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Os “autos de resistência” à prisão encobrem um grande morticínio: em 4 Estados foram assassinadas 3.086 pessoas em 18 meses. PÁGINA 30

386 J ANEIRO 2013

ÓRGÃO OFICIAL DA A SSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA

FOTO IMS/DIVULGAÇÃO

FRANCISCO UCHA

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Rubem Braga: os 100 anos do Sabiá da crônica, um grande amante PÁGINA 3

VIDAS LEDO IVO


EDITORIAL

DESTAQUES TÂNIA RÊGO/ABR

03 HOMENAGEM - Esse cara é Rubem Braga ○

06 HOMENAGEM - Tônia Carrero, musa na forma e no conteúdo ○

08 TELEVISÃO - A Rede Globo mostra seu poderio ○

09 LEMBRANÇAS - Às margens do Sena, por Rodolfo Konder ○

10 CENTENÁRIO - Evandro, o repórter que se tornou o maior advogado criminalista do Brasil ○

12 HISTÓRIA - O Patriota: há 200 anos, referência na imprensa do Brasil ○

14 MEMÓRIA - A ABI vai digitalizar suas publicações ○

14 CALENDÁRIO - Este é um ano de muitas comemorações ○

KIM JONG-UN. CARICATURA DE DALCIO PUBLICADA NA REVISTA

VEJA. A CORÉIA DO NORTE PROTAGONIZOU UM DOS FATOS MARCANTES DO ANO DE 2012.

JACAREZINHO, OUTUBRO DE 2012

MORTICÍNIO ASSUSTADOR MAURÍCIO AZÊDO

SÃO ESTARRECEDORES, AINDA que apenas parciais, os números divulgados pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República acerca dos assassinatos cometidos em quatro Estados por agentes policiais, que em 18 meses mataram 3.086 pessoas, das quais 2.986 em episódios registrados como “autos de resistência” e 100 em outras ações.

das pelas autoridades de segurança dos Estados com vista ao enfrentamento das causas desse morticínio, inadmissível num país que, como o nosso, está a edificar um Estado Democrático de Direito. Num Estado com esse perfil, o bem mais precioso é a vida, que deve ser protegida sobretudo contra os abusos e as violências do próprio Estado e seus agentes.

ALÉM DOS NÚMEROS EM SI, de magnitude assustadora, é igualmente estarrecedora a circunstância de que esses números se referem apenas àqueles Estados – Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul – que divulgam amplamente o número de mortes decorrentes de atos praticados por policiais civis e militares. Somados a esses números os das 23 Unidades da Federação que se fecham em copas a esse respeito, estamos diante de um genocídio, que vitima sobretudo os segmentos mais desfavorecidos da população: os jovens, os negros, os moradores da periferia das grandes cidades.

SERIA INGENUIDADE SUPOR que as medidas contidas na Resolução nº 8 da Secretaria Especial de Direitos Humanos, editada em 8 de dezembro passado, possam ser adotadas pelos Estados por sponte própria, sem pressão do próprio Governo, do Congresso Nacional, das instituições da sociedade civil e dos meios de comunicação. Só a legitimidade de um movimento continuado em defesa da vida poderá provocar gradual modificação desse indesejável estado de coisas e a abolição das práticas policiais que roubam tantos milhares de vidas País afora. Nesse particular é desejável uma atuação constante e vigorosa do Ministério Público dos Estados, sem sacrifício da colaboração que o Ministério Público da União possa prestar nesse campo. Há que se fazer um esforço gigantesco, desde já e sempre, para salvar as vidas expostas a tanta brutalidade policial.

COM BASE NO RELATÓRIO Especial da Organização das Nações Unidas para Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias, a Secretária de Direitos Humanos, Ministra Maria do Rosário Nunes, editou ato com recomendações a serem observa2

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17 HUMOR - Retrospectiva 2012 ○

34 DEPOIMENTO - Lúcio Flávio Pinto ○

39 IMPRENSA - Irineu Marinho em todos os seus matizes ○

42 IMPRENSA - A editora que não queria ser grande ○

46 LIVROS - A mortalidade, por Hitchens ○

46 L IVROS - Quadrinhos para o fim do mundo ○

SEÇÕES 25 L IBERDADE DE I MPRENSA Brasil subiu em mortes de jornalistas em 2012 ○

D IREITOS H UMANOS 26 A Angústia de dona Elzita ○

28 Exposição torna presentes desaparecidos políticos ○

30 A morte por atacado ○

32 Clube Militar intimida Sílvio Tendler ○

33 Centro Wiesenthal difama o cartunista brasileiro Latuff ○

47 VIDAS Ledo Ivo, A vitalidade da poesia ○


HOMENAGEM

Esse cara é Rubem Braga POR PAULO C HICO

ARQUIVO/AGÊNCIA O GLOBO

No ano em que é comemorado o centenário de nascimento do cronista capixaba, livros e exposição relembram o talento e a personalidade do escritor, que prestou grandes serviços ao jornalismo.

S

empre lembrada como a cidade natal do mais popular cantor do Brasil, Cachoeiro de Itapemirim, hoje com pouco mais de 200 mil habitantes, é terra fértil na geração de filhos ilustres. Além de Roberto Carlos, no Município localizado no Sul do Espírito Santo nasceram personalidades como a naturista e feminista Luz del Fuego, nome artístico de Dora Vivacqua, o produtor Carlos Imperial e o compositor Sérgio Sampaio. 2013, no entanto, está reservado para a celebração dos 100 anos de nascimento de outro capixaba. Sim, esse cara é Rubem Braga. Em 12 de janeiro de 1913 nascia, na pequena Cachoeiro, o escritor que se tornaria um dos melhores cronistas brasileiros de todos os tempos. O centenário será festejado em grande estilo. Vitória, no Estado em que o escritor nasceu, será a primeira capital a receber a exposição Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar. Em cartaz de 28 de janeiro a 5 de maio, no Palácio Anchieta, a mostra revelará aos visitantes a história pessoal e profissional do cachoeirense que transformou a crônica em literatura. Depois da ilha capixaba, a exposição, uma realização do Governo do Estado do Espírito Santo, por meio de suas Secretarias da Cultura e da Educação, e do Ministério da Cultura, seguirá para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, em datas ainda não fechadas. A mostra será dividida em sete módulos temáticos: Capital Secreta do Mundo, Retratos, Redação, Guerra, Passarinhos, Musa e Cobertura, que abordarão aspectos como sua infância em Cachoeiro; o cotidiano em jornais como redator, repórter político e também de artes plásticas; sua ação como correspondente do Diário Carioca na Segunda Guerra, na Itália; sua paixão por passarinhos, tema recorrente de seus textos; as mulheres, representadas na exposição pela figura de Tônia Carrero, sua musa máxima; e sua lendária cobertura em Ipanema, no Rio, um pedaço do mundo rural em plena selva urbana, com pomar e passarinhos. Rubem Braga morreu no Rio, em 19 de dezembro de 1990. JORNAL DA ABI 386 • JANEIRO DE 2013

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SERGIO TOMISAKI/FOLHAPRESS

HOMENAGEM ESSE CARA É RUBEM BRAGA

A curadoria da exposição é do escritor e jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, que mergulhou nos arquivos integralmente cedidos pela família do homenageado para traçar o fascinante percurso da visitação. O cronista de O Globo falou com o Jornal da ABI sobre o seu trabalho à frente da mostra. “Eu tentei tornar a vida dele legível num espaço cenográfico. Por isso, a opção de dividir tudo em módulos. Em cada sala, focada majoritariamente nos assuntos definidos, há subdivisões. Na Redação há dez mesas, cada uma contando mais um trecho de Rubem Braga – o andarilho, o diplomata, o editor, o cronista... Há muito material inédito. Gosto muito da coleção de blocos de anotação que ele usou na guerra. Rubem guardou todas as anotações de suas apurações, que hoje são objetos preciosos.” Na definição de Joaquim, a exposição é um grande mergulho visual na obra do maior cronista brasileiro. “É uma mostra moderna, interativa, que tem cenografia de Felipe Tassara e envolve uma tecnologia avançada e divertida. O objetivo é contar, de um jeito lúdico, a vida e obra deste capixaba. Este trabalho fará parte do currículo escolar de Vitória, em sua primeira parada, e apostamos que conhecer a obra de Rubem é a melhor maneira de aproximar o estudante do prazer de ler. Focalizaremos todas as suas facetas. Em especial, no campo do jornalismo ele operou em todas as etapas: foi repórter, editor, correspondente de guerra, atuou em Paris, foi cronista... O homem fez de tudo e bem. Seus relatos de guerra, reportagens no front, com o bicho pegando, bombas por todos os lados, são heróicos e cheios de estilo. Ele tinha uma aproximação com o que mais tarde seria chamado de ‘novo jornalismo’, uma mistura de técnicas de ficção com reportagem.” Joaquim Ferreira dos Santos não disfarça a influência que Rubem teve na sua escolha profissional. “Eu comecei a gostar de ler através dos cronistas que escreviam nos jornais e revistas do Rio: Antônio Maria, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e, acima de todos, Rubem Braga. Ele escrevia fácil demais, sobre assuntos que eram comuns, nada a ver com os clássicos portugueses que eu estudava na escola. Tinha humor, falava das mulheres, do Rio. Gostei logo de cara. A maldição foi tentar imitá-lo, pela aparente facilidade que ele demonstra na elaboração do texto. Aí eu vi que o buraco era mais embaixo. Na verdade, não há nada mais sofisticado na literatura nacional”, aponta. Para o cronista de O Globo, não há qualquer exagero no título de “inventor da moderna crônica brasileira” que muitos imputam a Rubem Braga. “O gênero já existia, vinha desde José de Alencar, passara pela maestria de Machado de Assis, pela carioquice peripatética de João do Rio. Mas foi Rubem quem lhe acrescentou lirismo poético e a influência, bem humorada e coloquial, dos modernistas de 1922. É o formato que a gente conhece hoje, por exemplo, em textos de Luis Fernando Veríssimo”, explica. “Nosso homem-centenário é o autor que misturou a roça de sua infância no Espírito Santo 4

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Poeta, professor e editor, Augusto Massi afirma ser incapaz de destacar um perfil em especial. Provocado, revela duas predileções. “É difícil escolher o que há de melhor no livro. Vários perfis adquirem autonomia e força própria. Tenho predileção por dois textos curtíssimos: ‘Frans Post’ e ‘Oscar Wilde’. O primeiro é a breve descrição de um quadro: O Rio São Francisco. O segundo, uma espécie de necrológio de Oscar Wilde. Ambos são obras-primas da síntese. Pura poesia. As simpatias e antipatias também determinam o ritmo, o tom e a atmosfera das entrevistas. Por exemplo, ao lado da cantora Juliette Gréco e do poeta Prévert, Braga está completamente lírico, leve, cúmplice. Já com os pintores Chagall e Marie Laurencin, o clima é de debate e discussão. Ainda que termine sempre com uma inesperada descarga de ternura.” Jornalista e correspondente

com as cenas cosmopolitas do Rio de Janeiro, para onde se mudou a partir dos anos 1930. Ele partiu do princípio dos mestres, o de que é falando de sua aldeia que um escritor pode ser internacional.” Mas seria hoje a crônica um gênero em extinção nos jornais? Faltam bons cronistas no mercado? “Os jornais querem cronistas, há espaço para eles. Mas muitos preferem artigos, ensaios, relatos com outras embocaduras. Não os critico. É o estilo de cada um. Eu gostaria de ser cada vez mais cronista, no sentido de que é um texto gostoso de ler, com uma levada diferente daquela praticada no resto do jornal. Funciona como uma espécie de ‘respiro’ para o leitor ”, defende Joaquim. As entrevistas do cronista

Em razão dos 100 anos de nascimento de Rubem Braga, um importante lançamento desembarca no mercado pelo Grupo Editorial Record. Pela José Olympio, Retratos Parisienses faz chegar ao público 31 textos, inéditos em livro, que retratam personalidades como Henri Matisse e Jean-Paul Sartre, escritos no período em que o cronista foi correspondente em Paris do Correio da Manhã. Organizador da obra, Augusto Massi falou com o Jornal da ABI. “Há alguns anos venho dando cursos sobre crônica na Universidade de São Paulo. Sempre trabalhando com maior ênfase a prosa de Rubem Braga. Recentemente, folheando uma coleção do suplemento Letras e Artes do Correio da Manhã, para

minha surpresa topei com várias entrevistas feitas pelo cronista. Ao longo de 1950, Rubem Braga trabalhou como correspondente do jornal, em Paris. O pacote de entrevistados reunia nomes como Pablo Picasso e Juliette Gréco. Vi que já tinha um livro nas mãos. Porém, ao aprofundar a pesquisa reforcei alguns núcleos: a paixão pela pintura moderna, a preocupação com o quadro político e cultural do pós-guerra e o interesse do escritor pelos debates literários.” O que fazia dos perfis traçados por Rubem algo tão especial? “Penso que ele só escreveu este tipo de texto graças ao extremo desconforto que sentia com a condição de jornalista. Em certo momento, chega a afirmar que se considerava o pior jornalista do mundo. Hoje em dia, provavelmente, várias entrevistas não seriam aceitas pelos nossos cadernos de cultura. Elas não seguem o padrão tradicional. Quando buscamos uma informação objetiva, esbarramos em observações típicas de um cronista, quando vamos atrás da crônica, nos deparamos com uma reportagem. Trata-se de um cronista em desassossego. Visto de outra perspectiva, a riqueza dos textos reside justamente nesta oscilação do ponto de vista do narrador, na extrema variação dos ângulos, oferecendo ao leitor um perfil quase cubista dos entrevistados. É curioso ver Picasso ora como pano de fundo da matéria, aparecendo e sumindo do nosso campo de visão, ora em primeiro plano, numa bela descrição da sua sólida careca.”

Augusto Massi contou ao Jornal da ABI como o escritor capixaba tornou-se correspondente do Correio da Manhã. “Em 1950, Rubem Braga já tinha nas costas quatro livros de crônicas: O Conde e o Passarinho (1936), Morro do Isolamento (1944), Um Pé de Milho (1948) e O Homem Rouco (1949). Havia feito a cobertura da Segunda Guerra Mundial, do qual resultou o livro Com a FEB na Itália, de 1945. Enfim, já era uma figura respeitada por todos e dava prestígio a qualquer jornal. Tudo isso com 37 anos. Em 1955, publicaria A Borboleta Amarela, considerado um de seus melhores livros. Nele constam duas crônicas de primeira – A que Partiu e Navegação da Casa, ambas escritas justamente no período em que trabalhou como correspondente em Paris. Assim, o fato de ter se tornado correspondente era quase um caminho natural.” Para o especialista, Rubem Braga foi mesmo um caso de talento único. “Ele simboliza o fim de um ciclo histórico, pertence a uma linhagem de cronistas que vai de Machado de Assis a Paulo Mendes Campos. Não pode deixar seguidores. Só existe um por século. Mas não sou pessimista quanto ao futuro da crônica. Vejo uma nova geração chegando, numa chave distinta: Antônio Prata, Rogério Pereira, Vanessa Bárbara... Em todos eles há um peso acentuado no humor, mesmo que sob o disfarce do nonsense, do absurdo ou do grotesco. Esta tem sido uma vertente interessante. No momento, talvez nos falte uma gama maior de registros. Neste caso, a Eliane Brum brilha de forma solitária.” Numa de suas primeiras investidas profissionais na área da imprensa, Rubem cobriu para os Diários Associados, na frente de batalha, a Revolução Constitucionalista de 1932. Trabalhou como correspondente ou contratado em diversas cidades do País, como São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife, onde chegou a fundar um jornal comunista, a Folha do Povo, que foi fechado e teve seus redatores presos e espancados. No Estado Novo, ditadura de Getúlio Vargas que durou de 1937 a 1945, foi preso algumas vezes, e em diversas ocasiões teve que se esconder da repressão. Episódios que desmontam a tese de que foi um cronista dedicado apenas a temas leves. Outro lado de Braga poderá ser conhecido em breve.


“Neste centenário, é importante redimensionarmos a figura e a importância de Rubem no panorama da literatura, da História e do jornalismo contemporâneos. Ele escreveu sobre quase todas as questões relevantes do seu tempo. Foi censurado, preso e perseguido durante a maior parte da sua extensa atuação profissional. Combateu, incansavelmente, todo tipo de violações aos direitos humanos, antecipando-se a muitas conquistas obtidas no Brasil, no século 21. Foi, portanto, muito mais que um cronista de temas amenos. É isto que procuro mostrar no livro, ainda inédito, Rubem Braga: Um Escritor Combativo – A Outra Face do Cronista Lírico, fruto da minha tese de doutorado”, apresenta Carlos Ribeiro, jornalista e doutor em Literatura. O organizador de Retratos Parisienses julga ter sido pouco estudado o real nível de contribuição de Rubem Braga no cenário do Jornalismo brasileiro. “Ele participou da criação de revistas e jornais ousados, como Diretrizes (1938), Comício (1952), e Senhor (1959). Além disso, como jornalista de esquerda, fez grandes reportagens. Vale a pena, por exemplo, ler as coberturas que realizou das eleições de Perón, na Argentina, e de Eisenhower, nos Estados Unidos. Enfim, ele tem muita história atrás de si. Por fim, não posso deixar de lembrar o editor Rubem Braga, também importantíssimo, que junto com Fernando Sabino e Walter Acosta, funda a Editora do Autor (1960) e a Sabiá (1967). Não é café pequeno. O homem trabalhou.” A trajetória do mestre

Também em função das comemorações, em fevereiro será relançado o livro Na Cobertura de Rubem Braga, em que o jornalista e escritor José Castello, através de depoimentos e fotos de escritores e intelectuais, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Antônio Callado e Vinicius de Moraes, reconstrói a trajetória deste grande mestre, organizada em forma de dicionário, que de acordo com as letras do alfabeto vai esmiuçando os aspectos mais importantes da vida e da obra do cronista capixaba. “No processo de produção, tudo foi muito intuitivo. Quando comecei a pesquisar o livro, e para não me perder, resolvi organizar minhas leituras por temas, como em um dicionário com seus verbetes. Foi uma decisão prática, não imaginava que o livro teria esse formato, era só um rascunho. Aos poucos, porém, fui me apegando ao ‘dicionário Braga’, como eu o chamava. Até que um dia, sem conseguir encontrar um caminho para escrever o texto final, me dei conta de que o próprio ‘dicionário’ era o livro! Foi uma descoberta fascinante, porque o livro – como sempre ocorre, aliás – se fez à minha revelia. Ele se impôs, impôs seu formato, seu estilo”, explicou José Castello ao Jornal da ABI. A versão que chega agora às livrarias é fiel à primeira edição, que data de 1996. “A José Olympio, preciso dizer, me ofereceu a possibilidade de rever o livro, de modificá-lo e até, se fosse o caso, de reescrever algumas partes. Mas gosto muito dele como está, sou muito apegado ao resultado. Não fiz uma biografia, não fiz um en-

saio, não fiz nem mesmo, apesar da forma aparente, um dicionário. O que fiz foi uma crônica sobre o cronista Braga e suas crônicas. Sim, porque minha principal fonte de pesquisa foram as próprias crônicas, já publicadas ou ainda inéditas.” Pelos amigos, Rubem Braga, do alto de seus quase 1 metro e 90, era chamado de ‘urso’. “Gosto, em particular, dessa denominação. O Braga era exatamente assim: lento, com uma ferocidade contida e uma docilidade contida também, bonachão, meio desleixado – como um grande urso. Ele foi um machão clássico, ainda que muito discreto. Um homem dado a grandes paixões – mas que as conservava, em geral, em segredo. Enfim, gosto da expressão ‘urso’. Acho que ela descreve um pouco uma parte importante da personalidade do Rubem. E até da essência da crônica – gênero que se define pela lentidão, pela meditação, pela observação cuidadosa do mundo, pela distância prudente.” A cobertura da Rua Barão da Torre, em Ipanema, que a família até hoje conserva exatamente como em seu tempo de vida, é uma espécie de fazenda ou de floresta voadora. É cheia de árvores, algumas inacreditavelmente imensas. Árvores frutíferas, plantas ornamentais, plantas de estimação. Traz um pedaço da natureza para a zoeira urbana da Zona Sul carioca. É uma reserva natural, que serviu de abrigo para o mestre dos cronistas brasileiros, que somou mais de 15 mil textos, publicados nos veículos já citados e muitos outros, como Folha de S.Paulo e Folha da Tarde. “A principal contribuição de Rubem no ramo da escrita é com a crônica mesmo. Estranho: a crônica é um gênero que ainda hoje desperta muitas desconfianças. Os jornalistas costumam achar que os cronistas são fantasiosos, mentirosos, fora da realidade. Os escritores, por sua vez, os acham excessivamente presos à realidade, e até mesmo venais – uma vez que a crônica é, quase sempre, escrita para jornal ou revista, e paga por unidade. Portanto, ela é vista com suspeita. Isso se deve a sua identidade anfíbia, dupla: um pé na realidade (jornalismo), outro na fantasia (literatura). É um gênero limítrofe, de fronteira, de desbravadores, exatamente como o Braga foi. O cronista se joga no mundo, com faz o jornalista. Só que, ali onde o jornalista entrevista, pesquisa, interroga, lê documentos, o cronista fica quieto num canto, dedicado apenas a observar, contemplar, meditar. Seu laço com o mundo real é tão importante quanto para um jornalista. Só que ele faz do real outra coisa: não uma realidade a desvendar, mas matéria de invenção, ou de reinvenção”, avalia José Castello, que, por fim, deixa um conselho para todos nós. “Creio, pessoalmente, que reler os cronistas pode fazer muito bem aos jornalistas do século 21. Pois, no meu entender, eles andam em geral excessivamente ‘duros’, crêem em demasia no ‘deus objetividade’ e acabam se deixando iludir pelas armadilhas do real. A realidade é cheia de armadilhas, é muito mais complexa do que imaginamos. É preciso dar um passo atrás, como faz o cronista, parar, pensar, meditar, observar, dar um tempo e silenciar, para aproximar-se dela melhor”.

Os livros que chegam às prateleiras P OR J OSELIA A GUIAR

Logo na estréia, o rapaz Rubem Braga (1913-1990) vai impressionar os colegas de Redação no Diário da Tarde, em 1932. Como lhe pedem, tem de escrever um relato sobre uma exposição canina da cidade. Acaba por contar a história de um homem condenado à morte por ter matado um cachorro. De um episódio tão banal fez surgir um instantâneo surpreendente. A pauta reservada ao novato capixaba deixaria de ser amena em pouquíssimo tempo. Uma missão mais difícil o espera: terá de ir a Passa Quatro, cidade mineira, para cobrir a Revolução Constitucionalista que, de São Paulo, repercutia país adentro. Para feitos pequenos ou grandes, haveria um cronista, o destino selado nos primeiros dias de jornal. Dos assuntos mais triviais aos acontecimentos de maior peso – será correspondente de guerra em Paris, depois retornará à capital francesa para a cobertura da vida no pós-guerra –, tratará de qualquer assunto com seu jeito especialíssimo, o de quem “escreve de palpite, assim como há os que tocam de ouvido”, o lirismo raro capturando um tempo que já acabou. Serão mais de 15 mil crônicas em seis décadas de jornalismo. Braga era sempre bom, mas quando não tinha assunto era ótimo, notou certa vez Manuel Bandeira. À medida que as produz, vão saindo antologias, duas dezenas de livros. O primeiro volume será O Conde e o Passarinho, que a então prestigiosa José Olympio publica em 1936. O último, O Verão e as Mulheres, pela Record, em 1990, ano de sua morte, com crônicas que selecionara dos anos 1950 – como se sabe, o cronista ao mesmo tempo afável e taciturno, já sabendo de seu câncer na laringe, providenciou o próprio funeral para quando chegasse o dia. Casas editoriais preparam para os próximos meses meia dúzia de reedi-

ções e volumes inéditos para lembrar seu centenário. O primeiro título a chegar às livrarias, em fevereiro, sai pela José Olympio, sua casa de estréia, hoje, um selo do Grupo Record. Retratos Parisienses, organizado por Augusto Massi, reúne 31 reportagens inéditas em livro, escritas entre 1949 e 1952, exatamente o período em que foi correspondente na Paris do pós-guerra para o Correio da Manhã. A obra revela um lado pouco conhecido, o de intelectual e crítico de arte, em textos que tratam de Sartre, Chagall, De Chirico, Prévert e Picasso. Ângulo também pouco conhecido, o de crítico literário se mostra em outro volume com inéditos em livro, A Poesia é Necessária, previsto pela Global até abril. Traz as colunas que manteve na revista Manchete e na Revista Nacional. Quem o organiza é o crítico e ensaísta André Seffrin. Também um inusitado livro infanto-juvenil, O Menino e o Tuim, integra o conjunto das homenagens na passagem do centenário. Sai pelo selo Galerinha, da Record, também em fevereiro. Trata-se de uma obra pouca conhecida, pois Braga não se dedicou ao gênero, é o único voltado para esse público. Para os que querem conhecer, ou relembrar, sua maestria no gênero, há uma reedição importante e outro volume novo. 200 Crônicas Escolhidas, que chega pela Record em fevereiro, é uma seleção feita por um dos seus grandes amigos, Fernando Sabino, depois revista pelo autor. O título foi editado a primeira vez em 1977, merece reedição posterior e agora recebe edição de luxo, com capa dura. O Lavrador de Ipanema é outra seleção de crônicas que o leitor

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HOMENAGEM ESSE CARA É RUBEM BRAGA

REDE GLOBO/DIVULGAÇÃO

encontrará nas livrarias até março, organizada por Leusa Araujo e Januária Alves, também pela Record. Inclui 14 textos em que se acompanha sua ligação com a terra. Do tempo na roça, ainda menino, à horta que criou, solteirão na maturidade, na cobertura de seu apartamento em Ipanema. Não foi uma horta qualquer: teve a assessoria de Burle Marx, o grande paisagista brasileiro. No último andar do edifício na Rua Barão da Torre, plantou pés de pitanga, manga e goiaba. A área pertencia ao condomínio, mas ele fez um acordo com os moradores, prometendo que poderiam visitar o belo jardim quando estivesse pronto. Tempos depois, quando um amigo lhe perguntou como receberia os vizinhos, respondeu, sucinto: “à bala”. No ano passado, o Instituto Moreira Salles dedicou a Rubem Braga um volume da sua coleção Cadernos de Literatura Brasileira. Entre os autores, gente que conviveu com ele: Cláudio Mello e Souza, jornalista; Danuza Leão, colunista que, sua conterrânea, o conheceu ainda no tempo de menina; Boris Schnaidermann, escritor e tradutor que foi seu companheiro durante a campanha brasileira na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Outros textos são assinados por Humberto Werneck, José Castello e Sérgio Augusto. O volume inclui imagens de sua vida e família, desenhos de sua autoria, fotografias tiradas pouco antes de morrer. Trechos de crônicas e um inédito completam o título. Como parte das comemorações do centenário, vai ser reeditado em fevereiro pela José Olympio o ensaio biográfico Na Cobertura de Rubem Braga, escrito pelo jornalista José Castello a partir de suas crônicas, cuja primeira edição é de 1996. Vale registrar que uma biografia alentada, publicada postumamente por Marco Antônio de Carvalho, merece reedição: Rubem Braga – Um Cigano Fazendeiro do Ar. Sobre o autor, há também boas obras em catálogo, como Um Coração Postiço – A Formação da Crônica de Rubem Braga, de Ana Karla Dubiela, que conta o início da carreira do cronista, analisando os diálogos de sua prosa com a poesia de Manuel Bandeira e a consciência ecológica de Augusto Ruschi. 6

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Tônia Carrero Musa na forma e no conteúdo P OR P AULO C HICO

“Se o Rubem Braga falasse como escreve, não sobrava mulher nenhuma pra nós. Ele pegava todas”. A frase, dita por Fernando Sabino, na festa de 60 anos do psicanalista Hélio Pellegrino, traduz com exatidão uma face menos conhecida do escritor capixaba, que primava pela discrição: o de conquistador. “Era homem alto, forte, rosto que sugeria certo respeito viril a ser generosamente empregado quando fosse preciso tomar a rédea das ações, e isso evidentemente dedilhou as harpas escondidas nos corações femininos. Tônia Carrero, uma das mais bonitas mulheres brasileiras de todos os tempos, esteve ao seu lado como namorada quase secreta durante anos”, escreveu Joaquim Fer-

reira dos Santos, em crônica publicada em O Globo, no dia 14 de janeiro deste ano. Avesso aos formalismos do casamento, Rubem Braga uniu-se apenas uma vez, com Zora Seljan, em 1936, com quem teve seu único filho – Roberto. A separação veio na década de 1940. Ele seria, a partir de então e até 1990, ano de sua morte, um solteirão convicto a ponto de anexar este aviso na porta de entrada de sua cobertura: “Aqui vive um solteiro feliz”. Tônia não foi a única musa de Rubem Braga. O escritor foi amante de Bluma Wainer, esposa de seu amigo Samuel Wainer, o que, obviamente, com o tempo levou ao rompimento da até então sólida amizade. Danuza Leão, que também se casaria com Wainer, foi outra de suas paixões. Esta, no entanto, apenas platônica. “Houve um

tempo em que ele começou a achar certa graça em mim; eu, muito garota, ele, um homem já maduro. Nunca me disse uma só palavra, mas me olhava com uma intensidade que me desconcertava”, já declarou Danuza, capixaba como Rubem. Com a atriz, no entanto, a história foi mais séria. E não era para menos. “A mulher mais bonita do século é a Tônia Carrero, que ficou 50 anos linda!”, declarou um entusiasmado Ziraldo em entrevista à Edição 383 do Jornal da ABI, de outubro de 2012. Maria Antonieta Portocarrero Thedim sempre foi uma mulher culta e sedenta por conhecimento. Aos 17 anos, casou-se com Carlos Thiré – pai de seu único filho, o ator e diretor Cecil. Artista plástico de talento, Thiré foi pioneiro das histórias em quadrinhos no Brasil. O casal tinha um círculo de amizades do qual faziam parte grandes nomes de todas as artes. Eram todos mais ou menos da mesma geração. E desde o começo Tônia sempre foi recebida por todos eles como uma igual. Entre os seus amigos mais próximos, estavam Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Entre os mais velhos, havia Di Cavalcanti, Carlos Drummond de Andrade, que freqüentemente escrevia crônicas sobre ela, e Aníbal Machado. Entre todos estes, destacava-se a figura de Rubem Braga. Na biografia Rubem Braga — Um Cigano Fazendeiro do Ar, lançada pela Editora Globo, em 2007, o já falecido jornalista Marco Antônio de Carvalho, natural da mesma Cachoeiro de Itapemirim, abordou a relação entre o escritor e sua musa, entre as páginas 324 e 335. “Mariínha, como Tônia era conhecida, cantava fados tropicais e encantava a platéia de amigos. Nos passeios pelas ruas de Paris, Rubem elogiava a beleza de Tônia, fazia graça — ‘tenho muita amizade pelo seu joelho esquerdo’ — e, aos poucos, ia conquistando a futura atriz. O marido implicou e disse que não queria que ela saísse mais com o jornalista e escritor. Tônia chorou ‘copiosamente’. Irritado, o esposo perguntou: ‘Ele é tão importante assim?’. Solitária, triste, sem ter o que fazer em Paris, Mariínha, ou Maricota, como a chamava Rubem, passou a sair ainda mais com Braga, este sempre atento a um novo corte de cabelo, uma nova fivela, uma cor rosada na face”. Com o casamento já em crise, decidida a abandonar Carlos Thiré, Tônia passou a se encontrar com Rubem “num hotelzinho, em um velho casarão discreto. Como Braga era mulherengo e casado, Carrero decidiu romper: ‘Acho que nosso caso tem que acabar ’. O escritor ameaçou matar-se sob as rodas dos automóveis de Paris. Optou por segui-la, acompanhando-a no navio de volta ao Brasil. Insistiu no reatamento, mas Tônia jogou duro”. Muitos anos depois, a própria atriz chegou a falar do relacionamento. “Ele era um ‘Maria-vai-com-as-outras’: queria companhia de mulher bonita, mas não era de casar com nenhuma. Como Vinicius, vivia apaixonado, mas, ao contrário deste, não gostava de se casar e de conviver. Se Rubem quisesse, eu me casaria com ele. Mas ele nunca quis. Na verdade, o grande amor de Rubem foi Bluma Wainer ”. Marco Antônio de Carvalho escreveu: “O fato é que Rubem, desde que conheceu


Refinamento intelectual

Obviamente, limitar a relevância de Tônia à relação estabelecida com Rubem Braga seria pecado reducionista que o Jornal da ABI jamais cometeria. “Ao longo da vida, ela escreveu muitas cartas. Nelas observa-se um refinamento intelectual muito grande. Este refinamento é que, provavelmente, fez com que ela tivesse trânsito livre entre artistas e intelectuais. Finalmente, um dado interno, que o público não teria como saber: a carreira de Tônia no teatro foi uma longa sequência de sucessos, com raríssimos fracassos para contrabalançar o resultado final. A escolha do texto a ser encenado em cada momento sempre foi da própria Tônia, que lia dezenas de peças e, invariavelmente, fazia a escolha certa. Esta capacidade de intuir o que seria adequado encenar em cada momento é mais uma evidência de que ela sempre teve uma inteligência acima da média”, disse ao Jornal da ABI o ator Leonardo Thierry, sobrinho e afilhado de Tônia. Além de Carlos Thiré, Tônia ainda se casaria com o diretor Adolfo Celi e com o empresário César Thedim. E nutriria outra paixão, esta com forte viés de cumplicidade nos palcos. “Quando conheci Paulo Autran, me apaixonei completamente. Cecil era bem pequenininho. Eu achava Paulo um talento para o teatro, mas inventei de fazer uma peça com ele só porque queria ficar mais perto. Paulo era advogado e não queria largar a profissão. Pediu um salário absurdo e deixei de receber só para ficar perto dele – não ganhei um tostão! Com o tempo, a paixão foi acabando, mas o carinho, o respeito, a cumplicidade no palco e a amizade permaneceram até o fim”, contou a atriz à jornalista Tânia Carvalho, autora da biografia de Tônia na Coleção Aplauso. Leonardo Thierry confirma. “Essa foi uma das mais belas amizades de que já se teve notícia. Eles se adoravam. Como du-

ACERVO PESSOAL RODOLFO KONDER

Tônia e se envolveu com ela, nunca aceitou o fato de que a atriz não fosse sua mulher – ainda que, dubiamente, jamais propusesse casar. Ele era ciumento. O tempo fez que aceitasse a separação, mas seu sentimento de posse nunca desapareceu por completo: quase duas décadas depois do rompimento, no Antonio’s, Tônia e Rubem conversavam calmamente – até que Paulo Pinho, casado com a atriz Djenane Machado, entrou e se dirigiu à mesa dos dois para dar um beijo na madrinha do seu casamento. Cumprimentou Rubem, sentou-se e, a partir de então, este emudeceu, pediu sua conta e retirou-se, sem se despedir. E, mais tarde, quando revia Pinho, fingia que não o reconhecia”. Tônia, por sua vez, parecia conduzir os conflitos com o bom humor habitual, como comprova este relato. “Uma vez, nos anos 1960, ele me levou ao aeroporto e me mostrou uma crônica linda, dizendo que tinha sido escrita pra mim. Eu nunca acreditei: ‘Que nada, Rubem! Você escreve crônica pra todas as mulheres bonitas que encontra! Para mim, para a Lila Bôscoli, para a Helena Sabino... Você adora mulher de amigo!’ E ele concordou: ‘E eu vou me encantar com mulher de inimigo? Mulher de inimigo eu nem posso ver!’, retrucou”, divertia-se a atriz.

