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A trajetória de Mário Martins, jornalista e político plural PÁGINA 3

Capricho: a revista que Victor Civita não deixou morrer

Oceano Vieira: o homem que fundou a Variety brasileira

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ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE I MPRENSA

“Temos que investigar os crimes ocorridos durante a ditadura militar e reconhecer os locais de violações de direitos, como foi a Vila Militar. É importante para marcarmos que esse foi um local de tortura e morte”, disse Rosa Cardoso, membro da Comissão Nacional da Verdade, durante a visita que foi marcada pela emoção. PÁGINA 8

VIDAS ALBENIZA GARCIA • MÁRIO MOREL • MOACY CIRNE


LIBERDADE DE IMPRENSA

Brasil é campo minado para exercício do Jornalismo P OR I GOR W ALTZ

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) divulgou, no início de janeiro, seu relatório anual sobre os lugares mais perigosos do planeta para o exercício da profissão de jornalista. Os dados são referentes ao período de 1992 a 2013 e colocam o Brasil como o 11º país mais violento do mundo, com a morte de 27 profissionais, entre jornalistas e funcionários de veículos de comunicação. Ao todo, desde 1992, foram registradas pelo CPJ 1.040 mortes com motivos confirmados. De acordo com o relatório, 44% dos jornalistas foram assassinados, enquanto 36% foram mortos em combate ou fogo cruzado, e 20% foram vitimados por algum outro tipo de trabalho perigoso. Cerca de 30% eram repórteres de veículos impressos, enquanto 24% eram de rádio e tv. Com 161 mortes com causas confirmadas, o Iraque foi considerado o país mais violento. A CPJ relata que outros 56 trabalhadores de mídia teriam morrido no país,

Cuba nega visto a jornalista brasileiro O jornalista Fábio Pannunzio, da Band, teve o visto de entrada negado pelo governo de Cuba, onde pretendia cobrir a visita da Presidente Dilma Rousseff. O jornalista, crítico declarado do governo comunista da ilha, afirma que a decisão se deve a uma série de reportagens produzida há dois anos para o Jornal da Band, em que ele denuncia as condições da economia do país e da falta de liberdade de expressão. “Creio que só conseguirei voltar a Cuba quando cair a ditadura dos irmãos Castro. Portanto, isso não deve demorar muito. Estive lá uma única vez, há exatos dois anos (…) para uma série mostrando como é aquele enclave stalinista renovado. Uma economia destroçada pelo embargo americano; privação de alimentos; zero de liberdade de imprensa, opinião e crítica, etc. Foi isso que determinou o presente veto”, afirma o texto publicado pelo jornalista no site Acta Diurna. Além da viagem da presidente, ele e o cinegrafista — que recebeu visto — fariam mais duas reportagens na ilha

ABERT COBRA INVESTIGAÇÃO SOBRE AGRESSÃO A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – Abert emitiu comunicado, em 15 de janeiro, no qual cobra que as autoridades do Estado do Mato Grosso do Sul investiguem a denúncia de agressão ao jornalista e

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enquanto a causa da morte de 27 jornalistas ainda está sendo investigada. As Filipinas aparecem em segundo lugar, com 76 óbitos no total. A Síria, o lugar mais letal para os comunicadores em 2013, é o terceiro mais perigoso desde que os registros do CPJ começaram em 1992, com 61 mortos. Completam a lista de nações mais perigosas Argélia (60), Rússia (56), Paquistão (53), Somália (52), Colômbia (45), Índia (32) e México (29). Balanço do ano de 2013

O ano de 2013 registrou a morte de pelo menos 70 jornalistas em todo o mundo, a maior parte na Síria, de acordo com o relatório. As mortes de outros 25 jornalistas ainda estão sendo investigadas pelo CPJ para determinar se foram ou não relacionadas com o trabalho. O Brasil foi o sétimo país mais violento, com três mortes. O documento aponta que “a Síria continuou a ser o lugar mais mortal para jornalistas em 2013, enquanto o Iraque e Egito vêm registrando um aumento do número de mortes violentas”. No total, o Oriente Médio res-

pondeu por dois terços das mortes de jornalistas no ano passado. O CPJ adverte, no entanto, que estes números não demonstram todo o perigo para os jornalistas. De acordo com o Comitê, cerca de 60 jornalistas foram sequestrados pelo menos brevemente em 2013, com 30 profissionais ainda dados como desaparecidos no ano passado. Em janeiro, o CPJ

radialista Márcio Lúcio Seraguci, ocorrida na madrugada do dia 11 do mesmo mês. O profissional, que dirige o jornal Tribuna Livre, foi agredido por três homens na cidade de Paranaíba. “A Abert repudia a ação criminosa contra o jornalista e espera que as circunstâncias sejam esclarecidas e os seus autores responsabilizados”, diz a nota, assinada por Daniel Pimentel Slaviero, Presidente da entidade. Segundo Seraguci, os agressores, que não tentaram roubar seus pertences nem seu carro, pretendiam enforcá-lo com uma corda. O jornalista, que apresenta há 25 anos o programa Tribuna Livre na Rádio Difusora, diz que participava de um evento público no Ginásio de Esportes de Paranaíba, na rodovia BR158, quando foi abordado por dois jovens. Um terceiro homem se juntou a eles, quando passaram a agredi-lo com chutes e socos. Num momento de distração dos criminosos, o jornalista conseguiu fugir. Seraguci foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros e levado até a Santa Casa de Misericórdia de Paranaíba com lesões no nariz, mãos, joelho e barriga.

queria ser filmado. “Você sabe quem eu sou? Quero que você coloque no ar, eu vou lá dentro da emissora quebrar a sua cara”, ameaçou. O jornalista disse que a intimidação ocorreu no momento em que ele e o cinegrafista tentavam fazer imagens dos armamentos recolhidos e dos 12 presos, que ficaram incomodados com a gravação. Um deles tentou impedir a continuação do vídeo e ameaçou os profissionais. “Você tem que colocar no ar e esperar para ver o que acontece. Não podemos nos acovardar porque é a nossa profissão”, disse Oliveira, que também é apresentador. O boletim de ocorrência foi feito no mesmo dia, mas o repórter garante que não se sente seguro. “O pessoal do garimpo acredita ter lei própria. Ficamos na dúvida, pois as pessoas costumam ser violentas. Fazemos jornalismo na coragem”. Após a intervenção do escrivão de polícia, o delegado, também informado da ameaça, deu voz de prisão ao garimpeiro.

EQUIPE DA RECORD É AMEAÇADA POR GARIMPEIRO

O fotógrafo Juarez Matias, do site Bocão News, foi surpreendido pela ação violenta de um segurança de Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM), Prefeito de Salvador, Bahia, enquanto trabalhava na cobertura da Festa do Bonfim, no dia 17 de janeiro. O fotógrafo trabalhou durante toda a Lavagem e registrava o cortejo, quando foi agredido por um policial militar que fazia a segurança do político. O tumulto teria acontecido

A equipe de jornalismo da TV Nativa, afiliada da Rede Record em Alta Floresta, no Mato Grosso, foi intimidada enquanto produzia uma reportagem sobre a megaoperação em um garimpo da região do município de Paranaíta. O repórter Luís Oliveira foi ameaçado pelo garimpeiro Jeferson Reinaldo de Paula, que não

SEGURANÇA DO PREFEITO DE SALVADOR AGRIDE FOTÓGRAFO

também anunciou que 2013 tinha sido o segundo pior ano da história para os jornalistas sendo presos – com a Turquia, Irã e China respondendo por mais da metade de todos os jornalistas detidos em todo o mundo no ano passado. Até o dia 1º de dezembro de 2013, 211 jornalistas haviam sido presos por seu trabalho, em comparação com 232 ao longo de 2012.

após a tentativa de um rapaz em ultrapassar a barreira de seguranças de ACM Neto, logo impedido com uma ‘gravata’. Juarez, que estava ao lado da situação, parou e registrou o momento da violência. Percebendo a ação do fotógrafo, um dos policiais partiu pra cima dele com um soco no rosto. “Ele me agrediu. Me deu um murro na boca só porque eu estava registrando o fato. Estava ali trabalhando e não fiz nada de errado”, relatou o fotógrafo. Ainda segundo Juarez, a violência foi registrada por um coronel, que logo acalmou o segurança. O agressor teria sido retirado do local após a ocorrência.

Rússia expulsa jornalista norte-americano A Rússia emitiu um comunicado nesta terça-feira, 14 de janeiro, em que proíbe por cinco anos a entrada do jornalista norte-americano David Satter. O tratamento dado por Moscou ao repórter pode azedar as já tensas relações do país com os EUA e aumentar as preocupações sobre a liberdade de expressão antes da Olimpíada de Inverno de Sochi, em fevereiro. Satter, de 66 anos, trabalhou como correspondente na Rússia do Financial Times e do Wall Street Journal e é autor de três livros sobre a União Soviética e a Rússia. Crítico ferrenho do governo Putin, o jornalista encontrava-se em Moscou desde setembro de 2013,

trabalhando para a Radio Free Europe/Radio Liberty, emissora financiada pelo governo do EUA. De acordo com comunicado emitido pelo Serviço de Migração da Rússia, o jornalista teria violado regras de permanência no país. “David Satter permaneceu na Rússia em um período superior ao permitido por lei. Ele foi multado e submetido à deportação administrativa após a decisão do tribunal”, disse a nota. A decisão de expulsar o jornalista do País foi determinada pela justiça russa no fim de novembro. Segundo a página pessoal de Satter, o jornalista viajou até Kiev, capital da Ucrânia, para uma exibição do seu filme Age of Delirium, um documentário sobre o declínio da União Soviética, e foi abordado por um diplomata da embaixada russa que lhe entregou um comunicado que dizia: “Os órgãos competentes decidiram que a sua presença no território da Federação Russa não é desejada. Você está proibido de entrar na Rússia”. “Esta é a forma como geralmente são expulsos os espiões. Em quatro décadas de trabalho na Rússia nunca tinha visto esta fórmula aplicada a um jornalista. Isto significa que, por alguma razão maluca, me consideram uma ameaça à segurança”, disse Satter ao The Guardian. Em um de seus livros, Satter acusou o Serviço de Segurança Federal russo, sucessor da KGB da era soviética, de ser responsável pelos ataques a bomba contra prédios de apartamentos russos em 1999, em que mais de 300 pessoas morreram. O SSF negou as acusações.


LEMBRANÇA

Em foco, a trajetória plural de um homem único Homenagem ao centenário de nascimento de Mário Martins, um dos mais importantes jornalistas e políticos brasileiros, cuja morte completará duas décadas este ano. ACERVO ABI

P OR I NÊS E STRADA

“Entre os principais deveres do homem está o de testemunhar, de atestar o que viu, ouviu e, muitas vezes, sentiu. É que ninguém é dono do minuto que vive. Esse instante de vida pertence a todos, sobretudo aos que não foram seus contemporâneos”. Foi esta crença que levou Mário Martins a trazer ao mundo seu livro de memórias Valeu a Pena, ditado no último ano de vida ao filho mais velho, Franklin Martins. E certamente foi ela também que o levou à profissão de jornalista. O projeto vinha da década de 1980, quando retirou-se da vida política, mas só em 1993, ao completar 80 anos, é que se decidiu. Problemas de visão, entretanto, impediam que avançasse. A idéia de contratar um jornalista para auxiliá-lo não o seduziu. “Com tanto filho jornalista, para que contratar alguém? Não me sinto à vontade”, disse. O trabalho foi iniciado em janeiro de 1994 e concluído em setembro. Três meses depois ele morreu, em 11 de dezembro de 1994. O livro foi publicado em 1996. “Combinamos que a obra fugiria ao padrão usual nas memórias dos políticos, em que as citações de discursos, artigos de jornal e argumentações em torno de polêmicas partidárias acabam soterrando a vida que se quer contar”, diz Franklin em sua Introdução. Assim, nas longas narrativas do pai, estão presentes tanto os seus amigos de boemia quanto personagens da política internacional. Franklin confessa: “Foi muito bom fazer o livro com ele. Gostei do que lembrei, do que aprendi, do que descobri. Valeu a pena”. Uma escolha consciente

Nascido em Petrópolis, em 22 de maio de 1913, na adolescência Mário Martins não pensava em ser jornalista: pretendia estudar Medicina, porque o pai era farmacêutico. A mudança para o Rio mudou seus planos: na Faculdade de Medicina as aulas eram durante o dia, quando estava ocupado na farmácia do pai, no Estácio. Tentou Direito. Estudava à noite, mas abandonou o curso em menos de dois anos, ao descobrir sua vocação. Contou depois: “Os advogados defendem a causa de uma pessoa ou uma empresa. As causas do povo são defendidas pelos jornalistas. Era isso o que eu queria fazer. Nunca me arrependi dessa decisão”.

Não foi, porém, nesse papel de defensor que Mário estreou na imprensa: foi como jornalista esportivo, mais precisamente através do boxe. Acontece que, numa das tentativas do pai de estabelecer-se no Rio, a família foi morar na Rua do Matoso. Mário tinha 15 anos. No bairro, os garotos dividiam-se em grupos. As brigas eram constantes. Mas ali conheceu um garoto chamado José, que o introduziu no boxe. Junto com dois outros, eles criaram um núcleo de pugilismo. “Improvisamos um ringue nos fundos da farmácia, onde não era raro treinarmos desde o sol raiar até a hora de

abrir a loja. O boxe virou minha paixão”, contou. Um dos seus ídolos era o boxeador Jack Dempsey. “Com ele aprendi que, por mais que se esteja apanhando, não se deve jogar a toalha. Às vezes as lutas são ganhas com um soco bem dado, segundos antes de soar o gongo final”. Depois de novo período em Petrópolis, a família fixou-se definitivamente no Rio, pouco antes da Revolução de 1930, e foi morar no Estácio. Entre os freqüentadores dos botecos e bilhares, Mário fez amizade com vários sambistas, como Ismael Silva e Benedito Lacerda, com poetas e artistas. Do samba e da boemia intelectual para o jorna-

lismo foi um pulo. “O boxe me abriu as portas das Redações”, declarou. Abandonou a Faculdade de Direito e passou a fazer comentários e críticas sobre lutas, sem receber nada, para vários jornais, como A Crítica, o Diário Carioca, o Diário de Notícias. “Aos poucos, comecei a circular pelas Redações e a conhecer jornalistas”. Entre estes, Nelson Rodrigues, de quem se tornou grande amigo, filho de Mário Rodrigues, fundador e diretor de A Crítica. Nos tumultos que se seguiram à Revolução de 1930, A Crítica, que apoiava Washington Luis contra Getúlio Vargas, foi depredada e jamais voltou a circular. Os Rodrigues perderam tudo. Mas, pouco depois, o irmão mais velho, Mário Filho, conseguiu empréstimos e em 1932 fundou com Mário Martins o Mundo Sportivo, uma novidade no País, onde os esportes ainda não tinham o caráter de massa que conquistaram mais tarde. O jornal defendia o profissionalismo no futebol e a presença de negros nos times. E não foi apenas no futebol que inovou: também levou as escolas de samba para a Avenida Rio Branco, patrocinando o primeiro concurso entre elas, ocorrido no domingo, dia 7 de fevereiro de 1932, na Praça Onze. Mas sem publicidade suficiente, o Mundo Sportivo agüentou menos de um ano. Nessa época, Mário já estava “mordido pela política”. Foi no Mundo Sportivo que conheceu o compositor Orestes Barbosa, “um boêmio que não bebia nem fumava, poeta, cronista da cidade e repórter de polícia” e que tinha quase três vezes a sua idade. Dele ouviu as primeiras lições informais de jornalismo. “Ele tinha uma série de máximas para o jornalista de sucesso. Por exemplo: um jornalista não pode deixar de ler o Diário Oficial, para saber as patifarias que estão sendo feitas com o dinheiro do povo”. Orestes também trabalhou no Mundo Sportivo. Sobre esses primeiros anos de jornalismo, Mário contou: “Devo muito de minha formação intelectual a ele. Quando minha família mudou-se do Estácio para Vila Isabel, bairro onde Orestes morava, costumávamos deixar os cafés do centro da cidade de madrugada e ir a pé para casa, conversando, contando casos, declamando poemas, comentando o mundo”. Novas experiências

Desempregado após o fechamento do Mundo Sportivo, aceitou o convite do amigo Walter Athayde, que tinha uma JORNAL DA ABI 397 • JANEIRO DE 2014

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LEMBRANÇA EM FOCO, A TRAJETÓRIA PLURAL DE UM HOMEM ÚNICO FOTOS REPRODUÇÃO

fazenda em Nova Friburgo, e foi passar uma temporada na serra. Encontrou uma cidade infestada de corruptos, que achacavam os cidadãos. Daí os dois tiveram a idéia de lançar um jornal para denunciar tais abusos. “Embora nem eu nem Walter fôssemos comunistas ou socialistas, batizamos o jornal com o nome de A Esquerda, o que deixava claro nosso repúdio”. Foi um sucesso. Com a manchete que dizia Polícia de Friburgo está repleta de gatunos, a primeira edição esgotou-se em poucas horas e o jornal virou um veículo para a indignação da cidade. Porém, este sucesso valeu para Mário Martins agressões por parte do Prefeito e de outros poderosos da região. Graças à interferência de amigos, não foi preso, embora tenha sido baleado. A Esquerda foi proibida de circular e só lhe restou voltar para o Rio, onde fundou mais um jornal de vida curta, A Jornada, desta vez com Orestes Barbosa. Era também um jornal político, de oposição, que sobreviveu poucos meses. A solução foi voltar a trabalhar na farmácia do pai. Para não ficar totalmente fora do jornalismo, fez durante algum tempo uma crônica diária para a Rádio Guanabara. Chegou também a se inscrever na Aliança Nacional Libertadora, mas o levante de 1935 não o empolgou. No início de 1936, mais uma vez, foi o encontro com um colega que lhe abriu novas portas. O jornalista Abelardo Amorim o chamou para a Redação de O Radical dizendo: “O diretor foi preso, o redator foi preso, o secretário de Redação foi preso. Não temos ninguém para fazer o jornal”. Aceitou na hora, sem imaginar que ficaria no Radical os oito anos seguintes. Tinha então 23 anos. Ali teve contato com figuras expressivas da esquerda e outras personalidades progressistas do País, como o médico Pedro Ernesto, que acabara de ser destituído do cargo de prefeito do Rio de Janeiro e preso por Getúlio, sob a acusação de conivência com o levante militar da Aliança Nacional Libertadora, conhecido como Intentona Comunista. Em suas palavras, os oito anos em que trabalhou no Radical constituíram uma das experiências mais ricas de sua vida profissional. Atuou primeiro como secretário, posto em que se manteve quando a direção saiu da cadeia. Algum tempo depois, Jocelin Santos, redator-chefe, deixou o jornal e Mário Martins o substituiu. A linha editorial dava ênfase aos grandes temas nacionais e às lutas democráticas. Esse período também lhe proporcionou uma nova e inesquecível experiência: sua primeira prisão, em setembro de 1936. Na época, o integralismo crescia no Brasil, após a derrota da esquerda em 1935. Os integralistas ocuparam postos importantes, principalmente na polícia e no Exército, com o apoio do Ministro da Guerra, Eurico Dutra, e do general Góes Monteiro. Estado Novo e Segunda Guerra

“As campanhas antifascistas do Radical irritavam os integralistas, que tinham ódio ao jornal”, contou Mário. “Defendíamos os presos políticos e a liberdade de imprensa, driblando a censura, que con4

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Nos meses seguintes, Mário visitou a Inglaterra a convite do governo britânico, integrando uma comitiva de jornalistas brasileiros. Lá, esteve em várias cidades, escreveu artigos transmitidos pela BBC e sentiu o cotidiano do povo, submetido aos bombardeios alemães. Os jornalistas foram recebidos pelo primeiroministro Winston Churchill, que lhes deu uma entrevista coletiva. “O envio de tropas para a Itália e a progressiva superioridade dos Aliados nos campos de batalha estimularam bastante as forças democráticas no Brasil”, contou. Ao voltar da viagem, constatou, porém, que o Radical se convertera num órgão getulista. Inconformado, demitiu-se e partiu para a criação de um novo jornal, Resistência, com Vitor do Espírito Santo. “Nosso objetivo era fazer um jornal popular, disputando o mesmo público do Radical, mas engajado na derrubada do Estado Novo e na convocação de uma Constituinte”. No início de 1945, o fim da guerra estava próximo e o do Estado Novo também. Um dos sinais dessa abertura foi a permissão para que Prestes – preso no Frei Caneca – recebesse jornalistas pouco antes de ser libertado. As eleições foram marcadas, com um candidato civil, o engenheiro Yedo Fiúza, apoiado pelos comunistas, e dois militares, o brigadeiro Eduardo Gomes e o general Eurico Dutra, o primeiro apoiado pelos liberais (muitos dos quais formariam depois a UDN), o segundo pelos mais conservadores. Temerosos de um golpe de Getúlio, os militares apressaram-se a afastá-lo do governo, deixando no comando provisório do País o presidente do Supremo Tribunal Militar, José Linhares, que deu posse ao vencedor, o general Dutra.

Acima, Mário Martins no ato em homenagem ao centenário do Jornal do Brasil promovido pela ABI em 1991, entre Nascimento Brito e Barbosa Lima Sobrinho, então Presidente da ABI. Ao lado, na tribuna da Câmara dos Deputados, com o braço direito quebrado, na tarde do dia da pancadaria em frente à Une, em abril de 1958.

