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23 de maio de 2012• aNo XXi • N.º 246 • QUiNZeNaL GRaTUiTo diReToR camiLo soLdado • ediToRes-eXecUTiVos iNês amado da siLVa e João GaspaR

Entrevista: João Tordo e os vários alter-egos

acabra

JoRNaL UNiVeRsiTáRio de coimbRa

Pág. 7

mara rodrigues

Carlota rebelo

Vender para disfarçar a crise Págs. 12 e 13

De vitória e reivinDicação fez-se a taça Pág. 5

Para além do apoio que os estudantes prestaram à Briosa, houve tempo para alertar para os problemas que o ensino superior enfrenta. Contudo, a segurança do estádio colocou obstáculos às mensagens contidas nas faixas, que consideraram de caráter ofensivo.

10 anos

de Jazz ao Centro Pág. 6

taça De PortugaL

chuc

Dos anos 60 até aos Fusão continua a gerar discórdia dias de hoje

Dicotomia

timor-Leste

cooPerativas

Estratégias: Europa vs. América Latina

Uma década de independência

Perda de espírito cooperativista

Francisco Andrade, em entrevista, conta como viveu as crises académicas, enquanto jogador e treinador da Briosa. Fala dos episódios mais marcantes do seu tempo, destaque para a Taça de Portugal de 69, mas também do presente. Por um homem que vê na essência estudantil de Coimbra algo distintivo.

Depois de em 2010 ser anunciada a possível fusão dos hospitais de Coimbra, em 2011 o governo social-democrata começa a dar-lhe forma. Mas as vozes discordantes multiplicam-se. Sem um estudo prévio e com motivos economicistas, a fusão gera consequências - o encerramento das urgências dos Covões durante a noite.

Ao mesmo tempo que a Europa se vai privatizando, a América Latina renacionaliza-se. Um presente de crescimento e de redução de desigualdades contrasta com uma Europa onde as regras são ditadas de fora. A dicotomia capitalismo versus socialismo não é como preto e branco, mas antes composta por várias nuances.

O principal desafio tem sido construir um estado a partir do zero. A dez anos de distância, quem acompanhou o processo de autodeterminação timorense afirma que o desenvolvimento do país está abaixo do expectável. Quem vai estudar para fora tem como objetivo voltar para ajudar no crescimento da jovem nação.

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Págs. 2 e 3

As cooperativas vêm enfrentando um desprendimento dos seus constituintes face à matriz inicial. Gerentes, responsáveis e estudiosos contam as vicissitudes que a falta de união pode gerar no seio desta instituição. Pág. 16

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Mais informação em

acabra.net


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destaque

Há dez anos a “lut a pátria” Se, em 2002, Timor-Leste proclamava o fim da repressão indonésia, em 2012, os desafios são outros. A pobreza, a falta de recursos humanos e a aposta que falta na população divergem das potencialidades dos recursos naturais e com os dividendos cada vez mais altos vindos do petróleo. Contrastes de um país em desenvolvimento e que continua a procurar Portugal como parceiro. Por Camilo Soldado e Inês Amado da Silva

V

O petróleo e o gás natural já valeram mais de 10 mil milhões de dólares aos cofres da RDTL

ital Araújo tinha 11 ou 12 anos, a memória confusa trai-lhe a certeza da idade. Era 12 de novembro de 1991. Estava na escola, a pouco mais de cem metros do cemitério de Santa Cruz, em Díli. “Saí da escola porque ouvi muito barulho. Parecia barulho de fritar milho. Os professores também fugiram, ninguém sabia para onde ir. Saí da escola com o meu irmão pequenino e fugimos de lá”, descreve, no seu português atropelado. Os tiroteios continuaram até ao fim daquele dia, conhecido episódio da história de um dos mais jovens países do mundo. “Psicologicamente, afetou-nos. Quando ouvimos barulho pensamos que é um massacre ou um tiroteio dos indonésios”. José Viegas da Costa tem 29 anos e está a terminar a licenciatura em Estudos Europeus e uma pós-graduação em Direitos Humanos; Vital Araújo, de 32, frequenta o mestrado integrado em Engenharia Civil, ambos na Universidade de Coimbra. Naquela altura, José morava atrás do cemitério: “as pessoas passavam por minha casa a sangrar, com mortos. Muitos foram baleados, muitas coisas aconteceram. Marquei presença nesse genocídio. Ainda tenho traumas com esse acontecimento”. “Com o 12 de novembro houve um impacto enorme”, confirma. O massacre de Santa Cruz é um de vários acontecimentos marcantes da história de um povo que assinalou agora uma outra data: a celebração de dez anos de independência, a 20 de maio, e que veio trazer ao país a

denominação de República Democrática de Timor-Leste (RDTL). Durante 24 anos, Timor-Leste foi ocupado pela Indonésia, sofrendo, nesse período, um intenso processo de descaracterização cultural e de repressão. “O meu pai era professor de português”, conta Vital. “Cresci em 1979, a Indonésia já estava em Timor. Tenho dez irmãos e o meu pai nunca nos ensinou português porque tinha medo. Quem falava português era quem queria a independência da Indonésia”. E era motivo de execução. “Se ouviam português, matavam”, explica José. Com a independência em 2002, o Português, juntamente com o autóctone Tétum-praça, ganha estatuto de língua oficial. De uma consciência de povo mantém-se, entre outros traços, o medo, o “trauma”, diz José. “Historicamente, os timorenses viveram sempre em conflito, então têm essa mentalidade”, ao que acrescem necessidades do povo “quer a nível psicológico, quer a nível físico”, como aponta a timorense Jessica Lemos, a frequentar o primeiro ano da licenciatura em Direito. Para estes timorenses em Portugal, que aprovam um investimento dos primeiros governos nas áreas da segurança e defesa, a fórmula da mudança parece residir no reforço da educação e da saúde, mais do que em estradas ou noutras infraestruturas: “informar e formar as pessoas”, afirma José, “para que um país seja um país muito bom”.

“Um tempo em que Timor fervilhava” Com o referendo de 1999 veio mais uma vaga de destruição protagonizada pelos indonésios, antes de deixarem definitivamente o país. António Sampaio, jornalista, lembra o dia histórico da votação: apesar de “amedrontada”, a população desceu das montanhas onde se refugiava e esteve “desde muito cedo às portas das urnas”, a votar “com uma participação que faz inveja a qualquer um dos nossos países, que se dizem grandes e antigas democracias”. A participação “elevadíssima” é, para o jornalista, “um sinal de força, que mostrou ao mundo a vontade que os timorenses tinham de concluir o seu processo de autodeterminação”. “Aquele foi um tempo em que Timor fervilhava”, descreve o também jornalista Ricardo Alexandre, que assistiu ao período pós-eleitoral em 1999. “Não só havia uma grande atenção do público português como foi uma oportunidade de testemunhar acontecimentos históricos”. As opiniões dos vários jornalistas que vêm observando Timor-Leste coincidem – pelos piores motivos, no entanto. Ricardo Alexandre, que voltou ao território há cerca de dois anos, considera que “com o investimento internacional e com o dinheiro que Timor-Leste tem dos fundos de petróleo, em termos de infraestruturas foi feito muito pouco”. Luciano Alvarez, jornalista que acompanhou o processo em vários momentos e que se encontra em Timor-Leste, destaca o que considera ser o problema

mais visível: a pobreza, para a qual contribui a centralização da atividade do país na capital. “Especialmente fora de Díli, vive-se exatamente como há dez anos atrás”. Como relata Luciano Alvarez, “a eletricidade começa a chegar um pouco a todo o lado” e “a estrutura física das cidades está totalmente levantada”. O país leva “uma vida económica muito viva - mas quando se vai para trás das fachadas das cidades há ainda muita pobreza”, expõe. “A seguir à independência, o combate à pobreza foi sempre a primeira prioridade do povo de Timor, mas durante estes dez anos pouco foi feito”. Já para António Sampaio, “o sistema de saúde melhorou, há mais emprego, há mais gente com dinheiro, mas ainda há setores da sociedade, particularmente nas zonas rurais, com muitas dificuldades”. Aponta-se também como aspeto negativo o crescimento do fosso social que vai dividindo a população. “Se o povo continua a passar fome enquanto outros passam de carrões, em frente a estradas onde estão imensas pessoas a vender comida, não vai resultar em nada. O governo está mais concentrado em desenvolver o país do que o seu povo”, critica Jessica Lemos.

A aposta na educação Júlio Couceiro, professor de Inglês, esteve, de 2006 a 2009, a lecionar na Escola Portuguesa de Díli, tendo voltado entre 2010 e 2011. O docente, apesar de elogiar essa escola e o incentivo à reintrodução da Língua


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destaque

utar para libertar A pobreza é considerada um dos maiores flagelos do Timor atual Timor: da ocupação consTanTe à liberdade

Portuguesa, considera que “muitas delas ainda são do tempo da Indonésia: edifícios pouco apetrechados, praticamente sem condições”. José Viegas da Costa, presidente dos Académicos Timorenses de Coimbra (ATC), associação que representa cerca de 50 estudantes, traduz o objetivo dos que estudam fora do país: “regressar o mais rápido possível para ajudar Timor na construção e no progresso que todos queremos”. “Há muita falta de recursos em Timor - não de recursos naturais, mas de recursos humanos”, admite José, que repara que a falta de quadros tem colocado complicações ao trabalho do governo. “Nós lutamos para libertar a pátria”, traduz. A luta que antes foi pela libertação da ocupação indonésia é agora uma luta “para libertar o povo de miséria e pobreza, para que seja um povo de justiça social para todos”. O presidente da ATC salienta que a criação de municípios para descentralização do território vai “facilitar ao governo o trabalho de governar o país”, planeamento no qual Portugal está a intervir e que deverá estar concluído até 2014. Mais uma vez, a questão da formação de quadros atravessa-se no desenvolvimento do país: “não digo que Timor é pobre: Timor tem mais recursos naturais do que nós queremos”. Para além do petróleo e do gás natural, José Viegas da Costa enumera o café, o arroz e o mármore como outras mais-valias do território, bem como os “muitos terrenos” que esperam cultivo. Mas há falta de gestão para isso”, lamenta.

O petróleo e as relações externas Luciano Alvarez aponta a origem do crescimento dos últimos cinco anos: o petróleo e o gás natural, lembrando que estes recursos já valeram mais de 10 mil milhões de dólares aos cofres da RDTL – muito embora “só uma parte fosse aplicada ao Orçamento do Estado (OE)”. Daqueles recursos provém também cerca de 90 por cento do OE de 2012, de quase 1,7 mil milhões de dólares – contra os 77 milhões do OE em 2002, o que, para o jornalista, demonstra “a importância que neste momento tem o dinheiro do petróleo para Timor”. A embaixadora portuguesa em Jacarta entre 2000 e 2003, Ana Gomes, lembra a chegada à capital indonésia em 1999, “um ano completamente dominado pela resolução da questão de Timor”. “Foi uma conjuntura particularmente bem aproveitada do ponto de vista diplomático por Portugal, que levou ao restabelecimento das relações com a Indonésia”, considera. A também eurodeputada considera ainda que “Timor tem hoje uma relação com a Indonésia que é exemplar dos dois lados, mas é evidente que Portugal também contribuiu nesses primeiros anos para isso”. No plano das relações portuguesas com Timor-Leste, Ana Gomes assevera que “Portugal devia ter feito muito mais do que fez até agora”, referindo a RTP como um “instrumento vital” de difusão da língua “que poderia ter tido um papel chave para ajudar a espalhar o português

em Timor-Leste”. Acusa ainda as empresas portuguesas de terem uma “visão paroquial”, falhando no seu papel de relançamento económico – “para que também se reforçasse o plano político entre Portugal e Indonésia”. “As minhas grandes frustrações estão aí”, lamenta. Em 2006, demite-se o primeiroministro da RDTL, Mari Alkatiri, acontecimento que Ana Gomes considera “de crescimento democrático”, e lembra as eleições de 2007, “extraordinariamente participadas”, uma “demonstração de que o acompanhamento da comunidade internacional que a ONU representa foi uma história de sucesso”. A 7 de julho, os timorenses serão novamente convocados para as eleições legislativas, num momento que muitos têm visto como um teste à estabilidade política do país. No fim de 2012, a ONU terminará a sua missão no país. Se o país está pronto para as mudanças? “É muito complicado responder a essa questão”, explica o estudante timorense José Viegas da Costa. “Não digo bem ou mal, mas de um modo geral, Timor está pronto para assumir essa responsabilidade. Os problemas de Timor são os timorenses que têm de resolver”, explica. José diz não gostar de ouvir que o seu país é “um Estado falhado”. “Timor é um Estado frágil, isso é verdade, mas falhado não. Temos uma população jovem e não queremos passar essa mentalidade do passado. Temos o passado como padrão para melhorar o presente e olhar para o futuro”.

os primeiros mercadores portugueses chegaram à ilha habitada pelo povo maubere em 1512. depois de algumas trocas comerciais, só em meados do século XViii começa o processo de colonização portuguesa. em 1859, o Tratado de lisboa, assinado por portugal e Holanda, define as possessões das duas nações na região, sendo que em 1914 seria assinado o acordo que estabelece as fronteiras atuais. a 17 de novembro 1941, com o decorrer da segunda Guerra mundial, sob pretexto de evitar uma invasão japonesa, a Holanda e a austrália desembarcam em território neutro português. apenas dois meses depois, os japoneses iriam invadir Timor. com o final da guerra, a cedência da base das lajes, nos açores, é vista como um esforço de salazar para recuperar a colónia no sudeste asiático. a assembleia Geral das nações unidas considerou, em 1960, Timor “um território não autónomo sob administração portuguesa”. Tal nunca foi reconhecido pelo regime português que continuou a considerar Timor como parte do território português. Foi apenas nesta década que a eletricidade começou a ser introduzida na ilha, começando também a desenvolverem-se outras infraestruturas como hospitais e escolas. com o 25 de abril em portugal, tem início o processo de descolonização, tendo os timorenses que escolher entre a independência ou a integração na vizinha indonésia. no processo de autodeterminação timorense, formaram-se três partidos: a união democrática Timorense (udT), a associação social democrática Timorense (asdT) [que viria a ser a Frente revolucionária de Timor-leste independente (FreTilin)] e a associação popular democrática Timorense (apodeTi). às eleições do início de 1975, ganhas pela FreTilin, segue-se um clima de guerra civil que iria culminar a 28 de novembro, com a declaração da independência. apenas nove dias depois, a indonésia invade Timor. a anexação contou com a passividade do mundo ocidental, principalmente devido a uma alegada ameaça comunista. os 24 anos de ocupação contariam com a oposição da luta de guerrilha das FalinTil, braço armado da FreTilin. em 1991 tem lugar o mais tristemente célebre episódio da ocupação indonésia: o massacre de santa cruz. no ano seguinte a resistência timorense sofria outro duro golpe com a prisão do líder das FalinTil, Xanana Gusmão. mas a causa timorense viria a ser reconhecida internacionalmente em 1996, com a atribuição do prémio nobel da paz ao bispo carlos Ximenes belo e a José ramos Horta. em 1998, o general indonésio suharto cai do poder, fator que, juntamente com a pressão internacional, abre portas a um referendo, promovido pelas nações unidas, para consultar a vontade do povo timorense. a votação, que foi realizada a 30 de agosto de 1999, contou com 98 por cento de participação da população e a independência ganha por esmagadora maioria. na sequência dos resultados, milícias pró-indonésias varrem o país numa onde de destruição que só iria terminar com a intervenção de forças das nações unidas. a 20 de maio de 2002, a independência de Timor-leste é, por fim, restaurada.


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EnSInO SuPErIOr Carlota rebelo

As candidaturas ao Fundo encontram-se abertas até ao dia 15 de junho

Fundo de Apoio Social da UC é reforçado em dez por cento O ano letivo passado, o fundo ajudou 381 alunos. Contudo, estudantes consideram que o apoio prestado é insuficiente. As candidaturas para este ano letivo encontram-se abertas Inês Balreira O Fundo de Apoio Social (FAS) da Universidade de Coimbra (UC) vai ser este ano reforçado em dez por cento no seu valor afeto. No total, o FAS vai este ano letivo atribuir apoios no valor total de 220 mil euros, sendo que o acréscimo de dez por cento em relação ao ano pasCarlota rebelo

sado se traduz em mais 20 mil euros. O FAS é um apoio disponibilizado pela UC aos estudantes de licenciatura e mestrado não comtemplados com bolsa de estudo. “O objetivo é impedir o abandono da frequência do ensino superior dos estudantes não bolseiros, em dificuldade do pagamento de propinas”, refere a vicereitora para o planeamento e finanças, Margarida Mano. O fundo foi criado em 2004 por deliberação do Senado Universitário. As candidaturas ao fundo encontram-se neste momento abertas, tendo-se iniciado no passado dia 15 e decorrem até ao próximo dia 15 de junho. Este ano, pela primeira vez, as cnadidaturas ao fundo podem ser efetuadas via online, uma inovação que a UC institui de forma a “facilitar, flexibilizar e acelerar o processo de candidatura e seleção dos candidatos”, revela a vice-reitora.

No ano letivo transato, de acordo com dados fornecidos pela reitoria da UC, o FAS contemplou 381 dos 544 estudantes que concorreram ao apoio, sendo que 463 eram de nacionalidade portuguesa e 72 de países de língua oficial portuguesa. A maior fatia de candidatos pertencia à Faculdade de Ciências e Tecnologia, seguido pelas Faculdades de Letras e de Direito. O valor atribuído aos contemplados com o FAS foi de 369 euros e 38 cêntimos, montante que corresponde à diferença entre o valor da propina máxima e mínima. Os 163 processos indeferidos prenderam-se com o não cumprimento de requisitos de aproveitamento escolar, com o facto de os estudantes candidatos serem já bolseiros ou terem desistido do processo.

