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Moracy do Val, o jornalista que descobriu os Secos & Molhados PÁGINA 16

Fez-se justiça, enfim, ao escritor Antônio Torres, novo imortal PÁGINA 14

Fotobiografia apresenta a intimidade de Antonio Callado PÁGINA 22

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ÓRGÃO OFICIAL DA A SSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA

JOSÉ DUAYER

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Tarcísioe a Holandancia PresidêBI da A PÁGINA

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VIDAS FERNANDO ZERLOTTINI • LÚCIO NATALÍCIO CLARINDO • PETRÔNIO CORRÊA • REGINALDO DUTRA • DOM WALDYR CALHEIROS


Porque Tarcísio Holanda não assumiu a Presidência da ABI Maurício Azêdo faleceu no dia 25 de outubro. Passado o luto, ainda sob o efeito da perda, surgiu uma questão urgente: quem estatutariamente o substituiria? Na dúvida, a Diretoria resolveu consultar o escritório de advocacia Siqueira Castro que já representava a entidade. O parecer do referido escritório, assinado pela advogada Maria Arueira Chaves, trouxe os seguintes termos: “O Estatuto da ABI não estabelece qualquer previsão específica acerca da sucessão do cargo de Presidente. No entanto, O Estatuto, em seus artigos 21, II e 41, I, estabelece a competência da Asembléia Geral, como órgão soberano, para a eleição do Diretor Presidente. Além disso, o Estatuto prevê, em seu artigo 29, VII, que ao Conselho Deliberativo, como órgão superior da administração da ABI, compete preencher cargos da Diretoria, em caso de vacância . Nesse contexto, é importante registrar que o Estatuto, ao estabelecer as funções de Vice-Presidente, não determina que o mesmo sucederá o Presidente, mas apenas que este irá substituir o Presidente em caso de impedimento. Assim, pode-se entender que, em caso de ausência temporária do Presidente, o Vice-Presidente assumirá suas funções. No caso de falecimento, entendemos que não se trata da hipótese de mero impedimento, mas sim de vacância”. (ver quadro) O parecer acima indica que havendo vacância a competência para o preenchimento do cargo de Diretor Presidente da entidade é do Conselho Deliberativo. Não por acaso a reunião ordinária do Conselho que se realiza toda última terça-feira do mês, já tinha a convocação na rua e se realizou no dia 29 de outubro, com a participação de 29 conselheiros, inclusive de Domingos João Meirelles e José Tarcísio Saboya de Holanda (ambos assinaram o livro de presença). Conforme comprova a Ata dessa reunião, o Presidente do Conselho Pery Cotta declarou a vacância do cargo de diretor-presidente, de acordo com o artigo 29, inciso VII, do Estatuto da ABI. Assim, seria indicado um conselheiro para assumir o cargo de Diretor-Presidente. Dessa forma, nada impedia que Tarcísio Holanda fosse designado pelo Conselho Deliberativo. Entretanto, como ele reside em Brasília, tem família em Brasília e emprego em Brasília, o Conselho achou por bem eleger o Diretor Administrativo Fichel Davit Chargel para o referido cargo. Em face do mesmo ter conhecimento de toda a estrutura burocrática e política da entidade, e ainda, a disponibilidade necessária para o desempenho da função, seu nome foi aceito por maioria absoluta dos conselheiros presentes. Esta decisão do Conselho Deliberativo teria sido suficiente para efetivar a designação. No entanto, o Conselho, buscando total transparência, aprovou a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária para referendar a indicação de Fichel Davit. Esta assembleia foi originariamente convocada para o dia 29 de novembro, às 10h. Ocorre que ela não foi publicada como deveria no Diário 2

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Oficial e em jornal de grande circulação. O Edital, por erro, foi publicado apenas no Jornal do Commercio. Diante disso, foi necessária uma nova publicação no Diário Oficial e no Jornal do Commercio e a data foi alterada para o dia 3 de dezembro, às 10 horas, horário em que são feitas todas as assembleias. Nessa questão, vale salientar que foram cometidos dois erros: 1 – O Jornal da ABI é editado em São Paulo e o editor Francisco Ucha publicou o Edital antigo, no qual a convocação era para o dia 29 de novembro; 2 – quando percebemos o erro, solicitamos ao Diretor Cultural da ABI que fizesse uma carta de correção a ser encaminhada ao corpo social. Infelizmente o Diretor errou no horário, colocando às 14 horas ao invés de 10h. No entanto, vale salientar ainda que o site da ABI (www.abi.org.br) publicou a convocação com a data e horário certos durante 30 dias.

O QUE DIZ O ESTATUTO DA ABI Art. 29 – Compete ao Conselho Deliberativo: ..... VII – preencher cargos da Diretoria, em caso de vacância. Art. 46- Compete ao Diretor VicePresidente: I – Substituir o Presidente em seus impedimentos. Esta fundamentação apoia-se também no disposto da Lei nº 6.404/76, (artigo 150, caput, a, parágrafo 3º) Art. 150 – No caso de vacância do cargo de conselheiro, salvo disposição em contrário do estatuto, o substituto será nomeado pelos Conselheiros remanescentes e servirá até a primeira assembleia geral. Se ocorrer vacância da maioria dos cargos, a assembleia geral será convocada para proceder a nova eleição. § 3º - O substituto eleito para preencher o cargo completará o prazo de gestão do substituído.

Impedimento x vacância Por impedimento ao exercício da presidência, pode-se atribuir o afastamento voluntário (caso de licenciamento), e involuntário, em virtude de enfermidade grave ou férias. Por vacância, entende-se o afastamento definitivo do Presidente, decorrente de morte, renúncia, incapacidade absoluta (jurídica).

EDITORIAL

ESPERANÇA FRANCISCO UCHA ENFIM, CHEGAMOS AO DERRADEIRO número do Jornal da ABI de 2013, que ainda contou com a preciosa participação do nosso ex-Presidente Maurício Azêdo. Nesta edição publicamos o último texto revisado por ele: o perfil do premiado fotógrafo Ricardo Leoni, matéria adiada de edições anteriores. Além desta, a entrevista com Cacá Diegues foi sua última sugestão de pauta, antes de ser internado. ESTA ENTREVISTA, ALIÁS, aconteceu na tarde do dia 24 de outubro, um dia antes de seu passamento, no escritório do cineasta, no Centro do Rio de Janeiro (pertinho da ABI). Ao final, Cacá Diegues demonstrou preocupação com a saúde do amigo, pois soubera, naquele mesmo dia, que ele estava hospitalizado. Eu, que havia chegado de São Paulo para fazer a entrevista, também não sabia de mais detalhes. COM A TRÁGICA NOTÍCIA, a edição especial do Jornal da ABI - A História Ilustrada da Propaganda no Brasil, que já estava pronta seguindo para a gráfica com suas 48 páginas, teve que ser suspensa para substituirmos pela edição em homenagem ao Presidente que reergueu a ABI. Produzimos a toque de caixa o suplemento de 16 páginas que chegou às mãos dos leitores. Ao final, ficamos com a sensação do dever cumprido. Mesmo que para agaloar alguém que jamais teve apreço ao culto à personalidade. NESTA ÚLTIMA EDIÇÃO, quero ressaltar também a brava equipe do Jornal da ABI. Uma turma que superou muitos desafios para entregar o melhor ao nosso leitor. Jornalistas como Paulo Chico, que estreou em nossa publicação há exatos 5 anos (em dezembro de 2008); Celso Sabadin, conosco desde 2010; Gonçalo Júnior, desde maio do ano passado; além de Verônica Couto, Rita Braga, Mário Moreira, Marcos Stefano. Desenhistas como Aliedo, Munir Ahmed (que também é fotógrafo), Eliane Soares, Maria Helena Bastos, Rogério Soud, Luís Carlos Fernandes, Walmir Orlandeli, além dos fotógrafos Martin Carone dos Santos, José Duayer e Avanir Niko. Sem esquecer também dos demais colaboradores eventuais, mas não menos importantes, e da equipe de apoio à produção editorial, que contou com Conceição Ferreira, na revisão; André Gil, no tratamento de fotos, e Cesar Silva na pré-diagramação. MAS NADA DISSO ACONTECERIA sem a firmeza e a paixão de Maurício Azêdo por esta publicação. Paixão desde os anos de chumbo, quando este veículo era uma das poucas vozes a denunciar corajosamente a perseguição a jornalistas e os desmandos da ditadura militar. AGORA RESTA-NOS A CHEGADA de um novo ano. 2013 nos deixa. 2014 nos aguarda com alguma esperança. Como escreveu, certa vez, Mario Quintana: “Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano/Vive uma louca chamada Esperança.” QUE ASSIM SEJA. Dias melhores virão.


DEPOIMENTO

“O BRASIL NUNCA ATENDE AOS NOSSOS DESEJOS, SEMPRE NOS TRAI” POR FRANCISCO UCHA F OTOS JOSÉ DUAYER

m genuíno patrimônio do cinema nacional, Cacá Diegues realizou alguns dos filmes mais representativos da História de nossa cinematografia. Produções que retratam a raiz, a alma e a musicalidade do povo brasileiro, como Ganga Zumba, Os Herdeiros, Quando o Carnaval Chegar, Xica da Silva, Chuvas de Verão, Bye Bye Brasil, Quilombo, Veja Esta Canção, Orfeu, Deus é Brasileiro. Isso, só para citar alguns de seus grandes sucessos de crítica e de público. Jornalista na juventude, mas sem nunca assumir de fato essa profissão, foi um dos criadores do Cinema Novo, depois que descobriu que poderia ser cineasta. Perseguido pela ditadura militar, foi obrigado a abandonar o Brasil para não correr o risco de ser preso. Íntimo de Glauber Rocha, acompanhou de perto as aventuras e desventuras do amigo. Viveu períodos negros como a frustração de enfrentar o horror da censura e, no Governo Collor, viu a completa estagnação do cinema nacional com o fim da Embrafilme. Foi uma “catástrofe terminal”, relembra. Por essas e outras, Cacá Diegues afirma, nesta entrevista ao Jornal da ABI, que “a grande frustração do artista brasileiro é não conseguir desvendar o grande mistério Brasil, que até hoje a gente não sabe bem o que é!”. Mas ressalva, com uma ponta de otimismo: “o cinema brasileiro pode ser, no século 21, aquilo que Hollywood foi para o século 20”. JORNAL DA ABI 396 • DEZEMBRO DE 2013

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Jornal da ABI – Você estava escrevendo um livro de memórias cuja previsão de lançamento era 2009. O que houve? Ainda não terminou de escrever? Cacá Diegues – Não. Estou finalizando agora. Terminei o livro, mas ficou muito grande. Fui escrevendo, escrevendo e quando dei por mim, tinha 700 páginas (risos) e, evidentemente, não tem editora no mundo que vá publicar isso. Então, estou cortando. Mais um mês fica pronto e entrego para a Editora Objetiva. Jornal da ABI – O capítulo sobre o Glauber, disponibilizado no seu site, é emocionante. Você o define como carinhoso, bem humorado e, ao mesmo tempo, brigão. Queria que você descrevesse um pouco a sua relação com Glauber e os outros cineastas do movimento do Cinema Novo. Cacá Diegues – Sempre fui cinéfilo, desde o tempo em que nem existia essa palavra. Era fã, gostava de cinema, fazia meus cadernos de ficha técnica, dava notas aos filmes que via, mas só descobri que podia ser diretor quando comecei a encontrar essas pessoas nos cineclubes que existiam na época. Sobretudo na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que tinha uma sessão semanal na ABI. Comecei a encontrar pessoas que tinham os mesmos sonhos que eu, que tinham as mesmas idéias, que gostavam dos mesmos filmes. Um começou a dar força ao outro e esse sentimento em comum acabou tornando o sonho de ser cineasta a obsessão de todo mundo. Foi nessa época que conheci o Glauber. Eu tinha uns 18 anos talvez, e ele era um ano mais velho. Eu sabia que ele existia, já tinha lido os artigos dele no Jornal do Brasil, mas o conheci mesmo na ABI, numa dessas sessões da Cinemateca do Mam. Ficamos muito amigos, sempre me entendi muito bem com ele. Eu costumo dizer uma coisa que simplifica a definição do Glauber: conheci muita gente na minha vida com esse negócio de festival de cinema, gente famosa, grandes cineastas, mas ninguém é mais interessante que Glauber Rocha. Não sei se ele era o mais inteligente, mas foi, sem dúvida alguma, a pessoa mais complexa e intrigante que conheci na vida. Ele era uma personalidade muito diferente de tudo. Era inimigo do lugar comum, tinha um jeito muito especial de provocar discussões e polêmicas. E a gente sempre se entendeu, embora discordássemos muito também, porque Glauber não era fácil, ele tinha umas idéias muito radicais às vezes. O engraçado é que a imagem que ficou do Glauber é a de um guerreiro, do brigão que vivia reclamando, mas desde a juventude, Glauber sempre foi uma pessoa muito bem humorada, muito carinhoso e gentil, muito amigo dos amigos. Glauber ria muito, fazia muita piada. Com o tem-

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“Ninguém é mais interessante que Glauber Rocha. Não sei se ele era o mais inteligente, mas foi, sem dúvida alguma, a pessoa mais complexa e intrigante que conheci na vida” po ele foi ficando mais guerreiro, é verdade, e, no final da vida, estava muito mais brigão do que era antes, mas continuava uma pessoa agradável. Nesse texto a que você se referiu, eu conto o meu último encontro com ele. Glauber estava muito doente, em Cintra, em Portugal, e fui tentar convencê-lo a voltar. Falava muito com ele por telefone e as notícias eram péssimas. Tanto Jorge Amado quanto João Ubaldo, que estavam lá em Lisboa, diziam que ele estava ruim. Fui a Cintra tentar trazê-lo de volta, e encontrei o Glauber da minha juventude, muito bem humorado, cheio de planos, com vários roteiros escritos que me deu para ler. E quando fui embora, disse para ele: “Olha, você está com o humor que tinha na juventude, agora só precisa cuidar da sua saúde.” Ele estava mal, tinha dores. Enfim, não se cuidava fisicamente. Jornal da ABI – Qual foi o momento mais emocionante de sua história com Glauber Rocha? Cacá Diegues – Foram muitos. Não só os momentos dos filmes que

a gente via. O Glauber ia ao cinema e dormia vendo o filme. De repente acordava gritando: “Isso é uma obraprima!”. Tenho muitos momentos inesquecíveis em minha vida com ele, foi um grande amigo, um irmão. Tenho saudade física do Glauber, porque ele conversava com a gente no estilo baiano, segurando. Não sei nem por onde começar. Conto alguns momentos no meu livro, como quando fui vê-lo em Cintra, e ele me levou num promontório e começou a dizer o que cada um de nós (cineastas) devia fazer. É como eu sempre digo: o Glauber não tinha nenhuma fronteira entre o público e o privado, era tudo uma coisa só. É por isso que muita gente não o entendia direito. Era uma pessoa que se dedicou muito a um projeto da vida dele e morreu disso, tenho certeza. Jornal da ABI – Esse promontório é o mesmo do filme do Walter Salles, Terra Estrangeira? Cacá Diegues – Eu achei que era o mesmo. A Daniela Thomas, que é co-autora de Terra Estrangeira, me disse que aquele promontório se chama Cabo Espichel. Mas eu teria que voltar lá para confirmar. Fiquei muito impressionado, porque os atores, Fernanda Torres e Fernando Alves Pinto, dizem uma coisa muito parecida com o que o Glauber me disse quando estivemos lá, que por ali passaram as caravelas que iam para o Brasil. Jornal da ABI – Havia muita briga entre os cineastas que fizeram o Cinema Novo? Cacá Diegues – No início não, mas depois sim. Nós éramos poucos e, a princípio, éramos muito unidos. Éramos amigos porque gostávamos dos

filmes uns dos outros, não gostávamos dos filmes porque éramos amigos, entendeu? Isso nos aproximava muito. O amor por um determinado tipo de cinema. E nós radicalizávamos, porque a idéia era fundarmos o cinema brasileiro moderno, que fosse preocupado com a realidade brasileira e, ao mesmo tempo, um cinema de autor. Um cinema que expressasse o sentimento e as idéias de cada um de nós. Isso, no início, nos deu muita força em comum, nos entendemos em torno dessas idéias, o que fez a força do movimento. O grande resultado da ditadura foi nos afastar. A ditadura nos afastou... Cada um começou a cuidar do seu destino, porque a gente não via perspectiva na vida real. Politicamente, nós estávamos unidos: todo mundo era contra a ditadura. Quando se tem um inimigo comum tão poderoso, fica todo mundo junto. A democracia é que não é mole, porque nela cada um tem que pensar pela sua cabeça, e começam a ocorrer dissidências. Politicamente sempre fomos unidos... Mas, cinematograficamente, começou a haver diferenças. Basicamente, estávamos num momento que não podíamos dizer o que queríamos, mas só o que era possível dizer. E isso gerou alguns conflitos. Eu acho que o Cinema Novo permaneceu vivo como um cinema de resistência, mas nem sempre era entendido. Não só pelo público, mas também pelas pessoas que estavam próximas de nós. Gerou muito debate e conflito, o que se agravou na época da Embrafilme, uma empresa estatal, portanto uma empresa da ditadura, e que a gente usou para fazer nossos filmes. Muitos desses filmes de resistência foram feitos com recursos da Embrafilme.

Jornal da ABI – Não parece contraditório a ditadura criar uma empresa para ajudar a produzir esses filmes? Cacá Diegues – A Embrafilme foi criada durante o triunvirato militar, em 1969, na época em que o Costa e Silva ficou doente. Durante o período de criação, e até 1974, a Embrafilme foi uma empresa de promoção do Estado, portanto, promoção da ditadura. Mas em 1974, com o governo Geisel e o projeto de abertura “lenta e gradual”, nós fomos procurados para ocupá-la. A idéia era começar a abertura pela cultura. Um dos elementos dessa abertura era a Embrafilme. E indicamos o Roberto Farias, que foi nomeado Presidente da Embrafilme. Muitos filmes financiados pela Embrafilme foram proibidos pela censura, aconteceu muito. Era uma vanguarda dessa abertura lenta e gradual. A grande virtude do cineasta brasileiro daquele momento foi compreender que aquela era uma porta semi-aberta, e precisaria meter o pé ali para escancarar. E foi o que aconteceu. Depois a Embrafilme perdeu o rumo, ficou desamparada pelo governo, aí já na época do Sarney. O Brasil estava falido, não havia recursos nem para infraestrutura, como ia dar dinheiro para cinema? Jornal da ABI – A Embrafilme acabou sendo, em algum momento, um jogo de amigos? Cacá Diegues – Não. Isso é conversa fiada. A Embrafilme deu recursos para distribuição e produção para todos os cineastas brasileiros daquela época. Tem um livro, Artes e Manhas da Embrafilme, do Tunico Amâncio, um professor de cinema da Usp que trabalhou na Embrafilme, em que ele publica todos os contratos feitos


por cineastas brasileiros com a Embrafilme; tem todo mundo. Todos usaram a Embrafilme de algum modo. Agora, uns fizeram filmes que deram mais certo que outros, dava mais dinheiro na bilheteria, aí tem a tendência de achar que foi porque a Embrafilme ajudou, mas não é. A Embrafilme servia a todo o cinema brasileiro, pelo menos no tempo do Roberto Farias. Depois, com a moratória e o desastre da economia brasileira dos anos 1980, a Embrafilme perdeu o sentido, porque não havia dinheiro. Extinguiu-se pela falta de recursos mesmo. Mas o período de ouro da Embrafilme foi um dos momentos mais importantes da história do cinema brasileiro. Os filmes que foram feitos naquele momento, tanto do ponto de vista comercial quanto do ponto de vista artístico, foram muito importantes. Jornal da ABI – Você sofreu muito com viagens para Brasília para resolver problemas com a censura? Cacá Diegues – Nossa, foi horrível! Teve uma época, quando fiz o filme Os Herdeiros, em 1968 – que entrou 1969 adentro porque o filme só foi exibido em 1970 –, que eu estava respondendo a três inquéritos policiais militares! Sabe aqueles IPMs que tinham naquela época? E, ao mesmo tempo, com Os Herdeiros proibido pela censura. Toda semana eu ia para Brasília conversar com os censores, tentando liberar o filme e, ao mesmo tempo, respondendo IPM na Marinha, IPM no Exército... Era um sufoco. Não se conseguia respirar, era uma coisa horrorosa. Não pode acontecer nunca mais no Brasil. Porque não era só a coisa trágica do desaparecimento, da prisão e da tortura. Era também tirar de você o gosto pela criação artística, o gosto pelo País, o gosto pelo que se estava fazendo. Jornal da ABI – Você tinha o filme proibido, que era o seu trabalho. Então, como sobrevivia? Como se mantinha? Cacá Diegues – Eu vivia de fazer publicidade, escrevia artigos. Depois eu fui para a Europa. Era casado com Nara naquela época e, tanto eu quanto ela, começamos a ser muito perseguidos, e fomos embora. Ficamos dois ou três anos fora. Jornal da ABI – Isso foi em 1969... Cacá Diegues – Foi em 1969. Fui primeiro para a Itália, mas não arrumei nada para fazer, então fui para Paris e trabalhei na televisão francesa. E teve ainda Os Herdeiros, que eu lancei lá, porque o filme estava proibido. Aí meus amigos italianos, responsáveis pelo Festival de Veneza, souberam que ele estava proibido e selecionaram o filme sem ver. E me mandaram um telegrama. Aí eu fui ao Ministro da Justiça que, na época, era o Gama e Silva, e disse: “Olha, tenho este telegrama aqui e, se eu

não for, vai ser um escândalo nacional, vão dizer que eu não fui porque o governo não deixou”. Foi uma chantagem. Então, eles me deixaram sair com uma cópia, para ficar fora durante um mês, e eu fiquei três anos. Eu fui e não voltei! Essa cópia eu consegui desenvolver em Paris e fazer o lançamento na França e depois na Europa. Vivi um pouco disso também. Jornal da ABI – A MPB sempre foi muito importante nos seus filmes. Isso se deve também à sua relação com Nara? Cacá Diegues – Não, é que eu sempre gostei muito de música. Aliás, quando adolescente, eu queria ser músico, mas não tinha o menor jeito. Tentei tocar piano, violão, não deu nada, mas sempre gostei. Tanto que, no meu primeiro filme, Ganga Zumba (1964), chamei Moacir Santos, que fez a trilha sonora, e chamei Nara para cantar. Não tinha nada com ela, mal a conhecia. Mas, como todo jovem daquela época, eu adorava a Bossa Nova, que era a música da juventude. Os músicos da minha geração estão entre os mais importantes da música brasileira moderna. Todos são da minha idade: Chico, Caetano, Gil, Milton Nascimento, e a gente se conhecia, porque era tudo ligado. Eles fizeram músicas para os filmes do Cinema Novo, íamos nas mesmas festas, nas mesmas praias, jogávamos as mesmas peladas, era como se fosse uma coisa só. E eu me liguei muito a essa geração da MPB, porque eu gostava muito do que eles faziam. Sempre trabalhei com eles, e não é nenhuma virtude minha. A única virtude foi escolher bem, porque as músicas eram eles que faziam. Jornal da ABI – Como começou o seu relacionamento com a Nara? Cacá Diegues – Foi muito engraçado, porque fiquei muito amigo dela nesse período, e a gente sempre se encontrava, falávamos da vida um do outro, reclamávamos da vida, contávamos as histórias românticas um do outro e éramos amigos. De repente, a amizade virou namoro. Foi na época que lancei A Grande Cidade, em 1966. Namoramos e casamos. Jornal da ABI – Como foi a sua infância e a importância de seus pais nas suas escolhas profissionais? Cacá Diegues – Eu sou de Maceió, mas vim para o Rio muito cedo, com seis anos de idade. Vieram meu pai, minha mãe e os quatro filhos. Meu pai era funcionário público e veio trabalhar no IBGE. Fomos morar em Botafogo. Minha mãe odiava o Rio de Janeiro, achava o Rio violento... Imagina, naquela época... Se ela estivesse viva hoje! Achava muito cheio de gente na rua e não gostava que saíssemos de casa. Fui estudar no Colégio Santo Inácio, que era em Botafogo também. Era de casa para o colégio e do colégio para casa. A gen-

“Toda semana eu ia para Brasília conversar com os censores, tentando liberar o filme e, ao mesmo tempo, respondendo IPM na Marinha, no Exército... Era um sufoco. Não se conseguia respirar.” te raramente saía. Então, minha diversão eram o cinema e o futebol, que eu adorava, mas só podia jogar no Santo Inácio, porque ela não deixava a gente jogar na rua. E como ela detestava o Rio, todo verão a gente voltava para Maceió. Um pouco antes do Carnaval, meu pai tirava férias e a gente ia para lá, e só voltava no final do verão. Então, na minha vida infantil, e até a adolescência, o Rio de Janeiro era a prisão onde eu tinha que estudar e ficar em casa, e Maceió era o paraíso, onde eu ia para a praia e ficava na rua. Depois, na adolescência, comecei a me livrar da prisão da minha mãe. Meu pai foi muito importante na minha vida porque ele era professor, antropólogo, jornalista. Ele criou a escola de Sociologia da PUC, junto com o Padre Ávila. Jornal da ABI – Você lembra em quais jornais seu pai trabalhou? Cacá Diegues – Ele estudou em Pernambuco, e trabalhou muito tempo no Diário de Pernambuco, dos Diários Associados, na juventude. Depois veio para o Rio e trabalhou no Diário de Notícias, que não existe mais. Mas ele era basicamente um antropólogo, escreveu muitos livros de antropologia... Era uma pessoa extremamente curiosa e amante das coisas brasileiras, e isso foi muito importante para mim, aprendi muita coisa com ele. Ele exigia que a gente lesse muito. Saía de manhã para trabalhar e deixava um livro assim, Graciliano Ramos, por exemplo, e mandava a gente ler um capítulo. À noite ele cobrava. E isso fez com que eu me aproximasse muito da cultura brasileira, sobretudo a literatura moderna. Eu gostava de ler, até hoje leio muito. Embora eu adorasse cinema, não tinha referências de cinema brasileiro que merecessem a minha paixão e dedicação. Então, as minhas referências eram todas da literatura modernista, e um pouco também da música, com Villa-Lobos, etc. Meu pai ouvia muita música em casa, e eu ouvia com ele. Essas referências de literatura foram fundamentais para todos nós do Cinema Novo. Você não pode ver um filme de Glauber Rocha sem pensar em Guimarães Rosa e Jorge de Lima. Ou um filme de Joaquim

Pedro de Andrade e não pensar na literatura mineira. O Modernismo foi muito importante porque nossas referências cinematográficas eram todas estrangeiras, americanas e européias. A nossa referência cultural em relação ao Brasil era a literatura. Jornal da ABI – Você chegou a dizer que o Cinema Novo foi a chegada do Modernismo ao cinema. Cacá Diegues – Sim, não tenho a menor dúvida. É a fundação do cinema moderno no Brasil. Quando meu pai ia para Maceió, às vezes ia para o interior para fotografar festas populares – porque ele gostava de fotografar –, coisas folclóricas de que ele gostava muito. Às vezes, eu ia com ele. Isso, sem dúvida alguma, foi importante na minha vida, ficou impregnado esse gosto pela cultura popular, o interesse pelo mistério do Brasil. Jornal da ABI – Por que a opção pelo curso de Direito? Como chegou ao jornalismo? Cacá Diegues – Foi no Diário de Notícias também, e depois na Última Hora. Eu sabia que não ia ser advogado, tinha certeza. Mas meu pai exigiu um diploma e eu escolhi Direito porque era o que tinha mais próximo de uma cultura humanista. Direito tem Filosofia, Sociologia, Ciências Sociais, uma porção de coisas que se aproximavam. E, naquela época, não tinha escola de Cinema e estava começando essa coisa de escola de comunicação, que formava jornalistas, etc. Então, fui fazer Direito para dar um diploma ao meu pai e dei um diploma mais próximo do que eu gostava, de Ciências Humanas. Mas nunca fui um bom aluno, nem nunca exerci. Foi durante a universidade que eu trabalhei em jornal. Jornal da ABI – Você pensava em seguir a carreira de jornalista? Cacá Diegues – Não. Eu gostava muito de escrever, como gosto até hoje, ou não teria escrito 700 páginas de uma biografia, não é? (risos) Tenho enorme prazer em escrever. Às vezes, trabalho junto com roteiristas, mas sempre escrevo meus roteiros, ou como co-roteirista ou como roteirista único. Mas não era minha intenção me tornar um jornalista. Trabalhei em jornal, mais uma vez, porque era a coisa mais próxima que havia do que eu gostava de fazer, e aí ganhava meu dinheirinho também. Jornal da ABI – Do que você se lembra desse período? Cacá Diegues – A coisa que me lembro com mais paixão é que, nessa época do Diário de Notícias, a gente fez um suplemento universitário chamado Metropolitano. Todo domingo saía esse suplemento, e foi a coisa mais feliz que fiz em matéria de jornalismo. Era no formato do jornal mesmo, mas a gente extrapolava o universitário, escrevia sobre poesia,

sobre cinema, e várias pessoas colaboraram. Paulo Alberto Monteiro de Barros, conhecido como Artur da Távola, era o diretor do jornal quando fui para lá. E havia mais colaboradores que hoje são pessoas conhecidas. Jornal da ABI – E você, chegou a dirigir o Metropolitano? Cacá Diegues – Depois, dirigi um tempo. Jornal da ABI – Você ajudou a criar? Cacá Diegues – Ajudei. Nós éramos todos da PUC – eu estudava Direito –, e aí o presidente da Une sugeriu fazer isso. A gente ligou para a dona Andina, a mãe do João Dantas, que era a dona do Diário de Notícias, e a convencemos a fazer. O primeiro diretor foi Paulo Alberto. Ele ficou um ano e saiu, depois eu entrei, fiquei uns oito meses. Mas quando ele era diretor, eu trabalhava com ele, era da Redação do jornal. Trabalhei pouco tempo como jornalista... durou praticamente o período do curso de Direito porque, já no final da graduação, eu estava fazendo meu primeiro longa-metragem. Enquanto isso, ia fazendo curtas... Jornal da ABI – Você chegou a ser presidente do Diretório Estudantil e era mau aluno? Cacá Diegues – Eu nunca fui reprovado, mas fiquei de segunda época. Era metido, falava muito de política. (risos) Jornal da ABI – Queria seguir a carreira política? Cacá Diegues – Nem pensava, detestava... Jornal da ABI – E por que se candidatou? Cacá Diegues – Não sei. Me convenceram que devia ser candidato, eu fui e ganhei. Fiquei um ano como presidente do Diretório, na mesma época em que estava no Metropolitano. E aquilo me enchia o saco, porque eu queria cuidar do Metropolitano, não do Diretório. Jornal da ABI – Já conhecia o pessoal do Cinema Novo... Cacá Diegues – Sim, foi tudo nessa época. Jornal da ABI – Aí vocês fundaram o cineclube? Cacá Diegues – Na PUC. Quando eu era presidente do Diretório, fundei um cineclube na PUC. Veja bem... na época não tinha filme na televisão, não tinha dvd, não tinha nada disso. Ou você via os filmes no cinema ou não via mais. O grande instrumento de cultura cinematográfica era o cineclube, que arrumava filmes antigos para a gente ver. O Cinema Novo nasceu nesses cineclubes locais. Eles foram os espaços em que a gente se encontrava e via os filmes que não podia ver comercialmente. E o mais

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Cacá Diegues – Eu não era redator fixo nem tinha uma coluna no Pasquim, só escrevia de vez em quando.

importante era a Cinemateca do Mam, que tinha uma sessão por semana, segunda-feira, às seis horas da tarde, na ABI.

