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Revista Oficial da Associação Brasileira de Música e Artes

Edição 39 Ano 9

10 tendências que vão remodelar o mercado 7FKBBTNVEBOÎBT FOPWJEBEFTEPNFSDBEP EBNÞTJDB

Direito de imagem &OUFOEBP DPODFJUPEF %JSFJUPEF *NBHFN

Crédito Retido &OUFOEBDPNPGVODJPOB

In Memoriam 5SBKFUØSJBEF %PSJWBM$BZNNJ

Bruno

Caliman Mauro Ferreira entrevista Bruno Caliman, um dos maiores compositores do Brasil


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Editorial

Esta edição da revista Abramus traz como matéria de capa uma entrevista feita pelo jornalista do O Globo, Mauro Ferreira, com o compositor Bruno Caliman, que fala sobre sua carreira, seus sucessos e projetos para o futuro. Você também verá nas páginas a seguir assuntos muito importantes relacionados a música e ao direito autoral. Relembraremos em “In Memoriam” a carreira de um dos maiores gênios da música brasileira, Dorival Caymmi. Na Coluna Jurídica, a advogada Paula Menezes, escreve sobre Direito de Imagem, tema recorrente e que gera muitas dúvidas aos artistas. Na seção “Grandes Compositores” você saberá de Roberta Miranda, a rainha do sertanejo. Em “Mercado” vamos falar das 10 Tendências que vão remodelar o mercado da música. Teremos também um artigo especial falando sobre como morar legalmente nos Estados Unidos, para artistas que desejam viver no país dentro das normas legais. Em “Direito Autoral” explicamos um pouco mais sobre créditos retidos e como funciona o processo de liberação. Na seção Ponto de Vista, a cantora e compositora, Vânia Abreu, que também faz parte do Conselho de Associados da Abramus, fala sobre o envolvimento do artista nas questões burocráticas da sua carreira. E tem muito mais. Espero que tenham uma proveitosa e excelente leitura! Roberto Menescal, Presidente da Abramus

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In Memoriam

A trajetória de um dos maiores artistas que o Brasil já teve, Dorival Caymmi

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Artigo Especial

A advogava de imigração Renata Castro explica como artistas podem morar legalmente nos EUA

Direito Autoral

Entenda como funciona o processo de liberação de seus Créditos Retidos

Foto: Gonzalo Krings

Saiba mais sobre o álbum de estreia do cantor e compositor Pretinho da Serrinha e a cobertura Assembleia da SCAPR no Brasil

Foto: Max Ottoni

Foto: Isabela Kassow

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Notícias


Sumário

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Grandes Compositores

A história da rainha do sertanejo, Roberta Miranda

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Mercado

10 tendências que vão remodelar o mercado da música

Capa

Mauro Ferreira entrevista um dos compositores de maior destaque do cenário nacional, Bruno Caliman

Coluna Jurídica

A advogada Paula Menezes fala sobre Direito de Imagem

Foto: Rafael Cerqueira

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Ponto de Vista

Vania Abreu fala sobre o envolvimento do artista nas questões burocráticas de sua carreira

Expediente Edição: Comunicação Abramus Redação: Priscila Perestrelo e Agência Métrica Projeto Gráfico e Diagramação: Junior Soares Pauta e Revisão: Priscila Perestrelo, Junior Soares, Gustavo Vianna e Luiz A. Dantas Braga Jornalista Responsável: Priscila Perestrelo

Comunicação Abramus: Rua Castro Alves, 713 Aclimação - São Paulo/SP CEP: 01532-001 Telefone: (55 11) 3636.6900

©2019 A Revista Abramus é uma publicação trimestral com tiragem de 3 mil exemplares. Direitos reservados. Proibida a reprodução parcial ou total sem autorização.


Foto: Marta Azevedo | Capa: Luisa Annik

| Notícias

Conheça o novo trabalho de Pretinho da Serrinha

O

primeiro CD ninguém esquece. E no caso do primeiro CD do Pretinho da Serrinha, ele já nasce inesquecível. São muitos os motivos, mas podemos destacar de cara o fato de ser um disco revelador de uma origem, que não está só na pessoa do seu intérprete, mas no que ele traz junto com ele. Seus tesouros, suas heranças, seu passado e suas perspectivas artísticas para o

presente e futuro. Sem aquele clichê desnecessário, às vezes meio que forçando uma barra, de estar “levando adiante a bandeira do samba”. Nāo. Isso nāo é título que se outorga. Isso é coisa que se conquista na prática, e além do mais, Pretinho se coloca além dos rótulos. Ele é essencialmente um músico, no que isso pode significar de mais abrangente. E a prática do Pretinho da 06

Serrinha em seus poucos anos de profissional já disse ao que veio jogando em várias linhas do campo. Instrumentista, compositor, comentarista de TV, produtor e agora cantor em disco. Este álbum revela algumas das intenções musicais do Pretinho, sem amarras e com muita ambição artística, como podemos comprovar em faixas como “Paratodos”, “Galope” e “Som de Madureira”.


Som de Madureira

Foi muito natural, o músico puxou o compositor, que puxou o intérprete Como foi para você a transição do seu trabalho de músico e compositor para intérprete? Foi muito natural, o músico puxou o compositor, que puxou o intérprete. Toda vez que eu chegava em algum lugar, me pediam pra eu cantar minhas músicas e quando percebi, já estava na linha de frente. Como foi a escolha do repertório? Esse álbum começou muito antes do estúdio, eu já estava pensando bastante e na hora que demos o start, eu já tinha toda minha história na manga. Eu tinha o desejo de regravar Aragão, Chico Buarque, Gonzaguinha e a dupla Carica e Prateado. Zumbi a escolha foi minha, as outras regravações foram ideias do Prateado que é o produtor do disco. Como você escolheu as participações especiais do seu álbum? Afinidade com a minha história musical. Você pretende lançar futuramente outros álbuns como intérprete? Já estou em estúdio preparando quatro novos singles, a primeira sai no início de agosto.

