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A BATALHA DE RED CLIFF O REGRESSO A CASA John Woo volta a filmar na China, o seu país natal, num recuo às batalhas do século III entre senhores e o exército imperial

OPINIÃO 20 DE OUTUBRO Joaquin Martinez recorda os três anos passados no corredor da morte

Miguel Duarte fala do dia em que os estudantes tentaram invadir o Senado 4

14 20 de Outubro de 2009 Ano XIX N.º 203 Quinzenal gratuito

a cabra

Director João Ribeiro Editores-executivos Vasco Batista Catarina Domingos

Jornal Universitário de Coimbra

Fundo de apoio da UBI

Lenine Cunha

A luta

Nomeado ao lado dos melhores do desporto

das instituições contra a pobreza Com dois recordes mundiais em 2009 nas provas combinadas, Lenine Cunha, da secção de atletismo da Académica, está nomeado para atleta do ano pela Confederação de Desporto de Portugal, ao lado do futebolista Cristiano Ronaldo e do campeão olímpico Nélson Évora. O resultado é conhecido dia 29 de Outubro.

em Coimbra 10

Coimbra não prevê medida semelhante A Associação Académica da Universidade da Beira Interior vai ter um fundo para apoiar os estudantes com dificuldades económicas. O presidente da Direcção-Geral da académica de Coimbra, Jorge Serrote, descarta a responsabilidade de criar este tipo de fundos para o governo, apesar de admitir que há alunos da UC que não conseguem pagar as propinas

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Eleições nas faculdades

Atrasos colocam problemas à UC

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Fibra Óptica

Ligar o mundo por “luzes” A fibra óptica é um meio de transmissão de informação que foi inventado há várias décadas. Actualmente, é a resposta a uma necessidade da sociedade que precisa de cada vez mais, em menos tempo. Para alguns investigadores, o mundo será “mais luminoso” e as comunicações mais eficazes. Empresas de telecomunicações apostam fortemente neste meio.

Dois anos depois de ser implementado o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) há ainda três faculdades que não têm director. Os problemas na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC) ditam que esta seja, provavelmente, a última a eleger a nova figura do RJIES. A demora das eleições afecta a funcionalidade plena da UC e deverá ser discutida na próxima reunião do Conselho Geral.

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Dia do Poeta

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Muitas críticas, poucas iniciativas

Entrevista

Há muita gente a escrever, mas muito poucos conseguem vingar: um poeta, uma professora e uma editora apontam as dificuldades de ser arquitetos de versos em Coimbra. Livrarias não apostam na edição de livros de poesia e crítica literária concentra-se em Lisboa e Porto

Rodrigo Leão fala das inspirações por trás do novo trabalho

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ANDRÉ FERREIRA


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DESTAQUE

INFOGRAFIA POR LEANDRO ROLIM

* Antes de Bolonha, Geografia dividia-se em três variantes (Ensino, Ordenamento do Território e Desenvolvimento, e Ambiente e Desenvolvimento). As médias de acesso, em 2006, foram, respectivamente, 10,1; 11,4 e 11,0

O rumo das letras Estudar áreas do saber clássico, como a História e a Filosofia, já foi garantia de um futuro estável. Hoje, as perspectivas são outras e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra tenta adaptar-se. Por Vasco Batista e João Ribeiro

O

que fará um filósofo no século XXI? E um arqueólogo? As áreas clássicas das letras sofreram grandes mudanças nos últimos anos, numa altura em que a percepção generalizada é a de que perderam importância. Esta ideia reflecte-se, por exemplo, na média de ingresso destes cursos. Em 2009, o último colocado no curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) obteve a média mais baixa possível, 9,5 valores. Na verdade, as notas de entrada nos cursos da FLUC não vão além dos 15 valores e muitas ficam perto dos dez (ver infografia). Para o do-

cente de História na FLUC e autor do estudo “Humanidades e Saídas Profissionais”, Joaquim Ramos de Carvalho, esta situação não reflecte uma perda de prestígio da faculdade. “O valor da média do último colocado é sobretudo fruto do desajuste entre o número de candidatos e o número de vagas, tendendo a subir quando há muitos candidatos em relação ao número de vagas”, explica. Já a docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC (FPCEUC), Helena Damião Silva, assume que “os cursos de letras e de humanidades são, no presente, menos requeridos do que os de ciências físicas e naturais e de

tecnologias”. Para Helena Damião, há uma “desvalorização social” destas áreas do saber. “Nós queremos resolver problemas concretos

“Os cursos de humanidades são menos requeridos do que os das ciências” do nosso quotidiano e entendemos que as humanidades não nos ajudam de forma imediata”, argumenta. Também a baixa empregabilidade para os diplomados na área das letras motiva o re-

duzido interesse, “não se entendendo como uma mais-valia em termos de enriquecimento pessoal” e acabando por se considerar como “um investimento sem retorno”. Mudanças nas perspectivas de emprego As oportunidades de emprego pesam sempre na escolha de um curso superior e, na área das letras, tem-se assistido, nos últimos anos, a uma crise na oferta de trabalho. Longe vai o tempo em que um diploma era sinónimo de emprego qualificado. Impôs-se, por isso, uma mudança na própria estruturação dos cursos. A docência foi, desde sempre,

uma saída óbvia para os licenciados nas humanidades, algo que, segundo o director da FLUC, Carlos Ascenso André, teve que mudar. “Não temos a menor intenção de fazer como núcleo central da nossa actividade a formação de professores”, concretiza, e adianta mesmo que “os alunos da FLUC de cursos destinados ao ensino representam menos de 15 por cento do total”. O número de vagas que todos os anos abrem para novos estudantes é um dos assuntos mais criticados em termos de gestão universitária, uma vez que acabam por se traduzir numa saturação de procura no mercado de trabalho. Licenciaturas em Línguas Modernas (75 vagas),


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DESTAQUE

Geografia (74) e História (60) são das mais criticadas por abrirem um número de vagas considerado excessivo. O director da FLUC realça a possibilidade de o ciclo negativo no emprego poder terminar, justificando-se assim a manutenção do número de vagas em alguns cursos. Carlos André defende igualmente uma mudança de atitude dos próprios estudantes, que passa pela aposta numa formação mais transversal. “As pessoas hoje fazem um primeiro ciclo numa determinada área e podem seguir outra no segundo ciclo, o que não as impede de serem competitivas no mercado”, esclarece. As próprias saídas profissionais dos licenciados em letras já não são as mesmas. “Não é inédito ver um gestor formado em História com um MBA (Master of Business Administration)”, exemplifica Carlos André. No mesmo sentido, Joaquim Carvalho revela que “há poucas se-

manas um grupo de alunos da FLUC criou uma empresa na área da produção de conteúdos de história e património para as novas tecnologias”. O docente lamenta que “quando se fala de humanidades não se pensa, por inércia mental, em Indústrias Criativas e Culturais (ICC)”. Num mundo cada vez mais dominado pelo conhecimento técnico e científico, Carlos André encontra espaço para conjugar o saber das humanidades. Apelida as pessoas de letras de “profissionais da comunicação”, que, mais cedo ou mais tarde, serão essenciais a qualquer empresa. Perante as mudanças que se impõem no estudo das humanidades, o Estado e a União Europeia têm um papel importante para o reconhecimento do valor dessas licenciaturas. Joaquim Carvalho destaca “uma multiplicidade de iniciativas e apoios no contexto do

ano Europeu de Criatividade e Inovação”. Neste âmbito, no início de Outubro foi disponibilizado um fundo de apoio para as ICC no valor de 22,5 milhões de euros, que

Em Outubro foram disponibilizados 22,5 milhões de euros para indústrias criativas visa o incentivo de diversas vertentes culturais. Outra área em grande expansão é o turismo cultural, “que consome enormes quantidades de informação ligada à História da Arte, e é uma das maiores indústrias europeias”, ressalva. O renome da FLUC Teolinda Gersão, Eduardo Lourenço e Vergílio Ferreira são nomes de reconhecido mérito no pano-

rama cultural português. Em comum têm o facto de se terem licenciado na FLUC, o que confere prestígio à própria instituição. Actualmente, questiona-se se essa condição se mantém, face à proliferação de instituições que oferecem licenciaturas congéneres e à consequente colocação dos cursos da FLUC em segundas opções. “Há uma certa pressão para as universidades fora de Lisboa e Porto serem universidades regionais”, afiança Carlos Ascenso André, pelo que é natural que atraiam sobretudo estudantes da sua área de residência. No entanto, Joaquim Carvalho recusa a ideia de que os cursos da FLUC sejam encarados como alternativas. “Cerca de metade dos cursos da faculdade de letras têm taxas de colocação em primeira escolha superiores a 50 por cento” e dá o exemplo de Arqueologia e História, “em que 88 por cento dos

alunos o colocaram em primeira opção”. Recentemente foi publicado pelo suplemento do jornal britânico The Times, “Times Higher Education Supplement”, um ranking mundial de universidades onde a UC surge como a melhor classificada de entre as portuguesas, mas é na área de Artes e Humanidades que obtém os melhores resultados, figurando no 143.º lugar. Joaquim Carvalho justifica a boa classificação pela “tradição de excelência da UC nas humanidades, que pesa nos factores do ranking porque se trata de um campo em que a produção científica não se desactualiza rapidamente”. Contudo, entende que este é “um desafio para o futuro”, na medida em que “estão em curso transformações radicais nas sociedades contemporâneas que geram novos problemas, novas abordagens e novos objectos para as ciências humanas”. LEANDRO ROLIM

“Diz-me lá para que serve o teu curso” VASCO BATISTA Perante a propalada crise nas humanidades, importa saber como é que os alunos encaram as saídas profissionais, a preparação dada para o mercado de trabalho e a qualidade pedagógica desses cursos. “As perspectivas de empregabilidade são uma incógnita”, revela Isabel Borges, estudante do segundo ano de Filosofia na FLUC. Não obstante, a aluna mostra-se satisfeita com os conteúdos programáticos da licenciatura e relembra a importância da Filosofia no conjunto dos campos de saber. “É um curso que faz com que aprendamos a pensar e, pelo confronto das nossas visões com a de outros autores, acabamos por nos definir a nós próprios e por aprofundar o nosso espírito crítico”. Por sua vez, a aluna da licenciatura em Línguas Modernas da

mesma faculdade, Carolina Rodrigues, assume que as expectativas estão a ir ao encontro do que previa e considera que “por ser um curso de línguas, há mais facilidade em arranjar emprego do que em outros cursos”. O facto de a nota de ingresso do último colocado ser particularmente reduzida nas licenciaturas ministradas na FLUC não se coaduna, segundo Isabel Borges, com o grau de exigência a que as mesmas obrigam. Assim, no entender da aluna, os estudantes “não fazem a menor ideia do que se aprende em Filosofia” e, desse modo, “desvalorizam e menosprezam” determinados cursos, o que se acaba por reflectir na média de ingresso. Por outro lado, Ricardo Justino, mestrando em Ensino de Filosofia, considera que os alunos com as médias de ingresso mais baixas “não têm tanta preparação para um curso que requer muito trabalho”. Já Carolina Rodrigues

aponta como razão para as baixas médias de ingresso, o facto de haver alunos que escolhem os cursos em função de “terem uma média baixa e depois nem sempre é aquilo que realmente querem”. De facto, Vítor Carvalho que está a frequentar o primeiro ano de História admite que o que “importava era entrar em Coimbra”. “Coloquei aquilo em que eu sabia que entrava e em que podia ter um bom aproveitamento”, acrescenta. Confrontados com as escassas saídas profissionais que os seus cursos podem conduzir, os estudantes da FLUC não se mostram desalentados e equacionam a hipótese de no 2º ciclo enveredarem por outros caminhos, em virtude da vasta abrangência intrínseca às ciências sociais e humanas. Neste sentido, e no que diz respeito a Filosofia, Isabel Borges argumenta que “é uma área em que facilmente se pode trespassar para outros campos do conhecimento”, na

medida em que “não é um curso profissionalizante” e, desse modo, “não se faculta uma técnica específica ao estudante”. A aluna confessa que depois de se licenciar pretende seguir “uma pós-graduação em gestão escolar para concorrer à direcção de uma escola”. O seu colega Ricardo Justino, apesar de admitir que o curso está “essencialmente vocacionado para o ensino”, vem corroborar o argumento anterior, declarando que “está a trabalhar numa área que não é bem filosofia, mas que as áreas abrangidas estão interligadas”. Apesar disso, numa ida ao centro de emprego procurando a hipótese de ingressar na administração pública, o estudante deparou-se com a pergunta: “e agora diz-me lá para o que é que o teu curso serve”. A qualidade pedagógica e curricular destas licenciaturas é um factor a ter em conta na avaliação do grau de satisfação dos alunos.

Aliás, prova disso é o inquérito elaborado pela Universidade de Coimbra aos estudantes no final do ano lectivo transacto e que pretendia aferir o contentamento dos alunos, no que toca, a título de exemplo, ao modo como os docentes exponham as matérias nas diferentes unidades curriculares. O aluno do segundo ano de Línguas Modernas, Tiago Henriques, diz “não ter razões de queixa”, considerando que “os métodos de ensino na FLUC são atractivos”, uma vez que propiciam à interacção. Adversamente, Ricardo Justino aponta algumas falhas e manifesta algum descontentamento. “Esperava um pouco mais de organização dentro do curso, em termos de exposição dos conteúdos”. “Os professores querem dar tudo muito depressa e então acaba-se por se perder o fio condutor e não acompanhar muita coisa”, lamenta. Com Camilo Soldado


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ENSINO SUPERIOR Alunos da CPLP perante obstáculos

INFOGRAFIA POR LEANDRO ROLIM

NÚMEROS DE ALUNOS que estão a fazer um ciclo de estudos na UC

Desde a chegada tardia a Coimbra até algumas falhas no ensino, os estudantes enfrentam problemas de integração pedagógica DIANA CRAVEIRO A Universidade de Coimbra (UC) recebe estudantes de mais de 60 países. Com um universo de cerca de 20 mil alunos, 775 são da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e encontram-se na universidade a fazer um ciclo de estudos. A chefe da Divisão de Relações Internacionais, Imagem e Comunicação (DRIIC) da UC, Filomena Carvalho, considera que este tipo de relação é uma mais valia tanto para a universidade como para a comunidade. “Temos a língua que nos une, temos uma parte da história em comum e isso dá-nos uma grande vantagem relativamente a outros países”, explica. O presidente do Conselho Directivo e Científico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC), João Gabriel Silva, acredita que a relação entre a universidade e a CPLP é importante, porque “há cada vez mais estudantes que vão estudar para o estrangeiro para conhecer novas realidades e outras culturas”. Por isso, o docente defende a fomentação desta tendência. Há alturas em que nem o facto de falarmos a mesma língua leva a uma boa integração. O presidente da Associação de Estudantes Cabo Verdianos em Coimbra, Samir Silva, explica que “as pessoas chegam sozinhas e não conhecem ninguém, mas acabam por se adaptar”. Apesar dessa adaptação, Samir Silva defende que “devia haver mais diálogo entre as associações de estudantes e a Universidade de Coimbra”, para um maior apoio. Além dos problemas iniciais, Filomena Carvalho aponta uma

situação que pode levar ao insucesso escolar dos estudantes da CPLP. “Neste momento, os estudantes que vêm para o primeiro ano [do curso] ainda não chegaram”, revela. O problema não passa pela UC mas sim pelos países de origem que têm programas que não fazem um acompanhamento directo com o estudante. Para atenuar esta situação, Filomena Carvalho diz que “tenta influenciar as autoridades” e explicar-lhes que este tipo de situações não pode acontecer. Carvalho conta que os alunos

