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Abuso Sexual Infantil


Copyright©2018 por Mara Xavier Melnik e Neide Rute Alves Lunas Todos os direitos reservados por: A. D. Santos Editora Al. Júlia da Costa, 215 80410-070 – Curitiba – Paraná – Brasil +55(41)3207-8585 www.adsantos.com.br editora@adsantos.com.br

Capa:  APS Caderno de atividades – ilustrações: Filipe Melnik Revisão: Adriana Rickli Diagramação: Manoel Menezes Coordenação editorial: Priscila Laranjeira Impressão e acabamento: Gráfica Patras

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) MELNIK, Mara Xavier; LUNAS, Neide Rute Alves Chá de Bonecas e Encontro de Heróis – Projeto de Prevenção ao Abuso Sexual Infantil – Curitiba: A.D. SANTOS EDITORA, 2018. 136 p. ISBN – 978.85.7459-469-9 CDD 362.88 1. Abuso sexual: vítimas  2. Problemas sociais CDD 155.4 1. Contra o abuso sexual infantil  2. Habilidades autoprotetivas 1ª Edição: Abril / 2018. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios a não ser em citações breves, com indicação da fonte.

Edição e Distribuição:


Prefácio “Por longos anos eu vivi uma história que não era a minha numa trajetória que não era própria para uma criança. O abuso sexual alterou o curso natural da minha vida, destruiu a minha identidade, roubou a minha liberdade tornandome prisioneira do medo, da vergonha e da culpa.” Marias, Luanas, Rosárias, Fernandas, Camilas. Milhares de mulheres se identificam com a declaração acima. O desabafo é de uma das autoras desta obra, Neide Lunas. A jovem, que queria ser justiceira para combater todo o tipo de abuso, escolheu como arma a boneca. Coralina é o símbolo da luta contra o abuso e a favor da conscientização de meninas de quatro a doze anos. O Projeto de Prevenção ao Abuso Sexual Infantil Chá de Bonecas nasceu no final de 2016. Como ensinar às crianças a diferença entre carinho e abuso? Na escola o assunto é tabu. Em casa os pais não se sentem confortáveis em falar sobre o tema. Com as bonecas de pano, Neide Lunas e Mara Melnik criaram o método perfeito, que orienta de forma lúdica, sem constranger ou assustar. A concepção da boneca é genial. Ela tem duas faces, uma feliz e outra triste. Vai depender do tipo de toque que ela receber. Existem dois tipos: o toque do SIM e o toque do NÃO. O toque do SIM é o do afeto, geralmente parte dos pais ou pessoas de confiança. O toque do NÃO é o do abuso, aquele que as crianças aprendem a identificar e a se afastar. Além da prevenção, o projeto permite, através da interação com a boneca, que a criança relate possíveis experiências e traumas. A falta de informação talvez seja um perigo ainda maior para as meninas do que um monstro abusador. Você vai conhecer nas páginas a seguir a história de duas mulheres que, diante desta triste realidade, decidiram agir. Lucian Pichetti Brendler Jornalista e apresentador na Rádio CBN de Curitiba e na Rede Massa (SBT)

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Prefácio Prevenção de violência sexual é fundamental. A violência sexual é uma questão de saúde pública que afeta o bem-estar da vítima, da família, da comunidade e da sociedade. Este é um livro que tem por objetivo capacitar as pessoas de diversas idades para desempenharem um papel significativo na prevenção ou interrupção de um abuso sexual. Como adultos não podemos fazer com que nossas crianças vivam livres do perigo, mas podemos garantir a elas que a ajudaremos quando algo ruim acontecer. Ao longo dos anos, pela minha experiência como psicóloga infantil, trabalhando com crianças em abrigos, favelas, também em meu cotidiano da clínica e em meu meio social como mãe, observei o que muitas crianças enfrentavam por não receberem informações básicas de segurança. Proporcionar conhecimento em relação a sua própria segurança, não é só uma responsabilidade, mas a única coisa a fazer. Quando uma criança é estimulada a se comunicar, desenvolve a habilidade de ter a participação ativa em sua própria segurança. Algumas pessoas podem achar que falar da exploração sexual poderá assustar uma criança, mas isso é pouco provável que aconteça, pois crianças sabem que existem coisas que podem ser perigosas como colocar a mão em cachorros desconhecidos, ou atravessar uma rua movimentada. Quando o medo acontece, ele é diminuído ensinando estratégias de prevenção. Camilla Correia Psicóloga Forense, especialista em atendimento a vítimas de abuso sexual em Curitiba – PR. Palestrante e desenvolvedora do programa: EU POSSO AJUDAR VOCÊ – Prevenção de Riscos na infância. E-mail: camillablume@gmail.com

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Apresentação Salmo 10.9-18 Como um leão, ele (o perverso, o abusador) espera no seu esconderijo e espia (as crianças) os que não podem se defender. Fica de tocaia, esperando pelos que são perseguidos; então pega as vítimas na armadilha e as arrasta dali. Esse homem mau pensa assim: “Deus não se importa; ele fechou os olhos e nunca vê nada!” Como pode a pessoa má desprezar a Deus e pensar que Deus não a castigará? Mas tu, ó Deus, vês e percebes o sofrimento e a tristeza (das nossas crianças) e sempre estás pronto para ajudar. Os que não podem se defender confiam em ti; tu sempre tens socorrido os necessitados. Ó Senhor Deus, tu ouvirás as orações dos que são perseguidos e lhes darás coragem. Tu ouvirás os gritos dos oprimidos e dos necessitados e julgarás a favor deles para que seres humanos, que são mortais, nunca mais espalhem o terror. Bíblia Sagrada - NTLH (Grifos da autora)

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s marcas causadas pelo abuso sexual são profundas e podem ser devastadoras. Se pensarmos que “tudo começa na infância” esse “tudo” pode definir o modo de agir, mudar a vida, significar muito. O Abuso sexual tende a estragar tudo o que era perfeito. Eu me chamo Neide Rute, recebi este nome em homenagem a filha de um bom vizinho, uma menina linda, rica e gentil que morava no interior do Paraná e que era admirada por minhas irmãs mais velhas e por meus pais. Na verdade, o nome era para ser Meire Ruth, mas o funcionário do cartório não ouviu direito e disse que infelizmente não poderia fazer uma certidão nova. Na mais pura simplicidade o “seu Manoel” e a “Dona Geni”, meus pais, acreditaram que não haveria nenhum problema em deixar este nome para a oitava filha, que certamente não demoraria muito para nascer (rsrs) – e foi bem isso que aconteceu: minha irmã mais nova recebeu o nome que era para ter sido meu. Apesar de ter nascido com o nome trocado eu nasci a pessoa certa, no corpo certo, na família certa. Enfim, tudo estava certo. Eu tinha uma história para viver e escrever ao longo da minha vida, até que aos seis anos de idade... Bem... até que interviram na minha história. O roteiro foi alterado. Eu sofri abuso sexual. Por longos anos vivi uma história que não era a minha numa trajetória que não era própria para uma criança. O abuso sexual alterou o curso natural da