Tônia Carrero ao lado do jornalista Rodolfo Konder: Talento reconhecido e muitos prêmios.

pla, provavelmente ficarão para sempre como a mais afinada do teatro brasileiro no século 20. A interação dos dois em cena era fenomenal. Fora de cena, o carinho, a admiração sem limites e a maneira meio moleque, sempre muito irônica, com que se tratavam era absolutamente deliciosa. Tônia sofreu muito com a perda do Paulo, em 2007. Em retrospecto, nunca houve ator brasileiro ou internacional que ela admirasse tanto.” Mas a vida de Tônia também foi marcada por posicionamentos ousados. E conflitos. “Ela sempre foi essencialmente ‘antiestablishment’. Na juventude, o seu comportamento foi muito próximo do que nos anos 1960 foi consagrado pela cultura hippie. Teve muitos amigos ligados ao Partido Comunista e chegou ela própria a se encantar pelo pensamento trotskista.” É importante deixar claro que a televisão criou um modo de produção no qual cada astro ou estrela que tivesse a sua imagem associada a um estereótipo dificilmente se libertava dele. A primeira novela de Tônia a fazer um sucesso fenomenal foi Pigmalião 70, na TV Globo, em que fazia uma grã-fina da mais alta esfera da sociedade. Com o sucesso, veio o inevitável estereótipo. “O Brasil inteiro passou a acreditar que atriz e personagem eram uma coisa só. O curioso é que pouco mais de dois anos antes dessa novela, em 1968, ela liderou um movimento contra a censura, chegando a ser presa durante uma manifestação da classe teatral em frente ao monumento aos mortos da Segunda Guerra. As incontáveis entrevistas para a imprensa escrita e falada revelam nitidamente seu espírito contestador”, aponta o afilhado da atriz. A briga com Paulo Francis

A atriz sempre manteve relação amistosa com a imprensa. Alguns nomes que hoje são lendários no jornalismo brasileiro eram seus grandes amigos – Joel Silveira, Tati de Moraes, Zevi Ghivelder. Com

um deles, Paulo Francis, Tônia teve uma famosa briga. “Um dos intelectuais mais brilhantes da sua geração, ele optou desde cedo pelo estilo ‘metralhadora giratória’. Para todos os efeitos ele era ‘O Demolidor ’. Quando passou a exercer a crítica de teatro, ele se destacou pela extrema crueldade com que comentava o trabalho de praticamente todos os atores da época. Na crítica a um dos espetáculos da Companhia Tônia-Celi-Autran, Francis pulverizou o trabalho da atriz, batendo na velha tecla da mulher bonita mas sem talento que ocupa o lugar que deveria ser de uma verdadeira intérprete. O episódio cresceu até chegar ao ponto em que durante um espetáculo Paulo Autran desceu do palco e cuspiu na cara de Francis. A propósito: em seu livro de memórias, Francis se penitenciou da crítica de anos antes e reconheceu que Tônia tinha se tornado uma das maiores atrizes da sua geração. Mas nunca houve amizade entre os dois, nem mesmo depois da auto-penitência do jornalista”, recorda Leonardo. Paulo Francis à parte, o suposto conflito entre beleza e talento nunca pesou sobre os ombros da atriz. “Ela sempre disse que a beleza só ajuda, nunca atrapalha. Segundo ela, a beleza é uma dádiva que algumas pessoas recebem e que, ao longo da vida, abre muitas portas. Mas ela nunca se prendeu a isso. Navalha na Carne, de Plínio Marcos e encenada por Fauzi Arap, foi provavelmente a mais espetacular ‘desconstrução’ de um mito em cena. Acompanhar de perto o seu processo de entrega foi impressionante. Para fazer a peça, deixou a raiz mais escura dos cabelos ficar aparente, engordou e fez uma longa série de exercícios corporais para perder completamente o refinamento, já que a personagem era uma prostituta de baixo nível. O público que ia vê-la no Teatro Maison de France ficava em estado de choque e no final se emocionava com a trajetória de Neusa Sueli, sem sequer se lembrar de que a atriz no palco era a

mesma mulher cuja beleza há tanto tempo era considerada o seu maior trunfo. Por este trabalho, em 1968, Tônia foi a primeira atriz da história do Prêmio Molière a ser eleita ‘melhor atriz’ por unanimidade de votos”, conta Leonardo Thierry. O reconhecimento à beleza e ao talento de Tônia foi evidenciado por diversas vezes. Como na popularidade de sua personagem Stella Simpson, em Água Viva, exibida pela TV Globo, em 1980. Tônia estava no auge absoluto do domínio dos recursos que fizeram dela uma grande atriz. Gilberto Braga escreveu especialmente para ela uma de suas melhores personagens. O resultado foi extraordinário. Stella era engraçada, comovente, autêntica, surpreendente e, sobretudo, uma personagem que todo mundo tinha a nítida impressão de já ter encontrado em algum lugar. Foi inquestionavelmente o maior trabalho de Tônia na televisão. A atriz funcionava também no aspecto comercial. Provou o poder de fogo e o prestígio de sua imagem ao estrelar as campanhas publicitárias de uma das mais consumidas marcas de hidratantes corporais do País. Isso por diversos anos, e numa faixa etária bem mais adiante do que permitiam – e permitem ainda hoje – a maioria das propagandas de cosméticos. Na entrega do 20º Prêmio Shell, em 2007, Tônia foi a grande homenageada da noite, recebendo das mãos de Chico Caruso o Prêmio Especial por toda a sua carreira no teatro – a mesma homenagem que este ano será prestada a Walmor Chagas, morto no dia 18 deste janeiro. Ela foi ovacionada por uma platéia quase toda composta por membros da classe teatral. A intensidade dos aplausos e dos gritos de ‘Bravo!’ foi impressionante. “Um ano antes, quando estreou o seu último filme – Chega de Saudade, de Laiz Bodansky – ela teve todo o reconhecimento que é possível por parte do público e da crítica, além da bela surpresa de receber em casa o prêmio de melhor atriz num festival de cinema latino-americano sediado na França. Entre inúmeros outros, Tônia recebeu dois prêmios Molière, dois Saci, um prêmio Governador do Estado, além de algumas das críticas mais invejáveis que uma atriz poderia ter. Acima de tudo, o público que sempre a prestigiou nunca deixou de pensar nela como uma grande intérprete”, emocionase Leonardo. Nascida em 23 de agosto de 1922, Tônia recebeu as visitas e o carinho de amigos quando da passagem de seus 90 anos, no ano passado. Numa foto que circulou pela internet, a senhora atriz aparece rodeada por colegas como Eva Wilma, Jacqueline Laurence, Edwin Luisi, Nathalia Timberg, Zezé Motta, Betty Faria, Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho, entre outros. A musa de Rubem Braga segue reclusa, em casa, sob o cuidado dos familiares. Permanece lúcida, ainda que com problemas motores e de fala. E, mesmo diante das câmeras ou dos palcos, conserva intacto seu poder de sedução. Algo que parece ser fruto de sua rara beleza – em todos os sentidos. Um patrimônio brasileiro que encantou o público. Fez-se reluzente em todos os setores. E desconcertou escritores.

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TELEVISÃO

A Rede Globo mostra seu poderio Sua Agenda 2013 revela números impressionantes da Central Globo de Produções. Mais do que um simples calendário para anotação de encargos e compromissos ao longo do ano, a Agenda 2013 da Rede Globo de Televisão apresenta em legendas e ilustrações uma visão do que é a empresa: uma usina de produção de programas de televisão, na qual circula diariamente uma média de 8.920 pessoas. A Rede é constituída por 122 emissoras e alcança 5.487 Municípios do País. Organizada pela Central Globo de Comunicação, dirigida pelo jornalista Luiz Erlanger, a Agenda 2013 informa que a Rede conta com dez estúdios de entretenimento, totalizando uma área de 8.240 metros quadrados, nos quais são produzidas 18.493 horas de gravações a mais de entretenimento; produz em seu Estúdio Jornal nove horas diárias de programação e 283 horas mensais; o Estúdio Esporte promove 304 eventos esportivos por ano; a pós-produção responde por 391 horas de transmissão ao vivo anuais. Tais ativi-

Jornal da ABI ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, André Gil, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva. Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 - Osasco, SP

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dades contam para transporte com 155 carrinhos elétricos e 18 rebocadores. Tanto no Rio como em São Paulo a emissora mantém estúdios de vidro destinados a gravações especiais. Para atender à diversidade e à amplitude de sua intensa programação, a Rede produz anualmente 18.000 peças de vestuário, seguindo os padrões definidos pelas equipes especializadas da empresa, e mantém um acervo geral com 350 mil peças. Em sua Fábrica de Cenários são produzidos anualmente 428.640 metros quadrados destinados aos estúdios de novela. Ao todo a Central Globo de Produção ocupa no Morro da Águia uma área total de 1 milhão e 650 mil metros quadrados, 1 milhão dos quais mantidos como área preservada. Em vez de fotografias, a Agenda ilustra cada item descrito com desenhos que estilizam o aspecto a que se referem. Alguns desses desenhos são reproduzidos como ilustração deste texto.

À esquerda, representação da Central Globo de Produção, onde há uma circulação média diária de 8.920 pessoas. Acima, o switcher, que possibilita a edição de 18.493 horas de gravações anuais. À direita, Estúdio Jornal, no qual são produzidas nove horas diárias de programação, e o Estúdio Esporte (abaixo), onde são gravados os programas que fazem a cobertura de 304 eventos esportivos anuais.

DIRETORIA – MANDATO 2010-2013 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Orpheu Santos Salles Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Ancelmo Goes, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Ferreira Gullar, Miro Teixeira, Nilson Lage e Teixeira Heizer.

CONSELHO FISCAL 2011-2012 Adail José de Paula, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Luiz Carlos Chesther de Oliveira e Manolo Epelbaum. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2011-2012 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: Sérgio Caldieri Segundo Secretário: José Pereira da Silva (Pereirinha) Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório. Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros Efetivos 2010-2013 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico (in memoriam), Marcelo Tognozzi, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa e Sérgio Cabral. Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto

Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordan Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e e Wilson Fadul Filho.

Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felipe Meiga Santiago (in memoriam), Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães. Conselheiros Suplentes 2010-2013 Adalberto Diniz, Alfredo Ênio Duarte, Aluízio Maranhão, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Felipe Meiga Santiago(in memoriam), Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva (Pereirinha), Marcus Antônio Mendes de Miranda, Maria Ignez Duque Estrada Bastos. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Arcírio Gouvêa Neto; Alcyr Cavalcânti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Ernesto Vianna, Geraldo Pereira dos Santos,Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, José Ângelo da Silva Fernandes(in memoriam), Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Martha Arruda de Paiva, Miro Lopes, Orpheu Santos Salles, Sérgio Caldieri e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor),Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.


LEMBRANÇAS

Às margens do Sena Na Paris que nos devolve sonhos de outras épocas, a Unesco suscitou uma discussão sobre as utopias do século 21 que ainda viria. POR RODOLFO KONDER

O

ônibus da Air France sobe a Avenue de la Grande Armeé. Ao fundo, no topo, surge, majestoso, o Arco do Triunfo. Os turistas sempre se surpreendem com a sua imponência. Imenso, gigantesco, ele parece o portal da eternidade. Chegamos a Paris, Itoby Alves Corrêa e eu, para participar de um encontro promovido pela Unesco, com o tema Diálogos do Século 21. Durante quatro dias, mais de 50 conferencistas, representando cerca de 30 países, devem responder à pergunta do Escritório de Análise e Previsão da Unesco, dirigido com rara competência por Jérome Bindé: “Haverá um século 21?” Eles discutem o futuro da espécie e do planeta; o fim do contrato social e o surgimento de uma nova democracia; os futuros da cultura; as novas fronteiras da educação, do trabalho e da criação artística. Perguntam: haverá comida para todos? Vamos guerrear pela água? Frederico Mayor, Diretor-Geral da Unesco, desafia-nos a imaginar o futuro. llya Prigogine, professor da Universidade Livre de Bruxelas e Prêmio Nobel de Química (1977), discorre sobre a pluralidade de futuros e o fim das certezas. O presidente da Conferência-Geral da Unesco e ex-Ministro da Educação e da Cultura, Eduardo Portella, fala sobre “o testemunho da utopia”, para concluir que “as possibilidades do amanhã dependem, hoje mais do que nunca, do seu grau maior ou menor de transformação, do seu vigor de relacionamento, da sua capacidade de conviver”. E ressalta: “Embora menos confiantes, contamos com a possibilidade de instauração da igualdade e da justiça social. A desigualdade é a anti-utopia. O mais mortal de todos os vírus deste crepúsculo milenar”. O filósofo Jean Baudrillard faz uma curiosa indagação: “A imaterialidade, o ciberespaço, os clones – ainda somos reais?” O sociólogo Edgar Morin examina o pensamento reformado e a educação do século 21. Sucedem-se os especialistas. As inquietações também. O melhor antídoto contra nossas angústias – parece-nos – é este reconfortante reencontro com Paris. Descemos a Avenue dês Champs-Elysées, entre turistas, mulheres elegantes, cafés e cinemas. Uma extensa exposição ao ar livre – Campos da Aviação

– marca o centenário do Aeroclube da França e os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com aviões antigos e modernos, helicópteros e foguetes espaciais. No final da avenida, abre-se a Place de la Concorde. Mais adiante, o Jardim das Tulherias, a Place de Vosges, a Bastille. Há alguém famoso no Hotel de Crillon. (Há sempre gente famosa em algum hotel de Paris). A cidade se deita com sensualidade em inúmeras praças, estende-se em generosas avenidas arborizadas. Em frente à Rue de Rivoli, com suas arcadas discretas, ergue-se o Louvre, agora enfeitado por uma pirâmide transparente. Essa cidade mistura a arquitetura neoclássica, da era napoleônica, com ousados projetos modernos de vidro e concreto. No Marais, perto da Bastille, a comida e os vinhos do Bonfinger nos esperam. Felizmente. À noite, a cidade brilha e explode. A Torre Eiffel, os restaurantes, os cafés repletos de gente insone, os museus, as lojas, as galerias, os prédios ilumina-

dos com técnica especial – tudo cria um cenário mágico de deslumbramento. As igrejas e as catedrais, as pontes e os palácios dão a esse cenário a necessária historicidade, trazem-nos de volta os sonhos de outros tempos. Nas ruas e escritórios, as pessoas, estimuladas pelo presente de um país que só perde para o Canadá em qualidade de vida, preparam o futuro. Paris ainda é a capital mundial da sofisticação, do requinte e do sonho. Neste ameno começo do outono – céu azul, temperatura em torno dos 15 graus, as advertências feitas por alguns conferencistas, no encontro promovido pela Unesco, de que corremos o risco de perder o futuro, esbarram no charme irresistível de Paris. O século 21 definitivamente não parece sombrio, às margens do Sena. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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NELSON PEREZ/VALOR/AGÊNCIA O GLOBO

CENTENÁRIO

Evandro, o repórter que se tornou o maior advogado criminalista do Brasil Na década de 1930, ele participou das assembléias de fundação do Sindicato dos Jornalistas do Rio, o primeiro criado no País, e integrou a comissão de redação do primeiro estatuto de entidade. Era um repórter iniciante e com o decorrer dos anos, formado em Direito, se tornou o maior e mais admirado advogado criminalista do País. P OR C LÁUDIA S OUZA

Foi tardiamente, em 22 de novembro passado, que a Academia Brasileira de Letras festejou o centenário de nascimento de Evandro Lins e Silva, com a inauguração no primeiro andar do Centro Cultural Banco do Brasil, na Rua Primeiro de Março, 66, de uma exposição que celebra o advogado, jurista, escritor e acadêmico, que desde agosto de 1998 ocupava a Cadeira nº 1 da ABL, como sucessor do escritor goiano Bernando Elis. Nascido em 18 de janeiro de 1912 na cidade de Parnaíba, Piauí, filho do juiz pernambucano Raul Lins e Silva e Maria do Carmo Cavalcanti Lins e Silva, Evandro começou a descrever uma trajetória brilhante ainda estudante, quando namorou o jornalismo. Depois de formado, trabalhou em diversos jornais, entre os quais A Batalha, A Nação, o Diário de Notícias e O Jornal, no qual publicava uma crônica diária na seção forense que o jornal mantinha, assinando-a com o pseudônimo Lobão. Foi nessa época que se interessou pela criação do Sindicato dos Jor10

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nalistas do antigo Distrito Federal, ao lado de outros jovens, como Carlos Lacerda. Evandro fez o curso primário em escolas públicas, no Município de Itapicuru, Estado do Maranhão, onde seu pai era juiz, e na cidade do Recife, onde iniciou o ensino médio no Ginásio Pernambucano. No 4º ano, transferiu-se para o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Em 1929 ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, a famosa Faculdade de Direito do Catete, e se formou em 19 de novembro de 1932, na turma que teve como paraninfo o Professor Afrânio Peixoto. Como advogado, especializou-se em matéria penal e desenvolveu intensa atividade profissional no Tribunal do Júri, nos juizados criminais, nos tribunais superiores e no Supremo Tribunal Federal. Defendeu inúmeros processos de grande repercussão, inclusive em matéria política, perante o Tribunal de Segurança, durante a ditadura do Estado Novo, e na Justiça Militar, na ditadura 1964-1985. Evandro defendeu dezenas de jornalistas em julgamento perante o júri de im-

prensa, de 1934 em diante. Patrocinou a defesa de inúmeros perseguidos políticos, a partir de 1932, numa atividade profissional incessante. Nos anos 1940, o Tribunal de Segurança Nacional absorveu a competência do Superior Tribunal Militar para julgar os crimes de espionagem e atividades correlatas, o que aumentou sua atuação profissional no tribunal de exceção. Foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, em 1947, juntamente com João Mangabeira, Hermes Lima, Domingos Velasco, Alceu Marinho Rego, Rubem Braga e Joel Silveira, entre outros. Casado durante 43 anos com Maria Luisa Konder (Musa), falecida em 1984, com ela teve quatro filhos – Ana Teresa, Carlos Eduardo, Patrícia e Cristiano, os dois primeiros advogados, a terceira educadora, o último engenheiro eletrônico e de sistemas e professor de Informática na PUC-RJ. Entre 1956 e 1961 trabalhou como professor de História do Direito Penal e de Ciência Penitenciária no curso de doutorado da Faculdade de Direito do Estado da Guanabara.

Nos anos 1950, foi correspondente da Organização das Nações Unidas no Brasil para matéria penal e penitenciária, juntamente com os Professores Lemos Brito e César Salgado, por designação do Ministro da Justiça, Cyrilo Júnior. Ocupou os cargos de Procurador-Geral da República, de 26 de junho de 1961 a 23 de janeiro de 1963; Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, de 24 de janeiro a 11 de junho de 1963; Ministro das Relações Exteriores, de 18 de junho a 14 de agosto de 1963; Ministro do Supremo Tribunal Federal, nomeado por decreto de 14 de agosto de 1963, do Presidente João Goulart, para a vaga decorrente do falecimento do Ministro Ary de Azevedo Franco. Tomou posse no dia 4 de setembro. A partir de 1964, já como Ministro do Supremo Tribunal Federal, participou dos julgamentos de mais de uma centena de presos políticos, de governadores (Mauro Borges, Plínio Coelho, Seixas Dória, Miguel Arraes); dos Professores Vieira Neto, Sérgio Cidade de Rezende, de escritores,


Signatário do impeachment Depois de aposentado, participou de processos no Tribunal do Júri e nos tribunais superiores, inclusive no impeachment do ex-Presidente Fernando Collor de Mello, ao lado de Barbosa Lima Sobrinho e de Marcelo Lavenère Machado, da ABI e da Ordem dos Advogados do Brasil, respectivamente, com os quais assinou a petição que deu início à deposição do Presidente. Foi membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil em vários períodos, entre 1944 e 1961, e, depois de aposentado, de 1983 a 1995. Em 1994, esteve à frente da Comissão designada pelo Ministro da Justiça, Maurício Corrêa, para a elaboração do anteprojeto de lei de reforma do Código Penal, tendo realizado um esboço, com base nos estudos e trabalhos produzidos pelas três subcomissões em que se dividia o grupo. Presidiu a Sociedade Brasileira de Criminologia. Integrou o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, no Governo José Sarney, a Associação Internacional de Direito Penal (Grupo Brasileiro) e a Sociedade dos Advogados Criminais do Estado do Rio de Janeiro-Sacerj. Evandro escreveu numerosos trabalhos de Direito Penal e Processual Penal sobre Legítima Defesa, Culpa Penal, Estelionato, Concussão, Concurso de Crimes, Crimes contra a Honra, Crimes Políticos, Indivisibilidade da Ação Penal, Recurso Extraordinário, A Liberdade Provisória no Processo Penal, Pena de Morte, Privatização das Prisões, etc., publicados em memoriais, revistas técnicas e jornais, além de pareceres e inúmeros arrazoados forenses. É autor dos livros A Defesa Tem a Palavra, Arca de Guardados e O Salão dos Passos Perdidos. Coleção de prêmios Evandro Lins e Silva recebeu a Medalha Rui Barbosa, do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; a Medalha Teixeira de Freitas, do Instituto dos Advogados Brasileiros; o Prêmio Helder Câmara de Direitos Humanos, conferido pela seccional da Ordem dos Advogados de Pernambuco; o Prêmio Clóvis Bevilácqua, da Ordem dos Advogados do Ceará; a Ordem do Mérito Jurídico Militar, em 3 de

abril de 1959; a Gran Cruz de la Orden El Sol Del Peru, em Lima, Peru, em 20 de agosto de 1963; a Medalha do Mérito Cultural da Magistratura pelos serviços prestados à Cultura Jurídica Brasileira, em 15 de dezembro de 1997; a Medalha Rui Barbosa, concedida pela Fundação Casa

de Rui Barbosa; a Medalha do Mérito José Bonifácio, da Uerj; a Ordem do Mérito da Fraternidade Ecumênica – Direitos Humanos – da Legião da Boa Vontade. Foi agraciado pela Equitem Ordinis Piani, do Vaticano, na coroação do Papa Paulo VI, em 10 de setembro de 1963, quando che-

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jornalistas e intelectuais, como Caio Prado Júnior, Niomar Muniz Sodré, Ênio Silveira, entre outros. Impetrou inúmeros habeas corpus perante o STF. Foi aposentado pela ditadura em 16 de janeiro de 1969, por força do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, juntamente com os Ministros Victor Nunes Leal e Hermes Lima, por sua atuação na defesa dos direitos constitucionais. A vaga não foi preenchida em virtude do Ato Institucional nº 6, de 1º de fevereiro de 1969, que reduziu de 16 para 11 o número de Ministros, restabelecendo a composição anterior ao Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro de 1965. Lecionou Direito Penal no Ceub, em Brasília, no ano de 1968.

Evandro Lins e Silva no plenário da Câmara, durante a sessão de julgamento do pedido de impeachment do Presidente Fernando Collor, do qual foi um dos signatários.

Um modelo de gerações, diz Ana Maria Machado Dividida em quatro módulos, a exposição sobre o centenário de Evandro Lins e Silva esteve aberta no CCBB até o dia 31 de janeiro. Ela inclui livros, fotografias, filmes e um documentário dirigido por sua neta, Flávia Lins e Silva. Na entrada da exposição o visitante encontra um texto assinado pela Presidente da ABL, a escritora Ana Maria Machado, que substituiu Evandro na Cadeira nº 1, em 24 de abril de 2003. Diz o documento: “Nesta casa idealizada por Lúcio de Mendonça, Ministro do Supremo, e neste momento em que o Supremo Tribunal Federal ocupa no imaginário dos brasileiros um lugar de destaque, é oportuno lembrar a magnífica estatura de um grande integrante de nossa história conjunta. Jurista, escritor, ocupante de importantes cargos políticos, o acadêmico Evandro Lins e Silva foi, antes de mais nada, um advogado criminalista. Um advogado exemplar, modelo de gerações. Esta exposição comemora seus cem anos de nascimento e evoca sua biografia. Recapitula as principais etapas de

sua vida de muitas conquistas e relevantes serviços ao País. Evoca sua preocupação constante com a política brasileira, a democracia e nossas questões sociais. É impossível, porém, trazer para ela o prazer de sua companhia, suas tiradas de humor e inteligência, sua lógica rigorosa, a rapidez de seu raciocínio, seu acúmulo de leituras variadas, sua memória prodigiosa sempre capaz de resgatar um dado preciso. A gravação de algumas entrevistas nos traz apenas uma pequena amostra dessas qualidades. Afável e equilibrado, treinado para se controlar, Evandro Lins e Silva foi no entanto capaz de grandes paixões cívicas. Como assinalou Josué Montello, pode-se dizer que foi aos gritos que tirou um governante do poder, imbuído do papel de defensor do povo brasileiro e da república. Mas foi em surdina que, a vida toda, estudou e se preparou para garantir a defesa da liberdade individual e dos direitos da cidadania. Ao celebrar o centenário de Evandro Lins e Silva, a Academia Brasileira de Letras reitera sua confiança na Justiça e sua fé no Direito.”

fiou a delegação brasileira naquele evento. Recebeu o título “O Criminalista do Século”, pela Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de São Paulo, em dezembro de 1999. Participou das conferências promovidas pela Ordem dos Advogados do Brasil, antes de 1961 e depois de 1969, pela Organização das Nações Unidas (Havana, 1990) e pela Associação Internacional de Direito Penal (Viena, 1989, e Rio de Janeiro, 1994). Figurou como patrono de várias turmas de bacharéis em Direito em todo o País e proferiu aulas inaugurais em faculdades de Direito de todo o Brasil. Defesas célebres Evandro patrocinou, em 1947, perante o Supremo Tribunal Federal, a defesa do Desembargador Edgard Joaquim de Souza Carneiro, em processo de grande repercussão, por se tratar do Presidente em exercício do Tribunal de Justiça da Bahia, acusado de homicídio do advogado Otávio Barreto, no próprio edifício do foro. Participou da defesa o notável advogado baiano Carlito Onofre. O Supremo reconheceu ter o acusado agido em legítima defesa, como sustentara Evandro. Em 1969, redigiu a defesa do então Senador Nelson Carneiro, acusado de tentativa de homicídio contra o Deputado Estácio Sotto Maior, praticada no recinto da Câmara dos Deputados. Em 1974, foi advogado do acadêmico Ivan Lins, no Tribunal Federal de Recursos, na queixacrime por injúria à memória de Agrippino Griecco, oferecida pelo Embaixador Donatello Griecco, filho do falecido crítico literário. Em abril de 2000, defendeu o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra-MST José Rainha Júnior, em processo no Tribunal do Júri, de Vitória, Espírito Santo, acusado de homicídio de um fazendeiro e de um policial militar, fato ocorrido na cidade de Pedro Canário, processo em que Rainha fora condenado a 26 anos de prisão no primeiro julgamento. Defendido por Evandro, Rainha foi absolvido nesse segundo júri. Desagravo, só em 2002 No dia 12 de dezembro de 2002, Evandro recebeu, no Palácio da Alvorada, em Brasília, o Prêmio Nacional de Direitos Humanos e todas as condecorações e honrarias obtidas, ao longo da carreira, que haviam sido cassadas por ocasião do regime militar. Na mesma data foi empossado membro do Conselho da República, cargo para o qual foi eleito pela Câmara dos Deputados. Cinco dias depois, em 17 de dezembro, morreu aos 90 anos, no Rio, após uma queda acidental no Aeroporto Santos Dumont, pouco após desembarcar na cidade. A Assembléia Legislativa de seu Estado natal, o Piauí, prestou-lhe homenagem em sessão solene realizada no dia 13 de março de 2003. O Supremo Tribunal Federal promoveu homenagem póstuma em sessão solene realizada aos 13 de novembro de 2003.

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HISTÓRIA

O Patriota: há 200 anos, referência na imprensa do Brasil Janeiro de 2013 marcou os dois séculos de lançamento do periódico que sedimentou as raízes do jornalismo brasileiro, com especial destaque para as publicações científicas. P OR P AULO C HICO

Ele circulou por apenas dois anos. Ao chegar ao fim, em dezembro de 1814, somava 18 edições impressas. Um número aparentemente irrisório, é bem verdade. Mas de importância histórica excepcional. Fato é que O Patriota, lançado em janeiro de 1813, foi pedra fundamental na constituição do jornalismo brasileiro. Mesmo após sua extinção, nunca mais deixou de ser lido e relido – ao menos no meio acadêmico. “Em sua época, o jornal tinha circulação relativamente restrita, pois a elite leitora era bastante pequena. Mas o que impressiona é que, em relatos de viagem ao Brasil, publicados nos anos seguintes ao fim de O Patriota, ele sempre era citado como fonte. Nesses dois últimos séculos, permaneceu conservado em bibliotecas públicas e particulares, sendo muito pesquisado e citado”, conta Lorelai Cury, professora e pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz, e do Departamento de História da Uerj. Foi exatamente a necessidade constante de pesquisa nas edições de O Patriota em locais como a Fundação Biblioteca Nacional que despertou em Lorelai a idéia de organizar o livro Iluminismo e Império no Brasil - O Patriota (1813-1814), editado pela Fiocruz em 2007. “Nem sempre o manuseio desse material era simples ou confortável, e quase nunca tínhamos acesso a toda a coleção. Por isso, decidimos formatar um livro com os artigos publicados no jornal, que vinha com arquivos digitalizados em CD-Rom”, conta a professora. Ela emprega o verbo ‘decidir ’ no plural pelo fato de o livro, considerado referência nos estudos sobre as origens da imprensa no Brasil, ser uma produção conjunta de pesquisadores – além de Lorelai, assinam a obra nomes respeitados no meio universitário, como Marco Morel e Tania Maria Bessone. Esta última, pesquisadora do CNPq e professora da Uerj, também falou com o Jornal da ABI para esta reportagem, que celebra os 200 anos de lançamento de O Patriota. “Jornal literário, político e mercantil, ele representa os destinos seguidos por aqueles que começaram a experiência de publicar no Brasil, no início do século 19. Tarefa difícil e arriscada... Caminhos interrompidos uniram-se às tentativas de registrar palavras para um punhado de leitores, uma vez que, apesar de a imprensa ter, desde o século 18, um papel importan12

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te na divulgação de informações, e influência sobre a ainda incipiente opinião pública, sobretudo na Europa, aqui quase tudo estava por ser feito. O jornal teve como fundador Manuel Ferreira de Araújo, baiano, professor, matemático, latinista, poeta, militar e político, que o manteve em circulação primeiramente em periodicidade mensal, depois bimestral, modificando o formato e o preço do número avulso de $800 para 1$200, e o da assinatura, de 4$000 ao semestre para 6$000 ao ano”, conta Tania Bessone.

é importante para entendermos melhor o advento da imprensa no Brasil. A publicação do livro, organizado por Lorelai Cury, e acrescido do CD-Rom com o periódico digitalizado, permite analisar, de maneira mais complexa e ao mesmo tempo cômoda aos pesquisadores, o jornal como um todo. Muitos historiadores têm se debruçado sobre a importância da imprensa para a cultura e as relações desta com a palavra escrita, além de seu impacto na sociedade. E creio que O Patriota pode ainda ser muito explorado na melhor compreensão da nossa história do impresso”, diz Tania. Uma espécie de releitura do Iluminismo no Brasil

Talvez o perfil pluralista de seu fundador ajude a compreender a diversidade editorial do jornal, como destaca Tania Bessone. “Acredito que sua contribuição foi crucial. Já mencionei o perfil rico e ativo de Manuel Ferreira, que foi o motor inicial da publicação. Ele conseguiu manter o jornal em circulação arrebanhando uma centena de ‘subscritores’ que eram à época os principais sustentáculos de uma publicação, quer pelo seu prestígio político e social ao assinar os textos e também aparecer relacionados como o que chamaríamos hoje de assinantes, quer pela sua ajuda pecuniária ao periódico.” Os veículos das primeiras décadas do século 19 no Brasil guardavam mais semelhanças aos folhetos e panfletos do que aos modelos gráficos e dos formatos de jornais da atualidade. “Mas O Patriota representa a abertura para muitas novidades gráficas e temáticas. O seu estudo

Marco Morel, doutor em História pela Universidade de Paris e também professor da Uerj, descreve o perfil do fundador de O Patriota, bem como da própria publicação. “Manuel Ferreira era coordenador da publicação e integrante de uma rede de letrados luso-brasileiros que privilegiavam o Brasil como centro de poder no interior daquela nação portuguesa. O jornal tinha, pois, uma tendência ‘brasileira’ que não significava nacionalismo, mas uma vertente do patriotismo imperial português. Pertencia ao contexto intelectual marcado pela expansão e reinterpretação do Iluminismo do século 18, típico dos Antigos Regimes, mas já tocado pela nova conformação do liberalismo posterior à Revolução Francesa – que, todavia, ainda não vigorava nos domínios luso-brasileiros. Era uma publicação cultural característica das monarquias absolutistas, na qual os que a redigiam estavam imersos nestas conjunturas de crise, mudança, ambiguidades e transformações, quando o comércio se redefinia na esteira dos impérios que ruíam ou se ampliavam, ou de novas nações que emergiam.” O professor Morel destaca o perfil dos leitores. “O Patriota circulou, vale lembrar, num período marcado pela presença da Corte portuguesa no Rio. Entre os assinantes, estavam nomes da nobreza, como Carlota Joaquina, os condes dos Arcos, da Palma e da Ponte, o marquês de Torres Novas e o barão de Rio Seco. O que não garantiu a sobrevivência do jornal. Seus autores eram basicamente integrantes do círculo de mecenato de Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, o Conde de Linhares, falecido no ano anterior ao surgimento do periódico. O veículo, de certo modo, foi uma tentativa de sobrevida desta articulação, após a morte de seu

patrocinador. Estava, portanto, no cerne das disputas de poder no império português, sendo atingido por estas.” Lorelai desvenda mais um pouco da linha editorial de O Patriota. “Embora nos festejos dos 200 anos de imprensa no Brasil, data completada em 2008, se tenha falado bastante dele, as pessoas ainda não leram este jornal para perceber o quanto moderno ele era, o quanto era interessante, principalmente se comparado a outras publicações da época, como a Gazeta do Rio de Janeiro. O Patriota trazia notícias curtas e políticas, tinha artigos de fundo, sendo uma espécie de ancestral das nossas revistas científicas. Buscava ainda informar sobre política exterior, apostando em conteúdo profundo e amplo. O leitor de O Patriota, necessariamente, seria alguém acostumado à leitura. Pressupomos tratar-se de um leitor de livros e artigos longos, que podiam tratar de Matemática ou História Natural”, diz Lorelai. Os principais redatores do jornal foram Borges de Barros, Garção Stockler, Mariano Pereira da Fonseca, José Bernardes de Castro, Camilo Martins Lage, Ildefonso da Costa e Abreu, Pedro F. Xavier de Brito, Silva Alvarenga, José Bonifácio de Andrade e Silva, Silvestre Pinheiro Ferreira e José Saturnino da Costa Pereira. Apesar do time ilustre, sua produção não tinha a devida repercussão. Afinal, se sobrava qualidade aos textos, lhe faltavam leitores qualificados. O índice de analfabetismo no Brasil naquele início de século 19 variava entre 75% e 85% da população. “No entanto, como indica Lorelai, o jornal permanece como uma fonte histórica de alto valor para compreendermos as características da imprensa do Brasil. É importante destacar que ele recebia cartas de leitores e as respondia, o que é um universo importante para estudos de futuros pesquisadores”, aponta Tania, para quem O Patriota “foi momento importante na imprensa brasileira, pois lançou raízes como periódico de grande credibilidade, tornando-se modelo e inspiração”.