Estudantes consideram fundo pouco divulgado “Se não fosse a assistente social não

tinha tido conhecimento do fundo”, afirma Sara Cardoso, estudante de Psicologia. Também Bárbara Antunes, estudante do mesmo curso, considera que o FAS é pouco divulgado: “fiquei a saber do fundo através de um papel afixado, mas foi uma colega, que também concorreu, que me disse que o apoio era para as pessoas que não tinham tido bolsa”. Apesar de reconhecerem a ajuda por parte da universidade, ambas as estudantes consideram que o valor do fundo não é suficiente. “O facto de estar uns euros acima do limiar da bolsa não significa que tenha capacidade para me sustentar durante o ano e o valor do FAS não ajuda ninguém a sustentar-se durante um ano”, assevera Sara Cardoso. “Recebi perto de 360 euros. Não chega a ser metade do valor das propinas”, corrobora Beatriz Antunes. Por sua vez, uma das vantagens

da candidatura ao fundo é a rapidez e menor burocracia em relação ao processo e atribuição de bolsas do ministério da educação e ciência, afirma Beatriz Antunes. “É mais simples, só precisei de preencher um papel porque os serviços de ação social já tinham os meus dados de quando concorri à bolsa”, diz. A estudante atesta ainda a rapidez de pagamento do fundo, que funciona de maneira diferente da bolsa, sendo o montante atribuído transferido de uma só vez para a conta dos estudantes. “Na hora em que recebi a mensagem a dizer que o fundo me foi atribuído tinha o dinheiro”, conta Beatriz. Contudo, Sara Cardoso é mais assertiva: “as pessoas precisam de dinheiro em setembro, outubro e novembro, para pagar casa, comida e propinas e em maio já não há dinheiro para isso”.

Espaço de formação e debate para estudantes Para promover um debate sobre questões relativas à garantia de qualidade do ES, o pelouro da Pedagogia da DG/AAC organiza o I Meeting de Pedagogia Ana Morais Nos próximos dias 25 e 26 de maio, a direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) promove o “I Meeting de Pedagogia”, com o intuito de reunir vários órgãos representativos dos estudantes para o debate “mais profundo” de

questões relacionadas com a garantia de qualidade das instituições de ensino superior (IES). Exemplo mais representativo destas questões é a discussão em torno do Processo de Bolonha. A iniciativa, da responsabilidade do pelouro de Pedagogia da DG/AAC, vai contar com a participação de várias instituições ligadas ao espaço universitário e académico: Fórum Académico para a Informação e Representação Externa, Bolonha Follow-Up Group e Agência de Avaliação e Acreditação das IES, reitoria da Universidade de Coimbra e da Universidade do Porto. Também os grupos parlamentares foram convidados pela AAC para este debate. No entanto, a coordenadora geral do

pelouro da Pedagogia, Leila Campos, não pode confirmar a sua presença. Apesar de ser um espaço de formação e debate direcionado para os núcleos de estudantes da AAC, estudantes senadores, conselheiros gerais, representantes dos estudantes nos Conselhos Pedagógicos das faculdades e para outras direções associativas, as inscrições estão abertas para os estudantes no geral. Ainda assim, Leila Campos confessa que “é notório que o interesse dos estudantes por estas questões não é muito”. A discussão será entre um jantar-conferência na Cantina das Químicas, no primeiro dia, e a continuação do debate no Instituto Justiça e Paz, no dia seguinte.

“A nível europeu o estudante é bastante considerado” Segundo a coordenadora geral do pelouro da Pedagogia, o grande objetivo é analisar com precisão o Processo de Bolonha, com personalidades que já fizeram esta análise no estrangeiro. Ao considerar que o preenchimento de inquéritos “não é suficiente”, Leila Campos pretende que o meeting permita “explorar outras vias de participação” e através disso, permitir ao estudante “ganhar importância”, uma vez que a “nível europeu o estudante já é bastante considerado”, isto é, é ouvido de forma equitativa pelos restantes atores do ES.


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EnSInO SuPErIOr

À semelhança de 1969, estudantes foram ao Jamor reivindicar A tradição faz-se de reivindicação. 43 anos volvidos os estudantes de Coimbra voltaram ao Jamor não só para ver jogar a Briosa, mas também para reivindicar os seus direitos. Sobre os entraves às mensagens contidas nas faixas fica a questão: tentativa de censura ou questão de segurança? Por Inês Balreira Carlota rebelo

E se o ministro não gostar? Uma das faixas que mais problemas teve ao entrar no estádio foi a que dizia “Marinho paga-me as propinas”. “Um dos agentes pensou que fosse uma indireta para o Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, e disse que se o ministro da administração interna visse aquilo em casa e não gostasse eles tinham que tirar as faixas a todo o custo”, revela o presidente da DG/AAC. O Marinho referido na faixa não era mais nem menos que o jogador da Briosa que marcou o golo da vitória. “Foi um ambiente desconfortável e quem esteve envolvido no processo questiona o porquê de isto ainda acontecer”, diz o dirigente. “Em ditadura a contestação é mais difícil de silenciar, em democracia é muito mais fácil”, acrescenta, “mas tantos anos depois o Jamor voltou a ter contestação estudantil”.

O principal objetivo era demonstrar o descontentamento “Não compreendemos a falta de investimento na educação, muito menos numa altura em que o país precisa de ter um outro rumo na sua política e como tal, demonstrámos o nosso apoio à Académica mas quisemos aproveitar também o momento para transmitir as nossas preocupações”, conta Tiago Martins. Alusões à questão do desemprego, das propinas e do subfinanciamento do ensino superior foram as principais mensagens que a AAC deixou nas faixas que levou ao Jamor. Apesar de todos os percalços que a ação reivindicativa sofreu, os dirigentes estudantis fazem um balanço positivo da iniciativa. “Acho que realmente foi positivo, não só pela mensagem que passámos, mas também pela associação que passou para as pessoas, de que a Académica continua a contestar e isso é muito importante”, declara o presidente da DG/AAC. O dirigente considera ainda que os estudantes “não foram ofensivos, mas sim ordeiros e civilizados”, conseguindo “mostrar não só a força e o que é ser d a

Académica”, como também os valores por que se pautam. “Acho que o nosso descontentamento ficou bem patente, quer no estádio, quer em casa porque foi amplamente noticiado na televisão, na rádio e imprensa e visível para todas as pessoas que estavam no estádio”, considera o coordenador geral. “Fico feliz por ver que a académica é incómoda e isso só nos dá mais vontade de continuar a mostrar aquilo que pensamos”, acrescenta.

Ação reivindicativa sem colaboração dos movimentos estudantis A iniciativa de reivindicação levada a cabo no passado fim-de-semana resultou de uma moção aprovada na última Assembleia Magna. A moção foi apresentada pela DG/AAC e pelo coletivo A Alternativa És Tu!. Neste sentido, a DG/AAC chamou o referido movimento e os restantes para participarem na ida ao Jamor. Contudo, os coletivos demonstraram-se descontentes com a atitude da direção-geral. “A DG contactou-nos com três dias antes da ação, mas não com o intuito de preparar qualquer ação, comunicaram-nos apenas o que ia ser

feito e se nós estávamos interessados em participar”, afirma Alma Rivera da A Alternativa És Tu!. A estudante acrescenta que “perante este tipo de proposta” o coletivo “decidiu não aderir”. Por sua vez, Renata Cambra, da Frente de AACção Estudantil, revela que nenhum dos elementos do

“Em ditadura a contestação é mais difícil de silenciar, em democracia é muito mais fácil” coletivo pôde estar presente devido à marcação tardia da reunião, sucedendo o mesmo com a AACção. Apesar de nenhum coletivo ter estado oficialmente representado no Jamor, os três movimentos consideram que a ação de protesto não teve impacto suficiente. “O protesto foi simbólico e o governo não vai mudar rigorosamente em nada a sua posição”, adverte Fabian Figueiredo, da AACção. “Em 69 surtiu efeito, mas o contexto era completamente

diferente e estar a fotocopiar a ação pela metade não leva ao mesmo efeito de décadas passadas”, acrescenta.“O impacto foi pequeno. Contudo, congratulamos a iniciativa, que apesar de ter sido feita, já vem em atraso”, afirma Alma Rivera. A estudante aponta ainda o facto de a ação não estar ao alcance de todos os estudantes: “sabemos que para a maioria não é possível estar a ter este gasto para reivindicar por direitos que são seus”. Por sua vez Renata Cambra, considera que a ação foi apenas “simbólica em recordação da crise de 1969”. “Este tipo de ações não chega e correm o risco de passar despercebidas de tão simbólicas que são”, assevera. Ricardo Morgado esclarece que a culpa no atraso da preparação da ação de protesto não foi da direçãogeral, uma vez que “só muito tardiamente” tiveram conhecimento da quantidade de bilhetes disponibilizada pela organização, o que “pôs o pé no travão dos preparativos”. “Voltámos a não ter uma participação conjunta mais ativa, mas não foi de todo culpa nossa, uma vez que contactámos [os coletivos], dissemos o que queríamos fazer e disponibilizámos bilhetes”, ressalva o dirigente.

Carlota rebelo

Q

uando os autocarros partiram de Coimbra às dez da manhã, a incerteza da Briosa trazer a taça do Jamor ao final do dia reinava entre os estudantes e os prognósticos dividiam-se, depois de uma época que deixou a Académica de Coimbra no décimo segundo lugar da liga. Uma certeza dos cerca de 250 estudantes que rumaram ao Estádio do Jamor é que, para além de irem assistir à final da taça de Portugal, iam fazer-se ouvir e reivindicar os seus direitos, como há 43 anos atrás. Nada previa que as forças de segurança do estádio se opusessem à colocação das faixas que a direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) levou, como forma de reivindicação, aproveitando a exposição mediática que os estudantes iriam ter. “Tínhamos a confirmação de que as nossas faixas podiam entrar no estádio entre as 10h00 e as 12h00 e lá estivemos a essa hora para que as faixas ficassem já posicionadas”, conta o presidente da direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo morgado. No entanto, quando a DG/AAC se preparava para distribuir as faixas pelo estádio as forças de segurança impediram-nas de entrar, devido ao “cariz ofensivo” que ostentavam, afirma o coordenador do pelouro da Política Educativa da DG/AAC, Tiago Martins. Ricardo Morgado clarifica que o conteúdo das faixas “eram apenas constatações de factos e mensagens que a AAC tem vindo a defender ao longo do ano, apesar da Polícia de segurança Pública as considerar muito agressivas”. Horas depois de negociações com as forças de segurança e de as faixas serem revistas várias vezes, os estudantes conseguiram entrar com os estandartes. “Se houve tentativa de censura ou não, a verdade é que as faixas entraram, mas foi um processo tão longo que, decerto, houve atores naquele processo que não se sentiam confortáveis com a entrada de certas mensagens”, analisa Ricardo Morgado.


6 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

Cultura cedida pelo jaac - fotografia por hélio gomes

Carlos Zíngaro (na foto) é um dos artistas que vai atuar nesta edição dos Encontros Internacionais de Jazz em Coimbra

Uma década de encontros com o Jazz O Festival Jazz ao Centro regressa entre os dias 24 e 26 de maio, com concertos que irão percorrer alguns dos palcos mais emblemáticos da cidade de Coimbra Daniel Alves da Silva No ano em que comemora a sua décima edição, o Festival Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra será composto não só pelos vários concertos mas também por uma exposição fotográfica. “10 anos de Encontros” funciona como retrospetiva na história do festival e está patente no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) até ao dia 27 de maio. O evento, organizado pelo Jazz ao Centro Clube (JACC) em parceria com a Câmara Municipal de Coimbra, propõe novamente este ano uma edição recheada com vários

nomes nacionais e estrangeiros reconhecidos pelos apreciadores desta linguagem musical. Os concertos espalham-se por vários locais: o primeiro tem lugar no Centro Cultural Dom Dinis, estando marcado o seu início para as 19 horas com a atuação dos Open Field String Trio, que irão partilhar o palco com Carlos Zíngaro, numa sessão que será de entrada livre (embora os restantes concertos tenham um custo entre os 5 e os 7,5 euros). Segundo o responsável pela produção executiva, José Miguel Pereira, esta é “ uma das formas encontradas para ir ao encontro do público”, universitário e não só. Dáse, assim, a “possibilidade de assistir a um concerto de jazz ao vivo” para afastar “alguns preconceitos que as pessoas possam ter” relativos ao género musical. A noite termina no Salão Brazil, que será ocupado pelos nórdicos Trespass Trio e por uma figura histórica do jazz, o norte-americano Joe McPhee, que irá actuar também durante os restantes dois dias em que o festival decorre. “Há grandes expectativas para estes concertos”,

ressalva José Miguel Pereira, adiantando que os mesmos serão gravados para posterior edição discográfica em parceria com a CleanFeed.

Edição de continuidade O produtor refere que o festival, no seu décimo ano, “já tem uma espinha dorsal”, quer seja em termos artísticos ou de parceiros e espaços envolvidos. E explica algumas das características que considera “especiais”: o trabalhar especificamente “certos públicos”, assim como “fazer passar o festival por lugares não convencionais”, como o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, onde “qualquer espetáculo é um momento mágico” e o artista “é obrigado a interagir com o espaço”. Carlos Zíngaro atua no segundo dia do festival pelas 19 horas, no Mosteiro, e confessa ter uma preferência por “espaços acústicos vivos”. Refere, por isso, que tocar nesse local significará “uma aposta na relação entre o instrumento violino acústico e a reverberação, a reflexão do som nas paredes e na pedra”. Também no dia 25 de maio, às 22

horas, terá início a atuação do contrabaixista Hugo Carvalhais, no TAGV, a apresentar o seu novo álbum, “Particula”, onde o público pode esperar, segundo palavras do próprio, “muita improvisação, muita experimentação e uma mistura de composições espontâneas com fórmulas quânticas”. O seu habitual trio expandiu-se a quinteto: ao baterista Mário Costa e a Gabriel Pinto no piano juntou-se a presença de “duas figuras incontornáveis do jazz francês”, Emile Parisien, com o seu saxofone soprano e o violino de Dominique Pifarély. O TAGV será também palco, no dia seguinte, à mesma hora, da atuação do quinteto Atomic, considerado por José Miguel Pereira, um dos coletivos “mais notáveis do novo jazz a ser feito na Escandinávia”. Cabe-lhes o penúltimo concerto, antes do fim da festa no Salão Brazil.

A divulgação do Jazz Dez edições depois, e em jeito de balanço, José Miguel Pereira conclui que o festival “trilhou um caminho que permite hoje ter um

Em Palco • Porque “putaria é assim mesmo”

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línio Marcos nunca foi um autor de fácil absorção. Os seus textos são desbocados, furiosos e crus. Em “O Abajur Lilás” encontramos isso mesmo - um limbo de emoções que, de forma crescente, mostram ao público uma dura realidade. Escrita em 1969, esta peça chegou a ser censurada, devido ao seu forte conteúdo para a altura – a história de três prostitutas, Dilma, Célia e Leninha, que vivem na casa de Giro, um velho homossexual ambicioso, que as explora possessivamente. O submundo de um prostíbulo apresenta-se de uma forma simples. Uma cama, uma mesa, algumas

cadeiras e, claro, um abajur lilás. Temos Dilma, que se prostitui porque tem um filho para criar, facto que a move durante toda a peça. Não se pode rebelar contra Giro nem contra a vida que leva – porque, como a própria repete ao longo da história, tem um filho para criar. Temos Célia, que gasta dinheiro no bagaço para esquecer tudo. Célia tem coragem, mas faltam-lhe meios: tem a coragem para querer matar Giro, plano que tenta concretizar, mas sem dinheiro para comprar uma arma, nada consegue. Mais tarde chega Leninha, mulher livre, que não deve nada a ninguém e facilmente consegue manipular o “cafetão”.

Depois há Giro, personagem bastante intrigante: em primeiro, aparece-nos como um homem engraçado, apesar de já sabermos o que faz para ganhar a vida. Mas no final surge-nos a sua verdadeira essência: cruel e vil, não vacila se tiver que eliminar alguém que não cumpra com as suas vontades. Sempre protegido pelo seu ajudante, Osvaldo – por quem tem uma pequena paixoneta -, faz a vida negra às três prostitutas. O clímax é inesperado: Osvaldo, personagem a início um pouco apagada, trama as prostitutas, destruindo o prostíbulo e culpando-as. Giro, que já tinha lidado com a rebeldia de Célia,

quando esta partiu o abajur lilás, não hesita e prende as prostitutas, torturando-as até que contem a verdade. O derradeiro castigo acaba por cair sobre Célia, a principal vítima da história. O terror da última parte da peça é logo de seguida esquecido por Dilma e Leninha, porque nada podem fazer para além de uma coisa: continuar a trabalhar para sobreviver. Porque, segundo Giro, “putaria é assim mesmo”. A adaptação é feita pelo CENDREV e está em exibição até 27 de maio, n’ A Escola da Noite.

Por Ana Duarte

público fiel”, não só de habitantes de Coimbra como também de “outras pessoas que nos visitam propositadamente para assistirem ao festival”. A fidelização do público é também fruto do JACC, que define como sendo uma organização de “produção e criação local”. José Miguel Pereira crê que todo este tempo de trabalho tem “permitido que a estrutura esteja a trabalhar diariamente na cidade”, para que possa “oferecer muitos mais espetáculos, de forma muito mais frequente, durante todo o ano”. O contrabaixista Hugo Carvalhais confidencia que ele próprio se deslocou “por diversas vezes a Coimbra nos últimos anos para ver os concertos”, acrescentando que “é evidente que a divulgação dos músicos e projetos portugueses é extremamente importante” neste género de eventos. O músico Carlos Zíngaro salienta que é de “louvar a iniciativa do Jazz ao Centro”, pois apesar do período económico em que vivemos, o JACC tem um papel “de insistência, de militância e de acompanhamento, promoção e divulgação destas áreas musicais”. paulo nuno silva


23 de maio de 2012 | quarta-feira | a

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Cultura EntrEvista a João tordo • Escritor

“O escritor é um tipo um bocado perigoso, é um vampiro da realidade” Numa conversa ao final de tarde, depois de um encontro com os leitores na Biblioteca Municipal, João Tordo fala dos seus vários alter-egos e da forma como eles determinam a sua escrita. Num registo descontraído, entre cigarros e chiclete de mentol, o escritor contou a forma como o seu percurso de vida foi decisivo para a sua escrita. Desde o papel de Catarina Eufémia à chancela do Prémio Literário José Saramago, Tordo partilhou a sua vida e obra, sem reservas ou mistérios. Ana Morais Paulo Sérgio Santos No romance “Anatomia dos Mártires”, retratas a história de Catarina Eufémia. Tendo em conta que já referiste que era uma história “muito mal contada”, pensas que o teu livro contribui para esclarecer o que se passou? O objetivo não era contar melhor a história mas perceber quem tinha sido aquela personagem e porque tinha sido guardada nos baús da memória. Porém, o mais importante não é a Catarina Eufémia em si, é o percurso que o protagonista faz ao longo do livro, dado que é um romance e não um ensaio. A Catarina serve como uma busca que é exterior, mas que também é interior para ele.

ana morais

Nos teus livros descreves momentos de pesquisa na biblioteca, de leituras quase obstinadas. São descrições da tua própria pesquisa? Penso que a pesquisa tem que ter os seus limites. Eu faço muita pesquisa geográfica porque gosto de conhecer os sítios de que falo. Mas a pesquisa documental deve ter limites. Interessa-me pesquisar, mas interessa-me muito mais imaginar.