A maior parte dos alunos vem para a UC fazer fazer um ciclo completo de estudos “chegam à universidade completamente desenraizados, de uma maneira que funciona mal”. Outro dos problemas que afecta os estudantes de língua de origem portuguesa, no entender de Filomena Carvalho, é o facto de virem para a UC fazer um ciclo completo. Ou seja, ao contrário da mobilidade Erasmus, que implica que o aluno faça um intercâmbio de, no máximo, um ano, a maior parte dos alunos que ingressa na UC vem tirar o curso completo. Samir Silva explica que esta opção é a mais escolhida “porque, para já, não há nenhum programa de intercâmbio do género da mobilidade Erasmus com países da CPLP”. Também a membro da DRIIC diz que é preciso colmatar a lacuna, porque fazer um intercâmbio de apenas seis meses ou um ano “é mais benéfico” e os alu-

Cinco anos do 20 de Outubro OPINIÃO - Miguel Duarte* 20 DE OUTUBRO - IDENTIDADE “Colegas, A atitude miserável do nosso Reitor, franqueando as portas da Universidade de Coimbra à ralé das baionetas para que nós fôssemos cobardemente esfaqueados de forma a que a nossa razão, atemorizando-se, cedesse ao argumento arma é inqualificável. (...)” - Manifesto da Academia em Maio de 1928 denunciando a atitude do Reitor Fezas Vital in “ A Academia de Coimbra (1537 – 1990)” Falar do momento de tensão que a Academia de Coimbra viveu no dia 20 de Outubro de 2004 é indissociável do legado histórico que os seus corpos carregam. Não se trata apenas da responsabilidade histórica e geracional que a Associação Académica de Coimbra assume na luta pelos valores progressistas, mas principalmente da forma sistémica como, através do conflito das suas forças endógenas, o modelo político e social do nosso País evoluiu nos últimos séculos. A Academia de Coimbra con-

do valor das propinas que ocorreria nesse mesmo dia no Senado Universitário. Numa altura em que já se esgotavam as formas mais moderadas de contestação para travar a concretização da política do Governo, largos meses de diálogo e algumas posições concertadas entre a AAC e a Reitoria, as duas instituições encontravam-se num momento de divergência absoluta – a Reitoria queria garantir a aprovação das propinas, independentemente da opinião que afirmava ter sobre a política educativa, e a AAC queria garantir que o principal bloqueio à política do Governo (a não votação das propinas no Senado Universitário) permanecia. A Associação Académica de Coimbra reivindicava a defesa absoluta do Modelo Social Europeu, lutando pela universalidade e qualidade da universidade pública. A necessidade de travar a dita votação era o assumir da responsabilidade histórica que a própria instituição em si encerra. Radicais diziam uns, irresponsáveis diziam outros, a verdade é que no

tribuiu decisivamente para a construção e revisão deste modelo. Se por um lado foi a produção e a transmissão de conhecimento que sustentou a criação das infra-estruturas do nosso sistema, por outro foram forças como a consciência crítica, o conflito geracional, a capacidade contestatária e a irreverência dos seus corpos que criaram novos enquadramentos para a produção desse conhecimento e permitiram questionar o status quo das instituições. Como se pode facilmente comprovar pelo papel que esta Academia assumiu na implantação dos ideais Republicanos ou na luta anti-fascista, estas últimas forças foram definitivas para os saltos quânticos de progresso social que o nosso País conheceu. O 20 de Outubro de 2004 não pode ser interpretado apenas na circunstância do momento. Este acontecimento materializou a força da consciência crítica da comunidade estudantil e a sua vontade em garantir a luta pelo progresso do nosso sistema educativo. Os estudantes da Universidade de Coimbra, reunidos em Assembleia Magna alguns dias antes, assumiram uma dura posição de luta contra uma política radical de destruição da universidade pública – a 20 de Outubro de 2004 algumas centenas de estudantes mobilizaramse no Pólo II para bloquear a votação

olhar de quem interpreta o 20 de Outubro no relativismo da história desta instituição, sinto-me tranquilo em dizer que cumprimos a nossa missão histórica – os estudantes que, no dia 20 de Outubro em frente ao cordão policial que ocupava a frente do edifício onde foi realizado o Senado do Pólo II, afirmaram “não somos nós que devemos parar, eles que tentem travar a força das nossas convicções”, alinhavam ao lado de Antero na Sociedade de Raio, dos seus colegas que fizeram a Greve dos Intransigentes em 1907, dos que fizeram a Tomada da Bastilha em 1920, dos que combateram Fezas Vital em 1928 e dos que não baixaram os braços na luta contra o Estado Novo em 1962 ou em 1969. No dia 20 de Outubro de 2004 a Associação Académica de Coimbra foi igual a si mesma, lutando de forma irreverente, desagradando ao estabelecido, incumprindo as convenções, “irresponsavelmente” revolucionária e afirmando bem alto “viva a igualdade, viva a liberdade, viva o progresso”. Por tudo isto, envergonhe-se quem se envergonhou, lamente-se quem não cumpriu a sua missão e “viva a Académica”

nos vêm “com outra maturidade”. Esta opção iria ainda eliminar os problemas de atraso na chegada dos alunos, porque “já não seria ao abrigo de programas de cooperação com entidades em que se sabe muito em cima do acontecimento onde os estudantes ficam”. Provedoria CPLP ajuda alunos da FCTUC Para contrariar várias situações adversas que os alunos enfrentam quando chegam à UC, a FCTUC criou a Provedoria CPLP. João Gabriel Silva explica que a provedoria “ajuda nos processos burocráticos de obtenção dos vistos de estadia”, porque, por vezes, “havia situações de estadias clandestinas”. A FCTUC organiza também vários cursos de matérias básicas “para ajudar os estudantes a resolver algumas falhas de formação”. Apesar de o Brasil fazer parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, os estudantes brasileiros são os que encontram menos problemas na chegada à UC. Isto porque, segundo Filomena Carvalho, “os alunos que vêm do Brasil sabem lutar pelos seus direitos e são muito reivindicativos”. Pelo contrário, os estudantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) “têm características diferentes”. “São mais reservados, fecham-se nas próprias comunidades e têm a questão de entrar mais facilmente em insucesso escolar”, conta. A CABRA tentou contactar a Provedoria CPLP da FCTUC mas não se mostraram disponíveis para falar, reencaminhando-nos para o presidente do Conselho Directivo e Científico da faculdade.

*Presidente da Direcção Geral da AAC em 2004


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ENSINO SUPERIOR

Falta de directores nas faculdades gera atrasos na UC LEANDRO ROLIM

Para que a universidade funcione em completo, é preciso que todas as unidades orgânicas estejam compostas

CATARINA DOMINGOS

DIANA CRAVEIRO Quase cinco meses depois das primeiras eleições para a Assembleia de Faculdade em Direito, há ainda três faculdades sem director. O Conselho Geral (CG) da Universidade de Coimbra (UC) vai reunir esta sexta-feira e, embora este tema não faça parte da convocatória, o estudante do CG Luís Rodrigues acredita que as eleições vão também ser debatidas na reunião, “pelo menos informalmente”. Rodrigues explica que “há planos de actividade e orçamentos em curso e é importante ter um funcionamento regular nas unidades orgânicas”. O estudante aponta ainda algumas falhas consequentes da falta de directores. “Estamos a ver um plano de actividades para o próximo ano, no entanto há directores que ainda estão a apresentar candidaturas com um plano que, mais tarde, pode sofrer alterações”. Luís Rodrigues alerta para o facto de o Conselho Geral da UC “precisar urgentemente que todo o processo eleitoral seja organizado em todas as faculdades para que a universidade possa funcionar como um todo”. Apesar de o ano lectivo já ter começado, a Faculdade de Farmácia da UC (FFUC), a Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC) e a Fa-

NOVAS MEDIDAS vão permitir clarificação quanto ao número de efectivos nas instituições culdade de Economia da UC ainda não têm director. No último caso, a tomada de posse está marcada para esta quinta-feira, 22. A nova figura, criada pelo Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES), vai substituir o presidente do Conselho Directivo e do Conselho Científico. Irregularidades em Farmácia O membro do CG critica o atraso das eleições. “O processo já devia estar concluído e não está. O facto de ter havido irregularidades e demoras pode condicionar o funcionamento

das unidades orgânicas”, explica. O estudante destaca os problemas que houve na FFUC em que as eleições para os órgãos da faculdade não foram homologadas pelo reitor da UC. O problema estava no caderno eleitoral que foi emitido e que incluía um estudante que, na altura, não estava oficialmente matriculado no terceiro ciclo na Faculdade de Farmácia. Luís Rodrigues diz que esta situação “faz com que os estudantes fiquem desprotegidos porque, neste momento, não existe Conselho Pedagógico”. Apesar de todos os problemas, as eleições para o representante dos es-

tudantes da Assembleia de Faculdade e do Conselho Pedagógico são na próxima segunda-feira, 26. Quanto à FCTUC, falta apenas a homologação do reitor. Até ao momento, só o actual presidente do Conselho Directivo e Científico, João Gabriel Silva, avançou com uma proposta de candidatura. Mesmo com todos os problemas, Luís Rodrigues acredita que assim que “as unidades orgânicas ficarem compostas, a UC vai ter condições para trabalhar no máximo”. A FFUC recusou-se a fazer qualquer declaração, remetendo qualquer informação para o site da faculdade.

AAC afasta criação de fundo de apoio A UBI criou um fundo para auxiliar estudantes em dificuldades financeiras. Em Coimbra, para já, a medida não é aplicável BRUNO ARAÚJO A Associação Académica da Universidade da Beira Interior (UBI) vai lançar, ainda este ano, um fundo de apoio aos estudantes com dificuldades no pagamento de propinas, bem como na manutenção das refeições diárias. De acordo com a dirigente da associação, Fausta Parracho, há, neste momento, cerca de 50 casos identificados, dos quais três envolvem estudantes que “não têm dinheiro sequer para comer.” “Esta ideia surgiu como resposta às solicitações que nos foram chegando”, revela. Fausta Parracho explica que

Assembleia Magna reúne a 4 de Novembro

“cada caso é avaliado individualmente” e que “o fundo é aplicado quando há um desequilíbrio ao nível financeiro do agregado familiar do aluno”. Em Coimbra, Jorge Serrote confessa que não tem um número exacto de casos de alunos em dificuldade, mas acredita que haja um contingente maior de pessoas que não conseguem pagar as propinas. O presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) revelou ainda que a preocupação com a acção social tem sido uma das bandeiras da sua administração, mas ressaltou que o apoio aos estudantes sem recursos deve ser uma responsabilidade governamental. “Quem tem que fazer acção social é o Estado. O nosso dever é fazer o acompanhamento destes casos e, ao mesmo tempo, pressão junto do governo para que a situação se resolva”, reiterou. Quando questionada sobre a pos-

sibilidade da existência de um fundo semelhante em Coimbra, a coordenadora geral da Acção Social da DG/AAC, Carmo Páscoa, afirmou que “de momento não era possível por falta de meios técnicos”. No en-

Serrote defende que a criação de um fundo é um dever do Estado tanto, a coordenadora espera que “no futuro a AAC consiga fazer o mesmo”. Tal como Jorge Serrote, Carmo Páscoa, acredita que as “competências de criar mecanismos sociais, destinados a estudantes carenciados deverá ser sempre do Estado”. Porém, caracterizou o projecto como uma “louvável e positiva ideia”, admitindo ser uma proposta ousada, tendo em conta a actual crise finan-

ceira ao nível internacional e os poucos recursos da associação da UBI. Fausta Parracho assegura que este projecto é único a nível nacional, mas alerta que o fundo “não se trata de um modo de vida, mas de uma rede para que ninguém, uma vez concorrido à universidade, a possa deixar para trás”. A iniciativa não funciona como uma doação, mas como um empréstimo que deve ser devidamente pago, dentro dos limites estabelecidos. Para isso, “o aluno pode devolver o dinheiro ou pagar em horas de trabalho na própria instituição”, destaca. A reitoria e empresas locais da Covilhã são algumas das parceiras do projecto, que também desenvolve eventos com o objectivo de viabilizar recursos. Carmo Páscoa discorda da opinião de Fausta Parracho, que considera a UBI a única académica a apostar na acção social. O fundo “é uma ideia ousada mas não os torna exclusivos na prestação de apoio”, comenta.

Depois da Assembleia Magna (AM) de 15 de Outubro, os estudantes voltam a reunir-se dia 4 de Novembro para debater os problemas do ensino superior, o regulamento para as eleições dos corpos gerentes da Associação Académica de Coimbra (AAC) e o regulamento das eleições para a constituição de uma Assembleia de Revisão dos Estatutos (ARE). Este último ponto esteve no centro do debate na última magna. A não apresentação de listas conjuntas de estudantes para a constituição de uma ARE levou à aprovação de um novo processo de revisão extraordinário e à rejeição da manutenção dos actuais estatutos. Além disso, por parecer jurídico, a deliberação de 15 de Outubro de 2008, que aprovava a apresentação de listas para a ARE, foi considerada inválida por definir que o mandato dessa assembleia era de seis meses e não de um ano, como nos estatutos. Na AM de quarta-feira, Jorge Serrote, propôs a actual situação política como ponto de discussão, mas poucos estudantes se mostraram preparados para falar.

FLUC aprova Regulamento de Avaliação DIANA CRAVEIRO O Conselho Pedagógico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) aprovou na passada quinta-feira, 15, o Regulamento de Avaliação do primeiro ciclo. As novidades estão na existência de três regimes de avaliação: contínua, mista e final. Como explica o presidente do Núcleo de Estudantes da FLUC (NEFLUC), Tiago Martins, a avaliação mista “acaba por ser uma regulamentação de algo que já era feito à margem”. Por isso, quem estiver inscrito nesta avaliação tem que assistir a metade das aulas e fazer o exame final. Já a avaliação contínua passa a ter a obrigatoriedade de um exame escrito, que pode ser, ou não, o exame final. Quanto ao limite de alunos por cada turma, o regulamento estabelece que “não é aconselhado o funcionamento de turmas com mais de 25 alunos”, e é obrigatória a presença em 75 por cento das aulas. Tiago Martins aponta ainda como uma vitória o facto de não ter passado a ser obrigatório fazer um exame oral quando o aluno esteja inscrito em avaliação final.