Os diminutivos carinhosos disfarçam a grandeza que o nome artístico Pretinho da Serrinha carrega. Na realidade se traduz como a história do negro carioca criado na Serrinha, reduto do Império Serrano, uma das mais importantes páginas da história cultural do Rio de Janeiro. Com tanta gente importante vinda de lá é natural que venha agora Pretinho da Serrinha, e nesse processo, Mestre Darcy do Jongo é uma lembrança inevitável. Pretinho da Serrinha acerta no alvo quando convida o Prateado para arranjar as canções, outro negro que desceu os morros cariocas para se estabelecer no mercado de forma brilhante. Ouvir este trabalho é ter um encontro com o que nossa juventude musical carioca está trabalhando. Pretinho é um deles, e aí arrisco um rótulo, ao dizer que Pretinho se apresenta como uma discreta liderança, aglutinando, reverenciando os mais velhos, e mandando um determinante “vamos em frente gente”, com o melhor jeitinho carinhoso de ser do Pretinho da Serrinha. Por Cláudio Jorge

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| Notícias

Assembleia SCAPR no Brasil

A

Fotos: Gonzalo Krings

Abramus e SCAPR (Conselho das Sociedades de Gestão Coletiva de Direitos Conexos) promoveram em São Paulo, entre 14/05 e 16/05, a 44ª Assembleia Geral da SCAPR. Esta reunião, que discute os assuntos relacionados ao direito conexo no mundo, ocorre anualmente e, pela primeira vez, foi realizada em um país da América Latina. Neste encontro estiveram presentes sociedades de direitos conexos de todo o mundo, entre elas a PPL (Inglaterra) SENA (Holanda) AIE (Espanha) , RAAP (Irlanda), GVL (Alemanha), ADAMI (França) SAMI (Suécia), GDA (Portugal), PROPHON (Bulgária), GRAMEX (Dinamarca), ACTRA (Canadá). A SCAPR é uma organização sem fins lucrativos e representa 59 sociedades de Direitos Conexos de 42 países. Seu objetivo é a busca pelo aprimoramento e excelência na distribuição de Direitos Conexos aos artistas e de ferramentas de câmbio de dados entre os países. A Abramus se mantém engajada com as principais e mais importantes organizações internacionais de Direitos para o trabalho de seus associados serem sempre valorizados e remunerados devidamente.

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| Grandes Compositores

Roberta Miranda

Foto: Guto Costa

R

oberta Miranda, consagrada como a Rainha do Sertanejo pelo público, 33 anos de carreira e mais de 22 milhões de discos vendidos, se filiou à Abramus recentemente. A cantora começou a compor muito jovem, quando poucas mulheres atuavam nesta área e lutou muito para seguir seu sonho de viver da música. Nascida em João Pessoa (PB), Roberta Miranda mudou-se para São Paulo aos oito anos de idade. Era a única mulher entre três irmãos e sempre teve o sonho de ser cantora e compositora. Pelo desejo de sua família seria professora, assim como seus irmãos seriam, mas a sua vontade de compor e cantar era maior que tudo isso. No bairro de São Miguel Paulista, onde a família foi morar, descobriu que Hermeto Pascoal morava na sua rua e passava horas na casa do artista assistindo-o trabalhar. No colegial trocava as aulas na escola para praticar violão. Aos 16 anos, começou a cantar em bares, casas noturnas e bailes. Começou abrindo shows do Beco e do Jogral, em São Paulo, que eram redutos da Bossa Nova na época. Fez a abertura dos shows para Fafá de Belém, Rosemary e outros artistas. Neste período já tinha muitas composições e chegou a rejeitar propostas de vendê-las. Seu primeiro sucesso foi a música “De Igual para Igual”, gravada pela dupla Matogrosso e Mathias. Em 1985, alcançou o grande público e reconhecimento com a composição “Majestade o Sabiá”, gravada por Jair Rodrigues, que vendeu quase um milhão de cópias. No ano seguinte, lançou-se como cantora gravando seu primeiro LP, “Roberta Miranda”. As músicas em pouco tempo tornaram-se sucessos e o LP alcançou 1,5 milhão de cópias vendidas, recebendo discos de ouro e platina.

Em 1987, lançou seu segundo LP e alcançou quase um milhão de cópias vendidas conquistando o público em definitivo e deixando sua marca na música brasileira. Tornava-se também uma das compositoras mais requisitadas do Brasil. A partir daí, Roberta Miranda passou a reunir grande público em shows não só na cidade de São Paulo como no interior, e por todo o Brasil. Caiu nas graças do público e tornou-se a Rainha do Sertanejo. Roberta Miranda foi a primeira cantora da música brasileira a vender mais de um milhão e meio de discos no lançamento do primeiro álbum. É a quarta cantora brasileira que mais vendeu discos até hoje. Entre seus maiores sucessos estão: “A Majestade o Sabiá”, “De Igual pra 09

Igual”, “São Tantas Coisas”, “Vá com Deus”, “Meu Dengo”, “Sol da Minha Vida” e muitos outros. Em 2015, ganhou o 26º Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Cantora de Canção Popular. Roberta construiu ao longo dos anos uma carreira de sucessos e marcou seu nome na história da música sertaneja. É uma referência e abriu as portas para muitas artistas que hoje têm destaque no segmento, sendo a grande precursora do que hoje é chamado “feminejo”. Além do seu talento, seu carisma e autenticidade são a marca de sua personalidade que cativa o público e faz com que ela seja tão querida. Com diversos trabalhos consagrados, ela continua em atividade e tem música para lançar este ano e projetos futuros. Os fãs aguardam ansiosamente.


| Mercado

10 Tendências que vão Remodelar o Mercado da Música Por Pedro Targat, Agência Métrica

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último relatório do IFPI (International Federation of the Phonographic Industry) mostrou um crescimento do mercado fonográfico, além de grandes mudanças em seu funcionamento. Algumas tendências começam a dar dicas de como serão os próximos anos. O “Global Music Report 2019” – relatório com os dados do ano passado elaborado pela IFPI – reportou um crescimento nos lucros do mercado fonográfico, atingindo 19,1 bilhões de dólares. Porém, explicitou também grandes mudanças que podem ter um impacto profundo nos próximos anos. O Music Industry Blog, de Mark Mulligan, analisou essas mudanças definindo algumas tendências. Acompanhe as 10 principais mudanças para os próximos anos.

1. O Streaming está “engolindo” o Rádio: A audiência mais jovem está abandonando o rádio. O streaming é o canal de escolha desses jovens. Entre os 16 e 19 anos de idade, apenas 39% ouvem rádio, enquanto 56% escolhem o YouTube para ouvir música. A geração Z está desconectada da mídia tradicional, se você busca atingir esse público o rádio não é mais o caminho. Agravando esse cenário negativo para o rádio, os podcasts ganharam muito espaço, representando uma ameaça ao atingir um público mais velho, que está migrando para a plataforma mais moderna. 2. Preços ajustados no Streaming: Os conteúdos exclusivos da Netflix permitiram que seus preços conseguissem acompanhar a inflação, enquanto as plataformas de música ficaram abaixo. O desafio desses serviços é encontrar uma forma de agradar e fidelizar mais seus usuários, permitindo essa correção nos preços. O Spotify vem investindo em podcasts e talvez seja uma das saídas. 3. Pressão nos Catálogos: Os grandes selos musicais sempre tiveram como um fundo de investimento os catálogos parrudos de artistas e músicas. Porém, como os catálogos dos serviços de streaming são majoritariamente compostos por músicas deste século, se observa uma reversão nos valores. Hoje as Spice Girls valem mais que os Beatles. Essa inversão vai demandar muitos esforços de reavaliação de catálogos por parte dos grandes selos musicais.