Jornal da ABI – E o que motivou você a escrever para o Pasquim? Cacá Diegues – A agonia da gente naquela época era tão grande, a gente queria se manifestar e não conseguia, e quando apareceu O Pasquim, com aquele sentimento libertário, virou um centro de agregação nosso, era onde a gente tinha um lugar para falar alguma coisa. Era ótimo porque tudo o que a gente escrevia só podia sair no Pasquim, nenhum outro jornal publicaria. O que a gente queria dizer só poderia ser posto lá, pelo menos naquele período inicial da abertura. Depois começaram a aparecer outros jornais, como Opinião, Movimento, inclusive jornais mais alternativos ainda, como o Bondinho. Mas naquele momento, era só o Pasquim que aceitava o que a gente escrevia.

Jornal da ABI – Então, nessa época, você conseguiu fazer o seu primeiro filme. Qual foi mesmo? Domingo? Cacá Diegues – Domingo é o terceiro, porque eu fiz dois curtas-metragens antes. Um chamava-se Fuga, uma experiência totalmente louca que fiz com David Neves. Tinha uns dez minutos. David Neves era um grande cineasta, morreu há algum tempo. Ele era da Tijuca, mas foi morar em Botafogo, e foi na mão dele que eu vi, pela primeira vez, uma câmera de cinema. Era uma camerazinha de corda. E com essa câmera fizemos Fuga, que dirigimos juntos. Era um filme absolutamente experimental. Em 1959, eu tinha 19 anos, e meu pai, como servidor público, foi convidado para ver a construção de Brasília. E como minha mãe não quis ir, e ele tinha direito a duas pessoas, fui com ele. Era uma coisa que havia muito naquela época. Pegava um avião, juntava uma porção de gente para ir dar um apoio, porque Brasília foi muito contestada. Jornal da ABI – Ficavam quanto tempo? Cacá Diegues – Um dia. Ia de manhãevoltavaànoite,ounodiaseguinte de manhã. David me emprestou a câmera e fiz Brasília, um documentariozinho de dez ou quinze minutos sobre a construção da nova capital. Era uma areia só, vermelha, não tinha nada. De repente, um helicóptero baixou, saiu de dentro o Juscelino Kubitschek e começou a dizer “aqui é Congresso, aqui é o Planalto”, e não havia nada (risos). Só tinham as placas. Ele não dizia “aqui vai ser o Congresso”. Ele apontava e dizia “aqui é o Ministério da Justiça”. E eu filmei isso. Totalmente louco. E era um monte de gente, no mínimo umas cem pessoas, funcionários públicos que haviam sido convidados para verem as obras. O terceiro filme foi Domingo, que é mais pretensioso, de meia hora. Contava a história de dois meninos de Bangu que passavam o domingo na Zona Sul. Já muito politizado, com a idéia do conflito social. Depois veio o primeiro longa-metragem, Ganga Zumba, que fiz já no último ano da PUC. Jornal da ABI – Era muito difícil fazer cinema nessa época? Cacá Diegues – Era e não era. Quando a gente conta, parece inacreditável, mas quando fiz Ganga Zumba, eu tinha 23 anos de idade... eu fiz 23 anos no set de filmagem! A coisa fácil é que era muito barato fazer um filme, não tinha que gastar porque as pessoas trabalhavam de graça e as equipes eram pequenas. A equipe de Ganga Zumba era composta por oito pessoas. Os atores ajudavam a

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gente. Tinha que gastar só em película virgem, laboratório e equipamento, que a gente alugava. E os equipamentosqueeramvagabundos,coladoscom esparadrapo, mas era tudo barato. O dinheiro que precisávamos para comer e nos movimentar, a gente pegava em banco. Nosso grande apoio no banco foi Luiz Carlos Barreto, que era o mais velho de todos nós e conhecia o José Luiz Magalhães Lins, do Banco Nacional, e era amigo de Otto Lara Rezende. Os filmes custavam muito pouco se comparados aos de hoje. E eram filmes precários... não tinha jeito. Era difícil do ponto de vista técnico, pois a gente não tinha as condições necessárias. Mas era fácil filmar, porque era barato. Jornal da ABI – Os atores trabalhavam de graça? Cacá Diegues – Sim, não tinha muito problema. Para alguns, a gente tinha que pagar um pouquinho, mas não era uma coisa assustadora. As equipes, em geral, participavam cooperativamente; se o filme desse dinheiro, eles ganhavam. Jornal da ABI – Como você conheceu a turma de O Pasquim? Cacá Diegues – Pelo menos metade do pessoal d’O Pasquim eu já conhecia de bares, futebol, festas e praia. Com a ditadura, a partir de 1964 e até o AI-5, em 1968, começou a ter muita reunião política, e a gente se encontrava nessas reuniões. Tar-

so de Castro era meu amigo íntimo. Millôr Fernandes não era, mas eu o conhecia, sabia quem era, a gente já tinha conversado. Sérgio Cabral eu conhecia muito bem. Ivan Lessa, conhecia menos. Ele nunca gostou muito de mim, não. Jornal da ABI – Por que não gostava? Cacá Diegues – Teve uma briga minha lá com o Ivan Lessa, por causa do Glauber. Quando o Glauber voltou do exílio, veio com aquelas idéias que eu até entendo, mas não adianta nem discutir porque é difícil entender, elogiando o Geisel, o Golbery “gênio da raça”. O Ivan Lessa começou a publicar no Pasquim que o Glauber tinha recebido cinco mil dólares do Ney Braga, que era Ministro da Cultura, para defender o Governo. E era mentira, porque eu sabia, era vizinho do Glauber e ele estava doente. Hospitalizei o Glauber cuspindo sangue, ele estava mal e não tinha dinheiro nenhum. Eu ainda estava casado com Nara nessa época e, uma vez, estava em casa e telefonou a Paloma, filha do Glauber: “Venha cá porque meu pai está passando muito mal!”. Cheguei lá, ele estava aos prantos, com dor e sem dinheiro para ir ao hospital. Ele estava na pior!... E o Pasquim publicando que ele recebia dinheiro do Ney Braga! Aí um dia, estava em casa e me liga o Ivan Lessa – olha a besteira que ele fez – dizendo assim: “O Glauber está ligando aqui ameaçando o Jaguar, e

“Veio a ditadura, o Brasil se tornou um país dependente, cada vez mais injusto e miserável, e isso gerou em nós uma grande decepção...” quem atende é a mãe dele, que está doente, pede ao Glauber para parar de ligar”. E aí eu dei um esporro nele: “Então, pára você de fazer isso com o Glauber, porque não é verdade! Ele não tem dinheiro, está no hospital!”. Foi uma briga séria. Na época era tudo muito preconceituoso, não se podia ter um pensamento diferente. Jornal da ABI – Mas isso é até hoje... Cacá Diegues – É, mas naquela época era pior. Era muito radicalizado, normativo. O negócio das patrulhas ideológicas foi isso. Por que é que tem que ser assim? A gente fugiu muito disso. Glauber era mais exagerado, evidentemente cometeu alguns erros, mas era honesto e correto com o que ele pensava. Tive essa briga com o Ivan, mas depois passou. Jornal da ABI – Você escreveu no Pasquim?

Jornal da ABI – Você falou que, para o Glauber, o Brasil era o objeto de angústia permanente. O Brasil tem também essa característica de maltratar seus artistas? Cacá Diegues – Também tem o seguinte: poucos artistas no mundo têm, em relação aos seus próprios países, essa angústia que o artista brasileiro tem. E isso não só no cinema... Está na música, na pintura, em todo lugar. O Brasil é um mistério que a gente não consegue desvendar. Na minha geração, pelo menos, há um problema grave que a gente aprendeu que o Brasil é o país do futuro, que é um país do cacete, que tudo ia dar certo, que éramos grandes e que bastaria apenas nos livrar do poderio americano e da burguesia nacional (risos) e outras coisas assim. A gente se imbuiu dessa idéia, católicos, comunistas, todo mundo. E, de repente, aconteceu o contrário. Veio a ditadura, o Brasil se tornou um país dependente, cada vez mais injusto e miserável, e isso gerou em nós uma grande decepção... Mais que decepção, uma frustração, porque nós não fomos aquilo que afirmávamos que iríamos ser. Isso, em algumas pessoas, como no Glauber, virou uma doença. O Glauber morreu disso. Vocês podem não acreditar, mas eu sei o que estou dizendo. Ele morreu da frustração desse projeto não ter dado certo. Eu me defendi melhor, casei, fiz meus filmes possíveis, nunca fiz nada que não queria, e tudo que fiz eu queria fazer, mas nem sempre pude fazer o que eu queria. Pessoas mais razoáveis, como eu fui, como o Joaquim (Joaquim Pedro de Andrade) foi, como Nelson (Nelson Pereira dos Santos) foi, mas o Glauber não era assim. Ele não suportou essa frustração. Ele só vivia disso. Eu morei com Glauber, primeiro aqui no Rio, dividimos um apartamento, depois em Paris, antes do Festival de Cannes de 1964. Quatro horas da manhã ele


acordava, saía da cama direto para a máquina de escrever para redigir um artigo, um roteiro, qualquer coisa. Ele não tinha o comportamento que todos nós temos, de levantar, botar um chinelo, escovar os dentes, tomar café... Não tinha. A vida dele era outra coisa. Mas a grande frustração do artista brasileiro é essa, de não conseguir desvendar o grande mistério Brasil, que até hoje a gente não sabe bem o que é. Eu não conheço nenhum país do mundo que tenha artistas tão obcecados pela tentativa de desvendar o mistério que é o próprio país. Talvez só o Japão que, desconfio, seja parecido, mas não conheço direito a cultura japonesa. Jornal da ABI – Isso não foi causado pela ditadura? Cacá Diegues – A ditadura foi a frustração, lógico, mas até a ditadura a gente acreditava que estava construindo o País do futuro. Eu digo sempre isso e repito: o Cinema Novo era um movimento muito ‘simples’, com um programa de apenas três pontos: mudar a História do cinema; mudar a História do Brasil, e mudar a História do mundo! (risos) Outro dia eu estava dando uma aula e falei isso para os alunos e eles acharam muita graça... Era só isso o que a gente queria. E, de repente, a gente acorda e não dá para fazer nada disso. Nem mudar nossa própria vida a gente consegue, entendeu? Essa é que é a grande frustração que evidentemente se acentua porque, em 1964, eu tinha 24 anos de idade. Passei toda a minha juventude madura debaixo da ditadura. É uma frustração muito grande! A minha geração toda sofreu com isso! Jornal da ABI – Você tinha medo de ser preso e morrer? Cacá Diegues – Me cagava de medo, claro! Jornal da ABI – Mas nunca foi preso, não? Cacá Diegues – Preso, não. Mas respondi a muitos inquéritos... Jornal da ABI – Chegou a ajudar pessoas que estavam sendo perseguidas pela ditadura? Cacá Diegues – Ajudei muita gente. Sobretudo um rapaz de São Paulo que fez um filme comigo, Os Herdeiros, depois morreu em Paris numa motocicleta, um absurdo. Ele ia sair do Brasil, a organização dele estava ajudando. Ele veio para o Rio e o botei na minha casa até poder fugir. Isso acontecia muito. E era assustador, porque de repente tocava o telefone e alguém dizia: “Cuidado, fulano está indo aí”. Em 1968, 1969, tinha aquela coisa de que, para juntar mais de cinco pessoas na sua casa, você tinha que avisar à delegacia mais próxima. Era um horror, uma coisa impossível, não pode acontecer de novo no Brasil de jeito nenhum, porque isso acabou com a vida da gente! O Chico

(Chico Buarque), por exemplo, foi mais ou menos como eu. Ele não foi preso, foi embora. Mas o Caetano sofreu muito, Gil também. Eu sofri muito! Muita gente sofreu! E não estou nem me referindo àqueles que foram torturados e mortos. Viver essa experiência é uma coisa que eu não desejo ao meu pior inimigo, porque é muito ruim. E esse período em que eu ia para Brasília tentar liberar Os Herdeiros, chegava em casa à noite cheio de alergia, feridas no corpo todo! Seu corpo reage a isso também! Decidi sair do Brasil depois que o Chico me ligou e disse: ‘Olha, eu estou indo embora porque os caras me disseram isso, isso e isso, e falaram que os próximos serão você e Nara! É melhor vocês irem embora também!’. Muito chato, entendeu? Jornal da ABI – Nelson Pereira dos Santos e Walter Lima Júnior afirmaram, no Festival de Ouro Preto, que a atual Lei do Audiovisual é também uma forma de censura devido à burocracia e às dificuldades do processo. Você concorda com eles? Cacá Diegues – Em termos. Eu não sei o que o Nelson e o Walter disseram lá em Ouro Preto, mas acontece o seguinte: a Lei do Audiovisual foi criada em 1994 pelo Governo Itamar, com Fernando Henrique como Ministro da Fazenda. Essa lei era para ser constantemente renovada e, no ano 2000, eu participei de um grupo de estudos ligado à Casa Civil do Fernando Henrique para fazer essas modificações, mas não conseguimos. A lei atual ainda é a mesma, não mudou, mas criou elementos que, aos poucos, a sufocaram. Se é isso o que eles estavam dizendo, têm razão. Ou seja, se você não for um bom vendedor, você não faz cinema. Não é nem a Lei do Audiovisual, é o sistema cinematográfico brasileiro, que hoje não permite que o cara seja um cineasta independente, ele tem que depender de um produtor. Por isso, fiz a minha empresa, porque quero mandar na minha vida. Mas quem não tem essa vocação, não tem paciência para ser produtor, que é chato pra caramba, fica realmente numa situação difícil. Porque as circunstâncias, as imposições burocráticas e institucionais que são feitas são muito difíceis. Por um lado, pode-se dizer que está ajudando a criar produtores de cinema. Sempre fui produtor dos meus filmes, mas é legal ter um produtor. Por outro lado, não há como realizar certos tipos de filmes. Hoje você tem, como fonte de recursos, o dinheiro direto do Estado, que é o Fundo Setorial do Audiovisual; tem o Artigo 3A, que são os recursos advindos das remessas de lucro das distribuidoras de filmes estrangeiros, e tem o Artigo 1º, que é incentivo fiscal, ou seja, você arruma um cara rico que dá o dinheiro e desconta no Imposto de Renda. São três tipos de recursos

muito difíceis de um artista procurar. Se não houver uma estrutura de produção, se não tiver um mínimo de vocação comercial para traçar um modelo de negócio, não dá. Esse Artigo de incentivo fiscal de empresas, praticamente ninguém consegue usar mais! Então... É difícil mesmo! Mas foi essa Lei do Audiovisual que permitiu a chamada “retomada”. Jornal da ABI – Mas muita gente ganha dinheiro com essa burocracia. Qual é a solução? Cacá Diegues – Não sei dizer qual é a solução. Eu já pensei muito sobre isso. Acho que nós temos que escolher um sistema em que se possam fazer todos os filmes, e não ter um guichê em que só um tipo de filme possa ser feito. É preciso inventar um sistema de produção cinematográfica que atenda à diversidade de nosso cinema, porque uma das grandes virtudes do cinema brasileiro é a sua diversidade e a sua capacidade de ser cada vez mais diverso. Vamos fazer Minha Mãe é uma Peça, mas também fazer O Som ao Redor, fazer todo o tipo de filme. As leis, como elas estão hoje, não são acessíveis a todos os tipos de filme. Contudo, não adianta substituir uma lei ‘concentracionária’ por uma ‘concentracionária’ na outra direção. É preciso que, além da Lei do Audiovisual, sejam criados outros mecanismos para certos filmes que não cabem nesse. Como resolver isso, eu não sei... Não tem ninguém trabalhando nessa direção. Ou as pessoas estão satisfeitas, porque estão fazendo os filmes que querem, ou as pessoas não estão satisfeitas e não estão propondo coisas novas. Não estou falando do Nelson e do Walter, não! Respeito os dois, mas é preciso propor. Vamos criar outro guichê para outros tipos de filme. Mas isso não está sendo pensado. Jornal da ABI – O Governo também não dá atenção a isso... Cacá Diegues – O Governo criou a Ancine e se desprendeu do assunto. Só que a Agência Nacional de Cinema não é dos cineastas, é dos burocratas que estão lá. Jornal da ABI – Você foi membro do júri do Festival de Cannes em 1981. Como foram o convite e os bastidores do evento? Cacá Diegues – Em 1980, Bye Bye Brasil foi selecionado oficialmente para a competição de Cannes, e o filme fez muito sucesso lá. Eles me convidaram para ser membro do júri no ano seguinte. No fim do ano eu recebi o convite, topei e fui. Mas, pra dizer a verdade, eu esperava encontrar a mais profunda manipulação dentro desse júri, porque um prêmio do Festival de Cannes vale muito dinheiro, é um festival poderoso. Não só dinheiro, como prestígio. E eu não fui pressionado por ninguém, pelo con-

“É preciso inventar um sistema de produção cinematográfica que atenda à diversidade de nosso cinema, porque uma das grandes virtudes do cinema brasileiro é a sua diversidade.” trário, o Presidente do Festival sempre se afastava do júri na hora em que a gente ia decidir, na hora que íamos discutir os filmes, e fiquei surpreso com isso, porque achava que era tudo manipulação. Mas, tinha uma coisa: o júri já começou sabendo qual era o filme que iria ganhar porque, naquele ano, estava anunciado um filme do Andrzej Wajda, chamado O Homem de Ferro, sobre Lech Walesa e o Solidariedade. E era a época em que a Polônia estava sendo invadida pelos tanques da União Soviética, e Wajda ia deixar a Polônia clandestinamente para trazer o filme para o Festival de Cannes. Ora, a Europa toda estava levantada para apoiar o Wajda e seu filme. Então, a pressão política era geral, tínhamos estudantes na rua, professores se manifestando, o Governo francês se manifestando. A pressão geral a favor da Polônia era tão grande que esse filme se tornou imbatível, porque tratava exatamente disso, e ainda com essa característica de sair clandestinamente da Polônia. Não tinha como ser contra! Se o Festival de Cannes não desse o prêmio para esse filme, seria um escândalo! E foi esse o que ganhou, não teve nem discussão. Então, eu me dediquei a ajudar a dar os outros prêmios aos filmes que eu gostava. Jornal da ABI – Hoje em dia ele ganharia? Cacá Diegues – Não, não ganharia. Eu adoro os filmes do Wajda, acho um grande diretor, mas esse, por acaso, é um dos menos bons. Ganhou por causa dessa pressão política, que era uma pressão difusa... Não era ninguém dizendo ‘tem que dar!’. E ninguém disse. Mas era evidente que não tinha outro jeito. Se o filme não ganhasse o prêmio, era capaz de os estudantes invadirem o Festival e destruírem tudo aquilo... (risos) Jornal da ABI – Qual a sua opinião a respeito deste novo momento do cinema nacional? Cacá Diegues – É preciso diferenciar o meu gosto pessoal daquilo que o cinema brasileiro precisa. Tem filmes que eu não gosto, mas o cinema

brasileiro precisa deles por algum motivo. Eu insisto que a grande virtude do cinema brasileiro é a sua diversidade, sobretudo a sua potencial diversidade, ou seja, ele pode ser ainda mais diverso do que já é. Em fevereiro, tem sempre um festival em Minas, na cidade de Tiradentes, que tem filmes do Brasil feitos por jovens cineastas, estreantes ou de segundo filme. É espantosa a qualidade desses filmes, mas eles não têm circulação no mercado. Não são exibidos, como são as comédias que estão fazendo sucesso por aí. Isso tem que ser resolvido, tem que haver espaço para esses filmes. Agora, o fato de serem feitos, e do Brasil estar produzindo mais de cem filmes por ano, é alvissareiro. Como também é alvissareiro ter um filme como Minha Mãe é Uma Peça que dá cinco milhões de espectadores. Há muitos anos que não tem isso no cinema brasileiro, e é importante isso também. As pessoas se identificarem com a língua, com os costumes, com os hábitos, mesmo que não seja uma obra-prima. Por acaso, eu gosto do Minha Mãe é Uma Peça, mas há muitos outros de que eu não gosto, que são neochanchadas, como estão dizendo, e são mesmo. São filmes precários, mal feitos, mas que dão dinheiro. O público quer ver e o que é que eu posso fazer? Não posso trocar de público. O povo brasileiro vê os filmes que escolhe. Mas é preciso dar espaço para esses outros filmes, porque eles não estão no circuito comercial. Não tenho o direito de mudar a opinião do público a respeito dos filmes ou de mudar o seu gosto, mas tenho o direito de tentar mudar. Eu não posso dizer: ‘Esse filme é muito ruim e o público não deve ver’... Mas eu posso dizer: ‘Eu não quero ver esse filme’. E tenho direito de dizer: ‘Quero fazer um filme diferente desse e ver que o público também pode gostar’. Jornal da ABI – A partir do momento que não se programam esse filmes, é uma espécie de censura também... Cacá Diegues – Claro, é a censura do circuito, uma censura comercial. Vou repetir uma coisa que já disse aqui: não é preciso destruir uma coisa para construir outra, pode construir outra coisa paralela. Esta aqui está dando certo? Ótimo. Agora vamos construir uma outra para este que não está sendo divulgado. Jornal da ABI – Dar ao público uma escolha... Cacá Diegues – Claro. E você tem hoje uma vantagem nisso, que são os multiplexes. Um lugar com oito, dez salas, pode botar uma para esses filmes e ver o que dá. Se ninguém for ver, tira. Tinha uma lei fundamental na época da Embrafilme que, enquanto o filme estivesse dando a renda média da sala exibidora, não podia ser tirado de cartaz. Essa é uma lei justa, porque muitas vezes um filme é

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tirado de cartaz para atender às ambições do exibidor. Mas se o filme está dando a renda média da sala, está pagando a sala dele. Essa lei não existe mais, uma pena... É autoritário querer mudar o gosto do público a qualquer preço. Democrático é dar uma alternativa. Jornal da ABI – Você acompanhou o surgimento do lendário Cineclube Macunaíma? Cacá Diegues – Acompanhei, mas foi bem depois do Cinema Novo. Adhemar Oliveira era muito amigo nosso, foi um dos fundadores do Macunaíma, com o Maurício Azêdo. Maurício também foi importantíssimo para o cinema brasileiro. Foi ele, quando era vereador, junto com Francisco Milani, que em 1992 criou a RioFilme, a empresa distribuidora de filmes do Rio. Foram os ex-funcionários da Embrafilme que botaram na cabeça deles de fazer uma empresa municipal de cinema no Rio. E eles fizeram. Jornal da ABI – Por falar nisso, em meados deste ano, você esteve filmando na ABI, colhendo depoimentos do Presidente Maurício Azêdo. Fale desse projeto. Cacá Diegues – É um documentário chamado Vinte, sobre os vinte anos da retomada do cinema brasileiro. Está pronto, fiz para a RioFilme. Eu propus, eles toparam e eu fiz. A distribuição está na mão deles... Agora quem manda são eles. Para realizar o documentário, fiz 47 entrevistas, muitas delas enormes, que não dá para usar num longa-metragem de uma hora e vinte. Então, estou fazendo, neste momento, um seriado para o Canal Brasil com esse material. São dez episódios. O Maurício foi entrevistado porque ele criou a RioFilme com o Milani. Os ex-funcionários da Embrafilme estavam na ABI no dia em que colhi esse depoimento do Maurício! Jornal da ABI – O Canal Brasil é outra iniciativa importante para a divulgação do Cinema Nacional... Cacá Diegues – Sim, muito importante. O Zelito Viana (do Canal Brasil) é danado. Glauber chamava ele de ‘Dr. Fantástico’, por causa do filme do Kubrick. Jornal da ABI – O Zelito Viana e o Roberto Mendes estiveram à frente de outra importante iniciativa para o cinema brasileiro nos anos 1980: a Globo Vídeo. Cacá Diegues – A Globo Vídeo foi a primeira grande distribuidora de vídeo do cinema brasileiro. E isso foi muito importante... Foi bom você falar, pois a gente esquece disso. Importantíssimo! Um trabalho muito pioneiro. Jornal da ABI – Como você fez para sobreviver na época do Governo Collor, que acabou com o

