Edição 302 Jornal Universitário de Coimbra - A Cabra

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15 DE DEZEMBRO DE 2020 ANO XXX Nº302 GRATUITO PERIÓDICO DIRETORA LEONOR GARRIDO EDITORES EXECUTIVOS MARIA MONTEIRO E DANIELA PINTO

República dos Açorianos com malas à porta após 58 anos NINO CIRENZA

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ENSINO

CULTURA

DESPORTO

CIÊNCIA

CIDADE

Apesar das dificuldades impostas pela pandemia, Daniel Azenha faz um balanço positivo dos seus anos como presidente da DG

Salas reabrem com medidas de segurança adaptadas à nova realidade, mas números da pandemia são o grande obstáculo

Piloto Filipe Albuquerque recorda a sua infância em Coimbra e o caminho percorrido para atingir o sucesso

Iniciativas da UC na luta contra a pandemia de COVID-19. Estratégias de investigação obtêm financiamento externo

A pandemia da COVID-19 afastou os clientes da Baixa de Coimbra e nem o Natal traz esperança aos comerciantes


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Daniel Azenha considera que a sua DG/AAC se demarcou pela proximidade aos estudantes

ANA HAEITMANN


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O presidente da DG/AAC dos últimos dois anos, Daniel Azenha, faz um balanço positivo dos seus mandatos. O ex-presidente tem como vitórias na AAC o trabalho realizado nas Cantinas Amarelas, a revitalização do Pavilhão Eng. Jorge Anjinho e a criação da Secção de Boccia. No entanto, algumas promessas de candidatura, como reformas estruturais no prédio da AAC, a construção de um museu académico e a propina zero, ficaram por cumprir - POR ANA HAEITMANN -

Fazes um balanço positivo do mandato? Sim, claro que sim. O mandato foi muito positivo, dentro das nossas dificuldades, já que não estávamos preparados para uma pandemia. Mas foram dois anos de muita luta em que seguimos os nossos princípios e definimos o que queríamos para a academia, para a Universidade de Coimbra e para a Associação Académica de Coimbra (AAC). Faço um balanço positivo dentro daquilo a que nos propusemos há dois anos, quando iniciámos. Temos uma Académica mais próxima dos estudantes.Queria que os dirigentes fossem estudantes e que os estudantes tivessem mais contacto connosco acima de tudo, e isso felizmente foi conseguido. Também tivemos iniciativas políticas sempre a pensar nos estudantes, no seu dia a dia e nas suas dificuldades, como o “Querido, muda a UC!”. Identificámos vários problemas na estrutura da Universidade, mas também na cultura, e no desporto. Queríamos uma casa em que todos pudessem participar. No desporto, tivemos a oportunidade de ver uma liga Académica crescer, uma liga que chegou aos mil participantes. Melhorámos as condições dos nossos atletas, o que foi um pilar essencial para que qualquer estudante pudesse praticar desporto. Tivemos ainda a criação da secção de Boccia. Para nós, o desporto inclusivo sempre foi essencial. Não pode haver estudantes que queiram praticar atividades desportivas e que fiquem de fora, isso sempre foi o nosso ideal. O nosso maior legado foi a restituição do Pavilhão Eng. Jorge Anjinho, fizemos um esforço enorme para finalizar as obras. Em relação à cultura, tivemos uma ligação com a cidade em dois momentos, os cem anos da tomada da bastilha e os cinquenta anos da crise académica. Os momentos de dificuldade extrema por vezes são os que aproximam os estudantes dos cidadãos de Coimbra e creio que fizemos isso nestes dois eventos. Como foi a resposta ao projeto “Querido, muda a UC!”? A DG/AAC fez uma operação relâmpago para ter uma ação musculada, uma intervenção sobre algo que era necessário ser alertado na comunidade académica. Falámos das Cantinas Amarelas e da melhoria nas residências. A resposta foi positiva, as Cantinas Amarelas não estavam preparadas para garantir o prato social e foram necessárias obras, que já foram concluídas. Portanto, vai haver prato social. Quão importante foi a revitalização do Pavilhão Eng. Jorge Anjinho? A revitalização foi essencial, pois temos muitos

atletas nas nossas secções desportivas e queremos atrai-los e dar-lhes mais qualidade desportiva. É óbvio que em Coimbra há poucas estruturas desportivas para o número existente de atletas, sendo o Estádio Universitário insuficiente para as necessidades que a AAC tem. O pavilhão é fundamental para a qualidade do desporto dos nossos atletas. O que mudou no que diz respeito aos métodos de administração e tesouraria da UC? Em relação à tesouraria,quando entrámos tínhamos uma dívida externa brutal, cerca de 300 mil euros, que neste momento ronda os 20 mil euros. Portanto, fomos muito rigorosos no pagamento das contas e tentamos ao máximo não criar mais dívidas, já que a dívida interna teria de ficar para os nossos sucessores. Também percebemos que era importante que as estruturas se financiassem, por exemplo, tínhamos uma dívida de 100 mil euros para a Queima das Fitas e essa foi paga. Uma das maiores dificuldades dentro da casa era o hábito de pagar as dívidas em atraso, portanto, também fizemos o papel de tentar credibilizar-nos para outras empresas ao pagar as dívidas de forma regularizada e sem atraso. Obviamente temos uma estrutura financeira pesada, com muitos funcionários e não nos atrasamos no pagamento destes. No entanto, este ano a pandemia feznos perder mais de 400 mil euros, por causa da falta de patrocínios e de consumo nas Queima das Fitas e Festa das Latas. Quais foram as melhorias realizadas no prédio da AAC nos teus dois anos de mandato? Contratámos alguém para consertar as infiltrações na tvAAC. Se ainda chove, nós fizemos o que nos competia. Fizemos algumas obras no telhado e iniciámos o estudo para a renovação do edifício. No entanto, fazer qualquer melhoria no prédio da AAC requer um investimento de pelo menos 1 milhão de euros por parte da UC, já que o prédio é património da Universidade. Além do valor enorme, existem diversos problemas. Primeiro, a realocação das estruturas que aqui estão para outro lugar no período das obras. Em segundo lugar, qualquer obra feita demora imenso tempo, pois necessita de aprovação do Serviço de Gestão do Edificado, Segurança e Ambiente. Por exemplo, a sala de estudos demorou dois anos para ser revitalizada. Imagina quanto tempo demoraria o prédio todo. Recebemos o vice-reitor das infraestruturas e analisámos tudo o que era necessário consertar, desde problemas elétricos, infiltrações, até amianto. A pandemia atrasou, no entanto, o início destas intervenções que estávamos a planear.

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Considerando os números da abstenção nas eleições da AAC deste ano, consideras que fizeste o teu papel para aproximar o estudante da academia? A abstenção tem sido um problema crónico, não só na AAC, mas no país inteiro. No entanto, além da pandemia, que reduz o número de estudantes presenciais, não creio que esta foi uma eleição muito disputada, fazendo com que os estudantes fossem às urnas. Por exemplo, na minha primeira eleição nós tivemos quase novemil estudantes a votar. Que trabalho foi realizado em relação às residências universitárias tendo em conta os problemas reportados desde o início da pandemia? A verdade é que só soubemos do problema das expulsões pelas redes sociais, pois nenhum estudante nos contactou para exigir uma ação. No entanto, assim que soube, liguei aos Serviços de Ação Social para perceber aquilo que se passava e tentámos resolver esse problema. Em relação à falta de camas, o “Querido, muda a UC!”, foi o choque que necessitávamos. Apesar de não termos a mesma falta de camas que Lisboa e Porto, sabemos a necessidade de aumentar o número, até porque o valor do aluguer particular está a aumentar, o que intensifica também a demanda das residências universitárias. Quando saí, ainda havia 40 camas por ocupar. Apesar disso, este problema é da responsabilidade do governo, com o qual nos reunimos. No entanto, vimos um grande aumento de camas em outras cidades não só em Coimbra. O que foi feito em relação às propinas para os estudantes nacionais e para os internacionais? Primeiramente, nós nunca separámos nacional de internacional. Sempre lutámos pela propina zero no Ensino Superior, por acreditarmos que o ensino tem de ser gratuito, assim como os materiais necessários para o curso e o suporte das residências universitárias. Na pandemia, percebemos que muitos estudantes não possuíam internet ou computador nas suas casas. Assim, a universidade dispôs-se a ceder esse tipo de materiais para que os estudantes não ficassem sem acesso ao conteúdo letivo. Além disso, a DG/AAC fez uma petição ao governo pedindo a anulação das propinas. Através dos núcleos de estudantes, também conseguimos resolver problemas mais particulares dos estudantes que vieram até nós. Quais foram os principais desafios impostos pela pandemia? Lidámos com os problemas dos estudantes à medida que chegavam até nós, além de fazer a conexão entre os núcleos estudantis, a DG/AAC e a reitoria para tentar solucioná-los. Também tivemos as dificuldades financeiras, com a perda de patrocínios e apoios financeiros, principalmente com a falta da Queima das Fitas e da Latada. Além disso, as despesas com funcionários e os pagamentos de dívidas e impostos continuaram, mesmo sem a entrada de dinheiro que era esperada. Como pensas que cumpriste os lemas “Contigo, Somos Académica” e “Académica Contigo”? Acho que nós nos demarcámos pela proximidade aos estudantes, por exemplo, ao fazer questão que todos os dirigentes fossem estudantes. No decorrer dos mandatos tivemos imensos estudantes a abordar-nos para falar dos seus problemas. Portanto, penso que nos viram como somos, primeiro como estudantes e depois como dirigentes.


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Secções continuam a procurar o seu lugar durante a pandemia Estruturas procuram ainda forma mais eficaz para voltar ao ativo. Número de associados afeta receitas das secções desportivas. - POR TOMÁS BARROS -

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esde que se registou o início da pandemia de COVI-19 foram muitas as secções que se viram obrigadas a suspender as suas atividades. Quase nove meses depois, as secções culturais e desportivas procuram retomar as suas atividades e adaptá-las à realidade pandémica. O secretário-geral do Conselho Desportivo da Associação Académica de Coimbra (CD/AAC), Miguel Franco, vinca que, desde que começou a pandemia, a Académica se limitou a “seguir à risca as orientações da Direção-Geral da Saúde e das federações desportivas”. O secretário-geral lembra que numa fase inicial todas as atividades desportivas foram suspensas e que agora, embora o desporto tenha voltado, o “retomar ainda está a ser gradual”. As secções culturais depararam-se também com muitas das suas atividades a ser suspensas, devido à pandemia. Nas palavras da secretária-geral do Conselho Cultural da AAC (CC/AAC), Maria João Pereira, a COVID-19 veio, “para além de afetar o financiamento, também interferir com o número de associados das secções culturais”. Acrescenta ainda que “tem sido uma luta formar direções para todas as secções de forma a não as deixar morrer”. Segundo o antigo vice-presidente para a Cultura da AAC, João Figueiredo, o problema relativo à pouca adesão de novos associados deve-se ao facto de as secções não terem oportunidade de “mostrar o seu trabalho”. Na ótica de João Figue-

CÁTIA BEATO

iredo, em virtude do ensino com um cariz mais online, “já não há tantas pessoas nas secções”. Para o antigo vice-presidente “a revitalização das secções culturais deve ser o desafio que as direções de cada secção devem ter mais dificuldade em resolver”, adianta. No que toca ao desporto, Miguel Franco admite que “existem muitas secções que ainda vão ter de adaptar aquilo que é a sua retoma”. O secretário-geral do CD/AAC elucida que “existem modalidades mais prejudicadas do que outras”, como é o exemplo da Secção de Natação da AAC (SN/AAC), em que apenas um número específico de atletas é que pode treinar devido às especificidades da modalidade. Miguel Franco salienta que, devido à suspensão da atividade dos escalões mais jovens, deixou de haver receitas provenientes dos mesmos. “Por um lado, há menos receita que entra no clube e por outro as despesas continuam porque os técnicos precisam de ser pagos”, confessa. Maria João Pereira admite que, devido à pandemia, os problemas de espaços que surgiram para algumas secções culturais foram resolvidos com “pequenos remendos”, recolocando as secções nos espaços que havia, até à data, disponíveis. Miguel Franco enaltece o trabalho da DG/AAC na criação do fundo de apoio às secções que mais foram prejudicadas pela pandemia e garante que o foco passa por “continuar a trabalhar para garantir que as secções continuem a ter as melhores condições possíveis”.

