ainda que não existe equipa definida, e que será divulgada oportunamente. O atual presidente da DG/AAC, Eduardo Melo, confirmou também que não se vai recandidatar a um novo mandato. Eduardo Melo afirma que “é tempo de dar espaço a outras pessoas”, apontando também a “motivos pessoais e de falta de disponibilidade” como outros motivos para uma não-recandida-

Frente de Acção Estudantil, AAcção e A Alternativa És Tu ainda sem candidatos definidos tura. “Ainda não fiz tudo o que tenho para fazer, o mandato ainda não acabou”, acrescenta o dirigente.

Movimentos estudantis ainda sem candidatos Sílvia Franklim, da Frente de Acção Estudantil, questionada sobre o nome do possível candidato do seu movimento, afirma que ainda não está definido. “Ainda não começámos a reunir sobre isso”, diz a estudante, acrescentando que vão

começar a debater o assunto esta semana. À semelhança de Sílvia Franklim, Fabian Figueiredo, do movimento AAcção, assegura que também o seu movimento não tem candidato decidido e que vão começar a discutir a questão também nesta semana. André Martelo, do movimento A Alternativa És Tu, também ainda não apresenta um nome definido para candidato dentro do seu movimento.

“Projeto de mudança” André Costa foi o único estudante que já apresentou oficialmente um projeto candidato aos corpos gerentes da AAC. O ato decorreu na sala 17 de abril do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. “É um projeto de mudança, uma rutura, uma diferença em que todos podem acreditar”. Foi com estas palavras que o ex-presidente do Núcleo de Estudantes de Direito da AAC apresentou o projeto do qual faz parte. André Costa disse ainda que o projeto terá como base a meritocracia, uma vez que é “necessário inverter um paradigma que não é só da AAC, mas nacional”. Assim, “as pessoas integrantes na lista têm que demonstrar trabalho”, afirmou André Costa, garantindo que não haverá cargos definidos, sendo as pessoas escolhidas consoante o trabalho que demonstrem. Durante a apresentação do projeto André Costa referiu ainda que “o objetivo fundamental não é ganhar as eleições, mas servir a AAC”.

Cantinas fechadas ao fim de semana por tempo indeterminado Inês BalreIra

SASUC procuram soluções para que os estudantes possam voltar a ter refeição social aos fins de semana, através do lançamento de concursos para empresas e restaurantes da cidade Inês Balreira Desde o início do ano letivo que as cantinas e restaurantes dos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (SASUC) se encontram encerradas aos fins de semana. O administrador dos SASUC, Jorge Gouveia Monteiro, diz que esta foi uma decisão discutida e aprovada em abril passado, em conselho de ação social, “com o contributo dos dois estudantes representantes e do reitor”.

“A refeição social dá sempre prejuízo, o preço de venda nunca cobre o custo de produção. Ao fim de semana é particularmente mais desvantajoso do ponto de vista económico”, afirma o administrador dos SASUC, acrescentando ainda que “era uma situação muito negativa para os serviços e para os trabalhadores”. Porém, Gouveia Monteiro assegura que foi apresentada uma “proposta alternativa à que era praticada anteriormente”, sendo que no ano letivo passado os SASUC praticavam um sistema de restaurantes rotativos às quatro refeições do fim de semana. O administrador dos SASUC explica que a proposta alternativa “passava por abrir um concurso para a seleção de restaurantes a convencionar com os SASUC, em que o estudante compraria a sua senha ao preço normal e tomaria a sua refeição no restaurante que fosse selecionado. Esse restaurante faria depois contas com os SASUC da diferença

do preço base do concurso”. Gouveia Monteiro esclarece ainda que o concurso foi lançado com “o preço de 5.50 euros, valor que está abaixo do preço de custo que tinha uma refeição nas cantinas ao fim de semana”, e que os serviços de ação social apenas teriam que cobrir a diferença entre o preço do prato social e os 5.50 euros. Gouveia Monteiro assevera que o concurso foi lançado em maio passado, mas que no entanto não houve nenhum restaurante, dos vinte contactados, a mostrar interesse na proposta. Em julho, como aclara Gouveia Monteiro, os SASUC “tentaram o ajuste direto a três empresas, que tinham demonstrado interesse, mas, no entanto, apenas uma delas concorreu e apenas para sábado”. “Neste momento estamos a tentar resolver este problema, sem ter que voltar ao início [dos concursos], porque seria demasiado longo”, afirma o administrador. Gouveia Monteiro explica ainda que as refeições seriam “servi-

das nas instalações do adjudicatário”, não se tratando de uma situação de concessão. O presidente da direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Eduardo Melo, afirma ter conhecimento da decisão tomada em conselho de ação social. “A questão prendia-se com a necessidade de durante o fim de semana se garantir que o serviço do prato social era assegurado por restaurantes da cidade, dado que o preço do prato social era muito elevado e não compensava aos SASUC fazer essa refeição”, explica Eduardo Melo. “Obviamente não ficamos agradados enquanto não houver uma solução e temos insistido para a necessidade de haver uma cantina aberta aos fins de semana”, comenta. Questionado sobre um prazo para a situação ficar resolvida, o administrador dos SASUC espera “resolvê-la antes do final do ano”, pois “considera importante haver uma solução alimentar disponível ao sábado e ao domingo”.


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EnsIno supErIor

Estudantes, em greve de zelo, vão às aulas como forma de reivindicação Inês BAlreIrA

Insfraestruturas desadequadas, deficiências na avaliação contínua ou a falta de docentes são alguns dos fatores que levam os estudantes a fazer greve de zelo Inês Balreira Resultado de uma moção proposta pela direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) na última Assembleia Magna (AM), dia 3, transforma o dia de hoje, 18, em greve de zelo dos estudantes nas faculdades da Universidade de Coimbra (UC). Pretende-se assim que os estudantes adiram em massa às aulas de forma a demonstrar a falta de condições em que decorrem as atividades letivas, quer seja a nível de insfraestruturas como no número insuficiente de docentes.

O que é uma greve de zelo? Uma greve de zelo consiste em seguir rigorosamente todas as normas de uma ação, o que pode retardar ou restringir o normal funcionamento de uma atividade. É também uma forma de protesto que não pode ser contestada judicialmente. De acordo com Joaquim Dionísio, da comissão executiva da confederação geral dos trabalhadores portugueses (CGTP), este é um tipo de greve que “não se aplica propriamente aos estudantes”. “As consequências [resultantes da greve de zelo] não são idênticas àquelas que resultariam da aplicação da lei da greve aos trabalhadores em greve de zelo”, acrescenta Joaquim Dionísio, destacando ainda que “hoje em dia os estudantes são confrontados com uma situação muito complicada” e espera que “reajam à altura das suas responsabilidades”. “Num momento de dificuldade económica pareceu-nos a forma in-

A divulgação da greve tem sido feita através de flyers, das redes sociais e dos núcleos de estudantes. dicada de darmos força a esta nossa exigência de reforço orçamental de apoio dos quadros europeus e também de não exigirmos mais do orçamento de estado para que não haja uma reação negativa por parte da opinião pública”, justifica assim a greve o presidente da DG/AAC, Eduardo Melo. Questionado sobre a data escolhida para a greve de zelo, o dirigente explica que a intenção da direçãogeral era “fazer esta atividade antes da festa das latas” e que o dia “seria o mais indicado para o fazer, tendo em conta o calendário escolar”. Eduardo Melo acrescenta que, com esta mobilização, é possível “iniciar outras no futuro, como ficou proposto em AM”, referindo-se à manifestação nacional que ficou aprovada, mas ainda com data a definir.

Mobilização para a greve No sentido de mobilizar a comuni-

dade estudantil para ir hoje de forma massiva às aulas, a DG/AAC tem estado a fazer a divulgação através da distribuição de flyers, das redes sociais, mas também através dos núcleos de estudantes. “No domingo aproveitámos a chegada dos estudantes do fim de semana para fazer uma divulgação forte junto das estações de comboio e rodoviária”, afirma o presidente da DG/AAC. André Martelo, do movimento A Alternativa És Tu, aponta a divulgação que tem sido feita pela direçãogeral como escassa. “Durante a semana passada apareceram alguns flyers a divulgar a iniciativa, mas o contacto com os estudantes, a divulgação da iniciativa através dos meios de propaganda usuais e o próprio trabalho dos núcleos, através da DG/AAC, foi claramente insuficiente”, critica o estudante. Também Sílvia Franklim, da Frente de Acção Estudantil (FAE), tem dúvidas quanto à eficácia deste

protesto. “Do meu ponto de vista ele vai ser 90, se não 100 por cento inócuo”. A estudante critica ainda a forma de protesto escolhida pela DG/AAC, uma vez que “qualquer estudante que vá às aulas todos os dias faz sempre greve de zelo, desde o estudante que não tem lugar para se sentar na sala de aula ao estudante que não tem avaliação contínua, ou ao estudante que vai para o laboratório e não tem material para trabalhar”. Sílvia Franklim vai mais longe e afirma que, “tendo em conta o radicalizar dos ataques feitos aos estudantes, a resposta devia ser mais radicalizada”. “Nós tendemos a pecar por passividade”, acrescenta a representante da FAE, explicando que “os ataques são cada vez mais brutais e a resposta são greves de zelo”. “Face à atual situação política do ensino superior (ES), o papel que a direção-geral está a desempenhar é claramente insuficiente”, aponta

André Martelo, acrescentando que “a resposta de força e de união que a DG/AAC tem para com os estudantes de Coimbra é uma greve de zelo e uma outra eventual moção, para a marcação de uma manifestação”. Sílvia Franklim aponta, como exemplo, uma greve às aulas como uma forma mais eficaz e visível de reivindicação, uma vez que “permitiria fazer uma ligação com o resto dos setores universitários que também são afetados, como os docentes e os funcionários”. “Isto é um exemplo, não é que eu ache que uma greve às aulas fosse a solução milagrosa, mas seria sem dúvida alguma coisa melhor que uma greve de zelo”, ressalva a estudante. Eduardo Melo, por sua vez, acredita que a “adesão será positiva”, mas que, “acima de tudo, mais importante do que uma adesão a 100 por cento à greve é que no processo fiquem demonstrados vários exemplos de deficiência de condições”.

Última greve de zelo foi há nove anos a última greve de zelo de que há memória na academia foi a 19 de novembro de 2002. Pedro lynce regia o ministério da Ciência e ensino superior e 2002 ficou marcado por duros cortes orçamentais no financiamento para o ensino superior (es). o mês de novembro desse ano ficou marcado por fortes reivindicações estudantis, sendo a greve de zelo do dia 19 apenas mais uma. victor hugo salgado, presidente da dg/aaC na altura, afirmou que “mais importante do que dizer greve de zelo, é dizer vamos todos às aulas”. nove anos depois, o ex-dirigente afirma que “o contexto que se vivia na altura no ensino superior é completamente distinto do atual”. victor hugo salgado conta que “havia uma forte mobilização estudantil, onde a grande parte das iniciativas que eram tidas pela dg/aaC obtinham uma grande resposta positiva por parte dos estudantes que frequentavam a UC”. nesse contexto de mobilização surge a greve de zelo, associada a dois problemas, como refere victor hugo, que eram as reivindicações dos estudantes de então. “Um era a falta de condições da própria sociedade e o outro o aumento progressivo do custo da frequência no es”, explica o ex-dirigente. “Uma greve de zelo, nesse contexto, fazia todo o sentido, porque iria comprovar as incapacidades e a dificuldade que a UC tinha na altura”, recorda o ex-presidente da dg/aaC. fazendo um balanço da adesão estudantil nesse dia victor hugo salgado afirma que “houve aulas que não existiram, pois não havia condições para as ter, aulas laboratoriais que não ocorreram…”. “se a mobilização para a greve tinha como objetivo a participação massiva, verificou-se que ela tinha surtido o efeito que nós pretendíamos”, acrescenta o ex-presidente. nesse dia as faculdades mais “caóticas foram as de direito e de Ciências, sobretudo em Biologia, onde havia grandes dificuldades na aquisição de material de índole laboratorial”, afirma. “se a greve de zelo antes era feita e tinha um objetivo – a contestação às propinas, mas sobretudo ao custo da frequência do es -, hoje em dia esse objetivo aumenta significativamente face à crise mundial. É isso que poderá mostrar esta aaC com a greve de zelo”, acrescenta victor hugo salgado. inês Balreira


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CULTUrA

A Coimbra queirosiana redescoberta Com destino aos locais de eleição do escritor realista português, a Câmara Municipal de Coimbra comemorou o aniversário da matrícula de Eça de Queirós na Universidade de Coimbra. Do Penedo da Saudade ao largo do Paço do Conde, percorre-se o chão onde em tempos se viveu a história da cidade. Por Ana Duarte

E

m pleno agosto de 1861, esperava-se ansiosamente mais uma fornada de caloiros pelas ruas de Coimbra. Com os seus 16 anos, José Maria d’Eça de Queirós chegava à cidade vindo no meio dessa maralha, matriculandose pela primeira vez na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC). Passados 150 anos, o Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) realiza uma visita guiada, com o escritor como mote – não descurando, aqui e ali, um pouco de história sobre as artérias da cidade de Coimbra que, nesses tempos, eram vitais. A visita – ou “a conversa” como a guia da CMC, Branca Gonçalves, lhe prefere chamar – inicia-se no Penedo da Saudade. O estranho calor de outubro que se faz sentir situanos num qualquer agosto passado e impede o grupo de se concentrar junto ao busto de Eça de Queirós. “Está tanto sol e tanto calor, vamos é ficar aqui ao pé do António Nobre

que também ficamos bem”, sugere uma senhora do aglomerado, entre risos. A sugestão foi naturalmente bem aceite e as cerca de duas dezenas de pessoas acomodaram-se junto ao busto do poeta, munidas de garrafas de água, leques e chapéus. Prosseguindo a visita, ruma-se ao

Em tom de conversa, partilham-se os conhecimentos que cada um tem sobre o escritor Pateo das Escolas. O grupo, composto maioritariamente por aposentados, continua a lamentar o calor, mas isso em nada o demove. Em tom de conversa, partilham-se os conhecimentos que cada um tem sobre o escritor, que, em muitos, é vasto, noutros nem tanto. Mas “estamos

aqui para aprender não é?”, sublinham. Já em frente à FDUC, Branca continua a embevecer o público com estórias queirosianas. Fala-se sobre a sua a vida académica, com a leitura de textos do próprio escritor e de Teófilo Braga (seu colega na “coelheira” – entenda-se os lugares cimeiros dos anfiteatros). Contrariamente ao que se pensa, a sua atitude perante a universidade era depreciativa: Eça de Queirós criticava veementemente a forma como os lentes debitavam matéria e, em especial, o “francesismo”, ou a excessiva adaptação de tudo o que era francês para o ensino. Aborda-se, ainda, um facto curioso: a passagem do escritor pelo teatro académico, onde se revelou um “surpreendente ator”, segundo a guia. Da FDUC para a Sé Nova e da Sé Nova para a Rua de S. Salvador. É aqui que se irrompe pela intimidade de Eça. Branca conta-nos como o jovem estudante chega à cidade,

para onde foi viver e como se adaptou. Depois da estadia em casa de um docente da universidade, mudase para a república Bota-Abaixo, onde “se faz homem”. Partilha quarto (e até a cama) com João Penha - assunto tabu, nas palavras de Branca. Diz-se que foi por ele que começou a usar o monóculo. Uma demonstração de carinho, quiçá. Mas Eça não é tema dominante, também se discute a antiga Coimbra. A história da cidade cruza-se com a passagem do escritor por cá. E não é apenas a guia que intervém: o grupo vai participando ativamente na partilha de informação, não fosse ele composto por conterrâneos, muitos deles antigos estudantes da Universidade de Coimbra. A propósito do fado que se ouve a chegar à Baixa, relembram os seus tempos na academia e “como era naquele tempo”. Por alguns momentos, o saudosismo impõe-se sobre Eça, mas não o faz esquecer. Última paragem: Adega Paço do

Conde. Porquê? Há que recuar na história narrada por Branca. Foi no Paço do Conde que Eça de Queirós, após uma dose de exames, tomou a sua primeira refeição em Coimbra: uma travessa de arroz doce. Em jeito de findar a homenagem, é-nos apresentado um verdadeiro lanche queirosiano, com pastéis de bacalhau, jaquinzinhos, vinho branco, vinho de porto e, claro, arroz doce. E, em homenagem, o grupo se deleitou. “Este é aquele tipo de coisas que passa ao lado de muita gente e estas visitas são muito boas, na medida em que realçam ainda mais a cultura de Coimbra”, afirma uma das participantes, Ema Matos. Da parte de Branca e do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, este é um projeto para continuar: “a adesão tem sido muita e tentamos sempre valorizar as grandes personalidades que passaram por Coimbra”, afirma a guia. Da parte dos conterrâneos: “que continuem, por favor”. AnA DuARte

Inês AmADo DA sIlvA

eça de Queirós era apelidado de “cábula”: não por copiar, mas por demonstrar uma inércia em relação à excessiva carga de matéria debitada pelos docentes.

