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Copyright2008 por Osvaldo Henrique Hack Todos os direitos reservados por: A. D. Santos Editora Al. Júlia da Costa, 215 80410-070 - Curitiba - Paraná - Brasil +55(41)3207-8585 www.adsantos.com.br editora@adsantos.com.br

Capa: PROC Design Diagramação: Manoel Menezes Impressão e acabamento: Reproset

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) HACK, Osvaldo Henrique. IDENTIDADE DE JESUS: Polêmica de todos os tempos – Curitiba: A. D. SANTOS EDITORA, 2008. 240 p. ISBN – 97885-7459-153-7 1. Jesus Cristo 2. Natureza de Cristo 3. Cristologia CDD – 232 1ª Edição: Agosto / 2008 Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios a não ser em citações breves, com indicação da fonte.

Edição e Distribuição:


SUMÁRIO Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 1. Revelação Suprema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 2. Proclamação Esperada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 3. Autenticação Necessária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 4. Reconhecimento Oportuno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 5. Unidade Essencial. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 6. Divindade Imensurável. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 7. Imutabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 8. Eternidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 9. Pessoalidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 10. Orientação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79 11. Definição. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 12. Plenitude de Vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 13. Perfil Definido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 14. Autoridade Divina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105 15. Acolhimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 16. Fonte de Vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 17. Fidelidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 18. Iluminação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131

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19. Sustento Efetivo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 20. Único Acesso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 21. Realeza Divina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149 22. Soberania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157 23. Onipresença . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 24. Onisciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171 25. Salvador da Humanidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179 26. Profeta Maior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 27. Único Mediador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193 28. Amor Infindável . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203 29. Defensor Universal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 211 30. Paz Duradoura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219 Considerações Finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227 Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233

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INTRODUÇÃO A identidade pessoal passou a ser uma exigência da burocracia do mundo globalizado. A movimentação livre na própria pátria é garantida pela exposição da carteira de identidade em negócios e assinatura de compromissos, no mesmo sentido em que o passaporte facilita o trânsito do turista em outros países. O RG (registro geral) passou a ser o documento indispensável para qualquer momento de identificação, devido ao perigo da falsificação ou de alguém usar um documento alheio com segundas intenções. Nos tempos passados a identidade se confundia com a própria pessoa,devido à sua aparência e seus hábitos, sem necessidade de qualquer documento ou comprovação de testemunhas ou carimbo de cartórios. Alguém era introduzido na sociedade por meio da família ou era conhecido por sua missão específica ou, ainda, por sua cidade de origem. Assim, a Bíblia registra os feitos de João, o batizador; a história de Jesus de Nazaré ou as viagens de Paulo de Tarso. Nosso propósito é tecer comentários sobre a identidade de Jesus, conhecido como o Cristo, a partir dos registros bíblicos, para confrontar com os mais variados tipos de Jesus, apresentados pela religiosidade popular ou pelas tradições dominantes. Precisamos, como cristãos, buscar a identidade de Jesus nos textos bíblicos e em suas próprias palavras, para não sermos iludidos por interpretações errôneas. O próprio Jesus alertou seus seguidores diante do aparecimento de falsos profetas e falsos cristos que iriam aparecer com o intuito de enganar e iludir os desavisados: 1


