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Introdução

“A oração feita com fé curará o doente; o Senhor o levantará. E se houver cometido pecados, ele será perdoado. Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz.” Tg 05:15-16

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ste livro conta a história de dois personagens, um real e um fictício, cujas histórias de vida se entrelaçam, por meio de um terceiro personagem tão real, quanto a Terra, o Céu e o Mar.

Escrever este livro, para mim, foi o mesmo que desnudar a minha alma. E ao descrever a vida de Anthony, que carinhosamente chamo de Tommy, sem nenhum motivo especial, apenas porque gosto do som emitido pelo nome, ao terminar notei que ele era de uma realidade tão assustadora, que cheguei a me perguntar se realmente não o conhecia de algum lugar. Percebi, então, que meu personagem era a mescla de pessoas que conheço e de outras totalmente desconhe.1


cidas, porém comuns, e que por este motivo, ao ler este romance misturado a testemunho pessoal, você também vai poder se identificar com ele, e perceber que sua vida pode ser mudada ao ter as suas emoções expostas e tratadas. Eu quis, neste livro, mostrar a vulnerabilidade do ser-humano, através de pequenos relatos da minha própria história de vida e meus conflitos, que em nada difere dos conflitos da grande maioria, as dúvidas, os medos e os traumas causadores das enfermidades nos ossos e o definhamento de nossa alma. Tudo misturado à ficção, um composto de histórias que já ouvi ou presenciei. Não falo de alguém em especial, mas de um todo, de muitos personagens, intrínseco num só chamado Tommy. A Bíblia diz que todos pecaram e que por isso, destituídos estávamos da Glória de Deus, mas que Jesus veio mudar esta sentença em nosso favor. “Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos.” Rm 3:23-25

Andávamos como ovelhas desgarradas sem pastor, mas eis que o Sumo pastor se levantou de seu trono em favor da nossa alma, mente, emoções e vontade. E por ser o El Shaday, o Deus das causas impossíveis, hoje podemos ter todas as nossas causas ganhas na cruz do calvário ao alcance de nossas mãos. 2.


Depois de ter escrito o livro, estive ministrando a algumas pessoas, e o interessante foi perceber que parecia que tinha falado delas, e até me preocupei: Será que elas não iriam achar que eu estava expondo alguma de suas particularidades confessadas em ministração? Então o Espírito de Deus aquietou-me ministrando ao meu coração que Ele mesmo já havia me revelado, antes mesmo de falar com estas pessoas, porque queria me dar subsídios para ajudá-las no combate de suas frustrações e depressões. Cada uma das passagens que relato a meu respeito doeu mais para sair e serem libertas do que quando somos crianças e levamos palmadas dos pais, e olhe que eu levei algumas, pois eu não era nada fácil. Mas assim como as palmadas, que geralmente são para o nosso bem, a dor da liberação das emoções também são para o bem, pois produzem cura. Apesar de saber que a confissão, para ter efeito, precisa da obra pura do Espírito Santo. Hoje posso afirmar que tenho uma alma curada em muitos aspectos e em outros o Senhor vem fazendo e aperfeiçoando a obra, um pouco a cada dia, pois este é um processo de uma vida inteira. Enquanto vivermos, Deus vai reescrever as impressões de nossa história, isso é um trabalho diário e só depende de nós mesmos torná-lo árduo ou facilitá-lo para Deus. Com cada um Deus trabalha de um jeito, mas o maravilhoso é que Ele “sempre” trabalha, mesmo que seja no silêncio. Há um louvor que traduz o trabalhar de Deus em minha vida, enquanto eu pedia: Senhor fala! Ele só agia. Oh Glória a Deus! .3