Novos géneros do cinema francês no TAGV Durante sete dias, o Teatro Académico Gil Vicente é invadido pela arte e língua dos irmãos Lumière. A Festa do Cinema Francês decorre de 2 a 8 de novembro Diana Teixeira Coimbra é a última cidade escolhida pelo Institut Français du Portugal para receber este festival, que conta já com a sua oitava edição. O diretor adjunto do Teatro Académico

Gil Vicente (TAGV), Michael de Oliveira, promete uma “programação diversificada”: animação, drama e documentário são alguns dos géneros apresentados nesta mostra. Os bilhetes terão o custo de três euros e cinquenta. Carole Bouquet, atriz francesa que conseguiu popularidade como “bond girl”, esteve a apadrinhar a festa no Cinema São Jorge, em Lisboa, no passado sábado. Mas a principal homenageada é Françoise Judith Sorya Dreyfus, mais conhecida pelo seu nome artístico Anouk Aimée. A atriz francesa esteve presente na inauguração da sua homenagem no dia sete de outubro, na Cinemateca, em Lisboa. Michael de Oliveira afirma que a

Festa do Cinema Francês “sempre teve êxito aqui na cidade” e por isso “mesmo com a nova direção, faz sentido continuar com esta festa”, refere. Embora em Coimbra este festival se fique pela exibição de filmes, Michael de Oliveira constata que sempre “foi D.R.

um projeto muito bem recebido pelas pessoas, com taxas de ocupação das salas muito elevadas”. “Poupoupidou”, de Gérald Hustache-Mathieu, inaugura as festividades no dia dois de novembro. “Des vrais mensonges”, a quatro de Novembro, e “Ni à vendre, ni a louer” e “Amour de jeunesse”, a seis de outubro, são algumas das antestreias deste festival. Existe ainda o Prémio do Público, para o qual estes três filmes, juntamente com outros seis, estão nomeados. Na opinião do diretor adjunto do TAGV, a Festa do Cinema Francês apresenta aos interessados “um cinema francês contemporâneo que, em termos artísticos, continua a ser interessantíssimo”. Esta festa surge

numa altura em que o teatro académico está também a apostar numa programação cinematográfica mais alternativa. “Cinema às segundas” é uma iniciativa que, segundo Michael de Oliveira, “ visa promover o cinema independente”, quer português, quer estrangeiro. Para além de Coimbra, a oitava edição da Festa do Cinema Francês passa também por outras cidades portuguesas: Lisboa, Almada, Faro, Porto e Guimarães. Até ao momento do fecho desta edição, não foi possível estabelecer contacto com a organização do evento, para abordar as expetativas e as razões que justificam a escolha da madrinha e principal homenageada do festival.


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culturA João gaspar

cultura por

18 OUT

“terror e MisériA No terceiro reich”, de Bertolt BreNcht

leitura tabaCaria da omt 22h • entrada liVre

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“coiMBrA – uM outro olhAr” Visita Guiada museu maChado de Castro 15h • entrada liVre

20 OUT

“B FAchAdA + lulA PeNA” músiCa taGV • 22h 8 a 10€

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Um novo rumo para a Canção? Face ao alheamento da população da cidade, as casas de exploração de fado constituem o foco da sua divulgação, que encontra o seu principal público nos turistas. A manutenção da tradição e a busca pela inovação alternam-se na procura de um futuro para este género musical. Por Ana Francisco e Mariana Neves

I

niciativas embrionárias na cidade, as casas de exploração do fado são compostas por antigos estudantes que decidiram enveredar pela via profissional. Estes locais, referenciados pelo turismo da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), têm espetáculos agendados diariamente. Quem passa pelo Quebra Costas não fica indiferente à menina de preto que “recruta”, muito atenciosa, os turistas desorientados que assim tomam conhecimento do património musical da cidade. Se este fado é “Canção” ou “fadinho”, é coisa para dividir opiniões. Do reportório limitado à falta de paixão nas interpretações, várias são as críticas. Afinal, o profissionalismo tira valor à tradição? “O fado de Coimbra tem passado por fases de estagnação e está um pouco pobre. Estamos num período de marasmo”, assevera um dos grandes vultos da Canção de Coimbra na década de 60, Rui Pato. Segundo o mesmo, o fado “está a ficar restrito à exposição turística”, que acaba por constituir a única preocupação das casas que, assim, aproveitam para vender o seu ‘merchandising’. O cultor da Canção de Coimbra, Jorge Cravo, afirma que o trabalho desenvolvido por estas casas está “mais focado na divulgação turística do que na fidelização de um público permanente em Coimbra”. Este considera que a Canção de Coimbra não pode viver somente da difusão sazonal e questiona até se existe um público para este género musical na cidade. Apesar disso, valoriza a inter-

nacionalização promovida por estas casas e brinca: “não iríamos perguntar a um Carlos do Carmo ou a um Camané se eles exploram o fado”. Assegurando que o propósito inicial da casa não era trabalhar com turismo, o promotor do projeto Fado ao Centro, João Farinha, explica: “a nossa localização numa artéria turística da cidade permite-nos ter acesso a esse público”. Também o sócio da casa de fados àCapella, Nuno Botelho, corrobora, convidando: “nós criamos o nosso espetáculo e a capela abre as portas todos os dias e quem quer entrar é bem-vindo”.

Uma paixão ou ocupação a tempo inteiro O coordenador dos grupos da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra (AAC), Hugo Martins, acredita que “há mais facilidade por parte dos turistas em ouvir grupos profissionais”. Defende ainda que “o sentimento é muito diferente quando não se tem o propósito de ganhar dinheiro. Ao tornar o fado uma profissão perde-se um pouco a mística que é representar esta academia”. João Farinha contrapõe: “uma pessoa pode fazer coisas com paixão e ser pago por elas”. Acrescenta que a falta de profissionalismo impede que se dê uma maior visibilidade ao fado, “um género maior que precisa de uma ocupação a tempo inteiro”, e que a preparação e a experiência são fatores essenciais que só se adquirem desta forma. O promotor da Fado ao Centro relembra a sua passagem pela Secção

de Fado da AAC e critica o seu funcionamento: “o trabalho acaba por não ser conclusivo. São estratégias muito pequeninas e as coisas acabam por não ter um rumo”. Sublinha, também, a pretensão da sua casa em “estender os horizontes”, contornando o alheamento da população “vê-se muita gente na serenata monumental, mas os que gostam do fado de Coimbra podem se contar pelos dedos”. Um dos problemas apontados é o reportório se encontrar “um bocado gasto”. João Farinha considera que o “amadorismo” do associativismo académico faz com que temas novos que se vão constituindo caiam no esquecimento. “Há temas muito bonitos apresentados na serenata que depois nunca mais ninguém os ouve. Os grupos separam-se e vai cada um para seu lado”, lamenta. As limitações ao fado da academia passam pela “falta de apoios suficientes”, segundo o presidente da Secção de Fado da AAC, Francisco Costa, que argumenta que as casas de fado de Coimbra “dispõem de mais recursos financeiros e podem aceder às coisas mais facilmente”.

Criatividade precisa-se Outro problema é a falta de criação de originais - “aquilo que se ouve já tem uns anos”, explica Rui Pato. Aquele que foi um dos companheiros de Zeca Afonso, lembra que “o fado era usado para exprimir inquietações políticas e sociais” e compara a abordagem atual a este género musical com a da sua geração: “os fados que

hoje se fazem não têm o mesmo empenho social nas letras”. A vereadora da Cultura da CMC, Maria José Azevedo Santos, salienta o “papel decisivo na promoção e divulgação” das casas de fado num género que, segundo a mesma, necessita de uma maior quantidade de vozes. “A profissionalização pode levar a um aumento de criatividade e de criação de originais”, assegura. O facto de estas casas se dirigirem a turistas não as desvaloriza, na opinião da vereadora, que no entanto, demonstra preocupação na salvaguarda da Canção de Coimbra no que ela é originalmente, sendo que, “o ideal é que o antigo não impeça o aparecimento de novas produções, tal como a inovação não deve “beliscar” as tradições”. Sobre o futuro do fado em Coimbra, Rui Pato, espera que “novos poetas se inspirem e consigam dar a volta com originalidade para que o fado volte ao que era”.

Novo espaço para o Fado Um novo espaço dedicado à canção e fado de Coimbra vai ser reabilitado na Alta. A designação do núcleo museológico que a Torre de Anto vai albergar está ainda por definir. Esta vai apresentar essencialmente peças ligadas ao fado, como guitarras de Artur Paredes e a oficina de Raul Simões, um importantíssimo violeiro de Coimbra do século XX. “Se cumprirmos os prazos da candidatura ao QREN, a obra estará concluída nos fins de 2012”, prevê a vereadora. Neste momento o futuro do empreendimento está aberto a concurso.

OUT

“PessoA, o GrANde AuseNte”, triGo liMPo – teAtro Acert teatro sala Grande omt •14h30/21h30 4 a 10 €

22 OUT

Feira de exposição e mostra de Velharias de Coimbra Feira praça do ComérCio 9h às 19h • entrada liVre

24 OUT

“cisNe”, de teresA VillAVerde Cinema taGV • 21h30 3 e 4€

25 OUT

“MANdráGorA” músiCa tabaCaria omt • 22h 5€

26 OUT

“FestA MuNdiAl dA ANiMAção” Cinema FnaC Coimbra • 22h entrada liVre

31 OUT

“toi et Moi”, de Julie loPes-curVAl Cinema FnaC Coimbra • 18h entrada liVre

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NOV

“MercAdiNho do BotâNico”

do

Jardim

Feira alameda de s. bento botâniCo • 9h às 13h entrada liVre

Por Carolina Santos


8 | a cabra | 18 de outubro de 2011 | Terça-feira

CulTurA

Há uma quinta no Ateneu onde saber mentir é indispensável iNês bALREiRA

Não é para crianças, nem é uma iniciativa onde as moscas são mais que o público. Na Quinta dos Contos prendem-se ouvidos e olhares de gente cativada João Gaspar Perto da Sé Velha e entre os bramidos de uma quinta-feira à noite, cerca de trinta pessoas sentam-se viradas para um pequeno palco de madeira sem ainda ali estar alguém. Luz fraca, mesas com panos de xadrez vermelhos e azuis a lembrar um pequeno restaurante e um público que se faz de idade adulta. É este o cenário que compõe a sala do edifício do Ateneu. Está toda a gente à espera dos contos, numa iniciativa que põe de mão dada as associações culturais Camaleão e Ateneu. José Geraldo abre as hostilidades, “mas sem guerra aberta”, garante, efusivo e de voz enrolada. É a primeira quinta-feira de outubro, e com ela a primeira sessão de “Quinta dos Contos” do novo ano letivo, que desde 2001 põe o público à volta de uma lareira imaginária. Hoje, de avó e avô fazem Sílvia Romero e Pedro Lopes, com José Geraldo em jeito de aquecimento para a receção aos convidados. Mas não se pense que aqui ouvimos a carochinha ou o lobo mau. Não. Temos um diabo com medo da sogra, um rei que quer voar, um homem que não sai da Ferreira Borges, uma Lisboa a inundar de princesas. Tudo dentro de um ambiente que se faz ora de risos largos ora de olhares atentos. RAFAELA CARVALHO.

Nesta iniciativa não se ouve a carochinha nem o lobo mau. O público é quase todo ele adulto. “Eu preciso de contar histórias”, desabafa Sílvia Romero, já em cima do palco. Apresenta-se como figura simpática, flor na orelha, olhos expressivos e uma voz pausada e calma enquanto nos embarca nos contos que narra. “São como os serões do meu tempo de menina”, recorda, nostálgica, a presidente da direção do Ateneu, Beatriz Rosa.

“É preciso ser um bom mentiroso” “O que me move é contar a história em que acredito, a história que me contei”, explica Pedro Lopes, envolvido nisto dos contares e contistas há mais ou menos sete anos, quando na biblioteca onde trabalhava começou a contar histórias aos mais novos. E quando fala de acreditar na história que conta, e que a ele conta, garante que só assim se pode transformar

numa boa história. “Eu acredito piamente no diabo!”, diz, enquanto explica que para se ser narrador é necessário “um trabalho interno de identificação” para que a ficção passe a uma realidade que sai natural, por entre o suspense e os gestos e toda a teatralidade que se é pedida aos narradores. José simplifica: “és um bom mentiroso? Se fores, és um bom contador de histórias”. “O contador é deus”, diz Sílvia Romero, realçando a omnipotência que o narrador carrega às costas. A contadora de histórias admite, até, que essa capacidade de amalgamar a ficção e a realidade é assustadora: “é aquele comportamento de não nos virarmos para trás por acreditarmos, piamente, que há mesmo um lobo atrás de nós”. Sílvia, que se rotula de contadora urbana, iniciou-se há três anos e ex-

plica que o próprio ato de contar “é um trabalho terapêutico para nós e para o público”. A mesma exemplifica: “um dia fui contar histórias chateada e numa delas a bruxa disse todas as coisas horríveis que eu queria dizer”. A personalização das histórias que lhes chegam às mãos acaba por ser prática corrente, com a própria seleção dos contos a depender das situações em que vão ser contados. “A história nunca sai igual”, conta Pedro Lopes. Sílvia vai mais longe e acrescenta que “se os autores nos conhecessem iram detestar-nos, porque trocamos completamente as voltas à história”.

Paredes que já ouviram muitas histórias José Geraldo, já com o público todo sumido de mais uma sessão de “Quinta dos Contos”, apercebe-se de que a iniciativa está a chegar às 100

sessões e o sucesso parece ser uma palavra a implementar quando se tentar fazer um resumo do número redondo. “Estas paredes já ouviram muitas histórias”, afirma o membro da Camaleão. Paredes essas que ganham reputação além fronteiras, sendo “um espaço muito especial na Península Ibérica, com boas condições acústicas e um público que sabe ouvir”. E tudo começou pela mão de José Geraldo e de Helena Faria, ambos da Camaleão, que percorriam o país e o estrangeiro a contar histórias, sem espaço próprio, abrigandose no Ateneu que acolheu a iniciativa. No final, como os modos tradicionais dos contistas o pedem, a despedida ficou-se com um “bendito e louvado, está o conto acabado”. E, na primeira quinta de novembro, lá voltam os contos e contistas a encher os ouvidos das paredes do Ateneu.

Bando à Parte: o teatro a formar cidadãos “40º11’N 8º 24’W” marcou o fim do primeiro ciclo do projeto Bando à Parte, n’ O Teatrão. A arte como via para a cidadania é o tema de ordem Nicole Inácio Bando à Parte é um nome que pode suscitar equívocos. Muitos são aqueles que o associam aos pobres, aos marginais, aos excluídos da sociedade. É na iminência desse risco que, desde 2010, O Teatrão tem vindo a preparar um grupo de jovens com o instrumento mais próximo que tem: o teatro. E é com esse espírito que o projeto “Bando à Parte : Culturas Juvenis, Arte e Inserção Social” foi criado, e chega agora ao fim.