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cinema brasileiro? Foi para a publicidade? Cacá Diegues – Não teve outro jeito. Jornal da ABI – E tinha que bater na porta das agências? Cacá Diegues – Tinha. Esse é outro período muito negro da vida do cinema brasileiro. Com a Embrafilme em crise desde 1985, o País falido, não tinham laboratórios, não tinha dinheiro para nada, muito menos para cinema, mas mesmo assim, no final dos anos 1980, se fazia no Bra-

saíam coisas legais. Lembro que, uma vez, fiz um tríptico – três filminhos de 30 segundos – para o Ponto Frio, que ficou bacana. Era sobre os costumes brasileiros. Um era sobre escola de samba, o outro era festa de São João, e o terceiro, acho que era Ano Novo. Gostei de fazer. Era anúncio de televisão. Mas também topei muita parada. Fiz uma campanha para uma casa de material de construção. Na reunião, me disseram que o conceito dos filmes era que essa casa de material de construção era diferente

nhia extraordinária; eu morria de rir com ele o dia inteiro. Uma maravilha, o Costinha vestido de super-homem... Era uma loucura. Uma vez, em 1990 ou 1991, fui fazer um comercial para um shopping do Rio de Janeiro. Fui à reunião de briefing com o cliente, a agência, o produtor e eu. O cliente era representado por uma senhora que começou a dizer: ‘Você sabe, shopping é uma coisa assim, não pode ter preto, só branco, e não pode aparecer dinheiro’. Aí, eu fiquei esperando a piada, porque eu tinha feito Quilombo. (risos) Eu pensei: “Essa mulher deve estar contando uma piada”. Mas era isso mesmo! No shopping não pode aparecer dinheiro... E preto, jamais! Jornal da ABI – Cá pra nós, qual era o shopping? Cacá Diegues – Não... Não vou dizer, não... (risos) Um dia, cheguei em casa exausto, porque ainda fazia institucionais, filmes mais longos, documentários sobre empresas. Quase chorando, desesperado e cansado, disse: “Foi nisso que parou a minha vida?”. Chamei meus filhos, minha mulher, botei uma fita no vhs... Naquela época ainda era vhs... E falei: ‘Agora vocês vão ver o que eu estou fazendo para sustentar vocês’. (risos) Mas o que eu ia fazer? Jornal da ABI – Não tinha oportunidade na televisão? Cacá Diegues – Tinha, mas para isso eu teria que virar funcionário da televisão, e eu não queria isso. Também não sei se a televisão haveria de me querer, ninguém me procurou, mas eu também não pedi.

sil 70 ou 80 filmes por ano e, da noite para o dia, parou totalmente. Nos anos de 1990, 1991, 1992 e 1993, o máximo de produção foram três filmes por ano, sendo que teve um ano, acho que foi 1992, que não teve nenhum, zero filmes. Não era uma crise, era uma catástrofe terminal. As pessoas sofreram muito com isso. Os profissionais, os técnicos, fotógrafos, montadores, roteiristas, foram todos para a televisão. Mas os diretores, as pessoas que bolam os filmes, e mesmo os produtores, que só fazem isso, ficaram sem ter o que fazer. Acabou. Não tinha como arrumar dinheiro para fazer um filme. É claro que os exibidores se aproveitaram disso e eliminaram o cinema brasileiro das salas. As opções foram várias. Arnaldo Jabor, que era um grande cineasta, virou jornalista. Fez um filme agora, dois ou três anos atrás, mas ficou vinte anos sem fazer cinema. Nelson Pereira dos Santos foi para a Academia Brasileira de Letras. E eu fui fazer comerciais, porque queria fazer cinema. Faço cinema, em primeiro lugar, porque amo cinema, tenho um prazer fantástico. E bati na porta de produtoras, de agências, de tudo. Às vezes,

“O Brasil tem uma vocação cinematográfica muito grande e eu sei por quê: por causa dessa variedade de imagens que tem no País, essa mistura de etnias, de culturas, de paisagens.” de todas as outras, então tinha que mostrar coisas diferentes: português bigodudo com camisa do Flamengo, mulher com uma melancia no lugar do colar, um mau-gosto!... Foi péssimo, mas tive de fazer. Fiz uma outra campanha que, aliás, me deu muito prazer, por causa do Costinha. Ele era o garoto propaganda de uma Loteria. Fiz com um prazer imenso, porque o Costinha era uma compa-

Jornal da ABI – Você se lembra de algum videoclipe interessante que fez? Cacá Diegues – Ah, fiz um videoclipe que eu gosto muito, para os Engenheiros do Hawaii... Não existe mais essa banda de rock. Fiz o videoclipe para uma música chamada Exército de Um Homem Só, inspirada em um romance do Moacyr Scliar. É um videoclipe bacana, gostei de ter feito. Mas era muito raro fazer uma coisa dessas. Jornal da ABI – Chuvas de Verão é um filme maravilhoso, mas você falou que, hoje, o faria diferente. É isso? Cacá Diegues – Não é isso, não! (risos) Não sei quando foi que eu disse isso, porque não é o que penso hoje. Eu fiz Chuvas de Verão quando tinha 37 anos, e gosto muito dele... Acho que você tem razão: é um filme muito emocionante, gosto dele... Foi um prazer muito grande fazê-lo. Mas uns dez ou doze anos atrás, ou mais talvez, me ocorreu refazer o filme. Até chamei a Fernanda Montenegro para fazer aquele papel. Mas aí... Não consegui escrever o roteiro. Me ocorreu que só pude fazer aquele filme porque tinha 37 anos. Quando cheguei à ida-

de dos personagens, não conseguia mais fazer. Só aos 37 anos eu consegui fazer aquele filme sobre os homens de 60. (risos) Jornal da ABI – Outro marco de sua filmografia é Veja Esta Canção, em que você uniu cinema e televisão. Cacá Diegues – Veja Esta Canção é filho direto dessa época dos comerciais! Porque eu estava ficando desesperado, a minha profissão não existia mais e, para não ficar louco, fiz esse filme em 1993 – um ano antes da Lei do Audiovisual. Chamei minha filha mais velha, que gostava de cinema, mas não é cineasta... Na época ela devia ter uns vinte e poucos anos, e disse: “Chame seus amigos, diga que eu não tenho um tostão, mas nós vamos fazer um filme, senão vou ficar louco”. E daí fizemos o Veja Esta Canção. Jornal da ABI – Mas teve a parceria com a televisão... Cacá Diegues – Sim, com a TV Cultura. Roberto Muylaert entendeu o projeto e foi sensacional. Tive a idéia e levei o projeto para ele. Eu sabia que a gente só conseguiria fazer um filme se não custasse nada. Então tive a idéia... Vamos fazer um filme de quatro episódios sobre canções de amor de Chico, Caetano, Gil e Jorge Benjor... Destes quatro gênios que eu adoro, meus amigos, e vamos fazer com a turma da Isabel, minha filha. Só precisa de equipamento e laboratório... Aí fui buscar dinheiro na TV Cultura. Falei para o Muylaert: ‘você me dá um valor, que é o que eu preciso para fazer o filme, e fica com ele para a televisão, os direitos de exibição são seus’. E foi assim que eu fiz. Cada episódio levou de quatro a cinco dias para fazer. Não podia ser mais do que isso. E tive o apoio dos quatro compositores que me deram as músicas de graça. Jornal da ABI – Os atores também não receberam nada? Cacá Diegues – Alguns devem ter recebido, sobretudo os atores mais jovens, que precisam... Mas, por exemplo, Fernanda Montenegro, que eu me lembre, não recebeu nada. Foi realmente um esforço para eu não ficar maluco, porque minha profissão não existia mais. Todo mundo sabia que o cinema brasileiro estava acabado e era preciso fazer alguma coisa para retomar. Então, eles ajudaram muito. Mesmo porque eu fiz o filme com o Zelito Viana, que foi co-produtor, e essa parte ficou com ele. Mas eu sei que muitos atores trabalharam de graça e os compositores não receberam nada. Jornal da ABI – Está cada vez mais próxima a fusão do cinema com a tv e a internet. Como vê isso? Cacá Diegues – Isso tudo hoje é uma coisa só. Não se pode mais fazer filme pensando só na sala de ci-


nema. Para dizer a verdade, num país onde existe uma indústria cinematográfica poderosa e consolidada, a sala de cinema é apenas uma vitrine para você vender o resto. Porque hoje os filmes ficam pouco tempo em cartaz e, com as novas tecnologias que democratizaram a produção, se produz em todas as camadas sociais de todo lugar do mundo. O cinema mais importante que tem hoje na China é feito nas universidades por garotos que fazem dvd, entendeu? A França tem hoje uma produção de filmes de imigrantes árabes que é talvez tão poderosa quanto a produção regular. Então, todo mundo está filmando. Temos hoje um monte de filmes e poucas salas, porque elas não cresceram muito. Ou ficaram iguais, como na França, Estados Unidos e México, ou até diminuíram, como no Brasil. Tem filme demais para pouca sala. Exceto os grandes blockbusters, que todo mundo vai ver, os outros filmes ficam pouco tempo em cartaz. Você procura o filme e já não está mais em cartaz. E, para o exibidor, é muito melhor exibir um filme que ainda não deu nada do que um que já está há três semanas, porque a primeira semana de um novo filme vai dar mais que a terceira semana daquele outro. Hoje você faz um filme para a sala, para a televisão a cabo, para a televisão aberta, para o dvd, para a internet, para tudo. E ainda para as coisas que ainda virão por aí, porque estão a caminho coisas novas e diferentes. Por exemplo, uma hipótese que não é necessariamente para amanhã, mas é viável e vai acontecer em curto espaço de tempo, é os filmes serem projetados de um lugar só, ou seja, você projeta um filme de Miami para toda a América Latina. Ele vai para um satélite e do satélite vem para cá. Não tem mais cópia, não tem mais funcionário passando o filme, não tem mais armazenamento, não tem mais transporte, não tem mais nada. Recebe de um satélite e passa. Isso vai mudar totalmente a economia cinematográfica. Pode ser maluquice minha, mas eu acho que vai ficar tão barato, que é capaz de as exibidoras passarem o filme de graça só para venderem o resto – o dvd, o cd, a camiseta, a pipoca. Está tudo mudando, e essa mudança vai em direção a uma multiplicação dos meios de difusão. Veja o vídeo on-demand... Não precisa nem sair de casa para ver os filmes que você quer ver. Os filmes estão em cartaz e já tem no Net-flix, Apple, Now. Quem vai sair de casa para ver um filme tendo isso? Mas essa multiplicação de meios de difusão não pode ser concentrada na mão de poucas pessoas, porque aí acabou e nunca mais. Jornal da ABI – Quando você fala que todo mundo está fazendo cinema, Cinco Vezes Favela é um bom exemplo disso.

Cacá Diegues – Exatamente. Nos anos 1990, na época do Veja Esta Canção, uma amiga minha me convidou para ir a uma reunião no Vidigal e eu me vi diante de uma cultura nova, pessoas fazendo teatro, fazendo cinema, música, independente do que estava acontecendo na Zona Sul, no asfalto. Eu gostei daquilo e me liguei naquelas pessoas, tanto que chamei muitas delas para fazer o Veja Esta Canção. E fui me aproximando: Cufa – Central Única das Favelas, na Cidade de Deus; Observatório de Favelas, na Maré; e comecei a dar aulas, palestras, cursos de cinema, sempre curtos. Até que um dia, a Cufa me pediu para organizar um curso de cinema lá. Eu já tinha feito Orfeu, então deve ser 1999 ou por aí. Não sou professor, mas organizei o curso e chamei professores para darem as aulas. Mas eles pediram para eu dar a aula inaugural, já que eu tinha organizado o curso. Passei dias sofrendo: “O que é que eu vou dizer para esses meninos?”, porque se a educação no Brasil é uma porcaria, na favela, então, não deve ser nada, ninguém sabe nada. Cheguei na Cidade de Deus para dar essa aula inaugural, tinha umas 120 pessoas, rapazes e moças, o que já me surpreendeu, porque era muita gente. E um número razoável de estudantes que estavam ali já tinham feito um filme, com camerazinhas domésticas, iphone, smartphone. A minha aula inaugural foi discutir os filmes deles, não tive que falar nada dos meus. Continuei próximo deles e, um dia, me ocorreu refazer o Cinco Vezes Favela, porque, em 1962, eu fiz um dos episódios do Cinco Vezes Favela, antes do Ganga Zumba. Aquele filme foi uma

“Tem coisas muito novas acontecendo e a gente precisa pensar e discutir essas coisas. Não pode achar que está tudo igual ao que sempre foi. Não está, não!” atitude política muito boa, mas era um bando de garotos universitários de classe média que nunca tinham ido ao morro. Uma generosidade política gigantesca, mas de conhecimento zero. Então, vamos fazer, agora por eles mesmos. E fizemos. Eu não inventei nenhum daqueles cineastas, eles já existiam. Não ensinei nenhum daqueles meninos a filmar, eles já sabiam. O que eu dei foram as condições para que eles fizessem, da melhor maneira possível, aquilo que queriam fazer. E o resultado: foi para Cannes, fez sucesso de bilheteria, todo mundo gostou. Acho que o Brasil tem uma vocação cinematográfica muito grande e eu sei por quê: por causa dessa variedade de imagens que tem no País, essa mistura de etnias, de culturas, de paisagens. O que é o cinema francês? É uma história de amor em Paris, não tem nada além disso. O único cinema que pode se comparar ao brasileiro é o americano, e eu acho que o cinema brasileiro pode ser, no século 21, aquilo que Hollywood foi para o século 20. De expressar, espelhar e, ao mesmo tempo, criar as coisas do século 21. Ago-

ra, o Brasil nunca atende aos nossos desejos, sempre nos trai. Então, é capaz de não acontecer, mas pode acontecer, temos condições para isso. Essa vocação para o cinema está nas favelas, está no interior, em uma porção de lugares. Tem um rapaz que vem conversar comigo de vez em quando, Ricardo Rodrigues. Ele é de São João do Meriti, na Baixada Fluminense. Ele é cineasta e a profissão dele é açougueiro. Então, no cartão dele está escrito “cineasta e açougueiro” (risos). E é um bom cineasta, está começando, fazendo curtas-metragens. Tem um filme dele, chamado Gigantes de Alegria, que é maravilhoso, você fica fascinado. Jornal da ABI – É importante um Oscar para o Brasil? Cacá Diegues – É e não é. A gente não pode se submeter ao gosto do Oscar para fazer nossos filmes, não é verdade? Seria uma atitude colonial que não existe. O Oscar não pode ser o juiz supremo do que é bom e mal no cinema brasileiro. Mas é claro que o Oscar é uma promoção internacional como nenhum outro evento. Um filme brasileiro ser selecionado, ou mesmo ganhar um Oscar, é uma coisa importante, é uma difusão boa para o cinema nacional. Mas não podemos fazer disso um alvo, nós não fazemos cinema para isso. Pode acontecer, e será bom se acontecer. Jornal da ABI – O que você acha da polêmica das biografias não autorizadas? Cacá Diegues – Eu sou a favor das biografias não autorizadas. Todo mundo é livre para escrever o que bem entender, mas a punição deve ser

rápida. E, ao lado disso, acho que o linchamento que está se fazendo contra esses meninos, o Chico, o Caetano, é excessivo e não precisa. Tem que respeitar o que essas pessoas são. Jornal da ABI – Como surgiu a oportunidade de escrever uma coluna no jornal O Globo? Cacá Diegues – Quem me chamou para isso foi meu querido amigo Rodolfo Fernandes. Ele era editorchefe do jornal, me chamou para escrever e eu topei. Era para ser semanalmente, mas eu não ia ter fôlego... Então, faço quinzenalmente, sábado sim, outro não. Eu aceitei porque gosto de escrever, não é um sacrifício para mim. Em segundo lugar, porque a cultura brasileira está em um momento muito interessante. E quando falo em cultura, falo em cultura política também. Tem coisas muito novas acontecendo e a gente precisa pensar e discutir essas coisas. Não pode achar que está tudo igual ao que sempre foi. Não está, não! Tem muita coisa mudando rapidamente. No cinema, por exemplo! Vá à Mostra de Cinema de Tiradentes (acontece de 24 de janeiro a 1º de fevereiro) que você verá como tem coisa mudando. Acho que tem aí uma novidade no cinema brasileiro, filmes que estão sendo feitos não mais no sistema industrial, mas no pós-industrial, não linear. Na música também tem coisas novas... E na política, então, nem se fala. Esse pessoal que está nas ruas é uma coisa nova. Talvez a gente não saiba explicar direito o que é, mas é novo. Eu aceitei escrever no jornal porque achei que podia pensar um pouco essas coisas... E tenho feito isso.

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BRAZ BEZERRA/AJB

DIREITOS HUMANOS

A verdade sobre a morte de Raul Amaro P OR M ÁRIO A UGUSTO J AKOBSKIND

Pesquisas realizadas ao longo de mais de um ano e meio demonstram que o engenheiro e ex-aluno da Puc-Rio, Raul Amaro Nin Ferreira, foi preso e assassinado por agentes do Dops em agosto de 1971. A Comissão da Verdade, com base em informações oficiais, acatou a versão oficial de que o engenheiro seria ligado a grupos terroristas. A partir de documentos de arquivos públicos, depoimentos de sobreviventes dos cárceres da ditadura e amigos de Raul Amaro, as investigações revelaram que ele não tinha ligações com militância e foi preso em perfeitas condições de saúde. A informação foi prestada por Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP, e por Raul e Felipe Ferreira, sobrinhos de Raul Amaro. O engenheiro foi preso no dia 1º de agosto, enquanto saía de casa com amigos, no bairro de Laranjeiras, em uma batida polici-

al. Ele tinha 27 anos e não militava em nenhuma organização clandestina, mas era amigo de militantes do MR-8. Raul Amaro foi levado à sede do Dops, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Onze dias depois as autoridades entregaram os restos mortais do preso político à família. Zelic e os sobrinhos da vítima esperam que a Comissão da Verdade corrija o erro e aponte a verdadeira versão do fato. Os resultados da apuração foram apresentados em um encontro da Comissão da Verdade na quinta-feira, 5 de dezembro, na sede da Caixa de Assistência dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro – CAARJ. A família de Raul Amaro espera ainda que o jornal O Globo corrija a informação oficial e errada divulgada em 28 de agosto de 1971. Segundo os sobrinhos do engenheiro, a publicação teria veiculado a versão apresentada pelo Centro de Informações do Exército sobre “um confronto entre militantes e forças policiais, no qual Raul Amaro Nin Ferreira teria morrido.” REPRODUÇÃO

A ficha de Raul Amaro no Dops registra a data de sua morte: Ele tinha 27 anos e não militava em nenhuma organização clandestina.

Jornal da ABI ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA Editores: Maurício Azêdo (in memoriam) e Francisco Ucha

Quase 50 anos depois de ter sido deposto, João Goulart recebeu honras de Chefe de Estado.

Estado brasileiro promove reparação histórica P OR M ÁRIO A UGUSTO J AKOBSKIND

No último dia 14 de novembro, o Estado brasileiro promoveu uma reparação histórica. Depois de quase 37 anos de sua morte e 49 anos e oito meses de ter sido derrubado, o presidente João Goulart recebeu honras de chefe de Estado. Quando da morte de Goulart, em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, os governos ditatoriais brasileiro e argentino não permitiram sequer a realização de autópsia. E como há fortes indícios de que Goulart pode ter sido assassinado com troca de remédios, a Comissão da Verdade decidiu fazer a exumação dos restos mortais do Presidente deposto por um golpe empresarial militar, que contou com o apoio do governo dos Estados Unidos. Nestes quase 50 anos da derrubada, a figura de Jango, como era também conhecido João Goulart, foi desfigurada pelos detentores do poder de fato e por alguns historiadores. Depois do reconhecimento oficial como Presidente da República, para se fazer justiça é necessário rever uma

DIRETORIA – MANDATO 2013-2016 Presidente: Fichel Davit Chargel Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Fichel Davit Chargel Diretor Econômico-Financeiro: Sérgio Caldieri Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretor de Arte e Cultura: Henrique Miranda Sá Neto Diretor de Jornalismo: Alcyr Cavalcanti

presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Apoio à produção editorial: André Gil, Cesar Silva, Conceição Ferreira, Paulo Chico. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva. Diretor responsável: Fichel Davit Chargel Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ – Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes – Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 – Osasco, SP

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CONSELHO CONSULTIVO 2013-2016 Ancelmo Gois, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Miro Teixeira, Nilson Lage, Teixeira Heizer, Villas-Bôas Corrêa. CONSELHO FISCAL 2013-2014 Adail José de Paula, Dulce Tupy Caldas, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Manolo Epelbaum. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2013-2014 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: José Pereira da Silva Segundo Secretário: Moacyr Lacerda Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo (in memoriam), Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório. Conselheiros Efetivos 2013-2016 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Dulce Tupy Caldas, Fernando Foch, Germando de Oliveira Gonçalves, João Máximo, Marcelo Tognozzi, Milton Temer, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Sérgio Cabral, Sérgio Caldieri e Zilmar Borges Basílio Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felippe Meiga Santiago (in memoriam), Edgar Catoira, Francisco

série de estereótipos negativos divulgados ao longo de todos estes anos. Para começar, é importante lembrar que a principal bandeira de Goulart, as reformas de base, continuam vigentes, porque o Brasil ainda não conseguiu incrementar a maior parte das propostas apresentadas pelo governo de então, que pode ser considerado o mais progressista da história do País. A reforma agrária é uma delas. Torna-se mais atual do que nunca comentário do professor Darcy Ribeiro sobre a derrubada de Jango, ao afirmar que ele caiu por suas qualidades e não por seus defeitos. Na verdade, no auge da Guerra Fria, Goulart tentou levar adiante reformas sociais de que o Brasil necessitava e ainda necessita, mas foi impedido por setores retrógrados que contaram com o apoio financeiro dos Estados Unidos, para não falar da chamada Operação Brother Sun, deslocamento de navios de guerra norte-americanos nas costas brasileiras que entrariam em ação para dar cobertura aos golpistas. O Brasil, portanto, reescreve a sua história.

Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão (in memoriam) e Wilson S. J. Magalhães.

Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordan Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e Wilson Fadul Filho. Conselheiros Suplentes 2013-2016 Antônio Calegari, Aluízio Maranhão, Carlos de Sá Bezerra, Daniel Mazola, Gilson Monteiro, Ilma Martins da Silva, José Cristino Costa, Luiz Carlos Azêdo, Manoel Pacheco, Marceu Vieira, Miro Lopes, Moacyr Lacerda, Paulo Gomes Netto, Vilson Romero e Yacy Nunes. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Alberto Marques Rodrigues, José Pereira da Silva, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Marcus Antônio Mendes de Miranda e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Daniel Mazola; Alcyr Cavalcanti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Carlos de Sá Bezerra, Carlos João Di Paola, Ernesto Vianna,Geraldo Pereira dos Santos, Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Milton Temer, Miro Lopes, Modesto da Silveira, Vilson Romero, Vitor Iório e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. Assistente: Rosani Abou Adal REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor), Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

JORNAL DA ABI • DEZEMBRO DENÃO 2013ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008. O 396 JORNAL DA ABI


MEMÓRIA

Os monstros da memória POR RODOLFO KONDER

ELIANE SOARES

A

nos atrás, um terremoto desfigurou a Cidade do México, derrubando seus prédios e expondo suas entranhas. Equipes internacionais de salvamento e jornalistas do mundo inteiro descobriram então, entre os escombros, provas de que a tortura era prática habitual nas prisões mexicanas. As autoridades perderam a face e a palavra oficial ficou totalmente desmoralizada. A exposição Instrumentos de Tortura da Inquisição Européia atraiu quase 50 mil visitantes por mês à Cidade do México. No antigo Palácio da Inquisição, eles viram 85 instrumentos de execução, humilhação e tortura – e relembraram um prolongado convívio com essa prática hedionda, que vem da Europa, das brumas do século 13, quando o papa Gregório IX deu à Igreja poderes para prender e torturar os hereges. Com o tempo, a Inquisição estendeu o manto do terror sobre parte daquele continente, numa ofensiva que chegou ao ápice em 1478, com a criação do Tribunal do Santo Ofício, na Espanha de Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Com os conquistadores espanhóis que chegaram ao México, sob o comando de Hernán Cortez, e ao Peru, liderados por Francisco Pizarro, vieram também os inquisidores – e a tortura. À violência e aos sacrifícios humanos dos povos pré-colombianos somou-se a ferocidade dos europeus. A partir daí, no rio da nossa loucura americana, as águas sempre estiveram avermelhadas – e carregaram para o mundo subterrâneo milhares e milhares de corpos feridos e mutilados pelos torturadores de ontem e de hoje. Nas décadas dos 1960 e 1970, ditaduras militares praticamente oficializaram a tortura em diversos países do continente. Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru e Brasil viveram a sua inquisição – períodos de autoritarismo e repressão. Em 1995, neste início antecipado do século 21, as ditaduras já saíram pela porta dos fundos, em marcha batida, mas ficaram as cicatrizes, as sequelas, os pesadelos. A memória. Os monstros da memória e do esquecimento. No Brasil, todos sabíamos da existência de um Mundo das trevas. Todos conhecíamos os nomes

daqueles que desapareceram no Império das sombras. Então, o Ministro Nelson Jobim e seu fiel escudeiro, José Gregori, decidiram descer ao reino de Hades, para resgatar as almas perdidas e decifrar os mistérios do nosso inconsciente. Eles enfrentaram as três Gôrgonas da política brasileira: a direita truculenta, a esquerda sectária e o corporativismo. Disciplinados seguidores de Perseu, o herói imbatível, Nelson e José se desviaram do olhar dos monstros, para não serem petrificados, e carregaram consigo a cabeça coberta da Medusa decapitada. Na entrada do Mundo subterrâneo, depararam-se com Cérbero, o cão de três cabeças, que logo começou a uivar, porque não admitia a passagem de seres vivos pelo portão que guardava. Eles foram imediatamente agarrados pelos demônios das profundezas e levados à presença de Hades, que reina sobre os mortos. Não se intimidaram, explicando ao intrigado

deus a natureza da sua difícil missão: identificar e libertar os desaparecidos. O projeto de lei que o governo enviou ao Congresso é um ousado – mas justo e necessário – reencontro. A Nação se redescobre na proposta do Executivo. Os brasileiros perdidos nos labirintos de um passado sombrio ressurgem finalmente das areias das praias e dos cemitérios clandestinos. Eles retornam dos porões de um incômodo esquecimento, para nos acompanhar na grande aventura da reconstrução da democracia. Sem ódios, sem ressentimentos, sem ideologias, o Ministro da Justiça e o seu Chefe de Gabinete foram ao Mundo Subterrâneo, de onde trouxeram de volta os desaparecidos. Dentro da lei e da ordem, eles permitem que a Nação agora se veja, por inteiro, nos espelhos da História. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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ACONTECEU NA ABI

CARTAS DOS LEITORES “NÃO HÁ MAIS PESSOAS COMO ELE”

22 de novembro: Dia histórico para a Crônica Esportiva P OR L ÓRIS B AENA C UNHA

O dia 22 de novembro ficará marcado para sempre na crônica esportiva brasileira como data da criação da ACEB – Associação de Cronistas Esportivos do Brasil, acontecimento realizado no Rio de Janeiro, na sede da ABI, por uma plêiade de notáveis jornalistas da imprensa. Foi um dia alegre e festivo para os fundadores e convidados que compareceram no auditório Belisário de Souza, no 7º andar da tradicional entidade nacional. Para abrilhantar mais ainda as festividades, dando seu apoio irrestrito, esteve presente o Presidente da ABI, jornalista Fichel Davit Chargel, que fez questão de desejar para a associação que iria nascer dentro de instantes uma existência vitoriosa, mesmo porque seus fundadores eram jornalistas respeitáveis em todas as cidades esportivas do País. Ao meio-dia, horário marcado para a abertura da reunião, Eraldo Leite, da Rádio Globo do Rio de Janeiro, como anfitrião, falou aos presentes sobre o porquê da necessidade da criação de uma sociedade para unir toda a crônica esportiva do Brasil, e que esse movimento vinha desde o início do ano em curso, através de e-mails e outras formas de correspon-

dências. Em seguida, pediu aos presentes que elegessem o Presidente e o Secretário para a direção dos trabalhos, sendo eleitos por unanimidade os jornalistas Luiz Ademar, Presidente da Associação de Cronistas Esportivos de São Paulo, e Lóris Baena Cunha, Presidente do Conselho Superior da Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro, os quais tomaram as suas funções, convidando imediatamente para a mesa dos trabalhos o advogado em assuntos esportivos, dr. Marcus Donnati, para dirimir qualquer assunto que se fizesse necessário. Abrindo a reunião, o Presidente colocou em votação a aprovação ou não do estatuto social, e o mesmo foi aprovado por aclamação. Em seguida, solicitou que indicassem nomes para a formação da diretoria e demais poderes da ACEB, tendo sido escolhidos jornalistas do Amazonas, Bahia, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima e São Paulo, cuja relação nominal apresentada foi a seguinte: Eraldo Leite, Márcio Martins Barbosa, Isaias Bessa, Luiz Ademar, Lóris Baena Cunha, Paulo Roberto Pereira, Liszt Coutinho Madrugas, Erick Castelhero, Eduardo Gabardo, Luiz Carlos Cruz, Paulo Nogueira da Silva, Volner Alonso, Antonio Assis, Waldir Luiz Machado, Ser-

Grande Ucha! Obrigado pela citação, mas no meu caso você exagerou. Quanto ao Maurício, é aquilo mesmo do editorial, o fim de uma época. Não há mais pessoas como ele. Penso que o Maurício, exímio escritor, jamais se dedicou a um projeto pessoal. Toda a sua individualidade se dissolveu no coletivo. Ele como que se esqueceu de si próprio. Mesmo enquanto jornalista, repórter, pauteiro, editor, sempre foi um político. Se consagrou de corpo e alma ao PCB e depois à ABI. E que figura! Que alma! Bom, você sabe disso. Parabéns pelo belo jornal. Você está cercado por um grande time (tipo o Flamengo), mas assim mesmo me coloco à sua disposição se precisar de alguma coisa. Carlos Jurandir, jornalista

gio Menezes du Bacage, Haroldo Mendes dos Santos, Jorge Luiz Rodrigues, Eduardo Cavalcanti Monteiro, Walfran Valentim Bezerra e Luiz Carlos Gomes, os quais irão dirigir a entidade até março de 2016. Todos foram eleitos por aclamação e empossados a seguir. Para encerrar os trabalhos, Eraldo Leite, que preside a ACERJ – Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro, agora eleito também para presidir a ACEB, em breves palavras agradeceu a confiança nele depositada e prometeu lutar por todos os cronistas em suas missões profissionais, exigindo sempre quando necessário a garantia de condições condignas de trabalhos e de respeito por parte das autoridades desportivas do País, com as quais irá ampliar ainda mais suas relações. Eraldo prometeu deixar marcada em sua administração uma herança para seus companheiros e gerações vindouras, que saberão agradecer por tudo de bom e notável que irão encontrar, enchendo de orgulho e exemplos todos aqueles que virão um dia substituí-lo. Após o encerramento, jornalistas e convidados dirigiram-se para a churrascaria Estrela do Sul, em Botafogo, na qual foi servido um almoço comemorativo ao histórico evento.