Primeiro mandato

vivia conosco na Redação”. Um desses dribles (uma referência velada ao nascimento da filha de Prestes e de Olga Benário) valeu-lhe a primeira prisão, de apenas dois dias, no Dops. A segunda, na Vila Militar, viria um ano depois e durou um pouco mais. Ao sair, já estava em vigor o Estado Novo. O Congresso fora fechado, os partidos impedidos de funcionar e a imprensa sobrevivia sob censura rigorosa. Na terceira, em abril de 1938, teve a companhia de vários intelectuais e jornalistas, como Carlos Lacerda. Sobre este, declarou: “Durante quarenta anos nossas vidas cruzaram-se inúmeras vezes, na imprensa e na política (...). Juntos combatemos a ditadura Vargas e mais tarde ajudamos a construir a UDN. Fomos deputados da mesma bancada e, apesar de freqüentes e muitas vezes ásperas divergências, nunca houve um estremecimento pessoal entre nós (...). Meu ídolo na família Lacerda, entretanto, era o pai de Carlos, Mauricio Lacerda”. Continuou no Radical, empenhandose na entrada do Brasil na Segunda Guer-

ra. No final de 1938 conheceu Dinah de Almeida, de uma família capixaba, com quem se casou em 1940. Para completar o orçamento doméstico, em 1941 inscreveu-se e foi aprovado em concurso para o Serviço de Abastecimento e Preços (SAPS), do Ministério do Trabalho. Sua função era redigir folhetos sobre as propriedades nutritivas dos alimentos, para orientação dos consumidores. Em dezembro de 1941 o ataque dos japoneses a Pearl Harbor leva à entrada dos Estados Unidos na guerra. Getúlio percebe que era melhor aliar-se aos EUA e aceita negociar o apoio do Brasil. Em janeiro de 1942 instala-se no Rio a Conferência dos Chanceleres Americanos, que decide pelo rompimento com os países do Eixo. Começam então os bombardeios de navios brasileiros por submarinos alemães. A partir daí, a imprensa e a opinião popular passam a exigir a declaração da guerra, que acontece em 21 de agosto. Mas só em agosto de 1943 é criada a Força Expedicionária Brasileira e tropas são enviadas para lutar na Europa.

Mário Martins foi um dos principais organizadores da seção carioca da UDN, indicando Mauricio de Lacerda para presidi-la. Ao ser criada, em abril de 1945, a UDN pretendia ser uma frente ampla para as forças de oposição a Getúlio, e assim contou com a participação de intelectuais esquerdistas e socialistas. Essas correntes, entretanto, aos poucos foram formando seus próprios partidos políticos, como o Partido Socialista Brasileiro e o Partido Republicano. “A vitória de Dutra – observou Mário – teve um efeito devastador sobre as vendas da Resistência, cuja imagem estava fortemente associada à candidatura do Brigadeiro. Da noite para o dia, nossas vendas despencaram. Fomos obrigados a fechar o jornal no começo de 1947”. O resto do ano foi dedicado a saldar as dívidas, vendendo máquinas e móveis do jornal para pagar papel, oficina e salários. Mário tinha mulher e três filhos para sustentar. Diante dos problemas financeiros, desistiu de candidatar-se a vereador pela UDN. Mas seu parceiro não o deixou na mão e conseguiu-lhe o cargo de assessor do escritório comercial do Brasil em Buenos Aires, no começo de 1948. Só ficou lá um ano, porque, ao se aprofundar na política da Argentina, sob a ditadura de Perón,


suspeitou que havia por parte deste uma trama contra o Brasil. Decidiu então voltar e apresentar ao Itamaraty documentos reunidos em suas pesquisas, que foram a base para seu livro Perón – Um Confronto Entre o Brasil e a Argentina. Nas eleições municipais de 1950, Mário elegeu-se vereador pela UDN e passou a liderar a bancada carioca. Sobre sua atuação, comentou: “Naquela época, vereador do Distrito Federal, capital da República, aparecia muito. As sessões da Câmara eram transmitidas pelo rádio e o povo acompanhava os debates. Como éramos apenas cinqüenta, as chances de que o parlamentar se destacasse eram grandes, e a tribuna importantíssima. Em quatro anos de mandato, fiz mais de quatro mil discursos”. No mundo jornalístico, Carlos Lacerda, então sem mandato parlamentar, iniciou em 1953 um combate sem tréguas contra Samuel Wainer e a Última Hora, que reconduzira Getúlio ao cenário político e contribuiu para sua volta ao poder, como presidente eleito, em 1951. O ano de 1954 começou com o agravamento da crise. Em 20 de fevereiro uma ala conservadora do Exército divulga o chamado Memorial dos Coronéis, que negava as condições morais do governo para dirigir o País. O reajuste salarial proposto pelo Ministro do Trabalho, João Goulart, revolta o empresariado, que adere à cruzada antigetulista liderada por Lacerda. A crise culmina com o atentado da Rua Toneleros, contra Lacerda, no qual morreu o major Rubens Vaz, um dos oficiais que vinham lhe dando proteção. O guarda-costas de Getúlio, Gregório Fortunato, é apontado como responsável. As Forças Armadas se unem no Manifesto dos Generais de 22 de agosto, exigindo a renúncia do Presidente. Na manhã de 24 de agosto, Getúlio se suicida. Assim o jornalista descreveu o clima nas ruas: “Vivo, Getúlio estava acabado. Morto, virara um mártir, crucificado pela UDN. (...) Sua morte fechou um ciclo na história do Brasil”. Ainda assim, no novo ciclo que se iniciava, ele foi eleito Deputado Federal, em fins de 1954, aos 41 anos, com a terceira votação da UDN carioca. Em 1955, porém, a cúpula udenista se viu incapaz de levar à presidência um candidato próprio e fechou com a chapa Juarez Távora–Milton Campos, do PDC, contra a dupla Juscelino Kubitschek-Jango, da aliança PSD-PTB com apoio dos comunistas. Setores da UDN, incentivados por Lacerda, lançaram uma campanha contra a posse de Juscelino, alegando que ele não tivera maioria absoluta. A intervenção do general Lott, ministro da Guerra, garantiu, em 11 de novembro, a posse dos eleitos. Governo Juscelino

Em suas memórias, Mário Martins relembra: “Não concordei com as manobras para evitar a posse de Juscelino. Era seu adversário e trabalhara pela vitória de Juarez, mas considerava fundamental o respeito ao resultado das urnas. Essa também era a posição de uma boa parte da UDN que, porém, não teve firmeza para

enfrentar Lacerda e desautorizar sua ação (...). Se não apoiei a pregação de Lacerda contra os eleitos, também não concordei com o golpe liderado por Lott. Insurgi-me, como vice-líder na Câmara, contra a ação do ministro da Guerra, para mim tão condenável quanto a campanha movida pelos adversários de Juscelino”. Ao relatar os principais episódios que marcaram sua vida pública, ele reconhece: “Olhando para trás, com a perspectiva que o tempo nos dá, é indiscutível que Juscelino fez um grande governo, mudando a face do Brasil”. Reeleito em 1958, Mário apoiou Juracy Magalhães, da UDN, que considerava Jânio Quadros “um caminho para o desastre”. A maioria da UDN, porém, preferiu alinhar-se com Jânio. “A verdade é que a UDN não agüentava mais ser oposição; estava louca para finalmente ser governo”, declarou. “Lacerda o engoliu porque compreendeu que era o preço necessário para tirar seus adversários do poder”. A convenção do partido para escolha do candidato foi uma consagração para Jânio e um massacre para Juracy. Na função de Deputado Federal, Mário Martins viajou para Nova York como observador da Assembléia Geral da ONU, onde se atualizou em política internacional e se empenhou na aproximação entre o Brasil e os países chamados de “subdesenvolvidos”, ou seja, os que haviam sido colonizados pelas potências ocidentais. Portanto, além de ter a oportunidade de conhecer líderes presentes à Assembléia – como Kruschev, Fidel Castro, Nehru, Leopold Senghor, Tito –, percebeu a importância de lutar por uma política externa independente. O gabinete de Jânio incluiu três udenistas em ministérios de grande importância: João Agripino, em Minas e Energia, Clemente Mariani, na Fazenda, e Afonso Arinos, nas Relações Exteriores, que acabou com o alinhamento automático da política externa brasileira com Washington. Embora tivesse sido adversário de Jânio na UDN, Mário Martins considerava seu dever defendê-lo no Congresso. “O curioso – lembra em suas memórias – é que a bancada udenista, de início fervorosamente janista, começou a tomar distância do novo presidente, preocupada com os novos rumos da política externa. Dava para sentir no ar que o choque entre a UDN e Jânio era uma questão de tempo”. Mas Mário não chegou a conviver diretamente com esse conflito, pois logo em abril de 1961 desligou-se da UDN e renunciou ao mandato. O motivo parecia sem importância: o Rio tinha direito a um membro efetivo (o mais votado) e dois suplentes no Diretório Nacional do partido. Além dele havia mais dois candidatos: Adauto Lucio Cardoso e Menezes Cortes. No dia da votação, contudo, ele verificou uma mudança de critérios: não haveria uma escolha entre os três nomes, apenas a confirmação de uma chapa em ordem alfabética, na qual o primeiro seria o titular e os outros os suplentes. O A de Adauto e o G de Geraldo Menezes

Cortes tinham-se associado para afastar o M de Mário Martins. “Uma pequena trapaça, que eu não esperava de meus companheiros de partido e me chocou. Deixar o partido implicava em renunciar como Deputado Federal. Sempre fui da opinião que o mandato pertence ao partido, não ao parlamentar”. Mais tarde reconheceu que o episódio da cédula foi a gota d’água: “O fato é que a UDN transformara-se num partido conservador. As teses nacionalistas antes defendidas com vigor dentro do partido não tinham mais espaço”. Pessoalmente, ele também passara por transformações importantes, assumindo posições diferentes das que predominavam na UDN. E – como confessou – sua evolução também foi influenciada pelos filhos: “Na virada dos anos 1960, meus filhos mais velhos eram naturalmente de esquerda. (...) Lembrome de uma vez em que colegas de minha filha Ana Maria (Ana Maria Machado, escritora e atual presidente da Academia Brasileira de Letras - ABL) me submeteram a uma verdadeira sabatina. Parece que fui aprovado, porque ao final um deles disse para ela ‘Sabe, seu pai não é de todo reaça’. Foi o maior elogio que recebi daquela geração”.

Para convencê-lo a aceitar o cargo, Evandro afirmou que os membros do Cade teriam as mesmas garantias que os integrantes do Judiciário, gozando de absoluta independência, inclusive política, o que não o impediria, como jornalista, de criticar o presidente. De 1961 a 1963, Mário Martins vivenciou no plano nacional uma marcha rumo ao confronto. Na política, brotava a consciência de que o País necessitava de profundas reformas que diminuíssem as desigualdades sociais e resguardassem os interesses nacionais. Foi também um período de ebulição criativa no cinema, na música, no teatro. A Igreja Católica se renovou, não só no Brasil, mas em outros países latino-americanos, com a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base, impulsionadas por Dom Helder Câmara, Dom Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, entre outros bispos. Porém, Mário observou na sociedade uma radicalização crescente, atribuindo-a ao fato de que as facções conservadoras, que a custo haviam engolido a posse de Jango, logo tratam de se reagrupar para impedir que seus privilégios fossem feridos. Em setembro de 1961 foi implantado o regime parlamentarista, que vigorou até janeiro de 1963, quando por plebiscito mais de 80% dos eleitores votaram “não”. Enquanto isso, o Ibad – Instituto Brasileiro de Ação Democrática –, criado em 1959 por empresários e suspeito de ter ligações com a CIA, tentava solapar o governo, injetando dinheiro nas campanhas de candidatos hostis a Jango. Extinto por ordem judicial em dezembro de 1963, o Ibad já se infiltrara na política nacional e seus membros continuaram influentes durante o regime militar, implantado três meses depois. “Confesso que naquele momento eu achava que o afastamento de Jango era a melhor saída, pois ele perdera o controle dos acontecimentos e estava empurrando o País para a guerra civil”, declarou Mário que, entretanto, nunca deixou de criticar com veemência, inclusive através da imprensa, as cassações e prisões políticas. Também reconheceu que sua amizade pessoal com Magalhães Pinto, então governador de Minas e representante da ala progressista da UDN, influiu nessa tomada de posição, mas observou: “Apesar da minha amizade com ele, não participei de preparativos para o golpe”. Em casa, a reação dos filhos foi de indignação. Eles não aceitaram sua afirmação de que fora um golpe de centro: “Você acreditou nessa história que o Magalhães está contando? É golpe de direita mesmo, é golpe de gorila!”. Nos primeiros dias de abril, logo depois de Castelo Branco ter sido indicado Presidente, Mário foi convidado para chefiar

“Eu achava que o afastamento de Jango era a melhor saída, pois ele perdera o controle dos acontecimentos e estava empurrando o País para a guerra civil”

Apoio à legalidade

Logo voltou ao jornalismo, em A Noite. O jornal não era mais o grande vespertino dos anos 1920. Seu novo dono, o empresário Frederico Mello, procurou reerguê-lo contratando profissionais experientes. Nos primeiros dois meses, Mário Martins tratou de “arrumar a casa”. O batismo de fogo do jornal veio com a renúncia de Jânio, em agosto. Durante os quatorze dias que a crise durou, o jornal se firmou, alcançando uma vendagem excepcional. Mário defendeu a posse de Jango e foi contra a tentativa de golpe dos ministros militares, apoiando a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola. No Rio, sob o governo de Lacerda, a censura voltou aos jornais. Sua situação em A Noite ficou delicada quando comprou uma briga com O Globo, a respeito do Parque Lage, que Roberto Marinho quis comprar. O Globo respondeu na hora, com denúncias contra Frederico Mello. Este não resistiu e lhe pediu, indiretamente, que saísse do jornal. “Foi o que fiz: em dez minutos apresentei minha carta de demissão”. Ficou dois meses desempregado. No começo de 1962, passou a publicar uma coluna no Jornal do Brasil. Cerca de um ano depois, a convite de seu velho amigo Evandro Lins e Silva, foi nomeado para uma vaga no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão que acabara de ser criado, para aplicar a Lei Antitruste, contra os abusos do poder econômico.

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LEMBRANÇA EM FOCO, A TRAJETÓRIA PLURAL DE UM HOMEM ÚNICO

a Casa Civil. Recusou o convite, respondendo que “estava do outro lado, na oposição”. Pouco depois, ele e os demais conselheiros do Cade pediram demissão. Foi trabalhar na Manchete como repórter especial, mantendo sua coluna no Jornal do Brasil. As eleições presidenciais que se realizariam em outubro de 1965 foram adiadas sine die. O Congresso ratificou essa manobra. As eleições parlamentares de outubro de 1966, entretanto, foram mantidas e vencidas por candidatos não alinhados à “linha dura” no Rio e em Minas Gerais, dois estados que haviam sido fundamentais para a vitória do golpe militar. A reação foi imediata: o AI-2 extinguiu os partidos políticos, instituiu o bipartidarismo, recomeçou as cassações e acabou com as eleições diretas para presidente.

de junho, a “sexta-feira sangrenta”, o centro do Rio ficou paralisado durante seis horas. Cerca de 80 pessoas ficaram feridas e foram vários os mortos. Mais de mil prisões foram efetuadas. Em represália, altos oficiais da Aeronáutica, encabeçados pelo brigadeiro João Paulo Burnier, prepararam um plano terrorista que seria atribuído aos estudantes e à esquerda, com a intenção de criar um clima favorável ao extermínio de inimigos do governo. Numa primeira etapa, tratava-se de explodir o gasômetro do Rio, o que poderia matar centenas de pessoas. A segunda etapa seria levada adiante pelo Para-Sar, esquadrão da Aeronáutica especializado em buscas e salvamentos, que recebeu uma lista de opositores para serem embarcados em helicópteros e atirados ao mar. O plano só não foi adiante graças ao capitão Sergio de Carvalho (conhecido como Sergio Macaco), que enfrenta Burnier e consegue passar informações ao brigadeiro Eduardo Gomes. Este se mobiliza e, finalmente, o plano é sustado. Tudo isto se passou na semana que antecedeu a Passeata dos Cem Mil, realizada em 26 de junho de 1968.

“Mário nunca teve outro ideal, ou objetivo, que não fosse o de servir ao Brasil.”

Os anos de ditadura

Mário usaria sua coluna no JB para fazer oposição aos militares tão logo estes confirmaram a intenção de permanecer indefinidamente no governo. Após a imposição do bipartidarismo, em 1965, filiou-se ao MDB. “Ao ser fundado – explicou – o MDB era composto por parlamentares e ex-filiados do PTB, do PSD e do PSP, entre outros partidos extintos, e por militantes da esquerda, especialmente do PCB. Quase toda a UDN tomou o partido da Arena, criada para dar sustentação parlamentar à ditadura”. Em 1966, candidatou-se ao Senado. Foi eleito com 37% dos votos. Juntos, os três candidatos ao Senado pelo MDB (ele, Benjamin Farah e Danton Jobim) somaram 82% dos votos. Assim, menos de seis anos após sua renúncia ao mandato de Deputado, Mário Martins voltou à luta política em Brasília. Não poupou denúncias e críticas ao regime militar em seus discursos no Senado, envolvendo-se em atrito com o Ministro da Justiça, Gama e Silva, ao apresentar provas de que ele usara seu cargo para favorecer a sonegação fiscal de uma fábrica de cigarros de São Paulo, a Sudan, da qual fora advogado durante anos. Isto se passou em novembro de 1968. Menos de um mês depois veio o AI5, baixado por Costa e Silva, em 13 de dezembro de 1968. O ano de 1968 foi intenso, tanto no crescimento do movimento oposicionista quanto na repressão e no endurecimento do regime. Em março, a polícia matou o estudante Edson Luís ao atirar em um grupo de estudantes no restaurante do Calabouço, freqüentado por alunos das faculdades do centro do Rio. Velado na Câmara Municipal, seu corpo foi levado ao São João Batista por milhares de pessoas. Nova manifestação contra a ditadura foi marcada pelos estudantes para o dia 1o de abril. Em maio, protestos violentos ocorreram no campus da UFRJ, ainda na Praia Vermelha. Em 22 6

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Nas vésperas do AI-5

Na manhã da passeata, o governo percebeu que reprimir a manifestação anunciada poderia desencadear um banho de sangue. Decidiu, então, autorizá-la. Foi com Dinah, sua mulher, à passeata e misturou-se à multidão, praticamente incógnito. Seis dos seus filhos também estavam lá. Se a passeata dos Cem Mil foi o símbolo da primeira parte do ano de 1968, o AI5 foi o da última. No avanço desse processo, o estopim foi o discurso do Deputado Marcio Moreira Alves no dia seguinte à invasão da Universidade de Brasília pela polícia. Ele sugeriu que, em represália, as moças não namorassem mais quem usasse farda. Em qualquer lugar do mundo, ninguém daria atenção a esta chacota, mas no Brasil virou motivo para que a ala mais radical da ditadura decidisse processar e cassar o deputado. Em outubro, a polícia de São Paulo invadiu um sítio em Ibiúna, onde cerca de mil jovens pretendiam realizar o congresso da UNE na clandestinidade. Muitos foram presos e levados para presídios, entre eles Franklin. No dia 12, a Câmara negou a licença para processar Marcio Moreira Alves. Na noite de 13 de outubro, o governo decretou o AI-5, que dava ao ditador o poder de fechar o Congresso, cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos por dez anos, suspender habeas corpus, confiscar bens, intervir em estados e municípios, afastar de seus cargos ministros do STF e de outros tribunais superiores. As prisões começaram na mesma noite. Mário foi preso no dia 14 e libertado na véspera do Natal. No início de feverei-

ro teve seu mandato cassado. Voltou a trabalhar regularmente na Manchete e no Jornal do Brasil, mas logo percebeu que esta era uma situação penosa: no JB escrevia com cuidado, para não criar problemas para o jornal; na Manchete, por mais que Adolpho Bloch lhe demonstrasse apreço, temia o mesmo. Por volta de abril teve um encontro com Franklin, que não via desde o AI-5. O filho mostrou-se convicto de que a ditadura duraria ainda uns vinte anos. E que os meios pacíficos para combatê-la tinham se esgotado. Ele saiu do encontro arrasado. Torceu para que o filho e seus companheiros não estivessem certos, mas também não acreditava em outro caminho. Ainda se estava em 1969. Muita água iria correr antes que o País voltasse à normalidade democrática. Censura férrea, sindicatos sob intervenção, tortura a presos políticos, reação armada por parte de estudantes. No dia 4 de setembro houve o primeiro seqüestro para troca de prisioneiros. O seqüestrado foi o embaixador dos EUA, Charles Elbrick, pouco depois de deixar a sua residência em Botafogo, no Rio de Janeiro. Foi trocado por 15 presos políticos. Entre os que participaram do plano estava Franklin Martins. No simbólico dia 7 de setembro, os 15, transportados em avião militar, chegaram ao México. Mário preferiu deixar o Rio e morar num vilarejo no litoral do Espírito Santo com a mulher e os filhos menores. De tempos em tempos tinha notícias de Franklin, que passara a viver na clandestinidade. Em 1971 Franklin conseguiu sair do país. Foi para o Chile. No final de 1974, um ano após o golpe militar que derrubou Salvador Allende, ele avisou que estava se asilando na França, onde muitos outros brasileiros, chilenos e argentinos viviam a mesma situação. Só então pai e filho puderam se ver novamente. O Brasil estava desde 15 de março sob o governo do general Ernesto Geisel, que nas eleições indiretas vencera pela Arena, com 400 votos contra 76, a chapa oposicionista, do MDB, de Ulysses Guimarães com Barbosa Lima Sobrinho como vice. Quanto à sua vida pessoal, Mário Martins separou-se de Dinah em 1975 e uniu-se a Jane Rodrigues Rios, advogada capixaba que conhecera em 1973 e com quem teve dois filhos – Marianne, nascida em 1977, e Paulo Mario, em 1983. Com ela viveu os 19 últimos anos de vida. Continuaram morando no Espírito Santo, onde dedicou-se à criação de gado durante algum tempo. No cenário político, testemunhou que o regime militar, embora ainda controlasse com mão de ferro o País, estava isolado diante das vozes que exigiam anistia e eleições diretas. O general Figueiredo sucedeu a Geisel em março de 1979 e em agosto a Lei de Anistia foi sancionada. Dez anos haviam se passado desde que Mário Martins tivera seus direitos políticos cassados. Cumprira, portanto, a pena integralmente. Pouco depois o bipartidarismo foi extinto e o governo autorizou a criação de novos partidos políticos. Filiou-se ao

PMDB e candidatou-se a Senador em 1982. Foi a última eleição de que participou. Ela foi vencida por Saturnino Braga, candidato do PDT. Atuação na ABI

Às vésperas de completar 70 anos, Mário Martins atendeu ao convite de Barbosa Lima Sobrinho, então Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, e de colegas jornalistas, para assumir a Presidência do Conselho da entidade. Na ABI, conviveu com Barbosa durante dez anos. Sobre ele, declarou: “É um homem como poucos. Tem um caráter inatingível, no qual se mesclam imensa serenidade e grande firmeza. Conheci-o na mocidade como Procurador do Distrito Federal, defendendo a cidade contra a Light. Depois aprendi a admirá-lo como jornalista e articulista. Nos dez anos em que trabalhamos juntos na ABI, não tivemos a menor divergência e fizemos uma excelente dobradinha – ambos nacionalistas, ambos democratas, ambos antifascistas”. Mário Martins representou a ABI em vários eventos e iniciativas. Em 1983 foi à Nicarágua, como participante de um congresso latino-americano de jornalistas e para conhecer mais de perto a revolução sandinista. Através da ABI, integrou-se à Campanha das Diretas Já e acompanhou a vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral que pôs fim ao regime militar. Após a morte de Tancredo, Sarney formou a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, presidida por Afonso Arinos, para servir de base à Constituinte, que seria eleita em 1986. Por insistência de Arinos, foi indicado para a comissão, da qual faziam parte, entre outros, Evaristo de Moraes Filho, Celso Furtado, Helio Jaguaribe, Cândido Mendes e Mauro Santayana, além do próprio Barbosa Lima Sobrinho. Ao ser lançado candidato ao Senado, em 1986, Arinos convidou-o para ser seu suplente. Embora confessando-se envaidecido com o convite, ele não o aceitou. Ainda participou do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, órgão do Ministério da Justiça, em Brasília. Percebeu, porém, que nada se podia fazer de sério ali, pois o Conselho não tinha poder algum. “Minha presença ali era pura perda de tempo e não compensava o esforço de viajar a Brasília. Decidi deixá-lo”. No Espírito Santo, a pedido do empresário Carlos Lindenberg Filho, organizou uma série de debates sobre a Constituição, publicados na íntegra pelo jornal A Gazeta. A partir daí, dedicou sua atividade exclusivamente à ABI: “Nada mais natural do que encerrar minha vida pública no jornalismo. Afinal, foi ele que me abriu as portas da vida pública”, declarou em memórias, pelas quais desfilam personagens e acontecimentos fundamentais para a história brasileira. Sobre ele, disse Barbosa Lima Sobrinho: “Sua carreira política se desdobrou naturalmente, de Vereador a Deputado e Senador, assim como foi impecável sua carreira de jornalista (...). Mário nunca teve outro ideal, ou objetivo, que não fosse o de servir ao Brasil”.