Muita gente para pouco espaço: o confinamento numa residência universitária Estudante precisou de cumprir isolamento no seu quarto pois “não havia espaço em mais nenhum lugar”. Serviços de alimentação dos SASUC também são alvo de críticas - POR FREDERICO CARDOSO E DANIEL PASCOAL -

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ma sala, uma cozinha e 18 quartos partilhados por um total de 36 estudantes que moram no terceiro piso da residência número 2 do Pólo II. “Muitas vezes há fila para cozinhar e lavar a louça. Se for lá agora [21h30], vai estar cheio”. A situação é denunciada por duas estudantes que vivem no edifício, que reclamam da falta de segurança num momento onde, devido à pandemia da Covid-19, todo o cuidado é pouco. Beatriz Moreira e Catarina Pereira, estudantes da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), precisaram de fazer isolamento, assim como mais quatro moradores da mesma residência, pois estiveram em contacto direto com uma pessoa que testou positivo para a COVID-19. Ambas permaneceram em Coimbra por motivos pessoais, embora não tenham cumprido o confinamento da mesma maneira. “Fui obrigada a ficar no meu quarto, pois não havia espaço em mais nenhum lugar”, relata Be-

atriz, que precisou de aguentar o “pânico” gerado na residência. A pessoa que acusou a doença foi a sua colega de quarto, mas deixou o edifício para se isolar em casa. A estudante da FCTUC foi a única que não teve alternativa e precisou de permanecer no seu piso, com “cerca de 29 moradores que lá viviam normalmente”. A aluna acredita que os Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (SASUC) “estavam a contar que as pessoas residentes em Portugal fossem todas fazer isolamento em casa”. Durante os 12 dias em que ficou confinada, de 25 de novembro a 6 de dezembro, a falta de espaço não foi a única preocupação de Beatriz, que também criticou outros serviços prestados pelos SASUC, nomeadamente os relacionados com alimentação. Este ano, dado que o feriado de dia 1 de dezembro calhou numa terça-feira e devido à tolerância de ponto decretada para o dia anterior, as cantinas permaneceram fechadas durante mais

tempo do que o normal. A estudante da FCTUC também alega ter gastado um “balúrdio” a “pedir às pessoas para lhe comprarem comida em algum lado”. “Os SASUC deveriam assegurar as refeições sociais, pois se estamos numa residência é porque não temos assim tanto dinheiro”, conclui. Por outro lado, Catarina Pereira não enfrentou as mesmas dificuldades, já que foi transferida para um piso próprio para isolamento com seis pessoas na outra residência do Polo II. A estudante conta que foi “um confinamento normal e com muitos cuidados”. “Pedíamos refeições por e-mail e uma senhora entregava, havia um termómetro sempre à disposição, todos os dias era necessário preencher um relatório para enviar aos SASUC e a casa de banho era sempre desinfetada”, relata. Não foi possível obter resposta dos SASUC até à hora de fecho desta edição.


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Novo RAUC ambiciona simplificar e atualizar as normas da UC Elaboração contou com contribuições de toda a comunidade académica. Regulamento alarga os direitos especiais dos estudantes e reconhece o direito à autodeterminação e expressão de género, entre vários outros pontos

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Regulamento Académico da Universidade de Coimbra (RAUC), publicado a 24 de setembro de 2020, visa otimizar a relação do estudante com a Universidade. O documento foi repensado e publicado este ano com um formato novo e ambicioso. Existiam vários documentos que regulavam a vida académica da comunidade, por exemplo o Regulamento Pedagógico e o Regulamento das Creditações de Doutoramento entre outros. O novo RAUC, que na sua maioria está já em vigor, veio agregar esse conjunto de regulamentos que estavam dispersos para criar um único documento. Este foi um trabalho feito com vários objetivos, como explica a vice-reitora Cristina Albuquerque. “Facilitar a consulta, o que permite que os estudantes tenham mais informação” e ainda “permite ultrapassar algumas questões que, devido à evolução da legislação, estavam já datadas”, elucida. Desta forma, a Universidade de Coimbra (UC) fica com um edifício normativo assente em três pi-

JOÃO RUIVO

- POR BRUNO OLIVEIRA -

lares: este RAUC, os regulamentos sobre questões específicas (como é o caso do regulamento de ingresso de estudantes internacionais), e, por fim, as normas das unidades orgânicas. Segundo Cristina Albuquerque, o RAUC encontra-se sujeito a ajustes, algo que faz parte deste processo de implementação. A sua composição foi um processo longo que contou com consulta pública (exigida por lei) e intervenção de várias partes da comunidade UC, e não só. De acordo com a vice-reitora, vários representantes dos estudantes contactaram com o grupo de trabalho encarregue do processo, desde os núcleos de estudantes à Associação Académica de Coimbra (AAC) e aos estudantes no Conselho Geral e Senado. A título de exemplo, destaca-se um contributo feito por parte AAC, que enviou uma proposta a respeito de um dos artigos ligados à desistência escolar, com objetivo de perceber se a desistência de um determinado aluno estava ligada a motivos económicos. Esta proposta foi aceite e está agora

prevista no novo RAUC. Quando um estudante manifesta vontade de desistir e declara que o faz por motivos económicos, os Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra contactam o estudante no sentido de esclarecer as opções que tem ao seu dispor. Como clarificaCristina Albuquerque, “muitos dos estudantes desconhecem grande parte das possíveis ajudas”. Este assunto aparece no ponto 10 do Artigo 18º, no qual se pode ler: “No sentido de minimizar o abandono escolar por motivos económicos devem os SASUC contactar o estudante desistente, no prazo de 2 dias úteis após a apresentação do pedido, a fim de apurar se todos os meios disponíveis foram acionados para evitar a desistência por esse motivo.” De acordo com a vice-reitora, a importância deste ponto reside também no facto de muitas desistências ou manifestações de intenções de desistência acontecerem por impulso. Segundo a mesma, este é um dado verificável para quem lida com este processo, de modo que este momento de diálogo vale por isso mesmo. Nota-se ainda o papel que o novo RAUC tem em esclarecer procedimentos e normas, e não só introduzir novas ou agregar antigas. É o caso das linhas que dizem respeito a questões de propriedade intelectual, que esclarecem questões de propriedade sobre os resultados que resultam de investigações feitas por alunos e docentes. Uma das novidades do novo RAUC é que reconhece o direito à autodeterminação e expressão de género. Apesar de este ser um elemento que decorre da lei, a vice-reitora esclarece que não está presente no regulamento apenas por isso. “Consideramos que é um aspeto que valida aquilo que são os valores e a orientação da própria universidade”, Cristina Albuquerque refere ainda que cabe à Universidade “criar condições para uma verdadeira igualdade de tratamento e respeito pela identidade de cada pessoa”. O RAUC revela também um conjunto de preocupações no sentido de clarificar responsabilidades do corpo docente no que diz respeito ao lançamento de classificações e cumprimento de prazos de forma geral. Os estudantes veem ainda os direitos especiais alargados para comportar situações que não estavam previstas, como por exemplo o cuidador informal, estudante recluso, estudante grávida e também pai ou mãe estudante. Todas estas são medidas que decorrem da lei e se encontram agora validadas com este regulamento. Resta ainda a área da desmaterialização dos processos académicos, que, segundo Cristina Albuquerque, é muito visada neste documento. Esta intenção pode ver-se espelhada nos pontos iniciais do Artigo 25º, “no contexto da modernização administrativa dos serviços, a UC privilegia a utilização dos meios informáticos”. Agora, um estudante de doutoramento não necessita de mostrar a declaração da Fundação para a Ciência e Tecnologia todos os anos, por exemplo. Neste aspeto, o objetivo é de, por um lado, facilitar estes processos para os estudantes e, por outro, melhorar a capacidade de resposta dos serviços.


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Músicos de rua não perdem a determinação Pandemia trouxe novo caminho para a vida artística. Confiança e otimismo marcam pensamento para o futuro

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om o início das limitações da pandemia, que artistas de rua lidam todos os dias, desde março, com obstáculos que colocam em causa o seu trabalho. Em Coimbra, são vários os artistas que procuram arranjar soluções, por estarem afetados pelas restrições que os impossibilitam de exercer a sua profissão. O recolher obrigatório, e a consequente obrigação de ficar em casa, tornou impossível, para os artistas de rua, receberem rendimentos através da sua profissão. Rodrigo Silveira, músico do Grupo Samba do Beco, menciona a “incapacidade de conseguir sustentar-se da música” durante a pandemia. “Tem sido muito complicado, a situação em si é insustentável”, desabafa. Alex Lima, também músico de rua, confessa que as maiores diferenças que sente entre exercer o seu trabalho antes e durante a pandemia é a “falta de público” e a “pouca sensibilidade para com os artistas de rua e as suas condições”. Enquanto artista de rua, profissionais diretamente afetados com as proibições impostas, tornou-se necessário arranjar outras soluções para contornar a situação. Alex Lima destaca a solidariedade presente entre todos os artistas, na qual refere que “ninguém largou a mão a ninguém” e que foi fundamental “propor ideias e ter esperança”. Perante a instabilidade profissional dos seus dias, Rodrigo Silveira acabou por encontrar uma

- POR CAROLINA COSTA -

solução no mundo do audiovisual, onde trabalha com produção de vídeos e conteúdos. Só assim, ao propor novas ideias e iniciativas, é que encontrou uma forma de se conseguir “sustentar”. Outra das outras soluções encontradas foi a concretização do projeto “Canções de Quarentena – Coimbra”, que consistiu na transmissão online de concertos dos músicos pelo Facebook. Através destas transmissões, receberam doações e enfrentaram por momentos as dificuldades vividas. “Foi positivo ver que nós artistas con-

seguimos ter uma auto-organização suficiente” sublinha Rodrigo Silveira. De uma forma geral, Alex Lima salienta a resiliência e a proatividade dos artistas de rua. “Trabalhar na rua faz-nos ter sempre uma leve perspetiva de ir à luta”, destaca. O futuro dos músicos de rua em Coimbra é, ainda, incerto, mas, entre os artistas, uma onda de otimismo e um sentimento de esperança renova todos os dias a fé de que tudo vai ficar bem. FOTOGRAFIA CEDIDA POR RODRIGO SILVEIRA