Os teus narradores são decisivos no desenrolar de todas as histórias. Apesar disso não têm nome. O que te leva a fazer essa escolha? Eu gosto daquela confusão entre personagem que narra e autor. Muitas das coisas que se vão passando nos romances, foram coisas que me foram acontecendo e personagens que vou conhecendo aqui e ali e é uma maneira de eu próprio me colocar naquela história, sentir que estou a vivê-la. No entanto, os narradores dos romances são todos muito diferentes. Penso que temos várias personagens dentro de nós e podemos assumi-las. No livro “O Bom Inverno” é referida a dificuldade do narrador continuar a narrativa, pois considera-se “o único responsável” pelo desenrolar da história e vê-se como um réu, um advogado ou um juiz. É assim que te vês? Vou-me vendo no mesmo papel que tinha o arquivista quando escrevi “As Três Vidas”. É um arquivista que vai arquivando a vida dos outros e que ao mesmo tempo vai arquivando a sua própria vida. No romance “O Bom Inverno” ele assume o papel do Barqueiro de Caronte. Sou uma espécie de intermediário. A ideologia política é um elemento comum e decisivo nos teus romances. Também ocupa um papel importante na tua vida? Por opção própria n ã o tenho

ideologia política, não posso ser ortodoxo. A pior coisa que pode acontecer a um romancista é estar coberto de dogmas que não lhe permitem ver completamente a realidade. A ideologia política serve sobretudo para eu representar personagens que a têm, personagens que têm conflitos, que têm defeitos, que têm falhas. Em que momento percebeste que a escrita podia ser algo profissional? Desde sempre. Pensava que podia ser jornalista, pensava que podia escrever contos… Percebi que era romancista quando escrevi o meu primeiro romance, “O Livro dos Homens Sem Luz”. A escrita foi, desde sempre, a única coisa que pensava ter talento para fazer. E por que é que decidiste escolher Filosofia como formação académica? Sempre fui apaixonado por livros, mas não exatamente apaixonado por academismos. Se eu fosse para uma faculdade estudar línguas ou literaturas sentiria um pouco que se estavam a dissecar as coisas e não queria isso. Os livros só são mágicos enquanto não se desmontam, tinha medo de perder esse brilho.

Fui estudar Filosofia porque era uma matéria que gostava, que tinha a ver com livros e que era um veículo para outras coisas. Atualmente és descrito como escritor, cronista, tradutor, guionista e formador. Apesar de todos estes ofícios terem a escrita em comum, diferem na sua realização. No meio de tudo isto, como é que te organizas? Há vezes em que eu ando com os prazos em cima de mim. Mas não escrevo romances sempre, tiro uns meses por ano em que vou alimentando as ideias e depois tenho três meses em que me dedico só a escrever. A partir desse rascunho tudo é mais fácil e os meses que se seguem são de reescrita. Mas não consigo estar a escrever guiões de manhã, crónicas à tarde, tocar contrabaixo à noite e depois ir para casa escrever. Que influências artísticas conjugas na tua obra? As minhas influências têm sido, atualmente, os escritores espanhóis: Javier Cercas, Vila-Matas, Juan Marsé, que têm uma visão mais contemporânea. Mas as influências vêm de toda a parte, até dos meus amigos, da família. O escritor acaba por ser um tipo um bocado perigoso, porque é um vampiro da realidade, o que é por vezes desgastante. Entre teres ganho e teres sido finalista de vários prémios literários, como consideras que isso pode ter contribuído para a tua afirmação no panorama artístico português? O Prémio Saramago definitivamente, porque é um prémio que catapulta carreiras. As pessoas, como têm uma grande estima pelo Saramago, terão também pelos escritores que ganharem esse prémio. Os outros prémios tiveram menos importância porque houve vários que eu não recebi, embora seja sempre bom estar lá naqueles eleitos. Depois há o lado financeiro que nos compra tempo de escrita e

isso é fundamental. Grande parte da nova vaga de escritores portugueses foi distinguida com este prémio. Consideras que é uma chancela de qualidade? É um prémio que reconhece jovens escritores e esta é uma geração que foi marcada pelo prémio, uma geração que dificilmente voltará a acontecer nas próximas décadas. A última geração de escritores com este conhecimento foi nos anos 50 e 60. O século XXI trouxe uma vaga muito importante que eu não sei se se repetirá tão facilmente.

“Temos várias personagens dentro de nós e podemos assumi-las.”, conta João Tordo

Na “Anatomia dos Mártires” quando o jornalista vai entrevistar Kapus, não tem um conhecimento profundo da sua obra, mas omite esse facto. É uma crítica à comunicação social atual? É uma crítica aos jornalistas que não leem os livros dos escritores que vão entrevistar, o jornalismo da Wikipedia. Os jornalistas não se sabem informar. Depois tem a ver um pouco com a sociedade do espetáculo, do Kapus e do homem que se lança do prédio e que foi claramente um golpe publicitário, serve no livro como narrativa paralela e contrastante com a narrativa verdadeira. És um jovem escritor, com um percurso premiado e aclamado pela crítica. Que conselhos deixas? Que tenham muita paciência, que este não é um bom momento para um jovem escritor publicar. Que espere e, sobretudo, que não se metam com editoras que oferecem condições estranhas pela internet, porque isso são tudo aldrabices, vão acabar por pagar o seu próprio livro e ele não vai ser exposto.


8 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

CulTurA

O lusotropicalismo do teatro a cá pulsar pelas artérias da cidade 26

cultura por 17 a

MAIO

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23 e 30 MAIO

“hISTórIAS dE águA E MúSICA “

Entre 29 de maio e 8 de junho, o Brasil vem a Coimbra numa mostra de teatro. “São Palco” é o nome do evento, organizado pel'O Teatrão

CIClO dE CONCErTOS

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MAIO

“MIrE VEjA”

1

O Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica passa este ano por Coimbra, através de uma extensão que engloba cinco companhias de teatro de São Paulo. “São Palco” não é um evento qualquer: para além de proporcionar à cidade uma mostra de teatro brasileiro, diferente em larga escala daquilo que se pratica por cá, fomenta também os laços entre Portugal e Brasil. Desde espetáculos de rua a exibições na Oficina Municipal do Teatro (OMT), Coimbra terá oportunidade de conhecer uma nova realidade cultural – o teatro de grupos. “São Palco” contará com a presença da Companhia São Jorge de Variedades, Companhia do Feijão, Companhia Mungunzá de Teatro, Grupo XIX de Teatro e Companhia do Latão. No ano passado, a OMT trouxe Nova Iorque a Coimbra, com o grupo THE TEAM e Zachary Oberzan. Mas este ano é a vez dos “paulistas”. Para a diretora artística d'O Teatrão, Isabel Craveiro, “o teatro na América Latina, não só no Brasil, está a passar uma fase muito

vigorosa”. No caso específico do Brasil, refere que “são espetáculos literalmente muito potentes”, não vendo razões que contrariem o estabelecimento de laços com as companhias que vêm atuar. Avança mesmo com a hipótese de consolidar parcerias fortes, para uma permanente troca de culturas e novas formas de representar. A receção do convite da OMT foi, em geral, bem recebida. O diretor do Grupo XIX, Luiz Marques, afirma, em nome do coletivo, que estão “muito empolgados com essa vinda a Coimbra”. “Hygiene”, a peça que vão apresentar, é o único espetáculo de rua desta mostra e será o principal desafio. Mas não se mostram incomodados com isso, antes pelo contrário: “Coimbra tem aquela arquitetura de época e aqui no Brasil não há muito disso, por isso estamos mesmo muito empolgados por fazer a peça aí”. Não sendo estreantes em Portugal (já atuaram no Porto), o Grupo XIX quer repetir a experiência, porque tiveram “uma receção muito legal, uma troca mesmo muito boa”. As expectativas, essas são as melhores.

Ligações ancestrais Mas estes espetáculos não surgem n'O Teatrão por acaso – eles vão ao encontro daquilo que é o trabalho da companhia portuguesa. “Desde sempre criámos uma postura fraterna, tal como estas companhias. Para nós é fan-

“Hygiene” (na foto) é uma das peças da mostra de teatro brasileiro tástico poder acolher outras pessoas, perceber como é que outros espetáculos se constroem, como é que é a vis��o de outros artistas”, explica Isabel Craveiro. Membro da direção da Companhia do Feijão, Pedro Pires classifica este evento como “uma chance de estabelecer contacto com companheiros de outro continente com os quais dividimos um idioma e, porque não dizer, uma ancestralidade”. Para além disso, “São Palco” é a grande possibilidade para esta companhia continuar a mostrar o seu trabalho pelo globo, já que, segundo Pedro Pires, é uma ideia que está presente no grupo desde a sua origem, em 1998. Luiz Marques é mais assertivo - “esta troca cultu-

ral é fundamental. Até acho que está a acontecer tardiamente”. O principal objetivo desta mostra será, nas palavras da diretora artística d'O Teatrão, “ dar à cidade esta dimensão internacional”.“ Coimbra é um sítio como outro qualquer, com capacidade para organizar e para ter uma escala internacional de programação, não é só Lisboa e Porto”, continua. Mas não fica por aqui. Há que potenciar o teatro português lá fora. O diretor do Grupo XIX lamenta não ver mais companhias portuguesas no Brasil e acredita que, com este laço, a situação possa mudar: “teatro é uma arte do hoje, do agora, por isso faz falta esta troca, ficar mais próximo do teatro português”.

Um nicho internacional na Casa da Cultura

MAIO

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Ana Duarte

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Por Ana Duarte

Os VI Encontros Internacionais de Arte abriram no dia 18 e por cá ficam até 18 de junho. Pintura e escultura são as principais atrações Ana Duarte Quem passasse pela Casa Municipal da Cultura às 18 horas e 30, não daria por nada. Mas na Sala Férrer Correia assistia-se à inauguração dos VI Encontros Internacionais de Arte de Coimbra. Estes encontros não são novos, mas ainda são desconhecidos da maioria da população. À frente do evento está a Associação Cultural e Artística de Coimbra (ACAC). O seu fundador e diretor-executivo, João Carolo, também expõe nesta mostra de arte, juntamente com Sophie Degano, Nelo, Sandrine Cortez e Carla Ferreira. O artista J. Sicar, pai de João Carolo, também é homena-

geado nesta exposição, com algumas das suas obras mais conhecidas. Os Encontros Internacionais de Arte, primeiro realizados de quatro em quatro anos e depois anualmente, reúnem em si três vertentes artísticas - pintura, música e escultura que promovem a multiculturalidade da arte. O intuito é provado pela própria exposição, onde estão presentes dois artistas franceses e um músico português, que inaugurou a exposição com Carlos Paredes. Para João Carolo, esta iniciativa é “ótima para a economia local, porque com os artistas estrangeiros vêm amigos que ficam em hotéis, vão aos cafés e compram um ‘souvenir’ ”. O outro lado do benefício de eventos como este reside nos “novos conhecimentos que trazem e nas novas formas de pensar artisticamente”. “É um enriquecimento humano a todos os níveis”, acrescenta. As edições passadas seguiram a linha da deste ano: pouca gente se deslocou à Casa Municipal da Cultura - ainda assim, aqueles que o fi-

zeram deleitaram-se com as obras expostas e congratularam o artista pelo evento. “Sei que isto não é nenhum fenómeno futebolístico. Geralmente vêm 30 ou 40 pessoas”, lamenta João Carolo. Mas não se mostra totalmente desanimado: “a arte toca a estas pequenas minorias e, portanto, são estas minorias que me tocam”. A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), Maria José Azevedo, avalia este evento como “um acontecimento de grande importância, desde logo por quem o organiza e por aqueles que o procuram”. Mesmo com a cedência do espaço que a CMC faz, o que na opinião da vereadora “é já de si um grande apoio”, João Carolo, apesar da gratidão com que o recebe, não acha suficiente: “espero que no futuro haja mais apoios, e não só da CMC”. “Não recebemos apoios da Direção-geral das Artes e, como somos uma associação sem fins lucrativos, não temos muitos associados”, diz João Carolo. O artista vai mais longe, afirmando

mesmo que “se fosse uma associação que tivesse uma boa conta bancária já havia aí 20 candidatos”.

ACAC, uma associação internacional A ACAC é uma associação cultural de grande dimensão, mas que passa um pouco ao lado de Coimbra. Pelas mãos do seu fundador, que fez percurso fora de Portugal, pode dizer-se que a ACAC se torna também uma “associação internacional”. As colaborações vêm desde França, Espanha, Holanda e Irlanda. Mas para João Carolo, neste momento, “a nossa dimensão, a nível visível, é muito pequena”. Pequena, porque o diretor-executivo afirma estar ainda “à espera do que foi prometido no tempo do doutor Carlos Encarnação” - que o Convento de São Francisco ficasse pronto para que a ACAC se pudesse instalar por lá. Por enquanto, vão funcionando no atelier de Carolo. Mas fica expresso o desejo de que “a todos os níveis, melhores tempos virão”.


23 de maio de 2012 | quarta-feira | a

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“O sentimento de revolta nos estudantes tem de ter a Académica como base” Tanto para falar do presente como do passado, Francisco Andrade fala em “nós”. Esteve ligado à Académica em 1962 como jogador e em 69 e 74 como treinador. Quando o tema é a Taça de Portugal, tornase incontornável, para o presidente da Junta de Freguesia dos Olivais, revisitar as crises académicas - da importância que o futebol teve na sociedade, passando pelas dificuldades que os jogadores viviam à relação com a Associação Académica de Coimbra, que pode voltar a ser como era. Fernando Sá Pessoa

CEDIDA POR CATARInA sImõEs.

Encontra paralelismo entre esta final e a de 1969? Claro que esta final é diferente de 69. Hoje, talvez os jovens não consigam perceber o que era uma academia em luto, que estava circunscrita à cidade. Mesmo os estudantes, quando saíam de Coimbra e iam para casa ao fim de semana, tinham receio de dizer à sua própria família, porque sabiam que podiam ser perseguidos. Quando entrámos na Taça de Portugal, os jogos eram diferentes de agora porque eram depois do campeonato e tinham duas mãos. Nós tivemos três jogos e cada um teve a sua história. O primeiro foi contra o Guimarães. Lá per-

demos 2-1 e cá ganhámos 5-0, o que foi marcante, porque toda a gente pensava que íamos ser eliminados. Ao vencermos o Vitória põe-se o problema de irmos às meias-finais, com o Sporting, o segundo lugar. E é então que se dá o auge da crise académica. Isto com uma equipa composta por estudantes na sua quase totalidade. Era a verdadeira Académica. E hoje, isso não é possível? Não é possível por vários motivos. Por isso é que eu digo que esta Final da Taça tem uma possibilidade única de fazer com que aquilo que fomos no passado possa melhorar o futuro. Eu sei que os tempos são outros, que a atração de vir estudar para Coimbra não é a mesma que era antigamente. Antes, era a garantia de uma profissão, de ter outro papel na sociedade, e hoje não. Mas eu sou daqueles que acreditam que é possível ter uma equipa de futebol com

muito mais estudantes do que temos. E, tendo mais, vai haver uma ligação com a academia. Mas porque é que entende que as coisas hoje são assim? São assim porque o futebol não se compadece com amadorismos em muita coisa. E a Académica é profissional de fora para dentro, na vinda de jogadores e treinadores, mas não o é na organização de dentro para fora. Para se ser hoje uma equipa diferente daquela que existe e haver a tal simbiose entre o estudante e o jogador, é necessário fazer uma prospeção, que seria não só através do empresário. Depois, nós chegámos a ter na equipa principal nove ex-juniores. E poder-se-á dizer que os tempos eram outros, mas não porque jogávamos contra o Benfica, que foi à final connosco e que era campeão europeu. Também é uma realidade que, na grande parte dos clubes portugueses, há jogadores estudantes. É outro erro quando as pessoas pensam que não há estudantes a jogar futebol. Simplesmente, esses não constam na lista dos empresários, porque não são esses com quem eles ganham dinheiro. Mas são esses que têm valor técnico e têm outro valor social, que poderá alterar a filosofia. E é essa a minha esperança. Que os responsáveis da Académica se abram, porque hoje, felizmente,

temos um presidente da AAC que está aberto.

equipa nas competições europeias. Temos de congratulá-lo por isso.

E por parte do presidente da Académica, sente que também existe essa abertura? É isso que eu digo. Tem de haver das duas partes uma aproximação.

E a equipa está preparada para isso? Pode beneficiar financeiramente. Podemos melhorar e dar um bocadinho mais de nome. Mas falemos da Académica no seu todo. A equipa não tinha maturidade, era muito jovem. Mas costuma-se dizer que uma equipa se reconhece quando perde.

Mas isso é possível? Eu estou fora, não quero fazer juízos de valor. Mesmo em relação aos estudantes que vivem as dificuldades atuais, sente que há, nesta final, um revivalismo desse passado? É preciso não esquecer que nós também vivíamos dificuldades. Na altura, recebíamos para pagar a pensão e os livros. E muitas vezes sujeitávamo-nos ao arroz com bolinho de bacalhau, porque não havia dinheiro. Hoje, o estudante vive problemas e é umas das tais responsabilidades que eu digo que existem na própria AAC e na OAF. Quando eu hoje vejo um sentimento de revolta, e muito bem, ele tem de ter a Académica como base. Porque nós não somos iguais às outras universidades, por mais que elas queiram. E foi aí que o futebol teve o seu papel… Foi fundamental, virou o mundo. Este clube era diferente de todos os clubes. Agora, está muito igual. E ainda bem que a academia está a aparecer no futebol e a ligar-se a ele, porque ela dá cor ao emblema, dá alma. Quanto à época, que foi atípica, qual o seu comentário? A Académica teve um ano atípico, realmente. Era impensável, nos tempos do [José Maria] Pedroto e do [Mário] Wilson, termos uma segunda volta em que só marcámos um golo em casa. A força dos teóricos da Académica era tal e tanta que corriam com os treinadores. Este ano, a Académica começou o campeonato a iludir muita gente de um valor que ela não tinha, e fez uma parte do campeonato em que as pessoas começaram a pensar na Europa. E ainda bem que isto aconteceu, porque fez com que o presidente da Académica inscrevesse a

E o treinador, também era demasiado jovem? É um treinador jovem, que não tem ainda sequer o quarto nível de treinador, mas com todas as potencialidades. Claro que para o ano será mais treinador do que foi este ano. É a vida. Ele vai aprender, de certeza, com alguns erros que fez. Mas estou convencido de que é inteligente e vai fazer uma reflexão profunda. Quanto ao passado das finais e das crises académicas, há algum episódio que destaque? Em 1962 foi tremendo. A equipa era só de estudantes e a direção também. E há também uma crise académica. Nós recebemos em casa um postal a dizer para aparecermos no Palácio dos Grilos, onde íamos receber o tal subsidiozinho no final do mês para pagarmos a pensão e os livros. Lá, disseram-nos: “vocês não são mais nossos jogadores”. Veja que naquela altura alguns eram casados e com filhos, o que fez com que disséssemos – e agora? Tudo isso foi um momento de revolta. E quando aparece uma comissão administrativa composta por pessoas de grande gabarito social aqui em Coimbra e nos perguntam se queremos ou não jogar…e levam-nos para casa do Pedrosa Santos. Sabíamos que estava lá também a polícia política. Como alguns jogadores pretendiam fugir e não queriam dar nas vistas, pediram a todos para dizermos que sim. Mas não fomos convincentes, porque havia quem chorasse. Éramos estudantes e estávamos com o movimento, mas ao mesmo tempo tínhamos que viver. Depois, há o jogo com o Sporting. Muita gente estava connosco, mas outros, extremistas, não nos perdoaram e fizeram claque pelo adversário. Isto também fez com que a Académica se tenha separado da academia.