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CULTURA

Um teclado pequenino, um cá computador, uns auscultadores

cultura por

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Rodrigo Leão apresenta o disco “A Mãe”, pensado sobretudo em quartos de hotel. O novo trabalho já é platina e a reacção do público tem agradado. Entrevista por Filipa Magalhães

OUT

“MISS EASY” DE O TEATRÃO TABACARIA DA OFICINA 21H • 4€

DO

TEATRO

21 OUT

ESTUDANTINA SECÇÃO

DE FADO DA AAC CAFÉ SANTA CRUZ 23H • ENTRADA LIVRE

22 OUT

DOMINGO GALERIAS ÍCONE 21H • 6€

22

23

e OUT

“BENNY HALL” TAVG • 21H30 NORMAL 8€ • ESTUDANTE 6€

23 OUT

“O PROFESSOR DE DARWIN” TEATRO DA CERCA 19H• 3€ A 5€

DE

S. BERNARDO

24 OUT

THE RISING SUN EXPERIENCE FNAC • 22H ENTRADA GRATUITA

24 OUT

“LA TRAVIATA” TAVG • 21H30 25€ A 30€

29 OUT

ORQUESTRA METROPOLITANA DE LISBOA TAGV • 22H ENTRADA GRATUITA

29 OUT

CONCERTO PRESTÍGIO “FERNANDO ROVIRA” PAVILHÃO CENTRO 21H30

DE

PORTUGAL

30 OUT

CAZINO FNAC • 22H ENTRADA GRATUITA

Por Jonathan Costa

RAFAELA CARVALHO

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epois de “Cinema”, Rodrigo Leão edita “A Mãe”, registo que conta com colaborações especiais como a da Orquestra Sinfonieta de Lisboa, Stuart Staples e Neil Hannon, e que, segundo o autor, foi precisamente composto para a voz de Ana Vieira. Entre fado, tango e orquestra, “A Mãe” desenvolve-se pelas viagens que foram seu ponto de criação, pela melancolia e o embalar das melodias de Cinema Ensemble. Enérgico e empenhado, Rodrigo Leão é cada vez mais uma figura de relevo na música nacional e é crescentemente aplaudido pela crítica internacional. Horas antes do espectáculo no Centro de Artes e Espectáculos (CAE) da Figueira da Foz de dia 17, o artista fala de si, da obra e da família. Desde 1985 tem vindo a afastar-se da sonoridade rock que tinham os Sétima Legião. Primeiro com os Madredeus que trocaram as guitarras eléctricas pelas acústicas e depois a solo, trocando guitarras por violinos e violoncelos. Porquê esta fuga? É evidente que quando comecei, quando fiz o meu primeiro disco a solo, de alguma maneira não queria estar a repetir o que já tinha tentado fazer, o que já fiz com os Sétima Legião e com os Madredeus, onde a língua portuguesa predominava nas canções e o tipo de instrumentos também era ligeiramente diferente. Por outro lado, também o meu gosto musical por algum tipo de música clássica justifica a escolha de instrumentos como o violino e o violoncelo. Portanto, claro que queria de alguma forma afastar-me um pouco do universo que tínhamos criado, quer nos Sétima Legião, quer nos Madredeus. De qualquer das formas, não seria, nem é um universo assim tão diferente quanto isso, apesar da utilização de instrumentos diferentes. E há, de facto, coisas que se mantêm nestes projectos todos. Não é por mudarmos um instrumento ou outro que as coisas sejam assim tão diferentes, sou a mesma pessoa. Em relação ao último disco “Mãe”, o que é que os distingue dos outros? Para mim é um disco filosófico e um pouco mais melancólico, que nos faz pensar na vida e na morte e noutros temas. E sem dúvida que é eclético. Pela primeira vez há a participação da Orquestra Sinfonieta de Lisboa, que era um sonho antigo e é também a primeira vez da participação

“PARA MIM é um disco filosófico e um pouco mais melancólico, que nos faz pensar na vida e na morte” de cantores masculinos, que é também uma experiência na qual eu tinha pensado há mais tempo. Como se processou a colaboração com Neil Hannon (Divine Comedy) Stuart Staples (Thundersticks) e Melingo? Foi o próprio álbum que carecia das suas colaborações ou foi algo que se proporcionou? As colaborações em que pensamos, com o Tiago Lopes e o Pedro Oliveira, que me ajudam a produzir estes discos, normalmente são pensadas depois de as músicas estarem prontas e para nós foi um prazer muito grande trabalhar com pessoas que eu admiro, que já conhecia o trabalho que faziam, os Tindersticks, os Divine Comedy e o Daniel Melingo. Foi um envio por e-mail, como sempre, duma maqueta gravada em casa, e tivemos a sorte de tê-los no estúdio em Lisboa, onde nós começamos gravar as músicas. Como é trabalhar com Cinema Ensemble? Compõe os arranjos a pensar nesses músicos? Obviamente que alguns temas são

compostos a pensar em determinados instrumentos, e nos próprios músicos, porque de certa maneira já sei como tocam certa melodia. Este álbum foi composto em viagem, nas suas visitas a Espanha, Itália, Goa e Nova Iorque. Até que ponto estes locais serviram de inspiração? As viagens são um elemento muito importante da inspiração para tentar fazer música. Nestes momentos tenho a sorte de ter um teclado pequenino, um computador, uns auscultadores. E foi, de facto, nos quartos de hotel que estes temas foram compostos. Dá grande relevo à família, como o nome deste álbum evidencia… São uma das grandes inspirações, são das pessoas que estão mais perto de mim, sem dúvida que contribuem para a minha tentativa de tentar fazer música e encontrar todo este universo. Quanto à produção musical portuguesa, considera que au-

mentou? Acho que há muitas coisas boas que infelizmente, não temos na rádio e na televisão. Sinto que temos conseguido levar a música às pessoas através de concertos, através dos discos. Mas há muita gente que não tem essa sorte, que não consegue divulgar a música que faz. Nesse sentido é preciso apoiar as pessoas que estão a começar e que querem mostrar aquilo que estão a fazer. Como tem sido a reacção do público e das críticas? As pessoas têm reagido bem, já é platina. Para nós, é uma grande surpresa ter vendido o que vendeu. Já temos concertos marcados na Espanha e na Grécia. Agora é um período grande de divulgação do disco, mas estou contente com a reacção do público, das pessoas, das críticas, acho que tem corrido bem. Como se vê no futuro? Estou sempre a tentar compor, espero dentro de pouco tempo poder já apresentar temas novos nestes concertos que estamos a fazer.


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CULTURA

Coimbra com poetas Mas sem versos Hoje, dia 20, celebra-se o Dia do Poeta, e não fosse em Coimbra, era-lhe dado menor destaque. Poetas não faltam, mas as condições não são as melhores para que dêem a conhecer a sua arte FILIPA MAGALHÃES Da lufada poética que Coimbra expira todas os dias, correndo o risco de não saber se ainda vive, encontram-se os vetustos nomes dos cá nascidos como Camilo Pessanha, Al Berto, Fernando Assis Pacheco ou Sá de Miranda, e dos que cá passaram como Antero de Quental, Adriano Correia de Oliveira, Jorge de Sena, José Afonso, José Régio ou Miguel Torga, confluentes do fado, do descontentamento, das revoluções e, substancialmente, da fundação da mística coimbrã. O certo é que Coimbra é actualmente uma cidade hostil para os fundadores de verso, como evidencia o poeta conimbricense João Rasteiro: “acho que a poesia e os poetas em Coimbra não têm a projecção a nível nacional, que já tiveram em determinadas épocas”. O autor de “Pedro e Inês ou as Ma-

SÉRGIO SANTOS

drugadas Esculpidas” fundamenta, não só pelo reduzido número actual de poetas, mas também pela concentração da crítica literária nos pólos de Lisboa e Porto. Segundo João Rasteiro, “ou se é um poeta daqueles, que aparentemente é visto pelos críticos como um segundo Fernando Pessoa, ou se é professor universitário, ou se escreve para o Expresso ou para o Público, só assim se abre o caminho para algumas editoras”. À editora coimbrã Alma Azul, pouco produto tem chegado de autores da cidade. A fundadora, Elsa Ligeira, lamenta que Coimbra “tenha tendência para o cliché, para tudo o que é rima fácil, para o que é a saudade”, apesar de ser “uma cidade que estimula o acto poético porque tem espaços maravilhosos, tem muita gente, muitos jovens”. O que se faz em Coimbra A Oficina da Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) é um local de discussão e chega mesmo a funcionar como rampa de lançamento de vários autores. A responsável do projecto, Graça Capinha, aprofunda os constrangimentos que são impostos à produção poética, como “o sistema educativo que, infelizmente, faz com que tanto a poesia como as artes em geral, sejam pura e simplesmente eliminadas”. Culpabiliza também a posição tomada por certas livrarias que “se recusam a comprar ou a encomendar às editoras

COIMBRA É ACTUALMENTE uma cidade hostil para os fundadores de verso livros de poesia”. Um dos grandes acontecimentos a nível cultural de Coimbra, são os Encontros Internacionais de Poetas, que vão sendo realizados desde 1992, e por onde passam cerca de 50 poetas de todo o mundo por edição. Também a este evento são levantadas críticas, tanto da parte de João Rasteiro como de Graça Capinha, como a ausente participação da Câmara Municipal de Coimbra

(CMC), bem como a escassa divulgação por parte da comunicação social. O optimismo chega pelo vereador da cultura da CMC, Mário Nunes. “Há poetas e muitos em Coimbra, que às vezes não são conhecidos, e procuramos sempre um envolvimento”. O vereador destaca o Teatro Bonifrates e a Oficina da Poesia, como “parceiros ideais para a divulgação ao público de livros de

poesia”. A oficina, que João Rasteiro classifica como “intervenção comunitária permanente” é já responsável, segundo Graça Capinha, pela edição de 30 livros de autores associados. A CMC tem preparado para a celebração do dia de hoje, leituras de poesia na Biblioteca Municipal, onde se irão recitar poemas de Miguel Torga, Ary dos Santos e também de Eugénio de Andrade.

Festival da Música de Coimbra regressa Com três ciclos de Outubro a Dezembro, o festival da música chega à quinta edição com um programa diversificado e descentralizado CAMILO SOLDADO A quinta edição do Festival de Música de Coimbra (FESMUC) arranca esta quinta-feira, 22, com o ciclo “Noites da Biblioteca Joanina”. Este é apenas um dos três ciclos que integram o programa do festival para a cidade. Para o vereador da cultura da Câ-

mara Municipal de Coimbra (CMC) e consultor do festival, Mário Nunes, este evento surgiu com o intuito de “afirmar Coimbra a nível nacional na área da cultura” e também como uma aposta da câmara “em fazer algo concreto, importante e diferente”. A história das quatro edições anteriores conta já com a participação de ilustres nomes da música como Mário Laginha, Bernardo Sassetti, Pedro Burmester, David Binney ou Oleg Marshev. Desta feita, o FESMUC terá a actuação de mais de três dezenas de artistas, orquestras e grupos musicais. Entre eles está Jean-Yves Fourmeau, músico mundialmente reconhecido e já um repetente neste festival, desta vez a

cargo de uma Master Class de Saxofone. O ciclo “Grandes Concertos” vai decorrer em locais como o Teatro Académico de Gil Vicente, a Capela de S. Miguel e a Igreja do Mosteiro de Santa Clara-a-nova, enquanto que o ciclo “As Quintas do Festival” inclui um conjunto de seis concertos que decorrem invariavelmente à quinta-feira na Casa Municipal da Cultura. Quanto ao ciclo “Noites da Biblioteca Joanina”, decorre nesse mesmo espaço e nele estão agendados cinco concertos. Mário Nunes realça ainda a “parte patrimonial” do evento e defende que “há uma diversidade de espaços que permitem as pessoas associar a música ao património”.

Este festival, sob a direcção artística de Augusto Mesquita e produzido pela Associação para o Desenvolvimento Musical de Coimbra (ADARTE), tem a duração de dois meses e é organizado pela CMC, em parceria com a Universidade de Coimbra e com a Fundação INATEL. Para além da organização, a autarquia celebrou protocolos com sete concelhos da região, protocolos estes que fizeram com que o FESMUC se expandisse a uma área mais vasta revelando a continuidade do carácter descentralizador do festival. O destaque vai para o município de Torres Novas que participa pela primeira vez no evento. Com a presença do público a au-

mentar de ano para ano, o vereador da cultura da câmara municipal justifica esta adesão afirmando que o “programa é diversificado e vai desde o clássico ao contemporâneo e com este circuito também à volta de Coimbra, o público sobe gradualmente”. O FESMUC conhece o seu último dia desta quinta edição a 13 de Dezembro e há a destacar ainda a celebração com concertos de algumas efemérides como os 250 anos do nascimento do G. F. Haendel ou os 200 anos da morte de Joseph Haydn, ambos compositores. Embora contactado, não foi possível até ao fecho desta edição obter uma reacção do director artístico do festival, Augusto Mesquita. PUBLICIDADE


8 | a cabra | 20 de Outubro de 2009 | Terça-feira

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ANDEBOL AAC vs NA Samora Correia 18h • Pavilhão 3 do Estádio Universitário

Elite do rugby europeu em sub-19 com passagem por Coimbra CATARINA DOMINGOS No próximo domingo, dia 25, Portugal é o primeiro a entrar em campo e a dar o pontapé de saída para o Campeonato da Europa em Rugby sub-19, que vai passar pela Região Centro. Coimbra, Anadia e Lousã são os palcos para as oito selecções (Itália, Geórgia, Rússia, Bélgica, Espanha, Polónia, Alemanha e Portugal) que discutem o título. Em Coimbra, os terrenos de jogo escolhidos foram o Estádio Sérgio Conceição, o Estádio Universitário e o campo da Escola Superior Agrária. Portugal era candidato à organização do Europeu de 2010. No entanto, devido à desistência da Roménia e depois de descartada a hipótese da competição ser na Bélgica, Portugal recebe o evento, que se estende até dia 1 de Novembro. O jogo de abertura põe frente a frente a selecção nacional e a Itália, no Estádio Sérgio Conceição. A treinar desde dia 1 de Setembro, Portugal já fez todos os jogos de preparação e vai agora “limar arestas”, como conta um dos seleccionadores nacionais, João Luís Pinto. O objectivo estabelecido pelo técnico é ficar entre os quatro primeiros. “Trabalhámos bem e temos equipa para estar no europeu”, garante. Em 2008, Portugal alcançou as meias-finais da prova. Nesse jogo, empatou com a Roménia 20-20, mas a formação romena é que seguiu em frente por ter mais ensaios marcados. Este ano, a Roménia não está presente, tendo sido substituída pela Itália, considerada por João Luís Pinto, “uma das potências do rugby europeu”. “A Itália tem jogadores mais fortes e mais altos. Vamos tentar contrariar essa mais-valia, jogando mais rápido”, acrescenta. A pré-convocatória para o campeonato da Europa conta com 31 jogadores. A lista final, reduzida para 26 jogadores, é conhecida quinta-feira. No lote final de convocados deve constar o nome de dois atletas da Secção de Rugby da Associação Académica de Coimbra (AAC): João Mateus, atleta da equipa sénior dos estudantes, e José Miguel Almeida, que já jogou numa equipa sénior da Austrália durante um mês e meio. “São experientes e duas mais-valias fortes fisicamente”, sublinha João Luís Pinto, que também orienta a formação academista de sub-21.

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VOLEIBOL Clube Voleibol Espinho vs AAC 18h • Pavilhão Nave Desportiva Espinho

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HÓQUEI EM PATINS AAC vs APDG Penafiel 18h • Pavilhão 1 do Estádio Universitário

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FUTEBOL Académica SF vs AD Poiares 15h • Estádio Universitário

Lenine Cunha entre os melhores D.R.

Dois recordes mundiais em 2009 colocam Lenine Cunha na calha para melhor atleta do ano ao lado de Ronaldo e Nelson Évora SARA COIMBRA SARA LOPES Iniciou-se no heptatlo com 21 anos e, tal como o próprio refere, tem “bastante força de pernas e braços”, motivo pelo qual apostou nesta modalidade. Treina diariamente ao mais alto nível, na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), chegando mesmo a ter treinos bidiários em alguns momentos da época. Sendo um atleta que pratica várias categorias dentro do atletismo, tem de trabalhar para os saltos e velocidade, realizando treinos de corrida, resistência, velocidade e ginásio. “Em termos de estruturas, o Porto dá maior resposta para o Lenine treinar”, afirma o presidente da Secção de Atletismo da Associação Académica de Coimbra (AAC), Mário Rui. “O apoio da associação académica é importante”, salienta. No entanto, “para desporto de alta competição Coimbra é pobre. A pista do Estádio Cidade de Coimbra, que é a única pista de atletismo a sério que existe no distrito, tem imensos problemas de utilização por causa do futebol”, explica Mário Rui. Já há vários anos que Lenine Cunha é treinado por António Oliveira, com o qual tem uma “relação de treinador, mas também de amigo”, como descreve Lenine Cunha. “Se eu precisar de alguma coisa ele está sempre lá para aju-

LENINE CUNHA detém dois recordes mundiais em 2009 nas provas combinadas dar e disponível”, acrescenta. Além de recordista da Europa na área de deficiência intelectual de triplo salto, é vice-campeão da Europa e do mundo de salto em comprimento, campeão e recordista do mundo de pentatlo e esta época bateu dois recordes mundiais. Daí a nomeação para atleta do ano pela Confederação do Desporto de Portugal (CDP), num grupo com nomes como Cristiano Ronaldo (futebol), Nélson Évora (triplo salto) e João Rodrigues (vela). “É o ponto alto na carreira de qualquer treinador, atleta, fisioterapeuta, massagista. É sempre bom ser alguém nomeado que

nós conhecemos muito bem”, afirma António Oliveira. O atleta academista mostra-se feliz, considerando que “já é uma grande vitória estar entre os cinco finalistas, com nomes como Cristiano Ronaldo e Nelson Évora”. Entrega de prémios é dia 29 À margem da nomeação, Mário Rui deixa a crítica de actualmente não existir qualquer tipo de apoio monetário para dar formação a atletas com deficiência. Contudo, mostra-se esperançado que os atletas sejam apoiados directamente ainda no final deste ano ou no início de 2010, devido a uma

possível participação nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. “Só olham para o atletismo quando um atleta ganha uma medalha, nos Jogos Olímpicos ou nos campeonatos do mundo”, critica o presidente. Lenine Cunha também se queixa da falta de apoio. “Quando chegámos este ano das competições não havia ninguém no aeroporto à nossa espera. A comitiva trouxe muitas medalhas e ninguém estava lá”, lamenta o atleta de Vila Nova de Gaia. A 14.ª Gala do Desporto da CDP está marcada para dia 29 de Outubro, em Lisboa.