“Deus não rejeita a oração, oração é alimento, nunca vi um justo sem resposta, ou ficar no sofrimento. Basta somente esperar o que Deus irá fazer, quando Ele estende suas mãos é a hora de vencer. Então louve, simplesmente louve. Tá chorando louve, precisando louve. Tá sofrendo louve, não importa louve. Seu louvor invade o céu... A gente precisa entender o que Deus está falando. Quando Ele fica em silêncio, é porque está trabalhando. Basta somente esperar...”1 Comecei este livro como um conto romanceado e é assim que gostaria que o lesse, sem a preocupação em saber de quem a história trata. Faça de cada página uma reflexão de vida e, à medida que você aprofundar sua leitura, perceberá que o “conto” se trata de vida real. Leia com amor e com o coração aberto para o agir de Deus, se sentir vontade de chorar, não se assuste, porque já será o processo de cura se manifestando, se a vontade for de rir, ria muito porque sua alma está feliz. Esse é o propósito deste livro, senão eu não o teria escrito. Almejo que ele seja um canal deste processo maravilhoso do Espírito Santo na libertação de suas emoções. Esteja preparado para abrir as janelas e deixar fluir o mover. Abra também os calabouços e as recâmaras e vai descobrir quantos fantasmas podem estar aprisionados pedindo liberação. Que O Senhor abençoe sua leitura e lembre-se: Uma Janela nem sempre é somente uma janela. Ela tem duas funções, uma de te proteger das intempéries do tempo e outra de mostrar a vida lá fora. A autora 1

Com muito Louvor – autoria Eliseu Gomes

4.


Capítulo Um

Um Presente Muito Especial

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RA TARDE DE SEXTA-FEIRA,

e Anthony acabava de chegar da escola. Estava todo eufórico e suado, pois veio correndo pelo caminho até em casa, o fim de semana tinha chegado, não via a hora de arrancar aquele uniforme austero e colocar a roupa do time de futebol que ganhara de seu avô. Anthony acabara de completar doze anos, todos os parentes que moravam próximos haviam estado na reunião que seus pais prepararam. Foi uma “surpresa”, ele esteve semanas esperando por aquele dia, porque seu pai sempre dissera que fazer festa era dar conversa fiada para os outros comentarem depois, então, todos os anos tinham somente um bolo e chá, que sua mãe preparava. .5


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Um homem na janela

Nesse ano tinha sido diferente, eles reuniram toda a família, vieram os tios, os primos, e até os amigos da rua puderam vir com suas famílias, isso sim tinha sido surpresa, seus pais não esqueceram ninguém. Ele nunca tinha visto tantos presentes: carrinhos, rolimã, jogos de madeira, tortas, roupas, coisas que menino de doze anos no fim dos anos cinquenta gostava. Trouxeram muitos discos, claro que havia um interesse por trás disso, porque sua família possuía vitrola e muitos ali não tinham nem rádio, mas não fazia mal, mesmo sendo músicas que ele nem gostava, eram presentes. À medida que os convidados chegavam, Anthony abria cada presente com voracidade, se alegrava e logo deixava de lado para abrir o seguinte, mas quando viu uma caixa, de um tamanho razoável, abriu e descobriu duas caixas menores dentro, uma que parecia ser de sapatos e outra menorzinha. Ele ficou intrigado o porquê do mistério. Era presente do avô, e ele dizia: – Abra devagar, saboreie este momento. Que nervoso! Essa calma era para ele que já estava velho, não para alguém com doze anos, mas viu nos olhos do avô o quanto isso era especial para seu avô. E não seria ele que estragaria esse prazer. Foi abrindo as caixas muito lentamente, o tempo parou, porque todos em volta queriam saber o que tinha dentro, ninguém nem respirava, parecia até que o presente era deles. Quando tirou o último laçarote, seu avô caprichara nas amarrações, e abriu a primeira caixa, havia um par de sapatos pretos bem esquisito, que Tommy nunca tinha visto, então pensou: 6.


Um presente muito especial

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– Pobre vovô! Tá maluco, onde é que eu vou usar um negócio destes? Todavia, sorriu mostrando satisfação. Todos se entreolharam e Tommy, como era chamado por seus pais, percebeu que uns se admiraram com a qualidade do presente e outros, como os seus amigos, estavam tão confusos quanto ele, sem ter a menor ideia para que serviam. Quando abriu a segunda caixa, começou a perceber a grandiosidade do mais importante presente que já havia ganhado, era um uniforme de futebol, com cor, emblema e número. Ninguém tinha isso, era uma raridade. Olhou para o avô numa alegria descomunal, - mas e os sapatos? Entendendo aquele olhar o avô lhe explicou: – Isso, – pegando os sapatos esquisitos nas mãos – são chuteiras, é próprio para um grande jogador de futebol. Tommy nunca tinha visto um jogador de futebol, o contato que tinha com os jogos era através do rádio, e a emoção que os locutores passavam era tamanha que ele e seus amigos sonhavam em formar times de competição. Ele, porém, sonhava um dia ser o maior de todos os jogadores e conhecer de perto seu grande ídolo, Pelé. As lágrimas desceram aos seus olhos, seu avô era um amigão. Seu pai ficou meio emburrado, porque ele nem ligara para o carrinho de rolimã novo que ele fizera, e também porque futebol não era profissão, era só prazer, e sempre dizia que o jovem Tommy assumiria seu lugar na loja da família. Como Tommy amava futebol, mas também amava carrinhos de rolimã, passou a mão em seu novo brinquedinho, correu para o quarto, vestiu sua roupa nova, colocou as tais chu.7