Chargel substitui Maurício Azêdo

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ANDREMOREAU/ABI

Nos termos do artigo 19, letra b, do Estatuto da Associação Brasileira de Imprensa-ABI, associados quites com suas obrigações estatutárias reuniram-se em Assembléia-Geral Extraordinária, no edifício-sede da entidade (Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro, Rio de Janeiro) no dia 3 de dezembro, às 10h, para deliberar, nos termos dos artigos 21, III e 41, I, do Estatuto da ABI, acerca do preenchimento do cargo de DiretorPresidente, em razão da vacância pela morte do Diretor-Presidente Maurício Azêdo, em 25 de outubro último. A Assembléia-Geral Extraordinária foi feita pelo jornalista Fichel Davit Chargel, no exercício interino da Presidência da Associação, que apresentou a indicação do Conselheiro Marcos Miranda para presidir a Assembléia Geral, cuja mesa foi completada pelos jornalistas Moacir Lacerda, como 1º secretário, e Nilo Braga, que atuou como 2º secretário. Em observância ao Estatuto da Casa, o jornalista Pery Cotta, que

preside o Conselho Deliberativo, defendeu que a Assembléia Geral Extraordinária referendasse a indicação de Fichel Davit Chargel para o cargo de Presidente da ABI, até o término do mandato que pertencia a Maurício Azêdo. Por aclamação, a proposta de Pery Cotta foi aprovada.

Diversos associados se pronunciaram para aplaudir a decisão, entre os quais Henrique de Sá Miranda, Beth Hernanny, Daniel Mazola e Mário Augusto Jakobskind. Em seu discurso, Fichel Davit Chargel agradeceu o apoio e a confiança dos membros da ABI para a condução do cargo.

Oi Ucha, Recebi o Jornal da ABI com a homenagem ao meu pai. Confesso que ainda não tive forças para ler tudo pois ainda estou muito fragilizada com a perda. Meu pai era muito bom e carinhoso com a gente, e está fazendo uma falta enorme. No entanto, já gostaria de vir aqui agradecê-lo por essa homenagem tão linda, e principalmente pelo carinho e pela competência que você vem mostrando no decorrer desses anos de trabalho ao lado dele. Sem dúvida guardarei esse jornal como um pequeno tesouro. Terei muito orgulho em mostrar um dia aos meus filhos o grande homem que foi Maurício Azêdo Muito obrigada! Maria Ilka Azêdo Meu caro Ucha. Vi, nos links, a última edição, com o encarte especial sobre o Maurício. Resultado primoroso, à altura do saudoso companheiro e amigo. Parabenizo-o. Antonio Calegari, jornalista


SAUDADES

Um aceno, uma lembrança FRANCISCO UCHA

M ARCO C ARDONA

É lamentável a morte de Maurício Azêdo, um jornalista que sempre lutou, e muito, pela causa da democracia em nosso País. Assim como muitos outros, foi perseguido, preso e torturado pela ditadura. Não éramos amigos muito chegados, pois pertencíamos a gerações diferentes – 14 anos nos separavam, ele nascido em 1934, eu em 1948. Na verdade, Azêdo era amigo de meu irmão mais velho, Ismar Cardona, falecido há uns quatro anos, jornalista que militou por muitos anos na imprensa carioca, com passagens, entre outros, pelo Diário Carioca e jornal O Globo, onde foi editor de Economia por longo tempo. Desde os 22 anos, sempre atuei, e ainda atuo como jornalista, sou de uma família de jornalistas – minha falecida mulher, Neusa Miranda, ex-sucursal Rio da Folha de S.Paulo por anos a fio, também era jornalista. Nunca saí com o Maurício, nunca fomos juntos a um boteco, nunca falamos sobre política, pouco freqüentei a sede da ABI. Na verdade, nos víamos muito pouco mesmo. Mas, quando nos encontrávamos, sempre fui tratado por ele com extrema atenção. Azêdo me fazia muita festa, agia como se fosse meu pai, me dedicava tempo, alisava a minha cabeça e me chamava carinhosamente de “Cardoninha”. E havia um motivo muito forte para isso. Um motivo que, assim como eu, acredito que ele também jamais tenha esquecido, pois o tempo pode correr que certas coisas a gente jamais esquece. O ano era 1975/1976, por aí, não lembro ao certo, pois lá se vão uns 38 anos. Eu tinha 27/28 anos, era repórter de O Globo, numa de minhas passagens pela empresa do Roberto Marinho. Trabalhava na Editoria Geral, hoje denominada Editoria de Cidade e, na época, fazia todo tipo de matéria, menos Esporte e Economia. Na sede da Irineu Marinho, a Redação era enorme, todo mundo junto num salão imenso – somente a editoria de Economia funcionava em outro andar. O Editor da Geral era o Iran Frejat, e no copy tinha o hoje autor de novelas Aguinaldo Silva, um dos textos mais brilhantes que já conheci. Na época, nossas matérias tinham que passar pelo copy, e a gente fazia fila para poder “cair nas mãos” do Aguinaldo. Ele era o único copy que não podava o texto original, melhorava, isso sim. O Chefe de Reportagem era o pernambucano Anderson Campos (nunca mais soube dele), mais ou menos da mesma idade do Azêdo. Eram muito amigos, quase irmãos, ambos “comunistas”. O Diretor de Redação era o Evandro Carlos de Andrade e o Henrique Caban era o “gerentão” da Redação. Tinha também o Alexandre Garcia e o José Augusto Ribeiro, espécie de chefes também. Entre os co-

“Eu estava no terceiro andar do prédio antigo, onde funcionava o Dops. Estava circulando atrás de matérias que sempre eram negadas. Ao passar no corredor, dei de cara com o Maurício Azêdo, que estava preso e tomando banho de sol. Ele me olhou. E é claro que falei com ele.”

legas de reportagem, lá estavam o Merval Pereira, Carlos Jurandir, Marcelo Pontes, Marcelo Beraba, Tim Lopes, Albeniza Ribeiro (grande repórter policial), Riomar Trindade, Beliza Ribeiro, Domingos Meirelles e muitos outros que ainda estão por aí. Havia, na época, um “pescoção” nas edições de domingo – várias páginas com reportagens especiais. Voltando ao Maurício Azêdo. O Globo queria fazer uma série de reportagens especiais na área de Segurança Pública e sei lá por qual motivo me destacaram para acompanhar a Secretaria de Segurança, que funcionava no prédio da Gomes Freire – o antigo e o novo anexo. Um novo secretário tinha assumido, acho que um general do Exército. Ele queria cobertura, iria facilitar as coisas, abrir portas. Eu me neguei a fazer o trabalho, alegando vários motivos, entre os quais que meu próprio irmão estava indo lá prestar depoimento, junto com vários outros jornalistas, inclusive do próprio jornal. Me disseram que eu tinha que ir, caso contrário seria demitido. Como não podia ficar desempregado por causa dos filhos, mesmo contrariado, acabei aceitando. No primeiro encontro que tive com o tal Secretário-general, quando me apresentei como repórter de O Globo, ele me disse em voz alta: “aqui você só deve satisfação a uma pessoa, que sou eu, a ninguém mais. Se você tiver qualquer problema, fale comigo. Vou ajudar a abrir portas, fazer boas matérias, mas quero saber quais serão elas antes que sejam publicadas”. De volta ao jornal, logo no primeiro dia, tentei saltar fora, pedi que mandassem outro em meu lugar, mas sem sucesso, veio novamente a

Falta foto

ameaça de demissão. Fiquei alguns dias por lá, e todas as minhas pautas foram “recusadas” pelo tal Secretário de Segurança. Eu reclamava no jornal, mas não tinha jeito, diziam que eu tinha que permanecer insistindo na cobertura. Dias depois, não sei precisar exatamente quantos, eu estava no terceiro andar do prédio antigo, onde funcionava o Dops. Estava circulando atrás de matérias que sempre eram negadas. Ao passar no corredor, dei de cara com o Maurício Azêdo, que estava preso e tomando banho de sol. Ele me olhou. E é claro que falei com ele, acenei e falei, com uma tela nos separando. Deu uma confusão tremenda. Fui imediatamente cercado por vários agentes armados que queriam saber quem eu era para estar falando com um preso político. O Azêdo, acho que assustado, presenciou todo o ocorrido. Me pediram documentos e eu lembrei do que me dissera o tal general Secretário de Segurança – que só devia satisfações a ele. Na mesma hora, cercado por homens armados, e separado do Azêdo por uma grossa tela, pedi documentos a eles, disse que queria saber quem eram antes de mostrar os meus documentos. Não que eu tenha calculado agir assim, apenas agi, por instinto, pois estava muito contrariado naquele lugar. Exibindo metralhadoras, eles me mostraram os documentos, mas eu respondi a eles que só mostraria os meus para o general. Fui então conduzido a ele e me saí bem: “o senhor não disse que aqui dentro eu só devia satisfações ao senhor?”. Contei pra ele que conhecia o Maurício Azêdo e que jamais deixaria de falar com ele, em qualquer circunstância. Foi o meu último dia por lá, graças a Deus!

De volta ao jornal, contei sobre o ocorrido e falei para os chefes que jamais voltaria naquele lugar. Lá veio a história de demissão novamente, e eu respondi que tudo bem, que podiam me demitir, que não voltaria e que se houvesse outra ocasião semelhante, iria falar com o Azêdo, com o meu irmão e com qualquer outro jornalista que conhecesse. Foi aí que tudo “abortou”, graças, acho, ao Anderson Campos, amigão do Azêdo, que me abraçou e disse pra todos ouvirem: “bonita atitude garoto, se você for demitido por isso, que se dane o emprego, eu saio junto também”. A solução encontrada para me tirarem da cobertura daquele setor foi me mandar ficar uns dias de folga, mas proibido de colocar os pés pra fora de casa. Iriam dizer ao tal general que eu estava doente e que seria substituído. E foi o que fizeram, fiquei de molho em casa... Não lembro quem mandaram no meu lugar. Tempos depois reencontrei o Maurício Azêdo na rua e ele me recebeu com festa e todo sorridente: “Que coragem, hein Cardoninha? Não consigo esquecer a cara que fizeram quando você pediu documentos a eles”. Nunca mais eu e Azêdo falamos sobre isso, e também não saí espalhando por aí esses bastidores da ditadura. Mas tenho guardado na memória tal acontecimento e nem sei direito por qual motivo resolvi contar isso agora, no momento da morte do Maurício. Talvez para homenageá-lo, resgatando um acontecimento que de uma forma ou de outra faz parte da história de nosso País. E que, se não fossem essas linhas, certamente iria morrer com o Azêdo. E comigo mesmo. MARCO CARDONA é jornalista.

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GUILHERME GONÇALVES/ABL

CONSAGRAÇÃO

Fez-se justiça ao mais novo imortal Em sua terceira candidatura, o escritor Antônio Torres ingressa na ABL, passando a ocupar a cadeira que já pertenceu a nomes como Machado de Assis, Jorge Amado e Luiz Paulo Horta. P OR C LÁUDIA S OUZA

O romancista baiano Antônio Torres, 73 anos, foi eleito na tarde do dia 7 de novembro para ocupar a cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Letras-ABL, que pertenceu a Machado de Assis, fundador da instituição e primeiro Presidente da Casa. Depois de Machado, o assento, que tem como patrono José de Alencar, foi ocupado por Lafayette Rodrigues Pereira, Alfredo Pujol, Otávio Mangabeira, Jorge Amado e Zélia Gattai. O novo acadêmico assume a vaga deixada pelo jornalista e pesquisador musical Luiz Paulo Horta, morto em 3 de agosto último. Torres foi eleito com 34 dos 39 votos possíveis, dos quais dois foram em branco. A eleição contou com a presença de 20 imortais, em sessão comandada pela atual Presidente Ana Maria Machado. Dezesseis membros votaram por carta e três se abstiveram. Primeiro romancista eleito pela instituição em dez anos, Antônio Torres, que disputou a vaga pela terceira vez, venceu os candidatos Blasco Peres Rêgo, Eloi Angelos Ghio, José William Vavruk, Felisbelo da Silva e Wilson Roberto de Carvalho de Almeida. “Fizeram sorrir uma velha criança! Sinto-me feliz por sentar na cadeira que foi de Jorge Amado, um dos escritores que mais me apoiaram no começo da carreira, e também de Machado de Assis, de quem sempre fui leitor. Estou em estado de graça, isso é resultado de uma longa estrada”, disse o escritor logo após o anúncio do resultado. Nascido no município de Sátiro Dias, no interior da Bahia, em 13 de setembro de 1940, Antônio Torres iniciou a carreira como repórter do extinto Jornal da Bahia, em 14

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Salvador. Aos 20 anos, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou no jornal Última Hora, e na área de publicidade. Anos depois, radicou-se no Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro romance – Um Cão Uivando Para a Lua – aos 32 anos. Em 1976, lançou o livro considerado sua obraprima: Essa Terra, história com elementos autobiográficos sobre a imigração nordestina para o Sul e Sudeste, que integra a trilogia completada por O Cachorro e o Lobo (1997) e Pelo Fundo da Agulha (2006), um dos vencedores do Prêmio Jabuti 2007. No mesmo ano, publicou o livro de contos Minu, o Gato Azul, e Sobre Pessoas, que reúne crônicas, perfis e memórias. Suas obras foram traduzidas para a Argentina, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra e Israel. O romance Essa Terra está em vias de tradução na Bulgária, Albânia e Vietnã. Em 1998, o escritor foi condecorado pelo governo francês como ‘Chevalier des Arts et des Lettres’, distinção dada a pessoas que contribuem para o desenvolvimento das artes e das letras na França e no mundo. Em 2000, recebeu da ABL o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte, foi agraciado com o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, durante a 9ª Jornada Nacional de Literatura, da Universidade de Passo Fundo (RS), pelo romance Meu Querido Canibal. No período de 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), período no qual ministrou oficinas literárias, aulas inaugurais e palestras. A respeito de sua vida e obra, bem como sobre sua eleição para a ABL, Antônio Torres falou especialmente para o Jornal da ABI.

“O jornalismo me ensinou a ver o mundo” P OR P AULO C HICO

Jornal da ABI – Poucas vezes na história uma sucessão na ABL ocorreu com margem tão significativa de votos. Como é, hoje, ocupar a cadeira 23, que tem como patrono José de Alencar e até então estava com Luiz Paulo Horta? Antônio Torres – É uma responsabilidade imensa ocupar essa cadeira, sem dúvidas. Ela tem, para mim, um duplo peso: histórico e afetivo – neste caso, porque teve três ocupantes que fizeram parte dos meus afetos: Jorge Amado, Zélia Gattai e Luiz Paulo Horta. A primeira eleição que disputei na ABL foi vencida justamente pelo Horta. E ficamos amigos. Além de um

pensador muito admirado, ele era uma figura humana extraordinária. Jornal da ABI – Em 2011, o sr. disputou novamente uma vaga na ABL, sendo na ocasião derrotado pelo jornalista Merval Pereira – resultado que gerou muitas críticas nos meios literário e acadêmico. Como avaliou aquele processo na época, e como o avalia hoje? Antônio Torres – Perdi também daquela vez, contabilizando duas derrotas, e ganhei agora, com o voto de Merval Pereira, inclusive. A vida é assim. Perde-se hoje, ganha-se amanhã. Bola pra frente. E para mim, naquela ocasião, o resultado não foi surpresa. Quando fiz minha inscrição, percebi que a candidatura do Merval já


LIBERDADE DE IMPRENSA

A batalha pelo diploma continua Meninos, Eu Conto, o mais recente lançamento e Carta ao Bispo, romance pelo qual tem especial afeto.

estava bem pavimentada. Assim mesmo me mantive na disputa, que transcorreu com muita elegância. E que fique bem claro: o meu apreço pela ABL nunca dependeu dos resultados nos pleitos de que participei. Não se esqueça que a instituição já me agraciou com o seu maior prêmio, o Machado de Assis, para o conjunto da obra. A eleição de 2011 me reaproximou da Casa, cuja agenda cultural sempre me interessou. Assim como também me aproximou do próprio Merval Pereira, que é uma pessoa de fino trato. A ABL, pelo seu peso institucional e a relevância de seus eventos, tem presença garantida na mídia, constantemente. E, por definição, ela tem o direito de eleger sempre quem achar melhor. Jornal da ABI – O que representa para um escritor já consagrado e premiado o ingresso na Academia Brasileira de Letras? De verdade, o que muda? Antônio Torres – A ABL representa uma consagração para qualquer escritor. E o que muda com a minha entrada nela? É que passarei a viver regularmente num ambiente letrado, participando intensamente de uma agenda de atividades culturais que sempre me interessou. Tão importante quanto isso é poder conviver com intelectuais que admiro, trabalhar com eles, aprender com eles... E me divertir com eles também, ora.

Jornal da ABI – Nascido no sertão da Bahia, sonhava em alçar vôos como escritor desde criança? Qual fator considera ter sido fundamental para obter tamanho êxito neste projeto? Antônio Torres – Venho de um mundo rural e ágrafo. A descoberta da palavra escrita, na escola da minha infância, foi a minha maior conquista. Nela se lia Castro Alves, José de Alencar, Machado de Assis e Olavo Bilac em voz alta. Fazíamos exercícios de Redação diariamente. Foi lá que o escritor que vos fala começou a se formar. E o fator fundamental para a realização do projeto foi a persistência

Jornal da ABI – O sr. foi repórter no Jornal da Bahia, e atuou como jornalista também em São Paulo e Portugal. Poderia falar um pouco dessas experiências? Que lugar o jornalismo ocupa ou ocupou em suas atividades? Ele complementou ou foi conflitante em relação à carreira de escritor? Antônio Torres – Em São Paulo, por causa das matérias que assinava no jornal Última Hora, fui convidado a trabalhar em publicidade, para onde outros colegas da Redação, como José Carlos Stabel, José Fontoura da Costa e o Benedito Ruy Barbosa já haviam migrado. Essas duas atividades foram uma espécie de campo de treinamento para chegar à literatura. Costumo dizer o seguinte: o jornalismo me ensinou a ver o mundo. E a publicidade a contar isso rapidinho. Jornal da ABI – A opção por residir em Itaipava, região serrana do Rio, também faz parte de uma escolha profissional? A tranquilidade, e até certa reclusão, fazem-se necessárias para o desempenho de um escritor? Antônio Torres – Itaipava não deixa de ser um bairro afastado do Rio, mas fora da sua linha de tiro. Viemos para cá, Sonia e eu, fugindo do barulho de Copacabana – um barulho que em outros tempos chegou a ser um combustível para o meu texto, mas que, com o passar dos dias, começou a saturar. Aqui na Serra há mais tranquilidade para se viver e escrever, sim, só que com a mudança, as solicitações para participar de eventos pelo País afora não diminuiu. Ao contrário, aumentou. O que significa que nem sempre tenho tirado proveito das vantagens daqui. É aquela história: o mundo perfeito não existe... Jornal da ABI – Nutre afeto especial por algum de seus livros? Por qual motivo? Antônio Torres – Tenho um afeto especial pelo romance Carta ao Bispo, que foi muito bem recebido pela crítica, mas é menos lido do que os outros. Talvez por ter levado muito tempo para pegar a embocadura dele, até achar uma primeira frase que levou ao resto. Esta primeira frase: “Agora ele está só”. No embalo, veio o seguinte: “Tão desgraçadamente só quanto no dia em que nasceu. Mas agora ele dispensa a parteira e não precisa mais berrar ao mundo que está só”. Escrevi isso, recortei e colei... na memória. Cultivo uma questão de apreço pelo ritmo desse começo.

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados aprovou, no dia 12 de novembro, a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 206/ 12, do Senado, que torna obrigatória a exigência de diploma de curso superior para o exercício da profissão de jornalista. Em junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) havia derrubado a necessidade de diploma para jornalistas. O texto, entretanto, dispensa o diploma para o colaborador – aquele que, sem relação de emprego, produz trabalho de natureza técnica, científica ou cultural, relacionado à sua especialização. Além disso, conforme a proposta, o diploma não é exigido para quem comprovar o efetivo exercício do ofício de jornalista antes da data da promulgação da futura emenda. O mesmo vale para o jornalista provisionado que já tenha obtido registro profissional. O relator na CCJC, Deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), defendeu a admissibilidade do texto. Apesar de não ter de examinar o mérito da matéria, ele argumentou que a exigência do diploma não vislumbra ofensa às liberdades de pensamento, de expressão ou de comunicação, previstas na Constituição. A PEC 206/12 será analisada agora por uma comissão especial. Se aprovada, seguirá para o Plenário, onde terá que ser votada em dois turnos. Também tramita na Câmara a PEC 386/09, do Deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que

restabelece a necessidade de curso superior específico para jornalista. Essa proposta foi aprovada por comissão especial em julho de 2010 e, desde então, aguarda inclusão na pauta do Plenário. Urgência Antes de iniciar a sessão da CCJ, o deputado Esperidião Amin (PP/SC) solicitou novamente a inversão da pauta, o que viabilizou a inclusão da PEC do Diploma como quarto ponto de discussão. Por volta das 15h30, após a leitura do relatório de vistas do Deputado Sérgio Zveiter (PP/RJ) e de algumas inscrições para debate, o Presidente da CCJC, Décio Lima (PT/SC) procedeu a votação. Mais tarde, no plenário da Câmara, Lima registrou a aprovação da PEC na Comissão e pediu urgência na instalação de Comissão Especial para analisar o mérito e na tramitação final da matéria. “Após a tramitação vitoriosa no Senado e esta votação na Comissão de Justiça, está claro que o Congresso Nacional está em sintonia com a sociedade e os jornalistas, que não aprovaram a decisão equivocada do STF em 2009”, disse o presidente da Fenaj, Celso Schröder, que adiantou que dirigentes da Federação e dos Sindicatos de Jornalistas buscarão contatos com a Mesa Diretora da Câmara e com a Frente Parlamentar em Defesa do Diploma para agilizar a votação. “Os jornalistas já esperaram quatro anos para reaverem um direito legítimo, é tempo demais. Vamos ampliar o movimento pela urgente aprovação da PEC no plenário”, ressaltou Schröder. ANTONIOCRUZ/ABR

Jornal da ABI – Em que acredita que poderá contribuir para a Casa de Machado de Assis? Como foi a recepção por parte dos colegas acadêmicos? Antônio Torres – Ainda é cedo para dizer em que poderei contribuir. Espero vir a ter alguma contribuição a oferecer. Quanto à recepção por parte dos acadêmicos foi, e continua sendo, calorosa. É um momento muito feliz da minha vida!

em palmilhar a longa estrada em busca de um texto.

P OR C LÁUDIA S OUZA

Celso Schröder: “Os jornalistas já esperaram quatro anos para reaverem um direito legítimo.”

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ARY BRAND

DEPOIMENTO

de Direito onde, inclusive, reencontrei vários colegas de colégio, como Amir Haddad, outro grande diretor de teatro, e o agente e produtor Sérgio Dantino. Sergio, Amir, Flavio, eu e outros colegas montamos na São Francisco a peça O Noviço, de Martins Pena.

O jornalista e produtor cultural junto com os Secos & Molhados.

O jornalista que lançou os Secos & Molhados há 40 anos fala de sua carreira eclética e dos bastidores do grupo: “Uma história maravilhosa que acabou cedo por burrice.” P OR C ELSO S ABADIN

Entrevistar o jornalista e produtor cultural Moracy do Val não é tarefa das mais fáceis. Ao contar suas histórias, ele se agita, levanta, sai em busca de materiais históricos que lhe sirvam de apoio, remexe em fotografias, anotações, livros. Tudo com uma invejável energia juvenil e uma contagiante alegria de viver. Tem grande facilidade para lembrar nomes de antigos amigos e colegas, que são muitos, e não esconde o brilho dos olhos quando fala da agitação cultural da noite paulistana nos anos 1960 e 1970. Como repórter e colunista especializado em cultura e variedades, compartilhou amizades e mesas de bares com grandes nomes da música, do cinema e do teatro brasileiros. Como produtor, empresariou e administrou várias carreiras de sucesso, com destaque para o grupo Secos & Molhados, que praticamente descobriu. E, como jornalista, atuou em jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. Só falta a internet... Por enquanto.

