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PANDEMIAS

AAC em preparação

A globalização pôs o vírus nas bocas do mundo

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EUROPEUS 2 de Junho de 2009 Ano XVIII N.º 199 Quinzenal gratuito

Director: João Miranda Editor-executivo: Pedro Crisóstomo

À CONVERSA João Brites e António Augusto Barros P8e9

a cabra Jornal Universitário de Coimbra

Análise

A agenda política do ensino superior

Académicas ponderam manifestação nacional para Outubro O Encontro Nacional de Direcções Associativas do último fim-desemana aprovou uma campanha de informação nacional junto dos estudantes para preparar uma iniciativa conjunta. O objectivo é, segundo o proponente, estudante do Técnico de Lisboa, culminar numa manifestação na capital, no início do próximo ano lectivo.

Jorge Serrote corrobora e adianta que a AAC, mesmo sem o apoio das outras academias, poderá sair para a rua. O encontro ficou ainda marcado pela eleição do presidente da DG/AAC como representante dos estudantes do ensino superior para o Conselho Nacional de Educação.

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A cinco dias das europeias, A CABRA foi ouvir as propostas dos 13 partidos candidatos ao Parlamento Europeu, sobre ensino superior. Em análise, o papel das directivas comunitárias e o comentário dos membros do grupo de trabalho na Assembleia da República quanto ao afastamento do tema dos plenários parlamentares.

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Órgãos de gestão

Faculdades elegem representantes Direito da UC é a primeira faculdade a eleger a sua assembleia, já de acordo com os novos estatutos, hoje, 2. Outras faculdades vão a votos nos próximos dias. Alunos e professores divergem relativamente às alterações do modelo. As assembleias passam a contar com um director e o número de alunos representados diminui.

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SMTUC

Dois anos de protesto

Foi em 2007 que os SMTUC utilizaram os próprios autocarros para denunciar a falta de financiamento do governo, em detrimento das empresas de Lisboa e do Porto. Pelo meio, surgiu um processo movido pela ANTROP denunciando a ilegalidade de compensações financeiras às mesmas empresas. Fazemos a análise do que (não) mudou nestes dois anos e das consequências para os utentes.

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PRÓXIMA EDIÇÃO A CABRA

FOTOMONTAGEM POR JOÃO MIRANDA

18 ANOS 200 EDIÇÕES


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DESTAQUE

O QUE QUE

PARA O

ENSIN A dias das eleições europeias e no ano em se coligações candidatos ao Parlamento Europe sino superior, como o Regime Jurídico das I Acção Social Escolar. Em quinze dias, e após PP, MPT e POUS responderam ao apelo. As festos oficiais. Pela ordem como surgem no português. Por Vasco Batista, João Mirand

BE No seu programa eleitoral para o ano de 2009, o Bloco de Esquerda (BE) defende que “a qualificac ¸a ˜o do ensino superior depende fundamentalmente da rejeic ¸a ˜o das regras de Bolonha” e propõe “a gratuitidade da frequência do ensino superior e financiamento adequado ao funcionamento das universidades”. O partido sustenta ainda “o fim dos empréstimos bancários e financiamento de um sistema de acção social que através de bolsas de estudo, residências e outros mecanismos”. “A criação de uma rede de residências universitárias” é também uma proposta do Bloco de Esquerda.

CDU A Coligação Democrática Unitária (CDU) caracteriza a situação do ensino superior como “contrária aos interesses dos estudantes e do país”. A coligação afirma que a gestão democrática das instituições tem sido “mutilada com as medidas antidemocráticas aplicadas, em particular a Lei de Financiamento e o Processo de Bolonha, que promovem o afastamento dos estudantes”. De acordo com a CDU, “o RJIES integra a estratégia neoliberal da União Europeia, abrindo portas à privatização, elitização e mercantilização do conhecimento”.

CDS-PP O Centro Democrático Social - Partido Popular (CDS-PP) aponta que “os cortes orçamentais são um forte ataque às instituições de ensino superior e à sua autonomia”. O partido de Paulo Portas defende ainda que “o RJIES veio criar ainda mais fragilidades às instituições, pois não trouxe a autonomia pretendida”. “O facto de não dotar as instituições com o financiamento adequado põem em causa qualquer política de desenvolvimento das instituições”, acrescenta. O CDS sustenta ainda uma diferenciação no financiamento, “no entanto não é com esta divisão entre fundações e universidades que tal será profícuo”.

PSD No programa eleitoral, Democrata (PSD) aposta “sinergias entre as univers litécnicos e a sua articulaç ções empresariais”. Preten um sistema alternativo de propinas, “através de estru ciamento directo com gara aos alunos que ingressem perior.” Com a medida, a c manência no superior só aquando da entrada no m balho, “com períodos de a função do nível de rendim lhores alunos ficariam ise nas.

PNR O Partido Nacional Ren defende, no seu progra ensino superior portugu lonha e a extinção de lice empregabilidade. Por ou tido propõe “substituir quotas para imigrantes, duais para estes, depois d nos portugueses terem si Ainda em matéria de ens partido sugere a avaliaçã aplicação de sanções, c exercício das suas funçõe fende que as universida obrigadas “a hastear a b nal na sua entrada princ


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DESTAQUE

EREM OS PARTIDOS O

NO SUPERIOR? e vota para a Assembleia da República, A CABRA lançou o desafio aos 13 partidos e eu, para exporem as suas posições relativamente a uma série de medidas para o enInstituições do Ensino Superior (RJIES), o Processo de Bolonha, o financiamento e terem sido todos contactados por diversas vezes, apenas o MPE, MRPP, CDU, CDSposições dos outros partidos, fomos descobri-las nos programas eleitorais e manio boletim de voto, discorrem as perspectivas dos partidos sobre o ensino superior da e Cláudia Teixeira

o Partido Social a na criação de sidades e os poção com associande a criação de e pagamento de uturas de finanantia do Estado, m no ensino sucobrança da perseria executada mercado de traamortização em mento” e os meentos de propi-

novador (PNR) ama político, o uês fora de Boenciaturas sem utro lado, o parr o sistema de por vagas reside todos os aluido colocados”. sino superior, o ão de docentes e caso falhem no es. Por fim, deades devem ser bandeira naciocipal”.

MPT

PPM

MEP

PS

No programa político, o Movimento Partido da Terra (MPT) defende a “participação dos alunos nos órgãos de gestão” e considera fundamental a “adaptação da oferta educativa às realidades profissionais do país”. O movimento propõe a regulamentação do ensino superior privado de modo a “assegurar a sua qualidade”. Para o partido, a criação de cursos deve ter “o parecer da associação profissional da profissão e estar de acordo com a taxa de desemprego”. O MPT sustenta ainda a valorização da “oportunidade gerada pelo Processo de Bolonha de se discutir o ensino superior num espaço educativo europeu”.

O Partido Popular Monárquico (PPM), nas considerações finais do seu manifesto, reconhece que determinadas áreas, como o ensino superior, não foram abordadas com “o pormenor que o interesse das mesmas exigia”. Ainda assim, salienta que o “sistema educativo está caótico”, absorvendo quantias avultadas “do orçamento estatal sem que se registe qualquer melhoria” e que “Portugal apresenta os piores índices da UE”. Defende, neste sentido, que se deve “reformar o sistema a sério”. De modo a reforçar as ligações com o mundo ibero-muçulmano, propõe a dinamização do “ensino da língua, história e cultura árabe” nas universidades.

O Movimento Esperança Portugal (MEP) entende que deve caber “ao Estado suprir as condicionantes de natureza económica, quer através da Acção Social Escolar, quer através de soluções inovadoras (mecenato social, apoio ao mérito, entre outras) ”. O MEP considera ainda que “devem ser incentivados os programas de mobilidade internacional, nomeadamente no espaço europeu e no espaço da lusofonia”. Por fim, o partido sublinha “a necessidade de maior transparência na relação com o Estado (financiamento, condições de funcionamento), com os estudantes, com os futuros estudantes, famílias e empregadores”.

O Partido Socialista (PS), no seu manifesto eleitoral para as eleições europeias, propõe a criação de uma “carta europeia para os estágios, para que os jovens que procuram emprego vejam os seus direitos garantidos”. Para além disso, o partido de José Sócrates preconiza a “utilização das oportunidades criadas pela adopção generalizada do sistema europeu de créditos obtidos na formação profissional e no sistema escolar”, permitindo um acréscimo da mobilidade no espaço da União Europeia. Neste sentido, pretende levar a cabo “políticas que favoreçam a mobilidade intra-europeia”.

MMS

PCTP/MRPP

POUS

PH

No manifesto do Movimento Mérito e Sociedade (MMS), o partido defende que deve ser desenvolvida uma política para o ensino superior com o “objectivo de assegurar que os portugueses obtenham níveis de conhecimento histórico, linguístico, técnico, profissional e comportamental dos mais elevados do mundo”. O movimento acredita que “só uma sociedade com elevados padrões nesse domínio pode aspirar ao desenvolvimento e à qualidade de vida”. A grande proposta do movimento para o ensino superior é a de que “universidades com especialidades médicas [devem] ser integradas em unidades hospitalares”.

“A maior parte das mudanças que estão actualmente em curso nas universidades portuguesas são induzidas pelo chamado ‘Processo de Bolonha’, cuja essência consiste na transformação das universidades em empresas funcionando segundo a mesma lógica mercantil que vigora nos demais sectores produtivos”, advoga o Movimento Reorganizativo do Proletariado Português. “O PCTP/MRPP opõe-se frontalmente a esta política e defende a abolição das propinas, um aumento substancial do financiamento público às universidades e aos alunos carenciados e um apoio decidido à investigação científica e aplicada”, defende.

“Estudar para se apropriar do conhecimento, e investigar para construir mais conhecimento, para o aplicar no tecido económico e social, inovando, para se realizar como ser livre” devem ser, para o Partido Operário da Unidade Socialista (POUS), os objectivos do ensino superior que “o Estado tem o dever de garantir a todos os estudantes, de acordo com a vocação de cada um”. “ Mas estes objectivos são abafados e estrangulados por um sistema económico-social assente na propriedade privada dos meios de produção, um sistema onde a mola determinante é a realização do lucro”, acrescenta o partido.

Na proposta eleitoral, o Partido Humanista (PH) entende que “as decisões na educação devem ter a participação e o consenso de todos os intervenientes educativos e culturais”. Aspira a uma “prática educativa diferente da actual”, em que “os gastos públicos na educação aumentem progressivamente”, com vista ao “ensino efectivamente gratuito”. Defende que o sistema de ensino deve “ser integrado num processo coeso desde o nível pré-escolar até ao superior”, bem como a “eliminação de políticas de restrição no acesso e na frequência do ensino superior”, como sejam propinas e limitação de vagas.

ILUSTRAÇÃO POR TATIANA SIMÕES


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DESTAQUE

NUNO RILO • COORDENADOR DO SINDICATO DOS PROFESSORES DA REGIÃO CENTRO PARA O SUPERIOR

“A UE encara o ensino como uma mercadoria transaccionável” A dias das eleições para o Parlamento Europeu, o dirigente da FENPROF aborda a importância do superior no discurso político nacional e questiona o papel das directivas europeias João Miranda Cláudia Teixeira

agenda, é um sector chave da formação e a formação é determinante no desempenho. A questão é que Mariano Gago tem escolhido muito bem o seu aparecimento. O facto de a discussão do superior na Assembleia da República não passar para a comunicação social significa que ela não existe? Há essa discussão e há diversas iniciativas dos diferentes partidos. Uma coisa é a versão mediática: enquanto

a Maria de Lurdes, na Educação, faz coisas que levam 100 mil para a rua, o Gago leva 25 mil e, portanto, não é mediático. Por exemplo, o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) foi aprovado e foi de uma discussão significativa na comunidade académica, embora o Partido Socialista tenha aprovado aquilo nas férias para entrar em vigor no início do ano lectivo. Não tem a visão mediática, mas há discussão e por isso é que Mariano Gago é hábil na gestão das suas malfeitoras que não são visíveis. Há pouco referia que o RJIES foi aprovado nas férias. Muitas associações de estudantes apontam precisamente essa questão. Isto é uma táctica? É uma táctica típica de Mariano Gago. Agora para a revisão da carreira dos docentes, por exemplo, está a utilizar essa mesma táctica.

As últimas grandes questões levantadas para o ensino superior bateram-se com a discussão do Orçamento de Estado e com o Estatuto da Carreira Docente. O ensino superior está fora da agenda política nacional? Não. A questão prende-se com a forma como [os temas] têm sido tratados em toda esta legislatura. Não está fora d a

As discussões do ensino superior foram transferidas para as instâncias europeias? Há algumas tentativas. É óbvio que a União Europeia (UE), parecendo que não tem nada a ver com isto, tem. A UE procurou ter directivas de liberalizar o en-

sino superior e caminha nesse sentido. A UE encara o ensino com uma mercadoria transaccionável. Caminha nesse sentido. O RJIES, por exemplo, surgiu de um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) no sentido da liberalização. A própria UNESCO tem posições sobre estes pontos no sentido da liberalização em conjunto com a OCDE e a Organização Mundial do Comércio. Essa lógica de serem as directivas europeias e a própria UNESCO a definirem o panorama do ensino superior português e as suas políticas vem pôr em causa as necessidades reais do sistema português e das suas especificidades? Se acompanharmos os relatórios da OCDE, que saem todos os anos, os resumos que publica, as conferências, constatamos as convergências dessas orientações. Agora, os países não têm que as obedecer e podem executá-las de forma muito diferente. Ainda que haja esse sentido de orientação, não quer dizer que os países não sejam independentes e, pelo menos, resistam. Agora, há alguns que não é esse o caso… Portugal resiste? Não. Portugal entra na onda. O RJIES é o caso mais claro disso. A onda foi a de manter um controle americanizado. Este sistema de fundação é uma cópia do sistema americano.

PEDRO CRISÓSTOMO

Considera que existem países da UE que conseguiram manter a discussão sobre o ensino superior à margem da própria Europa? E que sejam casos de sucesso? Entendo que assim o deve ser. E entendo que os países que o pensam à margem desse tipo de orientações supranacionais têm mais sucesso. Os processos eleitorais que se avizinham figuram-se como uma oportunidade para discutir o ensino superior? Sim, os processos eleitorais são sempre uma discussão. E as legislativas vão trazer ainda mais discussão, porque, como a questão europeia é muito mais generalizante e muito mais complexa do ponto de vista da visibilidade, é natural que isso ressalte para a discussão política. Sente que o ensino superior está mais presente, na campanha para as europeias, relativamente a outros temas? O ensino superior tem passado por esta campanha. Provavelmente ainda passará mais e é natural que assim seja. Se devia ter mais ou se devia ter menos, é uma posição circunstancial. Estas coisas, muitas vezes, têm picos. São importantes e depois não são debatidas. Esta história dos estatutos está a ser gerida pelo calendário eleitoral. Passados os processos eleitorais, esta discussão do ensino superior vai ter resultados concretos ou será esquecida? É inevitável [que se discuta]. O ensino superior é o sector que qualifica a população. E, portanto, ele está sempre presente. Uma das nossas necessidades maiores é melhorar a qualificação.

Ensino superior fora da agenda política nacional Dirigente do SNESup defende que a última discussão concreta se limitou ao Processo de Bolonha e aponta culpas ao governo Vasco Batista João Miranda Cláudia Teixeira O presidente da direcção do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SENSup), Gonçalo Xufre Silva, é peremptório: em termos legislativos, a última grande discussão sobre o ensino superior prendeu-se com a implementação do Processo de Bolonha. “A partir daí o que se tem discutido não é essencialmente o ensino superior, mas sim ciência”, diz. A desvalorização do ensino superior do discurso político nacional é uma evidência para o dirigente sindical, que aponta as culpas ao governo

e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. “Não houve uma aposta e, como tal, não houve um debate ou um trabalho feito por parte do poder político”, lamenta Xufre Silva. Também o membro do Grupo de Trabalho do Ensino Superior da Assembleia da República (AR) e deputado do PCP, Miguel Tiago Rosado, responsabiliza os sucessivos executivos pela diminuição da presença do ensino superior na agenda política. “O discurso político dominante desliga o ensino superior da política nacional e faz parecer que o que existe é um conjunto de reitores casmurros ou então exclui completamente o en-

sino superior”. Para o membro do mesmo grupo de trabalho e deputada independente, Luísa Mesquita, não é verdade que o ensino superior não tem sido “objecto de discussão”. “Não por proposta do PS, nem do governo, mas

vieram propostas de muitos outros deputados, que integram quer a comissão de educação, quer a AR”, acrescenta. No entender do dirigente do SNESup, também a discussão que é tida no Parlamento Europeu não perpassa para a opinião pública. As questões do ensino superior limitam-se a “debates menos públicos e muito mais remetidos para comissões”, explica Xufre Silva. A campanha eleitoral que está a decorrer apresenta-se como uma oportunidade de discutir o ensino superior e o papel que a Europa desempenha. “A União Europeia, com o RJIES muito semelhante ao que já se

fez nos Estados Unidos, põe o ensino superior às orientações do mercado. E o Processo de Bolonha aumentou os custos e diminuiu a qualificação para o trabalho”, argumenta Miguel Rosado, que apresenta ainda uma aspiração: “esperemos que no próximo Parlamento Europeu se defenda uma política de apoio às opções dos Estados-membros e o reforço do ensino superior em cada um dos países”. Até ao fecho desta edição, A CABRA tentou contactar a deputada do PS, Odete João, o deputado do PSD, Pedro Duarte, e a deputada do BE, Ana Drago, membros do Grupo de Trabalho do Ensino Superior da AR, contudo, sem sucesso.


