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DA MÚSICA PARA O TEATRO

BIODIVERSIDADE

FOTOGRAFIA

Sérgio Godinho fala com um brilhozinho nos olhos sobre o “bichinho” dos palcos e do confronto que é representar

As espécies em vias de extinção e as novas descobertas

Subimos a Serra da Lousã para descobrir o Talasnal

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19 de Maio de 2009 Ano XVIII N.º 198 Quinzenal gratuito

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a cabra

Director: João Miranda Editor-executivo: Pedro Crisóstomo

Jornal Universitário de Coimbra

Espólio museológico da universidade vai para o Museu da Ciência da UC A segunda fase do projecto do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) estabelece a incorporação de grande parte do espólio científico universitário numa nova

estrutura, no edifício do Colégio de Jesus. O director, Paulo Gama Mota, explica que o projecto, com um orçamento total de 16 milhões de euros, já está em marcha e que,

numa “perspectiva optimista”, estará concluído em 2013. A proposta prevê também a inclusão física dos actuais museus Mineralógico e Zoológico na estrutura. O

pró-reitor para os museus da UC, José Mendes da Silva, defende que o projecto pode ser a solução para o desordenamento do acervo museológico e propõe criar um museu de-

dicado à história da universidade. No rescaldo do Dia Internacional dos Museus, fomos percorrer algumas exposições que por cá se fazem.

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Uma identidade,

um estilo À luz da diferença das subculturas, há quem se afirme pela originalidade P8e9

LEANDRO ROLIM

Pedro Rocha Santos

Parlamento

Jazz atrai cada vez mais jovens

Mesmo com obras, Candidatura com a AR continua igual uma vida difícil

A dias de mais uma edição dos Encontros Internacionais, em Coimbra, o presidente do Jazz Ao Centro Clube fala, em entrevista, do desenvolvimento do género em Portugal, das iniciativas a realizar e das dificuldades em manter a única revista de jazz em Portugal.

A Assembleia da República (AR) conheceu recentemente uma reforma a nível tecnológico e de infra-estruturas. Apesar das alterações, a instituição mantém praticamente o mesmo modo de funcionamento desde a Segunda República. Circulos eleitorais, número de deputados e disciplina de voto são aspectos que podem mudar.

A Albânia junta-se ao lote de candidatos à União Europeia (UE). Em Abril foi formalizada a candidatura, mas a adesão ainda vai demorar. Os problemas são vários, desde logo a complicada transição para a economia de mercado, deficiências estruturais e a ausência de um efectivo Estado de Direito.

Em Coimbra, treinam os dez únicos participantes nacionais de lacrosse. A modalidade ainda é desconhecida e não existe nenhuma federação portuguesa. O grupo tem acolhido figuras internacionais para trazer experiência para solo português.

O ENDA realiza-se em Coimbra durante os dias 29, 30 e 31 de Maio. A AAC vai apresentar uma moção para uma manifestação nacional, mas, de acordo com Jorge Serrote, a proximidade com a época de exames poderá ditar a sua reprovação. Subfinanciamento do ensino superior e agravamento da situação da acção social são os temas que preocupam estudantes.

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Albânia na UE

Lacrosse

Académicas

Modalidade procura Encontro decide rumo político as primeiras bases


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DESTAQUE

PEDRO COELHO

AO ANTIGO edifício do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha foi acrescentado um novo centro interpretativo com salas de exposição

No trilho da cidade dos museus O Dia Internacional dos Museus assinalou-se ontem. A CABRA foi conhecer os novos espaços de exposição de Coimbra e perceber que novos projectos se prevêem para a cidade. Por João Miranda e Ana Rita Santos o outro lado do rio, não passa despercebido a qualquer olhar mais ou menos fugidio. Impõe-se uma questão – o Mosteiro de Santa Claraa-Velha não é um museu por si só, apesar do acervo que reúne e da forma como o dispõe possam indiciar isso mesmo. O átrio da entrada está quase vazio e talvez isso explique a forma quase personalizada e entusiástica como somos recebidos pelo guia. “A visita começa aqui, mas se quiserem ver um filme sobre a história do mosteiro, são só 18 minutos”. Entramos para um pequeno auditório, connosco só mais cinco turistas e um trabalhador do mosteiro. “Preparem-se para uma viagem ao passado”, atira o guia da exposição enquanto as luzes da sala se apagam. Durante os 18 minutos, somos transportados para o século XIII, para a fundação do mosteiro, e viajamos quase ao sabor das marés que durante quatro séculos invadiram o edi-

D

fício. Ainda a ficha técnica do filme está a correr e já o guia convida a entrar na próxima sala. Despedimonos, afinal nunca mais o vamos ver ao longo da exposição. O espaço seguinte está dividido por várias salas. Cada uma representa duplamente uma fase da vida do mosteiro e das vivências das freiras que o ocupavam. Mas comecemos pela primeira, entre vídeos explicativos e utensílios medievais. Um imponente dragão de pedra ocupa o centro do espaço, virado para as restantes salas, como que desafiando a seguir a exposição. Objectos do quotidiano recuperados no mosteiro e os respectivos vídeos explicativos são, aliás, uma constante da restante exposição. A última sala, a “Morte”, ramificase numa representação tripartida: para além do óbvio fim da mostra, os túmulos e objectos de luto demonstram não só os rituais fúnebres como o próprio fim do mosteiro. Saímos pela primeira vez do novo edifício, para uma longa passadeira de ma-

deira. À nossa esquerda, o Memorial à Água, colocado ironicamente sobre um pequeno lago artificial, passa repetidamente um vídeo que explica a relação da cidade com o Mondego e como as águas do rio obstinadamente iam invadindo o espaço do mosteiro. A passadeira já está quase no fim e agora o caminho faz-se por entre uns muros toscos de cimento. Depressa encontramos a entrada pela lateral do edifício. O percurso criado com finas placas de madeira não deixa outra opção. O próximo passo é para o coro do mosteiro. Uma espécie de palco de marionetes improvisado com panos coloridos destoa do monocromatismo que compõe o resto do edifício. Ao lado, um ecrã plasma mostra uma possível visita ao mosteiro do século XIII. A visita termina onde começou, no átrio do novo edifício, agora mais repleto.

Um projecto com mais de 18 anos Inaugurado há um mês, a actual es-

trutura do Mosteiro de Santa Claraa-Velha resulta de um complexo projecto de recuperação com mais de 18 anos, com um custo que ultrapassa os 20 milhões de euros. Ao edifício principal, que foi alvo de um processo de remoção das águas que o inundavam e de obras de restauro, acrescentouse uma nova estrutura com mil metros quadrados que inclui zonas de exposição, um espaço museológico, um auditório, uma loja e uma cafetaria. Segundo o responsável do projecto de valorização do espaço e coordenador arqueológico do mosteiro, Artur Côrte-Real, este “trata-se de um monumento paradigmático para a cidade de Coimbra, que torna possível contar a história através de várias temáticas e mostrar a ruína de uma forma completamente diferente do normal”. Concluída a quarta fase de intervenção arquitectónica, os esforços passam agora por “criar dinâmicas culturais com base numa programação sistemática”. “É um

sítio que tem a capacidade de vir a albergar um conjunto muito vasto de eventos, desde a técnica, passando pelo teatro, pela dança, sustentado numa programação sustentável”, resume Côrte-Real.

O segundo maior do país Do outro lado do Mondego, na Alta de Coimbra, mais de dois mil anos de história sepultam-se no recentemente inaugurado Museu Nacional Machado de Castro. Para a directora, Ana Alcoforado, “este projecto é muito importante para a cidade e para a Alta da cidade”. “O museu tem sido referido como o segundo maior museu nacional e, depois deste projecto de requalificação, é um modelo de referência internacional”, defende ainda. Após dois anos de obras de remodelação e ampliação a partir de um projecto com a assinatura do arquitecto Gonçalo Byrne, o museu abriu parcialmente ao público, no passado dia 23 de Janeiro. A inauguração


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DESTAQUE

completa está prevista, segundo a directora, para o final deste ano: “a obra está praticamente concluída, estamos apenas naquela fase de acertos, vistorias e ensaios de equipamentos”. Para já, o grande trabalho passa também por criar uma programação de actividades para o museu: “este edifício foi na época romana o fórum da cidade e nós gostávamos, do ponto de vista cultural e do ponto de

vista da programação, que ele se mantivesse e se instituísse como o grande fórum, o grande ponto cultural e social de Coimbra”.

Museus municipais integrados no IMC A dinâmica e a importância que estes dois espaços foram assumindo para a cidade, assim como a oportunidade gerada pelo facto de ontem, 18, se ter assinalado mais um Dia Internacio-

nal dos Museus levaram ao nascimento de uma iniciativa ímpar: a ligação de todos os espaços de exposição em rede, que decorreu este fim-de-semana e ontem. O vereador da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Mário Nunes, congratula a iniciativa e aponta que “os museus são já uma marca importante; todos estão activos, com um espólio único no mundo e têm muitas visitas”. Mário Nunes defende ainda a im-

portância que outros museus têm assumido para a cidade e adianta a integração do Museu da Cidade de Coimbra no instituto dos museus e uma intervenção por parte da câmara no Museu de Etnografia e Folclore. A CABRA tentou entrar em contacto com o Instituto de Museus e Conservação (IMC). Porém, até ao final do fecho desta edição, não foi dada qualquer resposta.

MUSEUS DE COIMBRA MOSTEIRO DE SANTA-A-VELHA 2,5 euros MUSEU DOS TRANSPORTES Gratuito MUSEU MACHADO DE CASTRO

PEDRO COELHO

2 euros MUSEU MILITAR 0,75 euros CASA-MUSEU MIGUEL TORGA 1 euro CASA-MUSEU BISSAYA BARRETO 2,5 euros MUSEU DA ÁGUA 2,5 euros EDIFÍCIO CHIADO 1 euro

NA UNIVERSIDADE MUSEU ANTROPOLÓGICO A DIRECTORA do museu Machado de Castro prevê a abertura total do edifício para o final do ano

3 euros

MUSEU DA CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

MUSEU MINERALÓGICO

Espólio universitário reunido num só espaço Segunda fase do projecto prevê a incorporação do acervo de outras estruturas da UC. O director aponta que, numa “perspectiva optimista”, o novo espaço abra em 2013 João Miranda Ana Rita Santos Três anos após a abertura do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (MCUC), o espaço prepara-se para crescer e ocupar o edifício do Colégio de Jesus, em frente ao Laboratório Chimico. O projecto insere-se na segunda fase de edificação do museu e o financiamento, num total de 16 milhões de euros, foi já aprovado pelo QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional). Em andamento está também o concurso de propostas arquitectónicas, cuja equipa vencedora vai, em Junho, iniciar o projecto de remodelação do colégio. Esta segunda fase do museu prevê, segundo o director, Paulo Gama Mota, a construção de espaços de exposições

permanentes e mostras temporárias, um restaurante, uma loja e ainda estruturas para colecções, assim como laboratórios dedicados a estudá-las. O projecto apresenta ainda a incorporação das actuais instalações das secções de Zoologia e Geologia no MCUC e “pode, numa perspectiva optimista, abrir as portas em 2013”, adianta Paulo Gama Mota. A reestruturação do museu parte da necessidade de convergir num só espaço o vasto espólio científico da UC, que actualmente se encontra es-

palhado por todo o pólo universitário. De tal forma que muitas vezes passa despercebido às próprias pessoas que compõem a universidade, como é o caso do acervo das faculdades de Medicina e Farmácia. “O museu da ciência vai integrar as contribuições do museu da física, do museu de história natural, nas suas várias secções e também o espólio do observatório astronómico, do espólio de Medicina, de Farmácia; vai no fundo ser o projecto integrador de todos estes museus”, explica o pró-reitor para os museus da UC, PEDRO COELHO

José Mendes da Silva. A ideia da integração de diferentes peças do acervo museológico no MCUC permite que este esteja disponível a todos, uma vez que é o único museu universitário aberto ao fim-desemana. “Recebemos tantos visitantes ao sábado como à sexta-feira”, explica Paulo Gama Mota. Vencedor do Prémio Micheletti 2008 (galardão que distingue o museu europeu do ano na área da ciência, técnica e indústria), o MCUC assume-se, na opinião do director, como “uma estrutura fundamental do ponto de vista da divulgação da cultura científica, da promoção da investigação científica que é feita na universidade e também de divulgação do acervo científico histórico que a UC detém, e que é o mais relevante do país”. Assim, Paulo Gama Mota idealiza o novo edifício como “um local moderno, onde se cruzem várias vertentes e onde o cidadão, o cientista e o jovem mais ou menos interessado possam cruzar-se num espaço cultural e científico”. José Mendes da Silva lamenta a situação actual dos museus da universidade, mas acredita que o novo projecto vai “criar condições de conservação de espólio muito mais interessantes” e deixa ainda a ideia de a UC projectar um novo museu da história da universidade.

1,5 euros MUSEU ZOOLÓGICO 3 euros MUSEU BOTÂNICO Gratuito MUSEU DA FÍSICA Gratuito MUSEU ACADÉMICO Gratuito MUSEU DE ARTE SACRA Gratuito MUSEU DA CIÊNCIA Gratuito MUSEU DO OBSERVATÓRIO 0,50 euros

Preços para estudantes da UC


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ENSINO SUPERIOR ESTATUTO DE CARREIRA DOCENTE

Sindicatos e Mariano Gago reúnem na próxima semana ANDRÉ FERREIRA

Medidas propostas pelo ministro do superior não agradam aos docentes. A discórdia está na diferenciação entre universidades e politécnicos Diana Craveiro Na próxima terça-feira, 26, está agendada uma reunião com o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, e os sindicatos dos professores para discutir o processo de revisão dos estatutos de carreira docente do universitário e do ensino superior politécnico. O presidente do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), Gonçalo Xufre, espera que Gago apresente o número de docentes que compõe os quadros das instituições, para que se possa clarificar os dados reais. O processo de revisão do estatuto de carreira docente não parece ter fim à vista. As alterações que vão ser feitas nos estatutos implicam a obtenção do grau de doutor para aceder à carreira docente, o fim da carreira de professor assistente e a implementação de um modelo de avaliação dos professores, em que os princípios gerais vão ficar definidos no estatuto de carreira, mas a sua aplicação vai ser definida pela instituição. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior propõe que os po-

NOVAS MEDIDAS vão permitir clarificação quanto ao número de efectivos nas instituições

litécnicos tenham pelo menos 60 por cento de professores efectivos, mas os docentes têm que concluir o doutoramento e candidatar-se aos lugares através de um concurso. Como período de transição, Mariano Gago definiu seis anos para o ensino politécnico e quatro para o universitário. Segundo Gonçalo Xufre, esta medida leva a uma “discriminação para o lado do politécnico”, porque embora os docentes universitários que não têm grau de doutor tenham quatro anos para passarem automaticamente a professores auxiliares, “no

politécnico não há garantia que os professores que obtenham o grau de doutor passem a professor adjunto”. Ou seja, “os docentes que estão fora da carreira no politécnico têm uma transição de seis anos para se manterem no sistema, enquanto que no universitário há um período de quatro, mas se cumprirem as regras de acesso à carreira, passam para essa carreira automaticamente”, especifica Gonçalo Xufre. O Snesup defende que os professores que fizerem o grau de doutor durante o período de transição “devem ter uma passa-

gem automática para a carreira, tal como acontece no universitário”, sublinha o presidente. Também o dirigente sindicalista da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), João Cunha Serra, em entrevista ao jornal Público, explica que o período de transição no ensino politécnico “permite aos professores prepararem-se melhor e aproveitarem a oportunidade de entrar na carreira”. No entanto, o responsável pelas negociações diz que “houve cedências mas não as suficientes”.