Jornal da ABI – O que começou primeiro em sua carreira, o jornalismo ou a produção cultural? Moracy do Val – Bom, acho que veio tudo junto. Eu estudava Direito na Faculdade do Largo São Francisco e na minha turma estava o pessoal do Teatro Oficina, José Celso Martinez Correa, Plínio Pimenta – primo do jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves, que mais tarde se envolveu naquele triste episódio de assassinato – e vários outros. Eles tinham vindo de Araraquara e eram, por incrível que pareça, Integralistas. Eu não era Integralista; eu era de esquerda. Jornal da ABI – Você não era da turma de Araraquara? Moracy do Val – Não, eu nasci em São Paulo, capital, em 1937. Meus avós maternos moravam na capital e meus pais moravam em Pindora-

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ma, cidade onde também nasceram outras pessoas maravilhosas... Não que eu seja maravilhoso (risos)... Como Marilena Chauí e Raduan Nassar. Acho que a minha paixão pelo cinema nasceu no Cine Rio Branco, ainda em Pindorama, onde cresci. Eu ficava cortando e colando pedaços de celulóide na sala de projeção, ajudando o projecionista. Jornal da ABI – Igual a Cinema Paradiso? Moracy do Val – Exatamente. Era incrível! O dono do cinema, assim como meu pai, era maçom, e nós éramos todos amigos, formávamos uma comunidade muito pequena onde todo mundo se conhecia. Foi neste cinema que eu vi filmes que me marcaram muito, desde seriados de aventuras, como Os Perigos de Nyoka e Império Submarino, até clássicos como Tambo-

res Distantes e um filme que me marcou muito, que foi Casei-me com uma Feiticeira, com Veronica Lake. Vi muitos, muitos filmes que me deram uma paixão grande por cinema. São filmes que a gente nunca mais esquece. Jornal da ABI – Quando você decidiu sair de Pindorama para vir a São Paulo? Moracy do Val – Quando eu fiz 14 anos, eu e um colega, Munir Hagi, deixamos a cidade para estudar em São Paulo. Com a cara e a coragem, sem os pais, que ficaram em Pindorama, Entrei no Roosevelt, que era um dos bons colégios da cidade. Lá fiz bons amigos, como Flávio Rangel, que também tinha vindo do interior, de Novo Horizonte. Sujeito muito culto, que veio a se tornar um dos maiores diretores de teatro do Brasil. Depois voltamos a nos encontrar na Faculdade

Jornal da ABI – Quando entrou no Largo São Francisco você já imaginava que iria seguir carreira artística ou pretendia mesmo ser advogado? Moracy do Val – A carreira artística foi um caminho natural. Eu podia ter feito Letras, também. Mas o Direito é ótimo porque são coisas que você aprende para a vida toda. E a Faculdade de Direito do Largo São Francisco era assim mesmo, formou muito poeta, muito cineasta. Nelson Pereira dos Santos, por exemplo; Modesto Carone Neto, que fez Direito e fez Filosofia também, um sujeito inteligentíssimo que sabia alemão perfeitamente e traduziu as obras completas de Kafka. Na São Francisco tinha muitos poetas, e foi minha turma que fundou, mais ou menos em 1962 ou 1963, o Grupo de Teatro Oficina. Nós montamos duas peças: Vento Forte para um Papagaio Subir, do Zé Celso, e A Ponte, do Carlos Queirós Telles. O Amir Haddad dirigiu e eu fui um dos intérpretes. Eu fazia um padre franciscano, imagina! (risos). Depois, deixei o grupo, porque eu passei a me dedicar cada vez mais ao Jornalismo, e não dava mais para fazer as peças. Quem me levou para o Jornalismo, para a Última Hora, foi o Marco Antonio Rocha, do Estadão. Eu ainda era estudante de Direito, no final do curso, e já fui direto trabalhar no jornal. Comecei cobrindo o movimento estudantil, estas causas bem de esquerda que a Última Hora sempre abraçou. Cobri muito movimento secundarista também, que era forte. Aquela época estava fervendo, tinha os congressos da Une, UEE, Uesp. Foi uma fase boa! Jornal da ABI – Quem eram os seus colegas, na época? Moracy do Val – Bom, a Última Hora sempre formou grandes jornalistas. Tinha o cartunista Otávio, que fez uma charge com a Nossa Senhora negra que deu a maior confusão; Sílvio de Nardi; Renato Lombardi, um grande repórter policial até hoje; o Ziccardi, que foi cônsul; Benedito Ruy Barbosa, que ficou famoso escrevendo novelas para a televisão; David Auerbach, Jorge Aguiar, Arapuã, Pimenta da Veiga, trabalhei com todos eles. Além dos movimentos estudantis, cobria também a Prefeitura, onde peguei as épocas de Ademar de Barros, Prestes Maia e Faria Lima. Mesmo sendo repórter fixo da Última Hora, comecei também a fazer freelancers para outros veículos, como a Rádio Piratininga, Correio Paulista, Diário Popular, etc. E, de repente, eu tinha uns três ou quatro salários, todos pequenos... Aí, um dia, o Fernando de Barros me chamou.

Ele era um jornalista português, produtor de moda, escrevia críticas de cinema para a TV Tupi, fazia um monte de coisas, tinha tantas atividades que me pediu ajuda. Ele pediu que eu passasse a escrever a Show Business, que era uma coluna que ele tinha na Última Hora sobre televisão, teatro, cinema e variedades. E eu comecei a escrever a coluna para ele, primeiro assinando como “interino”, depois como “M.V. interino” e depois com meu nome mesmo. E por causa da coluna passei a freqüentar o ambiente do show business, indo em estréias de peças, convivendo com o pessoal do teatro, da música, um pouco de tudo. E no meio daquele monte de jornalistas experientes no ramo, eu era o moleque besta da turma (risos). Jornal da ABI – Quem eram os experientes? Moracy do Val – Décio de Almeida Prado, do Estadão, que tinha sido meu professor de filosofia no Roosevelt; Sábato Magaldi, também doEstadão, um jornalista maravilhoso; Miroel Silveira,MarcosPacheco,BelmiroGonçalves, só feras. Eles me acolheram superbem! Como eu passei a freqüentar o meio artístico, comecei a escrever também uma coluna de fofocas para a Rádio Bandeirantes. Eu assinava com o pseudônimo de Abdalla e descia o cacete num monte de gente! (risos). Mas ninguém sabia que era eu. Foi nesta época também que os Diários Associados me oferecem uma grana altíssima para eu escrever uma coluna de artes e espetáculos, mas eu recusei. Jornal da ABI – Naquela época, como era o relacionamento da imprensa com os artistas? Moracy do Val – Como jornalista, fiz grandes amizades com o pessoal do meioartístico.CacildaBeckereramuito minha amiga! Maria Della Costa, Sandro Polônio, Sérgio Cardoso, Bibi Ferreira, todos grandes amigos. O caso da Bibi, inclusive, foi muito engraçado. Ela brigou comigo porque na época eu escrevi na coluna que ela estava pensando em fazer uma convenção dos exmaridos dela, de tantos que havia! (risos). Ela ficou muito brava! Um dia eu estava tomando café num barzinho muito simples que tinha em frente ao TBC, na Rua Nestor Pestana, ela apareceu lá e me chamou, reclamando do queeutinhaescrito.Depoisdissoagente ficou muito amigo, porque ela é maravilhosa! Dava festas na casa dela, no bairro do Jabaquara, e abria o que tinha do bom e do melhor pra aquele bando de gente dura da classe teatral Jornal da ABI – Saindo do Última Hora você foi para onde? Moracy do Val – Eu fazia tanta coisa, para tantos veículos ao mesmo tempo, que às vezes é até difícil dizer. Por exemplo, eu escrevia na revista Intervalo uma coluna chamada Por Dentro da TV, isso ainda quando a Abril era em frente à biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade. E uma vez


NICANOR LE TERRY

A cantora italiana Rita Pavone dá um autógrafo apoiando o papel na perna de Moracy, durante entrevista coletiva realizada em São Paulo em 1964.

eu dei um cacete no Manoel de Nóbrega e vieram reclamar que eu não podia falar mal dele, que ele era amigo do pessoal da Abril. “Ah é? Então, estou fora!” E saí da Intervalo. Fiz muita coisa também na TV Record. Uma empresa que comprava horários na Record contratou o grande cantor Agostinho dos Santos para fazer um programa vespertino, e o Agostinho me chamou para dirigi-lo. Eu fazia o programa do Agostinho à tarde e o telejornal Record em Notícias à noite. Jornal da ABI – Quem mais fazia o Record em Notícias naquela época? Moracy do Val – Reale Jr. fazia Política. Você não tem idéia de como ele era um sujeito bacana! Murillo Antunes Alves, Clarice Herzog... Mas a Redação parava mesmo quando chegava o grande craque Leônidas da Silva para falar de futebol. O Leônidas pra mim era tudo! O diretor era Fernando Vieira de Mello, que foi o maior jornalista que eu conheci. Lembro que eu me casei com a Sílvia Porto Alegre em 31 de março de 1964, exatamente no dia da grande rebordosa (risos), e o Fernando foi ao meu casamento. Tinha um monte de jornalista no meu casamento porque o pessoal queria ver se não iam me prender. Jornal da ABI – Mas o golpe militar foi de madrugada? Você se casou horas antes do golpe. Moracy do Val – Mas eles já estavam prendendo gente, já havia esta movimentação e os jornalistas já estavam sabendo do movimento. Jornal da ABI – Como você foi parar no Notícias Populares? Moracy do Val – Foi o próprio Jean Mellé,aqueleromenoquefundouojornal, que me levou pra lá, para que eu escrevesse no Notícias Populares basicamente a mesma coluna de variedades que eu fazia na Última Hora. Eu fui um dos fundadores do NP, junto com o Mellé e o Herbert Levy. E o engraçado é que as pessoas que liam minha coluna na Última Hora passaram a lê-la no NP, mas não gostavam de ler o jornal (risos). Só que o Mellé começou a se meter no texto de todo mundo. Ele começou a fazer uma campanha contra o Roberto Carlos e passou a enfiar notinhas pequenininhas contra ele nas colunasdosoutros,inclusivenaminha. Mas eu deixei quieto, mesmo porque era maravilhoso trabalhar lá. A concorrência do NP com o Diário da Noite era tãoacirradaque,senafotodeumdestes jornais aparecia por acaso o repórter do concorrente, o departamento de arte dava um jeito de retocar a foto, pintava óculos escuros ou barba no sujeito, para ele não aparecer. (risos) Jornal da ABI – Mas mesmo o NP sendo totalmente popular, ele dava espaço para teatro e show business? Moracy do Val – Dava muito espaço! E eu falava de peças sérias, escrevia para o NP da mesma forma como

se eu estivesse escrevendo para o Estadão. Não tinha esta história de nivelar por baixo para acompanhar o público, de jeito nenhum. A minha coluna tinha, por exemplo, uma estréia de teatro ou cinema, um comentário e uma entrevista. Tinha muitos leitores! Você sentia a repercussão. Você sentia que uma peça de teatro acontecia porque saiu na coluna do NP.

mos Copacabana numa temporada no Teatro Tereza Rachel, lotamos o Maracanãzinho, depois o Gigantinho em Porto Alegre! E o engraçado é que o Ney Matogrosso, que fazia artesanato, pulseirinhas, estas coisas, quando estavaemSãoPaulo,continuavafazendo o trabalhinho dele, sentado no chão da Avenida São João, perto dos Correios, vendendo os badulaques. E ninguém o reconhecia, porque no show ele aparecia todo maquiado (risos). Já o João Ricardo ia em todos os lugares, doido pra ser reconhecido, e por causa da maquiagem dos shows ninguém o reconhecia (risos). O João sofria muito com o sucesso do Ney, por isso o grupo não deu certo por mais tempo. E o João é um autor genial... Foi uma pena ter estragado a carreira por causa de ciúmes.

Jornal da ABI – Qual era o nome da sua coluna no NP? Moracy do Val – “Moracy do Val Show”. Jornal da ABI – “Do Val” é seu nome artístico? Moracy do Val – Não, é nome de registro mesmo. Moracy Ribeiro do Val, de origem portuguesa. Jornal da ABI – Em que momento você deixa o jornalismo para ser produtor de shows e teatro? Moracy do Val – Não deixei o jornalismo para ser produtor. Eu sempre toquei tudo paralelamente, e uma coisa ajudava a outra. Eu nunca saí do NP, porexemplo:fiqueiláatéofechamento. Foi o jornal que fechou; não fui eu. Eu continuo aberto (risos), tenho meu crachá de funcionário da Folha até hoje. Sempre produzi shows musicais, desde quando estava na Última Hora. Produziao NoitesdeBossa,noTeatrodeArena,ondelanceiummontedegenteboa: ChicoBuarque,BadenPowell,Paulinho Nogueira, Toquinho. Jornal da ABI – Sem deixar de ser jornalista? Moracy do Val – Claro! Era a minha coluna que alimentava esse movimento da chamada Bossa Paulista. Com a aprovação do Vinicius de Moraes, eu usei aquela frase dele, que dizia que São Paulo era o túmulo do samba, para criar polêmica, para ir contra ele, dizendo que São Paulo também era boa de samba, mas tudo combinado entre a gente. Vinha muita gente boa se apresentar no Noites de Bossa: Tamba Trio, Zimbo Trio, Sambalanço – do César Camargo Mariano, também lançado pela gente –, Theo de Barros, Geraldo Vandré, Manfredo Fest , Pedrinho Mattar... E vinha o pessoal do Rio também, como o Ary Toledo, que estourou com a música Pau de Arara, mais conhecida como “Comedor de Gilette’, que era uma composição que o Carlos Lyra e o Vinicius de Moraes fizeram para o musical Pobre Menina Rica. A noite paulistana fervia naquela época. Jornal da ABI – Como surgiram os Secos & Molhados? Moracy do Val – Na Última Hora eu fiz amizade com o excelente crítico de teatro João Apolinário, que era um daqueles jornalistas portugueses que vieram trabalhar no Brasil, fugindo da ditadura Salazar. Uma noite, por volta das 11 horas, eu estava saindo do Teatro Ruth Escobar, onde

tinha ido ver a peça A Viagem, e encontro o João Ricardo, filho do João Apolinário. E o João Ricardo me convida para dar uma passada no “Café da Badalação & Tédio”, uma espécie de Café Concerto que a Ruth Escobar havia montado, para eu assistir ao show do grupo musical dele, que começaria à meia-noite. Eu fui. E ali conheci o grupo, que já se chamava Secos & Molhados, formado pelo João Ricardo, Gerson Conrad e agora também por um rapaz chamado Ney Matogrosso, que eu tinha acabado de ver, interpretando um português de bigodão, na peça A Viagem. João Ricardo já tinha o grupo com este nome, mas sem o Ney. Quem apresentou o Ney ao João foi a Luli, parceira dele na música O Vira. Então, estavam no palco os três integrantes doSecos&Molhados, acompanhados de grandes músicos como Marcelo Frias, Willy Verdaguer e outros. Bom, quando eu vi o show deles, eu enlouqueci. Imediatamente percebi que aquilo poderia ser um grande sucesso. Eles já tinham uma fita demo que já havia sido recusada pela RCA, pela Odeon e em outras três ou quatro gravadoras. “Eu vou produzir estes caras”, pensei. E a Continental tinha um contrato com a Kinney, um braço da Warner, e estava fazendocontratoscomváriosastrosinternacionais. Levei a fita e a Continental topou. Eles tinham um estúdio de quatro canais no bairro do Paraíso e foi ali que eu produzi o primeiro disco do Secos & Molhados. Jornal da ABI – Aí o disco estourou. Moracy do Val – Não, não é assim... Eu fui atrás para fazer as coisas estourarem (risos). Acho que o meu maior mérito foi simplesmente não ter deixado ninguém atrapalhar a criação do Secos & Molhados, que vieram com as músicas todas

prontinhas. Eu falei: “Ninguém mexe em nada”. Fizemos o disco em apenas 36 horas, apenas quatro dias, num estudiozinho de quatro canais. E qual o problema de fazer em quatro canais? Nenhum. O Chega de Saudade, do João Gilberto, que mudou a história da música brasileira, foi feito num estúdio de dois canais. Mas tinha de fazer todo o trabalho para o grupo estourar. A estratégia foi primeiro, antes de o disco sair, fazer vários shows no Teatro Aquarius, que não me custava nada porque eu era um dos sócios, junto com o Altair Lima. Fizemos então apresentações no Aquarius, mas misturando o Secos & Molhados com outros grupos. Dava uma média de 200 a 400 pessoas por apresentação. Daí eu aluguei o Teatro Itália para que eles estreassem, sozinhos, exatamente no dia do lançamento do disco, uma sexta-feira. Antes disso, naquela mesma semana, eles foram tocar no programa Clube dos Artistas, que fazia muito sucesso na televisão, comandado por Ayrton e Lolita Rodrigues. Quando chegou a sexta-feira, mais de 600 pessoas lotaram o teatro Itália. E daí pra frente, só casas lotadas. Colocávamos mil pessoas em teatros de 300 lugares... Era uma loucura, um sucesso enorme! Teve um show que literalmente parou o trânsito na Zona Leste da cidade: foi no Juventus, que fica no bairro da Mooca, onde tinha 100 mil pessoas querendo entrar. Travou a cidade. Quando eu senti o potencial, quando percebi no que o grupo poderia se transformar, fiz muito rapidamente uma agenda de shows que cobriu o Brasil inteiro em 20 dias. Mandávamos um caminhãozinho na frente levando a luz e os cenários, a equipe era pequena e tudo foi um sucesso muito grande. No Rio de Janeiro tocamos num programa que o Moacyr Franco tinha na Globo, para-

Jornal da ABI – O sucesso durou quanto tempo? Moracy do Val – Durou dois discos. O primeiro foi todo este sucesso. No dia do lançamento do segundo disco já teve briga, pois o João queria que o Ney fosse assalariado dele, que se dizia o dono do grupo e do nome “Secos & Molhados”. Eu já tinha armado uma temporada de shows no México, onde o primeiro disco tinha vendido 100 mil cópias, e foi tudo por água baixo. Uma história maravilhosa que acabou cedo por burrice. Jornal da ABI – Além de shows e musicais você também foi produtor de cinema. Moracy do Val – Sim, eu produzi as duas versões do filme O Menino da Porteira, a primeira em 1975, com Sérgio Reis. E realmente O Menino da Porteira fez uma excelente bilheteria. Só no Art Palácio, que era um dos maiores cinemas de São Paulo, ele ficou dez semanas em cartaz. Pena que fomos muito, muito roubados, principalmente no Sul do país. Os dados oficiais falam em 3,5 milhões de espectadores em todo o Brasil, mas foi muito mais. Jornal da ABI – Roubados por quem? Moracy do Val – Pelos próprios cinemas, que desviavam o dinheiro da bilheteria. Isso sempre foi assim. Mas independente disso, o filme foi um grande acontecimento. Depois produzi Mágoa de Boiadeiro, novamente com Jeremias Moreira na direção e Sérgio Reis atuando; Chumbo Quente, com a dupla sertaneja Leo Canhoto e Robertinho; e O Milagre, com o cantor português Roberto Leal. Estes filmes não chegaram a repetir o mesmo sucesso de O Menino da Porteira, mas também alcançaram bilheterias muito boas. Nesta área de produção há muitas histórias de sucesso e de fracasso. Ganha-se e perde-se muito dinheiro, a vida é assim mesmo. O que vale é o processo. Eu ganhei muito dinheiro... Que gastei com mulheres, bebidas e bobagens, claro (risos). Esta entrevista completa está disponível na internet: goo.gl/Imv2q7

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MERCADO

CARLOS MONTOTO

Em busca dos exemplares perdidos Editoras de revistas no Brasil ainda buscam saída para a queda na venda de impressos e apostam nos formatos digitais, à espera de um crescimento significativo na base de tablets no País. P OR B RUNO F ONSECA

Ele não pensa duas vezes antes de culpar a internet. Não que ela seja a única responsável, mas, na visão de Pablo Dias, jornaleiro há mais de 20 anos, a popularização da web tem, sim, seu papel na diminuição da venda de revistas no Brasil. “O brasileiro já não gosta de ler. Com a internet, juntou a fome com a vontade de comer. É que as pessoas estão cada vez mais preguiçosas. Não querem ler coisas maiores, mais complexas”, avalia. O jornaleiro aponta então para uma seção da sua banca, onde se acumulam uma série de revistas embaladas com brindes diversos, de sabonetes a carrinhos de brinquedo. “Hoje é preciso dar presentes para as pessoas lerem. Muitas, inclusive, compram revistas apenas pelos brindes, tanto que várias bancas estão vendendo mais porcarias do que jornais e revistas”, critica, referindo-se aos pontos que, para aumentar a receita, passam a oferecer todo tipo de item, de guarda-chuvas a celulares. Pablo, há mais de 10 anos no mesmo ponto na Avenida Vergueiro, em São Paulo, já teve uma banca no Centro da cidade, durante outros 10 anos – negócio familiar, a exemplo do seu tio, que trabalhou mais de quatro décadas no ramo. “Hoje só quem é mais novo tem disposição 18

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para ter banca. Os mais velhos vão se cansando, pois não está fácil”, diz. As ponderações de Pablo, embora possam soar um tanto quanto pessimistas, têm seu fundamento: a venda de revistas no Brasil passa por um período, ainda que incerto, de crise – e “das grandes”, como diz a expressão popular. Segundo pesquisa da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), em 2012 circularam cerca de 412 milhões de revistas no País, 4,6% a menos que em 2011 e inferior a todos os anos anteriores desde 2008. O patamar de 2012 também está muito distante daquele em 2001, quando havia mais de 450 milhões de revistas em circulação. Esse número, inclusive, nunca mais se repetiu, visto que o ano de 2001 marcou o início de uma curva decrescente na circulação de revistas no Brasil, curva que alcançou o fundo do poço em 2005, quando circularam pouco mais de 387 milhões de exemplares – uma queda de 15% em apenas quatro anos. Mesmo com uma tímida recuperação na circulação nos anos seguintes, 2012 está mais próximo dos dados de 2005 que do patamar de 2001. Ainda segundo informações da Aner, o verdadeiro tombo na circulação vem sido puxado, sobretudo, pela diminuição na venda de revistas avulsas – justamente aquelas

vendidas em livrarias e bancas de rua, como a de Pablo. Nos últimos 12 anos, a circulação de revistas avulsas diminuiu cerca de 18%, uma queda de mais de 50 milhões de exemplares. A retração atingiu todos os tipos de títulos, dos semanais aos quinzenais e mensais, e também todas as faixas de preço. Como resultado, nos últimos cinco anos, mais de mil bancas fecharam somente na cidade de São Paulo, segundo dados do Sindicato dos Vendedores de Jornais e Revistas (Sindjor-SP). Para se ter uma idéia, a cidade possui cerca de 4 mil bancas. O baixo desempenho da circulação tem gerado conseqüências desagradáveis para a receita publicitária no setor. Embora as revistas ainda se mantenham como o terceiro maior destino de verbas de publicidade em 2012, segundo relatório do Projeto Inter-Meios, elas perderam mais de 5% de investimentos em relação a 2011, o que marcou o segundo pior ano na década, apenas atrás de 2009. O único número de crescimento fica por conta do aumento expressivo da quantidade de títulos em circulação. Nos últimos 12 anos, o número de títulos de revistas no Brasil subiu de cerca de 2,2 mil para mais de 5,9 mil. O problema é que, quando se compara este dado com a diminuição do investimento publicitário, chega-se à

conclusão que há menos dinheiro para mais títulos no mercado. Em decorrência dos números negativos do setor, o cancelamento de revistas e as demissões em massa (os chamados ‘passaralhos’) chegaram às Redações. Apenas na editora Abril, foram encerrados os títulos Alfa, Bravo!, Gloss e Lola e mais de 70 profissionais já foram demitidos – sendo que o corte de revistas e de pessoal deve prosseguir. Até mesmo o carro-chefe da editora, a revista Veja, que possui a maior tiragem do País, tem apresentado uma linha contínua de queda de circulação nos últimos três anos. Além disso, entre os 23 títulos da editora com circulação de mais de 100 mil exemplares, 18 estão estagnados ou com tiragem em queda – casos da Playboy, Exame e Superinteressante. A situação é semelhante na principal concorrente nacional da Abril, a Editora Globo. A revista Época, seu principal produto em revista, perdeu quase 5% em circulação de 2010 a 2012; a Marie Claire, mais de 11%; e a Galileu, cerca de 15%. Até mesmo a aposta das editoras em outros negócios demonstra que a crise das revistas pode não ter uma solução rápida. A Abril vem investindo pesado na área de educação, absorvendo marcas como Ática e Scipione e o sistema Anglo Vestibulares. Toque de Midas da internet

Enquanto o dinheiro “mingua” no setor de revistas impressas, os meios digitais dão sinais de que são mesmo o cavalo no qual se deve apostar. De acordo com um estudo do Interactive Advertising Bureau Brasil (IAB), a receita com publicidade na internet superou a das revistas já em 2010 e a dos jornais em 2012, transformandose na segunda maior mídia em receita publicitária no Brasil, atrás apenas da televisão. A previsão é de que em 2014 a internet fature mais de R$6 bilhões com publicidade, enquanto as revistas fiquem com algo em torno dos R$2 bilhões e os jornais entre R$3 bilhões e R$4 bilhões. Como explica a diretora de estatísticas do centro de pesquisas britânico Warc, Susy Young, o que vem acontecendo no mercado não é apenas uma queda no faturamento dos veículos impressos, mas uma migração do investimento para novas mídias. Segundo ela, os anúncios em impressos irão decrescer, mas os digitais vão aumentar o que, em teoria, representa uma oportunidade para as empresas de comunicação repensarem seus negócios e redirecionarem suas publicações para ambientes mais lucrativos. Entretanto, existem pelo menos dois grandes obstáculos para que as revistas migrem do impresso e encontrem sua redenção no digital. O primeiro deles é financeiro: o modelo de publicidade. Apesar das impressionantes cifras de faturamento publicitário na internet, uma fatia enorme desse bolo é abocanhada pelos anúncios de sistemas de busca, como o Google, ou ainda sistemas engenhosos de publicidade em redes sociais, como o Facebook. Além disso, sites de busca e compra online pulverizam uma verba publicitária que anteriormente era quase exclusividade das


LANÇAMENTO DIVULGAÇÃO

grandes corporações de comunicação. Isso explica o aparente paradoxo da visibilidade na internet: mesmo que as revistas alcancem números expressivos de leitores, não necessariamente estarão convertendo o acesso em receita – não somente pela gratuidade da internet, mas pela especificidade do sistema de anúncio do online em relação ao impresso. É este o nó que ainda não foi satisfatoriamente resolvido pelas empresas de comunicação, inclusive com as tentativas de cobrança de conteúdo (os chamados ‘paywall’), que apesar de terem dado relativo retorno nos Estados Unidos – e isto para gigantes da informação, como o The New York Times –, ainda são empregados com cautela no mercado brasileiro. Como explica Frederic Kachar, diretorgeral da Editora Globo e também Presidente da Aner, no geral, o anúncio nas revistas digitais vem a reboque do que é vendido para o impresso. “Na Editora Globo, a publicidade no digital vem do pacote que o anunciante fecha com a revista impressa, apenas republicamos os mesmos anúncios”, diz. Segundo ele, a exceção fica por conta de publicidade multimídia, que pode ser vendida separadamente, com custos à parte, e principalmente a interativa, aproveitando-se das possibilidades oferecidas pelos tablets. É justamente a publicidade interativa que Kachar aponta como um dos promissores formatos para o futuro das revistas digitais, tanto para aumentar a lucratividade das edições como também para valorizar os anúncios nessa mídia. Entretanto, o executivo concorda que ainda há muito o que se explorar quanto a formatos de publicidade para revistas digitais. “Ainda estamos aprendendo, todos estão. No início, todos começaram fazendo réplicas da publicidade impressa. Com o tempo, enriquecemos com áudios, vídeos e, mais recentemente, estamos explorando possibilidades de interatividade. Mas tudo ainda é muito novo. Os tablets são uma novidade de poucos anos no mercado”, comenta. O resultado: a produção de revistas digitais ainda é bancada pelas suas versões impressas, e pela pesada estrutura das editoras. É que, apesar de já darem algum retorno com assinaturas e as possibilidades de anúncio multimídia e interativos, as publicações digitais ainda rendem pouco para manter as equipes de Redação, e os inevitáveis investimentos em tecnologia. “Este ainda não é um faturamento fenomenal”, avalia Kachar. A popularização dos tablets

O segundo obstáculo para as revistas digitais é, ao mesmo tempo, de formato e de suporte: as edições ainda testam conteúdos que sejam atrativos para o público, que ainda passa constantemente por transformações no hábito de leitura e interação. Ele próprio ainda está se acostumando com a leitura em tablets. No Brasil, a venda desses aparelhos teve crescimento de 151% no segundo trimestre de 2013 em relação ao mesmo período do ano passado, com 1,9 milhão de unidades vendidas. Ao todo, em 2013, a previsão é que sejam vendidos 7,2

milhões de unidades, 120% mais do que em 2012. Os números são de uma pesquisa da IDC Brasil, divulgada em setembro. A expectativa é que, nos próximos trimestres, os tablets passem os notebooks e se tornem o tipo de dispositivo computacional mais vendido no Brasil. “Somos um mercado em ascensão para os tablets, com grande parte dos usuários comprando agora seu primeiro dispositivo”, diz o analista Pedro Hagge, da IDC. “Houve uma revolução rápida, praticamente todas as grandes revistas brasileiras já estão disponíveis para tablets, mas a disseminação dos aparelhos ainda não é tão grande e o brasileiro ainda está desenvolvendo a cultura de ler neste equipamento”, afirma Frederic Kachar. Ele cita que, nos EUA, o número de usuários de tablets dobra a cada ano, com mais de 10 milhões de edições de revistas vendidas anualmente no país. “A Aner espera ter para 2014 dados sobre circulação de revistas digitais. Atualmente as editoras já disponibilizam dados de downloads de revistas. Porém, esta não é uma informação auditada”, explica. Na ausência de um levantamento sobre o número de assinaturas e downloads de revistas através de tablets, é difícil afirmar com segurança que esse novo meio irá suprir o rombo causado pela queda da circulação impressa. Além disso, os modelos de negócio para assinaturas digitais em tablets são relativamente recentes. A Editora Abril, por exemplo, começou a investir em soluções para tablets há apenas quatro anos, com o lançamento do aplicativo da revista Veja, em 2009, e afirmou que, em 2011, começou a obter lucros com o negócio. Agora, em outubro, a editora afirmou que pretende elevar em cerca de 70%, até o final do ano, o número de assinaturas das suas revistas em tablets. Para isto, a Abril está oferecendo assinaturas gratuitas por tempo limitado – tipo de oferta já tradicional no mercado de revistas impressas. O objetivo é conquistar mais público para as revistas dentre os usuários de tablets, ainda, em parte, leitores de livros: cerca de 60% das receitas da plataforma de vendas Iba, da Abril, ainda é de livros, ramo no qual a editora compete diretamente com gigantes como a Amazon e a Saraiva. “O principal desafio das editoras é atrair mais leitores para os tablets, enquanto a base de aparelhos ainda é pequena, sobretudo se você comparar a penetração das revistas, que é imensamente maior”, avalia Kachar. Segundo ele, estratégias de degustação de assinaturas de revistas são uma das opções para conseguir mais leitores, mas é preciso diversificar as ações e inovar na produção de conteúdo. “As editoras precisam se reinventar no sentido de que as marcas dos seus títulos estejam presentes em todas as plataformas possíveis. Isso vai depender do modelo de negócios. Hoje ainda faz sentido as editoras estarem como estão, mas elas precisam acompanhar as mudanças sociais e tecnológicas. Além disso, em produção de conteúdo para revistas digitais, o céu é o limite, ainda há muito o que se testar”, finaliza.