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Um homem na janela

teiras, - como era difícil andar com elas – subiu no seu rolimã e foi ladeira abaixo, junto com os amigos da rua. Nem viu os adultos comerem até se fartar. Estava muito feliz. Quando entrou em casa sua mãe estava recolhendo os restos da festinha, estava exausta e seu pai largadão no sofá, escutando na vitrola um dos discos que Tommy havia ganhado, não era para o gosto do garoto uma coisa boa para se ouvir, mas ouviu seu pai comentar: – Esse é dos bons! – olhou para o pai sem acreditar, tapou os ouvidos e murmurou quase para si mesmo. – Humph! Que gosto estragado! A mãe, ao ver o filho todo sujo e suado, logo pensou em seu sofá e antevendo o largar-se do menino ao lado do pai, naquele estado, logo gritou: – Menino, corre já tomar banho, tem água quente e vê se lava bem esses pés e essas orelhas, você está encardido. – Tá bom mãe, já tô indo. – Parece até que a mãe havia adivinhado, pois Tommy estava a meio traseiro do sofá quando, a mãe ordenou que fosse tomar banho. O menino correu a tomar banho, se lavou bem direitinho, para sua mamãe não ralhar com ele. Quando chegou na sala, viu que ela estava na cozinha lidando com a louça e disse bem alto: – Pronto mãe! Tomei um bom banho, tô bem limpinho. Ah! Lavei as orelhas, a senhora pode ver. Seu pai se virou ao escutar essa conversa, olhou bem para Tommy e começou a rir às gargalhadas. Ele não entendeu nada. Do que afinal seu pai estava rindo? Tudo bem ele ria de 8.


Um presente muito especial

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tudo, mas não tinha nada de engraçado agora. Sua mãe veio correndo ver o que estava acontecendo e disse: – O que foi homem, onde está a graça? – Olhe para esse menino e me diga se não é engraçado. Ela olhou e não viu nada engraçado, deu foi uma bronca daquelas. – O que é isso menino, onde já se viu tomar banho e colocar roupa suja? Vá já tirar esse uniforme. Só mesmo o seu avô para te dar um presente desses. Na alegria do presente, ele tomou um maravilhoso banho, mas colocou o uniforme de futebol todo sujo e suado de novo, não ia largar dele por nada. – Nem tá sujo! – Não discuta, tire isso logo. Como é bom recordar histórias engraçadas e felizes de nossa infância! Graças a Deus! Tive uma infância difícil, mas bem aproveitada e também me lembro de coisas que me fazem rir bastante e dá uma vontade de voltar no tempo e percorrer novamente alguns caminhos. Cada um de nós tem coisas das quais sempre gostou mais do que outras. Tommy gostava de bola, eu de árvores, fosse em cima delas, ou embaixo comendo do que elas produziam. E tive algumas experiências bem divertidas com elas, às árvores. Quando eu tinha uns onze anos, fui a um parque fazer piquenique com alguns amigos de minha mãe. Nunca fui metida a menino, mas algumas peripécias características .9