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ENSINO SUPERIOR DISCUTIDO EM ENDA

Manifestação nacional para Outubro Iniciativa conjunta entre academias vai ser decidida em Setembro. Revisão do sistema de atribuição de bolsas foi aprovada no encontro de Coimbra PEDRO CRISÓSTOMO

Cláudia Teixeira Agendar para Outubro uma manifestação nacional, em Lisboa, foi uma das moções que saiu com cartão verde do último Encontro Nacional de Direcções Associativas (ENDA), que a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra recebeu no último fim-de-semana – entre 29 e 31 de Maio. Das sete moções apresentadas ao longo dos três dias de plenário, cinco foram aprovadas, das quais esta proposta, apresentada pela Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST), foi a que mais polémica gerou. De acordo com o presidente da AEIST, Jean Barroca, “o que se pretende fazer é uma manifestação nacional dos estudantes do ensino superior e isso vai ser encetado em sede de ENDA, em Setembro”. O dirigente associativo explica que “não houve para já a intenção de vincular as associações de estudantes a uma manifestação porque estas têm de marcar reuniões gerais com os estudantes que representam e daí advirá a acção conjunta com todos os estudantes do superior”. “Mas é óbvio que, pretendendo mostrar à sociedade civil a indignação dos estudantes, o mote terá de ser sempre uma manifestação nacional”, remata. A moção da AEIST prevê igualmente uma campanha de informação e sensibilização a nível nacional, que retrate os actuais problemas do ensino superior. Jean Barroca afirma que “não há datas previstas para a campanha nacional de informação, pois cabe a cada instituição determinar quais os seus grandes problemas e a que temas é que vai dar mais ênfase, mas tenho a certeza que o movimento associativo vai rapidamente fazer essa campanha porque é importante aproveitar a época de exames para sensibilizar os estudantes, para que em Outubro participem na manifestação”.

Moção da AAC reprovada De acordo com uma deliberação de Assembleia Magna, foi apresentada uma proposta, por parte da DG/AAC, de realização de uma manifestação nacional, em Lisboa, até ao final deste mês. A moção foi chumbada por larga maioria, tendo tido apenas dois votos a favor – da AAC e da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (AEFCSH-UNL). O presidente da DG/AAC, Jorge Serrote, assegura que “foram feitos todos os esforços para que a moção fosse aprovada: promovemos reu-

JORGE SERROTE pondera ir para a rua no início do próximo ano lectivo, mesmo sem apoio das académicas

niões e algumas conversas prévias com as diferentes associações sobre esta matéria, para além de, obviamente, sensibilizarmos no ENDA”. Serrote refere que “o facto de se ter explanado os motivos pelos quais se apresentou a moção da manifestação nacional, ou seja, a explanação de tudo aquilo que se está a passar no ensino superior, promoveu a reflexão por parte de muitas das associações presentes no ENDA, que se calhar não estavam tão sensibilizadas para a matéria”. Apesar de ter defendido a deliberação da magna, no entender de Jorge Serrote, “a melhor data de realização para uma manifestação nacional é o início do ano lectivo”. “Este tipo de acção de luta não se realiza desde 2004 e isso é algo que devemos analisar: passaram cinco anos desde então, e o facto de, volvidos esses cinco anos, haver uma manifestação é porque há motivos. E se há motivos em Junho, certamente também haverá em Outubro”, menciona. Jorge Serrote e Jean Barroca acreditam que a moção que prevê a iniciativa conjunta a nível nacional venha a ser aprovada, porque, de acordo com o proponente, “as associações mostraram, neste ENDA, abertura para fazer uma manifestação”. Jean Barroca defende que “a manifestação em Junho não [faria] sentido porque mobilizar na época de exames é muito difícil e não podemos correr

o risco de ter uma fraca mobilização”. Na hipótese de a iniciativa conjunta ser chumbada no próximo ENDA – que se vai realizar no mês de Setembro, em Setúbal –, Serrote não afasta a possibilidade de uma acção de luta: “não acredito que a moção seja chumbada, mas se, hipoteticamente, isso acontecer, a AAC está a ponderar ir para a rua de qualquer das maneiras”.

Regulamento de bolsas para revisão No que diz respeito à Acção Social Escolar, foi aprovada uma moção, subscrita pela AAC, pela AEIST, pela Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv) e pela Associação Académica da Universidade do Minho, que vem propor a revisão do actual sistema de atribuição de bolsas. A moção prevê também a introdução do estatuto estudante-trabalhador para que os alunos “possam realizar actividades remuneradas dentro das instituições de ensino superior”, salvaguardando que “este mecanismo não pode nunca ser visto como um substituto da acção social”. Questionado acerca da possibilidade da proposta ser vista como uma desvirtuação da defesa pelo ensino superior público, Jorge Serrote afirma não concordar e justifica: “o trabalho nas instituições não pode ser visto como substituição da Acção Social Escolar, porque é o Estado que deve garantir

esse financiamento. Isto é visto como uma forma de os estudantes poderem garantir uma maior autonomização, caso o entendam”. Uma proposta da Federação Académica do Porto (FAP) e da AAUAv sobre acção social foi também aprovada. Além da possibilidade de os estudantes trabalharem nas instituições de ensino superior que frequentam, a moção aponta a exigência do pagamento das bolsas de estudo a tempo, a desburocratização do actual sistema de requerimentos a bolsas de estudo e a implementação de um sistema de análise aos requerimentos das bolsas de estudo atendendo a factos modificativos. A proposta da FAP e da AAUAv defende, ao mesmo tempo, a criação de um grupo de trabalho que apresente propostas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior acerca da inclusão no sistema de atribuição de bolsas de estudo dos alunos provenientes de países terceiros, cujo agregado familiar se encontre no país de origem e exige um compromisso do governo para com a Acção Social Escolar. Segundo o presidente da FAP, Filipe Almeida, esta última exigência “é uma crítica ao actual governo e ao anterior e um recado para o próximo executivo ter em conta”. Ontem, 1, decorreu um encontro extraordinário, no Auditório da Universidade de Coimbra, para rever o regimento do ENDA. O plenário foi solicitado pela Associação

Académica de Coimbra porque, de acordo com Jorge Serrote, “a periodicidade é algo que deverá ser alterado, já que o facto de ser realizado apenas duas vezes por ano não promove a necessária discussão e reflexão do movimento associativo”.

SERROTE ELEITO PARA O CNE As associações de estudantes e associações académicas presentes no ENDA elegeram Jorge Serrote como representante dos estudantes do superior no Conselho Nacional de Educação (CNE), para um mandato de quatro anos. Com 26 votos a favor, das 28 estruturas de estudantes que votaram, Serrote toma o lugar do estudante da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra, João Pita. Serrote pretende “promover o diálogo constante com todas as associações de estudantes do superior” e refere a Acção Social Escolar e o financiamento das instituições de ensino superior como questões prementes a serem discutidas. O CNE é um órgão consultivo independente em matéria de política educativa, composto por 68 membros e funciona em plenário e em comissões especializadas permanentes ou individuais.


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ENSINO SUPERIOR ÓRGÃOS DE GESTÃO COM NOVO MODELO

Faculdades da UC vão a votos JOÃO MIRANDA

ELEIÇÕES PARA AS ASSEMBLEIAS DE FACULDADE FDUC 2 de Junho FCDEFUC 4 de Junho FLUC 5 de Junho FPCEUC 9 de Junho FEUC 29 de Junho FFUC e FMUC Sem data marcada. Estatutos já foram publicados em Diário da República FCTUC Estatutos ainda não foram publicados em Diário da República. Eleições deverão ser em Setembro ESTUDANTES, docentes e funcionários elegem os seus representantes nas faculdades

Alterações ao sistema de funcionamento dividem universidade. Cargo de director e representação de estudantes são alvo de críticas Diana Craveiro O processo eleitoral para o novo modelo de órgãos de gestão das faculdades da Universidade de Coimbra (UC) arranca hoje, 2, em Direito. Neste novo sistema, a figura do presidente do conselho directivo é substituída pela de um director. Também a assembleia de representantes passa a denominarse assembleia de faculdade, com uma distribuição de assentos completamente diferente. Assim, o novo órgão passa a ser constituído por 11 docentes ou investigadores, três estudantes – um dos quais doutorando – e um trabalhador não docente e não investigador. Estas modificações decorrem da implementação do novo Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) e da alteração aos Estatutos da Universidade de Coimbra (UC). A assembleia de faculdade tem como funções a eleição do director e a sua destituição, mas também

lhe cabe a apreciação do orçamento da unidade de ensino. O director reúne poderes de aprovação de calendários de exames e preside simultaneamente ao conselho científico e ao pedagógico, para além de elaborar o orçamento e o plano de actividades da faculdade. A figura do novo representante das faculdades é um ponto que não reúne consenso entre vários professores da universidade. Para o presidente do conselho directivo da Faculdade de Economia da UC (FEUC), José Fonseca, o director representa “eficácia e transparência no processo de decisão”. O presidente do conselho directivo da Faculdade de Letras da UC (FLUC), Carlos André, partilha da opinião, embora pense que pode haver “uma forte concentração de poder”. Já o presidente do conselho directivo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC), João Gabriel Silva, aponta como aspectos positivos da figura de director o fim da “neutralização de poderes” que havia com o presidente do directivo e do conselho científico. “Em tempos de grandes mudanças como aqueles em que estamos, temos que ter capacidade de decisão”. Opinião diferente tem o professor da Faculdade de Farmácia da UC (FFUC), António Paranhos, que participou na Assembleia Estatutá-

ria da faculdade. O docente afirma que sempre defendeu “uma situação diferente”, já que o director “fica com muito poder”. Contudo, aponta aspectos positivos como “a vantagem de haver apenas uma pessoa responsável pela faculdade”. Este ponto é também realçado pela presidente do conselho científico da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC (FPCEUC), Ana Relvas, porque até

Novo sistema reduz para três o número de estudantes na assembleia aqui, diz, “perdia-se imenso tempo na circulação de informação”, algo que deve mudar “com uma pessoa que possa coordenar toda a gestão”, acredita.

A voz dos estudantes Segundo os novos estatutos, a assembleia de faculdade vai ter três estudantes, enquanto que a assembleia de representantes tinha um número paritário de professores e alunos. Para João Gabriel Silva, este é um número que pode ainda ter um grande peso, porque, argumenta o docente, os estudantes eleitos passam agora a ter uma pa-

lavra na escolha do director, algo que não acontecia na nomeação do presidente do conselho directivo. António Paranhos defende que esse número não deve ser maior, porque “os estudantes têm que estar conscientes que são elementos de passagem”, logo, “não pode haver uma situação em que tenham um peso igual ao dos docentes, porque estes têm outras responsabilidades a nível de gestão da instituição”. “O aluno é transitório, os professores têm de projectar o futuro da faculdade”, explica, acrescentando que não está a “tirar o valor e o papel” que os estudantes têm. Esta visão não é partilhada por Filipe Madeira, um dos estudantes do conselho directivo da FCTUC, porque “não faz sentido”, já que os estudantes são “os mais afectados com as alterações” que forem feitas pela assembleia. Madeira defende ainda que “é preferível o modelo anterior”. Também o aluno da Faculdade de Medicina da UC (FMUC) e membro do directivo, Luís Machado, discorda com Paranhos. “A realidade da universidade é composta por professores, estudantes e funcionários”, critica. “Os estudantes têm que ter peso”. Já o presidente do directivo da FLUC diz que o problema “não está no número”. “Se a assembleia fosse um pouco maior” podia haver mais estudantes, “mas a proporção,

atendendo ao facto de ser esta que elege o director, talvez não esteja errada”, afirma Carlos André.

Externos são opção À semelhança do Conselho Geral da UC, também a assembleia de faculdade pode incluir até duas figuras externas, sendo esse número deduzido aos 11 professores. Uma das faculdades que tomou esta escolha foi a FFUC, que vai ter um elemento externo. Já a FDUC optou por ter duas figuras exteriores à universidade, “por uma questão de se considerar útil haver uma voz externa”, que “dá outra visão à assembleia”, explica o presidente do conselho directivo, José de Faria Costa. A FPCEUC também vai ter dois elementos externos, porque, esclarece Ana Relvas, “uma visão externa pode dar um contributo; as pessoas estão menos ‘contaminadas’ pelos problemas do dia-a-dia”. Pelo contrário, a FLUC não vai ter pessoas de fora da universidade, tal como a FCTUC. No entender de João Gabriel Silva, “as funções da assembleia são muito limitadas e introduzir uma pessoa externa era trazê-la ao engano”. A CABRA contactou os presidentes dos conselhos directivos da FMUC, Francisco Castro e Sousa, e da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FCDEF), Pedro Ferreira, mas não obteve resposta até ao fecho da edição.


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CULTURA

DANÇA CLÁSSICA EM COIMBRA

cultura por

À procura de um lugar Entre saias de tule e sapatilhas de pontas,a dança clássica continua a encontrar dificuldade em se afirmar na cidade. Dentro da AAC, o cenário é ainda mais vazio JOÃO MIRANDA

A cidade de Coimbra esteve na vanguarda de diversos movimentos culturais ao longo de vários séculos. Contudo, a dança clássica nunca ocupou o topo das suas prioridades. Para a professora de ballet da Associação Cristã da Mocidade, Helena Jardim, “as iniciativas são insuficientes e faltam oportunidades aos professores para coreografar, aos alunos para dançar e ao público de Coimbra para perceber o que é a dança”. Ainda assim, a professora reconhece o esforço das entidades culturais de Coimbra. As falhas continuam a ser justificadas com a falta de financiamento e com a deficiência e a incapacidade dos espaços físicos da cidade para receber determinados espectáculos. Contudo, quem está atento à realidade cultural da cidade garante que “o Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) continua a ser o sítio, por excelência, para a apresentação de grandes espectáculos interpretados por companhias nacionais e internacionais”. A opinião é do delegado regional da Cultura do Centro, António Pedro Pita, que apesar de tudo confirma que, em Coimbra, a nível amador, não existe para já nenhuma iniciativa. O cenário muda ligeiramente quando se trata de dança profissional, pois as habituais políticas de apoio, como os subsídios do Ministério da Cultura através da Direcção-Geral das Artes, são um dos pilares da sobrevivência de vários projectos. Já a professora de dança do Centro Norton de Matos, Maria Carlos, não deixa esquecer que falta outro local

Dentro da Academia

ESCOLAS de dança não têm em vista a profissionalização

para a realização de eventos que requerem uma dimensão mais alargada. “O TAGV tem algumas limitações, tanto na dimensão do palco quanto na da sala, que condicionam a vinda de realizações mais ambiciosas”, garante. Apesar da falta de espaços próprios, os profissionais da área acreditam que existe público interessado nos espectáculos, porque “a dança é

uma arte acessível e compreensível ao público em geral”, acrescenta Maria Carlos, que tem verificado uma crescente adesão aos eventos. Saindo dos espaços, e passando para os meios, a situação não é de todo desanimadora. Apesar da crise económica, as escolas de dança mantêm o número de alunos. A média de idades de quem frequenta situa-se entre os três e os dez anos, até porque

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ANTÓNIO OSÓRIO, nessas idades a adesão às aulas “parte mais da vontade dos pais em cultiválos e a dar-lhes uma assistência física e intelectual do que o interesse da própria criança”, explica Helena Jardim. Contudo, a partir dos 15 anos, a assiduidade tende a diminuir e só continua quem realmente se apaixona pela actividade.