VUE GLE. DE LA VILLE DE RIO DE JANEIRO PRISE DU COUVENT DE ST. BENTO. JEAN BAPTISTE DEBRET. LITOGRAFIA PB.

Depois da chegada da Famíla Real o Rio de Janeiro passa de pouco mais de 50 mil para 100 mil habitantes em dez anos. Mas o índice de analfabetismo é alto: mais de 75% da população.

Variedade temática no jornal feito na Impressão Régia

O Patriota foi impresso a partir da instalação da Impressão Régia – hoje chamada de Imprensa Nacional – no Rio de Janeiro, unidade que produziu, nas primeiras décadas daquele século, um grande acervo bibliográfico. O jornal tinha a média de 110 a 130 páginas por edição. Forjado em impressoras rudimentares, trouxe notável contribuição iconográfica, inserindo a utilização de gravuras, quadros e tabelas. Abordou, em artigos densos e analíticos, temas tão diversos quanto botânica, zoologia, filosofia, cartografia, viagens, literatura, história, medicina, química, topografia, hidráulica e navegação. Tratava de temas tão curiosos como a História dos Índios Cavaleiros – os Guaicuru – e a descrição geográfica da região de Mato Grosso. Ou descrevia, em detalhes, um roteiro de viagem do Maranhão a Goiás. Foi ainda o primeiro jornal brasileiro a apresentar ilustrações. “Algumas publicações, chamadas de gazetas, foram parentes longínquas de um jornal inglês, denominado The Spectator de vida relativamente curta, mas que deixou importantes marcas em impressos europeus e americanos, ao longo do século 18. Ele fundamentava seus objetivos na máxima socrática de que a virtude e o conhecimento poderiam ser ensinados através dos escritos de jornais. Mas no Brasil esta abordagem representava uma grande inovação, isto é, era uma aventura criar um jornal naquele contexto, com rígido controle das autoridades e com um público leitor restrito. Foi tarefa de escritores ou políticos, corajosos ou bajuladores, ou ainda homens de letras desejosos de divulgar suas opiniões e idéias, atingir maior público leitor, fornecendo, além de informações históricas, peças literárias e relatos científicos para os cultivar. Não sem riscos financeiros e pessoais, pois dependiam de subscrições e outros apoios, já que a venda de jornais, tal como a conhecemos hoje, não era prática comum.

E o público leitor restringia-se à minoria de letrados”, contextualiza Tania Bessone. Historiadora e cientista política, Isabel Lustosa é também pesquisadora titular da Fundação Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro. Ela é um pouco mais radical em sua leitura sobre a importância histórica de O Patriota. “Ele foi a primeira revista brasileira. Reunia artigos de maior fôlego do que a Gazeta do Rio de Janeiro. Dentro do espírito Iluminista do período contemplava principalmente textos científicos. Tratava-se, certamente, de publicação mais voltada para a divulgação científica, como dizemos hoje, do que para a notícia ou o debate político. Se bem que, naquele contexto, tudo estava um pouco misturado.” A pedido do Jornal da ABI, Lorelai Cury discorreu sobre o perfil político da publicação. “É fácil perceber na leitura de O Patriota que havia ocorrido uma inversão do centro de poder e pensamento, que já deixara de ser Lisboa e estava de mudança para o Rio de Janeiro. Daqui passavam a emanar o poder e o conhecimento. Ele não era separatista, não pregava a independência da colônia. Mas era, sim, uma espécie de grito de afirmação desses grupos letrados sediados no Rio, que buscavam a construção de uma identidade brasileira. O próprio título do jornal fazia menção a uma pátria que, começava-se a supor, um dia poderia ser o Brasil”. Isabel Lustosa concorda. “O Patriota não defendia a independência, até porque no curto período em que circulou ninguém pensava nisto. Era uma publicação situada no ambiente do Reformismo Ilustrado que tivera início com Marquês de Pombal e continuidade com o Conde de Linhares, que se caracterizaria pela modernidade e por certa autonomia econômica e científica, contudo sem mudança no sistema político absolutista.” A visão de uma especialista na História da Imprensa

Cybelle de Ipanema, doutora e livre docente da UFRJ e membro da Diretoria

do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB), fez uma breve análise da importância de O Patriota, atendendo a um pedido do Jornal da ABI. “Foi, de fato, um órgão muito importante, por ter sido a primeira gazeta literária do Rio de Janeiro, e a segunda do Brasil, perdendo em pioneirismo para a revista As Variedades ou Ensaios de Literatura, que circulou com apenas dois números na Bahia, em 1812. Mas, veja só, a publicação produzida em Salvador pelo tipógrafo português ali radicado, Manuel Antônio da Silva Serva, somou somente 67 páginas. Em seus dois anos de existência, O Patriota, que trazia como subtítulo a sentença ‘Jornal Litterario, Politico, Mercantil, etc’, ultrapassou a impressionante marca de 2 mil páginas impressas”. Cybelle conta ainda que o fundador da publicação, Manuel Ferreira de Araújo, atuou ininterruptamente como redator em a Gazeta do Rio de Janeiro, onde trabalhou de 1812 e 1821. De lá, saiu devido a desavenças com os donos, para fundar o jornal Espelho, que viria a ter grande importância no período da Independência. “Mesmo que não tenha conseguido grande circulação, devido às características da sociedade do Rio na época, O Patriota foi de importância absurda para um pequeno grupo de alfabetizados que vivia na cidade. Manuel soube como fazer e manter o jornal ativo, por meio de sua rede de relações com boa parte dos intelectuais daquele período”, explica a professora. Mas, então, por qual razão O Patriota não teve uma existência longeva, e durou apenas dois anos? Primeiro de tudo, é preciso reconhecer que a tarefa de editar um periódico naquele início do século 19, numa sociedade de parcas potencialidades culturais latentes, era, se não uma loucura, uma arriscada aventura. Um empreendimento fadado ao fracasso, ao menos do ponto de vista empresarial. Numa segunda avaliação, é preciso entender que justamente na década que se iniciava em 1810 brotavam em terras brasileiras os primeiros periódicos

de opinião, sobretudo na cidade do Rio, com redatores ou escritores que ainda não tinham status de editores, mas que, apesar de restrições da censura impostas por Portugal, exerciam determinadas prerrogativas que continham traços de liberdades, fazendo ecoar idéias através de seus impressos. Nesta perspectiva, tais autores marcavam suas posições ideológicas e procuravam propalar conceitos que tinham objetivos políticos e pedagógicos. “Aliás, é preciso fazer aqui uma referência especial ao Correio Braziliense, editado em Londres por Hipólito da Costa, e considerado o primeiro jornal brasileiro. Produzido de 1808 a 1822, contou 175 números. Ali também havia a nítida preocupação de difundir o conhecimento, por meio de algumas seções fixas, que tratavam de Comércio e Artes, Política, Literatura e Ciências, e Ciências e Miscelânea. A publicação de Hipólito fazia a difusão dos saberes e didaticamente buscava educar, doutrinando seus leitores a respeito de conhecimentos variados”, compara Cybelle de Ipanema. No cenário atual, em que importantes jornais brasileiros deixam de circular nas bancas, migrando conteúdo para a internet ou simplesmente saindo de cena por completo, Tania Bessone ainda vê futuro nas raízes da imprensa impressa, em boa parte plantadas pelo pioneiro O Patriota. “Vejo essa questão por um prisma otimista. Penso que é bem razoável considerar uma coexistência. Mesmo com todas as modificações que a mídia tem sofrido ao longo das últimas décadas, acredito que o jornal de papel, assim como o livro, terá sempre um lugar importante, por suas características e objetivos. Há gosto na leitura do jornal diário, apesar da concorrência eletrônica ser inexorável. Mesmo com as informações sobre a queda de leitores que vez por outra aparecem nas manchetes, e o fechamento de periódicos, tem havido informações e estatísticas bastante animadoras quanto ao crescimento de leitores de jornais, mundo afora.”

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CALENDÁRIO

MEMÓRIA

Até março, a Fundação Biblioteca Nacional irá colocar na internet todos os periódicos editados pela ABI.

Este é um ano de muitas comemorações P OR C ELSO S ABADIN

P OR I GOR W ALTZ

A ABI e a Fundação Biblioteca Nacional vão firmar um acordo para a digitalização e disponibilização na internet das edições do antigo Boletim da Associação Brasileira de Imprensa, do Boletim ABI e do Jornal da ABI, diferentes títulos assumidos pela publicação oficial da Casa em seus 61 anos de existência. Até março deste ano, o público terá acesso a todos os periódicos editados pela Casa do Jornalista desde a sua fundação, por meio de página da Hemeroteca Digital Brasileira-HDB. O Jornal da ABI será o único impresso ainda em circulação a fazer parte desse acervo. A coleção da Hemeroteca possui hoje mais de 6 milhões de páginas digitalizadas de aproximadamente 720 periódicos sobre os mais variados temas, como esportes, moda e cotidiano, de diferentes épocas e de todos os Estados brasileiros. Entre as publicações que constituem o acervo estão títulos raros do século 19, como O Espelho, o Reverbero Constitucional Fluminense, o Jornal das Senhoras e a Semana Ilustrada, e publicações de grande importância do século 20, como as revistas Diretrizes e Careta e os jornais Última Hora, A Noite e Diário Carioca, entre outros. O acervo conta ainda com preciosidades como o Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro, os primei-

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ros periódicos brasileiros, criados em 1808, e também veículos recentes como o Jornal do Brasil, que encerrou sua circulação impressa em agosto de 2011. “Nós estamos entrando em contato com as instituições para tentar preencher algumas lacunas do nosso acervo, como foi o caso da ABI e do Jornal do Brasil. Esperamos que até a metade do ano já tenhamos disponibilizado 10 milhões de páginas de cerca de 2 mil títulos”, explica Ângela Monteiro Bettencourt, Coordenadora de Informação Bibliográfica da Biblioteca Nacional. Com uma produção média de 30 mil páginas digitalizadas diariamente, a HDB permite analisar a evolução da linguagem, da diagramação e dos informes publicitários. A página possibilita ainda a pesquisa por palavras para os interessados em saber como foi a cobertura de determinado evento histórico pela imprensa da época. “Nosso grande objetivo é preservar a História da Imprensa no Brasil e disponibilizar esse conhecimento de forma gratuita e irrestrita. Hoje contamos com 500 mil acessos por mês, alguns vindos de países da Europa, África e Oceania”, informou Ângela Bettencourt. O projeto contou com o apoio da Financiadora de Estudos de Projetos-Finep para aquisição de equipamentos, contratação de mão de obra e armazenamento digital.

FOLHAPRESS

REPRODUÇÃO

A ABI vai digitalizar suas publicações

Treze é um número cabalístico. Pode inspirar sorte para alguns, azar para outros. Se 2013 começou, significa que os maias erraram na previsão, o mundo não se acabou em 2012 e, consequentemente, você tem agora diante de seu olhos o primeiro Jornal da ABI deste Ano Novo. Profecias à parte, o Jornal da ABI se confessa totalmente incompetente em assuntos astrológicos ou esotéricos. Muito mais sintonizados com a precisão dos fatos jornalísticos, preferimos, sim, ressaltar algumas das efemérides que marcam e marcarão a Imprensa durante este ano. Falando em números redondos, 2013 marca os centenários de nascimento de Rubem Braga (12 de janeiro; ver matéria nesta edição), do cantor José Bispo Clementino dos Santos, o popular Jamelão (12 de maio), de Vinícius de Moraes (19 de outubro), do escritor e filósofo francês Albert Camus (7 de novembro), dos ex-presidentes norte-americanos Richard Nixon (9 de janeiro) e Gerald Ford (14 de julho), da artista plástica japonesa radicada no Brasil Tomie Othake (21 de novembro), e também daquele famoso passatempo... como se diz... que são linhas formadas por quadrados em branco que devem ser preenchidos por vocábulos que se cruzam uns com os outros na vertical e na horizontal... com 16 letras... ah sim: Palavras Cruzadas. Elas surgiram pela primeira vez que se tem notícia no jornal novaiorquino The World (que circulou entre 1862 e 1931), justamente em 1913.

Em outubro serão comemorados os 80 anos de Garrincha, a Alegria do Povo, e o centenário do Poetinha Vinícius de Moraes (abaixo).

Ary, 110 anos

Afora aqueles que já teriam passado dos 100 anos, como Mário de Andrade (120 anos em 9 de outubro) e Cândido Portinari (110 anos em 29 de dezembro). Ary Barroso também faria 110 anos neste 2013. Aliás, abandonar a Faculdade de Direito para se tornar pianista do Cine Íris, no Largo da Carioca, talvez tenha sido uma das mais acertadas decisões de Ary Barroso. O Bra-


A primeira página do Jornal do Brasil, criada por Alberto Dines sem manchete: a notícia proibida do golpe militar no Chile foi dada na íntegra. Abaixo, dois mestres: Ary Barroso e Ataulfo Alves. ZILCO RIBEIRO

sil perdeu um advogado e ganhou um dos maiores compositores de sua história. Nascido em Minas Gerais, em 7 de novembro de 1903, Ary Barroso foi compositor, radialista, apresentador de programas de calouros e um dos mais singulares narradores de futebol que o País já teve: em suas transmissões esportivas, ele recusava qualquer traço de imparcialidade e torcia abertamente para o seu Flamengo do coração. Entre as suas diversas composições, destaca-se o clássico Aquarela do Brasil, considerado uma espécie de segundo Hino Nacional Brasileiro. Há várias personalidades brasileiras a serem lembradas neste ano de 2013. Entre eles Sérgio Porto, que adotou o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, nascido em 11 de janeiro de 1923. Cronista, escritor, radialista, jornalista e compositor, atuou nas revistas Sombra e Manchete, nos jornais Última Hora, Diário da Noite, Tribuna da Imprensa e Diário Carioca. Foi autor do Samba do Crioulo Doido (que hoje provavelmente teria seu título alterado para “Samba do Afrodescendente Portador de Deficiência Mental”) e produtor do concurso de beleza “As Certinhas do Lalau”. Irreverente, de humor inteligente e corrosivo, entre outras obras publicou três volumes de seu famoso Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o Brasil, coletânea de notas de humor escritas como se fosse noticiário jornalístico real, estilo que voltou à pauta recentemente em sites e blogs. Sérgio Porto faleceu muito jovem, aos 45 anos, vítima de enfarto. Assim como Garrincha, que completaria 80 anos no próximo dia 28 de outubro. Não são poucos os analistas que consideram Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha, melhor até que o próprio Pelé. Porém, ingênuo e simplório, Garrincha administra mal sua carreira, sofre com sucessivas infiltrações no joelho, e se entrega à bebida. Bicampeão Mundial pelo Brasil em 1958 e 1962, Garrincha morre prematuramente aos 49 anos, em 20 de janeiro de 1983. Seu caixão é coberto com a bandeira do Botafogo, time que mais defendeu em sua carreira. Em 1995, o lançamento do livro Estrela Solitária, de Ruy Castro, não só disseca a vida e a carreira do atleta, como também abre um amplo debate sobre a questão dos direitos autorais em biografias.

jornal] não criticou nem elogiou. Quem elogiou foram os bons jornalistas. (...) Mas a verdade é que três meses depois eu fui demitido por ‘indisciplina’”. É, no mínimo, curioso: as Torres Gêmeas do World Trade Center também foram inauguradas há exatos 40 anos, em 4 de abril de 1973. Na época, foram considerados os edifícios mais altos do mundo. Também foi num 11 de setembro, mas de 1968 (portanto, há 45 anos), o lançamento da revista Veja, criada por Victor Civita e Mino Carta. Ostentando em sua capa a manchete O Grande Duelo no Mundo Comunista e a ilustração da foice e do martelo num fundo vermelho (imagem por si só provocadora naqueles tempos de chumbo), a revista profeticamente estampava em seu editorial: “Veja quer ser a grande revista semanal de informação de todos os brasileiros”. Conseguiu. Numa época em que as grandes revistas semanais brasileiras priorizavam as fotos, Veja inspirou-se na fórmula criada pela norteamericana Time para abrir caminhos no mercado editorial brasileiro. Coincidentemente ou não, a Time comemora 90 anos neste 2013: sua primeira edição circulou em 3 de março de 1923. Considerada a primeira revista semanal de notícias publicada no mundo, a publicação foi fundada por Briton Hadden e Henry Luce, antigos colegas de Yale, onde editavam a revista dos alunos daquela Universidade. Regulamentação da profissão

Alguns “Onzes de Setembro”

É inevitável, até por uma ampla questão midiática, que se associe a data de 11 de setembro aos atentados às Torres Gêmeas em Nova York. Mas vale lembrar também que em 11 de setembro deste ano serão relembrados os 40 anos do golpe de Estado que derrubou Salvador Allende e colocou Pinochet no Governo do Chile. Golpe que, por sinal, originou uma das capas mais antológicas de toda a história do jornalismo brasileiro, publicada no dia seguinte à derrubada de Allende. Como a ditadura brasileira havia proibido manchetes que pudessem fazer qualquer defesa ou elogio ao presidente deposto de esquerda, o Jornal do Brasil decidiu publicar uma capa contando toda a história do golpe... sem títulos ou manchetes. Décadas mais tarde, Alberto Dines contaria ao Jornal da ABI: “A direção [do

Falando em revistas e jornalistas, também 2013 marca os 75 anos da regulamentação da nossa profissão, coroando uma reivindicação pela qual a ABI lutava desde a sua fundação, em 1908. Em 30 de novembro de 1938, Getúlio Vargas assina o Decreto-Lei n° 910, cujo artigo 17 dispõe finalmente sobre a profissão de Jornalista. Também foi Getúlio quem estatizou o nosso petróleo. Em 3 de outubro de 1953, após décadas de discussões entre nacionalistas e defensores do capital estrangeiro no Brasil, o Presidente Vargas assina a Lei n° 2.004, que institui o monopólio estatal do petróleo através da criação da empresa Petróleo Brasileiro S.A.-Petrobras. Vencem os partidários da famosa frase “O Petróleo é Nosso”, que se tornou lema da “Campanha do Petróleo”, apoiada com vigor por várias instituições nacionais, entre elas a ABI, em cujo Auditório Oscar Guana-

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CALENDÁRIO 2013 - ESTE É UM ANO DE MUITAS COMEMORAÇÕES TV GLOBO/NELSON DI RAGO

Paulo Gracindo em O Bem-Amado: primeira novela a cores da televisão brasileira completa 40 anos de exibição. Ignorabus, a genial criação de Millôr Fernandes e Carlos Estevão, faz 65 anos. A primeira aparição de Mônica, de Maurício de Souza, foi numa tira do Cebolinha há 50 anos.

barino se deu o lançamento da campanha, em 4 de junho de 1948. Jornalismo impresso

Na área de jornalismo impresso, 2013 marca os 200 anos do jornal O Patriota (veja matéria nesta edição), 190 anos do Typhis, os 160 de O Constitucional, os 60 anos do semanário Flan e os 50 anos da revista Intervalo e do jornal Notícias Populares, e os 25 anos da revista Época. Vale uma rápida “passada d´olhos”, como se dizia antigamente, sobre cada um deles: No dia de Natal de 1823, começava a circular pelas ruas do Recife o Typhis Pernambucano, semanário de 21 x 30 cm criado e editado pelo Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Durou pouco, apenas 29 edições em menos de um ano (o número final é de 12 de agosto de 1824), mas em seu curto período de existência o Typhis defendeu a liberdade de imprensa, lutou contra a escravidão e criticou duramente o então “jovem príncipe, sem caráter, rodeado de lisonjeiros, inimigos encarniçados do Brasil”. Já O Constitucional, fundado pelo tipógrafo Joaquim Roberto de Azevedo, também tem vida curta, mas entra para a História como o primeiro jornal diário de São Paulo. Flan, lançado em abril de 1953, é o primeiro grande jornal semanário do Brasil. Editado pela Última Hora, de Samuel Wainer, Flan chega à significativa tiragem de 180 mil exemplares, e logo atrai a ira e a represália de poderosos adversários, como Chateaubriand, Adolpho Bloch e Carlos Lacerda. Não resiste e deixa de circular antes de completar seu primeiro ano de vida. Em janeiro de 1963, percebendo a grande popularização da televisão no Brasil, a Editora Abril lança a revista semanal Intervalo, trazendo informações, entrevistas, reportagens, fofocas e a programação de tv de todos os canais... que por sinal eram bem poucos na época. E em 15 de outubro do mesmo ano começa a circular o Notícias Populares, jornal do Grupo Folha que marcou época com suas fotos e manchetes sensacionalistas como “Bicha põe rosquinha no seguro” e “A morte não usa calcinha”. Circulou até 20 de janeiro de 2001. Com data de capa de 25 de maio de 1998, começa a circular a ousada aposta da Editora Globo (antiga RGE): a revista semanal Época, que teve uma gestação demorada (como informa a matéria publicada a partir da página 42). 16

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Rádio, tv, cinema e música

Embora a primeira transmissão de rádio no Brasil tivesse acontecido no dia do centenário da independência (7 de setembro de 1922), a primeira emissora de rádio brasileira (na época falava-se “estação de rádio”) só seria inaugurada no ano seguinte, em 20 de abril. Era a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Edgard Roquette-Pinto e Henrique Morize. A denominação “rádio sociedade” não era por acaso, já que se tratava de uma iniciativa educativo-cultural mantida por doações de sócios. As emissoras comerciais só surgiriam nos anos 1930. Assim, em 2013 serão comemorados os 90 anos do Rádio brasileiro, assunto que merecerá destaque em nossas próximas edições. Já na área televisiva, 2013 marca os 50 anos da criação de um gênero que viria a se transformar numa verdadeira “marca registrada” do Brasil: a telenovela diária. Foi em 1963 que a TV Excelsior exibiu 25499 Ocupado (sim, naquela época os números de telefone só tinham cinco dígitos), com Tarcísio Meira e Glória Menezes. Transmitida no horário das 19 horas, tem duração de três meses. Vinte anos depois, a Excelsior, extinta após o golpe militar de 1964, abre espaço para a TV Manchete, inaugurada há 30 anos. Às 19 horas do dia 5 de junho de 1983, um domingo, entra no ar a Rede Manchete de Televisão, empresa do tradicional Grupo Bloch. No discurso inaugural, Adolpho Bloch homenageia o pioneiro Assis Chateubriand, saúda as redes concorrentes e promete “uma programação de alto nível”. O primeiro programa transmitido pela Manchete foi o show de variedades Mundo Mágico, su-

cedido pelo filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau, então inédito na televisão brasileira. Na Tupi, a data de 4 de novembro de 1968 (portanto, há 45 anos) marca a estréia da revolucionária telenovela Beto Rockfeller, de Cassiano Gabus Mendes e Bráulio Pedroso, que prega a adoção de temas e estilo brasileiro ao gênero, em contraposição à excessiva “mexicanização” vista nas emissoras concorrentes. A Globo entende o recado e lança, em 24 de janeiro de 1973 (40 anos atrás), O Bem-Amado, de Dias Gomes, novela que discute em tom de humor e farsa assuntos que normalmente não seriam tolerados pela ditadura então existente no País. E para não dizer que não falamos de Jornalismo na tv, comemoram-se em 2013 os 15 anos da versão televisiva de O Observatório da Imprensa, numa ação conjunta da TVE do Rio de Janeiro e da TV Cultura de São Paulo. O ano de 1973 se mostraria pródigo também no campo musical brasileiro. O que teria acontecido com a água que os compositores da MPB tomavam há 40 anos? Ou talvez a questão não fosse exatamente a água? O fato é que o ano marcou o lançamento de vários álbuns que não apenas marcaram como até mudaram os rumos da música popular brasileira. Entre eles, Krig-ha, bandolo! (de Raul Seixas), Pérola Negra (de Luiz Melodia), Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (de Sérgio Sampaio), e o bombástico lançamento do grupo Secos & Molhados (produzido pelo jornalista de Últi-

Raul Seixas surge para a fama em 1973 com Krig-ha, bandolo!.

DIVULGAÇÃO/RAUL SEIXAS - O INÍCIO, O FIM E O MEIO

ma Hora Moracy do Val), que em plena ditadura militar escandalizou os conservadores ao apresentar um cantor de voz e trejeitos andróginos e com quase todo o corpo à mostra: Ney Matogrosso. No cinema, é importante lembrar de O Cangaceiro. A única Palma de Ouro do Festival de Cannes conquistada pelo Brasil, até hoje, continua sendo a do filme O Pagador de Promessas, de 1962. Mas nem todos se lembram que anos antes, em 1953, O Cangaceiro, de Lima Barreto, ganha no mesmo evento os prêmios de Melhor Filme de Aventura e Melhor Trilha Sonora, com a inesquecível canção Olê Muié Rendeira, interpretada pela atriz Vanja Orico. Quadrinhos, um capítulo à parte

Fãs de histórias em quadrinhos também terão muito a comemorar em 2013. Completa-se este ano o centenário da tira norte-americana Bringing Up Father, que trazia os personagens Maggie e Jiggs. Nunca ouviu falar? Talvez seus nomes brasileiros, Pafúncio e Marocas, soem mais familiares aos nossos ouvidos. Criados por George McManus, Pafúncio e Marocas formavam um casal de imigrantes irlandeses que enriquece repentinamente nas corridas de cavalos e passa a brigar como nunca, pois Pafúncio prefere manter os velhos hábitos de sua época de pobreza, enquanto Marocas se torna uma mulher esnobe. O ano marca ainda meio século da Mônica, criação de Maurício de Souza baseada em sua própria filha, e também dos personagens X-Men, criados por Stan Lee e Jack Kirby. Ignorabus, a criação de Millôr Fernandes e Carlos Estêvão, completa 65 anos, mesma idade do cowboy Tex, criado por Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini. Sim, Tex é um personagem italiano. Já O Amigo da Onça, criação de Péricles de Andrade Maranhão, foi publicado pela primeira vez na revista O Cruzeiro de 23 de outubro de 1943. Completa agora então 70 anos de constrangedoras situações que provocava em seus interlocutores. Também em 1943 estréia nos Estados Unidos o filme Alô, Amigos, e com ele o personagem Zé Carioca, capítulo brasileiro da Política de Boa Vizinhança implantada nos Estados Unidos na época da Segunda Guerra Mundial. Em 2013 SuperHomem faz 75 anos; Mickey Mouse, 85. Várias destas (e outras) efemérides merecerão matérias e destaques nas próximas edições do Jornal da ABI. Já que os maias estavam errados, mãos à obra!


HUMOR

Retrospectiva 2012 O ano que acabou na visão bem-humorada e crítica de alguns dos principais cartunistas do País.

NESTA PÁGINA, OS TRABALHOS DE

AROEIRA, CLAYTON, FERNANDES, JEAN GALVÃO, MARIO ALBERTO E QUINHO. Como é de costume nesta época do ano, o Jornal da ABI apresenta uma seleção de algumas das melhores charges publicadas na imprensa brasileira, criadas por talentosos artistas do traço: Aroeira, Benett, Clayton, Dalcio, Fernandes, J.Bosco, Jean Galvão, João Montanaro, Marco Jacobsen, Mario Alberto, Quinho, Rico e Simanca. Estes treze cartunistas responderam ao nosso chamado e enviaram seus trabalhos que retratam, com muito humor, senso crítico, e algumas homenagens também, os principais acontecimentos do ano que passou. Estes 76 desenhos formam um painel preciso da qualidade gráfica dos desenhistas brasileiros.

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SAUDADES

DÁLCIO, FERNANDES, J.BOSCO, QUINHO

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FATOS QUE DERAM O QUE FALAR DÁLCIO, FERNANDES, JEAN GALVÃO

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CAMPEÕES

J.BOSCO, MARIO ALBERTO

O MUNDO EM CRISE BENETT, DÁLCIO, JEAN GALVÃO, QUINHO

VIOLÊNCIA EM SÃO PAULO BENETT, JEAN GALVÃO, RICO

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O NOSSO FUTEBOL

AROEIRA, MARIO ALBERTO

ECOLOGIA JEAN GALVテグ, J.BOSCO, MARCO JACOBSEN, RICO

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AS AGRURAS DE DILMA

BENETT, FERNANDES, JEAN GALVÃO, MARCO JACOBSEN, RICO, SIMANCA

O JULGAMENTO DA DÉCADA BENETT, MARCO JACOBSEN, RICO

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ESCÂNDALOS

AROEIRA, BENETT, J.BOSCO, JOÃO MONTANARO, MARCO JACOBSEN, QUINHO, RICO, SIMANCA

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QUEM DESENHOU E ONDE PUBLICOU AROEIRA - O Dia, do Rio de Janeiro. BENETT - Gazeta do Povo, de Curitiba e Folha de S.Paulo. blogdobenett.blog.uol.com.br CL AY TON - O Povo, de Fortaleza D ALCIO - Correio Popular, de Campinas e revista Veja. dalciomachado.blogspot.com FERNANDES - Diário do Grande ABC. J.BOS CO - O Liberal, de Belém, PA. OSC jboscocaricaturas.blogspot.com JEAN GAL VÃO - Folha de S.Paulo ALVÃO jeangalvao.blogspot.com JOÃO MONT ANARO - Folha de S.Paulo ONTANARO joaomontanaro.blogspot.com MARCO JACOBSEN - Folha de Londrina e Revista Novo Ambiente. marcojacobsen.zip.net MAR IO ALB ER TO - Lance. marioalberto.com.br ARIO LBER ERT QUINHO - Estado de Minas. quinhoilustrador.blogspot.com.br RIC O - O Vale, de São José dos Campos, SP. ICO ricocartum.blogspot.com SI MANC A - A Tarde, de Salvador, BA. MANCA osmanisimanca.com

ELEIÇÕES

BENETT, CLAYTON, DALCIO, FERNANDES, JOÃO MONTANARO, SIMANCA

FIM DE ANO E FIM DO MUNDO CLAYTON

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LIBERDADE DE IMPRENSA

Brasil subiu em mortes de jornalistas em 2012 Encerrado o ano, o País foi considerado o quinto mais perigoso do mundo para profissionais de comunicação.

MUNIR AHMED

O Brasil desponta em 2012 entre os mais letais do mundo para os jornalistas nas análises das principais organizações internacionais defensoras da liberdade de imprensa. Todas elas registram um aumento expressivo da violência em relação a anos anteriores. De acordo com o relatório anual da Repórteres Sem Fronteiras, o Brasil fecha o ano como o quinto país mais perigoso do mundo para os profissionais da imprensa, com cinco assassinatos relacionados à profissão, dois dos quais, ao que tudo indica, por investigarem casos ligados ao narcotráfico. Em 2011, foi registrado um total de três casos. Já a Press Emblem Campaign (PEC, na sigla em inglês), organização civil com sede na Suíça que busca a proteção dos comunicadores de todo o mundo, destaca que nunca antes houve tantas mortes de jornalistas no Brasil e classifica o país como o quarto pior do mundo, empatado com o México, para o exercício do jornalismo. A organização registrou 11 casos de homicídios de jornalistas este ano; no ano passado, quase a metade, seis. Em 2012, o Brasil ficou atrás apenas de Síria, Somália e Paquistão. Somando os assassinatos no Afeganistão, Iraque e Gaza, países que se encontram em situação de

guerra, o número de vítimas chega a oito. Segundo a entidade, o Brasil é historicamente um dos mais perigosos para a imprensa, mas havia sido cenário de poucas mortes entre 2005 e 2010, o que faz que esta recente elevação no número de casos seja especialmente preocupante. A divergência entre os números divulgados decorre dos diferentes critérios usa-

dos por cada entidade para determinar se o crime está ou não relacionado à atividade jornalística das vítimas. Entre os jornalistas assassinados citados pelas organizações estão Laércio de Souza (Bahia), Mário Randolfo Marques (Rio de Janeiro), Paulo Roberto Cardoso Rodrigues (Mato Grosso do Sul), Divino Aparecido Carvalho (Paraná), Onei de Moura (Paraná), Décio Sá (Maranhão), Valério Luiz de Oliveira (Goiás), Luís Henrique Georges (Mato Grosso do Sul), Anderson Leandro da Silva (Paraná), Edmilson de Souza (Sergipe) e Eduardo Carvalho (Mato Grosso do Sul). A maioria deles perdeu a vida após denunciar a influência de máfias criminosas nos setores políticos e econômicos, casos de corrupções de autoridades locais e crimes ligados ao narcotráfico. A falta de uma apuração rigorosa destes crimes é uma das razões para que eles se repitam. No Brasil, apenas 10% dos homicídios são solucionados, segundo estudo divulgado pelo jornal O Globo. Esse baixo índice reflete a inclusão do País no Índice de Impunidade do CPJ. O período das eleições municipais, ocorridas em outubro, também contribuiu para o clima de insegurança dos jornalistas, que sofreram tentativas de censura e agressões por parte de candidatos ou de seus correligionários.

Radialista assassinado no interior do RJ Repórter de rua da Rádio Barra FM, Renato Gonçalves foi abatido com quatro tiros quando chegava em casa. A violência sobre profissionais da imprensa fez na noite de 8 de janeiro mais uma vítima. Em São João da Barra, no Norte fluminense, o radialista Renato Machado Gonçalves, de 41 anos, foi assassinado com pelo menos quatro tiros quando chegava em sua residência, que fica ao lado da Rádio Barra FM, emissora em que era gerente e fazia reportagens de rua. No momento da execução, ele, a esposa Danúzia e a sobrinha Maria Luiza, de seis anos, voltavam de uma festa. Testemunhas ouvidas pela Barra FM disseram que dois homens em uma motocicleta esperavam o jornalista para atacá-lo. Amigos da vítima informaram que a Polícia Civil analisou imagens de câmeras de segurança que registraram a movimentação dos criminosos – que não estariam usando capacete ou touca. Renato foi sepultado no dia 9 no Cemitério São João Batista, no Centro de São João da Barra. O assassinato de Renato Gonçalves acontece onze meses depois da execução de Mário Randolfo Marques Lopes, jornalista que mantinha um blog sobre a cidade de Vassouras e foi assassinado em Barra do Piraí junto com sua companheira. Em ambos os casos, não está descartada a hipótese de motivação política para os crimes. O radialista de São João da Barra chegou a ser agredido na Câmara de Vereadores do Municípío no mês de setembro. As investigações prosseguiram em janeiro na 145ª Delegacia de Polícia, em São João da Barra, a qual ouviu parentes de Renato e testemunhas que podem fornecer informações que conduzam à descoberta da autoria do crime.