O último exercício apresentado, “40º11’N 8º 24’W”, é concretizado através de várias personagens como o Músico, o Escriturário, a Mulher que Espera ou a Helena, que desejava outra vida. A expressividade e o dinamismo revelaram-se fundamentais, e através da música, dos sons, da dança e de outros elementos o enredo não se deixa mergulhar na melancolia. Parte-se, assim, da ideia de transformar a angústia sobre o mundo e a relação com ele em possibilidade de reflexão.“A arte existe sempre como uma forma de discussão da atualidade”, acentua a coordenadora do projeto, Cláudia Pato, que critica a realidade dos jovens de hoje. A apreciação de diversos conceitos artísticos revela-se, assim, como uma ponte para a construção de um pensamento crítico acerca do mundo. “Nós não somos atores. Isto nunca foi um curso para formar ato-

res”, sublinha um dos elementos do grupo, João Barbosa, que assegura que apesar de todos terem aprendido algo de música, dança e teatro, o mais importante foi “o crescimento pessoal a todos os níveis e a criação de uma ligação muito próxima entre todos”. Os colegas partilham da mesma opinião. O fomento do sentido de responsabilidade, de organização do tempo e a capacidade de assumir um compromisso foram aprendizagens marcantes na vida destes adolescentes. O percurso não foi fácil. No início, eram um grupo de 20, e agora são apenas nove. Maria João Cruz, outro membro do Bando à Parte, explica que obtiveram “ excelentes momentos, mas também houve percalços, como é normal”. O maior problema foi que “muitos vieram a pensar que iam para os Morangos com Açúcar”, como esclarece João Barbosa. Também a diretora artística d’ O Tea-

trão, Isabel Craveiro, explica que “os adolescentes vêm sempre com a ideia errada do que é a atividade artística: conhecem a música, o cinema, mas não conhecem o teatro, as artes plásticas, a dança”. A responsável acrescenta ainda que “é preciso acabar com a ideia de que a sociedade e a comunidade artística são coisas separadas e secundárias”. Para os membros do Bando à Parte, “a experiência valeu a pena”. A coordenadora não pretende que a ideia fique por aqui e esclarece que têm sido feitas “algumas avaliações ao longo do tempo, para ver o que correu bem e mal”. Garante que o objetivo não é que o projeto “seja uma coisa eventual, que aconteceu e agora acabou”. Já Isabel Craveiro alerta para a urgência na implementação de atividades desta índole na sociedade: “o que interessa neste momento é encontrar um emprego. Vivemos num mundo ao contrário”.


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deSPOrTO a

22 OUT

FUTSAL OAF – Modicus 16h • Pavilhão Engenheiro Jorge Anjinho

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B A S qU E T E B OL Ovarense Dolce Vita x AAC 17h • Arena Dolce Vita

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F U T E B OL AAC /SF x Touring 16h • Estádio Universiário de Coimbra

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A N D E B OL Samora Correia x AAC 18h • Ginásio de Samora Correia

Desportos radicais no Botânico ajudam à divulgação do jardim O parque de arborismo e atividades radicais do Jardim Botânico apresenta-se como uma alternativa ao sedentarismo. Inserido na Mata do Jardim Botânico e apoiado pela Universidade de Coimbra, surge como forma de reabilitar um dos maiores espaços verdes da cidade. Por Juliana Maria e Fernando Sá Pessoa filipe grespaN

Nas 40 atividades realizadas, a organização destaca o valley slide e a queda livre

A

mata do Jardim Botânico, fechada há vários anos, está agora a ser alvo de várias intervenções. A vicereitora para as Relações Instituicionais, Helena Freitas, afirma que este é um “plano mais geral para dinamizar o Jardim e para o abrir à utilização do público em geral”, integrado no projeto Requalificação das infraestruturas de apoio e divulgação da Ciência no Jardim Botânico da UC. Do parque de arborismo beneficia a Mata, porque “é uma forma indireta de promover uma visita, mesmo que parcial, e mantém uma zona de três hectares gerida de forma mais permanente”, explica a vice-reitora. Além disso, possibilita a prática de atividades desportivas e de lazer aos munícipes e turistas. Resultado de um contrato entre Helena Freitas e a responsável do Sky Garden, Helene Margolis, em que a reitoria concedeu três hectares da Mata para o efeito, pelo período de seis anos, renovável após esse tempo. Helena Freitas sustenta que “a UC não colocou um cêntimo no projeto. Os lucros estão consignados na venda de bilhetes – uma fração de cada bi-

lhete vendido é para o Jardim”. Para além do Sky Garden, a iniciativa contempla a reabilitação da estufa e a criação dos espaços “ciência” e “sementes”, com o intuito de reavivar os dois terços do Botânico, esquecidos há muitos anos.

“Atividade física, mental e emocional” “As pessoas estão nas alturas, fora do contexto normal”, afirma Helene Margolis, a responsável do Sky Garden. O parque de arborismo afirmase, assim, como escape ao stress da cidade. O espaço conta com vários percursos, onde os visitantes podem desfrutar de diversas atividades. Essas são do foro “físico, mental e emocional - uma pessoa pode estar muito bem preparada fisicamente, mas não estar tão apta ao nível emocional e não conseguir fazer todos os exercícios”, diz a dirigente. E acrescenta que “é preciso parar para poder prosseguir”. O equilíbrio, a concentração e a agilidade são também requisitos importantes na realização dos seis percursos do parque. Contudo, se as pessoas caírem ou não conseguirem transpor um obstáculo, “não há pro-

blema, porque, como estão presas por um cabo, ficam suspensas”, explica Maria João Portugal, monitora do parque. Acrescenta que “só sentindo é que as pessoas percebem o que isto é”. Uma das vantagens mais concretas deste tipo de atividades é, como adianta a proprietária do negócio, o desenvolvimento dos músculos internos. “Muitas vezes, as pessoas estão tão tensas que só conseguem trabalhar com os braços e com as pernas mas, depois de relaxarem, acabam por descobrir músculos que nem sabiam que existiam”, esclarece. No fundo, “o truque é estar relaxado e saber lidar com o medo”. A monitora Sara Brás vai mais longe: “são esses músculos internos que nos dão o equilíbrio necessário para fazer as atividades”. Os percursos procuram igualmente fomentar as competências inter-relacionais: “reparamos que, quando vêm grupos grandes ou famílias, as pessoas acabam por se entre ajudar”, porque estão sujeitas “a uma situação de ansiedade, de novidade e de medo”, declara Sara Brás. “Com famílias é muito bom porque as dinâmicas mudam completamente”, explicando que nor-

malmente “os pais tentam ser um modelo para os filhos mas muitas vezes os filhos são bem mais ágeis que os pais”. Apesar de associado à UC, Helene lamenta a fraca assiduidade dos estudantes no Sky Garden. Porém, congratula-se com a variedade de públicos que procura este tipo de diversão. “Tivemos, há pouco tempo, um senhor de 70 anos que veio acompanhar o neto”. Às crianças estão contempladas alguns dos percursos. Num deles, a organização dá a conhecer “as espécies que existem no Jardim Botânico e, à medida que o vão fazendo, aparece o ninho do animal e a explicação”, aclara Sara Brás. São várias as atividades que se podem encontrar no parque de arborismo. Para além dos seis percursos diferentes com mais de 40 atividades, a organização destaca o ‘valley slide’, percurso onde se pode desfrutar de uma vista privilegiada para o rio Mondego durante mais de 200 metros em slide, e a queda livre, que consiste em saltar de uma plataforma com cerca de 13 metros. “À partida, todas as pessoas conseguem fazer tudo, mas podem desistir ou podem escolher não fazer mais a

qualquer momento, se assim o entenderem”, afirma a monitora. Durante o percurso existem três níveis – um iniciado, dois médios e dois avançados – que dependem da altura das plataformas em relação ao chão. “Quanto mais alto, mais difícil”, esclarece Maria João.

Fazer do parque de arborismo um negócio Embora resulte de uma associação entre a reitoria da UC e a força de vontade de Helene Margolis, a mentora do espaço fala da intenção em fazer dele a sua fonte de rendimentos, quando confessa que o objetivo é “expandir o negócio, mudar, introduzir coisas novas, caso o projeto continue a ser bem recebido”. No entanto, desabafa que, “por estar profundamente envolvida neste projeto”, não sabe se o conseguiria levar para a frente tratando-o “apenas do ponto de vista do negócio”. Os preços das atividades variam entre os 13 euros para crianças e os 17 para adultos. Contudo, estudantes e famílias beneficiam de preços especiais. Às atrações ‘valley slide’ e queda livre acresce o valor de 3 e 4 euros, respetivamente.


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DespOrTO Prolongamento B A SQ U E T E BO L

Na jornada inaugural da Liga portuguesa de basquetebol, no passado domingo, a tarefa adivinhavase difícil para os jogadores de Luís Santarino. A jogar em casa do campeão Porto, a Académica entrou a perder por 95-76. No entanto, apesar deste resultado, é de ressalvar a resistência que os estudantes conseguiram manter perante os dragões. Apenas no quarto período cederam, no qual o resultado acabaria por ser penalizador (28-12).

Duas Coimbras para o pólo aquático FElipE grEspAN

RU g By

A Académica perdeu este s á b a d o frente ao Agronomia, por 23-13. No jogo realizado na Tapada da Ajuda, os estudantes voltaram a mostrar, não obstante o resultado negativo, este ano a AAC pode ser uma equipa a ter em conta, com legítimas expectativas de chegar à fase final. f U TE B O L

A contar para a Taça de Portugal, os pupilos de Pedro Emanuel precisavam de vencer os lisboetas do Oriental para seguir rumo à IV eliminatória. A Académica/OAF acabaria por levar de vencida a equipa da II Divisão, no útimo domingo, mas apenas com um golo solitário apontado por Berger (29’), jogador que tem sido, nesta temporada, suplente. A briosa cumpriu o seu papel e confirmou o favoritismo, sem, no entanto, convencer. Um resultado que chegou, mas que poderia ter sido diferente… AN D E BO L

A secção de andebol da Associação Académica de Coimbra recebeu e venceu, no último sábado, a Juventude Desportiva do Lis, naquela que foi a terceira jornada da terceira divisão do campeonato sénior de andebol. O resultado do jogo realizado em Coimbra fixou-se em 22-16. À quinta jornada, a equipa dos estudantes encontra-se na segunda posição da Primeira Fase da Zona Centro, com os mesmos treze pontos do líder Académico de Viseu. Fernando Pessoa

CNAC pretendem subir para o primeiro escalão, conseguindo ficar em quarto lugar na última época.

A nova temporada da modalidade jogada em piscina começa, para as equipas de Coimbra, no final do mês de novembro. A antevisão da época que se avizinha é positiva Fernando Sá Pessoa No dia 27 de novembro principia a segunda divisão do campeonato nacional de pólo aquático, competição onde estará presente, à semelhança dos últimos seis anos, o Clube Náutico Académico de Coimbra (CNAC). A equipa, que se encontra atualmente bem cotada no seu escalão, apresenta-se, para a nova época, com bastas credenciais, tendo em conta

que nas últimas duas conseguiu ficar no quarto lugar. Recorde-se que o quinto lugar é a garantia de manutenção na segunda liga nacional, sem necessidade de “play-off”. Nas palavras do vice-presidente da área desportiva, Luís Bastos, a equipa dever-se-á reger por objetivos sucessivos. “Primeiro, pretendemos a tranquilidade”. A partir daí, a meta passa por “alcançar melhor que na época anterior”, admitindo existir a “possibilidade” de subida ao primeiro escalão. Existem, porém, dificuldades, por exemplo, na obtenção de fontes de rendimentos, que advêm, sobretudo, da “quotização dos jogadores” e de eventos como o “sorteio de natal”. O ex-dirigente João Rodrigues lembra que os bons resultados se devem à “força de vontade” de todos os atletas, que, nas suas vidas, são “estudantes e trabalhadores”. Já no clube de pólo aquático da As-

sociação Académica de Coimbra, apesar da ligeira rivalidade que Luís Bastos (CNAC) admite existir, as palavras tendem a ser mais parcas, dada a situação atual da equipa. Formada por estudantes universitários, as expectativas da equipa que disputa, este ano, o campeonato de acesso à segunda divisão, não vão além de “melhorar jogo a jogo”, como afirma o técnico principal Nuno Carrilho.

Câmara Municipal ativa A Câmara Municipal têm-se revelado, como afirma Luís Bastos, fundamental para a evolução da modalidade. E concretiza o dirigente do CNAC, a título de exemplo, a cedência do complexo Jorge Abreu, na Pedrulha. Mauro Moreira, diretor técnico do complexo, afirma que, com “a isenção de todos jogos” e “concedendo primazia dos treinos do

clube em relação às atividades diárias da piscina”, a câmara dá um “grande incentivo à prática da modalidade”. Exemplo disso é o Torneio João Rodrigues, realizado no passado fim de semana no Complexo Rui Abreu, em homenagem ao atleta do CNAC que foi vítima mortal, em 2007, de um acidente de viação. O pai do atleta, também ele João Rodrigues e ex-dirigente do Clube Náutico, é perentório no elogio que faz ao órgão camarário do desporto: “não posso deixar de realçar esta iniciativa da câmara através da divisão de desporto, pelo seu vereador e pelas sucessivas direções, porque têm sido incasáveis em procurar organizar isto com brio”. Na sua quarta edição, o torneio de preparação pode contar, pela primeira vez desde que existe, com oito equipas. O CNAC obteve o quinto lugar do torneio, enquanto a Académica alcançou a sétima e penúltima posição.

Infraestruturas “não chegam a ser mínimas” O andebol da AAC está à procura de nova casa. Os escalões de formação tiveram, no último ano, um crescimento substancial, e o pavilhão atual não chega Fernando Sá Pessoa A secção de andebol da Associação Académica de Coimbra debate-se com problemas graves no que concerne ao espaço que lhe está disponível. Ao nível das infraestruturas, o atual vice-presidente, Marcos Alves, considera que as condições destas “não chegam sequer a ser mínimas” e fazem com que seja, assim, “muito difícil trabalhar”. O Pavilhão número

três do Estádio Universitário de Coimbra, há já vários anos a casa do andebol da AAC, tornou-se insuficiente após o investimento da atual direção num plano de formação. “É recente, mas graças ao nosso esforço já conseguimos ter todos os escalões nos masculinos”, conta o vice-presidente. E acrescenta que “continuam a ter vontade de captar”, apesar de, neste momento, estarem “impedidos disso”. O dirigente afirma que “o pavilhão, em si, tem condições para trabalho”, mas justifica o problema com a falta de horário para treinar tantos escalões: “preocupa-nos a falta de tempo e de espaços para treinar, porque nós treinamos com as equipas de formação três horas por dia, divididos pelos vários escalões, tanto masculinos como femininos”. A solução que está, neste momento,

em cima da mesa, passa por mudar de casa, tanto para treinos, como para o nível competitivo. Nessa medida, a direção tem-se desdobrado em esforços que vão no sentido de “estabelecer um protocolo com uma escola que tenha as condições essenciais, assim como as dimensões mínimas exigidas pela federação para se poder competir”, como declara Marcos Alves. A Escola Secundária Martim de Freitas é um exemplo que o dirigente dá, mas adianta que, neste momento, está a ser estudada a hipótese de mudança para a Escola Básica Inês de Castro. “Está marcada para breve uma visita a essas instalações”, adianta. A intenção é, diz o vice-presidente, “treinar e jogar num local em que os acessos e os transportes públicos estejam bem localizados”, para facilitar a vida aos

jovens da formação e aos atletas seniores.

Plano desportivo Apesar da turbulência que a escassez de infraestruturas tem provocado no início de época da secção de andebol da AAC, a verdade é que, em termos desportivos, os seniores masculinos estão neste momento no segundo lugar, mas com os mesmos pontos do primeiro. “As expectativas eram boas”, afirma Marcos Alves, mas confessa que “neste momento as coisas até estão a correr ligeiramente acima do esperado”. A Académica perdeu, nos primeiros jogos, apenas um jogo, com o Académico de Viseu, precisamente a equipa com a qual partilha a liderança da zona norte da terceira divisão nacional. “A subida é o objetivo”, projeta o dirigente.


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DeSPorto fElipE grEspan

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fElipE grEspan

a edição deste ano contou com apenas 250 inscritos, menos 750 que nos outros anos.

“Coimbra Bike Day” dá pedalada à cidade A divisão de desporto da Câmara Municipal de Coimbra organizou a terceira edição do “Coimbra Bike Day”. Com um número de inscrições bastante menor em relação aos anos anteriores, o balanço não deixa de ser, para a organização, “positivo”, apesar de algumas críticas. Por Fernando Sá Pessoa e Fábio Santos

A

terceira edição do “Coimbra Bike Day” lançou-se à estrada no dia 16 de outubro com menos pessoas que nos anos anteriores e algumas queixas. Maria Choupina, que entrou na prova pela segunda vez consecutiva, lamenta que, este ano, “o ponto de partida seja diferente do ponto de chegada”. Se antes começava e acabava no mesmo sítio, “agora é preciso apoio para ir buscar as pessoas ao Choupal”. É algo que, sustenta, “não faz grande sentido, a menos que houvesse transporte de volta”. Na manhã do passado domingo, o tempo adivinhava-se quente, mais uma vez, em pleno mês de outubro. Todavia, junto ao Complexo Olímpico de Piscinas Solum, começou-se a reunir um grupo de ciclistas que mais tarde se contabilizou em duas centenas. De todas as faixas etárias, homens, mulheres e crianças, com a já habitual t-shirt do evento, desta vez verde, partiram da Praça dos Heróis do Ultramar, quando os ponteiros marcavam dez horas. O passeio, que deveria ter dado início às nove, começou atrasado devido a falhas técnicas da responsabilidade da organização. Ouviram-se alguns desabafos menos discretos que, acompanhados de campainhas e assobios, pediam o início da prova.