Entretanto, Mariano Gago já disse que vai “dar o tempo necessário” para os professores do politécnico concluírem o seu doutoramento e acrescentou que a fase final de negociações vai servir apenas para rever “questões técnicas”, já que o princípio “está esclarecido”. Em conferência de imprensa à margem da inauguração de uma escola, o ministro do ensino superior negou que haja um tratamento diferenciado em relação aos docentes do ensino universitário, explicando que no politécnico têm sido criadas categorias fora da carreira, o que não aconteceu no ensino universitário. “Por isso foi preciso encontrar uma solução que simultaneamente acautele a estabilidade do corpo docente dos politécnicos e também a sua qualidade”, justificou. As novas medidas vão permitir também uma clarificação quanto ao número de docentes que compõem os quadros das instituições, tanto nas universidades como nos politécnicos. “Em ambos os sistemas havia sempre uma grande mistura entre os docentes na carreira e os docentes convidados”, explica o presidente do Snesup. “No politécnico [a revisão dos estatutos] faz mais sentido porque havia um estrangulamento por vagas de quadros que fez com que 70 por cento do corpo docente estivesse fora da carreira”, remata. A CABRA tentou contactar o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, e o secretário de Estado da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, porém, sem sucesso ao fecho desta edição.

Colaboradores do TAGV cancelam paralisação de actividade Direcção, universidade e assistentes de sala saíram de reunião com um acordo sobre fórmula de pagamentos futuros Pedro Crisóstomo Depois de uma reunião conjunta entre a direcção do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), os assistentes de sala e a direcção da Fundação Cultural da Universidade de Coimbra, na sexta-feira passada, 15, os funcionários da frente de casa do teatro decidiram não levar em diante a paralisação das actividades que tinham anunciado anteriormente. Em causa estão seis meses de salários em atraso a alguns dos 15 funcionários que trabalham para o teatro em regime de prestação de serviços e que poderão ver a situação regulari-

ANDRÉ FERREIRA

zada até amanhã, 21, segundo espera a directora do TAGV, Isabel Nobre Vargues. “Há situações diversas, sendo que uns poderão receber através da emissão de recibo e outros irão fazê-lo através de acto único”, explica. Na mesma reunião, avança João Esteves, presidente da Cooperativa GATO CRL - que coordena um grupo de assistentes de sala maioritariamente estudantes –, “foram discutidos vários pontos” sobre os salários futuros. A fórmula de pagamento acordada deverá, segundo Isabel Nobre Vargues, “ser mais ágil”, para que não se voltem a repetir atrasos. O procedimento está sempre dependente da apresentação de uma prova da parte dos colaboradores, porque “não se pode proceder a pagamentos sem documentos”, justifica a directora do teatro. A questão tem sido recorrente desde 2006, ainda quando o TAGV não fazia parte da Fundação Cultural da Universidade de Coim-

bra, instituída em 2007 e que desde o final do ano passado está responsável por gerir a unidade. Agora, “a fundação está em condições de pagar a esses estudantes”, confirma a presidente, Cristina Robalo Cordeiro. Também relativamente aos funcionários do teatro que actualmente têm vínculo directo com a universidade (dos serviços artísticos, técnicos e administrativos), “quem vai ocupar-se do pagamento dos salários é a fundação, a partir de Junho”, esclarece Robalo Cordeiro, que é também vice-reitora da universidade. A transição destes trabalhadores vai ser feita “com a garantia de não perderem regalias respeitantes às horas de trabalho, nem a situação económica, e ainda com a possibilidade de regressarem à UC”. O quadro de funcionários ainda não está definido, pelo que pode ser “reduzido” ou ficar “maior”, consoante a avaliação em curso sobre as necessidades do teatro.


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ENSINO SUPERIOR ASSEMBLEIA MAGNA DA AAC

SÓNIA FERNANDES

A ASSEMBLEIA MAGNA pautou-se pela discussão das futuras acções de contestação a levar a cabo pela AAC

Manifestação nacional gera discussão Com o aproximar do ENDA, a perspectiva de uma manifestação a nível nacional foi o tópico mais debatido na Assembleia Magna João Ribeiro Das nove moções apresentadas na Assembleia Magna (AM), que decorreu na passada quarta-feira, 13, seis foram aprovadas. A marcação de uma manifestação nacional, com a participação de associações académicas de todo o país, foi o tema dominante. Na anterior AM, realizada a 11 de Março, foi aprovada uma moção que vincula a Associação Académica de Coimbra (AAC) a apresentar no próximo ENDA (Encontro Nacional de Direcções Associativas) – que vai decorrer em Coimbra durante o último fim-de-semana de Maio – uma proposta para uma manifestação nacional de estudantes. No entanto, em declarações ao jornal A CABRA, o estudante da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Fabian Figueiredo, defende que “no ENDA existem demasiados ‘anticorpos’ para que se fale verda-

deiramente dos problemas que atravessam os estudantes”, pelo que apresentou na última magna uma moção que previa a realização de uma manifestação da mesma natureza para 3 de Junho, em Lisboa. A proposta foi reprovada no plenário dos estudantes de Coimbra. Para o proponente, “os argumentos esgrimidos pela direcção-geral [contra a moção] eram falaciosos”. O facto de a data da manifestação ser muito próxima da realização do ENDA foi uma das falhas apontadas à moção, mas Fabian Figueiredo rejeita a existência de qualquer conflito de agenda. “A Academia tem mais de 200 dirigentes no seu conjunto e se quisesse realmente mobilizar pessoas para a organização do encontro, teria pedido ajuda”, afirma. A possível falta de abertura das outras associações académicas a esta iniciativa foi outra das razões apontadas pela direcção-geral para a não aprovação da moção. “O argumento acabou por cair por terra, uma vez que eu, com os meus recursos limitados, comuniquei com inúmeras associações e representantes de estudantes democraticamente eleitos”, conta o estudante de Sociologia. O presidente da Direcção-Geral da AAC (DG/AAC), Jorge Serrote,

absteve-se em relação à referida moção, pois considera que “uma manifestação nacional, a marcar, tem que ser em ENDA, com a legitimidade que isso tem”, mas não se mostra contra a iniciativa e não afasta a data proposta, 3 de Junho, para a sua realização.

“Uma manifestação nacional, a marcar, tem que ser em ENDA” Serrote não afasta contestação Na manhã seguinte à Assembleia Magna, uma delegação de cerca de 50 estudantes deslocou-se a Lisboa para uma concentração silenciosa em frente ao ministério do ensino superior. A acção decorreu de uma moção apresentada pela DG/AAC na magna da noite anterior. Apesar da aprovação, a proposta não deixou de ser alvo de algumas críticas. A exclusão de muitos estudantes desta manifestação, devido ao imediatismo da proposta, foi a mais apontada. Quanto a acções de continuidade,

Serrote refere apenas uma actividade aprovada também no plenário. Uma corda no pescoço da estátua do D. Dinis, simbolizando o asfixiamento do ensino superior, é o que os estudantes poderão encontrar amanhã, 20, ao passar na Alta. Contudo, o presidente da DG/AAC não afasta a possibilidade de haver mais acções de contestação: “é possível que mais alguma possa acontecer durante a semana, estamos a pensar ainda”. “Tendo em conta o tempo e a mobilização de meios, tem de ser bem ponderado”, conclui. Amanhã será também entregue na Reitoria da UC um caderno de reivindicações sobre a atribuição de bolsas. Foi igualmente aprovada uma moção que prevê o envio diário de cartas para várias entidades, como o ministério do ensino superior e o Presidente da República. A solidarização pública para com os estudantes da Universidade do Minho, vítimas de alegadas pressões por parte dos serviços de acção social foi aprovada por larga maioria. Finalmente, passou uma moção que prevê a apresentação de uma proposta para a redução do número de disciplinas para obter aprovação para efeitos de atribuição de bolsa.

ACADÉMICAS REÚNEM EM COIMBRA Apesar de não faltar muito para a realização do ENDA, ainda é cedo para fazer previsões, mas é certo que a possibilidade de uma manifestação nacional estará em cima da mesa. Jorge Serrote não tem dúvidas de que “existe vontade por parte de muitas associações de ir para a rua”, mas nota que a pro ximidade da época de exames pode constituir um entrave. Contactado acerca desta questão, o presidente da Associação Académica de Lisboa (AAL), Frederico Saraiva, afirma que “é importante todos os estudantes portugueses estarem unidos”, mas ressalva que “não se pode fazer uma manifestação só por fazer”. O presidente da Federação Académica do Porto (FAP), Filipe Almeida, assegura que “a FAP apoiaria uma medida desse género caso assim fosse decidido em Assembleia Geral”. No entanto, “é preciso analisar todo o panorama político de ensino superior”. A moção que a AAC vai apresentar, para ser aprovada, terá que reunir uma maioria simples dos votos das associações académicas. PUBLICIDADE


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ENSINO SUPERIOR CONCENTRAÇÃO EM LISBOA

OPINIÃO

Em silêncio pela acção social

A ACADEMIA DE UNS E A ACADEMIA DE OUTROS

CLÁUDIA TEIXEIRA

OS ESTUDANTES esperaram cerca de uma hora pelo ministro

Cerca de 50 estudantes rumaram à capital para apresentar propostas ao ministro do superior. Mariano Gago conversou com Jorge Serrote e promete reunião com serviços de acção social Cláudia Teixeira em Lisboa Foi em silêncio. Tal como previa a moção da Assembleia Magna da noite anterior. Os estudantes que marcaram presença frente ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em Lisboa, na quinta-feira passada, 14, iam de malas feitas, mas não tiveram de esperar mais de uma hora para serem recebidos por Mariano Gago. Eram cerca de 11 horas quando o ministro do ensino superior cumprimentou a meia centena de manifestantes e deu a indicação para Jorge Serrote entrar. A proposta da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) apontava para que os estudantes permanecessem em Lisboa o tempo que fosse necessário até Mariano Gago os receber para discutir a Acção Social Escolar. Sobre o encontro, que durou cerca

de uma hora, o presidente da DG/AAC avança que “o ministro ouviu as propostas para a acção social e comprometeu-se a reunir com todos os serviços do país para alterar o regulamento de atribuição de bolsas”. Serrote afirma que “para além disso, foi discutida a regra técnica de atribuição do subsídio onde agora contam os rendimentos de 14 meses, o que fez com que muitos estudantes ficassem sem bolsa de estudo e muitos outros vissem a bolsa diminuída”. “Relativamente à proposta de passe social para estudantes nos transportes públicos, o ministro disse que estava quase concluída”. No que diz respeito aos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, o presidente da DG/AAC diz ter colocado a questão da “falta de verbas para o normal funcionamento para as cantinas e residências” e que Gago se comprometeu a acompanhar o caso. Os principais motivos que levaram

Jorge Serrote a apresentar a moção em magna tiveram a ver com facto de que, “apesar de toda a sensibilização da comunidade universitária e da sociedade civil”, a direcção-geral não teve da parte do ministro “uma resposta sobre tudo aquilo que têm sido as reivindicações a nível de acção social”. “Seria importante tomar uma posição um pouco mais de força e de irreverência e termos o efeito surpresa porque tínhamos tentado reunir com o ministro pelas vias normais, ou seja, por audiência”, explica. Para esta semana, Jorge Serrote afirma não ter alguma acção agendada. “Estamos a pensar porque temos que marcar acções que possam ter uma sequência e ao mesmo tempo que a nível mediático não percam importância”, justifica. Contactado o gabinete do ministro do ensino superior, não foi possível obter declarações de Mariano Gago até ao fecho desta edição.

Universidades expõem preocupações sociais ao G8 Cláudia Teixeira Vai ser aprovada hoje, 19, no Encontro G8 de Universidades, em Turim, na Itália, onde a Universidade de Coimbra (UC) vai estar representada pelo reitor Seabra Santos, uma declaração final que será entregue ao primeiro-ministro italiano e presidente do G8, Silvio Berlusconi. O documento vai ser apresentado na

próxima reunião dos países do G8 e apresenta uma afirmação do papel das instituições superiores na procura de um desenvolvimento responsável e sustentável, a nível local e global. O encontro, que teve início no dia 17, envolve universidades dos países do G8, do G5 de países emergentes , do MEM-Major Economies Meeting e de alguns países do Mediterrâneo, do Médio Oriente e da América Latina, assim como algumas

associações de universidades, como é o caso do Coimbra Group, do qual faz parte a UC. Na reunião estão em debate os temas que os países do G8 abordarão no seu encontro previsto para Julho deste ano: a situação económica, fontes de energia, a luta para a erradicação da pobreza e novas estratégias para o continente africano. As fontes de energia, o ambiente e a sustentabilidade fazem também parte da discussão.

A Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) apresentou na última Assembleia Magna uma moção que previa a ida ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em Lisboa, com o objectivo de os estudantes serem recebidos por Mariano Gago. Os estudantes foram e não tiveram de esperar mais do que uma hora até Jorge Serrote entrar. A ideia era esperar até que Gago os recebesse. Os estudantes iam de malas e bagagens, dispostos a passar na capital o tempo que fosse necessário. Foi tudo rápido demais... O encontro de Serrote com o ministro durou cerca de uma hora. Os estudantes voltaram a casa, surpresos por terem sido recebidos tão rapidamente. A DG/AAC está de parabéns: mostrou que consegue ir mais além das campanhas de informação a que nos tem habituado. Mariano Gago ouviu as propostas da direcção-geral e prometeu marcar uma reunião com todos os serviços de acção social do país para tentar solucionar alguns dos problemas mais emergentes. No entanto, uma acção destas, mais consequente e reivindicativa, pressupõe o agendamento de novas actividades, também elas consequentes, para criar um continuum no rumo político da Academia e para mostrar aos estudantes que, de facto, é necessário fazer algo. Porque uma ou duas dezenas de cartazes, uns flyers pousados em cima das mesas dos bares das faculdades e um outdoor não esclarecem alguém. Porém, os nossos dirigentes associativos nada têm agendado para breve. Ou seja, a ida a Lisboa rapidamente irá cair, se é que já não caiu no esquecimento. Na Assembleia Magna de 11 de Março foi proposta uma manifestação nacional, em Lisboa, que será levada a ENDA (Encontro Nacional de Direcções Associativas) para aprovação. Na magna da passada quarta-feira, uma moção que previa a mesma acção

de luta, mas sem a necessidade de aprovação das académicas com assento no ENDA, foi chumbada. A responsabilidade de levar uma manifestação nacional avante torna-se agora insuportável. Mas a Academia de Coimbra é a melhor do país... Perante todas as ofensivas do executivo ao ensino superior, nomeadamente no que diz respeito à acção social, a direcçãogeral não achou relevante discutir

O AFASTAMENTO ENTRE A DG/AAC E OS ESTUDANTES É ABISSAL isto com os estudantes que representa. Prova disso foi a convocatória da Assembleia Magna supracitada por cerca de 1200 estudantes que assinaram um abaixo-assinado para a realização da mesma, visto que a última se realizou há dois meses. É preocupante quando há a necessidade de um grupo de estudantes se juntar para convocar uma magna perante a crise que se vive, actualmente, no ensino superior. É preocupante quando uma direcção-geral não tem como prioridade discutir com os estudantes que representa aquilo que mais directamente os afecta. Há aqui, claramente, uma falha no compromisso assumido para com os quase 20 mil estudantes da Universidade de Coimbra. O afastamento entre a direcção-geral e os estudantes é abissal. Desorientação política (ou não), preocupação com as eleições para os corpos dirigentes da AAC que aí se avizinham, ou simplesmente total alienação daquilo que é o papel de uma direcção-geral. As razões podem ser de vários níveis. Espera-se mais, no entanto. Cláudia Teixeira Editora de Ensino Superior

D.R.