Repórter ameaçado no Paraná deixa o País Sem condições de segurança para trabalhar em seu Estado, o jornalista Mauri König se muda para o exterior. Mauri König, diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji e repórter da Gazeta do Povo, do Paraná, exilado com a família após receber ameaça anônima de que teria a casa metralhada por policiais militares, disse que as ameaças “não o silenciarão”. O jornalista confessou o desejo de retornar logo ao Brasil. Exilado por questões de segurança pessoal desde os últimos dias de 2012, König explica que imediatamente após as ameaças, no dia 17 de dezembro, o jornal contratou quatro seguranças. Naquele mesmo dia ele dormiu, com a mulher e o filho de três anos, em diferentes hotéis de Curitiba. “No dia 22 de dezembro, deixei o País, com apoio da Gazeta, do Comitê para a Pro-

teção dos Jornalistas (CPJ), sediado nos Estados Unidos e do Instituto Prensa y Sociedad, do Peru. A Abraji, da qual sou diretor, também está me dando um apoio incondicional. Mas eu continuo fora do País, por tempo indeterminado”, disse. Disse König que sabe de quem partem as ameaças, mas não tem como provar. “Tenho certeza de que são policiais civis. Em maio, quando fui ameaçado, eles me chamaram de inimigo número 1 da Polícia Civil, num blog assinado por policiais. Pelo linguajar, dá para saber que são eles que escrevem”, comentou. Questionado sobre o que espera das autoridades, König fez cobranças e disse que não é somente ele que está em risco, mas

a sociedade brasileira. “Espero que o Ministério Público e a Polícia Civil do Paraná consigam enxergar os autores dessas ameaças. Não sou eu apenas que estou em risco. É a sociedade brasileira, que tem direito à informação e direito de saber como a corrupção afeta seus direitos elementares”, disse. “Se a Polícia Civil não levar adiante as investigações, teremos para sempre esse risco de ameaça sob nossas cabeças. Se não forem encontradas, essas pessoas se sentirão autorizadas a continuar a fazer ameaças. Em maio, o Governo do Estado foi condescendente quando não levou adiante as investigações. É corresponsável pelas ameaças que sofremos agora”, completou.

Apesar dos riscos, ele é categórico ao afirmar que “não podemos ceder às ameaças”. “Se cedermos, os agressores vão notar que venceram e se sentirão autorizados a repetir. Talvez precise encontrar apenas uma maneira alternativa de fazer essa cobertura. Ceder, jamais”, ressaltou. Esperando retornar ao País, König diz que vai continuar seu trabalho. “Depois que você percebe que o jornalismo de profundidade dá resultado, incomoda a parte denunciada e faz diferença na vida das pessoas, não consegue mais fazer outra coisa”, afirmou. “Esse é o meu caminho, quero esgotar os assuntos. E não tenho como abrir mão dessa estrada trilhada há tanto tempo. Não vou ceder a ameaças.”

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REPRODUÇÃO

DIREITOS HUMANOS

A ANGÚSTIA DE DONA ELZITA AQUELA QUE NUNCA ENCONTROU O CORPO DO FILHO Ela conseguiu salvar a filha da tortura nos porões da ditadura, mas o filho Fernando sumiu em 1974 e nunca mais houve notícias sobre ele. P OR G ERALDO P EREIRA DOS S ANTOS

Na cidade de Olinda, Patrimônio Histórico da Humanidade, num apartamento de frente para o mar, no bairro do Cajueiro, reside uma mulher quase centenária. A sua luta, a luta dos seus filhos, a contribuição de ambos para melhorar o País tem sido imensa. Após uma prematura viuvez, ela conheceu o médico Lincoln de Santa Cruz de Oliveira, com quem se casou e dessa feliz e abençoada união nasceram dez filhos “todos formados”, me diz com uma ponta de justificável orgulho, a minha entrevistada, dona Elzita Santos de Santa Cruz de Oliveira. Conheci pessoalmente Dona Elzita há pouco mais de um ano, por ocasião do 8º Encontro dos Presos e Torturados Políticos pela Ditadura Militar, que se realiza todas as quartas-feiras de Cinzas na cidade do Recife, por iniciativa de um deles, o historiador, poeta e jornalista Marcelo Mário Mello, meu estimado amigo. Já conhecia a história dessa mulher admirável, sua exemplar coragem, seu calvário, na defesa da filha Rosalina, salva da morte certa, nos porões da ditadura militar. O mesmo não aconteceu com o filho Fernando, assassinado em fevereiro de 1974, junto com o seu companheiro da Ação Popular Marxista Lenilista-APML, Eduardo Cullier Filho, nos órgãos de repressão da ditadura que se instalou no País em março de 1964. Estou em sua casa, na cidade de Olinda. As bisnetas, Mariana e Maria, são advertidas, estão fazendo muita ‘farra’, pagam as advertências com beijos que deixam a bisavó num estado de plena felicidade. Num gesto fraterno e carinhoso, Dona Elzita me toma as mãos, conduzindo-me até uma sala, onde estão expostos e registrados instantes diversos de sua peregrinação em busca do filho. Ali estão os troféus, diplomas, placas, outras homenagens recebidas no Brasil e no exterior. Caminhamos em torno da sala, Dona Elzita chama-me a atenção, apontando para um quadro. Nele uma foto de um lindo jovem: “É Fernando!”, diz-me. Sinto que a sua voz, até então firme, está embargada 26

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pela emoção. “Onde andará Fernando?”. Há 38 anos ela espera pelo filho! “Depois que perdi Fernando, só me resta falar para que o fato triste não caia no esquecimento”– o assassinato do filho, com apenas 24 anos de idade! Um crime monstruoso que ela, nós e a Nação jamais esqueceremos. Estamos em 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, é sábado de Carnaval. Fernando vem de São Paulo, com a esposa e o filho. Hospeda-se na casa do irmão, o advogado Marcelo Santa Cruz, no bairro do Catete. De bermuda amarela, camisa esporte e chinelo, vai para Copacabana se encontrar com o seu conterrâneo e companheiro da APML, Eduardo Cullier Filho. Eles não se viam há muito tempo. Eduardo estava na clandestinidade, com os órgãos de repressão em seu encalço. Eles são detidos. Ambos eram jovens, ambos eram pernambucanos, ambos tinham 26 anos de idade, ambos eram idealistas, ambos sonhavam com um Brasil de mesa farta para o seu povo, escolas, hospitais, trabalho para todos; ambos foram assassinados pela ditadura militar. No dia 2 de março de 1974, os jornais O Globo e O Dia, noticiaram o desaparecimento de Fernando. Nesse mesmo mês os advogados Marcelo Santa Cruz seu irmão, e Modesto Silveira impetraram habeas corpus junto ao Superior Tribunal Militar. Dona Elzita lutou bravamente, recorreu a tudo e a todos, em defesa do filho Fernando, para saber o seu paradeiro, para salvar a vida dele. Recorreu a órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos, recorreu a toda Imprensa interna e externa. O que uma mãe não faz para salvar o filho da morte? Corajosa, durante anos, dividiu o seu tempo entre Recife, Rio e São Paulo. Quando não estava atrás das autoridades, das entidades, em busca de notícias do filho, ficava em casa escrevendo as suas cartas; cartas denúncias, cartas acusatórias, cartas cheias de indignação. Para usar uma expressão popular, Dona Elzita ‘correu atrás’, correu muito, não se cansou, insistiu até quando foi possível. Em 21 de maio de 1974, ela escreve ao Marechal Juarez Távora “É justo, é humano,

é cristão, que um órgão de segurança encarcere, depois de sequestrar um jovem que trabalhava e estudava, sem que à sua família seja dada qualquer informação sobre o seu paradeiro e as acusações que lhe são imputadas? Onde está o meu filho?” Volta a escrever ao Marechal Juarez, em 10 de outubro; “São transcorridos quase oito meses, quero dessa vez solicitar sua interferência no sentido de saber, junto às autoridades militares do meu País, se meu filho encontra-se, atualmente, vivo ou morto”. O Marechal Juarez responde-lhe: “Estou acusando o recebimento de sua carta de 10 de outubro, que só há poucos dias chegou às minhas mãos [...] acabo de encaminhá-la ao General Edinardo D’Ávila Mello, comandante do II Exército, em São Paulo, esperando que essa carta mereça melhor atenção do que a anterior, enviada ao General Golbery do Couto e Silva”. O apelo do Marechal Juarez ao seu colega Edinardo D’Ávila Mello foi claro e objetivo:”[...] apenas venho rogar-lhe (como já fiz anteriormente a outras autoridades públicas), que tenha a caridade de transmitir por meu intermédio, ou diretamente à Dona Elzita dos Santos Santa Cruz de Oliveira, uma informação segura sobre o paradeiro do filho, preso há 10 meses, sem culpa formada”. Em 29 de dezembro, o Marechal Juarez informa a Dona Elzita ter recebido resposta do seu colega Comandante do II Exército: “Informo ao ilustre chefe que o sr. Fernando nunca esteve preso no II Exército.”

O Marechal Juarez sugere a Dona Elzita que se dirija ao General Reynaldo Melo de Almeida, Comandante do I Exército, termina a carta: “É tudo o que lhe pode sugerir, nas atuais circunstâncias esse seu velho patrício Juarez Távora”. O calvário de Dona Elzita, em busca de notícias do filho, seus apelos emocionantes, suas cartas às autoridades, suas viagens por Pernambuco, Rio e São Paulo, atrás das autoridades, vencendo todos os percalços, enfrentando a má vontade de quase todas, com as portas sempre fechadas para ela, levou o líder católico Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), com seu incomensurável saber intelectual e reserva moral da Nação, a escrever: “Até quando haverá no Brasil mulheres que não sabem se são viúvas, filhos que não sabem se são órfãos, criaturas humanas que batem em vão em portas, implacavelmente trancadas, de um Brasil, que julgávamos ingenuamente isento de tais crueldades?” “Há nesse momento, no Brasil, sem que sequer se possa citar-lhes os nomes, ao lado de nós, dezenas de lares, e neles centenas de corações, que sofrem em silêncio a tragédia de espera, de dúvida sobre a vida ou a morte dos seus mais queridos. São pais, irmãos, noivas, mulheres, quem sabe, maridos, que esperam surgir o ausente, de um momento para o outro, sempre que se abre a porta da rua. Ou sonham com as cenas nos intervalos das insônias. Ou pior ainda, quando as portas, em que batem, os cansados de es-


perar, se fecham de todo, ou mal se entreabrem. E às vezes que respondem, se respondem, às interrogações angustiadas se limitam a dizer que ‘por aqui não passou a pessoa que a senhora procura, não existe sinal algum de sua prisão. Vamos ver o que podemos fazer. Tenha paciência. Espere. Tudo vai acabar bem.” No Governo do Presidente Lula, Dona Elzita foi a Brasília, no Palácio do Planalto, recebeu um prêmio de direitos humanos. Ela foi homenageada pelo Presidente Lula, no seu improviso de agradecimento, a frase incisiva que emocionou os presentes: “Presidente, eu não quero morrer sem enterrar o meu filho, eu lhe peço isso. Peço ao senhor, como uma pessoa em que eu acredito. Sei que é íntegro, não me deixe morrer sem enterrar meu filho!” Recorro ao depoimento de Ana Lúcia, sua namorada, esposa e logo viúva: “Conheci Fernando exatamente no dia 21 de maio de 1965, no dia do meu aniversário de 15 anos. Fernando tinha 17 anos. Logo depois, uma dança, numa festa junina do colégio, nós começamos a namorar, namoro igual a todos os namoros dos adolescentes. Até dois anos depois, quando Fernando foi preso numa passeata estudantil. Nessa época, eu só tinha 16 anos, ele tinha 18, e nós conseguimos esconder o fato, e garantir que ele ficasse no Juizado de Menores, onde tinha acesso às visitas. No final de 1969, quando a repressão se intensificou, Fernando foi acusado de colocar umas bombas no Colégio Estadual de Pernambuco. Era uma provocação, que não poderia ter outra origem, senão do próprio aparelho repressivo. Ele foi procurado em casa, estava doente e escapou pela porta da cozinha. A partir daí, vimos que não tínhamos mais espaço em Recife. De forma relâmpago, resolvemos nos casar, o que aconteceu no dia 15 de janeiro de 1970, na Prefeitura de Olinda. Fomos para o Rio de Janeiro. No final desse mês chegamos ao Rio, dois jovens, eu com 19 e Fernando com 21 e encontramos vários companheiros presos. Durante três anos trabalhamos numa empresa, até irmos para São Paulo. Em 1972, nasceu nosso filho Felipe. Viemos para o Rio de Janeiro, no sábado de Carnaval, logo depois do aniversário de Fernando, que havia feito 26 anos em 20 de fevereiro. Fernando saiu para cobrir o ponto de Eduardo Collier e eu com Doralina Rodrigues. Volto para casa, não sabia se Fernando viria ou não, apesar de termos combinado irmos ao cinema às 18 horas. Não voltou. Esperamos por ele durante muitos anos. É muito difícil reproduzir em palavras o que eu senti naquela separação repentina. Não conseguia imaginar o meu casamento rompido por uma prisão e morte sem sepultura. Nessa época eu tinha parado de tomar anticoncepcionias, queria ter outro filho, e tudo isso de repente é assassinado. Fiquei sem dinheiro, sem casa, sem marido, um filho de dois anos para criar, com 23 anos. Lembro-me quando a neta do Marechal Cordeiro de Farias, uma das pessoas que estava interferindo para ver se conseguia salvar Fernando, me chamou e disse “Ana, eu preciso falar com você. Meu avô disse que desistia do caso, que não tinha mais jeito”.

O calvário de Rosalina A batalha de dona Elzita foi imensa para salvar o filho Fernando. Antes, em 1971, outra batalha duríssima ela teve que enfrentar, desta vez para salvar a filha Rosalina da morte nos porões da ditadura militar, onde estava sendo barbaramente torturada. Rosalina era assistente social do BNHBanco Nacional de Habitação e o seu esposo, Geraldo Leite, engenheiro agrônomo, do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, no Rio de Janeiro. Eles tiveram o seu apartamento arrombado na madrugada de 3 de dezembro de 1971, no bairro do Flamengo. Os invasores, armados de metralhadoras, usando de toda a violência, os algemaram e os levaram para o Dops de Niterói. Vão de barco, “eles pisando em cima da gente. No meio da Baía da Guanabara pensávamos que íamos ser jogados no mar”. Foram 51 dias de tortura. Dona Elzita já se encontrava no Rio para iniciar a batalha em defesa da filha querida. Sua coragem, sua altivez diante de todas as adversidades, serve de exemplo. Quando o Major Kley, presidente do inquérito, manda chamar os pais de Rosalina e Geraldo e faz um apelo: “Eu chamei os senhores pais aqui para que aconselhem seus filhos a colaborarem, porque se eles colaborarem não vai haver problemas com eles, eles vão ser soltos. Ele é engenheiro, ela assistente social, são jovens, idealistas, devem ter se metido nisso por más influências.” Nesse momento, eu ouço a voz da minha mãe firme, emocionada, mais alta: “Oh, Major, pelo que eu entendi o senhor está pedindo para eu pedir para minha filha dedurar os companheiros dela. Eu não fiz filha para ser dedo-duro. Eu não quero que a minha filha seja torturada, eu não quero que ela seja machucada. Agora eu quero que ela seja julgada”. Na hora eu morri de medo: “Vão prender a minha mãe também.” Essa é Dona Elzita. Geraldo: Como foi seu encontro na PE do Exército com o General Silvio Frota?

Rosalina: “Eu fui levada para a Auditoria após 10 meses de prisão. Nesse momento um torturador do Doi-Codi me tira o capuz, eu consigo vê-lo. Era um jovem, ele falou assim para mim: “Você vai para Auditoria, veja lá o que vai falar, pois tudo o que você disser você vai voltar”. Eu fiquei pra lá, morrendo de medo. Então, quando eu cheguei, vi minha mãe, o advogado Modesto Silveira, todo mundo, eu vinha de uma “geladeira”, estava muito nervosa, fora de mim. Na hora que o juiz – era um juiz civil – perguntou se tinha alguma coisa a declarar, eu perco realmente o controle, começo a dizer: “Eu venho agora do Doi-Codi (PE do Exército), fui torturada, eles estão dizendo que eu vou voltar para lá. Eu posso ser novamente torturada, eu quero voltar para o quartel onde eu estive, com as minhas companheiras, na Vila Militar.” Eu não queria voltar

para a PE do Exército. Eu conto que eu tive uma hemorragia no Dops Guanabara, e sofri todas as torturas. Nesse momento, o juiz suspende a sessão e manda todo mundo embora. A audiência começou as duas da tarde e foi até às 8 da noite. Quando eu voltei, eles me põem na C14 do Exército, eu começo a olhar pelo buraquinho para saber onde eu estava indo, começo a ver que estava caminhando para a Barão de Mesquita, sede da PE do Exército. Eu começo a ter uma coisa que eu chamo medo, dor na barriga, e quando abriram o portão eu fico apavorada, se arrependimento matasse... “Quando ainda, descendo, eles me jogam o capuz dentro da viatura, eu desço e ouço uma voz no meu ouvido, que é a voz do torturador, dizendo: “Você voltou e eu estou aqui.” Na hora que ele diz isso, eu começo a tremer, a bater o queixo, não consegui falar. Ele fala: “Comunista de merda, sua medrosa, por que é que você está tremendo?” Não estou tremendo, tenho medo de você. Eles me levaram, fizeram toda uma encenação, me levam para a parte de cima do Doi-Codi, e vem o Silvio Frota. Ele chega lá com um monte de pessoas em volta, militares e diz assim: “O que foi que você falou na audiência? Você falou que foi torturada?” Eu respondi: ‘Contei a verdade.’ Me levanto naquela hora, ele diz: “Você não foi torturada, você foi apenas pressionada.” Respondi: “Mas eu passei por uma ‘geladeira’, fiquei emparedada. Ele retrucou: ‘Isso é uma pressão psicológica’. Nesse momento eu menstruo. Ele grita: “Que nojo, dá um absorvente para essa mulher.” Eu sinto assim o que é a tortura psicológica, não é só a porrada, o choque elétrico, você tem uma hemorragia, você tem uma desinteria. Eu estava vestida com um macacão, eu estava deitada, eu fico em pé quando ele chega, e a menstruação corre pela minha perna, pelo chão. Ele percebe e diz: “Que coisa nojenta, por que essa menina está sem absorvente? Que nojo, dá um absorvente para essa mulher.” A sensação dele era de nojo. Eu me surpreendo e digo: “Não, eu fui torturada sim, eu passei por uma ‘geladeria’. Ele rebate: “Tudo pressão, pressão psicológica. Vocês não falam que foram pressionados, é muito diferente dizer que foi torturado aqui.” “Fui transferida da PE do Exército para a Vila Militar, recebo a visita da minha mãe, ela pergunta se estou machucada. Pouco tempo depois, chegou o meu advogado, Modesto Silveira, um grande companheiro. Eu fiquei impressionada com o que minha mãe me contou, como ela chegou até aqui: “Eles foram à casa de minha irmã, onde minha mãe estava e disseram: ‘A senhora pode visitar a sua filha, a senhora vai sozinha’. Ela foi levada numa C14 do Exército. Durante a viagem, eles falam: ‘Comunista tem que morrer mesmo’. Minha mãe, calada. Quando chegou na Vila

Militar, perguntaram à minha mãe:’A senhora é paraibana?’ Minha mãe, respondeu: ‘Sou pernambucana, mas não tenho medo. Eu vou a qualquer lugar procurar a minha filha. Um deles disse: ‘A senhora está muito braba, aí dentro talvez a senhora amanse’”. Geraldo: Era só na PE do Exército que havia ‘geladeira’?

Rosalina: É capaz. Na PE do Exército com certeza porque eu passei por ela. Não só eu, todo mundo que passou pela PE do Exército, da Barão de Mesquita, em 1971, passou pela ‘geladeira’. Eram seis salas pretas de eucatex, que era toda forrada de preto. O chão preto, cabia a gente de pé ou sentada, não cabia deitada. Ali dentro daquele armário, despida, você perde a noção, fechar e abrir os olhos era a mesma coisa, não via nada. Ouvia sons estridentes, ruídos, às vezes muito finos, que doíam nos ouvidos, ou ruídos grossos, fortes. A temperatura era muito fria, gelando os ossos, fazendo doer todo o corpo; outra hora, um calor insuportável, sem comer, sem beber, e o escuro de fazer perder toda a noção do tempo. Tinha um olho mágico do lado de fora, a pessoa gritava; com um ar-condicionado muito gelado, você começava a tremer, perder líquido, a boca seca o tempo inteiro.”

Geraldo: Falemos um pouco da participação do Dr. Almicar Lobo, tristemente famoso.

Rosalina: “Passei por todas as torturas, nas mãos de verdadeiros monstros, sendo submetida a choques elétricos, pau-dearara, palmatória, ‘telefone’, ‘geladeira’. Desmaiei algumas vezes diante da tortura. Num desses desmaios, os torturadores ficaram com medo. Veio um médico me atender, ele era jovem, estava de avental branco, tinha no bolso do avental escrito: Dr. Lobo. Eu estava sentada no chão. Ele veio, se curvou, pegou meu pulso, auscultou algumas vezes o meu batimento cardíaco. Eu me lembrei do meu saudoso pai, que era médico. Segurei a mão dele e pedi: ‘Doutor eu estou mal, muito mal, não consigo respirar’. Ele ouviu, bateu em mim, assim... Levantou-se, olha para mim, olha para os torturadores e diz: “Ela está ótima, pressão ótima, pode continuar, é pura manha!” Eles trouxeram uma aguinha e um caldinho de feijão, ‘o caldinho mais gostoso do mundo’, depois eu soube, você não deve comer, você pode ter alguma coisa, eu não tinha comido nada. Dalí me levaram para a sala branca, para o interrogatório, tinha uma pessoa que estava na minha frente, eu estava sem capuz, com a luz em cima, eles entraram batendo ‘telefone’ (porradas nos dois ouvidos ao mesmo tempo), você via preto. Na PE você ficava o tempo inteiro de capuz, era muito difícil, você andava, mas você não tinha noção para onde ia.

Geraldo: Lembra-se de ter pedido alguma vez ao torturador que parasse com a tortura?

Rosalina: Eu nunca pedi para eles pararem, mas um dia supliquei: “Me mate!” O torturador respondeu: “Não, não vou te matar, eu vou te fazer em pedacinhos. Eu tenho tempo. Eu vou te tirar o que eu quero,

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DIREITOS HUMANOS REPRODUÇÃO

te torturando, quanto tempo eu quiser.” Sozinha, encapuzada, eu estava nas mãos dos torturadores e eles cobertos pela impunidade. Geraldo: Você estava grávida quando foi presa?

Rosalina: “Certa ocasião, no Dops do Rio de Janeiro, antes de ter início uma nova sessão de torturas, eu avisei aos torturadores que estava grávida. Aí, recebi joelhadas, na barriga, até descer a hemorragia. Eles, com medo, suspenderam a sessão, fui para a enfermaria, onde passei dois dias.” Geraldo: Como se deu o seu envolvimento com a vida política?

Rosalina: “Quando entramos todos na faculdade, em 1968, todos nós já participávamos da política dentro de casa. Nossa casa passou a ser uma casa que dirigia o movimento estudantil. Todo mundo ia e minha mãe começou a se envolver. Marcelo, Fernando, eu, outros irmãos. O fato que marcou realmente, profundamente a gente foi quando a gente passou a ser perseguido. Meu pai dizia: ‘Que revolução é essa, que estão prendendo os meninos, umas crianças que estão sendo consideradas subversivas?’”

Geraldo: Como era a vida na prisão e a relação com as demais presas?

Rosalina: “Lembro-me muito das torturas psicológicas, eu estava numa cela, essa cela não tinha banheiro. Eles diziam: ‘Você bate quando você quiser ir para o banheiro’ e todas as vezes que eu batia, eles não vinham, eu fazia xixi numa caneca que eu bebia café nela, era um inferno. A alimentação, servida num bandejão, era a mesma dos soldados, horrível! A relação com as companheiras eram boas, hoje temos quase 40 anos de distanciamento. A gente se comunica, somos irmãs, todas as pessoas que passaram pela mesma situação daquele momento, a Lúcia Murat, Zenaide Machado, a Lúcia loura, era filha de um almirante, a Márcia, fiquei com a Inês Etiene Romeu, viemos no mesmo camburão. Eram duas celas, uma de quatro e outra de seis, ficamos com uma menina que é médica hoje, a Maria Luiza Garcia Rosa, a Pupi, que era uma pessoa organizada, de manhã cedo: ‘vamos fazer ginástica’, depois ‘vamos estudar inglês’, depois ‘vamos ler ’, a Pupi era filha de um banqueiro já falecido, a mãe morava em Copacabana. Era a menina que tinha mais poder aquisitivo entre nós. A mãe dela trazia lanches pra gente, eles começaram a impedir, só podia levar sete lanches, um para cada dia. A gente dizia: 'traz melancia, melão, não pode trazer uva'. Ela trazia queijo, sete unidades. Geraldo: Fernando, fale um pouco dele.

Rosalina: “Eu nunca imaginei que pudesse sobreviver e Fernando não. Hoje ele teria 62 anos, ele era muito afetivo. Ele era companheiro dos companheiros. Fernando tinha também uma característica que eu hoje acho muito importante, mais 28

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O filho de dona Elzita, Fernando, foi assassinado em fevereiro de 1974 nos órgãos de repressão da ditadura.

do que naquela época: Fernando era uma pessoa que não era dogmática. Ele sempre tinha amigos, que eram amigos de futebol, que nem mesmo eram de esquerda. Fernando sempre voltava atrás. Era muito difícil naquela época a gente não ser dogmático. Foi com o tempo que a gente foi perdendo essa coisa do dogma, de peso nas coisas. A característica de Fernando era essa, além de ser muito bonito.”

Geraldo: Fale um pouco de seu pai.

Rosalina: Meu pai era uma pessoa mais emotiva. Meu pai sempre foi a emoção da casa; minha mãe, o chão, a terra, que dava ordens, que gerenciava o orçamento da casa, a educação da gente. Meu pai era mais pensador. Eu sempre conto essa história, todos os meus amigos conhecem: Meu pai já tinha três filhos pequeninos, um tinha acabado de nascer, meu pai foi fazer o curso de pós-graduação de especialização em Saúde Pública, no Rio de Janeiro. Chegando lá no Rio, não conseguiu ficar, de tanta saudade que tinha da família. Minha mãe foi para lá. Ela foi e deixou a gente na casa de meu avô, isso é bem o exemplo de minha mãe. Ela é que dava o chão para o papai, para a gente. Quando houve a minha prisão, mamãe foi para o Rio, papai não foi. Acho que para o papai, ao contrário, a dor o impediu de viver. Eu me lembro de papai doente, ele dizendo assim: “Por que com o meu filho, tão jovem, por que não foi comigo? Mamãe ia para luta! Geraldo: Como é ser professora?

Rosalina: Eu adoro dar aulas, eu gosto muito dos meus alunos, eu adoro formar pessoas que vão trabalhar numa área muito importante, que é a área de assistência social. Formar-se assistente social é formar pessoas para discutir hoje as causas da pobreza, da desigualdade, da injustiça social, eu adoro! Eu fiquei doente, alguns meses sem dar aulas, quase morri de saudade do trabalho.

Exposição torna presentes desaparecidos políticos Uma comovente mostra em São Paulo reúne fotografias de militantes políticos a que a ditadura militar deu fim e do vazio que deles restou. P OR C ELSO S ABADIN

De sinhazinha a mãe que luta Encerrarei esta matéria com parte do depoimento prestado na Câmara dos Deputados pela professora universitária Rosalina Santa Cruz Leite: “Senhores Deputados: é difícil pra mim lembrar desses fatos. É difícil reconstruir o passado [...] Fui presa pela primeira vez em 1971[...] Durante os 52 dias iniciais, fomos levados de local em local. Fiquei inicialmente no Dops da Guanabara, durante três ou quatro dias, passando uma série de torturas comuns naquela época a quase todos os presos políticos: choques elétricos na vagina, nas orelhas, nos pés, além de socos e pontapés, de muitas ameaças e torturas psicológicas. Fui presa com meu companheiro e fomos torturados quase sempre juntos, despidos e encapuzados. Quando minha família estava na iminência de me descobrir, fui transferida para o Dops do Estado do Rio de Janeiro, em Niterói, onde fiquei cerca de 14 dias, sofrendo o mesmo tratamento.” Geraldo: Sua mãe está completando 98 anos de idade. Faça um retrato dela.

Rosalina: “Mamãe se transformou da sinhazinha, da pessoa protegida pelo pai, para ser a mãe que luta. Mamãe também se recriou, assim de tal forma que as pessoas quando veem mamãe com 98 anos, a energia que ela tem, perguntam: ‘Mas o que é?’ Eu acho que é a força que ela teve quando se transformou nessa pessoa que briga pelo filho. Que luta agora mais do que pelo Fernando, pelos filhos dos desaparecidos. Ela é como são as Mães da Praça de Maio, como são as Mães da América Latina, que perderam seus filhos na tortura. Tem uma coisa que eu sempre digo ‘eu acho que a dor nunca foi amargura para mamãe. É luta! Mamãe é uma pessoa que anda, até hoje, sem arrastar os pés, dorme tranquila, tem uma lucidez para idade dela muito grande. É uma pessoa privilegiada.” Que o exemplo e a coragem dessa admirável mulher brasileira Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira se façam sempre presentes a fim de que a tortura e os torturadores não encontrem o menor espaço para sua desumana atuação.

Como fotografar o que não existe mais? Como registrar, em imagens, o que faz falta? Com estas (e muitas outras) perguntas em mente, o fotógrafo argentino Gustavo Germano e sua equipe saíram em viagem pelos quatro cantos do território brasileiro desenvolvendo o projeto Ausências Brasil, uma maneira criativa e muito dolorosa de denunciar assassinatos cometidos durante a ditadura militar. A idéia fundamental era tornar os desaparecidos presentes. Para isso, num primeiro momento foram garimpados retratos em álbuns das famílias de vários destes desaparecidos. Localizadas e selecionadas as fotos, partiu-se para a produção de novas fotografias, tomadas exatamente do mesmo ângulo das antigas, nos mesmos locais, com as mesmas pessoas, na medida do possível com a mesma luz, deixando vazio o espaço que na foto original era ocupado pela vítima. Em junho e julho de 2012, a equipe formada por Gustavo, Luciano Piccoli e André Garcia fotografou familiares de diversos mortos e desaparecidos. Pessoas praticamente anônimas, cujos nomes não ganharam as grandes manchetes de jornais da época, mas que tiveram suas ausências igualmente pranteadas


pelos seus entes queridos. Para a exposição, foram selecionadas as famílias de Bergson Gurjão Farias, Luiz Almeida Araújo, Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, Iuri Xavier Pereira, Alex de Paula Xavier Pereira, Arnaldo Cardoso Rocha, Jana Moroni Barroso, Ana Rosa Kucinski Silva, Devanir José de Carvalho, Virgílio Gomes da Silva, Luiz Eurico Tejera Lisboa e João Carlos Haas Sobrinho. Colocar lado a lado as fotos antigas com as recentes resultou na emoção incontida da simplicidade das grandes idéias. Confesso: como repórter, jornalista e como fotógrafo (muito) amador que experimenta seus cliques por aí, Ausências Brasil foi a primeira exposição da minha vida em que desandei a chorar. Ao fotografar a ausência, o espaço deixado pelos que se foram e o olhar entristecido dos que ficaram, Germano consegue dar contornos concretos à abstração da dor. O conceito do projeto lembra o tipo de homenagem que a aviação de vários países costuma prestar aos seus pilotos mortos, com os aviões voando em formação, deixando vago o espaço que deveria ser ocupado pelo homenageado. É tocante. A mesa enfeitada de aniversário dá lugar a uma calada toalha branca. A igreja lotada pelos convidados do casamento agora está vazia e sombria. Há muitas mãos que não têm mais outras mãos para segurar. E uma dolorida porta sem ninguém, fecha a mostra. No recinto da exposição, um vídeo exibe o making of de todo o trabalho. O projeto Ausências foi inicialmente realizado na Argentina. A versão brasileira foi viabilizada pela Agência Livre para Informação, Cidadania e EducaçãoAlice, organização não-governamental formada em 2004, no Rio Grande do Sul,

Os desaparecidos políticos destas fotos são Ana Rosa Kucinski Silva (acima, na outra página), Luiz Eurico Tejera Lisbôa (acima), João Carlos Haas Sobrinho (ao lado), e Fernando Augusto De Santa Cruz Oliveira (abaixo).

com os objetivos de desenvolver projetos de comunicação voltados para a área social e de discutir o comportamento, a ética e as tendências da imprensa. Foi a Alice que procurou Germano. “O trabalho do fotógrafo Gustavo Germano, pela sua originalidade e impacto, tornou-se bastante conhecido no âmbito dos Direitos Humanos e, ao tomarmos conhecimento dele, montamos uma parceria com a Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, que viabilizou o projeto aqui no Brasil”, diz a curadora da mostra, a jornalista

gaúcha Rosina Duarte. “Existem povos que não permitem fotografias porque acreditam que as imagens impressas lhes roubam a alma. Com este trabalho, estamos fazendo exatamente o contrário. Ou seja, ao fotografar a ausência de pessoas imprescindíveis à luta pela redemocratização no Brasil, trazemos de volta o seu espírito de luta pela verdade, a memória e a justiça. Trata-se de uma denúncia sem voz, sem palavras, sem rosto”, diz Rosina. A intenção do fotógrafo agora é ampliar o trabalho aos demais países lati-

no-americanos marcados por ditaduras militares. A exposição Ausências Brasil fica em cartaz até o próximo mês de abril no novo prédio do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Não há nada em sua fachada que a sinalize. Um banner, um cartaz, nada. Uma porta de metal e a presença de um segurança (ainda que simpático) na entrada do prédio intimidam o visitante de primeira viagem. Insista. São cinco minutos a pé da estação Tietê do metrô que levarão o visitante a uma experiência inesquecível.