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“surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos... Senhor, porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 24:24; 7:22-23) O avanço da tecnologia permite a reprodução em abundância de fotocópias de papéis e documentos. A facilidade de falsificação é tão grande que exige-se a autenticação com selo cartorial, para aceitar-se a validade, chegando ao ponto de exigir-se o documento original em casos específicos. A clonagem de cartões de crédito ou cédula de identidade, bem como cheques e documentos, passou a ser o caminho preferido dos falsificadores. Os documentos originais passaram a ser questionados diante de falsificações tão ardilosas e sofisticadas.. No campo religioso a prática de fotocópias não autenticadas também grassou de maneira devastadora. Inúmeras entidades religiosas mostram identidades duvidosas e difusas a respeito do Jesus apresentado nas páginas da Bíblia Sagrada, aquele que foi aprovado e autenticado pelo próprio Deus Criador. Mesmo entre grupos evangélicos, que pretendem ser fiéis aos ensinos bíblicos, como herdeiros da Reforma Religiosa do século XVI, há caricaturas de Jesus,que não condizem com a sua identidade ou sua autenticidade bíblica. A pluralidade de cristologias abalou os fundamentos da igreja cristã desde o tempos apostólicos. Muitos apologistas e polemistas1 cristãos procuraram defender a identidade de Jesus em longas e controvertidas questões a respeito da divindade e humanidade do Jesus, chamado o Cristo. Portanto, a preocupação com a identidade de Jesus passou a ser uma questão de vida ou morte para a continuidade do próprio cristianismo. Não era 1 Os cristãos apologistas procuravam defender as doutrinas do Cristianismo, diante das acusações pagãs; os polemistas como teólogos e estudiosos bíblicos, discutiam as doutrinas que receberam restrições, como a natureza divina-humana de Jesus.

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somente uma questão de identidade histórica, mas antes de tudo, uma definição da missão de Jesus na face da terra. As controvérsias e discussões religiosas foram amenizadas com o aparecimento de formulações credais, mais conhecidas como credos. Dentre eles temos o Credo Romano, Credo Atanasiano, Credo Niceno, Credo de Calcedônia e o Credo Apostólico. O Apostólico foi o último a firmar-se da maneira como hoje é conhecido. De início foram idéias e afirmações que combatiam as heresias e desvios doutrinários, surgindo o que se chamou de Credo Romano. Mais tarde o bispo Marcelo em 340 a.D. o apresentou à Igreja Cristã e recebeu a formulação atual do Credo Apostólico em 750 a.D. (Bettenson,1997 p.54). O Credo Niceno2 foi formulado no Concílio de Nicéia, convocado pelo Imperador Constantino em 325 a.D. que solicitou um documento dos cristãos sobre suas convicções doutrinárias em virtude das distorções surgidas sobre a interpretação da divindade e humanidade de Jesus. O Concílio elaborou o que se conhece como Credo Niceno, apresentando Jesus como divino-humano: “Cremos... em um só Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus e nascido do Pai antes de todos os séculos,Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por quem foram feitas todas as coisas” (Livro de Concórdia,1997 p.19) As afirmações do Credo Niceno foram confirmadas pelos concílios de Constantinopla (381 a.D.) e pelo concilio da Calcedônia no ano 451 a.D., ainda oferecendo alguns acréscimos de fundamentação bíblica como a doutrina do Espírito Santo (Hack, 2004 p.78), apresentando as duas naturezas de Jesus como “inconfundíveis, imutáveis, indivizíveis,inseparáveis” (Bettenson, 1997 p.54) 2 O Credo Niceno originou-se da carta do Sinodo de Antioquia. Dos 59 bispos que elaboraram a Carta Sinodal, 49 deles estiveram meses mais tarde no Concilio de Nicéia. O objetivo principal era o combate à heresia ebionita, que negava a divindade de Jesus Cristo. Os ebionitas viam a pessoa histórica de Jesus, embora lhe atribuíssem uma condição especial superior, como um anjo especial.