Caseiro tenta revalidação do título Luís Caseiro tenta no próxima fim-de-semana sagrar-se bicampeão nacional de crosscar SÓNIA FERNANDES O Campeonato de Portugal de Crosscar tem no próximo fim-desemana, 24 e 25, a última corrida no circuito de Murça. Em jogo está o título nacional, que pode ser revalidado pelo piloto da Secção de Desportos Motorizados da Associação Académica de Coimbra (SDM/AAC).

Para que o título nacional seja ganho pelo atleta da AAC é necessária uma conjugação de resultados favorável ao piloto. Luís Caseiro está em segundo lugar com 436 pontos atrás de Ludgero Santos, da 4Pets, com 448 pontos. Cada prova de crosscar é constituída por três corridas, em que a pontuação de cada partida chega aos 20 pontos, e por uma corrida final na qual a pontuação máxima para o vencedor é 40 pontos. Este ano a não participação de pilotos suficientes nas corridas no campeonato nacional afectaram a

época do campeão nacional. Assim sendo, os pontos não são contabilizados na sua totalidade, mas sim em dois terços. Luís Caseiro sentiu-se “prejudicado porque numa das vitórias que teve em pleno, a pontuação só contou dois terços”. O campeonato está muito competitivo, e na última corrida são cinco os candidatos a chegar ao lugar mais desejado. O piloto da AAC afirma que “acredita até ao fim” na vitória, mas sabe que para isso o piloto da 4Pets terá de cair na classificação. “Só se lhe acontecer algo extraordinário durante a corrida, nunca se sabe”, espe-

cula o piloto da Académica. Este ano o carro de Luís Caseiro sofreu uma mudança. O motor do carro de corrida do piloto foi alterado para um “mais recente e evoluído” e as dificuldades foram sentidas nas primeiras provas devido “à competitividade e desconhecimento do motor”. O circuito de Murça não é desconhecido para os pilotos e Luís Caseiro refere que este não é dos troços que mais gosta “devido à sua monotonia”, apesar de o achar “um circuito competitivo”. O atleta espera estar “ao melhor nível no próximo fim-de-semana e trazer o título para Coimbra”.


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DESPORTO

DIVISÃO DE HONRA

PROLONGAMENTO

AAC em busca da manutenção

ANDEBOL

Ao cabo de três jornadas, a Académica soma três pontos. A meta traçada para este ano é a permanência na Divisão de Honra SARA SÃO MIGUEL

MIGUEL CUSTÓDIO A equipa sénior da Secção de Futebol da Associação Académica de Coimbra (AAC) terminou em alta a época passada com a subida à Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra e para o presidente da secção, Rui Pita, “o ano passado foi um ano excelente, foram alcançados grande parte dos objectivos da secção, entre os principais, a subida de divisão”. Este fim-de-semana, a Académica venceu o Lousanense por 1-3, em jogo da terceira jornada da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra (AFC). A turma de Bruno Fonseca está em oitavo lugar, com três pontos. Este ano, num desafio diferente, o treinador da equipa fixa “os objectivos unicamente na manutenção”, afirmando que “a uma equipa que subiu o ano passado e que não ganha dinheiro, não se pode pedir mais do que isso”. A Divisão de Honra é um campeonato mais rigoroso, onde as deslocações são mais longas e a exigência é maior, mas o treinador garante que os jogadores estão preparados. Segundo Bruno Fonseca, “o plantel este ano não tem tantos jogadores que desequilibram como no ano passado, mas está um plantel mais equilibrado e com melhores soluções”, revelando ainda que “a secção realizou no início da época os habituais treinos de captação, nos quais foram escolhidos alguns jogadores para integrarem o grupo jun-

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ESTE DOMINGO a Académica venceu o Lousanense por 1-3 tamente com os que continuam do ano anterior”. Rui Pita alerta para “a expectativa que se está a criar em volta da equipa, devido ao reforço da equipa com jogadores de qualidade”, sublinhando “que é preciso ter os pés assentes na terra e primeiro assegurar o objectivo principal que passa pela manutenção”. O presidente lembra que “o orçamento é exactamente o mesmo que o ano passado e que na secção ninguém ganha nada”, observa.

“A secção cresceu imenso” A escola de futebol, iniciada no ano passado, conta esta época com novas equipas. Segundo Rui Pita, “ a secção cresceu imenso e já ultrapassou este ano a barreira dos 100 atletas”. O dirigente refere que “a secção passa a ter uma equipa de escolas, uma de infantis, duas equipas de iniciados e as equipas seniores masculina e feminina”. Quanto à equipa sénior feminina, o presidente revela que “este ano já contava que a equipa estivesse a

competir”, culpando a “falta de apoios financeiros” como o principal entrave à competição. Contudo, Rui Pita mostra-se esperançado no futuro revelando que “o projecto está a ganhar força e que as raparigas que praticavam futebol o ano passado estão-se a envolver mais com a secção”, afirmando que “é preciso que haja alguém que se interesse pela equipa e que esteja disposto a trabalhar para aumentar as condições de no futuro elas poderem vir a competir”.

Académica na final-four após cinco vitórias A AAC venceu os cinco jogos da fase de apuramento do primeiro troféu da época e assegurou a presença na final-four CATARINA DOMINGOS A fase de apuramento do Troféu António Pratas chegou ao fim. No Grupo B – Zona Centro/Sul, a equipa sénior de basquetebol da Associação Académica de Coimbra (AAC) classificou-se em primeiro lugar, com um registo cem por cento vitorioso de cinco vitórias em cinco jogos. No próximo fim-de-semana, a Académica disputa, juntamente com o Benfica, Vitória de Guimarães e Ovarense, a vitória final do troféu. Nos primeiros jogos oficiais da

Em jogo da sexta jornada da Zona Centro do Campeonato Nacional de 3.ª Divisão, a equipa sénior de andebol da Académica venceu o Lousanense fora por 20-25. Esta é a terceira vitória da temporada para a equipa de Ricardo Sousa. Os estudantes somam agora 13 pontos. Na próxima ronda, a AAC recebe o NA Samora Correia, que esta jornada bateu o Tondela AC por 29-26.

temporada, os estudantes superaram, no seu grupo, o Terceira Basket, Angrabasket, Ginásio Figueirense, Sampaense e Eléctrico FC. “Foram jogos que tiveram o objectivo de preparar os nossos pontos mais débeis”, avalia o treinador da equipa, Norberto Alves. Em relação aos reforços, o técnico estudantil considera que “à partida têm qualidades semelhantes aos jogadores do ano passado, naquilo que é a forma como estão em equipa, como trabalham e como se dão com os outros”. Nos primeiros três encontros do troféu, foi AJ Jackson quem mais se destacou pelo seu contributo pontual. “Ele tem sobressaído, mas a nossa forma de abordar o jogo não é de privilegiar apenas um jogador. As equipas ainda não o conhecem bem e nós temos tirado partido desse desconhecimento”, reconhece Norberto Alves. No passado sábado, diante do Sampaense, Manuel Johnson, que

cumpre a segunda temporada no clube, somou 28 pontos na vitória final da Académica por 94-75. Quanto aos jogadores que transitaram da época passada, o treinador acredita que vão continuar a ser “uma mais-valia” e chama-lhes “o núcleo duro” da equipa. “Agora vamos ver como é que se enquadram uns com os outros, temos de fazer pequenos ajustes em relação à equipa da época passada, que já estava mecanizada e eficaz”, sublinha. “As pessoas querem muito desta equipa” A Académica garantiu a presença na fase final do Troféu António Pratas no sábado, depois da vitória sobre a equipa de S.Paio de Gramaços, beneficiando ainda da derrota do Eléctrico com o Angrabasket e da vantagem que tinha sobre o Ginásio Figueirense. O encontro de domingo com o Eléctrico serviu apenas para cumprir

calendário. A AAC venceu a turma de Ponte de Sôr por 74-78, após prolongamento. Apesar deste ciclo vitorioso e da boa prestação na edição passada da Liga Portuguesa de Basquetebol, Norberto Alves afirma que o grupo vai trabalhar “com as expectativas adequadas, procurando manter-se na primeira divisão”. “Depois ao longo da época vemos o que podemos fazer, as pessoas querem muito desta equipa, mas isso não nos desvia da nossa realidade”, sublinha. Este ano, o técnico antevê um “campeonato mais forte” e, por isso, estabelece a necessidade de “melhorar aspectos na equipa, que têm a ver com a forma mais inteligente de abordar o jogo e com a componente táctica”. O primeiro jogo da final a quatro tem lugar no próximo fim-desemana diante do Benfica, no Pavilhão dos Pousos de Leiria, pelas 17 horas.

No jogo da segunda jornada da Divisão A2 masculina, a equipa de voleibol da AAC perdeu com os açorianos do Clube K por 1-3. A turma de Miguel Margalho soma assim a segunda derrota consecutiva, depois de ter perdido com o Centro de Voleibol de Lisboa na primeira jornada. A Académica tem dois pontos e o Clube K quatro. Na próxima jornada, a AAC mede forças com o Clube Voleibol de Espinho.

HÓQUEI EM PATINS Ao fim de três jornadas, a e q u i p a sénior de hóquei em patins da Académica soma três derrotas. A formação de Miguel Vieira perdeu este fim-desemana com o Riba D’Ave Hóquei Clube por 11-5, em jogo referente à Zona Norte do Campeonato Nacional de 2.ª Divisão. Na próxima ronda, a AAC regressa ao Pavilhão 1 do Estádio Universitário, depois das obras de requalificação, recebendo o APDG Penafiel.

RUGBY Na deslocação a Monsanto, a Académica perdeu com os actuais campeões nacionais do Grupo Desportivo do Direito, em jogo da segunda jornada do Campeonato Nacional da Divisão de Honra. Frente aos advogados, a AAC foi superada por 37-10. Esta é a segunda derrota consecutiva da turma de Sérgio Franco. No próximo fim-de-semana, a Académica recebe a Agronomia.

Catarina Domingos


10 | a cabra | 20 de Outubro de 2009 | Terça-feira

CIDADE Pobreza atinge diversos estratos da população de Coimbra Crise económica altera o perfil dos mais pobres. Instituições de Coimbra trabalham para combater a pobreza JONATHAN COSTA MARIA EDUARDA ELOY INÊS SILVA No sábado assinalou-se o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza e em Portugal o número de pessoas com carências sócio-económicas continua a aumentar. Actualmente, o país ultrapassa a média europeia com 1,8 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza. No concelho de Coimbra não existem dados que traduzam a verdadeira situação da população. No entanto sabe-se que há cada vez mais pobres de todas as idades e ambos os sexos e provenientes de diversos estratos sociais. O presidente do Conselho Local de Acção Social de Coimbra, Oliveira Alves, revela que existem “novos pobres que nunca pensaram vir a estar numa situação de pobreza”. Alguns “foram pequenos ou médios comerciantes ou industriais que já tiveram bons e até, por vezes, elevados padrões de vida”, mas que se encontram agora “em situações de ausência de rendimentos”, avalia. Também a técnica de Serviço Social da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e coordenadora do Projecto de Intervenção para os Sem-abrigo do Concelho de Coimbra (PISACC), Elsa Branquinho, afirma que “o perfil [das pessoas carenciadas] tem vindo a alargar cada vez mais”. A técnica de serviço social adianta que “por conta da estrutura económica que se vive ac-

LUÍS GOMES

tualmente, vão aparecendo [nas instituições de solidariedade social] famílias que perdem o emprego” e “vítimas de violência doméstica”, em vez “do simples sem-abrigo, pessoa isolada, homem que está na rua ou que está em centro de acolhimento”. A coordenadora do Núcleo Distrital da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (REAPN), Ana Paula Bastos, revela que “os índices [de pobreza] não se encontram a baixar, pelo contrário”. Contudo, 2010 vai ser o ano europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social, pelo que a responsável considera necessário “o empenho de todos, não só instituições, não só estado, mas toda a sociedade civil, todos nós envolvidos no sentido de minimizar o fardo que é cada vez maior de pobreza ao nível nacional”. Instituições articulam-se contra a pobreza A pobreza tem várias faces e uma das mais visíveis revela-se nos sem abrigo. Oliveira Alves consideraos “um fenómeno muito complexo”. Mesmo antes da crise os números de pessoas a viver na rua ou em centros de acolhimento abrangiam 20 por cento da população portuguesa. O PISACC é um esforço articulado de várias instituições da cidade, como a Associação Integrar, a CMC e a Associação de Cozinhas Económicas, para reinserir a pessoa sem abrigo na sociedade, sem repetição de apoios. Cada “utente tem um gestor de caso que é o responsável por reunir toda a informação que lhe diga respeito àquela pessoa”, tendo em consideração a especificidade e problemática daquela pessoa, realça Elsa Branquinho. O projecto existe desde 2004 e

O ESTEREÓTIPO do homem sem-abrigo e isolado está a mudar serviu de base para a delineação da Estratégia Nacional para a Reintegração das Pessoas Sem Abrigo. A assistente social da Associação de Cozinhas Económicas, Ana Cristóvão, acredita que o objectivo da articulação das diversas entidades “é oferecer à pessoa [sem abrigo] um leque de respostas e ajudá-lo a identificar as que lhe interessam” para o ajudar a atingir “o seu ob-

jectivo de vida”. Contudo, a intervenção em campo das instituições coordenadas pelo PISACC encontra algumas dificuldades. A técnica de Serviço Social da Associação Integrar, Susana Marçal, afirma que há sem abrigo que “estão na rua há algum tempo, fizeram da rua a sua própria casa, têm os seus hábitos, têm as suas regras e muitas vezes é

complicado ultrapassar isso”. Conclui que não é possível retirar uma pessoa da rua e reintegrá-la “de um dia para o outro”. Também Elsa Branquinho assinala a problemática da doença mental entre os sem abrigo como um dos maiores obstáculos. “São pessoas com patologias muitas vezes não diagnosticadas e com quem é muito difícil trabalhar, porque elas próprias não reconhecem a sua condição” e além disso, “trazer o técnico de saúde mental ao terreno, para fazer um diagnóstico não é fácil”, conclui. Voluntariado em Coimbra Muitas das instituições que lutam contra a pobreza contam com o apoio de voluntários. Na perspectiva de Elsa Branquinho, “Coimbra é uma cidade com uma especificidade particular”, no que diz respeito ao voluntariado, tendo em conta que “é uma cidade universitária”. Revela ainda que “esse é o perfil do voluntário” de Coimbra e que, com cinco anos de funcionamento, o Banco de Voluntariado de Coimbra conta já com “mais de 800 pessoas”. A coordenadora da Legião da Boa Vontade, Maria José Pereira, afirma que “o voluntariado ensinanos a ajudar o nosso semelhante”. Também a secretária da Associação Integrar, Carla Lopes considera que as instituições têm “sempre muito a ganhar porque cada voluntário tem em si um manancial de conhecimento e experiência”. No entanto, a representante da Associação Integrar reconhece que há dificuldades no recrutamento de voluntários com o perfil adequado. “As pessoas não podem começar hoje uma actividade para amanhã desistir; o voluntariado não pode ser uma forma de preencher um currículo”, conclui.

