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Hospital Santa Cruz - 100 anos

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Expediente Editora Gazeta Santa Cruz Ltda. CNPJ 04.439.157/0001-79 Diretor Presidente: André Luís Jungblut Diretor Secretário: Romeu Inacio Neumann Diretor Comercial: Raul José Dreyer Diretor Administrativo: Jones Alei da Silva Diretor Industrial: Paulo Roberto Treib

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HOSPITAL SANTA CRUZ - 100 ANOS

Editor: Romar Rudolfo Beling Textos: Elemir Polese Agradecimentos especiais pela colaboração: Carine Ferreira Nied, Carlos Alberto Kämpf, Maria Hoppe Kipper, Olgário Vogt e Roberto Steinhaus

Fotografia: Inor Assmann (Agência Assmann) e divulgação de empresas e entidades Capa, projeto gráfico e diagramação: Márcio Machado Edição de fotografia e arte-final: Márcio Machado Marketing: Raul José Dreyer e Lau Ferreira Supervisão gráfica: Márcio Machado Impressão: Pallotti - Porto Alegre - RS É permitida a reprodução de informações desta revista, desde que citada a fonte. Reproduction of any part of this magazine is allowed, provided the source is cited.


Sumário 10

Preservar a saúde da população era tarefa difícil nos primórdios

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Dr. Ortenberg foi decisivo no início das atividades do Hospital

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Irmãs Franciscanas imprimiram seu estilo especial na instituição

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Um passeio pelas alas do HSC por ocasião do seu centenário

Três gerações de uma família mostram vínculos com o HSC

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As lembranças de Irmãs que se dedicaram ao trabalho no HSC

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HSC mantém inúmeros projetos permanentes junto à comunidade

A filosofia de trabalho que guia o HSC aos 100 anos e após

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Um convite para a vida Hospital Santa Cruz completa um século de atendimento diferenciado à população de Santa Cruz do Sul e da região central do Rio Grande do Sul

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ONTEM E HOJE: Acima, registro do dia da inauguração do hospital; na página seguinte, perspectiva do prédio na atualidade

uando as portas do Hospital Santa Cruz se abriram, em 22 de maio de 1908, não era só uma possibilidade de gerar e de salvar vidas que estava nascendo. Ele tornou-se, com o passar dos anos, um templo cuja principal missão seria cuidar da saúde e do bem-estar de um povo. O mesmo povo que, 100 anos depois, ainda desfruta de seus serviços. Que trabalha e que sonha com avanços. Que enseja novas conquistas e mais realizações. Até chegar aos dias atuais, uma complexa trajetória foi cumprida. Agora, merece ser contada, num registro de fatos e de personagens inesquecíveis. Muitas pessoas dedicaram grande parte do seu tempo à edificação de um patrimônio. Muitos dias e muitas noites de árduo trabalho em prol do desenvolvimento foram devidamente dispensados. Se atualmente a população conta com uma estrutura hospitalar que é exemplo para o Vale do Rio Pardo e para o Estado do Rio Grande do Sul, é porque muitos que antecederam as gerações atuais não esmoreceram diante das dificuldades. Foi uma árdua luta, sem dúvida. Sem ela, entretanto, pouco ou nada seria possível. E as inúmeras conquistas, viabilizadas ao longo de décadas, constituem o tema desta edição, como forma de partilhar com os leitores, em cada letra, em cada palavra, em cada gravura que remete a seu tempo, o empenho e a força de um povo. E revela o arrojado complexo que o Hospital Santa Cruz constitui à entrada do século XXI. É uma história de muitos ganhos. O principal deles, obviamente, nada mais é do que o milagre da vida. Boa leitura!


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Hospital Santa CruzHospital - 100 anos Santa Cruz - 100 anos

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Uma bela

cidade

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S ambiente URBANO: Acima, a atual Rua Marechal Floriano, ao tempo da inauguração do HSC; na foto maior, a cidade de Santa Cruz do Sul

anta Cruz do Sul é um dos principais núcleos da colonização alemã no Rio Grande do Sul. Está localizada na região central do Estado, a 155 km da capital, Porto Alegre. Os primeiros imigrantes vieram de lugares distantes, do Reno e da Silésia, em 1849. Conhecida em âmbito internacional como pólo agroindustrial do fumo, mas inserida em um sólido processo de diversificação, a cidade atrai grandes empreendedores de vários países. Entre suas principais atrações turísticas estão a Catedral São João Batista, o Autódromo Internacional, o Parque da Gruta, o Túnel Verde e a Praça Getúlio Vargas. Ao longo do ano, dentre vários eventos programados em seu calendário está a Oktoberfest, tradicional festa germânica, que atrai milhares de turistas e de visitantes. Santa Cruz do Sul também é conhecida pelas ruas largas, limpas e arborizadas e por seus jardins e trevos floridos. Hábito herdado dos imigrantes alemães, a jardinagem é um dentre tantos outros costumes da cultura germânica, que até hoje são cultivados no dia-a-dia de seus 120 mil habitantes.


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Os peregrinos da imigração A Hospital Santa Cruz - 100 anos

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caminhada histórica da então Colônia de Santa Cruz começou a ser reforçada com a chegada dos primeiros imigrantes alemães, em 1849. E pelas duas décadas seguintes, continuou a se instalar nessa terra uma população que só falava Deutsch (alemão), integrando-se a uma área que já era habitada pelos portugueses e pelos negros. E os alemães não vieram para um simples passeio turístico. Vieram, sim, a fim de recomeçar a vida. Para construir, produzir e ajudar a desenvolver

essa região, o que até hoje é motivo de orgulho para seus descendentes. Com esmero e força de vontade, muitos dos obstáculos encontrados foram sendo superados, graças ao empenho de toda uma legião de autênticos trabalhadores. Assim como a comunidade registrou muitas conquistas (algumas das quais o leitor poderá conferir nas páginas que seguem), inúmeras também foram as dificuldades. A maioria da população sobrevivia especialmente com os ganhos obtidos no cultivo

de fumo, milho, feijão, batata, banha e erva-mate, além da produção de linho, algodão e amendoim e de outros artigos de subsistência. Alguns registros dos primeiros anos de colonização dão conta de que a cada duas residências, uma possuía o tear, máquina de tecer o fio de linho e de algodão. A alimentação também era bem diferente dos tempos atuais. Não se consumia, por exemplo, tanta carne como agora. Carne bovina, pouco ou quase nada se consumia. Até porque ela era de difícil conservação. A de suínos era a que mais estava na mesa dos recém-chegados germâ-


nicos. E para conservá-la por mais tempo, a carne de porco era colocada em tonéis, submersa em banha. Apesar de os hábitos e os costumes serem muito semelhantes, a população era um tanto dividida quanto à sua crença. O povoado era formado por duas comunidades: os católicos habitavam mais a região Sul e os luteranos predominavam na parte Norte. Para efeitos de comparação, na visão de um antigo morador, a atual

Rua Júlio de Castilhos, onde hoje se localiza a Câmara de Vereadores e a Caixa Federal, na época compreendia uma espécie de “muro virtual” (na divisão entre católicos e luteranos). Era, enfim, a religião que determinava o funcionamento da sociedade, e a partir dela nasciam fortes influências. Associações, entidades, colégios, os próprios cemitérios, por exemplo, eram formados ou estabeleci-

dos segundo a opção religiosa. O Colégio Sinodal, atual Mauá, e a Sociedade Ginástica eram freqüentados pelos luteranos. Já o Colégio Marista São Luís, o Sagrado Coração de Jesus, então Colégio das Irmãs; e a Sociedade Aliança eram dos assíduos católicos. Esse foi o início de uma comunidade que hoje comemora seu desenvolvimento, seu espírito empreendedor e sua invejável qualidade de vida.

SANTA CRUZ CRESCE * 1850 - 72 habitantes * 1851 - 400 habitantes - aproximadamente * 1860 - 2.500 * 1870 - 5.809 * 1.880 - 11 mil habitantes - calculada * 1890 - 15.572 habitantes - recenseamento * 1900 - 23.122 habitantes - recenseamento * 1910 - 30.010 hab., população calculada Fonte: Bittencourt de Menezes, em O município de Santa Cruz do Sul.

RECORTE DO PASSADO: A primeira Igreja Evangélica de Santa Cruz do Sul, o prédio da antiga Caixa Rural e o Colégio Elementar Júlio de Castilhos

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Uma questão de saúde Preservar a saúde da população era tarefa complicada nos primórdios; isso exigia deslocamentos ou apelo a recursos precários

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os primeiros tempos, até o início do século XX, atendimento médico era muito incipiente na Colônia de Santa Cruz e na região. Quem realizava as visitas de casa

em casa eram os religiosos católicos e protestantes. Mais precisamente, Padres e Pastores. Sempre com a finalidade de fazer o que chamavam de conforto espiritual. Ou seja, cuidar da saúde da alma. Porque para a do corpo não tinham formação nem estrutura adequada. E não era somente a população de San-

ta Cruz a atendida. Os núcleos de língua germânica dos atuais municípios de Cachoeira do Sul, Agudo, Rio Pardo, Venâncio Aires, Lajeado e Estrela também eram visitados. Imagina-se que não eram poucas as viagens. E eram muito exausti-


Só para exemplificar, um dos fatos mais curiosos aconteceu com uma família de Dona Josefa, hoje interior do município de Vera Cruz. Em um ano, sete irmãos faleceram vítimas de diarréia. Espantoso? Sim. Porque hoje tal enfermidade pode ser resolvida por clínico geral. E observe-se que não fora essa a única moléstia que vitimara a população. Outras doenças e outros males deixaram suas marcas, como tifo, complicações na hora do parto, infecções pulmonares, queimaduras, males de garganta, dores abdo-

A primeira alternativa Antes de sonharem em construir um hospital como é o Hospital Santa Cruz hoje, os primeiros imigrantes usavam conhecimentos adquiridos dos índios. Para todo tipo de enfermidade aparente havia uma provável solução caseira. Chá de laranjeira para resfriados, chá de cabelo de porco para dor abdominal, folha de goiabeira para estômago, chá de erva de bugre para não urinar na cama, compressas frias para febre. Ferimentos eram tratados com folhas de couve aquecidas e na furunculose utilizavam emplastros de sabão com açúcar. Uma estranha combinação. Mas era assim. A primeira farmácia foi instalada somente 31 anos depois da chegada dos primeiros imigrantes alemães, pelo farmacêutico Adolfo Evers, em 1890. Era no estabelecimento dele que se encontrava bálsamo alemão, óleo de rícino, aspirinas, pomadas, gotas de Mainz, entre outras fórmulas.

minais, tuberculose, sífilis, sarampo e hemorragia, entre outras. Na verdade, com a imprecisão dos diagnósticos, realizados pelos religiosos, as causas de muitas mortes eram duvidosas. A título de curiosidade, em 1870, 54 mortes foram registradas (dado recolhido pelo padre que visitava as famílias católicas, e que foi apontado pelo Pe. Giehl em seus registros). Dessas, 35 eram de pessoas com idade entre zero e 15 anos. Ou seja, a maioria das vítimas eram crianças e adolescentes.

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vas. A cavalo, meio de locomoção mais prático na época, levava-se em média três dias para chegar a lugares mais distantes. Conforme dados da paróquia católica, contabilizados pelo Pe. Alcides Guiehl, no período de seis anos, entre 1870 e 1876, 515 visitas foram contabilizadas. É pouco, quando se traça comparativo com os dias de hoje. E muito, considerando-se que naquela época só os religiosos as faziam. Com a falta de atendimento médico adequado, muitas das mortes foram precoces.


A primeira

casa de saúde

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enfermidade que motivou a criação da primeira casa de saúde em Santa Cruz foi aquela que, na época, se costumava chamar de “males nervosos”. Ou seja, era o que se denomina hoje de doenças psíquicas, e que era de alta incidência entre os imigrantes. A constatação fez com que o Dr. Karl Hermann Eduard Kämpf fundasse o Sanatório Vida Nova. E a inaugu-

ração se deu, casualmente, em 15 de novembro de 1889, no mesmo dia da Proclamação da República. Administrado pelo Dr. Kämpf e por sua esposa, Hettwig Engel Kämpf, o tratamento consistia em uma dieta natural, à base de vegetais, e de outros alimentos mais leves, chás de malte e ervas, e sem uma grama de carne de qualquer espécie. Inclusive peixe. Por que dessa forma? De acordo com a crença da época, os animais, ao se-

rem sacrificados para o consumo, liberavam uma espécie de toxina, a qual, se digerida, causaria males às pessoas. Outro tratamento muito utilizado na instituição era o que denominavam de Método Kneipp e Kuppe. Este sugeria a hidroterapia e a lodoterapia (tratamento com barro, enriquecido com ervas). Hoje, com as atividades encerradas desde 1991, o imponente prédio ainda continua às margens da RST 287. RECURSO: Prédio do ex-Sanatório Vida Nova, que encerrou suas atividades em 1991


O precursor da medicina local Dr. Wilhelm Müller foi o primeiro médico de Santa Cruz

Ele era da família Müller. O mesmo sobrenome que até os dias atuais se dissemina com muita freqüência na comunidade santacruzense teve um profissional da medicina que muito contribui no período de 1894 a 1907. Wilhelm Müller: este era o nome. O primeiro médico diplomado na região de Santa Cruz. Mal chegou ao povoado e logo despontou com seu espírito empreendedor. Um ano após sua vinda, o Dr. Müller, como era conhecido, colocou à disposição da comunidade o hospital particular “Mein Privat Krankenhaus” (“meu hospital particular”). Era um estabelecimento com sete leitos e tendo como

auxiliar sua esposa. A instituição, no entanto, não se limitava ao simples atendimento médico. Grandes cirurgias, como amputações, foram noticiadas como bem-sucedidas no hospital do Dr. Müller. Três anos após a inauguração, em 1898, foram acrescentadas à instituição as instalações para a realização de partos. E suas iniciativas não paravam por aí. Tamanha era sua competência na área da saúde que em vários momentos constam registros de agradecimentos por curas e pela dedicação junto aos enfermos. E estes vinham de toda a região; ou, quando possível e necessário, ele mesmo se deslocava até os pacientes. Sabe como? A cavalo. E

FUNDADORES: Dr. Karl Hermann Eduard Kämpf e a esposa Hettwig

sempre tendo como ajudante o farmacêutico Adolfo Evers, o mesmo que em 1890 abrira uma farmácia no povoado. Mas Dr. Müller, como se previsse sua morte precoce, deixou multiplicadores de sua autenticidade e sabedoria. Ao perceber a preocupação da população quanto à realização de partos, ele mesmo ministrara cursos e treinamentos para parteiras que atuavam nas diversas localidades. Wilhelm Müller faleceu aos 44 anos e seu sepultamento se deu com todas as pompas que fizera por merecer. Consagrou-se, enfim, por sua atuação na medicina, como uma das figuras mais relevantes do final do século XIX.