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4. O Selo como Serviço (LAAS – Label as a service): Vivemos uma era de artistas independentes, que se apoiam em serviços como Amuse, Splice, Instrumental e CDBaby. Abre-se assim um espaço para uma terceira parte mediar a interação do artista com o público, fora do sistema tradicional. Os selos precisam se reinventar, explicitando para os artistas o seu valor e evitando uma evasão. Serviços como pessoal dedicado, mentoring e suporte de artistas e repertório (A&R) precisam ser melhor comunicados para os artistas.

No mercado antigo os superstars mundiais cantavam em inglês. No novo cenário poderemos ver uma divisão mais localizada das estrelas relevantes. É o caso do crescente cenário do rap na Alemanha, França e Holanda, com nomes locais que vêm roubando o espaço das grandes estrelas internacionais. 8. A Criatividade no Pós-Álbum: Cinco anos atrás, a maior parte dos artistas queriam fazer álbuns. Hoje, na era dos streamings, a tendência é abandonar este formato em prol de um sistema de singles frequentes lançados nas plataformas digitais que mantenham a base de fãs sempre interessada e engajada. Os álbuns ainda são importantes para os artistas já estabelecidos, mas se tornarão cada vez menos relevantes para a nova geração de músicos.

5. Disrupção da Cadeia de Valor: Além do LAAS, outras quebras na cadeia tradicional são visíveis. Todos querem ampliar sua participação no mercado, como os serviços de streaming assinando contratos diretamente com artistas e os selos lançando seus próprios serviços de streaming. A tendência é que essas mudanças se tornem cada vez mais complexas, em um cenário onde todos serão concorrentes em várias frentes.

9. A Economia no Pós-Álbum: Os selos precisam acelerar a sua adaptação ao cenário econômico pós-álbum, descobrindo como manter suas margens neste formato mais

O “Global Music Report 2019” reportou um crescimento nos lucros do mercado Como um compositor entra fonográfico, atingindo 19,1 bilhões de dólares

no mercado, rompe a barreira do sucesso, o que tanta gente quer e poucos conseguem? 6. A Expansão das Gigantes da Eu falo que eu fragmentado peguei duasde geração de receita, ao Tecnologia: Apple e Amazon sãofases. exemplos mesmo A fase do compositor quetempo tenta que continua realizando das grandes empresas de tecnologia queem camarim de investimentos entrar artista, cerca similares em marketing e na ampliam seus serviços, oferecendo todoem porta de hotel, construção da imagem do artista. Um grande artista joga fita no tipo de entretenimento, como filmes, muroséries da casa do artista,desafio! na garagem, e games. A música se torna apenas maisdo carro. E fiz parte também da dentro uma opção oferecida e vai precisar lutar para a internet, 10.que A Busca por um Novo Formato: Em 1999 transição é uma para conquistar a atenção do público mercado coisa neste mais atual, onde háo os canais de de discos estava a pleno vapor, se cenário ultracompetitivo. baseando emeum formato já bem divulgação em que você pode vender estabelecido mostrar sua música. Eu apareci porque,e sucedido, que não tinha um 7. Cultura Global: Os serviços deno começo da minha sucessor. carreira,Vinte eu anos depois nos encontramos streaming, especialmente o YouTube, em umnasci, cenário morava em Itamaraju, onde e similar com o streaming. Os impulsionaram a música latina para o feito algumas canções dias da troca tinha e dava parade formatos acabaram (como do mundo. Em breve poderemos vero omeu mesmo vinil para odos CD), afinal não usamos mais a vizinho gravar. Foi através movimento com a música indiana através mídia Porém, não tivemos uma artistas da minha região que fuifísica. ficando do Spotify com a T-Series. A resposta dos por artistas maiores. mudança no modo consumo de conhecido Foirelevante aos selos foi forçar colaborações de seus artistas música digital na última década. A música poucos. com artistas latinos. A dificuldade está em social pode ser um dos caminhos para inovar. se entender se é de fato uma tendência Os streamings conseguiram monetizar o global ou um reflexo de uma grande base consumo de música, agora é a hora de de fãs regionais. monetizar as bases de fãs. 11


| In Memoriam

N

ascido em Salvador (Bahia), no dia 30 de abril de 1914, Dorival Caymmi se interessou pela música ainda criança. Em sua casa, seu pai trabalhava como funcionário público e era músico amador, tocava piano, violão e bandolim. A sua mãe também tinha o hábito de cantar no lar. Ouvindo sua família, o fonógrafo, e depois a vitrola, seu gosto pela música foi crescendo. Ainda criança chegou a cantar em um coro de igreja, como baixo-cantante. Com a música constantemente presente em sua vida, sua vontade de compor também foi se manifestando. Em 1930, aos 16 anos, sem nunca ter estudado música e com seu violão que aprendeu a tocar sozinho, compôs sua primeira música: “No Sertão”. Aos vinte anos estreou como cantor e violonista em programas da Rádio Clube da Bahia. Em 1935, ganhou o programa “Caymmi e Suas Canções Praieiras”. No ano seguinte venceu um concurso de músicas de carnaval com o samba “A Bahia Também Dá”. Dois anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro com a intenção de conseguir um emprego como jornalista e estudar Direito. Na época, trabalhou como desenhista numa agência de publicidade e fez alguns trabalhos na imprensa, como no jornal Diários Associados. Mesmo assim, continuava a compor e a cantar. Em junho de 1938, Caymmi foi apresentado a um diretor da Rádio Tupi e estreou na rádio cantando duas músicas como calouro, mas sem contrato assinado. Ao apresentar suas canções, que desde o início valorizavam os costumes e tradições do povo baiano, começou a ter grande

destaque na rádio. Com isso, passou a cantar por dois dias na semana e aos domingos no programa “Dragão da Rua Larga”, que era um sucesso da rádio na época. Em um destes programas ele apresentou a música “O que é que a Baiana Tem”. A canção chamou a atenção de uma produtora de cinema que comprou os direitos da música para Carmen Miranda cantar no filme “Banana da Terra”, de Wallace Downey. A música trouxe o reconhecimento do seu trabalho como compositor e lançou Carmen Miranda em uma carreira no exterior. Em setembro de 1939, Dorival Caymmi lança “Rainha do Mar” e “Promessa de Pescador”. Em novembro do mesmo ano, começou a se apresentar na Rádio Nacional. Lá conheceu a mulher que foi sua esposa por toda vida, a cantora e caloura na ocasião, Stella Maris, com quem se casou em abril de 1940 e teve três filhos: Dinahir (Nana), em 1941, Dorival (Dori), em 1943, e Danilo, em 1948. Seu prestígio aumentava conforme suas composições tornavam-se conhecidas. Ainda no ano de 1939, sua música “O Mar” foi colocada na peça teatral “Joujoux e Balangandãs”, de Henrique Pongetti. Era um espetáculo beneficente promovido pela então primeira-dama Darcy Vargas, esposa do presidente Getúlio Vargas. Com isso, a sua notoriedade foi crescendo. Seu estilo de compor ressaltando as tradições populares e baianas já era uma marca. Em 1940 grava mais um de seus grandes sucessos: o “Samba da Minha Terra”. A composição, inspirada nos sambas de roda da Bahia, marcou na música brasileira um dos versos mais conhecidos reverenciando o samba: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou 12