A intenção foi conhecer a cidade a pedalar, promovendo o “convívio num dia diferente”, como justificou Carlos Batista, participante no evento. Para os que se associaram à iniciativa pela primeira vez, como Carlos Abrantes, o motivo prendeu-se, sobretudo, com “a curiosidade de percorrer o trajeto diário que fazia de carro em cima do assento da bicicleta”. Ao longo do trajeto foram feitas duas paragens para juntar o grupo, uma vez que o espírito não era de competição, mas sim de passeio. Com o desenrolar do tempo, o calor fez-se sentir, dificuldade prevista pela organização, que distribuiu garrafas de água. Ao longo dos cerca de 15 quilómetros, houve o percalço de um pequeno grupo de participantes que não seguiram pelo trajeto previsto. Humberto Coelho, elemento da organização, explica essa situação com o argumento de que “as crianças que seguiam no pelotão da frente não continuaram a andar atrás da polícia, e aqueles que vinham depois acompanharam-nas”. Além deste fator, muitos foram os que apontaram como falha de organização a falta de venda de bicicletas. Recorde-se que, nas edições anteriores, uma inscrição no valor de 60 euros oferecia, além da t-shirt, uma bicicleta. Talvez por isso, justifica Humberto Coelho, “o número de

participantes tenha ficado bastante aquém do esperado”, tendo em conta as edições anteriores. Entraram na prova cerca de 250 inscritos, enquanto nos anos anteriores o número andou na casa das mil pessoas. Esta discrepância, justifica o chefe da divisão de desporto da CMC, deve-se, também, às provas terem sido associadas ao dia da cidade, a 9 de julho, além de que coincidiam também com a época de férias.

Coimbra, cidade de bicicletas? Território conhecido pelas suas

particularidades geográficas, nomeadamente o seu relevo, surge a questão de Coimbra ser, ou não, cidade propícia à atividade ciclista. “É evidente que seria mais fácil se o terreno fosse todo plano, como acontece em Aveiro”, afirma Jorge Abrantes, chefe da divisão de desporto da CMC. Esta opinião é partilhada pelos participantes, como lamenta José Peixoto, que lança a questão da ciclovia em Coimbra: “precisamos dela, já que anda prometida há muito tempo e, até agora, nada”. No centro da cidade, o Parque Verde do Mondego é o local ideal para a prática de des-

porto ao ar livre, ainda que, para os amantes da bicicleta, acabe por ser pequeno e limitado. A presença constante de peões em lazer e de adeptos de ‘jogging’ é um obstáculo. Também a Mata Nacional do Choupal é propícia ao desporto, apesar de alguns participantes não estarem satisfeitos com as condições desta. “Temos esse espaço, mas falta limpeza em alguns pontos para se poder circular sem problemas, principalmente com crianças”, afirma Carlos Batista. O participante aproveita ainda para apontar para a “insegurança do parque verde”.

Reunião decisiva no dia 24 de outubRo confrontado com opiniões dos vários participantes, como José Peixoto, que lança a questão da ciclovia “já há muito prometida em coimbra”, o vereador do desporto Luís Providência é perentório: “as características da cidade, ao longo da sua extensão, não são simples para a prática do ciclismo”. Mas o mesmo lembra os “estudos adiantados de empresas especialistas nessa área, com quem estão estabelecidos percursos para a utilização da bicicleta”. concretamente, o vereador fala da ciclovia do Mondego como “um desses projetos”, e deixa claro que “vai ser concretizado dentro de pouco tempo”. desta forma, permitirá aos munícipes de coimbra a circulação, de bicicleta, entre a cidade e a Figueira da Foz. Relativamente ao atraso deste projeto, Luís Providência justifica-o com “questões técnicas”, mas afiança estarem reunidas condições para ultrapassar as dificuldades. no dia 24 de outubro decorrerá uma reunião com o executivo municipal onde, declara, serão “debatidas as três opções de construção” deste trajeto. Quanto à falta de acessibilidades para este meio de transporte, argumenta com os estudos realizados, segundo os quais, “além de dispendiosas”, apresentam dificuldades próprias do terreno, como “ter de arranjar alternativas para subir desde a baixa até a cruz de celas de bicicleta, por exemplo”. deste modo, complementa, além de se conseguirem reunir condições para avançar com o projeto principal, o qual “deverá ficar já decidido na reunião”, os traçados secundários do vale da arregaça e da ligação à solum através do parque das flores vão ter suportes financeiros para ser construídos. o vereador aproveita ainda para lançar a ideia de “pontos de cedência de bicicletas”, após a aprovação dos vários itinerários propostos, com a ideia de disseminar a utilização deste meio de transporte pela cidade no quotidiano dos conimbricenses.


12 | a cabra | 4 de Outubro de 2011 | Terça-feira

“We lOve 77”

Com uma Coimbra morta, o punk volta para abanar cabeças Até dia 28, V

itinho Clash, 15 anitos, cachopo de sorriso em marcha (que ainda hoje não lhe sai da cara), calças de ganga justas, jaqueta e já dono de uma guitarra, estava longe de saber que um dia estaria a expor no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) com um artista suíço, de nome Jay Rechsteiner, que conheceria em Londres. Filho da New Wave, Victor era discípulo do Rock Em Stock, de onde seguia as instruções sacras de Luís Filipe Barros, da Rádio Comercial, para as suas compras de discos. E, ao princípio, nem sabia o que era isso do punk: “sabia-se que existiam uns Sex Pistols e que os punks eram gajos estranhos e com cristas”. Nessa altura, giravam na sua cabeça as sonoridades de Devo, Talking Heads ou o “limpo” End of The Century dos Ramones, nomes de que se lembra quando fala de primeiras influências. Mas logo conheceria muito mais dos Ramones do que o End of The Century, e deixaria de ficar restringido à New Wave para abraçar essa contracultura que o serviria como filosofia de vida, assim como de banda sonora, parte dela agora pintada pelas suas mãos e as de Jay na exposição “We Love 77”, como The Fall, Sonics, Seeds, Patti Smith, Buzzcocks… e mais uma infinidade de nomes que lhe saem naturalmente da boca, sem espaço para hesitações ou falhas de memória. Mas, antes de Victor Torpedo, existiu o tal Vitinho Clash – miúdo ao lado de gente grande: “aos 15 anos entrei na Associação Cultural Objectos Perdidos, do Paulo Eno. Vi-os a fazer maluqueiras e basicamente queria fazer parte dessas maluqueiras”. E na Objectos Perdidos não havia pudor - performances desvairadas e libertinas, entre vídeo-arte e música. Com Paulo Eno voltaria a estar mais tarde para partilhar o palco nos 77, banda que se atirou para Nova Iorque, em 1999, de corpos suados, por vezes nus, com micros no cu e mulheres a roçarem-se em Paulo. Atitude não faltava. “E para lá da Objectos Perdidos, que era além de tudo, havia os É Mas Foi-se”, recorda Victor Torpedo, a lembrar a influência da banda conimbricense, que tinha como alguns dos membros Toni Fortuna, Nito e Sérgio Cardoso, que depois fariam a passagem para os Tédio Boys, onde Victor deixava o Vitinho e o Clash para se encostar ao Torpedo. E era tudo malta conhecida. Facto visível pelo cruzamento de projetos, parcerias e colaborações entre o pessoal que começou a tocar nos anos 80 e 90, onde projetos como Tédio Boys, É Mas Foise, Tom Tom Macoute, Foragidos da Placenta ou The Parkinsons estavam interligados de alguma forma. “Havia muita proximidade entre

só Punk

Com a exposição “We Love 77”, de Sardine & Tobleroni, alter-egos de Victor Torpedo e Jay Rechsteiner, vem também a desculpa para lembrar o punk. Não só o de 77 que aparece nas telas do duo exibidas no CAPC, mas também o de Coimbra - do Moçambique Bar, dos concertos no Bairro de Celas, da “javardeira” e da libertinagem. Por João Gaspar. Fotografias por Inês Amado da Silva


4 de outubro de 2011 | Terça-feira | a

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“WE lovE 77”

O Almada Negreiros era punk. Sem saber, mas era punk", diz Torpedo

as pessoas neste circuito muito pequeno, onde todos se encontravam nos mesmos sítios”, recorda, e ainda aponta: “o ano de 77 foram os nossos anos 80”, lembrando mais uma vez o ano que se transforma em dedicatória de amor na exposição que partilha com Jay. Mas num sentido de partilha muito estrito: um pinta o lado esquerdo o outro o direito. Porquê? Conheceram-se em aulas de Multimédia, em Londres, e partilhavam a carteira. Torpedo, ou Sardine, sentava-se do lado direito; Jay, ou Tobleroni, do lado esquerdo. Foi há cinco anos, já depois do boom dos The Parkinsons por terras britânicas. Ao princípio pensaram em fazer uma empresa de design, mas cedo acharam aquilo “uma merda”, diz Jay, que se atirou para uma colaboração com Victor por estar farto do que andava a fazer: “até tirei tudo o que tinha em galerias”. Então, juntos, começaram a desenvolver ideias. Primeiro na cabeça, depois no computador; primeiro em exposições coletivas, depois a solo; primeiro em Inglaterra, depois em Portugal, sendo estes os dois países por onde saltam de exposição em exposição. A última está por Coimbra até 29 de outubro, quase a dar de caras com as Escadas Monumentais.

“O punk é liberdade, é abertura de espírito” Em três pequenas salas e mais um corredor bem aproveitado é onde estão exibidos os quadros que remontam ao universo do punk na exposição “We Love 77” – o número que remonta ao ano “0” do punk. Mas não está lá representado só esse belo ano que, um dia, a Mojo fez questão de lembrar com o especial “Punk 77 Smashers Punk”, em que Sex Pistols, Buzzcoks, Patti Smith ou The Clash foram alguns dos nomes que foram destacados. Mas Sardine e Tobleroni (os nomes que remontam à representação do país de cada um dos artistas – sardinha de um lado, chocolate suíço do outro) não se ficam por esse ano e vão atrás, e vão à frente. Daí ter-se Iggy and The Stooges ou os Ramones, e depois os Joy Division ou The Libertines. Pelo meio vemos a convivência entre os americanos “mais ligados à arte”, diz Torpedo, e os britânicos, “sempre a bater no betão”. As cores saltam à vista, assim como todo o imaginário recriado nos quadros bipolares de Sardine & Tobleroni, onde a tal divisão só se nota num olhar mais atento. E porque o punk também é imagem, tem-se, nas paredes do CAPC, movimentos, paisagens, cenários, tudo distorcido, como se a contracultura conduzisse o pincel dos dois enquanto metiam os XRay Spex num tubo de ensaio como na capa do “Germ Free Adolescents”, as mamas ao léu das The Slits no álbum “Cult”, com o fundo de um desenho de criança “roubado da internet”, ou ainda os The Undertones, feitos bonecos de futebol, pegando na ideia do single “My Perfect Cousin”, lançado em

1979. Na galeria, ouve-se reggae: “é onde tudo começa”, explica Victor Torpedo. “Há um sítio muito importante na história do punk, o The Roxy, em Londres”, conta. Nesse espaço icónico, o DJ Don Letts tocava reggae e dub para um público de punk que ainda não tinha gravado, criando uma ponte entre os estilos musicais: “a banda sonora do punk é o reggae”, atesta Torpedo, lembrando o caso das The Slits, que tinham como base o reggae “mal tocado, mas tão mal tocado que acaba por ser tão bom…”. E este reavivar não é propriamente de memórias presentes desse ano, mas de bandas que começaram a ouvir tempos depois, novos demais para terem presenciado o boom. Jay tinha seis anos e Vitor apenas cinco quando o punk estalava em 77. O artista suíço, em tão tenra idade, já convivia com a cultura punk. “Em 77, estava algures nas montanhas suíças com a minha mãe, a viver numa comunidade hippie muito hardcore”, relembra. Nada do estereótipo do hippie americano: “até tinham a ideologia do amor e da paz, mas depois bebiam e mandavam foder o sistema”. Um género de punkhippies, classifica Jay, que não faz grande distinção entre as duas culturas. Passados uns anos, saiu do acampamento e só mais tarde entrou em contacto com a música punk, apesar de frisar que não é um grande fã: “gosto, mas também gosto de outras coisas”. Onde se relaciona com o punk é na estética e na distorção que encontra nos quadros que pinta com Torpedo: “este género faz ver a sociedade de uma perspetiva diferente, tenta mudar as coisas dentro do sistema”. “O punk é liberdade, é abertura de espírito”, diz Victor Torpedo, e dá exemplo: “os dadaístas eram punks de certeza, o Almada Negreiros ou o António Variações eram punks; sem saberem, mas eram punks”. E agora que já passaram mais de 20 anos, o também guitarrista dos Tiguana Bibles continua a afirmar-se punk - a sê-lo, aliás - mas calma, não é preciso estar a ouvir Ramones ou Sex Pistols a toda a hora: “lá em casa sou bem capaz de ouvir reggae”. As marcas do punk não se perdem.

E no Moçambique também havia… Também Sérgio Cardoso, membro dos É Mas Foi-se e da banda punk Foragidos da Placenta, continua a identificar-se com o estilo: “foi uma das linguagens da minha juventude”. Para além da sonoridade que o despertou, o lado político e de intervenção do punk acabaram por o empurrar ainda mais para dentro dessa contracultura. Sérgio Cardoso lembra-se bem das noites de Coimbra na altura em que o punk emergiu, com a Praça da República a ser o centro e o começo, sempre com o Moçambique Bar como catedral para os aficionados do punk. E, para retratar o local, nada melhor que a letra da “Coca-Cola Billy”, dos É

Mas Foi-se: “e à sexta-feira o Moçambique é o meu tecto / só faço javardeira e só dou mau aspecto”, cantava Toni Fortuna, que lembrava a diversidade do próprio café, com “os negros”, “os freaks desvairados”, “uma quantidade de parolos” e “os punks”. Local de recruta e de reunião, onde tudo se encontrava, numa mescla de culturas e formas de estar. Sem música nem floreados, no Moçambique os matrecos faziam de banda sonora, as drogas pesadas circulavam e os empregados “eram uns atrasados mentais”, conta Victor Torpedo. Mas toda a gente se sentia à vontade, “ninguém chateava ninguém”, uma escola onde se discutia e se falava de muita coisa. “Quando estava nos Tédio Boys até havia gente de Lisboa que vinha ao Moçambique”, afirma. Depois do Moçambique vinham então os espaços como a discoteca States, a Cave das Químicas ou o Centro Popular de Trabalhadores, no Bairro de Celas. Este último, o local para muitos dos concertos das bandas punk de Coimbra, como os DK Hard Jazz, os Foragidos da Placenta, ou para projetos de fora como os Inquisição ou os X-ato. Viam-se as cristas, as calças justas, os blusões de ganga – “sempre o mesmo pessoal lá batido”, refresca Nuno Ávila, locutor do Santos da Casa, programa da Rádio Universidade de Coimbra, que assegura que, apesar de todo o moche que por lá se fez, “era tudo pela paz e amor, nunca houve desacatos”. No States também se cruzavam sempre as mesmas caras, com “a malta a saber a playlist quase de cor”, naquele que foi o espaço dos primeiros concertos de Tom Tom Macoute, É Mas Foi-se ou mais tarde dos Tédio Boys. Para além desses lugares, Sérgio Cardoso evoca também o Teatro Sousa Bastos, onde foi dado um dos primeiros concertos de punk em Coimbra pelos nativos Trio Monção: “foi o despertar de uma nova ideologia, de uma nova forma de estar”. E a exposição “We Love 77” e todos os eventos que ela engloba exibição de filmes e concertos tentam voltar a lembrar essa época em que o punk se fazia de rei em Coimbra e lançou os dados para a afirmação musical da urbe. “Queremos dar brilho à cidade”, afirma Victor Torpedo, entristecido por não encontrar movimentos juvenis por Coimbra: “agora vão só à Avenida Sá da Bandeira emborracharem-se. Nós também fazíamos isso, e se calhar até pior, mas fazíamos o resto! Queríamos acrescentar alguma coisa”. A conversa termina umas quantas horas antes do concerto duplo de The Ten O Sevens e The Ricky Quartet no States, onde 50 pessoas abanam a cabeça sem medo de torcicolos, ouvindo os berros libertinos e suados que saem do palco. Antes, tinham estado a beber finos na Vénus - que o Moçambique deu lugar a pizzaria, como o Roxy deu lugar a uma loja de fatos de banho. Com Inês Amado da Silva