Municípios adoptam estratégia de combate à corrupção LEANDRO ROLIM

Plano contempla medidas para impedir injustiças na contratação pública e urbanismo MARIA EDUARDA ELOY A Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) desenvolveu um plano-tipo de gestão de riscos, que tem como um dos objectivos prevenir a corrupção nos municípios. O ainda vereador do pelouro da Habitação da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) Jorge Gouveia Monteiro acredita que este plano é positivo pois vai permitir

“desfazer o mito de que são os municípios que geram os problemas de corrupção do país”. Também o presidente da ANMP, Fernando Ruas, afirma que o plano de gestão de riscos “pode fazer alguma prevenção” ao nível da corrupção “que é transversal quer ao país quer também aos estados de uma forma generalizada”. No entanto, este plano “não é apenas para os municípios”, nas palavras de Fernando Ruas. “Os municípios são, de facto, uma área que é mais apetecível, mas há muitos interesses”, conclui. As principais áreas de risco identificadas pela ANMP incluem a contratação pública, a gestão financeira, concessão de benefícios públicos, recursos humanos e a área

do urbanismo e edificação. Jorge Gouveia Monteiro considera que esta última é de todas a mais delicada na câmara e afirma que “houve situações preocupantes” de corrupção. Refere a propósito, “dificuldades de fiscalização, nos casos que envolveram dirigentes ou ex-dirigentes da autarquia”, mas acrescenta que são casos “conhecidos e estão a ser investigados”. No entanto, o vereador também acredita que “muitas vezes é a extrema morosidade dos processos camarários” que dá origem a tentações “da pessoa mal formada em termos de carácter para tentar acelerar as coisas através de suborno ou de outras actuações ilegais”. O plano-tipo foi desenvolvido

pela ANMP e pelo Tribunal de Contas no âmbito de uma Recomendação do Conselho de Prevenção da Corrupção. De acordo com Jorge Gouveia Monteiro, a implementação do plano vai “permitir seleccionar as boas práticas e identificar aquelas que não são suficientemente balizadas” e conclui que “se ganha em transparência e em confiança dos cidadãos nas instituições”. Apesar de a adopção do plano estar prevista para este ano, o presidente da ANMP, Fernando Ruas acredita ser vantajoso “deixar passar esta tomada de posse dos autarcas, que têm também de se pôr a par desta situação”. Com Carla Maia


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CIÊNCIA & TECNOLOGIA A construção de um mundo “luminoso” A fibra óptica apresenta-se como um meio de transmissão de informação do futuro. As largas vantagens que oferece justificam a grande aposta das empresas de telecomunicações

FOTOMONTAGEM POR LEANDRO ROLIM

SARA SÃO MIGUEL Aqueles que julgam que a fibra óptica surgiu pouco antes dos primeiros anúncios televisivos estão enganados, uma vez que este meio de transmissão já existe há largos anos. A fibra óptica foi inventada em 1952 pelo físico indiano Narider Singh Kapany, mas o conceito actual parte dos estudos, em 1961, de Charles Kao, um dos “mestres da luz” vencedor do prémio Nobel da Física de 2009. As características mais vantajosas, como a rapidez, são reconhecidas pela população que já usufruiu deste meio de transmissão de informação, mas poucos sabem a que se deve essa rapidez e, na realidade, o que é a fibra óptica. Para muitos é um simples feixe de luz, mas o investigador do Instituto de Telecomunicações, Paulo André, explica que é algo mais complicado que isso: “as fibras utilizadas em comunicações são constituídas por uma região central de sílica dopada com germânio, com dez micrómetros de diâmetro (núcleo) e por uma camada externa de sílica pura com 125 micrómetros de diâmetro (bainha)”. É a rapidez de transmissão que mais atrai os utilizadores. Quem passava horas à espera que acabasse o download de um filme, agora espera minutos. “A sua baixa atenuação aliada ao facto de terem uma largura de banda elevada, permite a transmissão simultânea de vastas quantidades de informação”, elucida o docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Henrique Salgado. Além desta característica, a fibra óptica possui outras vantagens. Por se tratarem de filamentos feitos de vidro e por se transmitir a informação em forma de luz, a fibra óptica é imune à interferência electromagnética. Um caso prático exemplificado pelo investigador do Instituto de Engenharia de Sis-

COLUNA DOS PORQUÊS Por que sou daltónico?

ESTÃO INSTALADOS 25 milhões de cabos de fibra óptica em todo o mundo

Fibra óptica aplicável em várias áreas Os serviços de telecomunicações portugueses apostam fortemente na fibra óptica para satisfazer as necessidades de consumo e de informação da sociedade actual. As aplicações são várias e, como explica Henrique Salgado, “não se limitam às telecomunicações”. A medicina e o sector industrial são outras das muitas áreas que tiram proveito deste meio. O docente da FEUP confirma que, actualmente, “a fibra óptica é usada em 80 por cento das transmissões de longa distância, propagando simulta-

neamente serviços de telefone, vídeo e Internet ao longo de milhares de quilómetros”. “Até à data foram instalados 25 milhões de cabos de fibra óptica em todo o mundo”, acrescenta. Pode-se afirmar que o mundo se está a tornar mais “luminoso” e são muitos os projectos para o futuro que prevêem a utilização da fibra óptica para continuar a trabalhar para esse fim. Paulo Melo refere que um dos objectivos é aproveitar todos os feixes de fibra que os utilizadores possuem, mas que “não está a ser utilizada imediatamente para transmissão de informação”. Henrique Salgado também perspectiva que “no futuro a integração de serviços de comunicação fixos baseados em fibra e sem

fios será sem dúvida uma realidade”. A investigação desta forma de transmissão de informação é inerente ao futuro da sociedade e, segundo o professor da FEUP, “estão em trabalhos de investigação em redes de comunicação que possibilitarão, num futuro próximo, o acesso à informação, televisão e vídeo de alta-definição através de ligações com débitos superiores a um gigabyte por segundo”. Face a uma sociedade na qual a informação é uma necessidade prioritária e a comunicação é essencial para o seu desenvolvimento, a fibra óptica apresentou-se como um recurso eficaz. Para Paulo André, não há dúvida que “estamos perante um futuro cheio de ‘luz’”.

respeito. No tempo dos dinossauros, os mamíferos eram criaturas da noite. Não teriam visão das cores, ao contrário dos primeiros. Provavelmente os ancestrais desses mamíferos eram seres reptilianos que discriminavam cores a três dimensões. Assim este dom ganhouse e perdeu-se ao longo da evolução, consoante as espécies tinham visão predominantemente diurna ou nocturna. Quando os nossos ancestrais regressaram à visão diurna, muitos recuperaram a visão das cores, mas não necessaria-

mente a três dimensões. Muitas das espécies de mamíferos ainda hoje só vêem a duas dimensões (o equivalente aos daltónicos humanos, que discriminam o azul do amarelo, mas não o vermelho do verde). Os vertebrados são dos seres com visão das cores mais paupérrima. O facto de répteis, peixes, anfíbios e aves possuírem até cinco tipos de pigmentos mostra que regredimos em muitos aspectos. Os mamíferos apenas retiveram dois, uma na região dos amarelos e outro correspondente ao intervalo 440-

460 nanómetros de comprimento de onda - azul. Tinham o potencial para distinguir o azul do amarelo, mas não o vermelho do verde. Os daltónicos verdadeiros estão também limitados a esta faculdade. Para a maioria de nós ganhar a terceira dimensão das cores, foi um longo caminho de recuperação evolutiva, e mesmo assim ficamos aquém das aves, anfíbios, peixes e répteis.

temas e Computadores de Coimbra (INESC), Paulo Melo, é o dos hospitais, onde “numa sala com máquinas de raio X ou outras de radiação se produz uma enorme quantidade de ruído electromagnético”, sendo por isso “necessário utilizar os cabos de fibra óptica”. As desvantagens contam-se pelos dedos. Apesar de diminuir o custo das matérias-primas do silício que constitui a fibra óptica, em contraste com o aumento do preço das matérias-primas do cobre dos cabos eléctricos, o custo dos componentes ópticos dos receptores e emissores é elevado. A segunda desvantagem refere-se ao facto de que “para juntar dois cabos eléctricos e a electricidade passar basta juntá-los relativa-

mente bem, mas para juntar dois cabos de fibra óptica temos que alinhá-los muito bem e tê-los polidos”, afirma Paulo Melo.

Cerca de cinco a dez por cento dos homens e menos de um por cento das mulheres têm problemas de percepção das cores. Aqui também falamos de casos em que a própria pessoa nem sempre tem a noção de ter a deficiência. Os homens têm um risco acrescido, porque só têm um cromossoma X, enquanto as mulheres, por terem dois, só sofrerão consequências se tiverem mutações nesses cromossomas, o que é muito raro. A história dos genes envolvidos na visão das cores diz muito a este

MIGUEL CASTELO BRANCO, DOCENTE DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA


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PAÍS & MUNDO Quando um país se torna um lar Um relatório da ONU afirma que Portugal é o país que melhor acolhe os seus imigrantes. As vitórias e as derrotas de quem procura aqui um futuro melhor. Por Maria Lastres e Artur Romeu ILUSTRAÇÃO POR TATIANA SIMÕES

O

som do carimbo de entrada no passaporte foi, para mim, igual ao do martelo de um juiz”. Gizelly Santos, como brasileira, não precisava de visto para entrar na União Europeia (UE). No entanto, quando fez escala em Lisboa, de onde seguiria para Frankfurt, deparou-se com o primeiro de muitos obstáculos: a Polícia de Imigração. Disse ao oficial que era turista, “que ia passear durante 20 dias e encontrar uma amiga na Alemanha”. Após responder a uma série de perguntas, Gizelly viu a sua entrada autorizada. Seguiu cheia de incertezas e expectativas para uma viagem que seria muito mais longa do que dissera às autoridades. Com critérios mais ou menos rigorosos, os países têm vindo a fechar as portas aos imigrantes. Muitas vezes associados a estereótipos negativos, não costumam ser bem vindos. Contudo, o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) “Ultrapassar Barreiras: Mobilidade e Desenvolvimento Humanos”, recentemente divulgado, alerta para a necessidade de mudança nas políticas de migração, de modo a ultrapassar as barreiras culturais. Nesse mesmo documento, Portugal é apontado como o país que, no mundo, melhor integra os imigrantes na sociedade. Gizelly é um dos casos que ajudam a construir esta avaliação. Quando desembarcou, em Fevereiro de 2007, deu os seus primeiros passos com o apoio de uma amiga que vivia em Frankfurt. Além de hospedar a recém chegada, ajudou-a a comunicar na língua local e a conseguir em-

prego. “Fui ama e trabalhei na limpeza de casas, únicas alternativas quando estamos apenas como turistas e sem visto de trabalho”, conta. A lei permite aos turistas brasileiros permanecer no máximo três meses na UE. Antes de completar o último, Gizelly atravessou a fronteira para a Suíça, o que permitiu, ao regressar à Alemanha, um novo carimbo de entrada na UE e mais um trimestre de estadia. Porém, logo se viu obrigada a deixar o país, pois a fiscalização era grande e não havia possibilidade de se legalizar. Portugal apareceu então como próximo destino. Legislação favorável à imigração Atraída pela notícia do “Acordo Lula” (como ficou conhecido o Acordo de Contratação Recíproca de Nacionais), que concedia residência portuguesa aos brasileiros com contrato de trabalho válido, Gizelly mudou-se para o país. Enquanto não se enquadrava nas exigências, viveu oito meses “escondida” em Barcelos. “Eu evitava lugares públicos, quase não ligava para a minha mãe e não conversava muito. Tudo isso para não correr o risco de ser detida numa ronda policial e acabar deportada”. Finalmente, conseguiu preencher os requisitos e conquistar a sua residência. Como ela, outros 20 mil compatriotas beneficiaram do acordo para se regularizarem entre 2005 e 2008. Actualmente, a comunidade brasileira é a mais numerosa em Portugal. Segundo o relatório anual do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), de 2008, constituem um quarto dos

440 mil estrangeiros que vivem em situação legal. O pesquisador do Núcleo de Migração do Centro de Estudos Sociais (CES) e docente de Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Pedro Góis, conta que desde 2004 os brasileiros assumiram a primeira posição. “Nos anos 90 o primeiro fluxo migratório foi oriundo dos países luso-africanos, principalmente de Cabo Verde, Angola e Guiné. Na viragem do século, Portugal recebeu uma enorme quantidade de imigrantes do Leste Europeu, sobretudo ucranianos e romenos, foram cerca de 150 mil num ano”, esclarece. Os números do SEF demonstram que até ao fim dos anos 90 Portugal não recebia grandes fluxos de imigrações, apesar do aumento gradual. No entanto, entre 2000 e 2001, assistiu-se a uma escalada de 70% da população estrangeira, tendo praticamente duplicado nos anos seguintes. “De repente, o país viu-se pela primeira vez com um problema de imigração. Muitos deles chegavam sem saber falar português. Todas as livrarias esgotaram os seus ‘stocks’ de dicionários bilingues”, conta Pedro Góis. A partir desse momento, o governo implementou políticas para facilitar a recepção dos imigrantes. “Foi criado um órgão público especial para trabalhar na integração dos estrangeiros, o Alto Comissariado para Imigração e Diálogo Internacional; passaram a ser oferecidos cursos de língua portuguesa; ocorreram campanhas de legalização em massa e ainda foram disponibilizados postos de atendimento do SEF nas Lojas do Cida-

dão”, enumera o investigador. Medidas como estes facilitam a entrada e regularização de estrangeiros, mas nem sempre garantem igualdade de oportunidades e a integração na sociedade. O guineense Paulino Nancabú tem 35 anos e vive há sete em Portugal. Formado em Engenharia Industrial pela Universidade de Cuba e actual mestrando em Engenharia e Gestão Industrial na Universidade de Coimbra, admite que a integração legal é um ponto positivo. Porém, as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes ainda são muitas. Mundo profissional de difícil acesso O reconhecimento de diplomas estrangeiros pelas universidades portuguesas é um dos entraves colocados aos profissionais qualificados. Contudo, para Paulino não foi esse o principal obstáculo. “Pedi equivalência do curso na Universidade de Aveiro e a coordenadora ficou impressionada com o programa de estudos que apresentei e reconheceu o diploma”, conta. No entanto, a realidade do mercado de trabalho foi outra. Mesmo com uma formação especializada, Paulino não conseguiu actuar na sua área e viuse obrigado a trabalhar na construção civil e em limpezas. Hoje tem um cargo administrativo numa pequena empresa de construção gerida por um conterrâneo. David Pires deixou a Guiné-Bissau com apenas 12 anos através de um programa de bolsas de estudos do governo cubano. Viveu a maior parte da sua vida na ilha, onde se formou

em Medicina e se especializou em cirurgia geral. Hoje, com 31 anos, confessa que a sua vontade era regressar ao seu país, mas encara esse cenário como uma realidade distante. “A instabilidade política na Guiné restringe as oportunidades de se voltar para trabalhar. Mesmo com sub-empregos, o dinheiro que ganhamos aqui ainda dá para ajudar a família”, justifica. David chegou a Portugal há dois meses e ainda tenta transpor as barreiras da equivalência do diploma. “Estou à espera do exame que me vai habilitar a começar a trabalhar. Enquanto espero, concorri a um estágio.” Pedro Góis afirma que casos como o de Paulino e David não são excepções. “Chamamos a isso ‘brain waste’, quando os países deixam de aproveitar as potencialidades dos seus imigrantes. Eu próprio conheci um bom exemplo: um russo com dois doutoramentos que em Portugal trabalhava nas obras.” Descobrir como integrar quem procura novos países, de modo a criar uma sociedade verdadeiramente multicultural, é o desafio. Para já, a melhor solução, afirma o docente da FEUC, é o tempo. “Só a partir da terceira geração é que podemos falar em integração total. Hoje não há melhor resposta: integração é tempo.” No entanto, o relatório da ONU sugere as directrizes para promover a integração: “baixar as barreiras que se interpõem às deslocações e melhorar o tratamento dedicado àqueles que se deslocam”. Após contactar responsáveis do SEF, não foi possível obter declarações até ao fecho da edição.


