23 de maio de 2012 | quarta-feira | a
cabra | 19
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einstein on the Beach ”
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om a tournée mundial de “einstein on the Beach”, que arrancou em Montpellier e com extensão até 2013, Philip Glass aproveita para reeditar uma gravação realizada pela Columbia Broadcasting system (CBs), dois anos depois da sua criação(1976). Várias perguntas se podem levantar. É possível apreciar esta composição privando-nos das suas incríveis imagens (de Robert Wilson)? Quais as vantagem em relação aos registos de nonesuch Records, realizados pelos mesmos elementos quinze anos depois, numa versão ampliada (note-se que existe um acréscimo considerável em meia hora nesta gravade ção), com uma notória melhoria PhiliP GlaSS na qualidade de som e da execução do coro mais cuidado? edItora semelhanças que podemos encBS contrar num charme inigualável que resulta numa junção de radi2012 calidade, como se o compositor e o maestro Michael Riesman estivessem ainda em 1978, em plena folia da criação, conseguida através da tournée que prossegue até chegar à Metropolitan Opera Association, em nova iorque. nesta ópera abstracta encontramos o poder hipnótico da repetição glassiana de uma outra época, em constante mudança (progressões, deslocações, inversões, rupturas rítmicas, prolongamento de séries...), a funcionar na sua plenitude. O ouvinte fica, novamente, arrebatado pelas vozes, ventos ou teclados hiperactivos, tal como na primeira cena (acto i), as danças do “campo com nave espacial” (acto ii e iii), o quadro urbano da construção. não será, no entanto, necessário esperar pelos “knee plays” (transições entre actos) para encontrar momentos mais calmos. O violino áspero de Paul Zukosky e o coro a empurrar palavras em vozes deixam ouvir nota a nota ou numerações por numerações com uma sinceridade emocionante depositada de forma quase banal. se conseguíssemos atingir esta obra radiante, alucinante e inquietante a nossa felicidade seria completa. Para quem teve a sorte de ver esta “obra” em cena, este gesto de Glass não representa nada sem a criação de Wilson (e vice-versa): resta-nos aguardar, por enquanto, pelo DVD.
Regresso à plenitude glassiana
lígIa anjos
Persépolis: a história de uma Infância e a história de um regresso
a história é sempre lembrada a preto e branco
de MaRjane SatRaPi edItora cOntRaPOntO 2012
Q
uando Ari Folman escolheu contar as memórias do massacre de sabra e Chatila, durante a Guerra do líbano, através da ilustração, o sentido da opção era manifesto. e bem implícita ao longo de dois ou três trechos do filme. Atenuar as marcas da violência pela linha do desenho. Mas a ideia saiu um pouco furada. A atenção pelo detalhe das expressões ora de medo ora de cólera, a fluidez dos movimentos com que os corpos franzinos se levantam do mar ou a deturpação cromática apenas conseguiram conferir a “Valsa com Bashir” uma concepção de brutalidade emotiva maior do que qualquer foto ou documentário da invasão israelita. em “Persépolis”, as marcas de violência também lá estão. Tanto mais quando a satrapi decide dar à bicromia o seu real uso do termo. em “Persépolis” é sempre noite. Mesmo quando é tempo de festa. Mesmo quando as miúdas da escola levam ao limite as suas dramatizações. O despotismo do contraste, em que o preto se extrapola, está lá para nos pisar qualquer devaneio de exultação. Felizmente, há Marjane (autora do livro), que como profeta que se adivinha desde a nascença, aparece com um grande sol como auréola, qual juba de leão, para iluminar toda a nação iraniana. “Persépolis” é um livro de quadros, divido entre a história de uma infância e o regresso ao país natal, após vários
anos de exílio. e essa distinção está bem marcada. evidentemente, a infância tem mais piada. Tem sempre mais piada. Mulher, filha de uma família secular de fortes raízes marxistas, Marjane satrapi reparte esse tempo entre o escutar atento das descrições da crueldade da tirania do Xá e da República islâmica, e as suas conversas privadas com Deus e Marx, que quase se fundem num só através da barba, e as indagações sobre as aventuras revolucionárias dos seus amigos e familiares. O regresso é desiludido. É o duro encarar da realidade após termos viajado por um outro cosmos durante copiosas páginas. Como quem nos pára o rotor do caleidoscópio, para nos deixar ver, por entre as missangas coloridas, o que há para lá da lente. É esta a Marjane deste segundo acto, uma mulher desiludida com o seu país e com o seu próprio rumo. Afinal, “Persépolis”, mais do que a história da Pérsia ou do irão, é a história sobre as desilusões e, sobretudo, os sonhos de quem oferece a vida a uma causa. É infeliz que nem uma (admirável) adaptação ao cinema pelo meio tenha sido capaz de instigar uma tradução mais recente. Mas, como também no irão a história se move, doze anos depois da primeira edição, vale a pena voltar a reler “Persépolis”.
joão MIranda
JoGar
shadows of the damned “nove círculos do inferno”
GUerra DaS CaBraS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro PlataforMa PS3, XBOX Artigos disponíveis na: edItora electROnic aRtS 2011
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em por acaso, na última edição desta coluna referenciámos a caricatura grotesca que a produção nipónica se tornou de si mesma; “shadows of the Damned” é, certamente, o derradeiro símbolo desse processo de decadência cultural. Fruto de uma colaboração entre as mentes que estiveram por detrás do incontornável “Killer7”, suda Goichi e shinji Mikami, seria de esperar uma obra de calibre superior, um oásis nesta árida paisagem que é o meio videolúdico. Até há uma ideia no seu âmago, mas não se trata de qualquer conceptualização visionária, antes a típica vulgata boçal que vimos a esperar da mente “punk” de Goichi. Trata-se de uma paródia trash, homenagem estilo “Grindhouse” aos grandes clássicos de terror da Capcom. Hiper-violento, quasi-pornográfico, escatológico e sempre com aquela gracinha pós-modernista que se regozija na produção de lixo “self-conscious” (ignoramos porque é que o lixo que sabe que é lixo deixaria de ser lixo). Claro que, sendo Goichi culto, encontrou um espaço simbólico que desse uma aura de nobreza artística, e então vá de pegar, como “Devil May Cry”, no inferno de Dante para vender a coisa como “arte”. A odisseia pelos nove círculos de Goichi é uma ofensa visual e moral a toda a linha, uma torrente imagética vagamente surrealista
e superlativamente repugnante, sempre intercalada com piadinhas prepubescentes sobre pénises e felácios. O jogo em si é mais um ersatz de “Resident evil 4”... e nem sequer é o melhor nessa ridiculamente profícua categoria. Mikami até se safa ao oferecer essa sua marca de design seguro, e um perfeccionismo formal que o descuidado suda não possui. Já Yamaoka não sai incólume, limitando-se a enfiar pela goela abaixo o seu template “silent Hill”, inconsciente de que estava a compor música para uma comediazinha e não para uma obra dramática. Goichi confirma com esta obra aquilo que já se adivinhava em “no More Heroes”: não passa de um adolescente rebelde, a fazer joguinhos sem gosto nenhum para públicos sem maturidade para perceber a diferença entre provocação patética e vanguardismo sofisticado. não compreende, como Kamiya em “Bayonetta”, que para uma paródia representar um objecto minimamente digno, tem de enquadrar as suas referências com subtileza e inteligência, e elevar as suas qualidades formais e expressivas a um novo patamar. Goichi ignora isto, e prefere vomitar mais um travesti insultuoso que ridiculariza o seu intelecto (e o nosso)... Mas pelos vistos, é isto que passa por arte nos videojogos. ruI CraVeIrInha