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DIREITOS HUMANOS

A MORTE POR ATACADO Policiais de quatro Estados mataram 3 mil pessoas em 18 meses, revela a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que editou ato recomendando a abolição da prática de enquadrar como “autos de resistência” os assassinatos em massa cometidos pelas Polícias. Em ocorrências registradas como “autos de resistência” (2.986) e 100 outras ações, policiais civis e militares de quatro Estados (Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina) mataram 3.086 pessoas nos 18 meses decorridos entre janeiro de 2010 e junho de 2012, revelou o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, que editou resolução recomendando a abolição de designações genéricas em registros policiais sobre fatos dessa natureza. Esses Estados são os únicos que relatam amplamente o morticínio cometido por policiais em seus territórios. Essas informações constam dos considerandos da Resolução nº 8, de 20 de dezembro de 2012, assinada pela Ministra Chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Deputada Maria do Rosário Nunes, e publicada no Diário Oficial da União de 21 de dezembro. O ato, precedido de nove considerandos, tem o seguinte teor: “Considerando que os direitos à vida, à liberdade, à segurança e à integridade física e mental são elementares dos sistemas nacional e internacional de proteção de direitos humanos e se situam em posição hierárquica suprema nos catálogos de direitos fundamentais; Considerando que todo caso de homicídio deve receber do Estado a mais cuidadosa e dedicada atenção e que a prova da exclusão de sua antijuridicidade, por legítima defesa, estado de necessidade, estrito cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito, apenas poderá ser verificada após

ampla investigação e instrução criminal e no curso de ação penal; Considerando que não existe, na legislação brasileira, excludente de ‘resistência seguida de morte’, freqüentemente documentada por ‘auto de resistência’, o registro do evento deve ser como de homicídio decorrente de intervenção policial e, no curso da investigação, deve-se verificar se houve, ou não, resistência que possa fundamentar excludente de antijuridicidade; Considerando que apenas quatro Estados da Federação divulgam amplamente o número de mortes decorrentes de atos praticados por policiais civis e militares (Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina) e que, nestes, entre janeiro de 2010 e junho de 2012, houve 3.086 mortes em confrontos com policiais, sendo 2.986 registradas por meio dos denominados autos de resistência (ou resistência seguida de morte) e 100 mortes em ação de policiais civis e militares; Considerando que a violência destas mortes atinge vítimas e familiares, assim como cria um ambiente de insegurança e medo para toda a comunidade; Considerando o disposto na Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011, que regulamenta o direito fundamental ao acesso à informação, e na Lei nº 12.681, de 4 de julho de 2012, que institui o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas - SINESP; Considerando que o Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, que aprova

o Programa Nacional de Direitos Humanos 3-PNDH-3, em sua Diretriz 14, Objetivo Estratégico I, recomenda o fim do emprego nos registros policiais, boletins de ocorrência policial e inquéritos policiais de expressões genéricas como ‘autos de resistência’, ‘resistência seguida de morte’ e assemelhadas, em casos que envolvam pessoas mortas por agentes de segurança pública; Considerando o Relatório 141/11, de 31 de outubro de 2011, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos/OEA para o Estado Brasileiro, recomendando a eliminação imediata dos registros de mortes pela polícia por meio de autos de resistência; Considerando o disposto no Relatório do Relator Especial da ONU para Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias – Philip Alston –, que no item 21, b, expressa como inaceitável o modo de classificação e registro das mortes causadas por policiais com a designação de ‘autos de resistência’, impondo-se a investigação imparcial dos assassinatos classificados como ‘autos de resistência’, recomenda: Art. 1º As autoridades policiais devem deixar de usar em registros policiais, boletins de ocorrência, inquéritos policiais e notícias de crimes designações genéricas como ‘autos de resistência’, ‘resistência seguida de morte’, promovendo o registro, com o nome técnico de “lesão corporal decorrente de intervenção policial’ ou ‘homicídio decorrente de inter-

venção policial’, conforme o caso. Art. 2º Os órgãos e instituições estatais que, no exercício de suas atribuições, se confrontarem com fatos classificados como ‘lesão corporal decorrente de intervenção policial’ ou ‘homicídio decorrente de intervenção policial’ devem observar, em sua atuação, o seguinte: I - os fatos serão noticiados imediatamente à Delegacia de Crimes contra a Pessoa ou à repartição de polícia judiciária, federal ou civil, com atribuição assemelhada, nos termos do art. 144 da Constituição, que deverá: a) instaurar, inquérito policial para investigação de homicídio ou de lesão corporal; b) comunicar, nos termos da lei, o ocorrido ao Ministério Público. II - a perícia técnica especializada será realizada de imediato em todos os armamentos, veículos e maquinários envolvidos em ação policial com resultado morte ou lesão corporal, assim como no local em que a ação tenha ocorrido, com preservação da cena do crime, das cápsulas e projéteis até que a perícia compareça ao local, conforme o disposto no art. 6.º, incisos I e II; art. 159; art. 160; art. 164 e art. 181, do Código de Processo Penal; III - é vedada a remoção do corpo do local da morte ou de onde tenha sido encontrado sem que antes se proceda ao devido exame pericial da cena, a teor do previsto no art. 6.º, incisos I e II, do Código de Processo Penal;

MUNIR AHMED

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IV - cumpre garantir que nenhum inquérito policial seja sobrestado ou arquivado sem que tenha sido juntado o respectivo laudo necroscópico ou cadavérico subscrito por peritos criminais independentes e imparciais, não subordinados às autoridades investigadas; V - todas as testemunhas presenciais serão identificadas e sua inquirição será realizada com devida proteção, para que possam relatar o ocorrido em segurança e sem temor; VI - cumpre garantir, nas investigações e nos processos penais relativos a homicídios ocorridos em confrontos policiais, que seja observado o disposto na Resolução 1989/65 do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC). VII - o Ministério Público requisitará diligências complementares caso algum dos requisitos constantes dos incisos I a V não tenha sido preenchido; VIII - no âmbito do Ministério Público, o inquérito policial será distribuído a membro com atribuição de atuar junto ao Tribunal do Júri, salvo quando for hipótese de ‘lesão corporal decorrente de intervenção policial’; IX - as Corregedorias de Polícia determinarão a imediata instauração de processos administrativos para apurar a regularidade da ação policial de que tenha resultado morte, adotando prioridade em sua tramitação; X - sem prejuízo da investigação criminal e do processo administrativo disciplinar, cumpre à Ouvidoria de Polícia, quando houver, monitorar, registrar, informar, de forma independente e imparcial, possíveis abusos cometidos por agentes de segurança pública em ações de que resultem lesão corporal ou morte; XI - os Comandantes das Polícias Militares nos Estados envidarão esforços no sentido de coibir a realização de investigações pelo Serviço Reservado (P2) em hipóteses não relacionadas com a prática de infrações penais militares; XII - até que se esclareçam as circunstâncias do fato e as responsabilidades, os policiais envolvidos em ação policial com resultado de morte:

a) serão afastados de imediato dos serviços de policiamento ostensivo ou de missões externas, ordinárias ou especiais; e b) não participarão de processo de promoção por merecimento ou por bravura. XIII - cumpre às Secretarias de Segurança Pública ou pastas estaduais assemelhadas abolir, quando existentes, políticas de promoção funcional que tenham por fundamento o encorajamento de confrontos entre policiais e pessoas supostamente envolvidas em práticas criminosas, bem como absterem-se de promoções fundamentadas em ações de bravura decorrentes da morte dessas pessoas; XIV - será divulgado, trimestralmente, no Diário Oficial da unidade federada, relatório de estatísticas criminais que registre o número de casos de morte ou lesões corporais decorrentes de atos praticados por policiais civis e militares, bem como dados referentes a vítimas, classificadas por gênero, faixa etária, raça e cor; XV - será assegurada a inclusão de conteúdos de Direitos Humanos nos concursos para provimento de cargos e nos cursos de formação de agentes de segurança pública, membros do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública, com enfoque historicamente fundamentado sobre a necessidade de ações e processos assecuratórios de política de segurança baseada na cidadania e nos direitos humanos; XVI - serão instaladas câmeras de vídeo e equipamentos de geolocalização (GPS) em todas as viaturas policiais;

Advertência de um perseguido Vítima da ditadura militar, o jornalista Francisco Baleixe Filho pede vigilância permanente, para que não se repita a ditadura 1964-1985. Em 1964 fui indiciado e só julgado pela Justiça Militar em 1969, sendo absolvido graças ao empenho do meu advogado Evaristinho de Morais. Durante os cinco anos de grande expectativa e sustos, pois na época da ditadura nada parecia ser alentador com a Justiça Militar apreciando casos, como o meu, pois entendiam os acusadores que os noticiosos da Rádio Mayrink Veiga estimulavam a luta contra os militares. E nisso estavam realmente certos, pois quem estava contra eles se opunha a uma ditadura, que realmente se instalou em nosso País em 1964. Até 1969, quando sentei no banco dos réus, sendo absolvido graças à atuação brilhante do seu patrono, o criminalista e companheiro de Última Hora, Evaristinho de Morais, eu e minha família, que tinha e tem como matriarca a advogada Iracemi Chevalier Baleixe, fomos alvos das ameaças do CCC, o famigerado Comando de Caça aos Comunistas. Hoje, quando a democracia implantada jogou no lixo um capítulo violento para que jamais percamos o rumo da liberdade, é justo relembrarmos esse período tenebroso para que jamais percamos o rumo da liberdade. Mesmo tão distante desse período, é de bom alvitre estarmos sempre alertas contra aqueles que se portavam como autênticos nazistas.

XVII - é vedado o uso, em fardamentos e veículos oficiais das polícias, de símbolos e expressões com conteúdo intimidatório ou ameaçador, assim como de frases e jargões em músicas ou jingles de treinamento que façam apologia ao crime e à violência; XVIII - o acompanhamento psicológico constante será assegurado a policiais envolvidos em conflitos com resultado morte e facultado a familiares de vítimas de agentes do Estado; XIX - cumpre garantir a devida reparação às vítimas e a familiares das pessoas mortas em decorrência de intervenções policiais XX - será assegurada reparação a familiares dos policiais mortos em decorrência de sua atuação profissional legítima; XXI - cumpre condicionar o repasse de verbas federais ao cumprimento de metas públicas de redução de: a) mortes decorrentes de intervenção policial em situações de alegado confronto;

b) homicídios com suspeitas de ação de grupo de extermínio com a participação de agentes públicos; e c) desaparecimentos forçados registrados com suspeita de participação de agentes públicos. XXII - cumpre criar unidades de apoio especializadas no âmbito dos Ministérios Públicos para, em casos de homicídios decorrentes de intervenção policial, prestarem devida colaboração ao promotor natural previsto em lei, com conhecimentos e recursos humanos e financeiros necessários para a investigação adequada e o processo penal eficaz. Art. 3º Cumpre ao Ministério Público assegurar, por meio de sua atuação no controle externo da atividade policial, a investigação isenta e imparcial de homicídios decorrentes de ação policial, sem prejuízo de sua própria iniciativa investigatória, quando necessária para instruir a eventual propositura de ação penal, bem como zelar, em conformidade com suas competências, pela tramitação prioritária dos respectivos processos administrativos disciplinares instaurados no âmbito das Corregedorias de Polícia. Art. 4º O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana oficiará os órgãos federais e estaduais com atribuições afetas às recomendações constantes desta Resolução dando-lhes ciência de seu inteiro teor. Art. 5º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. Maria do Rosário Nunes, Ministra de Estado Chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.” JORNAL DA ABI 386 • JANEIRO DE 2013

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GUSTAVO STEPHAN/AGÊNCIA O GLOBO

DIREITOS HUMANOS

Clube Militar intimida Sílvio Tendler Como represália por seus filmes Anos JK e Jango, militares reformados forjam denúncia infundada contra o cineasta. Locomovendo-se em cadeira de rodas, o cineasta Sílvio Tendler compareceu à 5ª Delegacia de Polícia, na Avenida Gomes Freire, no Rio, atendendo a uma intimação expedida para sua casa na sexta-feira (14/12) pelo Delegado titular Alcides Pereira, a mando do Presidente do Clube Militar, General da reserva Renato César Tibau da Costa. O militar acusa Tendler de ter participado de uma manifestação promovida pelo Levante Popular da Juventude contra a solenidade comemorativa do golpe de abril de 1964 realizada no Clube Militar, em 29 de março de 2012. Acompanhado do médico Jorge Luiz do Amaral (Bigu), da enfermeira Ana Paula Borges, de seu advogado Carlos Eduardo C. M. Silva, do advogado Modesto da Silveira, dos representantes da OAB-RJ, Marcos Vinícius Cardoso, e da ABI, Mário Augusto Jakobskind, Sílvio Tendler iniciou o depoimento negando que tenha participado do ato contra o golpe de 1964 promovido pelos oficiais ex-apoiadores da ditadura. Em tom irônico, ele lembrou do filme Casablanca, em que são convocados “suspeitos” para depor sobre uma ocorrência que nada tinha a ver e que estava sendo apurada. O cineasta acredita que os militares da reserva que apoiaram o regime ditatorial no País o consideram inimigo por ter realizado documentários bem aceitos pelos brasileiros sobre Juscelino Kubitschek (Anos JK) e João Goulart (Jango). Comprovando que não poderia ter participado da manifestação, porque estava convalescendo em sua residência de uma grave cirurgia da medula, quando inclusive teve um infarto e quase morreu, Tendler revelou que desde dezembro do ano passado perdeu os movimentos e anda em cadeira de rodas. Ele fez questão de que constasse em seu depoimento que os jovens participantes da manifestação estavam exercendo o direito democrático de protestar contra o golpe que levou o Brasil a viver uma longa noite escura de 21 anos. Muitos dos manifestantes eram familiares de vítimas mortais da ditadura. Lembrou Tendler, ainda, que os próprios militares que organizaram o ato ilegal de apoio ao golpe poderiam ter evitado o que aconteceu se preparassem o prédio para a entrada dos oficiais e convidados ao ato, entre os quais a ex-Secretária do Governo Carlos Lacerda, Sandra Cavalcanti, e o jornalista Aristóteles Drumond, acusado pelo historiador Renée Dreyfus de ter fornecido armamentos ao grupo de extrema direita chileno Pátria e Liberdade nos meses que antecederam à derrubada do Presidente constitucional Salvador Allende. Entre os oficiais presentes à reunião no Clube Militar estavam Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do Doi-Codi de 32

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São Paulo no início dos anos 1970, e Nilton Cerqueira, comandante da operação no sertão baiano que resultou na morte do Capitão Carlos Lamarca e seu companheiro Zequinha, quando não tinham condições de resistir ao cerco. Sílvio Tendler revelou que pretende ingressar na Justiça com uma ação de danos morais pela acusação infundada, que lhe trouxe transtornos emocionais, afetando portanto a sua recuperação, e ainda pelo fato de ter sido chamado de “pato” pelo General Tibau da Costa. Para o cineasta a referência foi depreciativa e se relaciona com o fato de não poder andar. Para o advogado e Conselheiro da ABI Modesto da Silveira, o cineasta poderá processar quem lhe causa danos morais e materiais ao acusá-lo injustamente. Enquanto Sílvio prestava depoimento, centenas de militantes de movimentos sociais, entre os quais o MST, a Une e jovens integrantes do Levante Popular da Juventude, promoviam manifestação na

Sílvio Tendler pretende entrar na Justiça com uma ação de danos morais pela acusação infundada: “Não fui não por falta de vontade, mas porque não podia sair, mas consegui mostrar todas as mentiras.”

entrada da Delegacia portando cartazes com os rostos de mortos e desaparecidos políticos do período ditatorial, entre os quais Rubens Paiva, Iara Iavelberg, Stuart Angel e Honestino Guimarães. Em entrevista concedida na saída da Delegacia, Sílvio Tendler disse que “acha que conseguiu reverter a acusação”: “Eles (os militares da reserva) me consideram presente no ato. Não fui não por falta de vontade, mas porque não podia sair. Me puseram presente jogando pedras. Conse-

gui mostrar todas as mentiras. No processo, chamam de reunião um ato para comemorar o golpe de 1964 desacatando determinação da Presidente da República de proibir esses atos. Aquela reunião estava coalhada de generais da reserva que devem obediência à Presidente da República”. Sílvio Tendler sugeriu ao Delegado Alcides Pereira que convoque para depor os militares que provocaram os manifestantes com gestos obscenos, como comprovam vídeos divulgados no Youtube.

“Torturaram minha mãe e roubaram o relógio dela” O repto de Sílvio Tendler ao Delegado que o interrogou. Antes do depoimento, Sílvio Tendler divulgou carta-aberta lembrando que sua mãe foi presa durante a ditadura. “Não só roubaram o relógio dela, como foi agredida, torturada, humilhada, nas dependências do Doi-Codi”. É esta a íntegra da carta-aberta dirigida por Sílvio Tendler ao Delegado titular da 5ª Delegacia de Polícia, de quem ele cobrou a apuração do roubo do relógio. “Delegado, Dois policiais vieram ontem à minha residência entregar intimação para prestar declarações a fim de apurar atos de ‘Constrangimento ilegal qualificado – Tentativa – Autor’, informa o ofício recebido. Meu advogado apurou tratar-se de denúncia ou queixa ou sei lá o quê, por parte do ‘presidente do clube militar’ (em letra minúscula mesmo, de propósito). Informo que na data da manifestação, 29 de março de 2012, estava recém-operado, infelizmente impedido de participar de ato público contra uma reunião de sediciosos, os quais, contrariando a determinação da Exma. Sra. Presidente da República, comemoravam o aniversário da tenebrosa ditadura, que torturou, matou, roubou e desapareceu com opositores do regime. Entre os presentes estava o matador do Grande Herói da Pátria, Capitão Carlos Lamarca, e seu companheiro Zequinha – doentes, esquálidos, sem força, encostados numa

árvore. Zequinha e Lamarca foram fuzilados sem dó, nem piedade, quando a lei e a honra determinam colocá-los numa maca e levá-los para um hospital para prestar os primeiros socorros. Essa gente estava lá, não eu. Eles é que devem ser investigados. Eu farei um filme enaltecendo o Capitão Lamarca e seu bravo companheiro Zequinha. Tenha certeza, Delegado, de que, enquanto eu tiver forças, me manifestarei contra o arbítrio e a violência das ditaduras e, já que o Sr. está conduzindo o inquérito, procure apurar se o canalha que prendeu, torturou e humilhou minha mãe nas dependências do Doi-Codi participou do ‘festim diabólico’. Isso sim é Constrangimento Ilegal. E já que se trata de assunto de polícia, aproveite para pedir ao ‘constrangedor ilegal’ que ficou com o relógio da minha mãe – ela entrou com o relógio no Doi-Codi e saiu sem ele – que o devolva. Processe-o por ‘apropriação indébita, seguida de roubo qualificado (foi à mão bem armada)’. É fácil encontrar o meliante. Comece pelo Comandante do quartel da Barão de Mesquita em janeiro de 1971. Já que eles reabriram o assunto, o senhor pode desenterrar o processo. É, Delegado, o que eles fizeram durante a ditadura é mais assunto de polícia do que de política! Pergunte ao queixoso presidente do clube militar se ele tem alguma pista do paradeiro do Depu-

tado Rubens Paiva. Terá sido crime cometido por algum participante da festa macabra, onde, comenta-se, havia vampiros fantasiados de pijama? Tudo o que fiz foi um chamamento pelo Youtube convidando as pessoas a se manifestarem contra as comemorações do golpe de 1964. Se este general entendesse ou respeitasse a lei, não teria promovido a festa e, tendo algo contra mim, deveria tentar me enquadrar por ‘delito de opinião’ mas aí, na fotografia, ele ficaria mais feio do que é, não é mesmo? Por fim, quero manifestar minha solidariedade aos que protestaram contra o ‘festim diabólico’ e foram tratados de forma truculenta, à base de gás de efeito moral, spray de pimenta e choque elétrico – como nos velhos tempos. Bastaria umas poucas grades para separar os manifestantes do povo, que estavam na rua, aos sediciosos que ingressavam no clube. A muitos poderia causar a impressão de estar visitando um zoológico e assistindo a um desfile de símios. Não perca tempo comigo e com a ranhetice de um bando de aposentados cri-cri, aporrinhando a paciência de quem tem mais o que fazer. Pura nostalgia da ditadura, eles se portam como se ainda estivessem em posição de mando. Atenciosamente (a) Sílvio Tendler.”


Centro Wiesenthal difama o cartunista brasileiro Latuff Por sua solidariedade com o povo palestino, nosso desenhista foi incluído na lista dos dez maiores antissemitas do mundo. ALCYR CAVALCANTI

P OR M ÁRIO A UGUSTO J AKOBKSIND

O Centro Simon Wiesenthal, organização que leva o nome de um célebre caçador de nazistas, passou dos limites em matéria de credibilidade ao divulgar uma lista de dez pessoas e entidades consideradas as mais antissemitas do mundo. O terceiro da lista é o chargista brasileiro Carlos Latuff. O Centro parou de caçar nazistas da II Guerra Mundial e se tornou uma correia de transmissão do Governo israelense. Este Centro e outros segmentos sionistas misturam alhos com bugalhos ao acusar de antissemita todos os que criticam as ações de Israel contra os palestinos. Latuff é um militante dos movimentos sociais e sempre manifestou solidariedade com a causa palestina. Ser solidário com os palestinos e denunciar a política extremista do Governo israelense não significa antissemitismo, como querem os defensores da política truculenta de Israel. Na verdade, o atual sionismo se nutre do antissemitismo; para este segmento, quem critica a política de Israel é antissemita. O Centro Simon Wiesenthal segue essa lógica, que deve ser combatida com todo o rigor, e ainda por cima promove a política de Israel. Por essas e outras, as manifestações de solidariedade a Carlos Latuff vêm crescendo. O cineasta Sílvio Tendler, de origem judaica – que há poucos dias fora obrigado a depor numa delegacia do Rio de Janeiro atendendo a uma intimação do Presidente do Clube Militar, General da reserva Renato Cesar Tibau da Costa –, conhecendo o trabalho de Latuff, ficou indignado com o posicionamento do Centro Simon Wiesenthal e escreveu uma carta solidarizando-se com ele. Várias pessoas, entre os quais Eduardo Galeano, Anita Leocádia Prestes, Emir Sader, Maurício Azêdo, Fernando Morais e o Deputado Chico Alencar, entre outros, subscreveram a carta de solidariedade a Latuff escrita por Tendler. Stella Calloni, conhecida jornalista argentina, quando informada da existência da carta que se transformou em abaixo-assinado, fez questão de dar seu apoio e lembrou que um grupo de argentinos – entre os quais o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel – que haviam organizado manifestação em favor dos palestinos também ganhou a absurda acusação de antissemitas. Stella Calloni não conhece pessoalmente Carlos Latuff, como boa parte dos signatários, mas disse que fazia questão de subscrever o texto porque tinha vivido a mesma experiência, apenas não sendo ainda citada pelo Centro Simon Wiesenthal. Na verdade, Latuff não poderia ser antissemita até porque é de origem semita, do

Carlos Latuff: acusado injustamente de ser antissemita.

A carta de Sílvio Tendler “Prezado Latuff, Dia 19/12 fui depor na quinta delegacia a respeito de uma acusação mentirosa de constrangimento ilegal por parte de um grupo de militares sediciosos. No dia seguinte, você veio à minha casa hipotecar solidariedade, me entrevistou e colocou no Youtube. Conversamos muito, inclusive sobre sionismo, semitismo etc. Te desafiei a irmos juntos a Israel e Palestina. Você me disse que não conseguiria entrar e, se entrasse, não te deixariam sair. Duvidei. Você, infelizmente, tem razão. Um Centro criado para caçar criminosos nazistas, que perseguiram, mataram, deportaram, torturaram judeus durante a Segunda Guerra, agora é utilizado, de forma equivocada, para embaralhar sionismo com semitismo. Te consideraram como o terceiro maior antissemita da atualidade. Depois de você vem um clube inglês que, num bairro judeu de Londres, louva Hitler e as câmaras de gás; partidos efetivamente antissemitas na Grécia e na Ucrânia vêm depois do nome de um cartunista que usa sua arte para defender suas idéias. Antissionista, sim; antissemita, não. Até porque, de descendência árabe, você também é semita e, afinal, somos todos igualmente circuncisos. Tuas charges não são mais antissemitas que um artigo de Ury Avnery, Amira Haas ou de Gideon Levy, todos judeus, israelenses. O moldavo Lieberman, sim, é antissemita com o comportamento racista que destila ódio entre árabes e judeus, habitantes ancestrais de uma terra onde ele vive há pouco mais de dez anos. Tua charge com Bibi espremendo uma árabe para tirar votos dos eleitores israelenses reflete uma triste realidade. Esse rabino que te colocou nessa lista não sabe do que está falando. Caminhemos juntos rumo a um mundo laico e fraterno que congregue árabes e judeus num espaço de paz, progresso, respeito mútuo e fraternidade. Solidariamente (a) Sílvio Tendler.”

ramo libanês, e o fato de ser um crítico da truculência de sucessivos Governos de Israel – sobretudo o atual, de Benjamin Netanyahu – não poderia ser motivo para ser difamado da forma absurda como foi. Latuff apareceu numa lista junto com partidos de extrema direita da Ucrânia, Hungria, Grécia e até integrantes de uma torcida de um clube de futebol londrino. Entre os dez maiores antissemitas, na visão do Centro Wiesenthal, encontra-se também o Presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad, que tem recebido em várias oportunidades religiosos judeus iranianos críticos do sionismo, o que é pouco divulgado. Mas esta é outra história, que valeria ser aprofundada pelas editorias internacionais dos meios de comunicação brasileiros, que até agora foram incapazes disso, limitando-se a repetir declarações mal traduzidas (pelas agências internacionais de notícias) do próprio acusado, um crítico da política do Estado de Israel. Apoios à carta

Como afirma Sílvio Tendler em sua carta de solidariedade a Latuff, “suas charges não são mais antissemitas que um artigo de Ury Avnery, Amira Haas ou de Gideon Levy, todos judeus, israelenses”. Na verdade, a direita de Israel se tornou um grande foco de antissemitismo, e não os críticos da sua política expansionista e genocida. Esta é uma discussão que deveria também ocupar as páginas internacionais dos meios de comunicação, geralmente tão complacentes com as ações guerreiras do Governo israelense. E o que dizer do ex-Chanceler Avigdor Lieberman, que acabou renunciando ao cargo ao ser acusado de ter protegido um empresário para evitar que sofresse as consequências de atos de corrupção? É também por isso que se deve entender a indignação de Sílvio Tendler e de seus seguidores no apoio ao cartunista Carlos Latuff. Sua carta de solidariedade acabou se transformando em abaixo-assinado que circula nas redes sociais e que alcançou dimensão internacional. O apoio a Latuff recebeu manifestações de adesões em inúmeros países não apenas da América Latina (Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Honduras) mas também de outros continentes, como os Estados Unidos, Espanha e até Suécia. O movimento, desencadeado pela carta do cineasta Sílvio Tendler, mereceu uma adesão questionadora da atriz e jornalista Vera Gertel, que, declarando-se “uma judia envergonhada”, indagou: “Por que os judeus de Bibi Netanyahu têm de fazer o mesmo com os palestinos o que os nazistas fizeram com os seus antepassados?” Até 10 de janeiro, a legião dos solidários com Latuff incluía 268 pessoas, entre jornalistas, intelectuais, dirigentes sindicais, líderes comunitários e participantes de movimentos de defesa dos direitos humanos, como os Grupos Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro e de São Paulo e Movimentos de Justiça e Direitos Humanos, como o do Rio Grande do Sul. Os signatários da moção de apoio estão relacionados no site da ABI (www.abi.org.br/ primeirapagina.asp?id=5019). Mário Augusto Jakobskind, jornalista de origem judaica, perdeu parte da família em campos de concentração na Polônia durante a II Guerra Mundial

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Lúcio Flávio Pinto, o jornalista mais perseguido do País, diz que a verdade está proibida em plena democracia e ressalta a importância da verdadeira imprensa: “O compromisso do jornalista é socializar a informação” P OR F RANCISCO U CHA

FRANCISCO UCHA

DEPOIMENTO

riador do Jornal Pessoal há 25 anos, Lúcio Flávio Pinto esteve em São Paulo no final de outubro para receber o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, justa homenagem a um jornalista inquebrantável. Em seu discurso de agradecimento – publicado na íntegra no Jornal da ABI 384 –, Lúcio Flávio explicou os motivos pelos quais decidiu lançar o seu bravo jornal: publicar uma matéria sobre o assassinato do exDeputado Paulo Fonteles, “um dos crimes políticos mais graves que já ocorreu no Pará” e que exigiu três meses de investigação. A matéria fora recusada pela diretora do jornal O Liberal por incriminar “dois dos maiores anunciantes da empresa”. Por causa dessa vergonhosa negativa, o Jornal Pessoal nasce e chega às bancas de Belém do Pará no início de setembro de 1987, trazendo o que o bom jornalismo pode oferecer: matérias apuradas com precisão e muito bem escritas, que privilegiam a verdade, numa publicação independente e totalmente sem anúncios. É claro que isso lhe trouxe problemas. Grandes problemas. Lúcio Flávio é o jornalista mais perseguido e censurado do País. E também um dos mais premiados. Sua coragem para escrever temas espinhosos que os jornais não publicam, e sua coerência em não se alinhar com nenhum grupo, o colocam como alvo de violentos ataques pessoais e da censura de juízes que se acham acima da Constituição e tentam amordaçar o verdadeiro jornalismo, pouco praticado nos dias de hoje. Foi para conhecer um pouco mais do pensamento de Lúcio Flávio Pinto, que o Jornal da ABI o encontrou em São Paulo. “Nós somos paladinos da verdade. E ela é um dever de ofício, não é um elemento distinguidor do herói e do covarde. Se você é jornalista, você é um sacerdote da verdade. E se você não é o sacerdote da verdade, não é digno de ser jornalista”, disse-nos com entusiasmo na entrevista a seguir.

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“MINHA ARMA É A INFORMAÇÃO” 34

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“NÓS SOMOS Jornal da ABI – É possível fazer cobertura jornalística da Amazônia sem estar lá? Lúcio Flávio Pinto – Não. Jornal da ABI – Então os grandes jornais têm que ter jornalistas lá de qualquer maneira? Lúcio Flávio Pinto – E não têm. O Estado de S. Paulo tem, mas é um colaborador, não é funcionário do jornal. O Estadão já teve uma sucursal lá, com cinco pessoas na sede, e correspondentes em todas as capitais. Nós não tivemos nenhuma evolução na cobertura da Amazônia, tivemos uma involução grande. A Veja teve uma sucursal, a Manchete teve uma sucursal. Hoje ninguém tem. No máximo, um colaborador. A Folha de S. Paulo tem um correspondente, que fica lá. Jornal da ABI – Houve realmente uma involução do jornalismo diário em todos os setores, porque diminuíram as equipes e aumentaram a pressão por produção de matérias. Dá para formar um jornalista assim? Lúcio Flávio Pinto – Há duas coisas terríveis. Como é que se forma o grande jornalista? Ele se forma nas viagens, como enviado especial. Clóvis Rossi é o exemplo mais acabado do jornalista formado como enviado especial. Hoje, quase não há viagens e as que existem são patrocinadas por alguém interessado, mesmo que o jornal dê essa informação, que viajou a convite de fulano. Mas as viagens espontâneas, que não são de cobertura oficial, as matérias criadas, são muito poucas. Então, há uma deficiência de formação porque o jornalista é um homem de rua. Se ele tiver background e acrescentar à sua capacidade a forma de agir na rua, ótimo! Mas sem a base não adianta ter toda essa informação de retaguarda. E a outra grande coisa mais nociva foi que os grandes nomes do jornalismo passaram a ser empresas individuais, por imposição das empresas que os contratam. E quando eles passaram a ser empresas individuais, com todo o ônus de uma pessoa jurídica, começaram a pensar duas vezes antes de se arriscar. Tornaram-se cautelosos, e alguns ficaram covardes. E também o custo social da empresa do jornal passou para a empresa individual do jornalista. Para compensar, ela projeta o jornalista, faz grande propaganda, publica foto, imagem, e ele passa a ganhar dinheiro num circuito que não é jornalístico, fazendo palestras em circuito fechado, palestra para empresários, para grupos de pressão, mas não para o público. Muita informação circula nesse circuito de jornalistas palestrantes, que cobram 15 mil, 20 mil, 30 mil por palestra. Ele passa a ser empresário, perde a identidade com o leitor, com a opinião pública. O primeiro grande exemplo dessa tendência nociva foi o Plano Collor. Ninguém furou o