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CULTURA

PEDRO ROCHA SANTOS • PRESIDENTE DO JAZZ AO CENTRO CLUBE

“O jazz nunca esteve tão bem” De 25 de Maio a 6 de Junho, Coimbra volta a receber os Encontros Internacionais de Jazz. Rocha Santos fala dos próximos projectos e da única revista de jazz em Portugal. Por Sara Oliveira e Rui Miguel Pereira ANDRÉ FERREIRA

D

isse, numa entrevista recente, que o jazz não é popular por falta de promoção. Considera que os Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra têm contrariado essa tendência? Quando digo que o jazz não é popular não estou a falar da realidade de Coimbra, mas em geral. O género foi pouco divulgado em Portugal. Nos últimos anos, pelo facto de ter existido um conjunto de novos agentes a intervir na área do Jazz, temos contrariado um pouco essa tendência. Há cada vez mais jovens a assistir aos concertos e a ter maior interesse por este género. Em termos de apoios por parte da Câmara Municipal de Coimbra, acha que são suficientes? Em Coimbra sentimo-nos cingidos à produção dos Encontros Internacionais. Desde o princípio, este evento tem o apoio da câmara. No primeiro ano tivemos 75 mil euros de apoios por parte da câmara, mas progressivamente foi diminuindo, o que dificulta muito o trabalho que podíamos desenvolver. ROCHA SANTOS, 46 anos, é presidente do Jazz Ao Centro Clube desde a sua fundação

O jazz é um estilo elitizado? Não, até porque a própria origem do jazz é popular. Se se pode por isso em causa é pela falta de divulgação e de formação dos públicos. Se me falar em elite como sendo uma classe com formação superior, sim, mas temos vindo a notar que cada vez mais o espectro se alarga. Como é que vê a evolução do jazz em Portugal? O jazz nunca esteve tão bem com está hoje, fruto de todo este envolvimento e de toda essa motivação. Têm-se realizado concertos, acções de formação pedagógicas. Nunca se realizou tanto como se tem realizado hoje ao nível da promoção do jazz em Portugal. A parte do ensino, por outro lado, tem de ser muito bem, trabalhada. Penso que há alguma falta de troca de experiências com músicos estrangeiros e novos projectos que estão a acontecer no mundo. Mas vejo com bons olhos o trabalho que está a ser feito e os resultados que vão surgindo. Quais foram as vossas maiores apostas para os Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra para este ano? Uma das grandes marcas deste evento são as nossas sessões “after hours”. É nestas sessões que temos gravado alguns discos. Através deles temos tido reconhecimento internacional e são vendidos no mundo in-

teiro, nos EUA, no Japão, na Europa, com uma crítica muito positiva. Para além destes “after hours”, este ano vamos ter uma formação com o Peter Brotzman, um ícone do jazz contemporâneo. Para além disso vai estar cá o Joe McPhee.

As dificuldades para organizar um festival de jazz são então estritamente económicas? Sim, a dimensão dos festivais são resultado do investimento que envolvem. Nós com o orçamento que temos fazemos milagres.

Como é que se trazem nomes internacionais do jazz como aqueles que vocês apresentam? O resultado do trabalho do Jazz Ao Centro Clube (JACC) é o resultado do trabalho de um conjunto de pessoas que desde a primeira hora se associaram a este projecto. Nós tivemos a felicidade de ter como fundador o Pedro Costa que é o principal responsável pela Treem Azul e a Cleen Feed, que foi até considerada pelo site Allaboutjazz como uma das melhores cinco editoras do mundo.

Porque é que o JACC nasceu em Coimbra, qual é a explicação? No ano de 2000 um grupo de pessoas de Coimbra começaram a reunir para abrir uma delegação do Hot Club em Coimbra. Mas porque não abrir um clube autónomo? Em 2003 Coimbra foi capital da cultura e achamos que era um bom momento para apresentar um projecto na área do jazz. O primeiro festival custou algo como 160 mil euros. Hoje fazemos o festival com um terço. Aproveitamos o Jazz Ao Centro Encontros internacionais de Jazz para lhe chamar Jazz Ao Centro Clube.

Os músicos internacionais ainda se surpreendem com o panorama do jazz português? Os músicos vêm porque vêm tocar para ganhar dinheiro, para mais um concerto. Nem sei se a maioria dos músicos tem conhecimento do real panorama do jazz em Portugal. Nós não somos um país que tenha um destaque assim tão grande no jazz, mas comparativamente com Espanha estamos muito à frente. Os músicos vêm aqui como vêm a qualquer parte do mundo.

Em Setembro o Festival Jazz.pt vai voltar. No ano passado inovaram e fizeram o festival no jardim do Hot Club, em Lisboa. E este ano? O Hot Club é uma cave exígua e minúscula. Com 80 pessoas está cheio mas tem um jardim muito interessante. E tirando uma coisa ou outra nunca foi realizado nada naquele jardim. No ano passado, achamos

que era a altura certa para voltar a lançar o desafio e fizemos o festival da revista Jazz.pt. Este ano vamos ter claramente o maior festival de jazz já alguma vez realizado em Portugal. Vamos estar em três cidades ao mesmo tempo, Porto, Lisboa e Évora. Vamos ter um total de 34 concertos em dois fins-de-semana e vão ser lançados mais de dez discos. Vai ser claramente o momento de jazz mais marcante jamais alguma vez realizado em Portugal. Apostar em músicos de jazz portugueses é uma prioridade? Sabemos que estamos à frente de um clube que tem nos seus estatutos o objectivo de promover e divulgar o jazz em Portugal, e nós sentimosnos um bocadinho agarrados a esse desafio. Quando lançamos o projecto Portugal Jazz, festival itinerante, tentámos espelhar isso mesmo: um plano estratégico de promoção do jazz em Portugal. Se calhar algum dos críticos vão olhar para o nosso

cartaz dos Encontros e dizer que não temos nenhuma formação portuguesa. Mas nós promovemos os portugueses onde achamos que os devemos promover e onde é nossa motivação. A revista Jazz.pt é a forma que encontraram para fazer a ponte entre o público e os músicos? A revista tem já quatro anos, já bateu os records de longevidade e de edições. Quando começamos o panorama jornalístico não era o mesmo que é hoje. Hoje temos um problema para resolver que é a parte online. Queremos desenvolver uma plataforma a sério, não queremos dar um passo de ânimo leve. Envolvemonos no projecto e de um momento para o outro já não havia volta a dar. É um projecto, para nós, caríssimo a todos os níveis que chegou a estar condenado mas que gradualmente tem vindo a consolidar-se. Hoje é impossível acabarmos. PUBLICIDADE

O Jazz ao Centro Clube oferece 10 entradas para os espectáculos dos dias 5 e 6 de Junho aos primeiros dez leitores do jornal A CABRA que se deslocarem à sede do JACC, no Adro de Baixo, n. 6 (atrás da igreja de S. Bartolomeu - Baixa)


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CULTURA

SUBCULTURAS NA CIDADE

Vestir uma identidade por trás do estilo São culturas quentes que estão numa sociedade líquida, segundo alguns, e que dão forma à cidade. Coimbra não está à margem do nicho das subculturas, que encontra em muitos mais uma forma de expressão. Por Alice Alves, Elton Malta e Sara Oliveira

N

o “Grande Dicionário da Língua Portuguesa”, pode ler-se: “Subcultura, s.f. Cultura inferior à verdadeira cultura ou à cultura normal”. Apesar de clara, a definição parece deixar algumas perguntas por responder. O que é uma “verdadeira cultura”? Ou, então, onde se pode encontrar uma “cultura normal”? A explicação não gera consenso entre quem não só consome cultura, como também faz disso objecto de estudo. Para o professor da cadeira de Multiculturalismo e Educação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), João Maria André, “definir uma subcultura como uma cultura inferior é já estar a tomar posição numa contraposição entre duas culturas”. Maria André prefere antes encontrar outra explicação. “É uma cultura marcada por traços que não são absolutamente coincidentes com os traços da cultura dominante”. Já para o professor e investigador em Políticas Culturais e Modos de Vida Urbanos na Faculdade de Economia da UC, Claudino Ferreira, uma subcultura pode afirmar-se noutro sentido. São “fenómenos a partir dos quais as pessoas estando juntas num determinado espaço encontram maneiras de expressar a sua identidade grupal que as diferenciam do resto da população”, realça. Falar de subculturas sem falar de cidades é negar as próprias origens. Com um frenesim muito próprio e num entrar e sair constante, as cidades são

o ninho de muitas identidades, que se confundem e se distinguem pela diferença que fazem questão de conquistar na rotina urbana. Para o professor de mestrado em Cidades e Culturas Urbanas na mesma faculdade, Carlos Fortuna, “a cidade é um mosaico que permite mais oportunidades à criação de identidades, momentâneas, temporárias, transitórias, sendo assim, por isso, um desafio à identidade de origem das próprias pessoas”. Para o docente, a necessidade de procurar uma identidade é muito mais propícia na cidade, dado o anonimato que a caracteriza, do que no campo, onde se assiste “a um apertado controlo social por parte dos familiares, autoridades religiosas e outros”, fundamenta. Para Claudino Ferreira, Coimbra “é um espaço que favorece a emergência de subculturas, porque tem uma forte presença estudantil, principalmente universitária, que vem de várias partes do país e do mundo”.

vimento Hip-hop em Coimbra, não esconde que o break-dance é muito mais do que um estilo de dança. “É como se me tornasse numa personagem que transmite a minha personalidade, uma forma de inspiração que me permite expressar, e isso fasciname!”. No que toca à cidade, João Barros, organizador de eventos de hip-hop, é pouco optimista. “Em Coimbra esta cultura não está propriamente bem e de boa saúde, porque as ‘grandes’ pessoas que a representavam foram-se dispersando”, garante. Para além disso, João Barros sublinha que “o hiphop já foi muito mais um género de intervenção, pois, hoje em dia, é cada vez mais um género popular”. Com um estilo que se confunde com uns anos 60 de Presley e uns 80 de The Stray Cats, o Rockabilly “não possui uma ideologia política e caracteriza-se essencialmente por um estilo de vida e um gosto musical muito forte”, explica alguém que se identifica com o movimento, Pedro Serra. “Hoje é fácil Quem vive ter acesso à música e à roupa “a cena” de perto Quase sempre com uma ideologia deste estilo, o que faz com que se que serve de “background” aos di- perca a emoção da dificuldade versos estilos, as subculturas em sentida por nós noutros tempos”, Coimbra estão maioritariamente lembra. Já o docente Claudino Ferreira ligadas à música. Não é difícil identificar quem ousa fugir à considera que o movimento Rocregra e se atreve a ser muitas kabilly aparentemente tem sobrevivido ao desgaste do tempo e “se vezes olhado hoje não tem o mesmo impacto d u a s cultural que teve há alguns vezes anos, ele persiste e vai-se HIP-HOP transformando”. Movimento cultural dos anos 60, iniContrariamente ao que se vivia há uns ciado nos EUA como reacção aos conflianos atrás, quem tos sociais e à violência sofrida pelas classes pulsa estas subculdesfavorecidas da sociedade urbana. Esta turas garante que “cultura de rua” que reivindica o espaço e a voz a discriminação “já dos bairros é composta, normalmente, por foi mais acenquatro elementos que se manifestam nas tuada”. rimas do “mestre de cerimónias” (MC), no Alexandre Fonritmo forte do DJ, nos grafittis do “writseca vê na sua banda ter” e nos passos de break-dance Punk, os “The Unexpected”, um escape. “É do “b-boy”. através da música que encontro possibilidade de fazer inp e l a tervenção social e crítica ao mesma pessoa. Com mais ou menos arrojo, mais estabelecido através de uma múou menos inovação, os estilos al- sica simples e directa”, garante. Ao contrário do Rockabilly ou ternam entre o assumir ou não determinada personagem. Telmo do Punk, o New Rave tem uma Figueiredo, que está ligado ao mo- história curta. Com decibéis que

O NEW RAVE encontra no Myspace uma forma de se expandir

ora estão nos anos 80, ora na mú- André, que considera que “aquilo sica electrónica, o movimento que durava e criava adeptos ou senasceu em 2005 em Inglaterra e guidores durante uma década; já chegou a Coimbra. Contudo, hoje, já Isaac Gens não deixa de notar não que “as pessoas tendem a esROCKABILLY tranhar um bocado por ser uma coisa nova e por Penteado inspirado nos anos 50, ter aparecido de reroupa retro, “slap-back” no contrabaixo pente e muito forte”. e “finger-pickin” na guitarra são elementos Joana Seixas, amiga de Isaac, é dona de característicos do Rockabilly. Este subgénero uma loja onde só do Rock n’ Roll surgiu nos anos 50 numa existe roupa colofusão do Rock com particularidades da rida. “A marca que música country, na altura vulgarmente desvendemos vem direcignada por hillbilly. Foi entre os anos tamente de Inglaterra, 70 e 80 que esta subcultura mais a Lazzy Oaf, e é uma resobressaiu. ferência para quem conhece o meio”, garante. Joana Seixas não deixa de notar que, t e m quem chega a Coimbra pela primais do meira vez, se surpreende. “Os es- que um ano ou dois, dada a rapitudantes Erasmus ficam dez com que as coisas acontecem”. extremamente admirados por en- Uma “sociedade líquida” é como contrar cá o New Rave”, sublinha. lhe chama Maria André, “de estrutura mutável, fluída e pouco Uma “sociedade líquida” consistente, pois hoje as coisas são Há alguns anos atrás, quem adop- muito mais epidérmicas”, consitasse movimentos como o Punk dera. Quanto ao facto de uma deterou o Rockabilly e fizesse deles um estilo de vida, fazia-o por muito minada subcultura ser descartável mais tempo do que quem hoje o ou não, as opiniões dividem-se. Se faz. A opinião é de João Maria para Carlos Fortuna “é perfeita-


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CULTURA

LEANDRO ROLIM

LEANDRO ROLIM

cultura por

19 MAI

ONDE VAMOS MORAR Teatro TAGV • 21H30 •12¤

19 MAI

JERUSALÉM Teatro • 21H30 TEATRO DA CERCA DE S. BERNARDO 6 e 10¤

20 21 e

MAI

INDIE SONGS DON’T LIE Festival VIA LATINA • 10¤ e 15¤

21 22 e MAI

A VERDADEIRA TRETA Teatro TAVG • 21H30 • 15¤

21 27 a

ABR

FIOS E LABIRINTOS OFICINA MUNICIPAL DO TEATRO 4¤ E 10¤

23 MAI

A NOITE O HIP-HOP é uma subcultura de rua, que se expressa através da música e dança urbanas

mente natural que os jovens possam circular de umas subculturas para outras”, para Claudino Ferreira a opinião não é bem essa. “Em geral elas não têm de ser descartáveis e efémeras, e o facto de algumas das expressões subculturais em Coimbra terem alguma volatilidade não lhes dá nem lhes tira valor”, fundamenta.

rente. Da mesma forma que o conceito de subcultura não pode ser dissociado do conceito de cidade, também a arte acaba por estar, de uma forma ou de outra, presente. E não deixa de ser curioso como o filósofo João Maria André olha para uma subcultura: “é um espaço quente de efervescência cultural, favorável à criação, mesmo que seja uma criação efémera por causa da sua marginalidade e da sua exclu-

são em relação aos mecanismos oficialmente aceites pela sociedade”.

PUNK

A Internet, mais uma vez

A subcultura Punk é marcada pelo princípio da autonomia. O lema de ordem é o “faça você mesmo” e os seus interesses Também a Inpassam por um visual marcado e um som forte ternet é um veíe ritmado. c u l o A partir dos anos 70 o conceito adquiriu um indispensável novo sentido com a expressão “movimento ao “keep in touch” (estar em punk”, usada para definir uma forma mais contacto) entre ou menos organizada de alcançar a quem se conhece e revolução política.

entre quem pouco sabe sobre o outro. O moviCulturas mento New Rave pode ilustrar quentes NEW RAVE essa rapidez na difusão de inforDeterminadas cores, mação, pois o movimento que inipeças peculiares de Em 2005, Inglaterra assiste a ciou o percurso em Inglaterra roupa ou somente rapidamente difundia as suas pensamentos que reúuma nova abordagem do estilo ideologias para o mundo, à disnam consenso são Rave dos anos 90. O termo destância de um clique. Joana formas de expressão igna a fusão de elementos de Seixas refere convictamente próprias imprescindímúsica electrónica, rock, indie e que “o Myspace é onde se vê veis a uma subcultura techno. Os “Klaxons” foram uma das banmais o movimento, e isso atrasaudável. No fundo, das que mais impulsionou este movimento vessa todas as idades”. são códigos apenas de que se caracteriza pela conjugação de cores “Funciona como um processo quem partilha o fortes e fluorescentes com elementos de aceleração em termos de conmesmo estilo e sinais tactos com novas manifestações e que não são deixados ao psicadélicos. Uma diversão sem novas expressões culturais”, gaacaso. A exteriorização do limites é o lema. rante Claudino Ferreira sobre a peculiar de cada uma é a razão Internet, um terreno “propício ao para um “espaço de estar” dife-

apar e c i mento de diferentes culturas”. Carlos Fortuna enfatiza, de igual forma, a importância de um meio como este, que “salta todos os limites geográficos e culturais”. Entre os rasgos de cor e festa que caracterizam um movimento, ou a contestação social que outro faz questão de prezar e reiterar, estão vários e várias. Estão grandes e pequenos. Estão outros e outras, convictos e convictas de que apenas procuram no mundo, outra forma de estar, onde o jugo social seja, finalmente, um mito cheio de pó.