Máscaras em palco: O teatro em tempos de pandemia Artes performativas forçadas a adaptarem-se ao novo contexto pandêmico. Organismos autónomos de Teatro da Associação Académica de Coimbra apelam a apoio da cultura

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pandemia trouxe uma nova realidade onde o toque foi trocado pelo ecrã e onde as expressões faciais deram lugar a uma máscara. Com isso, todas as interações sociais precisaram de ser reescritas e a cultura precisou de ser reinventada. Entre os mais castigados pelo “novo normal” constam as artes performativas. O Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) e o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC) contam de que forma a pandemia obrigou à inovação e à adaptação das suas atividades. Anunciado em março deste ano, o Estado de Emergência determinou o regresso de vários estudantes de Coimbra às suas cidades ou países de origem. Exceção que não foi feita para os formandos do TEUC, que se preparavam para apresentar o espetáculo que correspondia ao exercício final do curso. Peça essa que acabaria por ser cancelada. Vero Chiriboga, atriz participante no espetáculo, recorda que apesar das circunstâncias, “as pes-

- POR CÁTIA GONÇALVES -

soas do grupo tinham muita vontade de finalizar o curso e manter o compromisso com o TEUC’’. A partir de casa, os membros começaram o trabalho de criação, a fim de poder terminar e apresentar a peça. ‘’O espetáculo que tínhamos montado primeiro não fazia sentido para ninguém, então começamos de novo o processo e adaptamo-nos a esses encontros virtuais’’, explica a atriz. A peça ‘Pelo menos hoje’, que representa a vida quotidiana dos atores durante a quarentena, estreou em outubro deste ano. Contou com a presença de apenas quatro atores em palco, os restantes representaram através de vídeos. Para a encenadora, Liliana Caetano, o aspeto mais difícil foi o de criar com todos, sem todos estarem presentes”, porém, “tudo acabou por acontecer de maneira bastante fluida no final”, confessa. Se por um lado o TEUC encontrou no online uma alternativa à pandemia, o CITAC tem manti-

do as suas formações em regime presencial. Contudo, tal como explica o tesoureiro do CITAC, Diogo Figueiredo, “as circunstâncias exigiram a redução do número de formandos” para “atender à capacidade do espaço, assim como a higienização e desinfecção do mesmo”. Segundo o tesoureiro do CITAC, executar aulas por meio virtual nunca foi uma opção dado tratar-se “de um tipo de atividade que envolve contacto e ligação humana”. “Cerca de 70 por cento desses componentes perder-se-iam se optássemos por uma plataforma digital”, justifica. Por fim, quanto ao apoio que tem sido dado à cultura pelo Estado, Diogo Figueiredo considera que, mais que nunca, todo o apoio é necessário uma vez que “nunca houve uma taxa de desemprego tão elevada no mundo das artes performativas em Portugal’’. “A cultura é um dos pilares fundamentais da sociedade”, relembra.


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Cultura em (re)construção Festivais “Jazz ao Centro” e “Caminhos do Cinema Português” foram alguns dos eventos culturais realizados em tempos de pandemia. Salas de espetáculo garantem total segurança no decorrer das exibições - POR ANA RITA BAPTISTA E JÉSSICA TERCEIRO -

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epois de vários meses fechados, devido à Covid-19, a vontade do setor da cultura e dos artistas de retomar a atividade tem aumentado. A reabertura de salas de espetáculos, teatros e cinemas tem decorrido conforme as regras impostas pela Direção-Geral da Saúde (DGS). Contudo a instabilidade e incerteza quanto ao futuro tem sido uma das preocupações transversais a estes trabalhadores. “Final feliz” para o Salão Brazil em 2020 O Salão Brazil reabriu na segunda metade de julho e mantém desde aí a sua lotação reduzida para 1/3 da sua capacidade. O presidente da direção do Jazz ao Centro Clube (JACC) e programador do Salão Brazil, José Miguel Pereira, garante que têm sido tomadas todas as medidas de segurança dentro das salas, tais como o uso obrigatório de máscara, o distanciamento entre cadeiras e o uso de corredores de circulação. A pouca afluência do público às salas de espetáculos está, para José Miguel Pereira, “diretamente ligada à evolução da situação pandémica”. O programador sente que, apesar das salas oferecerem as máximas condições de segurança, os seus visitantes ainda têm alguma retração em frequentar estes espaços. “Quando a situação epidemiológica piora, o número de pessoas dispostas a visitar espaços culturais diminui”, constata. Uma das dificuldades apontadas pelo presidente do JACC está na marcação e organização das atividades. “Antes, todos os espetáculos eram anunciados com um a três meses de antecedência, porém, agora apenas é possível fazê-lo com alguns dias de distância dos eventos”, explica. Na base deste contratempo encontra-se a irregularidade e instabilidade a que as salas estão sujeitas por causa dos dados da pandemia. NINO CIRENZA

Outro entrave apontado por José Miguel Pereira tem a ver com as restrições que têm sido impostas pelo Governo aos programadores e produtores de eventos. Quer seja o horário de funcionamento das salas, quer sejam as restrições colocadas à circulação na via pública tudo isto são medidas que, na opinião do programador do Salão Brazil, “condicionam a ida das pessoas às salas de espetáculos”. A propósito do festival “Jazz ao Centro”, que terminou no último dia do mês de outubro, o presidente do JACC confessa que a preparação do mesmo deu “o dobro do trabalho de produção que se teria num ano normal”, contudo mostrou-se feliz pelo resultado uma vez que “os músicos estavam parados sem fazer atuações há muito tempo e foi bastante bom para eles regressarem a palco”. Quanto a expectativas e previsões daquilo que o ano de 2021 possa trazer ao meio artístico e cultural, José Miguel Pereira considera ser cedo para fazer uma previsão, dado que “só é possível prever um horizonte”. O futuro incerto de alguns artistas e salas de espetáculos constitui, porém, uma preocupação emergente para o programador. “Com muita pena minha, muitas salas e artistas não se vão conseguir aguentar, o que significa um enorme retrocesso para o setor da cultura”, lamenta o presidente do JACC. Apesar da situação pandémica, o Salão Brazil vai continuar a trabalhar, muito graças à situação “privilegiada” em que se encontra. O facto de o edifício ter sido adquirido pela Câmara Municipal de Coimbra constitui, para José Miguel Pereira, “um balão de oxigénio” que permitiu que o salão tivesse um “final feliz, ao contrário de outros espaços que não tiveram essa ajuda por parte dos seus proprietários”, conclui.

Cinema de volta às galerias Avenida O Cinema Avenida, antigo espaço cultural, encerrado há mais de uma década, foi reaberto pela XXVI Edição do Festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra. Apesar dos constrangimentos causados pela Covid-19, o organizador do Festival Caminhos do Cinema Português, Tiago Santos, organizou um regresso ponderado no qual optou por realizar um regime presencial misto. A necessidade de realizar as edições em sala adveio da vontade de passar um sinal positivo ao público em relação à segurança, de forma a continuar a promover o gosto pelo cinema. Da mesma forma, o diretor do Festival Caminhos esclarece que “as pessoas são convidadas a higienizar as mãos à entrada e a etiqueta respiratória da máscara é obrigatória por lei”. “É um espaço seguro a partir do momento que toda a gente está afastada e que não há uma densidade de pessoas por metro quadrado”, constata. Numa altura em que a população se abriga nas redes sociais, Tiago Santos está agradado com o balanço geral da mais recente edição do festival, onde reuniu como pontos positivos a presença e otimismo do público e artistas de Coimbra. “Dá outra motivação para continuar a trabalhar” e sobretudo demonstra que “as salas de cinema são o espaço cultural mais seguro que existe”, garante. A escassez de apoios por parte do governo é uma realidade que dói a todos, contudo, tal como reconhece Tiago Santos, “é difícil promover a cultura num país em que a penetração cultural continua a ser bastante baixa”. Para o organizador do Festival Caminhos, a solidariedade do público para com a produção cultural é “vital” para a saúde do setor já que, “se não houver apoio, são muitos os postos de trabalho que são colocados em causa”.


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Filipe Albuquerque: “Necessito de estar em Coimbra para encontrar o meu equilíbrio” Num ano complicado para os atletas de alto nível, o português Filipe Albuquerque somou mais três troféus na sua carreira. O piloto conimbricense conquistou o lugar mais alto do pódio no Campeonato do Mundo de Resistência e destaca a importância da dedicação e do empenho por parte das futuras gerações - POR JÚLIA FLORIANO -

Como foi a sua infância em Coimbra e qual é a ligação que mantém com a cidade? Foi ótima. Pude crescer numa cidade calma, muito tranquila e segura. Tinha liberdade de andar já tão novo para todo lado, ir a pé para a escola, ia sozinho e isso era muito bom. Criei uma ligação muito grande e senti que necessitava de estar cá em Coimbra, mais numa fase inicial, para encontrar o meu equilíbrio. Gosto também desta calma da cidade, porque o meu dia-a-dia nas corridas é muito atarefado e muito stressante. Quando estou fora das corridas consigo ter essa calma que me equilibra face às corridas e o viver ao segundo.

que treinar, portanto dei-me bem com essa parte. A preparação para as 24 Horas de Le Mans é diferente do habitual? Não, não muda a rotina, apenas intensifico mais o meu treino. É como se fizesse quatro ou cinco corridas num só fim de semana. E é nessa fadiga muscular que eu tenho de estar mais apto. Costumo fazer treinos bidiários: correr de manhã e depois treinar físico à tarde e fazer isso durante três dias para dar esse cansaço muscular ao corpo e habituar.

sonho de que é possível lá chegar. Eu venho de uma cidade que não tem tradição no desporto automóvel, vivemos numa cidade com a tradição da faculdade, dos estudantes. Acho que a mensagem deve ser que não importa de onde é que nós vimos, o importante é dedicarmo-nos e estarmos concentrados no que queremos atingir. Acho que isso é o principal objetivo, seja no desporto automóvel, seja em qualquer outra atividade. Eu quero passar às pessoas que houve muito trabalho e dedicação, porque o percurso é longo e é fácil concentrarmos-nos só no sucesso das outras pessoas e esquecer os outros 98 por cento que estão por trás do trabalho.