De volta ao Brasil em setembro de 1979, Cid Benjamim chega ao Galeão com Ani, Iná Meirelles e Juca.

Apesar de tudo, Gracias a la Vida P OR V ITOR I ORIO

Cid Benjamim é um humanista. Em Gracias a la Vida – Memórias de um Militante, narra sua experiência como um dos principais militantes políticos na resistência ao golpe militar de 1964, sem demonstrar a intenção de ajuste de contas com ninguém. Nem mesmo com aqueles que o torturaram impiedosamente. Já no Brasil, de volta do exílio, numa tarde de ar puro carioca, conta que buscou no verso de Violeta Parra – aquele que diz, “Gracias a la vida / Que me ha dado tanto” – a possibilidade de dar continuidade a sua vida política sem remorsos, rancores ou seqüelas. Os anos de chumbo vividos pelos brasileiros, de 1964 a 1984, pareciam exaustivamente já contados. Gracias a la vida – Memórias de um Militante, lançado no dia 22 de outubro no Rio de Janeiro, prova o contrário. Benjamin não conta uma história assistida, faz uma narrativa vivida. O autor foge das armadilhas da memória, checando suas experiências com a dos velhos companheiros. Muita conversa. Muito exercício de memória. Deixou decantar melhor o que vivera para depois de quase três décadas nos brindar com um livro-documento fundamental para a vida republicana brasileira. Benjamin começa sua narrativa com o que chamou de o “divisor de águas” para os militantes que saíram do movimento estudantil para a luta armada na resistência à ditadura militar: o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrich, no dia 4 de setembro de 1969, na Rua Marques, em Botafogo. O autor conta que foi no momento certo. Já havia um acirramento da repressão desde a edição do AI-5, em 1968. O episódio serviu para iniciar o processo de libertação de vários de seus companheiros de organização. Segundo ele, o movimento estudantil ficou num ”beco sem saída” com a chegada das férias escolares, logo depois das

passeatas dos Cem mil e dos Cinquenta Mil: “Os estudantes conseguiram agrupar, em torno de si, outros setores sociais, ainda que preponderantemente de classe média”. No entanto, ele mostra que, naquela ocasião, “o movimento estudantil havia batido em seu teto”. Com a mesma racionalidade, avalia os equívocos da época. ”Os fatos não poderiam ter nos levado de forma automática à conclusão de que a guerrilha era o caminho”. Mas o faz sem arrependimento. A narrativa torna-se dramática quando fala da tortura: “é a tentativa de fazer com que uma pessoa renegue seu sistema de valores, justamente o elemento que distingue os seres humanos”. Quando fala do exílio, cita uma passagem verdadeiramente marcante: ouviu de um funcionário da embaixada do Chile na Cidade do México que “um sujeito banido era como se fosse um morto civil”. Traz relatos emocionados, mas não se deixa levar por nenhum sentimento de vingança. Mesmo diante de tanta adversidade na luta ideológica, Benjamin não se mostra derrotado, destroçado, vencido. Pelo contrário. Trata a reflexão sobre as trajetórias do PCB, do PT e do Psol“com a mesma honestidade intelectual” com que reflete sobre a experiência da luta armada. Não escondeu nada: cortou na própria carne com a coragem que pautou a sua vida. Grosso modo, Gracias a la Vida – Memórias de um Militante mostra a trajetória política de Cid Benjamin, militante marxista comprometido com a justiça social, e também seu compromisso permanente com as humanidades. Todo o tempo, o autor recorre à filosofia para nos fazer compreender o seu olhar sobre as múltiplas experiências vividas e, assim, nos proporciona uma narrativa de belíssimas alegorias filosóficas. As reflexões desse grande nome da luta armada que foi Cid Benjamin mostram que, mais que nunca, ele é, hoje, um exemplar quadro humanista da política brasileira.

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LITERATURA

Bárbaros turcos Editora paulistana aposta na moderna ficção que se faz no país do leste europeu, com autores que ousam nos temas, apesar de viverem numa nação conservadora, tradicionalista e sob censura. P OR G ONÇALO J UNIOR

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glu se inspirou nas cartas de Askidil para levar o leitor à Turquia do século XVIII, com sua colorida e suntuosa atmosfera em que mulheres e paixões humanas tinham que se submeter a regras morais, sociais e políticas que as aprisionavam em “gaiolas douradas”. Best-seller em seu país, tendo alcançado a primeira tiragem de 100 mil exemplares, o romance Um Golpe de Sorte explora um atentado à bomba contra o último sultão que não deu certo, para tratar essencialmente – e com bom humor – da questão da dominação masculina na Turquia. Nas entrelinhas, o historiador e jornalista Reha Çamuroglu aborda a decadência do Império Otomano e as trapalhadas políticas do poder. A trama mistura revolucionários armênios, um anarquista belga, espiões turcos e o Sultão Vermelho num plano de assassinato deste último. Nem os que tramaram o crime acreditavam realmente que daria certo. Até que um golpe de sorte mostrou um quadro realista da organização policial da época e da atmosfera do país, onde todo mundo é vigiado e seguido por outros. O livro também fala das últimas lutas de um estado decadente que se esforça para permanecer de pé diante das pressões internas e externas. As Preces São Imutáveis, de Tuna Kiremitçi, tem como tema as mudanças ocorridas na língua e na sociedade da Turquia contemporânea ao longo de gerações. Com tradução direta do turco pelo professor Marco Syrayama de Pinto, da Universidade de São Paulo (Usp), dá a chance ao leitor brasileiro de ter um encontro com uma cultura e uma literatura DETALHE DA CAPA A CONCUBINA. desconhecidas, ricas em tradições e em história, através de um escritor toda a vida. Na verdade, ela domina o dos mais premiados em atividade. Poeta de sultão com suas artimanhas de sedução e formação e graduado em cinema, Tuna erotismo. A narrativa segue uma estrutuKiremitçi, de 40 anos, publicou seus prira clássica oriental, que vem desde os temmeiros poemas pela revista Varlik, quando pos de As Mil e Uma Noites. “O que perceainda cursava o secundário. Segundo Elibo nesse livro é que o sexo é tratado de ana Sá, seus livros falam com sensibilidaforma muito poética e metafórica, seguinde das tragédias que podem acontecer na do a tradição das literaturas orientais”, vida das pessoas comuns, do impasse da observa Eliana. Romance histórico sobre relação conflituosa entre homens e muum amor impossível, a trama se passa lheres na sociedade turca de hoje e da medurante o império Otomano, no reinado lancolia da velhice, com uma expressão de do sultão Abdülhamid Han, envolvendo tristeza, mas evocando um sorriso de eso próprio sultão, uma de suas concubinas perança. e o eunuco-chefe. A escritora Gül Irepotido Trabalhista. Como ativista de esquerda, acabou presa e condenada. Após a libertação, refugiou-se na Alemanha até 1992. Atualmente mora em Istambul, onde milita em organização pacifista. Em A Concubina, a escritora, arquiteta e professora de História da Arte Gül Irepoglu dá ênfase à temática sexual, ao contar a história de uma mulher inteligente, porém confinada num palácio por

REPRODUÇÃO

O cenário não é dos mais familiares ao leitor brasileiro. Mas a história, sim, interessante e irresistível para quem gosta de tramas densas, emocionantes e, às vezes, subversivas. No terminal rodoviário de Ancara, Turquia, tarde da noite, o famoso escritor Ömer Eren, no auge de uma crise de bloqueio criativo, presencia um tiroteio que envolve um casal de jovens curdos, que acaba na morte de uma criança. A cena o impressiona, fazendo-o tomar a decisão de se refugiar em Anatólia, onde vivera como militante de esquerda. Nesse retorno, espera recuperar seu talento criativo e escrever um novo romance. Sua história se passa em paralelo à da esposa Elif, cientista de renome, que se prepara para uma conferência na Dinamarca – ali, espera rever o único filho, Deniz, em exílio desde a morte da esposa, vítima de um atentado em Istambul. Este é o enredo do romance Palavra Perdida, da escritora Oya Baydar, ambiciosa novela em que casais tentam remontar suas vidas, perdidos num mundo dividido entre conflitos íntimos e políticos. Considerada uma das mais importantes autoras turcas contemporâneas, Oya Baydar, de 73 anos, é uma quase ilustre desconhecida dos apreciadores da boa literatura no Brasil. Isso apenas por enquanto, felizmente. Ela está entre as gratas opções vindas da Turquia que a Sá Editora, de São Paulo, traz para o mercado nacional. Até o momento, cinco autores daquele país foram publicados em português. Além de Baydar, já desembarcaram por aqui Reha Çamuroglu (Um Golpe de Sorte), Gül Irepoglu (A Concubina), Tuna Kiremitçi (As Preces São Imutáveis) e Asli Perker (Suflê). “Vamos investir mais em literatura turca, devemos iniciar em breve a publicação de títulos infanto-juvenis, contratos que devem ser firmados na próxima Feira de Frankfurt”, promete a editora Eliana Sá, com experiência de três décadas em edição e longa passagem pela Globo Livros nas décadas de 1980 e 1990. “Somos uma editora que preza pela bibliodiversidade, por isso, estamos em busca constante de ampliar os horizontes de leitura do públi-

co brasileiro”, justifica ela, que também começa a publicar autores indianos (veja na página ao lado). Diversidade, aliás, que marcou a escolha dos primeiros títulos. Palavra Perdida é descrita pela editora como uma ode à palavra, à língua como meio de compreender o outro, como expressão e forma de unir a humanidade. A obra faz alusão a ideais e à esperança de um mundo melhor.

A autora, ao expor a tragédia de um jovem casal curdo, quer mostrar como a perda ou a supressão da palavra representa uma das formas mais cruéis de violência que podem ser imputadas a um indivíduo ou a um povo. Fala ainda sobre as formas de violência do mundo moderno, como a dissecação de cobaias em laboratório, a imposição de valores às crianças, atentados e guerras étnicas. Formada em Sociologia pela Universidade de Istambul e professora de literatura nesta mesma instituição, nos anos 1960, Oya Baydar se dedicou à militância política e foi uma das fundadoras do Par-


A mais recente aposta da editora é o recém-lançado Suflê, de Asli Perker, uma daquelas viagens inesquecíveis pelo mundo da culinária. Ela parte da idéia de que preparar um suflê exige mais do que prática, do poder de controlar os movimentos ao bater os ovos, da quantidade exata de açúcar, do calor do fogo, da hora certa de apagar a chama, uma vez que algo imponderável pode surgir que fará desabar a delicada “construção” de claras em neve. A partir dessa metáfora, a autora elaborou uma história em que entrelaça a vida de três personagens em torno da mesa e do calor do fogão. Tudo temperado com simbolismos e significados sociais e culturais, enquanto o leitor acompanha a vida cotidiana de personagens que vivem em Nova York, Paris e Istambul. Nascida em Izmir, Turquia, com 38 anos hoje, Perker começou sua carreira profissional em uma agência de publicidade como redatora, e depois passou ao jornalismo. Trabalhou para as revistas Aktuel, Radikal, Yeni Binyil e para o jornal Sabah. Em 2001, mudou-se para Nova York, onde atuou como tradutora e intérprete e iniciou mais fortemente sua carreira literária, ancorada em suas raízes turcas. Programa modelo

Eliana Sá conta que começou a se interessar pelos autores turcos na Feira de Frankfurt, há alguns anos, depois de ter contato com a agente literária Nermin Mollaoglu, da Kalem Agency. “Eles, os turcos, fazem um trabalho intenso de divulgação dos autores nessas feiras internacionais, investem em tradução para o inglês, o francês, imprimem pequenas tiragens com trechos de livros traduzidos, marcam reuniões etc.”, observa a editora. Ela ficou impressionada também como trabalham com forte apoio financeiro do governo turco, que dá bolsas de traduções aos editores estrangeiros. “É um programa modelo para o mundo, muito importante”. Foi convencida a lançar os primeiros títulos por ser uma nova literatura e de qualidade, que puxa para temas inusitados para o leitor brasileiro. “Imaginei que teria mercado aqui porque predominam assuntos históricos e políticos, tratados de forma muito profundamente humana. Uma literatura com muita tradição, calcada na poesia, com raízes na tradição oral de um povo que já dominou o mundo antigo”. A editora explica que escolheu os títulos baseada nas sinopses que as agên-

cias enviam e, numa segunda etapa, na leitura de textos. “Procuro também livros que já foram traduzidos para vários países com idiomas mais acessíveis – espanhol, inglês e francês. Para o leitor brasileiro, penso sempre em livros que possam dar várias dimensões do país”. Eliana sabe que a literatura turca passa por um processo de censura em seu país, mas que acaba driblado, muitas vezes, pelo talento dos autores. “Não é uma censura aberta, mas velada. Há alguns

anos, era mais forte, com escritores presos ou sendo obrigados a sair do país, como Oya Baydar, exilada na Alemanha por mais de uma década e que voltou há alguns anos a morar em Istambul”. Mesmo assim, a tensão política continua. “Vimos nos recentes acontecimentos de protesto como a Turquia tem um descontentamento e uma sede de democracia.” Houve um episódio emblemático com um autor da editora, que recusou um convite para vir ao Brasil justamente

porque a passagem aérea era oferecida pelo governo. Outro fator decisivo para a aposta na Turquia foi o apoio financeiro governamental daquele país para lançar os livros no Brasil. Especificamente, do Teda, o Ministério do Turismo e da Cultura da Turquia. “Acho bem interessante isso, um ministério que junta cultura e turismo. É uma política inteligente, pois a diversidade cultural sempre vai atrair o turista”. Curioso é que a comunidade turca no Brasil é pequena demais para consumir o que é editado. Esse detalhe se soma ao desafio de atrair a imprensa para resenhar os livros, embora após a novela Salve, Jorge, da Rede Globo, tenha aumentado o interesse pelo país. “Criei uma comunidade no Facebook, Literatura Turca no Brasil, que vem crescendo neste ano”, afirma. Agora, começa a contar com o apoio promocional do Centro Cultural Brasil-Turquia, o CCBT, que realiza atividades culturais em São Paulo. Barreiras, enfim, que não desencorajam a editora a desbravar um mundo que ainda se imagina bárbaro. E que assim ainda é, só que no bom sentido.

Aposta alta nos indianos À primeira vista, encontrar tradutores de romances indianos pode parecer um desafio para qualquer editor brasileiro. Engano. Na Índia, os autores escrevem em inglês. Mesmo assim, se não atingir o status de best-seller mundial, dificilmente um escritor do segundo país mais populoso do mundo chegará por aqui. A Sá Editora vai contra a corrente, embora sua única autora, a jovem Abha Dawesar, com dois romances em português, seja muito conhecida na França e em alguns países europeus. Nascida em Nova Délhi, ela se diplomou em Harvard em 1995, com uma dissertação sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Aos 39 anos, eleita “uma das 25 personalidades mais influentes da atualidade” pela revista India Today, atualmente trabalha com finanças na cidade de Nova York. Seus livros Babyji e Valores de Família retratam a vida nas caóticas cidades indianas, com ênfase crítica em seus valores familiares tradicionais, milenares, com suas castas, além de denunciar a corrupção, a miséria das grandes populações urbanas e a violência. O primeiro, em especial, aborda tudo isso, mesmo

com o forte apelo erótico, marcado por uma sensualidade envolvente. Conta a história de uma adolescente indiana e suas descobertas sobre amor, sexo e a vida. O romance se passa na Nova Délhi dos anos de 1990, quando a violência resultante da desigualdade das castas divide o país, a ponto de os estudantes se imolarem em manifestações contra o governo. Nesse contexto vive Anamika, de 16 anos, que mora num bairro de classe média alta e se desperta para a sensualidade e para a vida. Na escola, ela é a melhor aluna de física quântica. Em casa, esgueirase da sala de visita dos pais para a garagem onde lê escondido o proibido Kama Sutra. Até que a atração por mulheres faz com que ela seduza três moças de idades e classes diferentes: uma elegante divorciada, a empregada doméstica da família e a colega de classe mais cobiçada pelos rapazes. Adolescente precoce, ela se confronta com questões difíceis para qualquer pessoa até com o dobro da sua idade. Embora conservadores vejam negativamente o livro como um romance de iniciação com fortes acentos eróticos e subversivos,

Babyji foi ovacionado pela crítica internacional e publicado em mais de dez países. Entre outros prêmios, levou o Lambda Literary Award 2005 e o American Library Association’s Stonewall Award 2006. O não menos interessante Valores de Família aborda os conflitos da Índia atual pelos olhos de uma criança, ao mostrar o cotidiano de uma relação familiar. O narrador é um menino fragilizado por uma doença. Filho único de um casal de médicos, numa cidade da Índia, à medida que ele se relaciona com o primo rebelde e aproveitador, aprende a gostar da filha de seu tio. A prima está à procura de um noivo. Nesse romance sensível, ele acompanha os pais nas visitas ao astrólogo ou ao escritório do advogado – onde tentam resolver pendências judiciais contra seus senhorios. A intenção da autora foi, sem dúvida, fazer um retrato vivo da Índia hoje, ainda muito desigual, apesar dos índices positivos de crescimento econômico. A pobreza extrema convive com a corrupção e o enriquecimento de uma minoria. Em alguns aspectos, parece até o Brasil. Um livro mais que recomendado.

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MEMÓRIA

Por meio de imagens, Callado ganha voz Fotobiografia organizada por Ana Arruda é lançada na ABL. Em edição caprichada, livro resgata a vida pessoal e a produção do jornalista e escritor, que disse muito sobre o Brasil. FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA

P AULO C HICO

“O afeto foi a espinha dorsal deste projeto. Sofri um pouco, fiquei meio machucada de reler certas coisas, de rever, pois a saudade bate. É natural, não é? Mas a alegria de fazer essa homenagem a ele supera tudo”. A confissão é de Ana Arruda, jornalista e escritora que, com a fala doce de sempre, e os olhos mais marejados do que de costume, recebia amigos e convidados para o lançamento do livro Antonio Callado – Fotobiografia, nos salões do Petit Trianon, na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, no final da tarde do dia 24 de outubro. O evento atraiu imortais, jornalistas e escritores de diversos estilos. Nas palavras da própria Ana, viúva de Callado, que faleceu em 28 de janeiro de 1997, todos ali reunidos em torno de um sentimento comum: a admiração pelo homenageado. “Estou numa alegria que você não pode imaginar. Foi muito duro fazer esse livro. Pra começar não consegui um patrocínio. Se não fosse o governo de Pernambuco, ele não sairia. Gastei dinheiro meu para comprar fotos, ter acesso a textos e tudo o mais... Mas o importante é que foi feito com muito carinho. Só trabalhou nele gente que tinha relação afetiva comigo e com o Callado, a começar pela Heloisa Bulcão, minha sobrinha, que fez a produção, o Pedro Tinoco, sobrinho que escreveu os textos, e até a Clarinha, neta, que também escreveu. E a ABL era a casa dele! Estou muito feliz com o fato de o lançamento estar acontecendo justamente aqui”. O livro, editado com máximo capricho pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), revela em suas 460 páginas retratos da família e de toda a trajetória pessoal e profissional do jornalista, biógrafo, dramaturgo e romancista. Ao entrar sorrateiro na intimidade do autor de múltiplas faces, o leitor compreende melhor sua produção. Até mesmo fãs terão com o que se surpreender ao folhear a obra. “Eu também fiquei conhecendo algumas coisas que não sabia. Por exemplo, um cunhado meu descobriu um disco da Dulce Nunes em que Callado fez uma letra de música. E eu não sabia disso!”, contou Ana Arruda ao Jornal da ABI. Eric Nepomuceno, jornalista, escritor e apresentador do programa Sangue Latino, do Canal Brasil, foi um dos que prestigiaram o lançamento. “Qualquer livro ou homenagem ao Callado é pouco. E a Ana concorda comigo. (risos) Eu tive a 22

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honra de ter sido muito amigo dele. A oportunidade de rever a vida do Callado é fantástica. Estava folheando o livro agora há pouco e pensei: ‘meu Deus do céu, eu era amigo disso tudo, e não sabia’. Callado foi um excepcional jornalista, escritor, um grande mestre e brasileiro. A lição que nos deixou é justamente um valor cada vez mais raro, praticamente extinto na imprensa brasileira: a dignida-

de. Ele era a dignidade de gravata, em forma de gente. A dignidade profissional. Um homem que não se traiu, nem se vendeu jamais. Quebraram essa forma! E nem é que não se fabricam mais jornalistas assim. Na verdade, quase não se fabrica mais gente assim...”, pontuou. O Governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), participou do lançamento da fotobiografia. “Fico feliz de poder di-

zer: não fizemos mais do que a nossa obrigação por tudo que ele inspira. Como jornalista, cidadão e militante de Pernambuco, devia esse livro a Callado. Num tempo em que isso não era fácil, ele denunciou a indústria da seca em uma reportagem, que depois virou livro”, afirmou o Governador. Campos fez um comprimento especial a Ana Arruda e falou que, ao ver a obra, relembrou o contexto histórico do primeiro governo Miguel Arraes. “A caatinga nem foi considerada um bioma na Constituição de 1988. Esse registro histórico foi de Callado, que registrou ainda a mais bela revolução, sem sangue, que foi o governo de meu avô, Miguel Arraes, em Tempos de Arraes”, pontuou. Callado nasceu em Niterói, em 26 de janeiro de 1917. Mas manteve estreitos laços com Pernambuco, como na série de reportagens citada acima pelo Governador. Retratou aquela região como poucos. Por isso mesmo, além de Eduardo Campos, estiveram presentes no lançamento do livro o Secretário da Casa Civil de Pernambuco, Tadeu Alencar, além de boa parte do comando da Cepe: o Diretor Braúlio Mendonça Menezes, o Presidente do Conselho Editorial, Everardo Norões, e Ricardo Melo, Diretor de Produção e Edição. A escritora Nélida Piñon participou da mesa de abertura da solenidade. E citou a ‘rara agilidade intelectual’ do discurso de posse de Callado, feito em 12 de julho de 1994. Ela lembrou que no ano em que o escritor havia se candidatado a uma cadeira na academia, um outro Antônio – o Jobim – estava decidido a entrar na ABL, mesmo sem ter um único livro escrito. Depois de um encontro com o xará Callado, o maestro desistira. Não podia concorrer. “Fundamental na carreira dele foi o fato de ter sido jornalista. Por ter se tornado cosmopolita, no sentido de não perder suas raízes provincianas. Ele era um exemplo de vida e gentileza, mas não abria mão de expressar a sua opinião. O que fazia com ironia britânica”, contou Piñon. O escritor Arthur Poerner concorda. “O Callado, além da importância cultural e política, evidenciada pela série de reportagens sobre o governo Arraes, teve, na minha história, grande relevância. Foi meu chefe de Redação no Correio da Manhã. Eu era um jovem, arrebatado, chegava com denúncias que ele nunca refutava. Pelo contrário, as recebia, dava o maior prestígio e as publicava. Eu me sentia, ao lado dele, lutando contra a ditadura, isto é, lutando o ‘bom combate’. Depois até