Foto: Jav Reis

Dorival Caymmi


Foto: Max Ottoni

doente do pé”. No mesmo ano gravou “É Doce Morrer no Mar”, melodia que Caymmi fez para os versos do escritor Jorge Amado, do romance “Mar Morto”, e a canção de sua autoria “A Jangada Voltou Só”. O sucesso e o reconhecimento do trabalho de Caymmi cresciam e músicas como “Dora” (1945), “Rosa Morena” (1942) e “Peguei Um Ita no Norte” (1945) foram consolidando sua carreira e destacando seu talento. No final dos anos 40, passa a se dedicar ao samba--canção, com temas mais românticos e intimistas. A música mais representativa deste período é “Marina”, gravada em 1947 por Dick Farney. Em 1954 gravou “Quem Vem pra Beira do Mar”, “Pescaria (Canoeiro)”, “A Jangada Voltou Só” e “É Doce Morrer no Mar”, todas de sua autoria. No mesmo ano, lançou o LP “Canções Praieiras”, no qual regravou sucessos anteriores e a inédita “O Bem do Mar”. Entrou para a Rádio Record e morou em São Paulo no ano de 1955, fazendo vários shows na noite paulistana onde também já tinha um reconhecimento de seu trabalho. Em 1956, gravou mais um de seus sucessos, “Só Louco”. Voltou ao Rio de Janeiro e passou a se apresentar na boate 36, onde lançou o samba “Maracangalha”. O sucesso da música se estendeu até o carnaval do ano seguinte. No mesmo ano, foi escolhido pela revista “Radiolândia” como o melhor compositor do ano. Em 1957, gravou “Saudade da Bahia”, que bateu recordes de vendas. No mesmo ano, lançou o LP “Caymmi e o Mar”, com as participações especiais das cantoras Silvinha Telles, Lenita Bruno, Odaléa Sodré e Consuelo Sierra. Em 1960, gravou as canções “Eu Não Tenho Onde Morar”, “São Salvador”, “Rosa Morena” e “Acalanto”, com a filha Nana Caymmi. Em 1972, foi condecorado com a Ordem do Mérito do Estado da Bahia pela representatividade de sua música. Nesse mesmo ano, lançou um LP que trazia a “Oração da

Mãe Menininha”, homenagem à Menininha do Gantois. Na mesma época, compôs “Modinha para a Gabriela”, que foi interpretada por Gal Costa e baseada no romance “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado. Nos anos que se seguiram, Dorival Caymmi recebeu diversas homenagens pela sua obra. Em 1983 recebeu o Prêmio Shell da MPB, em espetáculo realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1984, aos 70 anos, foi condecorado em Paris pelo ministro da cultura francês, Jack Lang, com a Comenda das Artes e Letras da França. No ano seguinte, inaugurou em Salvador a avenida Dorival Caymmi. Em 1986, foi homenageado no carnaval carioca pela Escola de Samba Mangueira que foi a campeã do desfile, com um enredo baseado em sua obra. Neste ano também foi criado o Troféu Caymmi, que premiava talentos da música. Caymmi criou um repertório de sucessos no decorrer dos anos. Os intérpretes mais importantes gravaram suas músicas e sua obra inspirou gerações. Seu talento, estilo próprio e carisma conquistaram o público. Tornou-se uma grande referência e um dos maiores gênios da música brasileira. Dorival Caymmi faleceu no dia 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, no Rio de Janeiro. Em toda sua carreira ele compôs cerca de 130 músicas, gravou 20 LPs e também produziu ilustrações e pinturas da sua terra natal e dos personagens de suas músicas. Foram mais de 70 anos de dedicação à arte e um grande legado deixado na história da música. Sua presença permanece viva na cultura brasileira pela sua obra e também através da sua família atuante na música: os três filhos, Nana, Danilo e Dori, e as netas, Alice, Juliana, Marina e Stella.

Foto: Arquivo pessoal da família Caymmi | DR - Direitos Reservados

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Por Mauro Ferreira “A música retrata a sua época”

V

Foto: Rafael Cerqueira

ocê pode não conhecer Bruno Caliman, baiano nascido em 1976 em Itamaraju, no interior da Bahia, e atualmente residente em Vila Velha (ES). Mas certamente conhece alguma música deste compositor que vem emplacando sucessos na escala industrial exigida pelo universo sertanejo sem abrir mão de uma personalidade que seduz cantores como Luan Santana e Tiê. Nesta entrevista à revista da Abramus, o mais novo parceiro de Ana Carolina repisa os caminhos artísticos que o levaram ao topo das paradas, dá detalhes do processo de criação de uma canção e reflete sobre o mundo da música.

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Como você se descobriu compositor? A vida foi me dando sinais. Primeiramente na escola, com as redações. Depois, com as cartas de amor. E, na adolescência, com uma banda de garagem. Eu não tocava instrumento nenhum nessa banda. Falava que tocava o papel e caneta da banda. Eu era o compositor da banda. Por isso, participava dela. E, depois, vieram os trabalhos como os jingles. A vida sempre foi me mostrando que, com esse lado de escrever, eu me dava melhor. Você fala em trabalho com jingles, mas com que idade? Aos 18, 19 anos, a coisa começou a ficar mais séria. Mas, mesmo assim, demorou porque eu trabalhei muito tempo com os jingles, abafando esse lado de compositor. Lá pelos 25 anos, a coisa começou a andar mais.