Cristiana Pereira Ana Rita Santos

Na Associação Académica de Coimbra (AAC), um dos poucos espaços dedicado à dança é o Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC). O organismo existe desde 1966 e desde aí tem vindo a desenvolver um trabalho exaustivo de recolha, tratamento e divulgação de manifestações tradicionais. O folclore estende-se também ao grupo Orquestra Típica e Rancho da Secção de Fado da AAC. Contudo, as danças clássica e contemporânea ainda não encontraram nenhum espaço disponível. O coordenador geral da Cultura da AAC, Carlos Eva, aponta que a inexistência de um projecto deste âmbito parte do facto de “nunca ter existido um grupo de estudantes que tivesse mostrado interesse nessa área”. Para já, a única proposta de criação de uma nova secção está direccionada para a capoeira. “Em relação a danças contemporâneas, não existe nenhuma directiva nesse sentido, nem tenho conhecimento de nenhum grupo que se esteja a formar”, adianta. Caso exista uma proposta para a formação de uma nova secção, “o Conselho Cultural mostra-se disponível para apoiar esse projecto”, garante o responsável. Com Sara Oliveira

UMA POESIA DO HUMANO

ALMEDINA ESTÁDIO • 21H ENTRADA LIVRE

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JUN

CORVOS E BANDA SINFÓNICA DO EXÉRCITO

Concerto TAGV • 21H ENTRADA LIVRE

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RUI CÉSAR VILÃO E CORO DOS PEQUENOS CANTORES DE COIMBRA Música CAPELA S. MIGUEL • 18H ENTRADA LIVRE

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DOU-TE OS MEUS OLHOS Ciclo de Cinema TAGV • 21H30 • ENTRADA LIVRE

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DA COR DA MADEIRA Percursão por Quiné EME CLUB • 22H • ENTRADA LIVRE

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STÓRIA, STÓRIA Mayra Andrade TAGV • 21H30 ENTRE 20¤ A 25¤ até

10 JUN

SESSÃO TRUFFAUT

Em Palco • Fios e Labirintos omecemos. Apenas três pessoas. Uma luz incipientemente fraca, uma teia sonora consistente e um efeito visual fantasmagórico parecem dar início ao espectáculo. No chão, a ilha de Creta, que se quisermos também pode ser Atenas. A música, essa, é senhora do seu nariz e consegue fundir espectador e actor num mesmo plano. A causa não pode ser mais plural: contar uma história a uma multidão de sentidos, recuando e indo buscar ao tempo, o presente perdido. A intemporalidade aqui é a chave para que qualquer entendimento faça sentido. Através de uma linguagem simples, atribuem-se dois sentidos a uma mesma coisa. Aparentemente fácil, um discurso fluido e sem floreados sublinha as emoções. Na verdade, o que é um labirinto? “Um lugar onde se entra mas nunca se sai”, dizia Teseu. A história oscila

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entre ele e Ariane. Ambos unidos por um amor que só é consumado quando uma prova de fogo é superada. Na verdade, por detrás de todo o enredo está o mítico Minotauro da Grécia Antiga. Este ser que todos temem é o fio que compromete todos os passos. Ninguém o conhece, ninguém o viu, mas ele existe. E é também o alvo de Teseu que transforma um receio colectivo num acto de coragem e destreza em enfrentar o terrível inimigo da existência humana: o medo do desconhecido, um monstro que todos tentam encobrir. Porque as fraquezas não se querem à luz do dia. São da noite. Na ilha, está um labirinto e é nele que está o Minotauro. No palco está um labirinto, onde os fios são os únicos caminhos e no qual não é difícil imaginar um qualquer Minotauro. Depois de um “vou ou não vou” ou de um “como posso eu matar o Minotauro?” de Teseu, logo vem a res-

posta de uma espécie de oráculo com vida: “o amor guiar-te-á”. Então, com garras afiadas na coragem necessária e com um mapa, Teseu parte em busca do ser mitológico. Leva na mão um fio vermelho preso a um enorme novelo que Ariane lhe confiou. Pode ser a bússola para não se perder ou a âncora que teme em não deixar. Numa luta desenfreada, numa simbiose de sons e luzes, quem observa a batalha, não se atreve a desviar o olhar. Teseu derrotou o Minotauro. Levou a melhor e fez-se rei. Mas será verdade? O Minotauro morreu mesmo? O medo do desconhecido já não existe? Fica a dúvida, porque na verdade, no meio da felicidade de uma batalha ganha, ouviu-se um rugido e as luzes apagaram-se. Por Sara Oliveira

Exposição FNAC • ENTRADA LIVRE

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BILAN FEAT PANCHO Música SALÃO BRAZIL 22h • 10¤

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NOITES DE FOLCLORE E ETNOGRAFIA Grupo Etnográfico da Região de Coimbra PRAÇA 8 DE MAIO • 22H

16 30 a JUN

A INVISIBILIDADE DA ESSÊNCIA O Teatrão Oficina Municipal de Teatro Até dia 27 de Junho Entre os 4 e os 10 euros

Exposição de Hélder Bandarra ALMEDINA ESTÁDIO ENTRADA LIVRE

Por Maria João Fernandes


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CULTURA

LEANDRO ROLIM

ENTREVISTA • JOÃO BRITES • ANTÓNIO AUGUSTO BARROS

Dois caminhos que falam São dos maiores do teatro em Portugal. Partilham ideias comu encenadores, dois amigos, onde as palavras de um parecem, às onhecem-se há uns 20 anos. Não se lembram ao certo quando estiveram juntos pela primeira vez. Mas foi seguramente há uns 20 anos. Um dirige a companhia o bando há 35, primeiro em Lisboa, agora em Palmela. O outro fundou A Escola da Noite, há 16, em Coimbra. João Brites, 62 anos, e António Augusto Barros, 51, sentam-se à mesma mesa para falar de teatro. Gostam-se, picam-se, põem o dedo na ferida. Não caem no elogio fácil. Recusam o facilitismo de encenar só para encher salas e acreditam que ser uma companhia é trabalhar experiências comuns entre iguais. E é pelo risco que vão. Porque, dizem, tudo na arte é um risco. Lamentam, isso sim, a falta de preparação humanística dos políticos e acusam o ministro da Cultura de amputar o desenvolvimento cultural do país. Excertos de um diálogo entre os dois encenadores durante a vinda da companhia de Palmela a Coimbra, em Maio.

C

O Teatro o bando e A Escola da Noite (EN) têm uma história de encontros, em Portugal e no estrangeiro. Esta é a primeira vez que a EN recebe uma companhia em residência, no teatro da Cerca. Que coincidências encontram nos dois grupos? António Augusto Barros (AAB): Começas tu ou começo eu? João Brites (JB): Posso começar… Um tipo de preocupação em relação àquilo que podemos denominar a qualidade da representação, a exigência perante o fenómeno teatral, o assumir que há um grau de exigências que não se reduz à preocupação dos públicos-alvo, de ser bem sucedido num público muito alargado, mas que se luta para que se vá alargando sem abdicar da exigência. Um discurso comum? AAB: Pelo menos, um discurso quanto às coisas em comum. Temos divergências artísticas – temos caminhos diferentes na aplicação concreta das coisas. Mas uma das coincidências é o sentirmos necessidade uns dos outros e de não nos fecharmos. E, aí, encontramos muitas coisas de carácter estético e ético. Considero a manutenção desta ideia de companhia: de que o fazer teatral seja defendido por este tipo de estruturas que vão organizando e mantendo experiências.

ENCENADOR, dramaturgo, artista plástico, professor, João Brites dirige o Teatro o bando desde 1974

Ser uma companhia é criar uma linguagem de grupo, criando linguagens no grupo? JB: Um grupo procura ter uma linguagem artística e um conjunto de princípios de trabalho éticos e estéticos que o identifique. O que diferencio muito é uma companhia que tem um projecto artístico de uma vivên-

cia de uma produtora que contrata os actores, um encenador e um cenógrafo e faz um espectáculo, e, depois, esquece isso e faz outro com outras pessoas. É legítimo, faz-se, mas não é de maneira nenhuma a forma como quero estar no teatro. Interessa-me desenvolver uma linguagem com um grupo. Portanto, é mais do que ter uma estética própria. JB: É, é a criação de uma identidade que se reflecte a todos os níveis. O grupo o que é? A cara do grupo é as pessoas que andam em itinerância: os técnicos, os produtores, os actores, não são só os líderes do grupo. Costumo dizer que a identidade é a maneira como a gente organiza os dossiês, como cada um tem acesso a tudo o que precisa para poder desenvolver bem o trabalho… Aí toma importância a disciplina de grupo na prática laboratorial. JB: É. Sobretudo nos papéis de liderança percebemos que podemos ser líderes de determinado projecto e que

Aqui, na Faculdade de Letras, ainda não é isso. Digamos que é qualquer coisa de preparatório para isso. De alguma maneira, senti um pouco a necessidade de organizar um discurso que possa ser mais sistemático. Já tive dificuldade de enfrentar uma plateia de alunos com quem se tem de construir qualquer coisa num tempo muito restrito. É complicado e exigiu um determinado esforço, se calhar, não tão grande como o João a organizar o discurso. JB: Se os resultados são diferentes, os processos provavelmente são diferentes. É natural que as nossas formas de abordar sejam diferentes. Ainda bem que são. Só podem ser diferentes. É isso que define a tal estética de que falavam? JB: Sim, uma estética que não seja uma espécie de receita estilística. Uma estética que se reconheça para além das soluções pontuais de cada espectáculo. É evidente que um grupo que tem uma sala não pode realizar os espectáculos como um grupo que tem uma quinta... Nor-

A MAGIA QUE A ARTE TEATRAL TEM É FAZER CONSTRUIR NO IMAGINÁRIO DO ESPECTADOR TUDO DE UMA FORMA EXTREMAMENTE SIMPLES JOÃO BRITES podemos ser comandados noutro por outra pessoa que, na hierarquia do grupo, parece subalterna.

malmente, os arquitectos gostam muito de exercitar a sua personalidade no desenho interior das salas.

O encenador é esse líder, numa companhia? JB: Não obrigatoriamente. AAB: Pode não ser. Na maior parte dos casos coincide. Tanto n’o bando como na EN, há essa vontade de não ser o único encenador; registam-se, por exemplo, actores que, de repente, dirigem espectáculos. Para a EN, foi muito importante quando os actores começaram a dirigir. Isso possibilitou um crescimento que, provavelmente, no mesmo ritmo de serem actores, não conseguiriam.

Fazem bem ou mal? JB: Fazem mal. Se pudesse, construía um teatro diferente para cada espectáculo. AAB: Uma coisa que me parece comum é esta: existindo uma identidade própria, mas recusando que os espectáculos se pareçam, ou, pelo menos, tentando que cada espectáculo seja uma arquitectura diferente.

Durante a itinerância d’o bando, em Coimbra [de 19 a 24 de Maio], o JB disse que, quando passou a dar aulas no Conservatório, teve de procurar construir um discurso sobre o trabalho de actores. O AAB, que agora colabora com a Oficina de Artes, da licenciatura em Estudos Artísticos, também passou a fazer o mesmo? AAB: Também fiquei com esse problema [ri-se]. Não é exactamente o nosso caso, porque os cursos são diferentes. O João está na Escola Superior de Teatro e Cinema [em Lisboa], que prepara essencialmente actores.

Para além do espaço base, em que medida os objectos cénicos são tão importantes? AAB: Bom, aí temos um mestre! JB: Não, não… AAB: Tem um cuidado muito especial com os objectos… Se há coisa reconhecível e notável no percurso d’o bando e do João é a construção dos objectos, que são mais do que objectos, são as tais máquinas de cena. Já que falamos de objectos, de que matéria é feito o teatro? AAB: [Pausa] É uma pergunta bonita, mas [para uma resposta] muito extensa… Independentemente de tudo, o teatro pega em todas as matérias do mundo e transforma-as. Fundamentalmente depende sempre da relação que se estabelece entre


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CULTURA LEANDRO ROLIM

m um teatro comum uns, éticas e estéticas. Uma conversa demorada entre dois s vezes, confundir-se com as do outro. Por Pedro Crisóstomo uma pessoa que, aparentemente, está a fazer e outra que está a ver. Como muita gente disse, o acidente é a alma do teatro. É essa relação viva que é um dos maiores valores do teatro e que lhe assegura a perenidade. Essa coisa de sentirmos o bafo do actor… JB: A magia que a arte teatral tem é fazer construir no imaginário do espectador tudo de uma forma extremamente simples. Uma pessoa pode ter 18 anos e daqui a um minuto ter 50 e 70 e estar na China. Basta um gesto e voltar. Ter um filho e deixar de ter filho. E não precisa de ter lá o filho. E não precisa de ter lá o objecto. E não precisa de ter nada. Essa capacidade de criar de uma forma extremamente rápida, eficaz e simples toda uma paleta de hipóteses absolutamente extraordinária. Aí, o artista pode transcender a sua própria pessoa? JB: Para mim, não era bem isso. AAB: Essa capacidade de roubar o tempo do espectador e de criar um outro tempo. JB: Para mim, é a questão de o criador olhar para a sua obra, de criar a

ambos gostam de pegar numa narrativa e transformar numa dramaturgia. É como pegar numa obra e fazer outra obra? AAB: o bando é uma das companhias com quem aprendi a gostar disso. Sempre achei interessante trabalhar a questão da teatralidade. Dános realmente mais liberdade. Em relação à pergunta, disso é que o espectador nem sempre tem consciência. É realmente outra coisa, a construção de uma obra de arte. JB: Por isso é que as pessoas quando lêem um livro e vão ver um filme se sentem defraudadas com o imaginário que criaram. Quando percebi que estava a fazer versões sobre uma obra – é assumidamente uma versão, um olhar – também me apercebi que tinha uma vantagem: a pessoa devia continuar a ler com uma liberdade de leitura. A obra não se alterou, mas a minha perspectiva mudou completamente sob a luz que fiz incidir sobre o objecto. Isso é um risco? JB: A arte é sempre um risco. As pessoas podem não se reconhecer, o

O TEATRO QUANDO PÕE UMA PEÇA LITERÁRIA EM CENA ESTÁ A DAR UM SEGUNDO TEMPO DE ESCUTA ANTÓNIO AUGUSTO BARROS distância sobre aquilo que fez e interrogar-se. Em todo esse processo, qual é o papel da improvisação para que haja momentos de ruptura nos espectáculos? JB: [pausa] Defendo que tem de haver reactualização, mas não defendo que cada espectáculo tenha zonas performativas improvisadas. Os actores, os encenadores também julgam a plateia – “hoje tivemos um bom público, hoje tivemos um mau público”? AAB: Acontece… [ri-se] Mas não quer dizer que tenhamos esse direito, não! Dizemos isso como conversa. Mas isso não é direito nenhum. JB: Mas é uma responsabilização mútua. AAB: Pois… JB: Se ele me critica o espectáculo, também posso criticar o comportamento dele. Por que não? O teatro só existe se existirem o público e o registo da memória do espectáculo. A sua carne, a sua vivência, a sua memória. Existem públicos que não tiveram tempo de se ajustar ainda ao espaço: vêm do trabalho, vivem mal com a crise, chegam ali mal dispostos… e apanham mais uma amargura e ficam um bocado aborrecidos. Mais o JB do que o AAB, mas

autor pode não se reconhecer. AAB: Isto que o João diz é importante. O teatro quando põe uma peça literária em cena está a dar um segundo tempo de escuta e uma segunda oportunidade, sobretudo a quem leu e quer construir pontes. Falando agora de política cultural, na monografia do vigésimo aniversário d’o bando, Antonino Solmer escrevia: “é uma mentira dizer-se que alguma vez existiram grupos a mais em Portugal”. Existe uma cultura contra a cultura no nosso país? JB: Só há qualidade se existir quantidade. Nunca fui apologista da concentração. Existem projectos diferentes, que devem ser apoiados de maneira diferente e faseadamente de maneira diferente. Existia, há uns tempos, a ideia de os 0,6 por cento no Orçamento de Estado para a Cultura subirem para um por cento. Neste momento, está 0,3 por cento. Não há milagres e não há possibilidade nenhuma – e é até um pouco fazer-nos passar por parvos pensar-se que dizer que até se consegue fazer mais com menos dinheiro… Apresentem-me razões para que o orçamento cumpra um por cento para a Cultura. JB: Razões? O problema é como a

morte, exactamente: enquanto a pessoa está ao lado, a gente até pode nem dar pela falta, mas quando a cadeira está vazia, a gente já dá pela falta. Confrontado numa Europa tendencialmente globalizadora, é evidente que um país como o nosso tem de pugnar para ter uma afirmação internacional. As pessoas que, neste momento, são responsáveis – políticos e culturais da Cultura – que não lutam e que não entendem que aquilo que estão a fazer vão ser as próximas gerações a pagar, ou são irresponsáveis ou estão a cumprir um papel histórico completamente indigno e só têm que se demitir. AAB: Não me parece que deixem de dormir por causa da Cultura. Um por cento não se coloca para este ministro. Quando não se coloca para o ministro da Cultura, temos de perguntar por que é que ele aceita ser ministro da Cultura. E em tempos de crise, como é que se combatem as assimetrias regionais, havendo candidaturas nacionais a projectos de criação, quando existe um número máximo de candidaturas a apoiar em cada região? AAB: É cada vez mais chocante que aconteça esta concentração em Lisboa dos fundos disponíveis. Isso não quer dizer que não se deva investir em Lisboa, até acho que devia mais. Mas também mais nos outros e equilibrar as coisas. JB: Uma visão estratégica estruturada, articulada, porque isso depende das escolas, das saídas, dos projectos, dos meios e das estruturas físicas. É preciso captar pessoas para virem mais para as zonas de descentralização. A EN reclamou a necessidade de um teatro nacional, em Coimbra. Para quem é de cá e para quem está de fora, pergunto se temos condições para isso. AAB: Não, não temos, senão já estava feito. Agora, o que reclamo é que há muitas formas de teatros nacionais, centros dramáticos, etc… Uma das questões que coloquei há uns tempos foi: por que é que progressivamente não se criam estruturas em cidades médias, onde já todos percebemos que é por aí que se pode fazer o desenvolvimento da Europa e das cidades médias? JB: Depende um bocado dessa visão estratégica, porque se reconheço que deveriam existir mais meios e potenciar aquilo que existe, diversificando a malha teatral do nosso país, também sei que a institucionalização das artes ou dos teatros, por vezes, não é bem sucedia. Tornam-se estruturas muito pesadas, que, depois, não conseguem ter pessoas que as dinamizem.