10 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

DESPorto prolongamento

F UT s a L

A equipa de Tó Coelho está perto de garantir a manutenção e encontra-se, neste momento, no segundo lugar do ‘play-out’, com os mesmos 19 pontos do primeiro lugar, o Sporting de Braga. A vitória no terreno do Belenenses, no passado dia 19, por 5-7, foi importante, uma vez que os homens de Belém estão a apenas a três pontos da Briosa, e só os dois primeiros lugares entre os quatro podem ficar na primeira divisão. No regresso ao primeiro escalão do futsal português, a manutenção está ao alcance, pelo que a partida com o Braga, no próximo sábado, se revelará decisiva.

JUdo

A Secção de Judo conquistou, pela primeira vez na sua história, o título de campeão nacional de equipas na categoria de seniores femininos. O torneio decorreu no passado fim de semana, em Odivelas, onde também a equipa masculina sénior esteve muito perto de disputar a final, tendo alcançado o 3º lugar do pódio. O encontro decisivo para o título da equipa feminina deu-se contra o Sport Algés e Dafundo, duelo em que a Académica saiu vencedora com o resultado de 2-1. No próximo dia 2 de junho, a equipa feminina da secção de Judo parte para Bucareste, na Roménia, onde disputa a Taça do Mundo.

hipismo

Afinal, o hipismo não é um desporto só para elites Para lá das cancelas do Choupal, cerca de dois quilómetros depois da mata, existe um centro hípico. Discreto e encaminhado por uma estrada esburacada, o complexo possui, neste momento, 30 cavalos, embora possa ter cerca de 60. Em tempos, que não de crise, foi assim. Por Fernando Sá Pessoa e Mariana Morais

S

ecretária da direção do centro hípico do Choupal, Isabel Veloso, refere que o “ideal seria ter 60 cavalos, mas eles têm saído”. Contam-se agora 30. Também no hipismo a crise se faz sentir, visível nos poucos focinhos pontiagudos que espreitam, envergonhados, pelas janelas das ‘boxes’. Os empregados são já apenas três, para toda a manutenção dos dez hectares do recinto, para alimentar os cavalos e para lhes fazer a cama. Enquanto a dirigente lamenta as escassas condições financeiras, o Kiwi, cavalo branco que está na ‘box’ contígua à sala onde decorre a conversa, relincha, como que concordando. E as suas queixas vêm pelos cascos que batem, com estrondo, na calçada. Dadas as dificuldades financeiras, torna-se pertinente questionar em que medida faz sentido associar o hipismo à elite social. Com efeito, Isabel Veloso refere que isso é algo “que tem de ser combatido”. “Às vezes, vejo as pessoas com meninos ao colo a olharem cá para dentro, e eu é que vou dizer que podem entrar”, refere. E o centro hípico é, vistas as coisas, pouco conhecido pela população conimbricense, talvez por causa do estigma social. Se

muitos apoios, afirma a dirigente, têm sido “concedidos pela Câmara Municipal de Coimbra, principalmente para a manutenção do espaço”, Gabriel Veloso, presidente da assembleia geral, evidencia a importância de “passar a informação para a população”, uma das prioridades da nova direção. E é neste campo que o estigma poderá ser superado. O dirigente compara mesmo a prática da equitação ao ginásio, os cavalos ao ferro. “As mensalidades que se dão para um ginásio dão para pagar as aulas no centro hípico”, garante. “E não é preciso ter um cavalo para fazer hipismo”. Que o diga a criança que, no picadeiro coberto, se desfaz em del��cias, durante o volteio, etapa inicial desta modalidade desportiva.

Não será, porventura, à toa, que esta modalidade está associada a determinados estratos sociais. Nas palavras de Gabriel Veloso, “o cavalo é um animal nobre”. À exceção do ‘Dark’, claro, que, no seu habitáculo, abana a crina em sins, vigorosos, como se escutasse alguma música ritmada. Além de nobre, o cavalo é também um animal sensível. “Hipersensível”, afirma o dirigente. Quase sempre é o reflexo do dono. “Se ele for mal-educado e irrequieto, é porque o dono também o é”. “Ele sofre quando não é acarinhado e tem depressões como as pessoas”, acrescenta.

Benefícios terapêuticos

Relação com o cavaleiro

Porém, não só de trotes e competição se fazem os desportos equestres. No centro hípico do Choupal pratica-se também hipoterapia, dedicada a pessoas com dificuldades motoras. Neste contexto, Isabel Veloso salienta a importância que montar pode ter para a saúde. “Esteve aí um menino, por exemplo, que tinha grandes dificuldades de equilíbrio e que, depois das aulas,

Entra aqui a necessidade de sintonia entre o cavaleiro e o cavalo, questão fulcral no hipismo e que não pode ser subestimada. Entre os “clac, clac” que emite para os cavalos e as indicações que dá aos seus alunos. Filipe Gonçalves, monitor, lamenta que as pessoas, muitas vezes, olhem para o cavalo “como uma máquina”, problema que está, garante, “incutido nos próprios for-

teve uma grande melhoria”.

“O cavalo sofre e tem depressões como as pessoas”

madores”. “Quando se ganha, o cavaleiro é o maior e quando se perde resolve-se com duas bofetadas no animal”, diz. Ainda assim, o sócio e ex-dirigente do centro, Luís Sarnado, destaca que, ali, “muitos dos cavalos têm mais condições que alguns humanos”. Importa respeitar a psicologia equestre.

“As mensalidades que se dão para um ginásio dão para pagar as aulas no centro hípico” Como afirma Filipe Gonçalves, “para se educar um cavalo não se deve recorrer à violência, mas antes ser-se persistente.” “Os resultados não podem estar à frente do animal”, defende. Com a candura de que fala, o monitor interrompe a conversa e apronta-se a ajudar uma aluna, que pede ajuda para se recolocar. Ao jeito que lhe dá, segue-se uma festa no cavalo. “Nós podemos comprar um taco de golfe em qualquer loja, que ele é igual toda a vida. O cavalo não. É diferente toda a vida”, diz Filipe. fernandO sá pessOa

NaTaÇÃo

A Académica alcançou 20 medalhas no Torneio Nadador Completo, que decorreu na Pedrulha, nos passados dias 13 e 14 de maio. A secção da academia, que esteve representada em todos os escalões, contou com um total de 31 atletas. De realçar as prestações de João Neves, João Pires e Gustavo Madureira, juniores masculinos que conquistaram os primeiro, segundo e terceiro lugares, respetivamente.

Por Fernando Sá Pessoa

O centro hípico do Choupal está aberto a todo o público, não se reservando apenas aos utentes que pagam para usufruir das aulas


23 de maio de 2012 | quarta-feira | a

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CiênCia E tECnologia

Veículos elétricos também poluem Em tempos que pedem uma consciência mais ecológica, o veículo elétrico surge muitas vezes como uma alternativa. todavia, o tipo de produção de energia elétrica e o preço de compra do veículo podem impedir o seu ressurgimento no quotidiano popular. Por Filipe Furtado e Paulo Sérgio Santos

A

d.r.

o contrário do que possa parecer, o veículo elétrico não é novidade. “Entre 1890 e 1914 havia mais automóveis elétricos nos Estados Unidos da América e no Reino Unido do que automóveis com motor de combustão interna”, conta Victor Lobo, eletroquímico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Apesar do avanço tecnológico, a opção pelo veículo elétrico continua a apresentar mais contras do que prós em relação aos veículos com um motor de combustão interna, vulgo automóveis que consomem gasolina ou gasóleo.

A queda do líder do mercado O declínio do veículo elétrico tem origem na década de 1910, com base em desenvolvimentos tecnológicos. Victor Lobo aponta várias razões, entre elas a melhoria da fiabilidade dos motores de combustão interna; o preço, com Henry Ford a colocar automóveis a gasolina a 440 dólares; o surgimento de novos pneumáticos. A viragem na sua utilização coincide com o primeiro marco histórico do século XX, a Primeira Guerra Mundial. Os desenvolvimentos ao nível da mecânica automóvel, com fins bélicos, possibilitaram novas inovações como silenciadores e motores de arranque. Dessa forma, o veículo elétrico, que até aí era alvo de preferência nas classes mais abastadas, perdeu em relação ao seu concorrente a nível de ruído emitido e da sua escolha maioritária pelo sexo feminino, por não ser necessário pôr a trabalhar à manivela, o que originava muitos braços partidos.

A poluição e o preço Tanto Victor Lobo como Pedro Marques, investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da FCTUC, afirmam que as marcas de automóveis fazem propaganda a uma taxa zero de emissão de poluentes, o que não corresponde à verdade. “Não poluem localmente, mas onde se gerou eletricidade”, enfatiza o investigador, tendo em conta que a energia elétrica pode ser gerada através da queima de combustíveis fósseis, como o gás natural ou o carvão. Isto varia consoante o horário de carregamento dos veículos, conforme explica Pedro Marques. Durante a noite há menos consumo de energia e Portugal, nessa altura específica, produz um excesso de energia proveniente de fontes renováveis. No Departamento de Engenharia Mecânica, avaliam-se padrões de

a ideia de que os veículos elétricos não poluem é falsa

CâmArA muniCipAl de CoimbrA AprovA listA de inCentivos Ao veíCulo elétriCo A cidade de Coimbra coloca à disposição 27 postos de carregamento de veículos elétricos, instalados no primeiro trimestre de 2011 pela mobi.e (consórcio e projeto que assegura a rede de abastecimento nacional). A Câmara municipal de Coimbra (CmC) prevê várias medidas de incentivo à utilização de veículos elétricos, incorporando já alguns destes na sua frota e pretendendo manter uma percentagem fixa dos mesmos aquando da renovação da frota camarária. de acordo com o adjunto da vereação para o trânsito, rui ernesto, o “carsharing”, isto é, a partilha de veículos espalhados pela cidade, alugados por minutos ou algumas horas, é uma ideia que “tenta englobar os veículos elétricos”. A CmC quer definir uma tarifa bi-horária favorável ao carregamento noturno, tornando-o menos dispendioso tanto para as carteiras como para o ambiente. uma possível “isenção parcial ou total de pagamento em zonas de estacionamento pago ou de duração limitada” é outra das propostas, tal como a hipótese de fazer microgeração de energia junto das áreas de carregamento, aponta rui ernesto. As medidas já foram aprovadas e estão para “breve”, mas “fazem sentido numa estratégia que estava definida para o mobi.e”, explica rui ernesto. Contudo, neste momento, o município está em “stand-by”, à espera de orientação política da administração central sobre o mobi.e, para saber se os moldes do projeto serão ou não alterados. • em 1900, nos euA, venderam-se 5000 veículos elétricos e apenas 1000 veículos movidos por motor de combustão interna • em 1910, o veículo elétrico começa a perder competitividade para a automóveis a gasolina ou gasóleo, fruto dos avanços tecnológicos • em 1921, fecha a última fábrica de veículos elétricos dos euA por Filipe Furtado utilização mistos, baseados não só na questão ambiental mas também na económica. Um dos grandes contras do veículo elétrico é o seu excessivo preço: “um veículo de 30

mil euros tem carros equivalentes que não chegam a custar 15 mil”, evidencia o investigador, que refere igualmente que na conjuntura atual as pessoas optam pela escolha mais

barata, o automóvel convencional. Outro dos problemas também relacionados com a componente financeira são as baterias utilizadas como fontes de armazenamento de energia. Cada conjunto de baterias ronda os dez mil euros, tendo, segundo dados fornecidos pelas marcas, uma autonomia de “100 mil quilómetros”, calcula Pedro Marques. Se se considerar um tempo de utilização para o veículo de dez anos e 200 mil quilómetros, perspetiva-se que sejam utilizados dois conjuntos de baterias. “Se pensarmos que um veículo custa 30 mil euros e as baterias 10, temos um preço final de 40 mil euros”, estima o investigador. Nem mesmo a opção, de algumas marcas, por uma espécie de aluguer de longa duração, que eliminaria o custo de aquisição de um novo conjunto de baterias, parece ser viável. O problema das baterias não se esgota no seu custo, nem no seu tempo de vida. A sua própria tecnologia, ainda que em constante desenvolvimento, apresenta muitas limitações. Pedro Marques relata um teste feito a um veículo elétrico que põe em causa a sua fiabilidade, uma viagem entre Lisboa e Madrid que terminou com o veículo totalmente inutilizado.

É preciso fazer contas Uma questão que passa despercebida ao público em geral é a ausên-

cia de ruído por parte destes veículos. Apesar de nota máxima na redução de poluição sonora, Pedro Marques questiona até que ponto não se estará a colocar em risco a segurança dos transeuntes. Victor Lobo levanta ainda outra questão crucial, a dos impostos associados aos combustíveis: “o preço da gasolina é de 50 a 60 cêntimos e estamos a pagar bem mais de 1 euro e meio. Se passássemos a ter só automóveis elétricos, o poder político colocaria os mesmos impostos na eletricidade”. Atualmente vive-se um paradoxo. Com valores de aquisição de veículos elétricos residuais, apesar dos esforços do Governo em dotar o país de uma rede de postos de carregamento, não há grandes investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias. Pedro Marques aponta números e até interroga: “se tivermos em conta que produzir energia elétrica numa central a carvão tem uma eficiência de 40 por cento, e estamos a perder 60 por cento, mais as perdas de 8 a 10 por cento na rede de distribuição a baixas voltagens, o transformador da rede para o carregamento do carro, as perdas da bateria (apesar de ter uma eficiência de 90 por cento)… Se calhar a eficiência do veículo elétrico não é assim tão grande”. “Estamos a desviar-nos do problema e não a resolvê-lo”, conclui o investigador.


12 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

venda de bens

Vão-se os anéis. Ficam os dedos As casas de compra de ouro alastram pela cidade a responder à necessidade afligida das pessoas. As de velharias têm que dizer não e nos ‘stands’ e imobiliárias há pessoas aflitas por se desfazerem de carro e casa. Tudo se vende. Por João Gaspar

U

m casal novo, com um bebé ao colo, entra numa casa de compra e venda de ouro. Levavam várias peças para vender. Assim que Jorge Faria, o funcionário, os informa do valor que podia oferecer pelo ouro, o casal apercebe-se de que não chega para fazer face às despesas e, num momento de constrangimento sentido, tiram as alianças dos dedos. Todos os dias, Jorge Faria, a trabalhar no ramo desde 2011, encontra pessoas à procura de se desfazerem do ouro que têm. “Aparece tudo. Seja em pepita, barra, fios, joalharia de todo o tipo, relógios, até dentes de ouro já comprei”. “Agora vê-se cada vez mais gente a vender ouro por necessidade”, relata. Chegam cabisbaixos, constrangidos, alguns com uma lágrima a escapulir-se-lhes pelo canto do olho. Muitos não falam, outros lançam lamentos corriqueiros para o ar. As tabuletas de publicidade prometem máximo sigilo e as recusas na cedência de entrevista nestas lojas são consecutivas. A necessidade da pessoa gera vergonha no momento de entrar numa destas lojas, de portas douradas e vidros fumados. “Isto é como comprar Viagra”, elucida Nuno Pereira, a trabalhar há ano e meio numa casa de ouro na Avenida Sá da Bandeira. “Já encontrei clientes que vendiam prata para poderem comprar manteiga, pão e leite”, lembra o comprador de ouro. As histórias que se ouvem dos compradores de ouro que aceitaram falar com o Jornal A Cabra são escassas. Alguns preferem nem sequer contar, mas a própria estratégia do comprador leva a que as histórias não sejam ouvidas. “Nós tentamos nem

nos focalizarmos na situação dramática em que a pessoa se encontra e concentrarmo-nos na felicidade que o dinheiro realizado lhe vai dar”, explica Jorge Faria.

“São obrigados a desfazerem-se do ouro” José Ferreira Nunes, de 66 anos, também se meteu no negócio da compra e venda de ouro pela própria imposição da crise. Ficou desempregado dois anos e a reforma que recebe não dava para sobreviver. Agora compra ouro. “Muitas vezes vêm, tiram o anel do dedo, perguntam quanto dou e vendem”. Diz que a maioria confessa a necessidade que tem em vender o ouro, e da carência assumida, José Ferreira Nunes guarda uma história que o marcou. “Uma senhora, de meia idade, entrou na loja, tirou os brincos das orelhas a chorar e perguntou-me se os comprava”. Comprou. “Pronto, já tenho dinheiro para mais duas noites cá em Coimbra”, disse a senhora, que vendeu os brincos para poder pagar estadia na cidade, enquanto um familiar seu era operado. “São obrigados a desfazerem-se do ouro porque a vida assim o pede”, explica José. “Temos que ir andando até a gente poder, quando não puder, olha….”. Para se ir andando, muitos vendem todo o ouro que têm. Seja alianças, joalharia, heranças, objetos com valor sentimental. Tudo. Há que fazer face a prestações, contas de água e luz, dívidas, até despesas de primeira necessidade ou compra de medicamentos. As casas de ouro espalham-se e alastram como abelhas reluzentes por toda a cidade, com os seus placards dourados e pretos a

lembrar os transeuntes que o ouro que têm em casa é dinheiro. “A abertura de tantas lojas vai despertar o olho do cliente e chama-o”, afirma Catarina Santos, de 27 anos, licenciada em Economia, que perdera o emprego num banco e que trabalha agora numa loja de compra e venda de ouro. “Apareceu-me cá uma senhora a chorar, a dizer que não se queria estar a desfazer das suas coisas mas como não tinha outra forma de sobreviver, vendeu”, expõe Catarina.