Teatro TEATRO DA CERCA DE S. BERNARDO 21H30 • 6 E 10¤

28 30 a

MAI

ENCONTROS INTERNACIONAIS DE JAZZ DE

COIMBRA

SALÃO BRAZIL PONTUAIS ENTRE 5 E 7¤ GERAL 1º FDS 10¤ GERAL 2º FDS 25¤ (NORMAL) E 20¤ (ESTUDANTE)

30 MAI

DAZKARIEH

30

FNAC • 22h Entrada livre

MAI

O TROMBONE TAGV 21H30 12¤

30 MAI

MERCADO DAS FLORES E PLANTAS Baixa 10H - 17H30

Por Maria João Fernandes


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DESPORTO A

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BASQUETEBOL

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Académica vs. SL Benfica 18H • PAVILHÃO MULTIDESPORTOS

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23 MAI

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ANDEBOL

FUTEBOL DISTRITAIS

Académica vs. Académico de Viseu FC 18H • PAVILHÃO 3 DO ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO

Académica vs. Desportivo de Lagares ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO

24 MAI

29 MAI

DESPORTOS NÁUTICOS Campeonato Nacional Yolle LISBOA

CANOAGEM: TAÇA DO MUNDO DE POZNAN

Dupla portuguesa faz primeiro ensaio para o Campeonato do Mundo Beatriz Gomes e Helena Rodrigues têm o primeiro teste de preparação para os Mundiais a partir de dia 22, na Polónia Catarina Domingos Sónia Fernandes A dupla portuguesa Beatriz Gomes/Helena Rodrigues compete na Taça do Mundo de Canoagem de Pista a partir desta sexta-feira, dia 22. As canoístas regressam às águas de Poznan, na Polónia, onde no ano passado conquistaram o primeiro lugar em K2 200 metros. Foi a primeira medalha de ouro portuguesa no feminino em Taças do Mundo. Esta prova serve de ensaio para o Campeonato da Europa, em Junho, e para o Campeonato do Mundo, em Agosto. “É uma prova que permite ao treinador ver a forma como estamos actualmente, fazer algumas alterações, perceber o que há a melhorar e ver como estão as adversárias”, descreve Beatriz Gomes. Helena Rodrigues esteve parada três semanas em Março, o que demorou a preparação, mas a dupla acredita que “até às provas importantes, tudo será recuperado”. Nesta edição, Beatriz Gomes e Helena Rodrigues vão competir em K2 500 metros e K2 1000 metros, sendo que as duas atletas nunca participaram na distância mais

PEDRO PINTO

longa. Beatriz Gomes, docente na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEFUC), estabelece como objectivo “estar na final” das duas provas. “Nos 500 metros o objectivo é lutar pelas medalhas”, acrescenta. Na época transacta, as atletas alcançaram o sexto posto nesta distância. As águas polacas não são desconhecidas para ambas, que classificam a pista como sendo “rápida”. “As maiores dificuldades poderão ser a ondulação, que nos pode prejudicar no equilíbrio da embarcação”, relata Helena Rodrigues. O técnico polaco Ryszard Hoppe é seleccionador nacional desde 2005 e trabalha com as duas canoístas desde 2007. Para a Taça do Mundo, Hoppe pode ser uma maisvalia a nível da comunicação: “resolvem-se mais depressa os problemas”, afirma Beatriz Gomes. O estágio de preparação da selecção nacional em Montemor-oVelho terminou no passado sábado.

“Fasquias elevadas” movem as atletas Com 29 anos, Beatriz Gomes é professora na faculdade de desporto e Helena Rodrigues, com 23 anos, tem bacharelato em Fisioterapia. Depois de ter frequentado Medicina, suspendeu a matrícula e regressou à Fisioterapia para agora concluir a licenciatura. Conciliar o trabalho e os estudos

com a alta competição “é um trabalho árduo”, nas palavras de Beatriz Gomes. “Implica que haja de todas as partes um compromisso de ajuste”, acrescenta a docente. Da parte dos alunos ou dos colegas, ambas contam que ouvem “palavras de incentivo”. Até escolher a canoagem como desporto único, ambas praticaram outras modalidades. Depois de ter praticado voleibol, karting e ginástica, Helena Rodrigues experimentou a canoagem numas actividades de verão e passou a praticar exclusivamente aos 11 anos. A professora, por influência do pai, que também era canoísta, escolheu a modalidade aos 16. A dupla faz tripulação em K2 nas provas internacionais desde 2008. Já em 2007, Beatriz Gomes e Helena Rodrigues começaram a fazer K4, com Teresa Portela e Joana Sousa. O desempenho do ano passado teve como ponto alto a presença nos Jogos Olímpicos de Pequim, onde alcançaram o 11º lugar. “Temos que nos dar bem, estamos no mesmo barco”, brinca Beatriz Gomes. Na opinião da estudante, “o bom relacionamento fora da água, faz com que tudo seja mais fácil na embarcação”. Para o Campeonato da Europa e do Mundo, as portuguesas ambicionam “lugares perto do pódio ou no pódio”. “É com fasquias elevadas que temos de trabalhar no diaa-dia”, concluem.

BEATRIZ GOMES e Helena Rodrigues vão competir em K2 500 e 1000 metros

Académica vence com um Domingos emocionado Na noite da presumível despedida de Domingos Paciência a Académica recebeu a Naval 1º de Maio, que venceu por 3-1 André Ferreira O jogo começou com um ritmo demasiado calmo. As equipas raramente chegaram perto das balizas perdendo muitas bolas na transição defesa ataque. Perto do minuto 15, a Académica pegou no jogo começando então a empurrar a Naval para a sua linha defensiva. No minuto seguinte, Tiero teve a

primeira oportunidade de golo. O médio da Briosa ganhou uma bola no centro da área e de calcanhar fez a bola passar com perigo ao lado da baliza defendida por Peiser. Mesmo controlando a partida, os estudantes permitiram que a equipa da Figueira da Foz se adiantasse no marcador. Na sequência de um canto, Paulão saltou mais alto e cabeceou para uma defesa de recurso de Pedro Roma, mas a bola foi parar à frente do defesa, que empurrou colocando assim a sua equipa na liderança do marcador. Mesmo a perder, a Briosa não se desconcentrou e continuou a comandar o jogo criando algumas oportunidades de golo. Mas através de bolas paradas, a Naval criava perigo. Nova-

mente de canto, Marcelinho apareceu sozinho ao segundo poste, após a bola ser desviada, mas não conseguiu encostar para o dois a zero. Ao intervalo e a perder por uma bola, Domingos mudou a táctica de jogo deixando o 4x3x3 e passando a jogar em 4x4x2, com a entrada de Carlos Saleiro e a saída de Tiero. A Briosa continuava no comando das operações enquanto a Naval se limitava a tentar suster o ataque academista. A trinta minutos do fim, Domingos voltou a mexer na equipa e colocou Éder em campo. Pouco depois de ter entrado o avançado, proveniente do Tourizense, fez o empate e o seu primeiro golo ao serviço da Briosa. Com o golo, a Académica galvani-

zou-se para o ataque e, três minutos depois, Sougou colocou os estudantes na frente do marcador. Depois de alguma confusão, o avançado senegalês recebeu um passe de Éder e frente a Peiser não facilitou colocando assim a Académica a vencer por duas bolas a uma. Mas o melhor estava para vir. Sougou teve uma arrancada impressionante no lado direito do ataque, passando por um defesa sem lhe dar qualquer hipótese, cruzando para o segundo poste onde apareceu Carlos Saleiro que, sem deixar bater a bola no chão, fez o golo mais bonito da noite.

Despedida de Domingos Quando o árbitro apitou para o final do encontro, os jogadores da

Briosa festejaram efusivamente no relvado, aplaudidos por todos os adeptos que se encontravam no estádio. Também Domingos Paciência, quando se encaminhava para o balneário, recebeu uma enorme ovação que deixou o treinador emocionado. “Foi importante sentir o apoio dos associados. Os olhos ficaram com lágrimas. É um clube que me vai marcar para sempre e vai ficar no meu coração. Tenho sentimentos e ver os sócios a aplaudirem-me de pé, tocou-me muito”, revelou Domingos Paciência, em conferência de imprensa. A Académica encontra-se em sétimo lugar, com 39 pontos. Na última jornada do campeonato, a equipa desloca-se a Guimarães para defrontar o Vitória.


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DESPORTO

MODALIDADE PIONEIRA EM COIMBRA

Lacrosse dá os primeiros passos SARA SÃO MIGUEL

P•R•O•LONGA•M•E•N•T•O BASQUETEBOL A Académica deslocou-se a Lisboa para jogar os dois primeiros encontros da meia-final da Liga Portuguesa de Basquetebol frente ao Benfica. Na partida da passada sexta-feira, a AAC perdeu com os encarnados por 7854. Este domingo, o Benfica venceu por 105-103, após prolongamento. No final do tempo regulamentar, o marcador registava 72-72, igualdade que persistiu nos dois prolongamentos (83-83 e 96-96). O terceiro encontro da eliminatória está marcado para Coimbra no próximo sábado.

ANDEBOL

O ÚLTIMO TREINO recebeu o atleta espanhol Miguel Fernandez

Os únicos dez praticantes nacionais são de Coimbra e querem afirmar um desporto pouco popular em Portugal Catarina Domingos Sara São Miguel A primeira secção de lacrosse nacional na Associação Cristã da Mocidade (ACM), em Coimbra, está a completar o primeiro mês de existência. O projecto é embrionário, numa modalidade popular nos Estados Unidos, mas ainda desconhecida em Portugal. O lacrosse é um desporto colectivo em que cada jogador usa um stick, que possui uma rede, onde se prende a bola de borracha. Através de passes e recepções, o objectivo é introduzir a bola na baliza adversária. O coordenador do projecto, Francisco Fonseca, teve o seu primeiro contacto com a modalidade há cinco anos, quando era aluno no curso tecnológico de desporto na Escola Secundária Quinta das Flores. A estagiar no Pavilhão Multidesportos, o estudante, de 21 anos, tinha de desenvolver um desporto novo que pudesse ser praticado naquele recinto. Foi por isso que escolheu o box lacrosse, uma variante jogada em arena de hóquei no gelo. “Depois de acabar o 12.º ano, decidi que tinha tudo para come-

çar alguma coisa e falei com instituições”, conta o jovem. Do contacto com a Federação Europeia de Lacrosse, sediada na Inglaterra, e com o Comité de Desenvolvimento de Lacrosse, dos EUA, resultou o fornecimento de material, que agora é indispensável na prática da modalidade. O stick, a bola de borracha, a coquilha e as luvas são as peças de que a secção dispõe. A nível nacional, foi mais difícil encontrar uma instituição interessada em alojar o lacrosse. O projecto apresentado à Associação Académica de Coimbra (AAC) foi recusado por falta de espaço e por não existir nenhuma competição nem uma federação nacional. A aproximação à ACM começou no início deste ano, com a vinda d e u m treinador americano a Portugal. Depois da elaboração de um plano, a direcção da ACM aprovou a iniciativa e tornou-se, assim, a primeira insti-

tuição nacional da modalidade. “Desde que estamos na ACM, tudo o que seja preciso a nível financeiro, temos a certeza que o fará”, defende Francisco Fonseca. No entanto, na opinião de Denise Silva, outra das impulsionadoras do lacrosse, “é difícil pedir um apoio para um projecto que ainda não está completamente definido”.

Trazer experência para Portugal Outro dos passos para consolidar o desporto foi a assinatura de um protocolo com o Estádio Universitário de Coimbra, em Fevereiro. Antes, o grupo de dez atletas treinava no Parque Verde do Mon-

O DESPORTO MAIS RÁPIDO A DOIS PÉS Com origem tribal, o lacrosse ganhou a denominação de observadores franceses que lhe chamavam “le jeu de la crosse”. O desenvolvimento das regras escritas aconteceu em 1856, com a criação do Clube de Lacrosse de Montreal, por George Beers. Esta modalidade chegou a marcar presença nos Jogos Olímpicos de 1904 e de 1908. Actualmente, é um desporto praticado em 28 nações de quatro continentes e é considerado o jogo “mais rápido a dois pés”. Francisco Fonseca apelida-o de “único e completo”.

dego e fazia parar os mais curiosos que não conheciam a actividade. À margem dos treinos, o grupo organizou colóquios e workshops, que tinham como principal orador Francisco Fonseca, que agora também assume o papel de treinador. “Não tenho o documento oficial que diga que sou treinador de lacrosse, mas acho que tenho conseguido conhecimentos suficientes para começar uma equipa; procuro informar-me e ler”, descreve o jovem. Dos contactos que consegue pela internet, já passaram por Coimbra treinadores americanos, jogadores e representantes das instituições internacionais. Na passada sexta-feira, 15, o treino foi liderado por Miguel Fernandez, jogador da selecção espanhola e do clube Madrid Lacrosse. Para o futuro, o estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra adianta que “já estão em cima da mesa alguns projectos com a federação espanhola de lacrosse”, mas antes disso pretende cimentar a modalidade em Coimbra e expandi-lo em Portugal”. Por ausência de uma federação portuguesa de lacrosse, os únicos dez praticantes nacionais, com idades entre os 12 e os 21 anos, apenas podem competir a nível internacional se agregados a uma equipa participante. Para já o que têm definido é ir a torneios como espectadores para “ganhar experiência e trazê-la para Portugal”.

Na sexta jornada da fase complementar do Campeonato Nacional de 2ª Divisão, a equipa sénior de andebol da Académica perdeu com o CD Feirense por 34-27. Com 39 pontos, a AAC está em primeiro lugar, enquanto o Feirense ocupa o quarto posto, com 38. Na próxima jornada, a equipa de Ricardo Sousa recebe o Académico de Viseu.

FUTEBOL A Académica SF venceu o S. Pedro Alva por 5-0, em jogo da sétima ronda de apuramento do campeão da 1ª Divisão Distrital Série A. Com este triunfo, fica a faltar um ponto à AAC para conquistar o título, depois de assegurada a subida à Divisão de Honra. Na próxima jornada, a turma de Bruno Fonseca recebe o Desportivo de Lagares.

VOLEIBOL A equipa sénior feminina da Académica terminou a sua participação na série dos últimos do Campeonato Nacional Divisão A2 com uma derrota, a sétima desta fase. Nesta décima jornada, a AAC perdeu frente à Juventude de Leiria por 3-0, com os parciais 27-25, 25-29 e 27-25. A equipa de Rui Freitas termina a temporada com 26 pontos. Catarina Domingos


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TEMA

NO TALASNAL

DE PÉ

COMO AS ÁRVORES Fotorreportagem por Ana Coelho


19 de Maio de 2009 | Terça-feira | a

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TEMA

az uma panela de sopa a cada dois dias para dar aos gatos da terra. Não são seus, mas para si são como os companheiros que faltam na terra. Maria Helena, 82 anos, é a única mulher que habita a aldeia mais vazia da Serra da Lousã. Vive numa cascata de xisto. Perdida entre as pedras gastas pelos antigos e o silêncio do mato adormecido. Foi no Talasnal que Ti Lena nasceu e é ali que vive sozinha, com o marido, aos 82 anos. Vive para ele. Para os gatos. Para a horta. Agora para a televisão. De pé. Quase esquecida. O lixo é recolhido à terça-feira, o carteiro sobe “quando há contas para pagar” e o pão vai-se buscar à vila ou faz-se em casa quando se pode. O projecto “Aldeias do Xisto” fez com que a aldeia voltasse a ter alguma vida. Algumas casas foram recuperadas no âmbito do projecto e outras reabilitadas pelos próprios donos. O século XXI só chegou quando a electricidade e o saneamento básico apareceram. Mas às vezes parece que só chega quando vem o “rapaz de Lisboa”. Enquanto isso, há os gatos, a horta, a televisão.