Visto que o desporto motorizado exige muito investimento, de que forma se pode promover maior inclusão? O desporto motorizado depende não só da parte humana, mas também da parte mecânica que é o carro e isso tem custos. Acho que o Estado poderia estar envolvido, como por exemplo fazem os Estados Unidos para todos os desportos, que é Quais são as expetativas para o campeonato de dar incentivos fiscais a empresas que patrocinam De que forma teve de adaptar a sua rotina no 2021 com a nova equipa Wayne Taylor Racing? e apoiam o desporto. Ou seja, não interessa se é contexto pandémico atual? É claramente para ganhar. Eu tive agora um no desporto automóvel, mas que apoiem, porque No contexto da pandemia pude estar com as fecho de ano muito bom, com muitas equipas incriam um mercado paralelo que também ajuda a pequenas em casa e com a família. Mas conseguia teressadas em mim e pude escolher qual delas é que economia. Acho que era uma maneira fácil de inna mesma coordenar, ou seja, ia correr. Não conse- eu queria. centivar e criar heróis para o futuro. gui ir ao ginásio que sempre fui, improvisei, treinei em casa. Tinha um espaço pequeno mas conseguia, É o primeiro português campeão do mundo de Como podem as novas gerações iniciar no através de vídeos online e treinos que já conheço resistência, o que representam estas vitórias para desporto motorizado? do passado e fui coordenando com essa parte. Já as futuras gerações do automobilismo? Não se deve começar logo de cima. Deve-se está muito enraizado em mim, já sei o que eu tenho Acho que devem criar esperança e alimentar o começar sempre no sítio mais próximo de casa, ir aos kartódromos, começar por fazer algumas corridas, passar ao nacional, e experimentar para continuar a evoluir. Podes começar a experimentar outros campeonatos que existem e foi o que eu fiz, mas nunca deves saltar etapas. Nas redes sociais é fácil perceber qual o percurso de cada piloto, estão delineados na internet. Sente que Portugal investe no desporto como outros países? Eu acho que talento temos, principalmente per capita. Mas Portugal nunca foi um investidor no desporto. É diferente apoiar de investir. Nós somos poucos e não há grande investimento da parte do Estado para ter atletas ao mais alto nível. Tem algo a acrescentar? Hoje em dia estamos a ver muito a falta de dedicação dos jovens. É fácil olhar para o telefone e ver o sucesso das pessoas. As redes sociais só contam o sucesso, não contam os problemas, as dificuldades e cada pessoa tem uma história por trás. Eu tenho uma história e falo dela, não todos os dias. Não é necessário relembrar às pessoas o quão difícil foi, mas o que fica é só o sucesso. E as pessoas querem ser aquilo e agir, mas depois os sonhos acabam, e desistem ao longo do caminho porque dá muito trabalho. É importante que, antes de se traçar o que se quer, se tenha afinco e brilho no que se faz e acho que isso é o principal para desenvolver o resto. DIOGO MACHADO


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Reabertura do Pavilhão Eng. Jorge Anjinho cria novas oportunidades para o desporto da Académica Objetivo da antiga administração da DG/AAC era transferir gabinetes de secções desportivas para o espaço requalificado. Proximidade das secções da sua prática desportiva é uma das vantagens - POR FRANCISCO BARATA -

FOTOGRAFIA CEDIDA POR SECÇÃO DE FUTSAL DA AAC

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Pavilhão Eng. Jorge Anjinho foi, no passado dia 26 de novembro, inaugurado com o objetivo de passar a ser a nova “Casa da Académica”. Esteve presente nessa cerimónia o então presidente da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Daniel Azenha, que assegurou que as secções desportivas vão poder utilizar o espaço a partir de agora. Para além de servir como espaço de treino para algumas das secções desportivas, um dos objetivos da Direção-Geral que terminou o mandato era “transferir os gabinetes de secções desportivas da Académica para o pavilhão”, revela João Gonçalo, anterior administrador da DG/AAC. “Pareceu interessante propor às secções que vão utilizar o pavilhão terem uma sede de trabalho no espaço que vão utilizar para fins desportivos”, acrescenta. Um dos benefícios, na perspetiva do antigo administrador da DG/AAC, da transferência de gabinetes para o Pavilhão Eng. Jorge Anjinho seria “aliviar os espaços no edifício sede”. João Gonçalo ressalva, no entanto, que as estruturas desportivas têm direito ao gabinete no edifício da rua Padre António Vieira, pelo que “tem de haver negociação com as secções”, sublinha. “Muitas secções mostraram-se interessadas em estar no Pavilhão Eng. Jorge Anjinho”, assegura o administrador da DG/AAC no mandato de 2020. Houve, contudo, outras que “ tinham interesse em mudar, mas não abdicar da sua sala sede”, conta. João Gonçalo deixa para a atual DG/AAC e Conselho Desportivo da AAC (CD/AAC) a negociação com as secções, e deseja que haja “sensibilidade das secções desportivas para resolver um problema crónico da Académica”. O antigo administrador da DG/AAC relembra que o pavilhão “vai ter os seus gastos” e que, por isso, uma das ideias da antiga administração era “alargar o pólo empresarial que existe fora do espaço desportivo para dentro deste”. João Gonçalo

refere que “ o pagamento de uma renda por parte das empresas ajudaria a cobrir os gastos mensais”, para além de existir também a oportunidade de “secções culturais utilizarem o pavilhão”. Já o administrador da DG/AAC para o mandato de 2021, Diogo Santos, assegura que o objetivo da administração não é transferir secções desportivas para o Pavilhão Eng. Jorge Anjinho. “Queremos ter as nossas secções no edifício sede”, garante. O dirigente explica ainda que a atual Direção-Geral vai fazer um regulamento de espaços e que, “só depois de essa avaliação estar feita” se pode ter de transferir algum gabinete de uma secção para o recinto desportivo. Apesar de a redação do regulamento estar numa fase “embrionária”, o administrador explica que “vão ter em critério se é benéfico para uma secção passar para o pavilhão”. Para além de reconhecer a vantagem de “terem o seu gabinete próximo da sua atividade desportiva”, Diogo Santos entende que as secções desportivas poderão ter benefícios logísticos em ter um gabinete no Pavilhão Eng. Jorge An-

jinho. O dirigente relembra também que é o CD/ AAC que faz a gestão do espaço do pavilhão e que a DG/AAC vai continuar em diálogo para perceber “as necessidades das secções”. O secretário-geral do CD/AAC, Miguel Franco, refere que o CD/AAC foi convidado para integrar uma comissão de reorganização de gabinetes que vai “analisar tudo o que existe”. Miguel Franco explica que “tem de se olhar para todos os gabinetes do edifício e do pavilhão e perceber quais as secções que se mantêm no edifício sede e quais faz sentido transitarem para o pavilhão”. Quando questionado em relação à negociação das secções desportivas com a DG/AAC no processo de terem os seus gabinetes transferidos, o secretário-geral recorda que sempre foram “muito solidárias com a AAC”. Miguel Franco diz acreditar que a transição vai ser feita com agrado e que as estruturas desportivas sempre souberam entender “o universo da AAC como um todo”. O secretário-geral conta também que o CD/ AAC pretende ter uma sala disponível para toda a Académica que possa servir para reuniões das estruturas da AAC. Em relação aos benefícios para as secções que sejam transferidas para o pavilhão, Miguel Franco reitera a proximidade com a prática desportiva. “Está sempre ali alguém perto caso um pai queira pagar uma quota, por exemplo”, explica. Recorda, no entanto, que a descentralização das secções para o Pavilhão Eng. Jorge Anjinho pode causar um sentimento de “perda de mística para as secções”. O plano do CD/AAC, que vai fazer a gestão do espaço desportivo, como explica o seu secretário-geral, passa por permitir que as secções pratiquem desporto, alugar o pavilhão a escolas e utilizá-lo para eventos, inclusive de cariz comercial. Miguel Franco garante, contudo, que apesar dos vários planos que há para rentabilizar o pavilhão do ponto de vista económico, a prioridade vão ser sempre as secções.

CATARINA MAGALHÃES


10 central 15 de dezembro de 2020 NINO CIRENZA

Habitantes do Solar Residência dos Estudantes Açorianos despejados Residentes sentem “um abandono completo por parte das instituições, inclusive da UC”. Moradores comentam que a situação do SOREA não é única entre as Repúblicas de Coimbra

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- POR JORGE CORREIA -

assado pouco tempo das dez da manhã, fomos convidados a entrar na Solar Residência dos Estudantes Açorianos (SOREA). A entre­vista tem lugar numa sala pequena, mas que suporta o grande peso na alma de quem se senta nos sofás. A decoração irreve­ rente e original própria de uma república não podia deixar de faltar. Foi neste cenário que Matias Alejandro e Carolina Braga deram o seu testemunho acerca da luta que vivem, juntamente

com os seus colegas de casa, enquanto inquilinos repudiados. Os dois repúblicos contam que receberam a notícia de que um dos fundadores do Solar foi quem tomou a iniciativa em rescindir o contrato de arrendamento, o que está de acordo com o interesse da senhoria. O contrato, como explica Matias, foi assinado na década de sessenta e está em nome de um padre açoriano “que já não vive em Portugal há muitos anos”.

Esse padre arranjou um procurador, um dos fundadores da casa, que mani­ festa o desejo de anular o contrato e, como resultado, acabar com a república. No entanto, a sua vontade não seria assim tão fácil de satisfazer, uma vez que a lei está do lado dos moradores da república. “Com alguma pesquisa, nós descobrimos que isso não tem fundamento, existem leis dos anos oitenta que salvaguardam as repúblicas no âmbito dos contratos de arrendamento, especificamente por meio da transmissão do direito de contrato do inquilino para as repúblicas enquanto associação”, elucida Matias. A impossibilidade de se proceder a despejos até 31 de dezembro por conta da panNINO CIRENZA

demia poderia também constituir um ponto a favor dos moradores da Solar, não existissem todas estas medidas apenas em teoria. Estudantes apontam faltam de ação e negligência à UC O estatuto de património cultural (da qual esta república usufrui e ao qual se candidataram várias repúblicas, com a finalidade de se defenderem em situações como esta) deveria ter também a função de assegurar a proteção dos inquilinos. Mas, de acordo com os moradores, o que se verifica é uma situação de negligência por parte da Universidade de Coimbra (UC) e dos seus Serviços de Ação Social (SASUC). Os repúblicos sentem-se “abandonados” pelos SASUC, especialmente no que diz respeito à qualidade da comida que lhes é fornecida e à logística que isso implica, uma vez que o transporte não está disponível todas as semanas e os moradores que não têm viatura própria e nem sempre conseguem dirigir-se aos armazéns dos SASUC­­­ para irem buscar alimentos. Para o entrevistado, este cenário re­presenta “um abandono completo por parte das instituições, inclusive da UC” para com os habitantes do SOREA. Matias acusa ainda a UC de querer fazer das repúblicas de Coimbra um “objeto de turismo”, “museu” ou até mesmo “fetiche”, ao invés de lhes prestar o apoio necessário. No que diz respeito à rescisão do contrato, Carolina afirma que estas decisões nunca foram comunicadas diretamente a nenhum dos moradores, nem pela senhoria nem pelo fundador. A falta de comunicação entre ambas as partes chega ao extremo quando a