IMI levou muitos às casas de ouro Muitos dirigem-se a lojas por causa de contas de água e luz ou de dívidas contraídas. Todavia, Catarina Santos aponta para abril passado como um mês de grande procura devido ao aumento da taxa do Imposto Municipal

“Vendem o que for preciso. Inclusive a alma” sobre Imóveis (IMI) em Coimbra - situação corroborada por Nuno Pereira. Contudo, não se pense que seja só para situações de sobrevivência. Segundo Sónia Leitão, há 18 anos a trabalhar numa ourivesaria da Baixa, lembra que “há quem venda para viajar”. Também Jorge Faria já observou

diversas situações semelhantes: “há quem venha aqui vender e logo de seguida está com um saco de roupa a dizer “olhe aqui o dinheiro do ouro”. Apesar de haver cada vez mais casas de ouro em Coimbra, Rodrigo Góis, coordenador de uma rede destas lojas em Coimbra, considera que “daqui a três ou quatro anos vai ser um negócio em extinção”. O ouro em casa das pessoas vai desaparecendo. Rodrigo Góis nota também uma mudança no perfil das pessoas que agora vendem: “dantes era só classe baixa a querer desfazer-se do ouro, hoje vemos mais classe média e médiabaixa”.

O valor artístico perdido “Na Baixa, quando abre alguma loja, ou é uma casa de ouro ou é um chinês”, lamenta Sónia Leitão. José da Costa, 80 anos, trabalha como ourives desde os seus 11 anos. Dos já bem largos 69 anos de volta de joalharia, aflige-lhe a “praga”. Aflige-lhe reparar que é por necessidade que as pessoas vão às casas de ouro e aflige-lhe também o valor artístico perdido. Sendo que quase a totalidade das peças é fundida e transformada em barra de ouro, para José da Costa custa ver “peças bonitas, obras de arte, a serem desfeitas assim”. “A ourivesaria clássica não faz isso”. Conta que já antes se comprava ouro, mas nada que se comparasse com este fenómeno e deixa uma pergunta acutilante: “e depois do ouro o que é que vendem?”. “Vendem tudo o que for preciso. Inclusive a alma e a dignidade”, responde, em jeito de lamento, Luís Quintans, dono de uma loja de velharias na Baixa de Coimbra, ofício que faz do mesmo um cronista diário


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venda de bens MArA rodrigues

“Encontrei clientes que vendiam prata para comprar pão e leite”

da crise, observando-a na cara das pessoas que ali batem à porta para ver se compra uns livros, uns pratos ou outra bugiganga qualquer. “As pessoas agarram-se a tudo para vender”. “Ajude-me lá que estou à rasca”. “Compre qualquer coisa”. “Ai, a crise…”. “Sabe, tenho empréstimos para pagar”. “Coisas da vida”. “Isto está mal”. O agravamento da crise económica e social leva algumas pessoas a desfazerem-se de bens. Não só do ouro e prata que têm em casa mas também de carros, casas, ou pertences que tentam vender em velharias. Tudo vale para fazer atenuar as difíceis contas do final do mês.

explana Luís. Ouve os desabafos desgraçados dos que lhe batem à porta. “Veio aí uma menina de 30 anos a querer vender uns livros. Disse que não podia comprar e começou a chorar que nem uma criança”. Precisava de dinheiro para o filho que ardia em febre em casa. “Dei-lhe cinco euros. E o problema é que há muitas histórias como esta”. “Pessoas que têm as suas profissões estão a ficar empobrecidas, a cair numa indigência de já nem terem dinheiro para medicamentos. A ideia que temos de que os pobres são os outros acabou. Hoje qualquer um de nós pode ser um pedinte disfarçado”, comenta Quintans.

As velharias já não compram

Vender o carro para pagar empréstimo

“Assiste-se a uma desmesurada oferta de bens. Antes comprávamos e conseguíamos canalizar os objetos. Agora, como não vendemos, não compramos”, explica. Quer Luís Quintans, quer Fausto Carvalho, quer Carlos Dias, todos no ramo das velharias, já raramente compram. “Aparecem todos os dias. Eu nem vejo os objetos. Digo logo que não estou a comprar”, explica Carlos Dias, de 88 anos. Também Fausto tem que dar negas todos os dias, “desde que a ‘troika’ chegou”. “Assisto diariamente a dramas. Querem vender para comprar medicamentos ou comida… E a lágrima vem aos olhos, puxo do dinheiro, dou-lhes e nem fico com o objeto. As pessoas desmancham-se a chorar”,

Desenha-se então o disfarce, alimentado por vendas de bens, sejam eles ouro, livros ou casas e carros. “A partir do início de 2012 começaram a aparecer pessoas a perguntar se queríamos comprar carros. Pessoas que não podiam sequer pagar as prestações”, afirma João Lemos, há 21 anos no ramo automóvel. E aqui nota-se o mesmo paradigma que nas lojas de velharias – muitos querem vender, poucos querem comprar. Este ano, no ‘stand’ onde trabalha sentiu uma quebra de 50 por cento nas vendas. “Não compram, e quando compram é um automóvel mais modesto do que aquele que vendem para poderem pagar o empréstimo. Mas por vezes o valor comercial do automóvel é inferior ao valor da dívida”, elucida.

Em Discurso direto Eugénio Rosa

Economista

“Encontramos pessoas desesperadas, que andam a pagar o carro há uma série de anos, e que ficam na iminência de ficar sem o automóvel que estava quase pago e sem dinheiro para comprar outro. E o carro é quase um bem essencial para muitos!”. Se se vendem carros para pagar empréstimos dos próprios carros, também se vendem imóveis para pagar os créditos de habitação. Maria, nome fictício, trabalha há oito anos no ramo imobiliário e encontra cada vez mais pessoas numa situação de desesperança – “ou vendem o imóvel ou o banco fica com ele”. “As pessoas estão aflitas e acabam por aceitar propostas muito mais baixas por estarem em risco de entregarem a casa ao banco”, ilustra Maria, que afirma que tal se tem notado mais desde o início de 2012. “Lembro-me de um senhor que tinha dois meses para vender a casa, senão seria entregue ao banco. Acabou por aceitar uma proposta 30 por cento mais baixa”. E comprar? “Quase ninguém compra. Há é uma grande procura do arrendamento, visto que não têm capital próprio para recorrer a financiamento”, garante. Vão-se as casas, os carros, o ouro, objetos sentimentais, livros, móveis antigos, de tudo um pouco para se silenciar uma crise cada vez mais apegada ao desespero, o mesmo que os que aqui intervêm usam para retratar as histórias que ouvem. “Que se vão os anéis e que fiquem os dedos”, diz José Ferreira Nunes. E quando já não há anéis?

“É urgente que o governo intervenha” Com o agravamento da crise económica e social, determinada por uma política de austeridade fortemente recessiva levou a um aumento das dificuldades enfrentadas pela maioria das famílias portuguesas. e estas, para poderem fazer face a necessidades básicas como a alimentação, o pagamento da renda ou a prestação do crédito, vendem tudo o que podem vender. o número das casas de ouro explodiu aproveitando-se da situação de aflição em que se encontram muitas famílias e do desconhecimento do mercado e do verdadeiro valor dos objetos para comprar a preço de saldo. Para chegar a essa conclusão, basta ir com o mesmo objeto a várias casas e ter numas uma posição passiva, e em outras uma posição ativa, regateando o preço, para se ficar com uma ideia da amplitude da diferença de preços que existe neste mercado. É urgente que o governo intervenha nomeadamente no mercado das casas de ouro e de objetos de elevado valor que fazem parte do património das famílias para impedir a exploração da sua aflição e vulnerabilidade. e podia fazê-lo de várias formas. em primeiro lugar, realizando um controlo muito mais rigoroso das suas transações e dos preços a que são feitas. em segundo lugar, abrindo serviços oficiais de avaliação que permitissem aos portugueses que quisessem vender peças de ouro ou outros objetos de elevado valor obter o preço correto dessas peças. Finalmente, o estado devia criar condições para a concessão de pequenos empréstimos tendo como garantia, por exemplo esse ouro, para fazer face a dificuldades temporárias, evitando assim que famílias, devido a um problema de curta duração, fossem obrigadas a ficar sem uma peça de ouro que tem para ela também um elevado valor simbólico.


14 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

CidAde

‘Cowork’: mais do que partilhar o espaço é trocar conhecimentos ana duarte

Apesar de ser um conceito recente em Coimbra, o ‘cowork’ está a aumentar e apresenta-se como uma alternativa, ao valorizar as sinergias criadas Ana Morais Partilha. Substantivo feminino, ato ou efeito de partilhar. Partilhar. Verbo transitivo, fazer partilha de, dividir, repartir. É neste espírito que surge o conceito de ‘cowork’. Pessoas distintas, de várias áreas e com projetos diferentes que se juntam no mesmo local para trabalhar. A gestora do “CoWork.Coimbra” – situado na Rua da Casa Branca -, Eduarda Melo, conta que as sinergias criadas neste espaço entre as várias redes de profissionais levam muitas vezes a que se criem negócios e parcerias entre as várias pessoas que por lá trabalham. Outro espaço da cidade que recorre a esta prática é o “Connect Coimbra”, com uma localização central no Bairro Sousa Pinto. Filipe Batista, um dos clientes do Connect, conta que a grande “mais-valia de poder trabalhar num local como este é ouvir pontos de vista diferentes”. Da mesma opinião é uma das sócias fundadoras deste recente projeto, Ana Reis: “não somos só um espaço de trabalho, temos aqui já uma comunidade de profissionais e convivemos”. O “CoWork.Coimbra” iniciou-se como um espaço dedicado exclusiva-

mente para profissionais relacionados com arquitetura. Eduarda Melo conta que “o conceito começou a ser utilizado sem ser assumido como tal”. Só quando viu uma reportagem na televisão sobre a prática de ‘coworking’, há dois anos, é que decidiu assumi-lo ao alargar o espaço e dotálo de outras valências. Inaugurado oficialmente no passado mês de fevereiro, o “Connect Coimbra” nasceu de uma discussão da edição de 2010 do Pensar Fora da Caixa. Ana Reis e Bernardo Raposo, depois de considerarem o ‘coworking’ uma “ideia engraçada que se ajustava à realidade de Coimbra”, decidiram apostar – “saímos dos nossos empregos e iniciámos esta aventura”, conta um dos sócios, Bernardo.

este tipo de trabalhos, zona que serviu como “âncora do projeto”, explica Eduarda Melo. “Acreditamos que há um paralelismo entre cursos mais tecnológicos e artísticos com o conceito”, conta Bernardo Raposo ao enumerar as áreas dos profissionais que compõem atualmente o Connect. As áreas coincidem no “CoWork.Coimbra”: “temos desde jornalistas, a designers gráficos ou ilustradores e arquitetos”. Ana Reis explica que este é um conceito também importante para os profissionais de investigação da Universidade de Coimbra, que muitas vezes não estão satisfeitos com as condições oferecidas pelos seus departamentos.

“É só chegar e pôr as coisas para trabalhar”

Com ligeiras diferenças, os preços parecem coincidir nos dois espaços que oferecem esta prática na cidade. Ao pagar 119 euros por mês no “Connect Coimbra” ou optando por 12 euros para utilizar por 10 horas um espaço do “CoWork.Coimbra”, os preços parecem agradar. Rúben Cabaço, cliente do Connect, partilha: “as alternativas são trabalhar em casa ou alugar um apartamento e nesse sentido sai em conta estar aqui”. “Estou bastante satisfeita com o desenrolar do negócio”, conta Eduarda Melo ao referir que esta “é uma fase de mais procura”. Também Bernardo Raposo assegura que “se vai notando uma evolução” e nesse sentido o “Connect Coimbra” pretende apostar mais em eventos, como ‘workshops’ ou formações, para atrair mais público.

Para explicar o conceito, Ana Reis resume-o numa frase simplificadora: “é só chegar e pôr as coisas para trabalhar”, garante ao explicar que tudo está incluído - desde o material, à internet, ao ar condicionado e até à limpeza. Quanto à distribuição de espaço, o “Connect Coimbra” oferece uma sala de reuniões, uma cafetaria e uma sala polivalente, num piso superior e mais reservado. No piso de receção funcionam também as salas de partilha. De forma semelhante funciona o “CoWork.Coimbra”, também com sala de reuniões, com uma zona de convívio e um piso que funciona em regime de ‘open space’. Uma vez que este começou por ser um espaço exclusivamente para profissionais de arquitetura, alberga um local só para

Procura com evolução

ana duarte

‘Coworking’ é uma das alternativas de quem não quer trabalhar em casa

Fusão do CHUC, uma decisão que está longe do consenso Apesar de já remontar a 2010, a fusão dos hospitais volta à discussão. Com o fecho das urgências dos Covões e a junção das maternidades multiplica-se a discórdia Ana Morais Quase dois anos depois, a “fusão” ou “integração” do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) está longe de reunir consenso e são ainda muitas as vozes que discordam desta tomada de posição. Atente-se no percurso que esta decisão já seguiu: desde os finais de 2010, que a Ministra da Saúde, Ana Jorge, do anterior governo socialista, anunciou a fusão dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) com o Centro Hospital de Coimbra (CHC), vulgarmente chamado de Hospital dos Covões; mas só no ano

de 2011, é que esta integração começou a ser posta em prática, já sob a aprovação do governo social-democrata. No entanto, os episódios recentes do fecho das urgências durante o período noturno nos Covões e da possível fusão da Maternidade Bissaya Barreto e Maternidade Daniel de Matos catapultaram o assunto de novo à discussão pública. “A centralização é perigosa e ainda mais a centralização exagerada”, é desta forma que o diretor do serviço de optometria do Hospital Pediátrico, Jorge Seabra, classifica a fusão. Opinião corroborada pelo Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva – “a criação de um centro hospitalar gigantesco é ingerível e a médio prazo vai ter resultados muito maus”. Também o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Barbosa de Melo, em entrevista ao Jornal A CABRA, em dezembro de 2011, lançava críticas à fusão dos hospitais, ao apelidá-la de “perigosa para a cidade”. Ainda o Sindicato dos Médicos da Zona Centro (SMZC), em

comunicado de imprensa, de 16 de maio, considera esta medida de “lamentável e intolerável num Estado de Direito”.

“Evitar redundâncias” é o objetivo da fusão Mas com tantas vozes discordantes, porquê a fusão? Em nome do CHUC, o diretor de saúde materno fetal, José Sousa Barros, responde: “nos hospitais havia duplicações e redundâncias que fazem sentido reapreciar”. Na mesma linha de pensamento, está o diretor do serviço de urologia e transplantação renal do CHUC, Alfredo Mota - “o grande objetivo da concentração é o melhor aproveitamento dos recursos, o que pode gerar poupança ao Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, assevera. Os críticos desta concentração de serviços usam o mesmo argumento reivindicativo: a não divulgação de um estudo prévio quanto à fusão dos hospitais. Ainda assim, José Sousa Barros afirma que apesar de não

haver um estudo formal, “as pessoas que propuseram a fusão tinham uma análise real” da situação. Por sua vez, Jorge Seabra explica que os profissionais não foram consultados e assegura que há um perigo real neste cenário – “o afastamento dos órgãos mais altos da gestão e uma não perceção dos serviços”. Já Alfredo Mota conta que esta fusão “tem o apoio de 80 por cento da população”, lembrando a soma dos votos dos dois últimos governos que levaram a cabo esta fusão.

“Há dinheiro para muitas coisas e corta-se na saúde” O Bastonário José Manuel Silva conta que encara “com reserva” esta fusão, uma vez que “o principal critério é o critério económico e não o aproveitamento de energias e melhoria da qualidade”. “Há dinheiro para muitas coisas e corta-se na saúde”, protesta Jorge Seabra ao classificar de “desequilibrada” a lógica política seguida no SNS. No

mesmo sentido, José Manuel Silva considera que a fusão só se deu “pela incompetência da governação do país”. De opinião contrária, José Sousa Barros considera que é necessário “libertar recursos que possam permitir investir em áreas de desenvolvimento também necessárias” e para tal é preciso “olhar ao que se gasta”. Ainda assim, Jorge Seabra conta que “só a longo prazo é que podem haver vantagens económicas”. Quanto a soluções, também parece haver consenso: “cautela ao avançar com o processo”, pede Jorge Seabra. A preocupação com os doentes é também o grande mote do lado crítico desta fusão, uma vez que com a lógica economicista não se pode descartar as “necessidades dos doentes” exige o Bastonário. Apesar da lógica do SNS ser de contenção e de cortes na cidade de Coimbra, o serviço privado ganha terreno – no passado dia 16, foi inaugurado na cidade a maior unidade privada da zona centro.


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CidAde

“Quando a cidade é motivação, é garantido o êxito. Tal não tem acontecido” A cidadania ativa foi luta pela democracia. O fim do estado Novo trouxe a delegação da voz popular nos representantes, fazendo com que muitos se demitissem de pensar o que é melhor. Na cidade de Coimbra, em particular, tenta-se reavivar a presença cívica pela necessidade de fazer valer uma cidade no meio da crise. Por Liliana Cunha

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Respostas territoriais “Numa cidade que ainda se move, podíamos ter um fórum de cidadãos”, sugere o terceiro economista convidado, José Reis. O docente traça um mapa genético que remonta a uma carta constitucional, ao congresso que houve na cidade e a outros movimentos estratégicos como o Concelho da Cidade de Coimbra, ou a Pro

is

Falar de Coimbra é falar da sua universidade. E aí intervêm os estudantes, os 200 milhões de receitas próprias geradas pela UC, e a consciência de que o rendimento vale muito em tempos de aperto. A educação não deixa de ser palco de montra para a elite que o ensino superior tem sido: “o estudante está a ser um consumidor”, afiança João Rodrigues. Transformar a UC num “laboratório para pensar o futuro” é a ânsia do moderador do debate e membro das três associações, José Dias. Mas este desejo é ameaçado pelo presente. “O tempo é escasso para o ritmo infernal a que o petroleiro segue”, enceta em jeito de metáfora outro dos elementos intervenientes e também docente, José Castro Caldas. A parte de “falar sobre a crise” ficou para ele, e aí irrompeu sobre a promoção de bancarrota a que o país se tem su-

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“O estudante está a ser um consumidor”

jeitado: “é preciso uma necessidade independente, uma viragem deste barco que se está a degradar”, prossegue o também investigador do Centro de Estudos Sociais. A representação é a de uma cidade “estagnada e com pouco poder político”, realça João Rodrigues, um dos três economistas da FEUC convidados para versar sobre a conjuntura. Contudo o docente olha para esta imagem da cidade como um “véu de ignorância”, lembrando indicadores objetivos. A dinâmica social da Coimbra pública joga a seu favor: “tem um nível superior de qualificação comparativamente à média nacional e o dobro de médicos por cada 1000 habitantes”, sustenta João Rodrigues. No entanto, embora a terciarização se tenha elevado aos outros setores, a redução do Estado português a “uma entidade privada, leva Coimbra a comportar situações difíceis”, lança o mesmo.