F


14 | a cabra | 19 de Maio de 2009 | Terça-feira

CIDADE Um telefonema para combater a violência As vítimas de violência doméstica têm um novo meio de segurança à disposição, graças à teleassistência. Antes de se aplicar ao território nacional, será avaliado em Coimbra RAQUEL COELHO

Andreia Silva Coimbra vai ser pioneira num programa de combate à violência doméstica, juntamente com a cidade do Porto. Denominado “Teleassistência às vítimas de violência doméstica”, o projecto surge no âmbito do III Plano Nacional de Luta contra a Violência Doméstica e conta com o apoio da Presidência do Conselho de Ministros. Entidades como a Cruz Vermelha Portuguesa, o Ministério da Administração Interna, Policia de Segurança Pública (PSP), Guarda Nacional Repúblicana (GNR) e uma operadora de telemóveis são os principais parceiros. Com este projecto, a vítima de violência doméstica poderá ser auxiliada à distância de um simples telefonema. A ideia é criar um circuito, que passa pelo envio de um sinal de socorro às forças de segurança e a um operador da Cruz Vermelha Portuguesa. Posteriormente, são alertadas as entidades de segurança e as equipas de apoio à vítima. Todas estas instituições irão dar o apoio necessário para garantir a segurança após o pedido de socorro. Tal como explica o Secretário de Estado adjunto da Administração Interna, José Magalhães, vai ser desenvolvida “uma cooperação destinada a estabelecer uma ligação entre o serviço de teleassistência e as centrais de alarme das forças de segurança, com funcionalidades de despacho e geolocalização”. O custo da teleassistência para a vítima “não constituirá o maior problema, dado que o financiamento foi obtido pela presidência do Conselho de Ministros”, assegura José Magalhães. A teleassistência é, no entanto, apenas uma parte de todo o projecto. Será necessária uma avaliação do funcionamento dos pedidos e do acompanhamento posterior da vítima. Segundo o secretário de estado, “são importantes não só as forças de segurança como também as entidades governamentais, o sistema de saúde e de acolhimento”, revela. A avaliação será levada a cabo em Abril e Maio de 2012. Para José Magalhães, Coimbra é uma boa cidade para avançar com o projecto de forma pioneira por boas e más razões: “possui uma boa capacidade de acompanhamento, gente qualificada, e ao mesmo tempo, forças que estão desarticuladas e com pouca capacidade de despacho”. Todo o processo passará por uma análise “das tecnologias de apoio à vítima e de atendimento

NO ANO PASSADO, o Gabinete de Apoio à Vitima atendeu 420 casos de violência doméstica no distrito de Coimbra

no distrito, bem como da gravidade das situações. Temos um serviço de articulação dos sistemas de alerta e das forças de segurança que está a funcionar, mas é necessário ver que melhorias são necessárias introduzir”. Segundo José Magalhães, o objectivo é “avaliar o produto e, em função dos resultados obtidos, passar a aplicá-lo a níve nacional”. Mesmo com a necessidade de avaliação de todo este circuito, o secretário de estado revela-se confiante. “Com todos estes ingredientes, há condições para o sucesso. A vítima fica mais protegida, sem dúvida”, sublinha José Magalhães.

Os números na cidade pioneira Atendendo às estatísticas, Coimbra não está numa situação alarmante. Segundo dados de 2008 do Gabinete de Apoio à Vítima de Coimbra (GAV), foram registados 420 casos de violência doméstica no distrito de Coimbra, o que, a nível nacional, representa 4,8 por cento. Na maioria dos casos as vítimas são do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 26 e 35 anos e casadas. Embora maioritariamente as vítimas sejam reformadas ou estejam desempregadas, o nível de ensino que pos-

suem é superior. Em cerca de 87 por cento dos casos a violência ocorre de forma continuada, em actos de ordem física e psicológica. Em cerca de 55 por cento dos casos, agressor e vítima são casados ou vivem numa união de facto. A ideia de que a violência doméstica apenas ocorre no casal e nas classes sociais mais baixas está longe de ser real. Segundo a técnica superior do serviço de violência familiar do Hospital Sobral Cid, Generosa Morais, “não é possível traçar um perfil de vítima, nem tão pouco do agressor. A violência é um problema transversal, que afecta todas as idades e todas as classes sociais”, alerta. O Centro de Violência Familiar do Hospital Sobral Cid é um bom exemplo de apoio à vítima após o pedido de socorro. Tal como revela Generosa Morais, é realizada “uma avaliação e intervenção do ponto de vista da rede familiar”. Quando chega ao serviço, a vítima já vem encaminhada e em segurança, pelo que apenas se elabora “uma consulta de atendimento, onde se realiza uma avaliação da situação em termos individuais e familiares”, explica a técnica superior. Depois desse diagnóstico, a vítima é encaminhada para uma intervenção específica.

VIOLÊNCIA EM PALCO

O Teatro-Estúdio da Casa Municipal da Cultura, em Coimbra, acolhe desde 6 de Maio a peça “Estilhaços”, produto da Cooperativa Bonifrates com encenação, direcção e dramaturgia de João Maria André, e que retrata o ambiente de violência doméstica. O nome da peça parte precisamente da dimensão psicológica que a problemática acarreta. “«Estilhaços» está relacionado com o facto de a violência doméstica terminar muitas vezes em cacos. Além disso, tem uma dimensão estética, no sentido em que eu queria fazer uma peça cheia de estilhaços”, revela o encenador João Maria André. A presença de dez personagens em palco contribui para esse objectivo. “São dez mundos diferentes, em que nenhuma personagem faz parte do mundo da outra, para que possamos oferecer ao espectador uma abrangência de casos que existem na nossa sociedade”, explica. A companhia passou por dois

meses de preparação e tomou contacto com a realidade da violência doméstica. “Não inventámos nada. Procurámos ir à vida tirar a matéria”, revela João Maria André. Nessa fase de preparação, a equipa tentou fugir ao “cliché de que a violência familiar ocorre apenas do homem sobre a mulher”. Até porque, para o encenador, “a violência doméstica é muito mais do que isso”. O contacto da equipa com esta realidade foi duro. “Recordo-me de uns slides apresentados numa sessão em que vimos uma senhora grávida de sete meses cheia de hematomas no rosto, em que mal se viam os olhos”, conta João Maria André. Talvez por essa razão os espectadores fiquem algo sensibilizados perante a exposição a essa realidade. “A peça é violenta, mas ainda assim está muito longe da realidade”, admite João Maria André, até porque “a realidade às vezes ultrapassa a ficção”.

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PAÍS & MUNDO INFOGRAFIA POR JOÃO MIRANDA

Presidente

Vice-presidentes

Secretários

Vice-secretários

Cada figura corresponde a 10 deputados

A CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA limita o número de deputados na Assembleia a 230

ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Novas tecnologias, velhos procedimentos As sessões parlamentares já não têm a projecção de outros tempos. As fracas discussões entre parlamentares arriscam a credibilidade do órgão. Impõem-se mudanças ao modo de funcionamento Catarina Fonseca Rui Miguel Pereira A sala da Assembleia da República foi recentemente alvo de reformas físicas. A introdução de meios tecnológicos, bem como uma renovação das infra-estruturas, adaptou o espaço às novas exigências da política do século XXI. Mas apesar das mudanças no edifício, o modo de funcionamento do órgão de soberania tem-se mantido praticamente inalterado. “O Parlamento está caduco, basta dizer que nasceu, como o conhecemos, em 1820”, acredita o director do jornal Sol e autor do livro “Política à Portuguesa”, José António Saraiva. A massificação dos meios de

comunicação veio, na opinião do jornalista, exigir “uma mudança radical no modo de funcionar do Parlamento”. Também o ex-deputado socialista António Arnaut considera “que as instituições têm que se adaptar às exigências de cada época”. Os órgãos de comunicação têm ganho cada vez mais importância como espaço privilegiado para o debate político. “O plenário deixou de ser o centro das atenções”, afirma Odete Santos, que durante mais de 26 anos foi deputada no Parlamento pelo Partido Comunista Português. O facto de os representantes recorrerem com frequência ao espaço mediático e “dizerem aquilo que entendem” desvia, na opinião da exdeputada, as atenções dos “grandes debates”.

As mudanças necessárias Para Arnaut, “o nível do debate parlamentar está a baixar assustadoramente”, e isso é perigoso para a democracia. Como destaca José António Saraiva, falta ao Plenário “um conteúdo mais sério, mais técnico e mais informado”. O constitucionalista José Gomes Canotilho reconhece que o “comportamento dos deputados nem sempre tem o registo político exigido em termos éticos e políticos”. Contudo, não estão sozinhos, os meios de comunicação transmitem “notícias confundindo os factos com opiniões pessoais salientando mais o incidente” e isso “não supera em termos profissionais, e também morais, o modo comportamento de outros agentes públicos”.

É recorrente e envolto em alguma discussão os partidos com assento na bancada parlamentar exigirem disciplina de voto aos seus deputados em matérias sensíveis. Um caso bem conhecido é o do deputado Manuel Alegre, que já várias vezes contrariou as indicações do Partido Socialista, posicionando-se contra nas votações acerca do Código de Trabalho e Estatuto da Carreira Docente. A este respeito, Arnaut afirma que o deputado deve votar de “livre consciência”, mas que “existem certas matérias em que se impõe uma disciplina”. É o caso de matérias mais importantes como o Orçamento de Estado. Visão não muito diferente tem José Saraiva: “é preciso dar mais liberdade aos deputados, mas compatibilizar isso com a governabilidade”. Arnaut acrescenta ainda que é necessário estabelecer um equilíbrio entre os interesses dos eleitores e a “doutrina dos partidos”. Segundo o ex-deputado, “esta situação resolvese a partir da criação de círculos uninominais”, o que contribuiria para uma democracia “cada vez mais directa”. Por seu lado, Odete Santos pensa que não faz sentido uma eventual mudança no sistema eleitoral: “a que existe é uma boa solução”. No meio-termo situa-se José Saraiva, que defende “um sistema misto, com deputados eleitos em listas uninominais e eleitos numa lista nacional”. Ainda no que toca à disciplina de voto, Arnaut considera que deveriam estar descriminadas no estatuto do

deputado as matérias em que este deve respeitar a vontade do partido. “Se o deputado pertence ao partido do governo, ele está vinculado a uma disciplina partidária porque também a aceitou”, esclarece. O professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Gomes Canotilho, acredita que “num sistema como o nosso, em que o deputado representa a nação, são precisas aberturas para a autodeterminação pessoal”.

Mais ou menos deputados Também em relação ao número de deputados no Parlamento, actualmente 230, as opiniões divergem. Enquanto Odete Santos considera que “não há excesso de deputados”, para António Arnaut é possível uma redução. Para Gomes Canotilho, a redução do número de deputados é possível mas com duas condições: “alterar os círculos eleitorais e fazer uma melhoria nos serviços de auxílio, de forma a elevar o nível de actuação dos deputados”. No entender de António Saraiva, a redução deve ser acompanhada de uma nova câmara no Parlamento, “onde estivessem presentes figuras de referência”. Contrário a esta ideia é Arnaut, que refere que a criação de um Senado seria uma maneira de proporcionar “um rendimento às pessoas de certa idade que estavam já aposentadas da política”. “O Parlamento, só melhorará a sua imagem através da competência e da qualidade de intervenção”, conclui.


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PAÍS & MUNDO

Albânia na rota da UE

ANÁLISE ALARGAMENTOS SIM, MAS NÃO PARA JÁ

O país dos Balcãs candidatou-se à União Europeia. Com uma economia paralela e sem um Estado de Direito, a Albânia tem ainda um longo caminho a percorrer D.R.

A integração europeia chegou a mais uma vírgula do seu já considerável percurso. Depois de ultrapassada a de 2004, com a adesão de dez novos países, as instituições europeias esgotaram a sua capacidade de resposta. Se até a 2004 as adesões foram, mais ou menos, óbvias, mais ou menos, consensuais, agora as coisas estão mais complicadas. A Croácia tem disputas territoriais com a Eslovénia e a Sérvia, entre outras coisas, precisa de encontrar Ratko Mladic e entregá-lo à justiça internacional, o Kosovo ainda caminha para o reconhecimento pleno da sua independência e a Turquia assusta a Alemanha. Isto não é uma vírgula, mas sim um parágrafo na história da Europa. A Albânia é só mais um dos países que procura o sonho europeu. Também a Croácia, Sérvia, Kosovo e Turquia, quando acordam, de manhã,

A ALBÂNIA É SÓ MAIS UM DOS PAÍSES QUE PROCURA O SONHO EUROPEU APESAR DO CRESCIMENTO ECONÓMICO a Albânia é um dos países mais pobres do continente europeu

Vasco Batista A Albânia apresentou a 28 de Abril a candidatura formal à União Europeia. O país tem demonstrado um caminho de aproximação ao continente europeu, procurando, deste modo, quebrar com o distanciamento a que esteve submetido durante a era soviética. A candidatura surge pouco depois da adesão à Organização do Tratado Atlântico Norte (NATO), juntamente com a Croácia e a República da Macedónia, na cimeira de Bucareste. Apesar destes avanços, vários estados-membros mostraram-se, ainda, reticentes relativamente à candidatura do antigo país comunista. Alegam que, neste momento, a União Europeia devia preocuparse antes com a finalização do Tratado de Lisboa. Neste sentido, o professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Rogério Leitão, garante que “com este vazio acerca da entrada do Tratado de Lisboa, há muitos estados que se opõem, por essa razão, à aceitação da adesão da Albânia”. Sobre isto, a eurodeputada do Partido Socialista, Ana Gomes, esclarece que “está escrito no Tratado de Nice que enquanto se aplicar Nice não há mais alargamentos”. “A entrada em vigor do Tratado de Lisboa é uma pré-condição para qualquer novo alargamento”, explica.

Condenação à economia informal Do ponto de vista económico, os estados têm que estar nos moldes de uma “economia de mercado capaz de enfrentar os desafios da adesão ao mercado interno único”, considera o docente da FEUC. Todavia, “a Albânia tem uma economia de uma grande fragilidade e, se conhece algum desenvolvimento, deve-se sobretudo à economia subterrânea, a fluxos e transacções financeiras de legitimidade muito duvidosa”, assegura. Por sua vez, a representante socialista ressalva que “não basta estabelecer a economia de mercado

por decreto, há que assegurar o seu real funcionamento”. No mesmo sentido vai o deputado europeu do Bloco de Esquerda, Miguel Portas, que relembra: “o povo [albanês] está condenado a viver da economia informal, porque não tem outra forma de vida”. O eurodeputado do Partido Comunista Português, Pedro Guerreiro, garante que o “objectivo deverá ser a aproximação do desenvolvimento económico e social dos diferentes países que levem a uma coesão económica e social que há cada vez menos”. Paralelamente, “tão ou mais im-

MONTENEGRO SÉRVIA

MACEDÓNIA ALBÂNIA

GRÉCIA

portantes do que os critérios económicos são os critérios políticos e, nesse domínio, a Albânia tem um longo percurso a fazer”, defende Ana Gomes. Rogério Leitão partilha da mesma opinião, ao considerar que a Albânia é “um Estado de Direito democrático imperfeito com problemas estruturais muito grandes”. A presença desta imperfeição tem alimentado os problemas de criminalidade organizada e corrupção. Mais do que benefícios económicos, interessam os benefícios políticos, como explica o docente de Sistema Político da União Europeia. “A adesão do que resta dos Balcãs e da Albânia não é muito valiosa sob o ponto de vista económico. Existem, sobretudo, no sentido geopolítico e estratégico, uma vez que a Europa carece, através da adesão, de uma estabilização das pequenas fronteiras da Europa”. Na possibilidade de futuras adesões, Ana Gomes considera que tal é proveitoso “desde que haja a garantia de que não compromete o aprofundamento do processo de integração europeia”. “Mais importante que tudo é apostar na integração europeia para uma união política mais forte”, finaliza. Uma vez contactado a assessoria do deputado do Partido Social Democrata, Carlos Coelho, este não prestou declarações até ao fecho desta edição. Com Tiago Carvalho e Bruno Monterroso