14 | a cabra | 18 de outubro de 2010 | Terça-feira

CidAde

Sousa Bastos:fim à vista? Há mais de duas décadas que o Teatro Sousa Bastos se encontra em ruínas. Nem os movimentos de artistas, nem a vontade do proprietário de fazer obras se sobrepõem aos constantes atrasos dos projetos que dão entrada na CMC. Por Ana Morais e João Valadão. Fotografia por Ana Filipa Silva

N

a Alta de Coimbra, entre um salão de cabeleireiro e uma república, resta apenas uma fachada daquele que em tempos foi um dos principais centros culturais da cidade. Cartazes de necrologia, mãos pintadas, gritos de revolta política, palavras soltas, lixo – são o que resta na parede do antigo Teatro Sousa Bastos. As portas cimentadas contrastam com as janelas abertas e sem vidros. Um plástico verde tenta esconder esta degradação. Ainda assim, deixa escapar vestígios do passar dos tempos, alguma vegetação. Este abandono de mais de 20 anos explica-se com a não aprovação da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) dos projetos que foram sendo propostos e acordados em conjunto com o atual proprietário, Joaquim Órfão, da empresa EICLIS. A questão da recuperação começou por se discutir com um primeiro parecer na Assembleia Municipal, em janeiro de 94. Por essa altura, a CMC terá licenciado o teatro a Mendes da Silva, promotor imobiliário. Tendo depois passado a propriedade de Joaquim Órfão, é com ele que, nos anos 2000, um primeiro projeto entra na CMC, aquando do mandato do socialista Manuel Machado. O atual proprietário viu-se, no entanto, confrontado com alguns constrangimentos. Quando a área de

intervenção é superior a 1500 metros quadrados e a área de implantação superior a 600, obriga-se a que haja cedências ao município. O espaço teria de ser partilhado entre o proprietário e a CMC. “Quando comprei o espaço, era com o intuito de fazer obras de imediato, senão nunca teria comprado. Nunca teria investido um cêntimo”, garante Órfão. Mendes da Silva, já falecido, havia garantido que “um projeto seria aprovado”, o que ainda não aconteceu - “desde a altura de

“Quando comprei o espaço, era com o intuito de fazer obras de imediato”, diz Joaquim Órfão compra que entraram projetos na CMC e que nunca foram aprovados”. Já o responsável pelo Gabinete para o Centro Histórico da CMC, Sidónio Simões, assegura que houve “uma tentativa de expropriação do espaço e o privado veio não demonstrou interesse em ceder”. Pelo contrário, o atual proprietário afirma que não houve tentativa alguma, garantindo que “se houve, nunca ninguém me disse nada”. Quanto ao projeto que está para

ser avaliado na CMC desde o mandato de Carlos Encarnação, todos concordam que estará para breve a sua aprovação. O vereador responsável pela administração e gestão urbanística, Paulo Leitão, avança que esta é apenas a segunda versão do projeto, que contempla “quartos, salas e espaços polivalentes”, para uso da CMC e a ser entregue a várias associações culturais locais. Já a parte que pertence ao proprietário será para apartamentos. Quanto a datas, ninguém avança prazos. Mas, o vereador assegura que o projeto será tratado “com a maior brevidade”.

Tentativas de recuperar o espaço cultural Inaugurado em 1862, ainda com o nome de Teatro de D. Luís, passou a designar-se de Sousa Bastos com a instauração da Primeira República. Depois do 25 de abril de 74, a programação do Teatro começou a adquirir um cariz mais alternativo segundo a historiadora e autora do livro “Teatro Sousa Bastos: as primeiras décadas da história”, Lígia Gambini, “até filmes pornográficos lá passavam”. Também José Moio, habitante local, confirma e pensa que foi a índole da programação que levou ao fecho do espaço, na década de 90. Facto que não agradou aos jovens artistas de então. Repúblicos,

estudantes e população local – juntos envolveram-se com o intuito de recuperar aquele espaço. Um primeiro grupo denominado “SOS – Salvem o Sousa Bastos” funcionou entre 95 e 98, período em que foram apresentadas várias propostas às entidades responsáveis pela vida social e cultural da cidade, e que, segundo o arquiteto e elemento do movimento, Luís Sousa, “foram sucessivamente rejeitadas”. Luís Sousa conta que o pretendido “não era uma obra de reposição” do antigo teatro, mas sim a criação de um centro social e performativo, mas “a solução foi completamente recusada pela CMC”. Com os infrutíferos protestos, o movimento “foi esmorecendo com o conjunto de negas, até da Direção Regional de Cultura”. Ainda assim, em 2001, nasce outro movimento, “Sousa Bastos Vivo”, que teve um papel interventivo nas eleições autárquicas daquele ano no sentido de pressionar os candidatos à resolução do problema. Contudo, a ideia de um novo teatro novamente se desvaneceu, aquando da realização de escavações arqueológicas no local, em 2005, devido à existência anterior da Igreja de São Cristóvão. Após sucessivos anúncios estéreis de recuperações, que passavam pela construção de apartamentos, o movimento acabou por nunca mais reu-

nir. Luís Sousa confessa que “as pessoas vão sendo anestesiadas por contínuos avisos de coisas que acabam por não acontecer”.

Soluções de quem por lá vive “Há dois meses caiu uma parede de mármore, está muito perigoso”, conta Ana Alves, da república PráKistão, vizinha do edifício. José Moio não se inibe de críticas e demonstra o desagrado que estas e outras situações de inércia lhe causam. “A CMC podia ter feito tudo. Há outros projetos na Alta que estão previstos e não vão acontecer. As obras são sempre embargadas”, protesta. No ano em que a Alta de Coimbra é candidata a património da UNESCO, muitos concordam que é o momento mais adequado para haver intervenções no local. Sidónio Simões garante que “a CMC tem feito um esforço enorme para reabilitar o edificado na Alta”. Quanto à necessidade de um espaço cultural nesta zona da cidade, Lígia Gambini confessa que “a partir do momento em que não se respeita a memória cultural do teatro, construir residências ou meter lá uma loja… vai dar ao mesmo”.

Com Paulo Sérgio Santos

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Fotorreportagem completa

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18 de outubro de 2011 | terça-feira | a

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CIÊNCIA & teCNologIA

Do laboratório ao comércio local, todos podem inovar Filipe Furtado

As partilhas de experiências feitas em 18 minutos juntaram células estaminais, redes produtivas no comércio local, escavações arqueológicas, histórias de superação pessoal e críticas às universidades. Por Filipe Furtado

O

auditório do Conservatório de Música de Coimbra abriu portas pela fresca. Às 8h30 do dia 15, chegavam os primeiros participantes para a segunda edição do TEDx Coimbra. “E se os pensamentos voassem?” foi o tema lançado aos oradores. Antes de mais, convém lembrar que o TEDx é organizado de forma independente, mas reproduz o modelo e a orientação do TED (Tecnologia, Entretenimento e Design), iniciado em 1984 na Califórnia, Estados Unidos da América. O evento anual junta várias personalidades para contar histórias, ou lançar ideias, que atravessam as tecnologias, a ciência, os negócios, o desenvolvimento e as Humanidades. Melhorar o mundo e a vida das pessoas através da partilha de experiências de sucesso é o grande objetivo do TED.

Dificuldades de Investigação João Ramalho Santos, docente do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra (UC), apresentou uma ‘talk’, no painel da manhã, sobre “estratégias para investigar o que não pode ser investigado”. “O sexo é bom e fazemos de várias maneiras ”, começa o investigador, ao relembrar a composição tão diversificada e heterogénea que está presente nos cromossomas dos seres vivos e que determina o seu sexo. João Ramalho Santos, abordando já as células estaminais, explica que "as células que temos no embrião são capazes de replicar todas as outras". Ao envelhecerem, desenvolvem-se e desempenham uma determinada ta-

Num auditório onde o sofá substitui o palanque, os oradores falam em tom descontraído durante 18 minutos refa, sendo que não é possível "uma célula que está na pele fazer de coração". A problemática principal nestas investigações reside nas experiências com “os ratinhos”. O investigado desenvolve: “é que eles não dizem grande coisa sobre como é que isto funciona com pessoas. Se pudermos estudar as células dessas pessoas, tentando simular como é que aquilo acontece lá dentro, talvez isso possa ser uma alternativa,” alerta Ramalho Santos. A ideia da reprogramação celular é como "voltar atrás no tempo, é tirar um bocadinho de pele de uma pessoa, reprogramar, refazer células parecidas com as embrionárias e a partir delas fazer outras que se possam utilizar na cura da doença de Parkinson, da diabetes, do Alzheimer ou de doenças cardíacas", descreve o biólogo. Tal técnica, permite, também, evitar problemas de rejeição de transplante - "porque essas células são as da própria pessoa", justifica.

Recolher memórias Eugénia Cunha, docente de Antropologia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, apresenta os seus benefícios para a sociedade através do seu objeto de trabalho: ossos. A oradora destaca que "não há dois esqueletos iguais, não há dois indivíduos iguais". A mesma lembra que os ossos podem conter informação de sete milhões de anos. Em Portugal, os vestígios da batalha de Aljubarrota fornecem informação sobre a forma como morreram os combatentes ou até se faziam da batalha profissão. Outro exemplo apontado pela antropóloga são as escavações realizadas na Guiné, entre 2008 e 2010, em que

se pretendia identificar militares portugueses para a Liga de Combatentes.

Confrontar a crise No segundo painel do TEDx Coimbra, a audiência descobria o “Sal Tal Qual”, por José João Rodrigues, promotor da salinicultura, naquela que foi uma abordagem de trabalho em rede. "À volta das salinas existe vegetação, plantas comestíveis,que podem ser aproveitadas, está todo o envolvimento cultural", garante José Rodrigues, que está envolvido no movimento de desenvolvimento local há 30 anos, e identifica o processo como algo "simples". "Os problemas e as necessidades de quem produz e de quem consome são idênticas", explica o artesão. “Se conseguirmos criar redes colaborativas, no sentido de as pessoas cooperarem entre si - produtores da área agrícola, do artesanato, da área de transformação de produtos agrícolas, dos serviços, de designers, informáticos, economistas, gestores, pessoas de várias áreas e instituições" é possível dar uma nova dinâmica aos produtos locais. João Rodrigues dá o exemplo de troca de produtos, “eu compro produtos a uma senhora enquanto ela me compra o sal para vender na loja dela”, ou mesmo vender o sal a uma microempresa que o consiga transportar e vender em Lisboa, ou no Algarve. "Se houver uma promiscuidade entre os produtores locais e consumidores, os nossos produtos saiem valorizados, são melhor apreciados e vendemos mais e melhor”, defende, realçando que "o trabalho em colaboração garante um preço justo a um produto com alma local". Neste mo-

mento, o problema, segundo o empresário, é cada produtor tentar vender o máximo possível, mas “a atual crise leva-nos a ver devemos cooperar entre todos com produtos complementares". Ideias para superar a crise são alguns dos pensamentos que dão forma às TED ‘talks’.Leila Marques Mota, presidente da Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência, senta-se no sofá destinado aos oradores e garante que "não tem nada a ensinar a ninguém". Nasceu com uma má formação congénita no antebraço e partilha, apesar dos momentos de baixa autoestima, a experiência de tornar os seus sonhos em realidade. "Somos o nosso maior adversário", assevera. Aos 15 anos, Leila Mota conseguiu terminar uma final dos Jogos Paraolímpicos de Altanta. Em 2004 bateu seis recordes nos Paraolímpicos e abandonou a competição em 2008. Hoje, dedica-se à medicina e a assegurar "melhores condições" a atletas com deficiências.

Um Tedx na cidade do conhecimento não estaria completo sem tocar diretamente na temática da universidade. A ‘talk’ “A culpa é das universidades”, de Rodrigo Moita de Deus, diretor-geral da NextPower (empresa de comunicação e marketing), critica o “clubismo e o sistema de castas ” do ensino superior, no qual cada estabelecimento é melhor que todos os outros. A intervenção descontraída e irónica aponta para a preocupação com o elevado número de cursos, 17 dos quais, segundo o orador, “não preenchem qualquer vaga”. Rodrigo de Deus questiona ainda o que fazer quando a universidade está velha. A resposta é simples para os lados de Lisboa: “fazemos uma nova”, que se junta à técnica, à universidade aberta e à universidade velha. Tal prática que o conferencista critica, advém, segundo o mesmo, de “milhares de egos” que por lá andam. “Não o conseguimos discutir nada sem estes bairrismos, mas para pensarmos em voar é preciso abrir gaiolas”, finaliza. Filipe Furtado


16 | a cabra | 18 de outubro de 2011 | Terça-feira

País

Portugalidade transcende o separatismo das ilhas Portugal, um país com história difundida pelos quatro cantos do mundo, volta a encontrar no seu seio sentimentos separatistas que procuram não desvirtuar o legado da “mãe da lusitanidade”. Por Liliana Cunha

S

er português. De Portugal, da península ibérica, do mais ocidente da Europa, do mundo. Relegando o interesse geográfico em detrimento do patriótico, a questão da independência dos territórios extracontinentais onde os portugueses estiveram presentes, foi sempre discutida. Contudo, esta mesma não impõe restrições colonialistas: “os Açores têm mais razões que Cabo Verde, muito mais que S. Tomé e Príncipe, e talvez melhores que Bissau para pedir independência”, ressalta o antigo membro e entusiasta do diretório da Frente da Libertação dos Açores (FLA), Carlos Melo Bento. A Frente, desencadeada num contexto pós-revolucionário, em meados de abril de 1975, preconizava a independência das nove ilhas face ao continente. Dois arquipélagos. Dois movimentos. Com vista ao separatismo, os Açores e a Madeira tentaram demarcar-se, por altura da revolução dos cravos, da pátria lusitana invocando propósitos diferentes. “Não queríamos pertencer a um país que podia entrar numa ditadura de esquerda”, explica o antigo ativista da Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira (FLAMA), Gil Caroto, que, em conjunto com os seus conterrâneos tentou gerar um “movimento independentista que pretendia a separação da república portuguesa”. Pelo lado açoriano, Melo Bento personifica o sentimento da época: “somos portugueses da expansão, estruturalmente independentes e indomáveis. Portugal, aqui, chama-se Açores”. Distinguiram-se também na prossecução dos objetivos. A FLAMA ganhou contornos violentos, chegando a desenvolver atentados bombistas. Na natureza esquerdista do golpe militar de abril viam uma grande afronta à sua ideologia maioritariamente de centro-direita: “queriam fazer aceitar a Mário Soares uma sociedade comandada pelo proletariado”, lamenta Gil Caroto, que sublinha a separação do “espartilho de esquerda”.

prio, uma região autónoma tem “condições especiais no que respeita à fiscalidade”, podendo “pagar impostos mais baixos”, sustenta o catedrático. No entanto, avisa que, aquando das “alterações nos níveis dos impostos do continente, as ilhas também sofrem repercussões”. A inviabilidade da independência não é compartilhada pelo madeirense Gil Caroto, que encontra a saída “num contexto europeu onde a Madeira poderia negociar diretamente com Bruxelas, sendo um estado comunitário”. Dá como exemplo a ilha de Malta, que “vive do turismo tal como na Madeira”. Mas a Madeira enfrenta a fragilidade das suas raízes -“sentimo-nos muito portugueses”. Carlos Melo Bento ainda partilha nos dias de hoje os valores que manifestava aquando do nascer do movimento: “para que deixemos, de vez, de ser estrangeiros na própria Pátria”. No seu livro, Horas Amargas, o advogado insiste na necessidade dos Açores serem “diferentes” por via da “diáspora, quatro vezes maior que a população residente nas nove ilhas

que nos compõem”. Quanto a um ressurgir da frente de libertação “por uma questão de dialética histórica” este pensa que não é o momento: “ainda não”. O parecer do diretor regional da Administração da justiça do governo regional do arquipélago madeirense, Jorge Freitas, associa-se ao do advogado açoreano: “não acredito porque os tempos são outros. Os rapazes dessa altura já são velhos de cabelo branco”. Alerta, todavia, para “o rumo” de uma nova “conturbação social na sociedade portuguesa”, à qual “é preciso aguardar e ver qual vai ser a consequência desta nova ‘troika’”.