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crise”. A discussão fez-se do alto do Hotel D. Luís, com pano de fundo na panorâmica da cidade que se separa pela água de prata do Mondego. “Quando a cidade é motivação, é garantido o êxito”, assegura o arquiteto José Bandeirinha. O problema para o mesmo é que “tal não tem acontecido”. Bandeirinha, nascido e ancorado na cidade, avisa que Coimbra foi a cidade que mais “perdeu acessibilidades”. Todos procuram alguém que lute pela cidade e que a discuta.

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A representação é a de uma cidade “estagnada e com pouco poder político”, realça João Rodrigues

“Numa cidade que ainda se move, podíamos ter um fórum de cidadãos”, sugere José Reis.

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cidade é uma cidade de compromissos e nós abandonámolos”, lamenta o professor de Sociologia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Carlos Fortuna. O défice na participação dos cidadãos conimbricenses para uma discussão ativa sobre o que é e o que deve ser a cidade de Coimbra tem gerado dados de desprendimento preocupantes - “há um crescente desligamento de quem cá vive”, alerta a ex-deputada, Teresa Alegre Portugal. A socialista realça que o busílis do desapego é em grande parte devido a uma situação política local “confrangedora”. A falta de afirmação política coimbrã a uma escala nacional encontra expressão nos 40 por cento de abstenção nas últimas autárquicas; no “centrão” partidário e numa perda de 4 por cento na população segundo o Censos 2011. As instituições públicas, com relevo para a Universidade de Coimbra (UC), para a câmara e para a concentrada área da saúde, têm sido o grande garante da cidade que se diz ser do conhecimento. Por estas razões se aludiu ao conjunto de três associações cívicas da cidade, apelidado de Alternativa: Associação Cultural para o Desenvolvimento do Ser Humano, Delegação do Centro da Associação 25 de Abril e Movimento Republicano 5 de Outubro. Estas associações propuseram-se a um debate frutífero e sem restrições. Chamaram-lhe “Coimbra: O que vale uma cidade no meio da

Urbe. Propõe um balanço de mobilização cívica de cidadãos onde não haja lugar para queixumes. O remédio para todos os males do património passado da cidade é sempre relembrado quando se exortam os feitos de mais de sete séculos de história. Todavia, os mais de 140 mil habitantes não se podem “reduzir ao passado”, afiança Carlos Fortuna. A história é pródiga em solidificar Coimbra no tempo, mas há quem queira património para a frente. “As cidades não morrem, mas afogamse a si próprias”, determina como obstáculo o professor catedrático da FEUC. O que pode restar é a capacidade de agir “aqui”, assegura veemente José Reis. É nas cidades que se dá a resposta mais territorial ao monstro da crise. Sob a forma de um pensamento que assente num diagnóstico “inquieto e voluntarista”, afirma. Se isso não acontecer, então não é “ação”.

“Coimbra dos Humanoides” O debate ganha ritmo com aqueles que depois têm espaço para

expor a sua própria visão. O professor João de Castro Nunes revela o seu receio sem pejo: “a Coimbra dos humanistas está a chegar à Coimbra dos humanoides”. Luís Reis Torgal, outro dos académicos presentes, conta que está “amargurado”. A lógica do economicamente favorável faz com que “sejamos idealistas, não lucramos com a crise, roubamnos todos os dias”, acrescenta. Lamenta que Coimbra não constitua um núcleo “político e cultural”. Do outro lado da sala alevantase uma voz otimista. “Vale a pena apostar e fazer a onda crescer nem que seja para 20 pessoas”, destaca Teresa Alegre Portugal. As quezílias políticas alimentarão uma grande discussão sobre as eleições autárquicas do próximo ano, mas a mudança para uma cidadania mais pró-ativa passará pelos rostos que representam a cidade – “tem de ter rostos, é preciso gerar gente séria”, afirma resoluta.


16 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

PaíS camilo soldado

camilo soldado

camilo soldado

camilo soldado

a produção e armazenamento dos cereais é uma das etapas por que a cooperativa é responsável no apoio ao agricultor

A união das cooperativas perde força O setor agrícola encontra, desde o fim do Estado Novo, apoio na estrutura das cooperativas. No entanto, o método aplicado tem sofrido alterações pela falta de união e de mudança de mentalidades. Falta de crédito e condições climatéricas adversas condicionam o seu trabalho. Por Liliana Cunha e Camilo Soldado

A

um dia da semana, na Cooperativa Agrícola de Montemor-o-Velho, uma fila de agricultores espera pela sua vez na área de atendimento ao público. Depois de tirada a senha, enquanto uns passam os olhos de cinco em cinco segundos pelos ponteiros do relógio - que tardam em andar - outros vãose entretendo com o televisor sintonizado num programa matinal. O responsável dos serviços da Cooperativa Agrícola de Montemor-oVelho, Manuel Martinho, explica que o atendimento ao público não se destina exclusivamente a associados. “Há pessoas que sabem, por intermédio dos vizinhos, que têm apoio técnico e dirigem-se à cooperativa”, esclarece. A partilha de propriedade para atingir o bem comum é o propósito da criação de uma cooperativa. É prevista uma união voluntária entre sócios que seja democraticamente gerida. O coordenador do Centro de Estudos Cooperativos (CEC), Rui Namorado, explica que, durante o Estado Novo, “o cooperativismo era bastante hostilizado”, por se aproximar a ideais contrários aos do regime. Em liberdade, “houve um grande salto” no sistema, sustenta Rui Namorado que enaltece que, com os 800 milhões de inscritos na Aliança Cooperativa Internacional, esta “é uma realidade incontornável em todo o

mundo”. Vários tipos ganham forma depois do 25 de abril. Nascem cooperativas agrícolas, agropecuárias, de habitação e construção, de ensino, de cultura e de outros tantos setores. O défice de investimento no setor primário leva a que muitas destas associações tentem encontrar uma forma de contornar a conjuntura: “o grande drama é que somos um país que importa 90 por cento do que produzimos sem razão”, lamenta o gerente da Cooperativa Agrícola do Concelho da Mealhada, MEAGRI, Júlio Costa. Apostar na agricultura de subsistência baseada em modelos anteriores à reforma agrária não corresponde às necessidades de hoje. “A agricultura é uma área como outra qualquer e quando bem dimensionada a pessoa ganha dinheiro com ela”, desmistifica o gerente da MEAGRI.

A união ainda pode fazer a força “Procuro tentar cativar as pessoas, tentar que elas conheçam e depois elas vêm. Se nós fechássemos logo à entrada seria pior”, explica Manuel Martinho. De portas abertas, a cooperativa de Montemor tem tentado ajudar mesmo quem não é sócio. Com um centro de formação profissional, e um conjunto de técnicos agrários disponíveis para avaliar as condições de cultivo, a instituição re-

gista, nos meses de verão, uma maior afluência devido à atribuição de subsídios. O responsável lamenta que os agricultores só apareçam “nesta fase de candidatura para ganhar aquela verba” e que depois se “ausentem”. Em Coimbra, o engenheiro Gil Branco queixa-se do “espírito cooperativo que hoje se perdeu”. Embora realce um aumento na procura de

“O grande drama é que somos um país que importa 90 por cento do que produzimos” produtos na Cooperativa Agrícola de Coimbra nos últimos dois anos, atribui a culpa “às mentalidades que mudaram”. A MEAGRI, que conta com cerca de 2000 associados, enfrenta o problema que é transversal à região. Júlio Costa conta, desgostoso, que o dia em que há assembleia geral da cooperativa “é o dia mais triste de todos” porque “não aparece ninguém para dar sugestões, criticar ou dar ideias novas”. A força que “a casa poderia ter se [os agricultores] comprassem tudo aqui” é dificilmente calculável para o responsável. Todavia, Rui Namorado entende que essa mesma culpa não pode ser

apontada em exclusivo a uma das partes: “é um problema da organização das cooperativas, não têm de se queixar dos sócios”, realiza o também docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Rui Namorado acredita que se “devia combater” essa situação, se os cooperadores são parte das cooperativas, “estão a queixar-se de si mesmas”.

seca “também se propagam às empresas a montante e a jusante da agricultura”. A difícil conjuntura económica reflete-se na retração da banca na concessão de crédito aos agricultores. A tesouraria das cooperativas atrofia e, do Estado, as cooperativas não recebem “um tostão” nem linhas de crédito, assevera o gerente da Mealhada, Júlio Costa.

Sem água e sem crédito

Para se ser associado de uma cooperativa, há uma obrigação que se prende com a entrega de 100 euros de joia. “A pessoa tem de pensar que são 100 euros que estão parados, não capitalizam, mas dão-lhe um conjunto de direitos”, defende Júlio Costa. Contudo, 100 euros em tempos de aperto por vezes afastam os potenciais associados que querem resultados “no imediato e não a longo prazo”, lamenta Manuel Martinho. “As pessoas fazem as suas contas e 100 euros no mundo agrícola é muito dinheiro”, lamenta o responsável de Montemor. “Ninguém é louco para fazer a agricultura que o meu pai fazia, dar 17 horas por dia e no fim do ano ficar com as mãos a abanar”, afirma o gerente da MEAGRI. Para não se retornar a tempos antigos, as estruturas cooperativistas têm de ser “mais apoiadas e protegidas, porque é um imperativo constitucional”, lembra o coordenador do CEC, Rui Namorado.

Fundada em 1948, a Cooperativa Agrícola de Vila do Conde (CAVC) é maioritariamente conhecida pela ligação que mantém com a distribuidora de leite Agros. Também alimenta protocolos agrários com algumas universidades do país como a de Trás-os-Montes, Porto e com um conjunto de outras cooperativas da região Norte, através da União Agrícola do Norte. Tal como no resto do país, a CAVC enfrenta dificuldades relacionadas com a falta de chuva. “O problema foi a chuva que não veio no inverno”, identifica o gerente da cooperativa, Jorge Costa. No entanto, o responsável receia que o pior se verifique “quando começar a haver calor” e os reservatórios de água estiverem vazios. A confirmação deste cenário vai representar consequências negativas para as plantações e animais. Manuel Martinho afirma que os prejuízos relativos a este período de

Método Cooperativo


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cabra | 17

MuNdO d.r.

Dicotomias

Século XXI: nova ideologia, precisa-se ao passo de uma vaga de privatização na Europa, o mercado emergente da américa Latina retorna à nacionalização dos sectores estratégicos. Capitalismo ‘versus’ socialismo não será a separação mais acertada. Por Maria Garrido

“H

á uma experiência histórica, com o socialismo e o capitalismo e ideologias que marcaram os séculos XVIII, XIX e XX. O século XXI precisa de novas ideologias”, começa por considerar o professor de Economia do Desenvolvimento da Universidade Católica do Porto (UCP), Leonardo Costa. Acreditando que dicotomias como o socialismo e o capitalismo possam ser “um bocado redutoras”, o investigador do Centro de Estudos Sociais de Coimbra (CES), José Caldas, defende que “é bom que existam conceções diversas que coexistam e dialoguem na sociedade”. “Entre o preto e o branco há muitas nuances”, clarifica. Na América Latina, no entanto, uma vaga de nacionalizações geralmente associada ao socialismo fazse sentir em países como a Argentina, Bolívia, Venezuela e outros. Do outro lado do oceano, surge uma Europa onde as sucessivas privatizações associadas ao capitalismo são facilmente acusadas. Mas, uma vez mais, a dicotomia é contestada. “A questão não se coloca em termos de políticas capitalistas ou socialistas mas sim de políticas que promovam uma economia que eu chamaria plural”, resguarda o economista e também investigador do CES, João Rodrigues. O investigador sustenta a criação de uma economia “mista”, onde caibam espaços de mercado e de concorrência em que “certos bens e certos recursos e infraestruturas são controlados publicamente por Estados capazes de fornecer bens e serviços em condições”. Por sua vez, o professor de Economia Financeira Internacional da UCP, Ricardo Cruz, faz a associação: “[o movimento de nacionalizações na América Latina] é um movimento que está muito localizado em países concretos com regimes políticos claramente de planificação socialista”, assevera. Sustentando que este é um fenómeno que se encontra “longe de ser uma generalização”, Ricardo Cruz afirma haver na América Latina experiências, sentidos e vontades “muito diferentes”.

Privatizações de 80 e 90 Depois de ter passado por um processo de privatização nas décadas de 80 e 90, João Rodrigues entende ser esta vaga de nacionalizações na América Latina um “reverter do que

esses governos consideram ser erros associados a processos de privatização que correram bastante mal”. “Trata-se no fundo de renacionalizações”, reforça José Caldas. O investigador do CES vê este movimento como um “assumir o controlo público de recursos que são fundamentais para o desenvolvimento dos diferentes países”. O manifesto agrado da população da América Latina é também exposto. João Rodrigues vê este facto como um “reconhecimento por parte da população de que são políticas justas e que contribuem para melhorar as suas condições de vida e a capacidade que os Estados têm de ter algum controlo sobre recursos vitais para o desenvolvimento dos países”. Entre os sectores estratégicos em processo de renacionalização contam-se, a título de exemplo, a expropriação da petrolífera espanhola Repsol YPF na Argentina de Cristina Fernández ou uma de empresa também espanhola de eletricidade da rede do operador Red Eléctrica na Bolívia.

Um presente de crescimento “Um certo populismo político nas opções que justificam essas nacionalizações”, é a visão de Ricardo Cruz. O docente da UCP afiança que em muitos países “certas decisões populistas têm normalmente grande adesão popular a curto prazo”. A contrapor, José Caldas atesta que “populismo é normalmente a palavra que a direita neoliberal utiliza para designar políticas que não gosta” e acredita haver uma “tendência geral que é positiva de transformação num sentido de redução da pobreza e da desigualdade”. “A política ou é boa ou é má. E é boa ou é má em função de argumentos. Dizer que é uma política populista não é dizer absolutamente nada”, concorda João Rodrigues. “Penso que tem-se muito a aprender com a América Latina hoje em dia. Acho que a Europa está em regressão e a América Latina está em crescimento, em parte devido à diferente orientação das políticas num e noutro lado”, remata João Rodrigues. Entendendo ser difícil antecipar qual o futuro económico da América Latina, José Caldas não descura o presente: “vejo um presente de crescimento, redução das

desigualdades, de prosperidade onde nunca existiu, que contrasta com o panorama da Velha Europa. Vejo uma América Latina pujante em contraste com uma Europa em contraciclo”. Já Ricardo Cruz acredita que o futuro será “auspicioso enquanto esses países assumirem capitais em volumes significativos” que “acrescentam oportunidade de melhorarem as estruturas primitivas e se tornarem mais competitivos”.

O enfraquecimento do Estado Na Europa, são contínuas as políticas de privatização. Leonardo Costa alia-as à crise que considera neste momento ser dos Estados e das dívidas soberanas. Isto preocupa João Rodrigues, que vê incidir nos países da periferia os processos de privatização mais radicais. Processos estes que compreende estarem a ser levados a cabo por “condições de necessidade, impostas por governos que obedecem a instruções vindas de fora e que não têm em conta os interesses dos países em causa mas sim de quem os financia”. Ricardo Cruz não vê hoje nenhuma novidade relativamente ao que tem sido a tendência das últimas décadas: “na Europa o que existe é uma União Europeia que se rege por princípios da economia do mercado”, assinala. “O processo de privatização pode levar a um aumento dos preços, a um aumento da exclusão de uma parte importante da população no acesso de bens e a uma deterioração da sua qualidade”, remata João Rodrigues. Falando da privatização extrema, o investigador do CES assume-se preocupado com o “enfraquecimento de um Estado capaz de fornecer bens e serviços essenciais às suas populações, da educação à saúde, da segurança social a infraestruturas base e serviços básicos sem os quais não existem direitos de cidadania nem democracia”. Em Portugal, lembre-se por exemplo, a privatização da EDP, tendo sido a empresa de eletricidade ganha para investidores chineses. Pelo resto da Europa também se verificam políticas de privatização ditadas pelo atual contexto de austeridade. Fale-se do caso da Grécia que tenciona a venda ou o arrendamento de bens nacionais como aeroportos, empresas petrolíferas e de gás estatais ou mesmo bancos.

Há uma experiência histórica, com o socialismo e o capitalismo e ideologias que marcaram os séculos XViii, XiX e XX. o século XXi precisa de novas ideologias”, defende Leonardo costa. d.r.


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Cinema

aRteS

a fonte das “mulheres ” de Radu Mihaileanu CoM leila Bekhti hafzia heRzi SaBRina Ouazani 2011

a escolha é dos homens – ou água ou amor

ver

CrítICa de ana MoraIs

u

m pesado drama, uma busca por um passado desconhecido. A estranha e perturbada nawal Marwan (lubna Azabal), mãe de Jeanne Marwan (Mélissa Désormeaux-Poulin) e simon Marwan (Maxim Gaudette), morre após um inesperado AVC. À família, residente no Canadá, fica o testamento. Além dos bens materiais, nawal deixa aos filhos a hercúlea tarefa de encontrar o pai, que julgavam morto e um irmão, do qual nunca tiveram conhecimento. O filme torna-se, desde logo, numa referência de qualidade à guerra civil que se abateu sobre o líbano, nos finais dos anos 70 do século passado. Ainda que não haja nenhuma alusão espe-

A

luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres não é um tema recente. Atualmente estamos habituados a que a mulher já não assuma a figura de serva. Hoje, as mulheres são independentes e lutam pelos seus direitos. Contudo, não podemos negar a existência de povos em que tal não acontece. Olhemos para os costumes enraizados da comunidade islâmica radical, com um machismo exacerbado bem presente e com tradições firmes que dificilmente são reavaliadas ou alteradas. Radu Mihaileanu, realizador romeno mas que vive em França, consegue olhar para estes povos e a partir das suas vivências construir um retrato fiel para a grande tela. “la source de femmes”, traduzida para português como “A fonte das mulheres”, conta-nos, assim, a história de uma aldeia muçulmana, em que uma forte seca faz com que as mulheres sejam obrigadas a desempenhar pesadas tarefas. sem qualquer referência espacial, sabemos apenas que

esta aldeia é algures ente o norte de África e o Médio Oriente. Mas vamos então ao papel das mulheres – a aldeia é árida e enfrenta uma seca extrema e há uma única fonte de água no cimo de uma íngreme montanha. Com a mentalidade machista patente no Corão, quem mais para suportar este serviço se não as mulheres? esforço, muito esforço. Calor, sol tórrido. suor, sangue. lágrimas, desespero. É desta forma que as mulheres da aldeia fazem a subida e a busca de água ao cume da montanha. Contudo, eis que leila, uma jovem recém-casada “estrangeira” (como é apelidada), percebe as injustiças patentes nesta desigualdade de géneros e luta com todas as forças para inverter a situação. inicialmente, não é nada bem recebida pelas outras mulheres. Todavia, a sua persistência faz com que as mulheres comecem a valorizar a sua ideia. Que é, nada mais, nada menos, que uma greve de sexo (ou de amor, como lhe chamam), enquanto os seus homens não as aju-

darem com o transporte da água. A escolha está portanto do lado deles – ou água ou amor. Os aldeões furiosos com leila e com as restantes mulheres tentam inúmeras tentativas para aceder a esta necessidade básica, o sexo, mas a sólida luta construída pelas mulheres revela-se mais forte. Por fim, o diálogo entre homens e mulheres chega mesmo a trazer à aldeia novas soluções. Porém, até lá, o duro caminho percorrido pelo sexo feminino, sobretudo por leila é evidente. Fica assim, uma menção à forte prestação da atriz leïla Bekhti. A libertação de antigos preceitos, religiosos ou não, e do papel da mulher na família e na sociedade parecem ter sido o mote de Radu Mihaileanu e que lhe valeram a “la source de femmes” várias nomeações, das quais se destaca a Palma de Ouro em Cannes. Também as sonoridades envolventes da banda sonora de Armand Amar e os figurinos repletos de cor e personalidade oriental devem merecer uma alusão especial.