“vêem o tempo em Bruxelas” na esperança de uma “aberta”. Os problemas da Albânia são talvez os mais difíceis de ultrapassar. Falta um Estado de Direito capaz de combater a corrupção e de condenar os atropelos à lei, isto, para não falar da duvidosa democracia do país, já várias vezes criticada pela Organização para a Segurança e Cooperação. Sendo um dos países mais pobres do continente, a sua economia tem, ainda assim, dado sinais de crescimento, uns significativos cinco por cento ao ano. A transição deste país ex-socialista para a economia de mercado tem tido altos e baixos, desde 1991, ano do início das reformas. Exemplo disso foi o ano de 1999, onde bombardeamentos à Sérvia, por parte da Organização do Tratado Atlântico Norte, na Guerra do Kosovo, levaram à concentração de milhares de refugiados na Albânia, abalando a frágil economia. Progressivamente os níveis de pobreza têm sido reduzidos, o país fomenta o consumo e os seus níveis de produção aumentam. Mas o momento não é o melhor, os estados-membros estão na fase de “tentativa e erro” quanto às políticas a seguir para combater a crise económica internacional e alguns, ainda, aproveitam para se fechar à imigração. O “Não” irlandês ao Tratado de Lisboa é o pilar que falta para que possam ocorrem mais alargamentos. Rui Miguel Pereira Editor de País & Mundo


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CIÊNCIA & TECNOLOGIA BIODIVERSIDADE

A par da extinção, surgem novas espécies em Portugal Na semana em que se assinala o Dia Mundial da Biodiversidade, A CABRA foi perceber que animais estão em risco de extinção e que plantas existem isoladamente no país Diana Craveiro Em Portugal existem 159 espécies de animais em risco de extinção. A lista, divulgada pela União Internacional para a Conservação da Natureza e publicada em Outubro de 2008, dá conta do perigo em que se encontram o lince ibérico e os caracóis da Madeira e dos Açores. Outra espécie ameaçada é o lobo ibérico, que conta apenas com 300 exemplares em terras portuguesas e dois mil no resto da Europa. O elemento da Quercus, Paulo Andrade, conta que, além destes animais, há outras espécies ameaçadas ou extintas, “como por exemplo a águia-real ou mesmo a águia pesqueira”, a única ave de rapina da Europa especializada em captura e consumo de peixe, “que se extinguiu há cerca de dois anos”. Paulo Andrade orgulha-se de já ter visto a ave mais rara da Europa, o peneireiro cinzento, “que só existe em Portugal, no sul de Espanha e no norte de África”. Contra a tendência crescente do desaparecimento de espécies, uma investigadora encontrou dois novos tipos de escaravelhos. Sofia Reboleira fez a descoberta em grutas da Serra d’Aire e Candeeiros, no centro do país, o único habitat dos insectos. A bióloga destaca as novas espécies, por-

que “aumentam o conhecimento do património biológico português”, já que “só existem numa parte das grutas e em mais lado nenhum do mundo”. A extinção já ameaça as novas espécies devido à população extremamente reduzida e também porque os exemplares “são muito sensíveis à poluição e à alteração do habitat”, conta Sofia Reboleira. Os escaravelhos provêm de uma espécie ancestral comum que se foi reproduzindo e criando diferenças que deram origens a novas espécies. Por isso, estas duas novas espécies do escaravelho do maciço calcário estremenho, como vivem em grutas, longe da luz, “são despigmentadas e têm uma redução de estruturas oculares”. Sofia Reboleira pensa que este tipo de descobertas não é recorrente em Portugal, “a menos que sejam ambientes poucos estudados, como é o caso das grutas”. No entanto, a bióloga acredita que “ainda existe muito por encontrar e conhecer”. O estado da biodiversidade “é um problema à escala global”, adverte. O ritmo a que ocorre a destruição das espécies é outra fonte de preocupações para a investigadora. O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (JBUC) foi recentemente palco de uma descoberta semelhante. Um biólogo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC) descobriu duas novas espécies de aranhas. Luís Crespo baptizou-as de Tegenaria barrientosi e Parapelecopsis conimbricensis. Outra descoberta feita no último ano em Portugal, por uma investigadora, foi uma raia mais pequena que a raia anã, com uma protuberância no focinho e com um comprimento caudal maior do que o

comprimento do corpo. Característico desta espécie é o facto de os machos terem dois aparelhos reprodutores.

Plantas invasoras Não são só os animais que correm perigo. Também as plantas têm vindo a diminuir ou, em alguns casos, a aumentar, como as plantas invasoras. O membro da Quercus, Paulo Andrade, destaca o jacinto-deágua como uma planta “que impede que qualquer outro tipo de vida seja possível nos cursos aquáticos”. Esta espécie invasora tem um crescimento extremamente rápido que pode cobrir totalmente a superfície da água, reduzindo a biodiversidade e a luz disponível. É considerada, por isso, uma das piores invasoras do mundo e o seu comércio

está proibido por lei. Além do jacinto-de-água, Portugal tem várias plantas legalmente consideradas invasoras, como a mimosa, as austrálias ou mesmo a vulgar cana. Para ajudar no controle destas plantas, foi apresentado no mês passado, no Museu da Ciência da UC, o primeiro Guia Prático para Identificação de Plantas Invasoras de Portugal Continental. Escrito por Elizabete Marchante, Helena Freitas e Hélia Marchante, o livro fala de cerca de 90 espécies de plantas invasoras que se tornam numa praga capaz de prejudicar os diferentes ecossistemas das regiões onde são predominantes. Mas se Portugal tem plantas invasoras, há muitas espécies que só exis-

tem no nosso país, conhecidas por plantas endémicas. O lírio-doGerês e o feto-do-Gerês são disso exemplo, que, como o próprio nome indica, exis-

tem apenas na serra do Gerês. O arquipélago dos Açores chega mesmo a ter 62 espécies de plantas exclusivas que não se encontram em mais nenhum sítio do mundo. Paulo Andrade considera que Portugal é um país com uma biodiversidade rica e variada, porque tem vários microclimas. “Tanto tem o clima mediterrânico, como tem um mais continental”, afirma. “Apesar de ser um país pequeno tem uma boa biodiversidade mas a verdade é que esta está a ser ameaçada em vários aspectos”, alerta. O membro da Quercus exemplifica com os “pequenos cágados, que já têm poucas áreas selvagens que não estejam poluídas para viver”.

a biodiversidade” e ainda “o apoio à adaptação da biodiversidade às alterações climáticas”. Com estas medidas, a Comissão das Comunidades Europeias pretende acabar com “os ataques aos ecossistemas” para “proteger o futuro da

natureza, devido a seu valor intrínseco”, explica num comunicado. A contagem decrescente já se faz notar, como se vê em vários sítios de organizações não governamentais, como a Quercus. De acordo com as directivas europeias, 2010 é o prazo limite para o cumprimento do plano e, por isso, é igualmente o Ano Internacional da Biodiversidade.

Como salvar a biodiversidade? Para travar a diminuição da biodiversidade, a União Europeia (UE) lançou um plano de acção para todos os estados-membros com data limite de cumprimento até 2010. No plano, entre várias medidas, pode ler-se “a preservação dos principais habitats e espécies”, “o reforço da compatibilidade do desenvolvimento regional e territorial com

CACHALOTE

LINCE IBÉRICO

RIO SABOR

É o maior cetáceo com dentes e dificilmente é confundido com outras espécies. O cachalote tem como principal característica a cabeça rectangular que corresponde a 40 por cento do seu comprimento total. O mamífero é capaz de submergir a uma maior profundidade, até aos três mil metros, num mergulho que pode durar 90 minutos. Mas normalmente atinge apenas os 400 metros de profundidade. Com uma das mais antigas histórias de exploração, esta espécie animal pode ser encontrada ao largo dos Açores.

O lince ibérico é a espécie de felino mais gravemente ameaçada de extinção. Tem um porte muito maior do que um gato doméstico e o seu habitat restringe-se à Península Ibérica. A escassez da sua principal presa, o coelho europeu, ditou a presença do lince ibérico na categoria de perigo crítico de extinção. O comportamento solitário torna-o num animal de difícil observação, por isso, a sua existência pode passar despercebida. Outra característica é as extremidades das orelhas, que têm pelos rígidos em forma de pincel.

O rio Sabor é conhecido por ser o último rio selvagem de Portugal, devido à ausência de barragens e à diversidade de habitats naturais e de espécies que tem. É um dos últimos rios cujo curso corre tal e qual a natureza o decidiu, não tendo sido desviado. Com 120 quilómetros de extensão, nasce na serra de Montesinho e desagua no rio Douro. Apesar de vários ambientalistas terem lutado contra a construção de uma barragem no rio, a medida do governo foi aprovada e vai ser construída a Barragem do Baixo Sabor.


18 | a cabra | 19 de Maio de 2009 | Terça-feira

CINEMA

ARTES FEITAS

Star Trek ”

DE J. J. ABRAMS COM CHRIS PINE ZACHARY QUINTO LEONARD NIMOY 2009

Remake Aquela Fronteira CRÍTICA DE JOSÉ SANTIAGO

R

einventar uma série com legiões de seguidores pode não ser uma tarefa fácil, mas, numa altura em que os ‘remakes’ proliferam, era uma questão de tempo até alguém pegar em “Star Trek”. Se é verdade que o tema das origens tem sido levado à exaustão por outros ‘franchises’, também é verdade que há qualquer coisa de apelativo em ver novamente Mr. Spock e o capitão Kirk a partilhar a tela, e mesmo sem William Shatner, o Kirk original, esta parceria resulta às mil maravilhas, em parte devido à excelente escolha do elenco. Destaco particularmente Karl Urban no papel de Dr. Leonard McCoy, que capta a verdadeira essência da personagem sem se colar ao original. Simon Pegg resulta no papel de Scotty, mas peca pelo excesso de humor que lhe confere. Aliás, um dos maiores defeitos de “Star Trek” é o excesso de alívio

cómico, que pode resultar para uma plateia completamente alienada do resto da série, mas para quem conhece as personagens pode tornar-se uma distracção. J.J. Abrams, o realizador de serviço, é sem dúvida um visionário na maneira de contar histórias, mas em termos técnicos não se destaca na originalidade e corre o risco de ser confundido com Michael Bay, o realizador de “Transformers”, em alguns aspectos estéticos. A história está bem construída e consegue entregar iguais doses de acção e desenvolvimento das personagens. Nota-se que J.J. Abrams se preocupou em manter o espírito original da série, mas que quis marcar um tom completamente diferente dos outros filmes. Até mesmo o uso de Leonard Nimoy, o actor que originalmente desempenhou o papel de Spock, é bem pensado e serve à estrutura da história que, apesar de ter falhas, é bas-

tante coesa e não menospreza a inteligência do espectador. Não sejamos ingénuos, “Star Trek” foi feito para arrecadar dinheiro certo, mas a diferença está na pessoa encarregue de desenvolver o projecto, e isso nota-se no filme. Temos constantes piscares de olhos a quem conhece as personagens, com referências tanto aos episódios como às longas metragens, e também a quem conhece os outros projectos de J.J. Abrams, como é o caso de “Cloverfield” e “Lost”. A certa altura uma das personagens chega mesmo a pedir a bebida Slusho, recorrente em ambos os projectos. “Star Trek” é pura diversão e não aspira a ser mais que isso, o que, nos tempos que correm, é de louvar. É um tributo à série que consegue o mérito de se fazer valer por ele próprio e que vai deixar contentes todos os fãs ou simplesmente todos aqueles que quiserem passar um bom bocado na sala de cinema. Live long and prosper.

Anjos e Demónios”

D

o conto antecessor de “O Código Da Vinci”, Ron Howard (“Apollo 13”,” Uma mente brilhante”,” Frost/Nixon”) traz mais uma adaptação dos célebres romances de Dan Brown. Uma vez mais é a Igreja Católica quem está no centro da trama, ao defrontar uma sociedade secreta conhecida por Illuminati. O objectivo desta organização passa pela destruição da Igreja, sabotando o conclave para a eleição papal. A guarda suíça, incapaz de lidar com a situação, convoca o académico/herói de acção Robert Langdon (Tom Hanks), que, coadjuvado por Vittoria Vetra (Ayelet Zurer), irá deslindar a conspiração. O filme desenrola-se de

forma rápida, tão rápida que Tom Hanks (“Filadélfia”,” Forest Gump”), um actor que parece fadado a preencher este papel de Indiana Jones contemporâneo, parece incapaz de o acompanhar (os 53 anos e alguns quilos a mais deixam o actor longe de uma capacidade atlética à escala de Forest Gump), tendo um desempenho sofrível, que ainda assim ofusca Ayelet Zurer (“Munique”). Fugindo à mediocridade estão os desempenhos de Ewan McGregor (“Trainspotting”,” Star Wars” I-II-III), interpretando Il Camerlengo e Stellan Skarsgard (Cmd. Richter), no papel de chefe da guarda suíça, e que confessou à imprensa não ser um fã da escrita de Brown. Por comparação

com o livro, o filme consegue ser ainda mais desinteressante. Já a fotografia é digna de um postal, o que dado o local das filmagens (Roma), se resume muito redutoramente a apontar a câmara para qualquer direcção. Há ainda alguma babugem em latim, que apesar de não traduzida, também não acrescenta nada à trama. A grande vantagem apontada por muitos seria a discussão de temas como religião vs. ciência, mas à velocidade que a acção decorre, qualquer tipo de reflexão mais profunda pode provocar náuseas. A conclusão neste caso será: se a Igreja não condena… é porque provavelmente não é bom…

PEDRO NUNES

DE

RON HOWARD COM

TOM HANKS AYELET ZURER EWAN MCGREGOR 2009

Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja


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ARTES RTES F FEITAS EITAS A

OUVIR

LER

Two ”

e 2001 a esta parte, O filão que a vida de Caroline Hervé tem sido uma não se esgota roda-viva. Não é que já não fosse assim antes disso, desde que na segunda metade dos anos 90 começou a ganhar notoriedade à escala nacional em França. Mas desde a edição de “First Album”, no primeiro ano do milénio, é essencialmente como criadora que tem vindo a obter reconhecimento e a solidificar um estatuto de estrela na cena de dança underground. Depois das parcerias nos primeiros lançamentos (como “First Album” com Michel Amato, que assina sob o pseudónimo The Hacker) Miss DE Kittin enveredou numa carreira MISS KITTIN & THE HACKER solitária, que começou muito EDITORA bem com “I Com” em 2004, NOBODYS BIZZNESS mas que deu mostras de fragilidade com o mais recente “Bat2009 box”, editado no ano passado. Talvez por isso tenha decidido jogar pelo seguro e apostar numa equipa de sucesso comprovado. O novo disco marca assim o regresso da colaboração entre Michel Amato e Caroline Hervé, e mostra que a capacidade simbiótica do duo não só se mantém intacta, como parece ter de certa forma apurado. “Two” apresenta-se desde logo como um álbum mais abrangente e eclético que o disco de estreia, acentuadamente marcado pela estética a que um dia se lembraram de apodar de electroclash. Mas é interessante reparar como o novo álbum não é de todo desprendido dessa sonoridade, que se podia julgar à partida um filão esgotado. Mas o disco é diferente porque para além da recuperação bem conseguida de uma sonoridade sobre-explorada, alarga os horizontes, quer em direcções mais duras (como no fantástico “Pppo”), quer em campos mais pop (escute-se “1000 Dreams”). Mas a força motriz continua a ser a vocação inata para a pista de dança. Destaques para “Party in My Head”, a já referida versão original de “1000 Dreams”, e a inesperada versão de “Suspicious Minds” – sim, essa, a do Elvis. Se “Batbox” apontou algumas falhas à criação a solo de Miss Kittin, o regresso à colaboração com The Hacker é mais que bemvindo. E se o tempo que passam separados fizer bem à criação, até 2017.