Plano Collor. Ninguém! O jornalismo econômico sabia do Plano! Eles tinham o compromisso com quem? “Não, eu vou deixar para dar essas informações exclusivas no circuito de minhas palestras porque isso aumenta o meu valor”. Ele está cobrando 40 mil porque esse jornalista tem informações exclusivas e só dá para quem paga as palestras. Isso é terrível! A par do corporativismo empresarial, do comprometimento político, o jornalista é uma empresa. Alguns dos maiores jornalistas do País viraram empresas. Por isso que o Mário Sérgio Conti, no posfácio da segunda edição do livro dele, Nos Bastidores do Planalto, cita os jornalistas que naquele ano, em 1992 – vinte anos atrás – combatiam e denunciavam o Collor, e hoje prestam serviços de imagem para políticos. Eu acho que esse é um problema sério. Poucos jornalistas hoje se arriscam, e isso faz com que a qualidade da informação, em plena época de democracia, tenha decaído. Em parte pela Justiça perseguindo, ou os patrões com os seus interesses, mas em boa parte por pecado individual dos jornalistas, que não estão mais com compromissos éticos com a sua profissão. Nem diria “ético”! É um compromisso de ofício! Qual é a nossa função? Nós somos auditores populares. Nós somos os auditores mais importantes porque nós auditamos o poder em nome da sociedade, que também é um poder. Certa vez, o Jarbas Passarinho era Presidente do Senado e estava com uma briga com o Passos Porto, que era do mesmo partido, o PDS. E juntou um grupo de jornalistas para entrevistá-lo, aquele amontoado de gente, e o Passarinho, que gosta de fazer piadas, disse: “Poxa, devíamos ter contratado jornalistas logo depois da revolução, porque eles iriam conseguir arrancar das pessoas que foram presas, os subversivos, informações que nós não conseguimos”. Aí eu disse: “Senador, e não ia precisar torturar ninguém para fazer isso”. Então, o jornalista é isso, ele não tem arma nenhuma a não ser a busca da verdade. O compromisso dele é socializar a informação e emitir o máximo possível para a opinião pública. E esse compromisso está cada vez mais diluído. É um número cada vez menor de profissionais comprometidos com isso. Nosso poder – porque realmente é um poder – só é legítimo se for mediado pelos interesses da sociedade, se não é abusivo. Esse jornalismo investigativo de dossiês é terrível! As pessoas pensam que esse é o jornalismo investigativo e não é, porque, na verdade, já está pronto. Ele passa a ter o compromisso para quem dá o dossiê de assumir aquilo como verdade. Eu recebo dossiês, mas para mim dossiê é pauta, jamais uma matéria pronta! Há um elemento que distingue o jornalista do cientista político, do psicólogo, do sociólogo, de qualquer outro profissional das ciências humanas: é o contato direto com

a realidade. O jornalista, por exemplo, investigando um caso de corrupção... Ele tem que ir falar com as pessoas, tem que enfrentar todos os lados, tem que ser capaz de quebrar as barreiras. Eu fiz matérias sobre o tráfico de drogas em Belém, em dezembro de 1991, quando foi feita a maior apreensão até então de cocaína no Brasil: uma tonelada. Eu mostrei todos os elos do tráfico internacional de drogas por Belém com a alta sociedade. Pessoas poderosas! Contei histórias terríveis! Eu ia falar com os traficantes. Entrava em contato com o pessoal e dizia: “Sou jornalista, estou fazendo uma matéria de denúncia sobre o tráfico de drogas e tenho uma informação sobre você. Eu quero saber o seguinte: você está disposto a falar abertamente? Não vou gravar e se você disser que a informação não pode sair, não vai sair, mas eu quero lhe ouvir”. Para minha surpresa, alguns traficantes aceitaram e eu conversei com eles! Alguns disseram: “Isso aqui é só para sua informação e você não pode usar”. E cumpri. Não gravei. Eu jamais seria o Tim Lopes. Não que eu seja covarde e o Tim Lopes, corajoso. É porque eu sou um profissional que tenta não se deixar manipular por ninguém, e o Tim Lopes foi manipulado pela Rede Globo. Se eu fosse o chefe do Tim Lopes, jamais teria dito para ele ir com um gravador oculto, câmera oculta... jamais! Nunca fiz isso como repórter... Jornal da ABI – Ele foi escondido... Lúcio Flávio Pinto – Foi. Ele não foi como jornalista. Eu vou para todos os lugares como jornalista. Se não me aceitam, o problema é de quem não aceita. Ele foi escondido! Não se faz isso com traficante. Se tem um código de ética, vamos cumprir. Se eu não aceito isso, então não vou atrás dele. Vou tentar de outra maneira. Já aconteceu comigo várias vezes, a porta se fecha e a pessoa não quer me receber. Eu respeito. Mas não há só um caminho para a verdade. Bertold Brecht dizia que há cinco maneiras de dizer a verdade. Eu vou por outros caminhos. Por exemplo, a estrada mais cara do Pará, proporcionalmente a mais cara do Brasil, é a BR-150, que liga Belém ao extremo Sul do Estado. Eu queria saber quanto custava aquilo. Uns diziam uma coisa, outros diziam outra, nenhuma informação era checada e eu não dizia o quanto custou, só dizia que era uma estrada cara. Todos os governos, desde 1972, refazem esse estrada e ela nunca está pronta. São 1.100 quilômetros. Ela pega toda a área madeireira, pecuária, mineração; é uma estrada importante e a maior parte dela se tornou BR, a União se apropriou da estrada. Até que a Construtora Andrade-Gutierrez entrou com uma ação contra o Governo do Estado cobrando. Aí eu peguei os seis volumes dos autos, e disse: “Não me interessa quanto tempo vou gastar, eu vou ler o processo inteiro”. E passei

AUDITORES POPULARES. NÓS SOMOS OS AUDITORES MAIS IMPORTANTES PORQUE NÓS AUDITAMOS O PODER EM NOME DA SOCIEDADE, QUE TAMBÉM É UM PODER.” duas semanas indo todos os dias ao cartório, porque não podia tirar o processo. Aí eu cheguei ao preço da estrada pela informação da Andrade. A Andrade não me deu, mas para se ressarcir ela teve que dar todos os custos. Eu levantei tudinho. O processo tem 1.800 páginas e não tem um só lugar onde estavam os custos, eu tinha que pegar várias informações, atualizar, fazer alguns cruzamentos de informação. Então, acho que é isso que se tem que fazer. Jornal da ABI – Essa matéria rendeu algum processo para você? Lúcio Flávio Pinto – Nenhum. Tudo era informação da Andrade-Gutierrez. Ela não podia fazer nada. E o Governo do Estado, que estava questionando, perdeu a ação. A Andrade ganhou, porque ela realmente tinha direito àquilo. Só que aí entra o jornalismo. Eu fiz o jogo da Andrade? Não. Porque eu mostrei que a Andrade conseguiu dinheiro através da Operação 63, que permitia a nacionalização de moeda estrangeira. Quem fez o empréstimo foi a Andrade e ela usou aquele dinheiro para outras obras dela. Então eu mostrei o outro lado, que evidentemente não estava na ação. O jornalista que está na rua, que lida com as pessoas, que vê os fatos, tem o elemento que o distingue de qualquer outro profissional: a malícia. Não é a malícia dolosa. Se me dizem: “É xis”, eu aceito que é xis, mas vou procurar saber se é xis mesmo. Eu não aceito nenhuma informação como pronta para ser divulgada enquanto eu não checo. E checar às vezes exige ir ao lugar, ler um processo imenso, conversar com as pessoas; essa é a riqueza do jornalismo! O jornalismo não pode ser restrito a uma tela de computador, circular na rede mundial de computadores, pesquisar no Google, ligar para a fonte. Na época do regime militar, eu tinha fontes militares. Por exemplo, eu tinha uma fonte, um oficial do Exército que, quando eu conversava com ele, brigava comigo. Nós passávamos 80% do tempo da nossa conversabrigando!Eledizia:“Vocêécomunista!”. Mas era um homem honesto e decente que tinha uma divergência comigo. Quando nós chegávamos a um ponto tal que a discussão era acesa, a gente parava e tomava um cafezinho. (risos) Uma fonte vital para mim. Eu estava em Belém e O Estado de S.Paulo me pedia informações sobre os militares, que eu mandava com a certeza de que ninguém

tinha. Aquela fonte era preciosa, ele era um intelectual do Exército, que acreditava no Exército. Jornal da ABI – Ele acreditava no golpe? Chamava de “revolução”? Lúcio Flávio Pinto – Ele acreditou. Depois ele disse que ficou desiludido! Ele era anticomunista, achava que os esquerdistas eram nefastos, que só querem conquistar o poder, muito na linha de Milovan Djilas, que denunciava a nova classe: “isso aí é outro dominador, prefiro ficar no que eu já conheço”. Mas era um homem honesto e muito bem informado. Semanalmente ele estudava o Almanaque do Exército. Sabia tudo sobre todos os oficiais, generais, coronéis, e foi militar durante 38 anos. Era uma fonte preciosa, que eu nunca perdi. E várias outras. Então, o jornalista é isso: são suas fontes. É impossível um jornalista que não tenha fontes seguras e confiáveis, mesmo que possa funcionar com códigos, como o Deep Throat, do Woodward. Numa escala micronésima, eu tinha o meu Deep Throat. Ele nunca me dava uma informação, mas se eu perguntasse se uma informação era verdade, ele nunca mentiu. Como ele era alto funcionário público, achava que não podia trair o Governo ao qual pertencia. Mas quando eu sabia da informação sem precisar dele, ele dizia se era boa, me indicava fontes, sempre me orientou. Isso é o nosso compromisso: ter a melhor informação para passar para o público, e não simplesmente destacar essa informação sem o esforço que ela exige. Essa matéria sobre a BR-150 eu levei cinco anos para fazer. Quando publiquei, em 2002, era 1 bilhão e 100 milhões de dólares. É uma estrada fantástica. Levei cinco anos porque não havia uma fonte que garantisse que a informação era verdadeira. Mas fiquei ligado, nunca perdi a perspectiva. Cada vez que aparecia alguma coisa, eu anotava. Tinha o meu dossiê da BR-150. O meu livro sobre o Jari, que é o de que eu mais gosto – Jari: toda a verdade sobre o projeto de Ludwig –, foi assim: eu recebi a correspondência confidencial do General Ernesto Geisel com o Ludwig, e a pessoa que me deu essa correspondência, que era íntimo do grupo Geisel, me disse: “Você não pode divulgar por dez anos, porque é o prazo que eu acho que ninguém vai me identificar como a fonte. Você topa?” Quando completou dez anos, eu fui para os Estados Unidos com uma bolsa e escrevi o livro lá. Imaginei que fosse ter uma grande repercussão, porque o Ludwig tratava o Geisel como um funcionário dele. O “grande” Geisel, general prussiano, Ludwig tratava dando ordens. Mas o livro não teve repercussão, mas foi um trabalho capaz de repercutir. Jornal da ABI – Quanto tempo você ficou nos Estados Unidos escrevendo?

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FRANCISCO UCHA

DEPOIMENTO LÚCIO FLÁVIO PINTO

Lúcio Flávio Pinto – Fiquei seis meses, com uma bolsa da Universidade da Flórida, até escrever o livro e fazendo outras coisas; foi o melhor período para mim, porque nunca tive isso no Brasil. É uma coisa interessante, porque Ludwig é um ícone americano, era o maior milionário americano da época, e a Universidade nunca fez nenhuma restrição. A bem da verdade, nunca saiu em inglês nos Estados Unidos, mas saiu em português em 1984. Ganhei até o Prêmio Esso com parte do material que tinha e usei numa reportagem. Era o modelo do grande projeto do que era a participação estrangeira no Brasil. Aguentei dez anos. Jamais falhei com minhas fontes. Você pode eliminar a fonte quando ela falha. Pode até continuar com uma relação de amizade, mas elimina a fonte. Eliminei várias fontes. Jornal da ABI – Mas também, em certos casos, não há um jogo de interesses da fonte com o jornalista? Lúcio Flávio Pinto – Na cobertura desse caso da penetração do narcotráfico internacional no Pará, em Belém particularmente, que envolveu uma das mais tradicionais famílias de lá com o principal representante do tráfico, chegou a um ponto em que eu estava revelando coisas tão explosivas, tão graves, que ouvia muita coisa dos traficantes e não sabia se podia confiar neles. É muito perigoso, mas era um jogo aberto, eles sabiam quem eu era e nenhum nunca desmentiu. Mas sentia o peso do risco que estava correndo. E algumas informações que recebia eu ligava para os meus colegas da editoria de Polícia, nos jornais diários e dizia: “Eu vou te dar um furo”, e dava. Depois de certo tempo, ninguém queria nem ouvir! Jornal da ABI – Os jornalistas não queriam ouvir a informação que você tinha? Lúcio Flávio Pinto – Não queriam! Mas quando houve a apreensão pela Polícia Federal de uma tonelada de cocaína, veio todo mundo, até a TV Globo, para uma entrevista com o delegado que tinha feito a apreensão. Jornal da ABI – Mas a Polícia não sabia do envolvimento dessas grandes famílias? Lúcio Flávio Pinto – Mas o problema com esse que estava envolvido é que o pai dele era Secretário do Interior e Justiça, responsável pelas penitenciárias do Estado; então havia o receio de se tocar nele. Porque há uma coisa gravosa no Brasil: o bom policial sempre é punido porque ele atravessa a linha demarcatória entre aqueles que estão acima de qualquer suspeita e aqueles que podem ser presos. Então, todo policial tem receio de atravessar isso; daí a impunidade dos poderosos. Os que atravessam invariavelmente são punidos porque não respeitaram o código da elite brasileira, que é uma das piores

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elites do mundo. Então, quando foi apreendida aquela quantidade de droga, todo mundo foi para lá para a entrevista coletiva com o delegado. E o Jornal Pessoal era o único que dava matérias sobre esse assunto há cinco meses, era o único! Ninguém mais dava! E o delegado começou a falar. Quando terminou a entrevista coletiva, que estava lotada, um dos colegas disse: “Lúcio, por que você veio a esta entrevista coletiva? Não fizeste nenhuma pergunta!” E eu respondi: “É que eu já sabia tudo o que o delegado ia falar. Agora vou ter uma conversa em off com ele porque tenho algumas informações que eu acho que ele não tem e, certamente, ele tem algumas que eu estou procurando e não tenho”. E esse colega disse: “Então vamos ficar, porque agora é que vai ser bom”. Aí, eu olhei bem sério para ele e disse: “Olha, não existe off coletivo. Off é jornalista e fonte. Mas, eu vou criar o ‘off coletivo’ hoje aqui! Pode ficar todo mundo aqui, não tem problema! Vou dar todas as minhas informações exclusivas, mas... tem que publicar! Só fica quem se comprometer a publicar!”. Em dez segundos, foi todo mundo embora! E o delegado, perplexo, me olhou e disse a seguinte frase, que ficou como um dos momentos mais tristes da minha carreira: “Lúcio, eles são teus colegas?!” Eu e o delegado ficamos dois minutos perplexos. O quê os impedia de ficar? Não havia orientação do patrão, ninguém sabia que eu iria estar lá, ninguém sabia que eu ia dizer isso! Por que não ficaram?! Foi o momento em que eu senti a covardia do jornalista! Foi pura covardia. Medo! Aí as pessoas me perguntam: “Tu não tens medo?” Eu tenho! Qualquer ser humano tem medo, mas não sou covarde. Às vezes eu publico uma matéria e digo para mim mesmo: “Lúcio, tu és doido, por que fizeste isso?” Não é nem pelo risco de morte, mas por perder uma velha amizade porque se está escrevendo contra ela. E eu sempre sacrifiquei as minhas amizades. Jornal da ABI – Você sempre sacrificou suas amizades? Lúcio Flávio Pinto – Sempre! Se ele rouba, se fez alguma coisa contra o patrimônio público, não quero ser amigo dele. Eu fui amigo do Jáder Barbalho, e hoje não sou. A nossa integridade é o que nos autoriza a abrir as portas do poder. Nós não abrimos as portas do poder para fazer parte do poder, nós somos o antipoder. O poder nos teme. Então as pessoas dizem assim: “Lúcio, você não tem medo de morrer?” Eu tenho muito medo de morrer, sempre me defendi. Todas as vezes em que sou ameaçado, eu reajo não gritando, pedindo apoio de fulano, não. Eu quero saber de onde vem. Se, como jornalista, cubro o que acontece a terceiros, tenho a obrigação de, como jornalista, cobrir a mim mesmo. Eu vou atrás de saber quem está me ameaçando!

ofereceu todos os poderes para mim quando foi eleito pela primeira vez, em 1982. Porque ele achava que a minha cobertura tinha ajudado a campanha dele. Ajudou porque ele estava vencendo, não foi por minha causa. E eu recusei todos. “Jáder, eu estou do outro lado. Se tu errares, eu vou denunciar”. Aí ele abriu a porta onde estávamos reunidos, chamou o Roberto Ferreira, futuro Secretário da Fazenda, que é o mais importante, e nosso amigo em comum, e disse: “Roberto, diz para o Lúcio o que eu disse para ti antes de ele chegar”. “Tu me disseste que mesmo que oferecesse mundos e fundos, ele não ia aceitar nada”. “É isso que eu quero, Lúcio, que tu sejas o meu crítico”. Ele disse isso.

“AO CONTRÁRIO DO QUE AS PESSOAS PENSAM, EU NÃO SOU UM INCONSEQUENTE, SÓ QUE EU NÃO CONSIGO REPRIMIR A URGÊNCIA DE PUBLICAR AS COISAS QUE EU APURO. É UM COMPROMISSO QUE EU TENHO E PUBLICO INDEPENDENTEMENTE DOS RESULTADOS. O JORNAL PESSOAL SE TORNOU UM SÍMBOLO.” E sempre descobri. A primeira ameaça grave, grave, que recebi, foi em 1984. O Jáder estava no Governo e eu estava mostrando o início da corrupção dele como Governador. E comecei a ser ameaçado. Até que uma ameaça – sempre por telefone, anônima – foi feita no O Liberal, onde eu trabalhava na época, e o dono de O Liberal disse que ia mandar dois seguranças me proteger. Eu disse que não queria, porque segurança foi feito para matar bandido, não para evitar assassinato. Eu nunca tive segurança, nunca andei armado! Minha arma é a informação! Descobri de onde vinha a ameaça, liguei para o Jáder e disse: “Jáder, estou neste momento escrevendo uma carta para o dono do jornal O Estado de S. Paulo, Júlio Mesquita Neto, dizendo que o que me acontecer a culpa é sua, você é o mandante”. Aí ele disse; “Sabes que não sou eu, não é?”. Eu disse: “Sei, mas é perto de você”. Aí ele parou e disse: “Lúcio, se você mandar essa carta, será a minha ruína política”. Eu disse: “Prefiro que seja a sua ruína política do que eu morrer”. Aí ele disse: “Me dá 24 horas para eu apurar se realmente isso existe? Se é isso o que você está dizendo.” “Dou”. Em 24 horas ele me ligou: “Lúcio, tu

tens razão. Eu já desfiz. Acreditas em mim?” Eu disse: “Acredito, mas vou checar”. E eu tinha uma fonte que era o chefe da segurança dele. E fui com a fonte, que não tinha por que me dar a informação. Ele estava se arriscando, porque era amicíssimo do Jáder... já morreu até, era da Polícia Militar. É uma coisa inexplicável: mesmo na época do regime militar, determinadas pessoas só tinham a perder sendo fontes, e eram! A pessoa quer se preservar, talvez acredite que há uma outra vida, que há um céu, um inferno, ou quer preservar a sua imagem, ou tem algum fundo de consciência. Ele disse: “É verdade. O chefe reuniu todo mundo e disse assim mesmo: ‘Olha, estão ameaçando o Lúcio e eu já sei quem é! Vou dizer para vocês o seguinte... ele está me criticando, mas ele é meu amigo e eu gosto dele. Não interessa se ele vai me criticar. Eu apoio ele e corto o saco de quem ameaçá-lo!’”. Jornal da ABI – O Jáder falou assim? Lúcio Flávio Pinto – Foi. E eles tinham um respeito enorme por ele: “O chefe estava bravo”. Então, por que o Jáder fez isso? Porque ele me respeita. Eu sou o único amigo que não foi para o poder com ele. E ele

Jornal da ABI – No fim, a atuação dele foi decepcionante... Lúcio Flávio Pinto – Ele destruiu todas as esperanças, inclusive a minha. E eu já disse isso várias vezes. Se você pegar o Google e fizer uma pesquisa “Lúcio Flávio Jáder Barbalho” você vai ver. Em 1984, Jáder era líder do grupo autêntico do PMDB, era considerado um homem de esquerda, quando eu comecei a criticá-lo. As pessoas ficavam horrorizadas porque eu estava fazendo o jogo da reação, que eu não estava entendendo que era oposição. Eu disse: “Não interessa, se está roubando, está roubando! Se tem gente roubando no Governo dele, está roubando. Cada denúncia que se fizer, ele tem que responder”. Aliás, no segundo Governo, ele fez isso. Cada denúncia ele mandava apurar. Se a apuração era boa ou ruim, é outra coisa, mas ele mandava apurar. Ele aprendeu que, mesmo sem corrigir os vícios do passado, tinha que cuidar da imagem. Mas a imagem já estava comprometida, totalmente desgastada. Ele não era mais o mesmo personagem de quando assumiu o Governo e não foi nunca mais. Toda vez que se fala em desvio de dinheiro público, as primeiras lembranças são Maluf e Jáder Barbalho... É um estigma e vai ficar para sempre. No fundo, ele é uma pessoa que sabe que eu faço jornalismo. Não faço mais do que isso. Às vezes, o PT aplaude minhas iniciativas, às vezes me detrata, me ataca, me ofende. Eu estou na minha, não quero apoio de ninguém. Um amigo meu dizia: “Lúcio, tenha pelo menos o apoio de um grupo, tu briga com todo mundo, ninguém vai te apoiar”. Infelizmente, faz parte. Não temos respeito à diversidade e à crítica. Quem é mais adversário da crítica do que o Lula? O Lula não aceita críticas! É um homem hábil, político, de um carisma fantástico e consegue criar uma imagem de quem aceita críticas, mas não aceita. Quem aceita? Eu posso dizer que eu aceito, porque eu publico no Jornal Pessoal, na íntegra, todas as cartas. Já publiquei cartas ofensivas, na íntegra. Naturalmente respondo, e todo mundo sabe que eu vou responder e


“A MINHA LUTA NÃO

“A VALE É A vou manter a polêmica até o fim. Quem for podre que se quebre. Eu sou daqueles que dão um boi para não entrar numa polêmica, mas dão uma manada para não sair. Para mim, a verdade são os fatos. Se a pessoa gosta de mim ou não, se sou de direita ou de esquerda, isso nunca me interessou. Se estou dizendo a verdade, é o que interessa. A verdade é uma construção cuja ossatura são os fatos, e é isso que eu quero saber: os fatos! Jornal da ABI – Os leitores do Jornal Pessoal já deveriam estar acostumados com suas denúncias e com o que acontece na região. Mas, como é, efetivamente, a reação de seu leitor? Eles acreditam no que você escreve ou acham que você é alguém que está procurando problemas, sarna para se coçar? Lúcio Flávio Pinto – Eu já fui agredido fisicamente três vezes. Essa já é uma resposta. Como incomodo! Eu faço uma alegoria com a história da Branca de Neve. O Jornal Pessoal é um jornal pequeno, sem cor, sem mulher nua, sem coluna social, maçudo, o antijornal moderno ou ‘pós-moderno’, seja lá o que for. Tem dois mil exemplares de tiragem, uma tiragem pequena, e as características dele são quase de um jornal amador. Mas eu sempre lembro que comecei a fazer o Jornal Pessoal quando tinha 21 anos de profissão, tinha trabalhado em algumas das principais empresas do Brasil, tinha sido testado em inúmeras situações; era um jornalista amadurecido. Sob aquela capa de jornal amador, há um jornal limpo, altamente profissional, que já mostrou que sabe fazer jornalismo. Então, o que o Jornal Pessoal publica incomoda por ser único. Não é por ser grande, nem por ser nada, é por ser único. Uma boa parte daquelas informações e análises não aparece em nenhum outro lugar e não é informação irrelevante. Então, a lenda da Branca de Neve é a madrasta que tem inveja e mandou a Branca de Neve para o meio da floresta, mandou o caçador matá-la, e o caçador, com pena, deixou-a ficar lá no meio da floresta. E a madrasta pergunta para o espelho mágico: “Existe alguma mulher mais bonita do que eu?” e o espelho, que era a verdade, dizia “No meio da floresta, sozinha, coitada, a Branca de Neve”. Mal comparando, é mais ou menos isso que o Jornal Pessoal é. As pessoas que foram denunciadas, focalizadas em situação desfavorável, ficam irritadíssimas, revoltadas com isso. Mas não respondem, porque ali está a verdade! O Jornal Pessoal já foi matéria de capa do Los Angeles Times, já foi tema de editorial do Washington Post, já foi matéria de capa do Le Monde. Nenhum jornal da minha região consegue isso, e poucos no Brasil. Por quê? Porque ele é único. É um jornalismo que não abre mão de dizer a verdade, que não tem compromisso com ninguém, com amigo, não tem anunciante, não

MAIOR ANUNCIANTE DO PAÍS! E ELES NEM PRECISAVAM ANUNCIAR PORQUE O PRODUTO DELA NÃO É DE VAREJO! É PARA COMPRAR A IMPRENSA MESMO!” aceita publicidade, só se mantém porque cumpre essa função. Acontece é que eu sou o jornal! Então, como Belém é uma cidade pequena – tem 1 milhão e 200 mil habitantes –, eu fico permanentemente em situação constrangedora porque aqueles a quem ataco eu me encontro com eles no dia seguinte. Cruzo com eles e alguns não conseguem se controlar e partem para cima de mim. Ou me ofendem ou me agridem fisicamente, o que provocou a única mudança que fiz na minha vida: eu evito sair à noite. Também estou sempre rastreando as ameaças potenciais. Eu faço uma matéria de determinado assunto, continuo ligado àquilo para saber se vem alguma coisa do outro lado. E como conheço bem a cidade onde vivo, as pessoas, posso fazer isso. Não vou até aquele determinado lugar porque ele frequenta. Ao contrário do que as pessoas pensam, eu não sou um inconsequente, só que não consigo reprimir a urgência de publicar as coisas que apuro. É um compromisso que tenho e publico independentemente dos resultados. O Jornal Pessoal se tornou um símbolo. Para se ter uma idéia, um dos setores que eu mais cubro é a Vale. Os jornais de hoje estão dando o balanço trimestral da Vale, mostrando que o lucro caiu 57% e vários números que vêm no press-release. Até domingo ainda vai sair matérias sobre o tema porque tem alta significação para o País. Não sei por que demorou tanto para publicarem sobre esse relatório... Mas eu tenho certeza de que quando eu voltar para Belém e for escrever sobre isso, vou escrever uma matéria que não vai ter igual em nenhum lugar. Ah, eu tenho a presunção de ser melhor que todo mundo? Não! Eu sou igual a qualquer um dos que estão escrevendo. Não é falsa humildade, não. É porque eu tenho a audácia de fazer o que eles não fazem. Eu nunca escrevo sobre os press-releases da Vale, embora sejam belos press-releases. Eu vou no balanço! O balanço me exige três, quatro, cinco, oito dias. Mas eu vou passar esse dias lendo o balanço. E eu sei ler balanço. Estudei bastante Contabilidade, conversei com as maiores autoridades em balanço, hoje sou um analista de balanços. Analiso balanços desde 1979, quando descobri que os balanços das empresas, mesmo naquela época arcaica e com as manipulações todas que as empresas podiam fazer, eram uma boa fonte. Eu leio tranquilamente qualquer balanço, tanto na contabilida-

de nacional, quanto na contabilidade americana, pois a Vale adota as duas contabilidades. E vou escrever uma matéria assim porque eu li o balanço e não tenho medo. Eu não tenho compromisso, não recebo dinheiro da Vale, que é a maior anunciante do País! E eles nem precisavam anunciar porque o produto dela não é de varejo! É para comprar a imprensa mesmo! Jornal da ABI – Você acredita que a Vale anuncia para comprar a imprensa? Lúcio Flávio Pinto – Para comprar a imprensa, claro. A imprensa não critica a Vale! Mas você vê a importância: todas as pessoas do setor sabem que eu conheço razoavelmente bem a economia mineral, conheço muito contabilidade, então o circuito espera por essa matéria; sabe que eu vou escrever e que essa matéria não vai ser igual às outras. E eu já tenho na cabeça praticamente tudo que vou escrever sobre a Vale e que não está em nenhum lugar. E vou dizer sinceramente: eu gostaria de ler isso em outro jornal, porque me desobrigaria desse trabalho, que é estafante. Infelizmente, ninguém faz! O Jornal Pessoal está no clipping da Vale! Eu sei porque conheço quem faz o clipping. Em 2007, eu estou em casa, às nove horas da noite, me liga o chefe da Comunicação Social da Vale dizendo: “Lúcio, estou aqui num jatinho, estava indo para São Luís, onde amanhã às oito horas da manhã tem uma reunião com todo o pessoal de Comunicação Social da Vale, e recebi agora um aviso do Roger Agnelli...”, – que era o Presidente da Vale, foi o que ficou por mais tempo no cargo, dez anos – “...e ele está furioso contigo, e me ligou do jatinho, porque ele estava indo do Rio para Belo Horizonte, dizendo que tu dizes que ele é um financista, que ele impôs sua visão financeira sobre a Vale, que é representante de banqueiro, do Bradesco... mas que não é nada disso. Ele gritava que ele é um homem honrado, que ele dá todos os jetons dele para instituições de caridade, ele é um homem que tem visão social. Ele exigiu que eu tome o café da manhã contigo amanhã.” E eu disse: “Roger, eu posso falar isso para ele por telefone”. Mas ele disse: “Não! Eu quero que você vá lá! Converse com ele no café da manhã! Então estou te ligando a esta hora para saber se tu podes ir às seis horas da manhã para eu poder estar às oito em São Luís”. Eu disse: “Não tem problema, eu vou. Vou te dizer exatamente isso.” E eu fui para o café da manhã. Quando cheguei, era um ultracafé da manhã, um negócio pantagruélico. Me recebeu o Fernando Thompson, diretor de Comunicação e Imprensa da Vale, que até já saiu de lá. Eu disse: “Fernando, me sinto constrangido com um negócio desses, não precisava gastar dinheiro da empresa com isso”. E ele respondeu:

“Não, ele quer”. “Então, por que desceu das suas tamancas para se preocupar com um jornalzinho de província?” Porque aí, eu acho, é a vaidade. É o apreço que o cara tem pelo próprio nome. A minha opinião era importante para ele. Então, você vê que o Jornal Pessoal tem um valor simbólico. É o valor daquele garoto da lenda que diz “O rei está nu!” Para todo mundo, o rei está vestido... mas o rei está nu e o garoto não fez mais do que dizer a verdade. Eu me surpreendo às vezes com essas situações porque o Jornal Pessoal só faz isso e nada mais do que isso. Se ele incomoda tanto ou se provoca admiração, é de se perguntar que jornalismo nós estamos fazendo hoje no Brasil. Jornal da ABI – O Jornal Pessoal cobre essa lacuna e passa essa credibilidade aos leitores? Lúcio Flávio Pinto – Acho que sim. Tenho várias manifestações de que passa essa credibilidade, e ela é posta fora de dúvida. O que alguns questionam muito é que o jornal está fazendo jogo de fulano, jogo se sicrano, que o jornal é de direita, ou de esquerda, que eu sou tendencioso, mas ninguém contesta os fatos. Como eu publico as cartas na íntegra, a melhor maneira de avaliar o jornal é ver aquelas cartas. Não são editadas, nunca foram. Eu acho que o maior patrimônio do jornal é que se o Jornal Pessoal disse é porque é verdade. Agora, é uma verdade que incomoda fulano, uma verdade que agrada sicrano, uma verdade que fulano não aceita, uma verdade não posta em dúvida, mas posta na controvérsia. Por que essa verdade? Não deveria fazer de outra maneira? Então, o único patrimônio do Jornal Pessoal é a credibilidade. Com tão poucos recursos, e o fato – que é importantíssimo – de que a maior parte do meu tempo eu passo me defendendo na Justiça. E não é por outro motivo que dos 33 processos que já sofri 19 foram promovidos pelo Grupo Liberal. Acho que nunca na história, ouso dizer, na história universal, um grupo jornalístico perseguiu tanto um jornalista quanto O Liberal me persegue, sem nunca ter publicado nada nos seus próprios veículos, sem nunca ter contestado de público, sem nunca ter exercido seu direito de defesa sobre o que eu publiquei. Qual é o esforço de me processar tanto? É me tirar da minha apuração. Eu não escrevi a matéria que eu queria escrever sobre

“SE O JORNAL PESSOAL INCOMODA TANTO OU SE PROVOCA ADMIRAÇÃO, É DE SE PERGUNTAR QUE JORNALISMO NÓS ESTAMOS FAZENDO HOJE NO BRASIL.”

É SÓ PARA APURAR OS FATOS E MANTER O JORNAL CIRCULANDO, MAS RESISTIR FISICAMENTE.” a eleição do primeiro turno porque não terminei a análise dos dados. A análise dos dados me levou três dias, eu tive de viajar para receber o prêmio (Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos) e não podia escrever com base só naquelas informações que tinha, da maneira como eu queria escrever, que é mostrar que o Pará não é esse Estado desinteressante, que não aparece nas pesquisas nacionais, que não é considerado. Mas eu queria mostrar que é um Estado importante, mesmo quando numa eleição dessas, tão viciada. Mas eu não pude porque não terminei o processamento. Se eu conseguir terminar, na volta, antes da próxima edição, eu escreverei. Porque às vezes dizem assim: “Lúcio deve estar comprometido, porque ainda não escreveu sobre aquele tema que todo mundo está escrevendo”. Mas eu não cheguei à verdade e não tem jeito de me adiantar. O que acontece muito é que eu escrevo o jornal em dois dias; é o único período que eu tenho para escrever o jornal. Nesses dois dias eu trabalho como um cavalo. Já trabalhei uma semana, duas semanas, dois meses sobre aquele assunto, e levo dois dias para escrever o jornal inteiro. Com isso, cometo erros de digitação, às vezes até de concordância, pela pressa, pelo cansaço e exaustão. Por que querem me levar à exaustão? Para que Jornal Pessoal desapareça. Não porque me mataram, não porque fecharam violentamente o Jornal Pessoal, mas porque eu não aguentei. A minha luta não é só para apurar os fatos e manter o jornal circulando, mas resistir fisicamente. Toda essa preocupação dos outros só tem um motivo: o Jornal Pessoal é acreditado. Jornal da ABI – Você falou que o Jornal Pessoal imprime dois mil exemplares. Ele é todo vendido? Lúcio Flávio Pinto – 60 a 70% são vendidos nas bancas. Ele é o jornal que mais vende em bancas em Belém. Mas não é nenhuma vantagem, porque a maioria dos jornais vende, em grande parte, por assinaturas e há uma coisa que é específica de Belém, que é o jornaleiro. O principal veículo de venda de jornal é o jornaleiro; segundo é o assinante, e em último a banca. Então, como o Jornal Pessoal só vende em banca, é o que mais vende em banca, mas não é nenhuma façanha. Jornal da ABI – Você acha que consegue fazer o jornal por mais quanto tempo? Lúcio Flávio Pinto – Toda vez eu me pergunto: “Vou fazer o próximo?”