A dívida como coesão moral “Temos trabalho feito e as pessoas viveram à custa disso estes anos todos”, sustenta Jorge Freitas. O membro do Governo Regional da Madeira atribui “aos cortes promovidos pelo antigo governo que a ilha sofreu” a culpa “da cratera da dívida” que recentemente tem sido falada. Esta, de 1,113 milhões de euros obrigará o executivo a rever o défice or-

çamental dos últimos 3 anos, e tem gerado controvérsia pelo seu modo de pagamento. No parecer do economista da FEP, Silva Costa, “não se trata de entender o território nacional como mais importante que uma parte, que uma região”, o problema necessita de “coesão” e o estatuto autónomo exige “poderes fiscais acompanhados de responsabilidade”. Remata atestando que “a dívida tem de pelo menos em boa parte ser paga pela região”. Estabelece-se um princípio geral comum às duas regiões autónomas, o de um encargo político de relevo. “Quem está no poder, em territórios muito pequenos, tem muita influência”, ressalva o ex-membro da FLA, Carlos Melo Bento. Carlos César, presidente do governo regional dos Açores está no cargo há 16 anos e o seu homólogo Alberto João Jardim há 36. “O povo é quem mais ordena”, lembra Jorge Freitas, que justifica a reeleição de Alberto João com a crença dos madeirenses “no seu líder, não o quiseram mudar”. Contrapondo o seu conterrâneo, Gil Caroto

Sentimento de Portugalidade “A portugalidade transcende-nos, mas é um bem demasiado precioso para a deixarmos perecer”, exalta o açoriano Melo Bento, que acautela para a manutenção desse sentimento que “não subsiste se o berço inicial, o nosso retângulo, a nossa mãe da lusitanidade, não tiver consciência da gigantesca obra que os de antigamente construíram neste planeta”. Pela parte madeirense, Gil Caroto, constata que “houve uma afronta ao povo da Madeira pelo governo central”, e a consequência disso fez renascer a “anticentralidade”. Resta o consenso na partilha de valores “de bens históricos e culturais”, no entanto, este, segundo José da Silva Costa “não seria impeditivo da independência”.

com Diana Lima João Miranda

“Os tempos são outros” “Não é do interesse das regiões autónomas serem independentes”, esclarece o professor catedrático da Faculdade de Economia do Porto (FEP), José da Silva Costa. Ao fazer uma ponte com o presente, o docente afirma que “a solução que foi encontrada para a autonomia regional é bastante favorável do ponto de vista financeiro”. Beneficiando de um estatuto político-administrativo pró-

revela que “os madeirenses abominaram ao facto da dívida ter sido escondida”, aludindo à abstenção registada na última ida às urnas. “Isto é novo”, finaliza.

o sentimento português é mais importante do que um desejo independentista, como afirma Jorge Freitas


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muNdO

Angola: mercado não é para todos Em Angola, as classes mais baixas são excluídas dos hipermercados. Está marcada para 2013 a construção de um Continente em Luanda, através da parceria entre a SONAE com Isabel dos Santos. Por Félix Ribeiro

A

s desigualdades sociais em Angola não dividem a população apenas segundo o critério de poder de compra. A distribuição alimentar obedece maioritariamente a este sistema. Todavia, a desarticulação entre as camadas sociais é tal, que os fornecedores são conotados com um determinado estrato, e por ele preferidos, o que transcende as desigualdades para lá do campo económico. Se, por um lado, existe uma minoria que beneficia de relações económicas com o estado, e possui capacidade para satisfazer as suas necessidades alimentares primárias nos poucos hipermercados do país, a maioria dos angolanos não pode, ou sequer deseja, abandonar o comércio informal. Esta é a posição defendida por Miguel Filipe Silva, coordenador executivo do centro de estudos africanos da Universidade do Porto enquanto Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento (ONGD): “se o preço no comércio informal fosse ‘x’, e o preço no comércio formal fosse o mesmo, a tendência das pessoas com menos capacidade financeira é de ir comprar ao comércio tradicional. Sentem que estão no seu espaço, são mais valorizadas e noutro espaço são olhadas de soslaio”. Desta forma, a perspetiva ocidental de que o desenvolvimento em países como Angola passa por acabar com a economia informal, não estando completamente errada, deve considerar, numa primeira instância, a disparidade social. Os retalhistas alimentares reforçam as divisões, pois, como afirma Miguel Filipe Silva, a classe mais baixa não atua como consumidora. Para que se possam assumir como tal, “as empresas têm que baixar imenso os seus custos de produção, têm que fazer produtos adaptados para as necessidades dessas pessoas”. Muito embora possam sair vinca-

D.R.

“Em Angola a classe mais baixa não atua como consumidor”, diz Miguel Filipe Silva das as desigualdades sociais, a instalação em território angolano de superfícies de retalho moderno alimentar traz a grande vantagem do investimento nos produtores locais. Estas superfícies optam por recorrer às importações, como forma de responder às exigências do seu públicoalvo, ao contrário do que acontece nos mercados informais. Ainda assim, Susana Costa e Silva, diretora do departamento de marketing da Faculdade de Gestão da Universidade Católica de Lisboa, explica que, no conjunto dos produtos comercializados, há sempre os que são provenientes de produtores angolanos. Outro benefício, explica, concerne à “vantagem para os consumidores que têm poder de compra e que, portanto, têm à sua disposição produtos de que precisam”. Por fim, conclui Susana Costa e Silva, “a ter-

ceira vantagem é a de criação de emprego local.”

A entrada do Continente em Luanda Está agendada a entrada, para 2013, de um hipermercado Continente em Luanda, através de uma pareceria entre a SONAE e a empresária angolana Isabel dos Santos, filha do atual presidente de Angola. A orientação que esta grande superfície vai assumir é, de momento, desconhecida. Para Miguel Filipe Silva, é importante saber se o Continente prossegue o posicionamento “low cost” que tenta assumir em Portugal, “ou se, em Angola, vai procurar, acima de tudo, servir a camada superior da sociedade e os expatriados de todos os países do mundo”, que beneficiam das ligações com o estado Angolano e, por conseguinte,

dos proveitos do petróleo. O coordenador executivo da ONGD é da opinião de que “para o Continente poderá ser muito interessante um posicionamento médio-alto, embora este seja um posicionamento que poderá ter alguma discussão”. Desde já, Susana Costa e Silva é da opinião de que a parceria com Isabel dos Santos representa um fator determinante. “Entrar no mercado que tem complexidades e especificidades acrescidas, como é o caso de Luanda, deve ser feito através de um parceiro local em quem se tenha muita confiança”, afirma.

As especificidades angolanas No país, a economia está centrada na exploração de petróleo, e a atividade do país, por sua vez, centrada quase inteiramente na capital. A

opacidade democrática do país é outra particularidade que se acrescenta ao panorama angolano. “O petróleo vai sendo distribuído em forma de dinheiro para uma elite angolana, que passa pelos políticos do partido que está no poder, o MPLA”, assevera Miguel Filipe Silva. É neste contexto que surge a parceria entre a SONAE e a filha do atual presidente angolano, José Eduardo dos Santos. Na opinião da diretora do departamento de marketing da Faculdade de Gestão da Universidade Católica de Lisboa, Susana Costa e Silva, “é jogar através das regras do jogo que se jogam atualmente no mercado em Angola.” Até à hora do fecho da edição, não foi possível obter resposta por parte da SONAE.

com Maria Garrido PUBLICIDADE


18 | a cabra | 18 de outubro de 2011 | terça-feira

Cinema

aRtES

1

“Uivo” DE Rob EpStEin JEffREy fRiEdman CoM JamES fRanco todd Rotondi 2010

Ginsberg, sagrado e obsceno

ver

CRíTiCa DE joão TERêNCio

955 . a américa do pósguerra. alienada, confusa, entre a censura e o libertarismo. a prosperidade e o ócio em sentidos diferentes da mesma estrada. ruas esmagadas por arranha-céus, acima de caves fervilhando com o bebop. Kerouac. Cassidy. Burroughs. allen Ginsberg, tentando encontrar-se, por entre os corpos, as drogas e as outras viagens da geração beat. “Uivo” - o filme - apresenta-nos o mais famoso poema de Ginsberg, e de forma indissociável, a sua vida. recorrendo a documentos e entrevistas da época, explana-os em várias dimensões. Uma, em tons de preto e branco, desenha o retrato do artista enquanto jovem, enquanto este declama o poematítulo, por entre o fumo de cigarros expelido por uma plateia que o observa por detrás de grossos óculos de massa (quem julgar que o conceito de «hipster» tem uma dúzia de anos, queira pôr os olhos aqui). há também a ilustração ani-

mada dos versos (excelente transposição do imaginário do texto), com o surrealismo das imagens em sintonia com uma percepção que se supõe alterada. Vemos ainda Ginsberg em entrevista, onde explica, de forma desarmante, as dores de crescimento e o seu método criativo. a homossexualidade e o temor ao pai ou a ideia de que o escritor se quer um homem nú, assumindo os seus medos perante si e os outros. Confissões inesperadas, tendo em conta o seu universo literário. por último, o julgamento no tribunal de “Uivo e outros poemas”, obra acusada de obscenidade. discute-se o seu mérito literário, com recurso a peritos (estudiosos, críticos, membros da indústria) que crucificam ou aplaudem este olhar que abalou a confortável poltrona que a literatura americana ocupava até então. este é também um debate sobre o que é a arte, qual a sua influência e se devem traçar-se limites (delicioso momento, aquele

em que o advogado de acusação, tentando objectar quanto ao uso de certa estética não consegue, porque “abre a boca e voam punhais”). outros argumentos sobressaem. as palavras em catadupa. a repetição como arma (“Moloch! Moloch!”, apetece gritar), a diabolização do sistema capitalista que a américa ergueu (“a megera zarolha do dólar heterossexual”) ou a passagem de Ginsberg pelo asilo psiquiátrico onde conheceu Carl solomon, a quem dedica o poema. James Franco continua versátil, ora dando forma ao franzino e inseguro Ginsberg, ora sereno na sua pele, ultrapassadas as provações da juventude. Jon hamm é a metade idónea do que vemos em Mad Men e rob epstein e Jeffrey Friedman estreiam-se de forma sólida atrás das câmaras, depois de um longo percurso na televisão. segue-se nova indecência: a caminho está um filme sobre Linda Lovelace.

Não Minha Filha, Tu Não Vais Dançar”

C

hristophe honoré tem uma obsessão com as famílias e os problemas corriqueiros que as rodeiam. ora temos os três irmãos de “Le Clan”, ora a relação perniciosa entre mãe e filho em “Minha Mãe” (ambos de 2004), ora ainda a depressão imanente de dois irmãos e o seu pai num exíguo apartamento parisiense de “em paris” (2006). “não Minha Filha, tu não Vais dançar” (2009) é mais um a juntar à patologia. não sendo esta a sede própria para uma análise psicanalítica, ficamo-nos pelo filme. a história gira toda à volta de Léna (Chiara Mastroianni), que acaba de se separar de nigel (Jean-Marc Barr) e se prepara para viver com os dois filhos. até

aqui não mais que uma das mil e muitas famílias mono-parentais que pululam o quotidiano do nosso tempo. o problema é que esta tentativa de Léna se tornar uma “mãe coragem” do século XXi sai gorada pelo excesso de zelo da própria família. Chegámos à obsessão de honoré. a partir da separação de Léna, toda a sua família mais próxima se encarrega não só de dizer como ela deve viver a sua vida, mas de tomar opções em seu lugar. seja a proporcionar formas de ela se reconciliar com nigel, seja a forçá-la a aceitar um emprego, seja simplesmente a fazer-lhe o jantar ou a lavar-lhe a roupa. honoré tem em “não Minha Filha, tu não Vais dançar” um filme no feminino. são as mulhe-

res a força motriz de toda a acção, por oposição aos homens, todos eles passivos, expectantes, como se fossem mais uma peça de mobiliário. Léna é, sem dúvida, a protagonista, mas a ela juntamse a mãe (Marie-Christine Barrault), mulher com um carácter muito forte, permanentemente em colisão com a filha, e a irmã Frédérique (Marina Foïs), uma cópia a papel químico da mãe. a história não tem nada de extraordinário, por si só. é um espelho da realidade, sem censuras, sem esconder silêncios nem olhares, onde cada hesitação tem um significado que não escapará ao espectador. em suma, que a obsessão de honoré dure por muitos anos. joão RiBEiRo

filme

De Christophe honoré eDitora Leopardo 2009

artigo disponível na:

Socorro, a minha família quer ajudar-me


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feitAs OUVIR

LER

the Complete remastered recordings ”

fanga”

E

m 2008, a companhia inglesa Cam Jazz adbraxton! quiriu o catálogo da pequena editora italiana Black fundamental! Saint/Soul Note. A etiqueta italiana, fundada em 1975, foi de enorme importância para muitos músicos americanos que, na década de 70 e 80 encontravam poucas possibilidades de edição. Não espanta, portanto, que a lista de músicos na editora de Giovanni Bonandrini seja impressionante, incluindo nomes cimeiros do jazz desalinhado com o mainstream como Steve Lacy, Paul Motian, Cecil Taylor, David Murray, Henry Threadgill, Lester Bowie, George Russel, Bill Dixon, Lee Konitz e Paul Bley. dE A Cam Jazz está a fazer sair, Anthony brAXton desde Março de 2010, «box sets» dedicados à quase totalidade dos Editora nomes acima citados. Com esta cAM JAzz jogada, devolve-nos a possibilidade de ter acesso a discos que, 2011 na sua grande maioria, estavam há muito fora de prensagem, sendo de enorme valor para compreendermos os percursos de alguns dos músicos que, movendo-se na área do jazz, mais arriscaram no seu desenvolvimento para além da cristalização e imitação dos modelos do passado. “Anthony Braxton: The Complete Remastered Recordings on Black Saint & Soul Note” contém oito cd's que cobrem gravações ao longo de um período muito alargado, de 1978 até 1996, em contextos que vão desde um duo com o baterista Max Roach até uma composição «intermédia» para 14 instrumentalistas, quatro atores e um artista visual. Ao lado da colecção da Arista, que integra trabalhos editados entre 1974 e 1980, e onde se conta a monumental “Composition 82” (para quatro orquestras!), esta «box set» consegue manter o seu apelo. Há aqui música que confirma o carácter absolutamente excepcional de Anthony Braxton no contexto da música da segunda metade do século XX, e se os mais céticos à partida poderão achar a música demasiado séria, o preço não o é (cerca de 25 euros)! José miGuEl PErEira

retrato de hoje

dE Alves redol Editora cAMinho 1943 / 2011 (EdiçÃo)

A

s efemérides são isso mesmo, simples ocorrências suficientemente relevantes para serem lembradas e revisitadas de quando em quando. Dizer que o centenário do nascimento de Alves Redol derive unicamente por aí seria uma tremenda iniquidade. A Caminho percebeu isso, e esta reedição de parte da coleção de Redol torna-se, mais do que uma oportunidade de celebrar a vida do autor, numa forma de descobrir a nossa história – aquela que normalmente só encontramos nas estórias que se perpetuam no ideário popular – e um modo de desenlear um dos expoentes do neo-realismo português. Num rol de romances onde se incluem “Gaibéus” ou “O Muro Branco”, “Fanga” é, de não tão longe assim, uma obra menos conhecida e, talvez, menos conseguida. Talvez por isto mesmo se torne tão estimulante ler, ou reler, ‘a’ “Fanga”. Não existem grandes artifícios na construção do plano narrativo. O romance acompanha a vida das gentes da Baralha, uma terreola para os lados da Golegã, onde as ruas são de terra batida e onde o jantar ainda se faz no lume da lareira. Ainda sob a sombra de um feudalismo rural, que se arrasta ao longo de toda a primeira metade do século XX – e para lá disso –, o comum da população resume os seus dias e a

sua vida ao fruto da fanga, da colheita da azeitona e de uma ou outra salteada clandestina às herdades das redondezas. Os outros que por lá vivem são os latifundiários, os que andam de automóvel, que esbanjam rios de dinheiro na feira de S. Martinho e que ditam a sorte de todos. No centro disto tudo vive Manel Caixinha, o jovem, que por demasiado moço, ainda não vai à fanga. Passa os dias com o resto da cachopada, a descobrir as meninas ou a debulhar iguarias nas figueiras e nos tomatais da Baralha, enquanto alimenta o seu grande sonho de um dia poder vir a ter uns sapatos. É, de resto, a partir de Manel que toda a narrativa se desenvolve. É do seu olhar de criança que descobrimos a intimidade do lar Caixinha, onde a ceia se resume a pão e hortaliça e onde a violência e o alcoolismo se imprimem nas noites que passam. Marcas de uma luta de classes que o autor não faz questão de esconder – na introdução à obra, é o próprio Redol que fala sobre isso mesmo, sobre o papel de intervenção e denúncia da injustiça que o escritor deve assumir. Sobre a luz desta realidade, talvez nada dê uma ideia tão autêntica como a leitura de Alves Redol. E por isso se torna tão importante recuperar as suas obras, para compreendermos a realidade que nos antecede, e esta que está por vir. JoÃo miraNda