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Trilhos que levam para o mundo

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ntes das primeiras medidas para efetivar a idéia da construção do Hospital Santa Cruz, um outro acontecimento importante mobilizou a comunidade da época: a viabilização da Estação Férrea. Inaugurada em 19 de novembro de 1905 (mesmo dia em que Santa Cruz foi elevada à condição de cidade), pelo então Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, a nova viação facilitou o acesso a determinados recursos disponíveis apenas na capital da província. Médicos de Porto Alegre anunciavam suas especialidades, seus horários de atendimento e seus endereços para consultas. A nova via modificou, também, por com-

pleto, o cenário econômico de Santa Cruz e da região.

O primeiro passo Devido à proliferação de doenças e diante das mortes sem atendimento médico adequado, veio a necessidade da construção de uma instituição hospitalar para atender à crescente demanda em Santa Cruz. Liderada pelo Padre Jesuíta Francisco Suzen, a luta pela concretização da obra começou em 1893, 45 anos após a chegada dos primeiros imigrantes alemães. Mas o Padre Francisco não estava sozinho nesse sonho.

Vigário da paróquia pelo período de nove anos, com sua engenhosa capacidade de comunicação e de liderança, ele mobilizou a comunidade, formada por católicos e protestantes, para a necessidade de se criar um fundo financeiro a fim de viabilizar a construção. Para isso, criou-se uma Comissão, formada por católicos e protestantes, que decidiu, finalmente, pôr mãos à obra e erguer um hospital para Santa Cruz. O trem chega: A antiga Estação Férrea de Santa Cruz


No dia de ontem vieram a Santa Cruz seis irmãs, as quais foram recepcionadas pelas irmãs já na ativa e por uma grande quantidade de mulheres na Viação Férrea, e levadas a seguir para a Igreja Católica, enquanto os sinos tocavam.

(Fonte: Jornal Kolonie) CIRURGIA: Dr. Heinz von Ortenberg em ação, durante uma cirurgia no Hospital Santa Cruz, auxiliado pelas Irmãs Franciscanas

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ara os que acreditam na intervenção de alguma força superior, é possível confiar também que as Irmãs Franciscanas foram “enviadas” no momento certo para Santa Cruz, onde mantinham um colégio para meninas. Como um sopro de vida, foram elas que não deixaram esmorecer a idéia da construção do Hospital Santa Cruz. Em 14 de setembro de 1903 chegou a Santa Cruz a Madre Geral das Irmãs Franciscanas, Irmã Ludmila, aqui permanecendo por um mês e 12 dias. Foi tempo suficiente – e abençoado – para que se tratasse com a religiosa a respeito da necessidade e da importância desse hospital. Várias reuniões foram realizadas com a presença dela, do Padre Francisco Suzen, da Madre do Colégio Sagrado Coração de Jesus e de outras pes-

soas da comunidade. O que definiram? A comunidade entraria com os terrenos adquiridos da família de José Meister e providenciaria a construção do prédio. Já a Congregação assumiria a vinda de um médico-chefe e das irmãs franciscanas enfermeiras da Alemanha. Estas também se comprometeriam com a manutenção da entidade. Embora a religiosidade constituísse traço marcante e de certa forma divisava a população, católicos e protestantes se empenharam na mesma proporção para a efetivação da instituição hospitalar. Tudo definido, hora de ir à luta. Nos primeiros meses de 1905 constituiu-se uma comissão de obras e de administração. Homens e mulheres, a pé ou a cavalo, percorreram a vila e a colônia coletando dinheiro e material de construção. Tamanha foi a colaboração

da comunidade que a bênção da pedra fundamental ocorreu em 24 de dezembro do mesmo ano. No ano seguinte, porém, a coleta de donativos foi prejudicada devido à seca e a nuvens de gafanhotos que devoraram as plantações. Isso gerou grande perda financeira aos habitantes do município. Mas não foi suficiente para esmorecer o desejo de finalizar a construção. Após uma reunião entre representantes das duas comunidades, acompanhada pelas Irmãs Franciscanas e pelo Padre Jesuíta Francisco Suzen, a solução encontrada para não cessar o projeto foi um empréstimo junto a pessoas da comunidade, a juros moderados. As obras tiveram, assim, um novo impulso e sua conclusão aconteceu em novembro de 1907. Era o passo para a realização definitiva do sonho da comunidade.

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Sob as bênçãos delas

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Contratempos Dois poderosos laços espirituais, a comum cultura popular germânica e o espírito cristão, aceito e vivenciado, mantiveram a população santa-cruzense unida, coesa e empreendedora. (Giehl, João Walter)

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16 (...) Sentiram muito, apesar de tarde demais, a localização logo atrás do colégio. As autoridades sanitárias não usaram de toda a pressão para colocar este hospital na Chácara das TÚNEL DO TEMPO: Perspectiva da atual Rua Marechal Floriano a partir da zona Sul

a vencer A

decisão da Comissão de construir o hospital no centro da Vila, curiosamente, não agradou aos moradores. Na opinião deles, a localização não seria adequada, por considerarem o hospital um “antro”, melhor dizendo, um local que poderia causar a proliferação de doenças. Por isso, a intenção da comunidade era construir a obra fora da região habitada.

Irmãs. (...) Se tivesse doenças epidêmicas com perigo de contágio, seria melhor o isolamento (...) O hospital não está bem localizado.” (Jornal Kolonie. 9 fev.1906.)

E o sonho ganha vida Apesar de todas as adversidades, a conclusão e a inauguração do Hospital Santa Cruz ocorreu em


22 de maio de 1908. Em ato solene realizado às 11 horas pelo então vigário Padre Bernardo Bolle, este também procedeu à bênção de todos os compartimentos da instituição. A cerimônia prosseguiu na Sociedade Aliança Católica, onde os jovens da cidade e da colônia apresentaram uma peça teatral em prol do novo hospital. Os festejos se encerraram às 15 horas, com um show de fogos de artifício. A princípio, a Direção do Hospital ficou sob a responsabilidade da Superiora do Colégio Sagrado Coração

de Jesus, Madre Valesca. O atendimento aos doentes ficou a cargo das irmãs-enfermeiras vindas da Alemanha, bem como do médico contratado, Dr. Heinz Von Ortenberg. A cidade contava, na época, com 3.500 habitantes, sendo que o total de habitantes do município correspondia a 25 mil. No ano seguinte ao da instalação, já vieram doentes de cidades vizinhas, como Rio Pardo e Candelária. Mas a influência do Dr. Ortenberg em Santa Cruz não se limitou à área da saúde. Formado na Fa-

culdade de Berlim, na Alemanha, com a titulação de Médico Superior do Exército Imperial, ao lado da experiência adquirida na Europa trouxe para cá hábitos sociais, empresariais e culturais, tendo atuação decisiva para o progresso da cidade. Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o Dr. Ortenberg retornou com sua família à Europa, para servir no exército alemão. Surgia, então, um novo Diretor do Hospital Santa Cruz, o Dr. Guilherme Hildebrand.

Depoimentos Sobre o portal de entrada pende um belo crucifixo talhado em pedra arenítica, oferta do ex-vigário e fundador desta casa de saúde, o Padre Francisco Suzen. Por motivo de saúde, está impossibilitado de estar conosco. Os seus sacrifícios e seu esforço heróico estão

lançados no livro da vida e serão por Deus melhor recompensados. Entrando na casa, vemos artística imagem de Nossa Senhora das Dores (...) A sala de cirurgia, muito iluminada, é provida de mesa cirúrgica e armário envidraçado (...) A casa toda é abastecida de água cristalina e abundante (...) Permita Deus que aqui, segundo a bela expressão luso-brasileira, tudo sirva e funcione como verdadeira casa de misericórdia.” “Quem vem de Rio Pardo, na entrada da cidade, ao longe observa a construção de três pisos do Hospital Santa Cruz (...) Com grande espírito de solidariedade as irmãs se endividaram e pagam juros pelo investimento, mas este prédio está levantado (...) Os quartos são altos, bem ventilados, com luz e simplicidade (...) O tratamento feito pelas irmãs sem qualquer restrição de religião e raça, porque o amor cristão não conhece barreiras (...) (Jornal Kolonie, 20 ago.1908.)

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Relato de Madre Valesca, diretora do Hospital, no ato da inauguração, no Livro das Crônicas (espécie de documento que registrava as atividades das Irmãs Franciscanas): “Desejo apresentar aqui, em visão abrangente, a amplitude do hospital.


doutor Heinz von Ortenberg atravessou o oceano e trouxe a Santa Cruz muito mais do que a sua experiência na medicina; trouxe progresso

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Von Ortenberg,

alar da História do Hospital Santa Cruz e não esmiuçar as influências do Dr. Heinz von Ortenberg na medicina e em outros segmentos é como falar de Roma e não mencionar a figura do Papa. Ele nasceu em 1879, em Salzwedel, Estado da Saxônia, na Alemanha. Formou-se médico aos 25 anos. Serviu algum tempo como médico militar no sul da África e na Alemanha. Escreveu inclusive um livro com as impressões da campanha de que participou, em lutas na África do Sul. Declarou perante a polícia alemã em depoimento: “Recebi convite para exercer o posto de médico-chefe no Hospital

das Irmãs Franciscanas, em Santa Cruz, Brasil.” Aceito o convite, exerceu o cargo a ele atribuído entre janeiro de 1908 e janeiro de 1914. Durante anos atendeu a chamados do interior, viajando em carroça colonial puchada por dois cavalos. Aos pobres, atendia de graça. Tratava as pessoas com lisura e empatia. Foi também, em 1910, um dos fundadores do Tênis Clube Santa Cruz. Além disso, ajudou o Colégio Sinodal, hoje Mauá, que atravessava dificuldades financeiras, fundando a Mantenedora e sendo seu presidente por vários anos. Também teve importante papel na criação da Indústria de Borrachas Mercur, como um de seus sócios.

Hoje, a biografia do então Dr. Heinz von Ortenberg pode ser resgatada por meio de relatos de pessoas de sua época, de arquivos dos jornais Kolonie e Gazeta do Sul, e, de forma mais explícita e fundamentada, em livro elaborado por Leandro Silva Telles. Nessa obra, especialmente, encontra-se toda a trajetória desse homem, que dispensa comentários quanto à sua valiosa contribuição para Santa Cruz do Sul e para a região. Marcas que ficaram principalmente na área da saúde. E foi tamanha sua importância na época que não há como não se sentir intimado a fazer uma visita ao local onde seus restos mortais repousam, desde o dia 10 de de-


zembro de 1959, data em que toda uma comunidade ficara enlutada com sua perda. Do portão principal do Cemitério Municipal, de Santa Cruz do Sul, logo se avista, na terceira fila, à direita, uma lápide em granito preto com seu nome em letras garrafais: DR. HEINZ VON ORTENBERG. Exatamente assim,

para não deixar dúvida quanto àa sua honrosa peregrinação em terras santa-cruzenses. Caminhadas essas feitas no final do século XIX e no início do século XX. A foto dele, na atual morada, já não existe mais. Talvez porque alguém, no ímpeto de captar seus princípios e suas virtudes, a tenha

levado. O túmulo é baixinho, imagina-se que para não ocupar muito espaço, assim como fora generoso com os pobres e doentes, em vida. A lousa que o sobrepõe, divinamente lisa, pode representar a lisura sempre presente em sua convivência com os então imigrantes e conterrâneos.

O amor à Pátria “Entre tantas andanças do médico que marcou a história do Hospital Santa Cruz está a que ele fez no retorno à sua terra, em 1914. Fiel a seus princípios e à sua filosofia, enquanto médico do Exército Imperial Alemão, dedicou sua vida aos doentes e feridos das duas Guerras Mundiais. E um dos soldados a quem dedicou sua nobre missão foi o último Kaiser alemão, Guilherme II, que ficou sob seus cuidados até a hora da morte. Dr. Ortenberg redigiu um relatório médico sobre os últimos dias de vida do ex-imperador.” (TELLES, Leandro Silva; p. 280-82)

“Após cumprida sua missão, o Dr. Heinz von Ortenberg retornou ao Brasil em julho de 1947 e reiniciou sua clínica em Santa Cruz do Sul por mais cinco anos. Aos 73 anos de idade, começava a declinar fisicamente. A esclerose o acometia. Tinha dias de completa lucidez e outros de amnésia. Em 10 de dezembro de 1959, aos 80 anos, deixava este mundo (...) Abandonava para sempre a sua querida Santa Cruz, a cidade a quem ele dedicara a maior parte de sua existência, quer tratando a população através de seus conhecimentos técnicos e de médico, quer se esforçando em prol de suas instituições ou lutando para preservar as suas tradições” (...) ( TELLES, Leandro Silva; p. 345)

Sinais de um novo tempo Três acontecimentos marcantes, logo do início da chegada do Dr. Heinz von Ortenberg, a Santa Cruz do Sul, apontavam para o futuro progresso da cidade. Primeiro: em 11 de agosto de 1906 fora inaugurada a iluminação elétrica, pública e particular. Segundo: fora estabelecido o ramal ferroviário entre Santa Cruz e a Estação do Couto, na linha Porto Alegre-Uruguaiana. Terceiro: houve a instalação de uma rede hidráulica com distribuição a domicílio, de água canalizada de uma fonte.

“É preciso que se distinga em Ortenberg duas facetas: a de médico e a de preservador das tradições germânicas. Na primeira destaca-se como o fundador do Hospital Santa Cruz, o organizador de um curso para aprimoramento da técnica de parto, o fomentador de melhores condições de vida para os colonos, o médico humanitário que atendia a muitos gratuitamente; na segunda faceta, organizador da Sociedade Teutônia, de albergue para alemães pobres, de uma instituição para a mostra de filmes alemães (...), o ativo presidente da Sociedade Escolar do atual Colégio Mauá, o organizador de festas e recepções às autoridades alemãs (...), enfim, uma série de empreendimentos que o tornaram um benemérito da cidade de Santa Cruz do Sul e da própria etnia no Rio Grande do Sul” (TELLES, Leandro Silva; op.cit. p. 345)

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A volta ao Brasil

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Bator deixou O Hospital Santa Cruz - 100 anos

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sua marca

utro médico que muito contribuiu com o Hospital Santa Cruz e com a comunidade santa-cruzense e da região foi André Bátor. Húngaro de nascimento e brasileiro naturalizado, Dr. André Bátor praticou uma medicina sacerdotal em Santa Cruz do Sul, durante 44 anos, entre 1934 e 1978. Ele foi um renomado clínico geral, mas sua especialidade eram os pulmões. Fez cursos de especialização em Tisiologia em Davos, na Suíça, e em Pneumologia em Freiburg, na Alemanha. A morte dele abriu profunda lacuna na comunidade, que tinha aprendido a reconhecê-lo e a admirá-lo, tanto por sua extraordinária capacidade profissional quanto por seu zelo com os pacientes. Uma das principais características do médico André Bátor era a humanidade com que atendia os que não tinham como pagar as despesas, em um tempo em que praticamente não havia assistência médica oficial.