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DEPOIMENTO LÚCIO FLÁVIO PINTO

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não vai acontecer alguma coisa com ele. A violência na Amazônia é uma coisa brutal, e não é de hoje. É desde as primeiras estradas. A estrada de rodagem é o fato mais traumático na história da região. É a abertura do vandalismo, da barbárie e da destruição da Amazônia. Em 1982, atravessando de Xambioá para São Geraldo do Araguaia, no Rio Araguaia, entre o atual Tocantins e o Pará – área da guerrilha do PCdoB –, eu vi a violência no rosto das pessoas, no olhar das pessoas. O medo. As pessoas com medo! E quando nós estávamos atra-

época, seis anos do fim total da guerrilha. Mas continuava a ter olheiro bate-pau na travessia. Toda gente que atravessava o Araguaia era espionada. Quando voltamos para Xambioá para pegar o avião, já íamos embarcar, quando uma pessoa saiu do mato e disse: “Tirem toda essa gasolina daí que colocaram açúcar na gasolina”. Sabe que o açúcar na gasolina faz o avião cair; mal decola, ele cai. E tivemos que tirar toda a gasolina do avião, para não correr o risco. Podia ser verdade ou não, mas fizemos por segurança. Essa violência na Amazônia é terrível. É uma violência que não se traduz apenas em mortes, em assaltos, ou em qualquer forma de violação dos direitos humanos. Ela se traduz na alma, que faz o pânico se refletir nos olhos. Porque a vida não vale nada na Amazônia. Agora mesmo, uma instituição mexicana, na semana passada, divulgou um estudo sobre as 50 cidades mais violentas do mundo e Belém está em quinto lugar, pelo critério de homicídio per capita. É uma coisa espantosa, assustadora. Belém é mais violenta do que Bogotá, a capital da guerra civil colombiana. Não aconteceu na Amazônia a Revolução Francesa. Ainda estamos esperando que a Revolução Francesa diga sobre a dignidade do ser humano, liberdade, igualdade e fraternidade, que o homem tem direito a sua vida. Por isso que, no meu discurso, eu disse que tenho o direito de viver. Quando morreu o Paulo Fonteles – por causa dele eu criei o Jornal Pessoal –, no enterro do Paulo, na hora em que ele estava sendo enterrado, havia outro deputado estadual, João Carlos Batista, que estava ameaçado. Éramos muito amigos e eu fiz uma brincadeira de humor-negro premonitória. Eu disse: “Batista, sobe aqui no túmulo para a gente bater uma foto tua que, daqui a pouco, és tu”. Eu me arrependo disso, porque eu não devia ter feito isso. A gente não pode brincar com a morte. Mas para você ver como era uma morte anunciada, um ano e meio depois, Batista morreu assassinado na entrada da casa dele, diante do filho e da mulher. Então, o meu ato de criar o jornal foi um ato de indignação quando vi o corpo do Paulo Fonteles, porque eu havia conversado com ele três dias antes, longamente... foi morto a trinta quilômetros de Belém. Um crime político terrível porque abriu as portas para a violência indiscriminada. E ninguém queria publicar as informações que diziam quem manFRANCISCO UCHA

uma repercussão inclusive internaMinha dúvida é se eu vou fazer o cional, ele estava violando a Constipróximo. Não é demagogia, é que eu tuição! Estava agindo com uma “jusrealmente não sei se vou conseguir. tiça” de um país mais selvagem, porÀs vezes eu termino em total exausque juiz não toma inicitão, porque faço o jornal, VERDADE ativa. Eu não era parte vou para a gráfica editar, no processo que ele estaetiqueto, vou ao correio ESTÁ PROIBIDA va julgando e nenhuma despachar o jornal, disA VERDADE das partes pediu algutribuo uma parte pesÉ PERSEGUIDA ma coisa contra mim, e soalmente e tenho que nem podia. Mas ele toficar permanentemente EM PLENA mou, de ofício, uma iniligado aos processos juDEMOCRACIA ciativadessa?Então,isso diciais, que tomam às mostra o grau de raiva que as pessovezes 80% do meu tempo. Então, não as têm com a verdade. Então a verdasei se vou fazer o próximo. de está proibida, a verdade é perseguida em plena democracia, no período Jornal da ABI – E os censores de mais longo de democracia da histótoga que ameaçam tanto a imria republicana brasileira. prensa hoje em dia? Lúcio Flávio Pinto – A Justiça do Jornal da ABI – Certas regiões do Pará serviu de instrumento a todos Brasil são muito perigosas para aqueles que me processaram. Mas a quem quer lidar com a verdade. partir do momento em que, além de Existe um poder paralelo, comme defender, eu mantinha a minha partilhado entre os poderosos opinião crítica da Justiça, de continulocais, que não presta contas ao ar acompanhando a Justiça, eu pasGoverno Federal! sei a ser o inimigo dos magistrados. Lúcio Flávio Pinto – Veja o caso do Eles não apenas são os intérpretes e Chico Mendes, tão escrito e tão aboros instrumentos dos que me persedado. Não houve nenhuma conspiguem, mas passaram a me perseguir ração internacional maior para também. Eles achavam que eu devia matá-lo. Foi uma briga de um senhor me tornar subserviente, ou pelo feudal em Xapuri contra ele. Esse menos um aliado, porque eu precisasenhor feudal se considerava dono da va das sentenças deles. Mas eu nunvida e da morte naquela área. E maca fiz isso e continuei crítico, fazentou. Ele não tinha idéia do que podedo com eles o que faço com todos os ria acontecer com esse fato. Ele acha outros. Passou a ser uma questão que pode matar, e mata, como um quase de honra deles, do espírito cortraficante de morro do Rio de Janeiporativo, me quebrar, e é o que eles ro, que tem poder de vida e morte na têm feito. Eu tenho publicado denúnsua “jurisdição”. Ele é tudo! O que cias terríveis sobre a Justiça, inclusiestá acontecendo no Brasil é isso, esses ve que provocaram manifestações poderes que são ilimitados, que não do Conselho Nacional de Justiça, da têm conexão nacional, seja que tipo Dra. Eliana Calmon, enquanto ela era for de conexão, com o Governo FedePresidente do Conselho. Matérias que ral, com os empresários, com multieu fazia lá repercutiam no Conselho. nacionais, não têm, é um poder locaChegou a um ponto em que eu fiz lizado. E esse poder às vezes comete carta-aberta para a Presidente do atos dos quais não há avaliação corTribunal, falando das irregularidades, reta. Pode acontecer de um cidadão, mostrando, e ela nunca respondeu. prejudicado por um artigo, mandar Acho isso um absurdo, porque o problema da Justiça é que os magistrame matar sem haver conspiração dos hoje sentem como se vivessem nenhuma, não tem ninguém atrás num mundo à parte, no mundo da dele, é ele só. É possível. Mas o que é fantasia; eles se consideram cada vez mais grave é o caso dos poderes insmais acima do cidadão. As custas são titucionais. Esse é o mais grave. Esproibitivas. Entrar com um agravo de tou falando do poder não personifiinstrumento, no Estado do Pará, cuscado. O conjunto dos elementos que ta R$ 1.200,00 iniciais! O Juizado integram o poder. Logo depois de eu Especial, que foi feito para acelerar a receber o Prêmio Herzog, uma pessoa tramitação dos processos, hoje tem me perguntou: “Agora ficou melhor audiência para daqui um ano ou dois. a situação para ti lá no Pará?” e eu Congestionadíssimo. Mas não é só disse: “Não necessariamente”. Eu um problema de rito, é um problema não pude, por exemplo, em 2007, ir da ética, do exercício da Justiça. Um à Nova York receber no Waldorf-Asjuiz, o Dr. Amilcar Guimarães, me toria o Prêmio do CPJ (Prêmio Interofendeu no blog dele! Me ofendeu! E nacional da Liberdade de Imprensa não teve medida nenhuma contra ele. concedido pelo Committee to Protect Um outro juiz federal queria me Journalists). Não pude ir, mandei impedir de falar sobre um assunto de minha filha. O CPJ é a maior entidainteresse público, que era a malverde de jornalistas do mundo! Sim... sação pelos Maioranas, donos do mas lá, no sertão, ninguém quer Grupo Liberal, de dinheiro dos incensaber. O Guimarães Rosa tem uma tivos fiscais. Me ameaçou de prisão frase que define o que é o sertão, inem flagrante, de uma multa extordependentemente do fator geográfisiva, e eu reagi na hora. Disse que não co. Diz assim: “Ah, o Sertão... Deus, ia cumprir a ordem dele e, cinco dias se for lá, que vá, mas armado”. (ridepois, ele voltou atrás porque teve sos) Nem Deus tem garantia de que

vessando, era uma comitiva, o Senador Teotônio Vilela, a Deputada Federal Cristina Tavares, do PMDB de Pernambuco, e o Deputado Federal, na época, Jáder Barbalho, para ver os dois padres franceses acusados de insuflar os posseiros a atacar as tropas federais. Quando nós atravessamos o Araguaia, do outro lado estava um PM, de fuzil embalado, que exigiu a nossa identificação. O Senador Teotônio Vilela tentou reagir com aquela sua indignação legendária, ele dizia: “Eu sou Senador da República!” Ele tremia de indignação! “Eu não estou entrando num País estrangeiro, é o meu País!” Impassível, com o fuzil embalado, o PM dizia: “Me mostre a sua identidade”. Aí eu disse: “Senador, nós não estamos num país estrangeiro, mas é como se fosse. Mostre a sua identidade, aceite isso como um preço a pagar para não correr um risco, porque o senhor não sabe como vai ser”. Ele teve de se identificar, e nós todos também. O Teotônio levou um tempo para se controlar. Você vê a indignação da dignidade humana, que ali não interessa. Ali é a violência. Naquela travessia, nós já tínhamos, naquela

dou matar, quem organizou o crime, quem executou, tudo. Então acho que a nossa atitude de resistência tem que ser essa: a verdade. Nós somos paladinos da verdade, defensores da verdade. E ela é um dever de ofício, não é um elemento distinguidor do herói e do covarde. Se você é jornalista, você é um sacerdote da verdade. E se você não é o sacerdote da verdade, não é digno de ser jornalista. Jornal da ABI – Para finalizar, você trabalhou no Estadão nos anos 1970. Fale um pouco desse período. Que matéria você destacaria? Lúcio Flávio Pinto – Trabalhei muito com o Maurício Azêdo na época do Estadão. Em 1973, fizemos uma matéria incrível sobre a manipulação dos índices de inflação pelo Delfim Netto, numa época em que o jornal devia um favor enorme para o Delfim porque ele conseguiu nacionalizar a dívida em dólar do Estadão, mas... não teve jeito, a matéria era tão bem feita que foi publicada. Havia um censor na Redação, mas tinha o seguinte: muito militar odiava o Delfim. O pessoal do Rio Grande do Sul, da Agricultura, de vez em quando ia lá conversar comigo, saía de Porto Alegre para ir conversar, dando dados contra o Delfim. Eles odiavam porque o Delfim estava liquidando os frigoríficos nacionais para vender para os frigoríficos internacionais. Eu acho que por causa disso, o censor não censurou. No dia seguinte, o Delfim mandou um recado pelo jornalista Robert Appy, que era o segundo da Editoria de Economia, depois do Frederico Heller, que era o editor. Um austríaco, o outro francês. Appy tinha sido maquis da Resistência Francesa na Segunda Guerra. Mas aí ele passou para o outro lado e ficou no esquema do Delfim. Tínhamos terminado de fechar o jornal, era meianoite mais ou menos; estávamos eu, o Raul Bastos e o Rossi, naquele póscoito, cigarrinho... (risos), a edição fechada. Aí, chega o Appy. Tira o paletó, bota na cadeira, senta, uma cena cinematográfica, e diz: “Acabei de chegar de Brasília, o Delfim conversou comigo e disse o seguinte: ‘Já acabamos com repórter. Já acabamos com donos de jornais. Já acabamos com editor. Agora vamos acabar com o pauteiro’”. E eu é que tinha feito a pauta da matéria. Ficou aquele silêncio, todo mundo esperando minha resposta. Eu disse: “Appy, foi o maior elogio da minha vida. Pode dizer para o Delfim. O maior elogio que alguém já fez para mim você acaba de fazer!”. Appy olhou, levantou, pegou o paletó, vestiu novamente, parou do meu lado e disse: “Menino, você tem razão”. E foi embora. Quer dizer, ainda havia dignidade dentro do Appy, o ex-maquis, um cara que tinha lutado contra o nazismo. Estava no esquema, mas a consciência continuava viva nele. Esse é o elemento mais precioso do humano, ele é imprevisível.


IMPRENSA MEMÓRIA GLOBO

N

ão há como resgatar a trajetória de um homem sem contar a história de seu tempo. Ciente dessa condição, a historiadora e socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho fez chegar ao mercado Irineu Marinho – Imprensa e Cidade, pela Globo Livros. A obra, anunciada com grande destaque na mídia, relata a vida do jornalista brasileiro nascido em Niterói/RJ, fundador dos jornais A Noite (em 1911) e O Globo (1925) – este segundo o embrião do conglomerado que hoje conhecemos como maior império das comunicações do América do Sul. A autora faz questão de frisar: esta não é uma simples biografia. “É uma apresentação de uma história entrelaçada entre as transformações da cidade do Rio de Janeiro no começo do século 20, a cena jornalística, que passava por muitas mudanças nessa época, no Brasil e no mundo, e um personagem singular, que foi Irineu Marinho. Singular porque não foi apenas um empresário, ele também entendeu o Brasil”. Resultado de dois anos de um profundo mergulho no acervo do Globo Memória, em sua própria biblioteca e em coleções de jornais e documentos relacionados ao personagem central, o livro traz também uma análise do cidadão por trás do empresário que, ao longo de seus 49 anos de vida – Irineu morreu de ataque cardíaco em 21 de agosto de 1925, apenas três semanas depois do início da circulação de O Globo – expressou paixão pela comunicação e pelo entretenimento. Amigo de escritores, atores e sambistas, ele diversificou sua atuação e investiu em produtora cinematográfica e editora de livros. Duas reportagens de seu jornal A Noite serviram como inspiração para o primeiro samba, Pelo Telefone, composição de Donga e Mauro de Almeida, registrada em 1916. O veículo fundado em 1911 logo se destacou entre outros órgãos da chamada ‘nova imprensa brasileira’ pelo ímpeto com que encabeçou o movimento de renovação do modo de produção de notícias na cidade do Rio, estreitando os laços com os leitores e praticando um jornalismo de maior apelo popular. Como empresa que se pretendia independente

IRINEU MARINHO EM

TODOS OS SEUS MATIZES Livro resgata a história do fundador de A Noite e O Globo, bem como das transformações da cidade do Rio de Janeiro e da imprensa carioca no início do século passado. P OR P AULO C HICO

do Estado, A Noite precisava sustentar-se financeiramente. Uma vez que o lucro dependia de leitores e anunciantes, Irineu buscou conquistar o leitor comum, abrindo espaço para a cultura popular e modernizando a linguagem e a temática da pauta: o jornal cobria intensamente o cotidiano local e investia no noticiário policial, atendendo a novas faixas de público. Até então, as publicações atendiam apenas a uma pequena fatia da população – a mais elitizada. Irineu Marinho começou a trabalhar como revisor do Diário de Notícias, no Rio, em 1881, e passou depois por A Notícia, Gazeta da Tarde, A Tribuna e Gazeta de Notícias. Nas Redações pelas quais passou, fez de tudo. Bem-sucedido como empresário, vivia em conflito com o poder político. Perseguido por Hermes da Fonseca, esteve preso no Governo Epitácio Pessoa e teve que se exilar sob a presidência de

Artur Bernardes. Fora do País, terminou por perder o comando de A Noite em 1925, em meio a um conflito entre acionistas que disputavam o controle da empresa. Apenas quatro meses depois, porém, Marinho daria o troco a seus adversários, lançando O Globo, numa prova de sua persistência e tino para os negócios. No Rio, o lançamento do livro ocorreu no dia 29 de novembro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, na Zona Sul, e contou com a presença do Presidente das Organizações Globo, Roberto Irineu Marinho, que ressaltou o trabalho da historiadora. “É um livro extraordinário. A autora fez uma pesquisa maravilhosa. A família aprendeu muito sobre sua origem. Várias histórias eram desconhecidas para nós. O livro aborda o início do jornalismo independente e o início da cobertura da cidade”, ressaltou o neto do biografado. Quem também prestigiou o

lançamento foi o Presidente da Fundação Roberto Marinho, José Roberto Marinho. “O livro traz a revelação de um personagem que praticou um jornalismo diferente: mais popular, voltado para o trabalhador do Rio, com uma postura independente dos governos e das elites cariocas”, relembrou. A carioca Maria Alice é historiadora formada pela PUC-Rio, onde atua como professora associada desde 2005. É doutora em Sociologia pelo Iuperj. No biênio 2009/2010 presidiu a Associação Brasileira de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. Autora premiada pela Fundação Biblioteca Nacional e pela Associação Brasileira de Escritores, pesquisa e atua na área de estudos sociais da cultura e da cidade. Bem no meio da correria típica de final de ano acadêmico, arranjou uma brecha em sua agenda para conceder esta entrevista ao Jornal da ABI.

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IMPRENSA IRINEU MARINHO EM TODAS AS SUAS MATIZES AUGUSTO MALTA / ACERVO FOTOGRÁFICO DA LIGHT

Jornal da ABI – A Senhora afirma que, menos que uma biografia, seria mais correta a definição do livro como a história de um homem e seu tempo. Esse foi, de fato, seu objetivo desde o princípio?

Maria Alice – De fato, o livro não é uma biografia. Penso que seria mais adequado defini-lo como uma história social da cidade do Rio de Janeiro e da sua imprensa, a partir da trajetória de Irineu Marinho. Irineu desempenhou todas as atividades inerentes à produção jornalística: foi assistente de revisão, revisor, repórter, redator, chefe de redação, administrador e finalmente, criador de A Noite. Por isso, o desenrolar de sua vida ajuda a compreender a imprensa nas duas primeiras décadas do século 20. Foi este o projeto original do livro. Jornal da ABI – Como era o jornalismo antes de A Noite? Em quais aspectos este jornal inovou, a ponto de fundar um novo padrão na imprensa carioca? Ele ajudou a desenhar a imprensa moderna no País?

RENATO VELASCO

Jornal da ABI – Além do jornalismo, Irineu era também um apaixonado pela cultura. Esse aspecto de sua personalidade foi vital para a formatação do novo jornalismo desenvolvido por ele?

Maria Alice – A cultura como algo separado da política ainda não estava plenamente configurada naquele momento. Os políticos eram, ao mesmo tempo, articulistas dos grandes jornais e, muitas vezes, autores de romances e peças teatrais, como José de Alencar, no século 19. Mas, no começo do século 20, tudo começou a mudar. Irineu Marinho e seus contemporâneos foram respondendo, intuitivamente, às transformações sociais e fazendo dos seus respectivos ramos de atividade – imprensa, cinema, teatro – algo mais interessante para os que buscavam notícias e entretenimento. Foi um tempo de experimentação, mais do que de certezas e consolidações. 40

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didas que nos chegavam das sociedades industriais de massa. Jornal da ABI – Por outro lado, como foi o processo de atração e negociação com um maior número de anunciantes, de modo a viabilizar o jornal? Quais práticas comerciais inovadoras foram implementadas por A Noite?

Jornal da ABI – Como foi o processo de elaboração do livro?

Maria Alice – Há cerca de três anos, eu e outros editores da Revista Ciência Hoje atuávamos como consultores do Programa Globo Universidade, produzido no âmbito do Globo Memória. Foi assim que Silvia Fiuza, gerente do Globo Memória, me mostrou, certa vez, parte do acervo abrigado naquele setor e disse estar interessada em tornar aquela documentação conhecida. Ali nasceu o projeto deste livro. Entre pesquisa e redação, foram dois anos e meio de trabalho.

Nesta foto dos anos 1920, o prédio do jornal A Noite, que ficava no Largo da Carioca, podia ser facilmente identificado pelo letreiro. Ao lado, a autora do livro, Maria Alice Rezende de Carvalho. Abaixo, Irineu Marinho e Dona Chica, em 1921.

Jornal da ABI – Irineu soube observar as transformações da sociedade da época e fez as adaptações no jornalismo ou, ao contrário, as novas práticas jornalísticas apresentadas por A Noite é que impulsionaram a mudança de hábitos e a modernização da sociedade carioca?

Maria Alice – As duas afirmações são verdadeiras – as mudanças nos hábitos da sociedade e no jornalismo foram concomitantes. Jornal da ABI – A decisão de Irineu de popularizar o público-alvo, diversificando a pauta dos jornais, foi uma ação empresarial calculada, consciente, uma estratégia de mercado, visando ao aumento da circulação?

Maria Alice – Para quem não contava com subsídios governamentais, a venda massiva era uma necessidade incontornável. Mas é claro que as iniciativas do empresário eram respaldadas por informações que recolhia de jornais estrangeiros, por exemplo. Digamos, portanto, que houve grande inventividade, mas também um lastro de experiências bem suce-

Maria Alice – O jornal A Noite foi um sucesso do ponto de vista da venda avulsa. Suas tiragens crescentes ilustram essa afirmação. Do ponto de vista dos anunciantes, o crescimento foi progressivo e somente “estourou” nos primeiros anos da década de 1920. Irineu Marinho se encontrava na Europa, mas sabia que aquela corrida de anunciantes às páginas de A Noite era uma consequência do fato de o jornal Correio da Manhã, também de oposição, se encontrar suspenso por ordem de Artur Bernardes. Jornal da ABI – Irineu, podemos observar em seu livro, tinha múltiplos talentos e mostrava-se um empreendedor criativo e à frente de seu tempo. Mas havia uma função, sobretudo dentro das Redações, pela qual ele tivesse especial apreço ou na qual demonstrasse maior habilidade?

Maria Alice – Irineu Marinho sempre se disse um repórter. E creio que a valorização que emprestava a tal personagem foi, inicialmente, a forma que encontrou de se inscrever em um jornalismo ainda dominado por intelectuais renomados. Com o tempo, porém, à medida que se afirmavam os formatos que distinguiram os jornais do século 20, os repórteres passaram a ser tidos como os “autênticos” profissionais da imprensa. Essa ideologia profissional, correspondente à institucionalização do jornalismo, ajuda a compreender a importância que Irineu Marinho e seus contemporâneos atribuíram ao aparecimento do repórter.

MEMÓRIA GLOBO

Maria Alice – Até as duas últimas décadas do século 19, os jornais não eram pensados como um negócio. E a maioria deles adentrou o século 20 ainda recebendo subsídios do governo. A Noite, ao contrário, nasceu independente. Quanto à forma, os antigos jornais mantinham longos “artigos de fundo”, eram graficamente áridos e contavam com a colaboração de literatos, bacharéis, homens de letras, em geral. A Noite acompanhou o movimento da imprensa européia e norte-americana, investindo em artigos menores, em reportagens, inclusive fotográficas, em charges e caricaturas. Ou seja, acreditou nas mudanças sociais e demográficas que ocorriam nos centros urbanos e concebeu um jornal feito para o trabalhador.

Jornal da ABI – Acredita que, em algum momento, Irineu vislumbrava ou já trabalhava para que de seus jornais fosse gerado um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo – as Organizações Globo?

Maria Alice – Nem de longe, creio, Irineu Marinho poderia sonhar com coisa parecida. Os tempos eram muito difíceis e, se ele foi um empresário bem sucedido, do ponto de vista político suas atribulações foram muitas. Jornal da ABI – Quais aspectos da conduta política de Irineu Marinho o levaram à prisão e ao autoexílio? Como esses episódios foram enfrentados por ele?

Maria Alice – Irineu Marinho foi antioligárquico em um Brasil dominado por oligarquias. Foi perseguido por Hermes da Fonseca, preso por Epitácio Pessoa e deixou o país durante o governo de Artur Bernardes. Irineu defendia um projeto de


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AGÊNCIA O GLOBO

Acima, Irineu Marinho recebe o abraço de um dos amigos que foi se despedir quando ele embarcou para a Europa com sua família, em 1924. No canto esquerdo está sua mulher, d. Chica. Antônio Leal da Costa (de terno claro) e Herbert Moses (antes de ser eleito Presidente da ABI) estão à direita. Abaixo, Irineu e a primeira equipe de seu novo jornal, O Globo, em 1925.

Irineu Marinho era secretário na Gazeta de Notícias em 1908, quando mereceu esse destaque na revista Fon-Fon! numa foto em “sua meza de trabalho”. Muito querido, o seu repentino passamento foi noticiado por várias publicações, como a revista Illustração Moderna (abaixo). MEMÓRIA GLOBO

MEMÓRIA GLOBO

nação capaz de incorporar os estratos médios urbanos, por isso foi identificado com o movimento civilista e, anos mais tarde, com o tenentismo. Jornal da ABI –A prática de lançar campanhas públicas era muito comum nos jornais do início do século passado. Que impacto essas ações tinham sobre a sociedade carioca naquelas décadas? Faltam mais ações deste tipo às publicações atuais?

Maria Alice – As campanhas daquela época consistiam em uma forma de mobilização da opinião pública que contava, amplamente, com recursos dramatúrgicos. Contemporaneamente, o que vigora nos jornais é a ideologia da objetividade, cuja história se liga à afirmação do The New York Times, nos primeiros anos do século 20. Desde então, as campanhas de forte apelo emocional têm sido evitadas ou criticadas como sensacionalistas no meio jornalístico. Jornal da ABI – Mais que um sucessor, O Globo surgiu, em 1925, como uma versão aprimorada de A Noite? Do ponto de vista empresarial o que havia de comum ou diferente entre Irineu e Roberto que, com a morte prematura de Irineu, seu viu obrigado a assumir O Globo tão jovem?

Maria Alice – O jornal O Globo nasceu como uma resposta de Irineu Marinho e seus aliados àqueles que o destituíram do controle do jornal A Noite. Foi um trabalho árduo e heróico de construção de uma nova folha em tão poucos meses. Roberto Marinho era um jovem de 19 anos quando seu pai morreu, e não possuía um “estilo” gerencial ou administrativo que o aproximasse ou distinguisse de Irineu. Creio que a pergunta a ser feita é “que Brasil cunhou o Roberto Marinho empresário?”. Jornal da ABI – Em que ambiente nacional surgiu e ganhou corpo o então jovem empresário Roberto Marinho?

Maria Alice – O Brasil à época de Irineu Marinho favoreceu o surgimento de A Noite, isto é, propiciou que um grupo de jornalistas pobres, apoiados por pequenos capitalistas, se organizasse em torno do projeto de fundação de um jornal. Em quatorze anos (1911-1925), com muito trabalho e iniciativas financeiras bem sucedidas, o negócio prosperou e tornou ricos seus acionistas. Essas circunstâncias foram alteradas ao longo da década de 1920, inclusive no plano internacional – do que a crise de 1929 foi o mais contundente evento. O mundo saiu daquela crise

com Estados-nacionais mais fortalecidos e concentradores do poder. Tal fato não apenas dificultou a emergência e ascensão de pequenos empresários, como tornou a política o motor da modernização econômica. Havia terminado o tempo dos antigos "heróis" capitalistas, empresários brasileiros com perfil "norte-americano", isto é, do tipo self made man. O Brasil, com Getúlio Vargas à frente, terá como centro da sua organização econômico-social o Estado. Nesse contexto, Roberto Marinho já não poderia repetir o caminho trilhado por seu pai. Jornal da ABI – A escolha do nome O Globo se deu por consulta popular. Essa também era uma estratégia inovadora, ao trazer

o leitor ‘para dentro’ do jornal? Como a população respondeu a esse chamado?

Maria Alice – De fato, os jornalistas de A Noite tinham alguma experiência com enquetes e conceberam uma consulta popular acerca do nome a ser dado ao novo jornal. O nome vitorioso foi Correio da Noite, mas como não estava disponível, se optou por O Globo, segundo colocado no concurso. Além disso, foram publicados e distribuídos dois boletins que precederam o primeiro número do jornal, além de terem sido transmitidos concertos de música popular pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e pela Rádio-Clube. Por isso, quando O Globo começou a circular, na tarde de 29 de julho de 1925, a população da capital da república já o aguardava com ansiedade.

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IMPRENSA

A editora que não queria ser grande A Globo, que nasceu como RGE, inventou o gibi e chega aos 60 anos ainda forte, depois de quase fechar as portas em 2002. P OR G ONÇALO J UNIOR

Nenhuma editora brasileira de revistas tem uma história tão singular quanto a Globo, de São Paulo. Primeiro, porque existiu por quinze anos sem ser exatamente uma editora, mas um braço de publicações do jornal carioca O Globo, sob o comando do jornalista e empresário Roberto Marinho (1904-2003). Foi assim, de 1937 a 1952. Segundo, por ter se tornado, ainda na década de 1940, a primeira grande publicadora de títulos do País, com quase duas dezenas. Terceiro, nasceu no Rio de Janeiro, como Rio Gráfica e Editora (RGE) e ficou assim até 1986, ano em que as Organizações Globo adquiriram a gaúcha Editora Globo, quando adotou esse nome. Por fim, mudou sua sede para a capital paulista em 1989, de onde não mais saiu. Desde então, deixou de ser essencialmente uma casa de revistas em quadrinhos para ocupar um espaço respeitável no mercado como lançadora de livros, assumindo o segundo lugar no segmento de magazines, atrás somente da Editora Abril. Chegar onde está hoje, porém, foi uma epopéia pouco conhecida que inclui até sua quase falência em 2002. Uma fascinante história que começou, de fato, nas primeiras semanas de 1934. Na ocasião, Roberto Marinho foi procurado pelo seu ex-repórter Adolfo Aizen (1907-1991) para uma conversa que se tornaria histórica. Os dois eram muito amigos, mas ele não se interessou quando Aizen lhe propôs lançarem juntos uma série de suplementos diários temáticos – feminino, infantil, policial e esportivo – como encarte de seu jornal. O jornalista russo naturalizado brasileiro havia descoberto os suplementos durante uma viagem aos Estados Unidos no segundo semestre do ano anterior. Os cadernos diários e dominicais, argumentou ele, eram uma poderosa ferramenta que os jornais ofereciam para atrair novos leitores. Entre eles havia os que publicavam as modernas histórias em quadrinhos de aventuras, que começavam a se transformar num fenômeno de massa naquela década entre os americanos. Queria fazer o mesmo no Brasil. Marinho achou a idéia interessante, porém economicamente arriscada e não topou. Aos 29 anos, o diretor de O Globo não fazia muito tempo tinha assumido a direção do jornal, fundado por seu pai, Irineu Marinho (1876-1925), oito anos antes. Irineu havia começado como em42

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presário da imprensa em 18 de julho de 1911, ao criar com um grupo de doze amigos o vespertino A Noite. O diário cresceu, tornou-se influente, um dos mais importantes da capital do País. Até que, em 1924, ele sofreu um golpe que só pioraria sua saúde já frágil, abalada por problemas cardíacos. Durante uma viagem à Europa com a família – para passeio e se consultar com alguns médicos, foi excluído do comando do jornal por quem acreditava ser um grande amigo, o sócio Geraldo Ro-

cha (1881-1959), que se tornou o único proprietário. Irineu, então, fundou no ano seguinte o jornal O Globo. O dinheiro era tão curto que Irineu comprou móveis usados e uma rotativa quase sucateada, que pertencera ao Exército britânico. Com o lema “independente, dinâmico, avançado tecnicamente e voltado às causas populares”, o diário estreou em 29 de julho de 1925. Vinte e três dias depois, no entanto, Irineu morreu fulminado por uma parada cardíaca com apenas 49 anos de idade. A tragédia familiar mudou a vida do filho mais velho para sempre. Roberto, então um bom vivant apaixonado por esportes de risco – boxe, corridas de carro, mergulho, equitação e remo –, anunciou para a mãe e os irmãos que, a partir daquele dia, assumiria todas as responsabilidades do pai quanto a seu sustento. Trabalharia com afinco no jornal. Pararia de correr e beber para sempre. No primeiro momento, a viúva Francisca e os funcionários da direção de O Globo insistiram para que ele, então com 21 anos, assumisse o jornal. O jovem não aceitou de imediato o posto, ar-

DIVULGAÇÃO

A sede da Rio Gráfica e Editora (segundo prédio da esquerda para direita) estava localizado numa região tranquila em 1952: Rua Itapiru, 1209, bairro do Rio Comprido, no Rio de Janeiro.

gumentou que não estava pronto para tamanha responsabilidade. E indicou para a função Eurycles Matos, homem de confiança de seu pai e secretário do jornal. Numa entrevista em 1989, aos 85 anos, Roberto lembrou que havia feito o dever de casa: começou como repórter, acumulou o posto de redator e outras funções, de modo a se preparar para ocupar a direção. Eurycles praticamente fez nascer um jornal sem nenhuma estrutura e dinheiro. Ele faleceu em 30 de maio de 1931. Com quase seis anos de experiência, Roberto assumiu a direção. Até que veio a proposta de Aizen. Sem a aposta de Marinho, o jornalista levou o projeto para A Nação, jornal político do Coronel João Alberto Lins de Barros, fundado para apoiar o Governo de Getúlio Vargas. Os suplementos diários deram certo, mas o de histórias em quadrinhos provocou uma situação inusitada: no dia em que saía, a tiragem pulava de 20 mil para 70 mil. Mesmo assim, João Alberto não gostou das piadas que ouvia de que seu diário deveria se chamar “A Nação Infantil”. Por isso, ajudou Aizen a montar sua editora e a publicar o tablóide em separado, desvinculado do jornal. O jornal mudou de nome para Suplemento Juvenil e passou a circular três vezes por semana, terças, quintas e sábados, quase exclusivamente com histórias em quadrinhos e aventuras de heróis como Tarzan, Flash Gordon, Brucutu e outros. Três anos depois, arrependido, Marinho propôs sociedade a Aizen. Com a recusa deste, lançou em 12 de junho de 1937 o suplemento de quadrinhos O Globo Juvenil, gênese do que seria depois sua bemsucedida editora de revistas – e uma fonte de renda importante para que pudesse fundar, em abril de 1965, a Rede Globo de Televisão. Numa época em que o marketing ainda engatinhava no Brasil, Marinho recorreu a uma prática comum nos jornais da época: a distribuição de prêmios para estimular as vendas. Foi bem mais que isso, tamanho o impacto que a promoção alcançou em todo o estado – inicialmente, a distribuição de O Globo Juvenil se limitou ao Rio. A partir de abril, durante semanas, O Globo estimulou os pais a darem a seus filhos O Globo Juvenil,


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Cartazes de banca promoviam a revista Radiolândia que acabara de ser lançada. Ela se tornou um enorme sucesso e atraiu para a RGE nomes famosos da Rádio Nacional, como Cauby Peixoto (foto abaixo, sentado ao centro de terno escuro), convidado para um almoço no restaurante da editora em1957, e Emilinha Borba, que posou junto aos funcionários da gráfica em 1955 (foto ao lado). A revista Querida promovia o concurso “Garota Querida” e sua Redação era visitada por algumas concorrentes (abaixo, à direita).

em troca da chance de levar 150 contos de réis em prêmios – uma fortuna difícil de dimensionar em 2012, algo perto de 150 mil reais. “Maravilhosos prêmios para os garotos do Brasil!”, anunciava o jornal. Outra chamada dizia: “Papai Noel está atrasado, O Globo Juvenil chegou primeiro com 500 maravilhosos prêmios”. Entre os destaques, nada menos que quatro miniautomóveis e três minimotocicletas movidos a motor e gasolina – réplicas perfeitas em miniatura e inéditas no País, importadas dos Estados Unidos, numa época em que ter um carro era um sonho quase impossível para a maioria dos brasileiros. A chegada do Gibi