HÁ 16 anos n’A Escola da Noite, António Augusto Barros já encenou 20 espectáculos


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DESPORTO A

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TAEKWONDO

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Torneio da Queima das Fitas 2009 PAVILHÃO 3 DO ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO

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ANDEBOL

FUTEBOL DISTRITAL

AD Albicastrense vs. Académica 18H • MUNICIPAL DE CASTELO BRANCO

7 JUN

13 e 14

Académica vs C.O.J.A ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO

JUN

DESPORTOS NÁUTICOS Campeonato de Verão Juniores, Pesos Ligeiros e Seniores MONTEMOR-O-VELHO

CAMPEONATOS EUROPEUS UNIVERSITÁRIOS

Começa a aventura europeia D.R.

As equipas de rugby seven’s da Académica preparam-se para a competição. No badminton, é José Silva que representa a associação académica Miguel Custódio Catarina Domingos Depois da conquista do título nacional universitário, a equipa masculina e a equipa feminina de rugby de seven’s da Associação Académica de Coimbra (AAC) já se preparam para o Campeonato Europeu Universitário da modalidade. A prova começa na próxima terçafeira, 10, em Bristol, na Inglaterra. Com três treinos por semana, a equipa masculina espera “fazer melhor que o ano passado”, conta o técnico Sérgio Franco. Na participação europeia de 2008, em Roma, a AAC conseguiu um quarto lugar. “Este ano a nossa equipa está mais forte, tem mais experiência e, por isso, espero uma melhor participação”, antevê o treinador academista. Sérgio Franco adianta ainda que, nos últimos dias, a formação tem “treinado a um nível mais forte do que está habituada”. A AAC foi integrada num treino da Selecção Nacional de Seven’s e venceu um torneio da Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC), após ter derrotado o Benfica por 36-0. A Académica vai participar na

AS EQUIPAS DE RUGBY da Académica começam a sua participação dia 10 de Junho

prova europeia, depois de ter vencido na final da competição nacional a Universidade Nova de Lisboa por 65-0. Do lado da equipa feminina, esta é a primeira vez que a Académica alcança o europeu universitário. A AAC venceu o campeonato nacional, com uma vitória sobre a Associação de Estudantes do Instituto Superior da Maia (AEISMAI) por 27-0. O técnico Luís Carvalho espera “uma participação positiva”, mas lembra as dificuldades que a equipa

vai encontrar. “Vamos lidar com equipas femininas que já têm algum profissionalismo e com atletas de um potencial físico superior ao nosso”, avalia. O tempo para treinar é “escasso”, no entender do treinador, que ainda assim sublinha “o traquejo de alguns elementos da equipa”, que têm sido utilizados pela selecção nacional. A formação treina apenas há três semanas na ESAC, que disponibilizou o campo. “Perante equipas mais desenvolvidas, não podemos pôr fasquias muito altas”,

conclui Luís Carvalho.

Badminton e futsal também presentes No Campeonato Europeu Universitário de Badminton, José Silva é o representante da Académica. O atleta ficou em segundo lugar nos nacionais universitários, depois de ter perdido na final 1-2, frente a Paulo Alveno da Associação Académica da Universidade da Madeira. A participação de José Silva começa dia 20 de Junho, em Genebra, na Suíça.

Esta é a primeira presença europeia universitária do atleta, que conta “passar as primeiras rondas e chegar o mais longe possível”. Além do rugby e do badminton, a Académica também estará presente na competição europeia universitária de futsal, que vai ter lugar em Podgorica (Montenegro) no mês de Julho. É a terceira vez que a AAC é a representante nacional nos europeus da modalidade, tendo conseguido como melhor classificação um quinto lugar, em 2007, na Eslovénia.

“Podemos fazer uma Divisão de Honra tranquila”

6 Bruno Fonseca

Treinador campeão pela Secção de Futebol da AAC

Quais os factores de sucesso para uma vitória tão folgada nesta temporada? A vantagem que temos neste momento só foi criada na segunda fase. Na fase regular, acabamos só com um ponto de avanço em relação ao segundo classificado. Nesta segunda fase, a equipa já trazia os métodos assimilados e aproveitámos o deslize das outras equipas para ganhar vantagem. Qual a diferença deste ano para o ano passado, em que a AAC ficou em oitavo lugar? No ano passado, vim a meio da época e conhecia relativamente bem a equipa. Mas encontrei uma equipa com poucos jogadores que treinassem e estivessem disponíveis para

jogar aos domingos. Trouxe alguns jogadores que conhecia de outros clubes onde tinha estado e, nos treinos de início de época, apareceram outros com valor. Quais são as expectativas para a próxima temporada? Fui convidado para ficar para o ano, mas ainda não tomei uma decisão. Se esta equipa conseguir manter a mesma base de jogadores, com mais alguns que vão aparecer, dá para fazer uma Divisão de Honra tranquila.

Foi convidado para ficar. Tem dúvidas se vai continuar no comando da equipa? Não, só não tomei uma decisão. Vou

deixar acabar esta época. Trabalhamos por puro amadorismo, não ganhamos nada e obviamente vai chegar uma fase em que vou ponderar se devo manter-me no comando da equipa. Este ano correu bem e não será por qualquer outro motivo que não aceitarei o convite para continuar. Qual foi o momento mais marcante desta temporada? O ponto de viragem foi quando fomos eliminados da taça [da Associação de Futebol de Coimbra]. Fomos eliminando equipas de escalões superiores e chegámos aos quartos-de-final. Voltámos a encontrar uma equipa da divisão acima. Perdemos nas grandes penalidades, mas notei que esta equipa tinha

todas as condições para subir. O que vai ser preciso mudar? Em termos de jogadores será sempre complicado para a secção de futebol competir em igualdade com as outras equipas. Só podemos ter jogadores que sejam estudantes ou que já acabaram o curso na universidade. Em termos de infra-estruturas, temos o Campo de Santa Cruz, mas só podemos treinar nele duas vezes por semana. O ideal para nós seria estar sempre no estádio universitário, até porque jogamos lá: é relvado natural e as dimensões são maiores. Mas não há iluminação e os balneários não têm grandes condições. Matheus Fierro


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LIGA PORTUGUESA DE BASQUETEBOL

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P•R•O•LONGA•M•E•N•T•O

Prova pode sofrer alterações

ANDEBOL ANA COELHO

Com a época a terminar, já se pode fazer um balanço do primeiro ano em que o modelo amador vigorou, após o fim da liga profissional

Na oitava jornada da fase complementar do Campeonato Nacional de 2.ª Divisão, a equipa sénior de andebol da Académica venceu a ADC Benavente por 32-21. Em primeiro lugar com 45 pontos, a AAC recebe, na próxima e última ronda, a AD Albicastrense.

Catarina Domingos Sónia Fernandes

NATAÇÃO A primeira edição da Liga Portuguesa de Basquetebol (LPB) está a chegar ao fim. Este fim-de-semana, 30 e 31 de Maio, jogou-se a primeira partida para encontrar o vencedor e, para hoje, está marcado o segundo embate entre o Benfica e a Ovarense. Esta temporada marcou o início de uma nova era para o basquetebol nacional, depois de 13 anos de profissionalismo. Das soluções adoptadas no regresso ao campeonato amador já se podem tirar algumas conclusões. “A prova está a terminar, na nossa óptica, com bons resultados”, avalia o director executivo da LPB, José Pinto Alberto. A principal contrariedade da época foi a desistência do Belenenses, que obrigou à alteração do agendamento de cerca de 30 jogos e ao fim das jornadas duplas. Pinto Alberto prefere não classificar os obstáculos surgidos ao longo do ano, mas antes realça a “alta competitividade” da prova, referindo-se aos cinco jogos que foi necessário disputar entre a Académica e o Benfica para encontrar um dos finalistas da prova. Uma das principais novidades deste modelo foi a obrigação de cada clube ter no cinco inicial o máximo de

O II Meeting da Cidade de Coimbra/ XXI Torneio Internacional Queima das Fitas recebeu 60 clubes, 475 atletas e 12 comitivas estrangeiras. A Académica bateu cincos tempos regionais, numa prova que foi ganha pelo FC Porto. A ACADÉMICA, que já terminou a sua participação na liga, defende ajustes quanto às jornadas cruzadas

FUTEBOL três jogadores estrangeiros, sendo que na primeira substituição deve entrar um atleta nacional. Para Pinto Alberto, este imperativo “foi bastante benéfico para os jogadores portugueses”. O director executivo sublinha ainda que se está “a conseguir reunir em Portugal praticamente quase todos os jogadores da selecção”. No modelo competitivo da liga estabeleceram-se jornadas cruzadas entre o escalão principal e a Proliga, ligação que Pinto Alberto considera positiva, “principalmente em zonas em que equipas da Proliga eram rejeitadas”. Ainda assim, o responsável

admite que “poderá ser difícil a sua continuação”. A federação tem auscultado todos os agentes para, na semana que vem, debater questões relacionadas com a próxima época. Quanto ao número de equipas da competição, Pinto Alberto afirma que “o número ideal será sempre o número real”.

AAC defende ajustes Desde o início da época que a Académica se mostrou crítica à implementação de jornadas cruzadas. “Foi visível que não funcionava e que tem de haver ajustes”, reafirma Luís Vie-

gas, presidente da secção de basquetebol. O responsável realça “os custos das deslocações” para ponderar se esta ligação deve ser mantida. No que toca ao número de equipas para a próxima temporada, Luís Viegas considera “12 um número ajustado, para que haja maior competitividade”. A Académica terminou na passada quarta-feira, 27, a participação na liga, depois de ter disputado a “negra” com o Benfica. A formação orientada por Norberto Alves perdeu por 83-69 no Pavilhão da Luz, em Lisboa, e terminou a prova no terceiro lugar.

Judo da Académica alcança bronze Estudantes conseguiram o melhor resultado dos últimos 20 anos, com um terceiro lugar no campeonato nacional seniores por equipas Catarina Domingos Sónia Fernandes Numa prova dominada pelas formações de Lisboa, a equipa de judo da Associação Académica de Coimbra (AAC) fez-se representar com 12 atletas e alcançou o terceiro lugar, o melhor registo dos últimos 20 anos. A competição, realizada no Está-

D.R.

dio Universitário de Lisboa no passado sábado, 30, contou com a presença de 15 equipas, com a vitória a ser conseguida pelo Sport Lisboa e Benfica, que na final venceu o Sport Algés e Dafundo. A equipa que levou a Académica ao último lugar do pódio era constituída por Nuno Silva e Pedro Matos (- 60 kg), Tiago Alves e Pedro Alves (- 66 kg), Telmo Alves (- 73 kg), João Malcata, Rui Ferreira e Ricardo Rosa (- 81 kg), André Andrade e Alexandre Vieira (- 90 kg) e Gonçalo Órfão e António Costa (+ 90 kg). No encontro do bronze, a AAC venceu o Judo Clube de Lisboa. Nos primeiros seis combates registavase uma igualdade (3-3) e foi necessário recorrer a um combate extra

para encontrar o vencedor. O sorteio determinou a repetição do combate da categoria – 66 kg, com vitória final para o academista Tiago Alves. O atleta Gonçalo Órfão realça a qualidade do grupo para os resultados competitivos positivos. Com esta classificação, a AAC vai ser a representante portuguesa na Liga Europeia de Clubes, o que, para o judoca, “é uma oportunidade de participar numa liga diferente”. Ainda assim, a presença da Académica não está assegurada. “A secção tem de equacionar essa participação devido aos custos elevados”, adianta. A última prova nacional do calendário de Verão está marcada para 20 de Junho, com um open em Castelo Branco.

Depois de se sagrar campeã da Série A da 1.ª Distrital e de ter carimbado a presença na próxima edição da Divisão de Honra, a Académica SF venceu o GD Pampilhosense por 0-1, em jogo da nona jornada da segunda fase. Com 47 pontos, a AAC recebe, na próxima jornada, o C.O.J.A.

ATLETISMO Este fimde-semana, os seniores masculinos da Académica participaram nos apuramentos nacionais de clubes. No sábado, 30, Rui Esteves (100 metros planos), Miguel Roque (400 metros planos), Pedro Cardoso (400 metros barreiras) e André Girão (salto em altura) conseguiram o segundo lugar. Luís Silva (5000 metros marcha) e Lenine Cunha (salto em comprimento) ficaram em terceiro. Na corrida estafeta 4x100 metros, a AAC ficou em quarto. No domingo, Rui Esteves venceu a sua série de 200 metros e Lenine Cunha foi segundo no triplo salto. Na estafeta 4x400, a AAC alcançou o primeiro lugar.

Catarina Domingos PUBLICIDADE


12 | a cabra | 2 de Junho de 2009 | Terça-feira

TEMA

AS PANDEMIAS NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

UM COMBATE AO MICROSCÓPIO As pandemias estão na ordem do dia e, mais do que nunca, importa perceber de onde vêm, como se propagam e como se combatem. A CABRA ouviu vários especialistas e tentou apurar se Portugal está preparado para reagir a estas ameaças. Por Maria Eduarda Eloy e João Ribeiro ão microscópicos, mas podem causar mais mortes do que uma bomba atómica. Em finais de Abril, o mundo assistiu ao aparecimento de um novo vírus e, com ele, o medo de uma pandemia à escala global. Neste momento, tudo indica que a gripe A não atingirá níveis de mortalidade muito elevados, mas, quanto à sua evolução, o futuro é desconhecido. “Há uma situação nova que, ainda hoje, é motivo de incertezas”, confirma o director-geral de Saúde Francisco George. O também docente da Universidade Nova de Lisboa rejeita antecipar qualquer cenário, porque “ainda não há informações científicas”. Um mês depois do primeiro caso confirmado no México, esta gripe já vitimou cerca de uma centena de pessoas em países da América Central e do Norte. As semelhanças entre o vírus da gripe A e o que dizimou grande parte da população mundial em 1918 [ver cronologia] são visíveis, o que preocupa os especialistas. “O vírus da gripe tem a capacidade de sofrer muitas pequenas mutações”, o que acontece “todos os anos, de tal forma que é necessário preparar-se uma vacina para a gripe sazonal”, explica o virologista João Vasconcelos Costa. As grandes pandemias têm origem, não nestas pequenas mutações, mas sim em “rearranjos genéticos, ocorridos de dezenas em dezenas de anos”. O docente da Universidade Lusófona compara a relação entre o vírus e o seu hospedeiro a um combate. “Defendemo-nos com o sistema imunológico, mas os vírus evoluem, de forma a ferir essas nossas resistências”, desenvolve. Há uma grande dificuldade em erradicar completamente um vírus, devido às mutações constantes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) - a única entidade com competência para declarar a

S

extinção de um vírus ou doença aponta a varíola como a única doença viral suprimida, em 1980. João Vasconcelos Costa refere a poliomielite como a próxima doença passível de ser eliminada. “Há doenças virais de que já não há memória, no mundo desenvolvido, há muitos anos”, mas mesmo assim não se podem considerar extintas, pois permanecem alguns focos e o seu reaparecimento constitui uma possibilidade. O antigo director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) atribui “culpa humana” para que vírus aparentemente

O vírus adapta-se às defesas do sistema imunitário do hospedeiro neutralizados voltem a ser uma ameaça. “A desflorestação cria uma terra de ninguém em que as populações humanas - de África e do Amazonas - ficam próximas das populações de macacos, que são reservatórios de muitos vírus e dos insectos transmissores”, explica. Também o aquecimento global é responsável por alterações nas deslocações de alguns insectos, que, “extremamente sensíveis à temperatura média”, se deslocam em latitude de acordo com a temperatura e transmitem doenças. “De tal maneira que os tipos transmissores de muitas doenças tipicamente tropicais e africanas já chegaram ao sul da

AS PANDEMIAS DA HISTÓRIA

Europa”. A partir do momento em que a primeira pessoa é infectada, coloca-se o problema do contágio. O director do Serviço de Doenças Infecciosas dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), Saraiva da Cunha, realça que “nem todas as doenças pandémicas se transmitem da mesma forma”. Quanto à gripe, há duas formas de propagação: por via aérea, através das gotículas expelidas pelos espirros, por exemplo, e pelo contacto com certas superfícies infectadas.

ção facilita a propagação dos vírus, embora não seja algo de muito marcante”, declara. Jorge Torgal dá o exemplo da epidemia de 1918, em que num p e -

Uma doença global Um dos factores que mais preocupa as autoridades de saúde pública prende-se com a globalização. Saraiva da Cunha não hesita em atribuir às deslocações humanas um papel preponderante na rápida disseminação das doenças infecciosas. “As populações têm uma mobilidade como nunca tiveram e, quando viajamos, levamos connosco os microrganismos de que somos portadores”, nota. Opinião coincidente tem João Vasconcelos Costa, que realça que “os vírus viajam de avião”. O virologista do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, Jaime Nina, considera, por seu turno, que este problema “não é de agora” e lembra as quarentenas, “o período de 40 dias em que se obrigavam os barcos a estar ancorados fora do porto, quando havia casos ou suspeita de casos de febre amarela a bordo”. Jaime Nina ressalva, contudo, que “agora já não é prático pôr um avião quarenta dias à espera de um resultado”. Já o actual director do IHMT, Jorge Torgal, desvaloriza a relevância da vulgarização das deslocações humanas para a propagação de doenças infecciosas, no século XXI. “A globaliza-

ríodo de cinco semanas “os Estados Unidos ficaram cobertos”, sem haver as facilidades de transporte de hoje. O uso de máscaras é uma das medidas generalizadas dentro das populações das áreas mais afectadas. As imagens de milhares de pessoas com máscaras correram mundo durante os primeiros tempos após a descoberta do novo vírus. Mas até que ponto podem ser eficazes?