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minha vida, destruiu a minha identidade, roubou a minha liberdade tornandome prisioneira do medo, da vergonha e da culpa. Somente aos 29 anos quando entreguei minha vida aos cuidados de Deus foi que pude retomar a liberdade e recuperar minha identidade, apesar das marcas indeléveis causadas pelo abuso. Foi então que decidi pôr em prática a teoria do psicólogo Viktor Frankl, apresentada em seu livro Em Busca de Sentido. Eu não buscava o sentido do abuso, mas o sentido da vida, assim como Viktor Frankl, enquanto estava prisioneiro em um campo de concentração, não buscava entender o porquê os nazistas lhe infligiam tanto sofrimento e humilhação, mas buscava o sentido da vida, a vida que ele sonhou em ter – uma vida em liberdade, livre das cercas eletrificadas, livre das torturas, livre dos medos e dos assombros. Viktor Frankl não somente retomou sua liberdade como, ao encontrar o “Sentido da Vida”, ele ensinou o caminho a milhares de pessoas em todo o mundo com o seu trabalho e suas obras literárias. Comparar-me a ele seria muita pretensão de minha parte, mas seguir seu exemplo é para mim um prazer. É por esta razão que hoje trabalho na luta pela Prevenção ao Abuso Sexual Infantil. E neste livro eu e minha parceira no Projeto de Prevenção ao Abuso Sexual Infantil Chá de Bonecas, Mara Melnik, vamos abordar vários aspectos envolvendo a temática do abuso, suas interfaces, sequelas e, principalmente a importância de ensinar nossas crianças a recusar toques íntimos, independentemente de quem seja a pessoa que a esteja tocando, um parente próximo ou distante, um grande amigo da família ou mesmo uma pessoa que possua sobre ela alguma autoridade. Se o toque for em suas partes íntimas e estiver causando desconforto, medo ou vergonha a criança, devidamente empoderada, esclarecida, aprenderá a dizer “NÃO!”. Além do Chá de bonecas, que é para meninas de 04 a 12 anos, nós trabalhamos com a prevenção para meninos de 05 a 10, com o tema Encontro de Heróis. A metodologia é a mesma, por essa razão não mencionarei com frequência o Encontro de Heróis, no entanto, tenha sempre em mente que o conteúdo deste livro poderá ser aplicado tanto em um quanto em outro segmento.

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Sumário Dedicatória....................................................................................................... iii Agradecimentos................................................................................................ v Prefácio........................................................................................................... vii Apresentação................................................................................................... ix NEIDE LUNAS Capítulo 1 – Como surgiu o Projeto Juntando bonecas, xícaras e panelinhas..13 NEIDE LUNAS Capítulo 2 – Completando com Arte e Musicalização Os nossos sonhos, aos olhos do Pai............................................................25 NEIDE LUNAS Capítulo 3 – Objetivo do Chá de Bonecas Porque com a segurança das crianças não se brinca...................................33 NEIDE LUNAS Capítulo 4 – Compreendendo o que é o abuso sexual....................................45 NEIDE LUNAS Capítulo 5 – Conhecendo cada detalhe do Chá de Bonecas............................49 NEIDE LUNAS Capítulo 6 O que fazer em caso de suspeita de abusos? Quem pode ajudar?....................................................................................53 NEIDE LUNAS Capítulo 7 – Quando abrimos nossas cas@s para o perigo..............................55 MARA MELNIK Capítulo 8 – Encontro de Heróis – Prevenção de Abuso Sexual para os Meninos.........................................................................................61 MARA MELNIK Capítulo 9 – Como utilizar os Recursos Pedagógicos na Estratégia de Prevenção Cuidados para não perder o foco no tema.................................................65 MARA MELNIK Capítulo 10 – A contação de histórias na abordagem do tema ......................73 MARA MELNIK Capítulo 11 – Projeto encontro de heróis – Liga da proteção e prevenção.......77 MARA MELNIK Anexos............................................................................................................95 Referências....................................................................................................109

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Capítulo 1

Como surgiu o Projeto Juntando bonecas, xícaras e panelinhas

Na minha infância e parte da minha adolescência eu sonhava em ser

justiceira. Meu ídolo era Charles Bronson, o protagonista da saga “Desejo de Matar”. Vê-lo protegendo e defendendo pessoas inocentes alimentava meu senso de justiça. Tudo o que eu precisava era aprender alguns golpes de karatê ou saltar como um ninja e pronto: meus traumas e medos já não seriam mais problemas para mim. Só que tudo isso não passava de um sonho infantil. Este sonho trafegava no paralelo com alguns sonhos mais comuns, como o de ter uma casa bonita com móveis lindos. Nesta casa, que não precisava ser de verdade, eu sonhava em ter panelinhas, xicarazinhas e mais um monte de “inhas” para a minha cozinha, onde eu pudesse receber minhas amigas para um chá, igual ao chá que era servido na foto da embalagem do joguinho de chá de plástico que as meninas da minha época ganhavam no Natal. Como éramos muito pobres esses brinquedinhos também eram sonhos quase impossíveis de serem alcançados. Em uma família de nove filhos e bem poucos recursos eu precisava manter minha mente sempre em processo de criação e de reciclagem. Por conta disso uma simples raiz, retirada de um barranco, tornava-se uma boneca simpática e cheia de vida. Como assim: “você nunca viu uma boneca de raiz? Elas são incríveis! Têm pernas, braços, cabeça e com um pouco de criatividade elas ganham olhos, boca e nariz”! Tampas de pote de margarina e latinhas de fermento dão um toque de classe na hora de servir o jantar. E essas coisinhas eram muito fáceis de encontrar na beira do caminho da escola para a casa. Latas de extrato de tomate, meu irmão Rui, o sexto, transformava-as em panelas de pressão, com cabo e tudo. Em meu mundo de faz de contas pude sonhar e planejar grande parte da minha vida. Onde a realidade era dura ou triste eu a tornava mais aceitável, mais promissora e, principalmente, mais real. É isso que a fantasia proporciona: realizar o que é apenas um sonho e sonhar o que é real. Porque na fantasia o sonho de algo que parece ser inatingível pode se tornar uma realidade, da mesma forChá de Bonecas

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ma em que a realidade indesejável pode ser vista como um sonho, e sonhos não podem afetar nossas vidas e nossas escolhas para o futuro real. No mundo imaginário algumas crianças projetam, no meio do caos o seu oásis, na pobreza o seu castelo, no complexo de inferioridade a sua majestade e, na sua insignificância a sua potencialidade. Enquanto outras absorvem somente a realidade nua e crua a sua volta. Penso que uma criança que não é estimulada a fantasias tem menos condições de superar alguns traumas. Esta habilidade eu desenvolvi desde a minha infância. Muitos hospitais infantis têm-se valido do lúdico no tratamento de diversas patologias. E se brinquedos e brincadeiras podem curar doenças físicas não poderiam também surtir o mesmo efeito nas doenças da alma, causadas pelos traumas emocionais? Sobre este assunto minha amiga, Mara Melnik, autora do livro CONTAPRAMIM – histórias que acolhem e ajudam a curar, trará maiores detalhes num dos capítulos desta obra. Enquanto isto falarei sobre como surgiu o Projeto Chá de Bonecas e como bonecas, xícaras e panelinhas podem contribuir na prevenção do abuso sexual infantil. Desde primeiro momento em que começamos o projeto foram realizados eventos reunindo cerca de 40 meninas em cada encontro. Meninas de 04 a 12 anos, algumas pela primeira vez, se encontravam para um chá. A maioria delas não tinha nenhuma ou pouca noção do que poderia acontecer em um Chá de Bonecas. Lembro-me que das mais de 300 meninas (do primeiro ano de projeto) somente uma delas mencionou ter participado de um chá de bonecas, que na verdade havia sido tema de seu aniversário.