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PAÍS & MUNDO

A lâmpada ao fim do corredor A morte como castigo ainda é aplicada em mais de 50 países. Joaquin Martinez esteve no famoso corredor durante quatro anos e regressou vivo para contar a história. Por Vasco Batista e João Ribeiro LEANDRO ROLIM

Era um domingo, dia de Super Bowl – o jogo mais importante da época de futebol americano – e Joaquin José Martinez saía de casa, em Brandon, Florida, para visitar as filhas, que na altura moravam com a sua ex-mulher. Ao cruzar uma esquina é subitamente cercado por quatro carros da polícia e helicópteros. Incrédulo, é detido para responder pelo homicídio de um casal, ocorrido três meses antes. Uma investigação mal conduzida, apoiada em provas manipuladas, atiraramno para o temido corredor da morte. Na passada quinta-feira, Joaquin Martinez contou na primeira pessoa o suplício a que esteve submetido durante três longos anos, numa conferência promovida pela delegação portuguesa da Amnistia Internacional (AI). “Cheguei a duvidar da minha existência”, confessa um homem renascido, mas que não consegue esconder a emoção despertada pelas recordações. É impossível ficar indiferente à história que partilha. Após a detenção, assiste-se a um desfilar de injustiças e decisões mal justificadas. Começando logo pela relação entre Joaquin Martinez e as vítimas. A única casualidade que os liga é o facto de Martinez ter trabalhado na mesma empresa de uma das vítimas, mas nunca contactaram directamente. Em relação às provas, os exames de ADN em nada apontam que Joaquin estivesse no local do crime, situação desvalorizada pelas autoridades. A acusação utiliza gravações áudio nas quais alegadamente, o crime é con-

fessado. No entanto, a qualidade é péssima não sendo possível descortinar o que de facto é dito. Este crime tinha que ter um culpado, fosse quem fosse. O pai de uma das vítimas era o chefe da polícia local e a pressão para se apurarem responsabilidades era grande. Joaquin José Martinez foi condenado à morte pelo assassinato de uma das vítimas e a prisão perpétua pela outra, em 1997, mais de um ano depois do fatídico domingo do Super Bowl. O mundo de olhos postos no corredor “Quando entras no corredor da morte e vês como outros companheiros estão a sofrer uma injustiça, muda-se a percepção do que é a vida e a morte”. Em três anos sofreu um inferno que a maioria conhece apenas de filmes. A lâmpada que acendia três vezes durante uma execução persegue-o até hoje. Viu os seus amigos abandonarem-no (“Quem quer ser amigo de um condenado à morte?”, questiona). Deixou de ver as filhas, suportou abusos e maus tratos. Mas a última frase que os seus pais lhe dirigiram deu-lhe uma força imensa. “Lutaremos até tirar-te daqui”. E lutaram. Fora do corredor, ergueu-se uma mobilização que atingiu uma dimensão planetária. Uniram-se esforços para resgatar Joaquin Martinez do destino a que estava condenado. Desde o Papa João Paulo II aos reis de Espanha, passando por diversas organizações defensoras dos direitos humanos, muitos vieram a público

colocar-se do seu lado. Na prisão, as cartas de apoio enchiam a cela de Joaquin. Eram tantas que, segundo conta, “tinha um agente encarregue de verificar só o meu correio”. A vida no corredor foi melhorando e todos se apercebiam que havia algo de diferente em Joaquin José. “Ao início chamavam-me assassino, batiamme e maltratavam-me. No final, as mulheres dos guardas faziam comida a mais para mim”. A esperança reacendeu-se quando foi marcado um segundo julgamento. Desta vez, o mundo tinha os olhos postos nos acontecimentos. As provas que outrora tinham servido para incriminar Joaquin Martinez foram postas de lado, pelas incongruências evidentes. A acusação chegou mesmo a propor um acordo em que, se Joaquin assinasse uma confissão, sairia em liberdade no próprio dia, uma vez que já tinha cumprido cinco anos e meio. “De pena de morte passaram a cinco anos e meio, pelo mesmo crime. Isto é justiça?”, pergunta. Rejeita a proposta e, em 5 de Junho 2001, é ilibado de todas as acusações. A última noite no corredor foi passada em claro. “Estava constantemente a acordar, porque queria ter a certeza que não era um sonho”. A luta contra a penal capital “Eu confiava no sistema de justiça americano e acreditava na pena de morte”, assume Joaquin Martinez. Hoje, é um activista pela abolição da pena capital, causa a que se dedica, “não para ganhar dinheiro”, mas “de coração”. É neste sentido que se divide em conferências por todo o

JOAQUIN MARTINEZ tem vindo a divulgar a sua história por todo o mundo mundo. “Consciencializar os estudantes para a importância do movimento e das campanhas com vista à abolição da pena de morte a nível internacional” foi o objectivo destacado pela docente de Relações Internacionais e co-organizadora da conferência na faculdade de Economia, Daniela Nascimento. O que justifica então a existência da pena de morte? O director-executivo da AI, Pedro Krupenski, sublinha

“as tradições religiosas e culturais” como razões para que assim seja. “Há países que a utilizam como uma forma de controlo da população”, refere. Os factores económicos também pesam: “os sistemas de segurança dos corredores da morte e as injecções letais, que são produtos químicos relativamente caros, dão dinheiro a ganhar a muita gente”. Há ainda um longo caminho a percorrer para que os direitos humanos falem mais alto.

Vilão ou herói? O conflito teve início em 1992 quando os sérvios nacionalistas tentaram evitar a separação entre a Bósnia-Herzegovina e a Jugoslávia. Até Novembro de 1995, morreram mais de 250 mil pessoas e 1,8 milhões foram obrigadas a refugiar-se. Radovan Karadzic, à época presidente da Bósnia e comandante supremo do exército sérvio, coordenou muitas das operações militares. É agora acusado de 11 crimes, entre os quais o genocídio na guerra civil da Bósnia, o cerco e bombardeamento de Sarajevo, no qual morreram mais de 10 mil pessoas, e pelo massacre de Srebrenica, onde foram executados 7500 homens muçulmanos. Todavia, Karadzic continua a ser considerado um herói de guerra para os nacionalistas sérvios e é apoiado

pela opinião pública e por frequentes manifestações. Teresa Cierco acredita que o antigo líder sérvio utilizará argumentos como “era apenas um general a cumprir ordens”. Teme também que caso Karadzic seja condenado “se crie algum tipo de instabilidade na Sérvia e os grupos nacionalistas se revoltem, ressuscitando a guerra civil”. Estes movimentos radicais são, como afirma a investigadora, “contra a União Europeia (UE) e a favor de uma aliança entre a Sérvia e a Rússia”. Tais contradições têm provocado desequilíbrios sociais, políticos e económicos, o que resultará em mais um atraso na entrada da Sérvia para a UE. No entanto, o governo sérvio não se poupa a esforços para inverter a situação, no sentido de cooperar com o tribunal.

GUERRA NOS BALCÃS

Karadzic julgado por genocídio O antigo líder sérvio Radovan Karadzic começa a ser julgado a 26 de Outubro, em Haia, mas resultado pode causar revoltas RAFAELA CARVALHO DANIELA QUEIRÓS Radovan Karadzic foi detido em Belgrado a 21 de Julho de 2008, após 13 anos em fuga, e transferido para o Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex-Jugoslávia nove dias depois. Na próxima segunda-feira, 26 de Outubro, enfrenta a primeira sessão de julgamento, vendo negado o seu pedido para dez meses de adiamento.

Segundo a docente de Relações Internacionais da Universidade da Beira Interior, Teresa Cierco, “a data do julgamento terá de ser cumprida. O tribunal perde vigência em 2010 e, se os casos não forem resolvidos até à data, corre o risco de ficar mal visto”. No entanto, o TPI prevê que o julgamento se prolongue por dois anos, em parte pela falta de colaboração de países como a Croácia e a Sérvia. Estas nações têm vindo, ao longo dos anos, a impedir o acesso a registos biográficos e documentos relacionados com as actividades militares do réu. Os primeiros dias serão dedicados à declaração preliminar da acusação e durante um ano, Serge Brammertz, procurador do TPI, revelará acusações e testemunhos de vítimas e peritos.

D.R.


14 | a cabra | 20 de Outubro de 2009 | Terça-feira

CINEMA

ARTES FEITAS

“ deA Batalha Red Cliff

P ”

DE JOHN WOO COM TAKESHI K ANESHIRO FENGYI ZHANG CHEN CHANG 2009

"O FILHO PRÓDIGO REGRESSA A CASA" CRÍTICA DE FERNANDO OLIVEIRA

onto Prévio: o preço dos bilhetes de cinema voltou a aumentar. Alguém não está a levar a sério o tão propalado combate aos downloads ilegais... Mas deixemos essas questões para outros espaços e outros tempos. “A Batalha de Red Cliff” marca o regresso de John Woo ao seu país natal. Desde 1992 que Woo não filmava na China, tendo respondido ao canto da sereia de Hollywood, que o tem ocupado desde então. O regresso do filho pródigo (é ele o responsável por muitos dos elogios feitos ao cinema de acção asiático dos anos oitenta a esta parte) é, assim, feito com um filme que nos leva ao século III, ao final da Dinastia Han, e conta a estória da guerra travada pelos senhores das terras do Sul, Sun Quan e Liu Bei, contra o exército imperial do primeiro-ministro Cao Cao. A estória desta batalha é um episódio do “Romance dos

Três Reis”, um dos pilares da literatura clássica chinesa. Concluindo a contextualização da narrativa, será um equivalente para a cultura chinesa do que é para a mitologia greco-romana a Guerra de Tróia incluída na Ilíada. Originalmente com cerca de cinco horas de duração, e exibido na China em duas partes, “A Batalha de Red Cliff” é mostrado ao público ocidental numa versão remontada e resumida de 150 minutos, com direito a introdução em voice-over inglês. A consequência mais surpreendente de tamanho corte que não costuma beneficiar qualquer narrativa é que a mesma não se ressente. De facto, a estória flui e não aparenta falhas ou inconsistências. Com uma carreira ancorada no género Acção, John Woo não deixa créditos por mãos alheias. O recurso ao slow-motion para abrandar o ritmo do combate é frequente, assim como as explosões são usa-

das no confronto final sem poupança. Outras marcas de autor: o confronto entre a honra e a lealdade dos protagonistas e a ambição desmedida do vilão de serviço. A amizade entre o herói e o companheiro, que aqui assume uma dimensão mística. Mesmo a pomba branca, presença regular na cinematografia de Woo, não deixa de marcar presença. A verdade é que o recurso à mitologia chinesa e a sua mutação em cinema de acção não transforma este filme em algo mais que um conjunto de clichés cansados e repetidos já até à exaustão. Sim, o herói de serviço tem um interesse amoroso partilhado pelo vilão e que quase se sacrifica pelo bem maior. O rumo da estória é mais do que previsível e até a banda sonora está omnipresente, nunca deixando o filme respirar. Já vimos este filme antes. Mas tinha outro título. E foi há cerca de dez anos.

JOGAR

Need For Speed: Shift”

N

eed For Speed (NFS) sofreu uma revitalização. Mudou de rumo tornando-se agora uma mistura entre simulação e arcada. Estamos perante o melhor NFS feito em anos. O design foi focado na experiencia de condução, que é fenomenal e de nos deixar agarrados às cadeiras. É provavelmente o melhor no campo em fazer sentir como é realmente conduzir um dos numerosos carros disponíveis. O aspecto dos mesmos é preciso no exterior mas também no interior dando ao jogador a sensação, mesmo que momentânea, de como é estar a conduzir o carro dos seus sonhos. Existe uma grande sensação de

velocidade que aumenta a nossa adrenalina e o som do chiar dos pneus demonstra como é fazer manobras a grande velocidade. Dentro do habitáculo a ambiência ainda é maior, com o ecrã de jogo a sofrer alterações conforme a velocidade ou quando se dão colisões. Existe de facto um bom equilíbrio na jogabilidade entre os géneros para agradar não só aos fãs dos anteriores NFS, como aos fãs de simuladores automóveis. Os nossos adversários apresentam uma inteligência artificial humana sendo bastante imprevisíveis e extremamente agressivos. No modo carreira, deixamos para trás as corridas fora-da-lei para nos dedicarmos a ser pilotos

de renome percorrendo diversas pistas reais e imaginárias. Ainda é possível alterar os carros de diversas maneiras, mas agora existe uma componente muito mais mecânica, na qual as personalizações afectam o modo como o carro reage e não só visualmente. Existem diversos modos de jogo para agradar a todos e isso também se observa nos modos online, onde a competição é maior. As mudanças na série podem não agradar a alguns, mas de facto estamos perante um jogo de condução exigente e de qualidade superior.

MÁRIO SANTOS

PLATAFORMA XBOX360, PS3, PC-WINDOWS EDITORA ELECTRONIC ARTS 2009

"Empacotado com adrenalina"

Artigo disponível na:


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ARTES FEITAS

OUVIR

LER

Octahedron”

A

nunciado em Março de 2009 no site oficial, saiu Octahedron, no segundo dia de Verão o quinto álbum de estúdio o quinto dos já aclamados Mars Volta. Apenas um ano depois do bem sucedido “Bedlam in the Goliath”, estes texanos de El Paso estão de volta. Um fã mais tradicional e mais incauto de Mars Volta pode desenganar-se: este é diferente. A banda de Omar Rodriguez-Lopez e de Cedric Bixler Zavala apresenta-nos desta vez um trabalho que parece ser mais ponderado e mais maduro mostrando assim que são capazes não apenas de explosões de energia e guitarras, mas também de conceber um álbum mais calmo e melodioso, sem perder a identidade do DE seu já tão peculiar rock progressivo THE MARS VOLTA com influências latinas. Álbum este que, segundo Bixler-Zavala, estava EDITORA para ser acústico. MERCURY RECORDS Nota-se uma evolução na sonoridade da banda e apesar da saída de 2009 membros tão preponderantes nos álbuns anteriores, a essência do grupo, pautada pelos dois líderes, mantém-se. Paul Hinojos (que fez parte da totalidade do projecto At the Drive-In) e Adrián Terrazas-González (membro do grupo nos últimos três trabalhos) foram convidados a sair por Rodriguez-Lopez ainda em 2008 (ano em que visitaram Portugal), devido à viragem de rumo do som dos Mars Volta para este novo álbum. O primeiro single de “Octahedron” foi escolhido de maneira diferente para a Europa e para os Estados Unidos. “Since We’ve Been Wrong” foi o tema seleccionado para single nos EUA enquanto “Cotopaxi” fez as honras por cá. As duas merecem uma breve análise: a primeira é novidade por se traduzir num oceano de tranquilidade melodioso, invulgar nas músicas de uns Mars Volta que habituaram o seu público a paragens mais revoltosas. Quanto ao segundo, já se identifica mais com o som que deles nos acostumámos a ouvir. “Cotopaxi” é talvez a faixa mais eléctrica do sucessor de “Bedlam in the Goliath”, o que nos faz vir à memória algumas músicas bem sucedidas de álbuns anteriores. A destacar ainda neste LP, para além dos singles, há ainda a agradável surpresa que é “Halo Of Nembutals”, e o seu refrão sonoro que lhe confere particular força, assim com “Teflon”, “Desperate Graves” ou “Luciforms”, que segue o caminho delineado para o single do álbum para os EUA. Este trabalho não pode ser tido em conta faixa a faixa, ele vale como um todo e pode não ser o melhor que estes texanos já conseguiram fazer até agora. Não é um “De-Loused in the Comatorium”, é certo, mas pode ser considerado como uma boa adição a uma discografia de qualidade.