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NINO CIRENZA

entrevistada revela que “o plano [dos fundadores] era chegar aqui com a polícia, a senhoria e os advogados, trocar a chave da fechadura e quem não estivesse em casa não entraria mais, com contrato rescindido”. De acordo com os entrevistados, uma explicação para esta falta de empatia reside no facto de não se ter realizado o Centenário, evento no qual os atuais residentes da república conheceriam os fundadores e antigos moradores. Como a situação pandémica inviabilizou esse encontro, a tentativa de despejo revelou-se muito mais fácil de executar. Problemas estruturais do edifício não eram recentes A casa, que já chegou a fechar e reabriu apenas este ano conta com inú­ meros problemas estruturais graves, dado que há divisões desabadas e ou­ tras na qual essa possibilidade ainda se levanta. Como resultado do enfraquecimento das estruturas, desde 2017 que a casa é considerada somente 25% habitável, de modo que apenas quatro dos doze quartos estão ocupados. Pro­ blemas deste tipo não são desconhecidos para os residentes da SOREA, já que a senhoria nunca realizou obras no edifício depois de 1966. Em 2013, quando o esgoto estourou, a Câmara tomou posse administrativa do imóvel e fez as obras de forma coerciva. Era o que se esperava que acontecesse o ano passado também, com as obras no chão, no te­ lhado, nas janelas e nas portas. Contudo, segundo Carolina, tal não se sucede pois não existe “um interesse político e

social” à volta do assunto. Para além das condições precárias em que vivem, a estudante refere o cansaço psicológico como o que mais desgasta os moradores da SOREA. “Eu acho que o mais difícil para nós é esta instabilidade de não saber quanto tempo ainda vamos ficar aqui. É difícil acordar todos os dias com ameaça de despejo”, confessa Carolina. Antes de estarem informados acerca da possibilidade de rescisão de contrato, a estudante conta que todos os inquilinos ficavam em casa sem saber quando iriam ser desalojados, imersos num ambiente de stress e ansiedade constantes

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motivados pela falta de contacto com os órgãos e instituições competentes. Matias indica como principais causas da má gestão deste assunto “a falta de assembleias públicas abertas, a falta de divulgação sobre as assembleias da Câmara, a baixa adesão popular que têm certos espaços de poder e a falta de solidariedade que existe entre o corpo estudantil, e entre as próprias repúblicas”. Carolina declara que todas as repúblicas estão a passar pelos mesmos problemas no que concerne ao estado ruinoso das suas estruturas. “O Solar do 44, por exemplo, é uma república que está quase para fechar também: o telhado está todo aberto, tem entrado água na casa, a estrutura já está comprometida, e não há uma participação da Câmara para manter a estrutura destas casas, nem da universidade. Mesmo sendo as repúblicas Património Material da Humanidade”, sublinha a estudante. O pagamento do arrendamento constitui também um obstáculo para os repúblicos da SOREA. Enquanto faziam pressão sobre a Câmara, para que tomasse posse admi­ nistrativa do prédio e assim conseguirem ter as obras necessárias realizadas, a transferência bancária com vista ao pagamento da renda do mês passado foi recusada. Na caixa eletrónica do banco aparecia uma notificação, a qual dava a entender que a transferência não tinha sido aceite por causa de algo enviado pelo banco do destinatário. Alertados pela advogada, para esperar pelo mês seguinte, os repúblicos viram repetir-se o mesmo episódio. Questionam-se agora se a senhoria está a negar-se a receber o dinheiro, com o objetivo de rescindir o contrato por incumprimento de renda.

sibilite às repúblicas defenderem-se de situações semelhantes àquela que a SOREA está a vivenciar, os entrevistados mencionam a existência do Conselho de Repúblicas. Porém, como explica Matias, este órgão não possui uma personalidade jurídica e, por essa razão, está apenas habilitado a emitir notas de imprensa e de repúdio, bem como declarações. A única instituição capaz de defender os interesses das repúblicas e que pode providenciar apoio a nível logístico e legal são os SASUC. Os repúblicos descobriram na sema­ na passada que o contrato foi rescindido a 8 de dezembro pelos antigos, e que até 15 de dezembro a casa tem de estar livre de pessoas e bens. A Câmara impõe muita burocracia para que possa apoiar os inquilinos e, segundo Matias, não mostra qualquer interesse em salvaguardar o seu modo de vida. Também a própria UC parece não o entender, uma vez que o reitor, em reunião com alguns dos repúblicos, propôs a distribuição dos mesmos por residências universitárias. O entrevistado não concorda com a posição da reitoria e aponta que uma melhor solução seria a oferta de “uma casa ou algum imóvel da UC” para que os inquilinos pudessem continuar a constituir uma república. Os habitantes da SOREA querem continuar a funcionar como um “suporte alimentar”, dada a existência de estudantes “que não têm dinheiro para comer nas cantinas”, já que a república possui um “modelo de vida comunitário que as residências não podem oferecer”. Mesmo com a­ poio “a nível legal, de assessoria e consulta” da Habita!, o facto de esta organização não atuar em Coimbra não constitui uma ajuda efetiva. Existe ainda a possibilidade de os habitantes da SOREA se alojarem noutras repúblicas, que os auxiliam, o que implicaria deixarem de viver juntos e a dissolução da república que formam. Solução apresentada pelo reitor não Matias e os seus colegas encontram-se, agrada aos repúblicos então, “completamente à deriva”, apesar Questionados acerca da existência de continuarem a acalentar o desejo de de um mecanismo comum que pos- viverem de novo juntos. NINO CIRENZA


12 ciência & tecnologia 15 de dezembro de 2020

A época das gripes no ano da COVID-19 Meses frios contribuem para propagação do vírus. Medidas de segurança da pandemia ajudam no controlo da gripe - POR MARÍLIA LEMOS -

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esperado que a queda de temperaturas nesta época do ano venha acompanhada pelo aumento do número de casos de gripe. Na conjuntura pandémica atual, é importante saber identificar as características particulares das doenças e distingui-las. De acordo com Ana Miguel Matos, investigadora da Universidade de Coimbra, “apesar de ambos os vírus provirem de animais e serem respiratórios, o SARS-Cov-2 é um outro vírus, com um genoma específico”. De acordo com a pesquisadora, “a gripe é uma infeção causada pelo vírus influenza, o qual afeta as células do trato respiratório superior e causa sintomas associados a um mal-estar geral, febre persistente e dores musculares que alteram bastante a qualidade de vida durante a infeção”. Além disso, destaca que “para a gripe, o período de incubação é mais curto que o da infecção por SARS-Cov-2, ou seja, o tempo entre o contato com o agente infeccioso e o aparecimento dos sintomas é de dois a três dias, enquanto para a covid-19 o período é mais longo, de 5 até 14 dias”. No que toca a diferenciação dos sintomas, Ana Miguel Matos explica que ambas as doenças causam febre, no entanto, “a febre associada à gripe tende a ser mais elevada, e no caso da COVID-19 existe

JOÃO RUIVO

também muita tosse somada à perda de olfato e paladar e a perturbações respiratórias, como a dificuldade em respirar”. Acrescenta ainda que, “apesar de casos de complicações serem mais frequentes na infeção por SARS-Cov-2, a gripe também afeta o trato respiratório e pode resultar em situações mais sérias, como a pneumonia”. A investigadora esclarece que a transmissão ocorre da mesma forma em ambos os vírus. Nesse sentido, “a contaminação da gripe acontece quando uma pessoa infetada emite aerossóis com partículas virais, e estas são inaladas por uma outra pessoa, que se infeta”. Completa ainda que essa transmissão pode ocorrer de duas formas: a direta, “quando alguém inala o que uma pessoa com o vírus exala ao espirrar à sua frente”, ou indireta, “quando se entra em contato com vírus deixados por uma pessoa infetada em alguma superfície”. Nesta época do ano, o número de casos de gripe é elevado devido à influência do inverno sobre o vírus. Segundo Ana Miguel Matos, isso ocorre porque “quando há abundância de raios solares, a temperatura e as radiações ultra-violeta são capazes de inativar o vírus com maior facilidade”. Além disso, a pesquisadora complementa que “o frio faz com que as pessoas se juntem e andem mais próximas umas das outras em sítios fechados, o que possibilita que a doença seja transmitida de forma mais fácil”. Assim, os meses mais frios e húmidos permitem que o vírus sobreviva mais tempo fora do hospedeiro, e, tendo em conta que “as pessoas começam a transmitir antes de saber que estão infetadas”, a proximidade dos hospedeiros contribui também para que a doença circule mais. Desta forma, espera-se que com as medidas de segurança tomadas em função da pandemia os casos

de gripe diminuam. Ana Miguel Matos refere que “contingências como evitar multidões e contacto próximo, usar máscara, ficar isolado quando doente, lavar as mãos e não as levar à boca, nariz e olhos são eficazes contra vírus respiratórios no geral”. Como o vírus da gripe se transmite da mesma forma que o SARS-Cov-2, “ao cumprir as medidas corretamente, a transmissão de ambos é contida e minimizada.” Quanto às melhores formas de prevenção, destaca a importância da vacina, que é “sem dúvida uma opção eficaz”. A pesquisadora explica que o vírus influenza “muda com muita facilidade e frequência, por isso a vacina é alterada anualmente, em consonância com essas mudanças”. Para elaboração da vacina da gripe, há uma reunião em março com o objetivo de analisar e avaliar os vírus da gripe que circularam no ano anterior e prever quais vão protagonizar a época gripal seguinte. “Esses vírus são selecionados e adquiridos pelas empresas farmacêuticas a fim de serem incluídos na nova vacina”, acrescenta. Para a maioria das pessoas a doença não necessita de qualquer tipo de tratamento específico, basta apenas tratar os sintomas. Segundo a pesquisadora, a melhor maneira de fazer isso é “hidratar-se bem por conta da febre e administrar analgésicos para as dores musculares e de cabeça”. No entanto, para quem faz parte dos grupos de risco, isto é, pessoas com maior tendência a desenvolver uma complicação devido à infeção de um vírus influenza, existem algumas moléculas no mercado que podem ser usadas como antivirais e que são ativos contra o vírus da gripe. Ana Miguel Matos destaca que “portadores de problemas cardíacos, respiratórios, hormonais e qualquer doença crónica subjacente estão entre os mais vulneráveis, e é preciso que tomem cuidado especial, como têm feito em consonância com a COVID-19”.