ANDRÉ BÁTOR granjeou a admiração da comunidade ao longo de 44 anos

Espírito humanitário

Bátor nasceu em 8 de agosto de 1903, em Budapeste, onde se formou médico em 1927, aos 24 anos. Logo partiu para a América, aportando em Buenos Aires junto com o compatriota e colega Lotar Fertig, a quem reencontraria depois em Santa Cruz do Sul. Antes, em 1928, trabalhou em Venâncio Aires, a convite do também patrício e médico Estêvão Batory. Passou por Cerro Branco e em 1934 fixou-se definitivamente em Santa Cruz do Sul, a convite de Heinz von Ortenberg.


Enfim,um G

uilherme Alfredo Oscar Hildebrand. Este é o nome do primeiro profissional de medicina, formado em oftalmologia, nascido em terras da então Colônia de Santa Cruz. Egresso da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, o Dr. Hildebrand, como era conhecido, assumiu o posto de Diretor do Hospital Santa Cruz em 1914, aos 24 anos, em substituição ao Dr. Heinz Von Ortenberg. O novo profissional atuava em seu consultório no período diurno, para atender pacientes vindos do interior, e realizava as cirurgias à noite. O Dr. Hildebrand, descendente da cultura e dos costumes germânicos, sempre acreditou na importância do cultivo da terra. Dizia ele que o futuro do País estava na agricultura e na pecuária. Um exemplo de sua dedicação para o desenvolvimento rural foi a plantação de eucalipto que idealizou cinco anos depois de formado. Na época, com um milhão de pés plantados, chegou a ter a maior floresta de eucaliptos do Rio Grande do Sul. Além de médico, o Dr. Hildebrand DR. Guilherme Alfredo Oscar sempre demonstrou afeição pela poHildebrand substituiu o Dr. Ortenberg como Diretor do Hospital Santa Cruz lítica. Foi eleito para a Câmara Municipal, da qual se tornou presidente em 1924. Já em 1947, foi eleito para a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.

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médico da terra


Mais um santa-cruzense

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sucessor do Dr. Guilherme Hildebrand no Hospital Santa Cruz foi outro filho de Santa Cruz, o cirurgião e obstetra Arthur Carlos Kliemann, que se formou em 1928. Na mesma época, chegava a Santa Cruz o Dr. André Bator, que começou sua vida profissional em Cerro Bran-

co. Devido à grande quantidade de pacientes com tuberculose na região, o Dr. Bator se especializou em pneumologia e passou a tratá-los em uma ala do Hospital Santa Cruz, denominada de Isolamento. Em 1927, chegou o Dr. Jacob Blesz, estabelecendo-se na Vila Teresa, hoje município de Vera Cruz,

onde em 1939 inaugurou o hospital que levava seu nome. Vale destacar, também, que no interior de Santa Cruz havia assistência médica. Tanto em Trombudo, hoje Vale do Sol, como em Sinimbu e Monte Alverne, esses distritos santa-cruzenses tinham seus próprios hospitais na década de 1930.

EXPANSÃO: Na foto maior, a Capela Santa Helena; na foto em detalhe, a maternidade

Arthur Carlos Kliemann também passou a autar como médico em Santa Cruz do Sul


A ampliação Sob a coordenação do Dr. Arthur Carlos Kliemann, no final da década de 1930 foi dado o passo inicial para a ampliação da segunda ala da instituição, quase que duplicando suas instalações. No andar térreo fora implantado o ambulatório; no segundo piso, a sala de cirurgia, chamada Sala Azul; e no terceiro piso, a clínica médica. No porão estavam

as salas dos indigentes, assim denominados os pacientes sem recursos, pois na época a maioria das internações era de particulares. Com o tempo surgiram os convênios. Os primeiros aceitos eram o Instituto de Previdência do Estado (IPE) e o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários. Nesse período de comando do mesmo médico foram também inaugurados o serviço de radiologia e o laboratório

de análises clínicas, com a aquisição do aparelho de raio-X Röntgen e o microscópio Zein, provenientes da Companhia Sanitas-Eletric Gesellschaft, de Berlim, na Alemanha. Por volta de 1948, foi instalado outro aparelho de raio-X: o Tetraval. Por meio dele realizava-se a abreugrafia, que consistia na radiografia do tórax. Era um exame obrigatório para a aquisição da carteira de trabalho.

A criação da maternidade 23 Hospital Santa Cruz - 100 anos

Outro marco na história do Hospital Santa Cruz foi a instalação da maternidade, ainda sob o comando do Dr. Arthur Carlos Kliemann. Se antes as parteiras tinham que se deslocar até as gestantes para realizar os serviços de parto, a partir do dia 1° maio de 1942 as crianças passaram a ter atenção especial na hora do nascimento. Consta nos registros que no primeiro parto no Hospital Santa Cruz teria nascido um casal de gêmeos.


Injeção em todos os segmentos

E Hospital Santa Cruz - 100 anos

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ra notável a ascensão do município de Santa Cruz do Sul na primeira metade do século XX. As fumageiras, especialmente, eram as que movimentavam a economia local. A Souza Cruz, por exemplo, na época conhecida como “a firma dos Americanos”, era, e continua sendo, de grande importância para a economia de Santa Cruz, do Rio Grande do Sul e do Brasil. Outras empresas também marcaram presença, como a Companhia de Fumo Santa Cruz, a Companhia Sudan, a Cigarros 35 e a Exportadora Hennig. Também contribuíram para o desenvolvimento a indústria de Artefatos de Borracha Mercur, ainda em atividade; fábricas de balas, metalúrgicas e gráficas. Esta-

PASSADO: Atual Rua Marechal Floriano, no trecho que compreende o Colégio São Luís e a esquina com a atual Rua Júlio de Castilhos; na foto da próxima página, carroças circulavam no meio urbano da época

va formado, enfim, um importante pólo industrial. Vale lembrar que, nesse período, mais precisamente em 1924, inaugurava-se o templo da Igreja Evangélica. E em 1939 o da Católica. Este, aliás, tornou-se o maior em estilo neogótico do Brasil. Os colégios também progrediam. O Sinodal, dos luteranos, hoje chamado de Colégio Mauá, fora ampliado com a construção do internato masculino e da secretaria. Outra instituição de ensino criada nessa época foi o Colégio Elementar Júlio de Castilhos, que, em 1935, transferiu suas instalações para onde fica hoje o Colégio Estadual Estado de Goiás. O mesmo acontecia com as entidades sociais. O Clu-

be União passou para a sede social na Rua Marechal Floriano. O Tênis Clube adquiriu terreno do Futebol Clube Santa Cruz e lá construiu sua sede e suas quadras. O Banco Pelotense construía seu prédio onde hoje funciona o Centro de Cultura Regina Simonis. Surgiu também, na mesma época, o Banco Agrícola Mercantil (atual Unibanco), o Banco Nacional do Comércio (hoje Santander) e o Banco da Província, na esquina da Ramiro Barcelos com a Venâncio Aires, todos em suntuosos prédios. Nas ruas, na década de 1930, avistavam-se os primeiros automóveis de luxo. Os bailes nas sociedades eram concorridos. Tanto na Sociedade Ginástica, freqüentada pelos protestantes, como na Socieda-


de Aliança, dos católicos. Famosos eram também os bailes de carnaval. E no resto do ano, os encontros de fim-de-semana se davam na casa das moças, ao som do gramofone, que tocava as últimas novidades em discos vindos do Rio de Janeiro, dos Estados Unidos e da Alemanha. Já eram muito freqüentes, também, os “Kerbs” e as quermesses.

Apesar disso, especialmente aos domingos e em estações de muito calor, o lazer preferido das famílias era passar o dia à beira do Rio Pardinho. Lá, as pessoas faziam as refeições ao meio-dia e à tarde. No almoço, era servido lingüiça assada, com espetos feitos de taquara, e pão. Aos homens era servido cerveja e às mulheres e às crianças, ga-

sosa (refrigerante à base de limão). Na parte da tarde, a confraternização continuava. Cada família levava um bolo e partilhava com os demais. Acompanhado, sempre, com o tradicional chimarrão (bebida à base de erva-mate). Foi nesse ambiente alegre e festivo que os médicos húngaros encontraram Santa Cruz.

320$000 mil réis de juros, 120$000 réis para pessoal de manutenção (...) Total 480$000 réis. Deve-se acrescentar 1$000 réis por dia por cada negro doente que a prefeitura envia ao hospital (...) O hospital recebe 500$000 réis de subvenção do Estado, que poderá ser utilizado no tratamento aos negros (Jornal Kolonie. 21 abr. 1910.)

Os médicos estrangeiros

C

om o crescimento de Santa Cruz do Sul, muitos profissionais de outras regiões do País e do exterior chegavam à localidade, e isso aconteceu também na área da saúde. O primeiro médico húngaro a se estabelecer foi o Dr. Nicolau Batori, clínico e cirurgião geral. Seu consultório foi instalado no segundo piso do atual Unibanco, junto a sua moradia. O entrosamento com a socieda-

de local não fora difícil. Tradicionais tornaram-se as festas natalinas na residência dos Batori, quando ele distribuía chocolates entre as crianças. Os doces enfeitavam o enorme pinheiro de Natal. Foi o Dr. Batori quem trouxe para cá o seu conterrâneo, Dr. Lothar Fertig, que se estabeleceu, inicialmente, em Sinimbu e em 1945 transferiu-se para Santa Cruz, com consultório e residência ao lado da Sociedade Ginástica. Homem bastante culto, o Dr.

Fertig preocupou-se em contribuir com todos os movimentos culturais, em especial a Orquestra Sinfônica Estudantina do maestro Lindolfo Rech. Um dos prazeres do Dr. Fertig era viajar com sua família no período de férias. Além de ele conhecer todo o Brasil, a Europa e a América sempre estavam em seus roteiros. Onde passava, registrava belas imagens. No retorno, fazia um relato das viagens e apresentava às pessoas inúmeros slides.

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Religiosidade na alma e no coração V

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estidas de branco, mais parecendo anjos do que enfermeiras, as irmãs religiosas que atuavam no Hospital Santa Cruz estavam sempre prontas para atender a todo tipo de enfermidade. De maneira afável e carinhosa, assim como ensinou São Francisco de Assis, seu patrono, eram elas quem acalentavam o coração dos pobres e dos doentes. Assim fora por 95 anos. E a mesma bênção parece perdurar até os dias atuais, quando a instituição completa um século de atividade. Mesmo que não estejam mais à frente do Hospital desde 2003, é um legado de que a comunidade santa-cruzense muito se orgulha e se empenha para fazer jus aos princípios humanos pregados pelas Irmãs Franciscanas.

Princípios humanos e marcas de carinho das Irmãs Franciscanas ficaram nítidos na filosofia de trabalho junto ao Hospital Santa Cruz


A alegriajubileu pelo

Em 1958, a comunidade festejava os 50 anos do Hospital com a implementação de novos recursos e aparelhos, melhorando a estrutura

N

a festa de 50 anos do Hospital Santa Cruz, em maio de 1958, o jornal Gazeta do Sul anunciava, em letras garrafais: “O modesto pavilhão de 1908 está transformado na realidade imponente de nossos dias. Um nosocômio que pelo seu aparelhamento e capacidade honra a ‘Metrópole do Fumo’, atraindo para aqui gente de todos os pontos do Estado, que vêm recuperar a saúde perdida. A narrativa impressionante dos primeiros 50 anos a serviço da caridade e do bem-estar do próximo.” Ao completar o cinqüentenário de atividade na comunidade santa-cruzense, na época o Hospital tendo como diretor-técnico o Dr. Arthur Kliemann, a direção anuncia também os aparelhos adquiridos para melhorar a estrutura da instituição. Na época, o Hospital Santa Cruz contava com 13 médicos.

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A fim de assinalar a DATA ÁUREA do Hospital Santa Cruz, deseja a direção neste ano JUBILAR colocar à disposição dos Srs. Médicos: Uma moderna mesa ortopédica; 1 lâmpada de refrigerante, para a sala de cirurgia; 1 Central de Oxigênio Canalizado, cujas instalações serão feitas em todos pavilhões e andares com tomadas nas salas de Cirurgia, de partos, Berçário, sala de curativo e quartos (...)


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75 anos depois do começo

Dificuldades gerais enfrentadas na instituição não inibiram as comemorações dos 75 anos do Hospital Santa Cruz, em 1983

Os pés de São Francisco deslizam mansos, faz 75 anos, por seus corredores e enfermarias

1983

(Bispo Diocesano Dom Alberto Etges)

Neste ano, um aparelho muito comum nos dias de hoje aparece pela primeira vez nos Estados Unidos: o telefone celular. No mesmo período, o Grêmio Football Porto-Alegrense, de Porto Alegre, sagra-se campeão da América e campeão Mundial In-

terclubes. Na música, também, um artista atinge o seu ápice: o cantor norte-americano Michael Jackson bate todos os recordes de venda com o sucesso de Billie Jean. No Brasil, acontece o escândalo das Polonetas; o País concede empréstimo secreto de dois bilhões de dólares à Polônia, sem documentação, em nome da solidarie-


ção passou a ter 349. Ou seja, 60 profissionais foram demitidos. A comunidade franciscana era formada por 48 irmãs religiosas, que atuavam nos serviços internos do Hospital Santa Cruz. Mesmo com menos profissionais, o atendimento não fora atingido. Quanto a isso, Irmã Adiles até faz uma referência: “O hospital é muito grande e estamos bem no aspecto da infraestrutura para o futuro próximo, não havendo necessidade de construirmos novos pavimentos”, avaliou a Diretora. “O Hospital Santa Cruz é um marco na história da caridade nesta cidade e nesta região (...) Os pés de São Francisco deslizam mansos, faz 75 anos, por seus corredores e enfermarias (...) Raras vezes manifestamos, de público, o que significa para nós esta instituição de tanta relevância no campo hospitalar, tão nossa ela é, tão familiar aos nossos sentimentos de santa-cruzenses, tão evidente que ela exista, tão impensável de não existir (...) À grande e benemérita família do Hospital Santa Cruz, neste jubileu de 75 anos, o nosso reconhecimento, nossos votos, as mais escolhidas bênçãos de Deus.” (Dom Alberto Etges, Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul, Gazeta do Sul, 21/05/1983).