O Crime do Padre Amaro ”

O crime de não ler Eça

DE EÇA DE QUEIRÓS EDITORA LIVROS DO BRASIL 1999

P

O crime do padre Amaro não é nada disto, e é isto tudo. É o jovem fraco de vontade que se deixa empurrar para o seminário e fazer-se padre sem vocação. É o padre que se apaixona e abandona os seus votos, arrastando consigo outra alma pela qual devia zelar espiritualmente em vez de tentar com os pecados da carne. É o homem da igreja que fecha os olhos aos pobres do seu rebanho e vencido se lhes junta. Ensinado pelo cónego Dias, o padre mestre, imagem bafiento da Igreja e que alimenta há anos uma relação pouco privada e nada católica com a mãe de Amélia, Amaro, o aluno, depressa ultrapassa o mestre em despudores. Feito filme, em mais do que uma ocasião, teve o mérito de levar milhares de portugueses ao cinema, número dificilmente ultrapassado em leitores. Encontramos n’ O Crime do Padre Amaro o desfilar de figuras que Eça tanto gosta de trazer ate nós e os vícios que lhes encontra. Desta vez, o alvo da crítica social é a Igreja, com uma imagem corrupta, vencida e impura, mas sobretudo hipócrita. O traço forte, a ironia e o humor com que retrata as personagens dão a escrita de Eça um estilo inconfundível. E as fraquezas humanas, intemporais e persistentes fazem da sua obra leitura incontornável em qualquer século, década ou ano. Tudo bons motivos para aconselhar: não veja só o filme, leia o livro. SOFIA PIÇARRA

VER

Almoço de 15 de Agosto”

Almoço de frete

CAMILO SOLDADO

GUERRA DAS CABRAS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena FILME

A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro

EXTRAS

Artigos disponíveis na:

ouco há quem não conheça a infeliz história queirosiana d' O Crime do padre Amaro. A obra dá conhecer os destinos de Amaro Vieira e Amélia Caminha, duas almas caridosas e cristãs. A primeira, jovem e padre, hospeda-se na casa da segunda, também jovem e devota. Amélia, que Eça de Queiroz não pinta com as cores que o cinema mais tarde lhe deu, é, aliás, roliça, gorda, até, e com “um bucozinho que lhe punha aos cantos da boca uma sombra subtil e doce”, e não resiste aos encantos do padre garboso. Na casa, sob o olhar desatento da mãe de Amélia, desenvolve-se a afeição dos dois que, apesar dos votos de castidade e pureza do padre e da virgem, termina abandonada na cama de uma entrevadinha de quem Amélia caridosamente cuidava. Caída em desgraça perante os olhos divinos, Amélia há-de engravidar e a mando do amante, abortar a criança para que a intriga humana não descubra os enlevos dos dois, proibidos perante as leis da igreja e dos homens. Mas a operação acaba por ditar também a morte de Amélia, e Amaro, que ainda há pouco tínhamos visto chegar a Leiria, parte pouco depois, sem grandes remorsos e com uma nova visão das suas funções de pastor, incutidas pelos costumes dos seus companheiros de fé, já gastos pela erosão dos anos e dos vícios.

DE GIANNI DI GREGORIO EDITORA ATALANTA FILMES 2009

m romano vê-se obrigado a passar o Ferragosto – feriado tradicional italiano, que marca o início das férias de Verão – enclausurado no seu apartamento, com o encargo da mãe e mais três idosas. Resignado ao seu bairro, completamente despojado de habitantes, o decrépito protagonista contempla a sua paciência posta à prova pelas exigências e pelas tropelias das suas protegidas. “Almoço de 15 de Agosto” é tão só e simplesmente isto. É escusado esperar mais de um argumento, que entre a gestão de conflitos e a mesa de uma cozinha tipicamente italiana, encontra na simplicidade narrativa a sua natureza. Mas a mais recente obra e primeira realização de Gianni Di Gregorio é mais do que um filme em si. É uma resenha da história do grande cinema italiano, onde facilmente encontramos pastiches do realismo de Rossellinni e toda aquela representação autêntica de Fellinni, e onde as “Romas” de ambos se cruzam com o toque de tragicomédia e autobiografia empregado pelo autor. Mas a incursão na imagética do cinema italiano vai mais longe e desvendamos laivos de Garrone e Moretti, es-

U

pecialmente numa viagem de scooter pelas ruas e margens de Roma. Depois de uma curta, mas gloriosa, passagem pelas salas de cinema portuguesas, chega-nos finalmente a edição DVD, tutelada pela óbvia Atlanta Filmes, em que somos brindados com uma vasta gama de extras, para uma edição que só conta com um disco. A cerimónia de antestreia do filme em Portugal, que encerrou “8 1/2 – Festa do Cinema Italiano” teria invariavelmente que constar do cardápio e aqui conta com uma entrevista ao realizador, bem como uma a sessão de apresentação da película. Mas o rol de extras continua e somos ainda premiados com uma entrevista de Lara Marques Pereira, para o programa “Cinemax” da “Antena 1”. O restante grupo de complementos ao DVD – que passam por uma galeria de imagens do filme e um secção DVD-ROM com fotos de rodagem e um dossier de imprensa – poderia passar-nos ao lado, não fosse a genial receita de culinária do almoço de 15 de Agosto.

JOÃO MIRANDA


16| a cabra |20 de Outubro de 2009 |Terça-feira

SOLTAS EU ESTUDO LÁ

UNIVERSITÁ CATTOLICA DEL SACRO CUORE • MILÃO D.R.

ACABAR O CURSO COM UMA COROA DE LOUROS

EM MILÃO os edifícios são antigos mas preservados

Estudar em Itália tem as suas diferenças. Valentina Cassani, aluna de Comunicação e Jornalismo em Milão, aponta os principais traços Em Itália não há festas académicas, como a Queima e a Latada. Em vez disso, os estudantes organizam saídas em conjunto, agrupados pelos diferentes cursos. Cada estabelecimento de diversão nocturna fun-

ciona, por regra, apenas um dia por semana, mas todos os dias há animação nocturna. O dia-a-dia também é diferente: “passa-se muito mais tempo em casa”, observa. “Em Itália, depois das aulas da manhã, os alunos vão estudar para a biblioteca da faculdade, saem para beber algo antes do jantar, depois jantam e saem à noite, enquanto que em Coimbra as tardes são normalmente passadas em casa, e só depois do jantar é que se organizam outras actividades”, conta a estudante de Jornalismo. Quanto à qualidade e preço do alo-

jamento “a Itália é muito mais cara” (em média, um quarto tem o preço de quatrocentos euros), “mas a qualidade é muito maior”. Afirma ainda que “os quartos em Coimbra não têm conforto algum, sendo muito antigos e tendo más condições”. Ainda em termos de preços, as propinas são também muito diferentes: na sua universidade, a propina mínima é de dois mil euros e a máxima pode chegar aos seis mil. A sua universidade tem sensivelmente o mesmo número de alunos que a UC, mas a representatividade de alunos Erasmus é muito mais

BURROS HÁ MUITOS? • POR LEANDRO ROLIM

baixa, “talvez pelo facto de todas as aulas serem dadas exclusivamente em italiano”, reflecte. Valentina diz que a universidade é “um espaço antigo e pouco cuidado, por culpa das pessoas não se preocuparem em preservá-lo”, ao invés dos espaços da sua universidade: “bem tratada, com muitos espaços de estudo, antiga mas restaurada, e com outra preocupação com as condições físicas da mesma”. Em Itália não há praxe, “por culpa da idade com que se entra para a universidade - cerca de 20 anos - e, como nunca houve tradição, seria agora en-

carada como humilhação”. A única integração que é feita dos caloiros passa por uma pequena reunião informal em que são apresentados. A única festividade académica é a da graduação em que todos os amigos do estudante lhe dão uma coroa de louros e flores vermelhas. Depois, o estudante tem de correr pelo jardim interno da faculdade em roupa interior. A avaliação em Itália é feita através de exames finais. Para a estudante "é um método que funciona, e é mais organizado que o português". Por Pedro Leitão

200 X 100 Feira do Espantalho realizou-se pelo sexto ano consecutivo na Praça Velha, como homenagem ao trabalho agrícola. Além das dezenas de coloridos espantalhos apresentou também aos conimbricenses um velho amigo que antigamente era usual vê-lo a subir e descer as ruas, a transportar cargas e pessoas sem se negar. Com a industrialização do país e da Europa, é cada vez mais raro o uso rural do burro. O tractor e o automóvel substituíram esta dócil e humilde criatura nas nossas cidades e nos nossos campos. É com um misto de nostalgia e tristeza que vejo estes belos animais em Coimbra e relembro que estão em vias de extinção. Se deixarmos extinguir um animal que nos serviu incansavelmente tanto tempo, que dirá isso de nós?

A


20 de Outubro de 2009 | Terça-feira | a

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O MUNDO AO CONTRÁRIO

SOLTAS

INGLATERRA Depois do nascimento do filho, uma mulher de 28 anos descobriu que era alérgica ao bebé. Devido a uma doença rara de pele, Joanne Mackie não podia tocar no filho sob pena de ficar com o corpo coberto de bolhas. Entretanto um tratamento à base de esteróides possibilitou a cura quase um mês depois.

BRASIL Há estranhos casos de boas ideias. Para poupar água, uma organização não governamental brasileira está a promover o “Chichi no Duche”. A SOS Mata Atlântica acredita que a medida ia ajudar cada pessoa a poupar cerca de 4000 litros de água por ano. Só em São Paulo seriam 1500 litros por segundo. Para os mais cépticos quanto à higiene, a organização lembra que a urina é composta em 95 por cento de água e em cinco por cento de substâncias tão simples como a ureia e o sal.

MAU TEMPO NO CHOUPAL Por Mestranda Maria Armanda

FESTA DE LATAS

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screver quase três mil caracteres de duas em duas semanas sobre o tudo (ainda que ocasionalmente, de vez em quando, quase sempre, esperem o nada) não é exactamente assentar tijolo mas também não é como resolver um sudoku para catraios. Tudo porque (e peço desde já des-

MALÁSIA O Governo está a financiar uma segunda lua-de-mel para os casais que estejam à beira do divórcio. O objectivo é salvar os casamentos para criar exemplos de boas famílias. Os casais têm direito a duas noites com tudo pago numa ilha paradisíaca. Depois disso fazem uma terapia. A medida já terá funcionado em 25 casais. Cristiana Pereira

ILUSTRAÇÃO POR LÍDIA DINIZ

culpa a todos os que não estão preparados para esta notícia) na verdade não se passa nada de especial neste nosso Portugal. Daí que de novo me veja obrigada a pegar na temática sempre bonita e profícua dos sufrágios. Quer dizer, e daí se calhar não. Parece que o capitão ao leme deste

barco que é Coimbra (sempre fui péssima com metáforas, a sério) é o mesmo. Sim, mais quatro anos a ser regidos por um homem com caligrafia de pré-adolescente, vitória, vitória, acabou-se a história, amanhã há mais, portanto. E de repente não tenho assunto para escrever. Já viu, caro leitor? Mas nada de preocupações, é a oportunidade que precisava para finalmente expor toda a minha teoria acerca da vida amorosa dos esquentadores. Então ora bem, na sua vida solitária, escarrapachado numa parede de casa de banho, o esquentador não desdenha os restantes elementos do dito espaço, olhando com especial gulosidade para o autoclismo. A reciprocidade é evidente apesar do caso mal resolvido entre a descarga e o piaçaba. (Ah, é verdade, então a Latada começa amanhã. Com mil diabos! Isto de já andar cá há uns anos propicia o entorpecimento do calendário académico mental. Os deuses da tradição académica me perdoem, peço a vossa clemência admitindo, humildemente, o meu pecado). Parte boa disto tudo, já tenho novamente assunto. E é dos bons! Escrever sobre a Latada é mais ou menos como escrever sobre o Benfica. O povo gosta, comenta e diz que este ano é que é. Sucesso garantido. Até podia dizer que a Latada treinou à parte a contas com uma pubalgia mas está pronta para entrar em campo na Quinta à meia-

noite. Vocês iam gostar, eu sei. Além disso, caramba, a Latada tem tudo a ver com as eleições. As noites no parque o que são? Comícios autênticos: gente feliz não exactamente a abanar bandeiras mas a atirar capas ao ar (no fundo não deixa de ser uma bandeira) e no final está tudo embriagado. O cortejo é o equivalente à popular arruada e o peddy-tascas confunde-se com a ida dos candidatos - às autarquias entre os políticos, a uma cirrose entre os estudantes - às feiras. Até a tradição das famílias, dos padrinhos e das madrinhas, tudo isso foi beber à mais encantadora característica da política portuguesa: o compadrio. Assim enquanto o mariola estudante diz “caloiro meu não se põe de quatro”, na política vamos para outro nível de favores, um “o meu colega de carteira da 4º classe ganhou este concurso público”, um “oh Martins, constrói praí essa marquise que eu dou um toque ao arquitecto da Câmara”. Magnífico. Rematando, aproveitem a festa. Às vezes pode ser de lata mas ainda é melhor que não haver nenhuma da Junta de Freguesia.