Incendies - a Mulher Que Canta cífica ao país, a associação é inegável. Já no Médio Oriente, os filhos de Marwan acabam por descobrir uma mãe diferente. estudante de línguas, prolífera trabalhadora num jornal universitário, assassina de um alto líder miliciano – uma mulher muito além daquilo que julgavam conhecer. A película é composta por diversos retrocessos, que nos vão dando a conhecer as diversas fases da vida de nawal. Ainda ressentidas com as ações de nawal, Jeanne e simon não encontram nas pessoas a hospitalidade que desejavam. segredos, ruínas e dados perdidos pelo tempo não deixam antever o que os jovens tanto anseiam. Quando o rasto

parecia perdido, a ajuda de um amigo da mãe dá novo folgo à desesperada procura. O pai e o irmão são, por fim, localizados, promessas são cumpridas e capítulos de um obscuro passado são finalmente fechados. O desfecho, devastador, tem tudo para se assemelhar a uma tragédia grega. Contudo, é certamente um dos melhores filmes estrangeiros dos últimos tempos. A juntar a um grande desempenho da atriz belga, lubna Azabal, temos um excelente trabalho sobre a sociedade libanesa, de um realizador canadiano. uma produção cinematográfica intensa, com um complexo argumento, onde diferentes realidades se cruzam. joão Valadão

filme

De Denies VilleneuVe eDitora MPA 2010

Artigo disponível na:

Marhaba


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feitaS oUvir

ler

einstein on the Beach ”

C

om a tournée mundial de “einstein on the Beach”, que arrancou em Montpellier e com extensão até 2013, Philip Glass aproveita para reeditar uma gravação realizada pela Columbia Broadcasting system (CBs), dois anos depois da sua criação(1976). Várias perguntas se podem levantar. É possível apreciar esta composição privando-nos das suas incríveis imagens (de Robert Wilson)? Quais as vantagem em relação aos registos de nonesuch Records, realizados pelos mesmos elementos quinze anos depois, numa versão ampliada (note-se que existe um acréscimo considerável em meia hora nesta gravade ção), com uma notória melhoria PhiliP GlaSS na qualidade de som e da execução do coro mais cuidado? edItora semelhanças que podemos encBS contrar num charme inigualável que resulta numa junção de radi2012 calidade, como se o compositor e o maestro Michael Riesman estivessem ainda em 1978, em plena folia da criação, conseguida através da tournée que prossegue até chegar à Metropolitan Opera Association, em nova iorque. nesta ópera abstracta encontramos o poder hipnótico da repetição glassiana de uma outra época, em constante mudança (progressões, deslocações, inversões, rupturas rítmicas, prolongamento de séries...), a funcionar na sua plenitude. O ouvinte fica, novamente, arrebatado pelas vozes, ventos ou teclados hiperactivos, tal como na primeira cena (acto i), as danças do “campo com nave espacial” (acto ii e iii), o quadro urbano da construção. não será, no entanto, necessário esperar pelos “knee plays” (transições entre actos) para encontrar momentos mais calmos. O violino áspero de Paul Zukosky e o coro a empurrar palavras em vozes deixam ouvir nota a nota ou numerações por numerações com uma sinceridade emocionante depositada de forma quase banal. se conseguíssemos atingir esta obra radiante, alucinante e inquietante a nossa felicidade seria completa. Para quem teve a sorte de ver esta “obra” em cena, este gesto de Glass não representa nada sem a criação de Wilson (e vice-versa): resta-nos aguardar, por enquanto, pelo DVD.

Regresso à plenitude glassiana

lígIa anjos

Persépolis: a história de uma Infância e a história de um regresso

a história é sempre lembrada a preto e branco

de MaRjane SatRaPi edItora cOntRaPOntO 2012

Q

uando Ari Folman escolheu contar as memórias do massacre de sabra e Chatila, durante a Guerra do líbano, através da ilustração, o sentido da opção era manifesto. e bem implícita ao longo de dois ou três trechos do filme. Atenuar as marcas da violência pela linha do desenho. Mas a ideia saiu um pouco furada. A atenção pelo detalhe das expressões ora de medo ora de cólera, a fluidez dos movimentos com que os corpos franzinos se levantam do mar ou a deturpação cromática apenas conseguiram conferir a “Valsa com Bashir” uma concepção de brutalidade emotiva maior do que qualquer foto ou documentário da invasão israelita. em “Persépolis”, as marcas de violência também lá estão. Tanto mais quando a satrapi decide dar à bicromia o seu real uso do termo. em “Persépolis” é sempre noite. Mesmo quando é tempo de festa. Mesmo quando as miúdas da escola levam ao limite as suas dramatizações. O despotismo do contraste, em que o preto se extrapola, está lá para nos pisar qualquer devaneio de exultação. Felizmente, há Marjane (autora do livro), que como profeta que se adivinha desde a nascença, aparece com um grande sol como auréola, qual juba de leão, para iluminar toda a nação iraniana. “Persépolis” é um livro de quadros, divido entre a história de uma infância e o regresso ao país natal, após vários

anos de exílio. e essa distinção está bem marcada. evidentemente, a infância tem mais piada. Tem sempre mais piada. Mulher, filha de uma família secular de fortes raízes marxistas, Marjane satrapi reparte esse tempo entre o escutar atento das descrições da crueldade da tirania do Xá e da República islâmica, e as suas conversas privadas com Deus e Marx, que quase se fundem num só através da barba, e as indagações sobre as aventuras revolucionárias dos seus amigos e familiares. O regresso é desiludido. É o duro encarar da realidade após termos viajado por um outro cosmos durante copiosas páginas. Como quem nos pára o rotor do caleidoscópio, para nos deixar ver, por entre as missangas coloridas, o que há para lá da lente. É esta a Marjane deste segundo acto, uma mulher desiludida com o seu país e com o seu próprio rumo. Afinal, “Persépolis”, mais do que a história da Pérsia ou do irão, é a história sobre as desilusões e, sobretudo, os sonhos de quem oferece a vida a uma causa. É infeliz que nem uma (admirável) adaptação ao cinema pelo meio tenha sido capaz de instigar uma tradução mais recente. Mas, como também no irão a história se move, doze anos depois da primeira edição, vale a pena voltar a reler “Persépolis”.

joão MIranda

JoGar

shadows of the damned “nove círculos do inferno”

GUerra DaS CaBraS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro PlataforMa PS3, XBOX Artigos disponíveis na: edItora electROnic aRtS 2011

n

em por acaso, na última edição desta coluna referenciámos a caricatura grotesca que a produção nipónica se tornou de si mesma; “shadows of the Damned” é, certamente, o derradeiro símbolo desse processo de decadência cultural. Fruto de uma colaboração entre as mentes que estiveram por detrás do incontornável “Killer7”, suda Goichi e shinji Mikami, seria de esperar uma obra de calibre superior, um oásis nesta árida paisagem que é o meio videolúdico. Até há uma ideia no seu âmago, mas não se trata de qualquer conceptualização visionária, antes a típica vulgata boçal que vimos a esperar da mente “punk” de Goichi. Trata-se de uma paródia trash, homenagem estilo “Grindhouse” aos grandes clássicos de terror da Capcom. Hiper-violento, quasi-pornográfico, escatológico e sempre com aquela gracinha pós-modernista que se regozija na produção de lixo “self-conscious” (ignoramos porque é que o lixo que sabe que é lixo deixaria de ser lixo). Claro que, sendo Goichi culto, encontrou um espaço simbólico que desse uma aura de nobreza artística, e então vá de pegar, como “Devil May Cry”, no inferno de Dante para vender a coisa como “arte”. A odisseia pelos nove círculos de Goichi é uma ofensa visual e moral a toda a linha, uma torrente imagética vagamente surrealista

e superlativamente repugnante, sempre intercalada com piadinhas prepubescentes sobre pénises e felácios. O jogo em si é mais um ersatz de “Resident evil 4”... e nem sequer é o melhor nessa ridiculamente profícua categoria. Mikami até se safa ao oferecer essa sua marca de design seguro, e um perfeccionismo formal que o descuidado suda não possui. Já Yamaoka não sai incólume, limitando-se a enfiar pela goela abaixo o seu template “silent Hill”, inconsciente de que estava a compor música para uma comediazinha e não para uma obra dramática. Goichi confirma com esta obra aquilo que já se adivinhava em “no More Heroes”: não passa de um adolescente rebelde, a fazer joguinhos sem gosto nenhum para públicos sem maturidade para perceber a diferença entre provocação patética e vanguardismo sofisticado. não compreende, como Kamiya em “Bayonetta”, que para uma paródia representar um objecto minimamente digno, tem de enquadrar as suas referências com subtileza e inteligência, e elevar as suas qualidades formais e expressivas a um novo patamar. Goichi ignora isto, e prefere vomitar mais um travesti insultuoso que ridiculariza o seu intelecto (e o nosso)... Mas pelos vistos, é isto que passa por arte nos videojogos. ruI CraVeIrInha


20 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

solTAs

ana duarte

umA ideiA PArA o ensino suPerior AlexAndre frAnCo de sá • Professor dA fACuldAde de leTrAs dA uniVersidAde de CoimbrA

TomAi e Comei

AutonomiA universitáriA

olhA o Peixe (fresCo?)

Para quem está pela praça à hora de jantar, tendo as cantinas azuis fechadas, vê nas amarelas a opção mais composta e com maior alternativa. A fugir ao típico frango ou à espetada do costume nos grelhados, ou ainda às aclamadas lulas, venho encontrar do outro lado da rua um bonito prato de peixe. Para quem gosta de um peixe fresquinho, sabe que muitas vezes se atentam à boa dignidade destes pratos nas nossas belas cantinas. Por isso, fico duvidoso. É sempre bom aproveitar as alternativas, mas não me está a apetecer muito mascar pastilha elástica a esta hora. Mas num vai, não vai, lá com a insistência dos colegas, optei por me aventurar na prova de uma nova especialidade. Pescada com solha, a malta apostou forte. Mas, faltandome a coragem para meter tal manjar à boca, entretenho-me com uma agradável sopa de legumes. O pão também ajuda a encher o pandulho e alguns copos de água, que uma pessoa lá se levanta para ir atestar. Começo pela batata cozida, que desde já costuma ser bastante boa e mantém o nível. A alface é uma companheira solitária, parece que desta vez nem a cenoura a conseguiu acompanhar. O tempo passa e lá tenho de me atirar ao principal. Primeira garfada e até nem está mau. Vá, já sei que não posso ser demasiado exigente. Vou alternando entre a pescada e a solha, juntamse as batatinhas e até se comeu bem. Um arroz doce com canela, que mantém o nível satisfatório de sempre - apresenta-se como uma boa simulação de sobremesa. Tirado o travo do peixe, enche-se mais um copito de água e vai-se beber um café a outro lado qualquer. Há sempre um certo desconsolo nestes pratos do mar, mas uma refeição bem composta por este preço, é uma alternativa que ao estudante não cabe recusar.

“Isto já não é o que nunca foi” – julgo que foi algures numa das paredes da nossa universidade que encontrei gravada esta inscrição jocosa. Esta é a caricatura perfeita da atitude que devemos evitar quando pensamos sobre ideias para a universidade: projectar um passado ficcional em referência ao qual nos lamentamos sobre as nossas misérias presentes. Mas não sendo esta a atitude que aqui pretendo evocar, julgo que é importante a universidade de hoje, particularmente na nossa situação epocal, tentar colher das grandes ideias que orientaram a sua vocação a fonte de inspiração para a s u a

d.r.

Por João Valadão

CinemusiCorium • TAGV • 16 de mAio

A

tências, evocar a autonomia universitária significa afirmar o saber universitário como algo que é irredutível ao técnico e ao imediatamente utilitário. A tentação para apenas valorizar na universidade aquilo que é rapidamente útil, rentável e profissionalizante é hoje, como se sabe, cada vez maior. E tanto maior tem de ser hoje a afirmação da autonomia universitária face a ela. Mas evocar a autonomia da universidade é também tomar uma atitude face ao presente e ao futuro. A educação, nos seus vários níveis, tornou-se hoje, em larga medida, colonizada por um discurso pedagógico dogmático e acrítico. Em Portugal, o processo de Bolonha permitiu a sua reprodução automática na universidade. A ficção de contrapor a “transmissão de conhecimentos” ao “desenvolvimento de competências”, a transformação do tempo de estudo e de maturação numa série de processos de “avaliação contínua” onde não há tempo para ler nem pensar, a redução apressada do tempo de duração dos cursos e a desestruturação dos currículos, são fenómenos que mostram o quanto uma cultura alheia à universidade procura tomar conta dos seus tempos e ritmos. A formação universitária foi sempre pensada como integral e, neste sentido, como uma formação lenta, demorada e profunda (“escola” em grego quer dizer tempo livre). E talvez esteja na reivindicação do seu próprio tempo o significado mais fundo da exigência da tão propalada autonomia universitária.

ArTe.PonTo

PArA A PróximA, um reAl regresso Ao futuro noite prometia. Pega-se num programa da Rádio Universidade de Coimbra, com o mesmo título do espetáculo e que apresenta semanalmente uma obra da sétima arte, junta-se a Orquestra Clássica do Centro e tem-se, como resultado, um desfile de músicas retiradas de bandas sonoras de filmes que marcaram, cada qual a seu modo, a história do cinema. Fiquei na segunda fila a contar de trás. Não há problema, é um concerto de música clássica, é suposto apreciarse de olhos fechados até. O mau augúrio não se concretiza e o concerto começa da melhor forma. O filme escolhido é “O Gladiador”, apresentado, tal como os restantes, por Vasco Otero, que protagoniza uma teatral entrada em palco. A direção musical, essa, ficou a cargo de David Lloyd, maestro com um percurso já considerável e com uma ligação profissional ao nosso país que remonta à década de 90. Tocam

acção futura. De entre estas ideias, a que gostaria de evocar é a de autonomia. Mas esta não pode ser tomada aqui como uma palavra vã, inúmeras vezes repetida em discursos de circunstância perante auditórios bocejantes, ou como uma expressão vazia e vagamente inócua. Evocar a autonomia como ideia central na vida universitária é, antes de mais, aludir ao exemplo do seu passado. A universidade foi sempre, na sua história, o alvo de poderes variados que de algum modo a procuraram tutelar, rentabilizando os seus “saberes” e tornandoos, de vários modos, úteis aos seus interesses. A Igreja, durante a era medieval, encontrou na universidade um instrumento para a elaboração da sua doutrina teológica, e o Estado moderno procurou na universidade um dos meios para o estabelecimento de uma cultura nacional e a consolidação do seu poder político. Hoje, dir-se-ia que é a sociedade em geral, as “empresas” e os “mercados”, que se a p r o priam da universidade e do seu ensino. Face a estas po-

d.r.

os primeiros acordes de uma banda sonora composta por Hans Zimmer e emerge aquilo que se imagina numa orquestra: uma sincronização inigualável e uma sonoridade irrepreensível. Logo aqui pensei se não se enquadraria igualmente bem outro dos trabalhos de Zimmer: “Piratas das Caraíbas”. Porque, entretanto, a primeira parte começa a arrastarse e as interpretações a parecerem infindáveis. Do outro lado da coxia, uma senhora está de olhos fechados e não sei se estaria mesmo a apreciar o ambiente musical. A finalizar, uma música que, disse Vasco Otero, já todos assobiámos pelo menos uma vez na vida, do filme “A Ponte do Rio Kwai”. O público despertou um pouco antes do intervalo mas o sentimento era que, perante uma audiência surpreendentemente jovem, se poderia ter optado por um alinhamento mais recente. Algumas das bandas sonoras dos fil-

mes “Harry Potter”, dirigidas por John Williams, teriam sido excelentes alternativas. A segunda parte traz o momento menos alto da noite, numa interpretação musical do filme “Psycho”, um clássico de Hitchcock, que não deixou de parecer adequado à sensação que os longuíssimos minutos deixaram. A compensação foi rápida, com Ennio Morricone e o filme “A Missão” a evangelizarem um público que já parecia perdido. Passou-se por “Braveheart” antes do final, uma interpretação fantástica, com toda a orquestra de novo em palco, de um ‘medley’ de “Jesus Christ Superstar”. Onde violinos serviram de guitarras e, de tempos a tempos, um flash dourado percorria a audiência. Foi um espectáculo diferente, sem dúvida, a pedir uma segunda volta mais baseada nos últimos vinte anos.