S a raiva da Cunha é da opinião de que “não são uma grande forma de prevenção”. “A transmissão por via aérea, através das gotículas só é eficaz se estiver-

PESTE DO PELOPONESO

PESTE ANTONINA

PESTE DE JUSTINIANO

Ocorreu durante a guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta. Estima-se que matou cerca de 30 mil cidadãos de Atenas. A má alimentação e a falta de higiene foram os principais motivos que originaram a pandemia.

Sentida com mais intensidade em Roma, teve duas vagas: a primeira dizimou cinco milhões de pessoas, enquanto que a segunda (entre 251-266) chegou a matar cinco mil por dia. Dois imperadores sucumbiram à peste, entre eles Marco Aurélio.

A peste bubónica, causada pela bactéria ‘yersinia pestis’, atingiu o Império Bizantino e matou cerca de dez mil pessoas em Constantinopla. Estima-se que um quarto da população do Mediterrâneo Ocidental foi dizimado.

430 a.C.

165 180

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portante do que a máscara”.

Portugal também se prepara

Portugal”, sintetiza Francisco George. O segundo eixo debruça-se sobre as medidas concretas a aplicar para controlar a epidemia. “São medidas que se adoptam na perspectiva de proteger os cidadãos, tanto em ambulatório, como nos hospitais”, especifica. A comunicação do risco constitui a terceira área de actuação, no sentido de informar os cidadãos acerca do risco a que poderão estar expostos. Por último, tem lugar “a avaliação do próprio plano de contingência”. Para além do papel das entidades competentes, o director-geral de Saúde enfatiza o papel de todos os sectores da sociedade em relação à saúde pública. “Todas as políticas dos diferentes ministérios, dos diferentes departamentos de Estado, do sector privado, social e público são importantes e o resultado final é consequência desses trabalhos”, esclarece.

mos, e m princípio, até um metro de distância da pessoa que está doente”, explica. O director do Serviço de Doenças Infecciosas dos HUC considera que “a higiene adequada das mãos é muito mais im-

Até ao momento, Portugal conta apenas com um caso confirmado de gripe A e não há perspectivas, nos próximos tempos, de haver altos níveis de propagação. É pertinente, contudo, questionar como se reagiria caso se verificasse uma situação semelhante à dos países mais atingidos. A Direcção-Geral de Saúde desenvolveu um plano de contingência que prevê a actuação em quatro grandes eixos. “O primeiro é o da informação epidemiológica, ou seja, é tudo o que permite perceber o estado da infecção em

Francisco George atribui igual importância às próprias acções individuais: “só os cidadãos em si têm um papel fundamental, porque se dizemos 'é preciso lavar as mãos',

PESTE NEGRA

GRIPE ESPANHOLA

GRIPE ASIÁTICA

Deve o nome às manchas escuras que apareciam na pele dos doentes. Teve origem na Ásia e propagou-se através das rotas marítimas. Originou entre 25 e 75 milhões de mortes, e transmitiu-se sobretudo através de pulgas, ratos pretos e outros roedores.

Após a Primeira Guerra Mundial, foi identificada em soldados americanos e não em Espanha. A gripe teve duas fases: uma mais branda, no início de 1918, e outra bastante mortífera, matando aproximadamente 50 milhões de pessoas.

Com origem na China, estima-se que tenha afectado 50% da população mundial, vitimando um milhão de pessoas em menos de dez meses. Foi a primeira pandemia em que as viagens de avião tiveram um papel considerável na propagação.

1300

1918

O tempo para o desenvolvimento de uma vacina é entre quatro e seis meses

1957

quem lava as mãos são eles próprios”. Ao nível empresarial, também há medidas prontas para serem postas em prática, se assim for necessário. “Mesmo que haja uma gripe benigna, haverá muita gente que ficará em casa e que não trabalhará. Portanto, é preciso assegurar que há todo um conjunto de serviços que se mantêm em funcionamento - desde as máquinas de Multibanco até ao piquete de urgência da rede eléctrica nacional”, exemplifica Jorge Torgal. “Uma gripe que se desenvolve tão rapidamente num país e que atinge as pessoas em idade activa leva a que esse país abrande muito a sua actividade. É um problema que implicará, por exemplo, que as pessoas se preparem para, durante duas semanas, não irem à rua, o que exige alguma organização pessoal, familiar”, conclui o também vice-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. O virologista Vasconcelos Costa partilha das mesmas preocupações: “pode ser aconselhável encerrar escolas e algumas empresas, no caso de haver grandes focos de contágio, mas, ao mesmo tempo, as empresas devem ter os seus planos de contingência de tal maneira que garantam os serviços mínimos”. O especialista sugere mesmo que se constitua “uma espécie de reserva de pessoas que estejam em casa prontas a substituir outras”. Quanto à eliminação da ameaça de um vírus, Francisco George refere a vacina como a solução. No entanto, primeiro é necessária a identificação do agente infeccioso e só então é que as empresas farmacêuticas podem produzir a vacina. O director-geral de Saúde estima entre quatro a seis meses o tempo mínimo para que isto aconteça. Até lá, o mundo permanece em alerta.

GRIPE DE HONG KONG Foi a pandemia menos grave do século XX. Transmitida através das aves, vitimou perto de 34 mil pessoas. Além de Hong Kong, fez vítimas nos Estados Unidos da América e na Inglaterra. Nos restantes países onde se fez sentir, a gripe foi benigna.

1968

PREVENIR COM A MEDICINA DO VIAJANTE Escolher o destino de férias pode tornar-se uma tarefa complicada. A possibilidade de uma epidemia torna as pessoas cada vez mais cautelosas na hora de optar por um destino. Países da América Latina e do Sul, do Médio Oriente e de algumas zonas de África são os que preenchem a lista dos mais perigosos para a saúde e, no entanto, não há restrições para quem os quiser visitar. Para esses, existe a medicina do viajante. Com consultas facultativas para os que pretendem obter mais informação, a medicina do viajante apenas se torna obrigatória quando se viaja para países aos quais a Organização Mundial de Saúde atribui um risco elevado de contaminação, constituindo mesmo uma obrigatoriedade internacional e legal. A malária e febre-amarela são os surtos mais comuns nesses locais. As consultas são adaptadas ao viajante e ao país de destino. “Medicação, aconselhamentos de ordem dietética, modificação de comportamentos para adequar aos riscos” são, de acordo com o director do Serviço de Infecciosos dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), Saraiva da Cunha, as prioridades da medicina de prevenção. A par disso, o vice-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa e Director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Jorge Torgal, destaca que a qualidade da água e o turismo sexual também são abordados numa consulta. O responsável dos HUC mostra que, actualmente, já “há população portuguesa instruída, mas infelizmente, ainda há quem julgue que não há riscos nenhuns e que não é preciso fazer nada”. O risco só é compreendido ‘in loco’, resultando, muitas vezes, em mortes. Em Portugal, “o número de pessoas que regressa doente de uma viagem é mínimo”, indica Jorge Torgal, e mesmo os problemas dessa minoria são, “em geral”, resolvidos. Porém, “é importante que as pessoas digam onde é que estiveram, porque a febre pode não ser de uma gripe, mas de uma malária. Nesse caso, é preciso um tipo de tratamento diferente”, alerta. Tiago Carvalho e Patrícia Neves


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CIDADE

FILIPA FARIA

SMTUC

Dois anos a rodar com dificuldades A EMPRESA tem conseguido manter as ofertas aos utentes e criar novos projectos

Em 2007, os SMTUC utilizaram os autocarros para denunciar a falta de financiamento. Dois anos depois, o problema persiste. Fomos perceber até que ponto os utentes são afectados Andreia Silva Os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) utilizaram, em Março de 2007, uma forma diferente de fazer protesto. O financiamento dado pelo governo à Carris, de Lisboa, e à Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (SCTP), em detrimento de Coimbra, era denunciado na traseira dos autocarros. Na altura, o presidente da Câmara, Carlos Encarnação, afirmava à imprensa que “os conimbricenses [pagavam] duas vezes os transportes públicos, com os seus impostos e com os bilhetes”. Passados dois anos, o problema e a denúncia persistem. Segundo o administrador delegado dos SMTUC, Manuel Correia de Oliveira, o argumento para a falta de financiamento não mudou. “O governo entende que os SMTUC são propriedade da Câmara, ao contrário das empresas de Lisboa e Porto, que são propriedade do Estado”, considera. A situação ganhou novos contornos em 2003, quando o Conselho de Ministros decidiu atribuir indemnizações compensatórias à Carris e à SCTP, argumentando que estas estariam a prestar serviço social e que, por essa razão, necessitariam de suporte financeiro. Neste sentido, a Associação

Nacional de Transportadores Pesados de Passageiros (ANTROP) – à qual os SMTUC não estão associados, por serem uma empresa municipal – decidiu apresentar uma queixa ao Tribunal Judicial das Comunidades Europeias. A secretária-geral, Paula Bramão, entende que as indemnizações “foram atribuídas violando o direito comunitário e interno, já que as empresas privadas também prestam serviço social”, considera. Para Paula Brandão, a questão do serviço social tem de ter “critérios previamente definidos em termos de legislação comunitária”, que passam também pela existência de uma contabilidade separada que comprove a prestação do serviço público, “que causa défice à empresa e que leva à necessidade de apoio”, explica a secretária geral. Este ano, o Tribunal acabou por dar razão à ANTROP, reconhecendo a ilegalidade da situação. Paula Bramão espera, desta forma, “que o governo não volte a fazer a mesma coisa”. Para Manuel Correia de Oliveira, esta é a prova de que “as empresas de Lisboa e Porto têm uma situação de privilégio”. Isto porque os SMTUC “prestam um serviço social”, diz, por praticar “preços que estão abaixo da [sua] capacidade orçamental”. Para além do apoio da Câmara Municipal, os SMTUC

têm também um auto-financiamento através dos parcómetros, segundo Manuel Correia de Oliveira. Apesar da falta de apoios, a empresa conta com a ajuda governamental num novo projecto. A construção da nova linha de tróleicarros, que vai ligar a zona do

Em 2008, os preços dos passes sociais não sofreram alterações Estádio Cidade de Coimbra até à Praça da República, com passagem pela rua Miguel Torga, tem garantido o apoio do Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC), instrumento de política económica do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (MOPTC). Em despacho publicado no Diário da República em Janeiro do ano passado, pode ler-se que o investimento ronda os 358 mil euros,

numa iniciativa que pretende melhorar a qualidade ambiental do transporte urbano e que é da responsabilidade do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres. Mesmo com tentativas permanentes para garantir a sustentabilidade, os SMTUC não param com novos projectos. Para além da nova linha de tróleicarros, estão a ser postas em funcionamento “uma sub-estação eléctrica e um centro de mobilidade”, este último que deverá estar a funcionar no próximo mês. Com todos estes projectos, Correia de Oliveira mostra-se confiante. “Dentro das nossas possibilidades, não paramos”. Era intenção d'A CABRA ouvir o Instituto de Infra-Estruturas Rodoviárias, do MOPTC, que, até ao fecho desta edição, esteve sempre incontactável.

A relação com os utentes Quando uma empresa de transportes públicos não tem o financiamento necessário, são os seus utilizadores que mais sofrem as consequências. Apesar de alegar algumas dificuldades, a empresa de Coimbra tem conseguido manter os mesmos serviços. Entre 2007 e 2008, cerca de 27 mil passageiros utilizaram os SMTUC. A oferta de viaturas aumentou de 89 para 91 e o

preço dos passes sociais mantevese. Fátima Gonçalves, utente, considera que o preço praticado “é acessível, quando comparado com o preço dos combustíveis”. As únicas críticas apontadas prendemse com os horários praticados e com a falta de reforço de algumas linhas. Fátima Gonçalves aponta que “zonas fora do centro da cidade, como a Quinta das Romeiras, só têm um autocarro”. Maria Isabel acrescenta que, “na altura das férias, existe pouca oferta”. Já Liliana Gomes afirma que “as linhas deveriam ser mais reforçadas, principalmente à sexta-feira e ao domingo, por causa dos estudantes”. A questão do financiamento é encarada com um grande sentimento de crítica. Sílvia Pereira considera que essa questão tem bastante influência, porque, “sem apoio, os SMTUC têm de arranjar forma de conseguir sobreviver. Revela que há uma preferência por Porto e Lisboa e que o resto é paisagem”, considera. Maria Isabel, apesar de considerar que tal questão “não a afecta”, afirma ser “uma estupidez uns terem direito e outros não”. Mesmo perante algumas críticas, o administrador delegado dos SMTUC tem consciência de que continuam “a corresponder às necessidades dos utentes”. Com Tiago Carvalho


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PAÍS & MUNDO PIRATARIA NA SOMÁLIA

Por resolver a situação em terra D.R.

Especialistas acreditam que os esforços internacionais devem servir de embalo para ajudar o estado somali Filipa Faria Pirataria é uma palavra que está, cada vez mais, associada à Somália. Os piratas actuavam, no início, ao largo da costa do país, mas agora o raio de navegação está maior e agem de maneira mais sofisticada. A União Europeia lançou, em Dezembro, a Operação Atalanta com o intuito de patrulhar as águas ao largo do país. O docente universitário na área das Relações Internacionais, Luís Tomé, explica que a Somália está numa situação de caos e que, por isso, “o poder internacional veio intervir, não apenas para pôr alguma ordem, mas também para assegurar a fiabilidade marítima e internacional”. É uma situação que “afecta a região e o mundo”, afirma. A zona afectada é “uma linha de comunicação marítima importante em termos comerciais e energéticos”, mostra o especialista em assuntos internacionais, Miguel Monjardino. No entanto, o também professor da Universidade Católica diz que o problema reside em terra e que “nunca poderá ser resolvido até que alguém ganhe o controlo sobre o território ou a faixa costeira da Somália”, o que, defende, está longe de acontecer. Monjardino lembra a primeira intervenção humanitária do pós Guerra Fria na Somália em que “todas as forças das Nações Unidas que lá estavam sofreram perdas elevadas e tiveram que se retirar”.

A FRAGATA portuguesa Corte Real já impediu um ataque dos piratas no Golfo de Aden

Agora nenhuma das forças internacionais “quer voltar à Somália”. Segundo Miguel Monjardino, a pirataria persiste “de maneira impune porque a Somália está a desintegrarse e está numa situação de caos e violência”. O país é “manifestamente um ‘não-estado’ sem um poder central que assegure a ordem pública”. O professor Luís Tomé reforça que “o problema é global e tem que ver com o falhanço de um estado”. O facto do Direito Internacional não estar desenvolvido para esta prática tão antiga como a pirataria é um outro problema do ponto. Antigamente os piratas eram mortos, hoje é complicado saber qual o seu estatuto jurídico o que torna difícil julgálos, destaca Miguel Monjardino. Contudo, quando é colocada a questão da resolução do problema ambos concordam que “tem que ser feito o que está a ser feito”: A vigilância das águas por uma frota naval internacional. No entanto trata-se de uma zona marítima com uma grande dimensão, o que significa um aumento na dificuldade do patrulhamento. Luís Tomé acredita que a operação Atalanta, deveria assumir “não só a responsabilidade em relação às águas mas também a de motivar a reorganização de um Estado”. O professor vai mais longe: “na sequência do empenhamento de combater a pirataria devia haver uma outra missão das Nações Unidas, com a União Africana, para resolver um problema mais amplo que é o falhanço do estado da Somália”. Em 2008, a Somália foi classificada como o Estado mais instável do mundo. O país aparece no primeiro lugar do ranking dos ‘The Failed States Index’ (Índice dos Estados Falhados) da revista ‘Foreign Policy’.