Este tema é geralmente usado para festas de aniversário de meninas, quando a intenção das mamães é reunir um número pequeno e seleto de amiguinhas para a festa. A decoração sugere uma “brincadeira de casinha”. Bonecas, xícaras e panelinhas são fundamentais para dar graça a festa. Quando comecei a pensar numa maneira de trabalhar a prevenção do abuso sexual infantil pensava na importância de alcançar meninas ainda muito

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pequenas, mas que já tivessem condições de assimilar as instruções recebidas. Por ser um trabalho de prevenção era necessário chegar o mais cedo possível. Ao mesmo tempo, levando em conta que o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, considera criança uma pessoa com até doze anos incompletos, eu compreendia a necessidade de trabalhar também com as meninas que estivessem dentro dessa faixa etária. Decidi então que trabalharíamos com meninas de 04 a 12 anos. Depois de pensar e repensar como trabalhar com um assunto tão delicado, triste, cheio de tabus, mas ao mesmo tempo tão urgente e necessário de ser prevenido e combatido, e, se seria possível trabalhar de forma lúdica, atrativa e ao mesmo tempo objetiva, decidi que nada melhor do que um tema pertinente e agradável às meninas de qualquer idade, raças ou etnias. Algo que fizesse parte da infância ou, como para algumas, algo que resgatasse a beleza e a pureza da infância.

Assim como numa brincadeira de casinha cada brinquedo tem seu objetivo e cada pessoa um papel, no Chá de Bonecas também. Nada no Chá está ali por acaso. Nada acontece por acontecer. E, mesmo se precisar improvisar não se pode fugir ao tema ou ao objetivo que é: PREVENIR meninas contra o abuso sexual.

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A ideia inicial do Projeto e sua temática era o que ele é atualmente, ou seja, desde que comecei a idealizar o primeiro encontro, a decoração, a história, o momento do lanchinho, enfim, tudo, todas as coisas acontecem da maneira que havia planejado. Claro, sempre melhorando e acrescentado detalhes na decoração e poucas mudanças e ajustes nas aplicações das atividades propostas. Tal como um bebê gerado no ventre de uma mãe o Chá de Bonecas começou a ser gerado em meu coração. E o que foi formado primeiro? A história “O Coração de Coralina”. Escrever uma história para trabalhar com meninas pequenas e as não tão pequenas, falando sobre o mesmo assunto não me parecia uma tarefa tão simples. Estava aí o primeiro desafio do Chá de Bonecas. Eu queria que a história apresentasse a possibilidade e o perigo real do abuso através de qualquer pessoa, independente do grau de parentesco ou afinidade com a família, mas que ao mesmo tempo não privasse as crianças do privilégio de receber carinho e afago de pessoas boas e bem-intencionadas. Não queremos formar uma geração de crianças com medo de serem tocadas, uma geração de crianças sem afeição, que não saibam expressar amor ou carinho. No entanto, precisamos ensinar que determinados toques, os toques íntimos não devem ser permitidos. Quando falamos sobre o abuso sexual precisamos tomar cuidado para não generalizar e dar ao abusador um perfil ou uma característica específica, dificultando à criança a possibilidade de identificar um abusador por não conter esta ou aquela característica do personagem apresentado. Por exemplo: histórias que mostram o abusador como o “estranho do carro preto”, “o estranho do saco”, o “pai” do fulaninho ou da fulaninha podem parecer à criança que somente pessoas fora do seu convívio oferecem perigo, quando, infelizmente, as estatísticas comprovam que a maioria dos casos de abuso sexual infantil ocorrem no seio da família. Por conta desses cuidados optei por trabalhar uma história que não apresentasse um tipo de abusador, e sim o que caracteriza um abuso. Para esta abordagem utilizei-me do recurso bastante difundido entre escritores e contadores de história que trabalham com este tema, conhecido como Toque do SIM e Toque do NÃO. Alguns preferem o termo toque Bom ou toque Ruim. Eu, particularmente, acho que essa expressão deixa uma lacuna uma vez que para a criança o toque, apesar de errado, pode ser prazeroso. Este também é um assunto que trataremos melhor num próximo capítulo. Outra opção é usar o termo: Toque certo ou Toque errado. Devemos lembrar que para a criança o “óbvio” deve ser dito. Não devemos presumir que a criança entenda nossas frases subjetivas. Em “O Coração de Coralina” falamos sobre a privacidade, sobre não permitir toques íntimos indevidos e como uma criança se sente ao ser tocada em suas partes íntimas. Apresentamos o coração como um “radar”, um dispositivo que avisa quando algo bom ou ruim, certo ou errado, está acontecendo. Auxilia-

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mos a criança a dar nomes as partes íntimas, deixando primeiramente que elas se expressem usando os nomes ou apelidos infantis para cada parte do corpo. Dizendo por exemplo: Quando uma pessoa amiga ou a mamãe ou o papai te dão um abraço bem apertado este toque é bom ou é ruim? Elas costumam ser unânimes em responder: Bom. Então completamos: Este é então um toque do...? e esperamos ouvir o sonoro SIM. Quando fazemos uma pergunta e percebemos a dificuldade das crianças em ter certeza da resposta, nós as auxiliamos respondendo primeiramente ou junto com elas. Exemplo: “Quando o médico te examinar e precisar tocar nas suas partes íntimas?” Geralmente as opiniões ficam divididas e algumas crianças dizem sim e outras dizem que não. Neste momento vale expor alguns exemplos e tornar o cenário mais claro possível para as crianças e dizer que: se a mamãe ou a pessoa responsável estiverem presente o médico pode precisar tocar nas partes íntimas para examinar de forma correta. Sendo assim esse toque é o toque do...? E certamente a resposta será: SIM. Através da história O Coração de Coralina, além do Toque do SIM e o Toque do NÃO, trabalhamos também sobre a necessidade de a criança ter o seu “adulto de confiança” – Toda criança precisa ter um adulto de confiança. Para Coralina seu adulto de confiança é a Dona Corina, sua mãe. Mas, infelizmente, nem toda criança consegue confiar à mãe seus segredos e medos, principalmente quando o abuso ocorre no ambiente familiar. Por saber dessa dificuldade apresentamos às crianças algumas opções de adultos de confiança como: a professora, a tia da igreja, e permitimos que elas contribuam com suas sugestões.

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Depois da história escrita precisávamos aplicá-la. Então, qual seria o recurso utilizado na aplicação de O Coração de Coralina? Um fantoche? Um visual impresso? Um teatro vivo? Uma boneca de pano? Uma boneca de Pano? Eureka! Aí estava a resposta. Uma boneca de Pano! Coralina seria uma boneca de pano que ensinaria meninas a dizer NÃO ao abuso sexual. Ela também ajudaria as meninas a compreender e a expressar seus sentimentos caso estivessem sendo abusadas. Seria uma boneca para cada menina. Essas bonecas não precisavam ser doadas, para não aumentar o custo – uma vez que não havia nenhum recurso financeiro até o presente momento. Haviam somente ideias brilhantes e um coração cheio de expectativas.