UM RETRATO A instituição, em números, no ano de 1983 Auxiliares de enfermagem Atendentes de enfermagem

45 96

Demais funções

199

Irmãs religiosas

48

Irmãs religiosas inativas Enfermeiras de nível superior Técnicas de enfermagem Auxiliares de enfermagem Cargos diversos

14 7 3 2 22

REGISTRO: Irmã Adiles, durante solenidade realizada no Hospital Santa Cruz por ocasião dos 75 anos da casa

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dade operária. Em Santa Cruz do Sul, o jornal Gazeta do Sul exibe em sua matéria de capa o aniversário da histórica caminhada de uma instituição: “Hospital Santa Cruz faz 75 anos”. O título vem acompanhado de uma foto do imponente prédio. E o mesmo periódico continua: (...) o Hospital Santa Cruz cumpriu seu papel, transpôs barreiras, modernizou-se e cresceu para servir melhor a toda uma comunidade (...) Em seis páginas de reportagem, o jornal faz um resgate histórico da entidade, desde sua fundação, em 1908; retrata sua evolução e transcreve a crise que se abatia não só no Hospital Santa Cruz como em outras entidades e empresas de todo o Brasil. Na instituição, a Diretora e Administradora Irmã Adiles fez uma avaliação da situação financeira, comparando-a com os tempos de fundação. “Naquela época, as exigências eram muito menores do que hoje (1983). O corpo de enfermagem, por exemplo, não necessitava de especialistas e muita coisa era improvisada. Mesmo na parte técnica, aparelhos e equipamentos, tudo era mais simples do que agora” (Gazeta do Sul, 21/05/1983). O relato da Irmã Adiles revela a conjuntura econômica pela qual o Hospital Santa Cruz estava passando. Era uma crise que levou a instituição a tomar algumas medidas. Além de desativar a ala da Pediatria, houve a limitação do horário de funcionamento do Centro Cirúrgico, que passou a atender somente na parte da tarde e em casos de urgência. O quadro de pessoal também fora reduzido. De 409 funcionários, a institui-


“Como trocar uma metrópole por uma cidadezinha que ainda engatinhava em seu desenvolvimento?”, perguntavam a ele Quando o recém-formado Carlos Alberto Kämpf trocou a então longínqua São Caetano, na zona metropolitana da cidade de São Paulo, por Santa Cruz do Sul, seus colegas o chamaram de “louco”. “Como trocar uma metrópole por uma cidadezinha que ainda engatinhava em seu desenvolvimento?”, perguntavam a ele, na época. E o novato médico sempre tinha uma resposta bem contundente: “Eles não entendiam que aqui (Santa Cruz) estavam meus parentes, minha família. Foi aqui que eu nasci.” Hoje, aos 72 anos, e com a lucidez de um menino, ele tem o prazer de exibir em uma das salas de sua casa, que mais parece um museu de relíquias, muitas fotos, certificados, homenagens e até mesmo duas lajotas de cerâmica vindas da Alemanha, e que já fizeram parte do Hospital Santa Cruz. São essas preciosidades que fazem parte da vida dele há 45 anos, desde 1963, quando decidiu voltar para a sua terra. E é este mesmo homem, Dr. Carlos Alberto Kämpf, quem conta um pouco da sua história nas linhas que seguem.

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Memórias

de um médico Carlos Alberto Kämpf *

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asci em Santa Cruz, de pais e avós santacruzenses. Ainda no primário, quando meus pais perguntavam o que eu seria quando adulto, respondia sempre que estudaria Medicina. Formei-me em Medicina no ano de 1961. Como

não havia nenhuma residência médica no Rio Grande do Sul, fomos entre sete colegas a São Paulo, onde já tínhamos razoável conhecimento devido aos inúmeros cursos de férias lá efetuados. Assim, em janeiro de 1962 iniciei a residência de Ginecologia no serviço Professor Ayres Neto da Santa Casa de São Paulo e de Obstetrícia na Casa Maternal Leonor Men-

des de Barros. Fui convidado para me manter a trabalhar no Hospital Nossa Senhora da Pompéia, em São Caetano, onde efetuava plantões. Ao término da residência, recebi convite para permanecer como sócio no Hospital de São Caetano, que oferecia atendimento para as indústrias que se estabeleciam no ABC paulista. Por habilidade de meu pai, re-


parte dele o que eu havia cobrado para os dois. O segundo fato ocorreu no verão. No estacionamento havia apenas quatro vagas cobertas para automóveis. Como sabia que um dos colegas estava ausente, de férias, coloquei meu Fusca azul na vaga e fui atender um parto. Eis que chega o colega fazendo com que abandonasse a sala de parto, exigindo que o fizesse de imediato. O Hospital Santa Cruz não possuía radiologista e anestesista, serviços efetuados pelas irmãs Francita e Corona. Não havia UTI, nem serviço de hematologia. O bloco cirúrgico constava de duas salas chamadas azul e verde. A única sala de parto situava-se no andar térreo e a maternidade tinha oito quartos privativos e uma enfermaria. Com a vinda dos colegas Morsch e Átila, resolvemos trabalhar em equipe, contratando a auxiliar cirúrgica Marli Wilges. Com a chegada das demais especialidades foi construída a nova

ala do Hospital Santa Cruz, inaugurada em 1973. Contávamos com bloco cirúrgico, obstétrico, berçário, ambulatórios, centro de radiologia, novo laboratório de análises clínicas, modernas lavanderia e cozinha. As novas gerações encontraram facilidades em um hospital mais amplo e com maiores recursos. Com a socialização da medicina, tivemos que enfrentar novas dificuldades, principalmente a falta de vagas para a internação de pacientes do INAMPS, uma vez que o hospital recebia cota mensal fixa. Sendo durante 10 anos médicochefe do serviço, procurava resolver o problema com a colaboração do coordenador-chefe do Estado, que oferecia cotas extras. Assim chegamos até hoje ainda trabalhando nos dois hospitais de Santa Cruz do Sul. *Especialista em Ginecologia e Obstetrícia

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gressei a Santa Cruz, não aceitando a oferta a mim feita. Na época, trabalhavam na cidade 11 médicos, sendo eu o décimo segundo. Era abril de 1963. Para fazer parte do corpo médico do Hospital Santa Cruz, era costume apresentar-se nos diversos consultórios aos colegas que quase sempre argumentavam que havia médicos demais na cidade. Abri consultório na segunda-feira após a Páscoa de 1963. O que muito me favoreceu foi o convite do senhor Walter Hennig, diretor-presidente da Fábrica de Cigarros Sinimbu, para atender no ambulatório médico daquela indústria. Logo no início, dois fatos inusitados aconteceram. Tendo que operar de úlcera perfurada um dos meus primeiros clientes, solicitei auxílio de um colega mais velho e de muito prestígio. Como não havia planos de saúde, cobrei os nossos honorários conforme tabela da Associação Médica Brasileira. Ao acertar com o colega, esse cobrou como sendo a


Nunca mandamos uma pessoa pobre para casa sem atendimento recorda a Irmã Marta Utzig, sobre o trabalho realizado no Hospital Santa Cruz

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Irmãs acima de tudo

As cinco irmãs: Bernardete Konzen, Lúcia Matte, Lucila Hoscheidt, Marta Utzig e Zélia Kipper

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inco irmãs. Mais parecem anjos, de tão angelicais. Conhecidas pelo seu carisma e pelo jeito afável de tratar as pessoas, sempre deixaram marcas nos corações em todos os lugares por onde passaram. Em Santa Cruz do Sul não foi diferente. Mais do que legar boas sementes, salvaram vidas. Quando os santa-cruzenses mais precisaram, foram elas as samaritanas que atenderam ao

chamado e o cumpriram, devidamente, com a missão que lhes fora conferida: servir. Servir, porque são discípulas de São Francisco. O mesmo que, em sua estada na terra, no século XIII, amparou pobres e doentes. E elas, com a mesma generosidade, também o fizeram. A diferença é que elas continuam vivíssimas. Vivas enquanto religiosas e vivas na memória de muitos dos santa-cruzenses. E se o Hospital Santa Cruz completa 100

anos de história, em 2008, 95 deles devem-se a essas divinas senhoras. Mas não só a elas. Essas cinco, na verdade, representam todas as demais religiosas-enfermeiras que aliviaram sofrimentos, sararam feridas, amenizaram dores, deram esperança aos desesperançados. Renunciaram, muitas vezes, a si mesmas, para doarem-se aos outros. Irmã Lúcia Matte, hoje com 79 anos, relembra emocionada casos


Uma vez chegou no hospital uma mãe com uma criança no colo, desesperada. Ela pediu ‘Irmã, salva meu filho’. Ele estava convulsivo. Eu peguei a criança, banhei, dei umas gotas de novalgina e o menino, aos poucos, foi cedendo àquela convulsão. Eu fiquei realizada vendo a felicidade daquela mãe e com a melhora do filho (Depoimento da Irmã Lúcia Matte)

(Depoimento da Irmã Zélia Kipper)

(Depoimento da Irmã Bernardete Konzen)

O povo ajudava muito com comida, animais, porcos, galinhas, com o que podia. Mas muita coisa a gente obtinha da chácara (Chácara das Irmãs), como leite, carne, frutas, verduras e legumes

Em uma outra ocasião chegou um pai, com uma menina de três anos de idade, de Venâncio Aires. A menina estava muito anêmica, parecia não reagir a nada que se fizesse. E aí apliquei uma medicação. Naquele tempo (1959), eram agulhas de metal. Depois, sentei ao lado da criança e fiquei esperando. Aos poucos, a criança veio a si e o pai dela gritou: ‘Irmã, a senhora salvou minha filha’. São momentos que a gente nunca esquece (Depoimento da Irmã Lúcia Matte)

Até o dia 1° de novembro de 1941, os pacientes eram carregados com uma tábua retangular, ou nas costas mesmo, para as salas de raio X, cirurgia, escada acima, escada abaixo. Isso terminou neste dia, com a inauguração do primeiro elevador do Hospital (Depoimento da Irmã Marta Utzig)

de enfermidades que passaram por suas mãos no período de 1959 a 1962. “São muitas as histórias”, diz. Em seguida, baixa a cabeça, tentando lembrar de alguma delas, que tenha marcado sua peregrinação no Hospital Santa Cruz. E lembra, como é possível conferir no box. Bernardete Konzen, 69 anos, é outra missionária que fala de Santa Cruz do Sul com muita satisfação. Com quase três décadas de dedi-

cação como diretora e chefe de Enfermagem da instituição, ela recorda com carinho o reconhecimento da população de Santa Cruz e da região. “A gente promovia quermesses a fim de angariar recursos para o hospital; e o povo sempre participou e ajudou muito”, declara a religiosa, comovida com as lembranças. “Na época (1970), não era fácil manter uma casa de saúde que precisava alimentar cerca de 200 pessoas todos os dias”, com-

plementa Bernardete. Apesar das dificuldades que surgiam e que logo eram supridas, segundo elas, com as graças de Deus e com a colaboração das pessoas, nunca deixaram de assumir o propósito que as guiava como missionárias. E se orgulham disso, com todos os méritos: “Nunca mandamos um pobre para casa sem atendimento”, garante Irmã Marta Utzig, 68 anos, 27 deles no Hospital Santa Cruz.

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Quando a cozinha do hospital exigiu reformas, nós passamos a preparar as refeições numa casinha, nos fundos do hospital. E como havia muitas goteiras, enquanto umas cozinhavam, outras duas irmãs ficavam com os guarda-chuvas abertos para proteger os caldeirões da chuva

(Depoimento da Irmã Marta Utzig)

As seringas de vidro eram fervidas e reutilizadas. As agulhas, sendo de inox, eram colocadas em álcool e eventualmente fervidas. Quando já estavam mal aparadas, eram afiadas em uma pedra de afiar


Santa Cruz, terra de missão “Quando lembro de Santa Cruz, lembro com intensa alegria” (Irmã Marta Utzig)

“Santa Cruz é a minha terra”, orgulha-se a religiosa Zélia Kipper. Sua terra de verdade. Zélia é santacruzense. Nasceu em Linha Santa Cruz e trabalhou durante 29 anos no Laboratório do Hospital. “Quando comecei (1963), a área física era muito pequena, as salas eram apertadas, mas sempre se conseguia fazer as coisas”, comenta a Irmã. Apesar das atribulações, a satisfação de ter contribuído com sua gente ainda permanece. “Posso afirmar, com toda a sinceridade, que os melhores anos de minha vida eu passei lá (no Hospital Santa Cruz)”, garante. A prova

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Onde estão elas Cheias de vida e de muita religiosidade, as Irmãs parecem mesmo seguir cidades cujo nome represente santidade. Primeiro foi Santa Cruz do Sul. Hoje, essas Irmãs Franciscanas trabalham em São Leopoldo, próximo à região Metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Mais precisamente, no Lar Santa Elisabeth. É um lugar encantador, com muito verde, flores, frutas de todas as espécies e uma intocável calmaria. Sob as bênçãos da Madre Madalena Damen, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas, a missão das religiosas continua a mesma: cuidar de enfermos e doentes. Também não deixam esmorecer a alegria. São felizes, especialmente, porque deixaram em Santa Cruz o mais abençoado de seus patrimônios: o hospital. “Com as exigências quanto à necessidade de modernização e a carência de vocações religiosas, não tínhamos mais forças para continuar”, justifica a Irmã Marta Utzig. “Foi a mão de Deus que nos ajudou a chegar até onde chegamos”, diz a religiosa.

de que os melhores anos foram realmente em terras santa-cruzenses aparece cada vez que é mencionado a elas o nome da cidade. “Quando lembro de Santa Cruz, lembro com intensa alegria”, revela Irmã Marta Utzig. É um sentimento que ainda permanece vivo, aceso. Tão intenso que hoje as irmãs religiosas ainda gozam de muita saúde e vitalidade, talvez como recompensa e graça pelas tantas vidas que salvaram na atual Capital do Fumo. Outra santa-cruzense que prestou serviços à instituição no período de 1965 a 1979 foi Lucila Hoscheidt, hoje com 73 anos.


A aquisição pela Apesc Quando da decisão de venderem o Hospital Santa Cruz, a maior preocupação das Irmãs era uma só: deixálo em “boas mãos”, como elas mesmas dizem. “Quando o vendemos para a Apesc, ficamos muito contentes. A gente sabia que o trabalho que vínhamos fazendo iria continuar”, relata a Irmã Marta Utzig. E não cansam de afirmar, com todas as letras e bênçãos: “Não queríamos que os pobres ficassem sem assistência”, diz Irmã Marta. “Quando nós vamos pra lá (Santa Cruz), percebemos a preocupação deles (da nova administração) em relação à capacitação profissional, à modernização dos setores, mas vemos que também não esqueceram da humanização. Isso nos deixa muito satisfeitas”, conclui Marta.