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Universidade de Coimbra trabalha em soluções para o combate à COVID-19 UC mostra lidar com problemáticas da pandemia tanto no domínio social como no científico. Académicos fazem progressos na investigação de soluções para o combate à COVID-19. Serviços internos da UC procuram responder às exigências - POR LARA XIMENES -

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m 2020, a Universidade de Coimbra (UC) apresentou propostas para gerir os desafios que a pandemia trouxe à instituição, tanto à saúde de toda a academia como aos órgãos da UC. As várias unidades apostam em estratégias de atuação junto dos estudantes, bem como na investigação, obtendo financiamento externo para esta. O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (DQ/UC) é responsável por um dos progressos a nível científico. Voluntários têm produzido gel desinfetante que já é marca registada, produzida pela UC para a UC. A ideia foi proposta por estudantes de doutoramento, ainda na primeira vaga da pandemia, quando havia falta de antissépticos para conter o vírus. “O projeto foi iniciado quando a COVID-19 assolou a Itália”, refere Giusi Piccirilo, que juntamente com Andreia Gonzalez, lançou as bases para o projeto. “Na altura ainda não se falava em COVID-19 em Portugal, mas a preocupação levou a que se pusesse em prática a ideia de produzir desinfetante”, continua a investigadora. As estudantes não conseguiram ficar com “os braços cruzados”, nas palavras de Andreia Gonzalez, que ressalta ainda que o “objetivo principal sempre foi o de dar sem receber nada em troca”. Na linha da investigação científica, há investigadores da UC na liderança de três dos 12 projetos financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Esta iniciativa surge no âmbito do concurso “AI 4 COVID-19: Ciência dos Dados e Inteligência Artificial na Administração Pública para reforçar o combate à COVID 19 e futuras pandemias – 2020”. Estes três projetos “VIRHOSTAI – Descoberta do interatoma vírus-hospedeiro: uma abordagem guiada por inteligência artificial e dados multi-ómicos”, “Lung@ICU – Ferramentas avançadas para diagnóstico e prognóstico em pneumologia @ Cuidados Intensivos” e “Um sistema de documentação de interface entre necessidades clínicas e de ciências dos dados para enfrentar o desafio da COVID”, foram, em conjunto, financiados em mais de 700 mil euros. Não foram apenas estes projetos a receberem financiamento. O projeto “TecniCov”, liderado por investigadores da UC, teve a si atribuído a quantia de 450 mil euros pela Agência Nacional de Inovação. O objetivo da investigação consiste no desenvolvimento de testes inovadores, rápidos e de baixo custo, para monitorizar os anticorpos para a COVID-19, tanto no soro como na saliva. “Na UC estão a ser desenvolvidas tiras de teste semelhantes às tiras da diabetes e que, no fundo, vão ser aquelas que se espera que tenham uma maior sensibilidade para detetar níveis de anticorpos mais baixos”, refere a coordenadora do projeto, Goreti Sales. Os testes desenvolvidos no âmbito da iniciativa, que tem a duração de oito meses, vão ser validados no laboratório de análises clínicas da UC dedicado à COVID-19. A “UCare” surge no âmbito da preocupação com a saúde mental e está contida no plano de contingência para a prevenção da propagação do vírus. Esta solução foi lançada nos primeiros tempos da pandemia, pouco mais de duas semanas após o pri-

JOÃO RUIVO

meiro caso de infeção em Portugal ter sido registado, a 2 de março de 2020. A “UCare” é uma linha de apoio emocional, disponível para toda a comunidade universitária, com a finalidade de facilitar a implementação de estratégias de gestão de ansiedade, bem como do tempo em isolamento e à partilha de informações de recursos disponíveis. A equipa de psicólogos clínicos dos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (SASUC) tem assegurado este programa, que funciona à distância. Dezembro chegou com mais um plano, a nível social, a distribuição de refeições, também assegurada pelos SASUC. Este programa foi feito para que os estudantes universitários que se encontrem em isolamento profilático ou em recuperação, possam ter acesso a bens alimentares. No ramo das ciências comportamentais também

se estão a realizar avanços significativos no sentido de melhor compreender os efeitos do isolamento social no bem-estar físico e psicológico de adultos e idosos. Estão a ser investigadas possíveis alterações na sintomatologia depressiva, capacidade funcional, queixas de memória, estado cognitivo e na qualidade de vida da população portuguesa, causadas pelo confinamento. Joana Nogueira, investigadora no Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental, acrescenta que foi feito “um estudo de caracterização cognitiva pormenorizada da população portuguesa incluindo as ilhas”. No âmbito deste projeto, também foi desenvolvido um ‘site’, “CuidaIdosaMente”, no sentido de aumentar a literacia para a saúde mental, dando a conhecer os seus fatores de risco e como combatê-los.


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Pedidos de ajuda ganham outra força na cidade de Coimbra Associações de voluntariado locais asseguram ajuda necessária à população conimbricense. Distribuição de refeições, roupas e assistência médica são iniciativas para garantir o bem-estar da população - POR ANDREIA JULIO E JÉSSICA OLIVEIRA -

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pandemia da COVID-19 marca na cidade de Coimbra o aumento do número de famílias carenciadas. Seguindo os padrões registados por todo o país durante o Estado de Emergência, este período traduziu-se na incapacidade de sustentar negócios e no consequente aumento da taxa de desemprego. Pessoas que até então tinham rendimentos estáveis viram-se obrigadas a pedir apoio social, fazendo aumentar o número de famílias carenciadas na cidade. Este período veio também acentuar a necessidade de apoiar as pessoas em situação de sem-abrigo. Segundo o vereador da ação social da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), Jorge Alves, a maioria destas pessoas estão em “situações extremas de alcoolismo e toxicodependência há vários anos”. É necessário um “trabalho intensivo e demorado até que estejam dispostos a fazer um tratamento e a ficar em instituições de acolhimento”, acrescenta. Também a saúde das pessoas que vivem na rua é uma preocupação. Jorge Alves explica que, “ao contrário do que as pessoas pensam”, as câmaras municipais não têm qualquer envolvimento e a realização de testes à COVID-19 a pessoas em situação de sem-abrigo depende da sinalização da Direção-Geral da Saúde. No entanto, garante que em caso de infeção se recorre a um procedimento igual para qualquer cidadão. Acrescenta que existem instituições de acolhimento disponíveis onde estes indivíduos podem ficar em isolamento e que caso seja necessário podem ser internados de forma normal. Para atenuar estes problemas, a CMC e várias instituições voluntárias mostram-se disponíveis para dar apoio alimentar, habitacional e psicológico à população mais fragilizada. É o caso do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA), que há 15 anos nasceu com o objetivo de colmatar a falta de uma equipa que distribuísse refeições quentes todas as semanas. Também esta associação sofre as consequências do atual contexto epidemiológico. Em tempos contava com o apoio de vários grupos e cerca de 120 colaboradores. No entanto, nos dias que correm são apenas cerca de 20 elementos que se distribuem por atividades como distribuição de refeições e roupas ou assistência médica a pessoas mais carenciadas. Apesar desta falta de trabalhadores, o coorde-

nador deste projeto, Marco Henriques, revela que, desde o início da pandemia, os pedidos de ajuda “aumentaram bastante” e o número de refeições servidas é quase o dobro. Isto deve-se ao aumento do número de novas pessoas em situação de sem-abrigo e sem teto. Este rótulo é atribuído a indivíduos que vivem em locais sem a comodidade de uma casa, como casas degradadas ou fábricas abandonadas, explica o coordenador. Para além de ter sempre as “portas abertas” para receber quem precisar de ajuda, a associação CASA insere-se no Plano de Trabalho do Projeto de Intervenção com os Sem-Abrigo do Concelho de Coimbra (PISAC). Aqui unem-se com instituições como a CMC, a Segurança Social, hospitais e várias outras associações sociais no apoio a esta comunidade. Sem qualquer financiamento da Segurança Social, Marco Henriques confessa que “tem sido feito um grande esforço para conseguir satisfazer a necessidade de todos os que precisam”. De acordo com o coordenador da associação CASA, todas as atividades têm sido suportadas por donativos pontuais e pela boa vontade dos voluntários que compram, confecionam e distribuem os alimentos. No entanto, acrescenta que não sabe até quando vai ser possível assegurar os pedidos de ajuda se não houver uma transformação a nível dos apoios. A Cruz Vermelha de Coimbra é mais uma das instituições da cidade que tem trabalhado no sentido de atenuar o aumento das carências decorrentes da pandemia. Todas as sextas feiras, os seus colaboradores juntam-se para o “giro da rua”, uma atividade com o objetivo de distribuir, junto das comunidades sem abrigo, alimentos, produtos de higiene e agasalhos para que possam pernoitar na rua de forma mais confortável. Flávia Fonseca, assistente social da associação, revela que durante a pandemia as instituições da cidade conseguiram colaborar na implementação de planos de apoio aos sem-abrigo, o que evitou o aumento do número de pedidos de ajuda por parte destes indivíduos. Contudo, assume que, à semelhança da associação CASA, receberam mais requisitos de apoio por parte de pessoas “inseridas no mercado de trabalho informal, como na área da restauração, ou com contratos precários que acabaram por ficar numa situação de desemprego”. Segundo a assistente social, tem sido difícil encontrar “parcerias para conseguir distribuir os bens necessários a estas pessoas”. Flávia Fonseca explica que aumentou muito a procura por bens alimentares que possam ser consumidos sem terem de ser confecionados ou aquecidos e por alimentos de pequeno

almoço “para colmatar a falta das refeições já confecionadas nos dias em que a cozinha económica possa estar fechada”. Ambas expressam a importância dos contributos da população para o sucesso das iniciativas das associações. Marco Henriques informa que esta ajuda pode ser dada de forma monetária, através da entrega de bens alimentares ou realizada diretamente no centro. Flávia Fonseca assume que estes apoios têm muita relevância pois “uma lata de atum faz toda a diferença na refeição de uma pessoa.” Com Cátia Beato e Maria Salvador

JOÃO RUIVO


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Comerciantes de Coimbra sem esperança no Natal

INÊS LEITE

Sem turismo e sem estudantes, o comércio local começa a ser substituído pelas compras ‘online’. Baixa de Coimbra está em risco

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- POR IVANA FREITAS E INÊS LEITE -

pandemia atual tem condicionado as vidas de toda a gente. O comércio e o turismo são os setores mais afetados. A Baixa de Coimbra é, então, o epicentro deste prejuízo que tem abalado a cidade, assim como todo o mundo. Apesar das circunstâncias adversas, o deterioramento do comércio da Baixa não é novidade. O ano passado, por esta altura, os comerciantes já sentiam dificuldades em manter os negócios abertos. Este ano, em consequência da situação pandémica, as circunstâncias do comércio local pioraram. “Há 40 anos que aqui estou e posso dizer que este foi o pior ano”, revela Narciso Saraiva, funcionário da loja de fotografia analógica Focus, uma das mais antigas lojas da Baixa. O interesse por parte dos estudantes em revelações e rolos de fotografia é o que salvaguarda o negócio. No entanto, devido à segunda vaga da pandemia, os estudantes estão mais ausentes, o turismo é escasso e as pessoas optam por compras ‘online’. “Em setembro ou outubro, tivemos a pior semana de sempre”, desabafa Narciso Saraiva. Nem o Natal, que costuma ser a melhor altura de vendas, traz esperança ao comércio local. “As pessoas costumavam comprar umas prendinhas aqui na loja e agora nada”, afirma a proprietária da Papelaria Cristal, Maria Elisa. A segunda vaga é, de forma geral, identificada como a pior fase para o comércio. Os clientes ainda sentem medo de sair à rua, apesar de ter havido uma melhoria no verão graças ao “relaxamento” das medidas. A indiferença das pessoas face ao comércio local é outro fator sentido nas lojas. “Anda muita gente a passear, mas não se vê pessoas a comprar coisas”, explica Maria Elisa. Aponta, ainda, que a Baixa “não tem lojas que atraiam as pessoas”, como marcas conhecidas, ao contrário do que se verifica nos centros comerciais. “Há dias em que abrimos as portas e saímos às sete horas sem sequer um cêntimo”, diz a comerciante, que ag-

ora não tem funcionários além de si e do seu marido por não conseguir pagar o salário. Um problema que persiste desde antes da pandemia é a falta de estacionamento na Baixa de Coimbra. O comércio está inacessível e isto prejudica os estabelecimentos. “Tudo o que aqui há de estacionamento é pago”, comenta a proprietária da Papelaria Cristal, onde trabalha há 48 anos. A Loja In Vintage, apesar de não estar presente há tanto tempo na Rua Ferreira Borges, também tem sentido os efeitos negativos da doença Covid-19. “O verão costuma ser a época de mais vendas, no entanto, neste ano atípico, não foi bem-sucedido”, confessa a proprietária, Susana Canais. No ano passado teve muitos clientes que procuraram ajudar o comércio local, mas depois “chegavam ao carro e tinham uma multa”, o que contribui para a preferência por ‘shoppings’, onde “as pessoas não se molham, estão