D

A Balada do Café Triste” Entre silêncio das sombras: a balada

DE

CARSON MCCULLER EDITORA RELÓGIO D’ÁGUA 2001

N

a Balada de Murson McCullers, o café já não existe e a terra voltou a ficar sombria. E nos anos em que se foi construindo, no soalho inferior da casa da proprietária Miss Amélia, era uma espécie de ilusão que o corcunda (primo Lymon) lhe trouxe e a qual permaneceu até este partir de CheeHaw, (sul dos Estados Unidos), com Marvin Macy. É através destas três personagens principais – triângulo de relação infértil - que a narrativa cresce. As temáticas – infiltrações da acção – são trabalhadas no seu interior modificando-as: o amor (e a sua vertente mais escura: a solidão) é tratado, muitas vezes, através das nãoacções ao ponto de a autora suspender os agentes dando lugar a reflexões que se agarram a nós – “um louco pode provocar na alma de outra pessoa um idílio simples e terno”; os desvios, e por vezes, o insólito, apresentam-se, predominantemente, nas características das figuras principais do enredo – Miss Amélia, “uma mulher forte com músculos de homem” que odiava Marvin; o corcunda “tinha um instinto que só se encontra nas crianças”; “Marvin durante dois anos amou Miss Amélia e ganhou boas maneiras” as quais perdeu quando foi deixado. “A Balada do Café Triste”, novela escrita originalmente em 1951, atrai, so-

bretudo, pelo uso rico de descrição que coloca o leitor na acção como se a pudesse observar através de uma janela (ao jeito de uma reportagem de ambiente). O arranque do texto, que se cruza com o seu final, (tempo presente), é o exemplo mais vigorante do género. Nesses dois ápices a autora não conta a história, mas antes o resultado – reflexo – da mesma – “o som das picaretas batendo no silêncio da estrada”. A narrativa desenvolve-se, entre eles, – em flashbacks – a desvendar porque a “rua está deserta”. Assim, evitando a temporalidade cronológica, a história ganha fôlego quando cria surpresa. As sensações são nítidas – podemos cheirar, ver – “As mãos dele eram como patitas sujas de pardal e tremiam”. O apelo aos sentidos é conseguido sobretudo através do recurso abundante a comparações. Com estes instrumentos o discurso narrativo constrói-se com uma escrita simples, mas que nela agrega princípios de força poética – “Pôs-se a bater as pálpebras de tal maneira que pareciam tranças brancas a saltar das órbitas”. Assim, o escritor inglês Graham Greene, sobre o estilo da escritora norteamericana que alcançou notoriedade em 1940 com “O Coração é Um Caçador Solitário”, afirmou: “escreve com mais clareza” (comparando-a a Faulkner).

CARLA SANTOS

VER

RocknRolla - A Quadrilha” As pessoas perguntam-se... O que é um RocknRolla?”

EMANUEL BOTELHO

GUERRA DAS CABRAS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro FILME EXTRAS

Artigos disponíveis na:

DE

GUY RITCHIE EDITORA DIVISA 2008

enny Cole controla tudo o que diz respeito ao submundo do crime de Londres. Archy é o seu fiel braço direito e narrador da estória. Uri Omovich é um bilionário russo com vários investimentos em Londres. One Two, Mumbles e Handsome Bob são o Bando Selvagem, grupo que se ocupa com os mais variados biscates ilegais. Johnny Quid é a estrela Rock, irremediavelmente atraído pelo crack. São estas as personagens do mais recente trabalho de Guy Ritchie. À parte o tiro ao lado que foi “Swept Away” (2002) e o “Sherlock Holmes” previsto ainda para este ano, Ritchie mantém-se muito fiel ao universo que vai criando em cada filme, povoado de personagens singulares do submundo, com variadas idiossincrasias extremamente vincadas, diálogos vivos e continuamente frescos. É no aprofundamento deste manancial de personagens do submundo londrino que Guy Ritchie encontrou o seu nicho e onde a sua linguagem se vai desenvolvendo. “RocknRolla” é mais um capítulo, muito divertido, de um mesmo livro que se vai escrevendo desde o início da sua carreira.

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Pouco há a dizer sobre esta edição DVD que cumpre os serviços mínimos. Uma featurette com os locais de filmagem em Londres, uma cena eliminada e o comentário áudio do realizador e de um dos actores. Não é dos melhores exemplos de como um DVD deve vir preenchido com extras mas, em abono da verdade, já vimos o “menu interactivo” ser considerado um suplemento à normal edição. Dentro desta relativa abundância o destaque vai inteirinho para o comentário áudio. Guy Ritchie e Mark Strong (Archy no enredo) guiam o espectador pelos pormenores da rodagem com o pormenor curioso de nos parecer estar a assistir a uma sessão de bajulamento constante do actor ao realizador: “que cena tão bem iluminada”, “este diálogo está muito bem escrito”, “como tiveste esta ideia”, são apenas alguns exemplos. O que é então um “RocknRolla”? É a personificação dos excessos. Drogas, Sexo, Música, Fama. O “RocknRolla” quer tudo, mas ao contrário dos pretendentes, o verdadeiro “RocknRolla” quer tudo ao mesmo tempo, a promessa fica para o resto da trilogia.

FERNANDO OLIVEIRA


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SOLTAS

CRÓNICA DE VIAGENS

PAQUISTÃO TIAGO RELVÃO

O RIGOROSO INVERNO PAQUISTANÊS

A SUJIDADE nas ruas não impede que a vida siga com normalidade

elcome to Pakistan”, diz o soldado ao devolver-me o passaporte, depois de verificar se o visto, obtido ainda em Portugal, estava devidamente carimbado. Dou um passo em frente enquanto não consigo evitar falar para os meus botões: “o que é que estou aqui a fazer!?” Um pequeno “comité de boas vindas” já me aguarda, ávido de negócio. Nos dias que correm, não é normal turistas passarem por aqui, e, num instante, estou rodeado de ofertas para me levarem à aldeia mais perto ou para trocar dinheiro. Troco os meus últimos reais iranianos, com a certeza

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absoluta de que estou a ser roubado. Resignado, subo para a parte de trás de um das carrinhas “pick up” Toyota que fazem de táxi. A alguns quilómetros a norte, já no Afeganistão, este tipo de carrinhas são as preferidas dos talibãs, na sua jihaad contra o Ocidente. As 12 horas seguintes são provavelmente as piores da minha vida. A bordo de um autocarro onde a bagagem vai empilhada no tejadilho (ilustrativo da qualidade do veículo), atravessamos o deserto do Baluchistão, conhecido pela quase inexistência de estrada e pelo banditismo. Por duas vezes, encontramos dois veículos avariados a bloquear a estrada e, por duas

vezes, o condutor faz um pequeno corta mato para evitar males maiores. A expressão “parar é morrer” nunca me pareceu mais apropriada… Eventualmente, após uma segunda viagem de comboio de 20 horas, chego a Lahore, a capital cultural do Paquistão. Pela primeira vez na minha vida, compreendo realmente o significado da expressão ‘terceiro mundo’. Ao ver a miséria que me rodeia, chego à conclusão que não existe pobreza na Europa, apenas pessoas menos afortunadas. Porem, após o choque inicial, começo a ficar imune a miséria e sujidade que me rodeia e começo a apreciar o quotidiano e os

GREVE GERAL NA UC

orria o ano de 2003 e o ensino superior assistia a uma série de mudanças propostas por Pedro Lynce, Ministro da Ciência e do Ensino Superior. Em Assembleia Magna, foi votada uma greve geral, a qual passava pelo encerra-

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bem ilustrativo) estritamente interditas a estrangeiros], a neve do rigoroso inverno paquistanês bloqueia todo o norte do país, na cordilheira do Karakoram, onde se ergue o pico K2, o segundo mais alto do mundo, mas o mais difícil de escalar. Ao deixar o Paquistão, faço-o com a certeza de que irei voltar um dia, para descobrir tudo o que ficou por descobrir, e para reencontrar a hospitalidade paquistanesa, a mais genuína que encontrei até hoje. Levo a esperança que este povo que tão bem me acolheu tenha um futuro mais risonho que os problemas do presente auspiciam... Por Tiago Relvão

18ºANIVERSÁRIO

13 DE MAIO DE 2003 • EDIÇÃO N.º 96

mento da Universidade de Coimbra (UC) no dia 14 de Maio e contaria com a adesão do ensino secundário. A 22 de Maio estava previsto o boicote às aulas a nível nacional. A ideia de greve partiu após Pedro Lynce ter anunciado as alterações durante a preparação das semanas académicas por todo o país. O presidente da DirecçãoGeral da Associação Académica de Coimbra, Victor Hugo Salgado, afirmava que a greve não era apenas “da academia de Coimbra mas sim de todos os estudantes”. Foi este o tema da manchete d'A CABRA na edição número 96, que continuava no Destaque, com uma entrevista a Ana Maria Seixas, perita na área do ensino superior e autora do livro “Políticas Educativas e Ensino Superior em Portugal”, que afirmava que o país estava longe “de um modelo único

costumes. Tudo é diferente. As roupas, as lojas, a arquitectura, as mesquitas. A comida é deliciosa, super picante e baratíssima. Há que esquecer primeiro qualquer parâmetro higiénico ASAE. “O que não mata engorda” é a filosofia. Isso e um comprimido IMODIUM, todos os dias, para evitar percalços pelo caminho. Nos próximos dias, tento conhecer melhor o país. Infelizmente, a altura não é a ideal para visitar o Paquistão. Para além dos problemas de insegurança [que, ao contrário do que a imprensa transmite, estão bem delimitados ao longo da fronteira com o Afeganistão, nas chamadas regiões tribais (nome

A CABRA sai do arquivo...

e real do ensino superior global”. Em Academia, era noticiada a revisão dos estatutos da Associação Académica de Coimbra, que previa alterações como a inclusão da Queima das Fitas nos estatutos, a mudança do regime de incompatibilidades e a redefinição da natureza dos organismos autónomos. Cidade apresentava as declarações do presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Carlos Encarnação, relativamente às alterações da SISA e contribuição autárquica, as quais considerava “importantes e positivas”. Em Nacional, era noticiado o envio de soldados da GNR (Guarda Nacional Republicana) para a Guerra do Iraque, por ordem do primeiro-ministro de então, Durão Barroso. As páginas centrais do jornal fa-

ziam uma visita guiada às oito noites do parque da Queima das Fitas, considerada “a mais longa de sempre”. Desporto noticiava o empate da Briosa na sua deslocação aos Açores, numa partida classificada como tendo “pouco arrojo e jogo de «pontito»”. Cultura apresentava a X Edição dos Caminhos do Cinema Português, cuja organização acusava as entidades competentes de falta de apoios financeiros. A fechar, a edição 96 relembrava os 80 anos de Eduardo Lourenço, marcados pelo lançamento de

uma fotobiografia em sua homenagem. Andreia Silva


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O MUNDO AO CONTRÁRIO

SOLTAS

REINO UNIDO Para aqueles que pensam que burro velho não aprende línguas, Ivy Bean prova precisamente o contrário. A idosa de 103 anos vive num lar em Bradford e não tem medo de tecnologias. É provavelmente a pessoa mais idosa a utilizar o Twitter. Também é adepta de redes sociais como o Facebook, onde tem 4800 amigos.

TÓQUIO A marca de lingerie Triumph lançou um sutiã caça-maridos. Esta peça hi-tech faz uma contagem decrescente até à data do casamento. No dia da união matrimonial, após a entrega da aliança à noiva, ela coloca-a numa ranhura do soutien e este, por sua vez, toca a marcha nupcial.

TEM DIAS... Por Licenciado Arsénio Coelho

OS SEGREDOS DE COIMBRA FINALMENTE REVELADOS s universitários são os reis da festa, não é? Divertemse como ninguém. Dormem de dia e alimentam-se da noite. É isto que se ouve por aí aos pontapés. Mas sabem o que vos digo? Tretas. Na realidade todas estas frases feitas foram criadas

O

para encobrir um dos maiores mitos da humanidade. Eu como já estou licenciado, e tanto se me dá como se me deu, vou seguir o exemplo daquele senhor da máscara e revelar uns dos segredos mais bem guardados de Coimbra. Preparados?

QUÉNIA Mulheres activistas fizeram greve de actividade sexual para pressionar os líderes políticos do país. As revoltosas pretendiam mudar a situação de violência e de instabilidade política e económica. Após uma semana de manifestação, um cidadão entrou com um processo contra o grupo. O queniano que pediu uma indemnização alegou angústia mental, stress, dor nas costas e falta de concentração. Apesar do processo jurídico, o protesto teve sucesso. Sara São Miguel

CARICATURA POR GISELA FRANCISCO E ILUSTRAÇÃO POR LÍDIA DINIZ

Pois aqui vai: sair à noite é uma chatice. Nove em cada 10 saídas nocturnas são um aborrecimento. No entanto, os estudantes continuam a sair. E porquê? Porque isto de sair à noite é como começar a jogar no Euromilhões. E se os meus números saem esta semana? Ou seja: E se acontece algo interessante esta noite? E se é desta que consigo engatar uma moça? Sim, porque não falha. Se um dia tens o azar de ceder à tentação de não sair, podes começar a preparar-te para ouvir os teus amigos no dia seguinte a dizer que acabaram a noite a dançar com três erasmus nas casas de banho do NL. E tu com aquela cara de quem passou a noite a ver o programa do Malato. Mas o Euromilhões nunca sai e o que realmente acontece todas as noites é o seguinte: São nove da noite. Estás em casa a jogar Mafia Wars no Facebook quando recebes um sms de uns amigos que querem ir jantar às amarelas. Como não tens nada para fazer dizes que sim. Acaba o jantar e vais tomar um café ao Tropical. Mas sentas-te lá fora. Mesmo que esteja um frio de rachar. É uma questão social. O tempo passa, a conversa esgotase e ninguém sabe muito bem o que dizer. Começas a sentir-te desconfortável. Felizmente, de vez em quando passam por ti umas pessoas que conheces de vista. Como os teus amigos não os

conhecem é uma boa altura de passares a imagem de “gajo popular”. É meia-noite. Voltas às amarelas com os teus amigos para beber uns finos. Estás duas horas lá dentro, com mais do que tempo para decidir onde vais a seguir. Mas não. Esperas que aquilo feche e decides na rua. Ao frio. Depois de muita indecisão lá acabas por ir para o Bar da AAC que, como sempre, está a abarrotar. Tentas então chegar ao balcão para pedir um fino. Só que, como sempre, esqueceste-te que às 3 da manhã o Bar da AAC tem uma capacidade de locomoção própria. Como as marés. Começas então a pensar no bem que se estava na tua cama. Eventualmente acabas por chegar ao balcão. Depois de uma quantidade de finos razoáveis começas a pensar que é esta noite que vais arranjar companhia feminina. Falas com os teus amigos e começas então a busca. Mas nunca consegues. Quando dás por ti são oito da manhã e estás sozinho num sítio cheio de gente suada, bebida e fumada. Como tu. Gente sem sorte que tem vergonha de o admitir. Mas felizmente estás demasiado bêbado para pensar nisso. E vais para casa. Todas as crónicas em

arseniocoelho. blogs.sapo.pt

COM PERSONALIDADE D.R.