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BEM-ESTAR: Algumas imagens que traduzem situações do hospital no ano do centenário


Um alô, da Guatemala M

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inhas melhores e mais queridas lembranças que guardo sobre o trabalho no Hospital Santa Cruz são as de termos salvado muitas vidas, com a valiosa colaboração do corpo de enfermagem e dos médicos, bem como de todo o corpo funcional dos mais diversos setores. Alegra-me também o bom entrosamento que sempre mantivemos com todos os funcionários e com os médicos. Lembro do interesse de todos em melhorar cada dia o atendimento aos enfermos, participando ativamente nos encontros e nos dias de formação humana e profissional. Faço votos de que continue assim. As dificuldades foram muitas, especialmente financeiras, mas sempre tivemos alguém que nos estendesse a mão. Geralmente, a própria mantenedora teve que nos socorrer, e, assim, pudemos levar adiante esta nobre missão de salvar vidas. “Deus cuida”, dizia Madre Madalena, nossa querida fundadora, que nunca desistiu diante das mais diversas e maiores dificuldades, e isso sempre nos animava. Assim, Deus cuidou e continua cuidando do Hospital Santa Cruz e do seu povo, especialmente dos mais necessitados e do seu corpo funcional. Quanto à querida comunidade santa-cruzense, só posso dizer “Deus lhes pague, pela compreensão e pelo carinho que sempre demonstraram às Irmãs, bem como pelo apoio ao Hospital. Que Deus os abençoe e lhes dê muita Paz e que continuem apoiando essa casa centenária, que sempre prestou um valioso serviço à comunidade e à região. Muito obrigada e que Deus lhes pague por tudo! Sinto por não poder estar presente no dia solene dessa grande data. Mas daqui, bem distante, das montanhas da Guatemala, me faço presente com minhas orações, para que esse dia seja realmente um dia de júbilo, de gratidão a Deus, e um dia de uma grande CONFRATEREm artigo especial, Irmã Luzia NIZAÇÃO entre a comunidade hospitalar e comunidade local. Pickler, que hoje atua na Guatemala, lembra de sua trajetória afetiva e Parabéns! Felicidades! profissional junto ao Hospital Santa Cruz Quanto ao meu serviço aqui, na Guatemala, trabalho com a medicina alternativa, única proposta para que os pobres tenham acesso à medicina, à saúde, o que significa resgatar os princípios da cultura indígena – Maya. Esses índios, desde a antigüidade, se curavam com plantas medicinais, através da Mãe Terra. É um trabalho muito diferente daquele que fazia antes, mas me sinto muito gratificada e muito feliz por poder atender esse povo pobre, ainda muito discriminado e sofrido pelos anos de guerra civil. O povo Maya é muito acolhedor, respeitoso e religioso. Tem uma espiritualidade muito profunda. Não falam muito de Deus mas falam muito com Deus. Com saudades da minha terra, saúdo a todos(as). Meu abraço franciscano de Paz e Bem.

O


Capela Santa Helena, do Hospital Santa Cruz: Essa santa foi quem encontrou a Cruz de Jesus, em uma gruta, após a crucificação

A fé renovada

O

ambiente é de oração. E de celebração. Na esquina das ruas Marechal Deodoro com Fernando Abott, uma capela relativamente pequena, anexa ao Hospital Santa Cruz, recebe seus fiéis, todos os sábados, às 16 horas. São devotos assíduos. Entoam cânticos, motivam aplausos, fazem reflexões, meditam, numa singela combinação de espiritualidade e de muita animação.

O padre, entre um gole e outro de água cristalina, aos 72 anos hidrata sua vida como tenta irrigar a fé de seus seguidores. Álvaro Lenhardt é o seu nome. Sacerdote há 44 anos, a voz já um tanto rouca, quem o auxilia é o músico Abílio Piovesan. Este, com seu violão e com um coro bem afinado, motiva os peregrinos com igual fervor. A celebração não dura mais que um tempo de partida de futebol: 45 minutos. Período suficiente

para que cada participante consiga sentir a presença de seu mestre. O mesmo mestre que disse, conforme está em Mateus, capítulo 18, versículo 20: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles.” E é também por acreditar nessa profecia que os aplicados cristãos freqüentam a Capela Santa Helena, do Hospital Santa Cruz, desde sua fundação, em 7 novembro de 1922.

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Um hospital para todos Dom Sinésio Bohn Bispo de Santa Cruz do Sul

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Quando cheguei a Santa Cruz do Sul, em 31 de agosto de 1986, fiquei feliz ao ver o Hospital Santa Cruz. As Irmãs Franciscanas haviam construído essa casa de saúde com santo idealismo e com o apoio da população. Aos poucos, tomei conhecimento também das dificuldades. As Irmãs foram formadas para ver no enfermo a pessoa de Jesus: “Fui enfermo e me visitastes” (Mt 25, 36). Agora, porém, tinham que administrar, fazer investimentos, lidar com verbas federais – quase

sempre atrasadas e insuficientes. Também as relações com a sociedade tornaram-se complexas: os vários planos de saúde, o corpo clínico, os poderes Executivo e Legislativo, os organismos de participação da sociedade – indústria, comércio, sindicatos – e as Igrejas. Para ajudar as Irmãs, criamos um grupo de apoio. Como não havia verbas suficientes para atender aos pobres, o grupo de apoio sugeriu à direção que abandonasse o SUS para atender os pacientes que podiam pagar, pois o hospital caminhava para a falência. A Irmã Provincial foi decidida:

“Se não pudermos atender os pobres, não há mais sentido mantermos esta instituição”. E começou a busca de alternativas. Como nossa universidade (Unisc) tinha o plano de criar o curso de Medicina, mesmo que outras instituições oferecessem melhores vantagens financeiras, as Irmãs Franciscanas passaram o Hospital a ela. Foi o modo de o Hospital Santa Cruz continuar a atender a todos os enfermos, pobres e ricos. Assim, durante 100 anos, o Hospital Santa Cruz atende o povo da região. Merece a admiração, o apoio e o reconhecimento da sociedade e a bênção de Deus.


gerou bons frutos

S

e na atualidade o Hospital Santa Cruz tornou-se Pólo Regional de Saúde, é porque grande parte de seus méritos provêm de sua mantenedora: a Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (Apesc). A história da fundação e do crescimento dessa entidade de algum modo remete a uma parábola da Bíblia, em Mateus, capítulo 13, versículo quatro e seguintes: A semente, que caiu em terra boa, cresceu e produziu muitos frutos.

Na boa terra santa-cruzense, foram muitas as pessoas que, assim como as boas sementes, contribuíram para fazer da Apesc uma geradora de bons frutos. A primeira semente foi lançada em março de 1962, quando se deu o primeiro passo para a implantação da associação e, igualmente, do ensino superior em Santa Cruz. A partir desse momento, deu-se início a intensos trabalhos para a abertura dos primeiros cursos superiores na cidade, o que aconteceu em 1964,

quando houve a criação da Faculdade de Ciências Contábeis. Nos anos seguintes, houve a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e da Escola Superior de Educação Física, em 1980; além de novos cursos, como Letras, Pedagogia, Estudos Sociais, Ciências – Licenciatura Curta e Administração. Deram origem às Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul (Fisc), que, em 1993, viriam a ser reconhecidas como Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

Hospital Santa Cruz - 100 anos

A semente que

39


Instituições da Apesc Fiel à sua missão de promover o desenvolvimento regional, por meio de serviços de educação, saúde, preservação ambiental e comunicação social, a Apesc mantém outras instituições. Além do Hospital Santa Cruz, adquirido em 2003, ela também é mantenedora da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), da Escola de Educação Básica Educar-se, do Centro de Educação Profissional (Cepro) e da Fundação Teleunisc.

Todos os caminhos levam à Unisc

Hospital Santa Cruz - 100 anos

40

No ano do centenário do Hospital Santa Cruz, em 2008, uma das mantidas da Apesc, a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), completa 15 anos. Ela obteve o seu reconhecimento em 25 de junho de 1993. A instituição, que tinha 13 cursos naquele ano, registrou grande avanço no período subseqüente e atualmente conta com 46 cursos de graduação, seis mestrados e um doutorado. A maior expansão ocorreu na área da saúde, onde foram instalados os cursos de Psicologia, Enfermagem, Odontologia, Fisioterapia, Nutrição, Farmácia e Medicina.

O curso de Medicina A aquisição do Hospital Santa Cruz pela Apesc, em 2003, foi determinante para a implantação do curso de Medicina na Unisc, em 2 de fevereiro de 2006. Nesse ano foi realizado vestibular para o novo curso, e o Hospital Santa Cruz, que já acolhia estagiários de vários cursos da Unisc para exercerem suas práticas na instituição, passaria a receber também os acadêmicos de Medicina.

ESCOLA EDUCAR-SE Outra instituição mantida pela Apesc é a Escola Educar-se. Localizada junto à Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), utiliza 11 salas de aula e demais salas especiais, incluindo secretaria, direção, coordenação pedagógica e orientação educacional, além da infra-estrutura da UNISC.

CEPRO

Sempre com o objetivo de atender às necessidades de Santa Cruz do Sul e da região onde atua, a Apesc criou em novembro de 1999 o Centro de Educação Profissional (Cepro). Ele tem a finalidade de oferecer cursos técnicos em diferentes áreas, permitindo aos jovens conquistar uma profissão em menor período de tempo. Assim, têm ampliadas as suas oportunidades de obter espaço em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente. A preocupação da Apesc, no entanto, continua sendo a de aliar o conhecimento teórico-técnico à formação integral do aluno. Para isso, os currículos dos cursos técnicos oferecidos pelo Cepro apresentam um diferencial: incluem disciplinas que trabalham as diversas dimensões do ser humano, capacitando

profissionais, em nível de Ensino Médio, para atuarem em diferentes áreas, com competência, ética e humanismo. Assim, os cursos do Cepro, a exemplo da Unisc, proporcionam a formação de profissionais de que o mercado tanto necessita e que, dessa forma, contribuem para a promoção do desenvolvimento local e regional. Atualmente, o centro oferece 10 cursos técnicos.


ESTAGIÁRIOS DA UNISC E DO CEPRO NO HOSPITAL 1.

CURSOS

N° DE ALUNOS EM ESTÁGIO DURANTE 2007

1.

Enfermagem

251

Farmácia

FUNDAÇÃO TELEUNISC Instituída da Apesc, a Fundação TeleUnisc mantém a Unisc TV, emissora fundada em 1996. A programação é voltada a cultura, educação, saúde e notícias. Os programas são produzidos pelos acadêmicos do curso de Comunicação Social. A programação, que inclui documentários, pode ser conferida no canal 15 da NET.

30

Fisioterapia

103

Nutrição

35

Medicina

95

Serviço Social

14

Técnico em Enfermagem

116

Psicologia

4

Odontologia

1

Turismo

2

Administração

1

Ciências Sociais

2

Total

654

Fonte: Coordenação de Estágios da Unisc no Hospital Santa Cruz

Hospital Santa Cruz - 100 anos

41


Mantendo o espírito

franciscano “Estar trabalhando em uma instituição que completa 100 anos, é um momento único. É um presente que a vida dá.”

Q

Hospital Santa Cruz - 100 anos

42

uando o Hospital Santa Cruz foi adquirido pela Apesc, junto com ele permaneceu uma das herdeiras da empatia e da sensibilidade franciscanas. Não por acaso. Dóris Lazaroto conviveu com as religiosas por oito anos. Natural de São Pedro do Sul, uma singela cidade situada próximo a Santa Maria, em 1995 a já médica Dóris trouxe para Santa Cruz do Sul seu jeito especial em cuidar de vidas. No mesmo ano passou a atuar como professora do Curso de Enfermagem da Unisc e como médica do Corpo Clínico do Hospital Santa Cruz. No ano do centenário da instituição, Dóris relembra o que mais marcou sua trajetória até aqui, nesses 13 anos de envolvimento com a instituição completados em 2008: a dedicação e a ética profissional das irmãsenfermeiras. “O cuidado que elas tinham com

os pacientes era impressionante. Elas ficavam a noite inteira cuidando de um enfermo quando precisasse.” Desde 2003, Dóris Lazaroto é diretora médica do Hospital Santa Cruz e vê na natureza comunitária da Unisc o fator determinante em sua atuação como profissional da saúde. “Consegui trazer a cultura da universidade para dentro do hospital.” Inúmeros são os exemplos das iniciativas que a profissional de medicina conseguiu implantar na casa de saúde. “Minha primeira atitude foi criar comissões internas para integrar os profissionais na busca de objetivos comuns”, explica ela. Auxiliada pela direção do Hospital Santa Cruz e por seus colegas médicos, criou em sua gestão cinco comissões: comissão de medicamentos e terapêuticos; prontuários e óbitos; comissão de transplantes; de protocolos médicos e comissão de infecção hospitalar (inclusive com a contratação de um infectologista, que até 2003 não existia). “Conseguimos coordenar um processo de estímulo de desenvolvimento em todas as suas fases”, reforça Dóris. Essa postura de profissionalismo e de desprendimento no desenvolvimento das tarefas, nos mais diversos níveis, é marca de todo o corpo de trabalho do Hospital Santa Cruz. Impera na instituição um exemplo de humildade e de carinho no atendimento e na execução dos serviços, o que revela o espírito de equipe e de companheirismo em favor do bem comum e do bom atendimento à comunidade.


ito

o

HSC em Números

1 Anestesiologia

20 Ginecologia/Obstetrícia

2 Anatomopatologia

21 Hematologia

3 Acupuntura

22 Hemato Oncologia Pediátrica

4 Clínica Médica

23 Intensivistas

5 Cirurgia Torácica

24 Infectologia

6 Cirurgia Geral

25 Neurologia

7 Cirurgia Aparelho Digestivo

26 Neurocirurgia

8 Cirurgia Vascular Periférica

27 Neuropediatria

9 Cirurgia Pediátrica

28 Nefrologia

10 Cirurgia Maxilobucofacial

29 Oncologia

11 Cirurgia Cabeça/Pescoço

30 Oftalmologia

12 Cirurgia Plástica

31 Otorrinolaringologia

13 Cirurgia Oncológica

32 Proctologia

14 Cardiologia

33 Pneumologia

15 Cardiologia Pediátrica

34 Pediatria

16 Dermatologia

35 Psiquiatria

17 Diagnóstico por Imagem

36 Pneumologia Pediátrica

18 Endocrinologia

37 Traumatologia/Ortopedia

19 Gastroenterologia

38 Urologia

43

Quadro Funcional (abril 2008) Médicos Enfermeiros

Superior

Ensino Fundam.