JOGAR

Gears of War 3” Um último passeio por sera

GUERRA DAS CABRAS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro Plataforma XboX 360 Artigos disponíveis na: Editora Microsoft 2011

D

epois de três anos de espera, o terceiro e final capítulo de um dos mais bem-sucedidos franchises desta geração de consolas chega às lojas, “Gears of War 3” termina assim a história de Marcus Fenix e da sua Delta Squad. A campanha começa dois anos após os eventos do jogo anterior e convida-nos a assistir à busca de Marcus pelo seu pai e por uma maneira de acabar de uma vez por todas com a invasão de Locust, os pálidos extraterrestres que há muito ameaçam a vida no planeta Sera e que figuram como principal antagonista desta série. Ao longo desta campanha vamos denotando que este é de facto o último capítulo da história de GOW, e que o pessoal da Epic Games (produtores de jogos como Unreal Tournament ou Bulletstorm) não se esqueceu disso refinando a narrativa que se mostra a mais coesa e imersiva do franchise. A campanha só garante ao jogador aproximadamente dez horas de jogo, isto sem contar com outras tantas horas que a possibilidade de jogar a campanha cooperativamente, tanto online com quatro jogadores ou em split-screen, pode adicionar. Esta campanha cooperativa tem também

uma componente competitiva trazida pelo modo arcade que atribui pontos a cada jogador mediante as suas acções durante o jogo. A componente online também está presente disponibilizando os mais comuns (mas refinados) deathmatches e introduzindo alguns modos novos como o “Capture the Leader” em que uma equipa tem de capturar o líder da equipa oposta e mantê-lo sobre seu controlo durante um predeterminado espaço de tempo para pontuar. O modo “Horde” volta a marcar presença acompanhado de um modo “Beast” que permite ao jogador inverter os papéis e encarnar os temíveis Locust A jogabilidade mostra várias melhorias que a tornam simpática assim que se ultrapassa uma curva de aprendizagem que não é demasiado agressiva. Graficamente espantoso, GOW peca em muito pouco mostrando problemas apenas no carregamento de texturas e no sistema de cobertura, no entanto, estes são problemas facilmente ignoráveis. Concluindo, esta é a versão definitiva do franchise e promete agarrar os fãs aos controlos durante largas horas. rafaEl PiNto


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soltas

Félix RibeiRo

uMa ideia Para o ensino suPerior

toMai e coMei

José Manuel canaVarro • MeMbro da coMissão ParlaMentar de educação, ciência e cultura Professores inovadores

Já coMi Melhor e Mais barato

- Ó que raio! - pensei, enquanto me juntava à fila da estudantada esfomeada. – Ao sábado, por estes lados, costuma estar bem menos gente… - Lá esperei pacientemente, a aturar o habitual cheiro a fritos. Não me quero adensar muito neste prelúdio, que toda a gente bem conhece. Até porque, de resto, tudo igual. Depois do pedido, o verificar do cartão de estudante. Com o tabuleiro na mão, agora é o botar de olho, em busca de um assento no sobrelotado espaço, para nos assegurarmos de que toda a gente do grupo consegue jantar sem que tenha que comer as suas batatas fritas a olhar para um estranho. Mas vamos ao que interessa. Proponho ir por partes, a ver se o leitor advinha o prato que me serviu de refeição no sábado à noite. As batatas fritas, como sempre, salgadas até dizer mais não. Puxa à bebida, é certo, mas, de qualquer das formas, não é para ficar com sede que eu lá vou, e ninguém quer pagar por um jantar que só lhe vem acrescentar necessidades. Guarnição à parte, é a bucha que atrai os fregueses, e isso tem razão de ser. O frango empanado e crocante, as tiras de alface e o tomate, o molho de um agridoce perfeito. Depois do carnaval que se deu na minha boca, as batatas tornaram-se melhores e começaram a fazer todo o sentido. O cheiro a fritos já não incomodava ninguém. Até passou o desconforto de estar a comer descasado de companhia frontal – uma senhora que, com todo o respeito, devia aprender a comer de boca fechada. Tudo se tornou melhor, dentro do possível. Por muito bom que tenha sido o hambúrguer, não se apagou o desconforto de me ter visto obrigado a pagar 4,60€ por um McChicken, só porque decidiram fechar as cantinas dos SASUC no fim-de-semana. Só me fez mal à saúde, à carteira e, passadas duas horas, estava outra vez cheio de fome.

Por Félix Ribeiro

Pedem-me que exponha uma ideia inovadora para o ensino superior. Não sei se será inovadora, mas é sentida. Custa-me que o ensino superior em Portugal seja tão pouco diferenciado. Aceito melhor que o que chamamos ensino básico tenha pouca diferenciação. E mesmo que o que chamamos secundário não tenha muita, mesmo tendo alguma. Mas o ensino superior só o será, só será superior, se for diferenciado. Temos muitos cursos, demasiada oferta, mas essa é uma ilusão diferenciadora. É mesmo mera ilusão porque há uma tendência forte para que nada seja muito diferente, pesem as designações mais diversas. A uniformização é um requisito formal, determinado por estatutos de carreira muito pesados, reforçada por uma agência de avaliação que a faz por igual e também por milhares de júris académicos que promovem professores do ensino superior pelo seu mérito como investigadores, colocando em patamares menores as vertentes pedagógicas, de ligação à sociedade, de responsabilidade social, de gestão académica desses mesmos professores. O professor do ensino superior tende para a uniformização – é aquele que pu-

Música • Mão Morta • taGV • 6 de outubro

U

atenção especial aos dois primeiros anos do 1º Ciclo, nos quais os problemas de adaptação dos estudantes se acentuam. A ideia que proponho é a de que os professores do ensino superior sejam valorizados na sua diversidade, que se combata a uniformidade, que se centre mais a atenção nos estudantes, nas empresas, na sociedade e menos nas revistas científicas. Que se promova o “equal footing” entre estas componentes. Não é uma ideia inovadora, seria sobretudo um apelo à transformação positiva e para esta, para que aconteça, o envolvimento dos actores no processo será condição para que resulte. Considero que, em regra, a gestão de recursos humanos nas IES não é a melhor. E é estranho que isso aconteça em organizações tão qualificadas. Em regra, uma gestão menos boa dos Recursos Humanos duma organização afecta a qualidade do serviço que é prestado. E considero que, com as mesmas pessoas, mas com outro tipo de políticas “locais” e com menos amarras “gerais”, poderíamos ter melhores IES. O objectivo de inovar é melhorar. Deixo-vos uma proposta de melhoria.

d.r.

arte.Ponto

Mão Morta Mais viva que nunca m ano e meio após o lançamento do aclamado álbum "Pesadelo em Peluche", foi um Teatro Académico Gil Vicente praticamente esgotado que assistiu ao regresso dos Mão Morta à cidade de Coimbra. A banda de Adolfo Luxúria Canibal decidiu fazer-se à estrada com a tour Pelux in Motion, à qual Coimbra teve o privilégio de poder assistir no dia 6 de outubro. O concerto iniciou-se com “Tiago Capitão”, a faixa que encerra o último disco, sendo o público imediatamente conquistado pela banda, e perto do final da música já se ouviam espectadores a murmurarem o refrão repetido até ao clímax. Com um alinhamento equilibrado, que intercalou os temas mais recentes com alguns resgatados aos primórdios da banda (como a visceral “Aum” logo após o estrondoso início), os músicos de Braga souberam gerir bem as emoções do público, evitando criar momentos de altos e baixos, durante um concerto com a duração de 90 minutos. Enér-

blica. Se ensina ou intervém social ou empresarialmente isso é quase irrelevante para as Instituições de Ensino Superior (IES). Até no Ensino Politécnico isso está a acontecer. Se os desafios de “Bolonha” eram pedagógicos e de emprego, bem como curriculares, a resposta não está a ser satisfatória. As IES precisam de diferentes tipos de professores, precisam até de especializar os seus recursos humanos docentes em função dos ciclos de estudos, em função da oferta formativa, em função dos estudantes, por exemplo, prestando u m a

Daniel Silva.

gico, intenso, Adolfo Luxúria Canibal prova em palco ser um sério candidato ao título de melhor frontman nacional, brincando com a sua voz ora num registo mais calmo, próximo do spoken word, ora gritando em “Destilo Ódio”. Com fotografias de peluches grotescos, projetadas à sua retaguarda, e iluminado por luzes que iam alternando entre diferentes cores, acabando sempre por se tornarem vermelhas, o icónico vocalista dava o mote para a banda lançar ao público bem-comportado de Coimbra aquilo que ele queria: o rock único e inesquecível dos Mão Morta. “Novelos da Paixão”, o single orelhudo, cumpriu eficazmente esse desejo. Com o seu jeito provocador, o líder do grupo questionava se a dívida fora alguma vez soberana, como se ela alguma vez pudesse ser soberana, numa das suas intervenções pouco antes do piano de “Berlim (Morreu A Nove)” começar a soar e de “Paris (Amour A Mort)” tocar logo a seguir; e nós escutáva-

mos com a mesma vontade as palavras ditas e as palavras cantadas, enquanto um louco Adolfo se balanceava pelo palco, esmurrando um peluche que por lá se encontrava. O público não pôde queixarse da falta de interação da banda (que não caiu no erro de tantas outras e desatar a interromper o concerto entre cada música), já que anteriormente havia sido contada uma pequena história ao microfone sobre o surgimento da canção “Fazer De Morto”. Para o final, ficou guardada uma surpresa: quando soaram os primeiros acordes de “1º de novembro”, surgiu no palco uma bailarina exótica, e aquilo que poderia parecer estranho, em teoria, resultou extraordinariamente bem ao vivo. A banda ainda regressou ao palco mais uma vez; “As Tetas Da Alienação” e “Vamos Fugir” foram as faixas escolhidas para encerrarem o espetáculo onde o público apenas se levantou das cadeiras no final, para aplaudir os Mão Morta de pé. Por Daniel Silva


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soLtAs o Beijo

Micro-conto

Por Luís caminha

N

em pestanejava; mesmo quando calmei a procura e me caiu um estrondo na cara, o gritinho no lugar do morto não soprou o seu lugar de esfinge. A estrada corria-lhe silenciosa sob o artifício das mãos enquanto ao espelho da pala eu examinava se ardia. Entretanto era Coimbra e a cem metros do fim um semáforo fechava. Olhei-a de lado, pesei quietude, concluí aquiescência, ajeitei-me para outro ensaio. Já o carro arrancava, já eu dormia para não ter medo. Tentei despertarlhe a boca. Sem resultado: não creio que tivesse havido beijo. A sua cabeça inclinou-se leve, é um facto, mas para que a avenida não fugisse; e o talvez respirado e húmido da viagem não indiciava luta nem abandono. Voltei a encostar-me como se costuma, fixando o pára-brisas com perseverança, a dos mortos, a dela. No vaivém das escovas chovia como quando somos tristes. Segundo estrondo, de novo sem arma. Largou-me à frente da porta, simpática como nunca, sorrindo, «adeus, até amanhã».

encontrar o beijo. Além disso, há dias deu-se um pequeno desenvolvimento: ajudou-me a enganchar o cinto de segurança e até roçou a mão na minha.

Virei-me para o banco traseiro a espreitar se trazia o braço. Não, talvez estivesse na mala; portanto, só procurei o beijo ao pressentimento do semáforo.

________________________ Ontem estive todo o dia à espera. Telefonei-lhe várias vezes mas só me responde uma voz a dizer que o número não está atribuído. Que bom, ela ter subido comigo há duas semanas, antes de eu lhe ter entregado a outra perna. Há pouco, faltou-me bexiga para mais uma gota. Apesar de já não ser tão difícil como a princípio, ainda custa muito arrastar-me até ao quarto de banho e sentar-me na sanita. Daqui a pouco, deveria ir trabalhar. Mas ainda preciso de uns dias de repouso. Desconfio, também, que é mais fácil encontrar o beijo se ficar em casa, à espera de que ela mo venha entregar.

_________________________ Uma semana depois, dentro do carro o silêncio continuava maior. Imóveis. Carnudos. Procurei. Estrondo. Chovia e já estávamos parados no semáforo triste. Foi, então, que percebi: os beijos não se roubam, negoceiam-se. Assim, arranquei o braço direito antes de sair e pu-lo no banco traseiro, «Guardas-mo?».

Chove imenso. Ainda é noite. Tenho medo. *Por escolha do autor este texto não segue as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

_________________________ O braço faz falta mas eu quero muito

Por Doutorando Paulo Fernando • facebook.com/paulofernandophd

A

momento em que as cantinas estão encerradas aos fins-de-semana, grande parte da discussão centra-se na problemática das festividades académicas – actividades, que se ainda não se aperceberam, se tornaram a raison d’être de alguns dirigentes e entidades. Cortem-se as sebes por amor da santa! Que se dê bilhetes gerais para Latada a quem palmilhar meia cidade em estado de semi-embriaguês, responda a umas quantas perguntas, procure um tesouro, e no fim dê umas tesouradas nos cedros! Ou, de entre tantas almas caridosas e solidárias, que generosamente aligeiram o sofrimento alheio na DG, Queima, e outras entidades, não se arranjam uma chusma de voluntários para aparar o problema? Talvez não. Certamente que esta posição hostil da sociedade “civil” e do poder local, que tem sido repetidamente veiculada pela comunicação social regional, se esfumará e tudo voltará à centenária ordem social, onde a

angola viu nascer este autor de ficção científica, mas foi quando chegou a Portugal, com dez anos (após ter vivido outros dois anos em Espanha), que Luís Caminha descobriu o seu ídolo literário; um outro Luís, conhecido pela epopeia os Lusíadas, cuja vida boémia e romântica o fascinou e impeliu a começar a escrever uns sonetos. só mais tarde, após ter passado os trinta e muitos anos, é que o Luís contemporâneo decidiu enveredar pela prosa, tendo publicado o romance “um pinguim na garagem” (Caminho, 2009). mais recentemente, colaborou na escrita da novela policial “o caso do cadáver esquisito” (Prado, 2011). Vive em Lisboa, onde estudou Química e Psicologia, antes de enveredar pelo ramo da produção editorial, no qual é revisor e tradutor . Espera agora a publicação do seu novo livro e, além disso, encontrase ainda a trabalhar em mais textos originais. Diz-se um verdadeiro apaixonado pela escrita e pela maioria das palavras, já que, citando o próprio, “palavras como ‘doutor’, ‘absolutamente’ e ‘detalhe’ irritam-me muito. a maior parte das outras, ainda não”.

A Leste Do PArAíso d.r.