quentes e têm estacionamento gratuito”, reconhece. Para atenuar a falta de adesão, a CMC lançou um programa de apoio às famílias carenciadas, às quais ofereceu vales de 20 euros para gastar nas lojas aderentes, como é o caso da In Vintage. Estes vales podem ser descontados em bens essenciais ou presentes de Natal. A iniciativa conta com a colaboração da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC). A presidente da APBC, Assunção Ataíde, divulgou uma programação que conta com uma série de eventos para atrair clientes. As atividades estão ligadas principalmente à gastronomia, à arte e ao património. “Um dos eventos em parceria com a Casa da Esquina conta com ilustrações de nove montras, o que proporciona uma galeria a céu aberto na Baixa”, explica Assunção Ataíde. As pessoas podem guiar-se pela cidade através de ‘flyers’ com o mapa e localização dessas montras. Além desta atividade, a APBC tem lançado pequenos vídeos em colaboração com figuras públicas, como Iva Lamarão e Manuel Luís Goucha. Estes vídeos são lançados diariamente através do Facebook. Está ainda a ser preparado, em conjunto com a associação Coimbra Mais Futuro (CMF) e a Associação dos Doceiros de Coimbra (ADOC), o lançamento de uma plataforma de compras online que pretende facilitar uma comunicação à distância entre os clientes e o comércio local com o intuito de chegar a mais pessoas. Questionada sobre qual o setor mais afetado, Assunção Ataíde revela que a restauração sofreu a maior quebra.“Os restaurantes pressupõem interação e as pessoas ainda estão com algum medo de se sentar à mesa”, lamenta. A alternativa de ‘take-away’ tem sido uma forma de compensar o investimento diário em produtos frescos e de evitar o prejuízo. Até agora poucos estabelecimentos fecharam portas, no entanto, os comerciantes sentem-se angustiados porque sem o reforço do Natal, correm o risco de fechar. A presidente da APBC deixa uma palavra de motivação ao comércio local e pede que “as pessoas não abandonem, não fechem portas e que arregacem as mangas, acreditando que vale a pena estar presente”.

INÊS LEITE


16 soltas 10 de março de 2020

CRÓNICAS DO TRODA - POR ORXESTRA PITAGÓRICA -

O

lá olá leitores fieis. Prontos para mais uma crónica sobre tudo e sobre nada? O nosso Presidente da Câmara de Coimbra, tudo com letras maiúsculas para conotar a grandiosidade comumente atribuída a essas pessoas por parte da população em geral, anunciou que não iriam existir as comuns atividades de passagem de ano para 2021, temos que nos contentar com a bola gigante iluminada que existe na praça, que muito provavelmente será o background de muitos posts futuros nas redes sociais. Há locais mais interessantes para a Câmara investir os seus fundos públicos, como em carros novos e afins, claro que se percebe o porquê de não existirem atividades, mas tem sempre mais piada levantar um debate sem fundamentos, que a malta em geral gosta mais de mandar vir. Nós por cá divertimo-nos a ver o comum mortal a reclamar e a apregoar coisas sem fundamento só porque sim. A passagem de ano ao abrigo das recomendações relativas à prevenção do bicho ocorre portanto até às 23 horas, é quase como se mudasse a hora. Nem tudo é mau, assim poupamos o trabalho de ter de sair de casa para ir ver alguém a atuar num palco na Baixa enquanto faz frio. Prevenimos também encontros com pessoas conhecidas, porque fora da Queima das Fitas não é tão aceitável encontrar familiares ou professores, enquanto envergamos duas garrafas de Vodka rasca e um litro de cerveja em que dois terços ocupam o seu lugar nas nossas vestes. Por falar em inconvenientes, a malta queixou-se da falta de espaços e o reitor rematou dizendo “há uma distância bastante grande entre a irreverência e a parvoíce”. Sentimo-nos portanto plagiados, uma vez que numa edição anterior desta crónica

FOTOGRAFIA CEDIDA PELA ORXESTRA PITAGÓRICA

escrevemos “neste caso não se trata de irreverência mas sim de lerdeza”. Para além de plagiados não deixamos de ficar estupefactos por o nosso reitor ler as nossas crónicas e por consequência este jornal. Nestes últimos tempos houve uma grande corrida às eleições, nem o COVID os para. Primeiro foi a DG, que neste caso a _____ é diferente, mas o cheiro é o mesmo, e recentemente o Conselho Geral. De notar que a facilidade de voto foi muito superior nas primeiras eleições referidas, demonstrando que a UC continua congelada no tempo, ao contrário do que o nosso querido reitor afirma no seu último discurso. Se têm medo que o Covid interfira com o Natal, deviam ter ido votar: es-

tavam uma hora amontoados numa fila, tais são os mecanismos de incentivo à cooperação e amizade entre estudantes idealizados por esta instituição, apanhar o bicho por ter tais contactos, estar agora umas duas semanas em isolamento de modo a que no natal já não há nenhum receio, pois a quarentena foi cumprida. Vá, já têm alguns temas de conversa para passarem a tarde na esplanada a falar sobre tudo e nada, se com isto nada aprenderam, desculpem lá. Esta fotografia é um empréstimo da Pitagórica ao Jornal A Cabra, com juro de 6,9% à proprina.

ÉXTÉGUES DA ISABEL - POR ISABEL SIMÕES -

A

qui no Portugal profundo tenho acesso à Internet, mas rede de telemóvel não. Esquisitices das operadoras de rede móvel. #hávidanestaaldeia

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lguém dá uma consulta médica, via telefone, sentada numa mesa de uma esplanada, depois de beber um café. Passa uma receita que envia via telemóvel. #hávidanestacidade

P

ercebes que vives num país remediadinho a tender para o pobre quando a fila para a loja de roupa baratinha já conta com dezenas de pessoas e ainda são dez da manhã. #hávidanestacidade

cabreando por aí...


10 de março de 2020

soltas 17

A CURA FÚNGICA - POR MARIANA FARIAS - GRUPO ECOLÓGICO DA AAC -

N

estes estranhos tempos de pandemia e alterações climáticas, o nosso corpo e o nosso planeta devem ser os nossos principais focos para um bem estar não só a nível físico como mental, sendo o sistema imunitário responsável por nos proteger de doenças, proporcionando ao nosso corpo o seu bom funcionamento, o que nos leva à descoberta do reino dos fungos, que cada vez mais nos são conhecidos todos os seus benefícios para a nossa saúde e a do nosso planeta. O reino Fungi é um grupo de organismos que envolvem bolores, leveduras e cogumelos. É também classificado como sendo um reino distinto do das plantas devido à sua constituição. Geralmente, a maioria dos fungos apresenta um tamanho reduzido de difícil observação, estando presente em grande parte dos solos em forma de matéria morta ou como parasitas de plantas ou animais. Quando ocorre a frutificação de um corpo fúngico, dá-se então a formação de cogumelos. Os fungos apresentam uma utilização milenar, como na fermentação de vários produtos, sendo estes pão e bebidas de teor alcoóli-

co e ainda como medicinas ancestrais. Eram e continuam a ser utilizados como substâncias psicotrópicas bem como em cerimónias religiosas e espirituais. Os cogumelos estão a ganhar cada vez mais popularidade podendo ser consumidos no seu estado natural, em pó, ou em extrato. Estes, apresentam não só um valor nutricional elevado com vitaminas e minerais, bem como componentes antioxidantes e anti-inflamatórios, prevenindo o cancro, o aumento de colestrol e reforçando o sistema imunitário. Os antioxidantes são moléculas que ajudam o corpo a eliminar radicais livres, isto é, moléculas tóxicas presentes no nosso organismo provenientes de fatores como poluição, tabaco, álcool e aditivos químicos presentes em bens alimentares, que podem originar problemas de saúde como artrites, cataratas, envelhecimento e enfraquecimento do sistema imunológico. Para além destes benefícios, os fungos podem ser também a solução para recuperar o nosso planeta Terra. Estes possuem esporos que ao serem libertados, vão ajudar na decomposição de matérias pre-

sentes nos solos, criando assim terras mais saudáveis. O micélio, o sistema de raízes presente nestes fungos, pode desenvolver-se para vastas áreas, o que irá permitir que este limpe os solos e os rios de poluentes. Como o micélio está constantemente à procura de nutrientes para se desenvolver, não para até não existirem mais, sendo assim benéfico para a limpeza dos ecossistemas. Possuem ainda a capacidade de curar outras plantas envolventes e ajudar no seu crescimento, pois absorvem as bactérias presentes ao seu redor sem a necessidade de utilização de químicos, e ajudam a que as raízes destas, alcancem a água e os nutrientes necessários mais facilmente. Esta ramificação fúngica, tem também o poder de absorção de radiações e decomposição de certos nutrientes presentes no óleo, o que permite assim a sua utilização para limpezas de zonas nucleares contaminadas e em áreas de derrame de óleo. Hoje em dia, os fungos não são devidamente valorizados, sendo-lhes atribuído uma conotação negativa, mas estes têm imenso para oferecer não só à nossa saúde, como à da nossa casa, a Terra.

OBITUÁRIO - POR CABRA COVEIRA -

A

PARVO ÉS TU

qui jaz Amílcar Falcão. Ainda nem a meio do mandato vai e já se enterrou. Se antes se suspeitava, agora temos a certeza: o Tio Amílcar fala muito, mas apenas com a DG. Uma coisa têm em comum: não sabem a definição de irreverência. Exemplificando, a diferença entre irreverência e parvoíce é tão grande como a diferença entre prometer o prato social nas amarelas e efetivamente cumpri-lo. E digo-lhe mais, Magnífico, se as obras no edifício vierem tão rápido quanto o prato social então estamos todos quilhados.

E SE A CASA CAIR, DEIXA QUE CAIA

Í

caro voou demasiado perto do sol e morreu. Se calhar o aviso do Magnífico vem no mesmo sentido. Talvez se devesse enterrar o Conselho Cultural por almejar tamanhas condições de trabalho. Casas de banho a funcionar? Usem fralda! Saídas de emergência? Existem janelas! Rede elétrica segura e funcional? Comprem um gerador! Telhados sem amianto? Mudemnos vocês! Ausência de chuva e humidade? Por amor de Zeus! Realmente há malta que nunca está contente! Problemas de primeiro mundo mesmo! Deixem-no cair em paz!!


18 artes feitas 10 de março de 2020

CINEMA

GUERRA DAS CABRAS A evitar Fraco

Ouvir também é uma escolha

Podia ser melhor Razoável

- POR BRUNO OLIVEIRA -

L

isten de Ana Rocha por esta altura não precisa de apresentações, os prémios e as nomeações que a primeira longa-metragem da realizadora recebeu têm voz própria. Os prémios em Veneza e depois em Coimbra despertaram a atenção do público apesar dos tempos conturbados que a cultura atravessa alcançou uma notoriedade rara no cinema português. Como disse uma vez João Botelho, queixando-se da indústria do cinema, “de vez em quando há um milagre e aparecem filmes que saem do sítio”, ou seja, que tocam o público de forma inesperada. Parece ser o caso, e a força para este sucesso reside sobretudo no tema, concretizado através de performances notáveis e uma composição de elevado nível. A obra é um retrato cru, e com este realismo bruto oferece ao observador o desespero dos protagonistas. A premissa do filme é simples, e uma realidade desconhecida por ninguém, uma família de imigrantes portugueses no Reino Unido que enfrenta problemas económicos e uma precariedade aparentemente insuperável.