Total

5

5

32

32

Técnicos de Enfermagem

Ensino Médio

190

190

Auxiliares de Enfermagem

17

11

28

Outros (técnicos-administrativos, serviços de apoio etc)

29

90

97

216

Total

66

297

108

471

Masculino

Feminino

Total

Médicos

3

2

5

Enfermeiros

1

30

31

Técnicos de Enfermagem

14

176

190

Auxiliares de Enfermagem

4

24

28

Outros (técnicos-administrativos, serviços de apoio etc)

61

156

217

83

388

471

Hospital Santa Cruz - 100 anos

Especialidades atendidas


Um passeio pela

casa de saúde

Conheça, ala por ala, a estrutura interna do Hospital Santa Cruz por ocasião de seu centenário

Hospital Santa Cruz - 100 anos

44

CENTRO CIRÚRGICO O Centro Cirúrgico do Hospital Santa Cruz reúne seis salas cirúrgicas, onde são desenvolvidos mais de 500 procedimentos mensais de pequeno, médio e grande portes. O local ainda engloba equipamentos de última geração e exclusivos na região do Vale do Rio Pardo. Um deles é o intensificador de imagens, que veio importado da Itália e permite que a imagem do ato cirúrgico seja vista em tempo real por meio de um monitor de TV. A unidade comporta ainda quatro oxicapnógrafos – aparelho que permite, por meio de um monitor multiparâmetro, o controle e o acompanhamento dos

batimentos cardíacos, pressão arterial, movimentos respiratórios e dos níveis de gás carbônico e saturação de oxigênio no corpo; um craneótomo – utilizado em intervenções de grande porte, como cirurgias de crânio; um facco – instrumento empregado nas cirurgias de catarata, capaz de reduzir o tempo da operação e de aumentar a eficácia da ação cirúrgica; e dois microscópios. Além desses equipamentos, o Centro Cirúrgico do Hospital Santa Cruz possui um sistema de vídeo que propicia a realização de procedimentos como cirurgia de vesícula, hérnia, correção de fluxo gastroesofágico


(fundoplicatura), correção de sudorese excessiva (simpatectomia torácica), histerectomia e colicistectomia. Todas as operações realizadas no Centro Cirúrgico do Hospital Santa Cruz recebem o suporte de três

autoclaves – aparelhos responsáveis pela esterilização dos materiais usados durante as intervenções –, o que garante maior agilidade aos trabalhos médicos e total segurança aos processos.

UTI NEOPEDIÁTRICA

UTI ADULTO A Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Santa Cruz foi inaugurada em 30 de junho de 1988. Disponibiliza oito leitos para o atendimento de pacientes em idade adulta. É equipada com respiradores, mo-

nitores multiparâmetros e outros aparelhos de última geração. Trabalha com equipe especializada – técnicos de enfermagem, enfermeiras e médicos – e conta com plantão 24 horas.

45 Hospital Santa Cruz - 100 anos

Inaugurada em 10 de abril de 1997, a UTI Neopediátrica dispõe de oito leitos para o atendimento de bebês e crianças. Foi inteiramente construída por meio de contribuições da comunidade e é uma das mais modernas do Estado. Conta com plantão médico 24 horas, além de enfermeiros e técnicos de enfermagem. Em virtude da realização do Programa do Ministério da Saúde denominado Método Mãe-Canguru, a visitação é ampliada aos familiares.


CDI Com o propósito de oferecer mais qualidade no atendimento para pacientes que necessitam de exames radiológicos, o Hospital Santa Cruz estruturou e implantou, no dia 1º de março de 2006, o Centro de Diagnóstico por Imagem (CDI). O CDI dispõe dos serviços de radiologia geral, ecografia, tomografia computadorizada, biópsia guiada por imagem e mamografia. O serviço está localizado no andar térreo do Hospital Santa Cruz. Atende pacientes internos e externos, convênios e particulares, das 7h30 às 19 horas, com plantão 24 horas para urgências/emergências.

Hospital Santa Cruz - 100 anos

46

RECEPÇÕES E EMERGÊNCIA Com o objetivo de qualificar o atendimento aos clientes, o Hospital Santa Cruz inaugurou no dia 9 de março de 2007 sua nova recepção. Ocupando cerca de 836 metros quadrados, a área, que foi construída e reformada, possui espaço amplo e bem-projetado para deixar mais tranqüilo quem precisa dos serviços hospitalares. O Hospital Santa Cruz investiu cerca de R$ 750 mil em obras. Na recepção, foram construídas duas entradas, devidamente identificadas, sendo uma para pacientes conveniados e particulares e outra destinada a receber pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou que necessitem de atendimentos de traumatologia. Também os serviços de urgência

e de emergência receberam entrada exclusiva, o que tende a diminuir a tensão e o fluxo no recebimento dos pacientes. Além da nova recepção, a área contempla dois consultórios para o atendimento a pacientes adultos; um consultório para atendimento pediátrico; uma sala de observação adulta; uma sala de observação pediátrica; duas salas para traumatologia; três salas de procedimentos e ainda salas de repouso para os funcionários e para os médicos plantonistas. Todos os materiais utilizados na obra, desde pisos até torneiras, foram cuidadosamente selecionados para que obedecessem às exigências da vigilância sanitária.


Estilo de trabalho CORAL: Apresentações proporcionam momentos de alegria e de cultura ao ambiente do HSC

Projetos permanentes realizados pelo Hospital Santa Cruz

Hospital Santa Cruz - 100 anos

47

Humanização Desde 2001, o Hospital Santa Cruz aposta em programas, projetos e ações voltados para a área da humanização. Nesse ano participou do Programa Nacional de Humanização na Assistência Hospitalar (PNHAH), do Ministério da Saúde. Em 2003, o programa passou a ser política, a Política Nacional de Humanização. No

ano de 2004 também fez parte da Política de Humanização da Assistência à Saúde (PHAS), da Secretaria Estadual de Saúde. Com base nas diretrizes, nos métodos e dispositivos da PNH, o HSC nos últimos anos obteve muitos avanços, cujos princípios norteadores são: * Valorização da dimensão subjetiva e social em todas as práticas de

atenção e gestão no SUS, fortalecendo o compromisso com os direitos do cidadão, destacando-se o respeito às questões de gênero, etnia, raça, orientação sexual, e às populações específicas (índios, quilombolas, ribeirinhos, assentados); * Fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a grupalidade;


Hospital Santa Cruz - 100 anos

48

* Apoio à construção de redes cooperativas, solidárias e comprometidas com a produção de saúde e com a produção de sujeitos; * Construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos implicados na rede do SUS; * Co-responsabilidade desses sujeitos nos processos de gestão e de atenção; * Fortalecimento do controle social com caráter participativo em todas as instâncias gestoras do SUS; * Compromisso com a democratização das relações de trabalho e com a valorização dos profissionais de saúde, estimulando processos de educação permanente. Através de seu Grupo de Trabalho de Humanização (GTH), o HSC busca promover ações internas de sensibilização e de conscientização quanto à necessidade de humanização na relação com pacientes e com seus familiares.

Gestante, conheça a maternidade Conhecer e se familiarizar com o ambiente hospitalar e com a equipe de enfermagem antes do parto, além de saber dos projetos e dos serviços oferecidos pelo Hospital Santa Cruz na área materno-infantil, é essencial para que a gestante possa ter estada tranqüila e ideal. A instituição oferece esse serviço. É só agendar previamente a visita, por telefone. O projeto teve início em agosto de 2004. Curso de Orientações para a Hora do Parto: Além de percorrer todas as instalações da Maternidade, a paciente obtém informações cedidas por uma profissional da enfermagem sobre o que acontece na hora do parto e sobre questões específicas

referentes à gestação. Essa ação acontece de forma quinzenal e alternadamente nos turnos da manhã e da tarde.

Leite materno faz bem Por meio do projeto SIAMA – Serviço de Incentivo ao Aleitamento Materno –, idealizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), apoiado pelo Ministério da Saúde, o Hospital Santa Cruz oferece, permanentemente, orientações às gestantes ou puérperas, desde o momento da internação até a alta, sobre a importância do aleitamento materno. Para isso, o hospital conta com profissionais capacitados, que desenvolvem o Serviço na Maternidade, no Centro Obstétrico, na Unidade de Cuidados Intermediários e na UTI Pediátrica, em parceria com acadêmicos do Curso de Nutrição da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), que prestam orientações diariamente. As mesmas orientações são fornecidas à comunidade em geral, quando da participação do Hospital

Santa Cruz em feiras de saúde e em eventos do gênero, sempre de forma gratuita.

Mãe e filho sempre juntos Outra iniciativa do Hospital Santa Cruz é o projeto chamado Alojamento Materno. A instituição oferece, de forma gratuita, alojamento conjunto para a mãe que já tenha recebido alta da maternidade, como forma de garantir a manutenção do contato ininterrupto com o filho recém-nascido e seu aleitamento, evitando prejuízos ao vínculo afetivo entre ambos ou à recuperação do bebê. Por meio do atendimento humanizado, respeitase a individualidade e a subjetividade de cada bebê e de sua família.

Alimentação gratuita para acompanhantes O Hospital Santa Cruz fornece, gratuitamente, café da manhã, almoço e jantar às mães que acompanham seus filhos, internados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nas unidades de Pediatria, na UTI Pediátrica e no


Projeto Nascer O Projeto Nascer, também oferecido no Hospital Santa Cruz, tem por meta fortalecer as medidas para o controle da transmissão vertical do vírus HIV e da sífilis. Essas ações, em nível nacional, são de responsabilidade da Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids. O gerenciamento estadual é feito pela Coordenação Estadual de DST/Aids e o gerenciamento, em nível local, pelos coordenadores estaduais e municipais dos referidos programas.

O Hospital Santa Cruz foi indicado pelo Ministério da Saúde para participar do programa, com o objetivo de coletar dados estatísticos sobre a quantidade de brasileiras que chegam à mesa de parto sem saberem que estão contaminadas pelo vírus HIV, pela sífilis ou pela hepatite, em virtude do fato de não terem realizado o pré-natal. O estudo possui grande importância, uma vez que a descoberta do HIV no início da gravidez poderá impedir a contaminação da criança através do tratamento correto. Assim, o HSC realiza coletas de sangue, no momento do parto, enviando-as ao Ministério da Saúde para análise.

EM AÇÃO A participação do Hospital Santa Cruz se concretiza, ainda, através das seguintes atribuições: * Fornecimento à gestante, na alta hospitalar, da prescrição de fórmula láctea, juntamente com o Cartão da Criança e com orientações de uso; * Envio, para a Coordenação Estadual de DST/Aids, da solicitação de insumos para manutenção de estoque

mínimo de profilaxia, a fim de suprir a demanda mensal de gestantes HIV+ e recém-nascidos expostos; e * Envio, para a Coordenação Estadual de DST/Aids, dos relatórios mensais de usos dos insumos para profilaxia da TV do HIV e uso do teste rápido. Além disso, o projeto agrega parcerias com: - Programa Criança de Risco; - Investigação do índice de abortos; - Investigação da prematuridade; - Agendamento para puericultura; e - Visitação ao Centro Obstétrico das gestantes oriundas dos postos de saúde, com posterior orientação quanto ao trabalho de parto e ao puerpério.

Desenvolvimento dos bebês O Método Mãe-Canguru, modalidade de assistência neonatal, preconizada pela Norma Brasileira de Atenção Humanizada ao RecémNascido de Baixo Peso, implica contato pele a pele precoce entre a mãe e o filho, de forma crescente e pelo tempo que ambos entenderem ser prazeroso e suficiente, permitindo dessa maneira participação maior dos pais no cuidado do seu recémnascido. O objetivo é estabelecer maior apego, segurança, incentivo ao aleitamento materno e melhor desenvolvimento da criança. Dentro desses preceitos, o Hospital Santa Cruz desenvolve as seguintes atividades: - Recebimento e acolhimento do recém-nascido de baixo peso na UTI Pediátrica; - Livre acesso dos pais à UTI Pediátrica, para permanecer junto ao leito do filho; - Orientação aos pais, pela equipe

49 Hospital Santa Cruz - 100 anos

Alojamento Materno. Dessa forma, não há a necessidade de se ausentarem do hospital, o que garante a manutenção do contato com os filhos, com benefícios visíveis na recuperação das crianças. Evita-se, também, o risco de infecções intestinais em virtude do mau acondicionamento da comida trazida de casa, além do acúmulo de alimentos nos quartos. Todas as refeições são elaboradas sob supervisão direta de nutricionista. Em 2007, foram servidas 8.893 refeições.


multidisciplinar, sobre a importância do método para o desenvolvimento da criança; - Referenciamento com agendamento para a rede de atenção básica (por meio do Programa Bem-MeQuer) de todos os recém-nascidos com baixo peso. As mães também são beneficiadas com alojamento e refeições, de forma totalmente gratuita, a partir de critérios de seleção pré-estabelecidos.

Redução da mortalidade infantil

Hospital Santa Cruz - 100 anos

50

Outro programa implantado no Hospital Santa Cruz é o Bem-MeQuer. É uma iniciativa desenvolvida pela Secretaria Municipal de Saúde de Santa Cruz do Sul, com o objetivo de promover a qualidade de vida da população, através da ampliação e da implementação de ações nas áreas de saúde, educação, assistência social e habitação, com o apoio da sociedade, que visam à diminuição da mortalidade infantil. O Hospital Santa Cruz contribui com o programa através do envio periódico das DN’s (Declaração de Nascidos Vivos) à secretaria, que posteriormente as avalia e classifica os riscos. O hospital, após os partos, providencia agendamento de consultas de revisão (de sete a 10 dias), para todos os recém-nascidos, junto ao posto de saúde mais próximo de sua residência. Quando se trata de criança com risco (prematura), o agendamento é feito junto ao Centro Materno-Infantil (Cemai). Todas as consultas são marcadas no momento da alta da parturiente, pela equipe do hospital.

Menos tempo de internação O Programa Saúde em Sua Casa,

desenvolvido pelo Hospital Santa Cruz, tem por objetivo o acompanhamento e a orientação de saúde em domicílio para pacientes carentes, portadores de doenças crônicas e degenerativas, acamados (crianças, adolescentes, adultos e idosos), integralizando seus aspectos biopsicossociais, econômicos e culturais e proporcionando assistência nas áreas preventivas, curativas e de reabilitação. Em convênio firmado com a Prefeitura de Santa Cruz do Sul, em 29 de dezembro de 2003, o programa foi implantado com vigência prevista para até 60 meses. O atendimento domiciliar acontece nos diversos bairros da cidade, com exceção dos moradores das áreas de abrangência do Programa de Saúde da Família (PSF). A equipe é composta por um médico, dois enfermeiros, uma assistente social, um técnico de enfermagem e um motorista.

Terapia Nutricional Você sabe o que é Terapia Nutricional? Ela tem o objetivo de identificar pacientes que tenham indicação de suporte nutricional, bem como

de direcionar a respeito da escolha da melhor via de terapia nutricional, seja por via oral, enteral ou parenteral. Esse trabalho é realizado por uma Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional, que conta com a participação de médico, nutricionista, enfermeiro e farmacêutico, entre outros colaboradores. A equipe tem por rotina a triagem nutricional de todos os pacientes internados, a avaliação de risco nutricional, a indicação da terapia para paciente de alto risco e o acompanhamento até a alta.