O passo seguinte foi encontrar o modelo de boneca ideal. Depois de muita procura na Internet, e ver cada modelo lindo, algumas mais fáceis e outras um verdadeiro desafio para uma artesã abaixo da média, encontrei o modelo perfeito. Uma boneca de pano dupla face. De um lado a boneca tinha um meigo e alegre sorriso, do outro uma carinha triste de dar dó e até uma lágrima, que expressava ainda mais uma tristeza quase real, para uma boneca de pano. Não tive dúvidas, essa seria a Coralina. Entrei em contato com sua criadora e, após lhe explicar o Projeto, pedi autorização para usar seu modelo. Ela carinhosamente me autorizou.

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Um fato muito triste contribuiu na escolha do modelo da boneca. Quando eu vi a boneca de pano, dupla face, fui dar uma olhada nos moldes, para ver se eu seria capaz de fazer uma, visto que essa seria a primeira boneca de pano feita por mim. Ao olhar o molde minha mente me surpreendeu com a lembrança de um caso recente de abuso que havia sido manchete em um jornal estadual, no Paraná. Na manchete o repórter mostrava um bilhete, escrito por uma menina de apenas dez anos, que ela havia entregue a um policial. No bilhete a frase curta, contendo apenas três palavras: ABUSOU DE MIM. Ao lado da frase um desenho de uma carinha expressando uma inegável inocência infantil. O desenho da menina se assemelhava ao desenho do molde da boneca de pano. A frase era curta, o desenho singelo, mas a coragem desta criança fez romper um ciclo de abuso, estupros e negligência que comprometiam a sua vida e a vida de seus irmãos, inclusive uma irmã de apenas oito anos que também era abusada. Os abusadores? Seu pai e seu bisavô de 81 anos. A mãe não pôde ser “o adulto de confiança” desta menina, pois era conivente.

(Fonte: www.pr.ricmais.com.br – Publicado: 15/07/2016 às 20:47)

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Depois de escrever o Coração de Coralina, que é o cerne do Projeto, de confeccionarmos as bonecas dupla face, chegara a hora de pensar no cenário, afinal, os detalhes de um cenário são quase tão importantes quanto o conteúdo da história. Qual a graça de se falar de uma princesa linda se não houver o passeio no bosque florido, ou mesmo no bosque sombrio? Se não for descrito em detalhes o castelo magnífico com sua torre elevada? Os detalhes de um cenário é que o tornam significativo e enriquecem o enredo. O Chá de Bonecas precisava ser tão deslumbrante e atrativo aos olhos das meninas que isso as deixassem na expectativa e na curiosidade até o final do evento. Logo na entrada as meninas são recebidas por voluntárias com aventais bordados onde se lê: Chá de Bonecas. Elas são recepcionadas e levadas a degustar balinhas, marshmallows coloridos e confetes servidos em pequenas xícaras ou panelinhas de plástico, distribuídos em mesas para quatro meninas ou, dependendo do espaço físico, uma linda mesa no hall.

Além das guloseimas servidas, enquanto aguardam a chegada de todas as meninas inscritas para este específico Chá, elas podem, na maioria das vezes, ter um vislumbre do que acontecerá no decorrer da programação. Ao alcance de seus olhos curiosos é exposta a mesa do lanchinho oficial. Porém, este lanche só será servido praticamente no final do evento. Nessa mesa serão dispostos os doces mais bonitos como: cupcakes, bolo decorado, pirulitos de marsmallows e outros. Em uma segunda mesa à parte ou em outro ambiente, costumam ficar os lanches mais simples como cachorro quente, bolo de chocolate, refrigerantes, etc. Esses detalhes parecem insignificantes, mas não são. Não importa a simplicidade do lanche, mas os cuidados com esses pequenos detalhes serão significativos para deixar um cenário bonito e marcante para a vida dessas meninas.

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Na verdade, está aí a razão de tantos detalhes: impactar, marcar de forma positiva a mente dessas meninas. Levando em conta que o Projeto tem como seu objetivo central a PREVENÇÃO, creio que dificilmente elas esquecerão as verdades ensinadas em um evento como este. Da mesma forma, e não menos

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Pai’. Nasceu a letra e a melodia ao mesmo tempo. Quando eu entrei no estúdio pra gravar, eu posso dizer que foi a música mais difícil de cantar até hoje porque eu me emocionava tanto que eu chorava. E cantar chorando é difícil. Tinha de parar, por que eu engasgava sabe? Quando dá um nó na garganta.” (Conteúdo extraído do site: www.guiame.com.br – quinta-feira – 03 de março – às 9:24 – Por Karlos Aires).

A princípio pensei em ensinar a letra da música “Aos Olhos do Pai” para as meninas, em um dos momentos do Chá, e depois fazer uma explanação e uma aplicação falando sobre o valor de cada menina, trabalhando sua autoestima. Mas, nada no Chá poderia ser simples demais! Eu queria algo que as fizesse atentar para a mensagem da música. Como sempre gostei da dança como arte, principalmente o balé clássico, e por também ter sido um dos meus sonhos de infância não realizados, pensei: “Por que não uma bailarina linda, aos olhos do Pai?”. Então, comecei a procura por uma bailarina que aceitasse o trabalho voluntário e que compreendesse a seriedade e a importância de fazer parte de um Projeto de Prevenção ao Abuso Sexual Infantil.

Bailarina: Fernanda Moreira

A dança traz à criança uma série de benefícios. Ela pode ativar e desenvolver capacidades positivas que acompanharão a criança pelo resto da vida. Dançar pode ser muito mais que uma atividade divertida. “A criança que dança trabalha a musculatura, fortalecendo-a, estimula a coordenação motora, flexibilidade, postura, tem maior consciência corporal,

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noções de espaço, além de melhorar sua integração social. Musicalidade, ritmo e criatividade também estão entre os ganhos”.1