DIREITOS HUMANOS

Continentino Porto: “Maurício Azêdo foi um dos jornalistas que mais sofreram injustiças” Comissão da Verdade do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro investiga as atrocidades cometidas durante o regime militar. Continentino Porto – Uma das etapas mais importantes da nossa Comissão da Verdade foi o encaminhamento de um ofício ao Arquivo Público do Estado solicitando acesso aos documentos e informes elaborados pelos “arapongas” do antigo Dops fluminense. O Arquivo Público está pesquisando milhares de documentos que serão transformados em relatórios e repassados à nossa Comissão. De posse destas informações, descobriremos a identidade dos presos encaminhados ao Ginásio Caio Martins. Também solicitamos ao governador Sérgio Cabral o tombamento das instalações do antigo Dops de Niterói, onde vamos fazer imagens, assim como a da antiga sede do Comando da Polícia Militar, onde estiveram presas quatro mulheres, entre elas, a jornalista Lourdes Pacheco, a Lou.

P OR C LÁUDIA S OUZA

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro (SJPERJ) foi o primeiro da categoria a criar uma Comissão da Verdade com o objetivo de construir um amplo levantamento documental e iconográfico sobre os profissionais de imprensa perseguidos pelo regime militar. Desde agosto de 2012, a entidade está apurando dezenas de casos e colhendo depoimentos de jornalistas e de parentes das vítimas do martírio e do flagelo impostos nos porões da ditadura. O trabalho está sendo conduzido por Continentino Porto, Presidente do SJPERJ, e Conselheiro da ABI. Na entrevista a seguir, o jornalista detalha os avanços das investigações, cujo documento final contribuirá para o resultado da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Jornal da ABI – Qual o objetivo da Comissão do SJPERJ? Continentino Porto – A Comissão da Verdade do Sindicato dos Jornalistas pretende revelar vários abusos de poder dos agentes que representavam o governo ditatorial e promoveram prisões, torturas e assassinatos, contrariando os direitos humanos e a Constituição do Brasil. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro foi a primeira entidade sindical do País a criar a sua Comissão da Verdade. Ela está priorizando depoimentos públicos de jornalistas e familiares das vítimas do regime militar instalado em 1964. Jornal da ABI – Qual a importância histórica da Comissão da Verdade do Sindicato dos Jornalistas? Continentino Porto – Cabe à Comissão da Verdade do nosso Sindicato apurar e esclarecer tudo o que aconteceu com os jornalistas fluminenses nos porões da ditadura. Desta forma estaremos colaborando com os parentes das vítimas que foram presas e torturadas. Precisamos, de fato, preservar os verdadeiros episódios ocorridos no período da ditadura militar para que constem nos anais da História e sirvam de exemplo às próximas gerações. A iniciativa se insere no contexto da Memória, Verdade e Justiça tão almejada por amplos segmentos da sociedade brasileira. Jornal da ABI – Quantos depoimentos já foram ouvidos? Continentino Porto – Dentre as dezenas de depoimentos, podemos citar o da jornalista Fátima Lacerda, que acusa um ex-presidente do Sindicato de ter ameaçado sua família. Ouvimos também o irmão e a filha do jornalista Jairo Mendes, que presidiu o Sindi-

Continentino: “Temos o dever de mostrar o que foram os anos de arbítrio”.

cato do antigo Estado do Rio. Jairo esteve preso no Ginásio Caio Martins – que serviu de presídio para cerca de 300 pessoas – e, em seguida, foi transferido para o Dops de Niterói. O modelo de repressão em estádios de futebol foi replicado em outros pontos do Brasil e em diversos países, como no Estádio Nacional do Chile. Jornal da ABI – O que aconteceu com Jairo Mendes? Continentino Porto – Jairo morreu tuberculoso, na miséria. Ele recebia ajuda dos amigos para sustentar sua família. No dia 1º de abril, quando foi preso, Jairo trabalhava na Última Hora fluminense, dirigida pelo jornalista Theodoro de Barros, na qual assinava a coluna sindical. Jornal da ABI – Além do drama de Jairo Mendes, quais outros relatos o senhor poderia citar? Continentino Porto – A Comissão da Verdade ouviu também o jornalista Élcio Estrela, que trabalhava na sucursal do Jornal do Brasil, em Niterói. Élcio foi preso em São João da Barra, norte do Estado, permanecendo no presídio de Campos. Foi transferido para o Dops de Niterói, onde ficou numa cela ao lado do Deputado Afonso Celso Nogueira Monteiro e do jornalista Jairo Mendes. Quem foi buscar Élcio Estrela na prisão foi o comissário Wilson Madeira, que era sócio do nosso Sindicato e registrado como jornalista. Wilson era colunista social de um jornal de Petrópolis. Jornal da ABI – O que aconteceu com Élcio Estrela após a soltura?

Continentino Porto – Depois de ser libertado, Élcio foi trabalhar no Jornal do Brasil, mas como era convocado constantemente para depor no Dops do Rio e da Guanabara, o jornalista Alberto Dines, que era o Diretor de Redação, achou melhor transferi-lo para a sucursal paulista do JB. A nossa Comissão da Verdade gravou também depoimentos dos jornalistas Inaldo Batista, Jourdan Amora, Fernando Paulino, Dona Geralda, irmã de Jairo Mendes, das professoras Maria Felisberta e Aidyl de Carvalho (parceira de Jairo Mendes), de Egberto Mendes, filho de Jairo Mendes, Beatriz Charge, Fábio de Barros, filho do jornalista Affonso Henrique de Barros, Dulce Tupy, Mario Augusto Jakobskind, Luiz Antonio Pimentel e Pinheiro Júnior, que foi preso em 1964, no Rio, e em 1969, no Dops de Niterói. Em seu depoimento, Pinheiro Júnior falou sobre os dias que sucederam a edição do AI-5 no jornal Última Hora, cuja Redação foi ocupada por dois coronéis que constrangiam os repórteres portando pistolas 45. Pretendemos ouvir, entre outros, o jornalista João Luiz Faria Neto, que na época era subsecretário da Casa Civil do governador Geremias de Matos Fontes. João foi preso no Palácio do Ingá, em Niterói. Ouviremos também a Sra. Nely, mulher do jornalista Maurício Hill, preso e perseguido pela ditadura, Eraldo Quintanilha e Evaldo Nascimento. Jornal da ABI – Quais outras atividades a Comissão vem promovendo, além dos depoimentos?

Jornal da ABI – Qual foi o planejamento instituído pela Comissão da Verdade para investigar os casos de perseguição e morte e para localizar as vítimas e seus familiares? Continentino Porto – Estamos trabalhando em parceria com a Comissão Nacional da Verdade, a Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro, do Município de Niterói, e com a Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República. Além de mim, integram a Comissão do SJPERJ os jornalistas José Marques, Maurício Guimarães, Sílvia Maria Junqueira (Silvinha), e Mario Augusto Jacobskind, que é da ABI. Em relação a esta entidade, o caso de Maurício Azêdo também vem sendo apurado. Os arapongas do Doi-Codi escreveram muitas inverdades em seus arquivos secretos. Tive acesso a alguns desses documentos inverídicos que relatam que Maurício teria começado “atuando dentro da ABI em 1974, onde colocara mais de 150 subversivos como se fossem jornalistas, e que, para facilitar o ingresso deles, contara com o apoio da Comissão de Sindicância, toda formada por comunistas notórios, entre os quais, Gumercindo Cabral”. Oscar Maurício Azêdo foi um dos jornalistas que mais sofreram injustiças, calúnias, torturas e humilhações. E não foram poucas. A linha dura dos militares implantaria um esquema de endurecimento violento, editando várias leis de Segurança Nacional e de Imprensa, culminando, a partir de dezembro de 1968, com a decretação do Ato Institucional nº5, o AI-5. Azêdo suportou os interrogatórios com dignidade, como no Dops-GB. Na CGI, os militares aplicaram o Manual de Técnicas de Interrogatórios, editado pelo famigerado SNI, o mesmo utilizado nos de-

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DIREITOS HUMANOS

Jornal da ABI – Em sua opinião, qual será o legado deste trabalho de investigação? Continentino Porto – A área jornalística do Estado do Rio de Janeiro foi duramente atingida durante a ditadura militar. Há muitas testemunhas dispostas a contar as suas histórias e tudo o que se passou ao longo de mais de duas décadas de autoritarismo. Mesmo não tendo função punitiva, a Comissão da Verdade será fundamental para revelar uma série de atos que marcaram esse momento histórico. A partir de nosso trabalho, entregaremos para a sociedade documentos e gravações que reforçarão o nosso objetivo de mostrar a verdade sobre o período em que os direitos individuais e a democracia foram seriamente violados. Temos o dever de mostrar, sobretudo às novas gerações, o que foram os anos de arbítrio aqui no Estado do Rio de Janeiro. No município de Campos dos Goytacazes, por exemplo, um setor da Usina de Açúcar Cambaiba foi transformado em forno crematório, conforme denúncia do delegado de polícia Cláudio Guerra. Jornal da ABI – Há casos muito graves de perseguição em outros municípios do Rio de Janeiro? Continentino Porto – Há inúmeros fatos ainda não revelados, sobretudo no interior do Estado do Rio, onde o autoritarismo imperou e os responsáveis sequer foram apontados. Jornal da ABI – Quais serão as próximas ações da Comissão do SJPERJ? Continentino Porto – Estou pesquisando muito no Arquivo Público, onde tive acesso aos documentos do Dops de Niterói. Nos primeiros relatórios que li fiquei horrorizado com os erros gravíssimos de português dos textos dos informantes, sendo que a separação do sujeito do verbo é o mais comum. No informe sobre o jornalista Theodoro de Barros, além de taxá-lo como comunista e organizador da lista de jornalistas que visitavam Cuba, um dos informantes escreveu uma pérola referindo-se à esposa de Theodoro: “A beleza da mulher dele facilita muito seu depoimento.” Já solicitei os informes sobre os jornalistas Anderson Viana, Maurício Hill, Inaldo Batista, Germano Rodrigues. Jornal da ABI – Que mensagem o senhor deixaria para os jornalistas neste período de resgate histórico da imprensa brasileira? Continentino Porto – A diretoria do SJPERJ apela aos associados e cidadãos deste Estado que tenham informações a prestar e que queiram ajudar a contar a nossa história, que entrem em contato com o sindicato, localizado na Rua Saldanha Marinho, 219. Vale sempre observar que o conhecimento do nosso passado ajuda-nos a entender melhor o presente e evita que se repitam violações aos direitos humanos. Por isso, é dever cívico de todos que puderem colaborar com esta iniciativa. 8

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CNV/DIVULGAÇÃO

poimentos do presidente Juscelino Kubitscheck, no Quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, onde estava instalado o centro de torturas e mortes. Mas nada disso foi suficiente, pois eles não conseguiram humilhar Maurício Azêdo, que apesar do sofrimento atroz permanecia em silêncio, o que irritava seus inquisidores.

Ex-presos políticos visitam a Vila Militar, na Zona Oeste do Rio.

Reencontro com o terror na Vila Militar A comitiva da Comissão Nacional da Verdade-CNV visitou, no dia 23 de janeiro, a Vila Militar, em Deodoro, no Rio de Janeiro. O objetivo da diligência foi tentar reconhecer, apesar das inúmeras mudanças pelas quais o lugar passou, as celas e as salas de tortura. A missão contou também com os membros da Comissão da Verdade do RioCEV-Rio, João Ricardo Dornelles e Eny Moreira, além de Manoel Moraes, da Comissão da Verdade de Pernambuco. “Essa visita é o primeiro requisito para constituirmos um futuro de reconciliação com o Exército e para compreendermos essa missão de investigar os crimes ocorridos durante a ditadura militar e reconhecer os locais de violações de direitos, como foi a Vila Militar. É importante para marcarmos que esse foi um local de tortura e morte”, disse Rosa Cardoso, membro da CNV. A comitiva foi recebida pelo General Abreu, que há dois anos comanda a unidade. Conversando com os ex-presos políticos que estiveram detidos no local e acompanharam a visita, ele disse que era preciso “analisar o contexto histórico e entender a visão de mundo da época”. Sobre o local, ele falou que a última reforma aconteceu em 2011, mas que as mudanças não foram

motivadas pela história. Mesma opinião do cineasta Silvio Da-Rin, que foi preso em 1969 e conseguiu identificar onde eram as celas, solitárias e coletivas, e o refeitório, onde os presos recebiam a visita de familiares e advogados. “Era natural que essas obras fossem feitas, mas a nossa história é para além do concreto armado. Diz respeito a uma conjuntura política: a do Estado que assumiu a missão de reprimir quem insurgisse contra o regime. Esse lugar não me traz memórias agradáveis, mas tinha que evocar fatos vividos para fazer essa visita de reconhecimento”, disse um emocionado Silvio que, durante sua prisão, viu o estudante de medicina Chael Charles ser morto. Silvio prestou depoimento no dia 24 de janeiro, no Arquivo Público Nacional, sobre esse caso, em audiência pública realizada pela CNV, em parceria com a CEV-Rio, que vai se debruçar também sobre a morte do sargento da PM do antigo Estado da Guanabara, Severino Viana. Outro ex-preso político que esteve na visita foi Francisco Celso Calmon Ferreira Silva. Ele fez questão de falar os nomes de 18 companheiros que foram presos e levados para o local. Lembrou, por exemplo, de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dodora. Em 1976, não suportando a depressão motivada

pelas torturas e abusos sexuais que sofreu, ela se atirou nos trilhos do metrô de Berlim, onde vivia no exílio. Esteve, por 42 dias, presa na Vila Militar. “Fiz questão de falar os nomes dos meus companheiros para marcar a vida dos que passaram aqui. Na verdade, eles ainda estão aqui. Os seus gritos, urros e choros ainda estão impregnados nesse lugar. Nós temos um compromisso com a História e ela deve ser passada para essa guarnição, já que muitos desconhecem o que aconteceu, como o uso, pelas Forças Armadas, do pau-de-arara. Só assim será possível que Exército, Marinha e Aeronáutica façam uma auto-crítica”, afirmou. O membro da CEV-Rio, João Ricardo Dornelles, destacou que a comissão estadual já se debruça sobre outros locais de memória, como a Casa da Morte, em Petrópolis, o Doi-Codi, que funcionou na Tijuca, e o Dops, no Centro do Rio. A idéia é, a exemplo de outros países, transformar esses lugares em centros de memória. “Hoje foi um momento histórico para reconhecer mais um local onde houve, comprovadamente, violações de direitos. Só assim poderemos avançar na história e conseguir uma reconciliação. Acredito que avançamos em um diálogo entre as instituições”.


Emoção marca depoimentos de vítimas de torturas P OR I GOR W ALTZ

“A Comissão Nacional da Verdade vai surpreender a todos”. Foi com essas palavras que a advogada Rosa Cardoso, membro do colegiado da CNV, encerrou a audiência pública do dia 24 de janeiro, no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Durante o evento, foram ouvidas vítimas de torturas e testemunhas de mortes ocorridas na Vila Militar de Deodoro, Zona Oeste da cidade, no período da ditadura militar. De acordo com Rosa, a comissão começou “recolhida, voltada pra si própria, para seu umbigo”, mas, com a participação da sociedade e dos militantes, mudou sua postura. “E mudará bem mais”, disse ela. A advogada pediu atenção aos trabalhos e disse que todos vão se surpreender com o relatório final, que deve ser elaborado no fim deste ano, quando a discussão será ainda mais aberta, com a participação da sociedade. Ela lamentou, porém, que a maioria dos violadores de direitos humanos durante a ditadura militar não compareça às audiências. E lembrou que muitos deles já morreram, visto que os casos investigados aconteceram há cerca de 50 anos. Na parte da manhã, um dos convocados para a audiência, o médico aposentado do Exército, Hargreaves Figueiredo Rocha, de 82 anos, negou a participação na necrópsia do preso político Severino Viana Colou, que, segundo depoimentos, foi torturado e morto pela Polícia do Exército em 1969. O laudo da necrópsia atesta que Colou, policial militar da Guanabara, havia se suicidado por enforcamento usando a própria calça. Mas depoimentos de ex-presos nas auditorias militares apontam para a ocorrência de tortura. O médico aposentado afirmou desconhecer o motivo de seu nome aparecer no documento. O laudo traz rubricas na lateral que serão submetidas a um exame grafotécnico para que possam ser identificadas. “Esse documento está completamente equivocado. Não sei porque meu nome está aí. O meu Exército era outro. Nunca tive que fazer nada que fosse contra a minha ética profissional”, disse Hargreaves. Ele afirmou que poderia acionar a Justiça por causa da citação no documento, que classificou também de “falso”. O médico negou que tenha feito necrópsias no hospital e disse que trabalhava na clínica médica e na pediatria. “Meu trabalho era pacífico. Não tinha nada a ver com isso”. Rosa Cardoso considerou polêmica a declaração do médico de que o documento é uma fraude e duvidosa a afirmação dele de que nunca colaborou com os torturadores. “Vamos tentar ver se há outros laudos assinados por ele ou se este é um laudo isolado. Vamos ainda rever as rubricas e ver se identificamos ali uma assinatura dele”, disse ela. Dois agentes do regi-

me militar foram convocados para depor, mas não compareceram. Celso Lauria, capitão do Exército na época e encarregado de um inquérito policial militar que investigou o grupo armado VAR-Palmares, apresentou um atestado médico. E o então sargento Euler Moreira justificou a ausência alegando que já tinha uma viagem programada e paga. Ainda na parte da manhã, foi ouvido o ex-líder do grupo VAR-Palmares Antônio Roberto Espinosa, preso com Maria Auxiliadora Lara Barcelos e Chael Charles Schreier, morto sob tortura também na sede da Polícia do Exército, na Vila Militar, zona oeste do Rio. O trio foi preso em uma casa no bairro Lins de Vasconcelos, após ser denunciado pelo proprietário da casa que alugava. Os três tentaram resistir à prisão, mas não conseguiram fugir. Na prisão, Antônio conta ter sofrido com Chael e Maria Auxiliadora torturas físicas e psicológicas de diferentes tipos, como agressões, choques elétricos e sessões no pau-de-arara. “Meu pênis chegou a ser amarrado a um arame, que era puxado por um militar que corria e eu tinha que se-

guir”. Contra a namorada, os suplícios eram principalmente de cunho sexual, com freqüentes agressões verbais e xingamentos. Com 25 anos na época, Maria era mantida nua na cela e os militares chegaram a usar uma tesoura com que ameaçavam cortar seus mamilos. Ela se suicidou dois anos depois no metrô de Berlim, cidade alemã onde estava exilada. O Presidente da Comissão Estadual do Rio de Janeiro, Wadih Damous, classificou de covarde a atitude daqueles que torturaram no passado e hoje se esquivam dos depoimentos. “Os que combateram a ditadura não se envergonham do que fizeram, mostram sua cara e fazem questão de vir contar suas histórias. E os valentões que torturaram, mataram e desapareceram [com pessoas], esses se escondem como ratos, não aparecem e, quando vêm, não abrem a boca”, disse o advogado. “Escudam-se de uma garantia da democracia que eles negaram às suas vítimas.” Além dos obstáculos causados pela falta de testemunho dos acusados, Damous criticou a falta de uma postura mais rígida por parte do Estado brasileiro em relação aos

chefes militares. “Sinto-me envergonhado defronte de um argentino e um chileno, quando me indagam se algum torturador foi punido no Brasil e tenho que responder: nenhum. E sem ter a certeza de que um dia isso acontecerá”, afirmou. À tarde, em depoimento contundente, a professora Rosalina Santa Cruz relatou em detalhes diferentes formas de tortura que sofreu durante 52 dias seguidos. Emocionada, Rosalina contou sobre o dia em que a esmurraram na barriga diversas vezes quando souberam que estava grávida. Após sofrer um aborto, a então prisioneira ouviu de um dos torturadores que ‘comunista não tinha direito de ter filho’. Todas as testemunhas ouvidas à tarde disseram que não querem vingança, nem revanche. Apenas justiça. “O que foi feito conosco – éramos pessoas de classe média – é feito neste momento com uma jovem, uma mulher, um menino em uma delegacia de bairro. São torturados, pendurados em pau-de-arara. Sei o que é levar tapa na cara, pontapé, porque o arcabouço da ditadura não acabou e não podemos compactuar com isso”, completou.