Quando tomam a decisão de pedir ajuda aos serviços sociais britânicos dão de caras com uma situação absurda, a um nível kafkiano. Os filhos são retirados aos pais por razões pouco claras e precipitadas do ponto de vista do espectador. Com uma voz ativista, o filme centra-se à volta da luta contra uma instituição indiferente. A visão de Ana Rocha foi muito bem conseguida, de uma forma clara mostra como todo o processo se pauta por um estigma social, ao mesmo tempo que o lado humano de todos os intervenientes é negado pela força da instituição. O título é uma pista para tudo isto (Listen/Ouve), e pode ser interpretado à luz desta surdez dos serviços sociais, cuja burocracia impede qualquer tipo de diálogo.

A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro

Listen De Ana Rocha com Lúcia Moniz, Sophia Myles, Ruben Garcia 2020

A Cabra aconselha


10 de março de 2020

MÚSICA

Man on the Moon III: The Chosen De Kid Cudi Editora Republic Records Género Alternative HipHop, Cloud Rap 2020

Tão bom que quase virei astronauta - POR DIOGO MACHADO -

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oi preciso esperar dez anos, mas valeu a pena deixar Scott Mescudi, conhecido artisticamente como Kid Cudi pensar e criar este projeto. Finalmente está concluída a trilogia “Man On The Moon”, trilogia esta que já continha dois álbuns intemporais e que agora adiciona mais um à vasta coleção de sucessos de Kid Cudi. Em 2009 lançou “Man On The Moon: The End Of Day”, um dos álbuns mais importantes do hip-hop nos últimos 20 anos, no qual o rapper de Cleveland se debruça sobre os problemas da ansiedade e depressão de uma maneira que nenhum outro o tinha feito. No ano seguinte seguiu-se o lançamento de “Man On The Moon II: The Legend of Mr. Rager”. Nos últimos dez anos o artista tem explorado rock e diferentes estilos de rap através de colaborações em álbuns de outros artistas. Felizmente temos agora “Man On The Moon III: The Chosen” incorporado numa das trilogias mais importantes das últimas duas décadas. Durante a sua carreira Kid Cudi sempre adotou um estilo mais psicadélico juntando a sonoridade de diferentes estilos como rap, rock e indie de maneira a que o seu som se distinga de qualquer outro. Algo muito comum na produção musical do artista é a divisão dos álbuns em ‘acts’. Este álbum segue essa tendência e após uma pequena ‘intro’ entramos logo no mundo de “Man On The Moon” com o tema “Tequilla Shots” no qual o rapper reflete sobre as dificuldades que enfrentou no passado e lutas interiores que ainda hoje combate. Cudi cria a imagem de uma tempestade que está a começar dentro dele e não pode desistir de lutar contra os seus problemas – “This time I’m ready for it / Can’t stop this war in me”. No tema seguinte, “Another Day”, Cudi conta as suas aventuras como ‘Mr. Rager’ o seu alter ego, mas no fim parece acordar de uma noite de festa com o desejo de mudar o seu estilo de vida. Na quarta faixa do

A beleza triste de um desgaste quotidiano - POR MARIA FRANCISCA ROMÃO -

Frente ao Contágio” pode até ser o livro mais recente do físico e escritor Paolo Giordano. Mas, num ano como 2020, reservamo-nos o direito de deixar o SARS-CoV-2 à margem destas páginas. Mergulhamos, por isso, na bibliografia mais “antiga” do autor italiano para descobrir com que cores se pinta a aura de uma personagem… Paolo Giordano é, no entanto, célere a desfazer a curiosidade metafísica do leitor: pinta-se de “negro” ou de “prata”. Recém-casado e prestes a ser pai, o narrador autodiagnostica um desequilíbrio no seu organismo por “excesso de bílis negra” - condição que o torna melancólico, pessimista e dado a inclinações poéticas. Em Nora, sua esposa, reconhece uma “bílis de prata fundida” que explica a alegria, mas também a impulsividade, da jovem grávida. Com um olhar científico - mas nem por isso menos intimista - sobre as relações humanas, Paolo Giordano desfaz quaisquer equívocos que pudessem ainda viver no leitor à custa de romances de algibeira saboreados em tempos idos. O autor, que tantas vezes se confunde com o narrador (ou não fossem os dois físicos), sentencia que, por muito que se amem, os indivíduos não poderão jamais fundir-se. Afinal, qual azeite e água, também o negro e a prata não se misturam. Assim, é da solidão individual e dos desafios da

artes feitas 19

álbum “She Knows This” é visível que o foco são as mulheres que Cudi foi conhecendo durante as suas noites mais atribuladas. O primeiro ‘act’ “Return 2 Madness” termina com o tema Dive o qual faz uma transição para o segundo ‘act’ “The Rager, The Menace” o qual contém um dos temas mais esperados desde o seu anúncio. “Show Out” conta com a participação do rapper de Brooklyn Pop Smoke e o lendário rapper britânico Skepta que em conjunto com Kid Cudi misturam os seus estilos de ‘rap’ numa música pesada em que Cudi acaba por utilizar um ‘flow’ a que não nos costuma habituar. Os últimos dois ‘acts’ do albúm, “Heart of Rose Gold” e “Powers” o rapper inicia uma introspeção na qual se debate sobre os seus problemas pessoais, valoriza o esforço da sua família e compromete-se a não sucumbir à depressão. Na penúltima faixa do álbum, Kid Cudi passa uma simples mensagem aos seus fãs que lhe confessaram que sofreram dos mesmos problemas que ele – não estão sozinhos. O álbum e a trilogia Man On The Moon terminam com “Lord I Know” um tema em que Cudi finalmente se encontra satisfeito com a sua vida e o rumo que a mesma está a tomar. No final a sua filha Vada termina o projeto com uma pequena mensagem.

A Cabra aconselha

LIVRO

convivência diária de um casamento que trata “Negro e Prata”. Numa escrita ritmada, que a formação científica do autor desproveu de rebuscados vícios estilísticos e tentadores lugares-comuns e que a rigorosa tradução de Inês Dias conservou intacta, Paolo Giordano imprime uma beleza triste no desgaste quotidiano do jovem casal. Duas outras personagens são também dignas de menção: o pequeno Emanuele, filho de Nora e do narrador, e a Senhora A., figura maternal em corpo de avó que, entre tarefas domésticas, ouve os desabafos de cor negra e de cor de prata, equilibrando os insolúveis humores de um e outro. Curiosamente, nunca nos é dado conhecer de que cor se pinta a sua aura.

Negro e Prata De Paolo Giordano Editora Relógio d’Água 2015

A Cabra d’Ouro


Mais informação disponível em

EDITORIAL Ponham os olhos em nós - POR LEONOR GARRIDO -

V

ivemos tempos conturbados. E, infelizmente, não falo apenas da perspetiva de uma estudante a passar por uma crise pandémica. Falo especialmente da perspetiva de uma associada seccionista que vê o edifício que tem sido como uma segunda casa a desmoronar. As condições do edifício-sede da AAC têm sido assunto de conversa, e não só nas últimas semanas, devido à tomada de posição por parte do Conselho Cultural e Organismos Autónomos. O tema é já bastante conhecido por quem aqui passou nos últimos anos. Já antes da Direção-Geral assumir a gestão da sede se ouvia falar da requalificação do edifício e de todos os problemas estruturais e organizacionais existentes. Passados anos, continuamos a ouvir os mesmos discursos e as mesmas promessas, mas a verdade é que a chuva dentro do edifício, as constantes falhas na rede elétrica e as casas de banho inundadas permanecem. As estruturas desta casa finalmente falaram, não só entre si, mas para todos. E não, não é um ato de parvoíce, é não silenciar mais o que se passa. É pedir atuação e soluções por parte de quem as prometeu dar. E como foi dito na conferência de imprensa, onde foi explicado o comunicado do Conselho Cultural que refere todos estes problemas, é preciso perceber que esta não é uma questão de conforto ou de luxo, mas sim de segurança e dignidade para todas as pessoas das secções e organismos que trabalham neste edifício, património mundial da UNESCO. Na tomada de posse da nova Direção-Geral, falouse do trabalho conjunto entre os dirigentes da academia e da Reitoria para um plano de requalificação do edifício-sede. Agora, falta só este poder ser consultado por todos os estudantes e seccionistas. As Assembleias Magnas não existem apenas para aprovar relatórios. Neste sentido, o tradicional agradecimento à Reitoria da UC vai deixar de aparecer no nosso jornal, pois consideramos que o jornalismo em si também é irreverente e, portanto, não somos coniventes com quem nos apelida de parvos, como o reitor Amílcar Falcão afirmou na mais recente tomada de posse da DG/AAC.

Passados anos, continuamos a ouvir os mesmos discursos e as mesmas promessas, mas a verdade é que a chuva dentro do edifício, as constantes falhas na rede elétrica e as casas de banho inundadas permanecem”

Ficha Técnica

Diretora Leonor Garrido

Jornal Universitário de Coimbra – A CABRA Depósito Legal nº183245702 Registo ICS nº116759 Propriedade Associação Académica de Coimbra

Editores Executivos Maria Monteiro e Daniela Pinto

Morada Secção de Jornalismo Rua Padre António Vieira, 1 3000-315 Coimbra

Equipa Editorial Tomás Barros e Bruno Oliveira (Ensino Superior), Nino Cirenza e Xavier Soares (Cultura), Francisco Barata e Diogo Machado (Desporto), Luísa Tibana (Ciência & Tecnologia),Cátia Beato e Maria Miguel (Cidade), Cátia Beato e Nino Cirenza (Fotografia) Colaborou nesta edição Francisco Barata, Tomás Barros, Ana Rita Batista, Cátia Beato, Frederico Cardoso, Jorge Correia, Carolina Costa, Júlia Floriano, Ivana Freitas, Ana Haeitmann, Andreia Júlio, Inês Leite, Marília Lemos, Bruno Oliveira, Jéssica Oliveira, Daniel Pascoal, Maria Salvador, Jéssica Terceiro, Lara Ximenes

JORNAL UNIVERSITÁRIO DE COIMBRA

Conselho de Redação Carlos Almeida, Luís Almeida, Inês Duarte, Filipe Furtado, Hugo Guímaro, Margarida Mota, João Diogo Pimentel, Paulo Sérgio Santos, Pedro Dinis Silva, Pedro Emauz Silva

Fotografia Cátia Beato, Nino Cirenza, Ana Haeitmann, Inês Leite, Diogo Machado, Catarina Magalhães Ilustração João Ruivo Paginação Luís Almeida

Impressão FIG – Indústrias Gráficas, S.A. Telf. 239499922, Fax: 239499981, e-mail: fig@fig.pt Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Tiragem 200


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