Mas o que esperar de uma apresentação de dança? Uma bela apresentação de dança pode gerar no coração de uma criança o despertar e o desejo de um dia se tornar parte daquele espetáculo. Foi isso que aconteceu com a pequena órfã de guerra da Serra Leoa, hoje conhecida como Michaela DePrince, bailarina profissional. Da mesma forma como Viktor Frankl, o psicólogo que mencionei no início, conseguiu ressignificar sua vida mantendo o firme propósito de viver seu grande amor ao lado de sua amada, e lutou para ver seu sonho realizado, Michaela, batizada por seus pais como Mabinty, lutou e perseguiu seu sonho infantil de ser bailarina clássica profissional. A isso chamamos de esperança. Em seu livro “O Voo da Bailarina”, publicado pela editora Best Seller em 2016, Michaela conta sua história expondo suas tristes lembranças. Fala sobre a perda de seus pais, a rejeição de seu tio e a maneira como ele a abandonou em um orfanato. A discriminação sofrida por causa de uma doença de pele chamada vitiligo, que por não ser uma doença conhecida em sua aldeia lhe rendeu o apelido de “menina demônio”. Fala também da mais triste e dolorosa de todas as lembranças, quando viu sua amada professora ser cruelmente assassinada e seu bebê ser retirado de sua barriga e lançada longe como um lixo, por rebeldes de guerra. Mas, ainda neste cenário, de dor e de medo, foi que Michaela encontrou um sentido para sua vida. Uma tempestade de vento e areia, conhecida como Vento do Harmatan, trouxe como presente e entregou nas mãos da pequena Mabinty uma revista velha que trazia na capa uma bela foto de uma bailarina clássica. Mabinty nunca tinha visto uma mulher branca, muito menos uma bailarina, mas aquela foto dizia a ela que existia algo além da dor, do medo e da tristeza. Isso aconteceu pouco antes da morte de sua professora Sarah, e foi ela quem lhe explicou um pouco sobre o que fazia uma mulher vestida com uma saia rodada, nas pontas dos pés, calçando um sapato tão diferente. A professora não teve tempo de lhe ensinar muitas coisas, mas Mabinty já sabia o suficiente para prosseguir. Mabinty encontrou uma grande amiga no orfanato, era a menina de número 26, que recebeu esta numeração pelo fato de ser canhota. Mabinty e a menina 26 tinham muito em comum, a começar pelo nome. Mabinty Bangura era a menina 27 e Mabinty Suma a menina 26. Logo depois de seu quarto aniversário Mabinty foi adotada por um casal americano, Elaine e Charles DePrince, que a princípio adotariam somente a menina de número 26. O casal se encantou pelas duas e resolveram adotar Mabinty Bangura também. 1

É o que diz a fisioterapeuta e bailarina profissional, Bianca Dore, em uma entrevista ao jornal Tribuna do Norte, divulgado pelo site: www.educacaofisica.seed.pr.gov.br, em 13/05/2009.

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As meninas ganham um novo nome, Mabinty Bangura passou a chamar-se Michaella DePrince e sua irmã, Mia DePrince. Além dos novos nomes elas ganharam novas oportunidades que poderiam significar novos sonhos e novas metas. A foto na capa da revista ela já não possuía mais. Na viagem para sua nova casa a bagagem foi extraviada no aeroporto e com ela a fotografia. Mas, em seu coração a menina guardou por muitos anos a lembrança daquela bailarina e com ela o sonho de um dia se tornar uma bailarina. No seu livro Michaela descreve ainda os muitos obstáculo e desafios para alcançar seu objetivo. Enquanto lia sua história, eu a amava e a admirava mais e mais. Seus pais investiram e a apoiaram em todos os momentos, mas nada seria possível se Michaella não estivesse determinada a ser quem ela desejou ser desde a infância. Michaela começou a estudar balé com apenas quatro anos de idade e aos 17 ela finalmente realizou o seu maior sonho: o de ser uma bailarina profissional, em uma companhia de balé clássico. A “prima ballerina” do Chá de Bonecas, Fernanda Moreira, não é uma bailarina profissional, mas quando está dançando ela é a mais bela aos olhos do Pai, bem como aos olhos das meninas que a contemplam. Seus movimentos são tão suaves e graciosos! Ela tem o poder de prender a atenção de cada menina. Da mais nova até a mais velha. E isso é confirmado pela atividade de fixação que é realizada quase no final da programação, quando precisam relatar três coisas, através de um desenho ou escrevendo. 1º – O que elas aprenderam no Chá de Bonecas? 2º – O que elas mais gostaram no Chá de Bonecas e, 3º – Dizemos a elas que se tiverem um segredo poderão nos contar através de um desenho ou escrevendo. Sobre o que elas mais gostaram a resposta é quase unânime: da bailarina ou, do balé, da moça dançando. Geralmente a resposta vem completada por: Gostei de tudo, mas o que eu mais gostei foi... da bailarina.

Além das Notas Musicais Assim como o vento que assovia move os galhos do salgueiro, fazendo-o participar voluntariamente de uma coreografia, assim a música cantada ou instrumental move as pessoas. Não importa a idade, a cultura ou a geografia, onde houver acordes e sons haverá pessoas mexendo com o corpo, mesmo que discretamente. Anteriormente falamos sobre a dança no processo de prevenção ao abuso sexual infantil. Agora falaremos da importância da música para transmitir às crianças Instruções e ensinamentos que serão levados para a vida toda, possibilitando o compartilhamento desse aprendizado.

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Quem não se lembra das músicas ensinadas no maternal ou no jardim de infância? Conceitos básicos de higiene eram assimilados facilmente pelas crianças quando cantavam: “O sapo não lava o pé, não lava porque não quer... que chulé!”, ou “Meu lanchinho, meu lanchinho vou comer, vou comer... e crescer!“. Ou aquelas ensinadas pela “tia” na igreja: “Sou uma florzinha de Jesus. Sou uma florzinha de Jesus...” A música tem um papel importantíssimo na educação das crianças que vai muito além de dançar e cantar. Ela ajuda no desenvolvimento psicomotor, sócio afetivo, cognitivo e linguístico e facilita o processo de construção, amplia o conhecimento. Torna a criança mais sensível, mais criativa, eleva o senso rítmico, estimula a imaginação, cria uma atmosfera de aprendizagem mais prazerosa e descontraída. Além da música “Aos Olhos do Pai”, mencionada anteriormente, utilizamos a música em três outros momentos da programação. Logo no início, como quebra-gelo, usamos uma música que possibilita as crianças interagirem umas com as outras. A música escolhida para este momento é: “Aperte a mão do amigo mais perto”. Essa música já foi regravada por vários cantores de música infantil. Sua letra é simples e sugere, além do aperto de mão, outros toques bons e prazerosos. Por esta razão foi escolhida para o repertório, lembrando que não queremos que as crianças evitem toques como o abraço, o aperto de mão, ou qualquer outro toque que represente respeito e carinho. Quase no final da programação, depois de falarmos sobre as emoções e os sentimentos e relembrar a criança sobre a importância de CONTAR seus segredos a um adulto de confiança, ensinamos a elas uma linda canção chamada: “Corre e conta tudo”, que foi composta pelo “Tio Lucio Monteiro”, especialmente para uma campanha de prevenção ao abuso sexual infantil. Quando ouvi essa música pela primeira vez fiquei maravilhada com a sensibilidade do autor, com a clareza da mensagem transmitida pela letra. Uma música completa, inteligente e sensível ao mesmo tempo. Comecei a vasculhar Google atrás de alguma informação que me levasse a este incrível artista, algum e-mail, um telefone de contato, um WhatsApp... Alguns minutos depois eu já estava conversando com o “tio Lúcio”. Expliquei-lhe o projeto e os planos de avançar aperfeiçoando-o, para alcançar o maior número de crianças e preveni-las, livrando-as do abuso sexual e seus terríveis danos. Depois de explicar os detalhes do projeto, pedi sua autorização para usar sua música em nossos Chás, ao que ele prontamente respondeu que sim. Serei eternamente grata a este músico por sua contribuição no avanço desta estratégia. Lembrando que juntos podemos ser sempre bem melhores. Na hora do lanchinho as meninas tendem a aumentar seu rol de amigas, afinal, já se abraçaram, já se emocionaram, já compartilharam experiências. E, na mesa, saboreando bolos e cupcakes, sempre pode nascer uma nova amizade. Essas novas amizades são celebradas através da dança espontânea, promovida minutos antes de encerrarmos mais um “Chá de Bonecas”. Neste momento, Chá de Bonecas