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A mesma preocupação percorreu a história do cristianismo, definindo posições teológicas e, ainda hoje, se constitui no grande desafio para os seguidores das mais diversificadas igrejas e comunidades. A interminável polêmica entre o “Jesus histórico” e o “Cristo da fé” preenchem centenas de páginas dos livros de comentaristas, biblistas, exegetas e teólogos. Sabemos que a identidade histórica tem a ver com alguém que, na condição humana, vive determinado número de anos, num lugar conhecido, num contexto cultural específico onde ali formula suas convicções e exercita suas práticas religiosas. Todavia, não podemos nos preocupar com uma identidade puramente histórica porque há conceitos que vão muito além dos acontecimentos. Por outro lado, a identidade dogmática ou de matiz teológico também deixa lacunas porque não penetra na história de vida e não leva em conta as motivações sócio-culturais e religiosas vivenciadas que, num contexto mais abrangente oferecem os sinais características da identidade genuína. O conhecimento de Jesus Cristo é o centro das Escrituras Sagradas. As referências ao Ungido do Senhor, o Messias prometido, que apontam para a vida e a obra de Jesus, percorrem a Bíblia toda, desde o livro de Gênesis até o Apocalipse. Portanto, conhecer a Jesus é conhecer os planos divinos e entender a sua missão redentora em favor da humanidade. Ao analisar os atributos divinos de Jesus, na análise de sua identidade, estamos trazendo à tona aquelas características que distinguiram Jesus dos demais Líderes de sua época e de todos os tempos. Jesus apresentou-se de modo singelo e único. Merece nossa mais alta consideração porque nos conduz a Deus Pai. Jesus é aquele que sabe quem é; sabe o que quer; sabe onde quer chegar, porque conhece a sua própria identidade e a missão que recebeu para realiza-la. Assim, conhecê-lo é conhecer o próprio Deus, como ele mesmo afirmou:

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“Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar” (Mt 11:27) Ainda João Batista testemunhou: “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai é quem o revelou” (Jo 1:17-18). Nossa proposta nesta obra é desafiar os leitores a refletirem com cautela e conhecimento bíblico, a respeito dos movimentos religiosos que apresentam cristos desfigurados e comprometidos com os interesses grupais Quem foi, afinal, Jesus de Nazaré? – Seria um livre pensador, discípulo dos filósofos cínicos gregos do III século a.C., que defendiam a busca de um homem de verdade, livre de preconceitos, das vaidades e dos enganos; – Seria um revolucionário inconformado com o “status quo” do Império Romano subjugando o judaísmo, vindo para anunciar o estabelecimento de um novo reino. Foi condenado à morte por motivos políticos-religiosos, porque desacatou as autoridades romanas e judaicas; – Seria um reformador religioso que se auto proclamava profeta, interpretando o judaísmos sob seu ponto de vista, ao propagar suas máximas: “eu sou a verdade...”; “ouvistes o que foi dito aos antigos... eu, porém, vos digo”; – Seria um defensor e amigo dos pobres, que desejava implantar uma comunidade solidária e igualitária; – Seria um membro da comunidade dos essênios, judeus que se refugiavam nas montanhas e desertos, dedicando-se às orações, jejuns e ensinamentos éticos e morais; – Seria um mestre iluminado e moralista, dentre dezenas de outros que surgiram na história das religiões?

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Continua, diante de nós, o eterno dilema lançado pelo próprio Jesus aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”

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1. REVELAÇÃO SUPREMA  “Eu sou o que sou” (Ex 3:14) œ primeira preocupação de Moisés ao ser desafiado para a missão libertadora do povo israelita, foi conhecer um pouco mais daquele Deus que o desafiara de maneira tão impactante no deserto da Arábia, terra dos midianitas. Outros personagens bíblicos como, Adão, Enoque, Noé, Abraão, não questionaram o fato de que estavam sendo chamados para crer e confiar nas promessas do Deus revelado. O questionamento de Moisés é pertinente e tem sua razão de ser diante do contexto histórico-religioso em que viveu no Egito, e, depois longo tempo no deserto. Por outro lado Deus revelou a sua identidade original e única, de maneira explícita, fazendo uma afirmação jamais proferida no relacionamento com suas criaturas:

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“Disse Moisés a Deus: eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: qual é o seu nome, que lhes direi? Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais; Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me 7