“alta” universitária dos doutores triunfa sobre a “baixa” dos futricas e então todos poderemos voltar a usufruir dos estatuto de “carapau de corrida”, perfeitamente consonante com a regressão ao século XIX que a nação enfrenta, em que o estudante de Coimbra desfruta dos privilégios

Luís Caminha • 44 anos

Daniel Silva

ilustração por ana granado

MonuMentAis PAnADos sociAis os que no passado dia três presenciaram a sua primeira Assembleia Magna – nada temam, isto a partir daqui tem tendência a melhorar. Alguns de vós é que não estarão lá para o presenciar! Como foi possível constatar, razões há de sobra para pautar uma agenda interventiva da academia de Coimbra. Não se desse o caso de nesta não haver nem rei nem roque, resumida a uma direcção futricamente em fuga via largo da Portagem. Será que se infiltram por trás das linhas inimigas? Ou são na realidade agentes duplos encarregados de funções de quinta coluna no movimento estudantil? É que não são comparáveis, em termos de agressividade, os cortes anunciados pelo ministro da tutela do ensino superior com a mais recente revolta dos futricas. Agora que o governo já não é de gestão e que se pariu um novo regulamento de bolsas, a DG/AAC é acusada de “apoiar” em demasia as actividades dos núcleos. Mesmo num

Novo estrondo. Chovia e eu era maneta. À despedida, pensei que não estava a dar o máximo. Por isso, arranquei a perna esquerda. «Guardas-ma?. Chovia muito, estava triste como nunca, tinha pena de ainda não ter encontrado o beijo. Encostei-me à parede e fiquei a ver o carro afastarse: parecia menos vermelho do que habitualmente, talvez por a chuva cair com muita força sobre o tejadilho. Saltitei.

da ordem pré-republicana. Não estou confiante que tal acção tenha capacidades totalmente redentoras, e que a população de Coimbra não deixe de se sentir incomodada pelas dimensões decorrentes da condição de estudante universitário: o ruído, os odores e a impunidade –

mas pelo menos a sua presença tornar-se-á mais tolerável, até ao próximo jantar de curso. Três dias depois da curva do Tropical ter ganho coragem e descido a avenida, com as lacunas nas suas fileiras provocadas por um inconveniente Tedex, quem garante que da próxima vez eles não vêm à rasca pela nossa cabeça? Solução? Um tríptico Aeminium! Uma troika alto-baixico-nipónica de concertação social, que reúna as partes e as convença que a sua existência não tem sentido umas sem as outras, e que ao aceitarem partilhar esta cidade incorreram numa dívida impagável. É uma discussão a Leste do Paraíso esta que move os mais enérgicos membros da nossa academia. Já agora: O “novo” ministro da economia foi nosso colega na FEUC. Será que isso explica alguma coisa? *Por escolha do autor este texto não segue as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.


22 | a cabra | 18 de outubro de 2011 | Terça-feira

opinião Cartas ao Diretor a frauDe Das apostas Desportivas e a imagem Da aaC/uC joão figueireDo*

o assumir de uma pretensa veia filantrópica, numa conjuntura económica em que o desespero pode toldar o julgamento e levar a apostar em tal tipo de fraudes, é da mais abjecta baixeza.

Acordo numa terça-feira extraordinariamente quente e solarenga, de um mês de Outubro que promete rivalizar com o passado Agosto, para encontrar o campus da minha Universidade de Coimbra pejado de posters de elevada qualidade gráfica e óptima realização técnica, prometendo uma maneira segura, prática e acessível, de, sem qualquer risco, ganhar dinheiro. Oh, annus mirabilis! Não ligando muito ao assunto, confesso que fiquei desde logo perplexo por alguém se dar ao trabalho de mobilizar uma campanha de cariz tão assumidamente obscurantista, destinando-a a um público alvo que, sendo instruído, eu intuía como se encontrando acima deste tipo de esquemas. Mas dois pormenores se fixaram na minha retina: a utilização no poster da imagem de marca da Associação Académica de Coimbra, a Torre da Cabra, ainda que, claro está, de uma forma completamente legal (qualquer um é livre para utilizar o contorno da Faculdade de Direito nas suas aventuras gráficas), e a promessa de ajudar estudantes não só a pagar as suas folias, como as suas propinas.

E essas foram as gotas de água, que precipitaram esta minha reacção. A utilização da imagem de marca da AAC, e por extensão da Cidade de Coimbra e da Universidade de Coimbra, ligando estas entidades institucionais a um esquema perverso, como forma de lhe conferir legitimidade, é uma forma de desgaste junto da opinião pública de todo o capital simbólico de credibilidade que estas instituições merecidamente foram granjeando junto do público em geral. O assumir de uma pretensa veia filantrópica, ajudar estudantes a pagar as suas propinas, numa conjuntura económica em que o desespero destes lhes pode toldar o julgamento e levar a apostar em tal tipo de fraudes, piorando apenas a sua situação inicial, é da mais abjecta baixeza. Será preciso perder tempo aqui explicando a impossibilidade científica de ganhar dinheiro sem risco, ainda para mais com recurso a apostas sobre resultados desportivos? Será necessário ser um estudante a título individual a fazê-lo, expondo-se a si próprio às pressões de quem muito dinheiro deve fazer à custa da miséria

alheia? Será preciso que eu nomeie nomes, e que fique passível de ser ‘bullied’ na minha vida quotidiana, ou levado a tribunal? Confiei que não, e como tal dirigime ao website da Cabra, procurando alguma peça de jornalismo que por mim tivesse feito este trabalho. Debalde. Aliás, após uma breve pesquisa através do motor de busca Google, descubro que a mesma empresa que pagou pela realização dos posters supostamente financiou a passada Queima das Fitas, mantendo relações comerciais com a AAC. Ora quanto a estas afirmações apenas disponho das provas, circunstanciais, constituídas pelas notícias que a Google fez até mim chegar, nas quais não quero acreditar. Espero que sejam manipulações ou distorções da verdade, porque é fácil fazê-lo em websites, e que a colaboração entre entidades respeitáveis e tal tipo de filantropos não tenha chegado a este ponto. Espero igualmente que A Cabra, por todo o respeito e admiração que tenho do seu ideal de jornalismo universitário, depressa aborde esta questão, se ainda não o fez. Gostaria de terminar com uma

nota positiva. É verdade que a verificar-se a colaboração da AAC com este tipo de iniciativas, que em última instância apenas prejudicam os seus associados, a minha vontade é de cobrir a cara de cinza, rasgar o meu cartão de estudante, e ir carpir para a Via Latina. No entanto, ela existindo, se for travada pela iniciativa e vigilância dos membros da comunidade estudantil, então existe esperança. Acredito igualmente que a Universidade de Coimbra, tendo em conta a responsabilidade que tem, de manter a sua imagem de credibilidade e de defender os interesses dos seus alunos, deve agir desde logo, retirando dos seus campus a dita publicidade, e apurando responsabilidades. Informo-os desde já que envio uma cópia desta carta às entidades da UC a quem julguei poder recorrer. Os melhores Cumprimentos, grato desde logo pela atenção. *Por escolha do autor este texto não segue as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. *Estudante de Doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

D.R.

Cartas ao diretor podem ser enviadas para

acabra@gmail.com PUBLICIDADE


18 de outubro de 2011 | Terça-feira | a

cabra | 23

OpiniãO

deMoCraCia 2.0 Miguel Cardina*

Noventa e nove por cento. É com recurso a esta percentagem que os acampados de Wall Street se têm apresentado à sociedade norte-americana. Eles estão ali, diante do grande símbolo do poder da finança, para protestar em nome da imensa maioria que tem sido vítima da crise económica e financeira. No fundo, questionam o poder dominante enquanto privilégio de uns poucos para usufruto deles próprios. E lançam à democracia o desafio da sua regeneração. Por contágio, um enorme e maleável “99%” passava de mãos no 15 de Outubro lisboeta, replicando a mesmo ideia. Que num outro cartaz se explicitava assim: no mundo actual “a história do Robin dos Bosques está ao contrário”. É certo que existem diferenças substanciais nos protestos que têm ultimamente ocorrido. Na Tunísia, no Egipto e na Líbia as manifestações recentes contribuíram para mudar a paisagem política e instaurar regimes democráticos em países com um longo lastro ditatorial. No Chile, são os estudantes que tomam a dianteira, agitando bandeiras que ultrapassam o estrito domínio da educação. Nos Estados Unidos da América, o alvo principal é a finança. Na Europa, os revoltosos gregos, os indignados madrilenos ou a “geração à rasca” portuguesa afrontam um conjunto de medidas de austeridade que - legitimadas pela opaca e mal explicada “crise das dívidas” - ameaçam redesenhar a sociedade e o Estado. No entanto, é possível encontrar pontos comuns neste novo panorama reivindicativo. O primeiro diz respeito à forte pre-

sença da juventude. Ela corresponde a um traço habitual nas contestações de natureza mais sistémica e faz eco, neste momento, da crescente precarização das relações laborais que atinge com particular veemência os mais jovens. O segundo aspecto concerne à crítica das elites políticas (apontando o dedo ao despotismo, à corrupção ou às privatizações) e económicas (contestando as desigualdades ou questionando o modo como esta crise financeira tem sido paga com o rendimento dos cidadãos). Por fim, todos estes movimentos – ainda que nem todas as suas componentes sejam imunes a um discurso populista

É possível encontrar pontos comuns neste novo panorama reivindicativo que aduba terreno para o crescimento da extrema-direita – valorizam a democracia como algo que não se confina às instituições representativas. De acordo como o antropólogo Alain Bertho, estamos diante de uma nova vaga contestatária, evidente no aumento da quantidade de motins. Em Agosto de 2011 eles já tinham ultrapassado o número registado em 2010, que por sua vez tinha assistido a mais do dobro das revoltas registadas em 2009. Como se mencionou acima, elas tanto correspondem a situações nacionais específicas como dão conta de características mais vastas. No fundo, a indignação generalizada que tem descido às ruas tem diante de si um desafio gigantesco: como pode a imensa maioria reinventar a democracia?

*Investigador do CES

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 e-mail: acabra@gmail.com

editorial ensino suPerior: ano zero

O

s cortes feitos no Orçamento de Estado (OE) relat i v a m e n t e a o financiamento das instituições de ensino superior (IES) já não constituem uma novidade nesta fase já adiantada do ano lectivo, uma vez que foram anunciados pela tutela em agosto. Não o constituem quer porque há muito estão anunciados, quer porque há muito se faziam adivinhar. Num cenário em que as palavras «corte», «redução» e todos os seus sinónimos e campos semânticos circundantes fazem inevitavelmente notícia, pressagiava-se a diminuição perversa da parcela do OE destinada à Universidade de Coimbra. O que aconteceu. Numa conjuntura que obriga a uma gestão estoica de tudo o que é bem

receber 80 milhões de euros. De longe a quantia mais baixa da última década. Percebendo que o número de estudantes da UC ronda os 23 mil, é quase um contrassenso que um maior número de alunos tenha o menor financiamento já visto. Se tivermos em atenção a receita que a UC recebe relativa às propinas (aproximadamente 23 milhões de euros), verificamos a clara insuficiência, sabendo que 100 milhões mal chegam para cobrir as despesas com os funcionários (discentes e docentes). O único recurso será valer-se de cortes em tudo o que puder ser cortado e das receitas próprias, mas todo este esforço tem um limite. Para já, o Conselho Geral da UC decidiu não alterar o valor da propina para cursos de segundo ciclo,

Percebendo que o número de estudantes da uC ronda os 23 mil, é quase um contrassenso que um maior número de alunos tenha menor financiamento público, o ensino superior não iria funcionar como uma camada privilegiada da população portuguesa e demarcar-se dos cortes verificados nos restantes ministérios. Mas será justo que um dos poucos setores do estado, como é o ES, que não pode contrair dívida, seja um dos setores que a está a pagar de forma mais violenta? Já não bastava que as parcas verbas transferidas pelo OE ao longo da última década obrigassem as IES a violar a lei para assegurar o funcionamento (transferindo as receitas provenientes das propinas para gastos de manutenção), vem agora o recém-criado Ministério da Educação e Ciência atribuir quantias irrisórias que deixam muitas instituições ainda mais no limite. Passemos então aos números. Considerando a diminuição de 8,5 por cento em relação ao ano passado, a Universidade de Coimbra passou a

terceiro ciclo e pós-graduações, mas é legítimo questionar até quando será essa a opção. Pode também questionar-se se será possível a manutenção da qualidade pedagógica num cenário tão apocalíptico, em que parece não haver fundos para nada. Parece que terá que se fazer uma refundação dos valores do ES, público e gratuito, que tão deturpados estão. Enquanto isto, os assuntos a ser tratados com prioridade na Assembleia Magna são discussões sobre quem apoiou ou não a atividade de um núcleo (que terão o seu valor mas nunca poderão ficar à frente de assuntos como a ação social escolar), quezílias pré-eleitorais e outras que tais. Entretanto a Academia espera tranquila pela greve de zelo ou talvez por algo que indique outro caminho mais eficaz.

Camilo Soldado

Diretor Camilo Soldado Editores-Executivos Inês Amado da Silva, João Gaspar Editoras-Executivas Multimédia Ana Francisco, Catarina Gomes Editores Inês Balreira (Ensino Superior), Ana Duarte (Cultura), Fernando Sá Pessoa (Desporto), Ana Morais (Cidade), Filipe Furtado (Ciência & Tecnologia), Liliana Cunha (País), Maria Garrido (Mundo) Secretária de Redação Nicole Inácio Paginação Inês Amado da Silva, João Miranda, Rafaela Carvalho Redação Diana Lima, Diana Teixeira, Félix Ribeiro, Joana de Castro Fotografia Ana Filipa Silva, Daniel Silva, Felipe Grespan, Félix Ribeiro, Filipe Furtado, Inês Amado da Silva, Inês Balreira, Rafaela Carvalho Ilustração Ana Granado, Ana Beatriz Marques, Tiago Dinis Colaborou nesta edição Carolina Santos, Daniel Silva, Fábio Santos, Felipe Grespan, João Valadão, José Manuel Canavarro, Juliana Pereira, Mariana Neves, Miguel Cardina, Paulo Sérgio Santos, Luís Caminha Colaboradores Permanentes Carlos Braz, João Miranda, João Ribeiro, João Terêncio, João Valadão, José Afonso Biscaia, José Miguel Pereira, José Santiago, Lígia Anjos, Luís Luzio, Pedro Madureira, Pedro Nunes, Rafael Pinto, Rui Craveirinha Publicidade João Gaspar 239821554; 917011120 Impressão FIG – Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Rui Antunes, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, Luís Caminha


Mais informação disponível em

Redação: Secção de Jornalismo Associação Académica de Coimbra Rua Padre António Vieira 3000 Coimbra Telf: 239 82 15 54

acabra.net

Fax: 239 82 15 54 e-mail: acabra@gmail.com Conceção e Produção: Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra

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CMC

Quem passa pela Alta e procura aquele que já foi um dos baluartes da cultura coimbrã, encontra apenas uma exposição de arte urbana. Do antigo Sousa Bastos resta apenas a fachada marginalizada. Algo novo? Não, o edifício encontra-se assim há mais de 20 anos. Culpa de quem? O proprietário quis fazer obras, mas o mais difícil é a CMC aprovar projetos. Por restrições legais ou financeiras, o certo é que, desde os anos 90, que eles existem – mas, até hoje, aquele espaço continua ao abandono. O vereador Paulo Leitão, promete “brevidade” na questão. De quantos anos mais será essa “brevidade”? A.M.

SASUC

Este ano os estudantes ainda não poderam deleitar-se com o prato social ao fim de semana. Pode a solução de uma refeição igualmente acessível passar por uma romaria a um restaurante de fast food? Será que comer por 2,40€ nestes dias só vai ser possível com o take away de um hipermercado com publicidade irritante? Ou o ideal seria haver um protocolo entre os SASUC e restaurantes da cidade, como sugere Gouveia Monteiro? Para os que permanecem quando Coimbra fica deserta, o melhor seria os SASUC continuarem a oferta social, que isto da comida pesa no bolso. A.M.

BlackBird por Felipe Grespan

Nuno Crato

O Ministro da Educação e da Ciência, Nuno Crato, decidiu operar um dos maiores cortes na história do ES. O corte de cerca de 600 milhões de euros anunciado, sem dó nem piedade, vem condenar um ES que se quer público e gratuito. Para agravar o cenário, desde 2010 que se regista um aumento do número de alunos na UC. São muitas as faculdades que não têm espaço nem condições a oferecer aos seus alunos. Este aumento de alunos não corresponde, contudo, a um aumento de financiamento canalizado para o ES. Com este orçamento de estado, o investimento na UC diminuiu 7,6 milhões de euros. Serão estes “erros cratos”? A.M.

200 x 100 “Take these broken wings and learn to fly”. Este é um dos versos de uma música dos Beatles intitulada Blackbird. A frase escrita por Paul McCartney passanos a ideia de não desistir quando alguma experiência não é bem sucedida. O fracasso é parte integrante do sucesso. Não vale a pena ficar a lamentar sobre a “asa partida”, pois, no mundo de hoje, compensa mais ter uma asa partida do que ficar no ninho com receio de quebrála. Aprender com os erros é o melhor caminho para não os cometer novamente. Parafraseando o 16º Presidente norte-americano, Abraham Lincoln, “o campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer”.


Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA - 235