Tribunais ganham tempo para envio de documentos P OR I GOR W ALTZ

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) prorrogou o prazo para que os tribunais brasileiros apontem os processos relacionados às violações de direitos humanos que ocorreram no período de 1946 a 1988 – com ênfase, sobretudo, na época da ditadura militar, a partir de 1964. A data limite para o envio dos dados passou do dia 31 de janeiro para 15 de fevereiro. Essas informações são importantes para o registro público dos fatos ocorridos em um dos períodos mais obscuros da história do Brasil. O repasse de documentos e dados sobre os processos está previsto no Termo de Cooperação Técnica nº 022, assinado pelo CNJ e a CNV em outubro do ano passado. O acordo visa à disponibilização de documentos e informações úteis à finalidade da comissão de esclarecer as graves violações de direitos humanos durante a ditadura. Os documentos e informações podem abranger registros administrativos ou processuais. Os dados ajudarão os integrantes da Comissão da Verdade na produção do relatório com esclarecimentos do que ocorrera na época, assim

como na construção de um acervo que, posteriormente, ficará disponível no Arquivo Nacional. Janaina Penalva, Diretora do Departamento de Pesquisas Judiciárias-DPJ do CNJ, explicou que a prorrogação do prazo para que os tribunais encaminhem ao Conselho as informações justifica-se pela grande quantidade de processos que fazem parte dos acervos históricos dessas cortes. Ela conta que os tribunais ainda serão notificados quanto à nova data. “Os Tribunais, em especial os setores de arquivo e museu, manifestaram grande interesse em colaborar nesse processo. Além da importância do projeto para a democracia brasileira, o trabalho reforça o valor da gestão documental, além de dar visibilidade aos acervos históricos do Poder Judiciário”, afirmou. Janaina esclareceu que as bases para a realização da pesquisa foram fornecidas pela própria Lei nº 12.528/2011, que criou a Comissão Nacional da Verdade. “A norma cita as graves violações de direitos humanos, como mortes, torturas, ocultação de cadáver; assim como documentos correlatos, como habeas corpus, ações de indenização e mandados de segurança. Foram tomadas tam-

bém como referências o trabalho do Proname (Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário, do CNJ) e os assuntos da tabela de temporalidade de guarda de documentos criada pela iniciativa”, afirmou a pesquisadora. Após os tribunais apontarem os processos, o CNJ compilará as informações e as enviará para a Comissão Nacional da Verdade. Em paralelo, os tribunais se preparam para receber os pesquisadores da CNV que farão consultas aos documentos em cada tribunal. “O acordo tem relevância por permitir a sistematização do acervo de todo o Judiciário referente ao período autoritário no Brasil, ação inédita até o momento. Também tem importância por fazer um resgate da história da atuação do próprio Poder Judiciário no período e recuperar a história de milhares de pessoas que recorreram à Justiça para garantir seus direitos na época. O projeto também serve para dar visibilidade à grande quantidade de informações que o Judiciário pode fornecer como fonte de pesquisa documental sobre a história do País, seus costumes e tradições jurídicas e políticas”, afirmou a diretora do DPJ.

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DIREITOS HUMANOS

Deu no New York Times Reflexão de Henfil segue atual, como demonstra o caso do ex-agente de inteligência norte-americano Edward Snowden. SCREENSHOT OF THE FILM PRISM BY PRAXIS FILMS/LAURA POITRAS

P OR M ÁRIO A UGUSTO J AKOBSKIND

Edward Snowden, o ex-agente de inteligência dos Estados Unidos, atualmente vivendo em Moscou, foi defendido em editorial pelos jornais norte-americano The New York Times e pelo britânico The Guardian. Foi pedido às autoridades de Washington que tenham clemência com ele. No mais importante jornal estadunidense, o editorial de alguma forma surpreendeu, porque a publicação havia mantido um silêncio comprometedor sobre o tema desde que as revelações de Snowden começaram a ser divulgadas, provocando um verdadeiro tsunami político nos mais diversos quadrantes do mundo. A imprensa brasileira, com raras exceções, limitou-se inicialmente a reproduzir as denúncias do ex-agente da CIA sobre espionagem a dirigentes políticos mundiais, inclusive aliados dos Estados Unidos, e mesmo empresas. E tudo isso acontecia tendo como justificativa oficial o “combate ao terrorismo”. Celular de Dilma Rousseff grampeado

O Brasil também foi afetado com as revelações. Até o telefone celular da Presidente Dilma Rousseff estava sendo rastreado pela inteligência norte-americana, da mesma forma que a Petrobras, sendo que no caso da empresa petrolífera a espionagem acontecia pouco tempo antes da realização do leilão de petróleo da bacia de Libra, na área do pré-sal. A imprensa brasileira deu pouco espaço em relação à possibilidade de o governo brasileiro conceder asilo político a Snowden,

Jornal da ABI

ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA

Snowden: defendido em editorial.

tendo da última vez a própria Presidente afirmado que Snowden não tinha feito o pedido nesse sentido, o que justificava, para Dilma Rousseff, o não posicionamento na matéria. Poucos analistas observaram que a concessão de asilo político por parte do governo brasileiro poderia provocar represálias por parte do Departamento de Estado norte-americano. Para compensar, Dilma Rousseff fez incisivo pronunciamento nas Nações Unidas criticando a espionagem e sugerindo medidas concretas para evitar a continuidade dos rastreamentos dos serviços secretos norte-americanos. De um modo geral, os meios de comunicação nacionais silenciaram em relação à divulgação de informações em defesa da concessão do asilo político. Quando a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos concedeu, no mês de setem-

bro do ano passado, Medalha de Direitos Humanos a Snowden, por “serviços prestados à Humanidade”, o fato foi ignorado pela mídia nacional. Somente a TV Brasil, uma mídia pública, divulgou o fato. Repercussão dos editoriais na mídia nacional

Os editoriais do The New York Times e The Guardian repercutiram na mídia brasileira, fazendo lembrar o que dizia ironicamente o saudoso cartunista Henfil: “deu no New York Times”, o que levava a acontecer na imprensa também aqui. Henfil chegou a produzir um filme intitulado Deu no New York Times, que passou quase despercebido pela crítica. Alguns dias após a divulgação do pedido do The New York Times, não por acaso a colunista de O Globo, Dorrit Harazim, comentava em artigo – Quem sabe faz a hora – a demora do jornal norte-americano em se posicionar sobre o tema. Ela citou inclusive uma palestra do ex-agente da CIA, Ray McGovern, que esteve na ativa por 27 anos, servindo a governos desde John Kennedy a George Bush pai. Crítico depois de aposentado, McGovern chegou até mesmo a devolver a medalha que recebeu, segundo Harazim, “por não querer se associar, nem remotamente, ao envolvimento da agência com práticas de tortura adotadas na guerra contra o terror”. A colunista de O Globo, em sua reflexão na edição de domingo, 5 de janeiro de 2014, lembrava ainda os rastreamentos realizados pelo FBI, então sob o comando de J. Edgard Hoover, a Albert Camus e Jean Paul Sartre, quando estes passaram alguns dias nos Estados Unidos.

DIRETORIA – MANDATO 2013-2016 Presidente: Fichel Davit Chargel Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Fichel Davit Chargel Diretor Econômico-Financeiro: Sérgio Caldieri Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretor de Arte e Cultura: Henrique Miranda Sá Neto Diretor de Jornalismo: Alcyr Cavalcanti

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha franciscoucha@gmail.com

CONSELHO CONSULTIVO 2013-2016 Ancelmo Gois, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Miro Teixeira, Nilson Lage, Teixeira Heizer, Villas-Bôas Corrêa.

Apoio à produção editorial: André Gil, Cesar Silva, Conceição Ferreira, Paulo Chico.

CONSELHO FISCAL 2013-2014 Adail José de Paula, Dulce Tupy Caldas, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Manolo Epelbaum.

Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva. Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ – Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Martinico Prado, 26, Conjunto 31 Higienópolis - Cep 21224-010 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 – Osasco, SP

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MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2013-2014 Presidente: Vitor Mario Iorio Primeira Secretária: Irene Cristina do Amaral Gurgel Segundo Secretário: Moacyr Lacerda Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo (in memoriam), Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório. Conselheiros Efetivos 2013-2016 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Dulce Tupy Caldas, Fernando Foch, Germando de Oliveira Gonçalves, João Máximo, Marcelo Tognozzi, Milton Temer, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Sérgio Cabral, Sérgio Caldieri e Zilmar Borges Basílio Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felippe Meiga Santiago (in memoriam), Edgar Catoira, Francisco

Homenagem da ABI

A figura de Edward Snowden continuará ocupando grandes espaços midiáticos pelo mundo afora e promete, ao longo de 2014, novas e surpreendentes revelações. Até porque a maior parte do arsenal informativo de Snowden não foi divulgada. A ex-secretária de Segurança Nacional, Janet Napolitano, ao comentar o editorial do principal jornal dos Estados Unidos, informava que Snowden não receberá o perdão de Washington caso decida voltar ao país onde nasceu. Para Napolitano – cujo pensamento pode ser considerado como a opinião do governo norte-americano –, o ex-agente de inteligência estadunidense provocou danos ao país e o fez “violando as leis”. Ao mesmo tempo em que os refletores midiáticos seguem voltados para Moscou, onde se encontra Snowden, outra figura importante relacionada com as revelações de espionagem está a caminho de completar um ano e meio na Embaixada do Equador em Londres. Julian Assange não quis correr o risco de ir à Suécia para responder pessoalmente às acusações de supostos assédios sexuais, por temer que as autoridades do país escandinavo o deportem aos Estados Unidos, onde seria processado e provavelmente condenado por ter feito também revelações no site WikiLeaks sobre espionagem norte-americana no mundo. Da mesma forma que Snowden, Assange foi homenageado pela ABI com a Medalha de Direitos Humanos por serviços prestados à humanidade. Fato que também foi praticamente ignorado pelos principais meios de comunicação brasileiros.

Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão (in memoriam) e Wilson S. J. Magalhães.

Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordan Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e Wilson Fadul Filho. Conselheiros Suplentes 2013-2016 Antônio Calegari, Aluízio Maranhão, Carlos de Sá Bezerra, Daniel Mazola, Gilson Monteiro, Ilma Martins da Silva, José Cristino Costa, Luiz Carlos Azêdo, Manoel Pacheco, Marceu Vieira, Miro Lopes, Moacyr Lacerda, Paulo Gomes Netto, Vilson Romero e Yacy Nunes. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Alberto Marques Rodrigues, José Pereira da Silva, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Marcus Antônio Mendes de Miranda e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Daniel Mazola; Alcyr Cavalcanti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Carlos de Sá Bezerra, Carlos João Di Paola, Ernesto Vianna,Geraldo Pereira dos Santos, Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Milton Temer, Miro Lopes, Modesto da Silveira, Vilson Romero, Vitor Iório e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. Assistente: Rosani Abou Adal REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor), Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

JORNAL DA ABI • JANEIRO DE 2014 O 397 JORNAL DA ABI NÃO ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008.


MEMÓRIA AJB-RIO

O AI-5, 50 anos depois POR RODOLFO KONDER

O

regime militar imposto por um golpe, em 1964, mostrava sinais de cansaço. Grandes passeatas, nas ruas, exigiam a volta da democracia. Então, os militares mais radicais, da chamada “linha dura”, impuseram o AI-5 - o Ato Institucional nº 5. Era um golpe dentro do golpe. Intensificaram a repressão, as perseguições políticas, a censura. Restringiram com violência o pouco espaço de liberdade que ainda restava no País. Vivemos horas cinzentas, um tempo de farsa e tragédia, de insegurança e medo, no Brasil daqueles anos de chumbo. Alguém ainda se lembra? Alguém se lembra da ação permanente e estúpida da censura, que golpeava jornais, revistas, estações de rádio e de televisão? Dos censores que confundiam livros sobre cubismo com propaganda de Fidel Castro? Alguém se lembra das prisões sem processo, das ameaças permanentes que pendiam sobre nossas cabeças, como espadas de fogo? Das incerte-

zas provocadas pela falta de um Estado de Direito claro e inquestionável? De um País amordaçado, de uma sociedade amedrontada? De um mundo dominado pelo ódio? A partir de dezembro de 1968, o País mergulhou na mais completa escuridão, com o AI-5. Saiu da penumbra para entrar na escuridão. Alguns grupos isolados pegaram em armas para combater o regime militar. Um grave equívoco. Contribuíram assim para fortalecer a repressão – e logo foram eliminados. Os defensores da democracia, na sua maioria, optaram por enfrentar a ditadura sempre pelo caminho da articulação política, sem armas na mão. Foram perseguidos, presos, alguns se exilaram, outros “desapareceram”. Muitos foram mortos, como o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. Outros ainda ficaram desfigurados pela humilhação e pela tortura.

Nada, absolutamente nada justifica uma ditadura. Os fins não justificam os meios, como dizem alguns estúpidos defensores do autoritarismo. Ao contrário, meios imorais poluem e conspurcam os fins, destruindo-os. Com o tempo e a resistência dos democratas, o regime perdeu força, dividido e fragilizado. Perdeu o fôlego, isolado. A economia se enfraqueceu, o setor militar mais moderado, liderado pelo Presidente Ernesto Geisel, adotou uma política de abertura, “lenta, gradual e segura”. No governo do seu sucessor, o general Figueiredo, os brasileiros finalmente reconquistaram a democracia e a liberdade. Foram vinte anos de ditadura, num mundo dominado pela Guerra Fria e numa América Latina onde o medo moldou diversos regimes de exceção. Não podemos esquecer. Ditadura, nunca mais. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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LÍNGUA PORTUGUESA

Em busca de um Acordo que faça sentido Especialista aponta as falhas que o levaram a travar uma cruzada em defesa da Língua Portuguesa.

Jornal da ABI – Quais as razões pelas quais o sr. se opõe ao Acordo Ortográfico de 1990? Ernani Pimentel – São várias as razões. Elas encontram-se no site simplificandoaortografia. com. Mas, entre elas, posso destacar o anacronismo, que faz o AO90 basear-se em regras cujos fundamentos são a pura e mais simples memorização, ou “decoreba”, que não mais cabem no ensino do século em que vivemos. O aluno e o cidadão de hoje querem entender os fatos – e não decorá-los. A educação moderna deve ser prática, objetiva e lógica, até para mostrar o lado emotivo e criativo do saber humano. No Brasil, os exames nacionais de concursos públicos e pré-acadêmicos estão valorizando acertadamente o raciocínio lógico. Mas as regras dessa ortografia são de séculos passados, eivadas de ilogicidades. Jornal da ABI – Pode dar exemplos, para ilustrar essas ilogicidades? Ernani Pimentel – Persistem regras como: “Grafam-se com ‘j’ as palavras derivadas do árabe, do tupi e das línguas africanas”, mas não se ensinam quais são essas palavras... Então, o aluno só as decora, mas não sabe aplicá-las. E mais, a regra não funciona em muitos casos.

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Como se explica que ‘estender’ se escreve com ‘s’ e ‘extensão’ com ‘x’, se ambas vêm do latim com ‘x’? Por que ‘cor de bonina’, ‘cor de laranja’, ‘cor de violeta’ se escrevem sem hífen e ‘corde-rosa’ com? Por que ‘giravolta’ sem hífen e ‘gira-mundo’, ‘gira-pataca’ com? Por que ‘guarda-chuva’ e ‘manda-tudo’ com hífen e ‘mandachuva’ sem? Que sentido faz estudar uma regra cuja lista de exceções termina em reticências? Que lógica existe em justificar exceções por “estarem consagradas pelo uso”, se o acordo só existe porque precisa mudar o uso? Onde está a razoabilidade de se mexer na ortografia sem consultar os protagonistas do ensino, que são os professores? Jornal da ABI – Quais ações o Movimento Acordar Melhor tem tomado contra a entrada em vigor do AO90? Ernani Pimentel – Nosso movimento provocou e participou de audiências públicas, promoveu centenas de palestras esclarecedoras sobre os problemas que precisam ser corrigidos no acordo, colheu milhares de assinaturas de professores e alunos; e impetrou uma ação popular fundada na ofensa ao princípio democrático, na medida em que o acordo foi concebido sem a devida consulta ampla aos setores diretamente envolvidos como o dos professores, dos pedagogos, dos jornalistas, dos escritores... E na violação ao princípio da razoabilidade, em função das ilogicidades, incoerências, contradições e falsidade de premissas e argumentações. Jornal da ABI – Em que estado está esse processo judicial – que intentou nos tribunais brasileiros contra o Acordo e o “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”? Ernani Pimentel – Atualmente o processo encontra-se pendente de apreciação no Tribunal Regional Federal da 1ª Região e pode ser acessado em goo.gl/ysSJ1v.

DIVULGAÇÃO

A entrevista a seguir foi publicada na imprensa de Portugal no final do ano passado, com grande repercussão, dada a natureza do tema. A pauta trata do – no mínimo – controverso Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que, assinado em 2008, teve sua adoção obrigatória inicialmente marcada para o começo de 2013. O prazo de transição para adaptação dos países que falam e escrevem o idioma já foi prorrogado – ele deverá entrar em vigor somente em 31 de dezembro de 2015. Mas, as polêmicas não param. Muitos são os questionamentos sobre a validade e os critérios normativos que regulam o plano. Por isso, e em atenção a seus leitores, o Jornal da ABI, que ainda não segue as regras do acordo justamente por não concordar com parte delas, reproduz a entrevista com Ernani Pimentel. Ela foi concedida a Ivo Miguel Barroso, emérito professor da Faculdade de Direito da tradicional Universidade de Lisboa e um dos representantes da Petição contra o Acordo Ortográfico de 1990, que foi apresentada no Parlamento português. Ernani Pimentel é professor, escritor, palestrante e empresário no ramo da educação – é Presidente da Vestcon. Em 2010, fundou o Movimento Acordar Melhor que, segundo ele, já cumpriu sua missão ao conseguir adiar o prazo para adoção obrigatória do referido projeto. Escolhido pelo Senado brasileiro para ser um dos coordenadores do Grupo de Trabalho Técnico que avalia o Acordo Ortográfico no País, é também Presidente do Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa-CELLP, da Academia de Letras de Brasília, e organizador do site simplificandoaortografia.com. Leia a entrevista:

Jornal da ABI – O Senado concordou quanto ao apontamento das ilogicidades do AO90, na audiência pública em 2012? Ernani Pimentel – Nas duas audiências públicas, uma em 2009 e outra em 2012, promovidas pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, as falas dos organismos e cidadãos convidados mostraram opiniões críticas convergentes e harmoniosas, ao passo que ninguém ousou defender os absurdos expostos, em ambas as oportunidades. Todos os Senadores e participantes presentes, sem exceção, saíram, então, convencidos de que era preciso fazer alguma coisa. Tanto assim, que trabalharam pelo adiamento do prazo e criaram o Grupo de Trabalho Técnico para simplificar e aperfeiçoar as regras do Acordo. Jornal da ABI – Que papel teve seu Movimento no adiamento do fim do prazo de transição para 31 de dezembro de 2015? Ernani Pimentel – Não só ajudamos a provocar as audiências públicas, mas também participamos delas e dos encontros com a Ministra-Chefe da Casa Civil e com o Ministro da Educação, aos quais expusemos a necessidade de se aperfeiçoarem as atuais regras, em benefício da educação e do ensino da língua portuguesa. Nossos argumentos, apoiados pelos Senhores Senadores da Comissão de Educação, foram importantes para convencer o Executivo a adiar o prazo final de implementação do Acordo, até 31 de dezembro de 2015. Jornal da ABI – Qual a intenção dos membros da Comissão de que faz parte no Senado brasileiro em relação à vigência deste Acordo Ortográfico? Apenas adiar a fase de transição ou recusar o projeto como um todo? Ernani Pimentel – Estamos trabalhando num programa ousado, que requer a participação igualitária de professores de todos os países de língua oficial portuguesa. A Academia de Letras de Brasília promoverá em 2014, em 10 de setembro, Dia Internacional das Línguas, um Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico, para reunir sugestões dos laboratórios ortográficos realizados nos oito países signatários. Estamos sugerindo e convidando professores e alunos de Angola, Brasil, Cabo Verde,

“ Quando da elaboração do Acordo, a classe política cometeu o engano de atropelar os setores científicos e pedagógicos da sociedade civil, que felizmente souberam reagir e levantar sua voz”

Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste a, até junho deste ano de 2014, debaterem e exercitarem possibilidades simplificadoras da escrita, com base nos artigos motivadores do site Simplificando a Ortografia e nos que também podem vir a ser ali postados. A meta é conseguir um sistema ortográfico que contemple três componentes objetivamente mensuráveis: menor número de regras, maior abrangência, menor número de exceções. Os relatórios e sugestões desses grupos devem ser encaminhados ao Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa-CELLP, da Academia de Letras de Brasília, até o dia 10 de julho de 2014. Em 10 de setembro, no Simpósio, com a presença dos participantes de todos os países envolvidos, o CELLP apresentará as três propostas que mais objetivamente se aproximaram da meta e cada um dos autores defenderá a sua. Será, então, escolhida uma que, inclusive, pode reunir sugestões de outra ou das outras finalistas. Até 10 de outubro de 2014, os participantes de cada país no Simpósio levarão a suas autoridades nacionais competentes a mesma proposta, como subsídio para implantação das simplificações. Haverá cerca de 14 meses até o final do prazo de implantação do Acordo, para as autoridades dos oito países votarem as simplificações e melhorias necessárias. Jornal da ABI – Pretende a imediata suspensão do AO90, para que o assunto seja novamente analisado? Ernani Pimentel – Preferimos respeitar o prazo estendido de implantação, por isso criamos a estratégia descrita na resposta anterior. Os professores interessados em participar dessa força-tarefa podem comunicar-se conosco pelo nosso site. Insistimos no convite a todos os países de língua oficial portuguesa. Jornal da ABI – O Brasil tem aplicado o AO90 ou os instrumentos de alegada aplicação do mesmo? Ernani Pimentel – Os organismos oficiais e a imprensa brasileira têm aplicado o AO90, orientando-se pelo VOLP, embora esse vocabulário, estranhamente, esteja desrespeitando em alguns pontos o que foi acordado. A população e os professores, atônitos, não se sentem capazes e seguros com tantas exceções e soluções arbitrárias impostas pelo VOLP. Jornal da ABI – Qual pensa ser o sentimento dominante na sociedade brasileira em relação ao AO90? Ernani Pimentel – De um modo geral, a grande massa nem sequer sabe quais mudanças foram propostas pelo AO90. Professores e alunos fingem saber. Mas, objetivamente, é impossível encontrar um só professor tranqüilo com o assunto. Com essas regras, ninguém jamais saberá escrever, inclusive eu. Jornal da ABI – A sua mensagem, de rejeição do AO90, tem encontrado espaço na opinião pública brasileira? Ernani Pimentel – Na medida do possível. Nas palestras que proferimos, 98% dos presen-


MERCADO

Jornal da ABI – Recentemente, o sr. pediu uma audiência na Assembléia da República. Como foi recebido, juntamente com o professor Pasquale Cipro Neto? Ernani Pimentel – Fomos muito bem recebidos por todos os integrantes da Comissão de Educação Ciência e Cultura, da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, e do Grupo de Trabalho da Aplicação do Acordo Ortográfico. Embora representassem várias posições diferentes, que muito bem souberam expor, ouviram de nós a necessidade e possibilidade de se adequarem às atuais regras ortográficas à visão racional, objetiva e científica de nossa época, permitindo o barateamento da educação, a inclusão social de nossos povos, a ampliação do universo de leitores, o fortalecimento internacional de nossa língua e a ampliação da atratividade de nossas culturas para os estrangeiros. Após as exposições do Professor Pasquale e minha, chegamos a ouvir dos Senhores Deputados que a data final de implantação do acordo está mantida, mas se até lá surgir uma proposta que realmente represente vantagem para Portugal e os demais países envolvidos, por que não analisá-la? Saímos, então, satisfeitos por entender que tanto no Senado brasileiro, como na Assembléia da República de Portugal, está aberta a possibilidade de reparo e melhora da situação atual. Jornal da ABI – O AO90 já está sendo aplicado em Portugal. Como vê esta situação, perante as críticas que vários setores científicos e da sociedade civil fizeram em relação ao plano? Ernani Pimentel – A classe política cometeu o engano de atropelar os setores científicos e pedagógicos da sociedade civil, que felizmente souberam reagir e levantar sua voz. Vejo que a crise nos trouxe a um momento sumamente importante para a história de nossos povos, pois podemos, sim, despindo-nos das subjetividades e dos pequenos interesses pessoais e grupais, construir uma parte importante dos alicerces – racionais, objetivos, pragmáticos – de uma nova educação e de um novo patamar na evolução de nossos povos e países.

Até onde vai o Beacon? UCHA

tes assinam o manifesto pela simplificação das regras. A grande imprensa não nos tem dado destaque. Quando o fizer, e esperamos que aconteça logo, temos certeza de que maciçamente o grande público estará ao nosso lado, porque, realmente a inserção social de nossos povos e a ampliação do espaço de nossa língua no panorama mundial depende, mesmo, de uma ortografia simples e objetiva. Queremos explicar que o Movimento Acordar Melhor teve seu ciclo encerrado, por ter atingido seu objetivo com o adiamento do prazo para o final 2015 e com a criação do Grupo de Trabalho Técnico da Comissão de Educação do Senado para simplificar e aperfeiçoar o acordo. Encerrou-se para nós a etapa nacional de crítica e abriu-se agora a fase internacional, com o Simplificando a Ortografia, voltada para a análise das opiniões divergentes e convergentes sobre as regras ortográficas, na busca harmônica da melhor solução, para todos os países envolvidos.

P OR N ATALIA V IANA

Anunciado em setembro do ano passado pelo ex-editor do Facebook Dan Fletcher, o site Beacon (beaconreader.com) promete ser uma nova forma de apoiar repórteres independentes nos Estados Unidos. A proposta é simples: eliminar a mediação com o público, criando uma linha direta de doações para cada um dos jornalistas. O site, que chegou a ser comparado a um Netflix de jornalismo, tem mais de 60 repórteres em 30 países, na maioria freelancers que escrevem sobre temas pouco cobertos, como a faixa de Gaza, os conflitos no Iêmen ou os impactos do agribusiness no México. Tudo em inglês, claro. A aposta do Beacon é fortalecer o jornalismo que não tem apelo para as publicações industriais: enquanto essas buscam as massas – e os milhões de clicks –, a idéia do Beacon é fomentar a cultura da publicação por interesses ou por autor. Cada jornalista tem seus assinantes próprios que, a um custo de US$ 5 por mês, podem ler também tudo o que os demais jornalistas publicam no Beacon. Os autores do Beacon recebem um pagamento bastante justo: das assinaturas mensais de US$ 5, US$ 4 (80%) vão para eles. São eles que também escolhem quantos textos e de que tipo vão publicar por mês – além das fotos, manchetes, títulos. Não existe a figura do editor ou outro tipo de mediação com o público além do layout moderno e os recursos básicos do próprio site (que é basicamente um “publicador”). “Eu fiquei atraída pela proposta porque tenho algumas histórias que gostaria de escrever e sei que as pessoas gostariam de ler, mas que tenho muita dificuldade em publicar em algum veículo”, explicou Jean Friedman-Rudovski, jornalista americana que faz parte do Beacon desde o seu lançamento. “Nem sempre a decisão dos editores se baseia na qualidade da história e no potencial interesse dos leitores”. Jean é uma notável repórter independente que durante sete anos viveu na Bolívia, cobrindo política e economia sulamericana para veículos como The New York Times, Foreign Policy e a revista Time. Foi ela quem revelou ao canal ABC Univision que voluntários dos PeaceCorps e bolsistas da Fullbright foram sondados pela embaixada americana na Bolívia para espionar cubanos e bolivianos ligados ao governo de Evo Morales. No último ano, Jean produziu uma chocante reportagem para a revista Vice sobre os estupros-fantasmas em uma comunidade menonita na Bolívia – imperdível. Para ela, o que mais pesou foi mesmo sua paixão pela profissão. “Eu senti que

era incrivelmente importante apoiar novos modelos para fazer jornalismo. Nossa profissão está, sendo otimista, em um ‘limbo’ e, sendo pessimista, em uma completa bagunça. A maioria dos veículos de mídia dá cada vez menos prioridade à cobertura internacional, e quando eles querem algo, pedem somente certos tipos de histórias, o que é muito limitante. Raramente pagam as despesas. E tudo isso é uma porcaria”. No entanto, o Beacon ainda está longe de decolar. Embora anuncie que “todo mês pagamos milhares de dólares para jornalistas”, a organização não revela quantos assinantes tem. No final, cabe aos próprios autores buscarem seus assinantes, o que é uma das apostas do Beacon, pois garante mais braços trabalhando pelo empreendimento coletivo – porém, com pouco aporte da organização nessa “campanha”. Jean, que hoje vive no Vietnã, nunca teve um blog, e buscou seus assinantes iniciais numa gigantesca lista de mailing que coletou ao longo dos últimos sete anos como repórter independente. “Eu sabia que pelo menos alguns destes amigos e colegas estariam dispostos a pagar por reportagens de qualidade”. Os jornalistas mais bem-sucedidos, como a própria Jean, têm entre 60 e 100 assinantes. Ou seja: ganham, no máximo, cerca de US$ 400 por mês. Não é muito. Talvez o formato possa ser viável no caso de jornalistas que já têm um contato forte com o público – um

blog, uma coluna, uma poderosa conta no Twitter, pois assim eles poderiam conquistar centenas de assinantes. Mas aí fica a pergunta: por que eles migrariam para o Beacon? Por ora, o futuro do projeto depende de construir uma comunidade forte, tanto de leitores quanto de jornalistas que apoiem e ajudem a espalhar a idéia. Um notável (e corajoso) passo nesse sentido tomado pelo Beacon é a página “Pay me please”, na qual freelancers publicam os “calotes” dados por veículos de imprensa que atrasaram, ou não pagaram, o que lhes era devido. O texto é bem direto: “As organizações de mídia geralmente são ruins em pagar jornalistas pelo trabalho que fazem. (…) Se você levou um calote em um frila, compartilhe os dados do trabalho abaixo”, convida. A lista já tem mais de 80 casos de “calotes”, dos quais apenas 10 foram pagos, a posteriori. É um triste retrato de como a indústria da notícia trata mal seus trabalhadores (o que não é uma exclusividade do contexto brasileiro). Nela estão listados nomes como Al Jazeera, Rolling Stones, Fox News, BBC – é mais fácil buscar que grande veículo não está ali. Um bom argumento pra quem acredita que está na hora de reinventar o financiamento do jornalismo. (Publicado originalmente na newsletter Novos Tempos, Novos Modelos, da Agência Pública)

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HISTÓRIA

Capricho do destino Revista criada há 61 anos por Victor Civita por pouco não morreu antes de divertir e informar a pelo menos quatro gerações de brasileiras adolescentes.

No momento em que boatos dão conta de que a Editora Abril pode cancelar a revista Capricho – sua segunda mais antiga publicação, de 1952, atrás apenas de O Pato Donald, que circula desde 12 de julho de 1950 –, uma história quase desconhecida de bastidores mostra que, por causa de uma engenhosa estratégia de marketing, criada de forma intuitiva, seu criador, Victor Civita (1907-1990), a transformou numa lucrativa publicação que mudou a noção que o mercado publicitário tinha das revistas femininas. O fundador da Abril estava no Brasil desde dezembro de 1949, quando fundou uma editora que chamou inicialmente de Primavera – o batismo duraria somente seis meses, pois em junho passaria a se chamar Abril. O empresário era italiano de nascimento, porém criado nos Estados Unidos. Seus pais ainda viviam em seu país de origem quando, dois anos depois, durante viagem à Europa, ele resolveu trazer na mala um bom número de exemplares de fotonovelas e um contrato para sua publicação no Brasil, onde eram desconhecidas. Aquelas histórias em quadrinhos com fotografias, carregadas de tramas de amor, eram uma coqueluche na Itália. Tanto que o cineasta Federico Fellini fez um filme sobre o tema, Abismo de um Sonho (1952), em que uma fã de fotonovela recém-casada abandona o marido para conhecer seu galã preferido. Esse material, traduzido para o português, seria lançado em Capricho, pouco depois da sua volta. Inaugurava, assim, a era das fotonovelas no Brasil. Até então, a carioca Vecchi, fundada por uma família italiana, publicava desde 1947 a revista Grand Hotel, que trazia histórias com desenhos pintados em preto e branco tão realistas que pareciam fotografias. Mas não eram. Quando Capricho chegou às bancas, no dia 18 de junho de 1952, com circulação quinzenal, foi a primeira revista que a Abril lançou dedicada ao público feminino. Para cuidar da publicação, o dono da editora passou a tarefa para a então secretária da editora, Micheline Gaggio Frank, a Michu – que faria uma carreira de décadas na empresa. Michu começou na editora exatamente no mesmo dia em que o número 1 de O Pato Donald foi para as bancas, em 12 de julho de 1950. Ela fica16

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EDITORA ABRIL

P OR G ONÇALO J ÚNIOR

pricho, pensei: faço uma revista pequena e sai mais barato. Mas quando vi que a venda só caía, senti que a situação estava ficando difícil. Aí, certa noite, disse para eu mesmo: ‘Victor, você está frito!’ Mas, ao invés de desanimar, sabe o que fiz? Dei uma tacada maior e aumentei o formato. Ao ver a primeira edição pronta com novas medidas, senti nos ossos que tinha acertado.” Graças à teimosia do editor, a partir do número 9, de fevereiro de 1953, a publicação começou a recuperar as vendas. E cresceu mês a mês, ano a ano. Até dispararem. No começo de 1956, bateu os 500 mil exemplares de tiragem e se transformou num fenômeno editorial. Receita extra

ria à frente de Capricho durante oito anos e meio. “Trabalhar na Redação da revista não era sopa, não. A minha sorte era que eu tinha uma excelente colaboradora, Therezinha Monteiro, filha de Jerônimo Monteiro.” As duas faziam tudo na revista: seleção e compra de fotonovelas, revisão das legendas e da diagramação. Até o momento de ir para a gráfica. Na parte dos textos de variedades, as duas redigiam, traduziam, adaptavam e paginavam os textos. O esforço, lembrou a editora, trouxe os resultados esperados: “Capricho, juntamente com O Pato Donald, representava os alicerces sobre os quais está edificada a Editora Abril de hoje”, disse ela, na década de 1980. Em novembro de 1952, por causa das baixas vendas, a publicação se tornou mensal. Os primeiros números misturavam fotonovelas com dicas para o dia-adia da mulher jovem, além de reportagens sobre questões sociais que interessavam ao público feminino adulto. As histórias produzidas na Itália não demorariam a ser criadas no Brasil, com atores famosos que posavam para as fotos que ilustravam as tramas. Os temas das aventuras român-

O volume de vendas estimulou Civita a buscar uma receita extra que lhe permitisse tocar novos projetos: vender espaço para publicidade. Tentou, mas percebeu que havia um preconceito: as grandes companhias, mesmo aquelas de perfumes e cosméticos ou de roupas – os magazines – se interessavam em atrair consumidoras pelas páginas dessas revistas voltadas para mulheres que sonhavam em encontrar não namorados ou maridos, mas robustos príncipes encantados. Todo mundo lia a revista. “Capricho foi uma espécie de Roque Santeiro daqueles tempos e precisávamos tirar proveito disso”, comparou Civita, pouco antes de morrer, citando a telenovela de Dias Goticas eram os mais amenos possíveis, gemes e Aguinaldo Silva que fez grande suralmente envolviam romances cujos processo na Rede Globo, em 1985. Pode-se tagonistas passavam todo tipo de privaafirmar com convicção que Capricho foi a ção e sofrimento para ficarem juntos no primeira revista brasileira a atingir, ultrafinal. Havia também na revista contos, passar e sustentar tiragens acima de meio sessões de moda, dicas sobre comportamilhão de exemplares mensais – O Cruzeimento e beleza. ro, na mesma época, chegou a alcançar essa Capricho não foi um sucesso instantâmarca, mas não conseguia manter o voluneo. Na verdade, “por pouco, não levou a me de vendas, a não ser nas edições espeAbril para o buraco”, de acordo com o ciais. E enquanto a revista da Abril contipróprio Civita. Demorou para que as nuava a subir, O Cruzeiro fazia o caminho mulheres descobrissem a novidade. Para inverso no decorrer dos anos 1950. decepção do editor, as vendas ficaram muiQuando levou Capricho àquelas alturas, to aquém do esperado Civita pensou que tinha Victor Civita nos primeiros números. nas mãos, finalmente, um montou uma Ou melhor, foram um veículo publicitário de estratégia simples desastre. Principalmente grande aceitação. Ledo porque a revista tinha engano. As agências de e eficiente para um formato infeliz: era publicidade estavam acosconvencer os tão pequeno, tipo O Pato publicitários de que tumadas a trabalhar prioDonald, que não dava ritariamente com O Crua revista Capricho para ver com nitidez as zeiro e Seleções do Reader’s vendia tanto fotos das histórias. Digest – que tirava cerca quanto O Cruzeiro. de 400 mil exemplares – e Civita, então, aumentou o tamanho da revisnão acreditaram que a puta, numa tentativa desesperada de salváblicação feminina de Civita tinha um púla. Somente por isso as vendas começaram blico tão expressivo que a tornasse interesa subir mês a mês. “Quando lançamos Casante para anúncios dirigidos às mulheres.


Um dia o editor e empresário montou um plano que poderia romper com esse bloqueio. Como ainda não existia o IVC – Instituto Verificador de Circulação –, as agências levavam em conta as informações dos próprios editores. Havia entre eles o que se pode chamar de pacto de confiança. Não tinham como não acreditar na circulação declarada das duas revistas do Rio, líderes de longa tradição no mercado. E, por outro lado, recusavam-se a crer que uma publicação surgida havia tão pouco tempo, e em São Paulo, já tivesse superado o recorde nacional de vendas das duas líderes. O editor decidiu, então, montar uma estratégia para convencer as agências quanto à tiragem da revista. Idealizou uma operação de promoção publicitária razoavelmente barata, mas ousada e eficiente. Capricho era impressa à noite, ele e Gordiano Rossi reuniram, numa badalada boate paulistana, os diretores de mídia das principais agências de publicidade de São Paulo e do Rio, com o pretexto de homenageá-los. No início da madrugada, os convidados foram convencidos a dar uma “passada” pela gráfica da Abril para uma rapidíssima visita. O momento escolhido por Civita para impressionar os publicitários foi exatamente aquele em que a impressão da revista atingia o ponto culminante. Ao verem as pilhas de revistas impressas e o marcador da rotativa ultrapassar a marca dos 600 mil exemplares impressos, os publicitários ficaram impressionados. E o editor aproveitou para perguntar-lhes se algum dia haviam sido convidados para assistir à impressão de O Cruzeiro ou de Seleções e verificar in loco se os números eram verdadeiros. A resposta foi negativa. O

plano revelou-se eficiente. Todos os visitantes ficaram boquiabertos em ver tudo aquilo de uma editora tão pequena e desconhecida. E cercaram o empreendedor americano para parabenizá-lo. Logo começou a fluir para a editora um volume maior de anúncios diversos, não apenas femininos, que iriam, em poucos meses, transformar Capricho em importante veículo publicitário.

Nessa época, a Abril fez sua primeira mudança gráfica radical em Capricho. Era preciso modernizá-la para atrair as adolescentes que seguiam os passos de suas irmãs mais velhas e começavam a comprar suas próprias revistas. A publicação passou a priorizar as reportagens, contos e dicas sobre comportamento, beleza e utilidades. As fotonovelas foram migradas para os encartes anexos às edições. Enquanto Capricho se consolidava, em 1959, a Abril lançou outra revista para o público feminino, Manequim. Em 1961, surgia Cláudia – ambas continuavam a circular nas décadas seguintes, sempre mantendo o perfil de público original. Ou seja, mulheres donas de casa entre os 30 e 40 anos de idade.

Mais revistas femininas

Quase simultaneamente com Capricho, em setembro de 1952, Civita lançou uma nova revista feminina, Meu Bem, com quadrinhos românticos – produzidos na Itália, mais uma vez. Com o subtítulo de “A pequena revista dos grandes amores”, o título tinha formato horizontal de bolso. Nela cabia apenas uma tira de quadrinhos por página. O gibizinho feminino era semanal e trazia três histórias completas por edição. Não deu certo, entretanto. Menos de um ano depois, saiu de circulação. Em 1956, a Abril mandou para as bancas seu segundo título de fotonovelas, Você, no formato de Capricho, só que dirigida a um público um pouco mais sofisticado. Apesar da semelhança, inexplicavelmente não pegou e seria cancelada depois de três anos de circulação. A editora voltou a insistir no gênero com Ilusão, a partir de 1958. Ao contrário de Você, teve um sucesso fulminante e circularia até a década de 1980 – quando as fotonovelas desapareceram por completo do mercado brasileiro. A diferença entre Ilusão e Capricho se limitava praticamente ao título. A própria Abril acompanhou essa tendência por mais de uma década.

Experiência traumática

Outro momento curioso da história de Capricho foi quando o dramaturgo Walter Negrão, hoje da Rede Globo, trabalhou durante vários anos como jornalista nas revistas da editora, ao longo dos anos 1960 e 1970, e recordaria uma passagem traumática na época em que esteve na Redação da publicação. Foi uma fase de transição, quando se apostou na inclusão de fofocas de artistas para incrementar as vendas. A experiência de Capricho desagradou tanto Negrão que ele resolveu sair da editora. Ele chamaria a revista depois de “Capricho mau caráter”. “Eu dizia isso porque pretendiam popularizar a revista da pior maneira possível e não agüentei a barra da linha editorial. Era mesmo uma coisa ‘mau caráter’, queriam fazer algo explosivo, uma revista escandalosa.” Segundo o dramaturgo, seu núcleo fazia quatro revistas femininas. Além de Capricho, produzia Ilusão, Noturno e Contigo – “que, naquela época, era completamente diferente do que existe hoje, com fotonovela e contos de amor, coisas para mulher”. Negrão disse que a intenção da Abril era passar Capricho de mensal para quinzenal e incrementar substancialmente as vendas, de alguma forma. O modelo adotado seguia o de revistas estrangeiras que faziam sucesso com escândalos, na mesma linha dos tablóides sensacionalistas ingleses. No ano de 1970, Capricho se adaptou às conquistas do movimento feminista, que fez nascer uma mulher menos submissa e menos relacionada à dona de casa dedicada apenas ao marido e aos filhos. Desde 1984, quando passou por sua reformulação gráfica e editorial mais radical, abandonou a fotonovela e seguiu uma orientação em sintonia com os novos tempos. Assim, divulgava para o público brasileiro os ídolos pop teens que faziam sucesso no cinema e na música. Ganhou o lema de “A revista da gatinha”. Em outubro de 1989, a tendência adolescente foi definitivamente firmada pela Editora para a revista. E continuou assim nas duas últimas décadas. A versão para Internet da revista chegou a 2013 considerada como do maior portal do mundo dedicado ao público adolescente. Supera até mesmo o americano Seventeen. Só não se sabe mais agora até quando.