Em vésperas de eleições europeias, muitos jovens não sabem em quem votar. Os chamados ‘political compass’ pretendem dar uma ajuda Bruno Monterroso A nível nacional, este será um ano atípico em termos eleitorais. Com três eleições em vista, a política, quer se queira quer não, estará na ordem do dia no que a 2009 diz respeito. É talvez para aqueles que menos se interessam por política que os compassos políticos (ou political compass, na sua denominação in-

glesa) podem maximizar a sua utilidade. Tomando como referência o politicalcompass.org, em que basta responder a um teste e em menos de dez minutos ficamos a conhecer a nossa posição política, desafiámos oito estudantes da Universidade de Coimbra (UC) a realizar a prova. Posteriormente, perguntámos se ficaram surpreendidos com o resultado e se o mesmo influenciou o seu sentido de voto. O estudante de Engenharia Informática, Daniel Pereira, apesar de ter realizado o teste pela primeira vez, não se mostrou surpreendido com o resultado. De resto, a tendência é seguida por todos os inquiridos com uma excepção. Também, e tal como os restantes colegas inquiridos, o mesmo estudante não vai alterar o seu sentido de voto. Tal vai ao en-

contro da opinião do docente de Teoria Política na Faculdade de Economia da UC, Daniel Gameiro Francisco, que encara os testes como "o reflexo da própria intenção de voto". Em relação à fidedignidade do teste e dos resultados, o também investigador do Centro de Estudos Sociais refere que "todos os trabalhos de pesquisa em Ciências Sociais têm critérios de validade, por isso são fidedignos". Contudo, "também depende da maneira como é feito o inquérito, do grau de seriedade e honestidade por parte de quem responde. Mais do que com a ideia subjacente ao inquérito, tem a ver com a competência de quem está a fazer a pesquisa". O mesmo professor duvida que o teste, por si só, possa despertar curiosidade em relação à política

ou de alguma forma combater a abstenção: "resta saber se os jovens que estão a responder a isso têm consciência do que significa estar mais à esquerda ou à direita ou ser libertário ou autoritário. Esse é logo o problema". Para o professor, o problema da relação entre a política e os jovens é estrutural: "acho que há um défice de cultura política, porque há um desinteresse pela política da maneira como ela é vivida e nos é apresentada, e até acho que é um desinteresse legítimo e inteligente". Com Filipa Faria

MONTAGEMPOR PEDRO CRISÓSTOMO

Testes online podem ajudar na hora de votar?


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PAÍS & MUNDO PARLAMENTO DO REINO UNIDO

“Crise de valores pôs o mercado à frente das populações” D.R.

O QUE OS CONTRIBUINTES ‘PAGARAM’ AOS DEPUTADOS...

NICK CLEGG reclamou 870 euros por despesas de jardinagem

KENNETH CLARKE reclamou 1200 euros em limpezas

JOHN PRESCOTT reclamou 130 euros por um assento de uma sanita

AS SONDAGENS apontam para um aumento da abstenção nas próximas eleições

Ex-deputado da Câmara dos Comuns alerta que o recente escândalo britânico pode afectar as eleições europeias Filipa Magalhães Rui Miguel Pereira O sistema de governo britânico, conhecido pela sua longa tradição parlamentar e liberal, resistente aos tempos das infames ditaduras, sofreu, no passado mês de Maio, das mais duras provações na sua já longa história: o jornal Daily Telegraph avançou com a denúncia de um escândalo sobre os gastos dos deputados. O speaker da Câmara dos Comuns, Michael Martin, depois de pressionado, anunciou a sua demissão, facto inédito nos últimos 300 anos. Desde o dia 8 de Maio de 2009, nomes de vários deputados foram desvendados e acusa-

dos de descabidos pedidos de reembolso que cobrem, além das legais segundas casas, previstas pelo sistema de reembolso de despesas para membros do parlamento, custos de serviços de jardinagem, sacos de estrume, salários das governantes, manutenção de piscinas, entre outros. O líder conservador da oposição, David Cameron, já apelou à dissolução do Parlamento e pediu eleições antecipadas, facto que foi rejeitado pelo primeiro-ministro, Gordon Brown. O ex-deputado trabalhista, grupo político dominante de centro-esquerda britânico, e agora professor convidado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Stuart Holland,

em entrevista a A CABRA afirma que a génese desta fraude se prende numa “crise de valores, que põe o mercado à frente das populações e os interesses privados como valor condutor de uma sociedade”. E não há grupos políticos inocentes, este escândalo envolve deputados trabalhistas, conservadores, independentes e liberais-democratas. As repercussões vão-se fazer sentir já nas próprias eleições europeias e vão-se prolongar no futuro da política britânica. O professor da FEUC sustenta que descontentamento dos cidadãos britânicos vai traduzir-se numa reduzida participação dos mesmos nas próximas eleições, além duma subida de votantes no Par-

tido Nacional Britânico. Isto poderá representar o reforço de mais um partido de extrema-direita no Parlamento Europeu. O jornal Independent publicou recentemente uma sondagem onde afirma que 40 por cento dos eleitores não tenciona votar nas próximas eleições. Acusando o primeiro-ministro, Gordon Brown, de ser visceralmente contra a Europa, Stuart Holland justifica o acentuar do eurocepticismo britânico, com o facto de “a Europa nada fazer para responder a esta crise financeira e nada fazer para salvar os empregos das populações”. Como destaca este ex-deputado trabalhista, a União Europeia “é um projecto neo-liberal e as pessoas não gostam disso”.

CHERYL GILLAN reclamou 5 euros em comida de cão

DAVID MILIBAND pagou 170 euros por um carrinho de bebés

FONTE: DAILY TELEGRAPH

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CIÊNCIA & TECNOLOGIA UC no caminho da vanguarda científica A Universidade de Coimbra é considerada uma das estruturas do país que mais investigações e projectos científicos elabora. No entanto, ainda falta construir uma imagem mais sólida nos media PEDRO CRISÓSTOMO

A FCTUC é a que mais se destaca nos meios de comunicação social

Sara São Miguel A investigação científica da Universidade de Coimbra (UC) tem marcado presença nos meios de comunicação nos últimos anos. Numa tentativa de abranger o maior número de campos de estudo, a universidade acolhe vários centros científicos onde se desenvolvem grandes projectos. Laboratórios como o Centro de Neurociências e Biologia Celular têm sido igualmente promovidos a partir de associações com a UC. O vasto número de áreas de pesquisa da universidade torna impossível a especialização da instituição numa delas. No entanto, existem alguns destaques nas ciências exactas, nas engenharias e nas ciências sociais e humanas. A recente investigação sobre o enegrecimento da prata é um

dos muitos exemplos que se pode apresentar. A importância e o contributo da UC para novos desenvolvimentos na sociedade são, segundo o professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC), Carlos Fiolhais, “inquestionáveis”. Apesar de o docente reconhecer a intervenção da universidade no nascimento e crescimento da empresa Critical Software, o físico considera que a universidade “mais do que uma presença no mercado, é um lugar de criação e transmissão de conhecimento”. Para o presidente do Conselho Directivo e Científico da FCTUC, João Gabriel Silva, a importância de uma universidade mede-se “não só pelo conhecimento e pelas novas tecnologias que gera, mas também pelos estudantes e profissionais que forma”. A reputação histórica que acom-

panha a universidade é agora complementada por uma reputação científica. O presidente declara que “há muitas pessoas a associar a UC a uma universidade com muito passado, mas também parada no tempo”. No entanto, “essa imagem está a começar a ser substituída por a de uma universidade dinâmica e decisiva para o futuro”. A construção dessa nova imagem passa por um processo de divulgação. Por seu lado, o jornalista António Granado considera que há um grave défice de contacto entre as universidades nacionais e os meios de comunicação. “A comunicação institucional da UC e de todas as universidades do país não valoriza suficientemente, junto dos media, as investigações desenvolvidas”, aponta. O professor concorda que a comunicação “pode ser melhor” e com a finali-

dade acrescida de “atrair mais alunos para a universidade e para a investigação”.

Projectos universitários no estrangeiro As investigações e projectos apresentados pela universidade têm outros objectivos para além da aplicabilidade no mercado. As pesquisas desenvolvidas têm necessariamente que ser concluídas devido a questões de financiamento, mas nem todas têm, como finalidade, uma vertente prática na vida real. Carlos Fiolhais defende que “a investigação científica pura é fundamental”. No mercado podem encontrar-se disponíveis invenções criadas nas faculdades e centros de investigação da UC. Um desses exemplos é o conjunto de programas informáticos que estudam satélites artificiais. Este engenho é hoje utilizado por grandes

agências espaciais como a NASA, as Agências Espaciais Europeia e Japonesa. João Gabriel Silva explica que existe “um número importante de ideias a caminho da concretização”, mas admite que “estar na fronteira do desenvolvimento é estar ainda um pouco longe da comercialização”. Do ponto de vista da afirmação a nível internacional, o presidente considera que há uma maior competitividade entre universidades e que é um “caminho com patamares muito elevados, onde é necessário fazer coisas de enorme relevância”. Gabriel Silva reforça ainda a ideia de que “a investigação científica tem que ser o ponto central das prioridades da FCTUC”. Por sua vez, Carlos Fiolhais lamenta que ainda “estejamos um pouco fechados nos nossos centros”, e apela ao fim de “certas ‘capelinhas’ que ainda existem”.

5 INVESTIGAÇÕES COM PERSPECTIVA DE MERCADO ROBÔ CIRURGIÃO A equipa de investigadores da FCTUC desenvolveu um robô manipulador capaz de realizar cirurgias minimamente invasivas. O projecto, financiado pela FCT, será utilizado, primeiramente, na teleecografia. O contacto com objectos orgânicos será para daqui a ano e meio. O robô proporciona segurança e comodidade tanto para o cirurgião como para o paciente. Também o hospital beneficia, pois poupa recursos em internamentos. Maio de 2009

COMBATER O CANCRO Cientistas da FCTUC estudaram o tratamento não-invasivo do cancro e desenvolveram uma nova geração de fotossensibilizadores de eficácia elevada. Estes fármacos são utilizados na terapia fotodinâmica no tratamento do cancro. Este tratamento poderá ser comercializado daqui a cinco anos. Assim, este tipo de terapia poderá evitar a execução de quimio e radioterapia e cirurgia no tratamento de alguns tipos de cancro. Janeiro de 2009

EVITAR PERDA DE VISÃO Uma investigação da FCTUC, financiada pela FCT, levou à descoberta e identificação dos mecanismos que causam os problemas de visão aos diabéticos. O estudo revela que as moléculas energéticas libertam uma substância nociva que mata neurónios e leva à perda de visão. Os investigadores desenvolveram uma molécula que bloqueia ou anula a acção da substância responsável e que, assim, evita ou retarda a perda. Novembro de 2008

SISTEMA CONTRA FRAUDE

APOSTAR NA GEOTERMIA

O sistema de análise inteligente de fraudes, ECA3RL, é uma ferramenta que permite melhorar o desempenho dos analistas e o mecanismo de alertas. Resultado de uma parceria entre a FCTUC, a PT Inovação e a Telbit, a solução tecnológica facilita a detecção de casos suspeitos. Num mercado de telecomunicações competitivo, onde a margem de lucro é pequena, o sistema tecnológico previne perdas elevadas nas receitas das empresas. Maio de 2008

A FCTUC, em associação com a empresa Geovita, desenvolveu um projecto de produção de energia eléctrica através da energia geotérmica. O aproveitamento do calor interno da Terra ocorre devido aos Sistemas Geotérmicos Estimulados. Face aos actuais problemas internacionais de poluição e de escassez de recursos, esta nova energia renovável é ambientalmente limpa e, como o próprio nome indica, é inesgotável. Maio de 2008


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CINEMA

ARTES FEITAS

Zack e Miri fazem um porno ”

K

DE KEVIN SMITH COM ELISABETH BANKS SETH ROGEN JASON MEWES 2009

Porno Afável CRÍTICA DE JOSÉ SANTIAGO

evin Smith está definitivamente de volta às grandes comédias depois do deslize que foi Jersey Girl e do regresso tremido ao campo com Clerks 2. Este não é de maneira nenhuma o melhor filme do realizador, longe disso, mas é a primeira tentativa assumida de comédia fora do universo ViewAskew a que já nos habituou e do qual fazem parte, entre outros, Jay e Silent Bob. O tema em questão é a pornografia e o que pode levar pessoas, aparentemente normais, a entrar para esse mundo. Kevin Smith é implacável na abordagem do tema e não poupa palavras, ou imagens, para nos surpreender. E o grande problema surge mesmo aí. Enquanto que o guião tem momentos muito bem escritos, em certas alturas parece só querer chocar, sem servir à história e sem qualquer tipo de mais valia humorística. Felizmente o todo é maior que a soma das partes e o resultado final é um

filme com muito coração sobre os desencantos de ter trinta anos. Há momentos pirosos, e obrigatórios em qualquer comédia que tenha como protagonistas um homem e uma mulher, mas sempre com o gosto apuradíssimo de um realizador que conhece o inevitável e o encara de frente, sem medos. Seth Rogen, a “musa” inspiradora do produtor e realizador Judd Apatow, continua em grande forma e dá provas de ser o actor cómico do momento. As improvisações sucedem-se e é, sem dúvida, ele quem capta todas as atenções em termos de representação. Pode à primeira vista parecer uma escolha óbvia para garantir uma boa receita nas bilheteiras, mas se é possível juntar o útil ao agradável, é sem dúvida assim. Destaca-se também Elizabeth Banks num registo bastante contido mas que serve à personagem. A química com Seth Rogen não só existe como é a cola que mantém junto todo o delírio apresentado no

ecrã. No elenco podemos também encontrar autores como Justin Long, Craig Robinson e Jason Mewes, que são sempre uma mais valia em qualquer comedia. A grande surpresa surge na ex-actriz pornográfica Traci Lords que, não tendo uma interpretação excepcional, consegue acompanhar bem os seus colegas mais comerciais. “Zack e Miri Fazem um Porno” é uma comédia engenhosa e quase descomprometida. Kevin Smith já se apercebeu que os tempos de Clerks mudaram e com eles mudaram também as pessoas que na altura eram jovens sonhadores e que agora são trintões com uma noção desencantada da realidade. A temática não podia ser mais actual e pertinente, mas claro, com uma dose saudável de sensacionalismo. Para os mais facilmente ofendidos deixo apenas uma pequena informação estatística, em 101 minutos de filme, a palavra “fuck” é utilizada 223 vezes.

Deixa-me entrar”

D

epois de décadas de vampiros anglo-saxónicos, chega agora a vez dos países nórdicos mostrarem o que valem nesta matéria. A maior surpresa dos últimos tempos é, sem sombra de dúvida, “Deixame Entrar”, uma história que envolve crianças mas que está muito longe de ser infantil. O realizador Tomas Alfredson confere a esta obra um tom sombrio e uma narrativa quase poética, numa mistura perfeita entre estética e escrita. As interpretações por parte dos actores de palmo e meio são de uma maturidade pouco habitual, com uma intensidade dramática assombrosa. O filme

podia seguir uma linha mais tradicional de violência, comum aos filmes de terror, ou até mesmo, por envolver crianças, podia não ter nenhuma, mas Tomas Alfredson consegue o balanço perfeito entre momentos de calma e de violência extrema. A linha entre a realidade e a ficção é muito ténue, sendo possível ao espectador acreditar que de facto existe por aí algo que não conhece, o que não é nada fácil tendo em conta os trabalhos recentes que têm sido feitos acerca do tema. Destaca-se o trabalho de cinematografia desenvolvido por Hoyt Van Hoytema que é exímio em todos os aspectos, com cores frias mas

que deixam transparecer o quente do sangue nos momentos apropriados. Não se percebe o esquecimento da academia na passada cerimónia de entrega de Oscars, uma vez que “Deixa-me Entrar” ultrapassa qualquer género e é, na sua essência, uma obra de arte. Não me espanta que Holywood pegue nesta obra e faça um “remake”, já é hábito, o que duvido é que a máquina consiga dar o toque humano e real que tornam o original tão genuíno. O cinema sueco merece ser descoberto e, no nosso pais, este é o cartão de visita perfeito.

JOSÉ SANTIAGO

DE

TOMAS ALFEDSON COM

KÅRE HEDEBRANT LINA LEANDERSSON PER RAGNAR 2009

Faça favor de entrar


2 de Junho de 2009 | Terça-feira | a

cabra | 19

ARTES FEITAS

OUVIR

LER

My Maudlin Career” ’m ready to be heartbroken”, foi a resposta de Tracyanne Campbell à Colar o Coração pergunta de Lloyd Cole and the Commotions, no ano de 2006. Passado três anos os escoceses Camera Obscura regressam com My Maudlin Career, e as feridas sentimentais de quem arriscou ser um coração partido. Se em tempos foram uma pequena banda pop lo-fi de Glasglow sob a sombra pouco escura dos emergentes Belle & Sebastian, os Camera Obscura cresceram em notoriedade e assinaram este ano pela 4AD, mas conservam a mesma doce sinceridade e o leve burburinho de banda de culto. “My Maudlin Career”, é um disco de 11 canções intemporais que poDE díamos ter escutado na década CAMERA OBSCURA passada no nosso walkman ou EDITORA mesmo num vinil guardado entre 4AD Beach Boys e The Ronnetes. “French Navy” abre o disco e com 2009 ele todo o universo clássico da música pop dos anos 60. Escondida por entre uma batida marcada e os arranjos exuberantes de violino que relembram levemente o catálogo da Motown, está a distintiva lírica de Tracyanne Campbell, a tristeza e melancolia declarada pelo sarcasmo e algum cinismo como escudo. Se inicialmente pensamos estar a bater o pé ao som de letras joviais (“You make me go ooh with those things that you do…”), rápido nos apercebemos que a alegria servia para esconder o desencontro. Ao longo do disco Tracyanne Campbell risca um manual das cinquenta maneiras de abandonar um amor e viver com o arrependimento. Apesar das melodias das canções derramarem uma luz intensa na faixa “The Sweetest Thing” pelo coro primaveril, em “Honey In The Sun” pelas trompetes carnavalescas ou em “My Maudlin Career” pelo açucarado piano e a guitarra distorcida lá no fundo, canta-se um fatalismo quase infantil. Muitas das canções que servem este disco parecem familiares próximos das que compunham “Lloyd, I’m ready to be heartbroken”, havendo uma transversalidade que não desilude, pois dos Camera Obscura não esperamos grandes transformações, apenas boas canções pop. Ouvimos o disco de uma ponta à outra, tomamos as vitaminas ao acordar, há alguém que nos espera lá fora… carregamos replay.