Serviços Assistenciais Partindo do princípio de que o objeto do serviço social hospitalar centra-se nas condições psicossociais que envolvem a doença, sua intervenção ocorre nas relações sociais dos pacientes e todas as ações buscam auxiliar na resolução e na minimização dos aspectos de caráter negativo que uma hospitalização pode desencadear. Para isso, criou-se o Projeto de Serviço Social e Voluntariado. No ano em que o Hospital Santa Cruz completa um século de história, foram realizados diversos eventos.


Orientação sobre reaproveitamento de resíduos Com o objetivo de promover e de desenvolver ações entre colaboradores, visitantes, pacientes e seus acompanhantes, com relação à importância da segregação de resíduos gerados no Hospital Santa Cruz e na comunidade, de forma a reutilizar/reciclar a maior quantidade possível, minimizando o volume de resíduos infecto-contagiosos, que necessitam de tratamento diferenciado, foi criada a Comissão Interna

de Gerenciamento dos Resíduos do Serviço de Saúde. Entre as atribuições da Comissão está a disponibilidade de lixeiras identificadas com as características dos resíduos a serem descartados (inorgânico rejeito, inorgânico reciclável, orgânico e séptico). Em todas as unidades estão afixados cartazes que orientam sobre o tipo de resíduo e onde devem ser descartados.

Processamento de roupas O Hospital Santa Cruz, através de sua Lavanderia, presta serviço de processamento de roupas, de forma absolutamente gratuita, à Liga Feminina de Combate ao Câncer e ao Plantão de Urgências da Prefeitura Municipal – Postos de Saúde e Centro Materno Infantil (Cemai). Em 2007, foram processados 7.952 quilos de roupa.

Conscientizar para a doação de órgãos A criação de uma Comissão IntraHospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) é o primeiro passo a fim de que um hospital possa ser credenciado, junto ao Ministério da Saúde, para a captação de órgãos. Desde janeiro de 2005, o Hospital Santa Cruz, que já possuía uma comissão interna, constituiu e capacitou, através da Central de Transplantes do Estado do Rio Grande do Sul, nova equipe multidisciplinar, cuja autorização para captação foi liberada em 2005. O objetivo é gerenciar o processo de captação de órgãos dentro do hospital, abordar as famílias de potenciais doadores (em estado de morte encefálica) e disseminar, interna e externamente, através de ações educativas, o funcionamento

do programa. Fazem parte da Comissão: uma médica (coordenadora), duas enfermeiras do Centro Cirúrgico, enfermeiras da UTI Adulto, da UTI Pediátrica e do Serviço de Auditoria Interna; psicóloga e assistentes sociais. Também fazem parte, de forma indireta, médicos locais, que, em conjunto com os médicos da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul, realizam as cirurgias para a retirada dos órgãos.

Vozes da esperança Geralmente a casa de saúde é o templo do silêncio. De repente transforma-se em um coro de louvor. São 25 vozes que ressoam pelos corredores do Hospital Santa Cruz, como se as mesmas fossem de magos e pastores querendo levar mensagens de otimismo, prece e, sobretudo, alegria. É assim há cerca de oito anos. O Coral Aliança Santa Cruz, de Santa Cruz do Sul, faz periodicamente suas visitas aos enfermos na instituição hospitalar. Ao primeiro tom musical, todos se agrupam, em sinal de unidade e fé. Assistem e ouvem, comovidos, canções sacras e populares. A visita é breve. Mas a recompensa é tão grande que, sempre ao final de cada apresentação, cantores e espectadores se saúdam, sorriem e, a um só tempo, as mãos se transformam em instrumento de gratidão por meio de aplausos. O solista Maurício Luis Hanzen, de apenas 11 anos de idade, é o mais jovem do grupo e o mais satisfeito de todos. “É bom trazer alegria para os doentes”, diz ele. No ano do centenário do Hospital Santa Cruz, talvez este seja o melhor presente para a instituição: receber seus filhos, que um dia serão pais e que para sempre vão carregar consigo o carinho e o reconhecimento pelos serviços prestados na instituição.

51 Hospital Santa Cruz - 100 anos

* Para arrecadação de fundos, foram promovidos briques internos com roupas, calçados, brinquedos e outros objetos, cuja verba arrecadada foi revertida integralmente em ações voltadas aos pacientes carentes internados; * A partir de doações recebidas da comunidade e de instituições, além da aquisição de algumas peças pelo Hospital Santa Cruz, formam-se continuamente enxovais para recém-nascidos, que são lavados, organizados e distribuídos de forma totalmente gratuita a pacientes carentes; * Também ocorre, regularmente e de forma gratuita, a destinação de roupas a pacientes adultos em situação emergencial (acidentados, carentes etc), identificados nas visitas dos voluntários aos quartos e às unidades; * Além das atividades mencionadas, desenvolvidas em conjunto com pessoas vinculadas ao projeto Parceiros Voluntários, o setor de Serviço Social coordenou, ao longo do ano, as seguintes atividades, também realizadas por voluntários: organização e controle da biblioteca; leitura para crianças da pediatria; reiki em crianças da UTI Pediátrica; visitas aos pacientes nos quartos; cortes de cabelos; manicure e pedicure, entre outras.


Dados Estatísticos

O Hospital Santa Cruz, em números

Total 2007 Média Diária

Nº de Leitos

65700

Internações

10053

Internações-dia

41992

% Geral de Ocupação

180

4,18

Cirurgias Totais

6186

Cirurgias Pacientes Internados

3361

Cirurgias Pacientes Externos

2825

Partos normais e cesáreos

1329

diversos aspectos da rotina hospitalar: - 899 internações/mês; - Mais de 2.700 atendimentos ambulatoriais/mês;

63,91%

Média de Permanência (dias)

O HSC mantém índices positivos em

- Média mensal de 124 partos; 17

- Em torno de 560 cirurgias de pequeno, médio e grande porte/mês; - Quase 25 mil refeições servidas a pacientes,

4

acompanhantes e colaboradores/mês;

Nº de nascidos sexo masculino

716

- 481 colaboradores;

Nº de nascidos sexo feminino

629

- 167 médicos no corpo clínico;

Atendimentos Ambulatoriais

199

- 58 plantonistas, com cerca de 70%

285758

783

integrando o corpo clínico;

52

Desjejum

44843

- 37 especialidades atendidas;

Hospital Santa Cruz - 100 anos

Refeições Servidas

72753

Almoço

57369

- 180 leitos;

Lanche

55648

- 63% dos atendimentos pelo SUS.

Jantar

38070

Ceia

46350

Mamadeiras

39693

Nutrição Enteral

2717

Outras

1068

Roupas Processadas (kg)

279387

765

Materiais Esterilizados

424328

1162

Nº Funcionários

457

Corpo Clínico

170

ATENDIMENTOS

Em 2007, o Hospital Santa Cruz realizou os seguintes atendimentos médico-hospitalares a pacientes internados e ambulatoriais: Internações-Dia Atendimentos ambulatoriais Nº % s/Total Nº % s/Total Sistema Único de Saúde (SUS)

27.190

64,75%

17.963

24,69%

Particulares/Demais Convênios

14.802

35,25%

54.790

75,31%

Total

41.992

100,00%

72.753

100,00%


Com

todas as forças 53 Hospital Santa Cruz - 100 anos

O

atual vice-diretor Clínico do Hospital Santa Cruz, Ricardo Eick, em 2009 completa 20 anos de serviços prestados à instituição. Ele lembra que, na década de 1990, quando o hospital passava por uma tempestuosa realidade financeira, não mediu esforços para motivar empresas, pessoas e instituições a fim de angariar recursos e dar continuidade na assistência à população. “A comunidade sempre atendeu aos nossos apelos quando o hospital passou por problemas financeiros”, reconhece. A aquisição por parte da Apesc, em 2003, é o que, segundo ele, deu novo vigor a todos os profissionais de saúde. “Hoje, temos transparência total no que se refere à administração, os funcionários são bem-tratados, os médicos são ouvidos e tudo isso gera O médico Ricardo Eick empenhou-se maior segurança e tranqüilidade em trabalhar num ambiente asem mobilizar a comunidade local e regional no momento em que o hospital vivenciava sim. Quem ganha com isso é a população.” situação difícil Ricardo Eick iniciou suas atividades médicas no Hospital Santa Cruz em março de 1989, no dia da inauguração da UTI Adulto. OS DIRETORES Foi também Coordenador do Controle de InMédicos que já foram diretores do Corpo Clínico desde fecção Hospitalar, quando ainda não existia que essa representatividade foi estabelecida, em 1969: um Infectologista, e duas vezes atuou como Lauro Brasil Schwengber (falecido) Diretor Clínico da instituição. Ricardo é clíniGilberto Hoeltz co geral e especialista em Medicina Interna e Lidio Irineu Rauber Intensiva. Assim como o Dr. Ricardo, todo o Corpo Paulo Roberto Jucá Clínico do Hospital Santa Cruz sempre foi Tibiriça Cecim Segala reconhecido por sua extrema dedicação e por Milton Pokorny seu profissionalismo no desempenho das taRicardo Eick refas. O HSC firmou, perante a comunidade Geraldo Richter regional, a imagem de instituição que, junCarlos Alberto Fischer Petterson tamente eficiência do seu Corpo Clínico em cada pequena tarefa a ser desenvolvida, tamFábio André Tornquist bém fortalece muito os laços humanos com o Tatiana Kurtz (atual) seu público.


Muita responsabilidade Diretora clínica Tatiana Kurtz

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Tatiana Kurtz é especialista em Pediatria e Terapia Intensiva Pediátrica e há 12 anos atua nessa área no Hospital Santa Cruz. Mas não pense você que a missão dela é só cuidar dos pequeninos. Desde agosto de 2007, Tatiana é diretora clínica da instituição. Ou seja, ela tem a responsabilidade de zelar para que os 170 médicos da casa de saúde possam prestar boa assistência aos seus pacientes. “O atendimento ideal precisa conciliar uma estrutura moderna com um caráter humanizador”, destaca. Tatiana é a primeira mulher a ocupar o cargo, respondendo, assim, pelo Corpo Clínico do Hospital Santa Cruz. Todos os outros 11 diretores que a precederam foram homens. “Não vejo isso como uma conquista, porque eu entendo que homem e mulher

devem caminhar lado a lado, como bons profissionais, e sempre buscando políticas públicas para a promoção da saúde”, comenta. Tatiana Kurtz também é Mestre em Desenvolvimento Regional.

Um olhar técnico Diretor-técnico Paulo Roberto Laste

“Como profissional da área da saúde, é apaixonante trabalhar em uma instituição como é, hoje, o Hospital Santa Cruz.” A declaração é do especialista em Urologia Dr. Paulo Roberto Laste. Ele ingressou no Hospital Santa Cruz em 2003 e no ano seguinte assumiu a função de diretor-técnico, o que lhe atribui a responsabilidade por todos os procedimentos realizados pelos profissionais da área da medicina. Para o Dr. Paulo, a ligação com a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) é fundamental para a melhoria em todos os setores. “O hospital vive seu melhor momento e isso se deve ao planejamento estratégico e às metas estabelecidas”, avalia o médico.


quem precisa

No Hospital Santa Cruz, crianças e adolescentes contam com a atenção especial que suas idades exigem, incluindo sala de recreação e biblioteca

U

ma iniciativa diferenciada desenvolvida no Hospital Santa Cruz há quatro anos é o Projeto Atenção à Saúde da Criança e do Adolescente (Pasca). Estão envolvidos nas ações acadêmicos e professores dos cursos de Enfermagem, Odontologia, Educação Física e Medicina da Unisc. As atividades são realizadas

na sala de recreação e na biblioteca localizadas junto ao setor Pediatria, e em leitos tanto do setor Pediatria quanto da Maternidade. A instituição disponibiliza livros e brinquedos, e as crianças são estimuladas através de recursos lúdicos para a continuidade de suas atividades recreativas e educativas, transformando a experiência da hospitalização em uma oportunida-

de de desenvolvimento contínuo e de superação das angústias. Além disso, são desenvolvidas ações de educação em saúde, com enfoque prioritariamente preventivo, cativando a criança e seus acompanhantes, na pediatria; e igualmente na maternidade, com as mães de recém-nascidos e seus familiares. Em 2007, participaram dessas atividades 2.024 usuários.

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Carinho para

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Caminhada em favor do Hospital Santa Cruz tomou as ruas da cidade em outubro de 2007 e motiva campanha que tem continuidade em 2008

Vista esta camiseta...

P

elas ruas de Santa Cruz do Sul, é difícil encontrar alguém que não vista essa camiseta. Não só porque ela é leve, em tom azul claro, gostosa de se vestir. Não também pela letra S, de Santidade, bemestampada na frente, o que poderia fazer os mais fanáticos acreditarem em uma crença na santificação pelo simples fato de vesti-la. Quase todo mundo veste, porque, o Hospital Santa Cruz, assim como ja está no nome, é uma instituição abençoada. E privilegiada. Privilegiada porque faz parte de

uma comunidade que é solidária desde 1908 e que, até agora, no ano do seu centenário, dá demonstrações de união e de sensibilidade. Era um sábado de outubro, dia 27, no ano de 2007, pela manhã, quando uma multidão resolveu trajar o mesmo uniforme e caminhar pelas ruas do Centro da cidade. Agiam como se fossem uma espécie de servidores de uma mesma instituição. Mas não eram somente servidores. Lá estava toda uma comunidade revestida de carinho. Era a origem de uma campanha que tinha por objetivo representar, por meio de alguns passos, a trajetória do Hospi-

tal Santa Cruz. E representar também a modernização e a expansão que já estavam sendo promovidas por sua mantenedora, a Apesc. Por isso, a comunidade sentiu-se comovida e decidiu retribuir. “Esta caminhada é algo que vale a pena, pois reafirma o quão importante é o Hospital Santa Cruz para todos nós”, disse o bancário Lair Ipê da Silva, na época, ao jornal Gazeta do Sul. A campanha continua em 2008. E com igual ou maior fervor. A aura da comunidade santa-cruzense, por mais que ela seja na maioria das vezes iluminada, nunca esteve tão azul.