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acompanhadas pelas voluntárias do Projeto, as meninas pulam e dançam ao som das mais variadas músicas infantis. Neste momento é a hora delas mostrarem como são livres para receber o novo em suas vidas. Novas lições, novas amizades, novos estímulos e, uma nova visão de si mesmas. Se antes não se achavam belas o suficiente, comparando-se com aquela ou aquela outra amiguinha, agora elas sabem que são “belas aos olhos do Pai”. Se algumas delas se achava sozinha e sem ninguém a quem pudesse confiar seus segredos, seus medos e tristezas, agora elas sairão dali com seus “adultos de confiança” eleitos por elas mesmas. A música, para algumas, foi empoderamento, para outras a motivação, e ainda, para outras o bálsamo, a cura. Quando anunciamos que o Chá de Bonecas está chegando ao fim ouvimos algo parecido com uma “música em forma de lamento”, composta de última hora pelas meninas, um sonoro e uníssono: Ahhhhh, mas já? Neste momento o bom é lembrar o que foi ensinado sobre o sentimento de tristeza, quando este é benigno. Elas ficam triste por estar encerrando um momento tão precioso, tão marcante em suas vidas, e nós ficamos felizes por saber que neste Chá mais 40 meninas, no mínimo, aprenderam a dizer NÃO! E fugir do abuso sexual.

Chá de Bonecas é lugar para gente grande? Sim! Em nosso Chá de Bonecas os adultos também têm vez. As mamães, os papais, tios, tias, vovós, vovôs, responsáveis e cuidadores em geral têm um momento exclusivo para eles. É a roda de bate-papos com os pais. A primeira roda de bate-papos só aconteceu no terceiro Chá. Nos primeiros dois eventos vimos que os pais não demostraram muito interesse em participar ou mesmo de se informar sobre o conteúdo, sobre o que seria ensinado ali para seus filhos, e isso fui muito preocupante. Propositalmente não convidamos os pais a participar, queríamos assim perceber se haveria interesse e manifestação espontânea dos pais em participar. Já no terceiro evento sugerimos a participação dos pais, como convite não como obrigatoriedade. Tivemos um bom número de pais, parentes cuidadores e várias professoras. Os pais e responsáveis ficam no mesmo ambiente, porém à distância, acompanhando toda a programação. Isso é importante para que possam, depois, relembrar e reforçar com as crianças tudo o que elas aprenderam. No momento do lanchinho os pais são encaminhados para outra sala ou espaço previamente reservado onde nossa equipe os aguarda.

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Chá de Bonecas


Este é o momento para tirar dúvidas, compartilhar experiências e reforçar para os pais a importância e a responsabilidade que eles têm na prevenção do abuso sexual. Levando em conta, principalmente, que os dados estatísticos indicam que o maior número de casos de abuso se dá em ambiente familiar ou por pessoas muito próximas da família. Em cada evento vimos crescer o número de pais e responsáveis em nossas rodas de bate-papo. Isso tem feito toda a diferença. Afinal, como diz o ECA: “É dever de todos velar pela dignidade da criança” – Art. 18.

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Chรก de Bonecas


Capítulo 3

Objetivo do Chá de Bonecas Porque com a segurança das crianças não se brinca Ao brincar, a criança assume papéis e aceita as regras próprias da brincadeira, executando, imaginariamente, tarefas para as quais ainda não está apta ou não sente como agradáveis na realidade. Lev Vygotsky (1988)

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Chá de Bonecas é muito mais que uma tarde agradável, com músicas, atrações artísticas, histórias e lanchinhos. O Chá de Bonecas é, e precisa sempre ser, um momento importantíssimo onde ensinamentos cruciais serão apresentados às crianças, podendo assim preservar a infância permitindo seu desabrochar natural para a vida adulta. Isso deveria acontecer com toda e qualquer criança. Um site americano chamado “Stop it Now!”, destinado a orientar adultos sobre a necessidade e a responsabilidade em garantir a segurança das crianças, sejam da família ou não, deixa claro que essa tarefa é primeiramente uma responsabilidade de gente grande. Bom seria se não precisássemos nos preocupar em orientar nossas crianças para que elas cuidem de si mesmas. Bom seria se se não houvesse a necessidade de existir um estatuto, como o ECA, para dizer o que os pais, os governantes, a sociedade deve ou não fazer para que a criança tenha o mínimo de dignidade. Bem melhor ainda se não houvesse um adulto sequer capaz de infligir dor e humilhação aos seus semelhantes, ingênuos e indefesos. Mas, infelizmente não é essa a realidade. Por conta de muitas crianças estarem totalmente desprovidas desta figura protetora, até mesmo em seus lares, é que precisamos empoderá-las. Para não tornar este ensino traumático e ineficaz optamos pelo lúdico e seus inúmeros benefícios já mencionados.

Chá de Bonecas

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Apesar da ludicidade proposta pelo Chá de Bonecas há uma seriedade na aplicação de toda esta metodologia. Afinal, a segurança das crianças é um assunto muito sério, não se deve levar na brincadeira. Sobre este assunto, minha amiga Mara Melnik falará com mais detalhes em um outro capítulo. Creio que a maior cúmplice do abuso sexual é a negligência. E negligenciar é não levar a sério. Por causa da negligência as crianças são expostas às situações de risco. Isso, na maioria das vezes, não implica em falta de amor a criança. Muitas vezes a negligência se dá pela falta de informação, de instrução sobre a gravidade do assunto, do medo de estar exagerando no cuidado ou na desconfiança. Há quatorze anos me dedico ao estudo sobre abuso sexual infantil e já li o bastante para saber que a negligência contribui sobremaneira para o aumento do número de casos. Mas, não foi somente através da leitura que cheguei a essa conclusão. Lembro-me de um caso que aconteceu em 2005, quando fui mãe social em uma Casa de Passagem. Dois irmãos foram abrigados sob a denúncia de que a mãe, que era prostituta, havia deixado seus três filhos, um menino de nove anos, outro de sete, e uma menina de apenas cinco anos, com um amigo, transexual, que se prontificara em cuidar das crianças à noite para que ela pudesse trabalhar. Numa dessas noites o tal amigo violentou o menino de sete anos. Lembro-me que na entrevista com a assistente social, que por ocasião eu participara, a mãe relatou em prantos que nunca imaginou que ele poderia fazer isso com seus filhos, pois para ela o amigo era como uma mulher. A falta de instrução, neste caso, é perceptível em vários fatores, inclusive por ela achar que, caso seu amigo fosse mesmo uma mulher, as crianças estariam seguras. Apesar do número de abusos praticados por mulheres ser bem menor, ainda assim acontecem e podem ser tão traumáticos quanto o abuso realizado por um homem. O abuso sexual pode ser predominantemente praticado por homens adultos, mas não exclusivamente. Sobre este assunto falaremos mais em um outro capítulo. A Palavra negligência traz um peso de culpa quando somada ao fato de que alguém que amamos sofreu um mal que poderíamos ter evitado. A negligência caminha por muitos lugares. Ela parece até mesmo ter vontade própria. Ela pode ser encontrada em um banheiro público, acompanhando uma criança pequena, exposta e vulnerável. Nas salinhas das igrejas onde crianças maiores brincam com crianças menores, sem uma supervisão de um adulto de confiança. Nas brincadeiras maliciosas feitas por parentes e amigos, demonstrando pouco ou nenhum respeito pela inocência das crianças. A negligência pode estar presente quando a responsabilidade e o prazer em cuidar da higiene, da segurança e do lazer da criança é terceirizado. Se a negligência é um fator que contribui com o aumento dos casos de abuso sexual infantil, o que contribui com a negligência é a ignorância, a falta