FOTOS: REPRODUÇÃO

aconteceu algo curioso. Quando tive os direitos políticos suspensos por dez anos, isto por meio de um decreto presidencial em 1966, tinha menos de quatro anos de jornalismo. Callado era mais velho e experiente. E fez um texto irônico, com seu humor fino, inglês, em que lamentava a suspensão dos meus direitos, menos pelo fato de eu ter sido vítima da violência, e mais por ele próprio não ter sido alvo da punição. Para Callado, era como se a sua luta contra a ditadura não estivesse sendo reconhecida. Fato que, evidentemente, o desagradava...”, recorda-se. Presidente da ABL, a escritora Ana Maria Machado também participou do evento. E falou com o Jornal da ABI. “O livro está muito bonito. E virou uma festa, nem era pra ser uma mesa-redonda formal. O Governador Eduardo Campos quis vir, o que foi ótimo porque foi o governo de lá quem bancou a edição. Além de todas as credenciais técnicas, Callado era um grande amigo e um grande caráter”. O acadêmico Eduardo Portella foi outro que falou sobre o homenageado. “A ABL é a Casa das letras nacionais. Callado foi um representante superior dessas letras. Ele é uma referência para todos nós. Exerceu todos os gêneros com a chancela de um grande autor nacional. O lançamento deste livro aqui, mais do que uma homenagem prestada a ele, é uma homenagem à própria Casa de Machado de Assis. Quando se tem dúvida sobre a importância da ABL, a gente costuma se lembrar que Callado passou por aqui. E isso, por si só, é uma credencial mais do que definitiva”, diverte-se Portella, brincando. E falando sério, não tenha dúvidas. Dois textos especiais abrem o livro. “Desculpem, eu estou escrevendo emocionado. Dei uma choradinha, ainda agora, recordando a elegância espigada, mas nunca empertigada, a erudição escorreita, mas nunca pedante, a fidalguia de trato a qual sempre se lembrarão todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele”, disparou João Ubaldo Ribeiro. Ao que Carlos Heitor Cony, complementou: “Callado foi um dos homens mais importantes da minha geração, tanto no jornalismo como na literatura e na vida social. Lembrá-lo com carinho é uma obrigação de todos os que resistiram contra o totalitarismo. E para mim, pessoalmente, uma expressão de saudade”. E assim segue o livro. Está tudo lá. O primeiro Callado a chegar ao Brasil. Todos os antepassados, inclusive Dario Rafael, o tio desaparecido. O avô de quem herdou o nome. As três irmãs. Tias e tios. A infância em Niterói. Os tempos de colégio. A cobertura jornalística na Segunda Guerra Mundial, na BBC de Londres. O encontro com Jean, a primeira esposa. A atriz Tessy Callado, filha mais velha, seguida por Maria Antônia e Paulo. A vasta produção no teatro e na literatura. A série de reportagens sobre os projetos de Miguel Arraes em Pernambuco, publicadas no Jornal do Brasil entre 7 de dezembro de 1963 e 19 de janeiro de 1964. Correspondências com amigos, como Érico Veríssimo. Lygia Fagundes Telles. Carlos Drummond de Andrade. Djanira. Gil-

Antonio Callado em quatro momentos: Ao lado de Miguel Arraes e Carlos Wilson, eleitos pela segunda vez, respectivamente, Governador e Vice Governador de Pernambuco; fazendo a última prova do fardão depois de eleito em 17 de março de 1994 para a ABL; com Ana Arruda, num registro do fotógrafo Walter Firmo. Na página ao lado, no Jardim Botânico.

berto Freyre. Hélio Pelegrino. Clarice Lispector. Muitos outros amigos. Parceiros. A passagem pelo histórico Correio da Manhã. O trabalho com os índios e a parceria com Celso Furtado. Adaptações para o cinema. A passeata dos 100 mil. O Bar Don Juan. E, a partir deste livro de sua autoria, o encontro definitivo com Ana Arruda. As Redações foram, de fato, um capítulo à parte na vida do escritor, como contou Cícero Sandroni ao Jornal da ABI. “Trabalhei com Callado no Correio da Manhã,

quando ele era Diretor de lá. E só tenho lembranças muito boas, não só pela competência e seriedade, mas pelo senso de ética, moral e sua coragem, que ficou demonstrada, sobretudo depois de 1964, quando fez de sua pena de jornalista uma oposição direta ao governo militar, e fez em Pernambuco reportagens memoráveis sobre a situação do agreste, da seca, dos plantadores de cana e das ligas camponesas”. Jornalista, poeta e crítico literário, Ivan Junqueira era um dos acadêmicos presen-

tes que mais festejava o lançamento da fotobiografia. “Callado anda meio esquecido, e foi um homem que participou com tal intensidade e paixão por todas as questões brasileiras, que devia ser mais reverenciado, com textos que se escrevessem sobre ele e seus livros. Muitas de suas obras estão fora de catálogo ou esgotadas. Talvez, você encontre Quarup, A Expedição Montaigne ou Reflexos do Baile. Mas, se for buscar os primeiros títulos, como A Madona de Cedro, nada vai encontrar. Assim, essa fotobiografia é uma forma de trazê-lo novamente à tona, e por meio dela – quem sabe? – resgatar seu lado autoral”. Por fim, o Jornal da ABI ouviu o imortal gramático Evanildo Bechara. “O livro que aqui se apresenta é um somatório de várias qualidades: a qualidade do escritor, além das idéias que expôs em seus livros e artigos. E, em terceiro lugar, da dedicação da Ana Arruda, coordenando um trabalho coletivo de pesquisa. Por isso, veja você, ela não está autografando, por sentir que o livro se divide em diversas autorias. Esta obra representa e revela para o público todo esforço e talento de um grande brasileiro, que a seu tempo soube colocar o dedo em muitas das nossas feridas, algumas delas que, infelizmente, continuam abertas. Antonio Callado é realmente um autor que já nos deixou, mas deixou uma lição aos brasileiros de que devem sabem olhar o mundo com crítica. Sabia, como convém a um homem de cultura, prezar antes de mais nada a maneira de se expressar. Escrevia como poucos. Assim como as pessoas vaidosas cuidam da aparência, da roupa, o escritor cuida da sua linguagem. Nisso, também, ele era um mestre”.

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QUADRINHOS

Projeto registra intercâmbio entre Brasil e Alemanha P OR C ELSO S ABADIN

Brasil e Alemanha unidos pelo universo das histórias em quadrinhos. Assim pode ser definido o Projeto Osmose, uma iniciativa do Goethe-Institut de Porto Alegre. A idéia começou a ser executada no segundo semestre do ano passado, quando três quadrinistas brasileiros e três alemães se dispuseram realizar um intercâmbio artístico em cidades onde nunca estiveram antes. Durante quatro semanas, os seis artistas tiveram como única obrigação criar uma história em quadrinhos sobre as experiências que vivenciaram longe de suas casas. Era preciso, porém, escolher a dedo quais seriam os representantes de cada país. A curadoria do projeto foi entregue a Augusto Paim, jornalista especializado em quadrinhos, e a coordenação editorial ficou com José Aguiar, quadrinista e um dos criadores da Convenção Internacional de Quadri-

nhos-Gibicon. Um dos principais critérios para a seleção dos artistas foi a capacidade deles produzirem tanto as ilustrações quanto seus próprios roteiros. Assim, contavase com a habilidade artística e a curiosidade de cada autor para explorar suas novas residências. Após minuciosa seleção de candidatos brasileiros e alemães dispostos a trocarem de país por um mês e de produzirem uma história em quadrinhos de dez páginas sobre a experiência, formou-se a equipe que compõe a obra. No “time” alemão estiveram Mawil, Birgit Weyhe e Aisha Franz. Os brasileiros foram Paula Mastroberti, Amaral e João Montanaro. Paula trocou Porto Alegre por Berlim, enquanto Mawil fez o inverso. Birgit viajou a São Paulo partindo de Hamburgo, cidade que acolheu o piauiense Amaral. Aisha trocou Berlim por Salvador, e o paulistano Montanaro fez as malas para Munique. O trabalho destes seis artistas foi transformado no livro Osmose:

Brasil e Alemanha em Quadrinhos, lançado pela Editora Libretos de forma praticamente simultânea nas Feiras do Livro de Frankfurt e Porto Alegre. Durante a experiência, cada artista teve também a tarefa de abastecer o blog do projeto com relatos e registros diversos sobre suas impressões da cultura local. O conteúdo produzido continua disponível em blog.goethe.de/osmose. A estranheza pelo novo, o encantamento, o medo, as inseguranças e as novas descobertas são pontos marcantes das seis histórias em quadrinhos reunidas em Osmose. Montanaro, por exemplo, se espanta, com muito bom humor, com o vaso sanitário de Munique, onde os dejetos ficam expostos até o momento da descarga. Aisha Franz opta por uma narrativa totalmente visual, sem o uso da palavra, para expressar seu encantamento soteropolitano. O traço abstrato de Amaral faz parceria com seu texto poético, enquanto Birgit prefere retratar São Paulo em preto e branco. Na visão de Mawill, Porto Alegre é sépia e divertida, enquanto Paula usa co-

res fortes, traços e montagens fotográficas para falar de suas impressões sobre Berlim. Além do livro, o projeto gerou também o evento “Osmose: uma experiência de alemães e brasileiros em HQ”, que aconteceu no início de novembro no Centro Cultural Erico Verissimo, em Porto Alegre, com as presenças de Birgit Weyhe e Paula Mastroberti. Até o momento, o livro já foi lançado também, com direito a noites de autógrafos, em Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Teresina. A publicação integra as comemorações da Temporada Alemanha + Brasil 2013-2014.

Os seis artistas de Osmose MAWIL é da antiga Berlim Oriental, e começou a editar seus quadrinhos por conta própria depois da queda do muro. Estudou design gráfico na Faculdade Berlim Weissensee, onde desenvolveu suas primeiras graphic novels: Strand Safari e Mas Podemos Continuar Amigos. Já formado, teve vários de seus trabalhos publicados pela prestigiada editora alemã Reprodukt, com traduções para vários idiomas, português inclusive. Desenha para o Berliner Tagesspiegel e ministra workshops. BIRGIT WEYHE nasceu em Munique, mas cresceu na África Oriental. Já formada em Literatura e História, passou a se interessar pelo estudo da ilustração aos 33 anos. Estudou desenho na Universidade de Ciências Aplicadas de Hamburgo, onde realizou trabalho de conclusão de curso sobre narrativas autobiográficas em quadrinhos. É autora das graphic novels Ich weiß e Reigen, e leciona em Hamburgo. AISHA FRANZ (acima) nasceu na Baviera, e estudou Ilustração na Faculdade de Arte de Kassel. Seu trabalho de conclusão de curso, Alien, foi publicado em 2011 pela editora Reprodukt. Vários de seus trabalhos podem ser vistos nas antologias KU(S), Orang, Kuti Kuti, Strapazin e na sua própria editora, chamada My Own Press.

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PAULA MASTROBERTI é gaúcha de Porto Alegre. É graduada em Artes pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS, Doutora em Letras pela Puc gaúcha, escritora, artista plástica, ilustradora e educadora em Artes e Literatura. Tem 10 obras publicadas e prêmios importantes como o Jabuti, além de indicações ao 25º Troféu HQMIX. Suas áreas de pesquisa incluem artes visuais, literatura, estudos culturais, tecnologias da arte, suportes literários e educação artística e literária. AMARAL é artista plástico, quadrinista e designer gráfico. Licenciado em arte-educação pela Universidade Federal do Piauí, é um dos editores da revista Pulsar. Sua obra principal, Hipocampo, venceu o Troféu HQMIX de melhor álbum independente, em 2000. Participou da antologia Consecuencias – Historietas Brasileñas, de Madri, Espanha. Mora e trabalha em Teresina, no Piauí. Aos 17 anos de idade, JOÃO MONTANARO (à esquerda) é o caçula do grupo. Começou a trabalhar em 2008 na revista Mad e, em 2010, passou a fazer a charge política na Folha de S. Paulo. Também faz ilustrações para a revista Recreio, Le Monde Diplomatique, e cartuns para o caderno Ilustríssima. Ganhou um Troféu HQMIX em 2011 pelo seu primeiro livro, Cócegas no Raciocínio.


TESTEMUNHO

Em cartas paternais, notícias de um País sombrio Livro com a reunião de cartas trocadas entre Alceu Amoroso Lima e sua filha Madre Maria Teresa reflete o momento crítico de repressão da ditadura militar, em 1969, e seu desapontamento com a Igreja Católica.

Um ano passa rápido, num piscar de olhos, num estalar de dedos, na vida de uma pessoa. Mas pode ser longo, quase interminável. Ou durar para sempre. Esse parece ter sido o caso do crítico literário, professor, pensador, escritor e líder católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983), o Tristão de Athayde, e sua filha, a madre Maria Teresa Amoroso Lima (1929-2011) em relação a 1969. Entre janeiro desse ano e fevereiro do seguinte, os dois trocaram dezenas de cartas intensas, quase diárias, nas quais falavam da família e do mundo literário no qual ele estava inserido como jornalista e escritor. E, principalmente, faziam considerações sobre o difícil momento político do Brasil de então, quando os militares intensificavam sua ditadura, ao ponto de causarem espanto e repulsa até mesmo naqueles que os tinham apoiado durante o movimento que derrubou o Presidente João Goulart (1917-1976), no dia 1º de abril de 1964. Desde a decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, tudo aquilo, que já estava ruim desde o golpe, havia piorado. Agora, esses documentos históricos em forma de correspondência saem compilados por Frei Betto – escritor e religioso dominicano, que assina o prefácio – e Alceu Amoroso Lima Filho, no livro Diário de Um Ano de Trevas, lançado pelo Instituto Moreira Salles (IMS). Mesmo com a diferença de idade, Doutor Alceu e Betto foram amigos por mais de vinte anos. “Eu o considero meu inspirador e mentor”, diz o organizador, na apresentação. Segundo ele, a Ação Católica os aproximou no início da década de 1960 para toda a vida. Certa vez, a Juventude Estudantil Católica (JEC), do qual o frei fez parte com destaque, convidou-o para fazer uma palestra em Belo Horizonte, durante a Semana do Estudante. “Ali, travamos nosso primeiro contato pessoal”. A relação se estreitou a partir de 1962, quando o jovem religioso se mudou para o Rio de Janeiro, com a missão militante de assumir a direção nacional da JEC. Foram vizinhos de rua. Se não bastasse, o destino os uniu numa sala de aula. Dr. Alceu se tornou seu professor de Jornalismo na UFRJ a partir de 1964. A admiração de Frei Betto aumentou quando o veterano militante das causas católicas assumiu publicamente pela imprensa a defesa do grupo de frades dominicanos que foi encarcerado pela ditadura entre 1969 e 1973 por motivações políticas. Dr. Alceu falou deles diversas vezes

ACERVO PESSOAL CARLOS EDUARDO AFONSO FERREIRA

P OR G ONÇALO J ÚNIOR

em sua prestigiosa coluna, reproduzida em jornais de todo País. Ele a assinava com o pseudônimo literário Tristão de Athayde. Por isso, Betto lhe pediu para prefaciar seu primeiro livro, Cartas da Prisão, um dos mais importantes relatos sobre os porões do regime militar entre os anos de 1969 e 1973 e publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1974. Nessa época, os dois iniciaram uma troca de correspondência que durou até a morte de Dr. Alceu, em 1983. “Foi emocionante ler as cartas dele para a filha”, recorda Frei Betto. “Nas colunas, ele era contundente, mas, em conversas privadas, era politicamente moderado. Por serem cartas privadas, nelas estava mais solto”. Dr. Alceu também se mostrou decepcionado pelo rumo que o regime militar tomou. Em especial, pela opressão política e de idéias, agravada pela oficialização da censura a partir de 1967, com a Lei de Imprensa. Também lamentou os rumos da Igreja Católica. Era um Brasil visto pela ótica de um dos brasileiros “mais cultos, coerentes e solidários às vítimas do arbítrio do século XX”, segundo Frei Betto. À filha querida, ele se mostra um intelectual humanista, preocupado com as coisas ruins que acontecem à sua volta. “Somos um país inchado, e não grande, não por culpa do nosso povo pobre, mas dos dirigentes que o exploram de qualquer modo e, agora, particularmente, dessa oligarquia militar puritanística, que julga poder fazer a revolução de que o Brasil precisa, mas como não sabe bem o que quer, fala muito, mas não sabe o que fazer com os seus plenos poderes, a não ser soltar en-

Na foto de meados dos anos 1970, Madre Maria Teresa entre a mãe Maria Theresa Amoroso Lima e o pai Alceu Amoroso Lima. Agachado, Carlos Eduardo Afonso Ferreira (Xikito), neto de Alceu.

xurradas de decretos- leis”, desabafou ele à filha no dia 3 de janeiro de 1969. Na mesma correspondência, acrescentou: “Como todo País mal governado, quanto maior for o número de leis, pior será a qualidade do governo, dizia a velha sabedoria romana, e o estamos vendo em prática nesta pobre terra”. Abadessa de um convento em São Paulo, Maria Teresa dialogava com as preocupações do pai. As cartas de Diário de Um Ano de Trevas fazem parte de um expressivo acervo de trinta anos de correspondência entre pai e filha. Parte dessa troca de mensagens está no livro Cartas do Pai (que reúne correspondências enviadas entre julho de 1958 e dezembro de 1968), publicado em 2003 pelo Instituto Moreira Salles. Agora vêm a público as cartas escritas entre janeiro de 1969 e fevereiro de 1970. A transcrição foi feita pelos irmãos Alceu Amoroso Lima Filho e Madre Maria Teresa, que era chamada pelo pai de Tuca. Sobre esse processo, o filho do escritor contou que a irmã não chegou a ver o projeto finalizado porque faleceu em 2011. “Em 18 de maio de 2010, tínhamos interrompido o trabalho em andamento, Tuca e eu, na sequência do primeiro livro Cartas do Pai, do qual a última carta era datada de 31 de dezembro de 1968”. E acrescentou a surpresa que os dois irmãos tiveram a seguir. “Mal podíamos, ao voltar às cartas de 1969, imaginar a ‘torrente’ de manifestações de revolta, de raiva mesmo, de meu pai, e da efusão de ‘liberdade sufocada’ que teríamos a oferecer ao público, quando resolvemos, finalmente, continuar a leitura das cartas. Conseguimos

trabalhar juntos – ela lendo os manuscritos, e eu digitando, durante mais ou menos dois dias por semana.” Alceu Amoroso Lima ficou mais conhecido como Tristão de Athayde, pseudônimo usado para assinar uma coluna semanal no Jornal do Brasil e na Folha de S. Paulo, famosa por seu combate à ditadura militar que, em 1964, havia tomado conta do País. Mas esse era o homem público. O homem de família, católico praticante, escreveu durante 30 anos, quase todos os dias, cartas para a filha — a Madre Maria Teresa, monja beneditina. Mesmo assim, após comentários familiares, elas mostram um Amoroso Lima em tom mais político, indignado com o regime militar. Além disso, revelam um autor levemente decepcionado com o Papa Paulo VI, que ele considerava vacilante ao enfrentar a Cúria Romana para implantar as diretrizes do Concílio do Vaticano II. Na correspondência, sempre com bom humor, Amoroso Lima ironiza a Academia Brasileira de Letras-ABL, da qual era membro. Revoltava-o, porém, a falta de liberdade de imprensa. Em carta de 9 de fevereiro de 1969, ele escreve: “Leitura descansada dos jornais, embora estes continuem a apresentar o aspecto melancólico e, sobretudo o Correio da Manhã, de uma imprensa autoamordaçada pelo militototalitarismo.” Em seguida, diz concordar com um amigo que, em 1964, afirmou que o País teria pela frente “20 anos de fascismo.” As críticas à Igreja Católica aparecem em cartas como a de 20 de julho de 1969. Dr. Alceu se diz “cada vez mais afastado” dos cardeais brasileiros, que “foram trocar (...) a intervenção da Igreja em favor dos pobres pelo prato de lentilhas do divórcio.” Ainda que fosse contra o divórcio, o escritor afirmava que a Igreja Católica entrava em uma “batalha perdida” – a Lei do Divórcio seria promulgada, finalmente, em 1977. Um mês antes, ele já reclamara por sentirse em “completa oposição à Igreja oficial”, que havia virado uma “potência totalitária”. Em 7 de maio de 1969, o intelectual se queixa da sessão de posse de João Cabral de Melo Neto na ABL, classificada por ele como “pífia”. E considera o discurso de José Américo de Almeida “um desastre”. Todos os dias, ele subia os degraus da mesma agência dos Correios, em Petrópolis, na Rua do Imperador, para postar correspondência à filha. Reclamou a vida inteira da falta de um corrimão na escada da agência. Morreu sem ser atendido. E sem ver o País de volta ao regime democrático.

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FOTOJORNALISMO

Mais verdade, menos manipulação O craque Ricardo Leoni fala de sua trajetória profissional, ao mesmo tempo em que sai em defesa de fotografias mais reveladoras. P OR P AULO C HICO

“Como é bom sentir o calafrio até que o filme seja revelado”. A sentença, proferida pelo fotógrafo Ricardo Leoni, traduz, se não o todo, boa parte de seu perfil profissional. Aos 60 anos de idade, 36 de atividades por detrás das câmeras, ele é um dos mais respeitados repórteres fotográficos do Rio de Janeiro – e do Brasil. Por pouco, muito pouco mesmo, não trocou a arte de clicar pela de tocar. “Cheguei à universidade, mas tranquei a minha matrícula na Faculdade de Agronomia. Estudei música no Instituto Villa-Lobos, toco contrabaixo, violão e bateria. Estudava música, mas ouvia sempre dos familiares que ‘ser músico é ser um ninguém na vida’. Daí eu resolvi ‘ser alguém na vida’. Já gostava muito de fotografia, e comecei fazendo fotos para publicidade, usando lâmpadas Photoflood. Se não fosse fotógrafo, acho que seria mesmo músico, artesão, ou atuaria em qualquer atividade relacionada com a arte e o conhecimento”, contou Ricardo ao Jornal da ABI sobre seu início. A frase que abre este perfil revela o sentimento comum à maioria dos fotógrafos da geração de Leoni – um pessoal de talento, que desembarcou imberbe nas Redações no final da década de 1970. “Quando começamos, é claro, não havia o processo digital, no qual não acho muita graça, porque não te desafia. As câmeras são automáticas, fazem parte do trabalho sozinhas e, ainda por cima, você vê o resultado na hora. Perde-se o momento mágico da revelação – no sentido mais amplo da palavra. E ainda tem o polêmico Photoshop, para manipular e alterar. Hoje, parte dos colegas está mais preocupada 26

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em aprender o Photoshop do que a Fotografia propriamente dita...”, lamenta. Com passagens pelo Luta Democrática, Diários Associados, Jornal do Brasil, O Dia e com prêmios pelo Society News Design – com a foto ‘Enchente no Rio’, na primeira página de O Globo – e pela Siemens – no registro Luz, Samba e Carnaval – Ricardo Leoni atua hoje apenas como freelancer. Um retrato do momento complicado pelo qual passa o mercado. “Nosso trabalho, atualmente, não é valorizado. Agora inventaram os ‘times’: há um ‘time’ da Cidade, outro do Esporte , do Suplemento, o que limita muito a área de atuação. O cara só faz uma coisa...”, descreve ele, apontando um cenário de certo empobrecimento das Redações. “Os temas com os quais lidamos, no cotidiano, são diversos e complexos. Estamos imersos no tumulto do mundo, incorremos a erros, e o jornalismo só vale a pena se exercido com disposição críti-

RIO ENTRA EM COLAPSO EM MAIS UMA ENCHENTE Registro feito no bairro do Jardim Botânico, em 19 de janeiro de 1998, ganhou o Prêmio News Design Society. “Anoitecia, tive que usar um filme 800 ASA e dobrado para 1600. Estava com água na cintura, o vento puxando o guardachuva para trás, o que me impedia de segurar, com firmeza, a câmera. Larguei o dito e apertei o disparador a 1/60s no momento em que o motorista abandonava o carro. Foto publicada também na primeira página de O Clarín.”

ca e independência. O que torna atraente trabalhar num jornalão é aquele aparente caos, cada editoria com suas características e exigências próprias, e temos que ‘matar um leão todo o dia’. Os concorrentes fazem quase as mesmas pautas. As primeiras páginas são coladas no mural da Redação pelos editores, para comparação, cujo traço definidor são os pontos positivos e negativos. Muitos colegas partiram para vôo solo por causa do estrangulamento no mercado de trabalho. É fundamental a interação entre repórter e fotógrafo, até porque o repórter fotográfico tem que saber escrever, fazer uma legenda – que nada mais é do que o resumo da matéria. Hoje, o repórter apura a matéria pelo telefone, e a manda para

COMO UMA ONDA NO MAR Ressaca no mar do Rio, um fenômeno não exatamente raro na costa fluminense. Mas valorizado ao extremo pelo registro de Ricardo Leoni. “É preciso esperar e prever o momento certo, o momento decisivo. As ondas se formam em sequência, e observei que geralmente as duas últimas são as mais fortes. Para essa foto, esperei o momento certo, enquanto o sujeito estava distraído e tentando, ele também, fotografar a ressaca”.


DE VOLTA AO PASSADO Rio 2000, especial para a revista Domingo, do Jornal do Brasil. ‘A Cidade Tem Projetos Para o Futuro’. Este era o título da matéria, que fazia referências a projetos, tanto do poder público quanto da iniciativa privada, para transformar a cidade num pólo cultural. “Para ilustrar a matéria a Redação conseguiu essa maquete, que chegou sem cor. Dada a importância e o tratamento da matéria, era preciso fazer uma foto à altura do texto. Resolvi usar a técnica da dupla exposição, ou seja, fotografar duas ou mais imagens, no mesmo fotograma. Decidi pintar a cena com luz, usando apenas uns acetatos coloridos: papel celofane, vendido em qualquer papelaria...”

RAIO LASER PARA ORFEU

FOGO E ÁGUA NO CARNAVAL

Clique feito em 23 de julho de 1987. Pela primeira vez o francês Pierre Louis Saget usou o raio laser para iluminar a peça Orfeu, no Teatro Municipal do Rio. Para o projeto, convidou o brasileiro Maneco Quinderé, à direita da foto. “Tive que improvisar um canhão de luz para iluminá-los. Usei um jornal enrolado, com um flash Metz, em modo manual. Tentei acertar o rosto dos dois. Fiz inúmeras tentativas. Tive que esperar o filme ser revelado. O resultado aí está”.

A destaque do carro alegórico Carrossel da Beija-Flor, em 1989, não queria abandonar o posto, ainda que evidentemente ameaçada pelo fogo. Suportando o jato d’água, ela seguiu até o fim do desfile, numa prova irrefutável de amor à escola. A Beija-Flor, sempre uma das favoritas, perdeu pontos pelo incidente – e acabou levando apenas o vicecampeonato.

quem estiver de plantão. No nosso jargão, ‘embrulha’ e manda.” ‘Embrulhar’ e mandar nunca fez a cabeça de Leoni. “Gosto de fotografar a ação, aquela fração de segundo que o olho não foi capaz de enxergar, de mostrar o movimento, gosto de confusão... Fui inspirado por três pessoas que foram grandes editores: Erno Schnneider, Anibal Philot e Alberto Ferreira. Além de atuarem como editores, sabiam fotografar, e muito. Saíam com as equipes em grandes coberturas, e certamente alguma foto da edição sempre era deles, que pegavam sobras de equipamentos, apenas uma câmera sem motor e uma meia tele, matavam a cobra e mostravam o pau! Todo mundo tinha que ficar de olho neles, que estavam sempre alertas. Diferente da maioria de hoje, com editores intitulados ‘gestores’, na verdade um misto de gerente com ‘cão de guarda’ do patrão. É a equipe que os carrega nas costas. Afinal eles sabem tudo, menos fotografar”, provoca. “Os tempos estão muito difíceis. Agora todo mundo tem câmera, mas poucos são fotógrafos de verdade. Tem muita gen-

te vendendo fotos por três reais, e com o suposto fim da mídia impressa o mercado afunilou, sem falar no monopólio dos feudos familiares que dominam nossa mídia, que cada vez mais explora os profissionais. Hoje temos os chamados repórteres multimídia. O mesmo cara assovia, escova os dentes e mastiga cana. Tudo ao mesmo tempo – e a qualidade fica em segundo plano. Vivemos sob o domínio da mídia que não forma cidadãos críticos. A maioria absoluta forma consumidores e moleques, e é dominada por grupos familiares que tratam a informação como uma mercadoria qualquer. A Mídia Ninja é apenas um embrião que, se bem direcionado, me faz lembrar a lacuna que a mídia estabelecida deixou com o desaparecimento da imprensa alternativa. Com a ajuda da internet e das redes sociais, ela poderá se transformar numa ferramenta poderosa. E benéfica para a sociedade”, aposta Ricardo Leoni. Ele diz que aprendeu seu ofício a partir da observação de mestres, alguns deles já citados, somados a nomes como Klaus

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FOTOJORNALISMO MAIS VERDADE, MENOS MANIPULAÇÃO

UMA CÂMERA NA MÃO, UMA IDÉIA NA CABEÇA Benin, África. “Fui o primeiro fotógrafo a ganhar viagem de prêmio, que só era dada aos editores e repórteres especiais. Eu estava estafado após dar meu curso de iluminação, cor e teoria das cores aos 42 funcionários da fotografia de O Globo. Ao contrário do que me pediram, para levar apenas uma xereta, enchi a bolsa de equipamentos e filmes e lá fui eu. Foi uma imersão no passado histórico deste povo, um dos maiores entrepostos do comércio de escravos do mundo. Foi doloroso constatar que os habitantes do Benin, cuja língua é o francês, ao se aproximarem da gente revelam sempre uma doçura no olhar, que contrasta com a penúria em que vivem”.