Mas qual foi o ponto de virada, o momento que determinou que você iria realmente ultrapassar a barreira? Eu tive essa sensação clara quando eu fiz uma musiquinha para uma menina da minha sala e, com dois dias, estava todo mundo cantando essa música. Tenho uma lembrança muito especial disso. Com 13, 14 anos, levei um susto ao ver que todo mundo cantava um refrãozinho que fiz. Foi importante para mim. E, depois, foi importante quando os sertanejos me descobriram quando os CDs desses artistas “menores” do interior da Bahia começaram a chegar em São Paulo com músicas minhas. Tinha meu nome lá como compositor daquelas músicas. E por aí foi. Eu estudei cinema também, né? Depois dos 25, 26 anos. Isso também me

Como um compositor entra no mercado, rompe a barreira do sucesso, o que tanta gente quer e poucos conseguem? Eu falo que eu peguei duas fases. A fase do compositor que tenta entrar em camarim de artista, cerca artista em porta de hotel, joga fita no muro da casa do artista, na garagem, dentro do carro. E fiz parte também da transição para a internet, que é uma coisa mais atual, onde há os canais de divulgação em que você pode vender e mostrar sua música. Eu apareci porque, no começo da minha carreira, eu morava em Itamaraju, onde nasci, e tinha feito algumas canções e dava para o meu vizinho gravar. Foi através dos artistas da minha região que fui ficando conhecido por artistas maiores. Foi aos poucos.

ajudou com o roteiro (das canções). Você é considerado um hitmaker no universo sertanejo, que é o universo musical dominante no Brasil. Qual foi a música que alavancou sua carreira? Foi em 2007, com uma música chamada “Locutor”, que conta a história de um cara que pede para o locutor de uma rádio mandar mensagem para a menina que não está atendendo o celular dele. Os artistas sertanejos ficaram enlouquecidos porque a música tocava muito em rádio. Os locutores gostavam muito da música. Várias bandas regravaram, Raça Negra, Frank Aguiar, um monte de dupla sertaneja, um monte de banda de forró...

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Mas quem foi o primeiro a

Marcelo Marrone. Um cara do interior da Bahia. Foi aquilo que eu disse. Eu optei por dar as músicas para os meus vizinhos gravarem... Do micro você chegou ao macro... Sim... Por causa dessa música, o Sorocaba me ligou. Muita gente me ligou porque o mercado sertanejo estava crescendo. A minha carreira coincide com o crescimento da música sertaneja. Esse sertanejo mais pop que se mistura com outros ritmos... Os muros entre os ritmos estão mais baixos. E eu transito entre os ritmos. O preconceito está menor. As oportunidades estão maiores. O sertanejo usa o funk, usa o arrocha... O pop usa coisas latinas, como o reggaeton. Está um momento maravilhoso para a música nesse sentido... E você está num momento especial. Foi gravado por Tiê, fez músicas com Ana Carolina para o disco dela... Está compondo com artistas dissociados do universo sertanejo... Como isso se deu? Foi um movimento natural? Foi bem natural. Eu tenho um Instagram de versos. Sou frasista. E isso me ajudou . Há quem ache que o compositor faz somente as músicas que o artista escolhe. O compositor faz músicas diferentes e não tem domínio sobre as músicas que os intérpretes escolhem. Quando conheci a Tiê, foi identificação imediata. Me surpreendeu a maneira como ela gravou “Amuleto”. A gravação da Tiê ajudou a fazer com que pessoas ouvissem você fora do universo sertanejo? Sim. A Luiza Possi já tinha gravado anteriormente uma música chamada “Pensando bem” que foi muito importante também. E a experiência com a Ana Carolina foi mágica. Lembro que a primeira coisa que ela fez foi pegar o violão e cantar uma melodia diferente... Fiquei encantado com a textura da voz dela.

Como vocês se conheceram? Foi o Bruno Batista, diretor da Sony Music. Ele nos apresentou, largou a gente na sala e brincou: “se virem aí”. Para mim foi mágico. Fiquei muito à vontade com ela. Rolou a química. Parceria é como dança. Às vezes, você vai dançar e um vai por lado, o outro vai para o outro, pisa no pé... E às vezes a dança flui, tudo encaixa... Com a Ana, foi assim... Você fala muito da escrita, mas eu noto na sua música forte poder melódico... Isso ficou claro na canção “2050”, gravada pelo Luan Santana, no “Amuleto”... Como é o processo de criação de uma música quando você compõe sozinho? Desde o começo é fisicamente a mesma coisa... Eu sentado na cama, o celular gravando, uma folha de papel e caneta... Eu escrevo tudo no papel ainda... Meus amigos todos escrevem na nota do celular... Quanto à melodia, eu só pego no violão quando eu sei o que a música vai dizer por completo. Tento fazer uma melodia o mais simples possível. Gosto de imaginar as pessoas cantando aquilo... A letra tem que ter um desfecho... Uso na música o que aprendi no cinema... A música hoje está muito associada à imagem por conta da força dos clipes... A minha música é muito visual. É quase um roteiro. Eu tenho que localizar o ambiente, mostrar o que o personagem está dizendo, o que o outro está respondendo... Você já virou uma grife como compositor... Quando a Paula Fernandes, cantora que tem obra essencialmente autoral, grava uma música como “Beijo bom”, ela trabalha uma “música do Bruno Caliman, compositor de sucessos”. Como é lidar com a pressão, que eu imagino que exista, para fazer uma música que tenha que acontecer no mercado? Eu tento não me guiar pela cobrança de fazer uma canção que tem que tocar muito. Isso é uma barra para um compositor depois de um

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tempo. Mas eu me desligo disso e tento ser o mais sincero possível. Eu não mudei minha forma de compor. E não considero que eu seja uma grife porque eu ainda tenho que trabalhar muita coisa na minha música, ainda quero conquistar muita coisa com minha música... A minha cidade que quis colocar o meu nome numa escolinha de música... E eu disse: “não, pelo amor de Deus... Só depois que eu morrer”. Ainda estou no meio do caminho. Quero navegar por outros mares.

Os muros entre os ritmos estão mais baixos. E eu transito entre os ritmos. O preconceito está menor. As oportunidades estão maiores.

gravar?


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Foto: Rafael Cerqueira


Foto: DR - Direitos Reservados Foto: DR - Direitos Reservados Foto: DR - Direitos Reservados

Foto: DR - Direitos Reservados

Foto: Rafael Cerqueira

Fotos com família e amigos do arquivo pessoal de Bruno Caliman.

Como surgiu a parceria compositor-intérprete com Luan Santana, cantor que fez com que seu nome fosse propagado em escala nacional? Teve uma fase na música do Brasil em que as músicas que mais faziam sucesso eram as músicas sobre carros. “Camaro amarelo”, fiz também a música do Fiorino... Naquela época, eu estava ficando conhecido como o cara que fazia as músicas de carro, de entretenimento, de bagunça. As duplas me ligavam: “você não tem um outro carro para mim?”. Eu dizia que não. “Pô, nem um Corsa?”. Eu fiquei muito mal com isso. E eu conheci o Luan num hotel. Foi uma amizade de cara. De sentar na cama, pegar o violão e tocar... E aí ele escolheu uma música que eu tinha feito para um festival, chamada “Te esperando”. E ele gravou essa música, só ele no violão e voz. E eu digo que essa música é a mais importante da minha vida porque tirou das minhas costas o peso das músicas de bagunça e mostrou um outro lado meu como compositor... E a minha amizade com Luan hoje é de irmão. Viajo com ele. Componho com ele. Mando músicas. A gente tem um elo muito forte por causa das canções. Eu imagino que o sucesso obtido por suas músicas na voz do Luan tenha atraído artistas que pediram a você músicas numa linha mais romântica, não? Sim. Depois do Luan, veio o Sorocaba, o Gusttavo Lima, Jorge & Matheus... Como é sua relação com os parceiros? Com a Ana Carolina deu tudo certo, mas imagino que às vezes seja preciso um ajuste para a parceria andar? Esse ajuste se dá nos primeiros dez minutos. Você já sente. É uma coisa meio espiritual a da parceria. Já sentei com alguns dos maiores compositores do Brasil. Com uns, foi. Com outros, não deu certo.