I

Breviário das Almas ” “Encomendar a alma é coisa de mulheres”

DE

JOAQUIM MESTRE EDITORA OFICINA DO LIVRO 2009

Q

viagens. Não foi assim há tanto tempo, não foi assim tão longe, nem sequer foi no Alentejo profundo. Mas foi assim quando o meu avô morreu, e quando mais tarde morreu também a minha avó, e foi e é assim em todas as casas onde morar um alentejano, na alma e no verbo. O que tem isto a ver com “Breviário das Almas”? Tem tudo. Joaquim Mestre é, como eu, Alentejano. Assim mesmo, Alentejano. Por isso, quase e só, escolhi “Breviário das Almas”. É uma colectânea de contos, centrado cada um numa personagem, todos eles habitantes de um pequeno monte alentejano. Perdidas no tempo e na geografia, todas retratam puramente os hábitos que recordo da minha avó, do que me contam os meus pais, os meus tios. Do pastoreio, da apanha da azeitona, da monda feita de madrugada, para fugir ao calor, da matança do porco e das linguiças a fumar na lareira e do presunto a salgar num caixote fechado. Da água bebida do cucharro de cortiça, que sabia sempre mais fresca, do café feito na cafeteira de barro, ao lume, com uma brasa de carvão para dar sabor, do pão de uma semana a fazer as sopas na malga. Do homem que, pressentindo o fim da serventia no mundo, não quer ser o peso dos outros e decide a hora da sua morte. “Breviário das Almas” foi como voltar a casa.

SOFIA PIÇARRA

VER

A Turma”

A República

CARLO PATRÃO

GUERRA DAS CABRAS A evitar Fraco Podia ser pior FILME

Vale a pena A Cabra aconselha

EXTRAS

A Cabra d’Ouro

DE

Artigos disponíveis na:

uando o meu avô morreu, as mulheres da casa reuniramse a limpar, a arrumar e a cozinhar. Preparou-se a casa, fizeram-se as sopas, escolheu-se o vinho e as azeitonas para os primos que vinham de fora para velar. As janelas fecharam-se, abriram-se as portas da frente e do quintal, onde a minha avó tinha um pequeno horto. A minha avó, que usando sempre escuro, nunca mais despiu o preto nem tirou o lenço da cabeça ou deixou de usar as meias escuras. Ainda me lembro, debaixo daquele lenço, de se esconder uma trança linda, comprida, cinzenta, que penteava à porta de casa todas as manhãs, para enganar com a luz clara do dia a visão que já lhe fugia. Quando o meu avô morreu, desligaram-se a telefonia (era ainda a telefonia) e a televisão durante meses. A casa estava de luto, os risos estavam escondidos, e eu encontrava paralelismos nos nas mulheres indianas que se imolavam e nas ciganas que não cortam o cabelo quando chegava a viuvez. Quando o meu avô morreu, foi a enterrar no melhor fato, as roupas a uso foram dadas a um homem da mesma estatura, “para usar até gastar”, e comprou-se uma muda completa, roupa interior e sapatos, para oferecer a alguém da terra. O resto foi queimado, para evitar maus-olhados, maus presságios, más

LAURENT CANTET EDITORA FRA 2008

O

realizador Laurent Cantet, ao longo da carreira, tem demonstrado uma predilecção para o retrato de micro realidades sociológicas da perspectiva dos grandes desafios que actualmente atravessam as sociedades contemporâneas. No seu percurso, nada estranho aos grandes prémios internacionais, podemos encontrar "Tous à la Manif" 1994), "Ressources Humaines" (1999) e "L’emploi du temps" (2001), como filmes que comprovam esta tendência. Em “A Turma” (no original “Entre les Murs”), Cantet recorre ao livro semi-biográfico do professor François Bégaudeau (que interpreta a personagem de Monsieur Marin), para retratar as fracturas da sociedade francesa. O elenco, além de contar com o autor do argumento, é composto por alunos seleccionados em escolas do subúrbio de Paris. Esta é a realidade a retratar: uma sociedade multicultural e um sistema de ensino. Os desafios colocados a um professor pelos diferentes sistemas de valores vão colocar em dúvida a sua própria ética, a sua relação com os colegas, e o futuro dos seus jovens

pupilos. “A Turma” garantiu para o cinema francês a única Palme d’Or (2008) dos últimos 21 anos do festival de Cannes. O impacto do filme de Cantet sente-se para além do mundo cinematográfico, devido ao valor documental que lhe é atribuído, considerado por muitos como um verdadeiro reflexo das relações pedagógicas e dos problemas éticos que se desenvolvem na sala de aula. A acção decorre “entre as paredes” da sala de aulas, da sala de professores, da escola, ao longo do ano escolar, enfatizando esta “prisão” a que os intervenientes no processo educativo estão sujeitos e, naturalmente, às particulares relações sociais que se desenvolvem neste contexto. O estilo de filmagem “hand-held”, que se tem tornado num recurso cinematográfico descomedido, é particularmente feliz, numa película que não é acompanhada por banda-sonora. “A Turma”, pela qualidade cinematográfica e pertinência temática, tornou-se numa presença obrigatória em qualquer colecção de DVD.

PEDRO NUNES


20 | a cabra | 2 de Junho de 2009 | Terça-feira

SOLTAS

ALMOÇO SOCIAL

CARLOS JESUS • ORGANIZADOR DO XI FESTIVAL DE TEATRO DE TEMA CLÁSSICO Sopa de Legumes

Frango assado

XI FESTEA

HISTÓRIA FESTEA ESTUDOS CLÁSSICOS

O que está a ser programado para esta edição? O Festival Internacional de Teatro de tema Clássico (FESTEA) teve a primeira edição em 1999. Inicialmente, chamava-se Encontros de Teatro de Conimbriga, e só depois se tornou no que é hoje. Esta 11.ª edição começou em Abril e estendese até 26 de Julho. Nos primeiros meses, foi mais direccionado para escolas, embora os espectáculos tenham estado abertos ao público. Em Julho, ganha uma faceta de festival de Verão, com a realização de espectáculos de rua, à noite. Uma das características é o facto de podermos fazer essas apresentações em locais arqueológicos e museológicos. Temos uma preocupação de cooperação e reabilitação do património.

Como surgiu a organização que promove o festival? A associação promotora do festival existe desde que surgiu a necessidade de criar uma estrutura mais coerente do que aquela que tínhamos com os Encontros de Teatro de Conimbriga. Criou-se então esta associação, que se situa no Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da UC e que tem uma ligação com o próprio Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos. Para além de realizar anualmente a edição do festival, tem uma série de outros eventos, tais como conferências e workshops sobre expressão dramática e danças. Há também todo um trabalho de assinatura de protocolos e planeamento de actividades.

Qual é o principal objectivo? Pretendemos fazer uma dinamização da cultura clássica não só em Coimbra como em todo o país. O festival é de tema clássico, o que não significa que apresentemos exclusivamente peças com dois mil ou 2500 anos. Na maioria, são peças romanas e gregas, com entrada gratuita. Isto porque pensamos que têm alguma qualidade e que pode levar à dinamização dos espaços museológicos. Em Maio, tivemos espectáculos de ópera onde se misturou canto e drama com teatro. Normalmente, quem prepara as peças tem o cuidado de inserir os temas clássicos, pois não são escritas na Antiguidade.

Que balanço faz destes dez anos de actividade? A avaliar pelo público, o balanço é muito positivo. Não estarei a exagerar se falar numa média de 100 espectadores por espectáculo, o que para peças de estrutura amadora é bastante significativo. Temos a sensação de que há muita gente que assiste a este tipo de espectáculo. O ‘feedback’ que recebemos da nossa actividade também é muito importante, tal como estudantes que criam grupos de teatro clássico na escola. A mensagem passa e importa-nos também formar um público. Temos a preocupação de levar espectáculos não só aos grandes centros urbanos, mas também a pequenas cidades onde as pessoas não têm o mesmo acesso ao teatro.

Laranja

Que análise faz do estado dos Estudos Clássicos em Portugal? Numa perspectiva global, o panorama dos clássicos não é bom. É uma arte muito específica que não tem sequer 50 alunos por ano. No ensino secundário, são muito raras as escolas que têm o ensino das línguas clássicas. O grego, por exemplo, já desapareceu há imenso tempo. Mas não se pode dizer redondamente que não há emprego; não há tradicional como existia há 15 anos, que era a docência. Não se afigurava acabar o curso e não ter o que fazer. O que mudou é que a vertente ensino não está aberta neste momento. Os Estudos Clássicos são actualmente entendidos como dando uma série de valências na literatura, na arte e na filosofia, o que permite que as pessoas vão enveredando por outras profissões. Quais as novas oportunidades profissionais na área? Têm surgido centros de investigação, algo que vai sendo apoiado através de bolsas. E aí ainda há muita coisa a fazer. A investigação não tem que seguir aquela ideia de pessoas a trabalhar numa sala cheia de mofo. Existe muito a relação da pragmática com a literatura contemporânea e com o teatro. Pela minha experiência na organização do festival, percebe-se que vai havendo interesse em voltar aos clássicos, não tanto pela aprendizagem das línguas, mas pela vertente do teatro e da História. O teatro clássico tem desempenhado uma função de divulgação importante, porque levamos os textos às pessoas. Andreia Silva

FILIPA FARIA

1 DE JUNHO DE 2004 • EDIÇÃO N.º 115 • QUINZENAL GRATUITO

ESTUDANTES PROMETEM INVADIR AMANHÃ O SENADO”

mês de Junho de 2004 começava com o anúncio da invasão do Senado Universitário, aprovada em Assembleia Magna. A CABRA anunciava então que o objectivo dos estudantes era impedir a fixação da propina máxima de

O

852 euros para o ano seguinte, já que em Novembro de 2003 esta havia sido reduzida ao valor mínimo, de 463 euros. O então presidente da Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Miguel Duarte, alegava que a invasão do senado não era a melhor solução, mas que esse era o único recurso. Alguns dos alunos não poderiam continuar a estudar, muitos outros nem poderiam ingressar no primeiro ano se o aumento se concretizasse. O protesto era contra a política educativa do governo e contra a falta de investimento estatal no ensino superior, sendo que a invasão do senado a 2 de Junho ia adiar, por pelo menos mais um mês, a fixação do valor da propina. Em resposta ao anúncio de protesto, o reitor Seabra Santos afirmou compreender a contestação

dos alunos, embora prometesse “tomar as medidas adequadas” se os estudantes enveredassem pela invasão. Para além da invasão do senado, a semana anterior tinha sido recheada de acções simbólicas. Eram variadas as encenações onde se satirizavam personalidades como o primeiro-ministro, Durão Barroso, ou a então ministra da Ciência e Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho. Eram acções de sensibilização dirigidas não só à comunidade estudantil como também à comunidade civil. Mas a agitação não se sentia só por Coimbra. Em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país aconteciam protestos semelhantes. Ainda por Coimbra, os panfletos distribuídos comparavam ironicamente o grande investimento na construção dos estádios de futebol, no contexto do Euro

18ºANIVERSÁRIO A CABRA sai do arquivo...

2004, com o pobre investimento do governo no ensino superior. O editorial desta edição também era dedicado ao tema. O director Emanuel Graça decidiu lembrar alguns artigos da Constituição Portuguesa e compará-los com as dificuldades do momento: “Todos têm direito à educação e cultura”. “Imaginese agora uma família com dois filhos em idade de frequentar o ensino superior”, acrescentava o director. O editorial fazia um ponto da situação sem esquecer, obviamente, o sentimento de

injustiça e revolta dos estudantes. Ana Rita Santos


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O MUNDO AO CONTRÁRIO

SOLTAS

RÚSSIA Foi encontrada uma planta com cinco centímetros a crescer dentro do pulmão de um russo. Artyom, de 28 anos, tinha dores no peito e tosse persistente com sangue. Suspeitava-se que tinha cancro nos pulmões. Contudo, durante a operação, verificou-se que não se tratava de cancro, mas sim de uma árvore. Os médicos acreditam que Artyom pode ter inalado uma semente de abeto que começou a crescer dentro do sistema respiratório do jovem russo.

TEM DIAS... Por Licenciado Arsénio Coelho

O DIA ANTERIOR iz-se por aí que na hora da nossa morte conseguimos ver a vida a passarnos à frente dos olhos. Eu descobri mais dois momentos em que isso acontece: no dia em que a nossa namorada nos diz “não me vem o período” e no dia ante-

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rior a um exame final. Como já estamos muito próximos do final do ano lectivo, e porque o tema impõe-se, vou utilizar estas duas milenas de caracteres para desconstruir um dos dias mais peculiares na vida de um estudante universitário (por muito

EUA Uma pastelaria está a chamar a atenção do outro lado do planeta. As funcionárias servem os clientes em topless. Para seleccioná-las, o proprietário inspeccionou os seios de 150 jovens candidatas e havia apenas dez lugares disponíveis. Aparentemente toda a gente está satisfeita, só os vizinhos reclamam com o movimento na rua. JAPÃO Shigeo é careca e tem dentes postiços, mas no que respeita ao sexo é uma estrela. É o mais velho actor porno do Japão. Os seus filmes são vistos em toda a parte do país e distribuídos gratuitamente nos lares de terceira idade. Sara Coimbra

CARICATURA POR GISELA FRANCISCO E ILUSTRAÇÃO POR JOÃO MIRANDA

tentador que possa ser o outro tema). Embora seja um dado pouco divulgado, foi precisamente na véspera de uma avaliação que Einstein desenvolveu a sua teoria da relatividade. No dia anterior a um exame, existem claramente duas velocidades temporais a acontecer simultaneamente. Enquanto que para uns o dia continua na sua rota habitual dos 60 minutos por hora, para os que têm exame no dia a seguir cada hora têm cerca de cinco minutos. Se estás em casa a estudar e deixas cair alguma coisa no chão, só o simples acto de a apanhares consome-te cerca de 45 minutos. Podem experimentar, está provado. Curiosamente, nestas alturas, o cérebro tem tendência para começar a recapitular todos aqueles momentos em que estivemos a ver televisão sem nada para fazer, ou aquelas vezes em que nos deitámos tarde só porque estávamos no You Tube a ver vídeos de gente a cair de escadas rolantes. Outro fenómeno interessante é aquele a que muitos cientistas chamam de “flashada”. A “flashada” verifica-se no exacto momento em que resolves rever as fotocópias que estiveste a sublinhar no dia anterior com o teu marcador “Stabilo Boss” e constatas que afinal a tua capacidade de selecção não é tão apurada quanto

desejarias. Chama-se “flashada” porque tudo o que consegues ver em todas as páginas é um imenso borrão amarelo fluorescente que percorre todas as linhas. À medida que se aproxima a hora do exame, começam a ocorrer outras alterações cognitivas passíveis de ser analisadas. Uma das mais recorrentes é a “obsessão filosófica”, que se caracteriza por uma súbita predisposição para reflectir sobre temas de índole filosófica (“Porque é que tenho que sofrer assim?” e “Porque é que não reencarnei numa gaivota?” são algumas das questões mais recorrentes). Porque outro lado, também é frequente o estudante apresentar sintomas de amnésia aguda. Isto acontece sobretudo quando, ao tentar fazer uma revisão geral à porta da sala do exame, não nos lembrarmos de absolutamente nada, e nem reconhecermos a própria letra com a qual escrevemos um segmento de matéria que naquele instante nos parece absolutamente críptico. Resta-nos desejar que passe depressa. E que seja o mais indolor possível. No fundo, como a nossa vida depois de terminar o curso. Todas as crónicas em

arseniocoelho. blogs.sapo.pt

COM PERSONALIDADE CAMILO SOLDADO

JOSÉ DIOGO QUINTELA • 32 ANOS • HUMORISTA

O ARGUMENTISTA QUE QUERIA SER ESTRELA DE ROCK Entrei no curso de comunicação social porque na altura era jovem, burro e inconsciente. Achava que queria ser jornalista e depois, ao longo da universidade, descobri que não tinha assim tanto jeito. Estava descontente, no terceiro ano, à procura de qualquer coisa e tinha mandado uns textos para as Produções Fictícias. Gostava de fazer isso e achava que tinha capacidade para o fazer. Foi nessa altura que eu saí da universidade. Vai haver vida depois do Gato Fedorento. A não ser que morramos num acidente de avião ou de carro como hoje era para acontecer com o Ricardo a guiar. Não sei se vai ser vida útil mas confesso que tenho grandes dúvidas sobre o que é que irei fazer depois disto. É um projecto muito desinteressante e para já tem um fim à vista, quando acabarmos o contrato com a SIC, vamos deixar de fazer programas de televisão neste formato de contrato com estações. Agora o fim à vista do grupo não está planeado, somos mais do que colegas de trabalho e sócios. Sinto-me mais confortável como argumentista do que como actor e sinto-me muito mais limitado a representar, embora sinta que evoluí muito ao longo destes cinco anos em relação ao que era. A melhor fonte de inspiração é a realidade do dia-a-dia, é um lugar-comum dizê-lo mas coisas tão simples como estar a dar estes autógrafos, vemos que têm potencial humorístico. Não acho que tenhamos mexido na fasquia do humor em Portugal, baixámo-la muito para poder passar só com um saltinho. Ao princípio tínhamos uma ideia daquilo que queríamos atingir, queríamos que as pessoas soubessem quem nós somos, mas atingir este mediatismo não estava nas nossas melhores hipóteses, provavelmente poderíamos ter feito melhor mas também poderíamos ter feito muito pior. É uma sucessão de alguns acasos, golpes de sorte e de muitas oportunidades que agarrámos como começar a fazer o programa na SIC Radical, passar para a RTP, ter feito espectáculos ao vivo que ajudaram a divulgar o Gato Fedorento. Quando fazemos um trabalho queremos que seja bem sucedido e quando fazemos coisas na televisão, o sucesso do trabalho implica ser conhecido. Tudo o que seja uma personagem bruta, se tiver que abanar os outros tanto melhor, gosto de gritar e de fazer de polícia, de usar bigode e abaná-los. Basicamente se for isso, fico contente. Se consigo intrujar a representar nos sketches, também não me custa cantar. O meu sonho era ser estrela de rock e escolhi o humorismo porque me pareceu a maneira mais fácil de chegar lá. A qualquer momento vou saltar para uma carreira na música e isto é o primeiro aviso, porque vem aí um Zé Diogo estrela de rock e as estrelas de rock podem fazer muito mais porcaria e ninguém as chateia. Podem partir quartos de hotel, os humoristas não. Quando não estou a trabalhar sou um bocadinho mais reservado. É natural que assim seja, mas as pessoas não têm que saber isso e também não é nada que me chateie, portanto sou uma pessoa muito engraçada mesmo fora do trabalho. Entrevista por Camilo Soldado


22 | a cabra | 2 de Junho de 2009 | Terça-feira

OPINIÃO

SALVEM A CRIAÇÃO

Isabel Maria Cunha *

SARA SÃO MIGUEL

Deixamos que se apaguem tantas e tantas mentes perfeitas por fome, nas guerras, nas catástrofes, nos acidentes e gastamos milhões a simular uma mais que imperfeita?