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Um homem na janela

deles eu gostava de fazer, e subir em árvores era uma delas. Então, subi numa muito alta e nada de descer. Todos me chamavam, já estava quase na hora de ir embora e eu feliz, lá em cima, assim pensavam eles. Porém, não era nada disso, é que eu não sabia como descer daquela grande árvore, por fim venci a dificuldade e desci toda faceira. Lembro que quando eu era bem pequena, gostava de subir num pé de goiabas que tinha na frente da casa da minha avó. Certo dia, sentei num galho muito fino e minha avó, que estava tirando água do poço, quando viu se desesperou e gritou comigo: – Desce já daí menina, vai se estrambulhar no chão. O galho estava quase quebrando e ela correu pra me socorrer, mas não conseguiu. E realmente me estrambulhei no chão, depois do choro vieram as risadas. Numa outra vez, já era bem adulta, eu tinha um gato que subiu numa árvore de bambu, quanto mais tentava ajudá-lo, mais para cima ele ia. Como é horrível subir naquilo, mas lá fui eu salvar meu gato. Ele miava pedindo socorro, mas não descia. Parecia desenho animado, uma cena ridícula, só faltava chamar os bombeiros pra salvar o bichano. Depois que subi entendi por que ele só miava. Quem queria miar agora, pedindo socorro era eu. E aí, quem poderia me socorrer? Nem Chapolin Colorado, nem ninguém. Tive que descer sozinha e ainda com um gato teimoso debaixo dos braços. Lembrar-me disso trouxe-me alegrias, são cenas que gostaria de reviver. São as boas impressões cravadas na nossa alma.

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Um presente muito especial

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Uma Janela

Anthony correu para o quarto, trocou de roupa, vestiu o seu

uniforme de futebol, ligou o rádio, como sempre fazia ao chegar em casa, olhou em volta e viu que sua mãe estava sentada no sofá que ficava de frente para janela onde gostava de tomar uma brisa e ler. Então foi procurar o almoço, a mesa não estava posta e nem tinha comida no fogão.

– Ué, cadê a comida? Perguntou-se Tommy, olhando a toda sua volta. – Manhê! Gritou Tommy. Cadê o almoço? Ela não disse nada. Então ele chegou mais perto. Era como se tivesse morta, mas seu corpo se movia, sua grande barriga se mexia, pois sua mãe estava grávida de sete meses. Seus olhos estavam fixos na janela entreaberta. O que será que ela via através do vidro? Respirando ela estava, tinha nas mãos um pedaço de papel e num dos olhos uma lágrima. Tentou sacudi-la, gesto que ela nem sentiu, mas que fez o pequeno pedaço de papel cair de suas mãos. Pareceu uma eternidade até que o bilhete chegasse ao chão. Tommy pegou o papel e perguntou se podia ler. Como resposta ele ouviu o som inaudível do silêncio, o que o encorajou a ler. De repente o mundo parou. O que aquilo queria dizer? Não podia perguntar a ela, não agora. Sentou em frente ao rádio ligado, pegou a caixa de biscoitos, colocou ao seu lado e um copo de leite, ficou horas, ali sentado, sem tocar em nada. Ele em frente ao rádio e sua mãe em frente à janela. . 11


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Um homem na janela

A tarde passou sem que nenhum dos dois percebesse, a lágrima continuava lá nos olhos de sua mãe, não se movera, nem secara, nem caíra. Ou seria outra? Ele tinha colocado sua roupa de futebol, mas não tinha ido jogar, pegou biscoitos, mas não comeu, preparou seu leite, mas não bebeu. Anoiteceu e o rádio agora chiava. De repente, sua mãe levantou e saiu de frente da janela, fechou-as e puxou as cortinas, que nunca mais foram abertas. Ajeitou bem o vestido, passou as mãos pelos cabelos, arrumando alguns fios, Laura era uma mulher muito bonita, olhou para Tommy e disse: – Tá com fome meu filho? – Não! Foi à resposta seca. – Então vamos dormir querido. Foi somente mais um dia difícil. Naquela noite nenhum dos dois conseguiu dormir, ele se deitou ao lado dela e ela o envolveu em seus doces braços de amor, ele acariciou sua barriga e ficaram ali até o dia amanhecer. Ela se levantou, foi ao banheiro e trocou de roupa. Voltou ao quarto e olhou o filho carinhosamente, e suas únicas palavras a respeito daquela sexta-feira, foram: – Agora somos somente nós três. – Falava olhando para o filho enquanto tocava sua grande barriga. Tommy nunca questionou aquele bilhete, mas as palavras contidas nele, jamais saíram de sua memória, nem naquele dia, nem em outro de sua vida.

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