Meyer e Dick Welton. Mas não só a partir do exemplo prático se molda um grande profissional. “A fotografia para mim, e principalmente o fotojornalismo, requer muito estudo, apuro técnico, visual, literário e conhecimento de História Geral. Preciso do maior número de informações sobre o que, ou quem vou fotografar, sem contar com a sintonia com os repórteres. Saber o que ele procura, ler o que ele escreveu... Isso ajudou muito a aprimorar a minha escrita e o meu olhar sobre as coisas. E entender que a legenda da foto tem que ser um resumo da matéria”. Ricardo aprendeu. E teve atuação bastante diversificada. Realizou produções para a Shell, Gillete, Banco do Brasil, IBM, Brahma, Emater e Ministério das Relações Exteriores. Por este último, viajou por 17 capitais nacionais, fotografando o tema Brasil: Raízes Culturais, Economia e Turismo, num projeto que tinha como objetivo divulgar o País no exterior, com títulos editados em quatro idiomas. Como free lancer, emprestou seu talento para a Abril, Folha de S.Paulo e Estadão, além da famosa gráfica Thomas De La Rue, para registrar a presença da Princesa Anne, da Inglaterra, em terras brasileiras, em 1986. “No estúdio me sentia um tanto isolado, eu queria era participar do processo histórico e cultural, me sentir mais útil diante da complexidade e dos problemas da nossa sociedade. Por isso, acabei optando pelo fotojornalismo, incentivado e influenciado pelos grandes fotojornalistas Erno Schnneider e Anibal Philot”. A estréia em O Globo ocorreria em 1984. “Isso coincidiu com a reforma gráfica do jornal, e o início do processo de impressão a cores. Havia muita perda de 28

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RÁPIDO E RASTEIRO O piloto Alexandre Barros durante disputa no GP de Moto velocidade de 1995, em Jacarepaguá, zona Oeste do Rio. “Este é um tipo de foto complicada... Quanto mais perto, mais difícil é cravar o foco no objeto, devido à pouca profundidade de campo e à alta velocidade da moto”.

fotos. A equipe, embora muito boa, não tinha domínio técnico. Eles estavam acostumados a fotometrar e a fotografar em PB. Foi também quando a Kodak deu uma série de workshops sobre impressão a cores, em várias áreas da empresa. Daí, fui indicado para dar o curso de iluminação e cor. Montei um estúdio no palco do auditório. A solução foi projetar os cromos que fiz das diversas posições da luz na natureza, explicando que os pintores captavam essas luzes, para criar seus quadros, usando apenas um back Polaroid na minha câmera Hasselblad. Depois repro-

duzi e projetei num telão os quadros dos pintores mais famosos. Tendo a nossa secretária como modelo, eu a iluminava, exatamente com as mesmas luzes captadas pelos pintores. Depois, a fotografava e mostrava o resultado com a Polaroid, na hora. Até o Roberto Marinho, que adorava pintura, estava se dirigindo ao seu gabinete, que ficava no mesmo andar, e numa das aulas, estancou na porta. Ficou contemplando as imagens, ouvindo o papo.” Pena que dentre os numerosos fotógrafos ali reunidos nenhum tenha ousado a ponto de registrar o ‘doutor’ Roberto embevecido pelos segredos do processo de captura de imagens. Afinal, produzir memória é uma das tarefas primeiras do fotojornalismo. Como bem define o próprio Ricardo Leoni. “As coisas das quais nos ocupamos na fotografia estão em constante desaparecimento. Uma vez desaparecidas, não dispomos de nenhum recurso capaz de fazê-las retornar. Não podemos, apenas com o olhar, copiar ou eternizar uma lembrança. Creio que a foto mais impactante ainda está por ser feita. Podemos ter feito uma grande foto hoje, mas ela expira nesse mesmo dia, ou até amanhã, depois que o leitor viu a página. Aí, já é hora de tentar fazer outra de novo.”


CENTENÁRIO

Linhas e colunas formadas por quadrados em branco que devem ser preenchidos por letras que formem vocábulos que se cruzam uns com os outros, tanto na vertical como na horizontal. Com 16 letras. Qualquer fã de palavras cruzadas já sabe que estamos falando de... palavras cruzadas. É impossível determinar com precisão quando nasceu este milenar passatempo. No Egito Antigo (sempre lá), há registros de uma brincadeira parecida já no século 12 a.C, com uma considerável dificuldade adicional: ao invés de letras convencionais, desconhecidas na época, os egípcios tinham de cruzar hieróglifos para se divertir. Não devia ser nada fácil. Mais “recentemente”, no século 4 a.C., os romanos passavam o tempo com o “laterculus”, um jogo que consistia não apenas em cruzar palavras simples, mas em cruzar palíndromos, ou seja, todos os vocábulos deveriam ser lidos tanto no sentido normal como no inverso. Arqueólogos descobriram o jogo através de inscrições nas paredes da cidade de Pompéia. Vários passatempos que consistiam em cruzar palavras ludicamente foram registrados no decorrer dos séculos, cada qual com suas variações e regras. Nas edições de novembro e dezembro de 1762 da revista mensal inglesa London Magazine podem ser observadas brincadeiras com acrósticos, palavras formadas por iniciais de outras palavras. Em 30 de agosto de 1856 o também inglês Illustrated London News publica um passatempo de acrósticos duplos, e três anos depois a revista acadêmica Notes and Queries (sim, inglesa) divulga um jogo onde palavras que se unem por uma letra formam um quadrado. Porém, as palavras cruzadas da maneira que as conhecemos hoje têm nome, data e lugar de nascimento: elas surgiram como “Word-Cross Puzzle” pela primeira vez na edição de 22 de dezembro de 1913, no jornal New York World, que circulou entre 1862 e 1931. Seu autor? Claro, um inglês: Arthur Wynne, o responsável pela página denominada “Fun” (diversão) do jornal, nascido em Liverpool, que emigrara para os Estados Unidos ainda adolescente. Ele criou uma espécie de quebra-cabeças em formato de losango, já com as letras F, U e N impressas na linha de cima. Através de dicas prévias, os leitores completariam os significados das demais palavras, até o preenchimento total do losango. Pronto, estava feito o desafio! Um pouco mais tarde, a utilização de quadrados pretos que não deviam ser preenchidos também foi uma invenção do conterrâneo dos Beatles.

O desafio das palavras que se cruzam Passatempo que se popularizou no jornalismo impresso, as Palavras Cruzadas completam 100 anos. P OR C ELSO S ABADIN

A primeira Palavra Cruzada

Fill in the small squares with words which agree with the following definitions: 2-3. What bargain hunters enjoy. 4-5. A written acknowledgement. 6-7. Such and nothing more. 10-11. A bird. 14-15. Opposed to less. 18-19. What this puzzle is. 22-23. An animal of prey. 26-27. The close of a day. 28-29. To elude. 30-31. The plural of is. 8-9. To cultivate. 12-13. A bar of wood or iron. 16-17. What artists learn to do. 20-21. Fastened. 24-25. Found on the seashore. 10-18. The fibre of the gomuti palm. 6-22. What we all should be. 4-26. A day dream. 2-11. A talon. 19-28. A pigeon. F-7. Part of your head. 23-30. A river in Russia. 1-32. To govern. 33-34. An aromatic plant. N-8. A fist. 24-31. To agree with. 3-12. Part of a ship. 20-29. One. 5-27. Exchanging. 9-25. Sunk in mud. 13-21. A boy.

O sucesso foi grande, e poucas semanas depois o nome da brincadeira foi definitivamente alterado para “CrossWord”, expressão que o prestigiado Oxford English Dictionary registraria como oficial do idioma de Shakespeare já em 1914. Pesquisadores mais puristas, porém, argumentam que várias revistas direcionadas ao público infanto-juvenil, publicadas na segunda metade do século 19, traziam jogos e brincadeiras muito similares às “cross-words” de Wynne. Entre elas a St. Nicholas: an Illustrated Magazine for Young Folks, uma conhecida revista norte-americana da época. Mas, de qualquer maneira, os louros da glória histórica ficaram registrados mesmo com Arthur Wynne. Nos EUA, o mundo das palavras cruzadas já produziu até uma celebridade: Will Shortz, que desde 1993 ocupa o cargo de Editor de Palavras Cruzadas (sim, isto existe) no famoso New York Times. Profundo estudioso do assunto, Shortz tem mais de uma centena de livros publicados, é assíduo freqüentador de talk shows da tv norte-americana, e foi o criador das enigmáticas perguntas com as quais o personagem Charada (vivido por Jim Carrey) desafiava Batman no filme Batman Eternamente, de 1995. Em 2008, Shortz alcançou a glória máxima do mundo da arte popular norte-americana: foi retratado num episódio de Os Simpsons. Em tempo: o New York Times paga aos seus colaboradores até Us$ 1.200 por uma boa palavra cruzada, se publicada. Maior país da América do Sul, com 6 letras Sucesso em todo o mundo, as “crosswords” também foram bem recebidas no Brasil, rebatizadas como palavras cruzadas. E ao contrário do que possa parecer, trata-se de um assunto sério, embora esteja sempre nas seções consideradas menos sisudas dos jornais. A profissão tem até nome: cruciverbalismo, e os profissionais que nela trabalham são os cruciverbalistas. Há uma razoável oferta de dicionários sobre o tema publicados no país. O dicionarista e pesquisador Mar-

cos Carvalho afirma que o primeiro jornal brasileiro a publicar o passatempo foi o carioca A Noite, em 22 de abril de 1925. E a primeira revista brasileira totalmente dedicada ao assunto foi A Gazeta Recreativa, criada em outubro de 1950 por Owen Ranieri Mussolin, um funcionário do Banco do Estado de São Paulo que abandonou o emprego para se dedicar integralmente à sua paixão por jogos e charadas. A grande imprensa também passou a dar atenção especial ao tema. A Folha de S.Paulo, por exemplo, mantinha profissionais contratados exclusivamente para criar suas palavras cruzadas. Um dos mais destacados foi Júlio Moncorvo, que tinha por hábito criar palavras cruzadas que usavam termos que haviam sido destaque na edição do jornal do dia anterior. Outro cruciverbalista notório é Euro Oscar, figura que se tornou folclórica na noite paulistana percorrendo bares da Vila Madalena, região boêmia da capital, vendendo livros e apostilas contendo os mais variados tipos de informações e curiosidades. Charadista, pesquisador e colecionador de frases, Oscar cria palavras cruzadas desde os anos 1960 quando, com apenas 14 anos de idade, começou a publicar seus passatempos na finada Bondinho, uma revista de dicas sobre a cidade de São Paulo distribuída pelo Grupo Pão de Açúcar. Aos 18 anos foi Campeão Brasileiro de Palavras Cruzadas e durante quase 20 anos trabalhou para as revistas Coquetel e Recreativa, especializadas no assunto. Atualmente dedica-se aos estudos holísticos, sua maior paixão. Em décadas passadas, reza a lenda que até o escritor Manuel Bandeira já havia se arriscado a criar algumas palavras cruzadas, mas o ofício hoje é restrito a alguns professores, estudantes e profissionais liberais de diversas áreas que a Ediouro, a maior editora brasileira especializada em passatempos e dona da marca Coquetel, chama de “construtores” e utiliza como colaboradores em suas revistas. Serviço não falta, pois a cada 15 dias a editora distribui nas bancas de jornais de todo o País algo em torno de 60 diferentes títulos com passatempos de diversas formatações, e com vários níveis de dificuldade. Um trabalho, porém, que já conta com a cada vez mais indispensável ajuda da informática: um software totalmente brasileiro chamado Kurupira Crossword que auxilia na criação e desenvolvimento de palavras cruzadas dos mais diferentes níveis de dificuldade. Taí uma ajuda providencial. Afinal, ninguém é feito daquele elemento químico de número atômico 26, com 5 letras.

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VIDAS PIETRO FANTAPPIÊ / AGÊNCIA O GLOBO

Dom Waldyr Calheiros em 1961 na Igreja de São Francisco Xavier.

Dom Waldyr Calheiros, o bispo de sangue P OR I GOR W ALTZ

Foi enterrado, na tarde do dia 2 de dezembro, o corpo do bispo emérito da Diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda, dom Waldyr Calheiros Novaes, de 90 anos. O religioso, que ganhou notoriedade por sua luta na defesa dos direitos humanos, morreu em decorrência de falência múltipla dos órgãos, no dia 30 de novembro. O sepultamento aconteceu na Igreja Santa Cecília, no bairro da Vila Santa Cecília, Volta Redonda. O velório foi realizado durante o fim de semana na Igreja Nossa Senhora da Conceição, no bairro do Conforto, por onde passaram centenas de fiéis e admiradores. No local,

foi celebrada uma missa de corpo presente pelo atual bispo da Diocese, Dom Francisco Biasin. Em seguida, uma procissão acompanhou o corpo até o local do sepultamento. Dom Waldyr estava internado com infecção pulmonar na UTI de um hospital particular de Volta Redonda há cerca de duas semanas. O bispo emérito era alagoano de Murici, onde nasceu em 29 de julho de 1923. Tornou-se padre em 1948 e foi empossado em 1966 como bispo da Diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda, posto que ocupou até 2000, quando completou 75 anos. Mesmo aposentado, ele prometeu seguir na luta em favor dos pobres.

A vida de Dom Waldyr foi de constante envolvimento com as causas sociais, participação que começou durante o período da ditadura, em especial na defesa dos trabalhadores. Nos 34 anos à frente da diocese, participou de atos públicos contra a violência e condenou a impunidade e a tortura. Teve importante atuação nas negociações para o fim da histórica greve dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional-CSN, em 1988, quando três operários foram assassinados pelo Exército. A luta por justiça e igualdade lhe rendeu homenagens de grupos ligados à defesa dos direitos humanos. À frente da Diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda, ganhou o apelido de “bispo de sangue”, em virtude das lutas, por meio da Igreja, pelos menos favorecidos. Ficou conhecido também por ter feito, por conta própria, mesmo sem autorização de seus superiores, uma “reforma agrária”, distribuindo terras da Igreja Católica para famílias pobres da cidade de Pinheiral, também no Sul do estado. A prefeitura de Volta Redonda decretou luto oficial de três dias. “Perdemos um grande homem. Uma figura de extrema importância para o nosso povo e para o nosso País, na luta a favor dos mais fracos. Ele vai ficar para sempre em nossa memória”, disse o Prefeito Antônio Francisco Neto (PMDB). A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota lamentando a morte do bispo. “‘Felizes os mortos, os que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que eles descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham’ (Ap 14,13). Neste momento de dor, a CNBB manifesta solidariedade à família de dom Waldyr Calheiros Novaes, à Diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda e ao bispo diocesano, dom Francisco Biasin”, diz a nota. A CNBB destaca ainda, em outro ponto do texto: “Em oração, agradecemos o dom da vida e ministério deste nosso irmão que tanto se dedicou à Igreja no Brasil, reafirmamos nossa fé na Ressurreição e a certeza de que ele descansa de suas fadigas, na paz eterna do Senhor, pois suas obras o acompanham”.

O conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa, seccional São Paulo, Reginaldo Dutra, faleceu no dia 2 de novembro, em São Paulo. O corpo foi velado no Cemitério da Vila Alpina, no dia 3. O velório contou com a presença de parentes, amigos, escritores e de Rosani Abou Adal, que representou a entidade. Jornalista profissional, escritor, editor e assessor de imprensa de várias empresas e entidades de classe, nasceu em 27 de janeiro de 1935, na cidade de Baturité, Ceará. Foi um dos fundadores dos jornais literários Presença do Livro, que circulou na década de 1970, e Símbolo. Colaborou em jornais de São Paulo e foi diretor da ETAP – Editorial, Assessoria e Planejamento. Exerceu o cargo de diretor da União Brasileira de Escritores-UBE em várias gestões. Autor do livro de

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contos Garoto de Baturité, em 1983, pela Editora Soma, São Paulo, entre outros livros. Fundou e dirigiu a RG Editores, em 21 de julho de 1987, que publicou mais de 300 títulos de autores novos e consagrados, nas áreas de direito, romance, poesia, conto, finanças, marketing e livros institucionais para empresas e entidades de classe. Desde 1997 firmou sociedade com o filho João Dutra, que dará continuidade aos projetos da empresa.

ACERVO DA FAMÍLIA

Reginaldo Dutra, o editor de livros

Lúcio Natalício Clarindo, o repórter O corpo do repórter Lúcio Natalício Clarindo, 59 anos, foi enterrado no dia 15 de novembro, no cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Um dos mais atuantes jornalistas policiais da imprensa carioca, Natal, como era carinhosamente chamado, acumulou 38 anos de carreira no jornalismo, sendo 35 anos no jornal O Dia. O repórter morreu no dia 14, no hospital São Vicente de Paulo, na Tijuca, Zona Norte da cidade, onde estava internado há cerca de um mês com quadro de cirrose hepática. Ele deixa a viúva Regina Lima e a filha Amanda Raiter, também repórter de O Dia. Nos anos 1980, o trabalho de investigação de Natal contribuiu para o julgamento do general Newton Cruz, exchefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante a ditadura militar. O jornalista descobriu o bailarino Cláudio Werner Polila, que testemunhou contra o militar pelo seqüestro e morte do repórter Alexander Von Baumgarten. “Fiz o meu trabalho de reportagem. Se o júri o inocentou, não posso fazer nada”, afirmava Natal, quando comentava o assunto. Também na década de 1980, Natal foi raptado pelo bandido Maurinho Branco, quando investigava o caso do seqüestro do empresário Roberto Medina, cometido pelo mesmo criminoso. Repórter especializado em polícia, buscava informações sobre o caso Medina quando foi rendido por Maurinho Branco. Durante as horas em que permaneceu sob a mira de um revólver, negociou com o Bope, tranqüilizou o bandido e conseguiu ser solto. O título da reportagem foi “Eu, refém”. Natal iniciou a carreira em 1973. Em maio de 2012, lançou o livro O Baú do Natal – Histórias Fantásticas Reais Contadas por um Repórter. “Natal é uma fonte de inspiração, um dos jornalistas mais apaixonados por Redação que conheci”, disse Aziz Filho, diretor de Redação de O Dia. Emocionada, Amanda Raiter agradeceu a homenagem de dezenas de pessoas que compareceram ao enterro. “Éramos uma multidão com um certo vazio. De todos os tipos, do mais iniciante na carreira ao mais bem sucedido, que ainda representava outros também. Do ‘foca’ ao diretor que não foram. Também tinha o do contato mais breve aos com anos de convivência. Não há como expressar nem a gratidão, nem o conforto. Mas eu tenho, sim, um legado de amigos dele, de fãs dele”, disse Amanda.


Petrônio Corrêa, o Coronel da publicidade CARLA ROMERO/VALOR ECONÔMICO/AGÊNCIA O GLOBO

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Foi enterrado no dia 2 de dezembro, no Cemitério Gethsemani-Morumbi, em São Paulo, o corpo de Petrônio Corrêa, um dos maiores nomes da publicidade brasileira. Corrêa morreu no dia 1º, no Hospital Oswaldo Cruz, vítima de parada cardíaca. Nascido em São Sepé, no Rio Grande do Sul, ele completaria 85 anos no dia 28 do mesmo mês. De acordo com seu filho, Petrônio Corrêa Filho, o publicitário sentiu uma forte dor no peito na manhã de 1º de dezembro, em casa, e foi levado ao hospital, onde morreu às 12h12. O filho diz que ele sofreu uma queda há dois meses, quebrou uma costela e teve algumas complicações de saúde. O presidente do Sindicato das Agências de Publicidade de São Paulo (SinaproSP), Geraldo de Brito, lamentou a morte de Corrêa. “Sua partida deixa uma grande lacuna no mercado, aquela que só pode ser ocupada pelos homens de grande expressão e líderes que fazem história. Ele deixa um legado que ajudou a transformar a trajetória da publicidade, e sem sua participação talvez o mercado não tivesse alcançado o nível de profissionalização que possui hoje”, afirmou em nota. A ativa participação em entidades do mercado foi um traço marcante na carreira de Corrêa, um dos expoentes da geração que trabalhou pela profissionalização e valorização da atividade publicitária no Brasil. Ele foi presidente da Associação Brasi-

leira de Agências de Publicidade (Abap) entre 1979 e 1981 e participou do grupo que fundou o Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária (Conar), tendo sido seu primeiro presidente, entre 1981 e 1988. Foi também o primeiro presidente do Conselho Executivo das Normas-Padrão (Cenp), fundado em 1998, e comandou a entidade por 11 anos. O papel de Corrêa na consolidação do mercado publicitário brasileiro também foi destacado por Gláucio Binder, presidente da Federação Nacional das Agênci-

as de Propaganda (Fenapro). “Sua participação para a estruturação do Conar, para o estabelecimento das Normas Padrão e a fundação do Cenp foi decisiva para que o mercado nacional tenha atingido o nível de qualidade com que é reconhecido no mundo inteiro. A Fenapro e as agências do Brasil devem muito ao nosso eterno ‘Coronel’, como era conhecido”. Liberdade de anunciar

A carreira de Corrêa foi marcada especialmente pela defesa da profissão de publi-

citário e da liberdade de anunciar. Seu primeiro emprego no mercado de comunicação foi em 1948, então com 20 anos, como redator do jornal A Nação, de Porto Alegre. Sua entrada para o setor de agências se deu em 1954, como gerente da filial gaúcha da Grant Advertising. Em 1957, ao lado dos sócios Luiz Macedo e Antonio Mafuz, Corrêa fundou a MPM Propaganda. A empresa ganhou fôlego nos anos 1960 graças à publicidade estatal. Até então, o setor de publicidade no País era dominado por empresas estrangeiras. A primeira conta pública obtida pela MPM foi da Caixa Econômica, durante o governo João Goulart. Depois vieram Banco do Brasil, Eletrobras e Petrobras. O bom relacionamento com Brasília se manteve durante o governo militar. Em 1965, a empresa transfere-se de Porto Alegre para São Paulo. Uma década mais tarde, tornou-se a maior agência do País, liderando o ranking brasileiro por 15 anos. A virada veio na crise gerada pelo Governo Collor, em 1991, quando a MPM foi vendida para o Grupo Interpublic, que a fundiu com a Lintas. Em 2010, recebeu uma homenagem especial do Prêmio Caboré, por sua contribuição ao mercado brasileiro. No ano passado, Corrêa teve sua biografia narrada no livro No Centro do Poder, da jornalista Regina Augusto. Em agosto de 2013, Corrêa pediu desligamento completo do Conselho Consultivo do Cenp, instância que presidia desde dezembro de 2009, quando passou a presidência executiva a Caio Barsotti, atual ocupante do cargo.

Fernando Zerlottini, o colunista social P OR I GOR W ALTZ

Morreu no dia 24 de novembro, em Juiz de Fora, o jornalista Fernando Zerlottini. Considerado um dos grandes nomes do colunismo social, o jornalista teve passagens por jornais e revistas mineiros e cariocas, com um estilo que unia acontecimentos da alta sociedade e notícias da cidade e do País, que ajudou a influenciar as gerações posteriores de colunistas. Zerlottini faleceu após uma cirurgia para drenar um edema cerebral, decorrente de uma queda em frente à sua casa. O sepultamento aconteceu no domingo, no Cemitério Municipal de Juiz de Fora. Zerlottini ingressou no jornalismo ainda na adolescência. Em 1948 foi convidado por um colega de turma do colégio a ingressar como redator no Diário Mercantil, jornal de Juiz de Fora ligado ao grupo Diários Associados. Mesmo depois de formar-se em Direito, continuou sua carreira como jornalista. Foi redator do jornal Folha Mineira e

mais tarde redator-chefe da sucursal em Juiz de Fora da revista semanal Binômio, editada em Belo Horizonte. Nos anos 1970, muda-se para o Rio de Janeiro, onde teve passagens por revistas como Manchete e Desfile. Tornou-se redator de O Globo e mais tarde um dos titulares da Coluna Carlos Swann, até os anos 1980. Manteve uma coluna no Jornal do Commercio até 2003, quando se aposentou definitivamente. Em 2011, voltou a morar com as irmãs em Juiz de Fora. Zerlottini era conhecido principalmente como um descobridor de talentos, entre eles Fernando Gabeira e Anna Ramalho. Para Ivanir Yazbeck, que iniciou sua carreira junto com o jornalista na Binômio, Zerlottini introduziu em Minas Gerais um modelo de jornalismo menos calcado na opinião e mais na informação. “Tive o raro privilégio de me iniciar no Jornalismo seguindo os ensinamentos de Fernando Zerlottini. Mais tarde, nos reencontramos novamente na Redação de O Globo, ele como colunista de prestígio, e eu, diagramador. Zerlottini

ocupava lugar de destaque nessa lista, respeitado por todos pela seriedade e ética, e pela cultura geral, especialmente nas áreas da literatura e da música clássica”. Cesar Romero, colunista do jornal Tribuna de Minas, explica que Zerlottini representou o crescimento e a credibilidade do colunismo nacional. “No início da década de 1980, Zerlottini proporcionou a este colunista o privilégio de circular em elegantes festas no Rio e participar de importantes rodas sociais. Mas ele sempre atuou de maneira séria, sem nunca se valer dessa condição para tirar proveito próprio”, afirma. Anna Ramalho, que trabalhou no início da carreira com o colunista na Coluna Carlos Swann, conta que ele foi quase esquecido depois que deixou o espaço. “Zerlottini foi o côté Swann mais sociável e social, que encarava os jantarecos chatíssimos, os coquetéis quase diários, os casamentos que só têm graça para os noivos e seus pais... Foi esquecido por todos quando saiu

do jornal. Exceção feita a literalmente uma meia dúzia de pessoas daqueles tempos de glória”. Diretor de Jornalismo da ABI, o fotógrafo Alcyr Cavalcanti trabalhou com o colunista em O Globo nos anos 1980. E ressalta que, mesmo noticiando acontecimentos da alta sociedade, Zerlottini sempre manteve uma postura crítica. “Trabalhei com ele para a coluna Carlos Swann, que era muito lida e comentada inclusive entre os mandatários do poder. Nossas relações eram as melhores, visto já ter experiência de ter trabalhado com Hildegard Angel e Reinaldo Loy. Ele não exigia nada, deixava meu trabalho à vontade. Sua formação ‘de esquerda’ facilitava nosso contato. Ele não era somente um colunista, mas um crítico do chamado high society e da sociedade brasileira”, relembra Cavalcanti. Apaixonado por literatura e música clássica, Zerlottini foi autor do livro Assis Pacheco: Nossa Voz, uma biografia do cantor lírico brasileiro Armando de Assis Pacheco. JORNAL DA ABI 396 • DEZEMBRO DE 2013

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