Cartas ao director podem ser enviadas para

acabra@gmail.com

Acabara de ler “A Criação” de E. O. Wilson, quando me pediram um artigo relativo ao Dia Mundial do Ambiente. Porque gostei do que li e da forma como está escrito, não resisti a usar excertos desse livro para pôr em realce as preocupações e objectivos da Biologia do séc. XXI. Desde o Neolítico, o Homem tenta ascender da natureza em vez de à natureza. Olha à sua volta e aquilo que para ele tem interesse é bom, o que não tem é desprezado ou destruído. Demorou muito, até o Homem compreender que o seu destino está indissoluvelmente ligado ao destino da Criação. Enquanto evoluía como espécie, destruiu a maior parte do mundo natural, para melhorar a sua vida e dar origem a mais pessoas na ordem dos milhões de milhões, pondo em perigo toda a criação. Segundo Wilson, esta espécie de bípedes vacilantes é a primeira na história da vida a tornar-se uma força geofísica. Mudou a atmosfera e o clima terrestres afastando-os da norma; espalhou tóxicos por todo o mundo; apropriou-se de 40 por cento da energia solar disponível para a fotossíntese; reconverteu quase toda a terra arável; construiu represas na maioria dos rios; elevou o nível do mar e, agora, está prestes a esgotar a água doce disponível. Para o mesmo autor, o impacto humano no ambiente natural está a acelerar, de tal modo que, se a reconversão de habitats e outras acções humanas destrutivas continuarem à taxa actual, metade das espécies de plantas e animais na Terra poderão estar extintas ou condenadas precocemente, até final do século. Mais, a taxa actual de extinções, baseada nas estimativas mais conservadoras, é cerca de 100 vezes superior à que existia antes de o Homem ter aparecido na Terra e estima-se que venha a ser mil vezes superior, ou mais ainda, nas próximas décadas. Só que, cada espécie, por modesta que possa parecer, é um mundo em si própria, é uma obra-prima que merece ser salva. Wilson identifica o grande desafio do séc. XXI, como sendo o de elevar as pessoas em todo o mundo a um nível de vida digno, preservando simultaneamente o máximo possível das restantes formas de vida. Refere ainda, que as TIC criaram a convicção, que os casulos da vida

material urbana e suburbana são suficientes para a realização humana. Só que, as raízes espirituais do Homem encontram-se arreigadas no mundo natural e, sem percebermos a origem e o sentido das qualidades estéticas e religiosas que nos tornam inefavelmente humanos, não atingiremos todo o nosso potencial. Muitas pessoas parecem contentar-se em viver dentro de ecossistemas completamente sintéticos. Tal como acontece com os animais domésticos criados em habitats grotescamente anormais. Contudo, diz Wilson, não está na natureza dos seres humanos serem frangos em esplêndidos aviários. Precisamos da liberdade de deambular por terras que não são de ninguém, mas são protegidas por todos. Contudo, o mundo real, permeado de pessoas, é hoje um caleidoscópio de situações extremas e intermédias que vão de habitats com milhões de anos a parques de estacionamento, a evoluir no sentido do humanizado, do simplificado, do instável. Wilson identifica como o grande problema da civilização actual a disfunção entre dois níveis de evolução: o da nossa herança genética antiquíssima e com uma evolução extraordinariamente lenta, e o da nossa evolução cultural ultra-rápida, considerando haver, hoje, um contraste crescente entre formas de pensar mais que retrógradas de certos indivíduos com poder e forças de destruição espantosas. Como grandes objectivos da Biologia actual, aponta, entre outros: Criar vida; Simular a mente humana, combinando a inteligência artificial com emoção artificial. Apetece-me perguntar: A vida já não está criada? Será legítimo gastarem-se fortunas, a tentar criar vida, enquanto se deixa morrer ou se provoca a extinção de tanta vida já criada? Deixamos que se apaguem tantas e tantas mentes perfeitas por fome, nas guerras, nas catástrofes, nos acidentes e gastamos milhões a simular uma mais que imperfeita? Referência bibliográfica: Wilson, E. O. (2007) A Criação – um apelo para salvar a vida na Terra. Ed. Gradiva * Professora de Biologia e Geologia do ensino secundário, aposentada PUBLICIDADE


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OPINIÃO DESPORTO UNIVERSITÁRIO, QUE ATITUDE?

EDITORIAL “SÓ FALTA A ACÇÃO”

Eduardo Cabrita *

Segundo o último senso, a participação dos estudantes da Universidade de Coimbra nas provas organizadas pela Federação Académica de Desporto Universitário registou esta época a presença de 160 atletas, repartidos por várias modalidades. Ao invés de comentarmos a participação desportiva, e tendo em vista o número de estudantes que frequentam as diferentes faculdades, optámos por colocar a seguinte questão: estarão as secções disponíveis para dedicar ao desporto universitário, o tempo e os meios que dedicam às modalidades filiadas noutras federações? Não restam quaisquer dúvidas que sim. Mas quer a Federação Académica de Desporto Universitário, quer o Conselho Desportivo da Associação Académica de Coimbra terão de produzir alterações às rotas

traçadas. A primeira, cimentando uma organização bem mais sólida que a vigente (não é possível transmitir às secções habituadas a sistemas credíveis, muitas delas baseado na palavra e no relacionamento pessoal com árbitros, dirigentes e atletas, a ideia de não cumprimento do previamente estabelecido); ao Conselho Desportivo da AAC e apesar do esforço que faz no que se refere ao Campo de Santa Cruz, hoje local de eleição da prática desportiva universitária, a capacidade de defender um projecto, tendo em vista a regionalização do desporto na univer-

sidade. Isto é, promover a realização da actividade desportiva nas faculdades, independentemente da participação na competição nacional. Aceitando que esse trabalho, deverá ter vários aspectos relacionados com a competição, recreio e convívio. Nesse sentido, estamos em crer, dar-se-ão passos significativos na consolidação do sector desportivo, da associação académica, permitindo-lhe encontrar praticantes que chegam para estudar, mas que trazem na bagagem o gesto desportivo das modalidades que aprenderam na proveniência. De qualquer forma, o desporto universitário estará sempre condicionado pela orientação que o país der à sua juventude. Não é na universidade, mas sim na escola primária que o combate ao analfabetismo desportivo deve ser feito. Aqui só poderá ser amenizado, através do estímulo à prática, à recreação e ao convívio dos que já executam ou encontram no jogo, o equilíbrio emocional para os desafios que as actividades curriculares exigem. É neste contexto que ou conseguimos construir a oportunidade sucessivamente negada por muitos, ao agirmos com a coragem de quem quer mudar, ou seremos inquestionavelmente ultrapassados. O que há a fazer, terá que ser feito agora. A vocação da associação académica é servir os estudantes. Cento e vinte e poucos anos de história sempre afirmaram que servir os estudantes nunca implicou, voltar as costas à cidade ou ao país, acabar com a participação e o compromisso que o sector desportivo da associação académica mantém com as outras federações. * Membro da Secção de Ténis da AAC

NOTA EDITORIAL O portal informativo ACABRA.NET, apesar de se encontrar online, continua sem possibilidade de actualização por motivos técnicos.

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 e-mail: acabra@gmail.com

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O ensino superior representa um pilar para o desenvolvimento e avanço de qualquer sociedade. Desta premissa ninguém tem dúvidas e a difusão desta máxima pelos mais variados sectores só justifica a sua unanimidade. Contudo, torna-se alarmante que numa campanha eleitoral que envolve 13 candidaturas, poucas se debrucem sobre a temática de uma forma aprofundada e ainda menos apresentem propostas concretas que não desligadas das singularidades que ela envolve. O fim progressivo da discussão sobre o rumo do ensino superior português nas instituições políticas nacionais e a sua transferência para as instâncias europeias representa um perigo para a autonomia nacional do ensino superior e para a especificidade das suas necessidades, a que nenhum dos programas eleitorais dos partidos candidatos deveria ser alheio. Também num momento em que os cortes financeiros para as instituições se tornam cada vez mais asfixiantes e a redução de apoios sociais empurra cada vez mais estudantes para situações de profunda precariedade, é imperioso que se proponham e se discutam propostas mais concretas do que questões de mobilidade intra-europeia ou de âmbito geral.

O sucesso da iniciativa depende também da capacidade mobilizadora efectiva da associação académica

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Já há algum tempo que um Encontro Nacional de Direcções Associativas (ENDA) não acontecia em Coimbra e alguns viram a realização da reunião do último fim-de-semana na faculdade de Economia como uma vitória... Também já há algum tempo que do ENDA não saía uma acção de luta de âmbito nacional. Relativizando as duas, talvez a segunda premissa represente uma vitória maior para o ensino superior de Coimbra. A aprovação de “uma iniciativa conjunta a nível nacional no mês de Outubro”, que tanto o proponente da moção como Jorge Serrote já vieram confirmar tratar-se de uma manifestação em Lisboa representa muito mais do que um simples cumprir agenda de magna. O desvio em relação à data proposta na assembleia magna só pode ser encarado como uma oportunidade. Uma oportunidade de desenvolver um real trabalho de informação e de mobilização. De criar estruturas e plataformas de galvanização que não se prendam unicamente com as propostas na moção, mas que tenham capacidade de auferir e de denunciar os problemas dos estudantes de Coimbra, porque o sucesso da iniciativa depende também da capacidade mobilizadora efectiva da associação académica. E porque, parafraseando por alto um dos intervenientes do encontro, “só falta a acção, as condições estão todas reunidas”. João Miranda A CABRA ERROU Na última edição d'A CABRA (198), refere a infografia da página 15 que o Bloco de Esquerda conta com 11 deputados no Parlamento, quando, na verdade, são oito. Na página 19, a crítica ao livro “A Balada do Café Triste” foi, por lapso, atribuída a Carla Santos, quando a autoria pertence a Fátima Almeida. Também onde se lê Murson McCullers deve ler-se Carson McCuller’s. Aos leitores, as nossas sinceras desculpas. A direcção

Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo ICS nº116759 Director João Miranda Editor-Executivo Pedro Crisóstomo Editor-Executivo Multimédia: João Ribeiro Editores: André Ferreira (Fotografia), Cláudia Teixeira (Ensino Superior), Sara Oliveira (Cultura), Catarina Domingos (Desporto), Andreia Silva (Cidade), Rui Miguel Pereira (País & Mundo), Diana Craveiro (Ciência & Tecnologia) Secretária de Redacção Sónia Fernandes Paginação Pedro Crisóstomo, Sónia Fernandes, Tatiana Simões Redacção Alice Alves, Ana Coelho, Ana Rita Santos, Bruno Monterroso, Catarina Fonseca, Filipa Faria, Filipa Magalhães, Hugo Anes, Luís Simões, Maria João Fernandes, Maria Eduarda Eloy, Marta Pedro, Patrícia Gonçalves, Patrícia Neves, Pedro Nunes, Sara São Miguel, Tiago Carvalho, Vasco Batista, Vanessa Quitério Fotografia Ana Coelho, Bruna Guerreiro, Camilo Soldado, Filipa Faria, Leandro Rolim Ilustração Rafael Antunes, Tatiana Simões Colaboraram nesta edição Camilo Soldado, Cristiana Pereira, Matheus Fierro, Miguel Custódio, Sara Coimbra Colaboradores permanentes Ana Val-do-Rio, Carla Santos, Carlo Patrão, Cláudia Morais, Dário Ribeiro, Emanuel Botelho, Fátima Almeida, Fernando Oliveira, François Fernandes, Inês Rodrigues, José Afonso Biscaia, José Santiago, Milene Santos, Pedro Nunes, Sofia Piçarra, Rafael Fernandes, Rui Craveirinha Publicidade Sónia Fernandes - 239821554; 914926850 Impressão FIG - Fotocomposição e Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra


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Ana Jorge

Os genéricos passaram a ser gratuitos para os pensionistas com rendimentos inferiores ao salário mínimo. Cerca de um milhão vai beneficiar com a lei, que entrou em vigor ontem, 1. Quando muito se critica o governo por descurar as medidas sociais, a postura do Ministério da Saúde constitui uma grande ajuda a um dos grupos com mais carências. Resta agora que a prescrição de genéricos deixe de ser excepção. J.R.

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Jorge Serrote

Na penúltima magna, foi aprovada uma moção que previa uma manifestação nacional em Lisboa para posterior aprovação em ENDA. Jorge Serrote cumpriu o prometido: apresentou a moção no plenário das académicas e fez todos os esforços para que fosse aprovada. Apesar de ter sido chumbada, espera-nos uma ida a Lisboa, em Outubro. Será que estamos perante um novo rumo político do movimento associativo nacional? C.T.

Notas sobre arte...

Gordon Brown

A dias das eleições europeias, o Partido Trabalhista aparece em terceiro lugar numa sondagem, atrás dos nacionalistas do UKIP (Partido para a Independência do Reino Unido). Só recuando até 1987 encontramos a última ocasião em que os trabalhistas obtiveram semelhante resultado. O escândalo dos gastos dos deputados pesa sobre a opinião dos britânicos e o eurocepticismo ganha terreno em terras de Sua Majestade. J.R. PUBLICIDADE

Fluxos • Tatiana Santos Acrílico s/ tela • 2008 Para quem gosta de preto no branco, aqui vai: a arte abstracta não é para vocês. Com ela, as fronteiras entre elementos diferentes misturam-se. Neste quadro, tal é visível em diversos aspectos. Existe uma ordem, mas também uma desordem; existe uma imagem previamente definida na mente do autor, mas é impossível calcular até onde escorre “aquela” gota de tinta. Talvez mais do que isso, será impossível de interpretar, de entender o significado da obra. Talvez seja essa impossibilidade de interpretação definitiva (que os críticos afirmam ser o ‘nonsense’ do abstraccionismo, que retira qualquer margem para mérito aos artistas que atiram tinta ao calhas”) que torna único e entusiasmante este movimento artístico, as suas obras, ou até a vida em geral. Até porque, talvez em arte o verdadeiramente importante não seja a razão, mas sim a sensação. Ao observar o quadro, quem pode dizer

que o mesmo não lhe desperta sensações? Pode sentir-se, por exemplo, que cada traço tem o seu lugar, que está óptimo naquela posição e não noutro sítio, que as cores ideais são essas e não outras ou que o próprio quadro tem um qualquer significado abstracto (passe a redundância), quiçá com inspiração poética ou filosófica. É a própria autora que esclarece que o quadro não surgiu após uma dissertação pelo imaginário poético, referindo ao invés o termo "técnica". Faz sentido. Talvez o artista seja ao mesmo tempo criador e intérprete, despertando sensações nos outros sem saber quais; descrevendo com a sua técnica, numa tela física, reminiscências de um "mundo das ideias" habitado por conceitos imateriais, como o Belo. O trabalho de Tatiana Santos encontra-se exposto na Galeria Ícone, dirigida pela própria, no Pátio da Inquisição. Por Bruno Monterroso PUBLICIDADE

Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA - 199  

Edição 199 do Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA

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