Por Paulo Sérgio Santos


23 de maio de 2012 | quarta-feira | a

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solTAs Amo-Te ATé Ao fim do mundo (um Amor de mArinheiro em 7 CAPíTulos) Por fernando José rodrigues Eram os dias das paixões, doridas e incompletas, violentas e terríveis, Para quê tudo isto? Eu só quero um amor! ilustração por ana beatriz rodrigues

O

que é o amor? É uma conspiração do desejo, dizem muitos. Outros suspiram, É a melancolia das noites que transforma os humores humanos e lhes traz, pelas manhãs, um colorido ao coração. Alguns ainda fazem estudos e escrevem tratados e, cheios de sabedoria, falam sobre um amor pleno de percentagens, de tiques e repetições. II Eu só quero um amor, disse ela um dia, não sabendo nada sobre as intrigas divinas, muito menos sobre os sentidos distantes que só se manifestam nas alvoradas, nem sobre médias e medianas, Eu só quero um amor, sussurrou ela uma tarde depois de ter começado a chover como se a cidade tivesse cortinas, Eu só quero um amor, daqueles simples em que, dizem, só é preciso amar e nada mais, Dá-me um beijo!, Dou-te dois!, e os sorrisos correm como sóis e os abraços envolvem-se como um vento quente, Eu só quero um amor! E a partir do momento em que convocou este mais que bem-querer, ela conheceu a angústia da busca, o suspiro numa troca de olhares, o apertar do estômago por quem passa e não olha.

III No dia em que o conheceu sentiu que o coração lhe fugia, que deixava o seu peito e queria entrar no dele, que as suas pernas procuravam ir-se depressa mas, de tão tolas, se quedavam como se fossem feitas de gelatina. Ele sorriu-lhe e ela pressentiu que ele, sem nada proferir, lhe dizia, Quero-te até ao fim do mundo!, como se afinal os olhos valessem mais no que toca à retórica do amor. Era um marinheiro, direito e aprumado e, quando falou, as suas palavras eram mais reluzentes que os botões do seu garboso uniforme, sabiam a amor, Queres tomar um café?, a paixão, Está um dia tão bom!, a beijo, Vens aqui muitas vezes?, a cheiros, Tens que fazer amanhã à noite? Os dias passaram, as mãos entrelaçaram-se, a paixão doida correu e ficou o amor. Ele falava-lhe das viagens, dos mundos que conhecia, das terras pelas quais passava e que lhe traziam espanto ou tristeza, ela contava-lhe dos lugares por onde ousara andar e, enamorada, questionava-o, sorrindo docemente, Tens uma namorada em cada porto? Ele, quase enrubescendo, negava-o, És o meu único amor! Quando partia disfarçava as lágrimas com a humidade das madrugadas e ela, no cais feito de saudades, acenava-lhe, Não me esqueças! Volta para mim! IV Há mais marés que marinheiros, diz-se, por serem traiçoeiros, para

monumenTAis PAnAdos soCiAis

quem neles não habita, os mares. Muitas vezes teve ele o céu quase debaixo das águas e sentiu que a viagem se acabava ali, longe do coração; apertava nessa altura contra o peito, como se de uma imagem santificada se tratasse, a foto sorridente que ela lhe oferecera. E com esse retrato, desbotado pelo suor e águas salgadas, talvez alguma delas fossem lágrimas, reentrava feliz no cais das alegrias. “Não te esqueceste de mim?, Não, como era possível? E as tuas outras namoradas?, Não sejas tonta! Sorriam e abraçavam-se, não morriam só de amores, morriam um pelo outro, Amo-te até ao fim do mundo!, um beijo, Voltaste para mim!, beijo, mão, cheiro, corpo, Amo-te! V Não há mundos perfeitos, muito menos histórias que o sejam. Cada vez que o navio aportava, ela ia ficando mais e mais ausente, enrodilhada em pensamentos obscuros, E as tuas outras namoradas?, Já te disse que só tu existes para mim! Amo-te! Mas o poder da dúvida corrói, é um ácido que dispõe mal, que queima, que deixa dor profunda, corre como um cavalo bravo, sem brida e em contínuo galope. Nesses dias, ela foi, por isso, conhecendo a infelicidade do amor e olhava para as cartas em que ele jurava, Amo-te até ao fim do mundo, como se fossem ondas gigantes que tudo levam e tudo arrasam. Até que um dia decidiu confrontá-lo. A traição que vive no mar tem de ser paga em terra. VI Traíste-me!, e os olhos abriram-se

como um céu cinzento carregado de tempestades, Não e não e não! Não tenho mais nenhuma mulher!, Traíste-me!, Não tenho outras namoradas!, Traíste-me!, Os portos são, para mim como melancolias onde procuro ver a tua cara, o teu cheiro, o teu corpo!, Traíste-me!, Os oceanos são caminhos de regresso que quero fazer depressa, muito depressa para te reencontrar! Por isso, não, nunca te traí! Ela olhou-o com um desprezo simples e transparente, Não entendes nada! Traíste-me, sim! Quando te perguntava se tinhas uma mulher em cada porto e me dizias que não, acreditava que me mentias. Que era um amor de marinheiro. Nunca pensei que falasses verdade! Porque, se tivesses outras mulheres, regressavas sempre para mim. Para mim, entendes? A prova de que me amavas até ao fim do mundo era, tendo tu outras, eu ser a única. Mas afinal, não. Não me amavas como eu pensava. Não me amas! E as águas separaram-se. VII O que é o amor? Já não há quem faça apostas ou finca-pé, sabe-se agora que o amor é o que é e nada mais. E eles? Ela está na busca do amor e de ser a única, ousando nós adivinhar que jamais o conseguirá; ele, tendo visto a vida desfeita num dia de chuva fina, continua marinheiro e em cada porto não tem mais uma mulher. Tem quatro ou cinco. Mas nos silêncios das ondas que batem no casco sussurra para o horizonte, Hei-de amar-te até ao fim do mundo!

miCro-ConTo

Fernando José rodrigues nasceu em Coimbra em 1956, formou-se em Filologia germânica em Lisboa e marcou estadia em inglaterra e na suécia como leitor de língua e culturas portuguesas pelo instituo Camões. em estocolmo, foi responsável também pela tradução para inglês do texto de José saramago para a cerimónia de entrega do nobel da Literatura, trabalho de que se orgulha. não vive da escrita. senhor de um farto bigode, é professor do ensino secundário a tempo inteiro e, entre os livros e o ensino, ainda tem tempo para ser ator na companhia “o gato”, de Leiria, cidade onde vive. Publicou até agora três livros. “d. sebastião chega sempre a horas”, em 1999, “novas do achamamento do inferno”, em 2001, e “gestos esquecidos”, de 2006, que venceu o Prémio Literário almeida Firmino. nos livros deixa a sua crítica à sociedade e à política, sendo que Fernando Venâncio, crítico literário, descreveu-o nas Correntes d’escrita de 2002, como alguém que “escreve depois de saramago, depois de Fernando Campos, e o que consegue é uma narrativa que aproveita estas duas lições e acaba por superálas, com brilho, e com um tremendo gozo”.

Ana Morais

Vou esCreVer sobre bolA (mAis ou menos)

Por doutorando Paulo fernando • facebook.com/paulofernandophd

O

Atlético de Coimbra foi ao Jamor ganhar a taça, num jogo que teve por árbitro um indivíduo de sobrenome “Batista”. A festa foi bonita, com momentos de salutar convívio entre adeptos do Benfica e do Porto, regados por um Bairrada ou um Dão, a acompanhar um leitão ou um frango de churrasco. Não sei se estava bom porque ninguém me ofereceu um bocado. Veio muita gente para ver o Atlético. Mas há duas ausências que são notadas. Não veio o Presidente da República nem o reitor – podem traçar os paralelismos que quiserem. Diz que estão em Timor, o que é uma pena, dado que havia muito mais para ver no Jamor que o futebol. Esse foi muito pouco, uns vinte minutos se tanto. No entanto, o Paço das Escolas fez-se representar. Desta vez, a reitoria e a académica pareciam vestir as mesmas cores. Mas será que alguém tomou nota dos dichotes das faixas que foram

sendo abertas, ou a unidade é só uma questão de futebóis? Estavam também muitos conhecidos, do mundo da comunicação social, da academia, uns que parece que já se tinham ido embora mas que ainda por lá andam, ex-activistas estudantis da esquerda revolucionária a competir na distribuição de propaganda partidária com as meninas do Destak, grandes homens do futebol de garbosos bigodes, como o João Alves ou o Toni. Surpreendente a quantidade de tias da linha também vieram, arejar as fitas e as capas, no jogo contra a equipa dos viscondes. Dizia alguém que aquilo parecia a Queima. Percebo a comparação: era o número de borlas, eram os dirigentes (actuais, ex, proto, de outras academias), era a cerveja e a comida excessivamente caras para a qualidade correspondente, era a música de gosto duvidoso a ser debitada pelo sistema de som do estádio, e era mole humana em movi-

fotomontagem

mento como no cortejo, deixando atrás de sim um rasto de garrafas e copos com o propósito cumprido. Mas no Jamor houve uma coisa que na Queima não há. Politização. Bem-feita, e com impacto. Salvé! É o que dá ganhar um bocado de coragem e recorrer a uma boa dose de criatividade e persistência –

arriscamo-nos a que as coisas corram bem. Não é a primeira vez que a DG consegue desenvolver acções com visibilidade, normalmente depois das acções fica a dormir um bocado à sombra da bananeira, tipo Polga, e depois, com medo de “banalizar”, não volta à carga. Não se preocupem que esta acção é difícil de banalizar, é tipo cometa

Halley – o Atlético só vai a uma final a cada 70 anos. Quanto ao jogo em si, não há grande coisa a dizer: o Atlético jogou o que pôde, ou o que sabe, e o Sporting não jogou nada, o que também não é propriamente surpreendente. Acabou quase antes de começar verdadeiramente, o que permitiu a alguns espectadores passar o tempo a sondar as bancadas, conferenciar com os adeptos da equipa adversária discutindo qual das duas equipas tinha a defesa mais inepta ou a tirar fotografias com os famosos (tenho uma com o Zé Pedro dos Xutos –o Keith Richards português!). Ainda há a reter que a taça se escangalhou, tenho o presidente do Atlético, José Eduardo Simões, revelado um grande talento para estes arranjinhos. Depois disso não mais largou a taça, não fosse alguém a roubar.


22 | a cabra | 23 de maio de 2012 | quarta-feira

opinião Vender a aLma em tempo de crise Luís Quintans

o particular, que quer vender por motivos vários, perante a esperança frustrada, vê-se impotente e, como rio em tempo de enxurrada a saltar a margem, as lágrimas soltam-se pelo rosto amargurado com rugas de solidão.

Quando pensamos numa casa de velharias o que imaginamos? Certamente um espaço onde todo o género de objetos, a maioria enferrujados, amontoados uns em cima dos outros, se compra e vende. Poucos cogitam que estas lojas, para além de serem um museu vivo e um relembrar da memória, sinalizada entre gerações, onde de certo modo o visitante pode tocar nos objetos, é também uma espécie de bolsa de valores onde, e em paridade, consoante os ciclos económicos, o índice sobe ou desce. Se a economia está em franco desenvolvimento haverá menos gente a querer vender e o seu preço mantém-se estável ou subirá conforme a raridade. Se, pelo contrário, está em queda acentuada, haverá mais pessoas a quererem desfazer-se de bens que lhes estão colados na recordação, e, na lei da oferta e da procura, em subsequência pelo excesso da primeira,

para além de perderem valor, como “tsunami”, arrastam tudo na sua passagem sôfrega e voraz para serem transformados em dinheiro. Porém, acontece que, como a oferta é maior do que a procura, para além de provocar uma desvalorização acentuada nos produtos, uma deflação, inevitavelmente, estas casas, porque deixam de alienar, irá chegar uma altura em que, mesmo a um euro, não poderão adquirir seja o que for. E é aqui, neste estádio, que os dramas começam para ambos os lados. Por parte do particular, que quer vender por motivos vários, por exemplo para comprar um medicamento, perante a esperança frustrada, vê-se impotente e, como rio em tempo de enxurrada a saltar a margem, as lágrimas soltam-se pelo rosto amargurado com rugas de solidão. Por outro lado, porque quem está à frente destes estabeleci-

mentos comerciais quase sempre são pessoas com uma sensibilidade acima da média, a tocar o sensitivo, é muito natural que, com os olhos a lacrimejar e o coração a latejar, puxe de uma nota e a dê sem nada comprar. Contudo, na análise, porque prefiro ir pela vereda psicológica mais sinuosa, a meu ver, neste ato de generosidade, para além do altruísmo, em catarse, estão vários sentimentos em conflito. Por um lado, neste dar sem aparentemente nada exigir em troca, estará muito da “caridade” de que falava Nietzsche, em que em toda a atitude filantrópica está imbuído um espírito de interesse próprio de autossatisfação. Por outro, nesta bondade do dador, haverá muito medo à mistura. Isto é, a maioria destes comerciantes que vendem coisas usadas ou são pessoas que emergem das raias da pobreza, ou, em muitos casos, desde a infância trazem

consigo uma alma carecente de afeto e, este “dar”, não é mais do que a projeção egoísta que esse amor oferecido ao outro dá ao próprio. É evidente que poderemos perguntar se, afinal, todo o ato de dar, contrariamente ao que se pensa, não passa de uma forma narcisista de mostrar o afeto? Não sei. O espírito humano é muito complexo. E quem sou eu para aventar teorias?

Mara rodrgiues.

PuBLiCidade


23 de maio de 2012 | quarta-feira | a

cabra | 23

opinião editoriaL a redundância de um jogo fotoMontageM Por CarLota reBeLo

A

ideia não é nova. Aconteceu na final de 1969, estávamos em ditadura. Entretanto veio Abril e o país mudou. Mudou para que houvesse liberdade, o que pressupunha a livre expressão, a igualdade de oportunidades. Se percorremos um longo caminho no desenvolvimento social foi nesse sentido e o acesso ao ensino superior, bem como outros setores da sociedade portuguesa, democratizou-se. Depois, as propinas foram apenas o primeiro passo. E entretanto o país mudou. Algures no caminho, entre a revolução e o agora, não se sabe bem quando começámos a andar para trás, a regredir. Alguém questionou a utilização da mesma forma de reivindicação contra um governo democraticamente eleito? Não na academia. Sinal dos tempos que não se repetem, mas deixam uma sensação de déjà vu. Esta decisão, tomada em Assembleia Magna - que está longe de ser leviana - deve suscitar uma séria e profunda reflecção relativamente ao ponto a que chegámos. Podemos começar pelo ensino secundário, e pelos objetivos de quem quer aceder ao superior. Muitos já adiam esse passo, esperando uma melhor conjuntura que torne o ensino superior economicamente viável. A repetida diminuição de bolsas de ação social escolar enegrece o cenário. Vai valendo a caridade dos fundos de apoio, que pouco serve para atenuar as estatísticas. Com o desemprego galopante, a perspetiva de saídas profissionais para um

o balanço do impacto mediático das faixas na final da taça parece positivo. o que também deixa transparecer é que, nitidamente, falta uma ação de maior cariz reivindicativo.” jovem licenciado é escassa. A alternativa? Fazer um mestrado e esperar que isso ajude. E fá-lo quem ainda consegue suportar as propinas do segundo ciclo. Quando há poucos meios, de que vale investir na formação se o destino mais provável é o desemprego? Os sinais vão-se arrastando, não é de agora. Voltou a acontecer na época passada, quando a Académica – Organismo Autónomo de Futebol (OAF) chegou às meias-finais da competição. Também já se falava em faixas no Jamor. A Académica ficou-se por aí, assim como as faixas. Este ano, a Académica foi mesmo à final e a ideia foi retomada. As faixas foram mesmo ao Estádio Nacional e por pouco não entravam. Sinal de um estado com laivos pidescos. Tendo em conta a atenção cega que os media nacional dão a um qualquer jogo de futebol, o balanço do impacto mediático das faixas na Final da Taça parece positivo. O que também deixa transparecer é que, nitidamente, falta uma ação de maior cariz reivindicativo. Se o resultado de três meses de sensibilização e informação é este, então é claramente insuficiente, se ficar por aqui. Não se pode comparar 2012 com 1969. A contestação em democracia assume contornos por demais distintos, apesar das aproximações recentes ao estado policial. Mas muito mais pode ser feito, já que quem deve não o faz. A Associação Académica de Coimbra não pode esperar que entretanto o país mude.

Camilo Soldado Cartas ao diretor podem ser enviadas para

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O Teatrão

No meio de uma programação cultural um pouco homogénea, eis que O Teatrão presenteia a cidade com uma mostra de teatro brasileiro. Durante cinco dias, a população terá oportunidade de ver aquilo que de melhor se faz em São Paulo. O teatro é um dos fortes da cidade de Coimbra e esta aposta d’O Teatrão vem em boa altura, especialmente num ano em que se comemora a presença de Portugal no Brasil. Para quem se queixa que em Coimbra não há muito para ver e prefere viajar vários quilómetros para ver um qualquer espetáculo numa dita capital cultural, esta é altura perfeita para reconsiderar tais afirmações. A.D.

União Europeia

Ao atentarmos na lógica políticoeconómica seguida pela Europa e pela América Latina encontramos sérios contrastes. A primeira segue a filosofia desenfreado do capitalismo neoliberal, já a segunda busca no marxismo os valores socialistas. Com medidas opostas, quem ganha mais? A resposta a esta questão surge-nos quando olhamos para o estado dos países que integram estes conjuntos. A Europa está em regressão e a América Latina em crescimento. Nos países europeus as medidas radicais de privatizações “não têm em conta os interesses dos países em causa mas sim de quem os financia”, como explica João Rodrigues. A.M.

CHUC

Na mesma altura em que a fusão dos hospitais ganha forma e as consequências aparecem em catadupa o fecho das urgências no período noturno no Hospital dos Covões ou a possível fusão das maternidades da cidade -, é inaugurada a maior unidade hospitalar privada da zona centro. A supremacia caricata do setor privado ao Serviço Nacional de Saúde que se quer gratuito e para todos é uma realidade. A saúde parece assim ser só para quem pode pagar e não para quem precisa. Sem qualquer estudo prévio divulgado, a fusão do CHUC vem tirar à cidade e aos seus habitantes as valências necessárias a um direito vital - o acesso à saúde. A.M.

EstrElas quE dançam o vira por João Gaspar

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Chloë Bonet

Firma o seu olhar, sem que no seu fundo encontre linhas firmes. Perde-se então na festa veraniana, no ar quente, na música que é assobiada em jeitos toscos, no cheiro a sardinha. Mas tudo parece ser pequeno para tão grande olhar. Olhar de criança não percebe essas coisas de limites. Difunde-se, como fumo-praga. Tudo tem uma inegável magia. Como aqui, de olhos postos nos dedos sirigaitos de um acordeonista. Vai além dos dedos, do acordeão, do que ouve, do que vê. Parece que enquanto vê dedos bailantes, vê também estrelas que dançam o vira. Alheio de tudo. Alheio de rodopios de casais a que as bodas já lhes beijaram os anéis, alheio a bêbados que perscrutam fantasmas, alheio a saudades imigrantes feitas de tons de vinho. Olha, desnudo, entregue a poesias mudas de um baile de Verão.


Edição246