IMPRENSA DIGITAL

Um sopro de cultura nas publicações nacionais P OR I GOR W ALTZ

Ao longo das últimas décadas, o espaço do jornalismo cultural na grande imprensa brasileira minguou, reduzindo-se a meros cadernos de programação de eventos culturais e tv. Importantes suplementos literários e culturais desapareceram, como o Caderno Idéias, suprimido junto com a versão impressa do Jornal do Brasil, e o recém-extinto Sabático, de O Estado de S.Paulo. Com o intuito de manter vivo o debate intelectual sobre as artes e as letras no Brasil, o jornalista e escritor paraibano Flávio Sátiro Fernandes lançou em 2013 a revista Genius. A publicação aborda em suas páginas temas diversos, como Literatura, Poesia, Filosofia, Artes Plásticas, Cinema, Arquitetura, Ciência Política e Folclore, com a colaboração de intelectuais e acadêmicos de todo o Brasil. Mas um marco da nova publicação é a valorização da cultura e dos artistas da Paraíba e do Nordeste do Brasil. A iniciativa, inclusive, recebeu homenagem da Câmara de Vereadores de João Pessoa, capital da Paraíba. “Constatamos a ausência de uma publicação voltada para a discussão mais erudita da cultura, não apenas em nosso Estado, mas em todo o Brasil. Aqui há a revista da Academia Paraibana de Letras – APL, das universidades, mas elas ficam circunscritas a esses órgãos. Nosso propósito é trazer especialistas para tratar de temas culturais e fazer isso chegar ao grande público”, explica Fernandes, que também é membro da APL e do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP). Entre os destaques estão as seções de biografia de autores e intelectuais da região e de resgate de documentos históricos do Estado da Paraíba, como o discurso do Reitor José Américo de Almeida durante a instalação da Universidade da Paraíba, em 1955. Com tiragem de mil exemplares, a Genius é distribuída em bancas de revistas e livrarias da Paraíba, com periodicidade trimestral. A edição de n.º 4, adianta Fernandes, vai trazer como tema de capa a liberdade de imprensa.

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FRANCISCO UCHA

DEPOIMENTO

Jornal da ABI – Como o jornalismo surge na sua vida? Oceano Vieira – Sempre tive uma veia jornalística. Quando eu era garoto, eu morava no sertão de Alagoas, numa cidadezinha chamada Carneiros, que inclusive foi fundada pelo meu pai, nos anos 1940. Eu esperava o ônibus que vinha da capital, Maceió, trazendo os jornais diários, principalmente a Gazeta de Alagoas. Aprendi a ler pegando estes jornais do ônibus e os entregando para os assinantes de Carneiros, que eram uns oito ou dez, não mais que isso. Eu também já gostava muito de cinema. Naquela época tinha um cineminha lá, chamado Cine Fox, onde vendia balas. Vendia balas na porta do cinema e meu pagamento era assistir ao filme depois. Isso era muito comum na época. Jornal da ABI – O que você mais se interessava em ler no jornais daquela época? Vieira – Eu lia tudo. Lembro ter lido sobre o assassinato de Kennedy, em 1963. Da campanha “Aliança para o Progresso”, pela qual minha família foi beneficiada: por causa dela a gente começou a receber óleo de soja, coisa que nunca nem tínhamos ouvido falar. Arroz também não tinha na minha cidade, era muito difícil. Tinha farinha, feijão e um pedaço de carne, quando tinha. Eu lia sobre aquelas coisas do início dos anos 1960, a Bossa Nova... Me deliciava lendo sobre isso e ouvindo tudo no rádio. Lembro até hoje quando Luís Bonfá gravou Manhã de Carnaval. Vi nascer a Bossa Nova, vi nascer o Cinema Novo brasileiro. O gosto pelo jornalismo e pela cultura cinematográfica nasceu ali. Uma vez por mês, o projecionista do Cine Fox, o “Alfredo” do Cine Fox [referência ao nome do personagem do filme Cinema Paradiso], pegava a camionete do dono do cinema e ia buscar em Maceió uns 15 ou 20 filmes que seriam exibidos durante um mês inteiro. Entre estes filmes havia os bíblicos, que as pessoas gostavam bastante, os filmes do Neo-realismo italiano, e os pornográficos suecos. Jornal da ABI – Os pornográficos eram exibidos no cinema? Vieira – Sim, eram. Estávamos no início dos anos 1960, uma época livre. Mas logicamente apenas adultos e homens podiam entrar no cinema. Mulher não podia. A garotada tentava ver alguma coisinha pela fresta da porta do cinema [risos]. Jornal da ABI – Conseguia? Vieira – Não, nada! [risos]. O cinema e o rádio eram os únicos divertimentos na minha cidade. Eu sempre amei o rádio, uma verdadeira paixão. Tanto que com 14 anos de idade eu vim para São Paulo porque queria ser locutor. Jornal da ABI – Antes de chegar em São Paulo, o que você gostava de ouvir no rádio?

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Um Oceano entre Cannes e Carneiros Oceano Vieira de Mello foi vendedor de aparelhos eletrônicos, líder sindical, criou e editou a pioneira entre as publicações voltadas ao mercado de home vídeo, correu o mundo, e atualmente se dedica à produção e à distribuição de cinema e dvds. Nada mau para quem aprendeu a ler sozinho, folheando a Gazeta de Alagoas, jornal que entregava, na sua pequena cidade natal, a “todos os seus dez assinantes...” P OR C ELSO S ABADIN E F RANCISCO U CHA Vieira – Eu adorava ouvir o Repórter Esso. Aquele prefixo lindo parecia uma sinfonia pra mim. Eu não entendia nada, mas era apaixonado por notícias, por jornalismo, por política. E ainda sou. E o interessante é que no dia 1º de abril de 1964, meu pai, Adão Vieira de Melo, foi preso, e a gente achava que era por causa da revolução, que tinha acontecido naquela noite. Meu pai era político na cidade, mas não foi preso por isso, não, e no dia seguinte já foi solto. Jornal da ABI – E por que ele foi preso? Vieira – Foi por um motivo muito interessante. Ele fundou a cidade, mas era pobre. Ele arrendava uma terrinha para plantar e colher feijão, milho, mandioca. E como ele era o fundador da cidade, achava que tinha o direito de colocar o feijão na frente da casa dele, pra secar. E com isso interrompia a passagem dos carros de bois. O delegado recebeu uma reclamação e mandou chamar meu

pai. Eu sei que eles discutiram e meu pai foi preso. E a gente achando que era por causa da revolução... Jornal da ABI – A gente chama de ‘golpe’. Vieira – Ah, sim, golpe militar. Eu cresci com os militares chamando de revolução e a esquerda chamando de golpe. Mas é golpe, claro, é ditadura. Tanto que quando eu cheguei a São Paulo, em 1967, a situação era delicadíssima. Jornal da ABI – Você veio sozinho ou com a família? Vieira – Sozinho, de pau-de-arara. O sonho de todo nordestino é vir pra São Paulo, ganhar a vida. Jornal da ABI – Na época, não é? Hoje em dia, não. Vieira – Hoje em dia, nem tanto. Eu queria ser locutor de rádio; esse era o meu sonho. Desci do pau-de-arara na Estação do Brás, com sandália Havaianas no pé e com o endereço do filho de um conhecido da minha cidade.

Jornal da ABI – E seus pais nesta história toda? Vieira – Bom, eu perdi minha mãe com quatro anos. Não tive a satisfação de ter uma mãe cuidando de mim. Meu pai não era uma pessoa muito esclarecida, era praticamente analfabeto, e não teve a preocupação de colocar a gente na escola. Foi uma luta muito grande. Jornal da ABI – Você tem irmãos e irmãs? Vieira – Sim, somos seis, todos interessados em cultura, leitura e política. Meu irmão chegou inclusive a ser prefeito da minha cidade, depois foi aposentado por invalidez porque ficou cego. Mas minha intenção era trabalhar em rádio. Eu gostava, mas não sabia nada do assunto, não tinha a cultura nem a prática do rádio. Acabei trabalhando como faxineiro e empacotador em uma loja. Isso aos 16 anos de idade, quando cheguei a São Paulo. Meu sonho, então, passou a ser o de me tornar um vendedor, porque ganhava mais. Consegui

emprego numa loja, e logo na primeira semana já estava ganhando um dinheirinho. Fiquei nesta loja de 1967 a 1970, quando fui visitar um irmão meu na cidade de Artur Nogueira, na região de Campinas [interior paulista], e lá eu me apaixonei por uma cunhada dele. Pra ficar perto dela, fui morar em Campinas. O namoro não deu certo, mas eu arrumei emprego como vendedor numa loja de lá, onde fiquei de 1970 a 1972. Em seguida fui trabalhar como operário na Bosch do Brasil, mas a situação não era boa, o dinheiro era pouco. O Delfim Netto era o Ministro da Economia na época, e ele manipulou os dados para que nós, operários, ganhássemos menos. Foi um escândalo. Ganhávamos tão pouco que eu fazia hora extra, trabalhava das seis da tarde às seis da manhã, e nem assim dava pra comer. Mas tinha uma coisa: eu ficava com fome, sem dinheiro para comer, mas nunca deixava de comprar o jornal O Estado de S.Paulo. Eu tinha de escolher entre comer, ler o jornal ou ir trabalhar de ônibus. Eu preferia ir trabalhar a pé (eram três quilômetros) a ficar sem meu jornal. E eu já estava casado desde janeiro de 1973, estava querendo constituir família, e mesmo fazendo muitas horas extras o dinheiro não dava, por causa da manipulação do Delfim Netto. Jornal da ABI – Abandonou o sonho de ser vendedor? Vieira – Não. Mais que ser um simples vendedor, meu sonho agora era ser vendedor nas lojas Sears, onde todos trabalhavam arrumados, bonitos, de gravata, e tinham treinamento, ganhavam mais. Fui procurar emprego na Sears, mas como eu não tinha instrução suficiente para dominar os números, para fazer as


contas, embora eu fosse um vendedor muito bom, eles não queriam me contratar. Mas eu insistia, insistia... Fui até a Sears 16 vezes para conseguir uma vaga de vendedor, e consegui de tanto encher o saco da dona Shirley Veronezzi, que era a chefe do Departamento Pessoal. Imagina, a Sears, uma empresa americana, toda formal, tinha de fazer vários testes para conseguir o emprego, e eu não passava em nenhum [risos]. A Shirley falava que eu não sabia nada, eu falava que sabia ler e fazer as quatro operações, o que já seria suficiente; ela me dizia que não, que eu precisava ter o ginasial completo, e eu insistia dizendo que gostava muito de ler, que gostava de ler jornal. Ela me mandava embora, e eu voltava uma semana depois. Na décima sexta vez ela já estava aos berros comigo. A gritaria chamou a atenção de um sujeito que passava e viu a Shirley alterada. Era o gerente, sr. Eduardo Soltelo. Ele conversou comigo e pediu que a Shirley me desse uma chance. “Quem sabe ele não dá certo aqui?”, ele falou. Era começo de outubro de 1975. Foi quando fui aceito como extra para a época de Natal, auxiliando um vendedor do setor de televisão, rádio, vitrola... Naquela época tinha vitrola [risos]. Comecei na Sears dia 16 de outubro de 1975, já com o aviso de que seria dispensando logo após o Natal. Na primeira semana eu já estava atendendo sozinho, sem precisar receber instruções dos meus colegas. Na segunda semana eu já fui o melhor vendedor da seção. Duas semanas depois já me deram um talão de notas fiscais, para que eu pudesse tirar as minhas próprias vendas. Durante o mês de novembro eu fui o melhor vendedor da loja inteira de Campinas, não mais apenas da seção. Em dezembro um fabricante de televisores, não lembro agora se foi a Sharp ou a Phillips, fez um concurso entre todos os vendedores para ver quem vendia mais aparelhos. Era o início das tvs em cores no Brasil. E eu fui o melhor vendedor de todo o estado de São Paulo. Quando chegou a hora de eu ser dispensado, conforme já estava combinado, o sr. Soltelo não deixou, claro. Ele me chamou de lado, falou que eu iria ser efetivado, me chamou de “pessoa interessada, culta” [risos]. E elogiou o fato de eu aproveitar a hora do almoço para ficar lendo jornal. Jornal da ABI – Qual era o segredo para vender mais que os outros? Vieira – Atender bem. Simpatia... Atendimento. Veja só, quando eu trabalhava na Bosch, era aquela época de Jovem Guarda, Beatles, Bossa Nova, Tropicalismo, eu achava tudo isso incrível, fantástico, achava tudo isso de uma cultura extraordinária! Eu gostava também de bolerões, do que era considerado brega, enfim, achava todo este universo musical uma maravilha. Eu gostava de tudo, estava até meio perdido, eu assimilava tudo! Até que um dia, um colega da Bosch me

perguntou se eu queria comprar uma coleção de discos clássicos. Eu falei que não, que não entendia nada daquilo, e ele me disse que era uma coleção muito boa da Reader’s Digest – lembram das coleções das Reader’s Digest? Então, eu disse que não, que não gostava, e ele insistiu: “Eu vou trazer mesmo assim, você ouve, e se gostar você me paga depois”. Ele me levou, eu ouvi, e adorei. Foi ali que começou meu gosto pela música clássica, que até hoje é a minha grande paixão. Isso me ajudou muito a vender aquelas vitrolas grandes na Sears. Sabe aquelas vitrolas que ficavam dentro de móveis enormes? Quando meus colegas iam vender estes aparelhos, eles faziam demonstração com discos de Martinho da Vila, do Wando... Eu não! Eu colocava Beethoven, Mozart, principalmente quando o cliente tinha um pouco mais de idade. Arrumava uma poltrona confortável para o cliente se sentar e apreciar o som. Quando entrava uma pessoa mais simplória na loja, meus colegas nem davam bola. E eu atendia com o máximo carinho. Muitas vezes a pessoa estava mal vestida, era muito simples, com jeito de caipirão, mas eram fazendeiros com muito poder aquisitivo, e eu fazia com eles o que hoje chamam de “up grade”: o sujeito entrava na loja para comprar um rádio, eu vendia um rádio gravador; ia comprar um rádio gravador, eu vendia um 3 em 1; ele ia comprar um 3 em 1, eu vendia pra ele um Polyvox Modular Gradiente. Meus colegas ficavam malucos, querendo saber como o “baiano” aqui ganhava todas. Todo mundo comprava comigo! Lembro até uma vez que eu ganhei da Sears um diploma de “Princípios de Persuasão”, tenho este diploma guardado até hoje. Ganhava tanto dinheiro com as comissões que com apenas quatro meses de trabalho na Sears eu já consegui comprar meu primeiro carro zero quilômetro. Jornal da ABI – Que carro era? Vieira – Um Fusca 1976. Bege alabastro! [risos] Como alguém pode esquecer uma coisa destas? Pouco

depois, a mesma Dona Shirley, que não queria me dar o emprego, um dia me chamou: “Vieira, quero falar com você”. Acho que ela não gostava muito do meu nome e me chamava pelo sobrenome. Ela me convidou para escrever numa revista interna da Sears que era distribuída para os funcionários do Brasil inteiro. Ela queria que eu fosse o correspondente da loja de Campinas, já que eu era, segundo ela, “uma pessoa muito educada e culta, embora não tivesse estudo”. Como eu poderia escrever sobre qualquer assunto que quisesse, propus fazer uma matéria sobre Carlos Gomes, já que ele era campineiro. Ela topou e eu caprichei: fui pesquisar nos jornais da cidade, tirei fotografias, e o que era pra ser uma coisa pequena rendeu três páginas na revista! Todo mundo veio me dar os parabéns. Nunca vou me esquecer desta que foi minha primeira matéria. E eu nunca tinha escrito nada na vida antes. Jornal da ABI – Foi nesta época que você começou a participar da política? Vieira – Eu sempre acompanhei tudo pelos jornais. Quando o movimento sindical começou a voltar mais forte, com as greves do ABC, eu comecei a ficar ainda mais entusiasmado com tudo aquilo, com a movimentação dos partidos de esquerda, e tudo mais. Lembro que chorei muito, muito mesmo, quando o Lula foi preso, em 1979. Logo depois, em 1981, 1982, haveria eleição no meu sindicato, que era o dos comerciários de Campinas. E na verdade eu era sindicalizado muito mais para aproveitar o convênio odontológico e a colônia de férias, mas passei a me interessar cada vez mais pela política sindical. Quando eu fiquei sabendo que o Presidente do Sindicato dos Comerciários de Campinas era um pelego que estava lá desde a época de Getúlio Vargas, resolvi formar uma chapa de oposição, de orientação centro-esquerda. Isso era em 1982, em plena Era Geisel, e eu trabalhando numa loja norte-americana. Eu, um bom vendedor, já pai de família, nunca havia faltado

um dia sequer no meu trabalho, e começaram as pressões para que a Sears me demitisse, porque se eu perdesse o emprego não poderia concorrer. Fui muito ajudado pelo Davi Zaia, do Sindicado dos Bancários de Campinas, que depois foi secretário do Alckmin e Deputado; depois veio o Jacob Bittar também ajudar minha candidatura, o pessoal do Partido Comunista também me deu todo o apoio, mas mesmo assim eu não ganhei. Era muito difícil combater os pelegos. Só pra dar uma idéia, naquela época os maiores jornais de Campinas, o Diário do Povo e o Correio Popular, não circulavam às segundas-feiras. Os pelegos então contrataram um jornalista free-lancer chamado Moretti Bueno para escrever um jornal que se chamou Campinas Hoje, especificamente para circular às segundas-feiras. E tinha boa leitura, porque trazia notícias policiais, e a cobertura dos jogos da Ponte Preta e do Guarani que tinham acontecido no domingo, e que os jornais maiores só iriam noticiar na terça. Mas, evidentemente, a manchete era sempre com matérias favoráveis ao pelego e contra mim. Foi um jogo muito sujo com manchetes do tipo “Oceano de águas turvas”, e eu perdi a eleição. Vendi tudo para financiar minha campanha, e perdi. Três anos depois, em setembro de 1985, vejo entrar na Sears justamente o Moretti Bueno, que acabava comigo pelo Campinas Hoje, jornal que evidentemente parou de circular após as eleições do sindicato. Eu tremi nas bases. O que será que ele queria comigo? Ele veio conversar muito educadamente e me fez a proposta de nós dois fazermos um jornal direcionado para as videolocadoras. Quando ele falou isso gelei: na noite anterior eu tinha pensado exatamente a mesma coisa, porque a Sharp tinha acabado de lançar o primeiro aparelho de videocassete do Brasil, e eu comecei a perceber que poderia existir um mercado para isso. Eu tinha desenhado, exatamente na noite anterior, um “boneco” com o nome Jornal do Vídeo, e aquele sujeito, que era meu inimigo, entra na minha seção da loja, no dia seguinte, e traz já desenhado um “boneco” com o nome Jornal da Videolocadora. Eu gelei! Jornal da ABI – Você teve exatamente a mesma idéia no dia anterior? Vieira – Sim! Eu tinha tido esta idéia porque às vezes alguém abria um videoclube ou uma videolocadora em Campinas , ia até a Sears, levava pra mim uns cartõezinhos e umas fitas VHS, pedindo para eu indicar a loja dele para quem fosse comprar videocassete comigo. E eu pensei: por que não fazer um jornal para este público? Quando o meu “inimigo” veio me propor exatamente a mesma coisa, eu fiquei até tonto. Eu já era espírita, mas ainda não era muito estudado nas questões do Espiritismo, e achei que estava aconte-

cendo alguma coisa estranha. Fui na minha gaveta e mostrei ao Moretti o “boneco” que eu havia desenhado na noite anterior. Foi a vez dele ficar branco. Ele ficava repetindo “meu Deus, meu Deus”. Decidimos trabalhar juntos. Ele não sabia vender os anúncios, mas eu sabia. Eu não conhecia a parte gráfica, mas ele conhecia. E nós dois escrevíamos. A primeira edição do Jornal do Vídeo, ainda pequena, com apenas oito páginas, saiu em novembro de 1985. O segundo número já teve 16 páginas, e a circulação era restrita às 16 videolocadoras e videoclubes que existiam em Campinas. Quando chega dezembro, eu recebo uma denúncia de uma loja chamada Merlin Vídeo que o Moretti estaria pirateando fitas. Fui tirar satisfação com ele e era verdade: ele copiava fitas no próprio apartamento, e as vendia ilegalmente. Me recusei a continuar a sociedade daquela maneira; eu não iria compactuar com aquilo. O Moretti opta, então, por continuar com a pirataria e diz para eu prosseguir sozinho com o Jornal do Vídeo. Conversei com a Sonia, minha esposa, e disse: “É agora ou nunca. Ou a gente monta um jornal ou eu fico sendo vendedor de loja a vida inteira”. Ela me deu todo o apoio. E nem máquina de escrever eu tinha! Na terceira ou quarta edição, eu já estava sozinho, e ganhando o dobro que eu ganhava na Sears. E tudo foi dando certo. Três anos depois, em 1988, recebo um telefonema da Maria Rosa, que era do marketing de uma grande empresa de vídeo, não me recordo agora se da Warner ou da Abril (que na época representava a Disney), meio que me dando uma bronca: “É um absurdo eu ter de ligar para Campinas para anunciar no seu jornal”. Foi quando me caiu a ficha: eu precisava me mudar para São Paulo, onde estava a maioria dos anunciantes. Mesmo porque a gente já começava a ter a concorrência do Video Home Jornal, que era graficamente mais bonito que o Jornal do Vídeo, mais pomposo, mas não tinha conteúdo jornalístico. Foi nesta época também que, na sala de espera da CIC Video, eu conheci a Variety [publicação norteamericana do mercado de entretenimento] e fiquei maravilhado com aquilo: uma publicação totalmente voltada para os empresários, não só para a videolocadora, mas para o mercado inteiro. E pensei: “É isso que eu vou fazer! Vou trazer o Jornal do Vídeo para São Paulo e dirigi-lo para o mercado, para os empresários, e não mais para os consumidores”. Nós éramos um pequeno jornal que tirava dois mil exemplares, feito num puxadinho alugado na periferia de Campinas, com uma máquina de escrever usada, escrito por mim e por três jovens jornalistas também de Campinas: Silvia Balbo Messias, Hamilton Rosa Jr. e Clayton Bianchini Levy. Resolvi mudar o foco, dobrar a tiragem e mudar para a capital.