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Todas as crónicas em

cabra net

COM PERSONALIDADE CRISTIANA PEREIRA

PAULINO MOTA TAVARES • 71 ANOS • HISTORIADOR

A HISTÓRIA NA CORDA BAMBA Sou licenciado em História Económica e Filosófica e em Línguas Clássicas. Passei 40 anos dentro do Banco de Portugal e esse foi o meu grande martírio, um martírio que passei toda a vida, porque eu tinha três filhos e tinha de me socorrer do emprego para os alimentar. Foi só por isso que me mantive lá tanto tempo. Eu tinha estudado, tinha uma atracção muito grande pelas letras e pela cultura. Trabalhei nos Açores e dava aulas à noite no antigo liceu. E as aulas teriam certamente sido a minha vida se pudesse ter escolhido. Costumo afirmar aos meus estudantes que em História não há dados pequenos. Qualquer dado, por pequeno que nos pareça, às vezes ajuda a transformar uma sociedade. Por isso é que esta maneira de ensinar a História, que a seguir a um rei vem outro e depois outro, está um bocadinho mal organizada. As revoluções não se fazem só com armas, mas também com ideias. A Liga dos Amigos da Taberna Antiga é uma sociedade que não existe em mais parte nenhuma do mundo porque somos todos presidentes enquanto estamos na taberna a comer. O que me seduziu neste espaço foi o facto de ser uma estrutura muito portuguesa, embora tenha sido alterada ao longo dos séculos. A imagem da taberna degradou-se porque as pessoas não tinham muitas formas de rendimento e entravam num certo desespero que levava os pais para a taberna, com um sentimento de tristeza, e era aí que afogavam as mágoas. E ficavam na casa da corda, que era uma espécie de local de repouso para os mais embriagados, porque não queriam levar uma má imagem para casa, não queriam mostrar o desespero à mulher e aos filhos. A nossa gastronomia é uma riqueza muito grande. Temos uma habilidade extraordinária que é superior a todas as outras, mas precisa de ser cuidadosamente tratada. Por vezes não temos tempo para nos dedicarmos à cozinha. Somos o país da Europa com mais variedade de sopas porque somos um povo relativamente pobre e tivemos de aproveitar todas as ervinhas. As mulheres tinham uma criatividade muito grande para a cozinha. Os portugueses têm a tendência para ser um bocadinho descuidados porque se tivéssemos a preocupação de aplicar as nossas criatividades com grande firmeza e sabedoria, seríamos um povo dos primeiros a nível europeu. Como disse Camões, Portugal era a “cabeça da Europa” e podia voltar a ser. A cultura portuguesa está na corda bamba porque os políticos vivem muito entre eles, passam a vida a discutir lugares entre si. [Os políticos] só vêm para a rua por causa dos votos. A população fica no esquecimento. E Portugal tem pessoas muito inteligentes, às vezes sem saber ler nem escrever, mas que sabem contar histórias fabulosas, sabem de cor poemas. São uma riqueza fantástica. Entrevista por Cristiana Pereira


18 | a cabra | 20 de Outubro de 2009 | Terça-feira

OPINIÃO SABER PARA AGIR PAULO MACHADO*

O tráfico de seres humanos é um crime que viola princípios fundamentais das sociedades que prezam a dignidade da pessoa humana

Muitas sociedades têm vindo a aperfeiçoar os seus recursos legais com o objectivo de ganhar eficácia no combate ao crime de tráfico de seres humanos (TSH). As preocupações nos domínios da prevenção deste fenómeno criminal e do apoio às suas vítimas têm-se materializado num conjunto de respostas públicas, acompanhadas pela iniciativa e colaboração de variadíssimas ONG’s. Portugal não é, neste domínio, excepção. A aprovação pela Assembleia da República (Resolução nº. 1/2008, de 14 de Janeiro), da Convenção do Conselho da Europa Relativa à Luta contra o TSH, ilustra que o País entende as transformações que se vêm observando nalgumas das modalidades de ilicitude mais desumana. Por hábito, o (errado) entendimento de que Portugal, pelas suas características, é muito pouco propenso a certo tipo de crimes, em particular crimes graves, por força da sua situação geograficamente periférica e das suas benevolentes tradições, inibe uma rejeição cultural e formal firme das condutas de que essa ilicitude

se alimenta. A luta contra o TSH, imperativo civilizacional, não se compadece com cálculos de probabilidade, nem a sua particular danosidade sugere quaisquer margens de erro. A alteração ao Código Penal (Lei n.º 59/2007, de 4 de Setembro), permitiu a consagração penal do tráfico de pessoas (Artº 160º do CP), referido a actividades de exploração sexual, exploração do trabalho ou extracção de órgãos. O crime compreende a oferta, a entrega, o aliciamento, a aceitação, o transporte, o alojamento ou o acolhimento de pessoas através de certos meios. Tratando-se de menores, admitese que seja cometido através de qualquer meio, havendo lugar à qualificação se forem utilizados meios graves. Além disso, são criadas novas incriminações conexionadas com o tráfico (adopção de menores mediante contrapartida, utilização de serviços ou órgãos de pessoas vítimas de TSH e à retenção, ocultação, danificação ou destruição dos respectivos documentos de identificação ou de viagem). Independentemente do fim a

que se destina e dos meios empregues, o TSH é um crime que viola princípios fundamentais das sociedades que prezam a dignidade da pessoa humana. Por outro lado, o TSH violenta muito particularmente as vítimas, e com frequência está associado a uma gama de outros ilícitos. O que parece bastante paradoxal é a sua natureza bífida – apoiado em redes que agem a uma escala transnacional e revelando-se, na fase da exploração directa das vítimas, a uma escala local. Ou seja, há uma cumplicidade local directa, alimentada pela conivência do empresário sem escrúpulos (no caso do tráfico para fins de exploração laboral), do proxeneta e (quantas vezes) do próprio “cliente” (quando se trata de pessoas traficadas para fins de exploração sexual). Essa cumplicidade não é apenas material, podendo expressar-se no sentido de um deficit moral comunitário, sempre que a existência de fundadas suspeitas sobre locais de diversão ou contextos laborais não corresponde, na prática, à exigência de um controlo social formal e

à denúncia pública dos ilícitos. O TSH, que como qualquer outro crime é o resultado de um comportamento humano a uma escala individual ou grupal, poderá ser mais bem entendido (e, logo, prevenido) se e quando forem identificados os factores sociais que nele prevalecem, e que se revelam a uma escala mais agregada. Em rigor, esse entendimento vive dos nexos que possamos estabelecer entre os indivíduos (perpetradores, cúmplices, vítimas, testemunhas) e o seu ambiente. E este procedimento não é apenas um caso de polícia. Ele deve decorrer, também, do nosso grau de empenhamento nas questões que se colocam à comunidade.

*Chefe de Equipa do Observatório do Tráfico de Seres Humanos

D.R.

Cartas ao director podem ser enviadas para

acabra@gmail.com PUBLICIDADE


20 de Outubro de 2009 | Terça-feira | a

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OPINIÃO O EFEITO REDE NA UC ISABEL GOMES*

É quase indiscutível que a experiência universitária é marcante na vida de um estudante. No entanto, quanto mais vivo este projecto da Rede UC mais acredito que ser Antigo Estudante da Universidade de Coimbra é diferente e especial. Mas o que é a Rede UC? No fundo, pretende ser um ponto de encontro entre todos os que passaram pela Universidade de Coimbra. Criada em 2006 pela Reitoria, congrega já quase 20 mil Antigos Estudantes, englobando pessoas provenientes de todas as Faculdades e gerações. Com toda esta diversidade e riqueza, as oportunidades multiplicam-se para quem estiver em Rede. Aliás, muito do que fazemos no nosso quotidiano inclui as seguintes actividades: - divulgação de eventos de formação pós graduada, como mestrados, doutoramentos, congressos, seminários, palestras, entre outros; - divulgação de dezenas de ofertas de recrutamento por mês, para as mais diversas entidades nacionais e multinacionais, em estreita colaboração com o COEL – Gabinete de Saídas Profissionais; - intermediação entre Universidade, Antigos Estudantes e entidades externas; - disponibilização de uma ‘one stop shop’ de apoio aos Antigos Estudantes, intermediando todo o tipo de questões como, por exemplo, no que diz respeito ao processo de transição pré-pós Bolonha. Assim, se no final do dia um(a) Antigo(a) Estudante marcar uma entrevista devido a uma oferta por nós divulgada, se tomou conhecimento de uma pós-graduação que no futuro vai determinar a sua especialização, ou se contribuímos para a divulgação dos conhecimentos científicos de um docente ou

ilustre da UC, ou ajudamos a esclarecer qualquer dúvida que um Antigo Estudante nos coloque – no fundo, contribuir positivamente para o seu percurso de vida – essa sim, é a importância suprema desta Rede e a nossa principal motivação. Porque o futuro da Universidade depende do futuro que proporcionamos a todos os que por ela passaram. Os descontos exclusivos para a comunidade de Antigos Estudantes são também uma das áreas de actuação da Rede UC. Dois dos mais aguardados foram implementados em 2008, que pela primeira vez prevêem condições especiais no

Quanto mais vivo este projecto da Rede UC mais acredito que ser Antigo Estudante é diferente e especial

acesso dos Antigos Estudantes às ‘Noites do Parque’ da Latada e da Queima das Fitas. Tal deveu-se em larga medida ao bom acolhimento que os Antigos Estudantes e a Rede UC têm merecido por parte da Academia e das suas mais recentes direcções. Quando vejo um estudante vestindo o traje académico, não deixo de achar interessante que tal ainda aconteça no ano de 2009, passados tantos anos de história e tradição. Independentemente de se tratar de um símbolo da praxe académica, não deixa de ser curioso que, ao falar com Antigos Estudantes dos 22 aos 90 anos, as vivências tenham tanto em comum, mesmo com o passar dos tempos e com a permanente renovação da Universidade e de tudo o que a envolve. Quem sabe se não é esse o factor comum que torna Coimbra tão diferente e especial…

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 e-mail: acabra@gmail.com

* Coordenadora da Rede de Antigos Estudantes da UC

EDITORIAL DO INCONFORMISMO À FALTA DE PREPARAÇÃO Assinalam-se hoje cinco anos de um dos dias mais negros da história da academia de Coimbra. Em 2004, o reitor Seabra Santos anunciou que iria aprovar a propina máxima (852 euros), meses depois de ter fixado o valor mínimo (463,58). Perante aquele que foi considerado um acto de traição, a 20 de Outubro, os estudantes tentaram invadir o Senado Universitário, que reunia no Pólo II, e que se preparava para aprovar o aumento da prestação. A polícia de choque foi chamada e ficou para a história um triste espectáculo, que poucos pensavam ser possível num Estado democrático. É certo que a atitude dos estu-

perior é cada vez mais uma simples promessa vazia, que apenas ornamenta a Constituição. Enquanto isso, os estudantes perdem-se em pequenas questões, sem qualquer resultado prático. A última Assembleia Magna foi disso exemplo. Com tantos problemas em cima da mesa, com tantas dificuldades que se colocam todos os dias aos estudantes, com tanto que discutir, é intolerável que o órgão máximo de debate da AAC, após se determinar a discussão da acção política, não se pronuncie, por “falta de preparação”. É preciso preparação para ver o que está mal no ensino superior? Não. Basta olhar à volta e preocu-

A gratuidade do ensino superior é cada vez mais uma simples promessa vazia

dantes foi um último recurso, como na altura assumiu o próprio presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra, Miguel Duarte. No entanto, não se pode deixar de louvar aquele que foi um acto de coragem e inconformismo, que sempre caracterizou os estudantes de Coimbra, e que é essencial não se perder. A AAC defendeu uma posição forte e inabalável, sem ceder a medos ou pressões; os seus associados bateram-se por uma causa, pondo a própria integridade física em perigo, porque sabiam que o seu direito, constitucionalmente protegido, a um ensino público gratuito e de qualidade estava em xeque. Cinco anos depois, o diálogo com o reitor foi retomado e as relações institucionais reatadas. O pagamento das propinas foi aceite e as subidas sucedem-se. Este ano atingiu-se a barreira psicológica dos mil euros e a gratuidade do ensino su-

par-se com as pessoas. Não é preciso preparação para notar que há estudantes em dificuldades, que não conseguem pagar propinas, que desistem de estudar por falta de meios. Nunca será assim que as Assembleias Magnas voltarão a ser participadas. É preciso que os estudantes sintam que elas existem para que os seus problemas sejam discutidos, com medidas concretas para a sua resolução. Enquanto servirem a alguns e não a todos, as magnas não passarão de confrontos de egos, que em nada ajudarão quem de facto precisa. Cinco anos passaram, mas os problemas mantêm-se. E os estudantes já nem podem contar sequer com aqueles que deveriam estar na linha da frente da contestação e na defesa dos seus direitos. Pelo menos enquanto não estiverem preparados. João Ribeiro

Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo ICS nº116759 Director João Ribeiro Editores-Executivos Vasco Batista, Catarina Domingos Editora-Executiva Multimédia: Maria João Fernandes Editores: Leandro Rolim (Fotografia), Diana Craveiro (Ensino Superior), Filipa Magalhães (Cultura), André Ferreira (Desporto), Maria Eduarda Eloy (Cidade), Bruno Monterroso (País & Mundo), Sara São Miguel (Ciência & Tecnologia) Secretário de Redacção Camilo Soldado Paginação Sara São Miguel, Sónia Fernandes Redacção Alice Alves, Ana Maria Coelho, Ana Rita Santos, Cláudia Teixeira, Filipa Faria, João Miranda, Miguel Custódio, Pedro Nunes, Rafaela Carvalho, Rui Miguel Pereira, Sónia Fernandes, Tiago Carvalho Fotografia Cristiana Pereira, Luís Gomes, Rafaela Carvalho, Sérgio Santos Ilustração Lídia Dinis, Tatiana Simões Colaboraram nesta edição Artur Romeu, Bruno Araújo, Carla Maia, Cristiana Pereira, Daniela Queirós, Inês Silva, Jonathan Costa, Maria Lastres, Pedro Leitão, Sara Coimbra, Sara Lopes Colaboradores permanentes André Costa, Camilo Soldado, Emanuel Botelho, Fernando Oliveira, João Gaspar, José Santiago, Mário Santos, Sofia Piçarra, Rui Craveirinha, Rui Miguel Pereira, Tânia Cardoso Publicidade Sónia Fernandes - 239821554; 914926850 Impressão FIG - Fotocomposição e Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra


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Concepção e Produção: Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra

TIRA MISSO :: Por André Costa

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Fundação Cultural da UC

A fundação, que gere o Estádio Universitário de Coimbra, demorou a dar uma resposta à necessidade de intervenção no piso do pavilhão 1. Os buracos junto às balizas e a madeira estragada levaram a que a Associação de Patinagem de Coimbra impedisse a realização de qualquer jogo no local. A novela que se arrastou algumas semanas e que obrigou as equipas da secção de patinagem a andar de “casa às costas” parece ter chegado ao fim, com a conclusão dos arranjos, que duraram pouco mais de uma semana. Resta saber se esses arranjos foram feitos para durar. C.D.

Assembleia Magna

Com uma duração “relâmpago”, a Assembleia Magna da passada quarta-feira estava destinada a discutir os Estatutos da AAC. Ao pedido de debate da actual situação política por Jorge Serrote, poucos foram os estudantes dispostos a falar e apresentar ideias. A passagem ao ponto de discussão dos estatutos também não foi feliz. Depois de aprovada a deliberação de um novo processo de revisão extraordinário, o debate encalhou nas datas do processo eleitoral para a Assembleia de Revisão dos Estatutos. No final, sem grande entendimento, toda a discussão fica adiada para 4 de Novembro, data da nova assembleia. C.D.

Notas sobre arte...

Ayatollah Khamenei

O clima de insegurança que se vive no Irão levou outra volta para pior. Os guardas da revolução, alvo do atentado do passado domingo, não perderam tempo em acusar os Estados Unidos e o Reino Unido de terem orquestrado o ataque bombista com o grupo sunita rebelde Jundollah. Com um número de mortos que superou as duas dezenas, foi considerado o pior atentado contra os apoiantes mais fiéis de Khamenei. No entanto, é lamentável que os sobreviventes se sirvam da tragédia, poucas horas depois de ter acontecido, e a transformem num golpe de propaganda para o ayatollah. M.E.E. PUBLICIDADE

WORLD DOWNFALL • DAMIEN DEROUBAIX AQUARELA, ACRÍLICO, TINTA E COLAGEM • 2007

A visão primeira que se tem desta tela de grandes dimensões, desta grande dinâmica visual que se nos apresenta, é a de um gigante e imparável apocalipse, dando ao apreciador da obra a sensação de impotência perante o desfazer do Mundo. Após uma primeira visão deste apocalipse – que choca, paralisa e, simultaneamente, maravilha – vamos distinguindo os pormenores que nos levam a mergulhar mais fundo na escuridão desta tela – uma escuridão não só cromática, mas também temática. Vários esqueletos: um de cão, esqueletos humanos que falam: “yeah”, “money” – decerto falas da modernidade. Não estará esta estranha e efémera modernidade a condenar à morte toda a Natureza? Estará o dinheiro a monopolizar os interesses da Humanidade e, consequentemente, a destruí-la? Uma vaca morta, em grande plano. Um animal – mas nou-

tras culturas que não a Ocidental, um símbolo do sagrado. À direita, uma representação do campo de concentração de Auschiwtz – um dos locais em que, na História, o Ser Humano perdeu mais da sua dignidade, ao chacinar a sua própria espécie. Estaremos nós, Humanidade, a perder o que de mais sagrado temos – os nossos valores? No entanto, no meio de todo este vaticínio apocalíptico, uma pequena lâmpada surge, rodeada de uma aura branca. Ainda que pequena, a sua luz contrasta com a escuridão envolvente... Numa “ironia macabra” acerca do poder – político, ideológico ou económico – e do mundo dos nossos dias, Damien Deroubaix mergulha nas cores da “World Downfall”, tornando, numa admirável proeza, esta “ironia macabra” num delicioso objecto da arte moderna. Por Inês Silva

Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA - 203  

edição 203 do Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA

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