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enviou a vós outros. Disse Deus ainda mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração” (Ex 3:13-15). O nome de uma pessoa, na tradição cultural e religiosa da antiguidade, significava a sua própria identidade e sua razão de ser e existir. Portanto, quando Deus se identificou a Moisés não estava satisfazendo uma curiosidade ou desfazendo a dúvida de quem quer que fosse. O nome pessoal de Deus não era apenas uma maneira de tratamento, mas uma descrição do caráter e da personalidade de Deus. A resposta divina: EU SOU O QUE SOU” revela que o Senhor Deus Criador não pode ser definido a não ser por si mesmo. Como auto-existente Ele pode fazer promessas e revelar-se em seus atos. O nome Senhor, como o Deus do povo israelita tem um significado especial na língua hebraica: Senhor é traduzido por Javé ou Jeová. A mesma raiz do verbo “ser” em hebraico dá origem ao EU SOU na primeira pessoa do singular “ehyeh”. Dentre os nomes mais usados para Deus, o mais freqüente é “Deus Poderoso”, que aparece mais de duas mil vezes no Antigo Testamento. Ainda temos outros nomes como: El Shaddai (Deus Todo-Poderoso); El Elyon (Deus Altíssimo); El Olam (Deus Eterno); Iavé (Deus Redentor); além das derivações de Iavé que indicam ações específicas, tais como: Iavé Jireh (O Senhor proverá - Gn 22:14); Iavé Shalom (O Senhor é paz Jz. 6:24); Iavé Nissi (O Senhor é minha bandeira - Ex 17:15); Iavé Rohi (O Senhor é meu pastor - Sl 23:1). O nome Iavé é o mais usado para designar o Deus Redentor. O nome Iavé revela a própria essência de Deus, fazendo promessas a si mesmo e estabelecendo um pacto redentor. É o Deus presente em todas as circunstâncias, vivendo as angústias e esperanças do povo, fazendo promessas a si mesmo e jurando o cumprimento para toda a eternidade. A descendência de Abraão desfrutaria para sempre do plano redentor revelado agora a Moisés, como conti8


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nuador do processo histórico. EU SOU é o Deus eterno, o Deus libertador, o Deus que escolhe e redime o seu próprio nome (Campos, 1999 p.89-90) Quando o Deus Criador estava se identificando como EU SOU ou Javé, afirmava sua condição de Senhor. Deus declarou esse nome a Moisés,quando lhe falou a partir da sarça que se queimava,mas,não se consumia. Deus primeiro se identificou como o Deus que tinha se comprometido numa relação de promessa e aliança com os patriarcas bíblicos. Deus mesmo se identificou como o Senhor, o Deus de “vossos pais” ou das gerações passadas (Ex 3:15-16). O nome escolhido por Deus para que fosse identificado pelo povo, revela a sua eternidade e sua própria soberania. É o Deus que existe por si mesmo, que se auto-sustenta e se auto-determina, como se expressou o poeta cristão: Ao Deus de Abraão louvai, do vasto céu, Senhor. Eterno e poderoso pai e Deus de amor. Augusto Jeová que terra e céu criou, Minha alma o nome exaltará do grande EU SOU. (Judah, D. B.; Moreton, R.H.) A recomendação divina a Moisés, é de que o nome de Deus seria eternamente lembrado de geração em geração, como uma identificação na história da humanidade: “Este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração” (Ex 3:15). O decálogo oferecido por Deus a Moisés no Monte Sinai, também revela toda a adoração e reverência que deviam ser dadas ao nome do Senhor Deus. Nenhum israelita poderia adorar outros deuses, nem invocá-los e nem fazer qualquer imagem, porque estava comprometido com o Deus, único Senhor. Nesse sentido, o nome de Deus passou a ser uma revelação comprometedora. Ao revelar-se para estabelecer diálogo com o ser humano, o Senhor requeria adoração, fidelidade e 9