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Chá de Bonecas


Qual o objetivo de cada metodologia do Encontro de Herói

Encontro de Heróis

Durante o Encontro de Heróis os meninos de cinco a dez anos passam por todas as atividades que fazem parte dessa proposta. Nos próximos capítulos vamos conversar sobre cada uma dessas atividades detalhadamente. A programação desenvolvida é a seguinte:

O evento Encontro de Heróis 1. 2. 3. 4. 5.

Chegada com cadastramento de cada criança Boas-vindas e orientações sobre o Encontro Apresentação dos participantes da Liga da Proteção e Prevenção Apresentação da Rede de Proteção Contação de Histórias onde o tema é desenvolvido de maneira lúdica a fim de facilitar o entendimento das mesmas 6. Toque do Sim e Toque do Não 7. Armadura de Deus 8. Entrega de capas e máscaras 9. Música 10. Atividades artísticas desenvolvidas para reforçar o tema

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Encontro de Heróis


Capítulo 9

Como utilizar os Recursos Pedagógicos na Estratégia de Prevenção Cuidados para não perder o foco no tema

O subtítulo desse capítulo fala de tomarmos cuidado para não perder o

foco na hora do uso dos recursos que sugerimos como estratégia nos encontros de prevenção. Todas as partes da programação têm um objetivo e não estão lá somente para tomar tempo ou divertir as crianças. Isso não quer dizer que elas não vão divertir-se, mas que aproveitaremos esses momentos divertidos e prazerosos para ensinar coisa importantíssimas para elas. A criança pode aprender através das brincadeiras e de atividades divertidas. Por se tratar de um assunto tão “pesado e indigesto” optamos por essa abordagem para torná-la mais atrativa e leve para as crianças. Aqui está o ponto principal que desejamos que vocês atentem: é divertido, é lúdico, mas tudo com o propósito de ensinar sobre a prevenção do abuso sexual na infância. Ou seja, é um assunto muito sério e urgente e não podemos nos dar ao luxo de brincarmos com esse tema. Utilizamos diversas abordagens e recursos a fim de que ao final do encontro os meninos tenham assimilado a mensagem. Nas oficinas e palestras que ministro para Educadores Cristãos sempre escuto relatos de professores que perdem esse foco na hora de ensinar a Palavra de Deus. São tantas atividades e brincadeiras sem um objetivo definido para as mesmas! Não estou dizendo para suspender essas atividades, mas aprender a utilizá-las com o foco na aprendizagem do Ensino Cristão. É nessa mesma tecla que bato aqui: atividades e brincadeiras que ajudem nossas crianças a aprender como se proteger e fugir do abuso sexual. Na verdade, é uma linha muito tênue que sem perceber podemos ultrapassar. Então fique sempre com esse pensamento em mente: manter o foco. Encontro de Heróis

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No versículo de 1 Pedro 5.8 citado acima fala de: “Sede sóbrios; vigiai...” Já falamos sobre “vigiai” no sentido de ficarmos alertas para podermos discernir para prevenir. Agora vamos pensar na palavra “sóbrios”. Vamos conhecer o significado da palavra sobriedade: “substantivo feminino” 1. Qualidade, condição ou estado de quem ou do que é sóbrio. 2. Moderação, temperança, equilíbrio.” Vamos focar na definição que fala do equilíbrio. Essa é a palavra-chave! Precisamos equilibrar as coisas para que tudo não termine somente em brincadeira. Como falamos anteriormente temos visto muitas pessoas fazendo chás e encontros sem um propósito definido, somente como uma programação para datas especiais e isso não é nossa proposta aqui. Para que você possa entender quais são os objetivos de cada uma dessas atividades vamos conversar sobre isso a seguir.

O uso de bonecos como recursos pedagógicos No livro “A formação do símbolo na criança” Jean Piaget (1971) classifica os jogos de acordo com as fases de desenvolvimento, destacando a importância de cada um deles. No jogo simbólico ou faz-de-conta, que consiste numa atividade lúdica, onde a principal função é a assimilação da realidade, através do brinquedo a criança se propõe a realizar coisas na busca da resolução de problemas através da brincadeira. Em nossos encontros as crianças são convidadas a brincar de boneca no Chá de Bonecas e a de super-herói no Encontro de Heróis. Essas brincadeiras ajudam a criança a assimilar os assuntos que estão sendo transmitidos já que através do jogo simbólico a criança encontra a possibilidade não só de copiar a vida real, mas, também de corrigi-la. Esses jogos segundo Piaget (1971) desempenham uma função compensatória onde, a criança pode manifestar suas emoções, satisfação de seus desejos e a eliminação de conflitos, ou seja, para a criança esse brincar pode ajudá-la de diversas maneiras quando o Boneco do Super Juninho de espuma

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Encontro de Heróis


assunto é a aprendizagem e esse é nosso alvo ao utilizarmos os bonecos e as brincadeiras em nossa abordagem. Na abordagem histórico-cultural dos processos cognitivos, Vygotsky (1991) afirma que o aprendizado vem através da interação social que consiste num processo de construção das funções psicológicas humanas. Em sua abordagem o estudioso afirma que diversas transformações ocorrem internamente quando a criança brinca. Capacidades como o simbolismo, a representação e a abstração surgem a partir das brincadeiras, pois, segundo Vygotsky (1991) o brinquedo propõe um grande desafio: “compreender, a partir da origem e do desenvolvimento do próprio brinquedo, as conexões psíquicas que aparecem e são formadas na criança durante o período em que essa é a atividade principal” (Vygostky, 1991, p.122). Quando Vygotsky (1991) usa o termo brinquedo ou brincadeira faz referência ao faz-de-conta onde a criança se torna protagonista de diferentes papéis sociais: “A brincadeira de faz-de-conta estudada por Vygotsky corresponde ao jogo simbólico estudado por Piaget” (Oliveira, 1997, p.66). Durante essa brincadeira ela assume diversos papéis pelos quais ela ainda não está preparada para fazê-lo, usando suas funções psicológicas superiores. Isso a ajudará a atuar na esfera cognitiva, onde desenvolvemos nossa criatividade aprendendo como examinar, resolver, interpretar e avaliar algo. Brincando a criança aprende e se desenvolve: “O brinquedo simbólico das crianças pode ser entendido como um sistema muito complexo de “fala” através de gestos que comunicam e indicam os significados dos objetos usados para brincar. É somente na base desses gestos indicativos que esses objetos adquirem, gradualmente, seu significado – assim como o desenho que, de início apoiado por gestos, transforma-se num signo independente” (Vygotsky, 1991; A formação social da mente p.123) Ainda segundo autor o brinquedo atua como um canal de desenvolvimento: “O brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal da criança. No brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade. Como no foco de uma lente de aumento, o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma condensada, sendo, ele mesmo, uma grande fonte de desenvolvimento“ (Vygotsky, 1991, p. 117). Segundo ele, a brincadeira contribui para o desenvolvimento na medida em que é capaz de impulsionar a criança a realizar coisas que ainda não é capaz de fazer, envolvendo-se em graus maiores de consciência das regras de conduta, antecipando e elaborando situações que ainda não está preparada para realizar na vida real. Encontro de Heróis