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Foto: Rafael Cerqueira

Você também compõe muito sozinho e pode abrir mão das parcerias, se quiser? Sim, componho muito sozinho. E às vezes prefiro, porque você já tem o controle completo da obra em si. Compor com parceria é divertido. Fora que aprendo coisas novas. Quem foram os compositores que influenciaram você e foram importantes na sua formação musical? Uma vez, em 1989, minha mãe me levou no circo. Na caixa de som do circo, estava tocando “Ouro de tolo”, do Raul Seixas. Nesse dia, antes de ter vitrola, eu comprei cinco discos que eu tenho até hoje. São os discos que mais ouvi na vida. Esses discos são o LP que tem “Ouro de tolo”, do Raul.

O disco do Zé Ramalho que tem “Chão de giz”, “Vila do sossego”... Um disco do Roberto, “O inimitável”. “Desire”, do Bob Dylan. E “Terceiro mundo”, do Zé Geraldo. Eu consumi esses discos dos 14 aos 19 anos. Depois eu comprei todos os discos desses artistas. Os compositores vivem período difícil porque os créditos são muito raros na internet, nas plataformas de música. Não sendo cantor e fazendo show, como um compositor cria um patrimônio ou mesmo vive com o básico para pagar os boletos? Tem que fazer muita música para tocar (risos). O compositor já cresce meio acostumado com isso. A galera sertaneja tem um carinho grande por mim, me cita muito nas

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entrevistas. Mas eu acho que esse valor vai começar a ser dado nas plataformas de streaming... Permanecer hoje, como você tem permanecido como compositor, é cada vez mais difícil nessa era volátil da indústria, não? Eu não acho que a música está pior do que antes. Antes, o processo de consumo de uma música era mais lento. Hoje, quando você gosta de música, a repete 20 vezes no celular em único dia. Então, a saturação é maior. Nunca se ouviu tanta música no mundo. Mas, como a facilidade de ouvir é maior, você enjoa com mais rapidez. Não acho que a música esteja melhor ou pior. A música retrata a sua época.


| Coluna jurídica

Direito de Imagem Por Paula Luciana Menezes

N

O uso comercial é a parte mais objetiva do direito de imagem. A dificuldade está em identificar quando o uso não comercial da imagem é lícito ou não. Isso vai depender da situação em que a imagem foi violada e da análise individual do julgador, ou seja, há uma certa subjetividade nessa análise. É bastante frequente que pessoas famosas, políticos, atletas, celebridades, artistas e pessoas com alguma notoriedade tenham sua imagem utilizada, divulgada ou exposta, sem que tenham efetivamente autorizado.

as publicações da Abramus, falamos bastante sobre direitos autorais. Afinal, são a essência da nossa atividade. Porém, para os artistas, sejam eles compositores, intérpretes ou músicos, tão importante quanto os direitos autorais é o direito de imagem. Por isso, resolvi explicar um pouco sobre o assunto. O direito de imagem é um direito personalíssimo, ou seja, é um direito inerente à pessoa, pois nasce com ela e faz parte da lista de direitos que constituem o mínimo necessário para garantia de todos os demais direitos do indivíduo. Vale dizer que o direito de imagem é anterior ao direito autoral, que nasce somente após a criação de uma obra por uma pessoa. A Constituição Federal protege a imagem (artigo 5º, inciso X) e o Código Civil regulamenta o exercício desse direito em seu artigo 20 que diz o seguinte:

Em linhas gerais, a Justiça e os estudiosos do Direito Civil entendem que a proteção à imagem deve ser ponderada com outros interesses, especialmente a liberdade de imprensa e o direito ao amplo acesso à informação. Ou seja, o direito de imagem é limitado pelo interesse público, que não se confunde com “interesse do público”. É por isso que um meio de comunicação pode divulgar um flagrante contra um político ou servidor público sem pedir autorização. Também é por esta razão que um paparazzi pode tirar foto de uma atriz na praia e divulgá-la em seu blog sem o consentimento formal dela. Pelo mesmo motivo, o vídeo de um cantor internacional

Mas o que isto quer dizer na prática? Quer dizer, primeiramente, que para a utilização comercial da imagem de alguém, seja quem for, famoso ou não, há necessidade de autorização. É por isso que muitas pessoas fazem da exposição e comercialização de sua imagem uma verdadeira atividade. Modelos, atrizes e atores geralmente são remunerados pela autorização ou licença do uso de sua imagem. Mas, se um artista for retratado comendo num determinado restaurante e o restaurante usar esse retrato em uma propaganda sem pedir autorização, estará violando o direito de imagem do artista.

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o direito de imagem é limitado pelo interesse público, que não se confunde com interesse do público

Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se destinarem a fins comerciais.


Todas essas pessoas possuem alguma notoriedade porque exercem cargo público ou porque se expõem, ou expõem suas obras ao público. E, assim, têm uma esfera de intimidade menor do que uma pessoa que não se expõe ou não exerce cargos de importância na sociedade. A preservação da imagem está intimamente relacionada à esfera de intimidade da pessoa. Quanto mais ela se expõe ou é exposta em razão de sua atividade ou cargo, menor a proteção à sua intimidade e à sua imagem.

Mas, mesmo a pessoa mais famosa e notória do mundo possui algum grau de intimidade que deve ser respeitado. Por isso é ilegal invadir um local privado para captar a imagem de um artista, ou divulgar que foto ou vídeo captado com teleobjetivas poderosas. Será igualmente ilícito divulgar fotos e vídeos pertencentes a estas pessoas, guardadas em um álbum pessoal, mantidas em algum dispositivo, sem autorização. Nestes casos, a violação diz respeito não só à imagem, mas também à intimidade das pessoas. A imagem é um atributo importante para os artistas, por isso é imprescindível saber como exercer seu direito sobre ela, seja para aumentar seus rendimentos, seja para se proteger de violações.

Foto: Mariana Mello

Uma pessoa comum também poderá ter a sua esfera de intimidade limitada se se envolver em um assunto de interesse público, uma questão noticiosa, um crime ou um acontecimento importante. É o caso do herói que salva vidas numa explosão. Tanto a imagem dele quanto das pessoas salvas, pode ser divulgada em matéria jornalística sem a necessidade de autorização.