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FRANCISCO UCHA

Jornal da ABI – E o que isso mudou na sua vida pessoal? Vieira – Tudo. Eu morava na periferia de Campinas, numa casa da Cohab, e mudei com mulher e filhos pequenos para o bairro paulistano de Higienópolis. Aluguei uma salinha na rua Tanabi para ser a Redação do jornal, a Sílvia foi trabalhar como assessora de imprensa da Warner, e eu contratei Maria Ângela de Jesus, que era sub editora da Folha ilustrada, e mais tarde foi para a HBO, onde está até hoje. Mas quem me ensinou tudo foi uma pessoa maravilhosa chamada Paulo de Góes, que me foi apresentado por Marcos Rosset, na época diretor da CIC Vídeo. Paulo era assessor de imprensa da CIC, e se ofereceu para fazer matérias internacionais para o Jornal do Vídeo. Eu achei o máximo ter matérias internacionais no meu jornal e contratei o Paulo para trabalhar meio período. No outro meio período ele continuava na CIC. Isso foi no final de 1988. Em 1989, fiz minha primeira viagem internacional, para a Europa, cobrir o Mipcom [uma das maiores feiras mundiais do mercado de entretenimento, realizada anualmente em Cannes], mas ainda sem o Paulo. Retornei à Europa em 1990, mas desta vez com o Paulo. Foi quando comecei a conhecer o mundo. Começamos a fazer coberturas de eventos em Londres, Los Angeles, Nova York, Milão... Cannes, nossa, Cannes! A gente ia todos os anos para o Festival de Cannes. Eu comecei a descobrir um mundo que só existia nos cinemas da minha infância. Jornal da ABI – Qual a sensação de descobrir o mundo? Vieira – É uma coisa maravilhosa! Eu tenho tudo gravado em vídeo. Eu agradeço até hoje Deus ter colocado o Paulo na minha vida. Não sei se o jornal duraria tanto tempo se eu não o tivesse conhecido. Aquilo cresceu muito com as matérias dele, com a sabedoria dele. O mercado adorava o Paulo. Todo mundo adorava o Paulo. Ele me ensinou tudo, me apresentou a várias pessoas, me ensinou a falar um pouco de inglês, me mostrou o funcionamento do mercado, as primeiras peças que eu vi na Broadway foram com o Paulo e os amigos dele. [O jornalista Paulo de Góes morreria repentina e prematuramente em 1995]. Jornal da ABI – Como você acabou se tornando o pioneiro do dvd no Brasil? Vieira – Lembroqueemfevereirode 1996, num evento em Santa Monica, nos EUA, houve a primeiríssima apresentação mundial de um novo sistema que iria substituir o CD, o disquete de computadoreafitaVHS:eramaToshiba e o grupo Time-Warner anunciando a criação do dvd [digital versatile disc]. Fiquei maravilhado com aquilo, consegui um protótipo, trouxe para o Brasil, e comecei a fazer palestras para as distribuidoras brasileiras apresentando o que seria a novidade do futuro.

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“Eu agradeço poder viver neste meio artístico, apesar de ser uma pessoa sem estudo. Agradeço poder divulgar e lançar o cinema europeu, o cinema brasileiro. Agradeço muito ter lançado a obra toda de Glauber Rocha, por exemplo.” Jornal da ABI – Foi neste momento que você começou a pensar em montar sua própria distribuidora de dvd? Vieira – Bom, para facilitar a implantação do novo sistema, as distribuidoras começaram a lançar dvds no Brasil em grandes quantidades. Lembro que a Warner de uma só vez colocou no mercado brasileiro 50 títulos. Todos americanos. Eu não tenho nada contra o cinema americano, mas eu prefiro o europeu. Gosto muito do Neo-realismo italiano, da nouvelle vague, de Fassbinder, de Herzog. Gosto do Cinema Novo brasileiro, dos filmes do comecinho da Embrafilme... E não tinha nada disso no mercado. Foi quando me caiu a ficha: “conheço do assunto, sou conhecido no mercado, não tem ninguém lançando dvds de filmes europeus. Por que eu mesmo não lanço?”, pensei. Eu não tinha dinheiro para comprar os direitos destes filmes, que são caros, mas eu tinha prestígio e muitas amizades. Fui procurar algumas distribuidoras que detinham direitos de filmes europeus, algumas delas até já saindo do mercado. Negociei com quatro delas, e em agosto de 1997 eu comecei a fundar a Versátil, mantendo ainda o Jornal do Vídeo muito a contragosto, porque eu estava me tornando um concorrente dos meus próprios anunciantes. Mas isso é uma coisa que eu devo muito ao mercado de vídeo: como eu distribuía só filmes europeus, e tinha muitas amizades no mercado, não houve resistência por parte dos anunciantes. O bra-

sileiro é uma pessoa maravilhosa, os concorrentes não ligavam, mas eu não me sentia bem pela minha própria formação religiosa, que não permite que eu me aproveite de outras pessoas ou de situações como esta. Lancei, então, o primeiro pacote da Versátil e não paramos mais: até hoje lançamos quatro títulos por mês. Jornal da ABI – Sempre quatro? Vieira – Sim, até hoje já lançamos mais de 700 filmes, todos clássicos ou educativos, destes que vendem pouco, menosdemil cópiasportítulo,masque a gente gosta. Lançamos filmes inéditos e especiais como Berlin Alexanderplatz, com 16 horas de duração. Quem é o maluco que vai lançar isso? Jornal da ABI – Existe um bom mercado para este tipo de título? Vieira – Existe um mercado muito restrito, muito pequeno. A maioria das vezes não conseguimos vender 1.000 dvds de um título. Muitas vezes o lançamento sequer se paga. Jornal da ABI – E como você consegue sustentar sua empresa? Vieira - Com muita dificuldade. Trabalhar com arte no Brasil é muito complicado. Ainda bem que temos um público fiel, que compra nossos títulos todos os meses. São filmes que vendem pouco, mas vendem sempre. Por exemplo, o Vale a Pena Sonhar [documentário histórico sobre sonhos e utopias políticas] demorou oito anos pra vender 1.000 peças. Vai vendendo aos pouquinhos. A coleção com os filmes do Jabor, por exemplo, não vendeu nem uma cópia no Rio de Janeiro. Nem umazinha! Jornal da ABI – Nenhuma? Vieira – O Jabor me procurou dizendo que havia sido enganado por outra distribuidora, que lançou os filmes dele, mas não pagou corretamente. A Versátil relançou a obra toda. No Rio de Janeiro, fizemos o lançamento na Livraria da Travessa e não vendeu nada, nenhum. Pra não dizer nenhum, parece que o Marcos Palmeira, o ator, comprou um. Nós até havíamos combinado de jantar,

depois do lançamento, mas o Jabor ficou tão deprimido que não quis mais, não foi jantar. Uma semana depois fizemos o lançamento em São Paulo, na Livraria Saraiva do Shopping Morumbi, com palestra do Jabor. Chegamos lá e tinha umas 40 pessoas na fila. O Jabor ficou todo feliz, dizendo que “São Paulo era outra coisa”... Mas, novamente veio a decepção: as pessoas tinham comprado o livro do Jabor, não os dvds. Jornal da ABI – Mas era um produto caro, não era? Vieira – Era uma caixa com sete dvds contendo a obra completa dele. Algo em torno de 200 reais. Jornal da ABI – Não é um produto barato. Vieira – É, mas não vendeu também em São Paulo. Fizemos uma tiragem de 500 coleções, vendemos pouco mais de 300 no Brasil inteiro e o restante eu dei pra ele. A gente lança mesmo pelo ideal do cinema brasileiro, mas não é economicamente rentável. Mas tudo isso pra mim é uma alegria muito grande. Eu agradeço poder viver neste meio artístico, apesar de ser uma pessoa sem estudo. Agradeço poder divulgar e lançar o cinema europeu, o cinema brasileiro. Agradeço muito ter lançado a obra toda de Glauber Rocha, por exemplo. Jornal da ABI – E mesmo assim você recentemente se tornou produtor de cinema brasileiro. Vieira – É, mas no caso eu recebi uma tarefa, né? Jornal da ABI – Uma tarefa? Como foi isso? Vieira – Embora eu seja espírita desde o começo dos anos 1970, quando eu assisti aos programas Pinga Fogo, que o Chico Xavier participou, eu era um espírita bem relaxado. Estudava um pouco, me instruía um pouco, e nada mais. Em 2003, eu quis lançar pela Versátil o filme O Espiritismo - De Kardec aos Dias de Hoje, produzido em 1996 pela Federação Espírita Brasileira-FEB. Direção do Marcel Taranto, com Edney Giove-

nazzi fazendo o papel de Allan Kardec e narração da Aracy Balabanian. Era o que a gente chama de “docudrama”, um tipo de documentário dramatizado. Procurei a FEB e eles licenciaram o filme pra mim. Logo depois fui procurado por Nestor Masotti, presidente da FEB, pois ele queria gravar um documentário sobre as comemorações que aconteceriam em 2004 pelo bicentenário de nascimento de Allan Kardec, em Paris, e não sabia exatamente como produzir estas gravações. Acabei me envolvendo bastante nesta produção, contratamos profissionais, buscamos locações e fizemos o filme em Paris. Comecei a perceber que havia um mercado virgem neste tema, onde eu poderia contribuir na divulgação da doutrina espírita. Foi o que eu fiz. Fui atrás da família de Clery Cunha para obter os direitos e lançar o dvd de Joelma, 23º Andar, de 1979, que é o primeiro filme espírita realizado no mundo. Lançamos o filme com muito sucesso! Daí eu me entusiasmei e fui atrás do meu sonho de localizar os dois programas Pinga Fogo com a participação do Chico Xavier que foram ao ar pela TV Tupi, em 1971. Eu tinha 20 anos, lembro de ter assistido e de ter ficado encantado com o Chico, falando tão amorosamente e tão calmamente com aquelas pessoas que ali estavam para trucidá-lo. Fui atrás destes direitos até chegar no Saulo Gomes, que deu pulos de alegria ao saber que eu queria lançar estes programas em dvd. “Entrevistar Chico Xavier mudou minha vida e mudou a vida do Reale Jr.”, me disse o Saulo, na época. Foi então que eu me engajei definitivamente na doutrina, mas sempre com olho jornalístico, e passei também a produzir filmes espíritas. Jornal da ABI – Hoje você é produtor e distribuidor de cinema e dvds. Sente falta da época de jornalismo, do Jornal do Vídeo? Vieira – Não, foi tudo ótimo, mas passou. Vendi o Jornal, ele circulou por um tempo com o novo dono, mas recentemente fechou, foi descontinuado. Guardo comigo todas as edições somente dos dois primeiros anos, de 1985 até 1987. E o resto eu joguei tudo fora. Jornal da ABI – Jogou fora? Vieira – Joguei. Ocupava toda uma sala, eu não tinha mais onde guardar. Jornal da ABI – Não doou pra nenhuma biblioteca, pra ninguém? Vieira – Eu liguei para os novos donos para eles virem buscar a coleção completa, mas ninguém quis. Jornal da ABI – Mas isso é uma história! Vieira – Ô se é. A Biblioteca Nacional deve ter, porque todo mês eu mandava para eles. Até eu vender, eu mandava. Mas as coisas mudam, não tem jeito...


LIVROS

A trincheira de resistência das editoras P OR S ANDRA R EIMÃO

“Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e em sentido contrário” – essa lei da física, com as devidas distinções, ressalvas e adequações, pode muitas vezes ser aplicada também às sociedades humanas. Em seu estudo sobre o florescimento do jornalismo alternativo ou nanico durante a ditadura militar brasileira, Bernardo Kucinski mostra como o ‘surto’ de jornais desse perfil se deu, em parte, como uma reação ao silêncio da grande imprensa. No livro Jornalistas e Revolucionários – Nos Tempos da Imprensa Alternativa (São Paulo, editora Página Aberta e Scritta ed., 1991) Kucinski apresenta o resultado de uma ampla pesquisa que identificou cerca de 150 jornais alternativos publicados entre 1964 e 1980. Segundo Kucinski, “em contraste com a complacência da grande imprensa para com a ditadura militar, os jornais alternativos denunciavam sistematicamente as torturas e violações dos direitos humanos e faziam a crítica do modelo econômico”. No universo editorial da publicação de livros também aconteceram reações às restrições da liberdade de expressão e de opinião decorrentes de ações censórias – um dos desmandos e arbítrios do regime autoritário vigente no Brasil entre 1964 e 1985. Na obra Livros Contra a Ditadura: Editoras de Oposição no Brasil, 19741984 (Publisher, 2013) Flamarion Maués demonstra como a reação dos editores à opressão estatal se deu de dois modos: por um lado, editoras já estabelecidas como Brasiliense, Civilização Brasileira, Paz e Terra e Vozes revitalizaram-se e radicalizaram suas atuações como editoras de oposição frente ao regime ditatorial; e, por outro lado, surgiram dezenas de novas editoras de atuação política de oposição ao regime, como Alfa-Omega, Codecri, Graal, Edições Populares, Global, Brasil Debates, Ciências Humanas, Hucitec, Kairós, entre outras. Flamarion Maués afirma que “diante do fechamento dos canais institucionais de participação política e social a partidos, sindicatos, movimentos políticos, sociais e culturais, etc. – a atividade editorial, mediante a edição de livros cujo conteúdo se caracterizava pela oposição ao governo da época, passou a ser uma alternativa para aqueles grupos e pessoas que tentavam atuar e influir politicamente de forma pública, mesmo sob um regime ditatorial”. No conjunto, o trabalho de Flamarion Maués identificou 40 editoras de oposi-

ção em atuação durante a ditadura militar e especialmente a partir de meados da década de 1970. Entendendo a idéia de editora de oposição como aquela cuja linha editorial é claramente oposicionista ao regime vigente, o autor indica que essas editoras podem ser divididas em dois grupos: editoras de oposição e editoras de oposição engajadas, sendo que a diferença entre eles é que nas últimas – editoras de oposição engajadas – há o envolvimento político com organizações políticas de oposição. Algumas das grandes editoras de oposição durante o regime ditatorial de 19641985 já foram alvo de trabalhos monográficos publicados em livro, destacadamente, a Editora Civilização Brasileira foi estudada por Luiz Renato Vieira no livro Consagrados e Malditos – Os Intelectuais e a Editora Civilização Brasileira (Brasília, editora Thesaurus, 1998) e a Vozes foi tema do livro Editora Vozes 100 anos de História, publicado pela própria editora Vozes em 2001. Oposição engajada

O trabalho de Flamarion Maués não se volta para as grandes editoras, mas sim, depois de traçar o panorama das editoras de oposição no Brasil nas décadas 1970 e 1980, o estudo se aprofunda em três pequenas: Livraria e Editora Ciências Humanas, Kairós Livraria e Editora e Editora Brasil Debates. As três são paulistanas, de pequeno porte e podem ser caracterizadas como de oposição engajada. O estudo dessas três editoras busca traçar de cada uma delas: a organização econômica e gerencial; o projeto editorial e suas vinculações políticas; os recursos financeiros para criação e manutenção; os títulos publicados; o dia a dia do trabalho (proprietários, funcionários prestadores de serviço e autores); as ações de distribuição, marketing, divulgação e vendas; e resultados de venda e repercussão, em jornais e revistas, dos lançamentos. A Livraria e Editora Ciências Humanas, LECH, foi fundada por Raul Mateos Castell em 1978 e era muito próxima da comunidade acadêmica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde Raul, desde 1971, mantinha, e mantém ainda hoje, uma banca de livros. A editora funcionou até 1982 e produziu 78 títulos, entre eles, Miséria da Filosofia, de Marx, As Guerras Camponesas na Alemanha, de Engels, Existencialismo ou Marxismo, de G. Lukács, Construindo o PCB (1922-1924), de Astrojildo Pereira e Da Monarquia à República, de Emilia Viotti da Costa. Flamarion salienta: “Seu catálogo ainda hoje apresenta vários

títulos que conformam a bibliografia básica do pensamento e do debate socialista em nosso país, além de obras importantes sobre o Brasil. Não por acaso, alguns desses títulos foram reeditados após o fim da LECH por outras editoras.” A Kairós Livraria e Editora foi fundada em 1978 por três jovens estudantes universitários: José Castilho Marques Neto, Magali Gomes Nogueira e Moises Limonad. Entre 1978 e 1983, a Kairós publicou 16 livros, muitos deles clássicos do pensamento socialista como Marx, Engels, Lenin, Trotski e Rosa de Luxemburgo. Paralelamente às atividades da editora, o grupo também manteve uma livraria especializada em ciências humanas, a Livraria Kairós, inaugurada em abril de 1978 na Avenida Paulista, 2.650 (esquina com Angélica). A livraria era também um espaço cultural com vários tipos de exposições. A Editora Brasil Debates foi fundada em 1979 e até 1982 publicou regularmente – neste período editou 18 livros e quatro números da revista Teoria e Política. Ozeas Duarte de Oliveira foi a figura central da Editora Brasil Debates. Ao final do estudo, Flamarion Maués reafirma que: “Produzir livros de oposição era uma forma de estar na arena política, fazer-se ouvir, dar voz a pessoas e grupos que se opunham ao governo civilmilitar” e, assim, “estruturar, administrar e levar adiante editoras de oposição en-

gajadas, que lutavam cotidianamente pela sobrevivência econômica e empresarial para prosseguir com sua atuação, era a forma de possibilitar a existência dos instrumentos que viabilizariam estes objetivos políticos.” Diferencial

O diferencial da pesquisa de Flamarion Maués e que imprime uma grande especificidade ao livro, além do tema, foi o estabelecimento dos recursos utilizados para a obtenção dos dados e o rigor no processo de apuração. A pesquisa se valeu de duas fontes principais: entrevistas em profundidade com os proprietários e editores das três editoras estudadas e levantamento nas Juntas Comerciais dos vários registros e movimentações das empresas. Os dados das Juntas Comerciais dão um grau raro de concretude ao trabalho e essas informações se colocam a serviço da melhor compreensão da realidade estudada. Por fim, destaque-se que Livros Contra a Ditadura: Editoras de Oposição no Brasil, 1974-1984, de Flamarion Maués, é um livro que apresenta uma discussão conceitual sólida e uma pesquisa rigorosa narrada em um texto envolvente. SANDRA REIMÃO é Professora Livre Docente da Universidade de São Paulo (USP) na Escola de Artes, Ciencias e Humanidades (EACH) e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Escola de Comunicações e Artes (ECA). Bolsista de Produtividade CNPq.

Radiografia da imprensa italiana no Brasil POR F RANCISCO U CHA

Normalmente, a imprensa serve apenas como fonte quando historiadores precisam fazer pesquisas em acervos de publicações. Raramente o pesquisador procura analisar mais a fundo o seu conteúdo e relevância histórica. Não é o caso do livro Imprensa Italiana no Brasil: Séculos 19 e 20, lançado pela Editora da Universidade Federal de São CarlosUFSCar. Esta obra surge a partir de uma meticulosa pesquisa realizada em arquivos, bibliotecas e institutos do Brasil e da Itália, nos quais foram compilados mais de 800 periódicos que traçam um completo panorama da imprensa italiana no Brasil nesses dois séculos. Seu autor é o historiador Angelo Trento, um dos maiores especialistas sobre imigração italiana no Brasil, responsável pela mais abrangente obra sobre o assunto, Do Outro Lado do Atlântico – Um Século de Imigração Italiana no Brasil, publicada em 1989. Agora, Trento nos apresenta, em quatro capítulos, uma análise precisa de como surgiram e se desenvolveram os inúmeros periódicos lançados pela colônia italiana no Brasil, desde aqueles efêmeros e raros, até os mais conhecidos e longevos. Enriquece o volume um apêndice com a relação de todos os periódicos pesquisados, catalogados pelo seu ano de lançamento (sempre que essa informação foi possível de ser apurada) e pelo estado brasileiro onde circulou. Professor aposentado da Universidade de Nápoles, Angelo Trento nasceu em Roma em 1942, mas em sua juventude morou em São Paulo. De volta à Itália, formou-se em Filosofia e iniciou sua carreira como historiador em 1971, como pesquisador da Universidade de Ancora e, em seguida, de Macerata.