Com firmeza e

com sutileza

U

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ma coisa é certa: no ano do centenário do Hospital Santa Cruz, todos os nascidos naquela instituição se sentem muito mais ligados à instituição. Luiz Augusto Costa a Campis é um exemplo disso. É só mencionar o Hospital Santa Cruz, que toda sua trajetória de vida vem à tona. Uma história que teve seus primeiros registros ainda no berço, mais precisamente na maternidade do Hospital Santa Cruz, em 23 de novembro de 1956. Nessa data, o então menino Luiz Augusto torna-se, assim como todos os demais que lá soltaram seu primeiro chorinho, moralmente aliado à instituição. É como se houvessem ficado vínculos com a mãe e também com a maternidade. “Aqui é como se fosse uma espécie de casa da gente”, revela ele. Quarenta e dois anos depois, em 30 de junho de 2003, o ex-garoto, como reitor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e presidente da Associação Pró-Ensino de Santa Cruz (Apesc) foi um dos responsáveis pela mobilização e pela aquisição do Hospital Santa Cruz por parte da associação. “Na verdade”, ressalta Luiz Augusto, “a compra do hospital é fruto de um trabalho de muitas pessoas que se empenharam desde 1962, quando da fundação da Apesc”, reconhece ele, com a modéstia de um líder impregnado pela natureza comunitária da instituição que presidiu por oito anos. Hoje, Luiz Augusto Costa a Campis é pró-reitor de Extensão e Relações Comunitárias da Unisc. E continua comprometido com as duas áreas mais louváLuiz Augusto Costa a Campis, ex-reitor da Unisc, nasceu no Hospital veis de desenvolvimento de um ser humano: saúde Santa Cruz e hoje contribui para o e educação. “Fico muito feliz por ter participado e desenvolvimento da instituição por ainda estar participando desse processo.”


Uma família por Hospital Santa Cruz - 100 anos

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N

ão seria possível celebrar o cen- Deus deu ele pra nós.” Um presente de Natal, segundo tenário do Hospital Santa Cruz ela, que chegou antecipado, em 21 de dezembro de 1954, sem contemplar uma família sob o nome de Bolívar Guedes. tão numerosa quanto a granUm bebê choroso, de quatro quilos e meio e que logo deza do trabalho desenvolvido pela instituição. Mesmo na adolescência mostraria toda sua força no que é até hoje que as medidas de grandeza, nesse caso, não se dêem so- a paixão da maioria dos brasileiros: o futebol. “Chorava mente por números. Mas uma família, em especial, pode todos os dias quando o Bolívar saiu de casa para jogar”, representar todas as famílias relembra Iracema. Era o ano santa-cruzenses que tiveram de 1968 e o “Boli” – assim Me sinto privilegiado por ter nascido chamado pelos pais: seu Caseu primeiro sopro de vida no Hospital Santa Cruz. em Santa Cruz, porque amo estar margo, já falecido, e dona IraE a família Guedes é uma nessa cidade e desfrutar de seus lugares e estar cema – iniciou sua carreira no delas. A protagonista e pre- sempre ao lado de meus familiares e país do futebol. “Eu tinha 14 cursora dessa história tem amigos anos quando fui para as caalma viva, tem saúde e tem tegorias de base do Grêmio, (Fabian Guedes) nome: Iracema Dornelles em Porto Alegre”, recorda o Guedes. Apesar dos 82 anos ex-jogador, Bolívar. completos, ela ainda lembra da Irmã Rosa, religiosa que a Mas dona Iracema e seu Camargo tiveram mesmo auxiliou a se tornar mãe em 10 de novembro de 1950. Na- somente dois filhos. Por que não mais, Iracema, numa quele dia, nascia Vera Maria Guedes. Quatro anos mais época em que era muito comum as mesas das famílias tarde, no mesmo ano em que se encerrava a história de estarem abençoadas por muitas crianças? “Que esperanvida do então presidente Getúlio Vargas, Iracema teve ça!”, diz ela. “Naquele tempo, a gente era muito pobre e seu segundo filho. “A gente queria tanto um menino, que não tinha como sustentar mais que isso.”


todas as famílias A segunda geração

moça loira, de olhos azuis, em 1° de abril de 1974. “Foi numa segunda-feira”, relembra Iracema. “As lojas de Santa Cruz fecharam para ver o casamento dele; graças a Deus, meu filho sempre foi muito querido pelo povo daqui”, conta ela. Da união de Bolívar e de Leilane nasceu Fabian, em 16 de agosto de 1980, também na maternidade do Hospital Santa Cruz. Um menino que o pai Bolívar só viu 30 dias depois daquele primeiro choro. “Eu jogava na Inter de Limeira (SP) e não tive como acompanhar o nascimento dele”, lembra Bolívar.

A terceira geração Sorte maior teve o filho de Bolívar, Fabian Guedes, duas décadas depois. Na data de seu aniversário, quando completara 20 anos, Fabian recebera o melhor dos presentes. “Eu estava concentrado para uma partida dos juniores do Grêmio, quando recebi uma ligação dizendo que a Verônica (Pereira Guedes) estava indo para a sala de parto. Vim a Santa Cruz e tive a felicidade de chegar a tempo no Hospital Santa Cruz. Consegui agarrar meu filho quando a enfermeira perguntou quem era o pai. É um momento que jamais vou esquecer”, relata Fabian. Atualmente, aos 27 anos e atuando pelo time do Mônaco, da França, apesar de estar ao lado da esposa e dos filhos Tales, de sete anos, e Victória, de seis meses, ele não esquece a Capital Nacional do Fumo. “Quando escuto o nome da minha terrinha, me vem logo a alegria de uma cidade contagiante e que amo muito”, revela o jogador. A paixão por Santa Cruz do Sul é muito presente em toda a família Guedes. A senhora Iracema Dornelles Guedes que o diga. Hoje, com dois filhos, cinco netos e cinco bisnetos, o que daria um time de futebol com direito a treinador, ninguém está mais faceira do

que a mãe, avó e bisavó Iracema. “Valeu a pena todo sacrifício. Hoje, tenho orgulho da minha família; tenho orgulho pelo fato de o Hospital Santa Cruz estar tão bonito e tão completo. Todo o povo de Santa Cruz está de parabéns”, afirma. Mas a história da octagenária Iracema não acaba por aqui. Assim como a caminhada do Hospital Santa Cruz fica dessa forma registrada em virtude dos 100 anos de atividade, a vó Iracema também deseja registrar a sua. Se daria um bom livro? Daria. “Só não deixa eu ficar muito velha senão posso esquecer das coisas”, finaliza, bem-humorada.

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Apesar de a educação formal não ser prioridade nos tempos áureos da jovem Iracema Guedes, a consciência de planejamento familiar estava muito presente nela. “Eu era muito medonha. Comecei a trabalhar já com 12 anos”, orgulha-se ela. Foi assim que a vida de Iracema melhorou: com muita disciplina e com muito trabalho, que perdurou por 37 anos em uma fumageira da cidade. E os dias ficaram ainda melhores diante do sucesso profissional do filho Bolívar Guedes nos gramados. Este casou-se com Leilane, uma


Uma ilustre moradora

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“Ela sempre fica assim quando chega alguém”, comenta Luís. Com tanto tempo de casa, obviamente, histórias é que não são poucas na memória da respeitosa Ondina. “Lembro muito bem das irmãs (franciscanas). Elas eram muito queridas comigo”, recorda-se a hóspede, com uma lucidez inquestionável. Lucidez que também a faz cuidar muito de si. É a vaidade sem um resquício de pecado. Exemplo disso ocorreu no aniversário de 17 de junho de 2007. Antes da festa, veio um pedido: “A senhora queria pó-de-arroz, né, vó?”, certificase Luís. Ela só balança a cabeça, em sinal afirmativo, divertindo-se com a lembrança. Em sua escrivaninha ao lado da cama, cremes, desodorantes e escova de cabelo se perdem em meio a um caderno de anotações, fotos e um livro para leitura. E um outro detalhe: ela dispõe de dois espelhos, um quadrado e um oval, para que as freqüentes visitas também apreciem sua aparência. “Gosto que as pessoas venham me ver. Aqui todo mundo me quer bem.” Seu único problema é o de não conseguir se movimentar sem seu par de muletas. São elas, aliás, que a conduzem todos os dias até a janela do seu quarto, de onde pode avistar os fundos da Catedral São João Batista e o movimento de pedestres que circulam pela recepção do hospital, a quem muitas vezes acena. “Tem que viver assim para não ficar velha”, brinca ela. Pois é exatamente assim que ela se sente: uma moça, com fantasias da meninice e que tem a maior família do mundo: os mais de 400 funcionários do Hospital Santa A senhora Ondina Pereira Borges, de 88 anos, há mais de 15 anos tem no Hospital Santa Cruz a sua casa e nos funcionários a sua família Cruz.

ontar a história do Hospital Santa Cruz e não retratar a vida de Ondina Pereira Borges seria como descrever uma flor e não mencionar seu aroma. Ou, então, falar de uma paixão e não revelar seus encantos, pois na humilde trajetória de Ondina, paixões é que não faltam. A principal, aliás, são os amigos que ela acolhe todos os dias na instituição, há 15 anos. “Aqui, é como se fosse minha família”, diz ela. Ondina não tem parentes, nem família. Mas tem alegria. Alguém que cruza pelos corredores da ala São Francisco e casualmente ouve umas discretas risadinhas, pode apostar: é ela. E todos que a conhecem se perguntam: como pode um ser humano, apesar de seus 88 anos, mostrar-se tão vivo, tão presente? Ondina é a prova de que isso é possível. Toda vez que o assistente social Luís Carlos Dick “dá as caras” na porta do quarto de número 401, é ela quem se antecipa e cumprimenta: “oi, Luís Carlos!”, diz, com uma alegria de menininha.


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MOMENTOS: Situações de quatro ambientes do Hospital Santa Cruz no ano do centenário da instituição


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Uma questão de

missão Presidente da Apesc e reitor da Unisc, Vilmar Thomé vê no Hospital também uma forma de levar adiante a missão das duas instituições

S

e fosse um romance, a história de aquisição do Hospital Santa Cruz pela Associação Pró-Ensino de Santa Cruz do Sul (Apesc) poderia ser resumida em duas linhas: a união da natureza comunitária da instituição de ensino com o caráter humanista da Congregação das Irmãs Franciscanas. Um casamento perfeito. Mas com ares de separação. Enquanto uma assumiu e outra foi embora, a que ficou deixa-se impregnar pelo que houve de mais importante nos 95 anos de missão frente à entidade hospitalar por parte das religiosas: o senso de humanidade. Uma filosofia que tem tudo para permanecer eterna. Ainda mais que aos dois fatores citados inicialmente somam-se a modernização da instituição hospitalar e a constante capacitação dos profissionais que lá atuam. É o que sugere o presidente da Apesc e reitor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Vilmar Thomé. “A nossa missão é oferecer educação e saúde de qualidade”, resume o presidente. Sendo assim, é bom para


foram protagonistas destes avanços. Mas ainda há muito por fazer”, afirma. Thomé acrescenta ainda um outro projeto, paralelo ao Projeto Hospital de Ensino. “Até 2011, queremos construir o Centro Clínico, no terreno de três mil metros quadrados que temos disponível no Hospital Santa Cruz.” De acordo com Thomé, o Centro Clínico será implantado na esquina das ruas Marechal Floriano com a Senador Pinheiro Machado, em formato de “L”. No investimento constam uma área comercial, espaços para serviços, consultórios e estacionamento. Em 2012, a Apesc completa 50 anos de história. Se tudo isso for concretizado, haverá muito o que comemorar. Para que aconteça, ainda destaca Vilmar Thomé, o segredo estará na união: “Contamos com a colaboração de todos.”

Projeto Hospital de Ensino Cronograma de ações * Resoluções de questões emergenciais (atualização de salários; pagamento de contas; ajuste de contas com fornecedores; capacitação para a equipe de enfermagem e administração; manutenções pendentes; compras de móveis e utensílios; modernização na entrada do hospital – recepção).

o Hospital Santa Cruz, e melhor ainda para os usuários que precisam dos seus serviços. “A comunidade está feliz com o nosso trabalho. E ele é fruto de um esforço coletivo, de muitas pessoas envolvidas, e de uma caminhada que vem se construindo desde a fundação da Apesc, em 1962”, relembra Thomé.

Os mandamentos da nova gestão Há praticamente cinco anos o Hospital Santa Cruz foi adquirido pela Apesc. Quando esta o assumiu, 10 prioridades foram imediatamente elencadas. Reunidos são o nome de Projeto Hospital de Ensino, uma dezena de compromissos foram assumidos, e metade deles já foram realizados. O presidente da Apesc, Vilmar Thomé, orgulha-se em apresentar esses resultados. E faz questão de reafirmar que, segundo ele, isso não teria sido possível sem a parceria de todos os envolvidos. “Todos os que colaboraram

2005/2006 * Inovações nos setores de Urgência e Emergência; Implantação da área de ensino (salas de estudo, espaços de convivência e ambulatórios).

2007 * Melhorias e modernização dos serviços já implantados (Laboratório de Análises Clínicas; Banco de Sangue e Centro de Diagnóstico por Imagem)

Projeções para 2008/1 * Implantação dos serviços de Litotripsia Extracorpórea, Medicina Nuclear, Ressonância Magnética e Hemodinâmica.

Projeções para o período 2009-2011 * Ampliação e reforma do Bloco Cirúrgico (tem cinco salas e passará a ter seis); UTI adulto; UTI pediátrica; Conjunto de investimentos nas unidades de Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, e Hotelaria (alas São Francisco, Santo Antônio e Santa Clara).

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2003/2004


Carisma e autenticidade D

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a cidade de São Leopoldo, onde se encontram atualmente, algumas das Irmãs Franciscanas que trabalharam no Hospital Santa Cruz mandam um recado bem incisivo: “Amem os seus doentes.” Amar, para elas, significa acolher, zelar, amparar. As Irmãs podem ficar tranqüilas, pois isso está sendo feito na casa de saúde. A herança humanista deixada por elas é quase uma ordem a ser seguida na instituição. E mais. A partir da aquisição do Hospital Santa Cruz pela Apesc, vários setores foram reestruturados e modernizados, novos equipamentos foram adquiridos e a capacitação profissional é uma constante. Quem garante, com a empatia de um frade, é o diretor-geral do Hospital Santa Cruz, Oswaldo Luis Balparda. “Ao mesmo tempo em que qualificamos o ensino e a pesquisa, com a atuação de estagiários da área da saúde da Unisc, melhoramos o atendimento”, esclarece. Carismático como profissional e autêntico em suas ações, Balparda não esquece de reconhecer o trabalho realizado pelas religiosas no período que precedeu a aquisição pela Apesc. “Durante os 95 anos, completados em 2003, temos que admitir também a competência de todas as pessoas que assumiram o hospital até então, pois os desafios foram muitos”, diz o atual diretor. Balparda ainda avalia a atual circunstância da instituição como um processo em transição. “O hospital está, sim, de cara nova. Mas não só em estrutura. Ele ainda é feito por pessoas qualificadas”, ressalta. Oswaldo BalpardA: diretor geral do Quanto às perspectivas para o futuro, ele não manifesHospital Santa Cruz revela a profunda identificação entre todas as atividades na ta dúvidas: “Temos que conciliar equilíbrio financeiro casa de saúde com prestação de serviços de qualidade. A população tem muito carinho pelo hospital e temos a obrigação de corresponder a esse sentimento”, finaliza Balparda.

Cem Anos HSC