Paula Luciana de Menezes é mestre em Direito Civil na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, tendo se formado também pela USP. Cursou Direito de Autor na Sociedade da Informação, na Universidade de Lisboa, especializou-se em Direito do Entretenimento e da Comunicação Social e trabalha há muitos anos com Direito de Imprensa, Direitos Autorais e Conexos e Direitos da Personalidade. É sócia de Menezes e Novais Vernalha Sociedade de Advogados e presta serviços para a Abramus desde de 2017 – e-mail paula@menv.com.br.

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Foto: Pexels | DR - Direitos Reservados

fugindo de seus fãs no aeroporto poderá ser divulgado no telejornal sem que ele sequer tenha ciência da gravação do vídeo. E, por fim, se um compositor der uma palinha de sua nova obra em público, isso poderá ser divulgado sem autorização dele.


| Artigo Especial

A

internet fez com que o mercado musical sofresse uma das mudanças mais radicais desde a criação de meios de reprodução musical como o fonógrafo. O crescimento do mercado de música latina nos Estados Unidos explodiu em 37% no ano de 2018, de acordo com artigo publicado na Revista Billboard, e, por isso, tantos artistas consagrados no Brasil e em toda América Latina decidiram residir legalmente nos Estados Unidos.

Navegar os mares tortuosos do sistema legal imigratório pode ser aterrorizante para a maioria das pessoas, no entanto, certas privilégios reconhecidos por lei em programas imigratórios destinados a indivíduos de extraordinária. Vistos de caráter não temporário e residência permanente (“green card”) são

divididos em categorias diferentes, e com privilégios diferentes. O programa EB-1A (Employment Based Petition for Individuals of Extraordinary Ability), reservado a extraordinárias, é permitido a indivíduos e sua família (cônjuges casados no civil, de 21 anos e enteados, caso o casamento legal dos pais tenha ocorrido antes do enteado ou enteada ter completado 18 anos). privilégio imigratório indivíduos que cumpram com os seguintes requisitos: • Recebimento de um prêmio de grande expressividade como um Oscar, um Emmy, um Grammy, um Prêmio Pulitzer. Ou cumprir com pelo menos três dos 10 critérios estipulados em estatuto:

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1) Recebimento de prêmios de reconhecimento nacional ou internacional; 2) Ser membro de uma associação (como a Abramus) que requer mérito para adesão; 3) Material publicado sobre qualquer outra mídia de grande circulação; 4) Ter atuado como júri (como em banca julgadora) do trabalho de outros, individualmente ou como parte de banca ou júri coletivo; 5) Evidência de autoria de material, acadêmico ou não, grande circulação; 6) Evidência de contribuição nos campos da ciência, acadêmicos, artísticos, esportivo ou empresarial de


Por Renata Castro 7) Evidência de exposição de seu trabalho em exibições artísticas ou showcases; 8) Evidência de sua atuação em um cargo crítico (essencial) ou de liderança em organizações de prestígio; 9) Evidência de salário acima da média se comparado a outros

O “green card” pode ser solicitado mesmo do Brasil, e é tramitado em parte no Texas, e, mediante aprovação, concluído com entrevista no consulado do Rio de Janeiro. A família já entra nos Estados Unidos como residentes legais dos Estados Unidos. Não há requisito de

consulta gratuita com o escritório Castro Legal Group para as possibilidades imigratórias para os Estados Unidos. Uma série de vídeos foi disponibilizada no canal da Abramus no YouTube, onde a advogada Renata Castro discute mais detalhes sobre o programa.

de atuação; 10) Evidência de sucesso comercial nas artes.

trabalho ou investimento. É necessário, no entanto, demonstrar que o indivíduo de habilidades extraordinárias deseja ou planeja atuar em sua área de excelência.

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Membros da Abramus, em virtude de seu material autoral e de sua adesão a uma associação para adesão, cumprem, em grande parte, com pelo menos dois dos três critérios necessários para solicitar um “green card” visando residir permanentemente nos EUA.

Membros da Abramus interessados em mais informações sobre o processo de residência legal para os Estados Unidos pelo programa EB-1A – “green card” por habilidades extraordinárias – gozam de 23

Para contato e análise prévia de elegibilidade, entre em contato com o escritório castrolegalgroup.com/abramus ou por telefone/whatsapp +1-954-204-0393 . Renata Castro é advogada de imigração, fundadora do escritório de advocacia Castro Legal Group na Flórida.


| Ponto de vista

L

conexões. A música é também um instrumento evei anos para entender o que devia fazer, para fazer outras. Até porque se formos considerar como deveria me organizar para entender o que usamos para produzir, como instrumentos, como viver como profissional da música. cabos e a tecnologia necessária, já não é assim toda Juntando pedaços ali e aqui, fui indo. essa autonomia. Mas, voilá! Tem gente que é contra Entre genialidade e “geniosidade” mora o o sistema, mas põe a música no YouTube e acha mito do artista. Tudo bem, entendo. De fato, é que não é sistema. Quero ver ir ao Google cobrar preciso tempo para criar, há um certo diretamente, e o Google é assim super autônomo, “desligamento” do cotidiano, mas nada que nos só falta dizer orgânico. Mas vamos voltar ao impeça de entendermos a engrenagem da assunto. profissão. E cada uma tem a sua. Temos e precisamos de conexões, de A da música tem mudado bastante, talvez empresas, grupos, profissionais, braços e ouvidos. como o mundo nos últimos tempos – mas tudo Portanto, pensemos, quais existem e precisamos sempre mudou. Antes, haviam muitas e muitas aperfeiçoar? Quais você precisa? Quais são partes envolvidas num sistema complexo, mas que fundamentais? Pessoalmente, nunca gostei das funcionava dentro daquele modo de produção. E opiniões dadas sobre as instituições da música em como está agora? Mudando ainda mais. A música público. Mas, liberdade é não é um quadro, uma tela para todos, dizem. Apesar vendida por uma galeria. Seu dos ajustes necessários, não potencial de venda e Entre o ócio criativo e a acreditava que a própria extensão está na fluidez realidade está a profissão. classe artística, que, cá entre de sua obra. Som é quase nós, também entende pouco vento. Mas ninguém vive de Vivemos dela, muitas vezes, atentasse brisa. do que produzimos. contra a credibilidade das Estamos num tempo instituições, empresas, onde o sistema econômico é grupos dessa engrenagem. o capitalismo, portanto, Teria sido melhor, consertar do que acabar e temos instituições espalhadas para dar conta, no “fortalecer” a péssima imagem de tudo, que rendeu mínimo, da distribuição e leis e acordos. Se há muito descrédito “em nós mesmos” e se espalhou. distribuição, há recolhimento. Vivemos disso, do que Gravadoras não prestam, editoras não fazem nada fazemos e colhemos. Alguém precisa fazer isso por e ganham fortunas, o ECAD só rouba. Tem mais. Os nós, caso contrário o sistema será o feudalismo: você artistas não trabalham e ganham fortunas, quase planta o algodão, faz e usa o tear, termina o produto todo artista foi roubado, talvez ainda diga que é. e leva na feira, diretamente. Acho difícil esse projeto Talvez tenha sido, talvez seja. Vixe! Quase todo para a música, mas é possível que alguns acreditem mundo não vale nada e ganha muito, menos você. nesse “romantismo”, com direito a pensar nessa Quem “espalhou” tudo isso? Tudo isso é uma independência total. Para mim não há, tudo está verdade absoluta? Então, acho que não há interligado, água, luz, transporte, o mundo é um verdades absolutas. lugar de conexões. A música é também um lugar de