SÉRGIO GODINHO • 64 ANOS • MÚSICO

PARA ALÉM DO MÚSICO VIVE O ACTOR Tenho o bichinho do teatro no sangue desde que me conheço. Sempre gostei de fazer teatro, de brincar aos teatros. Representei em Paris, mas antes já o tinha feito no teatro universitário do Porto. Quando voltei, depois do 25 de Abril, fiz uma peça com a Maria do Céu Guerra chamada “Liberdade, Liberdade”. Fiz ainda mais duas encenadas por Ricardo Pais. E a última coisa que tinha feito tinha sido há já19 anos. A peça foi encenada por João Canijo e nela participou também Alexandra Lencastre. Chamava-se “Quem pode, pode”. Foi um excelente espectáculo. Desde aí, tenho tido muitos convites mas tenho dito que não por ser difícil conciliar. Às vezes, vou gravar um disco e o projecto não me suscita o interesse suficiente para largar tudo. “Onde Vamos Morar” veio em boa altura. Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos, que admirava já da Cornucópia, convidou-me. Li a peça e imediatamente disse que sim. Já tinha vontade de voltar ao teatro. Em 2008, estivemos cinco semanas no Convento das Mónicas. Ficamos sempre com uma espécie de amargo de boca de não poder mostrar isto noutros lugares, noutros auditórios. A digressão está a correr muito bem. Fizemos duas cidades: Portimão e Viseu, no teatro Viriato. Há uma certa avidez pelo teatro nestas cidades que acaba por ser muito gratificante. José Maria Vieira Mendes é um dramaturgo jovem. Em contraponto, tem um grande conhecimento do que é a alma humana. A forma como “Onde Vamos Morar” está construída não deixa de ser interessante. Há uma teia de personagens com uma espessura incrível, que se cruzam. Os diálogos e a vivência de uns entra pela de outros. É como se estivessem todos a falar através de uma grande voz comum. O meu personagem é doente, amargo, solitário de mal e em perda perante a vida. Muito ao contrário daquilo que sou. É um desafio, um confronto comigo mesmo. Interpretar um personagem é fazer a ponte com os outros lados de nós, do que vemos à nossa volta, com as outras pessoas. Tudo se transforma numa súmula de atitudes daquele personagem. É exigente mas dá muito gozo. No teatro, as pessoas não vão encontrar o mesmo Sérgio Godinho. Mas sou eu. É bom para mim apresentar esses outros lados. Penso que para as pessoas também será bom recebê-los. Pode ser desconcertante pois não é um concerto. Depois da digressão a peça acaba. Fica sempre uma nostalgia, mas as coisas têm o seu período de vida. São encontros e reencontros e depois partimos para outra. Voltarei depois disto à música. Nunca sei o que vou encontrar em cada espectáculo. Não tiro radiografias prévias ao público. Na música, como no teatro, a minha energia adequa-se ao auditório. Não tenho formação específica de nada. Sou um autodidacta. Gosto muito do cinema e do teatro... A par com

a música são as minhas paixões. Entrevista por Maria João Fernandes


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OPINIÃO

O DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA António Serzedelo *

DR

A tentação de exclusão também existe no movimento

Cartas ao director podem ser enviadas para

acabra@gmail.com

O 17 de Maio constituiu-se o “Dia Internacional Contra a Homofobia”, em virtude da retirada da homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças, consequência da Assembleia Geral da OMS, realizada nesta data, em 1990. Esta data vem afirmar a mudança de valores da sociedade judaico-cristã, a qual via a homossexualidade como pecado, crime e doença, e nessa base encontrava uma legitimação para excluir este grupo social. O dia foi também instituído para lutar a nível internacional contra todos os países onde a homossexualidade ainda é crime e, em alguns casos leva até de morte. Entretanto, esta questão é sobretudo um assunto cultural que tem a ver com comportamentos aprendidos ligados ao poder, ao privilégio, à dominação masculina, do macho, na família e na sociedade. Aliás, em grande parte é impulsionada pelas religiões, com todo um discurso historicamente discriminatório. Exemplos: Na Nigéria: O sexo entre homens é ilegal e há penas de prisão para os casais do mesmo sexo, e até para quem os ajudar. Mas em Angola, Moçambique e S. Tomé também é crime. No Brasil: Um pesquisa realizada pela Universidade de Uberlândia numa parada gay aponta que mais de 64% dos homossexuais já foi agredida verbal ou fisicamente. Em Salvador: A sede do mais antigo grupo lgbt do Brasil, o Grupo Gay da Bahia, foi arrombada há dias, e quase totalmente destruída, perdendo-se o acervo histórico ali guardado. Em Timor Leste: A Igreja Católica impediu que a nova Constituição, recém aprovada, tivesse uma cláusula referente à liberdade sexual, apesar de apelos feitos por nós. Hoje, a Sida lavra intensamente, sendo gravíssima a perseguição feita a homossexuais. Na Palestina: fomos abordados há dias para tentar salvar um palestino vivendo na zona do Hamas. Por ser gay, quando há bombardeamentos, o pai põe-no na rua para ver se morre. Uma granada já o cegou de um olho. Tem de vir para o Ocidente, pois se voltar à sua terra, será morto. Em França, há dois anos, regaram com gasolina um homem por

ser homo, no jardim da sua casa, o que então motivou uma intervenção do próprio Presidente da República. Podem escutar numa edição do meu programa, “Vidas Alternativas”, um caso que se passa na zona do Porto numa família de industriais, com um filho de 27 anos homo, que não aceitam. Portador de doença congénita cardíaca, deve tomar diariamente remédios, senão pode morrer. A mãe, instigada por padres, que lhe disseram que o filho “não é filho de Deus”, retira-lhos, para ver se ele morre de “morte natural”. Recorde-se a morte trágica, no Porto, da transexual Gisberta, cujos matadores não foram correctamente punidos, por serem jovens. Mas há também a homofobia interiorizada nos jovens . Recentemente, vieram à nosso sede familiares de um que tentou o suicídio por ter dificuldades em aceitar-se, ao descobrir-se gay. A tentação de exclusão também existe no movimento. Quando chegou cá a petição de França para subscrevermos o manifesto, disseram-nos que devíamos ir ao cinema S. Jorge onde se realizaria a assinatura do documento. Chegados lá, um responsável do festival que se realiza ali disse-nos que a reunião era na “Aliance Française” para onde fomos. De facto, era no S. Jorge, como soube depois pelo mentor francês da ideia. Objectivo do activista: excluir-nos de assinar o manifesto para ser só assinado pelas associações das suas simpatias ideológicas. Assinado ou não, continuamos a luta, que hoje tem de ser também transversal, porque onde há intolerância, agravada em tempos de crise como aquela que atravessamos, todos os grupos ditos minoritários são vítimas de exclusão, lgbt’s, grupos étnicos, emigrantes, mulheres, deficientes, etc. Neste contexto, a luta pelo alargamento dos direitos das uniões de facto para heteros, homos e lésbicas, e pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo, ambas em discussão, são duas das plataformas de luta pelos direitos cívicos desta minoria, que temos de ganhar com o apoio dos heteros. * Presidente da Opus Gay

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OPINIÃO O DEVER DA MEMÓRIA

EDITORIAL

Daniel Joana * La Historia no prevé el futuro, sino que tiene que aprender a evitar lo que no hay que hacer… Porque el pasado (…), si no se le domina con la memoria, se vuelve siempre contra nosotros. J. Ortega y Gasset

Dois são os caminhos que a sociedade pode tomar num momento tão crucial como o que atravessamos: o do autismo (no sentido figurado do termo, e não no patológico) ou o do altruísmo. É notável como dois significantes tão parecidos encerram em si significados tão distintos: enquanto que o altruísta se preocupa com os problemas de toda a comunidade em que está inserido, o autista quer que toda a comunidade se preocupe com o seu próprio umbigo. Toda a admirável evolução que a Humanidade tem experimentado se deve à capacidade humana, revelada por alguns dos seus membros, de vencer a miopia egoísta que nos aproxima das nossas origens animais, e viver segundo ideais de bem comum que nos elevam acima delas. Foi a acção continuada no tempo destes indivíduos que permitiu que se formassem comunidades, ou seja, que se formassem grupos de indivíduos cujas relações assentam em laços profundamente solidários. De outra forma, o que explica que um algarvio pague, naturalmente, impostos que serão gastos em cuidados de saúde no Minho? O que levará um ribatejano a despender dinheiro para que se construa uma escola na Beira Interior? Ou, para usar um exemplo mais contemporâneo, por que não se revoltará um alemão ao saber da longínqua aplicação de parte dos seus rendimentos na recuperação de monumentos em Coimbra? Todo o sistema comunitário pressupõe uma preocupação com o próximo, um sacrifício pelo vizinho, uma entrega pelo bem comum. Aos membros que têm desencadeado, ao longo dos tempos, um processo tão nobre quanto útil, devemos a nossa admiração e o nosso reconhecimento, no mínimo. Ao percorrermos os acontecimentos de 69, somos levados a interrogarnos acerca da razão que fez com que os jovens estudantes de então levassem a cabo um acto daquela natureza, mesmo sabendo das terríveis consequências que os esperavam.

Contudo, nem o medo da tortura, nem a certeza da prisão nem o pavor da guerra os demoveram de fazerem aquilo que consideravam ser o melhor para todos. Acções altruístas têm como fonte a profunda consciência do papel actuante que cada ser humano pode ter na sociedade. Aqueles colegas estavam conscientes do seu papel, naquele momento nevrálgico da História. Conheciam outros exemplos de abnegação que as gerações anteriores já haviam tido em outros momentos decisivos. Esses exemplos, para além de os inspirarem, tornariam qualquer acto acobardado, numa traição colectiva. De um modo geral, cada geração de determinada comunidade tem uma dívida para com a geração anterior, que se salda, precisamente, por uma luta para que a geração seguinte encontre um habitat mais favorável à sua realização. No entanto, a proficuidade de toda esta dinâmica exige, intransigentemente, que haja um conhecimento dessa dívida, capaz de criar um sentimento de dever. Neste contexto, pode tornar-se preocupante o crescente desprezo que a nossa sociedade mostra pelos saberes das Humanidades. Com essa atitude míope, a tão necessária memória colectiva tende a desvanecerse para a maioria de nós. Se continuarmos a menosprezar saberes como a História , entre muitas outras consequências penosas, corremos o risco de conceber uma sociedade em que todos ignoremos a “dívida geracional”. Em consequência, deixaremos de reconhecer a comunidade em que nos inserimos e, em momentoschave como o que recordámos no dia 17, não seremos capazes de tomar decisões que releguem para segundo plano o egoísta bem-estar do nosso umbigo. Num momento tão decisivo como o que atravessamos, mais do que um direito, a memória histórica é um inalienável dever, para todos. * Professor. Estudante da UC

NOTA EDITORIAL Por motivos técnicos, o portal informativo ACABRA.NET encontra-se temporariamente indisponível. Tentaremos ser o mais breves na resolução do problema.

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 e-mail: acabra@gmail.com

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VER COMBOIOS PASSAR

m 1993, Irvine Welsh editava uma obra que viria a ser imortalizada num filme de Danny Boyle. Na novela de “Trainspotting”, Welsh retratava um grupo de amigos escoceses que viam a vida a passar ao seu lado sem estabelecer uma ponte metafórica com os comboios que passam. Também a última Assembleia Magna foi rica em metáforas sobre maquinismo. Desde a locomotiva que não quer puxar os vagões, até ao comboio que pretende avançar sobre um caminho-de-ferro inexistente, todo o vernáculo de qualquer ‘maquetren’ esteve presente. Faltou foi uma discussão, de facto, austera sobre a situação actual do ensino superior. Não podemos centrar a discussão em questões paralelas à

E

Tecnologia e Ensino Superior e exigir uma declaração pública do ministro sobre o rumo que pretende dar ao ensino pode até ser uma boa proposta. Não é, contudo, mobilizando uma magna já de si pouco mobilizada que vai levar esse combate adiante. Não é também encarando esta como uma iniciativa circunstancial e completamente desligada de um processo de luta que se exige no momento que tanto preconizam. Não é, muito menos, chumbando à partida e vexando, sem pudor, todas as outras iniciativas de luta propostas na Assembleia Magna. É necessário que os dirigentes saibam tirar as máscaras e efectivamente empreender um processo de defesa dos direitos dos estudantes que representam. E se ideias fal-

É necessário que os dirigentes saibam tirar as máscaras

situação do ensino superior, quando membros que compõem a Academia vêm postos em causa os seus direitos mais elementares enquanto estudantes. Faltaram também iniciativas propostas pela Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra capazes de efectivamente dar combate às políticas governamentais para o ensino superior. De uma direcção que assume, como já o fez publicamente, ser contra as medidas governamentais exige-se mais do que a relativa inércia a que temos vindo a assistir. Faltou ainda a coragem política ou o compromisso para com os estudantes que representa de aprovar as propostas de combate às políticas que dizem repudiar. A intenção de se concentrar em frente ao Ministério da Ciência,

tam, comece-se por informar realmente. O que passa obviamente por mais do que um simples outdoor ou de uma hora de distribuição de flyers. Se os estudantes estão nas faculdades, então que se esteja presente nas faculdades e que se transmita realmente a mensagem necessária. E que se perca o medo ou o pejo de aprovar medidas reais, propostas que levem a real vontade dos estudantes. E que não se esconda sobre o maquiavelismo do voto abstencionista a obrigação de defender os estudantes que se representa. Para que, qualquer dia, não sejamos mais umas das personagens de Welsh cujos direitos nos passaram completamente ao lado, como comboios, sem que nada fizéssemos para os agarrar. João Miranda

A CABRA ERROU Na última edição d'A CABRA (197), nas páginas 12 e 13, onde se lê Manuel Augusto Araújo deve ler-se Laurentino Barbosa. Também na página 10, no artigo referente à conquista da Académica do título de campeã nacional de futsal nos Campeonatos Nacionais Universitários, não é a segunda vez que a AAC é a representante portuguesa nos europeus, mas sim a terceira. Aos leitores e aos visados, as nossas sinceras desculpas. A direcção

Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo ICS nº116759 Director João Miranda Editor-Executivo Pedro Crisóstomo Editor-Executivo Multimédia: João Ribeiro Editores: André Ferreira (Fotografia), Cláudia Teixeira (Ensino Superior), Sara Oliveira (Cultura), Catarina Domingos (Desporto), Andreia Silva (Cidade), Rui Miguel Pereira (País & Mundo), Diana Craveiro (Ciência & Tecnologia) Secretária de Redacção Sónia Fernandes Paginação Pedro Crisóstomo, Sónia Fernandes, Tatiana Simões Redacção Adelaide Batista, Alice Alves, Ana Coelho, Ana Rita Santos, Catarina Fonseca, Filipa Faria, Filipa Magalhães, Hugo Anes, Luís Simões, Maria João Fernandes, Marta Pedro, Patrícia Gonçalves, Patrícia Neves, Pedro Nunes, Sara São Miguel, Tiago Carvalho, Vasco Batista, Vanessa Quitério, Vanessa Soares Fotografia Cláudia Teixeira, Leandro Rolim, Pedro Coelho, Pedro Pinto, Raquel Coelho, Sónia Fernandes, Tiago Relvão Ilustração Rafael Antunes, Tatiana Simões, Lídia Diniz Colaboraram nesta edição Bruno Monterroso, Elton Malta, Inês Almas Rodrigues Colaboradores permanentes Ana Val-do-Rio, Carla Santos, Carlo Patrão, Cláudia Morais, Dário Ribeiro, Emanuel Botelho, Fátima Almeida, Fernando Oliveira, François Fernandes, Inês Rodrigues, José Afonso Biscaia, José Santiago, Milene Santos, Pedro Nunes, Sofia Piçarra, Rafael Fernandes, Rui Craveirinha Publicidade Sónia Fernandes - 239821554; 914926850 Impressão FIG - Fotocomposição e Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra


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Universidade de Verão

A Universidade de Coimbra (UC) vai organizar pela primeira vez um projecto que congrega actividades direccionadas a duas centenas de jovens do 10º ao 12º ano. A iniciativa, que se vai realizar de 19 a 24 de Julho, conta com a colaboração de todas as faculdades e departamentos da UC. A monitorização vai estar a cargo de estudantes e também se pretende atrair jovens dos países africanos de expressão portuguesa. Com áreas temáticas, programas partilhados entre faculdades, actividades lúdicas, esta acção pode ser uma oportunidade para os mais jovens conhecerem a cidade, a universidade e o valor da Academia. C.D.

IPC

O Instituto Politécnico de Coimbra (IPC) vive dias conturbados. Em causa um confronto jurídico de estatutos. De um lado, os estatutos da instituição, que definem que, terminado o prazo do presente mandato, deve ser nomeado um presidente interino, neste caso, Fernando Páscoa, professor mais antigo de categoria mais elevada. O mandato terá terminado a 4 de Maio e as eleições são no final de Junho. De outro lado, o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior, que estabelece que o presidente, Torres Farinha, se mantem até à tomada de posse dos novos órgãos. Episódios de uma novela que só descredibilizam a instituição... C.D.

Netanyahu

A propósito do encontro com Barack Obama, deputados ligados ao partido do primeiro-ministro israelita, o Likud, vieram confirmar a rejeição da proposta de dois estados – um israelita e outro palestiniano – como solução para o conflito. A administração norte-americana defende a adopção desta medida e não vê com bons olhos a recusa de Benjamin Netanyahu. O problema desta região é complexo e arrasta-se há demasiado tempo e não será com intolerância e autismo que será resolvido. Pede-se, no mínimo, que “Bibi” pondere a solução e não ceda a estratégias, que visam unicamente a manutenção do seu ‘statu quo’ político. J.R.

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Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA - 197