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QUADRINHOS

A volta do herói improvável Ken Parker, de Berardi e Milazzo, retorna em quatro livros de luxo. P OR F RANCISCO U CHA

Quando Sydney Pollack resolveu filmar o clássico faroeste Jeremiah Johnson (Mais Forte que a Vingança, no Brasil), com Robert Redford, a partir de um emocionante roteiro baseado em dois livros – Mountain Man, romance de Vardis Fisher, e Crow Killer, uma história real escrita por Raymond W. Thorp e Robert Bunker –, ele jamais poderia imaginar que sua realização inspirasse Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, dois dos maiores artistas italianos, a criar uma história em quadrinhos que se tornaria lendária. Mas foi a partir do conceito deste filme que surgiu Ken Parker, um dos mais cultuados personagens das histórias em quadrinhos italianas. “Rifle Comprido”, como é chamado pelos índios, é o próprio Redford desenhado. Em sua primeira aventura, ele ainda é um caçador que vive nas montanhas e vende peles de animais para sobreviver. E a semelhança com a realização de Pollack termina aí. Para desenvolver as aventuras de Ken Parker, o roteirista Giancarlo Berardi e o desenhista Ivo Milazzo não trilharam o lugar-comum. Criativos e conscientes de

que suas histórias ultrapassam o simples entretenimento, eles jamais iriam buscar o lugar comum em roteiros de faroeste. Na época, início da década de 1970, os dois trabalhavam nas histórias de Tiki, Il Ragazzo Guerrero, com as aventuras de um jovem índio da tribo Carajás, na Amazônia, que denunciavam a violência da região, o abuso das autoridades e o massacre de aldeias indígenas. Como se vê, argumentos pouco usuais, principalmente se considerarmos o período em que elas foram criadas. Depois que a série de seis episódios de Tiki chegou ao fim, Berardi e Milazzo enfim, puderam se dedicar ao novo personagem. E em 1977 Ken Parker foi lançado na Itália, inicialmente para ter poucas histórias. Mas a nova revista se torna um sucesso, que se mantém por vários anos. Foram 59 edições regulares, além de uma série de 18 edições extras, e alguns álbuns especiais. A novidade é que, além de criarem aventuras absolutamente cinematográficas, Berardi e Milazzo incluem em suas histórias diversas referências culturais, sejam elas vindas do cinema, das artes plásticas, da literatura, além de referências históricas. Assim, os leitores da história

Ken Parker e a greve proletária: Milazzo e Berardi fazem uma referência ao famoso quadro O Quarto Estado, de Giuseppe Pellizza, que se tornou símbolo da luta dos trabalhadores.

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em quadrinhos, viam personalidades como Marilyn Monroe, Edgar Alan Poe, John Ford, Davy Crockett, e tantos outros, cruzarem o caminho de Rifle Comprido, um herói improvável, que muitas vezes se vê no olho do furacão, mas que sempre escolhe o lado do mais fraco. No Brasil, Ken Parker foi lançado pela Editora Vecchi em novembro de 1978 e só terminou de ser publicado em agosto de 1983, ano em que a editora fechou as portas. Assim, o personagem ficou afastado das bancas brasileiras – exceto por algumas poucas edições esporádicas – até o ano 2000, quando a Mythos Editora passou a publicar uma nova série de Ken Parker, com 18 edições. Além desta inici-

ativa, a Tendência Editorial e, em seguida, o Clube dos Quadrinhos-Cluq iniciaram o relançamento de toda a série clássica em formato maior e tiragem limitada, incluindo as quatro últimas aventuras que não haviam sido publicadas no Brasil. Na verdade, esse relançamento foi uma iniciativa – e um verdadeiro tour de force – do editor Wagner Augusto, do Cluq, que passou a ter os direitos sobre os produtos de Berardi/Milazzo no Brasil. Agora, novamente o Cluq é responsável pelo lançamento de quatro livros com aventuras inéditas de Ken Parker, publicadas originalmente na segunda metade da década de 1990 na Itália. Cada volume é encadernado com capa dura, tem mais de 180 páginas e é impresso em papel couchê. Os dois primeiros, lançados no final de 2013, são Os Condenados, no qual Ken Parker é prisioneiro numa colônia penal, e Nos Tempos do Pony Express, que relata as aventuras do herói quando adolescente. Neste início de ano chegam As Aventuras de Teddy Parker, que narra o encontro de pai e filho, e Cara de Cobre, emocionante história baseada num caso verídico sobre um índio que teve sua aldeia dizimada. Wagner Augusto está à frente da bem cuidada edição, que recebeu elogios da crítica especializada até na Itália, que considerou os quatro livros “belíssimos e elegantes”. Como é uma tiragem bem limitada, os volumes podem ser encontrados no site comix.com.br ou pedidos diretamente ao Cluq: Caixa Postal 61105, São Paulo, SP (cluq@terra.com.br).

Asterix sem Goscinny e Uderzo No final de 2013, a Editora Record lançou o aguardado novo álbum de Asterix, o 35º da série: Asterix Entre os Pictos. A grande novidade é que esta aventura é primeira sem a participação da dupla criadora da série. O roteirista René Goscinny, que morreu prematuramente em 1977 aos 51 anos, e o desenhista Albert Uderzo, que faria os roteiros depois do passamento de seu amigo, deram lugar respectivamente a Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, que terão a responsabilidade de manter o nível de qualidade da dupla original. E, pela estréia, parece que irão conseguir. Aqui, os heróis vão para a Escócia e contracenam com um dócil monstro de Loch Ness, entre muitas confusões. Uderzo, que participou ativamente da escolha do novo desenhista, anunciou em 2009 a sua aposentadoria durante as comemorações dos 50 anos de criação do personagem, que foi lançado em 1959, nas páginas da revista francesa Pilote. A partir de então, a história da aldeia ocupada por irredutíveis gauleses que resiste à invasão romana ganhou imediata notoriedade na Europa e, em 1961, foi lançado o primeiro álbum da série – Asterix o Gaulês –, reunindo as páginas publicadas na revista. Em 55 anos, Asterix se tornou o personagem francês de hq mais conhecido no mundo e suas histórias foram lançadas também em desenhos animados e adaptadas para o cinema, com Gérard Depardieu no papel de Obelix. Como garantiu Uderzo, a saga dos gauleses está longe de terminar. Por Tutatis!


VIDAS AGÊNCIA O DIA

Moacy Cirne, o estudioso dos quadrinhos P OR I GOR W ALTZ

SUBSTANTIVO PLURAL

Considerado o maior estudioso brasileiro das histórias em quadrinhos, Moacy Cirne morreu no dia 11 de janeiro, em Natal, capital do Rio Grande do Norte. O pesquisador e professor de 70 anos sofreu uma parada cardíaca após passar por uma cirurgia e ficou em coma induzido antes de falecer no Hospital da Unimed. Seu corpo foi sepultado no Cemitério São Vicente de Paula, em Caiacó, interior do estado, onde ele viveu parte de sua vida. Moacy foi também poeta, artista visual e um dos fundadores, em 1967, do movimento contraliterário de vanguarda Poema/Processo. Nascido em São José do Seridó, também no RN, em 1943, Cirne se especializou em narrativas gráficas e em poesia, tendo escrito diversos livros sobre essas duas vertentes da literatura. Entre suas obras, estão A Explosão Criativa dos Quadrinhos (de 1970), Uma Introdução Política aos Quadrinhos (1982), História e Crítica dos Quadrinhos Brasileiros (1990), Quadrinhos, Sedução e Paixão (2000) e A Escrita dos Quadrinhos (2006). “Meu interesse por quadrinhos começou em Caicó, interior do estado, no final dos anos 1940. Claro, tratava-se de um interesse puramente lúdico-afetivo. O Tico-Tico,

por exemplo, representava todo um mundo para mim. A partir de 1967, quando, participando do Poema/Processo, percebi que os quadrinhos ultrapassavam as fronteiras da própria indústria cultural, enquanto linguagem”, disse em entrevista à Editora UFF. Também são de sua autoria Vanguarda: um Projeto Semiológico (1975), A Poesia e o Poema do Rio Grande do Norte (1979) e Cinema Cinema. O último livro de Cirne – que foi professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói –, Seridó Seridós, foi lançado no fim de 2013 com memórias, fotos, poemas e listas de livros e filmes. Cirne era conhecido por sua paixão pelo Fluminense, tendo inclusive escrito o livro Maraca Maracanã Que te Quero Fluminense. Em recente artigo, intitulado Outras Viagens, ele analisou os impulsos de vanguarda e contracultura dos quadrinhos brasileiros desde a primeira metade do século 20 até os dias de hoje, ressaltando os feitos de uma nova geração que transita entre as mídias impressas e eletrônicas. “Não se trata, pois, de ruptura criativa; trata-se de novo impulso”, escreveu, ressaltando novidades como a “arte gráfico-narrativa de Rafael Coutinho, Gabriel Bá, Fábio Moon, e outros, como Rafael Grampá”.

Mário Morel, jornalista de impressos e tv Aos 76 anos, faleceu no dia 3 de janeiro, vítima de infarto, o jornalista Mário Morel. Nascido em Santos, o comunicador era filho do também jornalista Edmar Morel e pai do jornalista e historiador Marco Morel. Mário iniciou sua carreira aos 16 anos, em 1953, e aos 23, fez o que é considerada a primeira reportagem sobre corrupção policial, publicada na revista Mundo Ilustrado. A série de matérias, que mostrava a extorsão de comerciantes, resultou numa CPI e na demissão do então chefe de Polícia, general Amaury Kruel. O jornalista recebeu menção honrosa do Prêmio Esso. Morel trabalhou na Última Hora e no Diário da Noite, convivendo com jornalistas como Joel Silveira e Samuel Wainer. Na década de 1960, criou a revista Roteiro do Rio, com informações culturais e guia de cine-

ma, teatro, shows e eventos. Em 1981, passou 15 dias em São Bernardo (SP) com o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. O fruto foi o livro Lula, o Início, um dos primeiros escritos sobre o petista. Na tv, foi um dos pioneiros no telejornalismo, no Jornal de Vanguarda, com Fernando Barbosa Lima e Walter Clark. Depois de passagens pela TV Excelsior e pela TV Rio, criou na década de 1980 o programa Sem Censura, na TVE. Após mais de 20 anos, foi desligado em 2009 da TV Brasil. O jornalista deixa cinco filhos – Marco, Mônica, Marcelo, Márcia e Mariano – e oito netos. Ele foi enterrado no sábado, no cemitério São João Batista, Zona Sul do Rio de Janeiro. A missa de sétimo dia aconteceu na noite do dia 9 de janeiro, na Igreja de Santa Margarida Maria, na Rua Frei Solano, 23 – na Lagoa. (Igor Waltz)

Albeniza Garcia, pioneira da reportagem policial Faleceu, na manhã do dia 16 de janeiro, a jornalista Albeniza Garcia, de 84 anos, primeira mulher a trabalhar na cobertura de reportagens policiais. A repórter, que teve passagens pelos jornais O Globo e O Dia, morreu de insuficiência respiratória e broncoaspiração ao dar entrada no Hospital São Vicente de Paula, na Tijuca. Albeniza dedicou 57 anos ao jornalismo policial, sempre na ocupação de repórter. Sua trajetória começou aos 18 anos, quando ela procurou o então presidente das Organizações Globo, jornalista Roberto Marinho, para pedir uma vaga na editoria de Polícia. O empresário achou que a jovem franzina, com um metro e meio de altura, tinha mais jeito para fazer coberturas de chás-dançantes ou desfiles de moda. Mas Albeniza foi enfática: “Quero a Repol”. A jornalista recebeu prêmios importantes como o de Direitos Humanos da Sociedade Interamericana de Imprensa, em 1995, pela série de reportagens A Infância Perdida, e o Esso, em 1997, por Infância a Serviço do Crime, ambas publicadas em O Dia. A jornalista Hilka Telles, do mesmo jornal, descreve Albeniza como uma “lenda” do jornalismo. “Ela foi a repórter de polícia que ajudou a formar cinco gerações de outros repórteres do setor. A profissional na qual me inspirei no início de carreira, a quem eu observava atenciosamente para aprender, sorvê-la por inteiro. Como mulher, foi a grande mãe, a máxima avó, a guerreira imbatível que nunca se curvou aos problemas da vida. Albeniza foi, é e será sempre um grande exemplo para todos nós”, descreveu. Vera Araújo, jornalista de O Globo, chefiou Albeniza por cinco anos em O Dia e recorda-se que ela era respeitada também fora do meio jornalístico. “Era tão conhecida por gerações de policiais civis e militares que entrava nos gabinetes sem mesmo bater na porta. E era sempre bem recebida. Muitas vezes, para irritação de outros colegas com menos tempo de profissão que às

vezes aguardavam horas por uma entrevista e não conseguiam ser recebidos. Mesmo com a idade, tinha uma vitalidade de fazer inveja. Era a primeira repórter a chegar à Redação, até mesmo antes de mim. Nem conseguia pautá-la porque já chegava com várias sugestões que rendiam grandes reportagens”, disse Vera. Para a Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Paula Máiran, Albeniza representou uma parte importante da história da cobertura de assuntos de polícia no Rio de Janeiro. Paula, que trabalhou com Albeniza, acrescentou que a entidade pretende reunir documentos, fotos e outros objetos num esforço para preservar viva a memória da colega devido à importância dela no jornalismo: “Foram cerca de 50 anos de carreira, acompanhada por várias gerações de jornalistas. Albeniza era do tipo de repórter que nunca desistia de buscar uma boa história”, disse Paula. Ao longo da vida, Albeniza colecionou histórias na profissão. Um dos casos mais curiosos ocorreu no seqüestro do empresário Roberto Medina em 1990. O seqüestrador Mauro Luis Gonçalves de Oliveira, o Maurinho Branco, ligou para O Dia porque desejava que a jornalista cobrisse a libertação de Medina. Ele só libertaria o empresário na presença da jornalista, que pensou tratarse de um trote e desligou duas vezes a chamada, antes de ser convencida, numa terceira ligação, de quem era seu interlocutor. Por pouco, quase desperdiçou uma de suas grandes histórias na profissão. Acompanhada de fotógrafo e de dois advogados, Albeniza encontrou-se com o seqüestrador na Zona Norte. Maurinho cumpriu o prometido e Medina foi libertado, sendo levado a uma delegacia pela repórter. Na ocasião, o bandido deu a ela como presente um gavião. Ela deixa três filhos e quatro netos. O enterro aconteceu no Cemitério São Francisco Xavier, no bairro do Caju, Zona Portuária do Rio.

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MUSICAL

Uma radiografia do Brasil de todos os tempos, de Cabral a Cabral Espetáculo resgata não só a história da ‘Pimentinha’, como também a de seu próprio tempo. DIVULGAÇÃO

P OR C ARLOS J URANDIR

A televisão, que praticamente lidera e dá o tom da cultura no País, deveria se inspirar no espetáculo Elis, A Musical, desde novembro no palco do Teatro Casa Grande, no Leblon, Zona Sul do Rio, e já assistido por mais de 50 mil pessoas. Emocionante do princípio ao fim, o espetáculo não apenas conta a história da cantora Elis Regina, grande intérprete da música brasileira, mas também mostra as lutas do povo deste País pela liberdade, contra a opressão interna e externa e pela determinação do próprio destino. Trata-se de uma radiografia do Brasil de todos os tempos, numa época em que as tribos indígenas, quinhentos anos depois, ainda brigam pelo direito de existirem, em pleno Brasil de 2014. A direção de Dennis Carvalho e o texto de Nelson Motta e Patricia Andrade comovem multidões pela alta qualidade artística com que fazem esse retrato do Brasil de ontem e de hoje, ao mesmo tempo em que mostram a complexidade da figura humana que foi Elis, mulher de sua época, que viveu os altos e baixos da carreira de peito aberto. Figura controversa, longe das mocinhas-melões e outras difundidas pela superficialidade midiática de hoje, pode ter perdido o jogo no fim, vítima das drogas. Mas sua vida é um modelo para se tentar entender o que significa ser artista e mulher nestas plagas tupiniquins. O retrato do Brasil não excluiu a ditadura nem as manifestações atuais pela melhoria das condições de vida dos brasileiros de todas as latitudes, tanto nas referências da relação entre passado e presente destacadas dos versos das canções quanto no close de uma muralha de escudos de um pelotão de choque da PM, visão muito difundida no País, de Norte a Sul, nos últimos tempos. Ator e diretor de teatro e diretor de novelas de televisão, Dennis Carvalho estréia na direção teatral. A montagem, de três horas, dá quase sempre a impressão de que se está assistindo a um filme, e o texto surpreende pelo realismo e a acuidade com que apresenta a época de Elis Regina em todos os seus matizes. O tom é levemente irônico, com diálogos geniais. Há quase a alegria de rever em cena Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli, Paulo Francis, Jair Rodrigues, Henfil, Miele, Lennie Dale, César Camargo Mariano e tantos outros. Há certo exagero romântico em relação à posição política da homenageada. Mas a trajetória de Elis Regina, somada às de tantos outros artistas, evidencia que o País almejado pela elite e a grande mí24

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desmerecem. Nos demais papéis estão Felipe Camargo (Ronaldo Bôscoli), Caike Luna (Luiz Carlos Miele), Ícaro Silva (Jair Rodrigues), Claudio Lins (Cesar Camargo Mariano), Rafael de Castro (Marcos Lázaro e Vinicius de Moraes), Ricardo Vieira (Tom Jobim), Danilo Timm (Lennie Dale), Peter Boos (Henfil), Leo Diniz e Letícia Medella (Romeu e Ercy, os pais de Elis), e ainda Guilherme Logullo, Alessandro Brandão, Lincoln Tornado, Carla de Sá, Thiago Marinho e Maíra Charken. Os produtores são os mesmos de Um violinista no telhado e O Mágico de Oz, espetáculos vistos por um milhão de pessoas, em mais de 1.500 apresentações. Tradição

dia não é o que interessa à maioria do povo brasileiro. É preciso mais carinho com os artistas e respeito com a cultura, que deveria ser estimulada já no ensino básico e não submetida às torpes leis mercadológicas. Cultura não devia ser tratada como sabão. Arrastão

A gaúcha Elis tornou-se conhecida no País inteiro com a avassaladora interpretação de Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, no festival da TV Excelsior de 1965. Influenciada por cantoras do rádio como Ângela Maria, consolidou um estilo forte que incluía a dramatização das letras das canções. Ex-aluna de piano que chegou ao conservatório, caracterizou-se também por uma afinação impecável, posta à prova, por exemplo, pelas difíceis tessituras das melodias de Milton Nascimento, músico também na origem. Ela chegou a registrar a própria voz como instrumento musical na Ordem dos Músicos. Mesmo tendo se lançado no Rio, viveu sua carreira praticamente em São Paulo, onde morreu em 1982. Numa entrevista para a televisão em 1973, apontou Gilberto Gil e Milton Nascimento como seus compositores prediletos. Elis foi responsável pela consolidação da chamada MPB e proporcionou o lançamento de muitos artistas capitais, mas o afastamento do Rio talvez explique o distanciamento do samba mais popular

de Nelson Cavaquinho, Cartola e Zé Ketti, de quem gravou poucas faixas (a destacar Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho, em 1973), embora tenha rendido homenagem aos paulistas ‘de raiz’ Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini. A alta qualidade artística do espetáculo, cujo elenco e todo o pessoal de apoio são de primeira, se confunde com a das músicas que conduzem a história, autênticos poemas musicais (alguns já infelizmente esquecidos, dentro da mediocridade atual) assinados por nomes como Tom Jobim, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Belchior, Milton Nascimento e Vinicius de Moraes, entre outros. Podendose perguntar: onde estão os artistas atuais do mesmo quilate? Não é possível acreditar que não existam. O musical reúne 51 canções, entre as quais clássicos como Arrastão; Casa no Campo; Águas de Março; Dois pra Lá, Dois pra Cá; Como Nossos Pais; Aos Nossos Filhos; Fascinação; O Bêbado e o Equilibrista; Madalena; O Trem Azul e Redescobrir. A atriz e cantora baiana Laila Garin, formada em canto lírico e popular, premiada atriz de cinema, surpreende em Elis pelo vigor com que encarna a personagem, assim como a atriz substituta, Lillian Menezes. As interpretações musicais são bem cuidadas, inclusive as dos atores, mas se destaca a de O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, até hoje uma síntese da vida brasileira, que ambas não

Elis – A Musical mantém a tradição do Teatro Casa Grande, em atividade há 47 anos, espécie de ante-sala da democracia brasileira, presente na luta contra o arbítrio – e sempre local histórico de congraçamento de atores das mais variadas tendências. No ápice da ditadura, o teatro enfrentou o marasmo cultural dando espaço para momentos históricos da arte carioca, como as revistas de Oduvaldo Vianna Filho (de quem se pode citar De Lenin a Costa e Silva e De Frente e de Costa); Yes, Nós Temos Braguinha, show em homenagem ao compositor João de Barro; Brasileiro: Profissão Esperança, de Paulo Pontes (direção de Bibi Ferreira, com Maria Bethânia e Ítalo Rossi). E shows como Cena Muda, de Maria Bethânia (direção de Fauzi Arap), Vem Quem Tem, Vem Quem Não Tem, com João Nogueira e Roberto Nascimento, e Tempo e Contratempo (direção de Ruy Guerra), em que o MPB-4 e Chico Buarque faziam a apresentação do repertório da peça censurada Calabar. No Casa Grande ocorreram encontros como os do I Ciclo de Debates da Cultura Contemporânea, em que estiveram presentes Chico Buarque, Plínio Marcos, Rubens Gerschman, Muniz Sodré, Walter Avancini, Sergio Cabral, Ziraldo, Zuenir Ventura, Mino Carta, Antonio Houaiss, Alceu de Amoroso Lima, Leon Hirshman, Luis Carlos Barreto, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade, Affonso Romano de Santana e Paulinho da Viola, entre outros. Durante anos, o teatro foi local de reuniões e atos pela anistia política, além de encontros de artistas e produtores culturais contra a censura. Manteve as portas abertas mesmo após o incêndio de 1997, quando continuou a encenar espetáculos e show históricos, como Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Oduvaldo Vianna Filho, com direção de Antonio Pedro.

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