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Foto: Edson Kumasaka

Mas e aí? Vamos fazer o quê? Vamos ir falar mal de novo? Ou vamos nos envolver, entender, dar sugestões e arrumar a realidade? Não são os próprios artistas os grandes arautos das causas humanitárias, da participação de todos na política, na democracia? O que fazemos pela nossa profissão? O que fazemos para organizar a parte do mundo que cabe à música? Entendo minha carreira não como missão, ainda que compreenda sua nobreza, mas vivo dela, e é justo e nobre tratá-la como ofício, sem mitificação. Desde o ano passado, faço parte do Conselho da Abramus, a única mulher neste conselho com orgulho e uma enorme inquietude. Quero convidar a todos e a todas a participarem mais. Acho fundamental que ajudemos a música a ser mais que um lugar do amor de muitos e sucesso para poucos, mas que seja um espaço para que todos aqueles que produzem para ela vivam com dignidade. O que você pode fazer pela música?

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Créditos Retidos Crédito Retido é a maneira como o Ecad protege seus direitos quando no momento da captação da sua obra ou fonograma não houve identificação

S

e uma música for captada pelo Ecad mas apresentar inconsistência ou ausência de informações, ela não é identificada. Portanto, os valores referentes a ela não são distribuídos para autores, intérpretes, músicos, editoras e produtores fonográficos. O crédito fica retido até que a identificação necessária seja realizada. Isso pode ocorrer por vários motivos, como por exemplo: • falta de cadastro da obra ou do fonograma (ISRC); • inconsistência de informações no cadastro da obra; • duplicidades; • divergência entre as grafias cadastradas e captadas; • nomes incorretos; Para os músicos, pode acontecer de o nome estar cadastrado incorretamente no ISRC da gravação, sem o CPF, ou estar cadastrado apenas com o pseudônimo. Como liberar os valores? É importante ressaltar que a Abramus possui um departamento específico de Créditos Retidos para trabalhar na identificação de

possíveis pendências e repassar os valores da forma devida aos seus associados. Mas você também pode nos ajudar com seguintes passos: Mantenha seu repertório atualizado e, sempre que possível, verifique se todos os cadastros estão corretos. Você pode acessar o Portal Abramus (portal.abramus.org.br), onde terá total acesso ao repertório cadastrado e aos créditos retidos. Estes últimos estão na área “Não Identificado”. Basta usar a busca de acordo com a obra, o fonograma ou o titular. Após identificar que sua obra ou fonograma geraram créditos retidos, solicite a identificação dos mesmos preenchendo os campos disponíveis. Caso tenha dúvidas neste procedimento, entre em contato com o atendimento da sua unidade. A pesquisa também pode ser solicitada junto ao atendimento da Abramus, pois quando não há cadastro não é possível liberar direto pelo portal. Nossos atendentes orientarão quanto aos procedimentos para a liberação dos créditos. Para os músicos, é muito importante verificar o relatório das 26

gravações e informar qualquer gravação que esteja faltando. Nossos atendentes verificarão se há o registro deste ISRC, se o nome está incorreto ou pendente. Mas lembre-se, existem períodos de pagamentos e a distribuição ainda pode estar sendo processada (Veja os meses e períodos correspondentes no final da revista). Quando há a liberação, os valores são corrigidos monetariamente. Fique atento: os créditos não esperam para sempre Os créditos ficam retidos até o prazo de 5 anos. Caso não sejam identificados, eles prescrevem e são redistribuídos, preferencialmente para os titulares das músicas executadas no mesmo segmento da origem dos valores. É muito importante que verifique se todos os cadastros estão em dia e manter seu repertório atualizado. Entre em nosso Portal para verificar (portal.abramus.org.br), nele os titulares tem total acesso aos créditos retidos e repertório cadastrado. Você também pode solicitar seu relatório autoral e conexo através da unidade que está filiado. Mantenha-se sempre informado.

Foto: DR - Direitos Reservados

| Direito Autoral


CALENDÁRIO DE DISTRIBUIÇÃO Mês a mês, o repasse de valores do Ecad

Janeiro

Fevereiro

Março

Casas de Diversão, Casas de Festa, Música ao Vivo, Rádio, Serviços Digitais (Internet Simulcasting), Show, Sonorização Ambiental e TV aberta

Serviços Digitais (Streaming), Show e TV por assinatura

Cinema e Show

Abril

Maio

Junho

Casas de Diversão, Casas de Festa, Música ao Vivo, Rádio, Serviços Digitais (Internet Simulcasting), Show, Sonorização Ambiental e TV aberta

Carnaval e Festas de Fim de Ano, Serviços Digitais (Streaming), Show e TV por assinatura

Serviços Digitais (Internet Demais) e Show

Julho

Agosto

Setembro

Casas de Diversão, Casas de Festa, Música ao Vivo, Rádio, Serviços Digitais (Internet Simulcasting), Show, Sonorização Ambiental e TV aberta

Serviços Digitais (Streaming), Show e TV por assinatura

Cinema, Festa Junina e Show

Outubro

Novembro

Dezembro

Casas de Diversão, Casas de Festa, Música ao Vivo, Rádio, Serviços Digitais (Internet Simulcasting), Show, Sonorização Ambiental e TV aberta

Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Serviços Digitais (Streaming), Show e TV por assinatura

Extra de Rádio, Extra Show, Serviços Digitais (Internet Demais) e Show


Informe

e t n e m a t corre seu set-list para o

ECAD

w e que o h s o d io r o t r e p e r O to certo garante o pagameans musicas aos autores d

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Revista Abramus, Ed.39  

Esta edição da revista Abramus traz como matéria de capa uma entrevista feita pelo jornalista do O Globo, Mauro Dias, com o compositor Bruno...

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Esta edição da revista Abramus traz como matéria de capa uma entrevista feita pelo jornalista do O Globo, Mauro Dias, com o compositor Bruno...

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