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reverência. Nesse sentido os atos de culto e louvor devem ser celebrados para engrandecer o Senhor somente, na representação da Santíssima Trindade. Qualquer outro nome ou motivação para o culto passa a ser considerado como um desrespeito ou abominação perante o Senhor. Como líder, Moisés necessitava de orientação, leis e definições diante de tantas situações novas e inusitadas no caminho do deserto. Os propósitos divinos aos olhos de Moisés eram compreendidos como a revelação do Monte Horebe ou Sinai (Ex 3) e também todas aquelas manifestações recebidas no dia a dia, à medida que avançavam em direção ao alvo proposto, a terra de Canaã. Moisés acostumou-se a falar com Deus, a reclamar e a questionar quando não conseguia entender as novas situações. Todavia, Moisés percebeu de maneira nítida que precisava crer nas promessas divinas e esperar o momento de agir. Isto significa que andar nos caminhos divinos requer uma porção dobrada de fé, aguardando a manifestação ou revelação, segundo a vontade de Deus, mesmo quando não estejamos entendendo os acontecimentos ao nosso derredor. A preocupação de Moisés foi expressa quando ele comentava sobre a nova aliança de Deus com o seu povo, afirmando que a nós humanos cabe cumprir o que nos foi revelado, enquanto o que está encoberto, ainda pertence somente a Deus: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém, as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt 29:29). Os líderes religiosos enfrentam um desgastante dilema na tentativa de oferecer aos seus seguidores uma palavra orientadora. Saber-se o que foi revelado e o que ainda está encoberto, tem sido o pomo de discórdias entre biblistas,exegetas e teólogos, no contexto do cristianismo. Cada dia se avoluma o aparecimento de grupos religiosos, anunciando novas revelações, sonhos e visões. Uma polêmica sem fim que divide e dispersa 10


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famílias e comunidades, desvirtuando o sentido bíblico da fé cristã, que deve levar todos os que crêem à comunhão, como Corpo de Cristo. A revelação suprema do Deus Criador é o mais desejado e perseguido alvo de toda a criatura humana, todavia, não depende das tradições e interpretações religiosas, mas da vontade divina. A revelação suprema depende somente de Deus e de seus propósitos. Acontecerá no tempo próprio e propício, em benefício dos que amam o Senhor Deus e aguardam a sua misericórdia. O apóstolo Paulo afirmou que todas as coisas contribuem para o bem da vida cristã, quer sejam coisas reveladas ou encobertas. Aquelas pessoas que são conduzidas à fé vivem cada dia à luz da certeza do futuro preparado por Deus. Aquilo que acontece vai contribuir para a disciplina, amadurecimento ou momento de paciência e perseverança,segundo o plano divino para cada um de seus filhos. Embora nos debrucemos em clamores, lágrimas e preces, Deus atenderá aquilo que for bom e útil para nós, segundo os propósitos eternos. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28). Temos muitas manifestações da divindade no imaginário popular e nas teologias e dogmas formulados, que desfiguram a identidade do Senhor revelado a Moisés e aos escritores bíblicos. Criou-se a ilusão de que todas as religiões buscam agradar o Senhor e procuram servi-lo ao seu modo cultural e conforme suas tradições. Tal tendência é fruto da compreensão de que o ser humano é que cria o contexto e os objetos de adoração para o deus escolhido. Assim acontece com a maioria das religiões, não, porém,com o conceito bíblico vétero-testamentário do Deus Senhor que se revelou, deu mandamentos e exigiu compromisso de fé e vida. O apóstolo Paulo afirmou aos cristãos que viviam na cidade de Roma, que a idolatria e depravação seriam punidas

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porque os seres humanos conheceram a lei e as manifestações divinas, a respeito do dever de adorar o Criador e seguir suas instruções. A recusa humana em buscar o Deus Criador, não o isenta diante da justiça divina: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porque o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das cousas que foram criadas. Tais homens, são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória de Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pela concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente... por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contacto natural da mulher, se infamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição de seu erro” (Rm 1:18-27). A interpretação do profeta Isaías revela o conceito da identidade divina como sendo o Senhor único e imutável “dá-me ouvidos, ó Jacó, e tu, ó Israel a quem chamei; eu sou o mesmo, sou o primeiro e também o último” (Is 48:12). Nesse sentido os ídolos passam a ser considerados ridículos, sem identidade própria, sem vida e sem possibilidade de ajudar seus seguidores. Como afirma o salmista:

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“Prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos de homens. têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não cheiram. Suas mão não apalpam Seus pés não andam, som nenhum lhes sai da garganta. Tornem- se semelhante a eles os que os fazem e quantos neles confiam” (Sl 115:4-8). O nome de Deus, o Senhor, vai revelar-se nos episódios históricos, por meio de Jesus Cristo, como sendo o próprio Senhor, que fazendo-se carne, também, se auto revelou mostrando a sua identidade divina. Os autores bíblicos reconheceram que Jesus é a expressão máxima da identidade divina: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder... assentou-se à direita da Majestade nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hb 1:3-4). A revelação de Deus está intimamente vinculada ao nascimento de Jesus; por outro lado só poderemos entender a revelação divina manifesta em Jesus, quando pensamos nos planos de Deus em favor da humanidade, desde a eternidade. Os propósitos redentores de Deus foram inseridos na história humana por meio do ministério terreno de Jesus, que viveu e conviveu com seus contemporâneos. Precisamos recorrer aos registros bíblicos para entender o que foi planejado na eternidade e o que foi realizado historicamente por meio da vida e obra do Jesus divino-humano, nascido na cidade de Belém da Judéia. O que Jesus realizou na terra foi decidido no Conselho Eterno. Segundo o autor Campos. Esse Conselho também é chamado de Conselho da Redenção, formado desde a eternidade pela

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Trindade Divina. Nada do que acontece fica fora dos planos divinos, tanto no cosmos como na história humana: “Quando Deus fala, sem haver um ser criado com quem falar, é absolutamente certo que ele fala com alguém dentro de si mesmo. As pessoas da Trindade sempre se comunicaram antes que houvesse o mundo e as suas criaturas racionais o fato de Deus ser tripessoal é o que torna essa comunicação relacional possível” (Campos, 1999, p.112). De acordo com os propósitos eternos, Jesus foi o executor do plano redentor, vindo a manifestar-se ao ser humano de maneira visível, palpável e realista, porque se fez carne e viveu as angústias e limitações humanas. Portanto, quando procuramos estudar a identidade de Jesus nas páginas bíblicas estamos buscando a identidade do próprio Deus Criador que se revelou ao povo israelita e, por conseguinte, na pessoa de Jesus, o Messias prometido, chamado Cristo. A partir do Novo Testamento constatamos que todos os escritores visualizaram em Jesus, o cumprimento da revelação divina em toda a sua dimensão. Daí, podermos entender a afirmação tão categórica e incisiva do autor do livro bíblico, escrito aos hebreus, “Ele -Jesus é a expressão exata do seu Ser -Deus” (Hb 1:3). A revelação suprema do Deus Eterno se concretizou e se manifestou de maneira palpável e visível na pessoa de Jesus, como entendeu o apóstolo Paulo, ao descrever a excelência da pessoa e da obra de Cristo: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1:13-15). Ainda, podemos entender que Jesus é o proclamador dos decretos divinos, porque falava em nome do Pai Criador. Ao afirmar que “eu e o Pai somos um” estava declarando que

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fazia parte do plano eterno e ao mesmo tempo era a revelação do plano redentor da humanidade “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:38-40). Nos capítulos posteriores trataremos da identidade de Jesus como aquele que cumpriu todas as deliberações do Conselho Eterno, selando o Pacto da Redenção3 com a sua vida, morte e ressureição.

3 O Pacto da Redenção é decorrente do Conselho Eterno, estabelecido entre o Pai e o Filho, para que Jesus pudesse realizar a obra da redenção. Alguns teólogos procuram distinguir o Pacto da Redenção do Pacto da Graça, entretanto, a Confissão de Fé de Westminster,bem como os Catecismos, não fazem distrinção entre os dois.

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