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Essas regras de conduta podem abranger o assunto que estamos tratando com elas nos encontros, o saber como se portar quando alguém se aproxima mal-intencionado, os limites que existem para os tipos de toques, a quebra do silêncio caso alguém esteja a assediando, a eleição de um adulto de confiança, ou seja, temas de suma importância que precisam ser aprendidos por ela a fim de garantir sua segurança. Outro fator importante é essa elaboração e antecipação da realidade que podemos trabalhar com elas através do brinquedo, ” ...a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade” (Vygotsky,1991). É isso o que precisamos quando estamos a ensinando sobre prevenção. Nossas crianças precisam de paz para viver sua infância e fases do seu desenvolvimento, mas, infelizmente isso não tem acontecido. Por isso nos vemos obrigados a tratar de assuntos para os quais ela ainda não está totalmente preparada o que, na minha opinião é algo muito complicado. Mas, quando pensamos nos frutos de toda essa intervenção, nossas crianças protegidas, sabemos que não há mais nada a fazer a não ser conscientizá-las sobre esse mal que pode vir sobre sua vida, infelizmente a qualquer momento e de qualquer lugar. O brinquedo nos permite fazê-lo de maneira mais natural e agradável para elas.

Brincadeira séria? Em nossos encontros as crianças se divertem muito! No início elas chegam meio desconfiadas e tímidas, mas, com o passar do tempo vão relaxando e em muitos momentos jogam a cabeça para trás em meio a gargalhadas. Tudo isso acontece por causa da ludicidade, da brincadeira, do brinquedo, da maneira que escolhemos para transmitir esse assunto. Isso deixa todo mudo aliviado na verdade. Ao final da reunião ou nos feedbacks que recebemos após os encontros sempre encontramos os pais e responsáveis admirados pela maneira como tratamos de assuntos tão delicados e difíceis de serem abordados. Eles contam o quanto gostaram e que jamais imaginavam que podiam fazer essa instrução dessa maneira. Ou seja, essa abordagem traz a leveza tão necessária para tratar desse assunto com as crianças. Tudo transcorre dessa maneira por direção de Deus para esse projeto. Ele nos inspirou e direcionou para fazermos as coisas dessa maneira. Porém, ainda quero ressaltar que por mais que utilizemos essa abordagem dos brinquedos e brincadeiras, jamais podemos perder o foco e a seriedade de tudo o que realizamos. Precisamos ficar “sóbrios e vigilantes” como a Bíblia nos exorta. Não podemos perder o fio da meada e perder a oportunidade de ensinar corretamente nossas crianças sobre o assunto. Lembrem-se sempre que é esse conhecimento que Deus pode usar para dar o livramento para elas, ou seja, é algo muito sério e

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Encontro de Heróis


Referências ABRAMOVICH, F. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1997. Agência Brasil. http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-07/paisdevem-acompanhar-o-acesso-de-criancas-internet-alertam-especialistas Bíblia Online Dicionário de Significados. https://www.significados.com.br/estulticia/ EITERER, C.L.; MEDEIROS, Z. Recursos pedagógicos. In:OLIVEIRA, D.A.; DUARTE, A.M.C.; VIEIRA, L.M.F. DICIONÁRIO: trabalho, profissão e condição docente. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2010. CDROM HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário eletrônico Aurélio da Língua Portuguesa. Curitiba: Opeg Sistemas Reprográficos e de Ensino, 2004. CD-ROM. Manual de Atenção e Cuidado– Enfrentamento à Violência Contra Crianças e Adolescentes do Hospital Pequeno Príncipe. PIAGET, J. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro. Zahar. 1971 Saber em debate. http://saberemdebate.blogsdagazetaweb.com/2015/10/19/ tema-42-a-erotizacao-precoce-de-criancas-em-debate-no-brasil/ Seu filho na internet. https://seufilhonainternet.wordpress.com/ Revista Eletrônica Live Science acessada no dia 02 de janeiro de 2018 as 16h. https://www.livescience.com/12909-senator-scott-brown-male-sexual-abuse-stigma.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+Livesciencecom+%28Live Revista Eletrônica Safernet Brasil acessada no dia 22 de janeiro de 2018 as 10. http://new.safernet.org.br/home?field_subject_value=All&field_type_ value=All&page=5 VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991. FRANKL, Viktor. – Em busca de sentido – Brasil, 2015 – Ed. Vozes. DEPRINCE, Michaela – O Voo da Bailarina: De Órfã de Guerra ao Estrelato – Rio de Janeiro, 2016 – Ed. Best Seller.

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ALLENDER, Dan B. – Lágrimas Secretas: Cura para as Vítimas de Abuso Sexual na Infância – São Paulo, 1999 – Ed. Mundo Cristão. ROMERO, Karin Richtr Pereira dos Santos – Crianças Vítimas de Abuso Sexual: Aspectos Psicológicos da Dinâmica Familiar – Curitiba, 2007 – Ministério Público do estado do Paraná – CAOP da Criança e do Adolescente.

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CHÁ DE BONECAS

PROJETO DE PREVENCAO AO ABUSO SEXUAL INFANTIL

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CHÁ DE BONECAS O CORACAO DA CORALINA DA SINAL QUANDO ALGO NAO VAI BEM. PINTE O CORACAO DE VERMELHO QUANDO ELA ESTIVER EM PERIGO E VERDE QUANDO TUDO ESTIVER BEM. UM ESTRANHO OFERECE DOCES OU BRINQUEDOS. RECEBEMOS UM ABRACO DE ALGUEM QUE NOS AMA E NOS QUER BEM. QUEREM MEXER NAS MINHAS PARTES ÍNTIMAS. FALO DOS MEUS SENTIMENTOS. QUEREM MINHAS ROUPAS.

FOTOS SEM

TENHO UM ADULTO DE CONFIANCA QUE CONTO TUDO O QUE ACONTECE COMIGO.

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Chá de bonecas e Encontro de Heróis  

Projeto de Prevenção ao Abuso Sexual Infantil. Para proteger é preciso prevenir. De maneira lúdica as autoras Neide Lunas e Mara Melnik ab...

Chá de bonecas e Encontro de Heróis  

Projeto de Prevenção ao Abuso Sexual Infantil. Para proteger é preciso prevenir. De maneira lúdica as autoras Neide Lunas e Mara Melnik ab...