Por quase dois anos O Globo Juvenil seguiu com boas vendas. Mas Marinho queria mais. Em 21 de abril de 1939, uma quarta-feira, O Globo lançou com grande estardalhaço sua primeira publicação no formato de revista em quadrinhos: Gibi. Com 32 páginas, a revistinha só foi possível porque seu fundador convenceu o distribuidor brasileiro de quadrinhos Arrochelas Galvão a transferir os heróis do Suplemento Juvenil para seu jornal. Os personagens foram divididos entre as

duas publicações a partir de julho. Gibi estreou com mais alarde que o título anterior, com o detetive oriental Charlie Chan – sucesso também nos cinemas – na capa, inédito no Brasil. “Desvenda-se o mistério da letra G! Com a letra G começa Gibi, que é o nome de uma formidável revista juvenil”, dizia um anúncio de O Globo. No sábado, 11 de março, O Globo Juvenil trazia uma chamada no alto da capa. “Quando Gibi aparecer, vocês sentirão um prazer maior de viver!” A partir de agosto de 1939, com vendas superiores a 100 mil exemplares por edição, Gibi se tornou trissemanal. Ou seja, circulava às quartas, sextas e domingos. Por incrível que pareça, a garotada se amontoava nas bancas quase todos os dias para comprar suas revistas preferidas, já que O Globo Juvenil e O Suplemento Juvenil também saíam três vezes por semana. Ao perceber que as crianças se mostravam afoitas por aquelas revistas, o maior empresário da imprensa do País, Assis Chateaubriand (1882-1968) lançou em maio de 1940 a primeira publicação em quadrinhos totalmente em cores, O Guri. Assim, o mercado crescia e só não ia bem para Aizen, cuja empresa de produção de suplementos

para jornais faliu em 1942. Ele, então, vendeu suas revistas para a empresa A Noite, do Governo. Em 1945, fundaria a Editora Brasil-América (Ebal), mas só voltaria a fazer gibis dois anos depois. Marinho reinou absoluto como mais importante editor de gibis do Brasil naquela década. Em 1949, fez a primeira

grande reformulação em seus títulos. Como os tablóides não mais despertavam o interesse das crianças, resolveu cancelar O Globo Juvenil, que teve seu último número, o 1.986, lançado em 2 de março. No dia seguinte, foi a vez de Gibi trissemanal se despedir do público, com a edição número 1.739. Seus lugares foram ocupados pelo Novo Globo Juvenil, que saiu em 10 de março, e o Novo Gibi, que estreou em 1º de junho e circularia até 1963. Os tempos mudavam e o editor foi convencido pelo distribuidor Alfredo Machado a seguir uma tendência que fazia muito sucesso nos Estados Unidos: lançar revistas que tivessem o nome de um herói famoso no título. Assim nasceu Shazam!. Um ano antes, em maio de 1948, começou a circular um dos seus mais queridos gibis: Biriba. E os anos 1950 surgiam com uma única certeza para Marinho: criar uma editora de revistas e ampliar seu negócio para outras faixas de público e gêneros. Era 1952, quando ele iniciou uma nova história em sua trajetória editorial: a fundação da Rio Gráfica e Editora, a RGE. A empresa nasceu depois da construção de um moderno conjunto de quatro prédios no número 1.209 da Rua Itapiru, no bairro do Rio Comprido. Ali, além dos títulos antigos – que incluía as policiais X9 e Meia-Noite – e mais duas dezenas de novas revistas em quadrinhos, ele expandiu suas publicações para outros segmentos, nas linhas de música (Radiolândia), cinema (Cinelândia), notícias (Aconteceu) e voltadas principalmente para o público feminino (Cinderela, Contos de Amor, Querida etc.). Entre os quadrinhos, apostou em personagens que davam seus nomes aos gibis, como O Fantasma, Flecha Ligeira, Mandrake, Búfalo Bill, Cavaleiro Negro, Príncipe Valente, Flash Gordon etc., todos voltados para adolescentes e adultos do sexo masculino. Só na década seguinte surgiram revistas para crianças, como Bolota, Riquinho, Brotoeja e muitas outras que fariam sucesso até o começo da década de 1980. A trajetória da RGE no decorrer desses anos e nos de 1980, desse modo, mantinha a coerência dos vinte anos anteriores: de ser uma editora voltada para grandes levas de leitores – com quadrinhos e fotonovelas, principalmente. Assim como a concor-

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IMPRENSA A EDITORA QUE NÃO QUERIA SER GRANDE

rente Abril, que vendia revistas principalmente da linha Disney, a editora manteve a aposta no segmento. Quatro filões, em especial, mostraram sua força a partir de 1977. Primeiro, a produção nacional de histórias do Sítio do Picapau Amarelo, para aproveitar o sucesso do seriado televisivo que a Rede Globo colocou no ar naquele ano. Depois, a aquisição, em 1979, dos direitos dos principais superheróis da Marvel Comics, como HomemAranha, Hulk, X-Men e Quarteto Fantástico, entre outros. Terceiro, a enxurrada de gibis com personagens da tv da dupla de animadores Hanna-Barbera – ScoobyDoo, Flintstones e muitos outros. Se não bastasse, a editora lançou também uma das mais importantes revistas de hq de terror em todos os tempos, Kripta, que publicava o elogiado material das revistas norte-americanas Eerie e Creepy, e rendeu uma série de títulos similares. Em segundo plano

Revistas em quadrinhos, sim. E muitas. Como mandava a tradição da editora de Roberto Marinho, que editava hqs havia 40 anos. É inegável que desde a fundação da Rede Globo a empresa havia estagnado, fora relegada a segundo plano, sem a importância que tivera no passado. Crescer deixou de ser prioridade. Mas não devia ser mais só isso, concluiu-se. Desde a segunda metade da década de 1970, passou a fazer um número maior de experiências com títulos fora do segmento de quadrinhos para acompanhar a evolução do mercado brasileiro de revistas. Em 1971, por exemplo, lançou Mercado – Análise e Perspectiva, revista mensal pioneira em economia e negócios no País, que teve duração respeitável pelo pouco interesse sobre o tema. Em 1978, a editora lançou a primeira de muitas séries do Jornal do Telecurso 2º Grau, espécie de apostilas vendidas em bancas para que os estudantes pudessem acompanhar o programa exibido no começo da manhã pela Globo, que se tornou um marco na educação à distância no Brasil. Ao mesmo tempo, a área de esportes virou outra aposta na segunda metade da década de 1970. Em janeiro de 1976, por exemplo, lançou Fórmula 1 – A revista oficial do GP Brasil, para ser vendida aos torcedores brasileiros que foram ao autódromo de Interlagos. O futebol teve atenção de duas formas: com duas biografias antológicas em forma de revista dos 44

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craques Zico e Roberto Dinamite; e com os quadrinhos de Dico, o Artilheiro, do desenhista argentino José Luís Salinas. Com periodicidade bimestral, a revista misturava futebol com histórias policiais. Um fenômeno ocorrido nos anos de 1980 em que a RGE criou produtos para atender à demanda foi a explosão das bandas do rock nacional. Entre 1980 e 1982, a editora dava sinais de que abriria mais espaço para a música, quando lançou a coleção Rock Espetacular Especial, em três volumes, em homenagem a Rita Lee, John Lennon e à novela Baila Comigo; e a série Hit Parade, com oito números, que trazia em cada edição um disco grátis de dez polegadas e oito músicas. Outra iniciativa ambiciosa foi a coleção Rock – A música do século XX, de 1983, com 17 fascículos, divididos em dois volumes de capa dura. Alvo: o público feminino

Em outubro de 1982, estreou Criativa, que se tornaria a primeira grande revista feminina da casa e ponto de partida para tudo o que aconteceria nos quinze anos seguintes. Seu conceito era misturar vários títulos publicados ao longo de décadas com um toque de modernidade. Na prática, criou-se uma revista com sugestões de decoração, artesanato e moda, mas na linha do “faça você mesmo”, com dicas de como fazer bem feito. A partir de março de 1984, a RGE deu outro passo importante para mostrar sua intenção de brigar pela preferência das mulheres, com o lançamento de Moda Brasil, um magazine com respeitáveis 282 páginas, considerado pelo mundo da moda a revista mais fashion dos anos 1980. Foi a primeira publicação nacional a produzir editoriais de moda de padrão internacional, que consagraram fotógrafos como J.R. Duran, Bob Wolferson, Gui Paganini e Luís Garrido, entre outros. Um ano depois de Moda Brasil estrear nas bancas, a RGE lançou Moda Moldes, em julho de 1986. A idéia era simples: ensinar a fazer roupa em casa. A editora também foi, ano a ano, apostando em fascículos para todo tipo de público – classe social, idade, sexo etc. Seus lançamentos sobre os mais variados temas, que iam de amenidades para fãs de tv como Melhores Momentos – A Telenovela Brasileira (1980). E uma série de guias de orientação para criação de filhos: Ser Criança (1981), Filhos – Dos 5 aos 10 anos (1981), Enquanto o Pediatra Não Vem (1981), Nossos Filhos (1984) e Gravidez e Parto – Guia Prático para Futuras Mães (1984). Mas a tradição dos quadrinhos continuava a ditar o caminho. Em setembro de 1983, a

RGE adquiriu os direitos de continuar a publicar os quadrinhos de faroeste Tex, produção italiana que era um fenômeno editorial naquele momento, com dois títulos quinzenais no Brasil. Um acontecimento havia apontado outro caminho para a editora que buscava diversificar seu catálogo de revistas, além dos fascículos: os elevados índices de audiência do programa matinal de domingo Globo Rural, da Rede Globo, no ar desde 1979. O sucesso estimulou a RGE a lançar, em setembro de 1985, uma revista com o mesmo título. O programa havia sido criado pelo jornalista Humberto Pereira. Era algo tão novo e diferente na grade da emissora. Ela havia feito uma pesquisa e descobriu que na área rural existiam quatro milhões de televisores, muitos já com antenas parabólicas – e nenhuma programação específica para esse público de alto poder aquisitivo. Além disso, o Governo João Figueiredo (19791985) incentivava a agricultura com o slogan “Plante que o João garante!”, o que parecia oportuno para uma atração televisiva atrair anunciantes.

Enfim, a nova Globo

Com Globo Rural, a RGE percebeu que podia ir mais longe. E nesse momento, apareceu a figura de Roberto Marinho para apontar uma direção. Quando o fundador da RGE se sentou à mesa com o editor Cláudio Bertaso, em 27 de agosto de 1986, para assinar o contrato pelo qual sua empresa adquiriria o controle acionário da Editora Globo, de Porto Alegre, ele sabia muito bem a importância histórica daquele momento para o mercado editorial nacional, para a memória do livro no Brasil e para si mesmo. Marinho fechava um ciclo de sua bem-sucedida vida empresarial: todas as suas empresas finalmente se unificariam sob a marca Globo. Como negócio, a aquisição da deficitária gaúcha agregaria um valor difícil de dimensionar, pela sua importância, ao catálogo da sua editora, que teria, a partir daquele momento, um importante braço no segmento de livros, como obras tradicionais e autores do peso de Érico Veríssimo, Jorge Luís Borges, Mário Quintana, Honoré de Balzac e muitos outros. Mas era preciso seguir em frente com seus planos de expansão e reestruturação. No final de 1986, a RGE contratou Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, que estava na Abril havia 16 anos. Seus gibis, em meados da década seguinte, corresponderiam a 50% das vendas da editora. Em novembro de 1988, a editora adquiriu o título Pequenas Empresas Grandes Negócios, uma surpresa no mercado de revistas, por ter vindo de uma pequena editora, a Prossucesso. A partir do número 5, de dezembro, ganhou o selo da Globo. Dirigida ao mundo das pequenas e microempresas, com tiragem de 99 mil exemplares, atendia a leitores interessados em montar seu próprio negócio ou em conhecer novas técnicas gerenciais. E havia mais por vir. Embora Criativa e Moda Moldes vendessem bem, faltava à Globo uma grande revista feminina como parte de sua estratégia de se consolidar como a segunda maior editora brasileira de revistas. Flávio de Barros, diretor na época, ressaltou que desde a década anterior, a Globo investiu muito em revistas que estimulavam as mulheres a inventar moda, ou seja, fazer suas próprias roupas. Foi um segmento importante, vendia bem até aquele momento. “A gente tinha dois títulos nessa área: Faça Fácil e Moda Moldes. No começo, Criativa seguia essa linha também – que a gente transformou em uma revista feminina mais clássica. Elas vendiam bem, mas era um mercado que não tinha publicidade. Criamos essa linha mais clássica do estilo Marie Claire, de outro público, de uma mulher mais independente, autônoma, com outros interesses.”


e editorial: Única – Eu Sou. O título podia ser lido também como Eu Sou Única. Além do formato maior do que o das outras publicações para mulheres que havia no mercado, o título trazia temas polêmicos semelhantes à Marie Claire, com entrevistas em que personalidades fugiam das futilidades do dia. A revista estreou em janeiro, mas durou somente até julho, depois de sete números. A Globo apostou alto também na semanal Quem Acontece, que começou a circular em 15 de setembro de 2000 e chegaria a 2013 como uma das principais publicações da editora. Antes, porém, a publicação passou por momentos de turbulência que chegaram a comprometer, em parte, a continuidade da editora. Em apenas dois anos, por exemplo, a publicação teria três Diretores de Redação, sem êxito em ocupar o espaço esperado no curto prazo.

Para ele, a nova revista agregou valor à competitividade da Globo. Como a Abril tinha Elle, que contava com boa publicidade, a Editora Globo concorrente precisava de uma feminina forte. O lançamento da revista Marie Claire, em abril de 1991, teve ampla cobertura da imprensa por causa de sua importância internacional. Além das costumeiras dicas sobre moda e beleza, a editora prometia no editorial atenção a um segmento pouco explorado no gênero: reportagens sobre assuntos nem sempre digeríveis, como guerras ou as mulheres que viviam em presídios. O título chegou às bancas com tiragem de 180 mil exemplares – outros 20 mil foram distribuídos gratuitamente a anunciantes e formadores de opinião. “Pretendemos que 80% da revista seja feita aqui”, disse o diretorgeral da editora, Ricardo Fischer. “Nosso público alvo é principalmente a mulher de 20 a 39 anos, das classes A e B”, adiantou Barros. O lançamento demandou investimento de US$ 2 milhões – metade do valor foi destinado à campanha publicitária, que tomara conta dos principais veículos de comunicação a partir do início do ano.

À beira do precipício

Um lançamento árduo

Outro marco no crescimento da editora foi o lançamento de Época. Fazer uma revista semanal foi a mais árdua e demorada gestação de um produto da história da RGE/Globo, além de sua empreitada mais ousada e ambiciosa. Funcionou como um passo importante na sua reestruturação, iniciada quase dez anos antes, para que se tornasse definitivamente uma editora de grande porte, com revistas de prestígio do público e dos anunciantes e influência no mercado editorial brasileiro. Não havia em sua trajetória o precedente de uma publicação de notícias que deveria estar nas bancas todos os sábados. Assim, foram necessários quatro meses de experiências intensas, correrias, tentativas, ajustes e nove números “zero” de Época – com circulação restrita à própria Redação, ao comando da editora e aos anunciantes – para que a primeira edição da revista chegasse às bancas de todo o País na sexta-feira, dia 21 de maio de 1998 – oficialmente a edição trazia a data de 25 de maio na capa, que correspondia a quarta-feira, uma praxe como prazo limite para que seus exemplares estivessem na maioria das capitais brasileiras. O que os leitores não imaginavam é que o projeto para colocar a revista em circulação durou quase uma década. Em 1989, quando a empresa passou por seu maior reposicionamento no mercado, já havia a idéia de lançar uma publicação nesse formato e periodicidade, com informação factual. Em janeiro de 1998, quando seu lançamento estava decidido, a Globo estava consolidada como a segunda maior editora do País, com faturamento de US$ 240 milhões e 72 milhões de exemplares vendidos em 1997. Com Época, a previsão era aumentar o faturamento no primeiro ano de circulação em 19% e, assim, ampliar sua participação no mercado editorial brasileiro. No final de 1996, o cenário já se mostrava propício para o lançamento da revista, que deman-

dou investimentos de US$ 40 milhões somente para ser concebida. “Achamos que já era hora de pensar grande”, lembrou Flávio Barros. O êxito de Época dependeu de alguns ajustes nos anos seguintes. Isso não impediu que a crise financeira da editora se agravasse como nunca se vira a partir de 2000. A casa sempre teve para o resto do grupo uma imagem sem o Padrão Globo de Qualidade que tinham o diário e a tv, com marcas não tão fortes, e o retorno não condizente com os seguidos investimentos que foram feitos. No final da década, os acionistas tinham decidido fazer um aporte grande, para a compra da Editora Efecê, a criação da Época e de outras revistas. “A idéia era tornar a Globo finalmente uma editora forte, líder de mercado. Mas os investimentos no começo da nova década ficaram muito aquém do esperado. Frustrantes, na verdade. Eu tinha essa imagem de fora, sem ser um leitor de suas publicações”, explicou depois Frederic Kachar, que dirigiria a editora na década seguinte. Ele se referia a dois lançamentos, em especial. Primeiro, em 2001, a Globo lançou uma nova revista feminina que prometia ter longa vida, pelo ousado projeto gráfico

Os meses passaram e a revista não decolou. Nesse momento, a editora estava à beira do precipício. Os acionistas tinham decidido não mais colocar dinheiro na empresa, que estava no vermelho havia anos. Ou se tornava auto-sustentável ou fechava as portas. Juan Ocerin e Frederic Kachar chegaram em maio daquele ano e não viram outra alternativa se não fazer de imediato um corte drástico no quadro de funcionários, que caiu de 720 para 580. “É duro quando se demite as pessoas por critérios que não passam por sua competência e, infelizmente, fomos obrigados a fazer isso”, observou Frederic. No mesmo mês, o aporte feito pelos acionistas foi suficiente apenas para pagar as rescisões. “As contas não fechavam no fim do mês, não batiam.” Quando chegaram, encontraram um relatório feito pouco tempo antes por uma consultoria que havia recomendado fechar quatro dos onze títulos que a editora tinha fora do segmento de quadrinhos: Quem Acontece, Criativa, Casa & Jardim e Autoesporte. “Ao examinar as conclusões, percebi que algumas coisas ali não batiam, havia uma matemática fria, a partir dos custos para fechá-las e a economia que se faria em não ter mais as revistas.” Em outubro do mesmo ano foi anunciada a reestruturação, que dependeria muito dos funcionários. “Fizemos uma reestruturação profunda. Diminuímos o tamanho da empresa, das equipes, passamos por uma fase de superação difícil. Sou otimista por natureza, mas a gente tinha encontrado uma turma cansada e descrente no futuro.” Esse foi um dos obstáculos imediatos a serem superados. “Eu era diretor de finanças e recursos humanos e sempre ficou claro para mim que um ativo em qualquer empresa são as pessoas. E foi um enorme desafio criar o mínimo de engajamento no cenário que se impôs. Foi um teste que não vou esquecer nunca e saí mais motivado, embora fosse um momento horrível para a editora e para todos nós.” Com isso, o caminho a seguir era tentar não cancelar nenhuma revista. Quem Acontece foi o caso complicado. Frederic contou que a revista nasceu da premissa de que a editora fazia parte de um grupo de empresas que incluía a Hollywood brasileira – isto é, a central de produção de telenovelas, o

Projac – e que não tinha uma revista nesse perfil, com mercado anunciante forte. “Em nenhum momento foi falado que teríamos vantagens na cobertura das novelas porque a imparcialidade era um valor dos nossos acionistas. Havia essa falácia de termos a revista, mas foi falsa a premissa de que seria feita com privilégios. Assim, Quem demorou mais para acertar porque não tinha qualidade fotográfica e editorial em relação aos concorrentes, era uma revista sem consistência, com um formato esdrúxulo e uma relação péssima com o Projac.” Tanto pela falta de habilidade no relacionamento quanto de interesse das pessoas em aparecerem nela, por se tratar de uma revista sem encanto. “Pensamos numa fórmula editorial de qualidade, porém diferente.” Identificou-se quais os pontos fracos da concorrência. Concluiu-se que não tinham jornalismo, tudo era muito artificial, com fotos posadas. “Decidimos trazer o lado humano e não só celebridades tomando champanha na banheira.” No primeiro ano da recuperação da Globo, todas essas medidas fizeram que a editora ao menos se equilibrasse financeiramente. “Conseguimos um operação auto-sustentável sem olhar para a dívida – que seria diluída numa grande reestruturação de todo o complexo Globo, alguns anos depois. Em 2003, tivemos uma bela recuperação, já respirando. Foi um ano muito bom”, recordou Frederic. Com isso, a direção se voltou para compensar quem havia se sacrificado para ajudar a editora se recuperar. “Nos anos seguintes, demos mais que os dissídios para recompor o que não pudemos oferecer no passado” Os anos de 2004 e 2005 foram períodos de estabilização, com uma empresa mais sólida, menos vulnerável e com capacidade de crescimento. “De 2002 a 2007 passamos pela estabilização, consolidação e evolução qualitativa dos produtos, de ter uma equipe montada.” Entre 2007 e 2012, segundo Frederic, a Globo viveu a fase de atrair mais talentos, lançar títulos para ocupar espaços com anunciantes e que trouxessem prestígio também, além de investir pesado em versões digitais de seus títulos. “Nesses cinco anos, a gente avançou na qualidade dos produtos, no orgulho de se trabalhar na empresa, nunca se ganhou tantos prêmios como nesse período.” Outro passo importante aconteceu em junho de 2010, quando a editora assinou uma parceria com o grupo multinacional britânico Condé Nast. “Partimos para a concretização de uma parceria com uma editora com perfil do Padrão Globo de Qualidade, com marcas fortes em prestígio e negócios, inspiração para melhorar nossos produtos.” A empresa formada dessa junção ganhou o nome de Edições GloboCondé Nast. De imediato, os títulos ligados à marca Vogue no País passaram para a editora – Vogue Brasil, Casa Vogue, Vogue Noivas e Vogue Passarelas. A Globo ficou com 70% e a norteamericana com os outros 30% do negócio. Curiosamente, assim como a Abril, a história da editora de Marinho começou com quadrinhos. Gonçalo Júnior escreveu com Thiago Blumenthal o livro Um Mundo de Impressões – 60 Anos da Editora Globo, que está sendo lançado pela Editora Globo.

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LIVROS

A mortalidade, por Hitchens

Quadrinhos para o fim do mundo Lançamento da Nemo apresenta nova obra de Enki Bilal, que faz uma crítica ao desequilíbrio ambiental numa história apocalíptica com elementos de faroeste.

Volume póstumo do ensaísta britânico reúne os textos escritos no último ano e meio de vida. ANDREW RUSK

P OR J OSELIA A GUIAR

Christopher Hitchens (1949-2011) escrevia muito, em velocidade espantosa e, a despeito disso, seus textos eram sempre elogiados pela elaboração fina, até por quem não concordava com nada do que dissera – afinal, o jornalista, crítico literário e ensaísta britânico tinha sobretudo a fama de grande polemista. A capacidade de produzir textos de grande qualidade não se interrompeu mesmo ao descobrir que tinha um câncer que logo se revelaria fulminante: é o que o leitor constata ao ler Últimas Palavras, volume póstumo constituído de oito textos breves, um deles incompleto, composto apenas de fragmentos por não ter dado tempo de concluir, que chega às livrarias pela Editora Globo. Foi em 2010, durante a turnê de lançamento de seu livro de memórias, Hitch-22, que ele passou a vomitar violentamente. Teve de buscar atendimento de emergência. Esse dia em que descobriu que havia algo de errado é descrito já na primeira linha: “Mais de uma vez em minha vida acordei com a sensação de estar morto. Mas nada me preparou para o começo da manhã de junho em que recobrei a consciência sentindo-me como que acorrentado a meu próprio cadáver”. Como recorda, seu pai tinha morrido, e muito rapidamente, de câncer no esôfago aos 79 anos. E agora ele, Hitchens, é acometido de algo similar, aos 61: “Se a vida é uma espécie de corrida, eu me tornei finalista de forma bastante abrupta”. Até ali, ele teve uma trajetória de fôlego, e não havia sinal de que poderia arrefecer. Começou na revista inglesa New Statesman, brilhou como colunista símbolo da Vanity Fair a partir de 1992, contribuiu para Atlantic, Harper´s, New York Times Book Review. Escrevendo sobre politica, literatura e sociedade, acabou por publicar mais de 20 livros de ensaios, críticas e reportagem –”não havia tema grande ou pequeno demais para ele”, diz seu editor Graydon Carter no prefácio. Do diagnóstico até sua morte, passouse apenas um ano e meio. O relato que faz desses dias de agonia e tratamento disciplinado – fumante e beberrão, submeteuse com estoicismo às terapias mais dolorosas – é pungente, às vezes surpreendentemente engraçado. A força do que diz não se perde em autocomiseração ou pieguice. Mantendo o prumo na escrita, conta como seu corpo vai dia-a-dia se arquear. “Não é nada bom quando seu cân46

JORNAL DA ABI 386 • JANEIRO DE 2013

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Christopher Hitchens afetado pela doença em 2010: “Se a vida é uma espécie de corrida, eu me tornei finalista de forma bastante abrupta”

cer é ‘palpável’”, “A palavra ‘metástase’ no relatório foi a que primeiro atraiu meu olhar e minha audição”. Hitchens percebe a ironia de um dos grandes clichês de linguagem de nossos dias: “As pessoas não têm câncer: elas são apresentadas como estando em luta contra o câncer ”. Constata então, com sua experiência de terapia em terapia, a distância entre a expressão e o que de fato ocorre: “Permita-me informá-lo de que, ao se sentar numa sala com um grupo de outros finalistas, quando pessoas gentis ligam uma enorme bolsa transparente de veneno ao seu braço, quando você lê ou não lê um livro enquanto o saco de veneno gradualmente se esvazia em seu sistema circulatório, a imagem do soldado ou revolucionário heróico é a última coisa que lhe ocorre. Você se sente atolado em passividade e franqueza: dissolvendo-se em impotência como um cubo de açúcar na água”. Capítulos adentro, discorre, com sua conhecida erudição, sobre morrer cedo, confrontar-se com a religiosidade e a ciência, conviver com médicos de manhã e advogados à tarde, testar procedimentos e preces recomendados pelas fontes mais variadas. A certa altura, propõe a criação de um manual de etiqueta do câncer, para principalmente evitar que bobagens sejam ditas a quem já padece de suficientes incômodos. Há um momento em que a doença quase se torna banal. O martírio é o que volta a lembrar de sua existência. Sobre a mortalidade – o título em inglês: poucos talvez tenham tratado do tema com tanta grandeza quanto esse pequeno livrinho.

A idéia do fim do mundo exerce uma atração irresistível em todos nós. Muito já foi escrito sobre isso, mas o assunto não se esgota: o tema transformouse num dos mais rentáveis filões da ficção científica. A linha que separa a completa tolice da especulação válida é determinada pela preocupação do texto em antecipar as consequências das atitudes que estão sendo tomadas hoje. Nesse aspecto, Animal’z está entre as melhores. Animal’z é uma sofisticada novela gráfica do quadrinhista sérvio Enki Bilal, publicada originalmente em 2009 pela editora belga Casterman e recentemente lançada no Brasil pela Editora Nemo, com tradução de Fernando Scheibe. A leviana interferência humana sobre a natureza causou um severo desequilíbrio ambiental que ficou conhecido como “Golpe de Sangue”, e lançou o planeta numa nova era glacial, aniquilando a civilização como a conhecemos. Os poucos sobreviventes tentam atingir os Eldorados, regiões quase míticas em que se acredita ainda ser possível a vida, mas o caminho para lá é difícil e perigoso. A água potável é rara, os meios de comunicação caíram e não há transporte aéreo e terrestre; as únicas formas de viajar são a pé, no lombo de um animal ou, para os mais afortunados, nos barcos. Campos minados e radioatividade são perigos remanescentes dos tempos antigos, e as ruínas das cidades escondem canibais famintos à caça de carne fresca. Apesar das duras provas que a natureza impõe aos peregrinos, o verdadeiro perigo para o homem é mesmo o outro: os encontros entre os sobreviventes inva-

riavelmente resultam em alguma morte, seja por acidente, por intolerância, ou mesmo por instinto de sobrevivência. A história tem o estilo descosturado que caracteriza as obras de Bilal, com personagens enigmáticos e atormentados que se debatem por uma idéia que sequer sabem ser real. Isso, somado a ausência de uma contextualização sólida, dá à história tons claustrofóbicos estranhamente reforçados pela vastidão gelada do cenário, num diálogo muito próximo ao longa-metragem Quinteto (Quintet), ficção-científica dirigida por Robert Altman em 1979. Os desenhos são um espetáculo à parte, executados com habilidade de um mestre da anatomia, usando apenas lápis pastel sobre papel tonalizado, em cores frias que não variam muito além do cinza azulado, o preto e o branco. A arte é valorizada pelo acabamento gráfico da edição brasileira, que tem 104 páginas em papel couchê fosco de boa gramatura e encadernação costurada em capa dura. A Nemo tem investido na publicação da obra de Enki Bilal, um dos mais importantes ilustradores surgidos nos anos 1970 nas páginas da revista Metal Hurlant. Em 2012, a editora também trouxe aos leitores brasileiros a festejada Trilogia Nikopol, sofisticada obra-prima que já tem inclusive uma adaptação para o cinema, Immortel (ad vitam), dirigida em 2004 pelo próprio Bilal. Apesar das qualidades inegáveis, Animal’z não é uma história em quadrinhos fácil. A narrativa barroca, o texto fragmentado e a violência fria, quase gratuita, pode chocar os leitores que não estão acostumados ao estilo de Bilal, às especulações da ficção-científica moderna ou aos modelos pós-modernos da narrativa literária.


MARCELO CARNAVAL/AGÊNCIA O GLOBO

VIDAS

Lêdo Ivo A vitalidade da poesia P OR J OSELIA A GUIAR

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aceió, com o farol e os navios, e o mar, o vento do mar, os goiamuns e caranguejos que transitam nos mangues, os currais de peixes, os cães sarnentos, o cheiro de açúcar e cebola dos armazéns, as gaivotas, os mendigos e os loucos, as dunas e as tanajuras: com essas imagens assim ditas, o poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012) evocava a terra natal, à qual se sentia “profundamente vinculado”, apesar de ter percorrido tantas outras. Instalado no Rio de Janeiro desde 1943, gostava de viajar e não dispensava compromissos no exterior mesmo em idade avançada, aos 88 anos assombrava pela vitalidade. Foi em Sevilha, na Espanha, acompanhado da família, que morreu de infarto em fins de dezembro. Queria cruzar o Rio Guadalquivir a pé, andando por uma de suas pontes; “coisas de poeta”, disse o filho Gonçalo Ivo, 54, pouco depois de confirmar a notícia. O encantamento com outras terras foi parte do que os livros lhe despertaram. Em suas primeiras leituras, ainda na infância, viveu as aventuras nos mares do Sul, com piratas, tesouros e ilhas desertas, nos relatos de Daniel Defoe, Emilio Salgari e Robert Louis Stevenson. A grande epifania, como costumava contar, se deu, no entanto, depois dessa fase: lendo versos de Arthur Rimbaud, descobriu o mundo de dentro, experimentando “uma estonteante descoberta de mim mesmo, daquilo que jazia dentro de mim à espera da expressão e comunicação”. O poema era Les effarés (O medo, em português). Àquela altura, já podia ler em francês, como aluno de um colégio religioso. Adolescente no Recife, encontraria outros poetas nos livros que tomava da biblioteca pública, logo seria

parte da vida literária. Assim começou ele mesmo a ser poeta. Um rapaz nordestino com pendores intelectuais, migrou nos anos 1940, para o Rio de Janeiro, onde passa a freqüentar a roda literária da Livraria e Editora José Olympio, a mais importante daqueles tempos. Cercado de outros escritores e poetas, manteve no entanto o caminho individual. Ao se recordar da estréia como poeta, dizia que tinha sido a “ovelha-negra” do rebanho. Pois a poesia da época, a da cerebral Geração de 1945, caracterizava-se por versos curtos, exatos e autoreferentes. O que buscava era uma voz autoral que se diferenciasse. Uma poesia que até invadisse o território da prosa. Não acreditava que só no elíptico se podia obter a densidade, também em versos longos se dava a expressão exata: “O meu interesse fundamental era uma expressão poética fundada no verso longo ou respiratório e na impureza do mundo”, afirmaria mais tarde. O uso e cultivo desse tipo de verso, que tinha em Walt Whitman o grande inspirador, fizeram que “a tribo literária”, segundo dizia, “o considerasse um poeta derramado”. Em O Vento do Mar, seu último livro numa obra de dezenas de títulos em diversos gêneros, reúnem-se essas histórias, muitas fotografias, ensaios relevantes e uma seleção de sua poesia. Um tributo à vida longa e movimentada de que parecia pressentir o fim. Bacharel em Direito, nunca exerceu a profissão. Desde a época de estudante, passou a atuar como jornalista em Redações e colaborador de suplementos literários. A produção literária foi profícua, depois de um começo festejado. Estreou em 1944 com As Ima-

ginações, de poesia. No ano seguinte, publicou Ode e Elegia, com que venceu o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. Poeta antes de tudo, também escreveria romances, contos, crônicas, ensaios e infantis. Os incentivos se repetiriam. Seu romance de estréia é de 1947, As Alianças, ganhador de outro prêmio importante, o Graça Aranha. Na estréia como contista, também foi premiado. A Cidade e os Dias, de 1957, recebeu o Prêmio Carlos de Laet, da Academia Brasileira de Letras. A trajetória no exterior começa em 1953, quando se muda para Paris. Era já casado com Maria Lêda Sarmento de Medeiros Ivo (1923-2004), com quem tem três filhos: Patrícia, Maria da Graça e Gonçalo. Viajou por vários países da Europa nesse período e retornou ao Brasil. Uma década depois, vive nos Estados Unidos, a convite do Governo americano, para fazer palestras em universidades, conhecer outros escritores e artistas. Não só viajou muito; sua obra também correu mundo em traduções para diversas línguas. Entre condecorações e prêmios, incluem-se o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o do Pen Clube, o Prêmio Nacional Walmap e o Nestlé. Entre os mais importantes, destacam-se: em 1982, foi distinguido com o Prêmio Mário de Andrade, conferido pela Academia Brasiliense de Letras ao conjunto da obra; em 2004, também pelo conjunto da obra, recebeu o Prêmio Golfinho de Ouro do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Foi eleito “Intelectual do Ano de 1990”, recebendo o Troféu Juca Pato do seu antecessor, o Cardeal Emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Ocupava a Cadeira número 10 da Academia Brasileira de Letras desde 1986, quando substituiu Orígenes Lessa. “Lêdo Ivo era um membro muito assíduo, grande contador de casos. Tinha uma vitalidade espantosa, falava alto, gostava de comer bem”, lembrou Ana Maria Machado, atual Presidente da ABL. “Poeta e ficcionista versátil, de obra variada que abarcava vários gêneros, esmerava-se em contar histórias divertidas. Nos últimos tempos, essa disposição estava sendo comprovada todos os dias, nas sucessivas viagens que se multiplicavam, fossem para participar de festivais internacionais de poesia, fossem para receber homenagens no exterior, sobretudo nos países de língua hispânica”. Para Marcos Villaça, outro acadêmico com quem convivia, Lêdo Ivo é lembrado como pessoa “muito espirituosa”: “Tinha uma acidez cômica. Na última vez em que estivemos juntos, ele me disse, em tom de brincadeira, que na Academia, a gente só premia livro que a gente não leu, porque se fosse ler não premiava.” Villaça ressalta a “disposição impressionante” para viajar, inclusive para lugares de altitude elevada, onde o ar mais rarefeito causa mal-estar. “Ia para La Paz, na Bolívia, para a Cidade do México, e dizia que não sentia nada.” A amizade entre os dois nasceu ainda no tempo do Recife. “Foi um dos mais assíduos confrades e um colaborador dedicado”. A sessão extraordinária da Academia Brasileira de Letras em homenagem póstuma a Lêdo Ivo ocorreu no dia 10 de janeiro. Além de três filhos, deixou quatro netos e dois bisnetos. Seu corpo foi cremado na capital francesa. As cinzas vão ser sepultadas no Mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.

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